O arrependimento crescia a cada passo que eu dava, com minhas botas afundando na neve branca e macia. A sanidade devia ter me abandonado desde o momento em que comecei a sonhar com essa realidade louca e paralela.
Eu ainda acreditava que o burnout havia sido o catalisador, mas talvez fosse a falta de comemorações e tradições natalinas que eu havia abandonado ao longo dos anos. Talvez meu subconsciente estivesse me sabotando, tentando resgatar algo que eu havia perdido.
Segui pela estrada por mais alguns minutos, observando quando os pinheiros cobertos de neve começaram a se espaçar, dando lugar a pequenas construções de madeira que formavam uma vila isolada. As casas pareciam cabanas de caça, típicas de áreas nevadas, e uma sensação estranha se apoderou de mim.
Olhos começaram a me seguir. Pequenas cabeças surgiram nas janelas, e algumas figuras se aventuraram na rua, que até então estava deserta. Seus olhares curiosos carregavam um brilho peculiar, algo entre a esperança e uma expectativa quase palpável.
A porta à minha direita se abriu, e uma figura pequena surgiu. Não era uma criança comum. Suas orelhas eram longas e pontiagudas, e o tom da sua pele tinha um leve brilho esverdeado. Eu sabia imediatamente o que estava diante de mim.
Elfos.
As "crianças" que me observavam não passavam de elfos, pequenos seres mágicos, com olhos brilhando como estrelas.
— Você veio nos ajudar a salvar o Natal? — a voz da pequena criatura soou em um tom tão terno e esperançoso, que quase me senti obrigada a responder que sim.
Mas eu não podia mentir para aquele serzinho que parecia tanto com uma criança. Eu tinha escrúpulos, às vezes…
E essa foi a razão para que eu a respondesse com outra pergunta:
— Eu, hm, estou procurando o Papai Noel. Poderia me ajudar?
Caralho, como era estranho falar isso em voz alta.
O brilho nos olhos da pequena criatura aumentou ainda mais, e logo suspiros animados começaram a soar ao meu redor. Percebi que mais elfos haviam saído de suas casas e agora me observavam com o mesmo olhar de curiosidade, como uma criança diante da sua primeira neve caindo dos céus.
— Eu te levo até lá. O chefe não está de bom humor — murmurou, sendo acompanhada por outros sons desanimados. — Eu me chamo Snowy, sou a ajudante número um… bem, isso quando a oficina estava funcionando.
Um fungar escapou de seus lábios enquanto ela falava, e os olhos antes brilhantes de animação agora estavam opacos, carregados de tristeza. A realização me atingiu como uma bola de neve.
Os elfos eram criaturas feitas para o Natal — ao menos, era assim que todos os contos e histórias os retratavam. E se a oficina estava fechada, sem produzir os presentes, uma parte fundamental do que tornava essas criaturas tão especiais simplesmente desaparecia.
Uma pequena procissão se formou ao nosso redor, e eu observei, em silêncio, enquanto a mãozinha de Snowy segurava a minha, começando a nos guiar em uma direção que só podia ser o bendito norte. Caminhamos assim por alguns minutos, e os pés pequeninos dos elfos que nos seguiam sequer faziam o menor ruído ao quebrar a superfície macia da neve.
Minhas pernas já começavam a doer. Andar na neve era exaustivo, e eu não estava acostumada — nem a me exercitar, nem a andar por essa imensidão de neve, especialmente porque na cidade quase não nevava no inverno, muito menos no Natal. Quando, finalmente, a vastidão branca e intocada da paisagem começou a dar espaço a duas construções.
A primeira que surgiu à minha vista foi a oficina. Era uma estrutura enorme, feita de madeira escura, com o telhado inclinado e coberto por uma espessa camada de neve. Suas grandes janelas, emolduradas com molduras vermelhas, pareciam emanar um brilho dourado, como se lá dentro ainda houvesse vida, algo de calor e atividade, mas que agora estava sendo engolido pelo silêncio da neve. Passamos ao lado da oficina, e enquanto caminhávamos em direção à frente dela, pude ver, ao fundo, uma grande área cercada por uma cerca baixa e adornada com pequenos sinos. Dentro dessa área, várias renas estavam deitadas e pastando lentamente, com seus cascos arranhando o chão congelado. Elas pareciam quase em transe, como se a magia do lugar as mantivesse tranquilas, sem pressa.
Snowy me guiou para a frente da próxima construção, e eu parei, sem poder evitar o impacto da visão que se desdobrava diante de mim. A casa era grande, mas ainda assim tinha a aparência acolhedora das cabanas da vila, só que muito maior. Sua fachada era adornada por pequenos detalhes encantadores — guirlandas de pinheiro enfeitavam as portas e janelas, e uma grande chaminé se erguia do telhado, de onde saía uma leve fumaça. A madeira escura das paredes contrastava com a neve branca que cobria o chão, criando um cenário quase cinematográfico.
Mas o que mais me chamou a atenção foi o silêncio. Uma calma densa pairava no ar, como se o tempo ali estivesse suspenso. Eu pude sentir uma tensão no ambiente, algo que não era totalmente reconfortante. O lugar parecia mágico, sim, mas ao mesmo tempo, havia um peso de expectativa que me fez hesitar por um momento. Snowy se virou para mim, seus olhos redondos me encarando, refletindo um conflito de emoções que eu não conseguia entender.
— Boa sorte, . — Sua mão começou a soltar a minha, mas eu segurei seus dedos entre os meus, retendo-a por um instante.
— Como você sabe o meu nome? — murmurei, a confusão se espalhando pelo meu corpo.
Um sorriso travesso surgiu em seus lábios, seus olhos brilhando com diversão.
— A minha magia reconhece a sua.
Engasguei. A elfa só poderia estar maluca.
Ou eu estava mais maluca ainda.
A única magia que um nova-iorquino seria capaz de possuir era a de nunca se atrasar ou perder o metrô que desejava pegar.
— Eu não sou mágica — rebati, sentindo o pânico crescer.
Risadinhas ecoaram pelo ar, cortando o silêncio.
Uma lâmpada acendeu dentro da casa, próxima à porta, e as risadinhas cessaram imediatamente. Os elfos deram um passo para trás, incluindo Snowy, e seus olhos me encaravam com uma leve apreensão.
— Boa sorte! — Todos falaram juntos, as vozes soando como o toque distante de um sino de renas.
Tão rápido quanto apareceram na vila, suas formas desapareceram, descendo para suas casas e deixando-me sozinha para encontrar o Papai Noel.
Céus, nem pensar nisso tornava a situação menos bizarra — ou insana.
Subi rapidamente os três degraus, parando na varanda da casa e batendo na porta. Um resmungo rouco soou pela madeira, fazendo-me dar um passo para trás, esperando que a porta se abrisse.
Mas nem toda a loucura que eu acabara de vivenciar poderia me preparar para a visão que me recebeu.
A porta se abriu, e o homem que apareceu na entrada me deixou sem palavras. Ele era grande, com ombros largos e uma postura relaxada, como se estivesse apenas esperando por um amigo, mesmo que uma carranca ocupasse suas belas feições. Seu cabelo castanho estava levemente bagunçado, como se tivesse acabado de acordar, e uma barba rala adornava seu rosto, aquelas barbas de poucos dias, que davam a impressão de que ele acabara de decidir deixá-la crescer. Ele usava uma calça de moletom cinza, quase desbotada pelo tempo, e uma regata branca que deixava à mostra os músculos definidos de seus braços. A expressão em seu rosto era de um cansaço tranquilo, mas seus olhos — aqueles olhos profundos e verdes — não tinham nada de calmo. Eles estavam fixos em mim, como se estivessem tentando decifrar quem eu era.
— Você... quem é você? — perguntei, tentando lidar com a sensação de que eu estava em um filme de ficção.
Ou em um surto psicótico.
Ele me olhou por um instante, sem se mover, e depois um sorriso lento surgiu nos seus lábios.
— Eu sou o que você precisar que eu seja.
Eu franzi a testa.
Aquilo era uma cantada?
— Você é o... — comecei, mas as palavras falharam quando ele deu um passo à frente, interrompendo meus pensamentos.
— Vamos entrar. — Sua voz era grave e descontraída, como se estivéssemos apenas em uma noite comum.
Eu não sabia o que fazer, mas algo dentro de mim, talvez uma mistura de dúvida e necessidade, me fez seguir sua instrução e atravessar a porta. O cheiro de pinho e especiarias invadiu minhas narinas assim que entrei, criando uma atmosfera acolhedora, mas também um pouco surreal.
— Estou aqui atrás do Papai Noel — falei, tentando não parecer tão perdida quanto me sentia.
— Imaginei — resmungou, sem se mexer, como se fosse a coisa mais natural do mundo. — Afinal, que outro motivo você teria para estar na minha casa?
Engasguei, produzindo um som horrível, que soou quase constrangedor, atraindo um olhar de pânico do homem que, de alguma forma, parecia mais uma versão real de um deus grego, e não o bom velhinho em pessoa.
— Você é o assistente dele? — Chutei, acreditando que essa era a única explicação lógica.
Seus olhos me encararam com uma mistura de diversão e travessura, muito parecida com a dos elfos. Um leve aceno de cabeça negativo foi toda a resposta que ele me deu.
— Então quem é você?
Ele sorriu de um jeito enigmático, como se fosse um segredo de família.
— Pode me chamar de Noel.
— Noel? Como o Papai Noel? — A descrença estava presente em meu tom de voz e em minha expressão.
Ele fez um aceno de cabeça afirmativo, e por um instante, eu congelei. Aquilo só podia ser uma piada. O homem diante de mim não tinha absolutamente nada a ver com a imagem tradicional do bom velhinho. Ele era alto, imponente, com um corpo atlético e um olhar penetrante. Nada parecido com as imagens vendidas do senhor gordinho e amigável.
— Cadê as roupas vermelhas, a barriga grande e a barba branca? — Meus olhos, sem querer, se fixaram nos músculos de seus braços, um tanto mais definidos do que eu imaginava para alguém da sua "categoria". — E o seu saco de presentes?
Uma risada rouca ecoou pela casa. O som reverberou pelas paredes de madeira, fazendo meus pelos se arrepiarem involuntariamente.
— Você quer mesmo falar sobre o meu… saco? — Ele perguntou, a risada ainda ressoando em sua voz, tornando o ambiente ainda mais estranho e desconcertante.
Eu gelei. O tom de sua voz tinha algo entre provocação e diversão. Eu não sabia onde essa conversa estava indo, mas... o Papai Noel estava flertando comigo?
— Sim… NÃO! — Me embolei na resposta, tentando afastar os pensamentos que começaram a se formar na minha mente, e, claro, arranquei uma risada dele. — A situação já está estranha o suficiente, cara. Cheguei em casa depois de um longo dia de trabalho, abri a merda de um presente que me trouxe até aqui, e agora descubro que preciso ajudar o caralho do Papai Noel a enxergar a magia do Natal.
Ele inclinou a cabeça ligeiramente, o sorriso malicioso ainda nos lábios.
— Bom, não precisa se preocupar. O meu caralho não precisa de ajuda para isso.
Eu engasguei, as palavras falhando na minha garganta. A frase dele ficou ecoando em minha cabeça, e eu estava prestes a desmoronar de vergonha ou rir por não saber qual reação seria mais apropriada.
A atmosfera ficou densa, e eu pude jurar que ele estava se divertindo com a minha reação. Só que, no fundo, havia algo desconcertante, como se aquele homem estivesse jogando um jogo que eu ainda não entendia completamente. O que eu sabia era que ele, aparentemente, era o Papai Noel, e tudo em torno disso estava completamente fora de controle.
A seriedade voltou aos seus olhos, e sua boca se fechou em uma linha reta enquanto me encarava com uma intensidade quase fria. Ele parecia me analisar, como se estivesse pesando cada palavra, cada movimento. O silêncio se estendeu entre nós, pesado, até que eu, incapaz de suportá-lo, abaixei os olhos. Não sabia o que dizer diante da intensidade daquele olhar.
— Você realmente veio do mundo real? — perguntou ele, com a voz grave, mais como uma constatação do que uma dúvida.
Concordei com um aceno de cabeça, sentindo-me estranhamente vulnerável sob sua observação. As palavras pareciam presas na minha garganta, como se ele estivesse me observando não apenas fisicamente, mas buscando algo mais profundo.
Um suspiro pesado escapou de seus lábios, e seus olhos finalmente se afastaram de mim. Ele virou-se lentamente, como se tivesse tomado uma decisão interna, e caminhou em direção ao corredor.
— Você deve estar cansada. Pode dormir no meu quarto essa noite — disse ele, a voz suavizando um pouco, como se essa fosse uma oferta de conforto em meio a toda a estranheza que eu ainda tentava processar.
Eu o segui em silêncio, sentindo a esquisitice do lugar ao redor. Cada passo parecia mais surreal do que o anterior, e o peso da minha situação começava a me atingir com mais clareza. Ele abriu uma porta ao final do corredor e me indicou para entrar.
Quando pisei no quarto, o ambiente me acolheu de imediato, como se fosse familiar, mas ao mesmo tempo totalmente novo. A cama estava feita com uma perfeição que só poderia vir de alguém que sabia como criar um ambiente de aconchego. Quando me deitei, o cheiro suave que emanava de seus lençóis me envolveu — era como chocolate quente com marshmallow em um dia de inverno. Aquele aroma reconfortante me envolveu de uma maneira quase mágica, fazendo com que todo o peso da estranheza ao redor diminuísse um pouco.
Eu fechei os olhos, pensando que talvez, se eu simplesmente adormecesse, tudo isso não passaria de um sonho. Mas, ao invés disso, o sono veio de verdade, me levando para um lugar onde não havia mais dúvidas, apenas um silêncio profundo e acolhedor.
O pensamento de sentar no colo do Papai Noel nunca me atraiu tanto quanto agora...