Parte I
A ansiedade em sua vida começara dia 27 de julho de 2022.
deu mais um gole no café, rolando as notícias do twitter, e todas falavam exatamente a mesma coisa: Shawn Mendes havia anunciado uma pausa e estava voltando para casa.
A vida estava diferente: ela já havia se formado, estava em seu novo consultório e tivera dois relacionamentos frustrados, o que era uma média boa para seus 24 anos. Sim, as coisas haviam mudado bastante, mas as batidas do seu coração ao lerem aquele nome não tanto, para o seu azar.
Então, ela começou a ser assombrada por aquela sensação de que, em qualquer esquina de Pickering, poderia esbarrar no cantor.
Em sua imaginação, ele ainda tinha mais ou menos sua altura e um cabelo com franjinha, mas aquele Shawn não existia mais e estava há um tempo fora de sua vida. E, como era impossível não acompanhar a vida do antigo amigo, ela não sabia se era o momento para os dois se reencontrarem, por mais que seu coração se apertasse toda vez que pensava no que ele poderia estar passando.
A população da cidade não era enorme, mas grande o suficiente para que ela tivesse conseguido evitar esbarrar nele por pouco mais de um mês. Até a maldita mensagem.
Aaliyah: , dia 15 às 20h lá em casa.
Aaliyah: Eu quero um presente sim, não vou vir com desculpa de que não precisa.
Merda. estava jogada na cama depois de um longo dia de consultas quando viu a mensagem. Aaliyah era uma força da natureza que nunca deixara ir, mesmo que seu irmão tivesse se afastado há uns três anos.
E ela nunca perdoaria se faltasse seu aniversário de 19 anos com a desculpa de… bom, com qualquer desculpa.
Por isso, no dia 15, estava colocando um vestido marrom não muito justo e nem muito solto, marcado com um cinto rosa bebê que combinava com seus saltos plataforma. Era a quarta tentativa de roupa que ela testava, e agora não havia mais volta. Com as mãos levemente trêmulas, pegou sua jaqueta jeans, o presente e saiu para o ar morno de uma noite de fim de verão.
Não precisou pedir um uber, porque era Pickering. Com um fone de ouvido e boa vontade, você chegava a todos os lugares da cidade, e um desses locais era a casa dos Mendes.
Por um segundo, ela parou de frente para o portão, observando a casa. sentia que não haveria volta depois de entrar na festa, que algo dentro de si seria mexido de forma incorrigível. Mas não havia escolha, por isso ela forçou um sorriso e avançou para aquele espaço que um dia havia lhe sido tão familiar.
A casa não estava tão cheia quanto esperava: apenas alguns familiares, o namorado de Aaliyah, algumas meninas do time de hóquei da época da escola, algumas de suas novas amigas que já não reconhecia tanto. Pessoas espalhadas pela casa, assim como os balões dourados com escritos “19”. Na janela, a faixa escrita “FELIZ ANIVERSÁRIO”, com algumas estrelas. Claro que não se espantou com as várias bebidas espalhadas pela casa: agora Aaliyah poderia beber legalmente.
Mal pensou no nome da garota e foi sufocada por um abraço.
— Eu não acredito que você veio! Eu tinha certeza que você iria lançar alguma desculpa de que estava ocupada com o escritório e depois nunca mais me ver!
Aaliyah já estava levemente alterada, mas estava radiante em um vestido dourado e saltos pretos, sorrindo de orelha a orelha, o carinho transbordando em seus olhos.
— Eu pensei em faltar — confessou —, mas não sabia se estava pronta para lidar com seu ódio eterno contra mim.
— Ainda bem que sabe. Vem, meus pais vão ficar felizes em te ver.
se deixou ser arrastada, neutralizada por aquela presença tão intensa, até parar de frente para dois rostos gentis e familiares.
— Oi, Manny, Karen — a mulher falou gentilmente, ao mesmo tempo em que Aaliyah exclamou:
— Olha quem apareceu!
— , querida! — Karen foi a primeira a falar, puxando-a para um abraço. — Quanto tempo! Para uma cidade tão pequena, sinto que mal nos encontramos, só vejo sua mãe no mercado toda quarta-feira!
— Estava com saudades — ela disse, sorrindo.
— E nós de você — Manny falou. — Como vai, ? Soube que você começou o seu escritório.
— Sim, estou muito contente. Cansada, claro, mas feliz por realizar esse sonho.
— Ah, garota esperta. Você merece — Karen falou, abrindo aquele sorriso maternal que a abraçava só com um olhar.
— E o que é isso na sua mão? Espero que seja um presente.
— É exatamente isso. — riu, estendendo o embrulho. — Espero que goste.
Aaliyah revirou a embalagem e deu um grande sorriso quando viu seu interior.
— Cookies! Eu adoro seus cookies!
— Eu lembrei de você falando algo assim da última vez que nos vimos — falou, sorrindo.
— E ainda bem que lembrou. — Aaliyah a puxou para outro abraço. — Obrigada.
— , espero que aproveite a festa. Não vamos ficar tanto para deixar os jovens se divertirem.
— Até parece que você não é cheia de energia, Karen — brincou.
— Sim, mas agora nossa família cresceu. Vamos subir daqui a pouco para cuidar do Oreo.
— Oreo?
— Meu novo bebezinho. Ah, ele é uma fofura, depois vou te levar para conhecer!
As duas já estavam se afastando, quando ouviram a voz de Karen novamente.
— ! — A garota se virou, sorrindo. — Depois não esquece de procurar o Shawn. Ele vai ficar feliz de vê-la.
O sorriso de congelou no rosto, o ar se tornando mais rarefeito, enquanto ela fingia que aquele comentário tinha sido a coisa mais normal a se escutar.
— Pode deixar.
Karen sorriu, feliz, e a analisou por outro ângulo: uma mãe preocupada que estava vendo seu filho sofrer.
Uma mãe que acreditava que ela podia ser de ajuda, só que isso era bem improvável.
A garota afastou esses pensamentos enquanto seguia Aaliyah para o cabideiro, onde deixou sua jaqueta no meio de tantas outras. E já estava sendo arrastada para perto das garotas do time de hóquei da aniversariante, distribuídas no centro da sala pelos sofás e pufes, que discutiam a partida do ano passado, em que foram campeãs estatais.
— Oi, meninas! Lembram da ?
— Você também estudou em Pine Ridge, não foi? No ano de Shawn? — comentou uma das meninas loiras, Tina, se ela se recordava bem.
— É verdade! Ela sempre aparecia para torcer nos jogos dele — comentou uma morena.
— Você estava no jogo do ano passado também, né? Ele faltou porque estava fazendo turnê ou sei lá, mas você foi, eu lembro — Penny, a antiga capitã, afirmou. Não era uma pergunta.
— Sim, eu fui — respondeu, ainda um tanto sobrecarregada com tanta informação.
— Ótimo, alguém finalmente vai poder opinar sobre aquela falta e vamos mudar de assunto.
O corpo de reagiu à voz antes mesmo de se virar e ver seu dono. Quando seus olhos encontraram os olhos castanhos, suas mãos estavam trêmulas, mas seu corpo, um terrível traidor, a impulsionou em um dos clássicos abraços que sempre trocavam.
A sensação foi de voltar no tempo, para uma época de cookies pós treino de hóquei, de passar tardes revisando o texto do musical de primavera, de horas fingindo estudar matemática, quando na verdade estavam vendo um filme de Harry Potter. Para Karen aparecendo no quarto para entregar um balde de pipocas. Para sua própria mãe expulsando-os do telhado depois que eles tentaram assistir uma chuva de meteoros de lá. Seu rosto se afundou mais no corpo dele, que no momento estava com cheiro de perfume e algo que ela conhecia, da época da faculdade… maconha.
Ela se afastou bruscamente, percebendo o que estava fazendo. Aquele cheiro… em suas memórias, ele cheirava a amaciante, mas aquele não era o Shawn que ela convivera. Na sua frente, estava alguém que o mundo inteiro conhecia, mas ela não mais.
Suas bochechas ficaram vermelhas quando ela percebeu as amigas de Aaliyah observando seu afastamento brusco.
— Desculpa, não sei o que deu em mim — ela justificou, abrindo um sorriso amarelo.
— Não precisa se desculpar. Até parece que não nos abraçamos antes — ele falou, dando um aperto em seu braço que a fez relaxar um pouco do nervosismo, mas fez seu coração acelerar por outras razões.
— ? — Penny a chamou de volta para a realidade. — E aí? Foi falta ou não?
— Ahn… o quê?
— Qual é, . — Aaliyah sorriu para ela. — Quando aquela loira grandona insuportável de Havergal claramente agarrou a gola da Charlie. — Ela apontou para a morena.
forçou sua memória para o jogo que acontecera há mais de um ano atrás. Meu Deus, como ela se lembraria de um momento tão específico? Se lembrava de ver Aaliyah marcando, Manny comemorando e…
Ela olhou para a cara de Penny e lembrou de uma feição similar, mas muito mais vermelha e irritada assim que viu sua amiga caída no chão, depois de ser agarrada.
— Aquilo com certeza foi falta.
— Obrigada! — Aaliyah gritou.
— É óbvio que foi! Aquela juíza estava claramente comprada, merda de times de cidade grande! — Penny exclamou, e todas as meninas reclamaram juntas.
As meninas se distraíram com aquele debate e o corpo de sentiu a reaproximação dele.
— Mas e aí? Como andam as coisas? E a faculdade?
— Ah, já terminei. Comecei um consultório próprio agora.
— Jura? Nossa, que fantástico!
— É, não é nada demais. Sabe como é, o mercado de psicopedagogia está em alta.
— Na verdade, eu não sei como é — ele respondeu, com um sorriso adorável e confuso que a fez rir.
— Não importa. — Ela abanou o ar com uma mão. — É só um dia a dia normal. Atender os pacientes, às vezes comprar algo no mercado, lutar contra a vontade de pedir uma torta na cafeteria.
— Parece um dia bom — ele falou.
— Com certeza nada comparado a de um astro. — Ela revirou os olhos, antes de congelar no lugar.
— Não precisa ter medo de tocar nesse assunto — ele disse, baixo.
— Eu… não sei como você quer tratar isso — ela confessou.
Shawn se sentou no braço de um sofá, olhando para o teto. Ela se sentou em um puff perto dele, olhando-o um pouco mais de baixo do que geralmente já olhava. Assim, as olheiras ficaram bem visíveis.
— Eu também não sei. Mas estou fazendo terapia para descobrir isso. — Então, ele voltou a olhar para com um sorriso. — Você poderia ser minha terapeuta, você faz desconto para conhecidos?
— Eu… O que… Shawn! — ela exclamou, nervosa. — Um: um terapeuta não pode atender conhecidos, é contra o código de ética. Dois: eu nunca te daria um desconto, você tem mais dinheiro do que eu! Inclusive, eu faria uma taxa de 10% a mais pela sua grana.
— Interesseira.
revirou os olhos, segurando um sorriso. Ele tornava tudo tão… fácil. Como se o tempo não tivesse passado e ele não tivesse ficado famoso e arrumado uma namorada igualmente famosa para si.
Mas o tempo tinha passado.
— E aí, vocês topam um uno alcoólico? — Tina perguntou aos dois.
— Quem perder mais vezes vai ter que estrear o Just Dance! — Aaliyah completou, sorrindo. — Vou chamar o Jordan.
— Isso foi contra mim, não foi? Só porque eu perdi as últimas cinco partidas? — Shawn perguntou, fazendo sua melhor expressão de cachorrinho abandonado.
— Imagina, nada pessoal. — Ela sorriu, nada convincente.
Ele soltou um suspiro, balançando a cabeça.
— Vamos logo com isso, eu não quero dançar muito tarde.
E de fato, duas horas depois, todos gritavam instruções (em graus maiores e menores de alcoolismo) para Shawn e Penny em sua performance de Poker Face.
— Levanta o braço. É o direito, cara!
Tentando seguir as instruções de Aaliyah, Shawn quase bateu a mão na cara de Penny que, por sua vez, desabou no sofá atrás deles. A configuração da sala cheia de pufes não era exatamente a ideal para uma performance daquelas.
Mesmo assim, todos aplaudiram audivelmente ao final, como se fosse o próprio show da Lady Gaga. Aquele era o efeito de Shawn, o seu maldito charme, driblando até sua nota baixa no jogo.
— Charlie! — Aaliyah gritou, olhando para a amiga com um sorriso enorme.
— Toxic?
— Óbvio!
As duas pularam alguns pufes enquanto Shawn tentava recuar para o sofá. Quando enfim o alcançou, ele se jogou no seu prêmio, arrancando uma risadinha de uma sentada no braço do sofá, a perna quase encostando no braço do garoto.
— Você foi muito bem — ela debochou.
— É, nunca fui muito das performances corporais, geralmente é só meu violão e eu.
— Uma pena, está desperdiçando seu óbvio talento.
— Estou achando que você quer dançar — ele replicou, estreitando os olhos na direção dela.
— Claro que não! Eu não perdi o jogo.
— Nem Aaliyah e Charlie. — Ele apontou as duas com a cabeça, completamente envolvidas na dança.
— Mas eu sou bem mais velha que essas jovens meninas, não tenho mais idade para isso.
— Caramba… nem se eu me oferecer para dançar junto?
Aquilo ligou um alerta na cabeça de .
— O que você tem em mente?
— Algo familiar e divertido, como… o musical de primavera de 2012.
— Não! — Ela colocou a mão na frente da boca, tampando um sorriso.
— Sim! Vamos, , foi a primeira vez que estrelamos uma peça juntos.
Ela desviou o olhar para a performance das meninas, fingindo apreciá-las enquanto ganhava tempo para fugir. Quer dizer, ela deveria fugir, certo? E não sentir uma vontade absurda de dançar com seu ex melhor amigo de infância o único musical que estrelaram juntos antes que ele começasse a chamar atenção.
Ah, quem ela queria enganar? Era óbvio que ia acertar dançar com ele.
— Meu Deus, como você é insistente! Tá bom, eu danço!
Nessa mesma hora, a sala explodiu de aplausos dos outros convidados que haviam se aproximado para ver a dança.
— Tá legal, quem é o próximo?
— Nós! — Shawn anunciou, erguendo o braço de e fazendo com que a mulher se arrependesse imediatamente da decisão.
Aaliyah ergueu uma sobrancelha.
— Certeza, velhote? Não vai forçar a coluna?
Mas o comentário apenas arrancou uma risada de Shawn, que logo pegou o controle e digitou a música, gerando um friozinho na barriga de enquanto as pessoas começavam a reconhecer.
— Shawn! Eu me lembro de você nessa peça! — Aaliyah falou, subitamente animada, a bebida deixando-a ainda mais espontânea.
— Então vai se lembrar dessa performance. — Ele falava para a irmã, mas sorria para , erguendo uma mão para ela.
A mão que ela aceitou.
Os primeiros acordes de You're The One That I Want encheram a sala e, é claro, os dois não conseguiram se conter apenas em dançar.
— I got chills… there multiplying. And I’m losing control — Shawn começou a cantar, a voz meio rouca, mas um sorriso no rosto. — ‘Cause the power you’re supplying it's electrifying!
riu enquanto a plateia aplaudia a dança e a cantoria dele. Então, pigarreou antes de começar a sua parte:
— You better shape up ‘cause I need a man and my heart is set on you! — Assobios tomaram a plateia. — You better shape up, you better understand, to my heart I must be true!
Então as vozes dos dois, bem mais amadurecidas do que aos 13 anos, começaram a harmonizar para o refrão.
— You're the one that I want! — Os dois cantaram juntos, como se ainda fossem os adolescentes que fizeram a peça, que ensaiavam ali, naquela sala mesmo, cada cena que tinham.
Eles mantiveram a dança e o canto (mesmo que às vezes perdesse o ar, afinal, não apresentava peças há uma eternidade), e a plateia foi se juntando e cantando junto.
Até que levou um susto com o que a tela mostrou que seria o próximo passo da coreografia depois do segundo refrão.
Que jogo era aquele que queria que ela literalmente pulasse em cima de Shawn, encaixando as pernas ao redor do quadril dele? As bochechas dela esquentaram só de pensar.
Mas Shawn não parecia ligar. Na verdade, abriu um sorriso e estendeu os braços, prontos para ela se jogar neles. E eles pareciam muitos bons de serem pulados. Mais tarde, ela culparia o álcool.
Então, antes que mudasse de ideia, seu corpo estava fora do chão e ela flutuou antes que sentisse mãos quentes a segurarem firmemente pela cintura, antes que suas pernas se enrolassem nele como se fizessem isso todo dia.
Ela conseguia sentir cada parte em que seus corpos se encostavam, cada pedaço parecendo prestes a entrar em combustão. Ela sentia tudo, e tinha a impressão que lembraria desse tipo de calor mesmo quando estivesse internada idosa em um asilo (ou principalmente nesse momento).
deveria se sentir envergonhada, deveria se recompor e parar com aquilo, mas Shawn começou a girá-la, e, com isso, girar o álcool que estava em seu corpo, deixando sua visão levemente turva por alguns segundos.
— Shawn! — ela gritou, parando de cantar. — Me solta ou eu vou vomitar!
— Desculpa — ele falou, com um sorriso torto, antes de cuidadosamente postá-la no chão.
O frio súbito atingiu seu corpo em cada local que ele não mais encostava. se sentia triste, mas ao mesmo tempo aliviada: conseguia agora se concentrar para terminar a música e a dança.
De acordo com o vídeo, a dança seguia com ela ainda em cima dele, mas os dois improvisaram, relembrando a coreografia bem mais inocente do tempo da escola.
— You're the one that I want! — Os dois cantaram, terminando na clássica pose final de 10 anos antes: ela com uma mão na cintura e a outra esticada para ele que, ajoelhado no chão, depositava um beijo na mão estendida. Gotas de suor escorriam da testa dos dois, lembrando-os que ainda era verão.
Os amigos de Aaliyah aplaudiam loucamente enquanto a irmã de Shawn o abraçava e outras pessoas escolhiam a próxima coreografia.
— Nossa, , tinha esquecido que você que tinha feito essa peça com meu irmão, você canta tão bem!
— Ah, obrigada! Estou surpresa que alguma coisa saiu da minha garganta depois de tantos anos apenas cantando no chuveiro.
— Se serve de consolo, o chuveiro tem sido meu único público há um tempo — Shawn falou, com um sorriso que não chegava aos olhos.
Sua expressão fez se lembrar da gravidade da situação. Nervosa, ela achou melhor desviar daquela seriedade.
— Sempre achei os condicionadores um pouco apáticos, mas os shampoos são grandes entusiastas.
Shawn a encarou, de olhos arregalados, antes de cair na gargalhada mais genuína que ela havia escutado na noite.
— Por Deus, como você chegou nessa conclusão?
— Os condicionadores são um público escorregadio! E os shampoos fazem bolhas.
— Ah, sim, como não pensei nisso antes? — ele falou, ainda no meio de uma risada.
olhou em volta, para aquela casa, para Aaliyah e Jordan, seu namorado, que imitavam os amigos na nova coreografia da vez (Umbrella), e para Shawn, que ria tão abertamente que fez seu coração acelerar.
Aquilo fez com que o sorriso de morresse. Coração acelerado? Não, ela se prometeu que sentiria o oposto daquilo. Mas estava arriscando demais, já era muito tempo ao lado de Shawn e seu charme perigoso.
— Infelizmente, eu preciso ir embora — ela anunciou a conclusão que seu cérebro chegara.
A risada de Shawn morreu, deixando-a levemente culpada.
— Mas já?
— Amanhã marquei com uma amiga cedo lá em casa, preciso ter energias para socializar.
— Ninguém precisa dormir de fato. Isso é uma invenção para vender remédio — Shawn falou, brincando, embora ainda meio tristonho.
— Fale isso para seu corpo quando ele morrer depois de 11 dias sem sono!
— Isso é um desafio?
Eles sorriram um para o outro, antes de Shawn a puxar para um abraço inesperado.
Era o terceiro contato na noite, ela recebia tanto calor que tinha a impressão que poderia morrer de hipotermia depois que eles se separassem.
— Não some de novo — ele sussurrou.
— Foi você quem sumiu da última vez — ela respondeu, tentando se manter bem humorada, mas a pontinha de acusação escapando na voz.
— Foi, não foi? — Ele suspirou entre seus cabelos. — Seu número ainda é o mesmo?
— É sim.
— Então eu vou te mandar mensagem e você não vai conseguir escapar de mim.
— Ok — ela respondeu, sem acreditar muito. Achava que era apenas efeito do álcool.
— Estou falando sério, .
— Caramba, Shawn Peter Raul Mendes! Já entendi a seriedade, não precisa me chamar de .
Ela sentiu a risada de Shawn vibrar do corpo dele para o dela, antes de ser afastada daquele abraço.
— Vou te mandar mensagem perguntando se você chegou — ele falou, sério.
— Aham.
— E amanhã vou te mandar bom dia. E alguma notícia sobre o campeonato de hóquei.
— Mal posso esperar — ela respondeu, com um sorriso irônico.
Mas quando ele a encarou, o sorriso se transformou em um verdadeiro. Eles ficaram alguns segundos se encarando, e decorou cada novo detalhe do rosto dele que havia mudado. Se perguntou se ele estava fazendo o mesmo, e achou melhor não saber.
Sacudiu a cabeça, quebrando o contato visual.
— Foi bom te ver, Shawn, agora tenho que dizer para sua irmã que vou embora.
— E depois, se você sair viva disso, responder minha mensagem perguntando se chegou bem em casa.
Ela revirou os olhos, sorrindo mais abertamente por causa do álcool, ou por causa dele.
— Mal posso esperar pelo seu bom dia — ela falou, antes de se virar de costas e se impedir de olhar para trás.
deu mais um gole no café, rolando as notícias do twitter, e todas falavam exatamente a mesma coisa: Shawn Mendes havia anunciado uma pausa e estava voltando para casa.
A vida estava diferente: ela já havia se formado, estava em seu novo consultório e tivera dois relacionamentos frustrados, o que era uma média boa para seus 24 anos. Sim, as coisas haviam mudado bastante, mas as batidas do seu coração ao lerem aquele nome não tanto, para o seu azar.
Então, ela começou a ser assombrada por aquela sensação de que, em qualquer esquina de Pickering, poderia esbarrar no cantor.
Em sua imaginação, ele ainda tinha mais ou menos sua altura e um cabelo com franjinha, mas aquele Shawn não existia mais e estava há um tempo fora de sua vida. E, como era impossível não acompanhar a vida do antigo amigo, ela não sabia se era o momento para os dois se reencontrarem, por mais que seu coração se apertasse toda vez que pensava no que ele poderia estar passando.
A população da cidade não era enorme, mas grande o suficiente para que ela tivesse conseguido evitar esbarrar nele por pouco mais de um mês. Até a maldita mensagem.
Aaliyah: , dia 15 às 20h lá em casa.
Aaliyah: Eu quero um presente sim, não vou vir com desculpa de que não precisa.
Merda. estava jogada na cama depois de um longo dia de consultas quando viu a mensagem. Aaliyah era uma força da natureza que nunca deixara ir, mesmo que seu irmão tivesse se afastado há uns três anos.
E ela nunca perdoaria se faltasse seu aniversário de 19 anos com a desculpa de… bom, com qualquer desculpa.
Por isso, no dia 15, estava colocando um vestido marrom não muito justo e nem muito solto, marcado com um cinto rosa bebê que combinava com seus saltos plataforma. Era a quarta tentativa de roupa que ela testava, e agora não havia mais volta. Com as mãos levemente trêmulas, pegou sua jaqueta jeans, o presente e saiu para o ar morno de uma noite de fim de verão.
Não precisou pedir um uber, porque era Pickering. Com um fone de ouvido e boa vontade, você chegava a todos os lugares da cidade, e um desses locais era a casa dos Mendes.
Por um segundo, ela parou de frente para o portão, observando a casa. sentia que não haveria volta depois de entrar na festa, que algo dentro de si seria mexido de forma incorrigível. Mas não havia escolha, por isso ela forçou um sorriso e avançou para aquele espaço que um dia havia lhe sido tão familiar.
A casa não estava tão cheia quanto esperava: apenas alguns familiares, o namorado de Aaliyah, algumas meninas do time de hóquei da época da escola, algumas de suas novas amigas que já não reconhecia tanto. Pessoas espalhadas pela casa, assim como os balões dourados com escritos “19”. Na janela, a faixa escrita “FELIZ ANIVERSÁRIO”, com algumas estrelas. Claro que não se espantou com as várias bebidas espalhadas pela casa: agora Aaliyah poderia beber legalmente.
Mal pensou no nome da garota e foi sufocada por um abraço.
— Eu não acredito que você veio! Eu tinha certeza que você iria lançar alguma desculpa de que estava ocupada com o escritório e depois nunca mais me ver!
Aaliyah já estava levemente alterada, mas estava radiante em um vestido dourado e saltos pretos, sorrindo de orelha a orelha, o carinho transbordando em seus olhos.
— Eu pensei em faltar — confessou —, mas não sabia se estava pronta para lidar com seu ódio eterno contra mim.
— Ainda bem que sabe. Vem, meus pais vão ficar felizes em te ver.
se deixou ser arrastada, neutralizada por aquela presença tão intensa, até parar de frente para dois rostos gentis e familiares.
— Oi, Manny, Karen — a mulher falou gentilmente, ao mesmo tempo em que Aaliyah exclamou:
— Olha quem apareceu!
— , querida! — Karen foi a primeira a falar, puxando-a para um abraço. — Quanto tempo! Para uma cidade tão pequena, sinto que mal nos encontramos, só vejo sua mãe no mercado toda quarta-feira!
— Estava com saudades — ela disse, sorrindo.
— E nós de você — Manny falou. — Como vai, ? Soube que você começou o seu escritório.
— Sim, estou muito contente. Cansada, claro, mas feliz por realizar esse sonho.
— Ah, garota esperta. Você merece — Karen falou, abrindo aquele sorriso maternal que a abraçava só com um olhar.
— E o que é isso na sua mão? Espero que seja um presente.
— É exatamente isso. — riu, estendendo o embrulho. — Espero que goste.
Aaliyah revirou a embalagem e deu um grande sorriso quando viu seu interior.
— Cookies! Eu adoro seus cookies!
— Eu lembrei de você falando algo assim da última vez que nos vimos — falou, sorrindo.
— E ainda bem que lembrou. — Aaliyah a puxou para outro abraço. — Obrigada.
— , espero que aproveite a festa. Não vamos ficar tanto para deixar os jovens se divertirem.
— Até parece que você não é cheia de energia, Karen — brincou.
— Sim, mas agora nossa família cresceu. Vamos subir daqui a pouco para cuidar do Oreo.
— Oreo?
— Meu novo bebezinho. Ah, ele é uma fofura, depois vou te levar para conhecer!
As duas já estavam se afastando, quando ouviram a voz de Karen novamente.
— ! — A garota se virou, sorrindo. — Depois não esquece de procurar o Shawn. Ele vai ficar feliz de vê-la.
O sorriso de congelou no rosto, o ar se tornando mais rarefeito, enquanto ela fingia que aquele comentário tinha sido a coisa mais normal a se escutar.
— Pode deixar.
Karen sorriu, feliz, e a analisou por outro ângulo: uma mãe preocupada que estava vendo seu filho sofrer.
Uma mãe que acreditava que ela podia ser de ajuda, só que isso era bem improvável.
A garota afastou esses pensamentos enquanto seguia Aaliyah para o cabideiro, onde deixou sua jaqueta no meio de tantas outras. E já estava sendo arrastada para perto das garotas do time de hóquei da aniversariante, distribuídas no centro da sala pelos sofás e pufes, que discutiam a partida do ano passado, em que foram campeãs estatais.
— Oi, meninas! Lembram da ?
— Você também estudou em Pine Ridge, não foi? No ano de Shawn? — comentou uma das meninas loiras, Tina, se ela se recordava bem.
— É verdade! Ela sempre aparecia para torcer nos jogos dele — comentou uma morena.
— Você estava no jogo do ano passado também, né? Ele faltou porque estava fazendo turnê ou sei lá, mas você foi, eu lembro — Penny, a antiga capitã, afirmou. Não era uma pergunta.
— Sim, eu fui — respondeu, ainda um tanto sobrecarregada com tanta informação.
— Ótimo, alguém finalmente vai poder opinar sobre aquela falta e vamos mudar de assunto.
O corpo de reagiu à voz antes mesmo de se virar e ver seu dono. Quando seus olhos encontraram os olhos castanhos, suas mãos estavam trêmulas, mas seu corpo, um terrível traidor, a impulsionou em um dos clássicos abraços que sempre trocavam.
A sensação foi de voltar no tempo, para uma época de cookies pós treino de hóquei, de passar tardes revisando o texto do musical de primavera, de horas fingindo estudar matemática, quando na verdade estavam vendo um filme de Harry Potter. Para Karen aparecendo no quarto para entregar um balde de pipocas. Para sua própria mãe expulsando-os do telhado depois que eles tentaram assistir uma chuva de meteoros de lá. Seu rosto se afundou mais no corpo dele, que no momento estava com cheiro de perfume e algo que ela conhecia, da época da faculdade… maconha.
Ela se afastou bruscamente, percebendo o que estava fazendo. Aquele cheiro… em suas memórias, ele cheirava a amaciante, mas aquele não era o Shawn que ela convivera. Na sua frente, estava alguém que o mundo inteiro conhecia, mas ela não mais.
Suas bochechas ficaram vermelhas quando ela percebeu as amigas de Aaliyah observando seu afastamento brusco.
— Desculpa, não sei o que deu em mim — ela justificou, abrindo um sorriso amarelo.
— Não precisa se desculpar. Até parece que não nos abraçamos antes — ele falou, dando um aperto em seu braço que a fez relaxar um pouco do nervosismo, mas fez seu coração acelerar por outras razões.
— ? — Penny a chamou de volta para a realidade. — E aí? Foi falta ou não?
— Ahn… o quê?
— Qual é, . — Aaliyah sorriu para ela. — Quando aquela loira grandona insuportável de Havergal claramente agarrou a gola da Charlie. — Ela apontou para a morena.
forçou sua memória para o jogo que acontecera há mais de um ano atrás. Meu Deus, como ela se lembraria de um momento tão específico? Se lembrava de ver Aaliyah marcando, Manny comemorando e…
Ela olhou para a cara de Penny e lembrou de uma feição similar, mas muito mais vermelha e irritada assim que viu sua amiga caída no chão, depois de ser agarrada.
— Aquilo com certeza foi falta.
— Obrigada! — Aaliyah gritou.
— É óbvio que foi! Aquela juíza estava claramente comprada, merda de times de cidade grande! — Penny exclamou, e todas as meninas reclamaram juntas.
As meninas se distraíram com aquele debate e o corpo de sentiu a reaproximação dele.
— Mas e aí? Como andam as coisas? E a faculdade?
— Ah, já terminei. Comecei um consultório próprio agora.
— Jura? Nossa, que fantástico!
— É, não é nada demais. Sabe como é, o mercado de psicopedagogia está em alta.
— Na verdade, eu não sei como é — ele respondeu, com um sorriso adorável e confuso que a fez rir.
— Não importa. — Ela abanou o ar com uma mão. — É só um dia a dia normal. Atender os pacientes, às vezes comprar algo no mercado, lutar contra a vontade de pedir uma torta na cafeteria.
— Parece um dia bom — ele falou.
— Com certeza nada comparado a de um astro. — Ela revirou os olhos, antes de congelar no lugar.
— Não precisa ter medo de tocar nesse assunto — ele disse, baixo.
— Eu… não sei como você quer tratar isso — ela confessou.
Shawn se sentou no braço de um sofá, olhando para o teto. Ela se sentou em um puff perto dele, olhando-o um pouco mais de baixo do que geralmente já olhava. Assim, as olheiras ficaram bem visíveis.
— Eu também não sei. Mas estou fazendo terapia para descobrir isso. — Então, ele voltou a olhar para com um sorriso. — Você poderia ser minha terapeuta, você faz desconto para conhecidos?
— Eu… O que… Shawn! — ela exclamou, nervosa. — Um: um terapeuta não pode atender conhecidos, é contra o código de ética. Dois: eu nunca te daria um desconto, você tem mais dinheiro do que eu! Inclusive, eu faria uma taxa de 10% a mais pela sua grana.
— Interesseira.
revirou os olhos, segurando um sorriso. Ele tornava tudo tão… fácil. Como se o tempo não tivesse passado e ele não tivesse ficado famoso e arrumado uma namorada igualmente famosa para si.
Mas o tempo tinha passado.
— E aí, vocês topam um uno alcoólico? — Tina perguntou aos dois.
— Quem perder mais vezes vai ter que estrear o Just Dance! — Aaliyah completou, sorrindo. — Vou chamar o Jordan.
— Isso foi contra mim, não foi? Só porque eu perdi as últimas cinco partidas? — Shawn perguntou, fazendo sua melhor expressão de cachorrinho abandonado.
— Imagina, nada pessoal. — Ela sorriu, nada convincente.
Ele soltou um suspiro, balançando a cabeça.
— Vamos logo com isso, eu não quero dançar muito tarde.
E de fato, duas horas depois, todos gritavam instruções (em graus maiores e menores de alcoolismo) para Shawn e Penny em sua performance de Poker Face.
— Levanta o braço. É o direito, cara!
Tentando seguir as instruções de Aaliyah, Shawn quase bateu a mão na cara de Penny que, por sua vez, desabou no sofá atrás deles. A configuração da sala cheia de pufes não era exatamente a ideal para uma performance daquelas.
Mesmo assim, todos aplaudiram audivelmente ao final, como se fosse o próprio show da Lady Gaga. Aquele era o efeito de Shawn, o seu maldito charme, driblando até sua nota baixa no jogo.
— Charlie! — Aaliyah gritou, olhando para a amiga com um sorriso enorme.
— Toxic?
— Óbvio!
As duas pularam alguns pufes enquanto Shawn tentava recuar para o sofá. Quando enfim o alcançou, ele se jogou no seu prêmio, arrancando uma risadinha de uma sentada no braço do sofá, a perna quase encostando no braço do garoto.
— Você foi muito bem — ela debochou.
— É, nunca fui muito das performances corporais, geralmente é só meu violão e eu.
— Uma pena, está desperdiçando seu óbvio talento.
— Estou achando que você quer dançar — ele replicou, estreitando os olhos na direção dela.
— Claro que não! Eu não perdi o jogo.
— Nem Aaliyah e Charlie. — Ele apontou as duas com a cabeça, completamente envolvidas na dança.
— Mas eu sou bem mais velha que essas jovens meninas, não tenho mais idade para isso.
— Caramba… nem se eu me oferecer para dançar junto?
Aquilo ligou um alerta na cabeça de .
— O que você tem em mente?
— Algo familiar e divertido, como… o musical de primavera de 2012.
— Não! — Ela colocou a mão na frente da boca, tampando um sorriso.
— Sim! Vamos, , foi a primeira vez que estrelamos uma peça juntos.
Ela desviou o olhar para a performance das meninas, fingindo apreciá-las enquanto ganhava tempo para fugir. Quer dizer, ela deveria fugir, certo? E não sentir uma vontade absurda de dançar com seu ex melhor amigo de infância o único musical que estrelaram juntos antes que ele começasse a chamar atenção.
Ah, quem ela queria enganar? Era óbvio que ia acertar dançar com ele.
— Meu Deus, como você é insistente! Tá bom, eu danço!
Nessa mesma hora, a sala explodiu de aplausos dos outros convidados que haviam se aproximado para ver a dança.
— Tá legal, quem é o próximo?
— Nós! — Shawn anunciou, erguendo o braço de e fazendo com que a mulher se arrependesse imediatamente da decisão.
Aaliyah ergueu uma sobrancelha.
— Certeza, velhote? Não vai forçar a coluna?
Mas o comentário apenas arrancou uma risada de Shawn, que logo pegou o controle e digitou a música, gerando um friozinho na barriga de enquanto as pessoas começavam a reconhecer.
— Shawn! Eu me lembro de você nessa peça! — Aaliyah falou, subitamente animada, a bebida deixando-a ainda mais espontânea.
— Então vai se lembrar dessa performance. — Ele falava para a irmã, mas sorria para , erguendo uma mão para ela.
A mão que ela aceitou.
Os primeiros acordes de You're The One That I Want encheram a sala e, é claro, os dois não conseguiram se conter apenas em dançar.
— I got chills… there multiplying. And I’m losing control — Shawn começou a cantar, a voz meio rouca, mas um sorriso no rosto. — ‘Cause the power you’re supplying it's electrifying!
riu enquanto a plateia aplaudia a dança e a cantoria dele. Então, pigarreou antes de começar a sua parte:
— You better shape up ‘cause I need a man and my heart is set on you! — Assobios tomaram a plateia. — You better shape up, you better understand, to my heart I must be true!
Então as vozes dos dois, bem mais amadurecidas do que aos 13 anos, começaram a harmonizar para o refrão.
— You're the one that I want! — Os dois cantaram juntos, como se ainda fossem os adolescentes que fizeram a peça, que ensaiavam ali, naquela sala mesmo, cada cena que tinham.
Eles mantiveram a dança e o canto (mesmo que às vezes perdesse o ar, afinal, não apresentava peças há uma eternidade), e a plateia foi se juntando e cantando junto.
Até que levou um susto com o que a tela mostrou que seria o próximo passo da coreografia depois do segundo refrão.
Que jogo era aquele que queria que ela literalmente pulasse em cima de Shawn, encaixando as pernas ao redor do quadril dele? As bochechas dela esquentaram só de pensar.
Mas Shawn não parecia ligar. Na verdade, abriu um sorriso e estendeu os braços, prontos para ela se jogar neles. E eles pareciam muitos bons de serem pulados. Mais tarde, ela culparia o álcool.
Então, antes que mudasse de ideia, seu corpo estava fora do chão e ela flutuou antes que sentisse mãos quentes a segurarem firmemente pela cintura, antes que suas pernas se enrolassem nele como se fizessem isso todo dia.
Ela conseguia sentir cada parte em que seus corpos se encostavam, cada pedaço parecendo prestes a entrar em combustão. Ela sentia tudo, e tinha a impressão que lembraria desse tipo de calor mesmo quando estivesse internada idosa em um asilo (ou principalmente nesse momento).
deveria se sentir envergonhada, deveria se recompor e parar com aquilo, mas Shawn começou a girá-la, e, com isso, girar o álcool que estava em seu corpo, deixando sua visão levemente turva por alguns segundos.
— Shawn! — ela gritou, parando de cantar. — Me solta ou eu vou vomitar!
— Desculpa — ele falou, com um sorriso torto, antes de cuidadosamente postá-la no chão.
O frio súbito atingiu seu corpo em cada local que ele não mais encostava. se sentia triste, mas ao mesmo tempo aliviada: conseguia agora se concentrar para terminar a música e a dança.
De acordo com o vídeo, a dança seguia com ela ainda em cima dele, mas os dois improvisaram, relembrando a coreografia bem mais inocente do tempo da escola.
— You're the one that I want! — Os dois cantaram, terminando na clássica pose final de 10 anos antes: ela com uma mão na cintura e a outra esticada para ele que, ajoelhado no chão, depositava um beijo na mão estendida. Gotas de suor escorriam da testa dos dois, lembrando-os que ainda era verão.
Os amigos de Aaliyah aplaudiam loucamente enquanto a irmã de Shawn o abraçava e outras pessoas escolhiam a próxima coreografia.
— Nossa, , tinha esquecido que você que tinha feito essa peça com meu irmão, você canta tão bem!
— Ah, obrigada! Estou surpresa que alguma coisa saiu da minha garganta depois de tantos anos apenas cantando no chuveiro.
— Se serve de consolo, o chuveiro tem sido meu único público há um tempo — Shawn falou, com um sorriso que não chegava aos olhos.
Sua expressão fez se lembrar da gravidade da situação. Nervosa, ela achou melhor desviar daquela seriedade.
— Sempre achei os condicionadores um pouco apáticos, mas os shampoos são grandes entusiastas.
Shawn a encarou, de olhos arregalados, antes de cair na gargalhada mais genuína que ela havia escutado na noite.
— Por Deus, como você chegou nessa conclusão?
— Os condicionadores são um público escorregadio! E os shampoos fazem bolhas.
— Ah, sim, como não pensei nisso antes? — ele falou, ainda no meio de uma risada.
olhou em volta, para aquela casa, para Aaliyah e Jordan, seu namorado, que imitavam os amigos na nova coreografia da vez (Umbrella), e para Shawn, que ria tão abertamente que fez seu coração acelerar.
Aquilo fez com que o sorriso de morresse. Coração acelerado? Não, ela se prometeu que sentiria o oposto daquilo. Mas estava arriscando demais, já era muito tempo ao lado de Shawn e seu charme perigoso.
— Infelizmente, eu preciso ir embora — ela anunciou a conclusão que seu cérebro chegara.
A risada de Shawn morreu, deixando-a levemente culpada.
— Mas já?
— Amanhã marquei com uma amiga cedo lá em casa, preciso ter energias para socializar.
— Ninguém precisa dormir de fato. Isso é uma invenção para vender remédio — Shawn falou, brincando, embora ainda meio tristonho.
— Fale isso para seu corpo quando ele morrer depois de 11 dias sem sono!
— Isso é um desafio?
Eles sorriram um para o outro, antes de Shawn a puxar para um abraço inesperado.
Era o terceiro contato na noite, ela recebia tanto calor que tinha a impressão que poderia morrer de hipotermia depois que eles se separassem.
— Não some de novo — ele sussurrou.
— Foi você quem sumiu da última vez — ela respondeu, tentando se manter bem humorada, mas a pontinha de acusação escapando na voz.
— Foi, não foi? — Ele suspirou entre seus cabelos. — Seu número ainda é o mesmo?
— É sim.
— Então eu vou te mandar mensagem e você não vai conseguir escapar de mim.
— Ok — ela respondeu, sem acreditar muito. Achava que era apenas efeito do álcool.
— Estou falando sério, .
— Caramba, Shawn Peter Raul Mendes! Já entendi a seriedade, não precisa me chamar de .
Ela sentiu a risada de Shawn vibrar do corpo dele para o dela, antes de ser afastada daquele abraço.
— Vou te mandar mensagem perguntando se você chegou — ele falou, sério.
— Aham.
— E amanhã vou te mandar bom dia. E alguma notícia sobre o campeonato de hóquei.
— Mal posso esperar — ela respondeu, com um sorriso irônico.
Mas quando ele a encarou, o sorriso se transformou em um verdadeiro. Eles ficaram alguns segundos se encarando, e decorou cada novo detalhe do rosto dele que havia mudado. Se perguntou se ele estava fazendo o mesmo, e achou melhor não saber.
Sacudiu a cabeça, quebrando o contato visual.
— Foi bom te ver, Shawn, agora tenho que dizer para sua irmã que vou embora.
— E depois, se você sair viva disso, responder minha mensagem perguntando se chegou bem em casa.
Ela revirou os olhos, sorrindo mais abertamente por causa do álcool, ou por causa dele.
— Mal posso esperar pelo seu bom dia — ela falou, antes de se virar de costas e se impedir de olhar para trás.