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War Of Devotions

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Parte 1

A hora do lobo

“Pois será o meu amor, senhora,
e eu seu senhor serei.
Sempre a manterei quente e segura,
e com espada a defenderei.”

— A Tormenta de Espadas (George R.R. Martin)

~★~


“Sem fingimentos.
Sem mentiras para tornar
isso mais fácil do que é.
Apenas a verdade… e o preço que custar.”

— Targaryen (War of Devotions, Cap. 2)

Capítulo 1

Uma devoção perigosa

“Porque os pensamentos devoram
Pensamentos sobre você consomem”

War of Hearts — Ruelle


Eles não deveriam estar sozinhos nos limites da Mataderrei antes do nascer do sol. A hora do lobo ainda pairava entre as árvores, espessa e indecisa, enquanto a princesa cavalgava, ditando o caminho, e Sor Arthur Dayne seguia ao seu lado. Não à distância de dois passos, como de costume, mas ao lado, onde poderia protegê-la melhor nessa situação. Ele espreitou devagar o ambiente, se perguntando se o que o inquietava mais naquele momento era o perigo da floresta ou o silêncio da princesa.
Ao menos ela não era tão imprudente a ponto de adentrar a fundo o local. Não com os rumores. E recordar-se disso o fez deixar o fingimento de lado e concluir o óbvio: era a calmaria da garota que o incomodava, não todo o resto.
Arthur estava acostumado ao silêncio. Fora o amigo mais próximo do príncipe Rhaegar por anos e, com isso, aprendera que alguns homens pensavam melhor quando se calavam. Mas não era feita de quietude. E o silêncio não parecia pertencer a ela nem quando sorria levemente para algo que lhe chamava atenção ao redor deles.
Arthur percebeu tarde demais que estava observando a princesa outra vez, e não do jeito que deveria.
Nunca havia questionado os verdadeiros motivos de ela gostar tanto de sair quando o mundo ainda não havia despertado — seu trabalho não era questionar; era proteger o rei, a rainha, os príncipes e a princesa. Ainda assim, já refletira sobre o assunto mais de uma vez e concluíra que talvez gostasse porque ali, entre as árvores altas e o silêncio úmido do frio de inverno daquele horário, tudo parecia mais verdadeiro do que na Fortaleza Vermelha.
— Está quieto demais hoje, Sor Arthur — disse de repente, sem olhá-lo.
Arthur virou ligeiramente a cabeça, surpreso pelo comentário depois de tanto silêncio inesperado.
— Estou exatamente como sempre estive, Vossa Graça. — A névoa que saíra de sua boca trazia gravidade às palavras que ambos sabiam ser apenas uma meia-verdade.
— Não está. Normalmente você observa o mundo; hoje parece um homem esperando algo acontecer — respondeu com suavidade. — O que significa que está se parecendo mais com o meu irmão mais velho do que consigo mesmo. — Ela enfim virou seu olhar claro e curioso na direção dele. — Rhaegar costuma ficar assim quando está prestes a fazer alguma coisa imprudente.
— Por mais que eu admire o seu irmão — falou devagar —, jamais serei ele.
— Ah, eu sei bem disso, Sor. — Assentiu sem hesitar, mas não havia zombaria nem lamentação em seu tom. — E a melhor parte é que não passará sua vida devotado às profecias e à melancolia de sua existência, apesar de devotar-se fielmente ao seu príncipe, é claro.
voltou sua atenção às árvores ao redor, quase serena demais para alguém como ela, e deixou Arthur Dayne em silêncio com suas devoções. Ele compreendia bem demais o significado daquela palavra, vivia por ela. E em Porto Real, devoção era algo ainda menos gentil do que no resto do reino. Era trancada a ferro e testemunhada. Era proclamada diante do Trono de Ferro, diante dos deuses e dos homens. Por vezes, era selada sob mantos brancos como o dele. Entrelaçada em votos que não abriam espaço para desejos, nem esposa e nem filhos legítimos.
E todos ali eram devotados a alguma coisa. Havia devotos aos deuses. Ao rei. À coroa. Ao que sua ordem representava. Aos próprios votos. Ao Príncipe de Pedra do Dragão. À princesa que o rei queria longe de homens que pudessem tentar usá-la contra ele… Devotados a ódios, vinganças, amores e fortes conexões, fossem elas reconhecidas pelos deuses e homens ou proibidas por eles. E nenhum deles percebia que, por vontade própria ou não, estava entrando em uma guerra por causa disso.
— E agora parece um homem se preparando para a batalha — disse , com leveza. — Devo me preocupar, Sor Arthur… ou me sentir lisonjeada por a Espada da Manhã me considerar uma adversária digna?
Arthur piscou, como se fosse puxado de volta do lugar onde havia se perdido por um instante. Ambos sabiam que um cavaleiro da Guarda Real não podia machucar rei, rainha, príncipe, princesa…, mas eram nesses momentos, com esse tipo de comentário, que se parecia mais com ela mesma.
— Depende — respondeu, com a calma habitual. — Pretende declarar uma guerra na hora do rouxinol, princesa?
Ela inclinou a cabeça, como se considerasse a pergunta.
— Não contra você, Sor Arthur — disse, por fim. — Jamais contra você.
Um pequeno riso escapou da boca dela, baixo, breve e quase satisfeito demais. Arthur já tinha ouvido aquele tipo de risadinha antes. Quando fora nomeado para sua atual posição. Quando se tornara o protetor juramentado da princesa Targaryen.
O rei começara a ver ameaças ao seu redor há bastante tempo. No entanto, o Desafio de Valdocaso trouxera mais do que a inimizade entre Aerys II e Tywin Lannister — sua Mão — e o fim da Casa Darklyn. As coisas só pioraram desde que ele retornara após os atos corajosos de Sor Barristan. Temia sussurros, exceto àqueles com os quais o eunuco Varys o alimentava. Temia a influência. Não confiava mais em seu filho e herdeiro, nem na rainha Rhaella, nem na Mão do Rei. Tampouco confiava em sua filha, tanto que passara a colocar cavaleiros para guardar a princesa — o que deveria significar proteção, mas todos sabiam que significava vigilância constante também.
Sor Arthur Dayne ocupava o posto atualmente. O rei provavelmente enxergava isso como uma punição e, como não escondia seu desgosto por dorneses, Arthur fora o escolhido. Sem contar que, por ser um manto branco, não poderia negar nem partir. E Arthur jamais se dobrara facilmente. Assim, se sentiu honrado pela oportunidade e pelo desafio. Sua convivência com a princesa era pouca até algumas luas atrás. Mas ele gostara da perspectiva que havia formado em seus raros contatos antes de assumir a posição. Além disso, era impossível não gostar dela quando a descobria através das doces palavras de Rhaegar e de sua devoção à irmã por quem um dia se apaixonara.
Arthur não havia sido o primeiro cavaleiro a ocupar àquele lugar, mas sabia que seria o último. Muitos vieram antes dele. Homens orgulhosos demais. Ambiciosos demais. Fracos. Fortes. E, uma hora ou outra, todos acabavam se quebrando. A princesa os testava, provocava, desafiava e, um a um, eles desistiam. Inventavam sete mil mentiras para se livrar do trabalho. Pediam troca de posto por algum motivo qualquer. Alegavam doença. Alguns simplesmente eram incapazes de tolerá-la e, com medo da represália do Rei Louco — que poderia muito bem envolver fogo ou, pior ainda, fogo-vivo — fugiam da cidade.
No intuito de afastá-lo, fizera exatamente as mesmas coisas com ele. Provocações ofensivas. Ordens bobas e desnecessárias. Silêncios calculados. Falas mais calculadas ainda. Mas Sor Arthur Dayne não podia desistir nem se quisesse, ambos sabiam disso. Era um cavaleiro da Guarda Real, e tinha que cumprir seu papel para com o rei e sua família. E não era como se ele, de fato, tivesse pensado em desistir. Além do mais, fosse por apreciar a resistência dele, fosse por puro cansaço, tinha deixado de tentar afastá-lo.
E ele não sabia se aquilo o aliviava ou o condenava.
Arthur tinha muitas devoções que costumavam andar de mãos dadas. Era devotado ao rei — por mais que questionasse sua lealdade com tudo o que viera a acontecer nos últimos tempos. À coroa como um todo. Ao que as Espadas Brancas representavam. Aos seus votos. Ao Príncipe de Pedra do Dragão, em especial, que era seu amigo mais próximo e daria um rei muito melhor do que seu pai enlouquecido. E também passara a ser devotado à princesa que fora obrigado a guardar.
O mais perigoso, porém, era que agora se via devotado à mulher por baixo do nobre título que representava. E essa era uma devoção perigosa demais que poderia conflitar muito com as outras. E não faria bem a ninguém que não estivesse cavalgando com os dois naquele exato momento.
Olhou para a princesa ao seu lado, ainda quieta demais, mergulhada naquele silêncio que não combinava em nada com ela.
Arthur conhecera Targaryen como a sombra de Rhaegar. Não por ser submissa, é claro — a garota era ousada e feroz demais para ser a sombra de alguém. Mas porque, durante anos, fora simplesmente impossível conceber a ideia de um sem o outro. Até mesmo nos dias de hoje, que não eram mais vistos juntos com tanta frequência, ainda ficava difícil de imaginar.
O cavaleiro lembrava-se nitidamente de uma tarde comum nos jardins da Fortaleza Vermelha, muitos anos antes. Rhaegar tocava harpa sob a sombra de uma árvore antiga, o som delicado ecoando no ambiente como se aquele fosse o lugar mais natural para se existir. estava sentada ao seu lado, apreciando a visão e a música enquanto seus dedos brincavam distraidamente com uma mecha de cabelo prateado.
Quando o príncipe terminou sua canção melancólica, os olhos de estavam marejados e ela dissera algo que Arthur não conseguira ouvir à distância. Rhaegar sorrira — aquele sorriso raro que iluminava todo o rosto —, e, por um instante, os dois haviam se inclinado um para o outro como se o resto do mundo não existisse. Arthur desviara o olhar, então. Não por vergonha, mas por respeito. Algumas coisas eram óbvias demais para serem encaradas diretamente.
Naquela época, não sentira nada além de reconhecimento. Era natural que se amassem dentro daquela família, que acreditassem que o destino era deles e apenas deles. Agora, porém, quando a lembrança surgia vívida em sua mente, havia algo a mais ali.
Um desconforto estranho apertou seu peito — rápido, incômodo, quase físico. Arthur desviou os olhos da princesa antes que ela pudesse notar.
Sempre soube o que existira entre Rhaegar e . Sabia que um dia acreditaram que se casariam — não apenas por serem irmãos e por isso ser habitual na Casa Targaryen, mas porque acreditavam que isso ajudaria a cumprir uma profecia. E eles não haviam desistido um do outro por vontade própria. O rei os proibira, desconfiado de que seu herdeiro lhe roubaria o poder. Fizera isso tanto para punir Rhaegar quanto para evitar que o fortalecesse ainda mais — o que aconteceria, Arthur não tinha dúvidas.
Mesmo assim, a princesa ainda amava Rhaegar tanto como irmão quanto como amante até os dias de hoje. E ela sempre o amaria, de um jeito ou de outro. E Arthur conhecia bem demais o amor do príncipe por ela. Ouvira tanto sobre isso da boca dele, ainda que falasse tão pouco.
Por um tempo, Rhaegar estivera perigosamente próximo de algo imprudente, arriscado. Arthur vira nos olhos do amigo um tipo de fogo que não pedia permissão, mas o estado febril se acalmou e a vida prosseguiu. Agora, o príncipe estava casado com Elia de Dorne, à espera de seu primeiro filho. E a princesa permanecia ali, sem jamais ter descoberto o quão perto Rhaegar esteve de levá-la embora para onde o pai não pudesse os encontrar.
Sor Arthur Dayne, sempre leal, guardara o segredo a sete chaves.
Nas últimas luas, porém, passara a se perguntar coisas perigosas. Queria saber se viria a sentir o que sentia agora caso Rhaegar tivesse ido em frente com sua imprudência e Arthur tivesse o ajudado a levar para longe — como sabia que o príncipe teria o pedido. Desejar a mulher do seu amigo mais próximo não seria nada honrado. No entanto, desejar a mulher que ele amara — e ainda amava — também não era.
Não podia simplesmente cobiçar a mulher que ainda fazia parte das crenças mais fortes do príncipe. Não podia desejar a filha do rei que o nomeara seu protetor — ainda mais quando esse rei deslizava para a loucura a cada dia que se passava.
Mas aqui estava ele. E sabia que não era apenas desejo.
— Cuidado, Sor Arthur. — A voz de o trouxe de volta ao eixo. De novo. — Se continuar me olhando desse jeito, especialmente quando retornarmos, as pessoas podem acabar pensando que se esqueceu de seus votos.
Arthur apertou as rédeas com força. Nem tinha percebido que seu olhar havia se voltado a ela outra vez. Respirou devagar.
O comentário da princesa viera leve demais para ser uma acusação, e direto demais para uma simples brincadeira. O canto de sua boca curvou-se ligeiramente enquanto o observava com curiosidade. Queria saber que tipo de reação ele escolheria lhe oferecer.
Ele escolheu apenas desviar o olhar. Não havia como negar que estava encarando, e a disciplina falava mais alto em um momento como esse. Além do mais, mesmo com o escasso contato entre os dois antes de Arthur virar seu protetor, a princesa sempre soube exatamente onde o pressionar. E nos últimos dias, então… fazia isso com mais frequência.
Algo havia mudado, ainda que Arthur não soubesse o quê.
E essa não era a única mudança. A princesa sempre prezava sair antes da hora do rouxinol. Às vezes para a Baía da Água Negra, para uma cavalgada qualquer pelas Terras da Coroa ou, quando estivesse mais disposta a perigos, para os limites da Mataderrei. Arthur estranhara no início, mas agora havia aprendido a apreciar. Era muito melhor do que permanecer imóvel diante da porta dos aposentos da princesa enquanto ela dormia. Nos dias atuais, porém, essas saídas noturnas para longe de tudo e todos haviam se tornado mais regulares.
Ainda assim, Arthur não tinha do que reclamar. Targaryen era a pessoa com quem mais passava tempo desde que fora designado para o posto. Era ele quem estava ao lado dela quase o dia inteiro — do jantar até um pouco antes do almoço. Quem a protegia durante seu sono e enquanto estava acordada, fosse inventando aventuras para fugir dos sussurros da Fortaleza Vermelha, ou tentando ao máximo fingir que sabia agir sem criar confusão com o resto da corte — e falhando miseravelmente. Era ele quem a acompanhava em seus passeios na hora do lobo. Quem a via como de fato era quando os outros nobres não estavam olhando.
Ousada ou feroz, não importava mais. O juramento que fizera ao rei para protegê-la nunca parecera tão simples quanto agora. chamava aquilo de devoção — sempre adornado com um leve desdém que não fazia esforço nenhum para disfarçar. Isso porque sabia que Arthur podia ser juramentado a ela, para acompanhá-la, guardá-la e protegê-la, mas deveria, no fim das contas, responder ao pai dela acima de tudo, e não a ela. Sua verdadeira lealdade era para com o rei. Deveria ser. Ainda que seus olhos, por vezes, o denunciassem.
O céu começava a clarear entre as copas altas das árvores que conseguiram sobreviver ao frio. A umidade da madrugada ainda pairava sobre a relva, e o inverno continuava sem fim. Arthur reduziu o trote quando assim o fez. Seus olhos vagaram para a princesa de novo, como faziam mais e mais a cada noite ao lado dela.
E foi naquela quietude que Arthur Dayne refletiu sobre algo que jamais teria permissão de dizer em voz alta: fora colocado ali por devoção ao rei, e permanecera por devoção ao dever. Mas o que começava a nascer naquela floresta — ou melhor, a ser notado, despertado — não respondia a nenhum trono; era uma guerra ameaçadora travada em puro silêncio.
Ali, cavalgando ao lado de Targaryen no fim da hora mais sombria da noite, ele enfim compreendia a maior das verdades. Que as devoções mais perigosas não eram as declaradas sob a luz da corte. Eram aquelas escolhidas em silêncio — onde ninguém podia testemunhar.
Capítulo 2

Sombras e sussurros

“Então se isso é tudo, é agora ou nunca
A vida é muito curta para não se arriscar”

True Brew — Millencolin


A Mataderrei aparentava cansaço. Mas não .
O inverno havia despido algumas árvores até os ossos, deixando apenas galhos quebradiços arranhando um céu que se recusava a clarear. A geada se agarrava à terra escura com uma teimosia que se equiparava à da princesa, rangendo sob os cascos dos cavalos enquanto Sor Arthur Dayne e Targaryen cavalgavam em marcha pela névoa que se dissipava. Era uma daquelas manhãs que pareciam suspensas entre respirações — tarde demais para ser noite, cedo demais para o mundo começar.
O silêncio da princesa já não lhe causava estranheza. Não. Esse era um tipo de silêncio que Arthur aprendera a reconhecer muito antes de se tornar seu cavaleiro juramentado. Na maior parte das vezes, significava que estava prestes a fazer algo imprudente ou insensato. Por isso mesmo, preferia aqueles em que ela ficava andando de um lado para o outro tantas vezes que dava vontade de segurá-la no lugar, pois era o que costumava fazer quando estava pensando. E ela era brilhante quando pensava — e havia chances menores de se machucar.
parou o cavalo sem aviso e desceu da sela antes que Arthur sequer pudesse falar ou intervir em sua possível insensatez. As botas da garota afundavam levemente no chão enquanto se movia em direção ao pequeno lago, que jazia escuro e pesado sob um fino véu de neblina. Ao longo das margens, uma frágil crosta de gelo se agarrava aos juncos, rachando suavemente sempre que o vento mudava de direção. ficou ali, parada, como que atraída pelo lugar, perdida em pensamentos. Com certeza estava tensa — essa era apenas mais uma coisa que aprendera sobre ela com o passar do tempo.
— Vossa Graça — chamou Arthur, se sentindo estranho por ter de quebrar aquele silêncio de decisão. — Não é seguro estar aqui, especialmente a esta hora.
encarou o seu reflexo fragmentado pelas ondulações tênues da água. Ela expirou devagar, e só então percebeu a tensão em seu peito. Era óbvio que estaria tensa — era até estranho não ter percebido antes. Começou a caminhar devagar, de um lado para o outro, na beira do lago.
Sua saída noturna de hoje tinha um propósito maior. Estava mais do que na hora de ser sincera com Sor Arthur Dayne, independente de qual pudesse ser a reação dele. Era melhor do que ficar escondendo as coisas que havia notado. Não à toa estava tão estranha e o testando desde que deixaram o fedor de Porto Real para trás.
Seus dedos roçaram a borda da luva; mais um gesto que denunciava a tensão sob sua pele. Ela não sabia como entrar no assunto e isso a fazia se sentir jovem demais. Tão jovem como naquela vez há quase quatro anos, no torneio em Lannisporto, quando ele — já um renomado cavaleiro da Guarda Real no auge de seus dezessete anos — a chamou para dançar com um belo sorriso no rosto. Tinha só quatorze anos na época e ainda acreditava que estava destinada a ser irmã-esposa de Rhaegar, independente de qual estrela cadente brilhasse para ela. Mas se tinha uma coisa da qual nunca se esquecera, foi de como se sentira vista. De verdade, como mulher recém-formada, e não apenas como a ponta de um fio atado a profecias maiores do que qualquer um deles.
Guerreiro, me dê coragem para iniciar isso, rezou em silêncio, coisa que raramente fazia. E se fosse pensar bem, adoração ao Guerreiro combinaria mais com Arthur do que com ela. Talvez devesse estar pedindo para a Donzela fornecer orientação e segurança para lidar com o que sentia. E para abrir a boca e falar o que quer que fosse.
— Sei que não é seguro, Sor Arthur, e confio em você para me proteger — falou, por fim. Gostava como ele costumava respeitar seus silêncios de um jeito que apenas Rhaegar tinha sido capaz até agora. — Eu só… precisava de um momento em que ninguém ficasse me observando respirar. Em que não precisasse me lembrar de ser o que eles esperam de mim. É uma atuação cansativa.
Sua querida mãe — a rainha Rhaella — havia aprendido aquela atuação melhor do que qualquer outra pessoa na Fortaleza Vermelha. Ela não falava sobre isso nem sobre o que o pai de tinha se tornado. Mas havia tardes, raras e sem pressa, em que as duas se sentavam juntas, com suas agulhas focadas no bordado, e o mundo ficava do lado de fora por tempo o suficiente para poderem respirar de verdade.
Eram nesses momentos que a princesa entendia a resistência da rainha pelo que ela não precisava dizer. Era o único tipo de silêncio que havia aprendido a aceitar sem desconforto. Todos os outros a sufocavam. Esse aqui, no entanto — entre as árvores, com Arthur por perto — havia se tornado bem semelhante.
flexionou os dedos enluvados. Apesar de suas palavras anteriores, ele a observava respirar — da hora do jantar até perto do almoço, todo santo dia, caminhando dois passos atrás dela e ligeiramente à direita. Mas com o olhar de Sor Arthur Dayne, ela não se importava mais — ao menos não de um jeito ruim. enfim se virou para encará-lo, o avaliando como quem testa o equilíbrio de uma lâmina em punho.
— Por vezes, até os dragões se cansam de suas correntes de chamas e buscam por algo mais verdadeiro. — Seu olhar se demorou nele. — E se o perigo nos espreita em um lago aparentemente tranquilo ao amanhecer deste inverno sem fim, Sor Arthur, confio que você o derrotará. É um ótimo cavaleiro. Sempre foi.
A fraca luz da aurora refletia em seus cabelos dourado-prateados, tão indomáveis quanto ela, mas Arthur a olhava nos olhos, intenso, sem pestanejar. Sempre foi quieto, na dele, mas se sentira tentado a falar alguma coisa — qualquer coisa — quando a princesa mencionou sua atuação. No entanto, se mantivera em silêncio, pois sabia que ela não tinha terminado. Até agora.
Desmontou, então, mais devagar que o habitual. A rigidez congelada em seus dedos fez com que as rédeas de couro resistissem ao seu aperto por um instante além do necessário. Quando suas botas quebraram a geada sobre a grama, ele já havia considerado — e descartado — inúmeras vezes a ideia de manter distância de Targaryen.
— Você sabe bem que o perigo nem sempre é uma criatura tangível a ser abatida — disse, ao se aproximar. Conhecia a inteligência da garota e sabia muito bem que raramente fazia as coisas sem ter pensado muito a respeito.
A presença dele era um contraponto sólido e calmo à energia inquieta que crepitava ao redor da princesa. Ela gostava disso. Disso e de muitas outras coisas que já havia considerado antes de sair de seus aposentos durante a madrugada para outra cavalgada aos limites da Mataderrei, antes de escolher falar com ele longe dos olhos e ouvidos da corte.
— Seria tão mais fácil se fosse, não? — Acrescentou ela.
Um farfalhar repentino em algum lugar além das árvores chamou-lhes atenção. quase riu. Era como se os próprios deuses tivessem mandado aquele som para ecoar as palavras de Arthur e zombar dela. Tudo o que ela fez, porém, foi ficar imóvel, a exemplo do cavaleiro e de seu instinto de batalha. A mão dele jazia sobre a empunhadura da espada ancestral que carregava, mas sem desembainhá-la, afinal, não era um garoto verde há muito tempo.
Apenas o silêncio se seguiu, então Arthur obrigou-se a falar novamente:
— Seria. — Concordou com a observação dela. — Uma espada resolve esse tipo de perigo. Há outros, no entanto. Que espreitam nas sombras e sussurram nas palavras. Esses nem sempre são fáceis de matar.
— Sombras e sussurros, eu sei. — Ela se abaixou, pegou uma pedrinha do chão e jogou no pequeno lago. O respingo foi mais forte do que o esperado, e anéis se espalharam pela superfície escura. — Palavras podem ferir mais profundamente do que aço valiriano. Meu pai se cercando de sussurros é a prova disso. Em vez de ajudá-lo, só fazem temer a todos. E é por isso que sou grata por ter um protetor juramentado que conhece a diferença. — Cruzou os braços para se proteger do frio. — Diga-me, Sor Arthur: você me protege dos perigos externos… ou de mim mesma?
Arthur deixou o peso da pergunta se assentar dentro dele antes de responder.
— Meu dever é protegê-la de todas as coisas. Externas ou internas, não vejo diferença alguma. — Manteve seu olhar, as palavras tão inflexíveis quanto uma lâmina. — Minha honra me diz para protegê-la de tudo. E sim, isso inclui você mesma, se necessário.
— Foi o que pensei. — Assentiu devagar, contente com a resposta. — E sobre as sombras e os sussurros… Conheço você, Sor Arthur. Acredito que tenha escolhido mencionar isso agora por um motivo especial. Então me diga: Que sussurros ouviu sobre mim desta vez? O que eles estão dizendo agora?
A expressão de Arthur não o traiu; sabia ser o cavaleiro estoico na maioria das vezes. No entanto, um lampejo cruzou seus belos olhos.
— Vossa Graça sabe que evito dar atenção às fofocas da corte — começou, com o devido cuidado —, mas… — acrescentou com um toque de resignação — é verdade. Chegaram aos meus ouvidos burburinhos sobre você. Há sussurros. De novo.
— É claro que há, eles nunca param. — Endireitou a postura. — Sorte a minha por ter um protetor ao meu lado que não finge não ter ouvido nada sobre a dama a quem protege. — olhou para ele. — Conte-me, meu cavaleiro branco, que sussurros são esses?
— Acredito que você diria que é mais do mesmo — comentou.
— Provavelmente — admitiu ela. — Se já fazem todo esse alarde agora, imagina quando eu começar a dar motivos para eles falarem.
Aquilo não a divertia tanto quanto fez parecer. Mas Arthur vira por trás da máscara outra vez. E, por isso, continuou:
— Eles ficam segredando uns aos outros, com menos cuidado do que deveriam, sobre a sua… impulsividade, sua natureza obstinada. — Escolheu as palavras com cautela, afinal, os outros tratavam aquelas coisas como defeito. Mas não ele; não quando dizia respeito à . Para Arthur, eram qualidades que havia começado a admirar nela em algum momento no passado, quando já havia proferido seus votos. — Alguns dizem que é inapropriado para uma princesa do Trono de Ferro. Que você… carece da contenção que uma mulher em sua posição deveria ter.
Arthur estudou o rosto dela, atento, mas não ousou desviar o olhar nem sequer quando teve vontade de revirar os olhos.
— Inapropriado… — Um leve sorriso sem humor surgiu em seus lábios. — Recebi o nome da rainha , irmã-esposa do Conquistador, guerreira que empunhava a Irmã Sombria em batalha, montadora de Vhagar, a própria fundadora da Guarda Real. Enquanto eu sou o quê? A irmã-que-não-mais-será-esposa de Rhaegar, que mal sabe como segurar uma espada, e uma montadora admirável de um belo palafrém que deve me detestar por ficar o trazendo até um lugar desses em noites frias. — Ela riu, sarcástica. — Ninguém quer uma , nem quando tudo o que tenho de mais forte em comum com ela é o nome, o sangue e o fato de ser obstinada. Ah, sim, e a cor dos cabelos.
Sacudiu a cabeça e suspirou. Não demonstrou mais incômodo do que isso, entretanto, Arthur enxergava por baixo da tentativa de piada e descontração da princesa. Ainda assim, respeitou o seu silêncio enquanto a assistia voltar à beira do lago para encarar o reflexo outra vez.
“Contenção” havia sido a palavra que mais a chateara. Era um termo que englobava tantos tipos de coisas diferentes que nem fazia muito sentido julgar alguém por falta disso. Sem contar que ela era contida quando precisava ser, ao menos em tudo o que importava. E isso já tinha trazido muitas desfeitas em sua vida. Fora por conta de contenção que Rhaegar e ela nunca tinham ficado verdadeiramente juntos, afinal, acreditavam que teriam todo o tempo do mundo para isso no futuro. Mas o destino era uma coisa curiosa, e os deuses se divertiam às custas dos meros mortais.
— Falam de contenção como se fosse uma virtude por si só quando, na verdade, aprendê-la é aprender a desaparecer silenciosamente. — Virou-se para Arthur de queixo erguido, seu olhar firme e inabalável. — Se isso me torna obstinada demais… então que sussurrem, malditos sejam!
O silêncio pairou entre eles por um breve instante, e então desmanchou a pose e respirou fundo.
— E o que você acha dos sussurros deles, Sor Arthur? — perguntou de repente. — Quer dizer, você me conhece melhor do que ninguém, não é? Sempre tendo que estar ao meu lado em cada besteira que faço. — Gesticulou, como que para enfatizar, já que não sabia o que fazer com as mãos. — Seja sincero, por favor. Eu lhe concedo permissão para isso. E não só hoje, mas todos os dias a partir daqui. Os deuses sabem que eu preciso de gente sincera na minha vida.
O canto dos lábios dele tremeu quase imperceptivelmente com o pedido de . Dia após dia, ele não conseguia evitar o impacto que a feroz princesa causava nele. Mas então, por um instante, a lembrança de cordas prateadas vibrando sob os dedos de Rhaegar cruzou a mente de Arthur. A imagem de um jardim tranquilo e uma garota rindo ao lado do príncipe foi evocada de sua memória.
Ele ocupara um lugar entre o príncipe e a princesa há muito tempo, e sempre acreditou que seu espaço naquela constelação era fixo — independentemente de qualquer desejo que tivesse tido algum dia. Agora, porém, as estrelas haviam mudado. E Arthur já não tinha certeza de quem ele havia traído primeiro.
— Tem razão. Vi todas as suas ações, tanto as sábias quanto as impetuosas. — Parou por um momento, refletindo. Ela buscava uma opinião sincera, não apenas platitudes vazias; selecionar as palavras com sabedoria era mais do que necessário. — Sua impulsividade pode ser… algo desafiador de lidar às vezes.
— Então concorda com o que dizem. — Assentiu devagar. — Não se preocupe, também concordo. A diferença é que não vejo isso tudo como ruim. Eu… — Fechou os olhos, pressionando a ponte do nariz. — Não consigo. Simplesmente não consigo ver essas coisas como ruins. Ao menos não da maneira que eles veem.
Arthur não pôde deixar de notar como ela disse “eles”, e não “vocês”. Gostou de não ter sido incluído na generalização. Ainda mais depois de ela ter ponderado as palavras cruéis da corte à luz de suas próprias crenças.
— As pessoas sempre encontrarão motivos para falar, princesa, mas você conhece bem o ditado: palavras são vento. — Olhou bem para ela. — As coisas que falaram… Eu também não as vejo como algo ruim. Vejo como diferente.
o observou por um longo tempo, como se estivesse testando o peso do que ele havia dito.
— Diferente… Isso é muito mais do que a corte já me permitiu ser. — Assentiu uma vez, e seu olhar se suavizou. — Se consegue ver isso, então talvez eu não esteja tão sozinha quanto gostariam que estivesse.
— Eu vejo — reafirmou.
— Curioso, não? Ou talvez nem tanto. — Deu de ombros. — A maioria dos homens só vê o que permito que vejam. Isso os mantém a uma distância segura, e tem me mantido… intocada. Você, por outro lado, é inconvenientemente difícil de manter longe. — Ela quase riu. — Enfim… não necessito que concorde comigo de olhos fechados, Sor Arthur, nem nisso, nem em outras coisas. Apenas preciso que veja a mim. . Não à princesa Targaryen.
Arthur tinha a visto de verdade pela primeira vez no ano de 276 depois da Conquista, no torneio que Lorde Tywin organizara em Lannisporto em honra ao nascimento do príncipe Viserys — irmãozinho dela. Lembrava bem de como tinha criado coragem e a tirado para dançar, mesmo sabendo que não tinha nenhum direito por ser um cavaleiro da Guarda Real e por ela pertencer a Rhaegar. Em algum momento daquele torneio, passou a se sentir como um intruso — não sabia dizer quando.
Agora, mais de três anos e meio depois, podia dizer que já tinha a visto de verdade muitas outras vezes. Geralmente nos jardins ao lado de Rhaegar. Intocável de uma forma que parecia… apropriada. Vê-la agora — nesse lugar, nessa hora estranha entre a noite e o amanhecer — era como invadir um território proibido. Mesmo assim, o canto de seus lábios se curvou em um pequeno e raro sorriso. Ele podia ver o peso da posição sobre ela e a solidão que vinha com o fato de ser vista como alguém à parte.
— Eu juro pelos deuses antigos e os novos — declarou com voz calma e firme —, que sempre lhe verei, , por quem você é. — Deu um passo à frente como que por instinto e parou por um momento. Só completou de vez o movimento depois de uma deliberada pausa. Era como se cruzasse uma fronteira invisível que não podia mais fingir não ver. — Com todas as suas falhas e qualidades, sua impulsividade, obstinação e inteligência. Verei você. Para o bem ou para o mal.
sugou o ar, como se as palavras dele a tivessem alcançado com um baque profundo antes que ela pudesse se preparar. Desviou o olhar em um movimento de autopreservação. Quando voltou a encará-lo, seus olhos estavam brilhando, embora se recusasse a deixá-los transbordar.
— Não deveria proferir votos levianamente, Sor Arthur. — Engoliu em seco, se recompondo. — Ver alguém de verdade é muito mais perigoso do que desembainhar uma espada. Mas… agradeço por isso.
Arthur viu o fogo em seus olhos úmidos — medo e desafio entrelaçados.
— Levianamente? Princesa, eu fiz meus votos anos atrás, mas há algumas luas jurei minha vida a você, como seu protetor, perante os deuses e o rei — lembrou-a, a voz baixa, porém firme. — Isto aqui não é diferente.
— Eu sei. — Um sorriso fraco brotou em seus lábios. — E se me vê por quem verdadeiramente sou, mesmo com todo o perigo que isso pode envolver… Então confiarei a você o direito de me ver assim.
Arthur se aproximou ainda mais, perto o suficiente para que ela pudesse ver toda a variação de cor nas manchinhas de seus olhos. O peso da presença dele, mais próxima do que era apropriado, fez o pulso de trair sua calma antes mesmo que ela fosse capaz de pensar em nomear o que sentia.
— Você fala de perigo, princesa, mas não há nada mais perigoso do que a verdade entre duas pessoas que compreendem seu peso. — Arthur contraiu levemente o maxilar; o único sinal físico de que sentia tudo isso de maneira muito profunda para ignorar. — E se me conceder esta honra… saiba que essa visão estará segura comigo.
— Não sei se chamaria isso de honra, mas lhe concederei… Arthur.
O nome pairou entre eles, leve como a mais bela pluma. Apenas o primeiro nome, sem títulos, sem formalidades. Arthur pensou em corrigi-la — em lembrá-la de quem ele era, o que ele era, dos juramentos que fizera. Pensou também em como ergueria o queixo e recusaria a distância. Por fim, não disse nada.
— Concordo com você sobre essa coisa do perigo da verdade entre duas pessoas que entendem o peso — continuou, sem recuar. Dessa vez havia algo diferente em seus olhos violeta-prateados, uma consciência silenciosa. — Então somos dois tolos, você e eu. Porque sabemos do perigo e, mesmo assim, nenhum de nós escolheu desviar o olhar. — Sua respiração falhou por um pequeno instante, mas ela jamais deixou de o fitar. — Se essa verdade é a coisa mais perigosa de todas, Sor Arthur, então creio que seja um perigo que vale a pena enfrentar.
Algo se agitou no interior de Arthur, como se uma chama há muito adormecida tivesse se reacendido de repente. Seu coração acelerou um pouco. A proximidade, o modo como ela mantinha o olhar sobre ele por pura escolha, a forma como o seu nome soava nos lábios dela; tudo isso se combinava para criar um momento de tensão entre eles, o ar carregado de palavras não ditas.
Ele respirou fundo antes de responder com toda a intensidade que sua voz baixa podia demonstrar em uma única palavra:
— Sim.
sustentou seu olhar por tempo o suficiente para processar a resposta e gravá-la em sua memória.
— Então nos entendemos perfeitamente. Sem fingimentos. Sem mentiras para tornar isso mais fácil do que é. Apenas a verdade… e o preço que custar. — suspirou, como se tivesse tirado um peso de cima dos ombros. — Eu gosto disso, para ser sincera. Não tenho medo desse perigo que falou. Tenho medo de fingir que ele não existe, que isso não existe.
Arthur já tinha visto muitas coisas em seus anos de serviço, entretanto isso era diferente. Estudou o rosto dela atentamente: a determinação em seus olhos, a maneira com que se portava, não como uma princesa, mas como alguém pronto para a batalha e, se possível, para comandá-la. A postura dela o fez pensar que eles de fato estavam decidindo coisas que não eram ditas com todas as palavras como se estivessem em um conselho de guerra. E talvez fosse isso mesmo, afinal, o que estava se desenrolando ali não era algo para ser visto em qualquer lugar que não fosse nas sombras.
— Tem razão. Fingir é pior do que qualquer lâmina. — Deixou aquela verdade se assentar entre eles. — Então permaneceremos aqui, juntos, pela verdade e por tudo o que ela custa. — Sua voz baixou ainda mais antes de proferir seu juramento envolto em aço: — E se algum dia você temer que eu possa recuar diante disso… lembre-se de que não recuarei.
— Então não recue. — Seu tom deixou bem claro que era um convite, não uma ordem. — Mas entenda isso, Arthur: uma vez que escolha esse tipo de verdade em vez do conforto e tudo o mais, não haverá como voltar a ser quem éramos antes deste lago, desta manhã. — Ela deu um passo na direção dele, cortando a distância o suficiente para sentir seu calor, mesmo com a armadura galante e o frio do inverno os abraçando. — Se você não recuar, também não recuarei.
Arthur não desviou o olhar. Nem sequer uma vez. Não tinha mais volta. O ar entre eles crepitava com uma tensão mal disfarçada e um silêncio vibrante quase indescritível.
E pensar que ele sempre acreditara que seria um tolo se ousasse imaginar que Targaryen algum dia o olharia de qualquer outra maneira. Aquele momento — as palavras dela, o olhar firme, o fogo que ardia no violeta de seus olhos — definitivamente se parecia com essa “outra maneira”. Ou talvez ele fosse mesmo um tolo, no fim das contas.
— Já não somos mais os mesmos que éramos antes desta manhã. Nenhum de nós dois. — Ele deu um último pequeno passo à frente. — E nunca mais seremos.
foi envolvida por um aperto no peito, agudo e quente, como se algo há muito confinado tivesse enfim eclodido e encontrado espaço para respirar. Não era exatamente medo, mas algo perto disso: a consciência das consequências, de portas se fechando atrás dela enquanto outra se abria logo à frente.
Ela o olhou de verdade agora. Não como antes olhara para Sor Arthur Dayne — a Espada da Manhã, o prestigiado cavaleiro, o nome, a lenda viva sussurrada pela Fortaleza Vermelha —, mas este homem parado diante dela. O jeito como a tênue luz da manhã iluminava os cabelos próximos de suas têmporas, a calma força em sua postura, a gravidade silenciosa que fazia sua beleza parecer perigosa em vez de ornamental. Ele era bonito, sim — mas, mais do que isso: era sólido, inabalável. O tipo de homem cuja mera presença parecia exigir algo de você.
Era um cavaleiro da Guarda Real, com votos mais pesados que o aço — não podia tomar esposas, manter terras, nem ter filhos; uma vida inteira para proteger. E, ainda assim, ele estava ali, escolhendo a verdade do que sentiam em vez da segurança da distância… distância que um cavaleiro juramentado deveria manter.
Sua respiração falhou antes que ela pudesse controlá-la.
Um dia, conhecera Arthur como o garoto que estava sempre ao lado de Rhaegar, apesar de ele já ser grandioso desde cedo. Era amigo próximo dele, seu igual, o homem que falava com seu irmão sem fingimento ou medo. Três anos mais velho que — da idade de Rhaegar —, era incrivelmente sereno, já forjado pelo dever, enquanto ela ainda aprendia o preço que o seu lhe custaria.
E agora ela percebia a exatidão do que tinha proferido: jamais o veria como antes. Ela não conseguia desver o jeito como ele a olhava agora — não como um símbolo ou um fardo a ser guardado por ser filha do rei e irmã de Rhaegar; mas como .
— Então está feito — disse, com voz suave, embora nenhum decreto jamais tivesse soado tão vinculativo. — O que quer que venha depois disso, enfrentaremos como somos agora, você e eu. E não como nos ensinaram a ser.
A verdade de tudo aquilo se instalou profundamente dentro dos dois. O modo como se portava tornava tudo inesquecível para Arthur — feroz e aberta, os últimos vestígios de fingimento se caindo como folhas de outono.
Sua mão se moveu por instinto. No entanto, parou o movimento a um sopro de distância do pulso dela. Por um instante, o peso do manto branco, dos juramentos e dos fantasmas de cabelos prateados sorrindo nos jardins do castelo o oprimiram. Então ele os venceu e acabou com a distância.
Seus dedos enluvados envolveram os dela — ternos, porém firmes, inconfundíveis de um jeito que tornava impossível voltar atrás. Era uma afirmação silenciosa, uma promessa feita através de armadura e gelo. Mesmo com o couro de ambas as luvas gelado por causa do ar da manhã, o contato enviou uma onda de sensações através deles. Algo muito mais perigoso que o calor. E, ainda assim, o frio já não era mais o mesmo.
— Como somos agora — repetiu, o olhar fixo no dela. — Nada menos que isso.
— Nada menos. Nunca vou pedir que seja menos do que seus votos, Sor Arthur, só que não finja que eles te cegam. — Ficou em silêncio por um instante carregado de significado antes de prosseguir: — E eu não fingirei que não te vejo. Não mais.
O polegar de Arthur traçou um padrão suave, quase displicente, no pulso dela, couro sobre lã.
— Não fingirei — prometeu.
E eles permaneceram assim, em um momento de silenciosa compreensão, suas respirações se misturando com o ar frio da manhã. Por um breve instante, tudo parecia simples, como se a verdade por si só bastasse para firmar o chão sob seus pés. Mas mesmo na quietude, algo mais profundo permanecia por dizer, aguardando não o silêncio, mas a coragem.
Continua…
Nota da autora
Gente do céu, olha aí eu chegando com mais uma fic em Westeros hahahahah. Enviei já com dois capítulos e, ao que tudo indica, a próxima att vai ser dupla também.

Só queria deixar registrado aqui o meu amor por WOD. É a minha favoritinha do momento (apesar de amar as outras também, claro kkkkk). Mas essa aqui foi um surto pra mim desde o começo. Juro pra vocês, essa é a maior fic que to escrevendo na minha vida. Ela vai ficar realmente gigante. E eu já tenho tudo planejadinho do início ao fim.

Enfim… espero que tenham gostado desse início do Arthur e da , e espero que embarquem comigo nessa longa jornada pra viver essa loucurinha comigo e com os dois.



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