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Codificada por: Sol ☀️

Última Atualização: 26/08/2025.

Cidade de Saint Valley, 1958.

O ponteiro que marcava os minutos caminhava sem pressa, durante a tarde de trabalho na prefeitura. Berht, a datilógrafa, normalmente não tinha muito o que fazer nas últimas horas de expediente das sextas-feiras. Mas mesmo entre os silêncios mantinha a postura, em frente à máquina de escrever, com incontestável comprometimento. Vez ou outra batia o dedo em alguma tecla, que estalava como se quisesse provocar o tic-tac do relógio a mudar seu compasso.

Um segundo a mais, mais um passo do ponteiro, e ainda um tanto de minutos à frente. Finalmente um som alto o suficiente para ser significativo, o estalo seco de saltos no assoalho emergiu através da porta entreaberta. A cabeça entortou um pouco para o lado, o olhar em direção à entrada da sala. Via apenas o corredor comprido e vazio, iluminado por lâmpadas amareladas pendendo do teto em fios pretos. Era como observar uma foto em sépia. Mas não demoraram as cores. Vieram em padrão de flores estampadas, em pele branca e fios dourados.

Catherine surgiu como uma brisa desordenada, sacudindo os silêncios como quem abre as janelas de um quarto abafado. Trazia consigo o cheiro de rua, uma mistura de tecido aquecido pelo sol e perfume leve de lavanda.

— Cathy, você é tão barulhenta — repreendeu a colega ao vê-la entrar.

— Querida, se eu não fizer barulho, você desaparece nessa sala... É sexta-feira e este lugar está vazio. — Sorriso grande e provocativo nos lábios. — Até o prefeito já foi embora. Não tem nada para você datilografar, nem ninguém para eu receber. Podíamos ir embora. Ver os meninos jogando futebol no campo. — Suspirou sonhadora.

— Temos ainda, pelo menos, 30 minutos de trabalho. — Com um toque rápido de mão, empurrou o rolo da máquina de escrever, que se ajustou com um clique metálico.

Cathy apoiou os cotovelos na mesa e inclinou-se, o cabelo caído sobre os ombros, o nariz empinado quase tocava o da colega. A voz saiu sussurrada, com um ar de conspiração:

— Você está há meia hora batendo numa tecla e na outra sem digitar nada, parece entediada... Devia sair comigo hoje.

A folha estava mesmo quase vazia, um “z”, um “q” e uma vírgula perdidos, manchando o papel limpo. sorriu de canto, ajeitando o papel na máquina como quem finge dar importância a algo que já perdeu o propósito.

— Eu até gostaria de ver os rapazes… Mas de qualquer forma o filho dos Muller precisa de ajuda com a escrita de redações para a escola. Estarei ocupada até às sete.

— E aposto que depois vai para casa, ligar o rádio e esperar o programa do começar. — Cathy endireitou o corpo, os olhos revirando dramaticamente.

— A rádio vai ter um quadro novo, você sabia? “Declarações anônimas”. Para casais apaixonados e admiradores secretos. — A voz de ficou mais airada. Palavras pronunciadas entre suspiros.

— De que adianta sonhar, minha amiga, se você não toma nenhuma atitude?

A datilografia não respondeu. Nem houve tempo. Lá fora, o vento mudou de direção. As folhas secas das árvores da praça rangiam devagar contra a calçada. A porta principal bateu, Cathy sentiu seu coração pular e correu para a recepção.

— Senhorita Davis. — A voz masculina ecoou pelo corredor. O cumprimento era gentil e firme.

fechou os olhos por um breve instante. Era ele, Langford, a voz que lhe fazia companhia nas noites solitárias, grave mas com uma fluidez que deslizava para dentro do ouvido, agora mais clara, mais próxima e sem o chiado do rádio. Ele prosseguiu:

— Clark, passou no correio mais cedo, pegou alguns envelopes, e deixou aqui para mim.

— Claro, , pode me seguir por favor. Estão aqui na sala ao lado. — Respondeu a recepcionista, com aquele tom levemente mais doce que algumas mulheres adotam ao falar com homens que carregam um certo mistério.

A cabeça não entortou dessa vez. manteve a postura, rosto levemente virado, e ficou olhando para o espaço vazio da porta. Enquanto os dois pares de sapato batiam no assoalho, chegando cada vez mais perto. A fresta da porta foi preenchida primeiro pela figura delicada de Cathy. surgiu logo em seguida. Alto, o cabelo escuro, os olhos fundos, tinham um tom de verde acinzentado, o rosto simpático, mas levemente cansado.

— Boa tarde — ele disse, com um leve aceno de cabeça.

assentiu em silêncio, a veia do pescoço pulsava mais do que o desejado. Tentou sorrir, mas sentiu que não havia movimento algum em seus lábios. Ela se virou para a recepcionista e indicou os envelopes com um gesto de mão.

— Estão ali. Os de papel grosso são do setor de cultura. O resto... bom, é do coração da cidade, não é? — falou com leveza, quase sem intenção.

— Ah que bom que escuta a rádio senhorita Berht…Fico feliz. — Ele sorriu, curto. — Terei muitas mensagens para ler no programa de estréia. — Balançou os envelopes na mão.

Depois os recolheu para dentro do casaco, junto ao peito.

Os olhos verdes pairaram um instante sobre o relógio de pulso. O agradecimento veio, breve e formal, e por fim a partida. A recepcionista não o acompanhou, a datilógrafa não moveu um dedo, o olhar se prendeu ao retângulo vazio da entrada.

— Ele ficou feliz que você ouve o programa. — Cathy quebrou o silêncio. Na voz um tom que continha certa malícia.

não teria tempo para uma garota como eu. — apoiou o queixo sobre os punhos.

— Só estou comentando o que eu vi. — a amiga deu de ombros, pegou a bolsa e começou a ajeitar as alças. — E olha só, cinco horas em ponto.


Continua...


Nota da autora: Criticas são sempre bem vindas.
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