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Revisada por: Lightyear 💫

Última Atualização: 26/05/2026

“A pressão é o que você sente
quando não sabe o que diabos está fazendo.”
— Peyton Manning



— Westmarble State, três anos atrás —


O dia, enfim, chegara. Meu amor perdido havia retornado a Westmarble pela primeira vez desde que fora contratado pelo Westerburn Mustangs e se tornara jogador profissional de futebol americano na posição de wide receiver — e não na de quarterback, como esperávamos; ainda assim, fora a realização de um de seus maiores sonhos, eu tinha certeza.
Era duro constatar, porém, que eu só ficara sabendo dessa visitinha à minha cidade interiorana por causa de uma fofoca. Não tinha dado muita atenção aos rumores, afinal, não publicara nada em suas redes sociais — algo que sempre costumava fazer. E sim, eu chequei cada uma delas diversas vezes, de um modo quase obcecado do qual eu não me orgulhava nem um pouquinho.
No entanto, a confirmação só viera quando o anúncio oficial da Universidade Westmarble State saiu. , nosso amado ex-quarterback, marcará presença na inauguração”, o título dizia. Inauguração de quê? Eu não fazia ideia e, para falar a verdade, não ligava a mínima. Só queria saber do meu ex. Ex-quarterback, ex-namorado, ex-amor-da-minha-vida.
Tomei alguns goles de vodka para incendiar a coragem que talvez ainda existisse em meu âmago. Vesti a primeira peça de roupa que encontrei pela frente; meu primeiro erro do dia: uma blusa fina de mangas compridas que com certeza não afastaria o frio. Os pingos de chuva fizeram cócegas no meu rosto assim que coloquei os pés para fora da minha solitária casa. Assim como o arrepio que percorreu minha espinha, isso também não me abalou. Eu era uma mulher determinada quando queria.
A necessidade de ver me preencheu mais uma vez com um calorzinho familiar e eu apressei o passo até o local da Westmarble State onde ele estaria. Por sorte, ficava bem pertinho da minha casa. Desejava tocá-lo outra vez. Precisava verbalizar o quão idiota havia sido por tê-lo deixado ir antes mesmo de ele ser contratado. Aquele cara era tudo o que eu tinha desde que a minha irmã fora fazer faculdade em Ulburgh. E, apesar de e eu não termos mantido nenhum contato nos últimos três anos, o que eu sentia ainda se fazia presente como aquela coceira insuportável que nunca vai embora por mais que você tente afastá-la com carinho ou violência.
Eu temia que, depois de falar tudo o que desejava, fosse rir da minha cara e me dizer que havia o perdido para sempre no momento em que terminara com ele. Apesar disso, eu não me importava. As palavras precisavam ser ditas. tinha que saber das mentiras que eu proferira naquela vez; que eu estive, sim, apaixonada por ele enquanto namorávamos — ainda que tivesse negado tudo isso no dia do término como uma menininha tola. tinha que compreender que, mesmo odiando com todas as minhas forças o Westerburn Mustangs, eu não conseguia tirar meus olhos da televisão quando transmitiam os jogos deles apenas pelo fato de ele estar lá, de eu poder vê-lo jogando outra vez, como costumava fazer na faculdade.
Ao chegar na frente do prédio, observei o entorno. Além dos esperados jovens e adultos, muitas crianças se faziam presentes. Não pude evitar o sorrisinho orgulhoso que tomou meus lábios. Estavam ali para vê-lo e, talvez, até conseguirem autógrafos e acenos. Por Deus, as crianças queriam ser como . Era bem provável que ele estivesse mais feliz do que nunca. Isso aquecia o meu coração gelado.
Aproximei-me um pouco mais, mas não muito. Preferia ficar um tantinho distante dos outros, já que nosso intuito não era o mesmo. Quando encontrei um lugar onde teria uma boa visão do que acontecia, avistei em cima daquele mesmo parquinho em que nos sentávamos quando saíamos mais cedo ou entrávamos mais tarde em alguma aula. O homem, agora um pouco mais musculoso do que há três anos, discursava com sua oratória de dar inveja. Mas tudo o que ele dizia passava por mim como o vento. Minha cabeça focava apenas no que meus olhos viam e nas lembranças que essa imagem me traziam. Eu finalmente tinha bem ali, na minha frente, ao meu alcance. Puxei o ar com força para tentar me recuperar do baque em meu coração.
E foi então que seu olhar cruzou o meu. A voz de falhou por um mísero segundo e meu mundinho patético parou de girar. Meu peito apertou e ele logo continuou seu discurso como se aquele fosse outro dia qualquer. O mundo voltou a girar com brutalidade e eu desabei em um abismo sem fim junto com meu coração idiota. Meus olhos inundaram. Se as lágrimas transbordassem, não faria diferença alguma, já que a chuva as lavaria. E elas vieram quando parei de afundar. Os três anos que ficamos separados quebraram-se sobre mim como uma intensa tempestade cruel. O ar tornou-se rarefeito como se eu tivesse sido jogada para a exosfera, bem do jeito que havia sido em todos aqueles anos sem ele.
Eu só… Eu não podia fazer isso. Não conseguiria.
Engoli o choro e tentei com todas as forças esconder todos os meus sentimentos e emoções, o que apenas os intensificava ainda mais. Desviei o olhar e me mantive imóvel. Segundos depois, dei-lhe uma última olhadela antes de virar as costas e caminhar para longe.
A culpa de tudo o que acontecera de errado entre nós era minha, mas eu podia sobreviver sozinha assim como ele fizera. Limpei a chuva do meu choro junto com as incessantes e dolorosas lágrimas. O peso do mundo pressionou-me o coração. Eu estava, de fato, desistindo de mim, dele, da minha primeira e única paixão. Dessa vez não tinha mais volta. Jamais saberia a resposta de para tudo o que desejava que ele ouvisse de mim. Apenas abaixei a cabeça e aceitei. Nada voltaria a acontecer entre nós dois nessa vida e eu acabaria sozinha; exatamente do jeito que eu merecia.



🏈
— Aprenda que uma perda não define toda a sua vida —




“Eu estou tendo minhas dúvidas
Estou perdendo o melhor de mim”
(Sick Little Games — All Time Low)


Mudança era um saco. Mudanças em geral, para falar a verdade. Mas me mudar de casa? Abandonar tudo o que eu conhecia? Eu nunca nem tinha me imaginado fazendo uma coisa dessas. E, como se não bastasse, a minha nova moradia ficava em uma cidade interiorana de outro estado. Adeus, Westmarble e o carinhoso estado de Howerbee. Olá, Westerburn, em Lindenn, e uma nova vida que eu não sabia se queria.
Mas a vida era assim, não era? Havia dias em que a gente simplesmente era jogado de um lado para o outro como se estivesse em uma máquina de lavar poderosamente desenvolvida para bagunçar o nosso emocional. O interruptor que engatilhara tudo isso fora a morte de meu amado, porém distante, pai.
O Sr. Parker havia escondido de mim e de minha irmã mais nova que estava lutando contra um câncer complicado. Segundo o advogado do testamento, papai não se mudara para Westerburn apenas por sua duvidosa paixão pelo Mustangs — como me fizera acreditar. O principal motivo era ficar mais perto de Linbridge para passar pelo melhor tratamento que seu dinheiro podia pagar. De nada adiantou, afinal, há três dias nós o sepultamos no cemitério local. Foi o segundo pior dia da minha vida, perdendo apenas para aquele em que mamãe morrera naquele maldito acidente.
A única parte minimamente boa do funeral foi a oportunidade de reencontrar minha irmãzinha . Sempre acreditara que, quando ela enfim acabasse a faculdade em Ulburgh, voaria de volta para a nossa casa, ou ao menos para algum lugar um pouquinho mais próximo. , no entanto, permaneceu por lá, dividindo um apartamento com o nosso primo Julian Parker-Hernandez. Eu me sentia mais forte quando ela estava por perto. Até mesmo tinha feito um convite para que ela se mudasse para Westerburn comigo, mas a garota estava decidida a continuar em Ulburgh — o que fazia sentido, já que ela tinha um trabalho por lá.
Bufei ao encarar a tela que expunha o perfil dela no Instagram. Nada de mais. Simplesmente nada. Por que diabos tinha que ser tão low profile? Virei outra dose de um destilado forte que eu nem me importara em saber o nome. Qualquer coisa que descesse rasgando e queimando a minha garganta servia. Só queria me esquecer de todas aquelas perdas e da distância que e eu mantínhamos uma da outra.
Depois da leitura do testamento, passara a me perguntar se suas motivações em manter-se longe não eram as mesmas que as do meu pai. O advogado nos contara que o bom e velho Rigoberto Cortez-Parker viajara para longe não apenas para manter a doença escondida de suas queridas filhas, como também porque nos ver todos os dias o fazia lembrar demais de nossa falecida mãe, Laila Rodríguez.
Saí do bar e caminhei pelas ruas vazias de Westerburn no fim daquela noite de quarta-feira com as lágrimas lavando o meu rosto como chuva fria. Eu não aguentava mais ficar sozinha. Papai havia partido desta vida, assim como mamãe fizera anos atrás. morava do outro lado do país e eu continuava solitária como sempre. Se Akon podia mesmo ser chamado de “Mr. Lonely”, com certeza Miss Lonely seria um bom título para mim.
Bebi alguns vários goles seguidos. Desejava que a bebida afogasse minha solidão, mas tudo que consegui foi tossir descontroladamente ao me engasgar com o líquido ardente. A garrafa voou da minha mão e emitiu um estrondo ao colidir com o chão. Cambaleei, tonta. Mesmo ao fechar os olhos com força, tudo continuava a girar. Equilíbrio era algo que, de fato, não me restava. Forcei-me a dar mais alguns passos, porém o chão à minha frente moveu-se em minha direção tão rápido quanto o melhor running back da liga e eu fui deixada para trás. Grunhi com a dor da queda e tentei, sem sucesso, me levantar.

— Ei, garota. — Enormes mãos me ampararam. — Você está bem?
— Eu? — Soltei uma gargalhada. — Nunca estive tão bem na minha vida.
— Vem aqui. — O homem grande me ajudou a levantar e guiou-me até o meio-fio, onde enfim me sentei. — Como você se chama?
Lonely — cantei no ritmo da música —, I’m Mr. Lonely.
I have nobody — continuou ele, então riu. — É, com certeza você está ótima.
— Não sei quem é você, mas mesmo no meu péssimo estado, ainda sou capaz de reconhecer o sarcasmo. — Estreitei os olhos, tentando focar no rosto do homem agachado na minha frente. — A propósito, quem é você, estranho?
— disse e eu caí na risada.

era o principal tight end do Westerburn Mustangs. Para mim, um dos melhores na posição em toda a liga. O cara jogava tão bem que eu nem conseguia desgostar dele por jogar em um time que eu detestava. Era 100% impossível que, de todas as seis ou sete mil pessoas daquela cidade, o bendito benfeitor que decidiu ajudar uma maluca bêbada na rua fosse justamente alguém de quem eu era quase uma fã.

Claro que você é . — Nem tentei esconder a descrença. — E eu sou a Taylor Swift.
— Ah, é? — Ele pareceu se divertir com aquilo. — Muito prazer, então, Taylor Swift.
— Não, espera. Eu posso até ser loira, mas não sou ela. Não tá vendo essa mecha no cabelo? — Apontei para a minha franja tingida de rosa. — Ela não tem.
— Não me diga, loirinha — assumiu um tom de voz claramente debochado. — É óbvio que você não é ela, mas deixa para lá.
— É, eu não fico passeando de jatinho a cada respiro — comentei. — Na verdade, me chamo Parker. Prazer.
— “Cigarette Smoker ” — comentou em um tom que pareceu automático.
— Arctic Monkeys, né? Gosto da música, mas cigarro não é o meu tipo de droga. — Dei uma risadinha. — Gosto mais de relacionar meu nome com “For ” do No Use For a Name, tanto que meu Instagram é @forp, com o P no final por causa do meu sobrenome.
— Vou te seguir depois pra ver se a gente evita essas quebras de garrafa e tombos no meio da rua — tirou sarro. — Pode me dizer onde é sua casa?
— Pra quê? Vai assaltar ela? Ah, não, desculpa. Me esqueci que você é o “ ”. — Fiz aspas com as mãos de um jeito exagerado enquanto ria.
— Ha-ha, engraçadinha. Vou te levar para casa — anunciou.
— Isso seria ótimo mesmo. Com toda certeza. Um estranho desconhecido me levando para casa — carreguei minha fala de ironia. — Posso muito bem ir sozinha.
— Só estou tentando ajudar — disse.
— Obrigada, falso , mas terei de recusar. — Olhei ao redor, sem reconhecer onde estava. A bebida deixava tudo tão turvo que eu nem sequer conseguia distinguir as intenções daquele homem em suas feições. — Sei me virar sozinha. Foi sempre assim nos últimos anos.

Dei um impulso e me levantei rápido. Rápido demais. O mundo ao meu redor girou outra vez e eu mantive meus pés fincados no chão como estacas. Concentrei todas as forças em ficar daquele jeito. Cair era uma prova cabal de que mentira ao dizer que podia me virar sozinha. Toda Westerburn ao meu redor foi ficando mais e mais clara, como se um véu estivesse cobrindo a minha visão.

, você…? — Cambaleei para frente e aquelas mãos fortes me ampararam mais uma vez. — Eu vou te levar para casa.
— Eu não… — comecei a declinar, porém, minha voz estava macia demais. — Eu…

E então minha força se desvaneceu junto com o resto do mundo.

***

Abri os olhos e olhei ao redor, desorientada e com a cabeça latejando. Ainda não havia me acostumado com o quarto da casa em Westerburn, então isso era comum. Ainda assim, o que estava vendo era, com toda a certeza, muito maior do que qualquer um dos quartos de minha nova casa. Era a casa de outro alguém. Merda! Tinha bebido demais e transado com um cara qualquer e, como se isso não fosse ruim o suficiente, ainda dormira na cama dele. Sentei devagar e observei o que vestia: as mesmas roupas com as quais saíra de casa no dia anterior. Nada de roupas de baixo jogadas no chão, nenhum sinal de que algo havia acontecido. E isso conseguia ser ainda mais bizarro do que simplesmente acordar na casa de um estranho.
Fechei os olhos com força e tentei recordar a noite passada. Alguns flashes vieram à mente. Minha dança em um bar. Bebidas e mais bebidas. Eu caindo no choro do nada. A garrafa de um destilado vagabundo que eu mal conseguia segurar na mão de tão bêbada que estava. Um cara alto e grande que mentira ser um jogador incrível do Westerburn Mustangs. Aquilo me fez rir outra vez. Eu tinha mesmo ido embora com um homem que fora capaz de jogar essa mentira deslavada na minha cara? Meu Deus, , que patética!
Levantei-me com dificuldade e ansiei por água como um andarilho perdido no deserto. Precisava encontrar o meu oásis em uma cozinha. Saí daquele quarto enorme e bem arrumado e vaguei pelos corredores. A casa — ou mansão, talvez? — era grande demais. Logo, porém, encontrei um lance de escadas e desci. Passei por uma sala de estar — um tanto quanto chique para os meus padrões comuns — e segui meu olfato até a cozinha. O cheirinho de temperos era gostoso demais.

— Com licença — pedi ao adentrar a cozinha, e então meu queixo caiu. — Puta merda! Você era mesmo o !
— Aaaah, você acordou. — Ele arqueou as sobrancelhas. — Dormiu bem, Taylor Swift?
— Eu preciso urgentemente cavar um buraco no chão para me esconder. — Cobri o rosto com as mãos, ainda sem acreditar. — Caralho, que vergonha! Meu deus do céu. Não creio que eu conheci o no meu pior estado. Jamais superarei.
— Toma, você vai precisar disso aqui. — Ele me alcançou um copo d’água e uma garrafinha de isotônico. — Tem que se hidratar.
— Meu Deus, e você ainda é fofo!? — Sacudi a cabeça em negação. — Eu quero morrer. Pode me indicar um quartinho onde eu possa ir pra me matar?
— Para com isso. — Ele riu. — Já vi muitas reações diferentes quando fãs do Mustangs me conhecem, mas nunca tinha acontecido de uma pessoa não acreditar em quem eu era. Todo mundo geralmente sabe.
— Não, espera aí. — Tomei alguns goles de isotônico e fiz careta. Detestava o gosto, mas servia muito bem para repor os eletrólitos e me manter hidratada. — Você entendeu errado. Eu gosto de você como jogador e tal, porque você é mesmo muito bom, um dos melhores, mas não sou fã do seu time. Na verdade, eu odeio o Westerburn Mustangs, meu pai era quem gostava. Ele…

O luto me atingiu em cheio outra vez. Meus olhos se encheram de lágrimas tão rapidamente que logo a enxurrada tomou conta. Sentei-me ao lado do balcão e cobri o rosto, tentando esconder o meu surto de emoção. Isso se tornava impossível, afinal, os soluços me denunciaram seja lá onde eu estivesse.

— Ei, o que houve? — perguntou de mansinho. — Além de bêbada, você estava assim ontem também.
— É o meu pai, ele… morreu. É isso. Nem éramos mais próximos, tanto que eu morava no estado de Howerbee e ele aqui em Westerburn, mas eu… — Tomei um grande gole de água para ver se lavava a minha alma. — Eu estou sozinha, , sozinha nesse mundo. O funeral do papai foi domingo e, agora que me mudei para cá, parece que eu não consigo mais continuar vivendo, sabe? É tão desolador. Eu nem sei explicar.
, né? — confirmou se meu nome era mesmo aquele. — Você disse que seu sobrenome era Parker?
— Sim, por quê? Conhecia o meu pai? — indaguei e ele negou, mas sua feição parecia pensativa. — Conhecia alguém com o meu sobrenome?
— Eu… — suspirou e voltou sua atenção ao fogão para desligá-lo. Virou-se para mim com uma expressão diferente, um tanto engraçada. — O Homem-Aranha conta?
— Vai se foder. — Mostrei o dedo do meio, mas não pude evitar uma risada. — Obrigada por me fazer rir.
— Estou aqui para isso. — Fez uma pose debochada. — Escuta, . Viva o seu luto como tiver que viver, mas não deixe que isso te defina e acabe com o resto da sua vida. Quando minha mãe morreu, eu fiquei tão mal que quase deixei de jogar futebol americano.
— Uau, essa teria sido uma perda e tanto para o mundo do esporte. — Foi a única coisa que consegui comentar.
— Pois é — assentiu. — Então escuta quem sabe das coisas aqui.
— Eu, hein! Você é muito convencido. — Ri mais um pouco e parei para refletir sobre o que ele dissera. — Ah, eu me lembro de ter visto rumores de que você estava mal na época da universidade. Estava todo mundo preocupado com o seu possível “não retorno”, pois era o melhor prospecto da posição no draft seguinte. Ei, você jogava em Ulburgh College, né? Como posso ter me esquecido disso? Minha irmã também estudou por lá, acho que até na mesma época que você.
— Ah, é? — Ele ligou o fogão outra vez. — Como ela se chama?
Parker — revelei enquanto mantinha quase toda a sua atenção nos temperos que refogava. — Conhece?
— Não sei… talvez? — Deu de ombros. — Conheci tantas garotas na universidade que não tenho como ter certeza.
— Que cara mais safado. — Caí na risada. — É, talvez não tenha a conhecido mesmo. Acho que jamais sairia com você.
— Ei, o que quer dizer com isso? — Voltou a me encarar. — Acha que eu não seria bom o suficiente para a sua irmã?
— Não foi o que eu disse, garanhão. — Ergui minhas mãos em sinal de rendição. — Até porque o fato de você ter me trazido para a sua casa no estado em que eu estava e não ter feito nada…
— Isso é o mínimo que alguém poderia fazer — ressaltou.
— Sim, o mínimo dos mínimos é não se aproveitar de quem não pode consentir, está certo. — Acenei com a cabeça. — Mas a maioria dos homens não liga para isso. É como dizem: “nem todo homem, mas sempre um homem”. Então posso dizer que tive sorte de ser você quem me encontrou desolada naquela rua ontem à noite, e não um outro qualquer. Ganhei na loteria da vida. É difícil nunca poder se sentir segura.
— Isso deve ser uma merda, né? — Ele fez careta e eu concordei. — Mas então, Parker, ainda acha que eu não seria bom o suficiente para a sua irmã?
— Não sei por que encrencou tanto com isso. Eu, hein. Não é uma entrevista de emprego. — Deixei uma risadinha escapar. — Só disse que acho que ela não sairia com você pelo seu jeito de ser todo voltado para festa, mulheres e essas coisas. Mas a verdade é que não tenho como saber, afinal, e eu mal temos contato desde que ela foi para a faculdade.
— Mas ela veio ao funeral do seu pai — disse ele. — Não veio?
— Sim, mas o funeral foi uma exceção — expliquei. — Até a convidei para vir morar comigo aqui em Westerburn.
— E ela vem?
— Claro que não — suspirei. — Fui muito sem noção. Ela tem trabalho lá em Ulburgh e tudo mais. Foi meio idiota da minha parte sequer ter a convidado. Ei, vai queimar a comida.
— Ah, merda! Foda-se. — Desligou o fogão e deixou tudo de lado para se aproximar mais. — Não acho que tenha sido idiota. Caso queira a minha opinião não requisitada, deveria continuar a convidando, sabe? Volta a ter contato com ela aos pouquinhos. Talvez ela também sentisse a sua falta em todo esse tempo e apenas não soubesse como retomar esse contato com você.
— Caramba, eu nunca pensei que ela poderia estar sentindo a mesma coisa que eu, mas faria muito sentido, né? — Sorri para . — Muito obrigada por me dar essa outra visão sobre as minhas merdas, e agradeço muito por ter me ajudado ontem à noite, também.
— Como eu disse, fiz apenas o mínimo. — Seu olhar me acompanhou quando me levantei. — Você já vai?
— Sim, a minha nova casa me espera, e eu espero que ela possa se tornar um lar para mim — refleti. — Ainda tenho que desempacotar a mudança.
— Então… — começou ele. — Seja bem-vinda a Westerburn. É pequena, interiorana e o seu ponto turístico é o estádio do time que você odeia, mas as pessoas são legais e eu não trocaria por Linbrigde como o e o Andrews por nada.

… Respirei devagar.

— Eles não sabem de nada — brinquei. — Deve mesmo ser muito melhor que a capital do estado.
— Pois é, e eles ainda têm que ficar dirigindo para cá quase todo dia por causa dos treinos. — Revirou os olhos e me estendeu a mão. — Prazer em conhecê-la, Parker.
— Está brincando? — Apertei sua mão com um sorriso no rosto. — O prazer foi todo meu, afinal, você é o , caramba!
— Que exagero. — Sacudiu a cabeça, rindo. — Para você não ficar perambulando sozinha pelas ruas com garrafas de bebida… No próximo sábado darei uma festa aqui. Se quiser vir, está mais do que convidada.
— Mentira! — Meus olhos se abriram mais. — Uma das festas do cara que todo mundo diz que é a festa? Pode contar comigo.

Despedi-me dele e saí daquela enorme casa sorrindo e dotada de um sentimento completamente distinto daquele da noite passada. Todos os rumores eram verdade. , no fim das contas, fazia mesmo bem às pessoas.



🏈 💙
— Não congele ao reencontrar sua primeira paixão —


“Eu nunca vi um sorriso
Que consegue iluminar a sala como o seu”
(You Had Me At Hello — A Day To Remember)


A temporada acabara há quase dois meses, mas minha cabeça ainda estava no campo. Nunca saía de lá. O corpo até descansava quando o mundo tirava férias de mim, já a mente mantinha-se ativa. Nem mesmo o barulho da televisão conseguia preencher o que o silêncio não dava conta. O narrador gritava sobre uma jogada incrível de Joe Montana em um jogo antigo do início dos anos 1990 que eu já vira mil vezes. Aquilo ainda era importante para mim, mas agora soava quase como algo supérfluo.
Deitado no tapete com a cabeça sobre as patas, meu labrador preto me encarava. Monty com certeza entendia mais desse tédio do que eu. Por vezes, quase chegava a acreditar que ele me olhava daquele jeito porque esperava que eu fizesse alguma coisa da minha vida para além do futebol. Era bem parecido com o olhar que via no espelho em minhas noites mal dormidas.
Mas eu não deveria estar assim, não é? Havia conseguido tudo — ou quase tudo — o que queria. Era jogador profissional, jogava bem, ganhava melhor ainda e vivia em uma casa grande demais para um homem só e seu fiel cachorro.
Ajeitei-me no sofá, cansado de ficar estirado ali. Algo cutucou minha perna e dei de cara com uma tampinha de garrafa. Mas que merda! Peguei o objeto e o joguei através da sala para que pousasse perfeitamente na lata de lixo. Monty l tou as orelhas para o movimento. A falta de empolgação momentânea do cachorro refletia a rotina meio vazia que estávamos tendo.

— Viu isso, Monty? Te falei que eu era quarterback antes de você nascer! — Estiquei a mão para pegar a bolinha que o cachorro adorava. — Às vezes sinto falta, sabia? Mas Thomas Bates é provavelmente o melhor QB da liga e, para falar a verdade, só sou tão bom recebedor porque tenho ele lançando a bola para mim. — Sacudi a mão com a bolinha para chamar a atenção dele, como de costume, e então a lancei. O olhar de Monty acompanhou o trajeto, mas ele nem se moveu. — Ei, eu não droparia uma bola dessas, viu?

Inclinei-me para a frente e fiz carinho na cabeça do labrador. Sabia que, de vez em quando, o cachorro conhecia meu estado mental melhor do que eu mesmo. E esse era um desses momentos. Tanto que, quando o jogo antigo acabou e o silêncio pesado prevaleceu, l tei-me e Monty fez o mesmo. O som de suas patas me seguiu até a cozinha. Abri a geladeira pela terceira vez em menos de uma hora, porém não tinha fome, nem sede, nem nada. Só tédio. Fechei a porta e suspirei.
Meu relógio vibrou algumas vezes e eu ergui o pulso para ver as mensagens:

✉ D.J. Andrews:
Algo lendário está prestes a acontecer
Se você disser de novo que não vai nessa festa
Juro que te busco à força, !
Bebida, música, mulheres…
Você sabe, cara! Festa do
Lendárias como sempre


Ri sozinho. D.J. queria porque queria me convencer a ir à festa de . Durante a semana, cogitara muitas vezes a possibilidade de ir. Apenas isso, nada mais. O fato de eu estar em casa agora, desanimado e abrindo a geladeira mil e uma vezes, já deveria dizer alguma coisa. Por óbvio, não respondi às mensagens; sem contar que havia deixado o meu celular no sofá e detestava usar o comando de voz do relógio.
Outra vibração me chamou a atenção.

✉ D.J. Andrews:
Você precisa disso, meu amigo
Sabe que precisa


Será que precisava mesmo? Respirei fundo e voltei para a sala, com Monty ao meu encalço. O cômodo permanecia exatamente igual, mas os troféus e fotos pareciam me olhar de volta, assim como os uniformes enquadrados: a camisa azul e amarela do Westmarble State Thunders, e a azul e branca do Westerburn Mustangs. Parei meu olhar na grande fotografia emoldurada: eu, com menos tatuagens nos braços do que agora, o número 16 estampado no peito, segundos antes de soltar a bola para o que seria um passe completo para o touchdown da vitória do Campeonato Nacional — a final do college football.
A tatuagem amarelinha com a forma do raio do Thunders já estava lá, na lateral do antebraço, não muito distante do pulso… Isso fez meus pensamentos e todo o resto se direcionarem à caixa levemente escondida na prateleira de baixo. Não saberia dizer há quanto tempo evitava voltar a isso. Monty esfregou a cabeça na minha mão, dando-me apoio. Olhei para ele e afaguei seu rosto.

— Ei, amigão, não me olha assim — pedi. — Não é nada de mais. Sério.

Fui até a prateleira e abaixei-me para pegar aquele pequeno antro de lembranças. Sentei-me no chão, ao lado de Monty, e tirei a tampa da caixa. O cheiro antigo de papel e poeira me atingiu com uma força quase física. Havia recortes, ingressos de jogos e shows, pulseiras de eventos e — bem no fundo — uma foto dobrada. Eu sabia o que iria ver ali, e mesmo assim a desdobrei.
A fotografia que me assombrava. Eu. Westmarble State. Parker. O cabelo brilhante, levemente embaraçado pelo vento. O sol no rosto dela. O modo como ria. Nossos braços entrelaçados. Minha camisa 16 do Thunders é mais nova do que conseguia me lembrar. Monty cutucou meu rosto com o focinho.

— Estou bem, cara — disse a ele. — Estou bem.

No entanto, não estava. Como estaria? Não, não deveria estar pensando assim. Isso já passou, afinal o término fora há cerca de seis anos. Já deveria ter passado. Apertei a foto entre as mãos com mais força do que o necessário e virei-a para ler a legenda rabiscada no verso:
“Para meu Joe Cool. Sei que vai conseguir chegar lá”

Joe Cool. — Soltei um riso curto, sem muita alegria. Sempre fora o maior fã de Joe Montana, vestia o número 16 por causa dele e, mesmo tendo mudado de posição, continuava frio em meu jogo. — É, ela estava certa, não estava?

Olhei ao redor. Monty me observava em um silêncio que acompanhava os troféus, quadros e afins. Eu, de fato, havia chegado até aqui, conseguido tudo o que desejava profissionalmente. Não me tornara quarterback na liga profissional, porém era o wide receiver principal de um dos melhores quarterbacks de todos os tempos — um cara que já tinha ultrapassado quase todos os números de Joe Montana.

— Não preciso mais ficar mantendo isso. — L tei-me rápido e caminhei até o lixo. Ainda apertava a foto meio amassada em minha mão. Fiquei parado ali por um momento, mas não consegui soltá-la. — Ah, que se dane!

Desamassei a fotografia o máximo possível, guardei-a de volta e fechei a caixa com força, como se estivesse enterrando seu conteúdo, que ainda pulsava. Sentei-me no sofá, peguei o celular e abri a conversa com o Andrews.

:
Foda-se. Vou na festa do
Passa aqui pra me buscar
Não tô a fim de dirigir


A resposta chegou em um piscar de olhos.

✉ D.J. Andrews:
Não sei o que te fez mudar de ideia
Mas sabia que ia ceder!
Tá na hora de viver um pouco fora do campo, cara


Revirei os olhos e deixei uma risadinha escapar.

— Viu só, Monty? Andrews acha que é o treinador agora — comentei e recebi um latidinho e uma batida de rabo em resposta. Fiz carinho na cabeça dele. — Vou sair com ele e você vai ficar de guarda, entendeu? Nada de destruir as minhas chuteiras de novo.
Voltei-me ao celular e respondi:

:
Não vai se achando, D.J.
Eu ainda posso alegar tortura
De tantas mensagens que me mandou


Não fazia muito tempo que havia tomado banho, então apenas subi para me trocar. Monty me acompanhou. Sempre fazia isso quando se dava conta de que eu logo sairia. Me arrumei devagar, como se fosse a um evento qualquer que não ligava a mínima. Porém, no fim das contas, era a primeira vez em meses que de fato tinha vontade de sair. Aquela foto havia me dado um gás que jamais imaginei que pudesse. Havia funcionado do modo contrário. Além do mais, quem sabe um pouquinho de barulho ajudaria a calar o resto.
Depois de finalmente me aprontar, desci as escadas, com Monty correndo para chegar lá embaixo antes de mim. Até o labrador parecia mais animado agora. Talvez pela minha postura ou pelo cheiro, aquele cheirinho significava que eu ia sair — algo que evitava fazer na off-season. Muita coisa mudara na minha vida desde a universidade até os dias atuais, entretanto, a fragrância era sempre a mesma. Não conseguia deixar para trás.
A verdadeira diferença morava na embalagem e no novo nome que agora carregava: “16 by Montclair”. A Montclair era uma marca de luxo que trabalhava com lifestyle masculino, e essa parceria tinha vindo de uma insistência do meu assessor quando estourei na liga. Era engraçado pensar que, no fundo, o perfume ainda era o mesmo amadeirado de sempre; apenas embalado em vidro caro.
O que eu mais gostava nele — desde a faculdade, quando ganhei o primeiro frasco de Parker no meu aniversário de 21 anos — era aquele fundo de sândalo. Tinha alguma coisa naquele cheiro que se misturava com o ar, muito discreto e bem insistente. O tipo de cheiro que ficava na pele. E na memória. Ao menos, segundo ela.

— Essa não foi a única marca que ela deixou em mim, sabia? — falei com o cachorro, que me esperava no pé da escada. — Mas não é hora de abrir caixinhas do passado outra vez. Bora sair com D.J. Andrews! — Como se tivesse sido invocado das profundezas, o ronco do motor de sua F-150 se fez ouvir. — Falando no diabo…

E apenas então veio a buzina. Chequei se tinha ração e água o suficiente para Monty até que eu retornasse e fiz um carinho de despedida.

— Volto amanhã, tá bom? Nada de subir no sofá! — Ri um pouco. — Não, quer saber. Pode até subir escondido se quiser, só não destrua mais um sofá enquanto eu estiver fora.

Monty latiu em resposta antes de eu jogar a jaqueta sobre o ombro e sair pela porta. A noite havia caído e as luzes da rua refletiam no asfalto molhado. A Raptor estava na entrada com o motor ligado — imponente em seu preto metálico, mas com marcas de poeira que denunciavam mais estrada do que vaidade. Era o tipo de carro que dizia tudo o que o dono não precisava dizer.
A música tocava em volume baixo, porém a reconheci: “Panic”, The Smiths. E Andrews estava tão entretido mexendo no celular e cantando “hang the DJ, hang the DJ, hang the DJ” que nem notou minha aproximação.

— Isso é um pedido de ajuda, D.J.? Você sabe, “enforque o DJ” e tal — provoquei. Apesar do sobrenome na camisa, o cara era mais conhecido como D.J. Andrews, abreviatura para Diego Joaquín; nomes estes que eram uma herança chilena de sua mãe.
— Ha-ha, como você é engraçado, . — Revirou os olhos, mas riu. — Entra aí de uma vez. Pensei que teria que te arrastar para fora.
— Pois é, eu quis vir por vontade própria — disse. — Mudei de ideia de repente.
— Você? Mudando de ideia? — debochou. — É uma boa coisa para se marcar em um calendário.

As risadas ecoaram, aquele riso de uma cumplicidade que cresceu com anos jogando, treinando, traçando rotas e decorando o playbook juntos. D.J. deu partida e caímos na estrada para uma viagem de cerca de meia hora.

— Não vou a Westerburn desde o fim da temporada — comentei.
— Não vou nem te julgar por isso. E olha que sou a pessoa que mais te julga por não colocar a bunda para fora de casa. — Ele tamborilou os dedos no volante no ritmo de outra música da sua playlist. — Fala sério, o que existe para nós em Westerburn na off-season? Essa cidade só está no mapa por causa dos Mustangs.
— É, tem razão — assenti. — Só existe mesmo.
— E as festas dele são as melhores, todo o país sabe. Não, acho que até as pessoas de fora do país sabem. — Ele sacudiu a cabeça. — Se deixar, o cara faz open bar com tudo o que tem direito usando um patrocínio de uma marca de whey.
— Isso é quase um crime federal, não? — Tive que rir. — Mas o carisma dele vence qualquer coisa. É incrível.

Àquilo, Andrews apenas acenou. Não havia discussão. tinha um certo magnetismo difícil de explicar para quem não o conhecesse. Balancei a cabeça no ritmo da música da vez. Nosso gosto não era tão parecido, mas muito do que D.J. escutava me agradava.

— É sério, . Ainda bem que você veio. — Lançou-me um olhar significativo. — Já passou da hora de parar de viver como se o campo fosse o único lugar onde dá para ganhar algo.
— Que porra é essa? — Franzi o cenho. — Tá filosofando agora, é?
— Só dizendo o óbvio — rebateu.

O silêncio pairou entre nós por um momento, entrelaçando-se aos acordes de Bob Dylan. Tentei, mas não consegui focar no som.

— E acha mesmo que dá para ganhar alguma coisa fora do campo? — perguntei. — Tipo o quê?
— Paz, talvez. Ou apenas um pouco de vida, já seria um começo. Especialmente para você, cara — disse sem perder o tom divertido.

Andrew era o tipo de amigo que não precisava dizer muito para cutucar bem fundo. Observei o lado de fora, as luzes passando afoitas pelo vidro, como se fossem fantasmas que eu deixava para trás.

ainda mora perto do lago, né? — mudei de assunto.
— Sim. E reza a lenda que a festa vai ter uns vinte convidados, mas o dobro de problemas.
— Vinte!? Vinte vezes quanto? — Ri, dessa vez com sinceridade. — Não existe festa de sem pelo menos, sei lá, uma centena de pessoas ou algo assim.

O som de nossas risadas se misturou à música e, por um instante, alívio e desconforto batalharam em meu interior: o primeiro, por estar me permitindo escapar da minha própria cabeça, e o segundo, justamente por estar fugindo — da foto, do passado, de mim mesmo. E a ironia só piorou quando a música “The Boy With the Thorn in His Side”, dos Smiths, começou a tocar. O garoto que carrega um fardo. Sério, universo?
Tentei ignorar, porém, questionava-me se Andrews não estava, de fato, certo sobre a hora de ganhar algo fora do campo. Talvez devesse focar em sair, me divertir e deixar o peso tanto do passado quanto da vida atual de lado. E então, quando me dei conta, já estava cantando com meu amigo:

— And if they don’t believe me now, will they ever believe me?

As risadas saíram sem que eu controlasse. Bem do jeito que deveria ser. Logo as lembranças me atingiram em cheio: noites despertas, cantando abraçado com o meu fantasma particular de seis anos atrás, gritando aquela música para os céus como se não houvesse um amanhã longe um do outro. “Como eles podem ver o amor em nossos olhos e, ainda assim, não acreditarem em nós?” Pelo menos agora, aqui, rindo com o meu mais estimado amigo, a recordação não parecia tão dolorosa quanto nas vezes em que estivera sozinho.
E de algum modo, o resto do trajeto não pareceu tão pesado quanto o início, e logo estávamos estacionando nas redondezas do local da festa. Olhei na direção da casa de — grande, moderna, os vidros brilhando nas cores das luzes piscantes. Mesmo daqui de fora, dava para ouvir o som da música e de vozes sobrepostas. Com certeza teria alguns caras do time, amigos de amigos, alguns famosinhos, uma ou outra figura que eu só conhecia de nome e muita gente que jamais tinha visto na vida. O tipo de festa que parecia divertida de longe, porém era exaustiva de perto.

— Última chance de fugir — D.J. alertou.
— Só se eu roubar o seu carro. Deixei o meu em casa, esqueceu? — Fiz careta. — Cheguei até aqui. Não vou perder o espetáculo.

Descemos do carro e seguimos para a casa enquanto eu vestia a jaqueta. Assim que entramos, o nosso anfitrião já apareceu. usava uma roupa tão casual que não parecia nada preparado para uma festa. O mais engraçado era que combinava com ele, mesmo naquele ambiente; e era só olhar para o cara para reconhecer que ele se encaixava ali mais do que qualquer outra pessoa.

— Ah, olha só quem resolveu dar as caras! — Abriu os braços para Andrews. — Tô brincando, tô brincando. Sei que não perde uma, D.J., meu destruidor de coolers favorito. E olha só para isto! — Virou-se para mim com uma expressão caricata de surpresa. — Não acredito que estou vendo em pessoa! O homem que mal aparece em público sem uniforme, e raramente vem a Westerburn fora da temporada…
— Bem, eu abri uma exceção. — Dei um meio sorriso contido ao cumprimentá-lo. — Ouvi dizer que seria uma noite histórica e tal.
— E terá que abrir para todas as outras festas minhas, afinal… eu sou a festa. — expôs um sorriso enorme e nada forçado. Tudo parecia natural demais para ele. — O bar fica ali, e tem mais bebida na cozinha. Já as histórias inventadas, vocês podem encontrar por todo lado. Ou seja: se quiser esquecer o nome de alguém, tá tudo certo.

Ah, isso eu queria muito. Queria há seis anos.

— Esse discurso é o mesmo desde que te conheço. — Andrews riu alto.
— Pois é. Para você ver como sempre funciona. — deu um tapinha amistoso no ombro dele e se afastou para cumprimentar outras pessoas que chegavam.

Antes mesmo que nos mexêssemos, um homem negro e alto gesticulou animado, chamando nossa atenção. Chadarius Jones era linebacker no time, estava sempre contando uma história ou apreciando uma boa jogada. Era um cara grande, de sorriso fácil e energia boa.

— Aí estão as lendas! — Veio em nossa direção. — Nem acredito que convenceu esse aí a sair da caverna. — Cumprimentou Andrews e voltou-se a mim. — … O homem que faz qualquer quarterback parecer bom.
— Que isso, Chad! Sabe que não precisa de muito esforço para fazer Thomas Bates parecer bom. — Apertamos as mãos e demos um meio abraço, como de costume. — É só evitar os drops.
— Ah, então continua mesmo fingindo que não é o melhor recebedor do elenco — comentou, arrancando uma risadinha até de D.J., que também era wide receiver.
— Não finjo nem deixo de fingir. Os números falam por mim.
— Ele está tentando achar o equilíbrio entre humildade e presunção. — Andrews tirou sarro.
— Ih, sei não. Já começou a falar de estatística no meio da festa? — Chad tomou o resto da bebida de seu copo. — Isso é coisa de jogador precisando relaxar. A gente está de férias, cara.

Andrews gargalhou, e com razão — ele me falava aquele tipo de coisa o tempo todo. Até eu precisei me juntar às risadas, porém não com tanta vontade. Era bom estar ali, descansar da minha vida rotineira. Eu estava à vontade, apesar da hesitação em comparecer à festa. Ainda assim, a sensação era um pouquinho estranha.
voltou para perto da gente e falou alguma coisa que eu não absorvi. Então disse que tinha que fazer alguma coisa na cozinha; algo a ver com gelo e bebidas. Andrews se ofereceu para ajudar e Chad foi pegar mais um copo para ele e um para mim. Foi quando ele retornou e eu tomei meu primeiro gole de cerveja da noite que a vi.
Do outro lado da grande sala. Distante, mas nem tanto. O cabelo puxado para o lado, preso de um jeito que eu reconheceria até de costas. Parker. Tudo pareceu desacelerar, o resto do mundo desfocando-se para ressaltar apenas sua figura. Até o som baixou, em reverência, quando sua risada alta e divertida preencheu o ambiente. E eu estava tão imóvel quanto o resto parecia estar. Não sabia se era real ou se estava vendo-a no meio da multidão de novo, como três anos atrás, apenas para vê-la desaparecer no momento seguinte.

— Opa, opa, opa! Olhar de interceptação. — Chad me cutucou. — Quem é a gata?
— Eu… — hesitei. Até a mecha rosa que ela tinha feito na franja estava perfeita. — Conheço ela.
— Então vai lá, campeão — incentivou-me. — Recebe esse passe.

Deixei escapar uma pequena risada tensa. também ria. Estava rindo de alguma coisa que alguém qualquer havia dito e, quando parou, sorriu. Eu jamais me esquecerei daquele sorriso — o mesmo que um dia me fez sentir que o mundo inteiro cabia dentro de um estádio lotado. Um soco de nostalgia atingiu meu estômago — não necessariamente por ela em si, mas por quem eu era quando estava ao lado dela.

— Acha que é fácil assim, é? — perguntei a Chad Jones.
— Irmão, você já pegou a bola no meio de dois defensores, quase como se estivesse voando, e ainda deu um jeito de colocar as pontas dos pés na beiradinha do campo para completar a recepção. E tudo isso no último minuto de um jogo decisivo. — Arqueei as sobrancelhas para ele. — Eu estava na sideline, , vi tudo de perto. Falar com uma garota é molezinha.

Ele deu um tapinha nas minhas costas e se afastou, deixando-me sozinho com o barulho da festa e o meu silêncio, entre o agora e o que já foi. Respirei fundo. O coração batia como se estivesse na garganta, exatamente como acontecia antes de uma jogada decisiva. Talvez fosse isso mesmo, não? Uma nova chance de ter a recepção da minha vida.
Dei um passo. Depois, outro. E assim por diante. Cada metro entre nós parecia um ano daqueles seis em que estivemos separados. E agora ela estava ali, ao meu alcance, com sua tatuagem de raio na parte de trás do braço, bem em cima, quase idêntica à minha. Alguém do grupo disse algo a ela, e eles se afastaram. Abri a boca para chamá-la, porém se virou antes que eu fosse capaz de pronunciar qualquer coisa.

!? — A voz dela soou surpresa, mas também tranquila, quase ensaiada. — Uau… Há quanto tempo, né?
— Três anos, acho — falei sem pensar. Ouvir a voz dela depois de toda aquela eternidade havia me pegado mais desprevenido do que esperava.
— Seis, no caso — corrigiu-me, com um sorriso que não alcançava os olhos.

Sim. Cerca de seis anos desde que ela havia terminado o namoro, e também desde que eu fora draftado pelo Westerburn Mustangs e deixara Westmarble para trás. Mas aquela inauguração na Westmarble State havia sido há três anos, quando a vi de longe. Será que achava que eu não a tinha notado, parada lá? Não, isso seria impossível. Nossos olhares haviam se cruzado. Até pensara que ela acabaria falando comigo, mas então a garota simplesmente desaparecera. Por um instante, até duvidei se ela de fato estivera lá ou se era apenas mais uma miragem feita de lembrança e saudade. E talvez fosse mesmo só isso, mas não era hora de tocar no assunto.

— Mas e aí… — cortei o silêncio esquisito. — O que está fazendo aqui, em Westerburn?
— Meu pai, ele… — Ela olhou para baixo, e então ao redor, como se buscasse uma saída invisível daquela conversa estranha. — Ele mora aqui — completou, enfim. — Vim visitá-lo.
— Ah, é mesmo! Tinha me esquecido de que ele tinha fugido para cá. — Sacudi a cabeça, me amaldiçoando por ser tão estúpido. — Foi mal.
— Não, tudo bem — disse ela, em um tom mais baixo do que de costume.

Mas não estava, estava? Eu deveria ter me lembrado. Tinha visto o Sr. Parker algumas poucas vezes. Era um cara legal, mas tinha corrido para morar em outro estado depois da morte da esposa em um acidente. Uma vez ele tinha me confessado que as filhas — e — o lembravam demais dela. detestava ficar sozinha, mas morava naquela casa vazia em Westmarble desde que o pai partira e a irmã fora para a faculdade em outro estado. Eu deveria ter feito essa conexão — Westerburn era o fim do mundo onde o velho Parker tinha vindo se enterrar.

— Não, acho que não está tudo bem. Eu deveria ter me lembrado — murmurei, tentando esboçar um sorriso triste. — Manda lembranças para o Sr. Parker.
— Eu… — Ela piscou, surpresa, então acenou devagar. — É, vou mandar. Ele ia gostar de ouvir de você.

Iria mesmo. Ainda mais agora que eu jogava no time favorito dele. Quantas vezes o homem não devia ter mencionado que o ex-genro dele era agora jogador profissional do Mustangs? Mal podia esperar para vê-lo outra vez. Mas já estava pensando muito na frente. Não dá para querer fazer um touchdown direto da linha de uma jarda do campo de defesa — primeiro se tem que atravessar o campo, jarda por jarda, polegada por polegada.

— Eu… — Cocei o pescoço, sem saber direito como prosseguir. — Achei que nunca mais fosse te ver.
— Eu ia dizer o mesmo, mas acabei de me lembrar que você aparece na minha TV com certa frequência. — Forçou um deboche. — Mas é, acho que nem eu mesmo esperava me ver em um cenário desses de novo.
— A gente nunca imagina esse tipo de festa depois de sair da faculdade, né? — Tive que rir. — E aí, ainda odeia o Mustangs?
— Sempre. — Ergueu a cabeça, determinada. — E não importa o quanto tentem, não mudarei de ideia.
— Isso soou como um desafio — alertei-a. — Sabe disso, não sabe?
— É, percebi assim que saiu da minha boca. — Fez um beicinho e respirou fundo. — Mas não tenho como retirar as palavras, né?

Aquela expressão me arrancou uma risadinha. De algum jeito, as coisas pareciam estar um pouquinho menos pesadas entre nós. Jarda por jarda, polegada por polegada.

— Absolutamente não — respondi, e até ela riu um pouco.
— Ei, ei, ei, espera aí! — surgiu de algum ponto atrás de mim e colocou a mão no ombro de . — Não acredito que realmente veio, Taylor Swift! — Ele soltou uma risada.

Taylor Swift? De onde tinha saído isso? E como assim eles se conheciam? Ah, não. Se conhecia alguém, isso só queria dizer…

— Não seja tão dramático, ! — Ela revirou os olhos, mas apertou as mãos com força. Constrangida? Nervosa? Por quê? Por mim? Por ele? — Eu falei que podia contar comigo para a festa.
— É, mas sei lá, né. — Ele deu de ombros. — Vai que você preferisse ficar sozinha com uma garrafa por aí. Não tinha como saber.

Aquilo fez rir. Rir de verdade. Seis anos se passaram e ali estava ela, rindo com os caras do meu time… de novo.

— Falando em bebida, vou deixar os garotos conversarem e vou pegar mais um copo — anunciou e apressou-se em sair antes que qualquer um de nós pudesse falar qualquer coisa.

Garota esperta. Algumas coisas pareciam, de fato, não ter mudado. Ela continuava rápida em fugir de mim.

— Você é rápido, hein? — me cutucou, com um sorriso de aprovação no rosto. — Conheceu a Taylor Swift mais rápido do que qualquer um.
— Por que está chamando-a assim? — perguntei. Aquilo estava me incomodando mais do que podia colocar em palavras. — Você ao menos sabe o nome da garota?
— É Parker, por quê? Está querendo ir atrás dela? — arqueou a sobrancelha. — Se quer saber, ela é bem legal mesmo. E você tem a minha permissão.
— Não pedi — resmunguei.
— Foda-se!? Pensa que não vi o modo como a olhou quando ela se afastou? — riu. — Uma ou mil e uma noites, minha festa é o melhor lugar para começar isso.

E com essa, se afastou, me deixando sozinho com meus pensamentos, a saudade, o ciúme, e o meu coração que parecia não saber se queria fugir e se esconder, ou ficar e ir atrás dela.




🏈
— Divirta-se com alguém do seu passado, mas não exagere —




“Uma noite e mais uma veZ
Obrigado pelas memórias”
(Thnks fr th Mmrs — Fall Out Boy)


Pegar um copo não foi a única coisa que fiz. De algum modo, pouco depois de me afastar de e , fui parar no outro canto da festa. O pior era que eu nem tinha precisado parar para pensar. Meu instinto de fuga simplesmente agiria sozinho para fugir do passado, de e das minhas mentiras automáticas. A música ainda chegava até aqui, abafada pelas paredes altas da mansão do — menos invasiva.
Parecia ser um lugar onde dava para fingir um pouco mais que eu não estava fugindo de nada. Meus pensamentos, no entanto, continuaram a me perseguir.

— Você tem cara de quem também não conhece metade das pessoas daqui. — Um homem que aparentava ter mais ou menos a minha idade encostou-se na parede ao meu lado.
— Está tão na cara assim? — Ri um pouquinho. — No passado, eu costumava me misturar tão perfeitamente com a festa que jamais diriam isso de mim.
— É, confesso que ainda sou assim, mas às vezes prefiro me enturmar com as pessoas dos cantos. Costumam ser interessantes. — Sorriu e me estendeu a mão. — Me chamo Ryan.

Não hesitei em responder ao gesto. Seu aperto foi firme e confiante, sem exageros. Um bom começo.

— respondi.
… — repetiu em voz baixa, testando o som. Aquilo funcionou comigo mais do que eu gostaria de admitir. — Amiga do ?
— Algo nessa linha, suponho.
— Sabia! — Ryan inclinou levemente a cabeça, observando-me com uma atenção tranquila. — Ele só convida gente interessante… ou muito bem relacionada.
— E eu me encaixo em qual dessas categorias? — Arqueei as sobrancelhas.
— Ainda estou decidindo. — Deu de ombros.

Soltei uma risada genuína dessa vez, do tipo que não exigia esforço. Ryan tinha, de fato, um charme fácil, confortável. Era bonito, sem ser óbvio demais. Atento, sem parecer calculista — ao menos não muito. O tipo de cara que não precisava competir com ninguém. E talvez fosse por isso mesmo que chamava atenção.
Peguei meu copo, antes esquecido, da mesinha ao lado. Do outro lado da enorme sala, ainda podia ver o . Conseguia senti-lo lá mesmo quando evitava olhar. O jeito como havia pronunciado meu nome ainda ecoava na minha cabeça como uma maldição — ou talvez uma bênção. O silêncio que havia se seguido. O olhar… Sempre aquele olhar que parecia enxergar além do que eu me permitia mostrar. E a mentira…
“Meu pai mora aqui. Vim visitar ele.”
Tinha dito as palavras no automático. Mais uma fuga. O objetivo era óbvio: não revelar que agora morava aqui, tão perto dele. Mas tinha que ter mencionado meu pai como se ele ainda estivesse vivo? gostava tanto dele, mesmo que tivessem passado pouquíssimo tempo juntos. E ele ainda tinha dito para mandar lembranças… De algum modo, aquilo fazia tudo doer ainda mais.

— Está tudo bem, ? — Ryan perguntou, e só então notei o quanto meu maxilar estava tenso. — Você parece… distante.

Olhei para o cara ao meu lado de verdade pela primeira vez. Era fácil estar ali. Fácil demais. Em qualquer outra noite, teria me inclinado um pouco mais, diminuído a pouca distância e deixado o flerte virar algo concreto.

— Estou bem. — Dei de ombros. — É só… festa demais, eu acho.

Não era de flerte que eu precisava hoje. Precisava de mais.

— Quer fugir um pouco? — sugeriu. — Há cantos mais tranquilos lá em cima.

Meu coração acelerou em um piscar de olhos. Não pelo convite sugestivo de Ryan, mas pela palavra “fugir”. Se eu queria? Não era isso que eu sempre fazia? Por bem, por mal… Era a minha própria maldição. Mexi o gelo quase derretido no copo. Já não era o primeiro drink. Nem o segundo. Dei mais um grande gole. O calor se espalhava devagar pelo corpo, sem jamais tocar o lugar certo. O álcool nunca conseguia silenciar o ruído.

— Talvez — murmurei, por fim. — Na verdade, estou precisando de algo mais forte.

Ryan hesitou por alguns segundos, me avaliando.

— Se for sua praia… — Baixou a voz. — Posso oferecer algo melhor.

Seu gesto foi discreto, mas o que ele expôs foi fácil de notar. Branco demais para não ser reconhecido. Familiar demais para que eu fosse capaz de fingir surpresa. Por um instante, pensei em recusar e me manter apenas com ele, deixando a droga de lado. Ryan era bonito. Parecia gentil. Interessado. Um caminho fácil para essa distração limpa e até saudável. Conversas. Um beijo contra a parede mais tarde. Talvez risadas sem peso.
Não. Meu corpo estava inquieto demais para aceitar algo simples e não destrutivo. Além do mais, a inquietação em mim tinha o cheiro de outra pessoa, com um toque amadeirado forte de sândalo.

— Pode ser — respondi, olhando fixamente para a mão dele, que estava no bolso com a cocaína. — Mas rápido.

O sorriso dele não foi de vitória, mas sim de compreensão. E isso, de algum jeito, tornou tudo ainda pior. Ryan fez a frente, e eu o segui. Meu coração explodia no peito, porém era mais sobre consciência do que excitação. Sabia exatamente o que estava fazendo. Por vezes, porém, desejava não saber.
Jamais seria sobre o homem que andava na minha frente. Era sobre a busca por um silêncio inalcançável. Sobre silenciar o que tinha despertado dentro de mim. Qualquer coisa que prometesse algo perto disso parecia válida agora. A excitação e a animosidade que aquilo me traria — o alívio pelo qual tanto ansiava —, pareciam compensar, de vez em quando, o modo como eu ficava acabada depois, nadando em culpa e chorando sozinha.
Subir as escadas foi muito mais difícil do que deveria. Cada degrau me afastava um pouquinho mais da versão de mim que estava tentando sustentar lá embaixo. A garota que ria, que flertava, que socializava. A Parker que fingia que a festa de não tinha reaberto nada do que passara anos mantendo trancado a sete chaves.

— Vamos ver esse quarto aqui. — Ryan abriu uma das portas do corredor. — Ah, ótimo. Pelo visto ninguém resolveu ocupar esse aqui ainda.

Passei por ele e entrei no cômodo. O cheiro me atingiu antes mesmo de a luz ser acesa. Limpo, neutro, com aquele fundo distante de sabonete caro e lençóis recém-trocados. Reconhecível demais.
Engoli em seco. Havia sido ali, não? O quarto em que havia dormido há poucos dias, quando o me ajudara a juntar os pedaços depois de eu me afogar em bebida. O lugar me lembrava amizade. De verdadeiro cuidado. De alguém que não queria nada em troca.
Fechei a porta com um leve estrondo para me acordar da nostalgia de coisas boas. Se a memória se prolongasse, talvez passasse a me questionar ainda mais. Não era isso que precisava agora.

— Está tudo bem mesmo? — o garoto perguntou de novo. — Tem certeza de que…?
— Sim — assenti rápido demais. — Só… vamos logo.

Ryan não fez mais cerimônia. Tirou o que precisava do bolso com naturalidade demais para alguém que não fazia aquilo com frequência — ou talvez com a frequência necessária para que deixasse de ser uma novidade. Eu sabia bem como era.
Foi tudo muito rápido. Quase automático. Nenhuma conversa inspiradora. Nenhuma expectativa. Só o gesto ensaiado de quem conhece de perto o caminho mais curto até o silêncio eufórico.
Quando o pó ardeu, fechei os olhos com força. Por um instante, o barulho pareceu diminuir. O aperto no peito cedeu espaço para uma clareza falsa, quase enganosa — aquela sensação conhecida de que eu finalmente estava no controle.
Funcionava. Sempre funcionava. E esse era exatamente o problema.

— Pronto. — Ryan fungou ao meu lado e limpou o nariz com o dorso da mão, soltando uma risadinha.

Ri também. Uma risada solta, deslocada, que não tinha raiz em nada que pudesse ser nomeado — exceto, talvez, no alívio químico por não sentir tanto. Ryan me puxou pela cintura em um gesto fácil, espontâneo demais para carregar qualquer peso. E então nos beijamos. Um beijo despretensioso, com gosto de álcool e imprudência, que não pedia nome nem lembrança. Um selo para algo bobo que não significava nada.
Mas beijar era mais fácil do que pensar. E dali a alguns dias nem nos lembraríamos disso e, caso nos lembrássemos, não seria relte.
Nos afastamos quase ao mesmo tempo, rindo. Não havia nenhum constrangimento nem promessa implícita. Ryan voltou a ajeitar a camisa e eu conferi meu reflexo no espelho. Os olhos um tantinho mais brilhantes do que deveriam, o rosto relaxado demais para alguém que tinha o maxilar cerrado minutos antes. Eu parecia o mais perto de normal que se poderia estar naquele estado.

— Pronta? — perguntou.

Respirei fundo uma única vez e assenti. O efeito já tinha se acomodado em meu corpo como se eu tivesse conseguido colocar as coisas de volta no lugar certo.
Saímos do quarto e descemos juntos, sem pressa. O som da festa engoliu tudo ao nosso redor, mas um sorriso fácil dançava em meus lábios. Era só mais uma noite. Só mais uma festa — uma de , dessa vez. E eu estava bem. Ótima.
Ryan caminhava ao meu lado, seu ombro colado ao meu como se fôssemos velhos amigos. Ríamos o tempo todo por coisas bobas que nem importavam. Parecia fácil demais.
E então o cheiro familiar de sândalo me encontrou antes mesmo que meus olhos fossem capazes de saber para que lado olhar. Aquilo me tirou dos eixos.
Eu costumava dizer que o cheiro não o anunciava no recinto, mas que permanecia muito tempo depois de ele ir embora. Era um conforto ao qual me agarrava com frequência. No entanto, as coisas haviam mudado. Ao menos para mim. Para ele, já não sabia. 16 by Montclair era como se chamava aquele perfume agora. emprestara o nome — representado por seu número — a um cheiro que já era dele muito antes da marca sequer saber quem era.
E agora parecia que também servia para anunciá-lo para mim, afinal o aroma tinha me atravessado de repente, quente e familiar demais. E então tudo bateu diferente na minha cabeça.
A faculdade. Eu, que sempre implicara com quarterbacks, gritando o nome dele nas arquibancadas da Westmarble State. O jeito como ele me puxava para perto depois de uma derrota, como se precisasse se lembrar de onde pisava antes de voltar a acreditar em si mesmo. As conversas intermináveis sobre o futuro — a carreira profissional, a casa que teríamos, os planos sussurrados quase como promessas. Um filho, talvez dois. A segurança que me envolvia nas noites em que era o meu chão.
É o exato momento em que eu havia perdido tudo isso por puro e simples medo.
Ele estava certo esse tempo todo, não? Eu sempre fui uma fujona, afinal. Tinha medo de ficar, medo de confiar. Ainda que me entregasse demais, em algum ponto eu sempre precisava puxar o freio de mão, colocar um ponto final antes que fosse tarde. Antes que doesse demais e eu voltasse a acreditar que havia sido feita para ficar sozinha.
Sorri para Ryan, como se aquilo pudesse me manter ancorada no agora, nele, mas o cheiro não me abandonava. Então, estanquei no caminho. Dois passos depois, Ryan notou e me olhou, confuso, perguntando alguma coisa que não fui capaz de registrar.

— Pode ir. — Minha voz soou distante até para mim mesma. — Já te alcanço.

Ele deu ombros e sorriu, como se nada tivesse muita importância naquela noite. Talvez, para ele, não tivesse mesmo. Já para mim…
O sândalo havia se infiltrado no ar, espesso demais para ser ignorado, e seu cheirinho bom me levava direto ao passado. Varri o local com os olhos, o coração acelerado sem motivo lógico. Mas antes que pudesse organizar um pensamento inteiro, ele já estava ali, chegando de mansinho.

— Achei que já tivesse ido embora — disse, a voz baixa demais para competir com a música, mas alta o suficiente para ouvir. — Tá se divertindo?

Respondi com um aceno de cabeça, ou talvez tivesse dito algo. Não tinha certeza de mais nada sobre mim quando dizia respeito a . Além do mais, as palavras pareciam pequenas demais para tudo o que se acumulava entre nós dois. O silêncio fazia mais barulho do que qualquer resposta possível.
E me olhava daquele jeitinho só dele: atento demais, como se fosse capaz de ler nas entrelinhas o que quer que eu não tivesse coragem de dizer em voz alta. Como se ainda soubesse exatamente onde procurar pelas respostas no meu olhar, no meu rosto, no meu corpo.
Inferno! A cocaína deixava tudo mais nítido e, ao mesmo tempo, mais fora de controle. O álcool me aquecia mais do que o esperado. E o perfume me confundia. Ah, o perfume…

— Taylor Swift, é? — Um meio sorriso surgiu no canto de sua boca.

Pisquei repetidas vezes, como se o ato fosse trazer algum sentido para o que ele havia perguntado.

— O quê? — Franzi o cenho.
te chamou assim mais cedo — explicou. — Parece que se conhecem muito bem.
— Ah, quem me dera! — Soltei uma risada curta, quase defensiva. — Faz só alguns dias que conheci ele, mas… O que aconteceu é que não o reconheci como “o ” de primeira. Não acreditei nele, sabe? Devo ter dito algo tipo: “se você é , eu sou a Taylor Swift”. — Sacudi a cabeça. — Então ele aproveitou o meu cabelo loiro e a piadinha para me chamar de Taylor.
— É a sua cara dizer algo assim — reconheceu. — Mas o nome não sustenta muito, não é? Acho que ela não tem essa mecha rosa na franja, tem?
— Foi o que eu disse para ele!
sempre foi péssimo com apelidos — comentou, sem desviar o olhar do meu. — Vocês…?

A pergunta ficou suspensa no ar, mais pesada do que deveria ser.

Não. — A resposta saiu firme demais para quem tinha acabado de ser pega de surpresa. — Sabe bem que caras como o não fazem o meu tipo.
— Verdade, mas também sei que adora jogadores que fazem jogadas impossíveis. — Ele arqueou a sobrancelha. — E fez várias.
— Ele fez, não fez? Muitas. — Não consegui impedir a risada genuína que ousou escapar. — E você me conhece bem demais.

O que ele havia dito era a mais pura verdade. Eu não tinha me apaixonado por de imediato. Fora aos poucos. A cada passe difícil completado, a cada momento em que parecia desafiar as próprias limitações. Eu gostava de vê-lo liderar o Westmarble State Thunders para a vitória, fosse ela fácil ou sofrida. Adorava acreditar junto, fazê-lo acreditar.
Um sorrisinho tímido, quase nostálgico demais, tomou meus lábios. A troca de olhares perdurou, com tanto significado contido que chegava a doer. O sorriso morreu devagar, porém foi substituído por algo mais quieto. Mais forte. Mais antigo. Algumas memórias, de fato, não pediam permissão. Elas simplesmente invadiam com a violência de uma avalanche e o calor de um belo dia de verão.
Eu sentia falta. Muita falta. E não apenas de . Também tinha saudades de mim, de quem eu era quando esse cheirinho inconfundível de sândalo significava lar. Quando não precisava fugir de tudo o tempo todo. Quando não caminhava em um terreno instável prestes a ceder.
Envolvi o pulso dele em minhas mãos como se fizesse isso a vida toda. Como se pertencesse. Não queria pensar sobre o assunto. Não queria uma chance para mudar de ideia. A familiaridade de sua pele sob meus dedos varreu para longe qualquer consciência questionadora que pudesse surgir.

— Vem comigo — chamei.
… — hesitou, seu olhar quase pedia por misericórdia.

Mas sempre hesitava. Esse era ele. Por isso, não quis saber de conversa. Conversar significava lembrar, parar e, pior ainda, encarar. Segurei com mais firmeza e puxei-o comigo. Ao mesmo tempo em que me jogava nas lembranças, estava fugindo de uma conversa profunda. Era um erro absurdo, porém mergulharia de cabeça mesmo assim.
Alguns erros não pediam licença e nem desculpa. Apenas aconteciam.
O caminho através daquele monte de gente foi curto e, ao mesmo tempo, longo demais. Passamos entre as pessoas e elas passaram por nós. Ouvi pelo menos uma voz me chamando, e alguém riu alto demais perto do meu ouvido. Nada disso permaneceu. As únicas coisas que eu registrava eram o cheiro, o toque ocasional do corpo dele atrás de mim, e o modo como não apenas não havia tentado se soltar, como também tinha envolvido sua mão na minha enquanto se deixava ser levado.
Quando, por fim, entrei em um dos banheiros, afrouxei o aperto, libertando para fechar a porta, ou então sair correndo e me deixar ali. O clique da tranca denunciou-me que ele havia escolhido a primeira opção sem eu nem precisar me virar para ver.
Olhei ao redor. O banheiro era enorme — pequeno em comparação com o resto da mansão e, ao mesmo tempo, mais amplo que o suficiente para parecer um refúgio momentâneo, improvisado. Ainda era possível escutar o som da festa do lado de fora, mas não a ponto de prestar atenção em qualquer coisa que não estivesse aqui dentro com a gente. E o silêncio aqui parecia espesso demais, impossível de ignorar. O cheiro dele me tomou de imediato: sândalo misturado com álcool, um leve suor e lembranças… muitas lembranças. Meu peito apertou antes de qualquer toque.
Não conseguíamos parar de trocar olhares, perto demais para um lugar consideravelmente grande. Não havia perguntas, hesitação ou fingimentos ali. Era o tipo de olhar que se reconhecia. Algum tipo de acordo silencioso — frágil, perigoso, irrevogável — estava sendo firmado ali, sem nenhuma letra nem fonema.
Não havia mais espaço para palavras. Não agora.
Minha boca encontrou a dele pela primeira vez em seis anos com a urgência de alguém que encontrou um oásis depois de sobreviver por muito tempo no deserto. Subi as mãos pela camiseta, ansiando sentir o corpo firme por baixo. respondeu no mesmo ritmo, sempre sintonizado. Seus dedos se fecharam em minha cintura e puxaram-me para perto, como se precisasse confirmar que estava ali de verdade, que não fugiria dessa vez.
Sua mão subiu pelo meu braço esquerdo e os dedos quentes traçaram o desenho da tatuagem em formato de raio perto do meu ombro com uma delicadeza que eu não sentia há anos. Não pude evitar fechar os olhos.

— Você ainda tem ela — murmurou ele.
— Você também — respondi sem nem pensar a respeito.

E então o toque mudou de ritmo, de força. Tornou-se menos cuidadoso e mais decidido. puxou minha camiseta para cima sem cerimônias, ajudando-me a tirá-la. Mal tive tempo de sentir o ar fresco do banheiro antes que suas mãos estivessem ali de novo, firmes, conhecidas… conhecedoras. Ele apenas as afastou de mim de novo quando tirei sua camiseta e quando parou por um breve instante para pegar a camisinha — porque, obviamente, as tinha para todo lado na casa, ainda mais em uma festa daquelas.
Beijei mais uma vez, mordendo seu lábio inferior do jeitinho que sempre gostei de fazer. Então virei-me de costas, já expondo meu pescoço. Ele enterrou a cabeça ali, beijando a pele com uma mistura de fome e carinho que me fazia fechar os olhos por motivos demais para serem nomeados. Pressionei o meu corpo contra o dele, sentindo-o por inteiro atrás de mim. Seria mais fácil assim. Menos olhos. Menos passado. Mais físico. Apoiei as mãos na bancada, o mármore frio contrastando com o calor que crescia dentro de mim.

— Não. — parou por um momento. Suas mãos seguraram meus braços e me viraram de volta com firmeza o suficiente para deixar claro que não era um pedido. — Olha para mim.

Eu olhei, e só então ele me beijou de novo, mais fundo, como se estivesse desesperado para apagar qualquer distância que eu ainda tentasse criar. Suas mãos desceram, e as minhas também. Abrindo zíper, botões, puxando o tecido que ainda nos separava, afastando roupas com uma pressa calculada — não desordenada, porém definitivamente faminta. Assim como ele me ajudava a me livrar do que restava, eu fazia o mesmo, com dedos ágeis demais para alguém que fingia não se lembrar.
me ergueu com facilidade, apoiando-me na bancada, e minhas pernas se fecharam ao redor dele. O grande espelho refletia demais — nossos corpos, a tatuagem de raio em nós dois, alinhadas por um breve e perigoso instante.
O ritmo começou lento, profundo, como se nossos corpos precisassem confirmar cada pequeno encaixe antes de se entregar completamente — ou talvez estivessem apenas matando a saudade, querendo aproveitar ao máximo. se movia com precisão. Ainda sabia exatamente onde tocar, apertar, quando segurar meus quadris ou me puxar mais para perto. E eu sabia como acompanhá-lo, quando arquear o corpo ou segurá-lo pelos ombros para não perder o equilíbrio ou o controle. O tempo havia passado, mas o corpo não havia se esquecido… Nem o coração.
O cheiro dele estava em tudo agora. Na minha respiração, na minha pele, na memória que meu corpo insistia em acessar. Cada movimento, suspiro e murmúrio parecia amplificado, como se a droga tivesse apagado o mundo ao redor e deixado apenas aquilo. Apenas e eu.
Não havia pressa, só intensidade. Era calculado. Profundo não apenas fisicamente, mas emocionalmente. Tudo se encaixava de um jeito que meu corpo recordava melhor do que eu jamais permitiria que minha mente se lembrasse. Era como um lar reconhecendo o outro.
Palavras não eram o suficiente para tudo aquilo. Só tinham restado sons baixos, gemidos, respiração falha, o choque suave dos corpos, pele contra pele. E lá estava a mão dele de novo, no raio em meu braço, ancorando-se em algo que era tão real que fora marcado na pele. E assim, por um curto e perigoso instante, consegui ser quem eu costumava ser.
Então o ritmo mudou sem que nenhum de nós precisasse anunciar. Simplesmente sabíamos, sentíamos. Tudo ficou mais urgente. Seus movimentos eram determinados de um modo que parecia querer alcançar algo que já ia muito além do físico. Cravei as unhas nos ombros dele, no desespero de senti-lo mais.

… — murmurou contra a minha pele. Um aviso, não um pedido.

Um arrepio me subiu pela espinha quando ele me puxou para ainda mais perto e colou sua testa na minha. Eu o senti por inteiro, presente, real demais para ignorar tudo o que existia ali. Tudo o que sempre existiu. O espelho devolvia uma imagem que eu não deveria estar vendo: nós dois, colados, suados, os raios amarelos em nossas peles quase alinhados outra vez.
Lar. De novo.
Tudo parecia mais intenso e mais distante ao mesmo tempo. Como se eu estivesse ali e fora dali. Vivendo e observando. E me segurou com mais força, como se soubesse exatamente o que estava vindo, qual era o momento. Porque sabia, na verdade. Sempre soube. Sempre reconheceu. E quando aquela onda me atingiu, precisei fechar os olhos para sentir a realidade do prazer.

… — Um suspiro quebrado escapou antes que eu pudesse conter, e meu corpo inteiro cedeu.

Sua intensidade aumentou, então, se entregando por completo enquanto eu me agarrava a ele como uma tábua de salvação. E não demorou muito para que ele também chegasse lá, um som baixo preso na garganta, seu corpo tenso contra o meu antes de, enfim, relaxar. Ele enterrou a cabeça no meu pescoço e sussurrou o meu nome mais uma vez.
Por um precioso instante, nenhum de nós se moveu. Apenas ficamos ali, um com o outro. Meu peito subia e descia rápido demais. Seu cheiro me envolvia, agora misturado ao meu, ao nosso, ao banheiro, à memória. As mãos dele ainda estavam em mim, quentes, possessivas de um jeito contraditoriamente gentil. Seu toque ainda me desmontava com uma precisão quase cruel. Era como se meu corpo soubesse o local exato onde ele ia estar antes mesmo de chegar lá. Ou talvez fosse apenas uma antecipação causada pela saudade.
Seus dedos subiram devagar pelo meu braço, encontrando a tatuagem de novo. E ali repousaram, parecendo querer confirmar que aquilo ainda existia, que nós ainda existíamos.

— Ainda é você — murmurou tão baixo que quase não consegui ouvir.

Foi isso que me quebrou. Eu ainda era eu? Então, por que não conseguia mais enxergar isso? Respirei fundo e me mexi. Primeiro um passo pequeno, depois outro, criando espaço entre nós. demorou para me soltar de verdade, como se o corpo — ou ele mesmo — precisasse de um segundo a mais para aceitar.

… — chamou, porém não completou a frase.

Peguei a roupa com uma pressa juvenil demais. Vesti as calças e percebi que minhas mãos tremiam ao colocar a camiseta e puxá-la para baixo para me esconder. Virei o rosto enquanto ajeitava o sutiã — qualquer coisa para não encarar o espelho. ainda estava ali, observando-me em silêncio, encostado na pia. Tinha vestido as calças, mas a camiseta ainda jazia esquecida na mão.
Voltei minha atenção para os botões ainda abertos das minhas calças.

— Sabe que não precisa fazer isso, não é? — perguntou, por fim. — Não precisa fugir, .

O “não de novo” pairou no ar entre nós, sem precisar ser pronunciado. As palavras pareciam tão simples quando saíam da boca dele… Tudo parecia mais simples quando vinha dele. Mas não era. Nunca seria. Não para mim. Ficar agora seria admitir que aquilo ainda importava, reconhecer a verdade mais dolorosa. E não sei se sobreviveria a essa conversa.
Ergui o olhar até seus belos olhos. Não havia julgamento ali, nem surpresa, apenas reconhecimento. Isso não deveria doer tanto assim.

— Você me conhece melhor do que isso, .

E ele conhecia mesmo. Por isso, expunha aquela carinha de cachorro abandonado que fazia o meu peito doer. Era o mesmo motivo que me trazia um sorriso triste aos lábios.
Passei por ele antes que qualquer um de nós pudesse dizer mais alguma coisa, abri a porta e deixei o cheiro dele para trás, como já tinha feito outras vezes. E, no fim das contas, sabia que não adiantava fingir que e aquele momento não ficariam comigo por muito mais tempo do que aquela noite permitiria. E aquele cheiro levemente doce estaria impregnado nas minhas roupas até o fim dos tempos — ou algum período tão próximo disso que nem fazia diferença.



🏈 💙
— Desencane das redes sociais da sua ex —


“Eu estou aqui sem você, meu bem
Mas você ainda está na minha mente solitária”
(Here Without You — 3 Doors Down)


Mente pesada e celular na mão só podiam resultar em movimentos imprudentes — muitos deles, impossíveis de desfazer. Foi assim que entrei no perfil de Parker no Instagram, o que parecia quase inocente à primeira vista. Ou talvez nem perto de “quase”, já que foi como se tivesse sido sugado para dentro de um buraco negro.
Não fiquei surpreso ao ver que seu username fazia referência a uma música com o nome dela daquela banda californiana de punk rock que ela adorava. Fiquei encarando a foto de perfil dela, com óculos escuros, blusa vermelha, um sorriso inconfundível e os cabelos loiros soltos. Não era atual, já que não havia mecha rosa na franja. A não ser que ela tivesse abandonado aquele lindo detalhe nos poucos meses que se passaram desde a festa do .

— Tomara que não.

Sacudi a cabeça ao me dar conta de que estava murmurando sozinho. Mas era verdade, no fim das contas. A franja colorida combinava com ela. Forcei-me a desviar o olhar da pequena imagem redonda para as letrinhas ao lado e abaixo. Posts escassos, um pouco acima de oitocentos seguidores, seguindo um pouco mais de mil. Foquei nas três linhas da sua bio:

✨ palavras, silêncio e fugas
⚡ Ulburgh Redbirds
📍 EUA (infelizmente)

É claro que haveria menção ao Redbirds. tinha começado a torcer para o time que o primo distante dela torcia unicamente para se diferenciar do Sr. Parker — um eterno apaixonado pelo Westerburn Mustangs. Mas, como tudo no esporte, depois de um tempo, ela de fato tinha se apaixonado pelo time de Ulburgh, e nada era capaz de tirar essa paixão do coração dela.
Abaixo da bio, na parte que mostrava quais pessoas que eu conhecia também a seguiam, havia apenas . Fazia sentido. Não usávamos o Instagram na época da faculdade para termos muitos seguidores em comum.
Suspirei longamente e cliquei para segui-la. Não deveria ter feito isso, mas agora não tinha mais volta. Mesmo que desfizesse a ação, era possível que ainda aparecesse para ela, não? Seria patético. Melhor manter as escolhas impulsivas, nesse caso. Só para garantir.
Rolei a tela para baixo, admirando cada uma das poucas fotos que ela já havia postado no feed. Infelizmente para mim, ela não publicava com frequência. Ainda assim, fiquei absorto em cada detalhe, como quem conhecia o playbook inteiro de um amado time que você assistia, mas do qual não fazia parte. Ao menos não do jeito que eu gostaria. Como a foto que parecia mais inofensiva entre todas provava.
Era uma imagem simples da mão dela segurando um esmalte marrom-avermelhado, com suas unhas não apenas daquela cor, mas com uma decoração branca simulando as costuras de uma bola de futebol americano. Além de ter sido postada na semana após o nosso reencontro em Westerburn, a legenda foi o que mais pegou: “Todas as grandes coisas da minha vida vieram, de algum jeito ou de outro, do futebol… e eu nem jogo. Tem muita paixão envolvida”.
E tinha. Eu sabia bem o quanto tudo aquilo significava para ela. Os domingos com a irmã, o pai e a mãe. Os escassos momentos com o pai e a irmã depois da morte da mãe. Ela havia me contado o modo como o futebol os unia. E como ela se sentia sozinha naquela época. E como o futebol também tinha me trazido para ela.
Eu era uma das paixões. Eu sempre seria. E mesmo assim, isso me doía. Porque vê-la de novo naquela noite na festa do , ter estado com ela em meus braços outra vez naquele banheiro… Fechei os olhos e respirei fundo. Não era possível que eu estivesse me metendo naquela roubada de novo.

— Como posso ser tão estúpido?! — grunhi, mas o som da notificação me arrancou dos deios autodestrutivos direto para as práticas autodestruidoras outra vez.

Parker seguiu você”. Frase simples e devastadora, ainda mais vinda tão pouco tempo depois de eu tê-la seguido. De algum modo, o fato de não ter sido ignorado me aliviou. Ainda mais vindo de , que não conseguia evitar uma fuga.
Voltei para o topo do perfil, ainda incapaz de tirar os olhos da tela, rezando por migalhas. E então uma surgiu. O círculo ao redor da foto de perfil ficou colorido, e eu cliquei imediatamente para ver o story. Era apenas uma selfie bonitinha dela no carro. Dei like, não pude evitar. Mas isso não bastava. Eu queria mais. Queria saber o contexto, para onde estava indo ou de onde voltava. Desejava saber com quem estava. Se estava com alguém. Se algum dia chamou outro cara de namorado por vontade própria, além de mim.
E o pior de tudo era que, de algum modo, sabia que seria pior se eu tivesse sido o único. Porque significava que, em seis anos, ela não havia conseguido ter coragem de fazer aquilo de novo. E isso com certeza teria doído muito nela. E eu não gostava de vê-la mal — apesar de ter desejado esse tipo de coisa diversas vezes quando ela tinha me usado e me ignorado.
Desliguei a tela e enfiei o celular no bolso. Meu cachorro me encarava do chão, tranquilo, descansado, um ótimo companheiro. Monty era tudo para mim, e a coisa mais real que acontecia além do futebol… até ter aparecido de novo, junto com um buraco no meu peito.
Levantei-me do sofá, calcei meus tênis e vesti um casaco.

— Não vou demorar — avisei Monty ao pegar as chaves. — Só preciso respirar um pouco para lidar com outras coisas reais.

A BMW M4 cinza-escura me esperava na garagem, silenciosa e imponente — um lindo lembrete de onde eu tinha chegado e até onde podia ir. Ainda assim, ainda estava estancado em outras áreas da vida.
Entrei no carro e dei partida. O ronco do motor era familiar e reconfortante. Mesmo com toda a velocidade e luxo, o M4 carregava a mesma disciplina que eu aplicava em campo; era preciso, controlado, elegante. Mas eu não parecia ter o mesmo controle nesse exato momento. Manobrando pelas ruas de Linbridge, só conseguia pensar na e quando postaria mais alguma foto que me dissesse qualquer coisa sobre ela e sua vida.
Dirigi até um ponto afastado, de onde dava para ver a cidade de cima, em paz. Coloquei a touca do Mustangs e desci do carro. Sentei-me sobre o capô frio e fiquei admirando a vista. Queria que estivesse ali. Sentia falta de quem eu era quando ela estava por perto. Por Deus, tinha até ido à outra festa do depois daquela, só para ver se a reencontrava. E o pior era que sabia que isso não aconteceria. Se ela tinha viajado até esse estado — para aquele fim de mundo que era Westerburn — para visitar o Sr. Parker, era certo que tinha voltado para Westmarble dias ou semanas depois.
Ah, e pensar que eu havia corrido para a festa do para fugir das lembranças sobre ela e tinha a reencontrado justamente lá… Queria tanto que aquele sexo tivesse sido apenas isso e nada mais, como era com todas as outras garotas. Mas não tinha sido. Jamais seria. Não com ela. Não para mim. Ela era a minha primeira paixão, e eu era o dela. E nenhum de nós tinha se esquecido.
As coisas haviam ficado familiares demais naquela noite, com olhares significativos trocados. Quem dera tivesse sido só desespero sexual e saudades de mim. Não, conhecia Parker melhor do que isso, como ela mesma dissera mais tarde. Foi uma fuga, mais uma. Ela jogou tudo para o físico, como fizera dezenas de vezes antes. Não queria pensar no realmente importante, que era o que eu não conseguia parar de pensar até hoje: no efeito que estávamos causando um no outro apenas por termos voltado a ficar próximos.
E eu acabei permitindo que ela tentasse me usar como um escape. Deixei-me levar pelo momento e pelo encanto da oportunidade de tê-la em meus braços outra vez, de senti-la de verdade. O máximo de controle que consegui tirar dela naquela fuga física pessoal foi fazer com que olhasse nos meus olhos. Ela tinha que ver que eu estava ali, ainda estava ali, com ela e para ela. Queria Parker, não só o corpo dela. Além do mais, eu precisava olhá-la nos olhos, vê-la naquele breve momento em que a tinha para mim depois de tanto tempo.
E, quando aquele precioso instante se foi, queria ter acreditado que cometera um erro, desejara estar dançando entre arrependimento e culpa por me deixar levar por algo que sabia que terminaria outra vez com ela me dando as costas e fugindo, como sempre fazia. Mas não, fiquei lá, contendo uma esperança que não acordava dentro de mim há muito, muito tempo.
Sacudi a cabeça e tirei o celular do bolso. O perfil de brilhou na tela assim que desbloqueei o aparelho. Nem me lembrava de não ter fechado a rede social antes de sair de casa. Não que isso importasse, afinal, o círculo em volta da foto de perfil estava colorido outra vez. Cliquei para abrir o story sem nem pensar a respeito, como um homem sedento. O frio na barriga deve ter sido uma punição pela insistência, se a imagem não fosse uma punição ainda maior. ria ao lado de um homem loiro de cabelos um pouco mais compridos que os meus. Seus ombros se tocavam. Era casual demais para ser algo incomum. E íntimo demais para ser simples acaso.

— Merda, merda, merda — praguejei ao clicar na barrinha para responder o story.

:
Namorando, é?


Ela respondeu quase de imediato, o que significava que a foto não era de agora.

Parker:
É o que Peter diz quando perguntam sobre a gente
Ao menos de vez em quando
Mas você sabe como eu sou, né

Ah, eu sabia! Sabia bem, até demais. Parker não temia sentir, mas sim nomear — afinal, rotular significava a possibilidade de perder algo importante depois. Eu tinha sido o primeiro cara que ela fora capaz de rotular como “namorado”. E pelo jeito que tinha falado agora sobre o relacionamento com o tal do Peter, talvez eu tenha sido mesmo o único.

:
Com ou sem rótulos, ao menos tá seguindo em frente
Isso é bom


Ao menos para ela era bom, caso de fato estivesse seguindo em frente. Já para mim… Arrepiei-me com o ar frio que de repente havia se tornado quase palpável, sufocante. Desci do capô e voltei para dentro do carro. O barulho do lado de fora virou um zumbido abafado, como se eu estivesse em uma bolha. Mas a falsa sensação de proteção não era capaz de me proteger do que vinha de dentro.
Até então, vinha tentando me convencer de que tudo aquilo era resignação, uma aceitação madura. Coisas não resolvidas que ficariam exatamente onde estavam. No entanto, a lembrança dela em meus braços ainda estava fresca demais. E seja lá o que eu estivesse sentindo, transformou-se em ímpeto, coragem tardia. Ou talvez fosse apenas burrice mesmo — costumava cometer muitas dessas quando estava apaixonado por Parker.
Abri o Instagram outra vez antes que pudesse pensar melhor e mandei mais mensagens:

:
Ei, fiquei pensando…
Aquela noite no banheiro do foi bem boa


Soltei o ar devagar depois de enviar. Idiota! Tinha sido muito direto. Sempre havia sido desse jeito com ela, tudo ou nada. Ao menos a resposta veio rápido demais para ser mera coincidência.

Parker:
Me pergunto se você diz isso pra todas as garotas com quem transa

Sorri, apesar de tudo. Claro que ela diria uma coisa dessas. Era a cara da .

:
Só pra uma delas
Aquela com quem namorei anos atrás na faculdade
Ela me deu um pé na bunda, inclusive


Repousei a cabeça no encosto do banco, olhando para o teto do carro. Eu estava sorrindo ao mesmo tempo em que queria me xingar sem parar.

Parker:
Ela parece incrível!!!

— Convencida! — Deixei uma risada escapar.
Digitei a resposta rapidamente, mas demorei um pouco para enviar. Pensei em apagar por vezes demais, mas apertando para enviar mesmo assim:

:
Sinto falta do que a gente tinha
Eu e ela


Sacudi a cabeça, soltando um grunhido. Continuar falando dela na terceira pessoa fora certamente um ato desesperado.

Parker:
Aposto que ela também sente falta às vezes

— Ah,
Suspirei ao passar a mão pelos cabelos. Ela devia estar bêbada. Era isso. Ou apenas estava mais corajosa do que costumava ser. nunca tinha sido boa em admitir esse tipo de coisa em voz alta. E quase todas as conversas importantes que tivemos foram cara a cara. Passávamos a maior parte do tempo juntos, e ela não gostava de ficar muito próxima ao celular, pois isso a fazia lembrar que raramente tinha contato com o pai e a irmã. Então toda a coragem costumava vir depois de alguns belos goles.
Meus dedos hesitaram por um segundo antes de responder:

:
Você sente?


Não havia mais espaço para terceira pessoa na conversa. O “digitando…” apareceu quase de imediato.

Parker:
Eu transei com você no banheiro do , não transei?
Essa é a sua resposta

Fechei os olhos por um instante. Aquilo doeu mais do que eu esperava.

:
A gente devia ter mais oportunidades
de dançar “Seven Nation Army” juntos


Uma mudança de assunto abrupta sem exatamente mudar de assunto. E eu nem precisei explicar. Jamais precisaria. Não para ela.
Na noite em que me conquistou — na festa da irmandade dela —, ela tinha dado em cima de mim usando “Seven Nation Army” do White Stripes. A maioria das pessoas acreditava ser impossível usar essa música para flertar com alguém, mas aquela garota era capaz de tudo quando queria de verdade. E nós dançamos, e conversamos, e nos beijamos antes de passar a nossa primeira noite juntos. E eu passara o mês seguinte inteiro após aquilo pensando que ela estava mentindo quando dizia não se lembrar de pelo menos metade da noite.
Agora parecia apenas uma memória boa.

Parker:
Eu nunca conseguiria dizer não pra Seven Nation Army

:
Eu sei bem
A seven nation army couldn’t hold you back, né?


Parker:
Idiota

Sorri de verdade dessa vez. Um sorriso pequeno, triste. Respirei fundo antes de escrever a próxima:

:
A gente nunca foi feito pra dar certo, né?


Dessa vez, a resposta dela demorou para chegar. E muito. Quando pensei que não fosse mais responder, ela voltou a digitar.

Parker:
Triste, mas verdade
E nem precisou de um exército de sete nações pra nos separar
Só um furacão chamado Parker

Meu estômago apertou por diversas razões. Era triste por si só, e mais triste ainda porque ela também acreditava que nunca fomos feitos para funcionar. E a dor só piorou ao vê-la falar daquele jeito sobre si mesma.

:
Um furacão com o seu nome e sobrenome?
Nunca cruzei com um desses


Parker:
Bobo hahah

:
Mas sério, se não funcionou na faculdade
Acha que poderia funcionar agora que somos adultos?
Tipo… se a gente morasse mais perto, claro
E se você não estivesse namorando com esse cara agora


O pior era que nem eu sabia se existia algum jeito de funcionarmos. E não saber era o que deixava tudo pior para um relacionamento que já não tinha dado certo uma vez.

Parker:
Eu não estou *namorando*, não de verdade
Mas esse não é o ponto
Sinceramente, não acho que a gente poderia funcionar

— Medrosa — murmurei, jogando a cabeça para trás. — Medrosa e fujona.

Mas quem era eu para acusá-la? Já havia desbloqueado diversos novos medos desde que a vira naquela festa do . Temia nunca mais vê-la. Agora também não queria perder contato. E morria de medo de ser chutado de novo. Eu nem a tinha… e já estava apavorado.
Para não dizer algo grande demais — algo do qual certamente me arrependeria — mandei apenas um emoji de desapontamento, tristeza. A resposta veio sem nenhuma hesitação:

Parker:
É que agora tudo tá ainda mais complicado do que era na faculdade
Eu sinto tanta falta daquela época
Meu deus, como eu sinto!

:
Acredite, eu entendo
Também sinto falta daqueles dias


Parker:
Mas você era só o nosso quarterback cabeludo
O nosso Sunshine particular, como em Duelo de Titãs
Você ainda tem esse rostinho californiano, claro
Mas agora também tem esse undercut sexy
Tá muito mais bonito
E é o WR número 1 do Mustangs
Você é um jogador profissional, , como sempre quis
Você é FAMOSO!!

Revirei os olhos e soltei uma risada sem humor.

:
É, eu sei
Tanto faz


Parker:
Se não funcionou entre a gente na faculdade
Acho que não vamos funcionar nunca
Não juntos :(

Fiquei olhando para a tela por tanto tempo que ela até se apagou. Respirei fundo e desbloqueei o celular mais uma vez para enviar:

:
É uma pena


E era mesmo.
O silêncio dentro do carro voltou a se impor junto com a certeza incômoda de que, mesmo separados por tempo, escolhas e medo, ainda era o único lugar onde eu me permitia ser completamente… real.


Continua...


Qual o seu personagem favorito?


Nota da autora: E veio aí o momento stalker rendidíssimo do Evan hahahah Não esqueçam de me contar o que acharam!!

Encontre minhas outras fics AQUI.
Tia Fran ama vcs <3

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