UM
O sol queimava a pele já bronzeada de .
Ela fechou os olhos por alguns segundos sentindo a brisa salgada do mar enquanto parte do seu guarda-sol fazia uma sombra minúscula em uma parte do seu corpo. Era o tipo de tarde que ela amava — céu azul, um mar cristalino e a sensação de que nada poderia estragar seu dia.
Seu grupo de amigos conversava animado enquanto bebiam uma cerveja gelada, ouviam uma música aleatória e alguns até flertavam entre si. E, além do grupo de amigos, tinham algumas pessoas que eram amigos de seus amigos, e aquilo formava um grupo de quase dez pessoas.
Mas aquilo não a incomodava. Até que gostava de se enturmar e conhecer pessoas novas.
sorriu de canto, balançando seus pés levemente na areia quente, deixando os grãos escorrerem pelos seus dedos. Ela ouvia o barulho das risadinhas e conversas se misturando com o som das ondas, e ela se permitiu relaxar.
Ou, pelo menos, tentou.
Porque sua paz foi rapidamente interrompida por uma voz que ela conhecia bem demais.
— ?
Seu corpo enrijeceu antes mesmo de virar o rosto. Ouvir seu nome ser chamado por um tom de voz que ela costumava ouvir todos os dias fez seu estômago revirar de um jeito que odiava.
Devagar, ergueu o olhar e encontrou os olhos de Joshua. Seu ex-namorado.
Ótimo. Exatamente o que faltava para estragar o dia.
Ele estava ali, parado a poucos passos de distância. Seus cabelos castanhos estavam bagunçados pelo vento e um par de óculos de sol presos no decote da camiseta. Bronzeado, com aquele maldito sorriso de canto que ela já havia amado pra caramba.
piscou rapidamente, se forçando a engolir sua irritação.
Ela queria sumir.
— Não achei que veria você por aqui — ele comentou, cruzando os braços. Parecia intrigado demais com a presença da garota.
Sum deu de ombros.
— Pois é. Acho que não é só você que gosta de praia.
O garoto deu uma risadinha baixa, conhecendo bem a acidez que costumava ter. Principalmente quando estava irritada.
— Me lembro bem disso.
Silêncio.
quis revirar os olhos. Ele sempre fazia isso — jogava um verde, esperando para colher maduro. E era algo que ela havia passado a odiar depois que terminaram.
— E aí, você veio só com seus amigos? — Joshua tentou o mais casual possível, mas o conhecia muito bem para saber que só estava querendo ser enxerido.
Ela virou o rosto rapidamente, tentando buscar com o olhar desesperado uma de suas amigas que estavam ali, mas para seu azar, todas estavam ocupadas; ou no mar, ou beijando alguém.
Ela prendeu a respiração por um segundo, lutando contra a vontade de dizer que não era da conta dele. Que ele não tinha que se preocupar com aquilo já que não eram mais nada um do outro.
Mas, ao invés disso, pressionou os lábios, pensando em algo que provavelmente a faria se arrepender depois.
— Na verdade… não. Eu tô com alguém.
Droga.
Sentiu o próprio estômago revirar assim que a frase escapou. Por que ela disse aquilo? Para evitar que ele se achasse importante? Para não parecer vulnerável?
De qualquer forma, era tarde demais. A merda já tinha sido jogada no ventilador.
Joshua arqueou a sobrancelha, claramente mais interessado do que antes.
E seus olhos quase brilharam em descrença.
— Ah, é? Quem?
A pergunta fez querer abrir um buraco no chão e se enfiar ali mesmo. Joshua continuava ali; colocou uma das mãos no bolso e vasculhou a feição de , como se soubesse que ela estava mentindo.
Mas, antes que a garota tentasse pensar em uma resposta para se livrar dele de uma vez, ouviu o barulho do cooler sendo remexido e uma voz que ela não conhecia interrompeu os dois.
— Oi, amor, desculpa a demora.
congelou.
Por um segundo, pensou se tinha mesmo alguém falando com ela e, quando olhou para o lado, sentiu o impacto de lábios beijando sua bochecha.
A garota petrificou.
E ela sequer sabia quem era aquele cara.
Um braço deslizou ao redor de seus ombros de forma despreocupada, quente contra sua pele. Ela sentiu um arrepio imediato subir pela nuca antes mesmo de se virar para encarar a pessoa — , amigo de Hanna, uma de suas melhores amigas —, que se sentou na areia, do lado de sua cadeira.
Ele continuava ali, sorrindo de canto, como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo.
— Quem é você? — Joshua questionou, estreitando os olhos.
Ele já estava vermelho por estar levemente queimado, mas parecia ter virado um pimentão com o que estava acontecendo.
— . Namorado dela.
quase engasgou. O quê?!
Joshua alternou o olhar entre os dois, com a expressão ainda mais desconfiada. Ela sentiu a mão de apertar suavemente sua coxa; um gesto pequeno, mas que queimou contra sua pele outra vez.
sentia o coração bater a mil, mas não sabia dizer se era por Joshua estar a confrontando, sendo que nem deveria ou se era pelo desconhecido — que ela precisava admitir que era um gato —, que estava a salvando da situação.
— Engraçado… Nunca ouvi falar de você.
Joshua alfinetou.
— Bom, isso diz muito mais sobre você do que sobre mim, né? — respondeu, claramente se divertindo com a situação. — E quem é esse cara, linda?
piscou algumas vezes, tentando acompanhar a rapidez com que as coisas estavam acontecendo. ainda tinha a mão grande e macia encostada em sua pele, e a maneira despreocupada como ele falava — como se realmente fosse seu namorado – fazia seu estômago dar voltas.
Ela observou o ex visivelmente desconfortável antes que pudesse responder.
— Eu sou o ex.
— Ahhh — soltou uma risadinha, assentindo, como se tudo fizesse sentido agora. — Então é por isso que você parece tão interessado.
O outro estreitou os olhos.
— Só achei curioso. Nunca ouvi falar de você e eu conhecia muito bem.
bufou, finalmente recuperando a voz.
— Conhecia. Tempo verbal no passado.
sorriu de canto, deixando claro que estava amando o rumo que a conversa estava tomando.
— Exato. A questão aqui é que agora ela tá comigo.
Joshua apertou os lábios. Seus olhos analisavam a cena à sua frente, como se fosse o fim. podia ver sua mandíbula travada, e isso, bem no fundo, a fez sentir um prazer enorme.
— Que rápido, hein? — alfinetou outra vez.
A garota deixou uma risadinha escapar. Fala sério que ele queria mesmo falar sobre aquilo.
— Engraçado ouvir isso de você.
soltou uma risadinha baixa, como se soubesse do que se tratava e puxou um pouco mais para perto, como se precisasse deixar claro o quão íntimos eram.
Seu toque era firme e natural, como se conhecesse há muito tempo.
— Bom, amor, melhor a gente não dar muita atenção pra isso agora, né?
prendeu a respiração por um segundo. Porque raios toda vez que a chamava daquele jeito, seu coração parecia querer pular de dentro do peito?
Joshua observou a interação dos dois por um momento antes de soltar um riso seco, balançando a cabeça.
— Certo. Foi bom te ver, .
Deu meia-volta e se afastou pela areia sem esperar qualquer resposta da garota.
Assim que ele sumiu no meio da praia lotada, soltou o ar que nem tinha percebido que estava prendendo. Ela virou para com os olhos arregalados.
— Tá brincando que você entrou mesmo nessa?!
Ele riu, finalmente tirando a mão da sua coxa — e para ser sincera, ela quase protestou —, mas sem se afastar completamente.
— Só achei que você tava precisando de ajuda — deu de ombros.
— Eu nem te conheço direito!
— Ah, mas seu ex não sabe disso — piscou para ela.
cruzou os braços, estreitando seus olhos.
— E porque quis me ajudar?
Ele inclinou a cabeça, como se a resposta fosse óbvia.
— Eu tava entediado — deu de ombros. abriu a boca, incrédula. — E fala sério, o babaca quase explodiu de raiva.
Ela abriu a boca para tentar retrucar, mas parou. Porque, no fundo, ele não estava errado.
O pior era que ela sabia que deveria encerrar aquilo ali. Agradecer, seguir seu dia e esquecer que aquela loucura aconteceu. Mas quando sorriu de canto com um brilho travesso nos olhos, percebeu que não queria encerrar coisa nenhuma.
Deixou suas costas encostarem na cadeira de praia outra vez e riu fraquinho.
— Você tem um ponto.
puxou outra cadeira e se sentou do lado dela. ergueu uma sobrancelha, mas não reclamou.
— Então, namorada, o que fazemos agora?
Perguntou, parecendo bem interessado. Ele levou uma das mãos nos cabelos loiros, os bagunçando levemente. E o observou minimamente antes de virar o rosto para o mar.
era um gato, não podia negar.
Riu pelo nariz.
— Agora você volta pra onde quer que estava antes dessa loucura começar e eu finjo que nada disso aconteceu.
fez uma careta exagerada.
— Nossa, que frieza. E eu aqui achando que tínhamos algo especial.
revirou os olhos, com um sorrisinho ainda brincando nos lábios.
Ela o olhou novamente.
— …
— .
Ele disse o nome da garota de um jeito tão casual que fez um arrepio subir pelos braços de .
— Você é do tipo que gosta de implicar, né?
— Só pra manter as coisas interessantes — deu um sorriso travesso, sem tirar os olhos de . — E você parece estar se divertindo mais do que quer admitir.
Ela tentou manter a expressão séria, mas não conseguiu evitar sorrir minimamente. Pior que ele estava certo, tinha alguma coisa que estava a deixando intrigada demais naquele garoto.
— Acho que você tá entendendo as coisas um pouquinho errado.
— Tudo bem, namorada. Vou deixar você no controle. Por enquanto.
Ela revirou os olhos. Não conseguia acreditar no que havia se metido.
— Vamos ver então quanto tempo você consegue continuar com isso.
Comentou, descrente de que pudesse ser tão insistente por muito tempo.
Ele se inclinou para trás, parecendo confortável. Abaixou os óculos escuros e virou o rosto em sua direção.
— Pode deixar. O jogo só tá começando, amor.