Independente do Cosmos🪐
Última Atualização: 15/08/2025— Senhorita, estamos chegando. — o motorista informou em tom gentil, me tirando o foco dos pensamentos turbulentos.
Agradeci com um aceno, colocando o celular no bolso do casaco antes de pressionar as têmporas pesadas pelo cansaço; tinha largado todo trabalho na Sede e entrado em um jatinho assim que vi aquelas fotos, louca para encontrar para tirar a limpo toda essa história.
Graças a minha relação estável com , fui a primeira a descobrir sobre a mentirinha de meu irmão sobre a pós na Alemanha, pois, tendo em vista o quão delicada é a relação de com o nosso avô, as coisas poderiam sair do controle facilmente sendo o patriarca da família em meu lugar.
Assim que o automóvel estacionou, peguei a minha bolsa e puxei algumas notas em euro para pagar a viagem.
— Obrigada. Fique com o troco. — sorri pequeno, descendo do carro; o homem tinha sido ágil em todo o trajeto, me trazendo do aeroporto ao destino final em menos de meia hora, então a gorjeta era muito mais que merecida.
Caminhei pelo saguão do simplório prédio de seis andares localizado no subúrbio da cidade, parando na recepção para me acertar com a dona do lugar por tão gentilmente apoiar a minha entrada; quando estava saindo da empresa, liguei com a desculpa de que planejava uma surpresa para alguém próximo e que gostaria de entrar sem ser anunciada ao morador – após uma centelha rasa de hesitação, ela se deu por convencida mediante a minha clara demonstração de boa vontade. Subi as escadas em passos largos, usando o apoio do corrimão por conta dos sapatos de salto que não tive tempo de trocar.
Ao chegar em frente a porta do apartamento número cinco, puxei uma lufada de ar para dentro dos pulmões . Eu e não nos víamos a quase dois anos, mas, quando enfim era chegada a hora de nos reencontrarmos, o principal motivo não seria sanar a saudade. Ainda que temerosa pelo que estava por vir, busquei dentro de mim alguma confiança e bati na porta algumas vezes. Esperei um pouco, mas não ouvi nada do outro lado... Quais seriam as probabilidades de ter sido enganada por minha informante?
Com as sobrancelhas franzidas, estava prestes a bater na madeira tingida de verniz escuro com mais força dessa vez, porém, fui surpreendida com a abertura brusca que fez.
— Dia, que bom que voltou, eu... —- falava de costas e, no instante em que se virou para mim, se calou. Os olhos dele, que eram do mesmo tom de azul oceano que os meus, estavam arregalados e, embora abrisse e fechasse os lábios repetidas vezes, não formulava qualquer frase.
— Olá, irmão — o cumprimentei primeiro, sorridente. Apesar do contratempo que vim tratar, estava feliz por vê-lo.
— Sah, o que você…
— As notícias sobre a sua aventura chegaram a mim, então tive que vir conferir. — o interrompi de maneira amena, içando a bandeira de paz. — Podemos nos abraçar antes de mais nada? — expus a minha oferta, me aproximando um pouco mais. — Senti a sua falta.
Ele assentiu devagar, abrindo os braços para me acolher – primeiro de maneira receosa, então, pouco a pouco, calorosa. Embora o clima fosse tenso entre nós, suspirei em agrado, quase sem saber como pude ficar tanto tempo longe de um dos meus abraços favoritos no mundo.
— O que você sabe? — cochichou, agindo como uma criança que era pega no meio da baderna.
— Fala da mentira sobre um ano sabático na Alemanha ou das corridas? Porque, bem, sei de tudo. — estou sorrindo, mas ele não me acompanha.
— E o vovô?
— Ainda não está ciente de nada. — sou rápida em aliviar a sua preocupação e posso senti-lo soltar de uma só vez o ar que vinha mantendo preso nos pulmões nos últimos segundos. Me afastei, findando o abraço para o encarar nos olhos.
— Isso é bom — embrenhou os dedos nos cabelos, um misto de alívio e nervosismo na face.
— Nunca pensei que o veria como um piloto da fórmula um. — murmurei, tentando não evidenciar tanto a chateação que sentia. Sempre fomos próximos e estar, de repente, fora de sua vida tinha me magoado deveras; todo aquele papo de confiança entre gêmeos devia ter prazo de validade, pelo visto. — Gostaria que tivesse confiado em mim o suficiente para dividir isso, .
— Vem, entra primeiro. — cabisbaixo, me deu passagem para dentro do apartamento.
Assim o fiz, dando uma rápida olhada na atmosfera simplista do local; era difícil acreditar que um menino nascido em berço de ouro pudesse viver em um conjugado de três cômodos, mas não parecia afetado pela humildade de sua nova residência. Ouso até dizer que ele estava mais radiante, portando um brilho vivaz nos olhos expressivos.
— E então? — cruzei os braços, pronta para ouvi-lo.
— Bem... — começou, esfregando as palmas contra o tecido da calça jeans surrada. — Quando mais uma especialização enfadonha veio em minha direção, eu apenas menti sobre aceitar e tomei um tempo para mim... Não estava pensando em nada, só não queria ficar naquela prisão dos infernos. — disse. — Fiz bicos e vivi por conta própria, mantendo o dinheiro dos Lamborghini na poupança para devolver. Viajei para cidadezinhas, li, pintei... Foi assim durante meses, até que em um acaso conheci as pistas.
— E? — o encorajei a continuar.
— E aí que que me apaixonei pela fórmula um! Mais até mesmo do que um dia já fui apaixonado pela arte — abriu um pequeno e brilhante sorriso, fitando-me com um expressivo desejo de compreensão.
— É para valer?
— Muito mais do que isso — me confidenciou. — É a primeira vez que sei que estou, de fato, vivo.
Ao vê-lo assim, tão encantado, senti o coração bater forte dentro do peito. Há alguns anos começou a perder a sua luz... Por isso, saber que algo poderia reacender a chama em seu interior me preencheu com alegria e alívio.
— Isso é tão precioso, irmão — falei, envolvendo as suas mãos com as minhas. — Se encontrou o que nasceu para fazer, não deve mesmo seguir se preparando para liderar a empresa. — concluí. — Mas, para trilhar esse caminho, precisa ser sincero com o vovô. Essas mentiras não vão durar muito mais.
se desvencilhou, mal me olhando. Um misto de dor e frustração tomou forma em sua face enquanto amuava os ombros.
— Por que eu deveria fazer isso? — resmungou, amargura prevalecendo em seu tom. — Para o senhor Lamborghini só sou útil se for como CEO. Esse é o único lugar que me cabe nessa família, não vale a pena perder tempo tentando mudar tal condição.
— ... — chamei baixinho, preocupada com o rumo de seus pensamentos.
— Olha, , não me venha com esse papo de tentar ganhar o vovô, pois você já ocupou este lugar — ditou. — Dessa vez eu não vou voltar. Não vou mudar de ideia. Não vou implorar.
— Não quero que volte e nem que desista de tudo o que conquistou — afirmei, tocando seu ombro com suavidade. — Ao invés disso, corra para mim. — sugeri sem pensar muito. — Sabe que tenho meus negócios. Posso apoiá-lo mesmo que o vovô seja contra.
— O que?! — exclamou, arregalando os olhos.
Igualmente surpresa, me afastei um pouco, começando a analisar o que, no calor do momento, havia acabado por dizer. Em suma, não era uma ideia ruim e, se bem executada, poderia agradar o nosso avô e garantir a felicidade de . Por consequência, eu acabaria tendo que assumir as rédeas dos assuntos administrativos também, mas era um preço pequeno se comparado ao resultado final.
— Veja, se correr com o nosso sobrenome, teremos um trunfo que fará com que o vovô veja com bons olhos essa situação. — lhe expliquei, sentindo que havia acabado de achar ouro no final do arco-íris. — Poderá fazer o que deseja e ainda ficará livre do peso de se tornar o sucessor da família. — me permiti sorrir, orgulhosa do que tramei em poucos minutos.
— Não, ! — esbravejou, crispando os lábios. Franzi as sobrancelhas, não entendendo tamanha contrariedade. — Essa ideia rasa não vai mudar em nada a minha situação.
— Por que acha isso? — indaguei. Não havia impossibilidades em nosso mundo. Como herdeiros da Lamborghini, as oportunidades eram infinitas e ele sabia disso tão bem quanto eu.
Meu irmão se jogou no sofá, surrado da sala, rindo sem humor.
— Já tenho um contrato em andamento, não vou mudar isso em prol dos Lamborghini — ditou com aspereza.
— Contrato? Que tipo de contrato?
— Um contrato de trabalho? — revirou os olhos, batendo sem parar os pés descalços contra o piso manchado.
Puxei uma lufada de ar, encontrando em mim a compostura que, visivelmente, não estava sendo capaz de demonstrar.
— Entendo. — murmurei. — E com quem você assinou? Talvez possamos patrocinar você.
— Ferrari.
Aquele único dizer, proferido em seu timbre desafiador, me arrepiou os pelos da nuca.
— Está brincando, não é? — sorri, pronta para ouvir que se tratava de uma piadinha de mal gosto.
— Por que estaria?
Pisquei um par de vezes, tentando digerir a sandice sem tamanho que havia escutado. Só podia ser brincadeira, por Deus! Como um Lamborghini ousaria cogitar pilotar em nome da maldita Ferrari? Isso não tinha cabimento.
— Como pode me perguntar uma coisa dessas, Lamborghini? — gesticulei, estarrecida com a expressão de divertimento dele.
— Está falando exatamente como o velho senhor Felippo — zombou. — Para mim eles são uma empresa respeitável. A estúpida rixa entre famílias não me interessa. — deu de ombros.
— Minha nossa, você não tem noção do que está dizendo!
— Tenho sim — se pôs de pé. — Diferente do que pensam a meu respeito, não sou um anencéfalo incapaz de tomar as próprias decisões.
— Não se trata disso, . — rebati, pressionando a ponte do nariz com os dedos. Já podia sentir a cabeça latejar e sabia que teria que lidar com uma enxaqueca dos infernos dentro da próxima hora. — Se vincular a Ferrari trará o caos para o seio de nossa família... E, ainda por cima, é um risco e uma exposição desnecessária.
— Não me interessa a família — sussurrou em resposta. — É da minha vida que estamos falando.
Bufei, não conseguindo compreender aquela rebeldia. Se podia estar nas pistas através do apoio dos Lamborghini, ajudando a família a crescer e ainda construindo um sonho de maneira estável, por que preferia se aliar aos inimigos?
— Sua vida estará melhor se for parte da equipe da Ferrari, então? — o confrontei com veneno escorrendo na ponta da língua.
Em meio a um suspiro desgostoso, negou com a cabeça.
— Essa conversa não vai nos levar a lugar algum, . — concluiu, indo até a porta e abrindo em um convite silencioso e hostil para que eu me fosse. — Tenho que estar em um compromisso importante dentro de algumas horas. É melhor falarmos depois, de cabeça fria.
Mais que ofendida pela sua postura, segurei com força a alça de minha bolsa e assenti com amargor. Segui o meu caminho sem olhar para trás. Tendo a frustração a tira colo, desci os lances de escadas com pressa. Ao chegar no térreo do prédio, tomei a decisão de seguir em frente com a proposta que fiz a , e mandei uma mensagem para minha assistente para que lançasse as boas novas em redes de mídia e nos canais de notícias.
Nas próximas horas tudo estaria pronto para que a Lamborghini se expandisse ao mercado das corridas da fórmula um de maneira estrondosa. Assim, preparando um terreno sólido e confortável, eu mostraria a a certeza de que nós éramos a melhor decisão, então ele desistiria da Ferrari por escolha própria e seria o melhor piloto para a melhor marca.
O motor rugia como um animal acuado quando enfiei a sexta marcha na reta principal, o ponteiro do tacômetro varreu o mostrador vermelho como um relógio que estava a poucos segundos de explodir. Monza não perdoava erros, nunca tinha perdoado. A curva parabólica se aproximou e eu mergulhei.
Mais um toque no freio… Agora.
Minhas mãos agiram antes do pensamento, corrigindo a traseira que ameaçava escapar com um contra esterço quase imperceptível. O carro obedeceu, afinal, eu o havia moldado nas últimas sessões de testes e suado sobre cada detalhe técnico nas reuniões noturnas com os engenheiros. Essa SF-25 era tão minha quanto o sangue Ferrari que corria nas minhas veias.
— O setor dois está limpo. está logo atrás, a oito décimos atrás. Você está voando, bambino. — A voz de Gianni ecoou no meu ouvido, ele era profissional sempre que podia, mas também não escondia a pitada de admiração que eu tanto gostava de ouvir.
Toquei no botão do diferencial com o polegar esquerdo, ajustando o comportamento do carro para a sequência de curvas que se aproximava e o volante vibrou em resposta. Quando pisei no freio foi exatamente no exato milímetro onde eu sabia que poderia, sentindo o G-force me comprimir contra o assento. O carro girou lindamente e, então, foi hora de esmagar o acelerador de novo.
Quando cruzei a linha, o painel piscou em vermelho.
1:28.912
— Pole Position. , isso foi inacreditável. — Gianni gritou, no rádio.
Meus punhos se cerraram involuntariamente enquanto eu reduzia a velocidade na volta de resfriamento. O som das arquibancadas chegavam até mim mesmo através do capacete. O time da Ferrari era um mar de paixão, de história e de expectativa. Eram os mesmos torcedores que meu avô havia conquistado, que meu pai havia decepcionado e que eu estava determinado a levar novamente ao topo.
Isso é só o começo, pensei, passando pelo pitwall onde estava parado em seu carro, já sabendo que ele terminaria em terceiro. Bati duas vezes no capacete em sua direção, no nosso cumprimento habitual e ele respondeu com um gesto obsceno que me fez rir.
A garagem explodiu quando entrei. Mecânicos gritando, engenheiros abraçando-se, o cheiro de borracha queimada e champagne antecipado enchendo o ar. Gianni, meu chefe de equipe, veio até mim com os olhos brilhando mais que o sol italiano e eu não pude evitar o sorriso enquanto me livrava do capacete.
— Isso é Ferrari de novo, porra! Que volta foi essa, ? Até o simulador não acreditaria!
Puxei o capacete com cuidado, sentindo o ar frio bater no rosto suado.
— Era isso ou ouvir você reclamando por uma semana. — Ele riu, mas antes de me abraçar percebi o seu olhar mudando do orgulhoso para o amedrontado. Aquele olhar que conhecia bem, o mesmo que meu pai tinha quando precisava falar sobre "assuntos de família". — Qual é a droga do problema?
— Você me conhece bem demais, bambino. — Gianni baixou a voz, criando uma bolha de privacidade no meio do caos. — Primeiro, parabéns. De verdade. Você calou muita gente hoje.
Cruzei os braços, sentindo o humor esfriar.
— Qual é o 'mas'?
Ele hesitou, escolhendo as palavras com tanto cuidado que cada vez que ficava mais em silêncio, me tirava do sério um pouco mais.
— Depois da coletiva, sobe comigo pra sala da diretoria. Tem algo que precisa ser discutido.
— É sobre o orçamento do carro? Porque se formos falar de novo sobre aquela porcaria de difusor…
— É sobre a equipe, .
Meu queixo tencionou.
Equipe nunca era bom.
Equipe significava mudanças. E eu detestava mudanças.
— Hoje? Sério, Gianni? No dia da pole?
— Especialmente no dia da pole. — Ele me encarou, sério. — Isso vai mudar as próximas corridas.
O champagne que alguém abriu espirrou ao nosso redor, mas o gosto na minha boca já era amargo. Conhecia aquele tom. Conhecia aquele olhar. Algo estava por vir, e pela primeira vez no dia, a velocidade não me daria escape.
O salão de imprensa estava cheio, mas não lotado. Pole position era importante, mas não era vitória e todo mundo ali sabia que o verdadeiro espetáculo seria amanhã. As câmeras viraram para mim quando entrei, com flashes explodindo em sequência. Sorri o mesmo sorriso treinado que dava nas dezenas de coletivas desde que era um garoto sendo apresentado como "o futuro da Ferrari". Sentei-me à mesa entre e Gianni, o microfone à minha frente como uma arma apontada.
— , essa foi uma volta impressionante. O que fez a diferença hoje?
A pergunta era padrão. A resposta também.
— O carro estava perfeito. A equipe trabalhou como sempre trabalha e eu fiz o que devia fazer, só tive que me controlar um pouco para não estragar tudo.
Risos.
Eu conhecia o jogo. Humildade calculada e confiança velada eram sempre as chaves para os jornalistas adorarem um piloto.
— E ? Ele parecia forte nos treinos, mas não conseguiu te acompanhar no Q3.
Olhei para o lado, onde estava sentado, relaxado, com seu jeito despretensioso de sempre. Ele já estava me olhando com um meio-sorriso no rosto, antes mesmo de eu responder.
— Ah, ele deixou.
soltou uma risada e chutou minha cadeira por baixo da mesa.
— Foi o que eu disse pra ele quando me ultrapassou no Bahrain. — respondeu, sem perder o timing. — Agora ele só tá me devolvendo a piada. Bom, é o rosto da Ferrari aqui, se o carro dele está mais rápido é lógico que a preferência vai ser dele.
Mais risos. A imprensa adorava quando a gente interagia assim. Dois pilotos da Ferrari, sem rivalidade alguma. Só dois caras que se davam bem e, de quebra, eram rápidos pra caralho.
— Vocês estão em segundo no campeonato. Amanhã é chance de fechar a diferença. Vão para uma estratégia agressiva?
olhou para mim, deixando que eu respondesse.
— A estratégia é ganhar. — eu disse, simples. — Se for pra ser agressivo, ótimo. Se for pra ser paciente, também. O importante é trazer os pontos para casa.
concordou com a cabeça.
— O que ele disse.
A coletiva seguiu, mais algumas perguntas técnicas, algumas brincadeiras, o de sempre. Nada demais. Nada que realmente importasse.
Até que um repórter, no final, soltou:
— O novo rumor na pista é que a Ferrari pode anunciar mudanças na equipe depois deste GP. Algum comentário?
franziu a testa, genuinamente surpreso. Eu não.
Sorri, mantendo a expressão estável de quem não estava nem um pouco disposto a um vazamento, principalmente por não fazer ideia alguma do que se tratava essa porcaria de rumor.
— Tá todo mundo sempre inventando rumores por aqui. Hoje a notícia é a pole. Amanhã, quem sabe, a vitória. O resto é conversa.
O corredor que levava até os escritórios da equipe estava estranhamente silencioso depois do burburinho da coletiva. Meus passos ecoavam no chão frio de concreto, cada batida do meu tênis contra o piso marcando o ritmo dos meus pensamentos. caminhava ao meu lado, as mãos enfiadas nos bolsos do jeans, o macacão de corrida amarrado na cintura.
— Que porra foi aquela da pergunta do repórter? — ele murmurou, baixando a voz mesmo sem ter ninguém por perto. — "Rumor na equipe"? Alguém me avisa quando for demitido, por favor.
Eu soltei um sorriso curto, mas não consegui disfarçar completamente a inquietação que eu sentia. Por mais bom que fosse dirigir em um âmbito e governar outro, era uma merda quando os dois mundos precisavam colidir.
— Se fosse demissão, você seria o primeiro a saber. Não é isso.
— Ah, então você sabe do que se trata?
Parei, virando-me completamente para ele. O som das ferramentas sendo organizadas ecoava ao fundo, junto com as vozes dos mecânicos ainda comemorando a pole e pensando nos próximos ajustes que faríamos no carro.
— Não sei, mas o Gianni quer conversar e, ao que parece, envolve a equipe.
franziu o cenho, com os cantos da boca descendo levemente em desgosto.
— Merda. Acha que é sobre troca de pilotos?
— Se fosse sobre pilotos, ele não teria chamado só a mim.
Ele considerou por um segundo, depois concordou com a cabeça.
— Justo. Mas então o que diabos seria tão urgente assim?
Eu olhei na direção da sala da diretoria, onde Gianni provavelmente já esperava.
— Só tem um jeito de descobrir.
suspirou, passando uma mão pelo cabelo curto.
— Bem, se for algo que me afete, eu espero que pelo menos você me conte antes de virar notícia, certo?
— E perder a chance de ver a sua surpresa online?
Ele pareceu satisfeito com a resposta, dando um tapinha nas minhas costas antes de se virar para ir embora.
— Boa sorte lá. E, ... — Ele parou, meio sem jeito. — Seja o que for, a gente resolve.
Acenei com a cabeça, mas não respondi. Porque, no fundo, eu sabia que algumas coisas estavam além até da nossa parceria. Quando entrei no corredor silencioso que levava à sala da diretoria, Gianni estava à minha espera, com a porta entreaberta.
Dentro, sentado à mesa de reuniões como se fosse dono do lugar, estava meu pai.
Ah, merda.
me encarava como se eu tivesse cometido um crime. Suas mãos estavam abertas à frente do corpo, os dedos estavam tensos, como se ele não soubesse se deveria me sacudir pelos ombros ou simplesmente sair andando e nunca mais voltar. O escritório da Lamborghini em Sant'Agata Bolognese estava silencioso, exceto pelo zumbido baixo do ar-condicionado e o som distante de um motor sendo testado nas pistas internas.
— Você comprou a porcaria de uma equipe! — ele repetiu, como se eu não tivesse ouvido da primeira vez.
Cruzei os braços e inclinei a cabeça, mantendo a calma. Eu estava acostumada a essa reação. sempre foi o sonhador, o que acreditava em mérito, em conquistas limpas. Eu jogava o jogo como ele precisava ser jogado.
— Não qualquer equipe — respondi, devagar. — A Velasca Racing. Dois títulos na F2, estrutura pronta para subir, e, mais importante, uma vaga garantida no grid da F1 a partir do próximo ano. Tudo dentro das regras, tudo limpo. Só falta um piloto.
Ele abriu a boca, fechou, depois esfregou o rosto com as mãos, completamente impaciente.
— , pelo amor de Deus. Você não pode simplesmente comprar meu caminho na F1. Não é assim que as coisas funcionam!
— Claro que é. — eu ri, curta e secamente. — Você só não quer admitir. O vovô comprou a Lamborghini nos anos 80 e fez dela o que é hoje. Ninguém questiona o "mérito" dele. Por que você acha que o mundo da F1 é diferente?
virou-se e deu dois passos até a janela, olhando para os carros de teste que circulavam lá embaixo. Eu sabia o que ele estava pensando. Ele amava a Ferrari. Amava a história, o legado, a emoção de vestir aquelas cores. Mas ele também era um Lamborghini. E, no fim, o sangue deveria falar mais alto. Seria a aquisição perfeita: o vovô orgulhoso, realizando o próprio sonho e eu, governando a empresa fora das pistas. Por que era tão difícil para o meu irmão entender que uma família feliz simbolizava uma profissão feliz?
— Você tem noção do que isso vai causar? Do que isso diz para o paddock, pras outras equipes e pra imprensa? Eu falei que estava feliz torcendo pela Ferrari, . Eu nunca pedi pra você se meter.
— Você não pediu nada, mas eu vi uma oportunidade e agarrei. Não apenas como sua irmã, mas como executiva e diretora de expansão. Eu cumpri meu papel.
— Seu papel não era me jogar contra a minha própria equipe!
Ele estava mais magoado do que irritado, isso me incomodava mais do que qualquer grito que ele pudesse dar. sempre foi mais coração do que razão, e talvez por isso eu tenha tentado protegê-lo por tanto tempo.
— Você está bem na Ferrari, sim, é verdade, mas sabe tão bem quanto eu que, enquanto estiver lá, ninguém vai olhar pra você como o protagonista. — Ele engoliu em seco, mas não respondeu. — Na nova equipe, você vai ter liberdade, visibilidade e protagonismo. Eu coloquei você em posição de liderar algo seu. Você é o centro. Não o segundo nome no rádio.
— Eu lutei para estar naquela equipe, . E agora que finalmente estou me destacando, você vai lá e compra uma concorrente direta e faz isso parecer que eu tô pulando do barco. Isso vai me queimar.
— Você acha que alguém vai te queimar por ter uma escuderia construída para você, com motor Lamborghini, estrutura de ponta e investimento estratégico? Pelo amor de Deus, . Isso é um presente.
— Não é um presente se me força a sair de onde eu quero estar.
Eu respirei fundo, buscando controle.
— Você sabe que eu só quis o melhor para você, que eu queria apenas um lugar onde você conseguisse fazer o que quer, sem ter que se esconder! Você sabe que isso é o melhor que vai ter!
— Sei? — Ele deu um passo à frente, com sua presença física sempre sendo mais impressionante do que ele mesmo admitia. — Você comprou uma equipe sem me consultar. Colocou nosso sobrenome nela sem me avisar. E agora espera que eu simplesmente sorria e aceite porque "é o melhor"?
A voz de saiu em uma mistura de ironia e irritação, era como se ele tivesse, enfim, encontrado o centro da própria indignação e eu sabia que quando ele fazia isso, não havia argumento no mundo que o convencesse do contrário. Ele me olhava como se eu tivesse traído alguma parte sagrada da história dele, mas não era isso que eu tinha feito. Na verdade, era o oposto. Eu estava lhe dando meios para realmente fazer a sua história.
— Você é um bom piloto, eu pesquisei as suas últimas corridas. Só quis que você tivesse algo seu, algo na nossa família!
— Eu estou tendo algo meu! — ele rebateu, e dessa vez a mágoa explodiu de vez. — Você não vai me tirar de lá no momento em que eu finalmente me sinto parte. Eu não sou só ‘o segundo piloto’. Eu sou o cara que ficou lado a lado com nas últimas corridas. Que fez volta mais rápida. Que quase venceu em Spa! E aí você vem e compra uma equipe como se eu estivesse afundando? Como se eu precisasse ser salvo?
Eu engoli em seco.
Porque não era isso.
— Não era pra parecer que você precisava, era pra mostrar que você merecia algo seu.
— Mas eu não quero ‘algo meu’ às custas de sair da Ferrari. — Ele passou as mãos pelos cabelos, girando de costas, como se estivesse tentando reorganizar os próprios pensamentos no ar. — E agora você tá montando uma rival. Uma rival direta.
— Eu não estou montando uma rival. Eu estou expandindo nosso nome e nossa influência. Lamborghini é um motor competitivo e eles precisam de liderança. A escuderia vai ser nossa, . E vai carregar a nossa visão, nossos valores. Você pode fazer história lá.
— Não se faz história apagando as páginas onde ela já começou.
Essa doeu.
Não só pela verdade que carregava, mas porque ele disse olhando nos meus olhos, com mágoa, foi aí que eu soube que o feri mais do que eu imaginei.
— A Ferrari vai pra ele, no fim das contas. E você, mesmo com talento, mesmo com esforço, vai continuar em segundo plano. A menos que você tenha seu próprio nome em uma equipe. E eu te dei isso. Dei antes que alguém decidisse te engolir por política de paddock.
— O problema é que você me deu isso do seu jeito. Sem perguntar.
— Se eu perguntasse, você teria dito que não. Teria dito que estava bem e que estava confortável com o segundo lugar.
— Você fala como se eu tivesse uma maldita data de validade.
— Não é isso.
— Não? — ele me encarou, com os olhos brilhando em uma raiva amarga. — Porque, de onde eu tô, parece exatamente isso. Parece que você decidiu que, se eu não brilhasse agora, eu ia ser engolido. Então, ao invés de confiar que eu chegaria lá por mérito, você montou uma porra de um palco onde eu fosse o único com microfone.
Eu segurei o ar por um segundo, em seguida respirei fundo mais uma vez. Eu sabia que não adiantava rebater com lógica. Com , era sempre o sentimento primeiro e a palavra depois. Por isso ele passou quatro meses, do outro lado do país, em uma reabilitação.
— Pense comigo. A imprensa só começou a te enxergar agora e, mesmo assim, ainda ocupa todas as manchetes. Por que será?
— Porque ele é bom pra caralho! — ele respondeu sem hesitar. — Porque ele é o melhor piloto dessa geração. E porque, diferente do que você parece pensar, eu quero estar ao lado dele. Quero correr com ele. Quero vencer com ele. Se um dia eu ganhar dele, vai ser limpo. Vai ser na pista. Não com você armando tudo por trás. — não se afastou, nem ergueu a voz, mas assim que tentei falar, ele me cortou. — Não.
Eu balancei a cabeça, certa de ter entendido errado.
— , você não está pensando…
— Estou pensando perfeitamente. — Seus olhos, tão parecidos com os do vovô, queimaram com intensidade e, diante da fúria contida, recuei um passo. — Achou que eu pularia nisso só porque foi você que montou esse circo?
Meus dedos se apertaram em torno do relatório do que seria a nova Scuderia Lamborghini.
— É a chance da Lamborghini entrar na F1 como construtora! Do nosso nome…
— Pare. — Ele cortou meu discurso com um gesto brusco. — Não vem com esse papo de legado familiar. Se quisesse pilotar pela família, teria assinado com a divisão de GT há anos.
O telefone vibrou sobre a mesa de vidro. A mensagem do CFO da Lamborghini Automobili piscava: "Assinatura pendente: confirmação pilotos."
olhou para a tela e soltou um riso seco.
— Puta que pariu, . Você já vendeu o projeto antes de ter um piloto?
Meu silêncio foi resposta suficiente.
— Onde você pensa que está indo? — Minha voz soou estridente até para meus próprios ouvidos.
— Para o hotel. Amanhã voo para Monza.
— Você não pode.
— Posso. — Ele abotoou o casaco com movimentos precisos. — Meu contrato com a Ferrari é válido até o final da próxima temporada. E ao contrário de você, eu honro meus compromissos.
— Você está jogando fora a chance de ser o primeiro piloto em uma equipe de primeiro grid.
— Não é sua decisão! — O grito dele fez os vidros tremerem. — Eu não sou um ativo da holding familiar, ! Sou um piloto da Ferrari. Ponto.
Quando a porta do escritório bateu, o impacto fez cair o quadro da primeira Lamborghini que nosso avô montou em 1983. O vidro estilhaçou aos pés da mesa e meu assistente apareceu na porta, pálido.
— Senhorita... O conselho marcou reunião extraordinária.
— Cancele. — Peguei a chave do cofre do fundo da gaveta. Meus saltos esmagaram os cacos de vidro no caminho até a janela. Lá embaixo, atravessava o pátio de testes. Digitei uma mensagem rápida para o diretor financeiro: "Libere o fundo de aquisição B."
Se queria jogar duro, aprenderia que ninguém superava uma Lamborghini em uma guerra corporativa.
Afinal, nossa família não construiu um império aceitando "não" como resposta.
A porta do escritório do meu pai estava entreaberta. Só isso já era um mau sinal. Vittorio Ferrari nunca recebia ninguém com a porta aberta. Nunca.
Empurrei o batente de madeira maciça com os dedos, sentindo o peso da maçaneta gelada contra minha pele. O escritório estava iluminado de forma natural, com as cortinas de seda bege que filtravam a luz agressiva do meio-dia em Maranello. Meu pai estava sentado atrás da mesa, imóvel como uma estátua, e com os dedos entrelaçados sob o queixo.
Não precisou dizer nada.
— Eu sabia que era ruim quando o Gianni me chamou sem dar detalhes. — eu disse, deixando cair meu corpo na cadeira de couro diante da mesa dele. — Mas pelo seu jeito, deve ser pior do que eu pensava.
Meu pai não piscou. Seus olhos, sempre tão característicos como os da nossa família, pareciam perfurar o ar entre nós.
— Você sente o cheiro? — ele perguntou, com a voz mais baixa que o normal.
Franzi a testa.
— Que cheiro?
Ele ergueu lentamente uma mão, como se estivesse tocando o ar.
— Sangue. Tubarões sentem o cheiro de sangue na água. Eles também.
Não precisei perguntar quem eram "eles".
Na linguagem do meu pai, só existia um "eles" que importava.
— Os Lamborghini? O que isso tem a ver com a equipe, exatamente?
Meu pai finalmente se moveu, alcançando o controle remoto embutido em sua mesa. As telas de vidro fosco atrás dele se iluminaram, mostrando documentos confidenciais, e-mails cifrados e relatórios de inteligência corporativa.
— Estão se movimentando há seis meses. — ele disse, mantendo os olhos fixos nas imagens. — Primeiro tentaram aliciar nosso chefe de motores. Agora isso.
O slide mudou para um contrato de compra. Uma assinatura que reconheci mesmo de cabeça para baixo.
Achille Lamborghini.
— Merda — a palavra saiu da minha boca antes que eu pudesse pará-la.
Meu pai não repreendeu meu linguajar. Outro mau sinal.
— Velasca Racing. Equipe de F2 com vaga garantida no grid da F1 a partir do próximo ano. Eles compraram 70% semana passada.
Meu estômago embrulhou. A Velasca não era qualquer equipe, tinha estrutura de topo, know-how técnico e, mais importante, um acordo de fornecimento de motores que poderia ser rompido com uma multa irrisória.
— E o motor? — perguntei, já sabendo a resposta.
Meu pai sorriu pela primeira vez desde que eu entrara no escritório. Não foi um sorriso bonito.
— Adivinha.
O próximo slide mostrou fotos de teste em Vallelunga. Um chassi genérico, mas com linhas familiares demais. E na traseira, claramente visível, o logotipo do touro.
— Eles vão entrar como construtores. — eu concluí. — Lamborghini F1 Team.
Meu pai fechou os olhos por um segundo, como se a dor física daquelas palavras fosse grande demais.
— Não apenas isso. — ele disse, abrindo os olhos e mudando para o último slide.
Era uma foto de arquivo. Achille Lamborghini, o velho raposa, ao lado de um jovem que eu reconheci imediatamente.
— ? — a pergunta saiu mais alta do que eu pretendia e eu fiquei completamente surpreso, pela primeira vez no dia.
— Seu amiguinho tem um passado mais interessante do que você imagina. — meu pai comentou, observando minha reação. — Neto de Achille. Herdeiro direto, mesmo que não use o nome.
As peças começaram a se encaixar na minha cabeça com um barulho quase físico. As reuniões misteriosas de , seu desconforto nas últimas semanas, a maneira como ele evitava falar do futuro e principalmente do passado… Que porra, .
— não faria isso. — Minha voz soou quase desafinada no ambiente.
Meu pai não respondeu imediatamente. Em vez disso, levantou-se e caminhou até o aparador onde guardava seus whiskies raros. Derramou dois dedos de um Lagavulin 25 anos em um copo de cristal e tomou um gole demorado antes de falar.
— Você realmente acredita nisso? — Ele não olhou para mim.
Meus dedos se apertaram nos braços da cadeira.
— Eu conheço o . Ele não é um espião.
— Não precisa ser. — Meu pai finalmente se virou, me olhando. — Sangue chama, . E sangue Lamborghini? É o mais venenoso de todos os tipos.
"Neto de Achille."
. Meu companheiro de equipe. Meu amigo de drinks pós-corrida e confissões nos motorhomes.
— Isso não faz sentido — eu disse, mais para mim mesmo do que para meu pai. — Ele nunca mencionou... Nunca deu a menor pista.
Meu pai soltou um riso seco e sem humor.
— Quatro anos dentro da Ferrari, acesso aos nossos segredos industriais, às nossas estratégias... E agora, magicamente, os Lamborghini aparecem com um motor que supera o nosso. Você acredita em tantas coincidências assim?
Meus dentes se apertaram até doer.
— não faria isso. Eu já falei.
— Não? — Meu pai levantou, caminhando até a janela que dava para o pátio de testes. — Sangue é mais forte que amizade, . Sempre vai ser.
Minha mão tremeu levemente ao pegar o celular. Três mensagens não lidas de . Eu nem precisava abrir para saber o teor, ele devia estar desesperado para explicar. Ou, na pior hipótese, para mentir.
— Precisamos cortar ele imediatamente — meu pai continuou, os dedos batendo no vidro da janela. — Rescisão contratual hoje mesmo, antes que...
— Não. — A palavra saiu mais dura do que eu pretendia. — Nada muda até termos certeza.
Meu pai virou lentamente, seu olhar gelado.
— Certeza? Você já tem sua resposta. Só não quer enxergar.
O telefone parecia pesar uma tonelada. Eu conhecia , o cara que ficava até tarde ajudando os mecânicos, que dividia os dados de telemetria sem hesitar, que me cobriu na imprensa quando errei feio em Baku.
Mas também conhecia o outro , esse que meu pai temia, o que evitava falar da família, que sumia em fins de semana sem avisar, que tinha um apartamento em Bolonha que nunca me convidou para visitar.
— 24 horas — eu disse, levantando da cadeira. — É o que peço antes de qualquer decisão.
Meu pai estudou meu rosto por um longo momento, depois suspirou. Ele olhou para Gianni que, apesar de quieto, balançava a cabeça sempre que ponderava ou concordava com algo.
— Você sempre foi mole com as amizades. — Ele voltou para a mesa, abrindo uma gaveta. — Mas seja como for...
Ele tirou um envelope e o deslizou na minha direção.
Peguei o envelope com os dedos tensos. Parte de mim queria jogar aquilo no lixo. Outra parte, menor, mas crescente, começava a questionar cada sorriso, cada conselho, cada volta que e eu havíamos dividido.
— Eu resolvo isso. — prometi, embora não soubesse exatamente como.
Ao sair do escritório, o telefone vibrou de novo. Dessa vez, era ligando.
Deixei tocar até cair.
Precisava pensar. E, pela primeira vez em anos, não queria ouvir a voz do meu melhor amigo.
Cinco dias.
Cinco intermináveis dias desde que meu irmão havia marchado para fora do meu escritório, deixando para trás bilhões em investimentos e a promessa que eu fizera ao avô. Cinco dias de silêncio absoluto, enquanto a Lamborghini Team se preparava para entrar na F1 sem seu piloto principal.
Eu estava disposta a atravessar o inferno para trazê-lo de volta à razão. Mesmo que esse inferno fosse o paddock da Ferrari em pleno GP de Monza.
O sol da tarde queimava minha nuca enquanto eu caminhava entre as garagens, o crachá de imprensa falsa balançava discreto sobre meu blazer branco impecável. Os mecânicos nem levantaram os olhos, afinal, uma mulher bem vestida com ar de dona do mundo podia passar por quase qualquer lugar sem ser questionada.
— Desculpe, senhorita — um jovem engenheiro bloqueou meu caminho — área restrita.
Sorri, o mesmo sorriso que abria portas em reuniões bilionárias.
— Sou a irmã do . Vim buscar algumas coisas dele.
O homem hesitou, mas um dos mecânicos mais velhos acenou com a cabeça.
— Deixa ela passar, é a irmã do mesmo. Parece até com ele nos olhos.
Meu coração acelerou, não de nervosismo, mas daquela adrenalina peculiar de quem está prestes a transgredir alguns regulamentos. O motorhome de ficava no canto mais reservado, longe dos olhares curiosos. Digitei o código sem hesitar, rezando para que ele ainda usasse o aniversário de nossa mãe como senha. Quando o painel eletrônico acendeu em verde, a comemoração interna foi imediata.
O interior surpreendeu-me imediatamente. Nada ali lembrava meu irmão. O aroma era diferente, sendo composto especialmente por cítricos como limão e algo mais, algo masculino e caro que fez minhas narinas vibrarem. As roupas jogadas no sofá eram de um corte mais ousado do que usaria e os sapatos alinhados na entrada possuiam um design italiano impecável.
Água corrente.
Vindo do banheiro.
Meu corpo reagiu antes que minha mente pudesse processar e, com passos silenciosos no carpete grosso caminhei até onde estava. Empurrei a porta do banheiro sem bater.
— Enzo Lamborghini, você vai me ouvir agora.
O ar escapou dos meus pulmões.
Na banheira de gelo, um homem nu, um homem que definitivamente não era meu irmão, ergueu a cabeça devagar. No lugar de , o que encontrei foi um deus grego esculpido em carne e músculo. O anjo, porque nenhuma palavra comum faria justiça, tinha água escorrendo por um torso definido que as camisas de um piloto nunca revelavam adequadamente. Seu rosto era angular e, imediatamente, congelou em expressão de choque. Um cubo de gelo escorregou de seu ombro esquerdo, traçando um caminho lento por seu peito até desaparecer na água turva.
— Por todos os santos. — Minha voz soou rouca, irreconhecível.
Ele recuperou-se primeiro, com olhos muito mais claros agora que ele estava fora da água, estreitando-se em reconhecimento.
— Que diabos… — Meu cérebro congelou junto com a água da banheira. Ele era… Bonito. Injustamente bonito. E completamente nu. — Você não é o — declarei, como se isso não fosse óbvio o suficiente.
O estranho (bonito, nu) ergueu uma sobrancelha perfeitamente delineada.
— Observadora. — murmurou com desdém, sem pressa para se cobrir.
O secador de cabelo foi o que alcancei primeiro. Não por ele ser bonito (embora fosse), não por estar nu (embora estivesse), mas porque aquele sorriso de canto de boca era o tipo de coisa que merecia ser atingida por objetos contundentes.
— Saia daí, seu pervertido!
O secador voou.
Ele desviou com a graça de um gato, um gato grande, musculoso e molhado, pulando da banheira num movimento fluido que fez a água espirrar por todo o banheiro.
— Mas que caralho? Você está tentando me matar, sua maluca?!
— O que você está fazendo aí?
O anjo ergueu uma sobrancelha, sem pressa para se cobrir, como se meu constrangimento fosse mais interessante que sua nudez.
— Tomando um banho de gelo pós-treino, como qualquer piloto sensato faria — respondeu, com os lábios curvando-se num sorriso lento enquanto me avaliava da cabeça aos pés. — Embora geralmente eu prefira fazê-lo sem plateia.
— Você deveria trancar a porta!
— Eu trancei. — Seus olhos escureceram do mais puro interesse. — O que me leva a perguntar como você entrou.
— Eu... — Engoli em seco, sentindo o calor subir às minhas bochechas. — Usei o código.
— O código. — repetiu ele, inclinando a cabeça. A água gelada ainda escorria por seus ombros largos. — E por que, exatamente, você teria o código do meu motorhome?
Antes que eu pudesse responder, a porta principal abriu-se atrás de mim.
— ? — A voz de cortou o ar. Me virei para vê-lo parado no limiar, os olhos arregalados alternando entre eu, na banheira e o secador agora flutuando na água. — Você poderia explicar — começou ele, cada palavra saindo como se fosse arrancada a força — Por que você está assediando meu companheiro de equipe no banheiro dele? — O anjo soltou uma risada baixa. — , desculpe por isso.
Ferrari.
CEO da Ferrari.
Piloto principal.
— Ah — disse o agora identificado Ferrari enquanto seu sorriso crescia. — Então não nos apresentamos formalmente.
enterrou o rosto nas mãos.
— Eu vou me mudar para o Alasca.
(não mais "o intruso", infelizmente) aproveitou o momento para se enxugar com mais cuidado, fazendo seus músculos flexionarem sob a pele bronzeada.
— Eu não sabia que você trazia mulheres para cá.
— Cale-se, Ferrari. — rosnou , esfregando os olhos como se esperasse que a cena desaparecesse.
— Ele estava no banheiro — protestei, apontando para , que agora se levantava, envolvido pela toalha presa em sua cintura.
— Porque este é o MEU motorhome, princesa. — Ele contra-atacou, pingando no chão de mármore.
— Não me chame de princesa.
— O que prefere? Intrusa? Homicida?
interpôs-se entre nós, com as mãos erguidas.
— Parem. Só... parem. — Meu irmão virou-se para mim, os olhos estreitos. — O que você está fazendo aqui, ?
— Precisamos conversar.
— E, por isso, você invadiu o paddock da Ferrari? — pareceu prestes a ter um aneurisma. — Você percebe o quão inapropriado isso é?
, agora enxugando os cabelos com outra toalha, interveio com voz suave:
— Eu vou ser apresentado a mulher que me viu nu?
— Essa maluca é a minha irmã. .
— Lamborghini — ele disse, como se experimentando o nome. — Ah, mas que coincidência fascinante — murmurou, com seu tom de voz suave como seda cortante. — A irmã do meu companheiro de equipe é a mesma pessoa tentando roubar nossos engenheiros e comprar nosso lugar no grid.
— Você está bem informado — retruquei, cruzando os braços.
O ar entre nós ficou carregado, pesado com décadas de rivalidade familiar. Eu podia sentir o cheiro da raiva dele misturando-se com o sabão caro e algo inerentemente masculino.
— E você está no lugar errado, mas não se preocupe, com um mês você vai descobrir que comprar uma equipe é muito diferente de administrá-la — ele contra-atacou, fechando a distância entre nós.
— E você vai descobrir que não é só nos números que somos melhores que vocês, cavalinhos. — retruquei, mantendo meu olhar tão fixo quanto o dele.
riu, mas o som era áspero e sem humor.
— Isso soou como uma ameaça, princesa.
— Foi uma promessa.
fez um ruído entre um gemido e um grunhido.
— Meu Deus, vocês soam como vilões de novela.
finalmente pegou uma camisa do chão e vestiu-se com movimentos deliberadamente lentos, como se quisesse que eu visse cada músculo se flexionando sob a pele. E o pior de tudo era que, por mais que não quisesse, eu tinha visto.
— Sabe — ele disse, abotoando os botões com dedos hábeis — Eu estava me perguntando quem estava por trás da entrada da Lamborghini. Deveria ter imaginado que seria uma Lamborghini iniciante.
— Surpreso?
— Desapontado — ele corrigiu, ajustando as mangas. — Esperava mais criatividade.
Meus dentes se apertaram.
— A criatividade virá quando estivermos batendo vocês na pista.
sorriu, o tipo de sorriso que fazia repórteres derreterem e adversários tremerem.
— Adoro mulheres que falam grande. — Seu olhar desceu pelo meu corpo de forma calculada. — Principalmente quando elas têm... recursos para bancar.
Eu ia avançar nele assim que agarrou meu braço.
— Não. Não, não, não. , sai. Ferrari, coloque a porra de uma calça antes que eu me demita por justa causa.
ergueu as mãos em rendição, mas o sorriso insolente nunca deixou seus lábios. Permiti que meu irmão me guiasse até a saída, mas não sem antes lançar um último olhar sobre o homem que agora sabia ser meu maior rival.
— Até breve, princesa.
soltou um grunhido de exasperação e praticamente me arremessou para fora do motorhome. A porta se fechou atrás de nós com um clique final. O ar fresco do paddock pareceu um choque depois da atmosfera carregada que deixávamos para trás.
— Você tem algum instinto de autopreservação? — rosnou, arrastando-me pelo corredor. Olhei por cima do ombro para o motorhome vermelho-sangue, sabendo que ainda estava lá, provavelmente rindo da situação. — Meu Deus. — Ele passou as mãos pelo rosto. — Você gostou disso.

