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Revisada por: Sagitário♐

Última Atualização: 28/1/26
Perdizes, outubro de 2020
Apesar do forte sol de primavera que atingia o asfalto da maior cidade do Brasil, havia algo naquele dia que não conectava. Um clima cinzento e depressivo — quase como de luto — pairava sobre o escritório onde estava.
Ela bateu o telefone com força no gancho, fazendo a funcionária do outro lado da sala dar um pulo na cadeira depois de cinco minutos em completo silêncio. passou a mão no rosto, abaixando a cabeça por mais alguns segundos — talvez minutos. Tentar não se apegar era quase impossível no seu emprego.
— Outra desistência? — a voz da colega foi ouvida, mas preferiu ignorar.
— Vou pegar um café — disse, levantando-se. Ajustou a máscara no rosto e saiu da sala.
Seu corpo achava que o caminho até a copa, no primeiro andar, era perto demais. Então, pôs-se a caminhar um pouco mais longe. Quando percebeu, já estava do lado de fora do Fórum e até respirou fundo com a diferença de clima. Desviou de algumas pessoas que entravam e saíam, seguiu pela calçada e atravessou a rua junto com uma massa de pessoas que aguardavam o semáforo. Virou na primeira rua à direita, entrando por uma pequena porta. O cheiro de café a atingiu de imediato.
Entrou na curta fila e esperou sua vez. Havia esquecido a carteira, mas ficou aliviada por estar com o celular no bolso — o novo Pix vinha facilitando sua vida.
— Boa tarde! O que posso te servir? — a atendente sorriu por baixo da máscara. nem tentou retribuir.
— Um capuccino cremoso, por favor — pediu, sentindo o cansaço em sua voz.
— Treze e vinte e cinco — informou a atendente. abriu o aplicativo do banco.
— Pix, por favor — respondeu. A mulher lhe estendeu um papel com um número de telefone, e fez o pagamento antes de guardar o celular.
— Seu nome?
.
— Só aguardar ao lado, por favor.
Ela se afastou da fila, aproximando-se da área de entrega. Tentava manter o distanciamento social, embora não estivesse cheio a ponto de ser um problema. ouviu dois nomes antes do seu, se esgueirou para pegar o copo quente e cremoso, e se virou para sair dali o mais rápido possível.
Seu braço esbarrou no de alguém. O copo foi direto ao chão, derramando todo o líquido. Um pequeno “oh” escapou da boca da barista. Aquilo foi como um soco. abaixou-se automaticamente e, de repente, começou a chorar copiosamente.
— Me desculpe! Me desculpe! — repetia, cobrindo a máscara com a mão.
— Está tudo bem! — disse a barista rapidamente.
— Eu preciso de um pano! — balbuciava, confusa. — Por favor, você tem um pano?
Seus olhos vermelhos denunciavam que não estava tudo bem, causando surpresa tanto na barista quanto no cliente com quem esbarrara.
— Senhora... está bem? — uma voz com sotaque perguntou, mais próxima ao seu ouvido. ergueu o rosto. Um homem de máscara estava agachado ao seu lado. — Posso ajudá-la? — Estendeu-lhe a mão.
— Me desculpe. Não é um bom dia — ela respondeu, abanando a mão. As lágrimas se acumulavam na máscara, mas ele a ajudou a se levantar.
— Por quê não respira um bocadinho? Eu vou buscar-lhe outro café — disse, com voz calma e sotaque reconfortante.
— Eu preciso limpar, eu...
— Está tudo bem, senhora. — A atendente já estava com um rodo e um pano. A barista preparava outro capuccino igual ao anterior.
— Venha cá... — O homem guiou-a até uma mesa alta. sentou-se num banco. Ele voltou ao balcão e pagou o café.
aproveitou para tirar a máscara e puxou alguns guardanapos para secar os olhos. Sentia-se ainda mais estúpida por chorar como uma criança por causa de um café derramado. O homem voltou com o novo café dela e o seu, sorrindo discretamente por baixo da máscara ao notar a beleza da mulher.
— Você não precisava... — disse ela, apressando-se para recolocar a máscara.
— Está tudo bem. — Abanou a mão. — Acho que precisa só de respirar um pouco.
— Eu ia gostar... — Suspirou, trazendo o copo para perto.
— Quer partilhar? — perguntou. percebeu uma certa esperança nos olhos castanhos dele. Respirou fundo antes de tomar um pequeno gole
— Eu sou assistente social, trabalho no Fórum... — Fez um gesto vago com a mão. — Por causa da Covid, estamos recebendo uma quantidade gigantesca de desistências... — A voz embargou. — Só penso nas crianças abandonadas nessa época... — respirou fundo. — Me desculpe.
— Está tudo bem — assentiu. — Imagino que não seja um trabalho fácil...
— Não é. A gente aprende a deixar os sentimentos de lado, mas... — Enxugou os olhos novamente. — É a sétima ligação da semana. E ainda é terça-feira.
Ele tirou a máscara, mostrando o rosto. Ela tentou esconder a reação.
— Acredito que tudo são fases — disse ele, com um sorriso discreto. — Há de passar.
— Eu sei... — Ela suspirou. — Mas temos algumas crianças com necessidades especiais que precisam de atendimento próximo e...
— Respire — disse, e ela puxou o ar com força, soltando-o devagar. — Apesar de tudo, o seu trabalho é incrível.
— Eu gosto, mas, nesses momentos... — Balançou a cabeça e bebeu mais um gole do café.
— É só uma fase — repetiu.
— Você parece saber do que está falando. — Ele riu, com gosto.
— Bem, depois de alguns problemas pessoais, achei que seria interessante começar no Brasil...
Ela finalmente entendeu o sotaque. Ele não era brasileiro, mas o português era impecável.
— Você é português — constatou, e ele assentiu.
— Abel.
— ela respondeu. Ele sorriu.
— O que te traz ao Brasil, Abel?
— Sou treinador de futebol. Vim treinar o Palmeiras, o clube, sabes? — Ela reconheceu os traços familiares.
— Você é o novo treinador do meu time? — disse, rindo.
— Você torce pro Palmeiras?
— Você está em Perdizes, Abel. — Ela deu de ombros, fazendo-o rir. — Uau, que prazer te conhecer!
— Espero que não se arrependa daqui a uns meses. — Riram.
— Nhá! Independente disso, você me ofereceu um ombro pra chorar. — Ele sorriu. — Serei eternamente grata, mesmo que não traga troféus pro meu time.
— Estou à espera que dê a hora da minha reunião — comentou.
— Bem, te desejo toda sorte do mundo. O futebol brasileiro é muito caótico...
— Já ouvi dizer — Sorriu. — Alguma dica? És literalmente a primeira pessoa com quem falo por aqui.
— Não se deixe abalar pelas críticas. A torcida é chata demais — ele assentiu.
— Eu também sou um bocado emotivo... espero não me deixar afetar tanto.
— Impossível! — ela disse, rindo e finalizando o café. — Eu preciso ir.
— Trabalho?
— É... Dei uma fugidinha, mas... — Olhou o relógio. — São só três horas...
— Claro! Claro! Ainda tenho aqui uma hora...
— Boa sorte, ok? — Ela sorriu.
— Igualmente — respondeu, num tom mais sério.
— Pode deixar. Ah, o café! Posso pagar?
— Não, não podes — respondeu ele, e ela riu.
— Obrigada — agradeceu novamente.
— Mas... podemos encontrar-nos aqui outra vez, no futuro? Para eu saber como ficaram as crianças — disse, e ela riu de leve.
— Próxima terça, nessa mesma hora? — ela sugeriu, brincando.
— Combinado! — respondeu ele, fazendo-a sorrir por trás da máscara.
— Combinado, então... — ela achou graça, sem realmente acreditar que ele apareceria. Mas já ansiava por esse reencontro. — Faça um bom trabalho...
— Vou dar o meu melhor! — sorriu, e ela deu um último aceno antes de sair da cafetaria.




Perdizes, outubro, 2020
olhou para o relógio — passava pouco das três horas. Ponderou com a cabeça: era terça-feira novamente, mas será que ele estaria lá?
A página com a notícia da contratação de Abel Ferreira estava aberta em seu computador. Novo técnico do Palmeiras, 41 anos. Veio após a saída de Vanderlei Luxemburgo.
Devido à Covid e aos problemas recentes, não vinha tendo tempo para acompanhar seu time de infância. Ouvia as notícias e passava diariamente em frente ao estádio para chegar ao trabalho, mas não sabia dizer quando tinha sido o último jogo — muito menos o resultado. Era, com toda certeza, uma péssima torcedora.
Mas algo estranho pairava em seu coração. Será que devia ir a esse encontro?
Eles combinaram sem combinar. Disseram que se veriam novamente, mas ninguém falou dia, muito menos horário. Não trocaram sequer números de telefone. É claro que ele não apareceria, ainda mais agora, que estava na boca do povo e da imprensa.
Mas... e se ele fosse? Ela não se surpreenderia se ele não fosse, mas também não queria decepcioná-lo caso aparecesse. Ele era o novo técnico do seu time — merecia, no mínimo, respeito. Além disso, estava chegando ao Brasil agora, depois da passagem pelo PAOK, da Grécia., como ele mesmo dissera: “Ainda não conheço ninguém.”
Ela matutou por mais alguns minutos enquanto finalizava o relatório da última visita à casa de uma família interessada em adotar um garoto de oito anos. Ficou genuinamente feliz ao ver que, dessa vez, o interesse foi confirmado. Estava cansada de negativas e recuos — uma confirmação era quase motivo de festa.
Finalizou o documento dentro dos padrões da Vara da Infância e Juventude do Foro Central e o encaminhou para o juiz. Agora, restava aguardar a liberação para as primeiras visitas e, com sorte, a oficialização da adoção.
Olhou novamente para o relógio: haviam se passado vinte minutos desde a última vez que checara. Ponderou mais uma vez entre o sim e o não. Sua curiosidade, no fim, falou mais alto. Levantou-se da cadeira, pegou o celular e a bolsa, recolocou a máscara no rosto e saiu da sala.
Ainda sentia vergonha do surto da semana anterior, mas ele... ele havia sido tão calmo, atencioso. E ela estava mesmo precisando daquilo.
Fez o mesmo caminho da semana passada, acompanhando o vai-e-vem de gente pelas ruas de São Paulo. As restrições da pandemia estavam mais leves, e a cidade começava a se movimentar novamente.
Ao entrar na cafeteria, varreu o espaço com os olhos. Nada de Abel. Sentiu um leve desapontamento no peito. Talvez estivesse animada demais com a ideia de conhecer alguém novo.
Suspirou ainda na porta, pensando em voltar. Mas, já que estava ali, ao menos tomaria um café. Nada como afogar as mágoas com um cappuccino bem forte e um pedaço de bolo de cenoura.
— Desculpa... estive na casa de banho. — virou-se, surpresa, ao vê-lo surgir de um corredor lateral. — Saí a correr.
— Ei! — disse ela, surpresa.
— Pensaste que eu não vinha, não foi? — disse ele, com o olhar nervoso. — Nem tive hipótese de te dar o meu número para combinarmos, mas…
— Estou feliz que veio. — Ela sorriu sob a máscara. — Técnico.
— É... treinador. — Riu. — Queres sentar-te? — Ela assentiu, e os dois seguiram para a mesma mesa da semana passada. — O que queres beber?
— Um cappuccino... e um pedaço de bolo de cenoura.
— Combinado! — Ele foi até ao balcão, e ela suspirou, deixando escapar um pequeno sorriso.
A cafeteria estava vazia naquele dia, então Abel foi e voltou rapidamente. Primeiro, deixou dois pedaços de bolo na mesa; depois, buscou as bebidas — ele optou por um expresso. Sentou-se com ela.
— Então... — ela riu. — Honestamente, eu não tinha certeza se devia vir.
— Pensei o mesmo. — Riu. — Quer dizer… uma parte de mim queria mesmo que viesses, mas outra não sabia se ias aparecer. Ela retirou a máscara.
— Eu pensei o mesmo... — Deu um gole no cappuccino. — Digo... minha vida tem sido só trabalho. Às vezes, acho que só precisava de um amigo.
— Como te disse, foste a primeira pessoa que conheci aqui. Se calhar, eu também estava a precisar.
Ela sorriu.
— E então? Como foi a reunião?
— Bem, contrataram-me. — Riram. — Vamos lá ver como me saio.
— Eu poderia dizer que você vai se dar bem, mas... o Brasil tem um costume péssimo de demitir treinador por baixo desempenho.
— O meu primeiro jogo é quinta-feira. Se perder... pode ser que nem volte para o nosso próximo café — disse ele, e ela riu.
— Também não precisa ser tão dramático. Talvez se perder três... — Riram juntos.
— Espero que não... Fiz uma aposta enorme ao aceitar vir para cá.
— Quer compartilhar?
— Ah, nada de grandioso. É só que tenho filhas. Estão em Portugal com a mãe. Estar na Grécia, onde estava antes, era mais perto… Brasil e Portugal não é propriamente uma ponte aérea.
— Compreendo. — Ela assentiu. — E... sua esposa?
— Não tenho esposa — respondeu. — Já há dois anos. Temos uma relação muito respeitosa um com o outro. — assentiu de novo. — Foi com a separação que fui para a Grécia. Mas ela deu-me as minhas duas filhas lindíssimas, sou muito grato por isso.
— Que bom. — Ela sorriu.
— E tu? És assistente social, certo?
— Sim, sou. É praticamente tudo que você precisa saber da minha vida. — Ela riu.
— Sem marido? Namorado? Filhos?
Ela riu de leve, sentindo o peito apertar, mas limitou-se a negar com a cabeça.
— Não... só eu. Visito minha mãe com frequência. Ela mora no interior, uns 100 quilômetros daqui.
— E tens tido mais sorte no trabalho? Na semana passada estavas...
— Me desculpa por aquilo. Acho que estava na TPM, juntou com o trabalho e...
— Não te desculpes. Nem todos os dias são bons.
— É... mas foi feio. — ela riu, e ele sorriu também.
— Como disse um dos meus jogadores: há dias em que é noite, não é?
— Exatamente. — Ela riu e checou o relógio. — Mas sim, tive mais sorte. Hoje enviei um relatório ao juiz sobre a adoção de um menino de oito anos. Isso me deixou com o coração mais leve.
— Deve ser incrível isso.
— Tem seus altos e baixos. Eu lido com entrevistas, visitas, acompanhamentos, mediação... elaboro pareceres. E também cuido da parte ruim: desistências, devoluções, decisões de retirada de uma criança da família...
— Isso não deve ser bom.
— Não mesmo... — suspirou. — O Estado brasileiro é bom nessa área, mas há casos complicados. Já vi juiz dar guarda pra quem não devia, e a criança acabar sofrendo. Para bebês, insistem muito em mantê-los na família biológica antes de encaminhar para adoção... mas, às vezes, a família é completamente desestruturada.
— Isso é horrível.
— É... então imagina, eu já vi de tudo um pouco.
— Há quanto tempo trabalhas com isso?
— Doze anos.
— Uau! — Ele se inclinou levemente para trás, surpreso. — Desculpa perguntar, mas...
— Trinta e sete — disse ela, rindo. — Passei num concurso aos vinte e cinco, e desde então me encontrei. Não sou muito fã da cidade de São Paulo, mas a gente se acostuma...
— É grande, não é? Não estou habituado! — disse a rir.
— A gente acaba se afeiçoando... de uma forma ou outra. — Ela checou o relógio mais uma vez. — Eu preciso ir, estou no meio do expediente.
— Antes de ires, dá-me o teu número, por favor — pediu, fazendo-a rir. Ele tirou o aparelho do bolso e estendeu-lhe.
Ela viu uma foto dele com duas meninas entre dez e quinze anos e digitou rapidamente seu número antes de devolver o aparelho.
— Pronto, agora podemos mesmo combinar uma hora. — Riu.
— É?
— Vou gostar de ter uma amiga — disse. — E tu, pelo que parece, precisas de um amigo.
Ela riu.
— Terça que vem?
— Às três e meia? — sugeriu ele.
— Combinado! — disseram juntos, trocando sorrisos.
— E, se tiver algum compromisso, pode me mandar mensagem. — Ela sorriu.
— Vamos ver se sobrevivo ao Bragantino, depois falamos.
— Ganhe! Não vai ser bom perder um amigo tão cedo. — Riu. — Estou brincando, não quero te deixar nervoso.
— Não te preocupes! — Riram juntos.


Washington D.C., junho, 2025
Meus olhos ardiam com a luz intensa do computador e a iluminação baixa do cômodo. Já tinha fechado os olhos pesadamente três vezes, mas insistia em terminar a leitura daquele artigo. Faltavam só...
— Dez páginas? — Gemi baixo com a descoberta, tirando os óculos de leitura e coçando os olhos mais uma vez.
Virei para o lado, vendo Lia esparramada no cercadinho, no canto da sala. O silêncio no apartamento alugado em Washington D.C. só era interrompido pela respiração suave da minha menina e o som abafado do metrô, que passava ao longe.
Na mesa da sala, além de três canecas diferentes de café, havia folhas rabiscadas com anotações sobre os artigos do curso de Políticas Públicas e Proteção Infantil que eu já tinha lido. Não era fácil equilibrar estudos, maternidade e saudade. O tema me agradava muito, mas hoje eu estava com sérios problemas para focar. A ansiedade estava gritando.
Levantei devagar, evitando fazer barulho, já que minha mãe dormia no sofá com um livro aberto sobre o peito. Sou muito grata por ela ter topado vir comigo — assim pude trazer Lia e não passar quatro meses morrendo de saudade da minha pequena.
Agora, no entanto, a saudade era de outra pessoa. Uma que apertava forte no peito.
Talvez essa viagem tenha acontecido no pior timing possível, mas foram quatro anos esperando por um movimento dele. Eu não podia continuar adiando as oportunidades que surgiam — e já vinha postergando esse curso desde 2023.
Ouvi meu celular vibrar em cima da mesa. Franzi a testa, olhei rapidamente em direção à minha mãe e a Lia — ainda dormiam. Suspirei, aliviada. Peguei o celular, abri o aplicativo de mensagens e vi o nome dele.
Abel. Como se ele estivesse lendo meus pensamentos. Mesmo à distância.
Hoje seguimos para os Estados Unidos. Vamos a ficar em Greensboro. Posso pedir que venhas me ver? Faz-me esse favor?
Sorri, inevitavelmente. Até em texto, o sotaque português parecia estar ali — impresso nas palavras. Era como se eu ouvisse a voz dele me dizendo aquilo. Ele nunca deixou de ser esse jeito direto. Nunca deixou de ser ele.
Eu sabia que esse campeonato nos Estados Unidos traria alguma vantagem... Como torcedora e como amiga, meu coração já estava acelerado. Mas com esse reencontro tão esperado... agora sim que a ansiedade ia bater de verdade.
— Mamá? — Me distraí com a voz de Lia, vendo-a se sentar no cercadinho. Os cabelos cacheados estavam armados em sua cabeça, e a chupeta ainda presa à boca.
— Ô, meu amor, acordou? — Me aproximei dela. Ela esticou os braços e eu a peguei no colo, sentindo os bracinhos se enroscarem no meu pescoço e as perninhas se prenderem na minha cintura.
— Uhum... — Dei um beijo em sua testa, ajeitando os cabelos bagunçados de quem acabou de acordar.
— Fiz cocô — ela disse, com um biquinho, e eu a apertei nos braços. O desfralde não estava sendo nada fácil.
— Ô, meu amor, tá tudo bem. — Beijei sua testa. — Que tal um banho? A gente troca essa fralda suja, coloca uma roupa bem fresquinha e come alguma coisa?
— Uhum! — Ela abriu um largo sorriso, me fazendo rir.
— Minha esfomeada! — Dei um beijo no meio dos cachinhos. Foi quando vi minha mãe se mexendo no sofá.
— Ah, eu dormi. — Ela se espreguiçou devagar. — Ai, minhas costas... — Virou-se para mim. — Oi, filha, terminou?
— Ainda não, mas precisava de uma pausa — respondi. — Já estava piscando forte... Vou aproveitar pra dar um banho nela.
— Quer que eu faça isso? — ela sugeriu.
— Não precisa, vou ficar um tempo com ela. Quer pensar em alguma janta pra gente? — Apontei com a cabeça para Lia.
— Hum... me deu vontade de comer pastina mais cedo. — Minha mãe disse, sorrindo.
— Olha, tá um calor danado, mas eu adoraria uma pastina agora. Me lembra a vó — respondi, rindo.
— Eu vou fazer — disse ela, se levantando.
— E eu e essa pequena vamos tomar um banhão bem fresquinho! — Apertei Lia, arrancando uma risada gostosa dela.
— Quelo meu bichinho! — ela pediu.
— Vamos procurar seu bichinho, meu amor! — respondi, rindo, enquanto seguia com ela para o interior do apartamento.

Abel

Academia de Futebol do Palmeiras, Água Branca, São Paulo.
O tempo em São Paulo era do mais aleatório possível, mas hoje nem estava tão calor assim. O céu estava encoberto, tinha chovido de manhã, mas eu me sentia quente por dentro. Minha testa suava, e não era pelo clima. Era pela expectativa.
O Mundial começava em poucos dias, e eu sei bem o quanto isso significa para o time, para o clube, para a torcida. A gente trabalhou muito pra chegar até aqui. Mas, no fundo, havia outra coisa pulsando junto com esse momento. Uma esperança.
Eu queria reencontrar a nos Estados Unidos. Estava me preparando para dizer a ela tudo aquilo que guardei por tempo demais — que a amava, que queria ficar com ela. Mas esse curso dela acabou colocando tudo em pausa.
Sim, talvez eu devesse ter falado antes. Anos antes, até. Mas me faltou coragem. Tive medo de decepcionar minhas filhas… e, talvez, minha ex-esposa também.
Uma notificação apareceu na planilha que eu mantinha aberta no tablet. Era dela.
Claro, Abelito! Está na hora! Me diga quando que eu vou até vocês! respondeu, me fazendo sorrir.
Sorri, mesmo sem querer. e esse apelido… só ela pra me tirar do eixo assim. Estava torcendo para que o curso já estivesse na reta final, para que ela pudesse vir com a gente. A presença dela seria importante — não só pra mim. Depois de quase cinco anos de amizade, muitos jogadores também gostavam de tê-la por perto. Diziam que eu ficava mais leve.
— O míster tá até andando mais leve hoje — comentou Weverton, cruzando os braços enquanto pedalava, e preferi ignorar.
— Aposto que não é só o café que tá animando ele — completou Veiga, sem levantar os olhos do celular, e revirei os olhos.
Desfiz o sorriso que, claramente, estava em meus lábios, e ergui o olhar para os dois — além de Gómez e Ríos, que finalizavam a musculação nas bicicletas. Os quatro me encararam de volta, com aqueles sorrisos brincalhões e olhares provocadores. Neguei com a cabeça.
— Algum problema aí, ou tão a falar de mim pelas costas?
— Que isso, míster! Só estávamos comentando como o senhor parece... inspirado — disse Gómez, com um sorriso de quem sabia mais do que devia.
Cocei o queixo, rindo sozinho. Com esses quatro — e alguns outros — era difícil esconder qualquer coisa.
— É impressão de vocês. A cabeça tá no Mundial. Jogo importante, foco total. Vocês sabem.
Os quatro riram na hora.
— Ah, claro — emendou Richard, fingindo inocência. — O Mundial. E o café em Washington também, aposto!
Apontei pra ele com um olhar de ameaça divertida.
— Vais ver se não te deixo no banco só por isso, rapaz.
— Agora sim! — explodiu Veiga, gargalhando. — Será que finalmente te veremos com nossa querida ?
Revirei os olhos.
— “Nossa” querida, não. Minha querida! — Eles gargalharam de novo. Só então percebi que tinha deixado escapar. — Já disse pra vocês que eu não sou homem de ficar falando da minha vida pessoal, né? — rebati, pegando o tablet de volta, enquanto via Weverton saindo da bicicleta.
— Mas também não é homem de esconder quando tá feliz, né?! — Weverton se aproximou com um tapa no meu ombro. — Boa sorte lá, professor. Que esse Mundial traga mais que uma taça, hein?
Revirei os olhos, mas sorri.
— Estão livres! Podem terminar de se arrumar! — falei, observando os outros três saírem das bicicletas e caminharem pela academia em direção à saída mais próxima.
Respirei fundo. Meus preparadores já organizavam a bagunça do treino da manhã. Teríamos nosso almoço, e depois seguiríamos viagem para os Estados Unidos. A jornada seria longa, mas a minha cabeça já estava lá faz tempo. Com ela.
Ou melhor, já estava com elas. Lia faziam a mesma falta que as minhas filhas.


Washington, D.C., junho
Já havia perdido as contas de quantas vezes encarei o relógio estrategicamente colocado na mesa de cabeceira. Eu o ignorava e, minutos depois, voltava a fitar os números com o mesmo intervalo de sempre — menos de cinco minutos. Já estava ficando inquieta.
Empurrei o lençol que me cobria, sentindo-o me abafar, apesar do ar-condicionado estar ajustado para 18 graus. Nunca pensei que enfrentaria um calor digno do Brasil nos Estados Unidos. Quase todos os dias beiravam os 30 graus, mas era a umidade que tornava tudo ainda mais sufocante.
Olhei para o relógio mais uma vez. Uma da manhã.
— Eu vou ficar louca — sussurrei, sentando-me na cama enquanto coçava o rosto.
Tentei dormir assim que Lia pegou no sono. Achei que poderia aproveitar algumas horas extras de descanso ao invés de pensar em Abel, mas meu corpo decidiu o contrário. Ao menos Lia dormia bem.
Levantei com cuidado, andando na ponta dos pés até a outra cama. Ela estava ali, pequena e entregue ao sono, os cabelos bagunçados, o braço enlaçado no porquinho de pelúcia, a boca entreaberta. A chupeta havia rolado pelo colchão. Peguei-a devagar, aproveitando para escondê-la por ora. Até ela se lembrar novamente.
Ajeitei a coberta sobre seu corpo e aumentei um pouco a temperatura do ar-condicionado. Para mim estava suportável, mas para ela poderia ser demais. Voltei a caminhar em silêncio até sair do quarto, fechando a porta com o máximo de cuidado.
De volta ao corredor, suspirei e andei normalmente até a cozinha. Talvez um chá quente me ajudasse a descansar. Peguei uma caneca no armário, enchi com água do filtro e levei ao micro-ondas. Dois minutos. Parei o aparelho antes dos segundos finais para não fazer barulho.
Abri a caixinha do chá de camomila, coloquei o sachê dentro da água fervente e me apoiei na bancada, esperando a infusão acontecer.
— Problemas pra dormir? — Levei um susto ao ouvir a voz da minha mãe, vinda do corredor, já de pijama.
— Você também? — perguntei, franzindo a testa.
— Eu te ouvi — disse ela, se aproximando.
— Só pensando... — Dei de ombros.
— Sobre certo português?
Ri baixinho, assentindo.
— O que te preocupa? — Ela se sentou à mesa, me observando com calma.
— Tenho medo de que nada mude — confessei. — Que depois desses quatro meses tudo continue exatamente como era antes.
— Ele te ama, filha. Isso é óbvio.
Suspirei.
— Ama mesmo? — Dei de ombros. — Nos conhecemos há quase cinco anos… e até agora, nada. Já devo ter entrado na friendzone.
— Nunca — ela respondeu com um sorriso firme. — Nenhum homem que cuida da sua filha como se fosse dele te colocou na friendzone.
Ela segurou minha mão, apertando com carinho.
— Talvez só faltasse o momento certo.
— E qual é esse?
— Talvez seja hora de descobrir — disse, levantando-se. — Tome um Dramin, se for necessário. Mas durma.
Assenti, sem dizer nada.
— Boa noite — disse ela, deixando um beijo no meu rosto.
— Boa noite, mãe.
Fiquei ali por mais alguns segundos, em silêncio. Retirei o sachê da caneca, depositei-o na pia e adocei o chá com algumas gotas de adoçante. Bebi devagar, tentando pensar na aula do dia seguinte. Teria palestras, um conteúdo que até me interessava… mas naquele momento, nada parecia realmente importante.
Encontrei a cartela de Dramin junto aos medicamentos da minha mãe e tomei um comprimido. Finalizei o chá. Se conseguisse dormir, seria um bônus. Mas duvidava que o sono viesse forte o suficiente para me fazer perder a aula.
Voltei para o quarto com passos lentos. Meu corpo começava a esquentar — talvez efeito do chá, talvez do cansaço. Aquela diferença sutil de temperatura entre os ambientes me acalmou. Entrei no quarto outra vez na ponta dos pés, deitei-me com cuidado e puxei o lençol fino sobre mim. Mania minha.
Peguei o celular automaticamente. Não tinham se passado nem vinte minutos.
Foi então que vi a notificação no WhatsApp.
Abel.
Meu coração disparou.
Chegamos. Mal posso esperar para ver vocês! As tenho no coração. Sempre tive!
— Ai, Abel... — murmurei, apoiando o celular no peito, sentindo o coração apertado. — O que você faz comigo, hein?
Devolvi o celular ao carregador e fechei as mãos no lençol. Meu coração batia mais forte, mais rápido.
Está perto. Está perto…

Abel

Greensboro, junho
Ajeitei-me no banco do autocarro, sentindo o corpo a escorregar no assento. Esfreguei os olhos, fixando as luzes do carro à frente. Afastei a cortina, espreitando lá para fora: o dia ainda claro e um prédio antigo do outro lado da rua.
Tínhamos chegado.
Depois de um voo até Miami, seguido de uma ligação até Greensboro… finalmente, estávamos cá. As minhas costas estavam em frangalhos e o estômago roncava de fome. A última refeição foi ainda no outro voo — desde então, só café.
O autocarro contornava o campus da UNC Greensboro quando ouvi os primeiros gritos. Metros depois, vi a claque a agitar bandeiras. Foi nessa altura que as luzes do autocarro acenderam, e os jogadores começaram a acordar, a bater nas paredes, a animar ainda mais quem estava lá fora.
Esta torcida era qualquer coisa de especial! Um mar de verde e branco. Em Greensboro.
— PALME-E-E-IRA-A-A-S! PALME-E-E-IRA-A-A-S! PALME-E-E-IRA-A-A-S!
O autocarro não parou para cumprimentarmos a torcida. Não sei bem como funcionava por cá, mas o campus parecia enorme. Em vez de o som abrandar, parecia que só crescia. Lá dentro, os rapazes também ligaram a chave do “Mundial de Clubes”. Era como se já estivéssemos a disputar uma final.
Queria acompanhar esse ânimo, mas só pensava em jantar e cair na cama. Não dormia bem em voos internacionais — ainda menos com esta ansiedade toda. O primeiro jogo era em menos de uma semana. Tínhamos que preparar o espírito… e o coração.
Quatro meses depois, estava no mesmo país que a outra vez. E não esperava sentir-me como um miúdo apaixonado de novo. Não que tenha conseguido esquecê-la durante este tempo… Cada mensagem dela era um disparar de emoções. Mas agora… agora estamos cá.
O autocarro parou em frente a um edifício antigo, e fui um dos primeiros a sair. Por fora, o hotel tinha ar de coisa velha — mas por dentro era moderno. Talvez não estivéssemos na zona dos estudantes.
A Leila já estava lá, com os assessores e o pessoal da comunicação do Palmeiras. Cumprimentei-os com um aceno — viemos apenas noutros transportes — e esperei os jogadores se juntarem no lobby, largo e alto.
— Bem, pessoal! Hoje é dia de descanso — disse a Mônica. — Vamos distribuir as chaves dos quartos, o jantar já está servido no segundo andar. Amanhã começam às nove. Café da manhã a partir das seis.
— E nada de encherem a barriga! Não vou perdoar treino mole por causa disso, hein? — brinquei, arrancando risos. — Descansem, miúdos!
— Pode deixar, míster! — responderam em coro, em tom de gozo carinhoso.
— Professor… — Mônica estendeu-me a chave. — O número do quarto e o andar estão no cartão.
Olhei. Quinto andar, quarto 51. Segui até ao elevador, e alguns dos adjuntos vieram atrás. Subimos todos juntos.
— Encontramo-nos no jantar. — disse o João, e respondi com um simples aceno de cabeça.
Queria um banho e cama. Mas antes… precisava mesmo de comer qualquer coisa.
Uma coisa de cada vez, Abel.
Atirei as malas para um canto assim que entrei no quarto. Era espaçoso — e, sendo treinador, tinha sempre essa vantagem: um quarto só para mim.
Tirei o blazer verde do Palmeiras, deixei-o numa poltrona e fui buscar o telemóvel na mochila. Sentei-me na cama quando o encontrei. Havia uma mensagem da .
Estamos esperando ansiosas por você. Faça uma boa viagem e me avise quando estiver em Greensboro (nome propício para o Palmeiras, né?!)
Sorri com o trocadilho.
Chegamos! Vou-me ajeitar e amanhã começa o trabalho.
Enviei a resposta. Mal fiz isso, vi que ela já tinha lido.
Descansa sim, essas viagens acabam com a gente. <3
Sorri de novo, dessa vez com o coração. Suspirei.
A vós também!
Logo a seguir, uma foto começou a carregar. Era ela com a Lia. A menina com a mamadeira de sumo verde, os caracóis todos desgrenhados — e só o sorriso da aparecendo por trás.
As minhas meninas.
Mal posso esperar para vos ver.






Perdizes, São Paulo, janeiro de 2021
saiu correndo da estação de metrô, ajeitando a bolsa no ombro. O começo do ano estava caótico para os trabalhadores em São Paulo, mas ela aproveitava suas férias da melhor forma possível.
Só ainda não tinha aprendido a lidar com todo o tempo livre que aquele recesso lhe proporcionava.
Havia chegado de Indaiatuba naquela manhã, dado uma geral no apartamento, e acabou perdendo completamente a noção do tempo. Aquilo ali não era Indaiatuba, onde se atravessava a cidade em meia hora. Em São Paulo, era movimento, trânsito, metrô e muita gente em pouco espaço — e o resultado só podia ser um: atraso.
Ela parou de correr ao alcançar a esquina da cafeteria. Respirou fundo, ajeitou os cabelos, secou a testa e descolou a blusa suada do corpo, por conta do calor sufocante de janeiro, antes de entrar.
— Ei! Chegaste! — disse Abel, próximo à porta, com um sorriso que a desarmou.
— Me desculpa! Perdi totalmente a hora! — largou a bolsa na cadeira e o abraçou.
— Não te preocupes.
— Eu sei que você tem hora... não queria te atrapalhar — respondeu, um tanto culpada.
— É bom ver-te — disse ele, mudando de assunto com suavidade. — Feliz ano novo!
— Ah, verdade! Pra você também! Como passou? — Ela se sentou à frente dele, numa das banquetas mais altas.
— Acabei por ficar por aqui. Com esta coisa da quarentena, nem consegui ver as minhas filhas...
— E o time? Nenhuma grande festa? — perguntou, tentando se ajeitar na cadeira, ainda recuperando o fôlego.
— Recebi muitos convites... mas não era bem isso que eu estava a precisar — respondeu, brincando com o canudo do suco à sua frente.
— Não acredito! Devia ter ido pra Indaiatuba comigo... — riu, e ele a acompanhou.
— Agradeci o convite várias vezes, , mas tu também precisavas estar com a tua família.
Ela suspirou. O convite tinha sido mais por educação, afinal três meses de convivência mal sustentavam uma amizade. Mas o jeito caloroso da sua família não permitia deixar ninguém de fora de grandes celebrações.
— Mesmo assim! — disse, com um sorriso. — Vai ficar só no suco? Quer um café?
— Melhor ficar no sumo, sim — respondeu, com um riso discreto.
— Me dá um minuto, então.
Abel observou enquanto recolocava a máscara e seguia até o balcão. Pouco depois, voltou com um café com chantilly e um pedaço generoso de torta.
— Hum, pedido diferente? — brincou ele.
— Eu ‘tô de férias! — disse ela, erguendo as mãos em rendição. Ele riu. — Servido?
— Acho melhor manter-me longe da glicose hoje... — Ela assentiu.
— Sabia que essa torta se chama Torta Holandesa, mas foi criada aqui no Brasil? — comentou, antes de colocar um pedaço na boca.
— A sério? — Abel riu. — Parece boa.
— Vamos fazer um acordo? — ela propôs, inclinando-se levemente.
Ele assentiu com a cabeça, curioso.
— Se você passar pelo River hoje à noite e nos levar pra final... — Ele suspirou alto, fingindo estar exausto das cobranças dela, mas esperou que continuasse. — Eu compro uma dessas inteiras pra você!
— Hum, gosto desse acordo! — Abel levou a mão ao queixo, pensativo. — Alguma condição?
— Bom... vocês têm três gols de vantagem. É só dar xeque-mate. — Ela deu um sorriso contido, quase provocador.
— Quero para a semana que vem, então. — A seriedade no tom surpreendeu .
— Combinado! — esticou a mão, e ele fez o mesmo, selando o trato com um aperto.
Foi então que ela notou a pulseira de miçangas coloridas em seu pulso.
— Virou fã da Taylor Swift agora? — segurou o pulso dele, como se já fossem íntimos, e virou para ler o que estava escrito: Palmeiras.
— As minhas filhas — explicou ele. — Mandaram uma caixa com presentes, cartas... e esta pulseira. "Para dar sorte", disseram elas.
sorriu com ternura.
— Não deve ser fácil ficar longe delas.
— Não... — suspirou Abel, erguendo os olhos. — Qualquer dia destes, desato a chorar... — Eles sorriram. — O futebol consome tudo. O bom e o mau.
Ela assentiu.
— A gente se conhece há pouco tempo, mas... se um dia quiser desabafar, pode contar comigo, tá?
Abel apertou a mão dela com mais firmeza, grato.
— Obrigado.
— Precisa correr ou dá pra ficar mais um pouco? — perguntou, sabendo que a semifinal contra o River Plate seria naquela noite.
— Preciso ficar. — respondeu ele, com simplicidade. Sabia que aquele breve encontro com lhe traria a calma que precisava antes do jogo.


Greensboro, junho de 2025
Fiquei feliz quando o avião pousou em Greensboro.
Lidar com uma criança de três anos em um voo não era tarefa fácil — ainda mais sem recorrer a remédios. Eu sabia que ela estava tão ansiosa quanto eu para encontrar o pessoal. Então, os pouco mais de 70 minutos de viagem foram ocupados com quebra-cabeças, desenhos, massinha... e muitas tentativas de convencê-la a falar mais baixo.
— Chegamos, mamãe! — Lia falou animada assim que o avião tocou o solo. Suspirei, aliviada.
— Chegamos, meu amor — acariciei seus cabelos.
Aproveitei enquanto o avião taxiava para guardar todos os itens que tinha usado para distraí-la — menos o Pork, seu porquinho de amigurumi quase do tamanho dela, que fazia questão de arrastar embaixo do braço.
Como estávamos com uma criança de colo e minha mãe, que já passava dos 60, fomos prioridade para sair do avião. Cumprimentei os comissários e seguimos pelo finger: Lia de mãos dadas comigo, uma mochila nas minhas costas, e minha mãe carregando outra bolsa da pequena.
— A gente vai ver o Label, mamãe?! — Lia perguntou com os olhos brilhando. Sorri.
— Sim, meu amor, vamos ver o Abel e todo o time!
— Eba-a-a-a! — Ela deu um pulinho animado, me arrancando um sorriso.
O tempo tem outro ritmo nos olhos de uma criança. Pra ela, podiam ter se passado meses — pra mim, parecia uma eternidade. A despedida tinha sido meio dramática, e mesmo longe, ela assistia aos jogos comigo, vibrando como se estivesse no estádio.
Esperamos pela única mala grande que trouxemos — foi proposital, pra não termos mais bagagem além da própria Lia. Quando pegamos, minha mãe tomou a frente com Lia no colo, e eu segui com a mala.
— Filha! — minha mãe chamou, apontando. Vi um homem com uma placa verde, onde estavam os nossos nomes: o meu, o da minha mãe e o da Lia. O sorriso dele entregava que tinha nos encontrado. A Lia, com o uniforme do Palmeiras e o Pork no braço, era inconfundível.
— Oi! Eu sou a — me apresentei. — Português?
— Sim, falo português! — ele riu. — Sou Marco, vou levar vocês até o time.
— Prazer! — trocamos um aperto de mão.
— Sigam-me, por favor — ele indicou, já pegando a mala da minha mãe.
— Ah, não precisava... — falei, sem sucesso.
Saímos do aeroporto e logo encontramos outro homem parado ao lado de uma van. Cumprimentamos e entramos. Coloquei o cinto em Lia, depois em mim, sentindo a ansiedade crescer.
— Na-na-na-na! — Lia cantarolava a música da rádio enquanto eu acariciava sua cabeça. Sorri, tentando não transbordar antes da hora.
O trajeto até o CT foi curto. Eu não conhecia Greensboro — nunca tinha ouvido falar da cidade antes de o Palmeiras escolhê-la como base para o torneio. Sabia apenas que ficariam hospedados em uma universidade.
Era dia de semana, então a movimentação era grande ao redor do campus. Ao passarmos por um portão antigo, o fluxo diminuiu. Vimos alguns jogadores, mas pelo porte atlético, pareciam ser da equipe universitária de futebol americano.
— Chegamos! — avisou o motorista. — Fiquem à vontade, vamos levar suas malas para o hotel. Depois vocês fazem o check-in com calma.
— Obrigada! — sorri, descendo com cuidado. Dei a mão para Lia antes que ela pulasse sozinha da van.
— Uau! É gandi, mamãe! — ela disse, maravilhada.
— É mesmo, meu amor — sorri, sentindo o sol forte no rosto.
Atravessamos a rua em direção aos campos do outro lado. Passamos por uma área interna e andamos um pouco às cegas, procurando alguém com as cores do Palmeiras.
, você chegou! — ouvi e virei rapidamente. Era a Leila.
— Leila! — falei, surpresa.
— Tia Leila-a-a-a! — Lia gritou animada, me fazendo rir. Só ela pra chamar a presidente do clube assim, na cara dela.
— Olha quem está linda de Palmeiras! — Leila pegou Lia no colo e deu um beijo carinhoso. — Está uma graça!
— Como se fala? — perguntei.
‘Bigada! — respondeu Lia, toda sorridente, exibindo a janelinha sem um dente da frente.
— Alguém está de janelinha! — Leila brincou, e Lia sorriu, envergonhada.
— Como estão as coisas? — perguntei, abraçando Leila quando ela colocou minha filha de volta no chão.
— Os nervos já estão à flor da pele, mas tudo conforme o plano.
Assenti.
— Coragem, Leila.
— Sempre! — ela sorriu. — Estão procurando o Abel?
— Si-i-i-i-im! — Lia respondeu antes de mim, arrancando mais uma risada minha.
— Sim, acabamos de chegar — confirmei.
— Sigam por aquele corredor, eles estão no campo. — Ela apontou. — Amélia, quer descansar? Posso levá-la até o hotel.
— Acho que aceito — respondeu minha mãe. — Ainda vou ter muito tempo pra falar de futebol — rimos juntas.
— Nos encontramos lá dentro.
— Claro! Já, já vamos, ela vai querer comer em breve — indiquei Lia.
— Vamos, mamãe! — ela disse, me puxando pela mão com pressa.
Após duas curvas, o verde vivo do campo apareceu. Os jogadores estavam reunidos dentro das quatro linhas, e bastou um segundo para eu localizar Abel — era sempre fácil. Era só procurar a pessoa que mais gesticulava no gramado.
— Ele tá babo! — Lia comentou, e pensei o mesmo. Ele parecia dar uma bronca no Vitor e no Paulinho. A questão era... por quê?
— Ei! Olha quem chegou! — Piquerez nos viu primeiro e acenou.
— Pique! — Lia gritou, correndo até ele.
Ele a pegou no colo com facilidade, fazendo-a gargalhar.
— A minha boneca! — disse ele, girando com ela nos braços.
Outros jogadores se viraram com a gargalhada, e por um momento, Abel foi totalmente ignorado.
— Filha, xi! — sussurrei, sentindo meu rosto corar de vergonha. — Piquerez...
— Ei! O que é que se passa aqui?! — ouvi a voz do Abel, firme, e me virei.
O rosto dele estava sério, os olhos semicerrados. Mas no segundo em que nos viu, a expressão se desfez por completo. As sobrancelhas se ergueram, o sorriso se abriu largo, e por um instante, até as linhas de cansaço em seu rosto desapareceram.
— Ah, elas aí estão — murmurou, e eu pude ler seus lábios mesmo à distância.
— Chegamos! — falei, rindo... e, claro, morrendo de vergonha.

Abel
Greensboro, Estados Unidos
— Ah, elas aí! — sorri, soltando um suspiro.
— Chegamos! — deu de ombros, claramente envergonhada.
— L-Abe-e-e-e-e-el! — ouvi Lia, e o Piquerez a colocou no chão, fazendo-a vir a correr na minha direção.
A primeira coisa que notei foi o uniforme do Palmeiras, tamanho “criança de três anos”, e os laços verdes perdidos pela cabeça. Os tênis brancos combinavam com o lookinho, claramente montado pela .
— L’Abe-e-e-el! — Abaixei-me quando Lia se aproximou e peguei-a no colo, ouvindo sua risada. Uma calmaria tomou conta do meu peito no mesmo instante. Levantei-me com ela nos braços, apertando-a contra mim com força.
Como eu estava com saudades.
Sinti sodadi! — disse ela, apoiando as mãozinhas nos meus ombros para me ver melhor.
— Também senti, minha linda! — dei-lhe um beijo forte na bochecha, arrancando mais uma risada.
— Ai, faz cócegas! — rimos juntos.
— Mas que fardamento mais bonito é esse, hein? Estás pronta pra jogar?
— Si-i-i-im! Eu vou fazer go-go-go-o-o-ol! — A galera ao redor começou a rir.
— Aposto que vais! — beijei de novo, bem no meio dos seus caracóis.
— Vou fazer gol no ‘Veverton’. — Apontou para trás de mim.
— Em mim? — o Weverton disse, surpreso, pegando-a no colo. — Não deixo! Não pode!
— Pode sim! — respondeu ela, aos risos.
Virei-me para a mais uma vez. Ela olhava a cena meio sem saber onde pôr as mãos, escondendo o sorriso com os dedos.
Estava com jeans e uma camisola simples, com uma estampa neutra. Bonita, como sempre.
— Vai lá, professor! — o Gómez puxou o coro.
— Vai! — outros jogadores o acompanharam.
— Eu vou pôr todos vocês a dar 20 voltas no campo. — falei, atravessando o gramado na direção da .
— A-a-a-ah, professor! — gritaram, rindo.
— Agora são 30 voltas! — bati palmas.
— A-a-a-ah... — a reclamação foi geral, mas ninguém se mexeu.
— Acho que a tua moral tá em baixa — ouvi a comentar quando me aproximei dela.
— Achas? — abri os braços e ela veio até mim, puxando-me num abraço apertado.
— Oi, Abel — disse, rindo. Fechei os olhos, absorvendo o cheiro do cabelo dela, misturado com o perfume suave que conhecia tão bem.
— Oi, — suspirei. O abraço desfazendo-se de forma natural, como se o tempo tivesse parado só por esse instante. — Sentiu saudades? — tentei rir, tentando parecer menos envergonhado.
— Claro! Quatro meses sem café? Assim não dá! — Ela abriu aquele sorriso lindo.
— As nossas chamadas de vídeo não serviram de muito, não é? — Ela fez uma careta.
— Não é a mesma coisa — segurei o impulso de tocar no rosto dela.
— Desculpa pela bagunça... A Leila foi quem nos indicou vir pra cá, então... — deu de ombros. — Ela não se conteve.
— Não te preocupes! Eu fazia mesmo questão que viessem ver-me quando chegassem. – Ela sorriu, leve.
— Aqui estamos. Prontas pra competição. E vocês? Estão? – Suspirei longo.
— Precisamos estar.
— Vocês estão — ela apertou o meu braço com firmeza. — Eu confio em vocês.
Assenti com a cabeça, sentindo o peso bom daquela frase.
— Estão cansadas? Querem descansar? Posso pedir uma pausa aqui e...
— Não! — cortou ela, firme. — Você está trabalhando. Foi só uma hora de viagem, não estamos mortas de cansaço. — Além do mais — disse a , cruzando os braços — faz tempo que não vejo meu time treinar... Posso assistir?
Sorri com gosto.
— Claro que sim. Temos mais uma horinha só, depois libero a malta. Posso mostrar-vos o quarto e jantamos juntos depois.
Ela assentiu.
— Combinado — virou-se para o campo.
— Mas acho melhor tirares a Lia dali. Do contrário, não consigo mais trabalhar. — falei, vendo-a agora no colo do Ríos.
— Não vai ser fácil... — suspirou ela.
— Eu vou! — ri, e ela sorriu.
— Como sempre, um amor!
Ela seguiu para os bancos espalhados ao lado do campo e sentou-se. Respirei fundo.
— Lia! Vamos! Hora de treinar! — gritei, indo na direção dela.
Mas no fundo, eu sabia. Ninguém ia tirá-la de perto dos jogadores tão cedo. O treino estava oficialmente terminado por hoje.
E, na verdade, eu queria mesmo era aproveitar este momento.


Greensboro, Estados Unidos
— Ah, também senti saudades! — Me afastei de Gómez, passando o braço por Marcos em seguida.
— Não some mais, hein?! — Ri com Gómez.
— Não se preocupem, meu curso está quase no fim, logo tudo volta ao normal. — Eles sorriram.
— Bom te ver! — Marcos se afastou de mim, e vi Maurício trazendo Lia.
— Eu num vou embola! — ela disse, fazendo-o assentir com afinco.
— Eu sei! Você vai ficar aqui com a gente. — Ele a trocou de braço e estiquei o meu para ela.
— Vem, filha. Eles precisam descansar agora — falei.
— Deixem isso comigo. — Abel apareceu, esticando os braços.
— Eba-a-a-a! — Lia disse rindo, praticamente pulando no colo dele.
— Ai! Estás pesada, menina! O que é que se passou, hein?! — Abel brincou, me fazendo sorrir.
— Eu ‘tô forti, Abel! — Ela respondeu, cheia de orgulho. — Eu ‘tô forti!
— Pois eu estou a ver, minha linda! É tão bom ver-te assim! — Ele estalou um beijo no rosto dela, e eu sorri.
— Oi, ! Bom te ver! — João, assistente de Abel, disse ao passar por mim.
— Ei, João! Bom te ver! — Sorri, acenando.
— Não quero atrapalhar, Abel. — Falei.
— Tu dizes isso desde o primeiro dia que puseste os pés no CT. E sabes quando foi isso? — Ele me olhou com um meio sorriso.
— Muitas e muitas vezes... — falei, rindo. — Desde que Lia ficou confortável ao redor de vocês.
— Então... — Ele pensou. — Um ano? — Virou-se para Lia e revirei os olhos. — Anda! Deixa-me levar-vos para o vosso quarto. — Suspirei.
— Eu reservei um hotel na cidade e...
— Posso garantir-te que a Leila já cancelou — ele respondeu, seguindo para fora da área do campo pelo mesmo caminho de antes. Os jogadores já haviam entrado por uma entrada particular.
— Foi ela quem reservou para nós.
— Então garanto-te que ela nem chegou a reservar. — Ele riu, me deixando surpresa.
— Tem um ponto... — falei, confusa, ouvindo-o rir.
— Anda, vou levar-te ao quarto. — Rimos, entrando pela lateral do hotel.
Logo que entramos, percebi que era o Grandover Resort & Spa, A Wyndham Grand Hotel. Confesso que fiquei surpresa, pois nem sabia que havia um hotel dessa magnitude em Greensboro. Na verdade, nunca tinha ouvido falar da cidade antes.
Cumprimentei outras pessoas pelo caminho, vi alguns parentes dos jogadores e da comissão técnica, e me senti em casa novamente. Depois de quatro meses, parecia que nada tinha mudado.
— Venham. — Ele nos indicou o caminho e seguimos até o elevador. — Coloquei-vos num andar mais alto. A maioria dos familiares está aqui embaixo, sei que te incomodas fácil com barulho. — Dei um pequeno sorriso, entrando com ele, Lia e minha mãe. Vi-o apertar o número oito. — E tem um espaço jeitoso para vocês três, claro.
— Eu sempre te digo para não se incomodar, e você nunca me ouve.
— Já falamos mil vezes sobre isto. Desiste, porque eu não vou mudar. — Disse ele, já dentro do elevador.
— Então desiste você, porque eu também não vou mudar. — Dei de ombros, ouvindo-o bufar. Lia riu.
— Pois é, Lia, a tua mãe não é fácil! — Abel disse para ela, nos fazendo sorrir.
— Como se você fosse, Português! — falei séria, e ele riu.
— Venham — ele disse ao sair do elevador. Segui-o pelo corredor até que ele empurrou uma porta no fim e entrou, colocando Lia no chão.
— Lega-a-a-al! — Ouvi sua voz se perder dentro do quarto e fui logo atrás.
O quarto era enorme. Tinha uma pequena antessala com sofá e frigobar, depois um espaço com cama de casal e uma cama com grades ao lado, além de um armário e uma televisão. Minha mãe abriu a outra porta do quarto conjugado.
— As malas já estão nos armários. Fiquem à vontade.
— Obrigada. — Sorri para ele.
— Um passarinho! — Lia disse animada, vendo um enorme bicho de pelúcia do Periquito — quase maior que ela — e tentou pular na cama para pegá-lo.
— Obrigada — repeti, olhando para Abel.
— Não te preocupes. Não fiz nada mais do que a minha obrigação. — Suspirei.
— Não é — falei, sorrindo com os lábios pressionados.
— Descansem um pouco e encontro-te no jantar, sim? — ele disse sério. Assenti com a cabeça, e senti a mão dele apoiar-se de leve na minha cintura. — É bom ter-te aqui. — Ele beijou minha bochecha e saiu pela porta, puxando-a logo em seguida.
— Vamos comentar sobre isso ou...? — Ouvi a voz da minha mãe.
— Não. Não vamos falar nada. — Soltei a respiração, como se a estivesse segurando há muito tempo, e ela gargalhou, se afastando.

Abel
Greensboro, Estados Unidos
Depois de deixar a no seu quarto, fui até ao meu para organizar os detalhes do treino de hoje. Anotar as evoluções, possíveis dificuldades, além de outras questões técnicas. Apesar disso, a minha cabeça hoje estava noutro lugar. Ter a aqui mudava o meu foco de uma forma completamente diferente, mas tinha de manter a mente firme nos treinos — a competição estava prestes a começar.
Aproveitei o horário e dediquei alguns minutos às minhas filhas. Já era quase meia-noite para elas, mas não podia deixá-las ir dormir sem lhes desejar boa noite e ouvir aquela mensagem de boa sorte. Depois, tentei relaxar um pouco. Forcei-me a ignorar os pensamentos sobre as meninas, a competição, até sobre a ... mas não estava nada fácil. Era impossível desligar-me.
Por volta das sete horas, vesti novamente o uniforme e fui jantar. Alguns jogadores e familiares já estavam no restaurante, especialmente as esposas com crianças pequenas. No entanto, a pessoa com uma criança pequena que eu procurava ainda não tinha descido. Ela também tinha uma criança pequena, por isso imaginei que não devia demorar a aparecer.
Sentei-me numa mesa com os meus adjuntos e fui buscar um prato de comida. Aproveitei para dar uma vista de olhos geral nas opções disponíveis. Depois de um ano a conviver com a Lia, bastava olhar para a comida para saber o que ela podia ou não podia comer. Claro que ainda havia algumas dúvidas em certos casos, mas o tão famoso Mac ‘n’ Cheese era completamente proibido para ela.
No meu caso, algo quente e reconfortante parecia a melhor escolha. Acabei por escolher também um hambúrguer — não podia negar que os sabiam fazer bem. Mas os brasileiros ainda ganhavam. Ganhavam sempre em tudo, na verdade.
Voltei à mesa e comecei a comer, falando de trivialidades e parvoíces com os meus adjuntos e com um ou outro jogador que se juntava a nós. Era fácil sentir-me em família com esta equipa.
— Ei, professor! — Gómez deu-me uma cotovelada. — Ela lá!
Virei-me para onde ele apontava e vi a a aproximar-se do buffet, com aquele olhar meticuloso de sempre. Decidi esperá-la regressar à mesa. O riso animado da Lia quando a viu fez-me sorrir. Elas fazem-me sorrir, mesmo sem fazerem nada de especial.
Terminei o prato rapidamente, limpei a boca com o guardanapo de um jeito que fez o pessoal à volta rir, e levantei-me. Fui até à mesa onde estavam a , a Lia e a mãe dela. A mãe tinha acabado de se levantar para se servir.
— Eba! Macalão! — disse a Lia, animada, enquanto a ajeitava os talheres de plástico na sua mão.
— Tente não fazer sujeira. — Ajeitou um guardanapo como babete, e eu sorri ao aproximar-me.
— Vocês podiam sentar-se mais perto — disse, vendo a sorrir.
— O-o-o-i, L’Abel! — disse a Lia, a rir.
— Olá, meu amor! — Dei-lhe um beijo na cabeça.
— Comer de boca fechada, meu amor! — disse a , e puxei uma cadeira para me sentar ao lado dela.
— Desculpa, não queria incomodar. Não sabia se estavam numa reunião ou...
— Chega de reuniões, pá! — Abanei a cabeça. — E eles gostam de ti. Tu podias...
— Não vamos confundir as coisas. — disse ela, e acenei com a cabeça.
— Fico feliz que estejas aqui. — disse, vendo-a sorrir e pousar os talheres.
— Quão bravo você vai ficar se eu disser que posso ficar só dois dias? — disse ela, mudando-me logo a expressão.
— Eh pá, não! Estava à espera que ficasses pelo menos até aos jogos.
— Eu vou estar nos jogos, Abel! — Ela segurou a minha mão por cima da mesa, apertando-a com carinho. — Eu só preciso terminar meus estudos também. — Riu.
— Quando é que isso acaba? — perguntei.
— Dia 25, eu acho — respondeu.
— Pode ser que ainda estejamos por cá — disse a rir.
— Ai, para! Vocês estão bem! Temos que pensar positivo! — disse ela com um sorriso largo.
— Deixo essa parte contigo, que achas? — Ouvimos um barulho e olhámos na direção da Lia, mas era a mãe dela a sentar-se novamente. A Lia brincava com o macarrão em forma de argolas no prato.
— Com todo o prazer! — Ela sorriu. — Se for para você se preocupar com menos uma coisa.
— Vou tentar! — Sorri, apertando-lhe a mão de volta.
— Agora tente de verdade! — Rimo-nos juntos.
— Podes crer! — Ela sorriu, soltando a minha mão para voltar a comer.
— A comida brasileira é muito melhor... — murmurei.
— Eu sei! — disse ela, a rir.



Continua...


Nota da autora: Oi, gente! Tudo bem?
Faz tempo que eu tenho uma ideia com o Abel e o Mundial de Clubes foi um balde de inspiração, e só faltou um motivo especial para eu mandar para vocês, e nada como um especial como os Astros do Ano Ficsverse, né?! Eu sou palmeirense desde criancinha, tenho um amor especial pelo Abel, o Mundial de Clubes foi um momento que uniu mais ainda os palmeirenses, então espero que vocês gostem muito e comentem, claro! <3
Um agradecimento especial à minha beth Gigi e ao Ficsverse por esse convite!
Até a próxima!

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