🏈 💙
— Não congele ao reencontrar sua primeira paixão —
“Eu nunca vi um sorriso
Que consegue iluminar a sala como o seu”
(You Had Me At Hello — A Day To Remember)
A temporada acabara há quase dois meses, mas minha cabeça ainda estava no campo. Nunca saía de lá. O corpo até descansava quando o mundo tirava férias de mim, já a mente mantinha-se ativa. Nem mesmo o barulho da televisão conseguia preencher o que o silêncio não dava conta. O narrador gritava sobre uma jogada incrível de Joe Montana em um jogo antigo do início dos anos 1990 que eu já vira mil vezes. Aquilo ainda era importante para mim, mas agora soava quase como algo supérfluo.
Deitado no tapete com a cabeça sobre as patas, meu labrador preto me encarava. Monty com certeza entendia mais desse tédio do que eu. Por vezes, quase chegava a acreditar que ele me olhava daquele jeito porque esperava que eu fizesse alguma coisa da minha vida para além do futebol. Era bem parecido com o olhar que via no espelho em minhas noites mal dormidas.
Mas eu não deveria estar assim, não é? Havia conseguido tudo — ou quase tudo — o que queria. Era jogador profissional, jogava bem, ganhava melhor ainda e vivia em uma casa grande demais para um homem só e seu fiel cachorro.
Ajeitei-me no sofá, cansado de ficar estirado ali. Algo cutucou minha perna e dei de cara com uma tampinha de garrafa. Mas que merda! Peguei o objeto e o joguei através da sala para que pousasse perfeitamente na lata de lixo. Monty l tou as orelhas para o movimento. A falta de empolgação momentânea do cachorro refletia a rotina meio vazia que estávamos tendo.
— Viu isso, Monty? Te falei que eu era quarterback antes de você nascer! — Estiquei a mão para pegar a bolinha que o cachorro adorava. — Às vezes sinto falta, sabia? Mas Thomas Bates é provavelmente o melhor QB da liga e, para falar a verdade, só sou tão bom recebedor porque tenho ele lançando a bola para mim. — Sacudi a mão com a bolinha para chamar a atenção dele, como de costume, e então a lancei. O olhar de Monty acompanhou o trajeto, mas ele nem se moveu. — Ei, eu não droparia uma bola dessas, viu?
Inclinei-me para a frente e fiz carinho na cabeça do labrador. Sabia que, de vez em quando, o cachorro conhecia meu estado mental melhor do que eu mesmo. E esse era um desses momentos. Tanto que, quando o jogo antigo acabou e o silêncio pesado prevaleceu, l tei-me e Monty fez o mesmo. O som de suas patas me seguiu até a cozinha. Abri a geladeira pela terceira vez em menos de uma hora, porém não tinha fome, nem sede, nem nada. Só tédio. Fechei a porta e suspirei.
Meu relógio vibrou algumas vezes e eu ergui o pulso para ver as mensagens:
✉ D.J. Andrews:
Algo lendário está prestes a acontecer
Se você disser de novo que não vai nessa festa
Juro que te busco à força, !
Bebida, música, mulheres…
Você sabe, cara! Festa do
Lendárias como sempre
Ri sozinho. D.J. queria porque queria me convencer a ir à festa de . Durante a semana, cogitara muitas vezes a possibilidade de ir. Apenas isso, nada mais. O fato de eu estar em casa agora, desanimado e abrindo a geladeira mil e uma vezes, já deveria dizer alguma coisa. Por óbvio, não respondi às mensagens; sem contar que havia deixado o meu celular no sofá e detestava usar o comando de voz do relógio.
Outra vibração me chamou a atenção.
✉ D.J. Andrews:
Você precisa disso, meu amigo
Sabe que precisa
Será que precisava mesmo? Respirei fundo e voltei para a sala, com Monty ao meu encalço. O cômodo permanecia exatamente igual, mas os troféus e fotos pareciam me olhar de volta, assim como os uniformes enquadrados: a camisa azul e amarela do Westmarble State Thunders, e a azul e branca do Westerburn Mustangs. Parei meu olhar na grande fotografia emoldurada: eu, com menos tatuagens nos braços do que agora, o número 16 estampado no peito, segundos antes de soltar a bola para o que seria um passe completo para o touchdown da vitória do Campeonato Nacional — a final do college football.
A tatuagem amarelinha com a forma do raio do Thunders já estava lá, na lateral do antebraço, não muito distante do pulso… Isso fez meus pensamentos e todo o resto se direcionarem à caixa levemente escondida na prateleira de baixo. Não saberia dizer há quanto tempo evitava voltar a isso. Monty esfregou a cabeça na minha mão, dando-me apoio. Olhei para ele e afaguei seu rosto.
— Ei, amigão, não me olha assim — pedi. — Não é nada de mais. Sério.
Fui até a prateleira e abaixei-me para pegar aquele pequeno antro de lembranças. Sentei-me no chão, ao lado de Monty, e tirei a tampa da caixa. O cheiro antigo de papel e poeira me atingiu com uma força quase física. Havia recortes, ingressos de jogos e shows, pulseiras de eventos e — bem no fundo — uma foto dobrada. Eu sabia o que iria ver ali, e mesmo assim a desdobrei.
A fotografia que me assombrava. Eu. Westmarble State. Parker. O cabelo brilhante, levemente embaraçado pelo vento. O sol no rosto dela. O modo como ria. Nossos braços entrelaçados. Minha camisa 16 do Thunders é mais nova do que conseguia me lembrar. Monty cutucou meu rosto com o focinho.
— Estou bem, cara — disse a ele. — Estou bem.
No entanto, não estava. Como estaria? Não, não deveria estar pensando assim. Isso já passou, afinal o término fora há cerca de seis anos. Já deveria ter passado. Apertei a foto entre as mãos com mais força do que o necessário e virei-a para ler a legenda rabiscada no verso:
“Para meu Joe Cool. Sei que vai conseguir chegar lá”
—
Joe Cool. — Soltei um riso curto, sem muita alegria. Sempre fora o maior fã de Joe Montana, vestia o número 16 por causa dele e, mesmo tendo mudado de posição, continuava frio em meu jogo. — É, ela estava certa, não estava?
Olhei ao redor. Monty me observava em um silêncio que acompanhava os troféus, quadros e afins. Eu, de fato, havia chegado até aqui, conseguido tudo o que desejava profissionalmente. Não me tornara quarterback na liga profissional, porém era o wide receiver principal de um dos melhores quarterbacks de todos os tempos — um cara que já tinha ultrapassado quase todos os números de Joe Montana.
— Não preciso mais ficar mantendo isso. — L tei-me rápido e caminhei até o lixo. Ainda apertava a foto meio amassada em minha mão. Fiquei parado ali por um momento, mas não consegui soltá-la. — Ah, que se dane!
Desamassei a fotografia o máximo possível, guardei-a de volta e fechei a caixa com força, como se estivesse enterrando seu conteúdo, que ainda pulsava. Sentei-me no sofá, peguei o celular e abri a conversa com o Andrews.
✉ :
Foda-se. Vou na festa do
Passa aqui pra me buscar
Não tô a fim de dirigir
A resposta chegou em um piscar de olhos.
✉ D.J. Andrews:
Não sei o que te fez mudar de ideia
Mas sabia que ia ceder!
Tá na hora de viver um pouco fora do campo, cara
Revirei os olhos e deixei uma risadinha escapar.
— Viu só, Monty? Andrews acha que é o treinador agora — comentei e recebi um latidinho e uma batida de rabo em resposta. Fiz carinho na cabeça dele. — Vou sair com ele e você vai ficar de guarda, entendeu? Nada de destruir as minhas chuteiras de novo.
Voltei-me ao celular e respondi:
✉ :
Não vai se achando, D.J.
Eu ainda posso alegar tortura
De tantas mensagens que me mandou
Não fazia muito tempo que havia tomado banho, então apenas subi para me trocar. Monty me acompanhou. Sempre fazia isso quando se dava conta de que eu logo sairia. Me arrumei devagar, como se fosse a um evento qualquer que não ligava a mínima. Porém, no fim das contas, era a primeira vez em meses que de fato tinha vontade de sair. Aquela foto havia me dado um gás que jamais imaginei que pudesse. Havia funcionado do modo contrário. Além do mais, quem sabe um pouquinho de barulho ajudaria a calar o resto.
Depois de finalmente me aprontar, desci as escadas, com Monty correndo para chegar lá embaixo antes de mim. Até o labrador parecia mais animado agora. Talvez pela minha postura ou pelo cheiro, aquele cheirinho significava que eu ia sair — algo que evitava fazer na
off-season. Muita coisa mudara na minha vida desde a universidade até os dias atuais, entretanto, a fragrância era sempre a mesma. Não conseguia deixar para trás.
A verdadeira diferença morava na embalagem e no novo nome que agora carregava: “16 by Montclair”. A Montclair era uma marca de luxo que trabalhava com lifestyle masculino, e essa parceria tinha vindo de uma insistência do meu assessor quando estourei na liga. Era engraçado pensar que, no fundo, o perfume ainda era o mesmo amadeirado de sempre; apenas embalado em vidro caro.
O que eu mais gostava nele — desde a faculdade, quando ganhei o primeiro frasco de Parker no meu aniversário de 21 anos — era aquele fundo de sândalo. Tinha alguma coisa naquele cheiro que se misturava com o ar, muito discreto e bem insistente. O tipo de cheiro que ficava na pele. E na memória. Ao menos, segundo ela.
— Essa não foi a única marca que ela deixou em mim, sabia? — falei com o cachorro, que me esperava no pé da escada. — Mas não é hora de abrir caixinhas do passado outra vez. Bora sair com D.J. Andrews! — Como se tivesse sido invocado das profundezas, o ronco do motor de sua F-150 se fez ouvir. — Falando no diabo…
E apenas então veio a buzina. Chequei se tinha ração e água o suficiente para Monty até que eu retornasse e fiz um carinho de despedida.
— Volto amanhã, tá bom? Nada de subir no sofá! — Ri um pouco. — Não, quer saber. Pode até subir escondido se quiser, só não destrua mais um sofá enquanto eu estiver fora.
Monty latiu em resposta antes de eu jogar a jaqueta sobre o ombro e sair pela porta. A noite havia caído e as luzes da rua refletiam no asfalto molhado. A Raptor estava na entrada com o motor ligado — imponente em seu preto metálico, mas com marcas de poeira que denunciavam mais estrada do que vaidade. Era o tipo de carro que dizia tudo o que o dono não precisava dizer.
A música tocava em volume baixo, porém a reconheci: “Panic”, The Smiths. E Andrews estava tão entretido mexendo no celular e cantando
“hang the DJ, hang the DJ, hang the DJ” que nem notou minha aproximação.
— Isso é um pedido de ajuda, D.J.? Você sabe, “enforque o DJ” e tal — provoquei. Apesar do sobrenome na camisa, o cara era mais conhecido como D.J. Andrews, abreviatura para Diego Joaquín; nomes estes que eram uma herança chilena de sua mãe.
— Ha-ha, como você é engraçado, . — Revirou os olhos, mas riu. — Entra aí de uma vez. Pensei que teria que te arrastar para fora.
— Pois é, eu quis vir por vontade própria — disse. — Mudei de ideia de repente.
— Você? Mudando de ideia? — debochou. — É uma boa coisa para se marcar em um calendário.
As risadas ecoaram, aquele riso de uma cumplicidade que cresceu com anos jogando, treinando, traçando rotas e decorando o playbook juntos. D.J. deu partida e caímos na estrada para uma viagem de cerca de meia hora.
— Não vou a Westerburn desde o fim da temporada — comentei.
— Não vou nem te julgar por isso. E olha que sou a pessoa que mais te julga por não colocar a bunda para fora de casa. — Ele tamborilou os dedos no volante no ritmo de outra música da sua playlist. — Fala sério, o que existe para nós em Westerburn na off-season? Essa cidade só está no mapa por causa dos Mustangs.
— É, tem razão — assenti. — Só existe mesmo.
— E as festas dele são as melhores, todo o país sabe. Não, acho que até as pessoas de fora do país sabem. — Ele sacudiu a cabeça. — Se deixar, o cara faz open bar com tudo o que tem direito usando um patrocínio de uma marca de whey.
— Isso é quase um crime federal, não? — Tive que rir. — Mas o carisma dele vence qualquer coisa. É incrível.
Àquilo, Andrews apenas acenou. Não havia discussão. tinha um certo magnetismo difícil de explicar para quem não o conhecesse. Balancei a cabeça no ritmo da música da vez. Nosso gosto não era tão parecido, mas muito do que D.J. escutava me agradava.
— É sério, . Ainda bem que você veio. — Lançou-me um olhar significativo. — Já passou da hora de parar de viver como se o campo fosse o único lugar onde dá para ganhar algo.
— Que porra é essa? — Franzi o cenho. — Tá filosofando agora, é?
— Só dizendo o óbvio — rebateu.
O silêncio pairou entre nós por um momento, entrelaçando-se aos acordes de Bob Dylan. Tentei, mas não consegui focar no som.
— E acha mesmo que dá para ganhar alguma coisa fora do campo? — perguntei. — Tipo o quê?
— Paz, talvez. Ou apenas um pouco de vida, já seria um começo. Especialmente para você, cara — disse sem perder o tom divertido.
Andrew era o tipo de amigo que não precisava dizer muito para cutucar bem fundo. Observei o lado de fora, as luzes passando afoitas pelo vidro, como se fossem fantasmas que eu deixava para trás.
— ainda mora perto do lago, né? — mudei de assunto.
— Sim. E reza a lenda que a festa vai ter uns vinte convidados, mas o dobro de problemas.
— Vinte!? Vinte vezes quanto? — Ri, dessa vez com sinceridade. — Não existe festa de sem pelo menos, sei lá, uma centena de pessoas ou algo assim.
O som de nossas risadas se misturou à música e, por um instante, alívio e desconforto batalharam em meu interior: o primeiro, por estar me permitindo escapar da minha própria cabeça, e o segundo, justamente por estar fugindo — da foto, do passado, de mim mesmo. E a ironia só piorou quando a música “The Boy With the Thorn in His Side”, dos Smiths, começou a tocar. O garoto que carrega um fardo. Sério, universo?
Tentei ignorar, porém, questionava-me se Andrews não estava, de fato, certo sobre a hora de ganhar algo fora do campo. Talvez devesse focar em sair, me divertir e deixar o peso tanto do passado quanto da vida atual de lado. E então, quando me dei conta, já estava cantando com meu amigo:
— And if they don’t believe me now, will they ever believe me?
As risadas saíram sem que eu controlasse. Bem do jeito que deveria ser. Logo as lembranças me atingiram em cheio: noites despertas, cantando abraçado com o meu fantasma particular de seis anos atrás, gritando aquela música para os céus como se não houvesse um amanhã longe um do outro. “Como eles podem ver o amor em nossos olhos e, ainda assim, não acreditarem em nós?” Pelo menos agora, aqui, rindo com o meu mais estimado amigo, a recordação não parecia tão dolorosa quanto nas vezes em que estivera sozinho.
E de algum modo, o resto do trajeto não pareceu tão pesado quanto o início, e logo estávamos estacionando nas redondezas do local da festa. Olhei na direção da casa de — grande, moderna, os vidros brilhando nas cores das luzes piscantes. Mesmo daqui de fora, dava para ouvir o som da música e de vozes sobrepostas. Com certeza teria alguns caras do time, amigos de amigos, alguns famosinhos, uma ou outra figura que eu só conhecia de nome e muita gente que jamais tinha visto na vida. O tipo de festa que parecia divertida de longe, porém era exaustiva de perto.
— Última chance de fugir — D.J. alertou.
— Só se eu roubar o seu carro. Deixei o meu em casa, esqueceu? — Fiz careta. — Cheguei até aqui. Não vou perder o espetáculo.
Descemos do carro e seguimos para a casa enquanto eu vestia a jaqueta. Assim que entramos, o nosso anfitrião já apareceu. usava uma roupa tão casual que não parecia nada preparado para uma festa. O mais engraçado era que combinava com ele, mesmo naquele ambiente; e era só olhar para o cara para reconhecer que ele se encaixava ali mais do que qualquer outra pessoa.
— Ah, olha só quem resolveu dar as caras! — Abriu os braços para Andrews. — Tô brincando, tô brincando. Sei que não perde uma, D.J., meu destruidor de coolers favorito. E olha só para isto! — Virou-se para mim com uma expressão caricata de surpresa. — Não acredito que estou vendo em pessoa! O homem que mal aparece em público sem uniforme, e raramente vem a Westerburn fora da temporada…
— Bem, eu abri uma exceção. — Dei um meio sorriso contido ao cumprimentá-lo. — Ouvi dizer que seria uma noite histórica e tal.
— E terá que abrir para todas as outras festas minhas, afinal… eu sou a festa. — expôs um sorriso enorme e nada forçado. Tudo parecia natural demais para ele. — O bar fica ali, e tem mais bebida na cozinha. Já as histórias inventadas, vocês podem encontrar por todo lado. Ou seja: se quiser esquecer o nome de alguém, tá tudo certo.
Ah, isso eu queria muito. Queria há seis anos.
— Esse discurso é o mesmo desde que te conheço. — Andrews riu alto.
— Pois é. Para você ver como sempre funciona. — deu um tapinha amistoso no ombro dele e se afastou para cumprimentar outras pessoas que chegavam.
Antes mesmo que nos mexêssemos, um homem negro e alto gesticulou animado, chamando nossa atenção. Chadarius Jones era linebacker no time, estava sempre contando uma história ou apreciando uma boa jogada. Era um cara grande, de sorriso fácil e energia boa.
— Aí estão as lendas! — Veio em nossa direção. — Nem acredito que convenceu esse aí a sair da caverna. — Cumprimentou Andrews e voltou-se a mim. — … O homem que faz qualquer quarterback parecer bom.
— Que isso, Chad! Sabe que não precisa de muito esforço para fazer Thomas Bates parecer bom. — Apertamos as mãos e demos um meio abraço, como de costume. — É só evitar os drops.
— Ah, então continua mesmo fingindo que não é o melhor recebedor do elenco — comentou, arrancando uma risadinha até de D.J., que também era wide receiver.
— Não finjo nem deixo de fingir. Os números falam por mim.
— Ele está tentando achar o equilíbrio entre humildade e presunção. — Andrews tirou sarro.
— Ih, sei não. Já começou a falar de estatística no meio da festa? — Chad tomou o resto da bebida de seu copo. — Isso é coisa de jogador precisando relaxar. A gente está de férias, cara.
Andrews gargalhou, e com razão — ele me falava aquele tipo de coisa o tempo todo. Até eu precisei me juntar às risadas, porém não com tanta vontade. Era bom estar ali, descansar da minha vida rotineira. Eu estava à vontade, apesar da hesitação em comparecer à festa. Ainda assim, a sensação era um pouquinho estranha.
voltou para perto da gente e falou alguma coisa que eu não absorvi. Então disse que tinha que fazer alguma coisa na cozinha; algo a ver com gelo e bebidas. Andrews se ofereceu para ajudar e Chad foi pegar mais um copo para ele e um para mim. Foi quando ele retornou e eu tomei meu primeiro gole de cerveja da noite que a vi.
Do outro lado da grande sala. Distante, mas nem tanto. O cabelo puxado para o lado, preso de um jeito que eu reconheceria até de costas. Parker. Tudo pareceu desacelerar, o resto do mundo desfocando-se para ressaltar apenas sua figura. Até o som baixou, em reverência, quando sua risada alta e divertida preencheu o ambiente. E eu estava tão imóvel quanto o resto parecia estar. Não sabia se era real ou se estava vendo-a no meio da multidão de novo, como três anos atrás, apenas para vê-la desaparecer no momento seguinte.
— Opa, opa, opa! Olhar de interceptação. — Chad me cutucou. — Quem é a gata?
— Eu… — hesitei. Até a mecha rosa que ela tinha feito na franja estava perfeita. — Conheço ela.
— Então vai lá, campeão — incentivou-me. — Recebe esse passe.
Deixei escapar uma pequena risada tensa. também ria. Estava rindo de alguma coisa que alguém qualquer havia dito e, quando parou, sorriu. Eu jamais me esquecerei daquele sorriso — o mesmo que um dia me fez sentir que o mundo inteiro cabia dentro de um estádio lotado. Um soco de nostalgia atingiu meu estômago — não necessariamente por ela em si, mas por quem eu era quando estava ao lado dela.
— Acha que é fácil assim, é? — perguntei a Chad Jones.
— Irmão, você já pegou a bola no meio de dois defensores, quase como se estivesse voando, e ainda deu um jeito de colocar as pontas dos pés na beiradinha do campo para completar a recepção. E tudo isso no último minuto de um jogo decisivo. — Arqueei as sobrancelhas para ele. — Eu estava na sideline, , vi tudo de perto. Falar com uma garota é molezinha.
Ele deu um tapinha nas minhas costas e se afastou, deixando-me sozinho com o barulho da festa e o meu silêncio, entre o agora e o que já foi. Respirei fundo. O coração batia como se estivesse na garganta, exatamente como acontecia antes de uma jogada decisiva. Talvez fosse isso mesmo, não? Uma nova chance de ter a recepção da minha vida.
Dei um passo. Depois, outro. E assim por diante. Cada metro entre nós parecia um ano daqueles seis em que estivemos separados. E agora ela estava ali, ao meu alcance, com sua tatuagem de raio na parte de trás do braço, bem em cima, quase idêntica à minha. Alguém do grupo disse algo a ela, e eles se afastaram. Abri a boca para chamá-la, porém se virou antes que eu fosse capaz de pronunciar qualquer coisa.
— !? — A voz dela soou surpresa, mas também tranquila, quase ensaiada. — Uau… Há quanto tempo, né?
— Três anos, acho — falei sem pensar. Ouvir a voz dela depois de toda aquela eternidade havia me pegado mais desprevenido do que esperava.
— Seis, no caso — corrigiu-me, com um sorriso que não alcançava os olhos.
Sim. Cerca de seis anos desde que ela havia terminado o namoro, e também desde que eu fora draftado pelo Westerburn Mustangs e deixara Westmarble para trás. Mas aquela inauguração na Westmarble State havia sido há três anos, quando a vi de longe. Será que achava que eu não a tinha notado, parada lá? Não, isso seria impossível. Nossos olhares
haviam se cruzado. Até pensara que ela acabaria falando comigo, mas então a garota simplesmente desaparecera. Por um instante, até duvidei se ela de fato estivera lá ou se era apenas mais uma miragem feita de lembrança e saudade. E talvez fosse mesmo só isso, mas não era hora de tocar no assunto.
— Mas e aí… — cortei o silêncio esquisito. — O que está fazendo aqui, em Westerburn?
— Meu pai, ele… — Ela olhou para baixo, e então ao redor, como se buscasse uma saída invisível daquela conversa estranha. — Ele mora aqui — completou, enfim. — Vim visitá-lo.
— Ah, é mesmo! Tinha me esquecido de que ele tinha fugido para cá. — Sacudi a cabeça, me amaldiçoando por ser tão estúpido. — Foi mal.
— Não, tudo bem — disse ela, em um tom mais baixo do que de costume.
Mas não estava, estava? Eu deveria ter me lembrado. Tinha visto o Sr. Parker algumas poucas vezes. Era um cara legal, mas tinha corrido para morar em outro estado depois da morte da esposa em um acidente. Uma vez ele tinha me confessado que as filhas — e — o lembravam demais dela. detestava ficar sozinha, mas morava naquela casa vazia em Westmarble desde que o pai partira e a irmã fora para a faculdade em outro estado. Eu
deveria ter feito essa conexão — Westerburn era o fim do mundo onde o velho Parker tinha vindo se enterrar.
— Não, acho que não está tudo bem. Eu deveria ter me lembrado — murmurei, tentando esboçar um sorriso triste. — Manda lembranças para o Sr. Parker.
— Eu… — Ela piscou, surpresa, então acenou devagar. — É, vou mandar. Ele ia gostar de ouvir de você.
Iria mesmo. Ainda mais agora que eu jogava no time favorito dele. Quantas vezes o homem não devia ter mencionado que o ex-genro dele era agora jogador profissional do Mustangs? Mal podia esperar para vê-lo outra vez. Mas já estava pensando muito na frente. Não dá para querer fazer um touchdown direto da linha de uma jarda do campo de defesa — primeiro se tem que atravessar o campo, jarda por jarda, polegada por polegada.
— Eu… — Cocei o pescoço, sem saber direito como prosseguir. — Achei que nunca mais fosse te ver.
— Eu ia dizer o mesmo, mas acabei de me lembrar que você aparece na minha TV com certa frequência. — Forçou um deboche. — Mas é, acho que nem eu mesmo esperava me ver em um cenário desses de novo.
— A gente nunca imagina esse tipo de festa depois de sair da faculdade, né? — Tive que rir. — E aí, ainda odeia o Mustangs?
— Sempre. — Ergueu a cabeça, determinada. — E não importa o quanto tentem, não mudarei de ideia.
— Isso soou como um desafio — alertei-a. — Sabe disso, não sabe?
— É, percebi assim que saiu da minha boca. — Fez um beicinho e respirou fundo. — Mas não tenho como retirar as palavras, né?
Aquela expressão me arrancou uma risadinha. De algum jeito, as coisas pareciam estar um pouquinho menos pesadas entre nós. Jarda por jarda, polegada por polegada.
— Absolutamente não — respondi, e até ela riu um pouco.
— Ei, ei, ei, espera aí! — surgiu de algum ponto atrás de mim e colocou a mão no ombro de . — Não acredito que realmente veio, Taylor Swift! — Ele soltou uma risada.
Taylor Swift? De onde tinha saído isso? E como assim eles se conheciam? Ah, não. Se conhecia alguém, isso só queria dizer…
— Não seja tão dramático, ! — Ela revirou os olhos, mas apertou as mãos com força. Constrangida? Nervosa? Por quê? Por mim? Por ele? — Eu falei que podia contar comigo para a festa.
— É, mas sei lá, né. — Ele deu de ombros. — Vai que você preferisse ficar sozinha com uma garrafa por aí. Não tinha como saber.
Aquilo fez rir. Rir de verdade. Seis anos se passaram e ali estava ela, rindo com os caras do meu time… de novo.
— Falando em bebida, vou deixar os garotos conversarem e vou pegar mais um copo — anunciou e apressou-se em sair antes que qualquer um de nós pudesse falar qualquer coisa.
Garota esperta. Algumas coisas pareciam, de fato, não ter mudado. Ela continuava rápida em fugir de mim.
— Você é rápido, hein? — me cutucou, com um sorriso de aprovação no rosto. — Conheceu a Taylor Swift mais rápido do que qualquer um.
— Por que está chamando-a assim? — perguntei. Aquilo estava me incomodando mais do que podia colocar em palavras. — Você ao menos sabe o nome da garota?
— É Parker, por quê? Está querendo ir atrás dela? — arqueou a sobrancelha. — Se quer saber, ela é bem legal mesmo. E você tem a minha permissão.
— Não pedi — resmunguei.
— Foda-se!? Pensa que não vi o modo como a olhou quando ela se afastou? — riu. — Uma ou mil e uma noites, minha festa é o melhor lugar para começar isso.
E com essa, se afastou, me deixando sozinho com meus pensamentos, a saudade, o ciúme, e o meu coração que parecia não saber se queria fugir e se esconder, ou ficar e ir atrás dela.