Revisada por: Júpiter
Última Atualização: 12/04/202610 de Setembro de 2025.
14:14 da tarde.
As pastas repousavam sobre a mesa. Fazia dez minutos que ele a encarava. A sala estava vazia. O silêncio era quebrado apenas pelo leve tic-tac do relógio na parede. O prédio, alto e sem vida, ainda tinha algo que o salvava: a vista. Era o único detalhe que dava alguma elegância ao lugar. A altura fazia jus à paisagem.
Henry entrou no escritório. A pressa estava contida em seus passos. Ao passar pelo agente, ele se virou imediatamente para o superior. Em segundos, a sala começou a se encher. Seus olhos percorreram o escritório, parando em cada um deles. Ele reconhecia todos.
— Eu não esperava por isso — disse Henry, frio e direto. — E sei também que vocês não queriam estar aqui.
Não mesmo, ninguém naquela sala queria estar reunido novamente ali.
— Eles voltaram… não foi?
A mais nova de todas: uma mulher de estatura média, cabelos ruivos e olhar marcante. A voz carregava ódio, ela sabia muito bem o que Henry estava a conversar.
— Sim, estamos nisso há anos.
— Vinte anos — alguém completou.
— Vinte anos… e depois desse sumiço tivemos novas evidências.
Aquelas pastas que estavam em cima da mesa foram distribuídas por Henry um a um, até entregar a última pasta ao primeiro que chegou ao escritório.
— Aí está tudo que sabemos, houve informações que em cinco pontos do mundo a organização começou a deixar rastros. Equador, Coréia, Nova York, Brasil e Espanha…
Todos os agentes passaram folha por folha, atentos a cada detalhe — do início até o ponto em que acreditaram ter chegado ao fim.
Infelizmente, influenciados por conteúdos que deveriam ter permanecido apenas como distração, encontraram algo maior.
A organização — que um dia teve fundadores movidos por poder, controle e dominação — começou ali. Vinte anos atrás. E, para eles, nunca terminou.
— Eu sei que vocês já estão nessa há um tempo, conhecem todos os passos e é por isso que queremos vocês novamente.
— Henry, nem todos aqui querem mais isso. Estamos cansados, é uma caça sem fim.
— Sabemos disso, por isso que precisamos de vocês.
— Por mim, tudo bem — a mulher respondeu, dando um passo à frente. — Estou cansada disso.
— Conte comigo — o homem, que aparentava ser o mais velho da equipe, também se prontificou.
Assim, todos os outros concordaram em entrar na missão. Sendo um em especial que ficou ali vendo os seis companheiros concordaram em pôr um ponto final naquilo, custe o que custar.
— Agente? — Henry o olhou.
— Preciso de tempo.
Curto e direto, sem hesitar em responder para Henry assim. Ele se retirou da sala, tendo todos os olhares para ele. Um homem que chamava atenção sem esforço, com um porte que dificilmente passava despercebido, e o prédio da DCD ficava assim quando ele estava lá.
A mulher o seguiu.
Aquele heliponto era um lugar que muitos conversavam de coisas tão banais. O vento batia forte, deixando os cabelos dela bagunçados. O salto atrás dele denunciou quem era, ele a conhecia tão bem.
— Chloe.
— .
— Você foi a primeira que eu achei que não aceitaria.
— E você o último que não deixaria de aceitar.
— Tenho meus motivos.
— Eu também, por isso estou determinada a acabar com essa organização. E você?
— Eu estou bem, obrigado.
— Ai, . — Ela riu, passando seu olhar pela cidade. — Liverpool é linda, não?
— A cidade que eu mais amo. Onde tudo começou para mim.
— E esse é o motivo essencial para você.
— Por favor, Chloe.
— . — Encostou no parapeito, deixando o vento levar seus fios ruivos, trazendo um leve ar seduzente. — Já fazem doze anos.
— Treze — corrigiu.
— Então… deixa isso. Vamos acabar com isso de vez.
— Se eu acabar… nada volta ao normal. Nada vai trazer… — ele engoliu as palavras.
— Não vai. Mas pode salvar outras vidas.
— Vidas… — ele soltou em um suspiro.
Ela inclinou a cabeça, analisando.
— Ah, … você já foi melhor.
— Tô só me fazendo de difícil.
— Idiota. — Deu um leve tapinha no braço dele.
Ele soltou um meio sorriso.
— Vamos? Henry já deve estar esperando.
Chloe andou na frente, deixando parado ainda admirando toda a vista do prédio da DCD. Ao menos ela tentou, se ele iria aceitar voltar para a missão, aí seria apenas a decisão dele.
Liverpool estava ali, diante de seus olhos, movimentada, viva e com a garoa fina caindo sobre ela. Por alguns segundos, tudo à sua frente se transformou em um borrão.
As memórias voltaram, aquele aperto e angústia tomaram conta de seu coração. Ao fundo, podia ouvir seu nome sendo chamado, não para algo que te tirasse daquele momento, mas para que mostrasse que, mesmo ele sendo um policial, ele não conseguiu fazer nada.
A missão que o ligaria à Obsidian Unit estava marcada nele mais do que em qualquer outro ali. Respirou fundo, deixando o peso contido escapar lentamente entre os lábios; anos atrás de anos, e, mesmo assim, havia coisas que ele ainda não estava pronto para enfrentar.
Como ela já estava, Chloe lançou o olhar pela última vez para a porta. Henry não parava de falar, eram inúmeras palavras que ela já estava cansada de ouvir por todos ali, mesmo sendo a mais nova da equipe. Abrir a mesma missão onde tudo começou ao lado de parecia tão incerto.
— Vou enviar vocês para cada país.
— Não, eu não vou — Chloe se prontificou. — Vou ficar daqui e ajudar eles no que for preciso.
— Vai fazer desfocado — um dos agentes comentou.
— Kennedy, às ordens. — Ele entrou. — Eu vou. — Ee aproximou de Chloe. — Vai ser bom ter alguém coordenando daqui, alguém inteligente que não atrapalha. — Riu nasal.
Pegou a pasta e olhou os países como se fosse uma criança escolhendo o próximo brinquedo.
— Eu fico com essa… Espanha.
O sorriso do Henry foi de orelha a orelha, dava voltas.
Agora, com sua equipe completa, Obsidian Unit poderia da continuidade de onde pararam; todos prontos para acabar com algo que nunca deveria ter existido.
San Sebastián. Espanha.
10 de Setembro de 2025.
14:14 da tarde.
Desconectada do trabalho, da faculdade, dos problemas, caminhava com o cachecol bem ajustado ao pescoço, protegendo-se do vento frio de outono. Próximo à praça, ela parou e voltou o olhar para o lugar onde tudo começou; o sorriso cresceu ao ver uma das mulheres mais lindas se aproximar.
A elegância nos passos, o sorriso doce, o semblante calmo, tudo o que ela precisava para terminar o ano bem.
— Oi, , minha linda.
— Oi, mãe… estava com saudades. — Estava abraçando a mulher fortemente.
— Eu também, minha princesa.
— Comprei algumas coisas. — Levantou a sacola. — Podemos tomar café lá em casa.
— Ou na minha galeria.
— Madre! Você tá falando sério?
— Sim, depois de tanto insistir e eu negar… seu pai resolveu me fazer uma surpresa.
— Ai, estou tão feliz por você. — Abraçou novamente a matriarca.
— Vamos antes que esfrie mais, e você sempre passa muito frio nessas épocas.
Não discutiu, não negou. Apenas seguiu a mãe até a galeria.
O caminho era calmo; o badalar dos sinos das igrejas preenchia o silêncio, a data era especial para elas, para seu pai — Bruno Martins, também. Tudo ali remetia às boas lembranças — as únicas que ela fazia questão de guardar.
Não tão longe de uma das igrejas principais ficava a Galeria, o nome de sua mãe estava grande e exposto para todos lerem: Carmen Navarro. Seu coração transbordou de orgulho, assim como seus olhos, que ficaram marejados. Adentraram, admirou cada exposição que ali tinha, uma mais impecável que a outra. Entretanto, naquele dia a galeria estava fechada.
Mais à frente, na última entrada do corredor, ficava a cozinha. deixou tudo em cima da mesa e passou a cuidar do café da manhã para as duas. Conversavam, riam, apenas aproveitando o momento.
— E o trabalho, estudos, como está indo?
— Tudo certo, mãe. Melhor do que eu imaginei.
— Isso me agrada tanto. Não encontrou nenhum problema?
— Nenhum, tudo tranquilo, graças a Deus!
— Isso soa como música para os ouvidos de sua mãe.
Bruno surgiu na cozinha, ainda com o doma preso ao braço, um sinal que acabava de chegar do restaurante.
— Sei que encontros de família devem ser em casa, mas imagino que aqui também seja agradável.
— E muito! — o abraçou fortemente — Como o senhor está?
— Muito bem. Vamos fazer esse café da manhã, me ajuda, pequena?
— Ajudo, porém eu já cresci e tenho vinte oito anos.
— Daqui alguns meses vai ser vinte nove, vai vir pra cá? — sua mãe perguntou.
— Vou, acho que consigo uma folguinha também.
— Isso é bom — seu pai comentou. Ligou a televisão, deixando um canal de reportagem ao fundo.
— Eu… acho que posso ser promovida.
— Que notícia maravilhosa!
— Com isso, comemoramos as duas coisas, tá bom? — ela deu a ideia.
— Do jeito que você quiser, filha — seu pai concordou.
— Vou pedir por isso. — Foi sua mãe agora.
— Pedir?
— É, antes que eu esqueça. — Bruno serviu as mulheres. — Sua mãe quer ir até a Cantábria semana que vem… por causa do dia da Assunção da Virgem.
— De novo? — riu baixo.
— Você sabe como ela é. E você também prometeu que iria esse ano.
— Não esqueci não, foi por isso que vim agora.
O olhar passou pela televisão, duas notícias foram divididas na chamada, mas claro que ela não daria tanta atenção para o país inglês, apenas para a notícia do seu chefe. O homem estava dando uma entrevista, na comemoração de aniversário do hotel.
— Ele tem uma educação. — Carmen olhava para a televisão.
— E um bom coração, ele é muito compreensivo.
— Algo difícil de achar em pessoas hoje em dia. Vamos logo, tenho que voltar pro restaurante.
A frase tirou uma gargalhada gostosa da primogênita. Aquele lugar, aquele calor de sua família era a melhor coisa que ela tinha.
Naquele dia quinze, a família foi até a Cantábria. tirou o véu dos ombros e o colocou sobre os cabelos. O sinal da cruz foi feito ao passar pela porta e, junto deles, se sentou, estava grata por tudo, grata pelos momentos, pelos livramentos.
olhou para o lado. O sorriso de seus pais era contagiante — aquele tipo de felicidade que aquecia só de olhar, aquele casal que transbordava amor e ternura, desejo e compreensão.
Mas aqueles momentos ao lado de sua família eram algo que nunca perderia. Mesmo com o tempo, mesmo com a distância entre San Sebastián e Málaga, ou nas visitas breves que conseguiam manter.
