“Então se isso é tudo, é agora ou nunca
A vida é muito curta para não se arriscar”
True Brew — Millencolin
A Mataderrei aparentava cansaço. Mas não .
O inverno havia despido algumas árvores até os ossos, deixando apenas galhos quebradiços arranhando um céu que se recusava a clarear. A geada se agarrava à terra escura com uma teimosia que se equiparava à da princesa, rangendo sob os cascos dos cavalos enquanto Sor Arthur Dayne e Targaryen cavalgavam em marcha pela névoa que se dissipava. Era uma daquelas manhãs que pareciam suspensas entre respirações — tarde demais para ser noite, cedo demais para o mundo começar.
O silêncio da princesa já não lhe causava estranheza. Não. Esse era um tipo de silêncio que Arthur aprendera a reconhecer muito antes de se tornar seu cavaleiro juramentado. Na maior parte das vezes, significava que estava prestes a fazer algo imprudente ou insensato. Por isso mesmo, preferia aqueles em que ela ficava andando de um lado para o outro tantas vezes que dava vontade de segurá-la no lugar, pois era o que costumava fazer quando estava pensando. E ela era brilhante quando pensava — e havia chances menores de se machucar.
parou o cavalo sem aviso e desceu da sela antes que Arthur sequer pudesse falar ou intervir em sua possível insensatez. As botas da garota afundavam levemente no chão enquanto se movia em direção ao pequeno lago, que jazia escuro e pesado sob um fino véu de neblina. Ao longo das margens, uma frágil crosta de gelo se agarrava aos juncos, rachando suavemente sempre que o vento mudava de direção. ficou ali, parada, como que atraída pelo lugar, perdida em pensamentos. Com certeza estava tensa — essa era apenas mais uma coisa que aprendera sobre ela com o passar do tempo.
— Vossa Graça — chamou Arthur, se sentindo estranho por ter de quebrar aquele silêncio de decisão. — Não é seguro estar aqui, especialmente a esta hora.
encarou o seu reflexo fragmentado pelas ondulações tênues da água. Ela expirou devagar, e só então percebeu a tensão em seu peito. Era óbvio que estaria tensa — era até estranho não ter percebido antes. Começou a caminhar devagar, de um lado para o outro, na beira do lago.
Sua saída noturna de hoje tinha um propósito maior. Estava mais do que na hora de ser sincera com Sor Arthur Dayne, independente de qual pudesse ser a reação dele. Era melhor do que ficar escondendo as coisas que havia notado. Não à toa estava tão estranha e o testando desde que deixaram o fedor de Porto Real para trás.
Seus dedos roçaram a borda da luva; mais um gesto que denunciava a tensão sob sua pele. Ela não sabia como entrar no assunto e isso a fazia se sentir jovem demais. Tão jovem como naquela vez há quase quatro anos, no torneio em Lannisporto, quando ele — já um renomado cavaleiro da Guarda Real no auge de seus dezessete anos — a chamou para dançar com um belo sorriso no rosto. Tinha só quatorze anos na época e ainda acreditava que estava destinada a ser irmã-esposa de Rhaegar, independente de qual estrela cadente brilhasse para ela. Mas se tinha uma coisa da qual nunca se esquecera, foi de como se sentira vista. De verdade, como mulher recém-formada, e não apenas como a ponta de um fio atado a profecias maiores do que qualquer um deles.
Guerreiro, me dê coragem para iniciar isso, rezou em silêncio, coisa que raramente fazia. E se fosse pensar bem, adoração ao Guerreiro combinaria mais com Arthur do que com ela. Talvez devesse estar pedindo para a Donzela fornecer orientação e segurança para lidar com o que sentia. E para abrir a boca e falar o que quer que fosse.
— Sei que não é seguro, Sor Arthur, e confio em você para me proteger — falou, por fim. Gostava como ele costumava respeitar seus silêncios de um jeito que apenas Rhaegar tinha sido capaz até agora. — Eu só… precisava de um momento em que ninguém ficasse me observando respirar. Em que não precisasse me lembrar de ser o que eles esperam de mim. É uma atuação cansativa.
Sua querida mãe — a rainha Rhaella — havia aprendido aquela atuação melhor do que qualquer outra pessoa na Fortaleza Vermelha. Ela não falava sobre isso nem sobre o que o pai de tinha se tornado. Mas havia tardes, raras e sem pressa, em que as duas se sentavam juntas, com suas agulhas focadas no bordado, e o mundo ficava do lado de fora por tempo o suficiente para poderem respirar de verdade.
Eram nesses momentos que a princesa entendia a resistência da rainha pelo que ela não precisava dizer. Era o único tipo de silêncio que havia aprendido a aceitar sem desconforto. Todos os outros a sufocavam. Esse aqui, no entanto — entre as árvores, com Arthur por perto — havia se tornado bem semelhante.
flexionou os dedos enluvados. Apesar de suas palavras anteriores, ele a observava respirar — da hora do jantar até perto do almoço, todo santo dia, caminhando dois passos atrás dela e ligeiramente à direita. Mas com o olhar de Sor Arthur Dayne, ela não se importava mais — ao menos não de um jeito ruim. enfim se virou para encará-lo, o avaliando como quem testa o equilíbrio de uma lâmina em punho.
— Por vezes, até os dragões se cansam de suas correntes de chamas e buscam por algo mais verdadeiro. — Seu olhar se demorou nele. — E se o perigo nos espreita em um lago aparentemente tranquilo ao amanhecer deste inverno sem fim, Sor Arthur, confio que você o derrotará. É um ótimo cavaleiro. Sempre foi.
A fraca luz da aurora refletia em seus cabelos dourado-prateados, tão indomáveis quanto ela, mas Arthur a olhava nos olhos, intenso, sem pestanejar. Sempre foi quieto, na dele, mas se sentira tentado a falar alguma coisa — qualquer coisa — quando a princesa mencionou sua atuação. No entanto, se mantivera em silêncio, pois sabia que ela não tinha terminado. Até agora.
Desmontou, então, mais devagar que o habitual. A rigidez congelada em seus dedos fez com que as rédeas de couro resistissem ao seu aperto por um instante além do necessário. Quando suas botas quebraram a geada sobre a grama, ele já havia considerado — e descartado — inúmeras vezes a ideia de manter distância de Targaryen.
— Você sabe bem que o perigo nem sempre é uma criatura tangível a ser abatida — disse, ao se aproximar. Conhecia a inteligência da garota e sabia muito bem que raramente fazia as coisas sem ter pensado muito a respeito.
A presença dele era um contraponto sólido e calmo à energia inquieta que crepitava ao redor da princesa. Ela gostava disso. Disso e de muitas outras coisas que já havia considerado antes de sair de seus aposentos durante a madrugada para outra cavalgada aos limites da Mataderrei, antes de escolher falar com ele longe dos olhos e ouvidos da corte.
— Seria tão mais fácil se fosse, não? — Acrescentou ela.
Um farfalhar repentino em algum lugar além das árvores chamou-lhes atenção. quase riu. Era como se os próprios deuses tivessem mandado aquele som para ecoar as palavras de Arthur e zombar dela. Tudo o que ela fez, porém, foi ficar imóvel, a exemplo do cavaleiro e de seu instinto de batalha. A mão dele jazia sobre a empunhadura da espada ancestral que carregava, mas sem desembainhá-la, afinal, não era um garoto verde há muito tempo.
Apenas o silêncio se seguiu, então Arthur obrigou-se a falar novamente:
— Seria. — Concordou com a observação dela. — Uma espada resolve esse tipo de perigo. Há outros, no entanto. Que espreitam nas sombras e sussurram nas palavras. Esses nem sempre são fáceis de matar.
— Sombras e sussurros, eu sei. — Ela se abaixou, pegou uma pedrinha do chão e jogou no pequeno lago. O respingo foi mais forte do que o esperado, e anéis se espalharam pela superfície escura. — Palavras podem ferir mais profundamente do que aço valiriano. Meu pai se cercando de sussurros é a prova disso. Em vez de ajudá-lo, só fazem temer a todos. E é por isso que sou grata por ter um protetor juramentado que conhece a diferença. — Cruzou os braços para se proteger do frio. — Diga-me, Sor Arthur: você me protege dos perigos externos… ou de mim mesma?
Arthur deixou o peso da pergunta se assentar dentro dele antes de responder.
— Meu dever é protegê-la de todas as coisas. Externas ou internas, não vejo diferença alguma. — Manteve seu olhar, as palavras tão inflexíveis quanto uma lâmina. — Minha honra me diz para protegê-la de tudo. E sim, isso inclui você mesma, se necessário.
— Foi o que pensei. — Assentiu devagar, contente com a resposta. — E sobre as sombras e os sussurros… Conheço você, Sor Arthur. Acredito que tenha escolhido mencionar isso agora por um motivo especial. Então me diga: Que sussurros ouviu sobre mim desta vez? O que eles estão dizendo agora?
A expressão de Arthur não o traiu; sabia ser o cavaleiro estoico na maioria das vezes. No entanto, um lampejo cruzou seus belos olhos.
— Vossa Graça sabe que evito dar atenção às fofocas da corte — começou, com o devido cuidado —, mas… — acrescentou com um toque de resignação — é verdade. Chegaram aos meus ouvidos burburinhos sobre você. Há sussurros. De novo.
— É claro que há, eles nunca param. — Endireitou a postura. — Sorte a minha por ter um protetor ao meu lado que não finge não ter ouvido nada sobre a dama a quem protege. — olhou para ele. — Conte-me, meu cavaleiro branco, que sussurros são esses?
— Acredito que você diria que é mais do mesmo — comentou.
— Provavelmente — admitiu ela. — Se já fazem todo esse alarde agora, imagina quando eu começar a dar motivos para eles falarem.
Aquilo não a divertia tanto quanto fez parecer. Mas Arthur vira por trás da máscara outra vez. E, por isso, continuou:
— Eles ficam segredando uns aos outros, com menos cuidado do que deveriam, sobre a sua… impulsividade, sua natureza obstinada. — Escolheu as palavras com cautela, afinal, os outros tratavam aquelas coisas como defeito. Mas não ele; não quando dizia respeito à . Para Arthur, eram qualidades que havia começado a admirar nela em algum momento no passado, quando já havia proferido seus votos. — Alguns dizem que é inapropriado para uma princesa do Trono de Ferro. Que você… carece da contenção que uma mulher em sua posição deveria ter.
Arthur estudou o rosto dela, atento, mas não ousou desviar o olhar nem sequer quando teve vontade de revirar os olhos.
— Inapropriado… — Um leve sorriso sem humor surgiu em seus lábios. — Recebi o nome da rainha , irmã-esposa do Conquistador, guerreira que empunhava a Irmã Sombria em batalha, montadora de Vhagar, a própria fundadora da Guarda Real. Enquanto eu sou o quê? A irmã-que-não-mais-será-esposa de Rhaegar, que mal sabe como segurar uma espada, e uma montadora admirável de um belo palafrém que deve me detestar por ficar o trazendo até um lugar desses em noites frias. — Ela riu, sarcástica. — Ninguém quer uma , nem quando tudo o que tenho de mais forte em comum com ela é o nome, o sangue e o fato de ser obstinada. Ah, sim, e a cor dos cabelos.
Sacudiu a cabeça e suspirou. Não demonstrou mais incômodo do que isso, entretanto, Arthur enxergava por baixo da tentativa de piada e descontração da princesa. Ainda assim, respeitou o seu silêncio enquanto a assistia voltar à beira do lago para encarar o reflexo outra vez.
“Contenção” havia sido a palavra que mais a chateara. Era um termo que englobava tantos tipos de coisas diferentes que nem fazia muito sentido julgar alguém por falta disso. Sem contar que ela era contida quando precisava ser, ao menos em tudo o que importava. E isso já tinha trazido muitas desfeitas em sua vida. Fora por conta de contenção que Rhaegar e ela nunca tinham ficado verdadeiramente juntos, afinal, acreditavam que teriam todo o tempo do mundo para isso no futuro. Mas o destino era uma coisa curiosa, e os deuses se divertiam às custas dos meros mortais.
— Falam de contenção como se fosse uma virtude por si só quando, na verdade, aprendê-la é aprender a desaparecer silenciosamente. — Virou-se para Arthur de queixo erguido, seu olhar firme e inabalável. — Se isso me torna obstinada demais… então que sussurrem, malditos sejam!
O silêncio pairou entre eles por um breve instante, e então desmanchou a pose e respirou fundo.
— E o que você acha dos sussurros deles, Sor Arthur? — perguntou de repente. — Quer dizer, você me conhece melhor do que ninguém, não é? Sempre tendo que estar ao meu lado em cada besteira que faço. — Gesticulou, como que para enfatizar, já que não sabia o que fazer com as mãos. — Seja sincero, por favor. Eu lhe concedo permissão para isso. E não só hoje, mas todos os dias a partir daqui. Os deuses sabem que eu preciso de gente sincera na minha vida.
O canto dos lábios dele tremeu quase imperceptivelmente com o pedido de . Dia após dia, ele não conseguia evitar o impacto que a feroz princesa causava nele. Mas então, por um instante, a lembrança de cordas prateadas vibrando sob os dedos de Rhaegar cruzou a mente de Arthur. A imagem de um jardim tranquilo e uma garota rindo ao lado do príncipe foi evocada de sua memória.
Ele ocupara um lugar entre o príncipe e a princesa há muito tempo, e sempre acreditou que seu espaço naquela constelação era fixo — independentemente de qualquer desejo que tivesse tido algum dia. Agora, porém, as estrelas haviam mudado. E Arthur já não tinha certeza de quem ele havia traído primeiro.
— Tem razão. Vi todas as suas ações, tanto as sábias quanto as impetuosas. — Parou por um momento, refletindo. Ela buscava uma opinião sincera, não apenas platitudes vazias; selecionar as palavras com sabedoria era mais do que necessário. — Sua impulsividade pode ser… algo desafiador de lidar às vezes.
— Então concorda com o que dizem. — Assentiu devagar. — Não se preocupe, também concordo. A diferença é que não vejo isso tudo como ruim. Eu… — Fechou os olhos, pressionando a ponte do nariz. — Não consigo. Simplesmente não consigo ver essas coisas como ruins. Ao menos não da maneira que eles veem.
Arthur não pôde deixar de notar como ela disse “eles”, e não “vocês”. Gostou de não ter sido incluído na generalização. Ainda mais depois de ela ter ponderado as palavras cruéis da corte à luz de suas próprias crenças.
— As pessoas sempre encontrarão motivos para falar, princesa, mas você conhece bem o ditado: palavras são vento. — Olhou bem para ela. — As coisas que falaram… Eu também não as vejo como algo ruim. Vejo como diferente.
o observou por um longo tempo, como se estivesse testando o peso do que ele havia dito.
— Diferente… Isso é muito mais do que a corte já me permitiu ser. — Assentiu uma vez, e seu olhar se suavizou. — Se consegue ver isso, então talvez eu não esteja tão sozinha quanto gostariam que estivesse.
— Eu vejo — reafirmou.
— Curioso, não? Ou talvez nem tanto. — Deu de ombros. — A maioria dos homens só vê o que permito que vejam. Isso os mantém a uma distância segura, e tem me mantido… intocada. Você, por outro lado, é inconvenientemente difícil de manter longe. — Ela quase riu. — Enfim… não necessito que concorde comigo de olhos fechados, Sor Arthur, nem nisso, nem em outras coisas. Apenas preciso que veja a mim. . Não à princesa Targaryen.
Arthur tinha a visto de verdade pela primeira vez no ano de 276 depois da Conquista, no torneio que Lorde Tywin organizara em Lannisporto em honra ao nascimento do príncipe Viserys — irmãozinho dela. Lembrava bem de como tinha criado coragem e a tirado para dançar, mesmo sabendo que não tinha nenhum direito por ser um cavaleiro da Guarda Real e por ela pertencer a Rhaegar. Em algum momento daquele torneio, passou a se sentir como um intruso — não sabia dizer quando.
Agora, mais de três anos e meio depois, podia dizer que já tinha a visto de verdade muitas outras vezes. Geralmente nos jardins ao lado de Rhaegar. Intocável de uma forma que parecia… apropriada. Vê-la agora — nesse lugar, nessa hora estranha entre a noite e o amanhecer — era como invadir um território proibido. Mesmo assim, o canto de seus lábios se curvou em um pequeno e raro sorriso. Ele podia ver o peso da posição sobre ela e a solidão que vinha com o fato de ser vista como alguém à parte.
— Eu juro pelos deuses antigos e os novos — declarou com voz calma e firme —, que sempre lhe verei, , por quem você é. — Deu um passo à frente como que por instinto e parou por um momento. Só completou de vez o movimento depois de uma deliberada pausa. Era como se cruzasse uma fronteira invisível que não podia mais fingir não ver. — Com todas as suas falhas e qualidades, sua impulsividade, obstinação e inteligência. Verei você. Para o bem ou para o mal.
sugou o ar, como se as palavras dele a tivessem alcançado com um baque profundo antes que ela pudesse se preparar. Desviou o olhar em um movimento de autopreservação. Quando voltou a encará-lo, seus olhos estavam brilhando, embora se recusasse a deixá-los transbordar.
— Não deveria proferir votos levianamente, Sor Arthur. — Engoliu em seco, se recompondo. — Ver alguém de verdade é muito mais perigoso do que desembainhar uma espada. Mas… agradeço por isso.
Arthur viu o fogo em seus olhos úmidos — medo e desafio entrelaçados.
— Levianamente? Princesa, eu fiz meus votos anos atrás, mas há algumas luas jurei minha vida a você, como seu protetor, perante os deuses e o rei — lembrou-a, a voz baixa, porém firme. — Isto aqui não é diferente.
— Eu sei. — Um sorriso fraco brotou em seus lábios. — E se me vê por quem verdadeiramente sou, mesmo com todo o perigo que isso pode envolver… Então confiarei a você o direito de me ver assim.
Arthur se aproximou ainda mais, perto o suficiente para que ela pudesse ver toda a variação de cor nas manchinhas de seus olhos. O peso da presença dele, mais próxima do que era apropriado, fez o pulso de trair sua calma antes mesmo que ela fosse capaz de pensar em nomear o que sentia.
— Você fala de perigo, princesa, mas não há nada mais perigoso do que a verdade entre duas pessoas que compreendem seu peso. — Arthur contraiu levemente o maxilar; o único sinal físico de que sentia tudo isso de maneira muito profunda para ignorar. — E se me conceder esta honra… saiba que essa visão estará segura comigo.
— Não sei se chamaria isso de honra, mas lhe concederei… Arthur.
O nome pairou entre eles, leve como a mais bela pluma. Apenas o primeiro nome, sem títulos, sem formalidades. Arthur pensou em corrigi-la — em lembrá-la de quem ele era, o que ele era, dos juramentos que fizera. Pensou também em como ergueria o queixo e recusaria a distância. Por fim, não disse nada.
— Concordo com você sobre essa coisa do perigo da verdade entre duas pessoas que entendem o peso — continuou, sem recuar. Dessa vez havia algo diferente em seus olhos violeta-prateados, uma consciência silenciosa. — Então somos dois tolos, você e eu. Porque sabemos do perigo e, mesmo assim, nenhum de nós escolheu desviar o olhar. — Sua respiração falhou por um pequeno instante, mas ela jamais deixou de o fitar. — Se essa verdade é a coisa mais perigosa de todas, Sor Arthur, então creio que seja um perigo que vale a pena enfrentar.
Algo se agitou no interior de Arthur, como se uma chama há muito adormecida tivesse se reacendido de repente. Seu coração acelerou um pouco. A proximidade, o modo como ela mantinha o olhar sobre ele por pura escolha, a forma como o seu nome soava nos lábios dela; tudo isso se combinava para criar um momento de tensão entre eles, o ar carregado de palavras não ditas.
Ele respirou fundo antes de responder com toda a intensidade que sua voz baixa podia demonstrar em uma única palavra:
— Sim.
sustentou seu olhar por tempo o suficiente para processar a resposta e gravá-la em sua memória.
— Então nos entendemos perfeitamente. Sem fingimentos. Sem mentiras para tornar isso mais fácil do que é. Apenas a verdade… e o preço que custar. — suspirou, como se tivesse tirado um peso de cima dos ombros. — Eu gosto disso, para ser sincera. Não tenho medo desse perigo que falou. Tenho medo de fingir que ele não existe, que isso não existe.
Arthur já tinha visto muitas coisas em seus anos de serviço, entretanto isso era diferente. Estudou o rosto dela atentamente: a determinação em seus olhos, a maneira com que se portava, não como uma princesa, mas como alguém pronto para a batalha e, se possível, para comandá-la. A postura dela o fez pensar que eles de fato estavam decidindo coisas que não eram ditas com todas as palavras como se estivessem em um conselho de guerra. E talvez fosse isso mesmo, afinal, o que estava se desenrolando ali não era algo para ser visto em qualquer lugar que não fosse nas sombras.
— Tem razão. Fingir é pior do que qualquer lâmina. — Deixou aquela verdade se assentar entre eles. — Então permaneceremos aqui, juntos, pela verdade e por tudo o que ela custa. — Sua voz baixou ainda mais antes de proferir seu juramento envolto em aço: — E se algum dia você temer que eu possa recuar diante disso… lembre-se de que não recuarei.
— Então não recue. — Seu tom deixou bem claro que era um convite, não uma ordem. — Mas entenda isso, Arthur: uma vez que escolha esse tipo de verdade em vez do conforto e tudo o mais, não haverá como voltar a ser quem éramos antes deste lago, desta manhã. — Ela deu um passo na direção dele, cortando a distância o suficiente para sentir seu calor, mesmo com a armadura galante e o frio do inverno os abraçando. — Se você não recuar, também não recuarei.
Arthur não desviou o olhar. Nem sequer uma vez. Não tinha mais volta. O ar entre eles crepitava com uma tensão mal disfarçada e um silêncio vibrante quase indescritível.
E pensar que ele sempre acreditara que seria um tolo se ousasse imaginar que Targaryen algum dia o olharia de qualquer outra maneira. Aquele momento — as palavras dela, o olhar firme, o fogo que ardia no violeta de seus olhos — definitivamente se parecia com essa “outra maneira”. Ou talvez ele fosse mesmo um tolo, no fim das contas.
— Já não somos mais os mesmos que éramos antes desta manhã. Nenhum de nós dois. — Ele deu um último pequeno passo à frente. — E nunca mais seremos.
foi envolvida por um aperto no peito, agudo e quente, como se algo há muito confinado tivesse enfim eclodido e encontrado espaço para respirar. Não era exatamente medo, mas algo perto disso: a consciência das consequências, de portas se fechando atrás dela enquanto outra se abria logo à frente.
Ela o olhou de verdade agora. Não como antes olhara para Sor Arthur Dayne — a Espada da Manhã, o prestigiado cavaleiro, o nome, a lenda viva sussurrada pela Fortaleza Vermelha —, mas este homem parado diante dela. O jeito como a tênue luz da manhã iluminava os cabelos próximos de suas têmporas, a calma força em sua postura, a gravidade silenciosa que fazia sua beleza parecer perigosa em vez de ornamental. Ele era bonito, sim — mas, mais do que isso: era sólido, inabalável. O tipo de homem cuja mera presença parecia exigir algo de você.
Era um cavaleiro da Guarda Real, com votos mais pesados que o aço — não podia tomar esposas, manter terras, nem ter filhos; uma vida inteira para proteger. E, ainda assim, ele estava ali, escolhendo a verdade do que sentiam em vez da segurança da distância… distância que um cavaleiro juramentado deveria manter.
Sua respiração falhou antes que ela pudesse controlá-la.
Um dia, conhecera Arthur como o garoto que estava sempre ao lado de Rhaegar, apesar de ele já ser grandioso desde cedo. Era amigo próximo dele, seu igual, o homem que falava com seu irmão sem fingimento ou medo. Três anos mais velho que — da idade de Rhaegar —, era incrivelmente sereno, já forjado pelo dever, enquanto ela ainda aprendia o preço que o seu lhe custaria.
E agora ela percebia a exatidão do que tinha proferido: jamais o veria como antes. Ela não conseguia desver o jeito como ele a olhava agora — não como um símbolo ou um fardo a ser guardado por ser filha do rei e irmã de Rhaegar; mas como .
— Então está feito — disse, com voz suave, embora nenhum decreto jamais tivesse soado tão vinculativo. — O que quer que venha depois disso, enfrentaremos como somos agora, você e eu. E não como nos ensinaram a ser.
A verdade de tudo aquilo se instalou profundamente dentro dos dois. O modo como se portava tornava tudo inesquecível para Arthur — feroz e aberta, os últimos vestígios de fingimento se caindo como folhas de outono.
Sua mão se moveu por instinto. No entanto, parou o movimento a um sopro de distância do pulso dela. Por um instante, o peso do manto branco, dos juramentos e dos fantasmas de cabelos prateados sorrindo nos jardins do castelo o oprimiram. Então ele os venceu e acabou com a distância.
Seus dedos enluvados envolveram os dela — ternos, porém firmes, inconfundíveis de um jeito que tornava impossível voltar atrás. Era uma afirmação silenciosa, uma promessa feita através de armadura e gelo. Mesmo com o couro de ambas as luvas gelado por causa do ar da manhã, o contato enviou uma onda de sensações através deles. Algo muito mais perigoso que o calor. E, ainda assim, o frio já não era mais o mesmo.
— Como somos agora — repetiu, o olhar fixo no dela. — Nada menos que isso.
— Nada menos. Nunca vou pedir que seja menos do que seus votos, Sor Arthur, só que não finja que eles te cegam. — Ficou em silêncio por um instante carregado de significado antes de prosseguir: — E eu não fingirei que não te vejo. Não mais.
O polegar de Arthur traçou um padrão suave, quase displicente, no pulso dela, couro sobre lã.
— Não fingirei — prometeu.
E eles permaneceram assim, em um momento de silenciosa compreensão, suas respirações se misturando com o ar frio da manhã. Por um breve instante, tudo parecia simples, como se a verdade por si só bastasse para firmar o chão sob seus pés. Mas mesmo na quietude, algo mais profundo permanecia por dizer, aguardando não o silêncio, mas a coragem.