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Capítulo 01

In the land of gods and monsters, I was an angel.
Gods & Monsters – Lana del Rey


Novembro de 2004.

O vento entrava balançando a cortina cor de creme. A casa estava limpa, com poucos móveis, tendo apenas o necessário. Leon estava sentado no sofá, assistindo à programação noturna. Estar naquela pequena tranquilidade era desconfortável e, ao mesmo tempo, bom.
Ele já não tinha o hábito de apenas relaxar. A rotina que adotou após os incidentes de Raccoon City o deixou mais… ativo. Mas aquela semana estava exatamente assim, calma, sem nenhuma mensagem ou ligação.
Tudo estava em dia: a casa, as contas, o cooper pela manhã e o exercício à tarde. Leon mantinha bem sua rotina para que, assim, sua mente não pregasse peças.
Jogou a cabeça para trás, o som da rua se intensificou quando o vento trouxe para dentro.
Levantou, após passar a mão no rosto, caminhou até a geladeira e abriu, olhou e deixou a porta aberta como se aquele ato o ajudasse a pensar. Segundos depois de ficar ali parado, ele pegou uma bebida, abriu sem muito esforço e bebericou.
Realmente, aquela rotina estava o cansando demais.
Ali ele ficou, apoiado no balcão, a garrafa em sua mão. O som da televisão se misturava aos carros passando na rua, o padrão mudou quando o celular tocou. Caminhou a passos largos até o aparelho. Pegou e leu o nome no visor. Ingrid Hunnigan.
Aquele sorriso apareceu no mesmo instante.
— Leon?
— Hm.
— Leon, temos uma agente em campo em uma instalação ligada ao que acreditamos ser um antigo braço da Umbrella. O contato está instável. Ela solicitou apoio direto. Você é o mais próximo.
— Hunnigan… achei que você ia me dar férias dessa vez.
— Você não é exatamente o tipo que fica parado, Leon.
— Depende do convite.
— Não tem convite, e é uma ordem.
— Chego aí em breve.

Leon não estava mentindo. Deixando a garrafa de lado, caminhou até seu quarto e trocou de roupa. A jaqueta de couro foi vestida assim que trancou a porta atrás de si e, quase simultaneamente, a mensagem da localização chegou ao seu celular.

O que levaria uma hora, para Leon, demorou apenas meia hora. Ele desceu do carro, já averiguando o perímetro. O local ficava a duas cidades de Raccon City, então parecia estar na mesma cidade; respirou fundo, ligou a lanterna que ficava acoplada na arma e caminhou até o ponto informado.
Um silêncio iminente. Só era possível ouvir seus passos contra a neve, o vento soprando entre as árvores que ali havia.
Adentrando, ele viu a pequena base montada pelo serviço dos Estados Unidos. Passou por eles após conversarem brevemente e seguiu com mais dois soldados. Eles foram os últimos a ver a agente Paris e, por isso, iriam guiá-lo até o local.

Era como ele já imaginava, uma fachada amigável, sem muitas coisas explícitas. Para o conhecimento dele, era nitidamente o centro de desenvolvimento e não o centro de comercialização. Quando se deu conta, estava passando pelas grades sozinho.
— Vão ficar? — Olhou para os soldados. — Achei que vocês fizessem parte da equipe da Agente Paris.
— Temos ordem de ficar. — Um blefou com Leon.
— Claro, claro. — Voltou a caminhar. — Melhor assim, não preciso ser baby brother.
Respirou fundo e entrou. A porta de metal rangeu no momento exato em que ela foi empurrada.
— Melhor que um interfone.
Passos firmes, a visão focada e prestando atenção em todos os sons à sua volta. O lugar era pior que o labirinto de Fauno. Seguiu por onde achou que deveria ser o caminho correto, ao menos as luzes acesas — piscando e também avermelhadas —, davam esse entender. Para um lugar supostamente abandonado, estava bem conservado.
Quanto mais andava pelos corredores, os sons familiares se intensificaram.
— Mais um dia.
Ao se aproximar, viu um infectado logo à sua frente. Com um tiro preciso, ele o matou sem tanto esforço. Nesse instante, o comunicador do rádio chiou em seu ouvido, em seguida, a voz de Ingrid pôde ser ouvida.
— Leon, eu consegui um pequeno rastro da Paris. O rastreador dela mostra que está no laboratório do subsolo 3.
— Entendido.
— Estou tentando triangular, porém está fraco, não sei se haverá algo que possa te ajudar.
— Não tem com o que se preocupar, até então tudo no padrão, nada de complicado do que já passei.
— Fico na transmissão caso tenha informações.

Então a voz dela desapareceu, trazendo novamente aquele silêncio total que tanto o ajudava.
Na parede mais à frente, ao seu lado direito para ser mais preciso, Leon viu o mapa do local e procurou uma escada que levava para o laboratório do subsolo 3. A descida ia ser longa e com certeza com mais infectados.

Colocou o pé no último degrau, estava olhando o perímetro, quando viu mais cinco infectados, dessa vez eram seguranças. Analisou bem antes de atirar. Se haveria alguma variante, ele iria perceber.
— Nada.
E então disparou cinco balas. E, como se fosse um momento simultâneo, mais sons de tiros, uma SMG, vinham do corredor oeste. Apertou os passos para chegar logo e não deixar nada desandar. À sua frente, uma grande porta blindada entreaberta, alguns soldados americanos estavam mortos diante dela. Entrou com cautela ao pegar uma escopeta e também as balas de um dos soldados.
O interior era amplo, um dos maiores da instalação que foi arquitetada para o local. Cilindros estavam espalhados ao lado de celas; algumas abertas, outras semiabertas. A agente Paris se protegia atrás de uma das mesas tombadas enquanto recarregava a submetralhadora.
Seria mentira dizer que ele não reparou nela ao se aproximar. Paris tinha um corpo atlético, loira e bonita. A roupa tática em nuances pretas realçava mais a beleza dela.
— Agente Paris — a chamou, se aproximando. — Leon S. Kennedy, Hunnigan me enviou.
— Ainda bem. — Respirou um por cento aliviada. — Eu falei que vir aqui sem alguém experiente seria a maior besteira.
— Qual é a situação?
— Temos alguns sobreviventes, mas essa coisa despertou bem na hora em que estávamos quase colocando todos eles para fora do laboratório.
— Quantos? — Atirou.
— Nove.
— Certo. Tirem eles daqui… Eu cuido desse grandão.
Levou a mão ao comunicador.
— Hunnigan, já estou junto da agente Paris — avisou, como prometido.
Leon pulou por cima da mesa e se aproximou do infectado. Os tiros eram precisos, atingindo os pontos fracos e fazendo a criatura cambalear. Foi o tempo suficiente para a agente Paris retirar um a um de dentro da cela. Um forte barulho veio atrás de Leon, o vidro de um dos cilindros se rompeu, a água esverdeada se espalhou pelo chão todo, e a outra criatura estava de pé na frente da cela, onde havia mais dois sobreviventes.
A agente Paris, que tirava uma criança com cuidado, escorregou naquele líquido, e a arma deslizou para o lado oposto. Estava impossibilitada de ajudar o agente Kennedy.
— Claro, estava muito fácil.
Kennedy finalizou a criatura maior à sua frente e iniciou disparos na direção daquele que saiu do cilindro.
— Essa coisa não morre logo?
Descarregou mais um pente e alternou para a escopeta — foi o disparo final que a derrubou. O cheiro que emanava era pior do que pura podridão.
A respiração estava descompensada, mas, ainda assim, o suficiente para poder ir até o local. Dentro havia duas garotas, ambas aparentavam ter a mesma idade. Leon ajudou cada uma: a primeira segurou a mão de Leon, ela havia voltado para dentro, quando a criatura rosnou ao morrer. Seu medo foi grande, a ponto de não soltar a cela.
— Vamos, está tudo bem agora.
— Tem certeza?
— Claro. — Um pequeno sorriso apareceu. — Vamos? Só confie em mim.
E ela confiou, confiou tanto que não hesitou na ajuda dele para se levantar e ir até a agente Paris.
A outra garota que se mantinha abraçada em suas pernas, contendo o choro de desespero.
— Ei. — Se aproximou, tentando não a assustar ainda mais. — Está tudo bem, eu estou aqui.
A voz saiu firme e suave, trazendo a segurança que ali dentro ela nunca ouviu. Os olhos avermelhados encontraram os dele. A mão estendida e uma pequena sensação de segurança ali, diante dela.
— Leon Kennedy. — Se apresentou. — Vamos sair daqui.
Leon percebeu que ela hesitava em segurar sua mão. Não era de se esperar, o lugar era um inferno já por natureza, quem diria para ela depois do que havia passado ali.
— Pode confiar em mim.
E então ela foi. Segurou na mão dele, era quente até onde podia sentir, já que a luva que vestia deixava algumas partes não expostas. Era impossível definir o que ela sentiu naquele momento. Um misto de salvamento e medo, segurança e perigo. Ela foi guiada por ele, ainda segurando sua mão, até chegar diante da porta blindada, que agora estava emperrada.
Sons foram ouvidos novamente, vindos do lado direito, por onde Leon havia chegado.
— Paris, onde fica a saída mais próxima?
Ela pensou rápido e, após um estalo com a boca, respondeu com toda precisão.
— O túnel de manutenção. Fica para o leste.
— Vamos até lá.
— Podemos ir, mas tem um problema. — Ela percebeu o olhar do agente parar apenas nela. — As válvulas estão estranhamente emperradas.
— Onde fica a cabine? — perguntou, após um suspiro pesado.
— Sobre as escadas, segunda porta à esquerda.
— Leve eles. Eu chego lá o mais breve possível.
Leon havia esquecido que ainda estava segurando a mão da garota que havia ajudado. Só percebeu quando ela soltou, deixando devagar a mão dele; o olhar recaiu sobre ela. Os olhos castanhos falavam por si, ela desejava que ele não demorasse tanto.
— Logo estarei lá.
Disse, se distanciando, mas não foi apenas para todos, foi para ela. Quase que especificamente para ela.

Leon subiu as escadas com a arma em punho. O som que foi escutado há minutos atrás vinha do mesmo local onde ele estava indo. Não era nada com o que ele havia visto antes. Partes da pele estavam arroxeadas, com o corpo deformado, a cabeça dividida ao meio.
— Que merda é essa?
Mesmo não sabendo onde era o ponto fraco, ele mirou na cabeça. Mais eficaz e com uma precisão que mataria a criatura.
Pegou abrigo em uma das salas, carregou a escopeta, eram as últimas balas que tinha consigo — e a criatura já estava perigosamente próxima.
Mirou sem pestanejar muito e atirou. O recuo ficou tão bem controlado, como de costume. Guardou a escopeta pendurada em suas costas e, a partir daquele momento, só utilizaria a pistola.
Seriam necessárias duas balas para finalizar os que sobraram. Entrando na sala de controle da manutenção, realmente as alavancas estavam emperradas de propósito, foi nitidamente utilizado algum tipo de líquido corrosivo.
Nada era por acaso. Os cilindros se romperam, mais sons vieram da ala onde estava, era como se o laboratório farmacêutico deixasse nítido que eles não iriam sair com vida.
Leon precisou pensar rápido, teria que ter outro lugar ali para abrir a passagem. Olhou em todos os lugares, procurando algo que pudesse ajudar naquele momento de fuga.
Debaixo da mesa, tinha um caderno velho e surrado. Essa sim era a única coisa antiga que tinha ali desde que entrou. Folheou até achar uma instrução.
— Seguir o corredor, virar à direita, descer dois lances e depois ir para a esquerda. — Rasgou a folha e guardou no bolso, ali também tinha a instrução da ordem de virá-las. — Tranquilo, só quero achar mais balas até lá.
Percorreu o caminho, eliminando todos os infectados que apareciam à sua frente. Na sala de segurança das máquinas, Leon colocou o papel parado em cima da mesa de ferro e seguiu as instruções: botão número dois, depois a alavanca seis, subiu os dois pinos de energia, apertou o último botão e, por último, girou uma válvula pesada três vezes. A densidade da força aplicada para girar realçou os músculos por baixo da camisa — já não estava mais com a jaqueta e nem sabia onde estava.
— Consegui. — O sorriso de canto apareceu nos lábios.
Os sons do mecanismo funcionando alertaram Paris de que Leon havia conseguido. Ela passou a instruir todos para fora, ficando ainda no laboratório farmacêutico. Com cuidado, um a um, foram saindo daquele lugar grotesco.
Paris e a garota que Leon tinha ajudado olharam para a direção do corredor, os passos fortes e rápidos na direção delas sem diminuir por um instante. A garota prendeu o ar com tamanho desespero. Foi quando Kennedy apareceu, os fios presos pelo suor do rosto, o corpo levemente sujo e o ar que tinha conseguido sem muito esforço.
— Paris, pode ir. Guia eles lá fora.
— Ok.
Leon ajudou mais três resgatados e, por último, elas.
O agente já tinha estendido a mão para ela automaticamente, ajudou a apoiar na passagem para não deslizar. Quando ela estava terminando de subir sua perna, um rosnado veio do fim do corredor.
— Merda — murmurou, na direção do som. — Vamos, eu estou logo atrás de você. — Ele viu o medo nos olhos dela. — Não tem com o que se preocupar, eu estou aqui.
Leon olhou para os lados, procurando algo que pudesse incendiar antes de sair.
— Ali — ela falou após apontar.
Era um tonel inflamável e seria exatamente isso que ele iria utilizar. Leon se esgueirou pela saída com facilidade. À sua frente, a garota saiu engatinhando e, ao ouvir o som da explosão, acelerou mais.
Tudo lá embaixo queimava. O odor de podridão e óxido subiu pelo local. Não havia sobrado nada do local, apenas um nome pendurado numa placa: Virexia Pharmaceuticals.

Capítulo 02

And there's no remedy for memory. And there's no remedy for memory. That everything is fine. But I wish I was dead.
Dark Paradise – Lana Del Rey


A placa balançava com o tremor vindo do subterrâneo. Foi o último nome que Leon leu antes de sair dali com todos em segurança.
O cansaço estava estampado nos rostos daqueles que saíram dali com vida, somado ao desespero que os resgatados ainda carregavam.
Os dois agentes conduziram os resgatados até o ponto de extração, mantendo o grupo unido. Leon ficou atrás, garantindo que todos seguissem bem. Paris manteve os passos firmes na direção do acampamento. Em seu bolso, carregava as dogtags dos soldados que perderam a vida no laboratório.
Agora, com todos acelerando os passos, seguiram em direção à base. Leon deixou a escopeta com os salgados. Enquanto se hidratava, o comunicador chiou mais uma vez. A voz veio mais aliviada, porém ainda profissional.
— Agente Kennedy.
— Ingrid Hunnigan.
— Bom trabalho. Acabei de saber pela agente Paris que tudo deu certo, até mesmo o resgate.
— É.
Afastou-se um pouco. — Eu garanti isso.
Leon tinha quase certeza de que ela fechou os olhos por um instante antes de responder.
— O comando está satisfeito com a operação. Está liberado para retornar.
— Hm…
A resposta foi vaga, mas não o suficiente para incomodá-la. Leon parou quase todos os seus movimentos para observar o soldado fazer a ficha dos sobreviventes, dentre eles, duas garotas, as duas últimas que ele ajudou. Aproximou-se, mas não tanto quanto gostaria. Seu objetivo não era apenas saber mais sobre elas, mas sim compreender o que era aquele lugar. De uma forma ou de outra, um breve resumo teria que ser dado.
— Seu nome? — O homem parou na frente da mais alta. Cabelos ruivos, robusta; a voz do soldado saía em um tom um pouco alto e autoritário.
— Sophie Scarff.
— Idade? — As anotações aconteciam simultaneamente com as respostas.
— Vinte anos.
— Você se recorda desde quando você estava no laboratório?
— Acho que… uns dez anos.
— Hm. — Saiu curioso. — Sabe explicar se aplicaram algo em você, ou se você participou de alguma coisa?
— Na verdade, eu não me recordo de nada.
— Tudo bem. — O ar que saiu entre seus lábios foi de desaprovação, sem informações fortes. — Iremos levar você para um lugar mais tranquilo; lá você receberá todo o amparo. Pode ir até o caminhão. — Apontou ele, a deixando afastar-se.
— E você. — Agora ele parou na frente da segunda garota que Leon havia ajudado. — Como é seu nome? — Virou a folha.
Ela ficou em silêncio, como se as palavras não quisessem sair. Foi quando ele mexeu a prancheta na frente dela, tentando trazer uma resposta.
— Natasha Walker. Tenho vinte anos.
O soldado deixou um sorriso escapar no canto dos lábios. O som das hélices aumentou naquele instante, abafando parte da resposta.
Leon escutou apenas o final, gravando o sobrenome dela: Walker.
— Você se recorda de quanto tempo estava no laboratório?
Natasha levantou o olhar, o sustentando pela primeira vez.
— Desde os quatro anos de idade.
Cada palavra saiu precisa.
— Fizeram testes em você?
Natasha apenas balançou a cabeça, concordando.
— Bem, pode ir até o caminhão com a agente Paris. — Tinha se aproximado da jovem. — Ela irá acompanhar você. Quando chegarmos ao destino, você receberá todo o suporte necessário.
Natasha apenas sorriu, mesmo percebendo aquele brilho nos olhos do soldado.
Leon fechou os olhos por um instante, respirando fundo. O helicóptero engoliu o resto da conversa.
Tudo bem, ele daria um jeito. Se conseguisse ter acesso ao relatório dela para saber da Virexia Pharmaceuticals, já seria um grande lucro. Qualquer coisa que ainda estivesse ligada à Umbrella Corporation precisava ser analisada com cautela.
— Leon. — A agente Paris se aproximou dele. Agora, sem a roupa de proteção e o capacete que usava, Leon pôde ver melhor o rosto dela. — Leon, você vai conosco?
— Sim.
— Ok, te espero no helicóptero.
— Vai com eles no caminhão. — Já antecipando o protesto, ao perceber o olhar confuso. — Mesmo com soldados na frente, não dá para confiar. Eles deixaram esses sobreviventes para trás por um motivo.
— Tem certeza? Vou avisar o piloto e chamar alguns soldados para ir no nosso lugar.
Leon assentiu e caminhou para o caminhão, onde todos estavam subindo; a pequena fila diminuía gradualmente. Seu olhar passava por todos, parando discretamente no final da fila. O mesmo soldado que havia feito o preenchimento da ficha parou ao lado de Kennedy.
— Soldado Roger — apresentou-se. — Obrigado pelo apoio.
— Por nada.
— Ao menos isso rendeu algo… O mundo ganhou mais uma mulher bonita.
— Com toda certeza — respondeu no automático.
Ele ouviu o resto por alto, ignorando quase tudo.
Com Sophie e Natasha se aproximando, ele a ajudou; segurou na mão dela, dando apoio para ela subir. Os olhos dela pararam na mão de Leon, sentindo algo estranho — um conforto que não vinha há muito tempo.
Balançou a cabeça suavemente e se sentou no último banco. Leon e Paris entraram por último; eles sentaram nos bancos reservados para eles.
Com um soco firme na traseira do caminhão, Paris deu o sinal para o motorista seguir. O caminho já transmitia uma sensação de segurança para todos aqueles que estavam no caminhão.
Os olhos azuis percorriam cada um — até pararem nela. Um segundo a mais do que deveria; apenas desviava quando a garota olhava para ele.
— Obrigada pelo apoio, agente Kennedy. — Paris começou o agradecimento. — Aquela instalação era pior do que eu pensava. A pesquisa que eles estavam fazendo aqui… é a Umbrella de novo, sem dúvida.
Ele realmente não queria dar continuidade àquela conversa.
— Precisamos confirmar antes.
Tentou cortar o assunto.
— Impossível não ser; você viu tudo o que eles tinham ali.
— Eu concordo, mas a Umbrella não deixaria um laboratório assim exposto.
Leon plantou uma dúvida momentânea em Paris; não que ela não fosse inteligente, mas como o foco sempre foi a Umbrella, todos pensariam nela primeiro.
Também conseguiu o que queria, um momento de silêncio para prestar atenção na Walker; ela seria fundamental — se estivesse falando a verdade, ou se não a fizeram mentir. Mas não era isso que mais o distraía; aquela missão simples demais deixou uma sensação que ele não conseguiu ignorar. E ele não pretendia lidar com isso.

O caminhão já tinha se recolhido para a garagem; os resgatados haviam recebido algumas mantas a mais. Paris e Ingrid seguiam à frente, conversando. Leon ficou para trás, aproveitando o restante da noite.
— Obrigada mais uma vez — Paris falou, parando na porta principal do prédio.
— Não precisa agradecer.
— Essas pessoas não teriam saído de lá sem você.
— Você também, você que estava na frente de todos. Eu vi seus homens com medo de voltar para o laboratório.
— Paris! — uma voz feminina chamou a mulher.
— É a minha deixa. Até qualquer dia, agente Kennedy.
— Até.
Paris desceu as escadas em uma pequena corrida, se aproximou da mulher e a segurou pela cintura. Um beijo rápido foi trocado.
— Aquele é o agente Kennedy, o que falei para você.
— Hm. — Se recordou. — Me apresenta um dia para ele, já ouvi muito sobre.
— Foi a nossa primeira missão.
Entraram no carro, e Paris continuou a explicar como foi seu dia hoje.
Leon ficou ali por mais alguns minutos. O amanhecer já se aproximava — tudo o que ele queria agora era um banho e a própria cama.

Desligou o motor e só então se deu conta — dessa vez, era o próprio carro e não um do governo que havia emprestado.
Dentro de casa, ele tirou a camisa e jogou em cima do cesto de roupa. Ligou o chuveiro, deixando a água esquentar. Bastaram alguns minutos sob a água para o peso nos ombros começar a ceder. Passou as mãos pelo rosto, deslizando pelos fios úmidos. A resposta de Natasha veio à mente quase automaticamente.
A dúvida já estava instalada; a garota tinha idade suficiente para poder esconder algo e também ser muito bem manipulada. Quando todo o incidente de Raccoon City aconteceu, ele não se lembrava de ter visto o nome Virexia Pharmaceuticals, muito menos depois, e foi isso que estranhou.
Saiu do banho, as gotas ainda escorrendo pelo tórax, passou a toalha pelos cabelos, tentando secá-los. A cama parecia convidativa demais; uma manhã sem missão era exatamente o que ele precisava.

Duas semanas após o resgate.
A base do governo cuidava de todos os resgatados. Estavam alojados em residências provisórias; todos ainda estavam passando por exames e reconhecimento na ficha de desaparecidos. Essa casa, onde o governo os alocou, era bem próxima a um centro de monitoramento de pessoas que ficaram na faixa de bioterrorismo, com um pequeno hospital com uma tecnologia.
Sophie ficou no andar do meio, entre Dylan — no andar de baixo — e Natasha — no andar de cima. Estava olhando a chuva cair do lado de fora, havia jogado uma coberta por cima dos ombros e ficou admirando as gotas de água escorrendo no vidro. O preço da liberdade parecia invisível depois do resgate.
Não tinha como negar que aquele momento era gratificante.
Sua atenção foi tirada quando ouviu algumas batidas na porta, suaves. Sophie caminhou devagar e abriu a porta; eram dois homens, os mesmos que já tinham visto antes.
— Boa noite, senhorita.
— Boa noite.
— Desculpe atrapalhar você.
— Sem problemas, aconteceu alguma coisa?
— Podemos conversar?
— Sim, podem entrar.
— Não aqui — o outro oficial falou. — Tem que ser na sala principal.
Sophie balançou a cabeça e fechou a porta atrás, esqueceu até de deixar o cobertor no local. Os homens a escoltaram até a sala principal, ou, como eles sempre chamavam longe deles, sala de interrogatório.
Sophie se sentou de frente para eles; o chá quente já estava disposto para ela. Os biscoitos foram descobertos depois que todos estavam confortáveis.
— Sophie, precisamos saber mais do laboratório.
Havia chegado a vez dela.
— Precisamos esgotar todos os meios para não voltarem com ele. Do que você se lembra?
A garota parou, olhou para os dois oficiais à sua frente, e suas mãos ficaram trêmulas só de se recordar dos momentos dentro daquele laboratório.
— Eu realmente não me lembro de nada. Nas inúmeras vezes em que eu ia para a maca, eu estava sonolenta e dormia no meio do caminho.
— Não se lembra de nenhum nome?
— Havia um, sempre andava com o crachá preso ao bolso e me lembro do sobrenome apenas: Volkov.
— Ele estava sempre quando você era levada?
Negou com a cabeça.
— Porém você sempre via esse nome?
— Sim.
— Você se recorda de sentir algo durante esse tempo em que você estava adormecida?
— Não, eu ficava muito tempo desacordada, era como um sono profundo.
O mais alto respirou fundo e se levantou. Sentou-se na mesa ao lado dela, estava sendo o mais pacífico possível.
— Se eu te falar alguns nomes, você tentaria se recordar?
— Posso tentar.
— Antes. — O outro interrompeu. — Como era o lugar em que você ficava?
— Uma cela pequena. Tinha uma cama no canto da parede de frente para a grade, o cobertor era grosso, mas não tão bom de se cobrir. Havia uma luz que alternava entre vermelho, azul e roxo. Um silêncio que sempre era interrompido por gritos agonizantes de dor.
— Gritos…?
— Sim, eram gritos bem agudos, de uma garota.
O oficial se levantou e circulou; era nitidamente um experimento que, supostamente, poderia ser aquele infectado mutante que os agentes Paris e Leon enfrentaram.
— Posso falar os nomes?
— Pode. — Tomou o chá.
Pegou o pequeno maço de folhas que ficou atrás dele, folheou até chegar à página.
Enquanto falava, o outro oficial prestava atenção em todos os movimentos que Sophie iria esboçar.
— Bernhard, , Ald, Virexia e Günther.
O oficial mais forte analisou tudo, deixando anotado especificamente um nome.
— Nenhum familiar?
— Não.
— Tudo bem. Jensen irá acompanhar você até seu apartamento.
— Obrigada.
Ela saiu, pegando o chá e levando consigo; não tinha nem tocado nos biscoitos. Ambos estranharam; o cerco se fechava cada vez mais. Após a retirada de Sophie, os dois olharam para a ficha de quem faltava — novamente.
— Dylan ou Natasha?
— Deixamos ele por último; talvez Paris ajude com ele.
Jensen concordou. Eles fizeram o mesmo procedimento, as mesmas frases para poder levar a garota até a sala de interrogatório.
Os biscoitos estavam cobertos, o copo com chá estava posicionado para Natasha tomar.
— Natasha, precisamos saber mais sobre o laboratório, tudo bem?
Ela balançou a cabeça.
— Estamos aqui para garantir que o laboratório não retorne, por isso estamos persistindo nisso. — Jensen tomava a frente dessa vez. — Do que você se recorda?
Natasha segurou o copo à sua frente, tremia mais que Sophie.
Ela podia sentir o frio do laboratório passar em seu rosto.
— Eu não me lembro de nada. Todas as vezes que eu ia ser colocada na maca, eu já estava sonolenta, dormia durante todo o processo.
— Você se recorda de algum detalhe, de um nome? De algo que mudasse o padrão.
— Tinha um homem, o crachá dele sempre ficava no bolso, e o sobrenome dele era Volkov.
Jensen olhou para baixo e depois para o companheiro de trabalho. Tudo parecia se encaixar.
— Era ele que te levava?
— Não.
— Mas esse nome sempre estava no seu campo de visão?
— Sim.
— Esse tempo que você estava desacordada, imagino que devia ser horrível depois que você voltava para onde dormia. — Viu a garota deixar um sorriso triste escapar. — Você chegou a sentir algo? Aplicação, efeito de remédio…
— Nada, na verdade eu não consigo lembrar de nada. Nesse tempo, eu ficava em um sono profundo.
— Tudo bem, não estamos aqui para forçar você.
Natasha girou o copo na mão.
— Queremos te passar alguns nomes — o mais alto disse.
— Pode tentar reconhecer eles?
— Posso tentar.
A folha já estava na frente dele, virada para baixo. Apenas virou e leu.
, Virexia, Bernhard, Ald e Günther.
— Reconhece algum desses nomes? — era Castiel perguntando.
— Não.
— Tudo bem se eu te fizer uma última pergunta?
Natasha concordou.
— Onde você ficava? Qual era o local?
— Era uma cela pequena e fria. Aquele cobertor não ajudava em nada, mesmo sendo grosso, a cama encostada na parede de frente para a grade, as luzes que variavam entre vermelho, azul e roxo, e também… — Olhou para eles rapidamente. — Toda vez que ficava em silêncio, dava para ouvir o grito de uma garota.
— Não precisa continuar — Jensen protestou. — Imagino que deve ser muito difícil ficar recordando.
— Castiel vai levar você para o seu prédio.
— Obrigado.

Castiel e Jensen esperaram os outros oficiais entrarem na sala; eles viram e ouviram tudo pelo outro lado do vidro. Eram relatos iguais, não havia diferença — apenas na forma como diziam, mas tudo dito da mesma maneira. Apenas uma teve uma diferença.
— Sophie foi a única que apertou a mão ou ouviu o nome do Günther.
— Talvez ela saiba mais do que ela nos diz.
— Sophie é bem inteligente. Mesmo aos vinte anos, dá para perceber isso — Jensen comentou após pegar um biscoito. — Devemos interrogá-la mais uma vez.
— Já fizemos isso mais de três vezes. Se pressionar mais, tudo pode desandar.
— Eu ainda acho que são traumas. Elas eram nossas duas últimas suspeitas.
Estavam em um fogo cruzado, não tinha mais como fechar o cerco. As duas, todas às vezes em que eram interrogadas, davam as mesmas respostas. Todos os oficiais que estavam trabalhando no caso desconfiavam que uma delas tinha o conhecimento sobre a Virexia Pharmaceuticals. Só não esperavam que ambas pareciam ter passado pelo mesmo tipo de choque naquele lugar doentio.

Depois que Paris interrogou Dylan, o comando declarou que todos ali estavam apenas atordoados pelo caos que sofreram. Sophie e Natasha nunca mais se viram depois que saíram do complexo. Sophie retornou à sua família, estranhando tudo, e já Natasha, precisou retornar para sua cidade natal, no outro lado do oceano.
Continua…
Nota da autora
Oi, que bom saber que você está aqui.
Espero que tudo tenha dado certo hoje, se não, pega um cobertorzinho, deita na cama e coloca a melhor música, te garanto que tudo ficará bem.
Quem diria, Leon ter que tomar mais uma vez o cuidado com algo relacionado à Umbrella… ele não tem um minuto de paz, assim como Sophie e Natasha, não deve ter sido nada fácil conviver naquele lugar doentio.
Eu espero que tenham gostado, e quero encontrar você aqui no próximo capítulo. Se cuida.

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