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Codificada por: Saturno 🪐

Última Atualização: 31/10/2025

Havia algo de errado com , algo quebrado.
Desde o momento que havia nascido, algo parecia ter enredado-se por suas pequenas entranhas e o corrompido. Talvez fosse o peso do legado da Casa dos Gaunts que recaiu-se aos ombros do menino, uma vez que ele era, de fato, o herdeiro daquele lugar, ou talvez,, fosse apenas a má sorte de uma leitura equivocada de uma profecia que o colocava como um inimigo ao em vez de uma esperança para a família. Entre os ossos dispostos sobre a mesa coberta por veludo vermelho, permeada por velas coloridas em variadas formas, cartas de tarô, e mesmo borras de café usadas e descartadas aleatoriamente sobre lugares que não deveriam, revelou-se uma preocupante verdade sobre ele: “Sob as escamas da Serpente, criaria-se sua destruição, seria pela a mão daquele com sangue que a construiu, o responsável por destruir permanentemente grande Casa dos Gaunts”. Nigel rebelou-se com a previsão, tamanha ousadia de mera clarividade descuidada, proferia palavras insensatas, e de sua postura, reconhecia o charlatanismo, além disso, era evidente que sua parte trouxa tornou-lhe mais fraca em sua leitura; fez o que tinha que ser feito. Sangue ainda pingava ritmadamente contra o assoalho de madeira do pequeno consultório, revelando uma mancha considerável absorvida pelo tecido quando ele deixou o lugar, sem um único olhar para trás.
Homem de tradições antiquadas, Nigel , não tardou em consultar outros demais clarividentes a fim de compreender melhor como seria a vida de seu herdeiro. Não poderia simplesmente aceitar que a prole que tanto esperava, viria tornar-se a destruição de seu império; a resposta foi unânime: o que havia começado pelas mãos dos Gaunts, seria finalizado pelo mesmo. Quando desmontou de seu cavalo naquela noite, Nigel era um homem transtornado. Os cabelos loiros pálidos, estavam desalinhados de seu cuidadoso penteado, os olhos, arregalados, estavam avermelhados, e as veias projetavam-se ao redor de seu pescoço e testa com um pulsar intenso; estava sendo consumido pela fúria, não pelo desespero. Quando adentrou no casarão, agiu como sempre, não comprimentou ninguém, sequer os reconheceu em sua presença, mas então, novamente, isto era hábito para um . Como os herdeiros de Salazar Slytherin, diretamente por sangue, a pureza que carregava dentro de si trazia consigo o peso da dinastia e a herança de uma magia pura e latente ancestral. Era por isso que viam-se como superiores, era isso que os tornavam superiores; eles tinham muito cuidado para não misturar-se com pessoas erradas ou manchar a reputação, e muito mais o sangue que possuíam. Lufadas de ar escapavam por entre suas narinas dilatadas, rápidas, severas e cálidas contra o lábio superior retorcido, os dentes estavam à mostra em um impulso mal contido repleto de cólera, o grito, encurralado, preso na garganta. A irregularidade com a frequência de sua respiração evidenciavam a intensidade de seu tormento; marchou assim, em direção de onde pudera identificar vinha o chorinho projetava-se.
Encontrou-o nos braços de sua esposa, como deveria. Pela primeira vez, todavia, desde seu árduo nascimento a meses atrás, durante uma noite límpida estrelada, Nigel não sentiu nada pela criança que em tudo era a sua própria imagem. A frieza a muito o corroeu, isto, era fato, quando casou-se com Astória, o fizera porque precisava consolidar seus status socialmente, e seu pai jamais aceitaria, mesmo em morte, que ele se tornasse seu herdeiro sem ao menos ter certificado-se de ter uma família para que o futuro dos Gaunts fosse garantido. Tampouco importava-se com a mulher, desde que fosse submissa e obediente, Nigel tinha poucos problemas; Astória era isso, e certamente, muito bonita também, logo não hesitou em tomá-la para si. A disparidade de idade entre os dois, acabou construindo não apenas um relacionamento, mas um ambiente desprovido de afeição, embora muitos viessem a dizer posteriormente que nem mesmo Astória ou Nigel havia conhecido o significado da palavra. De certo modo, não sabia mesmo, mas houve um tempo que Nigel considerou-a como o mais próximo do que era capaz de oferecer-lhe não apenas conforto, mas igualmente, afeto. Seria equivocado, todavia, fingir que isso possuía alguma profundidade.
Assemelhava-se com um lago cristalino, a água tão corrente e próxima ao chão que transformava-se transparente. Era essa a profundidade de seus sentimentos pela esposa; não haviam outras mulheres que chamavam sua atenção, tampouco poderia dizer-se que importava-se em procurar algum parceiro por fora de seu casamento para cuidar de suas necessidades. A única e verdadeira amante que Nigel sempre havia tido, e sempre teria, era sua própria ambição, seu desejo por poder e glória para o nome de sua casa. Nigel era um , e um estava destinado a ser grande não importava a forma de seu nascimento. E era por isso que quando seu pequeno espelho foi expelido para fora do corpo da esposa, ousara ter, ainda que de maneira deturpada, esperanças. Aquela pequena figurinha, de berros fortes e bracinhos gorduchos, tão parecida consigo mesmo, esperneando-se em seus braços, havia, mesmo que por uma fração de segundos, aquecido seu coração gélido, com a certeza de que o faria melhor do que Nigel era. O tornaria melhor e maior; um futuro promissor.
Nigel deveria ter amado o filho, mas seu amor era condicional, e desapareceu com a profecia. Seu ódio transbordou pelos olhos ao deparar-se com a expressão irritada e incomodada de Astória. Viu-a encolher-se, tentando proteger o monstro que havia parido, e pedir-lhe para que não fizesse. Debulhou-se em lágrimas, e foi ali que Nigel percebeu a fraqueza com que permitiu-se unir, não era surpresa que a criança fosse ser um problema futuro,
Nigel teria matado o filho naquela noite, mas algo o impediu.
Não foi o chorinho sentido por ter sido tomado dos braços da mãe que pareceu o fazer hesitar, foi a resposta ao desconforto. O bebezinho, ainda jovem demais para compreender sua situação, deveria ter sido movido pela frustração, porque, ainda que suas gengivas fossem macias e desprovidas de quaisquer dentinhos, mordeu com toda sua força o dedo do pai. As mãozinhas esmagado o membro como se pudesse estourá-lo. Nigel tivera o trabalho para arrancar da boca do menino, mas um pequeno plano começava a se formar por sua mente. Talvez ele não pudesse impedir a destruição de sua casa, talvez aquela criatura fosse um monstro desde sua concepção que encontrara refúgio no ventre de sua esposa, não havia como saber, não havia igualmente como calcular o que o futuro iria revelar, mas certamente ele poderia segurar a coleira do monstro. Então, Nigel entregou a criança com ordens expressas para os dois elfos domésticos para que estes o criassem.
O menino foi deixado aos cuidados dos elfos, dormia nos estábulos, coberto por uma pequena e frágil manta de tecido puído que Kranky remendou. Em noites mais frias, Kranky e Fiende ajeitavam-se ao lado da criança para protegê-la do frio com o calor de seus corpos. Nigel tivera ainda mais três outros filhos depois de : , gêmeo franzino e frágil de , Astra e Celeste, embora as duas meninas mais novas não fossem relevantes para o pai. Tomou então como seu projeto pessoal de herdeiro. Enquanto crescera largado pelos cantos da casa, usando-se de sua própria crueldade para ganhar um resquício de atenção dos pais que os rejeitaram, cresceu com o peso da atenção implacável do pai e da responsabilidade de ser o que lhe fora comandado, o herdeiro da Casa dos Gaunts, e acima de tudo, a melhor versão de Nigel jamais poderia vir a ser.
Mas não era como o pai; ele era como a mãe. Ou o fantasma do que Astória um dia havia sido, antes de ser forçada a casar com Nigel — era uma criança doce, gentil, de coração facilmente partido. Diferia-se entre os irmãos como um dedo podre, se acaso tomava a iniciativa de atormentar uma pobre criatura apenas para dar risada de seu sofrimento, ficaria para trás, tomaria o criaturazinha ferida em suas mãos, e o levaria até o porão da casa, onde cuidaria do animalzinho — deparou-se por vezes, com tentativas que resultaram apenas na morte das mesmas, e a culpa, mesmo em tenra idade, tornou-se uma grande companheira. O garoto melancólico escondia-se entre os cômodos, evitava as festas para as famílias poderosas de bruxos que acompanhavam o pai, e as reuniões de Conselhos Secretos. Preferia esconder-se na biblioteca, abaixo das mesas, e às vezes, raramente, fazia companhia para .
era uma criatura esquisita, era cruel e violenta, e às vezes atormentava criaturas mais fracas e frágeis apenas pelo prazer e o poder de o fazer. Arrancou as asas de um grupo de fadinhas que viviam na floresta uma vez, apenas para obrigá-las a andar, e ver quanto tempo levava até que começassem a chorar. Jogava pedras em dois Amassos que pertencia ao vizinho carrancudo do casarão que viviam, até que um deles se tornasse tão arisco que acabou perdendo-se na floresta. E em certa vez, revelou a que conseguiu ver os Testrálios nos estábulos do pai, era por isso que cuidava deles — mesmo que colocasse sal a mais em suas comidas para incomodá-los. percebeu, em algum momento, algo curioso, embora a fachada que apresentava fosse, de fato, a de uma crueldade intrínseca quase inquestionável, havia inúmeras cicatrizes espalhadas por seu corpo, talvez até mesmo em sua alma, a ponta de seu dedo anelar esquerdo era bem menor que os outros — algo, ou alguém, parecia ter arrancado-o —, e tinha um olhar triste. Mesmo que não gostasse da crueldade do irmão, não pode deixar de se questionar se, de fato, não era a ausência de um amigo que o tornava assim, então o menino fez de sua missão pessoal tentar conectar-se com o irmão gêmeo, e por um tempo, até conseguiu. Até o dia que o desafiou a torturar um casal de trouxas.
Escaparam em meio a madrugada, a família já a muito colocou-se a dormir, com exceção dos pais que estavam sempre envoltos por uma grossa camada de discussões sussurradas e acusações agressivas. Não perceberam quando os meninos se espreitaram pelos corredores e correram para os estábulos. Foi quem ofereceu-se para levar a culpa caso fossem pegos, e , por um momento havia acredito que o irmão gêmeo havia sido sincero em suas palavras, havia acreditado que iriam apenas aprontar uma peça em Hogsmeade, logo que mal teria? Mas o que diferenciava as travessuras de e era simples: o alvo.
gostava de pregar peças nas irmãs mais novas, ouvi-las gritar de medo ou xingá-lo o fazia rir por horas a fio. Observar a mãe chiar entre dentes, e mandá-lo buscar alguma outra coisa para fazer acabava por aquecer seu coração por horas a fio até que ele se arrependesse da atitude e trouxesse alguma das frutas que sabia que suas irmãzinhas gostavam. Não entregaria a elas diretamente, deixaria em um pratinho, devidamente cortadas com a ajuda de Fiende e sem as cascas, com um pouco de mel no canto, ele iria deixar a porta delas, chutar a madeira e sair em disparada para se esconder — que os céus proibissem que elas sequer pensassem que gostava delas, e que sua invenção de que elas haviam sido deixadas em cestas a frente da casa era mentira. Para , pregar uma peça sempre acabava com alguém sangrando.
E naquela noite não havia sido diferente. Quando Crucio foi expelido pela boca de , que andava a investigar as magias que o pai e seus amigos debatiam e discutiam utilidades, algo se partiu entre os irmãos. Não foi uma quebra — ao menos, não imediatamente —, mas foi o suficiente para que uma fissura começasse a surgir entre a ligação dos dois. Algo se alterou na mente de que nunca havia ouvido tamanho desespero escapar da boca de trouxas, que nunca havia os visto debater-se com tamanha dor até que simplesmente pararam de mover-se. Mas havia sido o sorriso que surgiu nos lábios de que mais o apavorou — vagaroso, lentamente revelando-se como se uma máscara tivesse sido puxada para fora de seu rosto. Pela primeira vez em muito tempo, temeu o irmão gêmeo, e a crueldade que havia sido instaurada dentro de si.
Quando um dos trouxas havia parado de gritar, aparentemente a violência da dor que lhe era infligida o suficiente para sobrecarregá-lo e fazê-lo encontrar sua própria morte mais rápido e inegavelmente, não conseguiu conter-se, avançou na direção do irmão gêmeo. Lançou-se de surpresa, usando toda sua força para derrubá-lo contra o chão. O que era uma risada, transformou-se em uma briga descoordenada de socos, chutes e gritos entrecortados de duas crianças rolando pela lama. Morderam-se, e debateram-se, lágrimas grossas escorreram dos olhos de manchando as bochechas pálidas, o tremor cresceu dentro de si como um pulsar sufocante, enquanto fúria, em seu intrínseco âmago, explodia por trás dos olhos de , que, tal qual um animal selvagem atacado, viu vermelho.
A briga somente acabou quando Kranky e Fiende, enviados por Astória, os localizou e os separou usando sua magia. Foram carregados de volta para a casa pelos elfos domésticos com um silêncio sufocante estendendo-se sobre seus ombros. O ressentimento no olhar de era palpável, quase tão tangível quanto sua pele ou o tecido arruinado pelas mãos do gêmeo e a lama que os envolviam. havia levado a pior, é claro, um galo na cabeça, um olho roxo inchado, um lábio cortado, mas o olhar de , parecia pior; ressentido, irritado, como se a pequena amizade que os dois meninos haviam desenvolvido ao longo de sua infância tivesse ido por água abaixo no segundo que reagiu. não encrencou-se, o pai, ainda que severo, conhecia a natureza do filho, e sabia que ele era fraco.
Palavras duras foram ditas; palavras que não poderiam mais ser retiradas. E havia uma estranha aprovação pairando pelos olhos de Nigel quando voltou seu rosto severo para . Talvez tenha sido isso que cimentara a putrefação do primogênito. Foi que, naquele pequeno instante de silêncio que estendeu-se entre o homem e o menino, houvera um reconhecimento, um reconhecimento positivo. Foi o que bastou. Naquela noite, igualmente, descobriu quem havia sido o responsável pelas cicatrizes no corpo de .
Quando mais se formaram ao longo da pele pálida de suas costas, viu o cinto do pai, acertando a pele do irmão com violência, criando vergões vermelhos, e cortes profundos na pele, mas não dizia nada, sequer um ruído soltava. Como se em seu silêncio petulante recusava-se a dar a satisfação de seu grito ao mais velho. esperou pelo momento que o irmão gêmeo iria explodir, o momento em que em meio aos gritos de sua própria loucura e crueldade avançaria no pai e tomaria-lhe o cinto, sabia que provavelmente fantasiava com isso, mas se era o que era, então, talvez, a culpa fosse de seu pai, por torná-lo aquilo. A imagem acompanhou-o como um fantasma vagante, assombrou-o por um momento, na solidão de seu próprio quarto, mas então, entre soluços abafados, dedos agarrados as mechas pálidas de seus cabelos, e a culpa sufocante que o fizera encarar por um longo tempo o atiçador da lareira, e sua ponta avermelhada pelo fogo que o envolvia, foi acompanhado pelos gritos de desespero dos dois trouxas que torturou aquela noite, pelo gorgolejo do sangue que escorria pela boca de um, e pela respiração falha acompanhada de engasgo que o outro soltara, quando seu coração explodiu dentro do peito tamanha dor deveria estar sentindo. Foi ali que percebeu que, porventura, merecesse tal tratamento do pai.
Selvagem como era, não passava de um monstro, uma criatura maldita que merecia adestramento e uma mordaça. Que abaixar a cabeça cabia-lhe tal como um animal selvagem, malcriado. Que deveria ser mantido no porão da casa, trancado e que aquele que possuísse a chave o esquecesse. Poderia sentir a dor do irmão gêmeo como sua, mas não havia como negar que, no fim das contas: Altas não possuía uma alma.
Quando os gêmeos completaram 11 anos, foi autorizado a retornar a viver no casarão dos Gaunts. O pai fez acomodações, indagou suas preferências e o menino pediu apenas por uma janela, sem ter ideia do que era a mordomia que os outros irmãos recebiam. Um tratamento estrito e severo, o tornou surpreendentemente civilizado, o suficiente para que fosse visto como um bom representante da família antes de ser preparado para seu primeiro ano em Hogwarts. Fora dos corredores largos e obscuros do casarão, e longe dos olhos severos do pai, era um monstro a deriva, caminhando por entre os colegas de sala como um predador, encantador o suficiente para atrair e fazer amigos, cruel o suficiente para tirar de seu caminho qualquer pobre coitado que se interviesse sem que lhe fosse chamada a atenção de imediato. Inteligente o suficiente para ocultar seus passos para que a negligência do Diretor Black não lhe atraísse resposta imediata.
Não houve surpresa que ambos os gêmeos fossem selecionados para a Sonserina, por motivos particulares, e tradição, a surpresa se deu a escolha de , que recusou-se a dividir um mesmo quarto com e os dois amigos que havia feito de imediato — Moriarty Grimstone e Dorian Buchanan —, optando por ocupar os aposentos mais afastados das masmorras, quase um depósito de tralhas, a ter que conviver mais do que o necessário com o irmão gêmeo. E por um tempo, tudo pareceu ficar bem. A violência de parecia ter tornado-se meramente uma crueldade enviesada, satisfatória apenas na ação de suas palavras, quando não muito, alguma humilhação significativa que faria outra criança soluçar em um canto escuro.
Foi somente no quinto ano dos gêmeos em Hogwarts que as coisas mudaram. Uma estudante de intercâmbio, atravessou os portões de Hogwarts causando certo burburinho. Era acompanhada pelo renomado professor de Poções, outrora Auror, Aesop Sharp. Taciturno e com uma inteligência afiada, a figura do homem contrastava com a da jovem como polaridades diferentes: a pele pálida envelhecida de Sharp era envolta por um cabelo escuro e longo, na altura de seus ombros, mas era a cicatriz que atravessava seu rosto, da lateral esquerda da mandíbula, ao centro esquerdo de sua testa, que tornavam-o mais severo e apático do que talvez tenha vindo ser. Já a jovem, era visivelmente estrangeira, contava-se que uma brasileira de algum lugar entre São Paulo e Minas Gerais. Irrevogavelmente bonita, a pele parecia macia sob o toque, os cabelos volumosos formavam-se em duas tranças que uniam-se abaixo de sua nuca, transformando-se em um rabo de cavalo baixo, preso com laço de fita lilás, firme, embora alguns cachos pendessem a frente de seu rosto, emoldurando-o. Olhos marcantes e afiados pareciam ser levemente repuxados nos cantos, e os lábios pareciam repuxar-se para baixo, em uma carranca de poucos amigos. Luvas de renda branca envolviam suas mãos, enquanto o uniforme de Hogwarts destacava-se contra seu tom de pele mais quente. A saia parecia ter sido um pouco mais encurtada, para o choque de algumas professoras da escola, mas levando em consideração o quão rápido caminhava, não era surpresa que ela tivesse adaptado a própria saia para mover-se mais rápido.
Chamavam-na de . Apenas — como o satélite que girava ao redor da terra, em sua língua materna.
Botas desgastadas de couro curtido chapinhavam as poças acumulavam-se entre as pedras do castelo, ao usar um jornal do dia anterior para proteger-se da chuva. Especulações acompanhavam-na como uma sombra, mas duas delas destacavam-se: contava-se que o pai da jovem, fora condenado pelo Ministério da Magia após tentar ressuscitar a esposa morta, mãe de , usando magia das trevas. Enlouquecido por seu luto, fora enviado para a Ilha da Queimada Grande, igualmente conhecida por Ilha das Cobras, e de lá, transferido para Azkaban. O renomado pesquisador de Defesa Contra as Trevas, Virgulino , entrara com um pedido para que o velho colega de pesquisa e amigo de longa data Aesop Sharp se tornasse o tutor da filha, enquanto seu julgamento arrasta-se com lamúria. Assim o fez, foi o que disseram. Já outros, um tanto mais desconfiados, gostavam de dizer que Virgulino , outrora fora conhecido como Leon Van Der Leyen: um traiçoeiro, porém habilidoso Bruxo das Trevas que aliara-se a um grupo de errantes buscando não apenas mais poder, mas Magia Ancestral. Este Bruxo das Trevas havia sido capturado ainda em sua juventude, e aprisionado em Azkaban, de alguma forma, em algum momento, conseguiu escapar e desapareceu em uma balsa para o Brasil. Lá, assentou-se com uma jovem não-mágica, com quem tivera cinco filhos, deste cinco, apenas uma havia sobrevivido ao nascimento: . Diziam que ele havia sido capturado novamente pelos Dementadores em uma força tarefa do Ministério da Magia Britânico e Brasileiro, e mandado de volta para Azkaban sem hesitação. Alguns ainda especulavam que Virgulino — ou Leon Van Der Leyen — havia feito diversos experimentos em seus filhos, por isso todos esses, com exceção de , haviam morrido durante ou antes do parto.
Seja qual fosse a verdade sobre a natureza dos pais de , e a motivação para que ela tivesse sido transferida de CasteloBruxo para Hogwarts, uma coisa era certa: ela não era uma bruxa puro sangue. E para a má sorte da estrangeira, realocada na casa da Sonserina, destacando-se como um dedo podre em uma mão perfeitamente saudável, ela atraiu a atenção da última pessoa que deveria ter atraído: .
Inicialmente ele não havia feito nada, apenas a observou de longe com um olhar intenso, capaz de atravessar as paredes de pedra em tamanho escrutínio. Tinha uma expressão difícil de ser lida, mas certamente não ocultava o desprezo, o desgosto pessoal e a irritação a cada vez que ela respondia alguma pergunta certa, a cada vez que ouvia o som de sua voz carregado com aquele sotaque insuportável brasileiro. Normalmente não atacaria alguém da Sonserina. Ele poderia ser um monstro, ele poderia ter se tornado conhecido por ser a Víbora da casa verde e prateada, mas não era desprovido de sua própria versão pessoal de ética: jamais usava de seus próprios artifícios contra aqueles que conviviam com ele. Usava as cores de sua casa com orgulho, e mesmo que desprezasse abertamente nascidos trouxas — para a satisfação pessoal de Nigel —, , igualmente, não era gentil com bruxos sangue puro. Seu código pessoal de honra era simples: ele odiava a todos sem exceção. E se você fosse estupido o suficiente para desafiá-lo, então ele tornaria-se seu pior inimigo.
não se importava com nomenclaturas, com especificações e muito menos a ideia ridícula de que um poderia ser superior ao outro: ele se importava com a dor. Com a dor que ele poderia causar em outro. Mas certa noite, durante o jantar, viu sentar-se à frente de ; não foi a escolha dela de onde sentar-se que o incomodou, foi a maneira com que, pela primeira vez, em muito tempo, pareceu mais interessado na presença de outra pessoa que não fosse seu livro. O irmão havia tornado-se um recluso desde que começaram seus anos em Hogwarts, ainda que tivesse amigos leais, um Lufano de ideias estúpidas e furão branco sempre enroscado nos cabelos ou no pescoço chamado Horatio Lovegood, e uma Corvina chamada apenas de Amelie Davenport, havia feito questão de colocá-los em seus lugares por tempo o suficiente para que não se incomodasse de sentar ao lado deles, ou conversar com os mesmos quando estava por perto. Evitavam-no como se fosse um veneno em ação tardia, temiam aproximar-se de por causa de , e havia uma sensação sombria de poder que enredava-se pela mente de . Uma satisfação de observar o garoto de ouro de seu pai tornar-se um desajustado, um rejeitado enquanto sua casa parecia ao menos respeitá-lo com certa deferência — mesmo que fosse baseada em medo.
Mas era uma praga que esgueirava-se por entre as catacumbas do castelo, enredando-se mais e mais na vida de , e tomou como um trabalho pessoal para si mesmo, destruir a jovem. Não era que tivesse ficado obcecado em atormentar a jovem brasileira; era que ela respondia suas provocações, à altura.
Iniciou-se de forma branda, comentários enviesados, rumores relacionados a sua postura arrogante e desdenhosa, até mesmo sobre as condições de seus pais, sobre a inutilidade de sua presença para a Casa, e como ela era uma mancha que a Sonserina deveria expulsar antes que se tornasse pior. Uma doença que parecia ser única a enxergar tal ameaça. Mas então os comentários se tornaram mais agressivos, mesmo que ela simplesmente os ignorasse com um olhar petulante, de desafio — era como se ela estivesse tentando convir silenciosamente que ele era exatamente o que dizia, e não o contrário, e se isto não alimentou as chamas de seu ódio crescente, certamente, havia machucado em demasia o ego do primogênito . Então, em uma certa manhã de inverno, fez um comentário particularmente cruel sobre ela ser apenas uma estrangeira qualquer que não passava de uma inutilidade e um projeto de laboratório de um maluco, sequer deveria ser vista como um potencial para casa quando animais teriam mais valor; ele havia desejado atingi-la de tal forma. Ele havia sentido-se particularmente satisfeito quando os olhos dela se arregalaram e o queixo se contraiu com um pequeno tremor, ele havia gostado de ver como ela havia lutado contra as lágrimas que acumularam-se ao redor de seus olhos, recusando-se a deixá-las cair, embora ela as tivesse sentindo como a ponta afiada de uma navalha atravessando-lhe o corpo.
tinha certeza de que havia ganhado aquela guerra fria. Tivera certeza que depois dessas palavras, ela não iria mais esgueirar-se por entre os corredores para acompanhar , que não riria de suas piadas, e nem mesmo iria se voluntariar a estudar ou fazer quaisquer projetos juntos com o irmão gêmeo dele. Tinha certeza de que permaneceria isolado, condenado por sua própria fraqueza, e a praga que havia se tornado, os espinhos que enroscavam-se em sua pele e cortavam-lhe apenas por existir viria a desaparecer. Mas não foi isso que aconteceu. Em frente a seus amigos, e ao restante de sua casa, encontrou dentro de si coragem o suficiente para chamá-lo de “Parasita covarde” e não satisfeita, atingiu-lhe em cheio um soco que reverberou pelo osso de sua face. A dor foi imediata e explodiu por trás de seus olhos, o grunhido que escapou por entre seus lábios foi acompanhado por um filete de sangue de quando seus dentes atingiram a pele macia de seus próprios lábios, cortando-os. grunhiu, cambaleando para trás, voltando seu olhar na direção da jovem estrangeira com uma mistura de emoções gritantes.
Não soube dizer o que sentiu naquele momento, mas não poderia negar que não havia considerado pela primeira vez destruí-la. Por alguns minutos ele apenas a encarou, estupefato, mas então, bufou, um riso disfarçado de desdenho que corroeu suas veias como veneno. Os olhos dos dois gêmeos encontraram-se, e foi ali que fizera a promessa a si mesmo que não importava o que ele tivesse que fazer, ele iria destruir . Porque se o conseguisse fazer, então destruiria junto.
Dizer que a raiva o cegou seria uma comparação empírica e repleta de lacunas; estava completamente transtornado, o estado colérico o fez ver vermelho. Amorteceu sua realidade e diluiu quaisquer outros epicentros de sua crueldade para aquele único ponto: . Pelos meses que seguiram-se, as agressões agressivas começaram a aumentar. Tornaram-se mais diretas, mais explícitas, menos calculadas. Não importava se o fazia mesmo em frente a um professor, tudo o que importava era de ter a certeza de que estaria destruída ao final do dia. Mas este era o problema; tão teimosa quanto, não importava o quanto ele tentasse reduzi-la a fragmentos de si, ela ficava pior. Mais determinada, mais agressiva. Era como se ele estivesse lutando contra um espelho de si mesmo, e embora isso lhe cobrasse o juízo, em algum momento, encontrou também um prazer mórbido e deturpado com as contínuas tentativas de destruí-la. Tanto que passou a ficar mais e mais descuidado, até que, um dia, aconteceu.
Na época, havia sido selecionado por Professor Fig para compartilhar da turma seleta de alunos em que ensinaria a arte do Animagus. Embora fosse cruel, e talvez, monstruoso demais para que fizesse mesmo os alunos mais velhos de Hogwarts desviaram seus olhares e baixarem o tom de suas vozes com receio, ainda era um excelente aluno, especialmente se isso significava ofuscar em seu habitat natural. Aprendera o feitiço, e percebeu com uma ponta de satisfação de que podia transformar-se em uma Mamba Negra. Foi a vantagem que precisava para finalmente enviar a maldita estudante de volta para sua terra miserável.
Naquela noite, esgueirando-se por entre as paredes e buracos dos calabouços até que tivesse encurralado-a entre o fundo dos corredores dos calabouços do castelo, , tão focado em finalmente conseguir fazê-la pagar pelas cicatrizes em seu ego, não percebeu que a jovem, talvez tivesse um interesse em particular para estar ali. Talvez, a jovem Sonserina possuísse seus próprios interesses e não tivesse abaixado sua cabeça enquanto não o localizasse. Talvez, os terrores noturnos que possuía simplesmente não tivessem deixado-a dormir. Seja o que for, cego por seus próprios desejos e fúrias mal controladas, o tormento dos Gaunts a localizou, e não tardou a encurralar a jovem.
Nunca se soube o que aconteceu naquela noite de fato, se não os dois. As histórias divergem-se em demasia, contadas por inúmeras bocas que ouviram relatos dos fantasmas, dos elfos domésticos ou até mesmo de professores a fim de encerrar discussões. Tudo o que se sabe, é que Professor Fig e a Vice Diretora Weasley encontraram a beira da morte, deitada sobre o próprio sangue, desacordada, e com marcas de corte por toda a pele, e um coberto pelo sangue da jovem, com um olhos arregalados ferais e hiperventilando. Não foi preciso muito para compreender exatamente o que havia acontecido.
Atacar um colega era digno de expulsão. Talvez, um destino até pior. Mas para a sorte de o Diretor de Hogwarts ainda era Phineas Black, um antigo amigo pessoal da família , e especialmente de Nigel. Quando o rapaz adentrou na sala do Diretor naquela noite, conta-se que estava sorrindo como uma fera sem rédeas. Iluminado pelas chamas tremeluzentes das velas, a coloração amarelada da luz acentuava o sangue que carregava em suas mãos. Contou-se posteriormente que não estava arrependido, e que, o pai, Nigel tivera que oferecer muito dinheiro e favores ao Diretor para que ele fosse mantido na escola. Como um acordo feito diretamente com o tutor de , Sharp exigiu ao menos que reconhecesse o problema que havia se tornado e que tivesse severas lições para ajustar seu comportamento naquela escola. Como punição, Nigel decidiu que o filho seria enviado para Durmstrang imediatamente, e lá passaria um ano inteiro, sob o rígido regime militar da escola de magia, ante a supervisão do frio e severo de Dragomir Lazar, ficaria isolado e ali permaneceria até que seu comportamento fosse exemplar. Tamanho erro cometeram e sequer perceberam.
No outro dia, ao preparar-se para embarcar na naus que o levaria até as terras frígidas de Durmstrang, estava diferente, agora tinha uma cicatriz grotesca atravessando a lateral direita de seu rosto, cortava-lhe a pele fundo, desfigurava-o, da altura de sua maçã do rosto, ao centro da testa, cegando seu olho direito permanentemente. Outra cicatriz se projetava abaixo de seu queixo, da lateral esquerda de sua mandíbula bem pronunciada, ao canto do lábio inferior esquerdo. Não disse nada. Não se despediu de ninguém, não esperou que ninguém viesse falar com ele, mas não se surpreendeu por deparar-se com ali, esperando-o.
Sobrancelhas unidas em uma carranca defensiva, olhos tempestuosos, atormentados pelas próprias emoções. parou a sua frente sem conseguir conter um sorriso torto de espalhar-se por seu rosto desfigurado, sentindo a pressão da dor dos pontos nos ferimentos latejar como brasas sobre sua pele, mas não parou. Observou o rosto do irmão gêmeo com desprezo, tão próximo de si como um reflexo, mas sem dúvidas, o espelho da própria mãe dos dois. Não hesitou em proferir palavras que sabia que iria cortar o gêmeo, não hesitou em explicitar seu desprezo pelo quão fraco e patético era, e soltou um riso afiado, como uma navalha quando o gêmeo, cedendo ao próprio temperamento, agarrou-lhe pelo colarinho, ficando a centímetros de seu rosto, bufando como um boi enfurecido. Os dentes trincados expostos em uma careta com a promessa de violência velada. Mas o conhecia bem demais para saber que aquilo não passava de apenas mais um de seus latidos.
— A próxima vez que tocar em alguém que amo, será eu quem irá resolver com você — Havia rosnado com um tom de fúria visceral que distorcia sua voz, mal o fazia compreensivo. Algo sombrio pareceu pairar pela expressão de , talvez a surpresa pelas palavras do irmão, ou a fúria que acompanhava a traição de seu sangue contra si mesmo. Outra vez. A fraqueza que havia tornado o gêmeo naquela criatura patética que seus pais sempre insistiram em proteger. — Vou matá-lo, e não vou me arrepender nem um segundo disso! — Ameaçou , os olhos queimando seu rosto, mas tudo o que conseguiu fazer, foi rir. Um ruído frio, desprovido de alma ou pesar, um desafio velado em seus olhos, ao empurrar o gêmeo para longe de si.
— Não. Você não vai — e a certeza em sua voz apenas transpareceu na expressão do gêmeo gentil, fazendo a careta de aumentar com o sorriso afiado. sempre seria uma criatura fraca, não importava o quanto tentasse provar-se que não era. Empurrou o ombro do gêmeo para fora do caminho quando atravessou o píer em direção ao navio, sem gastar mais um olhar para trás, mesmo que pudesse sentir o peso do ressentimento de em suas costas. Bom, muito bom, que ele o odiasse, faria com que tudo fosse mais simples, mais rápido.Caminhou pela proa, sem permitir-se intimidar com o semblante austero de Lazar e seu assistente ao qual o nome não recebera de imediato. Entregou a mala para o assistente de Lazar, antes de apoiar os braços contra a balaustrada de madeira escura esculpida, lançando um último olhar para o lugar que se tornara um inferno. Por uma fração de segundos, considerou jamais retornar para aquele lugar outra vez, mas quando Dragomir o arrastou para dentro das cabines, ao passo que o navio começou a ser engolido pelas as águas do rio que dirigia-se ao oceano, tinha certeza do que queria fazer. Vingaria-se. De todos eles.
Começando por .



Para minha ,
Se acaso estiver a ler estas palavras, é muito provável que seja tarde demais para mim. Receio que tenha mentido, meu amor, ainda assim mais uma vez, e embora esteja consciente de como posso ter partido teu coração, não posso dizer que arrependo-me de o fazer, pois, em minha errônea concepção, o fiz tentando protegê-la. Um dia, se porventura tiver filhos, espero que seja capaz de oferecer-me ainda que mísera, graça por fazer de tudo ao meu alcance para protegê-la. Sei que não há perdão para o que fiz. Sei que dos erros que cometi, as punições mais severas recaem sobre você, meu amor, minha garotinha. Tal qual sei que existem também muitas questões em aberto entre nós, que não contei-lhe tudo, e que sempre seguirá abertas. Arrependo-me dos ferimentos que posso ter aberto em teu coração, meu amor, e se ressentir-se contra mim possa aplacar suas angústias, o faça! Por favor, meu amor, jogue-me teu escárnio, teu desprezo, alivia-te ao colocar-me como teu monstro e esqueça-me ao fundo de um baú lançado ao mar. Compreenderei seus motivos, eu prometo.
Só não esqueça-te do quanto amo-lhe.
Não esqueças-te que se o mundo fosse diferente, e de alguma forma, pudesse usar um vira-tempo para consertar meus erros, eu faria a tudo outra vez. Sei que não poderá compreender minhas palavras, sei que devo soar cruel contigo e para com o peso que carregas, mas você sempre foi, e sempre será meu mundo, meu amor. Sinto muito se não me arrependo, sinto muito por dizer que faria tudo novamente, mas você é minha criança, minha menina, e prefiro que antes de tudo o mundo sucumba a você. O que há para salvar neste mundo que valha mais do que um filho? Não digas que a vida de cem pessoas, milhares valha mais do que a tua, pois não vale. A mim, tal valor equivale-se ao jornal diário descartado após sua leitura. Não há um mundo para mim, sem que exista você, meu amor, é por isso que fiz o que fiz. É por isso que escrevo-te agora, implorando-o para que me esqueça. Esqueça-me como pessoa, esqueça-me como figura, mas não esqueça-te do meu amor.
Durante minha vida inteira, viajei por cidades e lugares buscando algum significado que pudesse oferecer-me um desejo a mais para manter-me a este mundo. Sua mãe chamava-me de pessimista, e porventura talvez esta tenha sido apenas minha contribuição, mas pode chamar-me de equivocado quando digo que não há nada neste mundo que seja redimível de salvação? Há crueldade demais, meu amor, ganância demais. Vejo homens deploráveis conquistando o mundo apenas porque possuem o nome correto e a quantia correta. Vejo-os pelos fracassos que são, ditando palavras crueis apenas para alimentarem seus egos. Não oferecem nada se não escárnio, desalento. Como posso querer salvar isso? Que os deixem se destruir. Ao fim de tudo, sobre apenas destruição, de qualquer forma. Mas entre o mundo e você, sempre escolhi, e sempre irei escolher você. Minha doce menina, de teimosia incomparável e riso frouxo. Perdoe-me minha , pela sina que lhe confiei, ainda que sem intenção alguma.
Encontro-me em paz.
Não quero salvação, não quero que perca seu tempo buscando uma forma de me salvar, pois sei que não mereço-a. Construí o caminho que guia-me para minha cova. Não temo a morte, pois sei que há coisas piores por aí. Temo é prejudicar a sua vida, meu amor. Temo que meus erros voltem a assombrá-la e que de mesmo destino sua vida siga a minha. É por isso que rogo-lhe para que apague minha existência de sua vida. Tome o nome de Sharp, se necessário, sua mãe e eu preparamos uma conta sob a alcunha de Marie Goldstein, use-a para comprar passagens, vá para a América se assim desejar, ou para qualquer outro lugar no mundo que aclame por seu coração. Confie em Sharp, ele irá lhe auxiliar, e nunca se esqueça meu amor, que embora minhas falhas sejam em demasia, a única coisa que nunca acreditei e que nunca foi um erro a mim: é você.

Perdoe-me, meu amor, pelas falhas que nunca pude consertar. Por ter sido teu pai.
Com amor, Leon.



Sua garganta parecia estar inchada quando terminou a leitura do papel amassado e escrito às pressas com sangue. Até pensou em questionar Professor Sharp como ele havia conseguido aquela carta, mas reconsiderou no segundo que o olhar do professor austero e distante tornou-se piedoso. Aesop Sharp poderia ser muitas coisas, mas raramente era sentimental, para que seus olhos tivessem suavizado e sua expressão se contorcido com uma de pesar, sabia perfeitamente a resposta que encontraria ali. Tomou-lhe a carta das mãos e sem mais palavras emaranhou-se pelas escadas que se moviam dos corredores, perdeu-se antes que pudesse perceber, mas por sorte não estava assim tão longe das masmorras para que encontrasse o quarto que dividia com mais duas amigas da Sonserina. Não poderia dizer que eram assim tão próximas de si, mas certamente eram uma presença constante na vida de . Ivy Locke era uma garota de cabelos longos e ruivos, presos em um coque baixo cuidadosamente impecável. Já Isolde Razor, possuía olhos grandes e expressivos, e um rosto sardento apesar dos cabelos escuros como a noite, trançados em uma única trança que chegava a altura de sua cintura. Não eram pessoas ruins, na verdade, cuidavam de , especialmente quando esta tinha algum pesadelo, e gostavam de passar tempo conversando com ela se estivesse inclinada a fazê-lo, mas a mancha que havia lhe deixado era o suficiente para que, mesmo em sua ausência, fosse temido aproximar-se dela.
Para o alívio de , seu quarto estava vazio. As meninas muito provavelmente já haviam preparado-se para seguir para Hogsmeade aquela manhã, para comprar mais algumas pegadinhas para colocar dentro dos doces que ofereceriam mais tarde durante o jantar de Halloween, quando adentrou o espaço com a respiração entrecortada. Ficou ali por consideráveis horas, sentada a frente da lareira, lutando contra as lágrimas ao observar a letra escrita por seu pai. O fizera com o próprio sangue, e isso fez com que se questionasse como o pai havia conseguido esconder papel dentro da cela que estava, como havia encontrado tempo de escrever aquela carta e enviá-la para Sharp. Agora tudo, o que a jovem conseguiu fazer foi rasgá-la, amassando-a e arremessando-a contra o fogo da lareira.
Apoiou os dois braços sobre os joelhos dobrados, a saia pesada escura do uniforme farfalhando quando ela puxou os joelhos mas contra o peito, escorando seu queixo sobre as costas da mão. Assistiu sem ver quando o fogo consumiu as palavras gentis de seu pai, sentindo uma mistura insuportável de fúria mal contida e tristeza profunda. Uma parte de si queria aceitar o pedido do pai, seria tão mais fácil se ela simplesmente se esquecesse completamente de quem ele havia sido. Seria tão mais simples se ela apenas admitisse para si mesma que o pai era um maluco, e que os rumores que se espalhavam pelos corredores de Hogwarts, ou onde quer que ela fosse, eram verdadeiros… seria tão mais fácil se seu pai fosse o monstro que todos acreditavam ser. Mas ele não era.
Leon era o melhor homem que já havia conhecido. Por trás do rosto com uma barba grossa e pesada, com o bigode levemente curvado para cima porque adorava aquele estilo antiquado, e do olhar severo, que parecia enxergar até mesmo a alma de quem dirigia-se a ele, havia um grande homem carinhoso. Era o pai quem havia cuidado dela desde a morte prematura de sua mãe, era ele que cozinhava, que aprendeu a costurar os vestidos, que ensinara a fazer tudo, e quem lia com um tom arrastado e quase sonolento seu livro preferido. Era o pai quem oferecia-lhe dinheiro para comprar laços novos, e até mesmo levava-a para comprar vestidos novos quando seus antigos eram já puídos. Ele fazia questão de levá-la para caminhar, e de explicar que embora muitas pessoas pudessem dizer que era equivocado, especialmente sendo uma mulher, o pensamento de que a curiosidade poderia ser perigosa: a curiosidade era o que levava a descoberta, e toda descoberta era um novo conhecimento. Não havia como arrepender-se de conhecer algo. Não havia arrependimento em aprender alguma coisa, boa ou ruim, não importava, aprendizado, em toda sua forma, era bom.
Era o pai que murmurava ritmos estranhos enquanto analisava alguma criatura com cuidado e fazia anotações em seus cadernos. Era o pai que recolhia as melhores maçãs do pomar ao fundo da casa e oferecia-lhe as melhores. Era o pai que havia guiado-a desde que ela se conhecia por gente, e era o pai que havia lhe prometido uma vida nova em um mundo desconhecido. Mas era igualmente, este mesmo homem, um monstro.
havia passado muito tempo tentando conciliar as duas facetas do homem. O que ela conhecia, e o que via no Profeta Diário descrito com tamanho desprezo e desdém. Um Auror maluco corroído pelo próprio luto que fora capaz de transformar-se em um monstro para trazer a amada de volta. Seu pai era um homem de poucos amores, porém profundos, tinha o receio de que muito provavelmente havia herdado esta maldição dele também, mas ele não era um assassino sem motivo. Era a isso que apegava-se, e talvez, por isso, ela estivesse desesperada para conseguir provar a verdade sobre seu pai para os outros. Provar que ele era melhor do que acreditavam, que todo aquele processo, que sua prisão, havia sido na verdade injusta e vingativa. Mas ela não mais possuía provas o suficiente. Não mais possuía tempo.
Trincando os dentes com um estalo alto, prendeu sua respiração ao alcançar o jornal daquele dia. A manchete principal, com a tinta preta gritante contrastando com a tinta preta gritante contrastando contra o material cinza tornava sua exclamação inegável: JULGAMENTO DE BRUXO DAS TREVAS, LEON VAN DER LEYEN É FINALIZADO. EXECUÇÃO IRÁ ACONTECER AO FIM DO PRÓXIMO MÊS! Ao centro da página, a foto atualizada de seu pai, usada para a identificação de Azkaban, movia-se de um lado para o outro. Virou o rosto para a esquerda, então para frente, os olhos distantes, nebulosos, como ela lembrava-se de que ficavam ao perder-se em pensamentos no aniversário de morte de Clarice, sua mãe. A barba possuía um buraco na altura da mandíbula, como se tivesse sido arrancada com violência, e o sangue parecia seco sobre a pele. Tatuagens que não lhe eram muito características espalhavam-se por seu corpo, marcas enfeitiçadas e o que mais que poderiam fazer em Azkaban para manter os detentos presos. Seu pai era tormenta, era caos e destruição, mas havia algo no olhar dele, uma resignação que era quase insuportável. A fez ficar furiosa por perceber a resignação ali.
Não era ele que dizia a ela para levantar-se quantas vezes necessário até conseguir chegar ao fim de algo? Não era ele que dizia a ela para continuar caminhando mesmo quando seus pés estivessem cobertos por calos e esfolados até a carne? Que diabos então, aquele maldito homem poderia ter encontrado dentro de si para aceitar sua própria morte? Porque ele não estava lutando?! Por que ele estava escolhendo deixá-la para trás?! A pressão das lágrimas por trás de seus olhos e a contração em sua garganta, obrigou-a rasgar o jornal o mais rápido possível e então arremessá-lo também ao fogo. Com isso feito, abraçou um pouco mais forte os joelhos, antes de enterrar sua testa ali, segurando com mãos trêmulas as mechas que haviam desalinhado-se de seu penteado padrão.
Como poderia salvar alguém que não desejava ser salvo? E como, porventura, ela poderia aceitar tal destino sem lutar por ele? Como ele poderia dizer a ela para esquecê-lo quando era a primeira coisa que pensava ao acordar, e a última, antes de dormir? Como poderia viver com uma consciência limpa e tranquila, se a única pessoa que a amava, estivesse esvaindo-se por seus dedos como areia, desfazendo-se ao vazio, sem que ela ao menos pudesse segurá-lo por mais um segundo?
Um ruído familiar ecoou pela janela de Isolde, sempre aberta. não virou-se na direção de onde o ruído ecoou. O grasnado de um corvo, é claro, pairou pelo quarto, enquanto o animalzinho de pelagem escura repousou sobre sua mesa, tentando chamar-lhe a atenção. Ela sabia quem a criatura era antes mesmo que ele se destransformar, jogando-se em sua cama, o cheiro que misturava-se pinho e limão, com algo mais fresco espalhou-se por sua esquerda, invadindo-lhe as narinas sem muitos problemas, quando deitou-se em sua cama, como se esta lhe pertencesse. Os cabelos desalinhados, revelavam que ele mal havia terminado de se arrumar antes de transfigurar-se em sua forma animaga e voar para o quarto de .
As regras dos dormitórios de Hogwarts eram claras: nem um menino deveria ultrapassar as divisões onde os dormitórios femininos se iniciavam, e vice versa; além de um completo indecoro e risco a destruição completa da reputação de uma dama, era igualmente relativo a expulsão imediata se um destes alunos rebeldes o fizesse. Mas nunca havia se importado com aquela regra. O garoto que dormia em um quarto isolado dos outros, próximo do almoxarifado do que dos espaços comunais da casa, conseguia esgueirar-se pelos buracos que abriam-se entre as paredes de pedras do castelo, e usá-los para sobrevoar até as janelas. Empoleirava-se muitas vezes na mesa ou na janela de , disfarçado de um corvo, enquanto Ivy fazia piada, dizendo que, se estivessem em Durmstrang então ela seria vista como uma agourenta, ou uma bruxa em contato direto com Odin, o Pai de Todos. Corvos eram sempre sinais de previsões futuras, na maioria das vezes, avisos de uma morte em potencial a aproximar-se, mas sabia que era apenas , querendo fazer-lhe companhia. Posteriormente, quando estivessem caminhando pelos corredores, soltava uma risada alta e gostosa, deleitando-se com a peripécia.
, na maioria das vezes, gostava da risada de : era algo raro de se ouvir, especialmente no último ano, quando o irmão gêmeo dele foi enviado para longe, mas quando o fazia, conseguia iluminar o lugar que estavam. Mas hoje, o som de seu riso suave, pouco tivera efeito para a brasileira que continuou encarando a lareira a sua frente. Continuou lutando contra as próprias lágrimas com determinação.
— Soube que os Lufanos estão preparando algum tipo de celebração após o toque de recolher na Floresta Proibida — confidenciou com um sorriso torto, ajeitando-se na cama de e então alçando um bichinho de pelúcia, uma cobra preta feita de pano que ela havia ganhado de presente do Professor Sharp como uma tentativa patética de conexão. A cobra era ridícula, faltava um olho, e era para uma criança de 6 anos, e não uma jovem de quase 18 anos agora, mas era o gesto de Aesop que havia tornado-a sua preferida. Ninguém lembrava-se mais de seu aniversário, com exceção do professor, e o fato de que ele tomara seu tempo para comprar-lhe uma lembrança, a fizera sentir tanta falta de casa. enrolou a cobra em seu pescoço, como um cachecol e então virou o rosto na direção de , os olhos cintilando com travessuras não ditas. — De fato, Horatio me chamou para participar, estão planejando roubar algumas comidas da cozinha, o que certamente fará com que o Diretor Black tenha mais uma síncope, particularmente, estou interessado em ver esse desfecho. Horatio me disse que, se eu quiser, posso levar mais alguém — conteve um sorriso para o rosto deformado da cobra, voltando-o para si mesmo, antes de, movendo-a como um fantoche, apontá-lo para . — Então você irá comigo. Não é um pedido, é uma convocação. O que acha?
não respondeu. Não teve coragem, sabia que se abrisse a boca para dizer algo, perceberia de imediato que ela estava prestes a debulhar-se em lágrimas. Seu silêncio, todavia, foi uma resposta para o jovem , igualmente. suspirou pesado, voltando o rosto de pano da cobra para si mesmo, arrancando uma linha perdida, mais pelo hábito do que por qualquer coisa, antes de deixar de lado, arrastando-se para a lateral da cama e sentando-se ao chão ao lado de . Assim tão de perto, ele cheirava a pinho, e sabonete de limão. Ela nunca havia entendido porque ele gostava de limão tanto assim, mas quando ele lhe respondia, dizia apenas: “as coisas mais amargas são as mais doces” como se isso fosse explicar tudo. Um poeta terrível, mas não menos esforçado. uniu as sobrancelhas, voltando seu olhar para a lareira em que o fogo crepitava.
— Soube o que aconteceu — disse, sua voz envolta por uma compaixão que, em outro momento, teria feito rosnar com um severo “eu não preciso da sua piedade”, mas vindo de , tudo o que a fez foi engolir em seco, audivelmente, apertando os lábios com força. — Sinto muito, voltou a linha de seu olhar para , em um aviso silencioso, não pareceu intimidado, apenas sustentou o olhar dela com pesar. — Quer falar sobre?
— Se disser mais alguma coisa, eu vou te socar — avisou com a voz embargada, e estreitou os olhos, mas então deu de ombros.
— Vá em frente então, se vai ajudar, me acerta, será bom ter algum uso para mim afinal — Alçou dos cabelos de um pequeno graveto, girando-o em seus dedos por uma fração de segundos, antes de arremessá-lo em direção do fogo. piscou, levando as mãos em direção as mechas desalinhadas de seus cabelos, verificando se teria mais uma vez folhas e gravetos por ter disparado pelos corredores externos de Hogwarts com uma mente fixa na tarefa em mãos para reparar no que esbarrava e trazia consigo, ou se , sendo a criatura insuportável que era, havia escondido o galho na manga de sua blusa de linho branca, até aproximar-se dela e fingir que estava preso em seus cabelos. O truque de mágica era comum para trouxas, em sua maioria, os encantavam como a promessa de realização de seus desejos mais íntimos, mas para bruxos, que estavam acostumados com a mais pura magia, tendia a ser apenas irritante, na maioria das vezes. — Achei que Pettigrew havia dito que a ajudaria a… — pausou por uma fração de segundos, parecendo escolher suas palavras com cuidado. o fuzilou com o olhar, mas , novamente, parecia indiferente com o olhar mortal que recebera. — Ele não teria ao menos provas o suficiente para conseguir se atrasar…
— Deveria — ela murmurou com um tom de voz baixo, inspirando fundo antes de, deixar sua cabeça pender para trás, escorando-se contra a estrutura de metal da cama atrás de si, e unindo as sobrancelhas. Observou as próprias mãos com fadiga, os dedos ocultos pelas luvas de renda criavam uma textura desconfortável e familiar. O tradicionalismo britânico e sua propriedade em postura e vestimentas as vezes incomodava-lhe em demasia, afinal, ela precisava estar coberta da cabeça aos pés, mas podia andar por aí com uma camisa entreaberta, cabelos desalinhados, e sapatos sujos que no máximo, seria considerado um garoto só. Sentiu vontade de mordê-lo, ainda que não tivesse uma explicação lógica para isso, ao em vez disso revirou os olhos, quando o olhar dele voltou-se para seu rosto. — Mas já deveria ter desconfiado que seria apenas um charlatão qualquer, quer dizer, desapareceu a duas semanas, , e mesmo que consiga encontrá-lo, já não mais faz diferença. O julgamento acabou, vão executá-lo de qualquer maneira.
não respondeu, havia lido o jornal aquela manhã, não precisava que ela explicasse a situação do pai dela para que ele soubesse o que estava acontecendo. Moveu a mandíbula, unindo as sobrancelhas, arrancando distraidamente as peles que erguiam-se ao redor de suas unhas, contemplativo. A dor aguda que espalhou-se pelos dedos foi completamente ignorada enquanto sua mente parecia estar maquinando seus próprios interesses, seus próprios planos pessoais.
— Você ainda tem um mês, — murmurou com um tom de voz baixo e determinado. uniu as sobrancelhas, voltando a encará-lo com uma ponta de irritação, e, por mais que não desejasse admitir, interesse. a encarou de volta, algo pairando em seus olhos intensos. Era sempre curioso observar o tom de suas íris em contraste com a pele pálida que o possuía. Os gêmeos tinham os mesmos cabelos pálidos, mas os de era mais loiros do que os de , tinham o mesmo formato de rosto, embora os de fossem mais delicados, finos e elegantes, como uma ave de rapina, mas eram os olhos que se diferenciavam em demasia, enquanto os de eram uma tonalidade escura como piche, os de eram puxados para um esverdeado escuro, às vezes, caramelo profundo. Eram olhos que ela havia acostumado-se a ver com frequência, mas que não deixavam de incomodá-la, por algum motivo que não desejava verificar a fundo.
, não começa…
— Estou falando sério — cortou a amiga, inclinando-se em sua direção e tomando-lhe em suas mãos a dela com um aperto firme. — Ainda um mês até a execução do seu pai, há tempo desejou acertá-lo com um soco no estômago, mas não fez nada, pois uma parte de si, estava seguindo a lógica de . Era falha, desesperada e ridícula, como agarrar-se com uma lâmina afiada em um abraço mortal, a lâmina sempre iria cravar-se em sua pele, sempre deixaria um rastro de cortes e sangue a se limpar, e acreditar que aquilo estava a salvando. Era estupidez pura, mas igualmente, tudo o que lhe restava. Esperança, percebeu com aflição, era uma das piores coisas a se sentir; mesmo no desespero havia esperança, o desejo por encontrar uma saída de uma situação impossível. Era inevitável a quebra de seu coração, mas se ainda havia uma chance, por que não tentar? Custasse o que custasse! — Ouça, dane-se Pettigrew e suas falsas promessas. Vamos nós dois! Mesmo que ele tenha desaparecido sem maiores informações, sua casa ainda encontra-se em Hogsmeade, não? Ainda há maneira de encontrar algo relevante! Podemos começar por lá, e seu pai não possuía outros contatos além de Sharp? Talvez, se nós repassarmos de novo, possamos encontrar algo relevante, não custa nada ao menos tentar, certo?
— Não vai funcionar, , já tentamos fazer isso antes — ela retorquiu, pausou por um momento, antes de negar com a cabeça veemente. Puxou sua mão de volta, à renda delicada enroscou-se com os calos das mãos dele, acabando por ficar levemente entortada, obrigando-a a ajustá-la novamente. Uniu as sobrancelhas, trincando a mandíbula com mais força do que deveria, os olhos fixos nos aspectos florais dos fios trançados delicadamente pela renda. — Há um ano atrás? Nós tentamos, , e veja no que deu! Se não tivesse aparecido lá talvez… talvez tivesse conseguido encontrar as respostas que procuro, mas ele quase destruiu tudo! O que acha que irá acontecer desta vez?
Algo atravessou a expressão de , algo sombrio e ruim. Os olhos pareciam escurecer-se com uma profunda irritação controlada, as narinas dilataram-se levemente, enquanto sua respiração tornava-se mais pesada e vagarosa. Os lábios se apertaram em uma linha rígida, tensa, e a mandíbula, travou-se. Era uma expressão que viera a perceber com mais frequência na expressão do amigo; sempre parecia adquirir uma nota sombria, para além de ressentida quando o nome do gêmeo era mencionado. não poderia dizer que compreendia o que o amigo sentia, não poderia dizer que lhe simpatizava completamente pela situação, mas podia, devidamente, entender que a conexão entre os dois irmãos fosse mais profunda do que qualquer outra coisa que viria a sentir. Nunca houve um mundo em que não existisse junto com , e vice versa, talvez, esse fosse o problema, o fato de que um poderia ser considerado o espelho do outro. Que eram uma alma, ao mesmo tempo que eram duas pessoas completamente diferentes. Questionou-se novamente, o quão profundo poderia ser a raiva que possuía do gêmeo, e se teria capacidade de fazer algo definitivo contra o irmão — não tinha dúvidas que, para a última, a resposta, certamente, era sim.
poderia destruir qualquer um que desejasse o fazer.
não está aqui agora — murmurou com um tom de voz amargo, como sempre acontecia quando o gêmeo dele era mencionado. estreitou os olhos, observando o rosto anguloso do rapaz por um longo momento. Os cabelos haviam crescido mais naquele último outono, adornavam seu rosto com mais segurança, quase o fazia parecer-se com um homem já. Costeletas envolviam e acentuavam a mandíbula bem definida, e ela sabia que ele estava tentando crescer um bigode fazia meses embora não fosse lá essas coisas. A gola de sua camisa de linho estava erguida, projetando sombras pelo pescoço pálido. — E mesmo se estivesse, não vou deixar que se aproxime de você outra vez, terá que passar por meu cadáver — abriu a boca para respondê-lo, mas o olhar que lhe lançou a fez calar-se com um estalo. Não havia como discutir com quando os dois sabiam exatamente o que havia acontecido naquela maldita noite. — Vou proteger você, não há porque se preocupar com .
moveu a mandíbula sem ter certeza de que gostaria de dizer a que, talvez, ele estivesse tão equivocado quanto ela por acreditar que alguém conseguiria colocar-se entre e o que sua crueldade era capaz de alcançar. Mesmo que ele não estivesse ali, a sombra dele ainda pairava como um fantasma pela mente dos alunos, mesmo os novatos, as crianças do primeiro ano, pareciam ouvir burburinhos dos mais velhos e temer aproximar-se dos outrora amigos de .
— É arriscado — tentou argumentar, e abriu um sorriso torto, lançando-lhe um olhar. revirou os olhos.
— Desde quando você se importa com riscos? — Para esta pergunta ela não tinha contraponto, apenas aceitação.
— Quando faremos isso? — exalou, desistente em argumentar com , e apenas aceitando a ajuda do melhor amigo.
— O quanto antes! Essa noite? Vamos usar a festa da Lufa-lufa como desculpa para escapar do castelo. Eu dúvido de qualquer forma que alguém vá perceber — murmurou com um tom animado, e ela se questionou se ele sequer percebia o que poderia acontecer de errado naquela noite. Primeiro que a Floresta Proibida possuía esse nome por um motivo, segundo porque embora o Diretor Black fosse amigo próximo da família de , ele não hesitaria em expulsar , e terceiro… não era justo que ele fosse tão bom para ela… — Então, você quer que eu te empreste mais uma calça, acho que usar saia para correr por sua vida no meio da floresta vai ser uma péssima ideia, mas eu posso usar uma se quiser, por… propósitos científicos como… — começou a dizer, antes de abruptamente se interromper, arregalando os olhos com o barulho da tranca da porta do quarto de sendo aberta.
arregalou os olhos, praguejando entre dentes, levantando-se de supetão. Tão rápido que acabou derrubando um dos castiçais que mantinha repousado em sua mesa. Inclinou-se para alcançar o objeto no momento que se lançou em direção ao chão, derrubando-a consigo. desabou no chão com um grunhido baixo, sobre as pernas de , levando uma joelhada dolorida no abdômen, enquanto o melhor amigo atrapalhou-se com suas saias. soltou um ruído inteligível, talvez de surpresa ou até mesmo desespero por ter visto mais do que deveria das pernas da amiga, mas não teve tempo para registrar o que havia acabado de ver, porque já estava empurrando-o para debaixo de sua cama. sufocou um grunhido de dor, meio rindo de desespero, meio grunhido quando a cabeça dele acertou a lateral da cama, um barulho oco escapou, que quase fez rir — a cabeça de era mesmo oca, huh?
Puxando as cobertas de sua cama para baixo, em uma falha tentativa de ocultar abaixo de sua cama, sentiu quando a mão calejada do melhor amigo envolveu, por instinto, seu tornozelo, apertando-o em um silencioso aviso, prendendo-a no lugar. prendeu a respiração por instinto. Ajustou as saias de seu vestido rapidamente, voltando-se na direção da porta em que Celine, uma das monitoras da Sonserina, com rosto anguloso e nariz aquilino, encontrava-se, braços cruzados e olhar inquisidor, pouco amigável. Por um segundo, considerou se Celine iria perceber como suas mãos haviam se fechado atrás de suas costas, com mais força que necessário, como havia prendido sua respiração com a tensão montante que espelhava-se por seu corpo. Perguntou-se acaso ela perceberia que estava mentindo, se não tivesse treinado por tanto tempo a frente do espelho como controlar as emoções de seu rosto, como poderia sentir o medo sem que estivesse evidente em seu rosto. Para seu completo alívio, Celine não parecia nem um pouco interessada no que quer que se passasse na mente de .
, Diretor Black quer falar com você — disse com um tom de voz esganiçado familiar. uniu as sobrancelhas, considerando questioná-la o que diabos poderia ser, mas descartou a ideia de imediato. Assentiu para a outra garota, antes de vê-la fechar a porta atrás de si, deixando-a novamente sozinha em seu quarto.
Foi somente quando tivera certeza de que Celine estava longe o suficiente, que ajudou arrastar-se para fora de sua cama. O rapaz estava uma completa bagunça, os cabelos desalinhados pareciam ter desenvolvido uma pequena camada de poeira, e ele tinha um papel em sua mão esquerda. Os olhos estavam cintilando como os de um gato que havia acabado de encontrar um novelo de lã para brincar.
— Escreve poesia desde quando? — Pontuou com um sorriso torto, soltando um riso baixo, quando tentou alcançar o pedaço de papel. estendeu o braço para longe da brasileira, mantendo-o no ar sob a cabeça dela, em uma altura que não conseguiria pegar sem ter que, primeiro, derrubá-lo. era apenas três centímetros mais alto do que ela, considerada com uma altura mediana, era Ivy quem possuía a estatura apreciada pela sociedade, não , mas esses três centímetros de era sempre algo que o fazia gabar-se. Se pudesse atormentar de qualquer mísera forma, então o faria de bom grado. — Não! Essa aqui é minha, não vou devolver! — disse com um riso, guardando o papel dentro do bolso de sua calça, parecendo sentir-se satisfeito o suficiente em ver a amiga corada e com os olhos irritados. Com um suspiro pesado, passou a mão esquerda pelos cabelos, tentando livrar-se da fina camada de poeira que pairava por seus ombros e cabelos. — O que diabos Black pode querer com você?
— Se eu soubesse te falaria — retorquiu sarcástica, e a encarou por um longo momento em silêncio. — Meu pai?
estreitou os olhos, contemplativo.
— Duvido muito, ele teve quase um ano para sequer considerar te dizer alguma palavra de condolência, mas seja o que for, é melhor você tomar cuidado — murmurou com um tom de voz mais pesado, pensativo, como se estivesse analisando muito de perto fragmentos de um quebra-cabeça que sequer havia começado a entender ainda. — Não confie em Black. Ou no que quer que ele diga a você, tenho a sensação que há algum dedo de meu pai nisso tudo. Vou esperar você do lado de fora, certo?

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O cheiro de abóbora acompanhou-a como um fantasma brincalhão pelos corredores de Hogwarts. As lanternas enfeitando as paredes e o chão criavam uma ambientação quase festiva, algumas pairavam pelos ares, já acesas com seus sorrisos largos e olhos vazados, espiralando pelos ares, um pouco mais acima das velas dispostas em castiçais espalhados por entre as armaduras enfeitiçadas. podia ver alguns alunos da Grifinória escondendo alguns doces em seus bolsos e entregando discretamente para alunos mais novos; para um feriado considerado trouxa, havia considerável comoção em comemorá-lo por ali. A verdade era que o feriado, visto apenas como uma data comemorativa para alguns trouxas, realmente possuía cunho mágico, e realmente oferecia energia o suficiente para que fantasmas andassem por entre os corredores de Hogwarts. Ela sabia que, em algum lugar abaixo das masmorras um pouco além da cozinha e de onde a Lufa-Lufa dormia, havia um salão onde os fantasmas se encontravam para seu “baile anual”. Se Diretor Black sabia ou não, não poderia dizer, mas podia ouvir os espectros murmurando entre si sobre as preparações.
Quando era mais nova, considerou convencer Nick Sem Cabeça a contar-lhe para onde diabos estava indo, se o fizesse ela trocaria por um dos muitos segredos que sabia, mas na época, como uma novata e sem ter ideia de como sobreviver sem a presença do pai, Nick Sem Cabeça havia gentilmente dito-lhe que não contaria até o dia que ela estivesse preparada para saber. Seja lá o que diabos fosse, ela provavelmente nunca conseguiu estar preparada o suficiente para descobrir o que acontecia no baile dos fantasmas, porque ele nunca mais lhe contou nada sobre. Tentou não revirar os olhos com as vozes animadas e os planejamentos para a noite. Não era comum que comemorassem tradições trouxas, mas era comum que os alunos dessem suas próprias formas para conseguir fazer o que queriam. E onde havia Lufanos, havia caos o suficiente para demolir parte de Hogwarts inteira, onde havia Grifinórios, então haveria a certeza de que destruiriam o restante.
Forçando um sorriso para Weasley quando este lhe estendeu uma barrinha de chocolate, tentou lembrar qualquer desculpa possível para recusar o doce, mas no pânico, acabou aceitando-o com um sorriso desconfortável. Levou o objeto em direção ao nariz, inspirando seu cheiro, tentando se certificar de que não haveria nada ali, mais pela preocupação e paranoia que havia nascido com a presença de do que qualquer outra coisa, antes de puxar as saias de seu vestido para cima, junto com as anáguas, e subir as escadas o mais rápido que conseguia. Não era que o salto fosse desconfortável: seus sapatos estavam velhos demais, e ela não tinha previsão alguma de comprar novos assim tão cedo. Virou a esquerda, e então a direita, subindo mais um lance de escadas em caracol, alcançando uma das torres de Hogwarts, onde a sala do Diretor encontrava-se. Os olhos de percorreram por instinto os rostos que estavam ali.
Alguns professores, é claro, incluindo Professor Fig com suas costeletas desalinhadas e levemente eriçadas, cabelos brancos como fios de prata, olhos profundos e sorriso amigável, porém sempre pensativo. Era um bom homem, gentil até que havia lhe estendido uma compreensão que não havia encontrado em muitas outras pessoas. Talvez, ainda reservado e perdido em seus próprios pensamentos para que se sentisse confortável em questionar-lhe algo que poderia atrapalhá-lo, mas cuja presença conseguia ser surpreendentemente apaziguadora. tencionou a mandíbula, parando a frente da porta dupla de carvalho antigo, a tranca grossa formava um círculo de vinhas e espinhos se conectando entre si, com o desenho entranhado cuidadoso de uma trifecta. havia ouvido falar do símbolo em um outro momento, algo distante que não lhe cobraria na memória agora, mas sabia que deveria significar algo entre equilíbrio e a conexão de um deus com um humano. Achou curioso que logo o Diretor Black poderia apegar-se a este tipo de simbologia.
Se havia algo que seu pai havia lhe ensinado era que: quando desprovido de algo que não poderia ser ter, dois resultados surgiram, ou a obsessão inerente de conquistar o que lhe foi negado, ou o completo desprezo e repúdio pelo o que não possuía. costumava a pensar que pessoas não-mágicas possuíam este certo repúdio para tudo o que lhe era diferente puramente porque não poderiam ser como; e aqueles que eram obcecados com esoterismo, bem, era perceptível o desejo de conectar-se com a magia como os bruxos o faziam.
Tantas regras incorporando aquele mundo, tantas linhas a serem seguidas sem hesitação para que a ganância e o desejo de superioridade de homens como Black fossem os responsáveis por ditar quem permanecia vivo e quem era executado após anos de um julgamento injusto. engoliu em seco, balançando sua cabeça, tentando afastar de sua mente o sentimento de revolta que começava a aflorar-se em seu peito. Não poderia deixar-se influenciar por suas emoções, não quando estava prestes a enfrentar o Diretor Black, e o que quer que o homem desejava tratar com ela.
— Diretor Black, fui informada que o senhor queria falar comigo… — começou a dizer após adentrar ao escritório do direito, hesitante. Os olhos desviaram-se da porta, e sua tranca viva, observando-a deslizar pela estrutura de carvalho maciça, de volta a sua posição inicial com cliques mecânicos, antes de voltar sua atenção na direção onde a mesa de mogno do diretor encontrava-se. Das quinquilharias que exibia, poucas poderiam ser dignas de nota: livros antigos, jaulas esvaziadas, alguns materiais de Professor Fig para as próximas aulas dos alunos menores, e até mesmo uma lista de afazeres riscados por uma caneta enfeitiçada. Um tabuleiro de xadrez bruxo encontrava-se apoiado em uma pequena mesa de centro próximo da lareira larga e uma janela adornada vitoriana, dava uma visão ampla para os campos de Quadribol onde ao longe quase podia ver sem muita dificuldade alguns alunos preparando-se para jogar; Moriarty e Dorian estavam lá. Eram batedores, o que fazia com que o clichê de suas histórias se tornassem mais entediantes. Ela se questionou como eles deveriam se sentir agora, após um ano, sem a companhia do líder para protegê-los. Sabia com perfeita consciência que ainda se escondiam na sombra de , mas certamente, já não deveria ser mais assim tão relevante para…
Um cheiro familiar atingiu seu nariz, congelando-a no lugar. O aroma era permeado por sândalo, terra molhada e algo pungente como ferro, levou um momento para que ela percebesse o que era: sangue. Seus olhos desviaram-se das parafernalhas de Diretor Black para repousar na figura inclinada à esquerda, sentada na cadeira à frente da mesa do Diretor, encarando-a em um silêncio gritante. Gelo percorreu como lascas grossas e afiadas pela corrente sanguínea dela, o tremor cresceu por seus braços, percorrendo como descargas elétricas sua corrente sanguínea enquanto os dedos apertavam com mais força as saias de seu vestido. O espartilho que adornava seu tronco, pareceu apertar ainda mais seu tronco, os arames fincando-se contra a pele, mesmo que fossem confortáveis.
— Foi você…? — Ela começou a dizer, em uma acusação silenciosa, tentando compreender como ela poderia ter caído em mais uma das armadilhas dele. O único olho bom do rapaz cintilou com algo quente, terrivelmente familiar, raiva pura, mas algo mais pareceu encobrir sua expressão, algo perigoso, mais latente.
— A chamei aqui? — retorquiu com um tom de voz traiçoeiro, venenoso. trincou os dentes com força, erguendo o queixo de forma desafiadora embora houvesse uma nota de incerteza pairando por seus olhos. Ela prendeu a respiração, engolindo em seco, dando um passo instintivo para trás quando o rapaz colocou-se de pé. — Porque diabos a primeira pessoa que desejaria ver seria justamente uma traidora tão baixa quanto você, ? — Na boca dele, seu nome havia tomado uma conotação quase ofensiva. teve vontade de rir. — Você superestima seu valor, sabe? Seria quase engraçado, se não fosse patético.
soltou um chiado entre dentes, obrigando-se a ficar parada quando viu dar um passo em sua direção. O garoto havia mudado consideravelmente da imagem que ela tinha dele de um ano atrás na mente; ou talvez, ela tivesse apenas convenientemente obrigado-se a esquecer-se. Estava bem mais alto, talvez maior do que , os cabelos bem aparados, penteados para trás embora as mechas na altura de sua maçã do rosto ainda pendesse por seu rosto dolorosamente cruel e bonito. As cicatrizes que envolviam a pele pálida haviam se curado para linhas discretas prateadas profundas, o olho leitoso, movia-se estranhamente acompanhando o outro olho bom, mas ela duvidava que ele pudesse enxergar corretamente. A mandíbula bem pronunciada parecia estar mais afiada. Estava mais magro, esguio, mas não era menos forte. O colete escuro como a íris de piche dele estava impecável, um relógio de bolso cuidadosamente repousado dentro do bolso interno, e as mangas de sua camisa branca de linho arregaçadas até os cotovelos, revelando antebraços fortes e firmes, mais cicatrizes condecoravam a pele delicada. engoliu em seco, seu olhar repousando na varinha presa na lateral do quadril dele. Sob alcance da mão.
Uniu as sobrancelhas, tardiamente reconhecendo a postura, o gesto. havia se tornado um duelista. Medo pareceu corroer suas entranhas quando ela deu mais um passo para trás, os olhos arregalaram-se ao encarar o sorriso torto, quase satisfeito que pairou pelo semblante do rapaz.
— Posso ver que está tensa, trincou os dentes com força, para não retorquir a ele que não ousasse chamá-la, mas suas palavras fugiram de sua garganta quando ele deu mais um passo em sua direção. Sentiu o impulso de virar-se em direção a porta e correr, mas ele a alcançaria antes que ela conseguisse alcançar a tranca. Levou sua mão em direção ao cabelo, onde sua varinha permanecia como um adereço improvisado de cabelo, prendendo a respiração. — O que? Estou assustando você? — murmurou, a voz arrastada, não ocultava a satisfação que pairou em sua expressão.
— Você? — desdenhou, tentando conter o tremor que percorreu seu corpo. Para lançar-se da janela era ter a certeza de que acabaria alcançando o chão antes que pudesse dizer accio para qualquer porcaria de muro. Engoliu em seco, praguejando mentalmente Celine por tê-la atraído aquela merda de armadilha. Quando saísse daquela porcaria de sala, se saísse, Celine seria a primeira a quem responderia a ela. — O que há para temer em você, ? Se não sua própria mediocridade? — Forçou um sorriso, vendo que ao menos havia acertado onde lhe doía mais, seu ego.
— Vou matar você — pronunciou calmamente, frio como o metal de uma adaga. engoliu em seco, arregalando os olhos. Não era uma ameaça, nunca fazia ameaças; era uma promessa. Fria e calculada, um aviso do que ele iria fazer eventualmente, não do que ele queria fazer. Ela tremeu sem conseguir conter-se, e o sorriso de tornou-se mais afiado. — Vou aproveitar cada segundo.
estava prestes a desafiá-lo, prestes a retorquir suas palavras quando um pigarro ecoou atrás de si, e ela saltou para o lado sobressaltada. Levou a mão em direção a própria garganta, como se buscasse por proteção, apenas para deparar-se com os olhos estreitos do Diretor Phineas Black. Tratou-se de endireitar-se imediatamente, tentando manter o máximo de dignidade possível, tentando compreender o que diabos estava acontecendo ali. Porque ela havia sido convocada pelo Diretor de Hogwarts e porque os diabos estava ali.
— Muito bem, se já terminaram com os disparates infantis, sugiro que tomem seus lugares de uma vez, pois não tenho muito tempo, e há outros assuntos urgentes que demandam minha atenção. Senhorita , por favor — Diretor Black disse com um tom de voz firme e impaciente, antes de estender o braço na direção da cadeira ao lado de , silenciosamente obrigando-a a mover-se logo. Sendo a criatura teimosa que era, não moveu um músculo. Estreitou os olhos, encarando por um longo momento em silêncio o semblante do diretor antes de tencionar sua mandíbula, tentando manter sua voz o mais firme que conseguia.
— Primeiro diga porque nos convocou aqui!
Diretor Phineas Black pausou por um breve momento, avaliando-a com uma mistura de intensidade e desdém; sentiu o desconforto rastejar por sua pele como vermes. O suficiente para que ela tivesse que conter a urgência de sacudir-se.
— Receio que de todos aqui, você, Senhorita , seja a última que tenha direito a fazer demandas — Diretor Black retorquiu mais severo do que nunca havia referido-se a . A jovem estreitou os olhos, não era facilmente intimidada por palavras grosseiras, e hierarquias de poder soavam-lhe mais patéticas e inúteis do que qualquer outra coisa, mas ela era, igualmente, inteligente o suficiente para escolher seus oponentes. Ficar do lado ruim de Diretor Black, era dar a quaisquer vantagens possíveis. E se ela desejava continuar viva, então era melhor que ela não oferecesse nenhuma brecha para o maldito . Mantendo o queixo erguido, quase desafiador, puxou suas saias um pouco mais para cima, marchando em direção a cadeira ao lado de , ignorando-o estrategicamente, ao sentar-se à frente da mesa de Diretor Black. — Como já deve ter visto, o julgamento do seu pai foi encerrado esta manhã. Sinto muito por isso, Senhorita , sei que esta situação… — Diretor Black pausou por um momento, parecendo tentar buscar as palavras corretas e obrigou-se a manter neutra, os olhos fixos no mais velho, observando passar ao lado da mesa até que estivesse sentado na cadeira estofada de couro curtido e confortável a frente dos dois alunos. Black inclinou-se para frente, repousando os cotovelos sobre as mesas e livros de contas, unindo as duas mãos a frente de seu rosto enquanto sustentava o olhar de com falsa simpatia. — Pode ser um tanto quanto delicada a se navegar, mas a justiça, como um todo, deve sempre prevalecer.
bufou baixo, ao lado de , mas a jovem ignorou completamente a provocação velada. Manteve o olhar firme em Diretor Black, unindo as sobrancelhas. Se ele esperava uma resposta da brasileira, não a recebeu.
— Muito bem, que sejamos diretos então. Sua situação, embora complexa, é atestada em seu favor pelo Professor Sharp, e a palavra dele vale mais do que qualquer investigação feita pelo Ministério — Diretor Black disse parecendo desistir de sua falsa simpatia e simplesmente indo direto ao ponto. quase suspirou em alívio, odiava meias palavras, odiava essa maldita necessidade de tratar a tudo e a todos como se fossem de vidro; se havia algo a ser dito, que o fosse, consequências para o inferno. Ela poderia ser muita coisa, mas fraca para dor, não era, devido a isso, não precisava que parassem sua queda. — No entanto, com o julgamento de seu pai encerrado, o Ministério precisa seguir o protocolo de ação, e isso inclui colocar você sob inquisição oficial ao menos pelo mês que se seguirá.
piscou, sentindo o incômodo misturado com frustração corromper sua expressão neutra. Abriu os lábios para protestar, mas percebeu o erro que cometeria ao dizer alguma coisa, ao deixar-se levar por suas emoções ao lado de . Não, ela não poderia!...
— Isso significa?
— Significa que será… investigada pelo próximo mês, até que tudo tenha sido, devidamente, finalizado — Diretor Black pareceu escolher suas palavras com cuidado antes de deixar-se recostar contra a cadeira estofada, apoiando o queixo sobre a palma da mão, e o cotovelo dobrado da mesma mão sobre o encosto de braço do objeto. tencionou a mandíbula, sentindo a presença de como uma sombra projetada sobre si.
— Assumo que será um dos alunos do último ano que fará essa supervisão, não? — Embora fosse uma pergunta, seu tom amargo e irritadiço tornou sua frase em uma afirmação. De repente, as peças começaram a fazer mais sentido no tabuleiro que se estendia à sua frente. Na presença de ali. Diretor Black pareceu considerar por um longo momento as palavras de antes de assentir lentamente.
— O Senhor realmente fez um trabalho excelente em Durmstrang sob a supervisão de Dragomir Lazar. É graças a indicação de Lazar que o Ministério lhe entregou a tarefa — Diretor Black fez uma pausa, longa demais para que fosse confortável entre os dois estudantes da Sonserina. O ar pareceu pesar ao seu redor, como se tomado pela umidade de uma tempestade se aproximando. Quando voltou a falar, sua voz era mais baixa, cautelosa, estranhamente deferente a : — Como vocês dois possuem um histórico, gostaria de lembrá-los que quaisquer atos que violem a conduta de Hogwarts serão tratados com a severidade de suas punições. Mas tomem isso como uma nova oportunidade para deixar o passado para trás, e ficarem em seus futuros. Seria demasiado desnecessário expulsar um dos dois meramente por intrigas infantis. Estamos conversados, então?
abriu um sorriso discreto, elegante, destoante de toda sua postura, assentindo satisfeito com o Diretor antes de voltar-se na direção de , estendendo-lhe a mão.
— Espero que não leve para o lado pessoal, Senhorita — traiçoeiro como uma maldita cobra, o único olho bom dele pareceu cintilar com veneno puro. encarou a mão estendida dele sentindo seu estômago contorcer-se e a bile alcançar a ponta de sua língua. Os músculos de seu corpo se tencionaram, como se feitos de ferro, e ela só conseguiu encarar os dedos estendidos. Algo talhado na pele de pareceu reluzir no interior de seu pulso, algo que lembrava as palavras, mas que ela não conseguiu entender de imediato. não moveu um músculo, e isso apenas fez o sorriso perigoso de aumentar. — Não precisa temer, Senhorita , afinal, você não tem nada a esconder, certo?


Continua...


Nota da autora: Os enemies aqui são bem enemies tá? Então prepara que vai ser tóxico (a diferença aqui é que a PP não é songamonga e responde o Bully como uma boa brasileira que é fazendo MAIS Bully de volta então tecnicamente é um pior que o outro) vale salientar que SIM, os dois PPs tem medo um do outro, por isso a agressividade. Leia essa fic como uma original ok? Embora precise associar essa fic no universo “inspirado” (eu só queria escrever uma Dark Academia, mas não quero nunca mais escrever fics originais), porque acabaria sendo plágio se não fizesse, peço que desassocie essa obra dos livros e especialmente da desgraça de ser humano que “escreveu” os livros (que ela receba exatamente o que ela deseja as mulheres que ajudou financiar a destruição). Não pretendo seguir canons, não pretendo respeitar a obra original.

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