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Revisada por Nyx 🌙

Finalizada em: 12/06/2025

Lisboa, verão de 2019

Hilte era o que chamamos de solteiro incorrigível.

Filho único que havia crescido com os avós paternos, após perder os pais em um acidente de carro. De badboy conquistador no ensino médio à libertino das festas de fraternidade na Universidade do Porto no litoral de Portugal. Seu olhar distraído, seus gestos cavalheiros e sua sutil forma de fazer uma mulher se sentir à vontade perto dele, o tornaram um conquistador popular do campus.

Até que em um torneio de basquete entre os cursos de humanas e exatas, o caminho do rapaz cruzou com o da presidente do diretório acadêmico, Gregori. A aluna mais perfeccionista do curso de T.I e mais influente entre os professores. Seu futuro brilhante já estava traçado com uma proposta de efetivação após seu estágio na empresa Luke Software em Coimbra. Uma indicação infalível do coordenador do seu curso em conjunto com o reitor da universidade, afinal, para uma aluna tão aplicada que havia conquistado muitos prêmios e troféus para a Universidade.

E ?

Foram precisos dois semestres a mais para finalmente conseguir concluir seu curso de Medicina Veterinária e ter a autorização para residir na clínica veterinária do pai de um amigo. Não que tivesse dificuldade na profissão que escolheu desde criança, mas, para ele, curtir seu momento universitário era mais importante que passar as madrugadas em claro estudando para provas.

E como os dois opostos se conheceram?

Em um dia chuvoso, em que passando de carro, avistou socorrendo um cachorro de rua, que havia sido atropelado e abandonado à míngua. Ele já tinha visto a presidente do diretório em algumas festas de sua fraternidade e até mesmo tinha tentado atrair a atenção dela, sem sucesso.

— O que aconteceu? — perguntou, assim que se aproximou dela, observando-a ajoelhada ao lado do cachorro que fazia sons estranhos como se estivesse sentindo dor.
— Ele foi atropelado por um desalmado que fugiu sem prestar socorro. — respondeu , com o olhar indignado e ao mesmo tempo preocupado.
— Que crueldade. — deu um passo para se afastar — Espere um momento, que preciso pegar minha maleta.
— O quê? — ela o olhou, confusa, e antes que pudesse questionar, ele se afastou dela.

Após correr até seu carro, ele retirou do porta-malas rapidamente a maleta que utilizava nas aulas e retornou. Ajoelhando ao lado do cão, o tocou com suavidade, enquanto tentava acalmá-lo. prestou os primeiros socorros com o animal, de forma impecável deixando impressionada com as habilidades dele.

— Como sabe fazer tudo isso? — perguntou, ao ajudá-lo a levar o cachorro para seu carro.
— Sou veterano em medicina veterinária. — respondeu, ao ajeitar a cabeça do animal no banco traseiro — Posso levá-lo para o laboratório do meu curso, temos um programa de assistência a animais de rua.
— Posso ir também? Estou me sentindo responsável por esse cachorro. — pediu, em tom de aviso.

apenas assentiu com a cabeça e fechou a porta. Aquela força tarefa para salvar a vida de um assustado cachorro, foi o início de uma cumplicidade entre ambos que adotaram em conjunto o animal. O fato inesperado foi a oportunidade que o futuro veterinário esperava para se aproximar mais da garota e conquistá-la. Foi fácil? Claro que não. Quanto mais ele demonstrava seu interesse pela única do campus que não o olhava com desejo, mais ela se mostrava totalmente alheia ao charme do rapaz.

— Olha só quem veio visitar o papai! — disse , ao adentrar o consultório do novo recém-formado.
— Bom dia. — disse , ao se surpreender com a presença dela com o cachorro que compartilhavam a adoção — O que fazem aqui?!
— Esse mocinho comeu coisa errada ontem à noite e passou mal a madrugada inteira. — disse, o olhar de repreensão para o cachorro, que abaixou a cabeça e escondeu com a pata dianteira — Até vomitou um pouco de sangue, eu te liguei, mas você não atendeu.
— Desculpe, eu fiquei de plantão duas noites diretas e acabei desmaiando na cama, e o celular descarregou, mas o que ele comeu? — perguntou, já pegando-o pela coleira e o guiando até a bancada de avaliação — Ah, mocinho, não pode preocupar a mamãe assim.
— Quando eu cheguei em casa, o escritório estava todo revirado e um porta retrato de madeira tinha desaparecido.

fez uma careta ao imaginar o estrago que poderia ser causado internamente e já o levou para fazer alguns exames. Algumas horas tomando soro, remédio anti-inflamatórios e muito carinho, internou o cachorro para que ficasse em observação. Pela quantidade de madeira ingerida pelo animal poderia ter acontecido o pior, que por sorte, tudo acabou bem. No dia seguinte, prescreveu a alta de Thor e o levou para casa de . Como a analista trabalhava em estilo home office, o cachorro passava os dias com ela e os finais de semana com ele.

— Pronto, agora sim, está confortável e recuperado. — disse assim que ajeitou a almofada ao lado de Thor, ao colocá-lo em sua caminha, próximo a lareira.
— Obrigada por cuidar dele. — disse , ao adentrar a sala com duas xícaras na mão.
— Porque está me agradecendo, o cachorro também é meu. — ele riu de leve e ergueu as mãos mostrando estarem com pelos, ao perceber que uma das xícaras era para ele.
— Lave as mãos no banheiro, segunda porta à direita. — disse ela, rindo também.

Ele assentiu e foi até o lugar para lavar as mãos.
Retornando para sala, ele pegou a xícara de cappuccino e deu o primeiro gole. encostou de leve nas costas do sofá olhando com suavidade para o cachorro amoadinho na caminha.

— Está pensando em quê? — perguntou, curioso pelo silêncio dela.
— Como chegamos a este ponto, compartilhar a guarda de um cachorro. — respondeu, tentando entender.
— Está impressionada por ser tão íntima de mim agora? — ele sorriu de canto, com o olhar bobo e malicioso.
— Guarde esse sorriso aí, , não é porque nos aproximamos que vou te dar uma chance, você só tem acesso ao meu apartamento por causa do Thor. — ela colocou a xícara na mesa de apoio ao lado e cruzou os braços.
— Eu não precisaria entrar aqui, por causa do Thor. — retrucou. — Poderia muito bem pegá-lo na portaria e levar para minha casa.
— Onde quer chegar?! — perguntou ela.
— No seu coração. — disse, se aproximando dela — O que me diz? Já não te dei provas suficientes das minhas boas intenções?
— Ha… Ha… Ha… — ela riu baixo — Minha mãe sempre me disse que de boas intenções o inferno está cheio.
— Então me deixe te mostrar as más. — pediu ele de forma sugestiva, já se movendo para mais perto e a beijando não tão de surpresa.

Foi o primeiro de muitos beijos?

Sem nenhuma dúvida, pois já estava mais do que convencida que seu coração acelerava por ele.

Agora, dois anos depois de todo o ocorrido, estava ele se olhando no espelho enquanto encarava seu reflexo totalmente ansioso por dentro no dia mais importante de sua vida. O coração acelerado, as mãos suando, as pernas trêmulas e um sutil sentimento de insegurança. Afinal, ainda não acreditava que a mulher mais maravilhosa por quem se apaixonou de verdade, estava no quarto ao lado vestida de noiva para encontrá-lo no altar.

O pedido?

Havia sido feito há seis meses, bem após a promoção de , na empresa que trabalhava, que lhe permitiu a transferência de moradia para a capital do país. Para ele, foi o momento certo para declarar ao mundo que sua vida não era mais a mesma depois de conhecê-la, e que desejava viver o restante de sua vida totalmente entregue à sua analista de TI.

— Olha só quem está pronto para se enforcar. — brincou Joseph, seu padrinho e amigo de infância.
— O último do grupo que achamos que se casaria, será o primeiro. — completou Ronald, rindo ao entrar em seguida — Tudo culpa da .
— Nisso eu concordo. — sorriu de canto, ao olhar o reflexo dos amigos no espelho — Estou tão nervoso, não acredito que está mesmo acontecendo, que ela realmente aceitou, me sinto o homem mais sortudo do mundo.
— Somente uma louca pra se casar com você. — brincou Katy, sua prima, ao aparecer na porta do quarto — com certeza deve ter perdido a sanidade.

Os amigos dele riram, enquanto ele permaneceu olhando-a sério.

— Pois saiba que seus comentários não vão estragar meu dia. — ele ajeitou sua gravata novamente — Aí, meu coração.
— Vamos logo, noivo atrasado, que a noiva já se vestiu e está pronta para encarar o sanatório que será se casar com você. — brincou a prima, ao dar algumas gargalhadas se afastando da porta.
— Isso tudo é inveja, por que Ronald ainda não te pediu em casamento e está te enrolando desde fundamental? — perguntou num tom irônico e debochado.
— Ei, não me coloque no meio das loucuras de vocês. — reclamou o amigo.

Logo o olhar atravessado de Katy para ele, foi substituído pelo ataque de risos de e Joseph. O grupo desceu as escadas para chegar ao jardim da casa, onde o noivo morou por um tempo de sua infância e adolescência. se posicionou ao lado do pastor Jin, à frente do altar improvisado. Seu olhar passou por toda a decoração nos tons branco e azul, sendo contemplados por lírios, a flor favorita da noiva. Foi quando sua atenção seguiu para um único alvo.

com seu vestido delicado e um sorriso meigo no rosto, acompanhada pelo pai.

O coração de se manteve acelerado a cada passo da mulher em sua direção. Por uma coincidência da vida, a data que iriam trocar as alianças era justamente o dia dos namorados, celebrado pelo país. Um breve filme passou por sua cabeça, desde a primeira festa que a viu, até o episódio do cachorro Thor que também estava ali no altar presenciando tudo, até chegar no momento mais aguardado de sua vida.

— Você trouxe suas vogais para as minhas consoantes. — sussurrou ele, assim que ela se colocou em sua frente — Eu te amo, analista perfeccionista.

Ela riu baixo.

— Eu também te amo, veterinário desleixado. — sussurrou de volta, sentindo seu corpo arrepiar com o olhar dele.

Me hipnotizou
Me deu mais que o bastante
O seu beijo freou
Minha boca viajante
Chegou e completou
A frase num instante
Trouxe as duas vogais
Pras minhas consoantes.
- Vogais e Consoantes / Jorge e Mateus


Amor: Cada qual sabe amar a seu modo; o modo, pouco importa; o essencial é que saiba amar.” By: Pâms



Fim.


Nota da autora: Welcome to Pâms' Fictionverse!!!
Songfic inspirada na música de mesmo título da dupla Jorge e Mateus.

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