Autora Independente do Cosmos 𓂃🖊
Finalizada em: agosto.25
Minnesota
Novembro de 1978
Novembro de 1978
A fumaça pairou no ar por um momento, bateu na janela e então voltou a rodopiar pelo ambiente. A sensação não era legal. Quem soltava a fumaça da nicotina, seja pela boca ou pelo nariz, não a queria de volta, revidando na mesma intensidade. O certo era que saísse para se perder em meio a tantas outras partículas, sumir, desaparecer, levando consigo as preocupações de quem as enxotava do corpo.
Mas ali não era o lugar certo para soprar os problemas pelo ar. A porta e janela lacradas não permitiriam sua evacuação, e no final, eles ainda permaneceriam ali. começou a acreditar que nem do lado de fora eles realmente iam embora.
Quando ele ouviu o clique da porta, já sabia que teria um encontro marcado com o diretor logo mais tarde. Que ele diria que estavam fazendo todo o possível para ajudá-lo, mas que também tinha que desejar a mudança. Que as coisas começariam a dar certo a partir daquele ponto crucial.
Besteira.
Era um misto de frases prontas ditas por alguém que estava sendo pago para te fazer mergulhar em um êxtase de esperança que não passava de utópico e sem sentido. Porque a esperança — diziam eles — fazia as pessoas mais felizes, mas ele sabia que não existiam pessoas tão felizes assim na vida real. Existiam apenas aquelas que atuavam melhor do que as outras.
Ele não era bom em atuar. Tanto que não mexeu um mísero músculo quando Marian olhou para o cigarro entre os seus dedos, logo abaixo da placa circular de não fume bem acima de sua cabeça. Tampouco se desculpou quando a mulher levantou as sobrancelhas para ele, como se esperasse algum tipo de explicação pelo flagrante.
Ele poderia se agachar e jogar aquela coisa pelo primeiro buraco que encontrasse, mas preferiu um:
— Oh, céus! — exclamou, olhando para a bituca com perplexidade. — Como isso veio parar aqui, Marian? Será que estão se preparando para a nova década e criando novos tipos de cigarros? Ou então você ficou com pena de mim e decidiu colocar um presente embaixo do meu travesseiro, como a fada do dente ou qualquer merda dessas? Pode falar, Marian… Mas vou aproveitar o seu presente enquanto fala. — o sorriso ladino que escapou de seus lábios não desapareceu nem mesmo quando voltou a tragar o cigarro. A mulher de branco parada à porta bufou de puro cansaço e caminhou a passos largos em direção ao rapaz, arrancando o restante da bituca, que ainda queimava, de sua boca.
— Ele quer te ver. — ela murmurou, revirando os olhos. — E seus pais também.
O sorriso se esvaiu de seu rosto em questão de segundos. Os pés não estavam mais tão firmes no chão. Os ouvidos zuniam. Todas as frases amargas e debochadas em seu arsenal pareceram repentinamente virar um enorme branco, e ele não soube o que dizer. E ficou sem saber o que fazer quando Marian virou-se para sair do quarto e parou à soleira da porta, esperando que ele fizesse o mesmo.
Tudo ainda zunia, zunia, zunia.
Quando o barulho parou, o rapaz obrigou as pernas a obedecê-lo, mexendo-as até o corredor, trincando os dentes a cada passo que dava rumo à sala majestosa no andar acima, ajeitando a gola circular do moletom cinza como se o movimento fosse desatarraxar o nó em sua garganta. Marian caminhava à frente, jogando a metade do cigarro na lixeira mais próxima, torcendo para não ter mais nenhuma surpresa daquela linha pelo resto do dia.
— Isso foi um desperdício e tanto, Marian. — ele murmurou, enquanto ela batia uma mão na outra, procurando se livrar de qualquer resquício do tabaco. — Poderia me deixar terminar ao menos aquele.
— Não venha fazer esse tipo de cena pra mim, . — ela rosnou, virando o perfil do rosto para trás, encarando-o severamente. — Essa escolta é pra garantir que você não pule a janela do refeitório ou algo parecido, mas quando você estiver bem seguro na sala do doutor Wonka, vou direto procurar o maço inteiro no seu quarto, nem que eu tenha de remover o papel de parede.
Quando chegaram de frente à porta dupla de madeira branca, se virou para a mulher com uma expressão cansada, porém sem deixar o brilho cômico dos olhos.
— Fique à vontade, Marian, aquela cor parece um pouco com vômito mesmo, e eu juro que não foi da vez que consegui as seringas com o Paul. — ele deu de ombros e viu os olhos dela saltarem das órbitas, a boca se abrindo em completo choque. — Ops…
abriu a porta rapidamente quando viu a veia da coordenadora começar a engrossar na têmpora e entrou na sala com um passo rápido, fechando-a logo em seguida.
Os ombros dele balançavam com as risadas ao imaginar o semblante chocado de Marian Mastrantonio, um que fazia muito quando se tratava de suas peripécias, mas o súbito pico de leveza sumiu em um piscar de olhos assim que virou-se para a sala e encontrou dois pares de olhos que o encaravam, igualmente chocados com o que haviam escutado há pouco. Bem, ao menos sua mãe estava genuinamente perplexa. O doutor Johnny Wonka não passava de um rosto cansado, quase entendiado diante de mais uma artimanha de seu paciente mais assíduo. Mais uma terça-feira, .
Ele encarou a mãe primeiro, o que talvez não tenha sido a melhor ideia. Não havia nada além de um lamento crescente. Ou, pelo menos, era assim que ele enxergava. Estava limpo há pelo menos quatro meses, e por mais que sempre conseguisse se divertir ao zombar de Marian ou do velho Johnny com as várias histórias falsas de contrabando e, concomitantemente, irritando-os com os contrabandos de verdade, que não passavam de meros cigarros Gold Flake trazidos por Emmett sabe-se lá como, ele estava ciente de tudo que acontecia ao redor. Por mais enlouquecedor que isso fosse. Havia escutado muito bem a voz de Marian dizer que seus pais estariam ali, esperando-o como há dois meses, com o mesmo olhar que sua mãe lhe mostrava agora.
Mas só ela estava olhando. Só ela tinha os olhos brilhando, fazendo esforço para não chorar, segurando as duas mãos no peito. Ele não tinha vindo desta vez.
Finalmente tinham se separado? Finalmente acordou um dia e percebeu que se unir com aquele homem tinha sido a pior escolha de sua vida, considerando o resultado da prole?
Qualquer um concordaria com esse discurso. Bastava olhar para ele.
suspirou e caminhou até a cadeira desconfortável em frente à mesa larga do diretor, sentando-se sem encará-la mais. Ele não gostava de encará-la ali, sozinha, sem ele. Quando ele estava presente, era mais fácil. Ele xingaria e gritaria com , o chamaria de delinquente viciado e diria essas coisas horríveis que os cristãos alegavam que pais não deveriam dizer aos filhos. Mas era fácil, engraçado até, olhar para os olhos raivosos e o rosto vermelho do homem enquanto ele salivava ao gritar que estava gastando uma fortuna pela segunda vez em uma reabilitação decadente que não fazia absolutamente nada para melhorar o filho. Como se ele fosse uma TV com defeito que seu dono largou na melhor loja de consertos e ela ainda estivesse estragada, mesmo que os funcionários repetissem incansavelmente que fizeram tudo que podiam. Que algumas peças não podiam ser substituídas. Algumas peças simplesmente se desintegravam.
Mas ela sozinha ali… Não, não era tão fácil. Megan Harris, uma mulher jovem e ainda muito bonita, que em algum ponto da estrada a meio caminho daquele Instituto trocou a cor do batom duas vezes, o olhava sem dizer uma palavra sequer, apenas com aqueles olhos grandes sombreados, brilhando em lágrimas, parecendo atravessar todo o corpo de . Era incômodo, irritante, um tremendo gatilho que ativava a válvula escondida dentro de si e abria as portas de seu inconsciente, trazendo à tona toda a culpa que ele havia encaixotado com sucesso nas profundezas de seu interior. Ele não conseguia olhar, era doloroso demais, diferente demais. Era diferente porque ela se importava, o amava, tinha expectativa.
E era insuportável encarar alguém que se importava daquela forma.
— … — ela disse em voz baixa, abraçando-o por suas costas, acariciando seu cabelo. — Senti tanto a sua falta! Você anda se alimentando bem? Leu os livros que eu mandei? Você–
— Senhora Harris, sugiro que comecemos a conversa antes que o tempo de visita acabe. — Johnny interrompeu a mulher, que apenas assentiu enquanto se sentava na cadeira ao lado, sem soltar as mãos de . Ele encarou os dedos entrelaçados e um flash súbito o fez se lembrar de quando ela o segurara daquele jeito da última vez, enquanto corria ao lado de sua maca no corredor extenso do hospital Abbott Northwestern, horas depois de ele ter se chocado com as luzes de freio de um BMW estacionado no meio-fio em uma madrugada chuvosa.
O homem trajado de jaleco branco suspirou enquanto traçava uma linha em um papel à sua frente, balançando a cabeça em uma frustração velada.
— De quem foi dessa vez, ? — perguntou, sem olhar para cima. — Emmett Lloyd de novo ou Paul Caan da Ala 3? Pelo cheiro, aposto em Emmett.
abriu um sorriso bem-humorado.
— Não sei do que está falando, senhor Wonka.
— Vou confirmar o Emmett, então. — ele traçou mais uma linha no papel, levantando os olhos vagarosamente agora. — Felizmente, posso tranquilizar sua mãe e dizer que você só tem um senso de humor odiosamente ácido e que está com o organismo tão limpo quanto possível depois de tanta heroína. E posso lhe assegurar que sua punição e a do garoto de moicano serão bem separadas uma da outra, pode ter certeza.
— Não entendo, senhor Wonka. Na última palestra motivacional, disse que deveríamos ativar nosso espírito empreendedor como uma garantia de recomeço do lado de fora. Agora quando uns pobres garotos tentam conseguir uns trocados…
— Não te chamei aqui pra ouvir suas gracinhas, . — o doutor rosnou, ao mesmo tempo em que sentiu o aperto em seus dedos ficar mais forte. — Aliás, acho que sabe muito bem porque o chamei aqui.
Ele suspirou, repuxando os lábios enquanto diminuía o sorriso, olhando fixamente para o bigode desgrenhado de Johnny, que sempre foi uma inspiração para uma piada pronta (além de seu clássico sobrenome). Seu rosto estava sério, carrancudo, e sabia que nada tinha a ver com os cigarros que fumava escondido no quarto ou no terraço. Isso não era o pior a se fazer naquela instituição, nem de longe. Era outra coisa, uma das quais era responsável por seus pais optarem pela mensalidade caríssima.
— O que… — a senhora Harris começou, olhando para os dois homens que se encaravam, como um desafio a quem se descontrolasse primeiro. — O que aconteceu, doutor? O que você fez, ?
Ele não respondeu. Continuou olhando para o homem, como se o instigasse a realmente dizer as próximas palavras e fazer sua pobre mãe sofrer, enquanto ela se tocava do quanto realmente não existia saída alguma para o garoto.
Apenas vá, seu velho asqueroso. Conta pra ela. Diga tudo e não esconda nada. Vamos ver se você aguenta.
— … — ele começou, balançando a caneta entre os dedos, pensando nas próximas palavras e o que faria com elas. — Seu filho tem matado a terapia individual e as sessões em grupo há pelo menos dois meses. Sem contar a intensa rejeição pelas atividades recreativas do tratamento. — ele balançou a cabeça enquanto Megan levava as mãos ao peito. — E tudo bem debaixo dos nossos narizes.
sentiu que os dedos afrouxaram entre os seus e aqueles pares de olhos o encararam novamente, com as mesmas expressões de sua chegada. Ele abriu um sorriso de canto, mostrando parte dos dentes e murmurou em um tom quase inaudível: “Você contou mesmo” para o homem da frente, sentindo uma irritação queimar no peito.
Não acredito que ele entrou mesmo no jogo.
— … — a voz ao seu lado ecoou, já embargada. Ele respirou fundo, de forma sufocada, como se contendo um grito, um grito súplico e irritadiço que faria um pedido para que ela não chorasse daquele jeito perto dele, tudo menos aquilo, tudo menos aquele olhar.
Mas então ele se virou para o lado, para aqueles olhos, porque não adiantaria fugir. Assim como não adiantou suas várias tentativas de fuga da realidade, seus devaneios enlouquecidos guiados por aquela agulha ou ainda pelas pílulas, quando estava sem opção. Não importava. Ele já estava ciente de que não dava para fugir de tudo, da sua própria existência, por mais dolorosa e irritante que fosse, por mais que ela arrancasse seus sentimentos à força. E aquele olhar trazia tudo de volta, desde o primeiro momento, talvez para bem antes disso, como se ele pudesse ver as lembranças da mãe antes mesmo que ele nascesse, quando só havia ela, o pai e Bartholomew vivendo felizes enquanto corriam pelo parque nos passeios de domingo, ou montavam a casa da árvore no quintal de trás, sem se preocuparem com o futuro, com um segundo filho chegando sem aviso, com um passeio de barco posterior que os fariam tirar as roupas pretas do armário e encomendar arranjos florais em toda segunda quinzena de novembro, ao invés de um bolo de aniversário.
Bartholomew. Ah, não…
Aqueles olhos lotados de lágrimas demonstravam amor e preocupação, mas também frustração, ativando novamente a culpa no inconsciente do garoto. Não me olhe assim, mãe, por Deus, não despeje na minha cara o quanto você esperou pisar aqui e ver algum avanço, você deveria saber que já era, não há melhorias por aqui, eu nunca vou voltar a ser normal, pelo amor de Deus, você já deveria saber!
Eu é que sei porque sou assim? Ninguém sabe, e duvido que vão saber. Vamos só aceitar.
— Você não está tão alheio às regras da instituição, . — continuou o diretor, preenchendo a sala com sua voz grave e abafando um pouco os soluços presos da senhora Harris. — Você pode estar limpo por mais tempo do que esperou e achar que só isso será suficiente para ser liberado, mas espero que acorde dessa ilusão imediatamente. É bom que você comece a entender que estamos tentando salvar a sua vida.
Um nó induzido prendeu a garganta do rapaz e o impediu que as próximas palavras vazassem de sua boca, desconexas e raivosas como bem expressariam o que ele sentia no momento. “Não pedi para ninguém salvar a porra da minha vida! Eu tinha desistido dela, não se lembram? Foi uma escolha minha, uma forma de me livrar de toda essa merda, se não fosse por ela chegando bem na hora…”
— Por conta disso, vou precisar te designar para tarefas que odeia, mas necessárias, que incluem ser acompanhado para absolutamente todas as sessões de terapia e usar suas habilidades físicas para reorganizar todos os livros da biblioteca, e de quebra auxiliar em alguns serviços essenciais da instituição. E isso é apenas o começo.
— O quê?!
— Precisa que eu continue?
— Não quer me colocar em uma camisa de força e me prender em uma sala sem acústica? Seria bem mais gentil, seu–
— ! — a mulher levou as mãos à boca, arregalando os olhos novamente diante da reação do filho. O doutor Johnny apenas levantou as sobrancelhas.
— Está decidido, Harris. Mas não se preocupe, você não vai estar sozinho. — o homem o encarou, abrindo um sorriso de canto enquanto mexia em pastas diversas por cima da mesa. — Vou te apresentar sua nova amiga: Comingore.
revirou os olhos, não se detendo mais em demonstrar sua pura indignação.
— Devo ter uma luz e lembrar repentinamente quem é essa? — disparou, afiado e indignado. O peito ainda queimava pela raiva da autoridade esmagadora com que o doutor o olhava.
— Ah, não, não, sei bem como funciona seu sistema pessoal de gravar nomes apenas quando lhe convém. Mas esta pessoa em particular, acho que até sua memória mesquinha é capaz de se lembrar. — ele riu, recostando-se na cadeira acolchoada logo atrás. — Afinal, ela tem um estilo bem diferente dos demais.
A garota de cabelo azul.
Claro.
Como ele não pensou nisso antes?
Johnny deve ter se revirado na cama por meses a fio, tramando com cuidado cada detalhe da punição perfeita ao garoto problemático, deixando que suas advertências se acumulassem de propósito para enfim colocar seu plano em prática.
Agora tudo fazia sentido. E pudera, era até capaz de bater palmas para a artimanha do velho. Ele sabia que seria pego algum dia; não dava para ser tão confiante nos delitos quando se estava sob direção daqueles olhos de águia, mas o resultado o havia deixado genuinamente surpreso. E verdadeiramente puto, porque quem em sã consciência o mandaria fazer companhia para a garota estranha da ala ao lado? Ele não tinha cometido tantos pecados assim, certo? Johnny estava exagerando.
Comingore, a garota em questão, não tinha realmente algo de ruim. Era paciente do Instituto há mais tempo que , frequentava todas as terapias sem falta, tanto individuais quanto em grupo, lavava as escadas acumuladas de neve, organizava eventos beneficentes e tricotava luvas sem dedos para qualquer um que passasse, dizendo um singelo: “Aqui. Só pensei em você”. Era a pessoa que despejava progressos na sua vez de falar, abraçava todos os presentes ao final da sessão, desejando melhoras e proclamando mensagens de esperança e cura, servia café aos mais velhos e decorava o quarto de novatos. Ela era a própria Assembléia de Deus ambulante, ou simplesmente um daqueles animais estranhos que vivem em terras de arco-íris e árvores feitas de doces.
mal a conhecia, mas ela já o irritava por tabela. Onde ela pensava que estava? Em um parque de diversões? Um orfanato? Ou pior, em casa?
Já tinha visto ela antes, mas quem nunca tinha visto Comingore? Ela era o único ponto de cor — azul, para ser específico, aquele terrível cabelo azul — num mar de cinza, revestido nas paredes, no piso e nos uniformes do Instituto. Talvez ela quisesse ser diferente, tudo bem, não podia dizer que já não havia cruzado com esse tipo de gente em históricos anteriores de pubs lotados regados a cocaína e cerveja barata. A questão não era o cabelo dela. Era… Ela.
O sorriso, que não deixava seu rosto por nada, o causava uma cólera tão intensa que ele jamais imaginou que conseguiria ficar por mais de dois minutos ao lado dela. Deus do céu, que horror, dava para sentir a garganta fechar só de imaginar. A felicidade dela era algo assustador, irritante, incômodo, como ele lidaria com isso?
Ele ainda não sabia responder tal pergunta quando virou no corredor extenso do terceiro andar, caminhando em direção à abertura curvada abaixo da grande faixa que indicava a biblioteca.
Pensou seriamente em se jogar no chão e fingir algum desmaio ou ataque de pânico, mas sentiu a mão de Marian em suas costas, e não precisou se virar para saber que, daquela vez, ele estava encurralado — também porque, infelizmente, a coordenadora sabia quando ele estava fingindo.
foi entrando no lugar. Ouviu Marian perguntar algo ao voluntário sentado no balcão, que desfrutava de uma antiga edição de Wuthering Heights, para então apontar para algum outro corredor entre as várias fileiras de estantes.
Não demorou muito para que ele a visse. Como não poderia? Ela estava de pé, virada de costas e com a cabeça abaixada em plena concentração em algum livro de capa amarela, os cabelos azuis presos em um rabo de cavalo alto. Não notou a chegada dos dois em seu encalço, não antes que Marian coçasse a garganta e a garota virasse de forma quase abrupta para trás.
— , querida! — Marian cumprimentou, alegre. fechou rapidamente o livro em suas mãos, retribuindo com um sorriso tão ou mais aberto do que o da mulher.
— Marian! Você se adiantou, não esperava vê-la a essa hora tão cedo. Tomou seu café direito? Com calma? Lembre-se de evitar os ovos, podem te fazer mal como da última vez.
Um brilho ofuscante surgiu nos olhos de Marian, encarando a garota com total… admiração? Luxúria? Céus, então era isso, pensou enquanto revirava os olhos até as órbitas. As pessoas daqui têm todas as carências ocultas supridas por essa garota.
— Você é muito gentil, , como sempre. Mas não precisamos nos preocupar com meu café da manhã agora. Preciso te apresentar uma pessoa, este é Harris. — ela puxou o rapaz ao lado para mais perto, que não fazia questão alguma de sorrir e acenar àquela hora do dia. — Sei que você já está ciente de todas as orientações do doutor Wonka, inclusive a de auxiliá-lo com as tarefas gerais. Espero que não seja um incômodo. — girou o pescoço para ela com o cenho franzido, segurando a língua para não resmungar que ninguém estava dando a mínima para o seu incômodo.
— Não é incômodo nenhum. — respondeu. — Eu tinha começado, inclusive. A gente encontra muita coisa legal no meio das tarefas mais arrastadas. Você gosta de livros, ?
— Acho que não vou gostar de nenhum livro daqui. — ele deu de ombros, recebendo um olhar breve e afiado de Marian.
— Ainda é o início da manhã e vocês têm bastante coisa pra fazer. Preciso voltar para os outros pacientes. — ela ajeitou os óculos e deu um último sorriso para , assim como um último sussurro para . — Comporte-se.
Ao ver a mulher curvar para fora da biblioteca silenciosa, ele se viu livre para bufar e trazer à tona toda a expressão de tédio que estava segurando. Em parte, para evitar que seus ouvidos fossem preenchidos pela voz estridente da enfermeira. Olhou para as prateleiras à sua frente, abarrotadas em todos os seus quatro metros de altura, apesar de que quase não estava bagunçada da forma que pensou. A teoria de que Johnny estava fazendo aquilo de propósito se tornava cada vez mais sólida.
— E então? — ele quase levou um susto com a voz da garota, agora mais perto dele. Seria a má noite de sono que o havia deixado alheio à presença das pessoas e o levasse instintivamente a se esquecer delas por alguns segundos?
Besteira. Ele não conseguia se lembrar de uma noite sequer em que conseguisse dormir sem os pesadelos e a insônia que o atacava abruptamente. Não desde que estava sóbrio.
— Quer começar por essa? — perguntou ela, apontando para uma prateleira adiante. — Se interessou por alguma coisa que ela possa te oferecer?
— A minha liberdade, talvez? — ele sorriu enviesado, começando a puxar os livros variados da estante, empilhando-os no chão. Notou o silêncio e a imobilidade da garota, que o olhava confuso com a resposta. — Esquece. Não tenho interesse em sair por aí erguendo uma placa de sarcasmo toda vez que abrir a boca.
— Ah! Então era isso! — respondeu ela, entusiasmada, como se tivesse achado a resposta de um problema difícil de geometria. Em seguida, ajoelhou-se enquanto também retirava os livros. — Bem que Marian me avisou que você era engraçado. Eu gosto de piadas.
Ela acha que eu fiz uma piada? Deus do céu.
— Se gosta de piadas também, deveria conhecer o senhor Shepard da ala cinco. Ele não fala muito bem a nossa língua, mas se prestar bem atenção, vai ver como ele tem um incrível senso de humor. Ele gosta de jogar xadrez, mesmo sendo péssimo no jogo. Marian me convenceu a deixá-lo ganhar nas partidas, mas ele sempre percebe…
— É , certo? — ele a interrompeu, sem virar o rosto. Ela apenas concordou com a cabeça. — Acho que podemos terminar a tarefa em silêncio.
Ela repuxou os lábios, contendo um sorriso e prosseguiu na tarefa de puxar os livros. suspirou, transportando sua mente para seu quarto, pensando em como Marian já deveria ter achado o maço de cigarros dentro do colchão, em como seus esconderijos para os futuros contrabandos estavam acabando, e suas estratégias de viver mais um dia naquele lugar insólito e gelado sem surtar completamente também estavam chegando ao fim.
Pensando assim, não era tão ruim empilhar livros. O dia passaria mais depressa se ele continuasse naquela atitude repetitiva? Isso era tentador. Mas como aquilo ocuparia sua mente até que estivesse cansado o suficiente para deitar a cabeça no travesseiro mais tarde?
O silêncio para era um conflito. Ele buscava esse silêncio pleno, absoluto, quando estava lá fora. Quando chegou a tal ponto de que qualquer coisa servia — a heroína, principalmente ela, lhe cedia tal efeito prazeroso do nada que ele sentia arrepios só de lembrar. Quando não mais estava na realidade, quando se esquecia do próprio nome e das próprias razões de estar acabando consigo próprio... era pura dopamina. Por isso as crises de abstinência foram fortes e esmagadoras no começo, causando uma sensação louca de desespero e agonia que ele, por vários momentos, pensou que literalmente fosse morrer. Não que ainda não quisesse isso às vezes.
Mas o silêncio da sobriedade, aquele que abria as portas para o passado e seus fantasmas, sem nenhum tipo de barreira forte o suficiente para contê-los, era tão ou mais angustiante. Ele não conseguia lidar com eles. Não conseguia lidar com as vozes noturnas, com as lembranças, com o barco virando e os gritos de Bartholomew em sua cabeça…
fechou os olhos com força. Ele sabia que isso aconteceria em algum momento. Lembrou-se das primeiras sessões que participou quando chegou ao Instituto e, mesmo que não dissesse nada, foi instruído pela mulher de branco a lembrar de momentos felizes sempre quando era tomado por algum tipo de crise de ansiedade ou simplesmente sentisse o desespero tomando-o novamente. Não que acreditasse em todas as besteiras ditas pelos profissionais nas poucas sessões que se deu ao trabalho de ir, mas quando se viu preso naquela instituição que era análoga a uma prisão de segurança máxima e seus vários truques de fuga terem resultado em completa falha, ele se viu sem saída. Precisava se livrar das vozes, da tremedeira, da aflição. Não havia porquê não tentar.
A melodia veio à sua mente. Ele não se lembrava vivamente de uma única cena em que a ouviu. Era um compilado, uma junção de vários domingos e dias aleatórios onde Bartholomew se sentava ao piano e praticava. Na maioria das vezes, sua mãe estava ao lado, sussurrando as correções das notas em tom gentil e didático, parabenizando-o quando acertava o tom colocando uma palma da mão na cabeça raspada do filho mais velho. já deve ter visto a cena um milhão de vezes, mas não conseguia materializá-la na memória. Ele só se lembrava da música, aquela mesma música, que Bartholomew insistia em tocar todos os domingos, dizendo que era para ele, para o irmão mais novo.
A melodia ressoou em sua garganta automaticamente. Essa era a tática. Não adiantava trazer o momento feliz para a mente, esperando que ele lutasse sozinho contra o outro bando de pensamentos ruins. Como se Han Solo pudesse lutar sozinho contra um exército de stormtroopers. Ele precisava externar o pensamento, torná-lo físico, palpável, para que se concentrasse no presente, no mundo real. Mesmo que isso não melhorasse em nada, mas também não piorava.
girou a cabeça lentamente ao ouvir o rapaz cantarolando baixinho. Ele não parecia notar sua presença, ou não se importava. Os arranjos da música se alternavam entre tons altos e baixos, deixando-a interessada em ouvir o resto.
— Bonita música. — comentou, tirando a concentração de . — Eu conheço?
— Provavelmente não. — murmurou ele.
— Não quer tentar me dizer? Costumo ouvir música clássica na rádio aos domingos, principalmente durante a escola dominical, e o senhor Shepard também vive dizendo que seria um ótimo pianista se não tivesse perdido a esposa e se entregado ao álcool, mas quando pedimos para que ele diga seus artistas favoritos ele sempre foge do assunto, não sei…
— A música não é de nenhum artista famoso. — esticou o braço para puxar um livro praticamente esmagado no final da prateleira. Suspirou, sabendo que não conseguiria voltar à prática de cantarolar nem se quisesse enquanto essa garota estivesse por perto. Por outro lado, também não podia negar que sua falação era tão eficiente quanto. — E duvido que tenha ouvido em um programa de rádio em qualquer dia que seja.
— Mesmo? É algum músico novo em ascensão? Ele participou de alguma competição famosa ou algo do tipo?
— Não. — respondeu, a voz começando a falhar miseravelmente. Ah não, aqui não. — Ele não teve essa chance.
— Mas então…
— Terminei por aqui. — bufando, ele jogou o último livro da prateleira na pilha desordenada que havia montado no chão. Levantou-se subitamente, ignorando a ardência no nariz. — Vou para o outro lado. Não precisa se apressar.
Ela abriu a boca para dizer alguma coisa, mas ele já avançava a passos rápidos para o corredor de estantes no oposto da sala. Pousou as costas nos livros, respirando fundo e recitando a música novamente. Levou apenas alguns segundos. O que quer que tivesse tentado tomar conta dele naquele momento, foi despistado. Ele não perderia o controle, não aqui, não hoje. Iria se concentrar apenas em empilhar velhos livros idiotas.
detestava a rotina.
A insônia constante piorava drasticamente seu humor, e o dia poderia ser facilmente insuportável quando começava com o sinal estridente que o obrigava a tomar o café da manhã, onde parecia sempre pronto para morder alguém. Depois disso, o restante das horas era um conjunto tosco de tentativas de distrações, fugas das sessões de terapia e encontros secretos com os outros viciados de sua ala. Às vezes até conseguiam subir na cobertura para fumarem o resto dos cigarros. Ele sabia que usar metade de sua parte para subornar o garoto sequelado da ala 2 que Marian havia achado uma boa ideia para tomar conta dos registros de entrada e saída das sessões só poderia dar certo.
Ele não era adepto ao cotidiano da mesmice. Durante os quatro meses que acordava olhando para o teto cinza, ele acreditou por um momento que começava a se acostumar com aquela série de barulhos e ações matutinas do cronograma. Era isso, apenas isso que tinha de suportar. O restante do dia estava em suas mãos, acima das regras.
Pelo menos foi assim até dar uma de idiota e ser pego.
Agora ele não apenas tinha de seguir os rituais do primeiro horário, como também cruzar corredores e frequentar quase todos os cômodos comuns para limpeza e organização, ficar sentado por pelo menos uma hora escutando relatos tristes e descabidos de outros internos nas sessões em grupo e mais outra em suas sessões particulares, onde ainda imperava o tratamento do silêncio. Era ruim e irritante, tanto quanto havia imaginado.
Mas nada era mais incômodo e embaraçoso do que Comingore.
O fato de estar sempre tão enérgica e alegre às seis da manhã era apenas a primeira veracidade pavorosa da lista. chegou a jurar que pediria gentilmente a algum dos médicos disponíveis para examinarem a garota e desligarem permanentemente o botão interior que fazia a enxurrada de palavras jorrar sem parar. Durante três dias inteiros, ele achou que estava delirando sobre estar dentro de um programa de TV. Ela o acompanhava durante todo o dia e as caminhadas eram sempre lentas e interrompidas com a garota que encontrava um conhecido, sendo funcionário ou paciente, e só voltavam a seguir o seu caminho depois de um interrogatório minucioso feito por ela. Isso quando ele tolerava apenas os primeiros três minutos antes de recomeçar a andar sozinho.
Aquele estava sendo o pior castigo que Johnny poderia ter tramado. Ele realmente estava de parabéns.
Quando o sino tocou novamente naquela manhã, bufou enquanto puxava o travesseiro para o rosto, amaldiçoando aquele maldito lugar que achava que estourar os seus tímpanos ao nascer do sol era uma boa tática de tratamento disciplinar.
Um ronco atravessou o céu cinzento daquele fim de outono. As pessoas começavam a tirar os casacos do fundo da gaveta, todos perfeitamente combinados com o degradê do tempo janela afora. Caminhou sem nenhum ânimo para o vento gelado, acompanhado de um homem de branco que servia como uma escolta incômoda até que todo aquele conjunto de tarefas terminasse. não fazia questão alguma de lembrar seu nome.
Do lado de fora, a grama molhada pelo orvalho empapou a barra de sua calça, fazendo-o escutar os esguichos das poças provenientes da chuva da noite anterior. O céu avisava que dali a pouco pretendia repetir a dose, e ele pensou nos melhores argumentos e reclamações a fazer quando visse Marian novamente e lhe questionasse por que raios tinha de fazer trabalhos de jardinagem em um tempo daqueles.
estava abaixada alguns metros à frente, as mangas do moletom puxadas até os cotovelos enquanto o restante do antebraço sumia por dentro da terra escura abaixo do gramado, sujando a parte da frente de sua roupa e seus joelhos.
Ele suspirou, olhando para o céu novamente. Quanto mais cedo fosse, mais cedo aquilo acabaria, e ele não teria que testemunhar a tempestade de perto. Caminhou um pouco mais rápido para ela, e ouviu o som duplicado por um momento. Virou para trás para dar de cara com o homem em seu encalço, com bons centímetros mais baixo do que ele.
— O que foi? Acha que eu vou jogá-la naquele buraco e depois cair fora? — ele arqueou uma sobrancelha, e o homem engoliu em seco. — Dá um tempo, vai. Aposto que você tem coisa mais interessante pra fazer.
Ele não esperou resposta e voltou a seguir seu trajeto, sem precisar se virar para verificar se tinha sido ouvido. Se o novato fosse inteligente, perceberia rápido que até mesmo o clubinho do livro organizado por Marian às quintas-feiras era mais cativante do que vigiá-lo.
foi chegando mais perto dela. Em silêncio, ele acompanhou seus movimentos de longe. As mãos afundavam no buraco raso e puxavam mais areia escura para fora, repetidamente, de forma constante, porém lenta. Ela estava concentrada na tarefa, respirando fundo, as mãos e os braços desnudos já sujos com o que quer que estivesse planejando.
Os olhos azuis do rapaz se reviraram nas órbitas. Talvez seu dia pudesse ser mais longo do que esperava.
— O que está fazendo? — ele perguntou, pegando a garota de surpresa. virou a cabeça para cima em um salto, abrindo um largo sorriso logo em seguida.
— Bom dia, . — ela largou uma minúscula pá de lado, esfregando as mãos nos joelhos para se livrar da sujeira. — Vem dar uma olhada.
— Mas o que é–
— Anda, vem logo. — ela puxou suas mãos até que ele se abaixasse, arrancando uma expressão da mais mau-humorada no garoto, que não discutiu. — Pega a muda.
Ela apontou para uma muda revestida de plástico preto logo à frente, com os ramos atingindo pelo menos um metro e as folhas escapulindo de cada nó do caule. Ele a pegou enquanto outro raio estremecia acima de suas cabeças.
— Vai, coloca. — ela falou, tão entusiasmada com um pequeno pedaço de muda que ele se conteve em apenas balançar a cabeça e fazer o que ela pedia. — Agora vamos cobrir.
voltou a colocar as mãos na terra, puxando os montantes para dentro do buraco, como uma das senhoras da casa de repouso em que seu irmão era voluntário. Ele sentiu uma gota no ombro e bufou.
— Devo perguntar o que estou enterrando? — ele puxou as mangas também para cima, empurrando a areia para dentro do buraco de forma mais rápida antes que a chuva o pegasse.
— Que maneira mais mórbida de dizer. — ela riu. — Estamos plantando uma bonita muda de mirtilo. Marian me deu depois de eu insistir que o jardim precisava de novas cores.
— Ah, claro, a baboseira das cores. Essa prisão ganha um monte de dinheiro pra jogarem fora nesse tipo de coisa. Pode bolar outro grande pedido desses e fazer com que eles devolvam minha camiseta do Eagles?
— Mas os uniformes do Instituto… Ah, você está fazendo piadas de novo! — ela soltou uma gargalhada, voltando a atenção para a terra.
Não foi uma piada, sua idiota, eu realmente quero minha camiseta de volta, assim como meus jeans e meus cigarros, você consegue lidar com esse choque de realidade? Ah, claro que não, você é com certeza a criatura mais fora da realidade que eu já conheci.
Ela ainda ria enquanto não escondia o certo espanto. Céus, ele não sabia nem por onde começar a descrever essa garota.
Por fim, eles terminaram de mover toda a terra úmida ao redor da muda, uniformizando-a com a pequena pá de e suavizando o solo para receber sua primeira chuva de braços abertos.
— Está pronta. — ela bateu as mãos para se livrar da sujeira, sorrindo para o pequeno feito com a sensação de dever cumprido. Mais um estrondo vindo de cima fez com que os dois curvassem o pescoço ao mesmo tempo. — E ela nem vai precisar ser regada. É uma grande sortuda.
— E nós também se conseguirmos chegar lá dentro antes que essa chuva caia. Então…
Ele mal teve tempo de terminar a frase. Uma gota grossa após a outra, elas caíram praticamente em câmera lenta até se amontoarem todas de uma vez e despencarem em uníssono. praguejou enquanto se levantava e iniciava a corrida até o lado de dentro, sem nem olhar ao redor. Riu de nervosismo ao notar que o homem de branco, antes parado a menos de menos de dez metros à frente, já havia corrido para se salvar há muito.
Quando chegou do outro lado, olhou para trás na intenção de apressar a garota e evitar quaisquer reclamações de Marian sobre ele não ser um cavalheiro. ainda estava ajoelhada, guardando os apetrechos de jardinagem em alguma caixa retangular de madeira, tentando separá-las organizadamente apesar de seus olhos demonstrarem toda uma pressa para terminar o serviço.
Ele bufou. Agora já sentia o cabelo pingar na testa. Sua vontade realmente era a de correr para dentro, correr rápido, como um gato assustado. Não seria uma reação tão hipócrita assim. Tempestades o deixavam nervoso e agitado. Mesmo que não estivesse mais sobre um barco na costa, um barco que virou durante a tempestade de novembro de 1965.
A areia escura do gramado agora já se transformava em um lamaçal que começava a querer engolir os seus pés. A água já encharcava suas meias quando revirou os olhos e iniciou mais uma caminhada barulhenta em direção à de novo.
A garota levantou-se rápido, segurando o objeto desordenado enquanto começava a correr na direção da porta. Ele parou, de repente temendo que ela escorregasse e caísse no solo úmido. A caixa balançava em seus braços, ainda meio aberta, prevendo um enorme desastre iminente. Mas ele não aconteceu. Em vez disso, ela se aproximou dele rindo, o cabelo pingando, pegando na mão de enquanto o puxava para a frente, para o abrigo.
— Vamos logo, você vai pegar uma gripe!
Eles pisaram no concreto gelado e cinzento do lado de dentro, como dois gatos molhados. Algumas pessoas atravessaram o corredor em uma correria contínua, com certeza com o intuito de fecharem todas as janelas a tempo ou tentar salvar algumas folhas de papel que certamente saíram voando com a ventania. Ninguém sequer reparou nos dois internos ensopados ao pé da entrada.
colocou a caixa em seus pés, torcendo o cabelo molhado enquanto balançava as pernas e espirrava água em todas as direções como um cachorro.
— Isso foi tão legal! Viu como a gente correu rápido? Eu pensei que fosse cair ali perto do escorregador, tomara que a Marian não veja toda essa lama na escada.
Ela riu mais uma vez, olhando para ele de canto. franziu o cenho, esboçando a mesma expressão de espanto que já estava se tornando cansativa para ele toda vez que se referia a ela. Estava frio, a chuva caía como um dilúvio dos tempos bíblicos lá fora, e por estarem envoltos por uma vegetação densa povoada por colinas, não era assim tão impossível que dali a pouco o térreo estivesse completamente alagado. E, como não duvidava mais da capacidade de Johnny de castigá-lo até a próxima vida, ele seria uma das pessoas que receberia um balde com um rodo para limpar toda a sujeira da natureza depois.
E estaria lá, é claro, voluntariamente, por todo o espírito coletivo e blablabla.
A menina sorria tanto e parecia tão alegre que de repente se viu olhando por mais um tempo. A junção daquele sorriso na pele molhada, os olhos brilhantes e um fio de cabelo rebelde que escapuliu até o meio de sua testa de repente a deixaram tão bonita que a cabeça dele fez um click. Foi um lapso, um surto de um segundo. Não dava para entender. Comingore não era bonita.
Pelo menos era isso que ele colocava na cabeça toda vez que via aquele cabelo. Ninguém achava aquele cabelo legal, e ninguém daria em cima de uma garota que usava meias xadrez por cima de botas de neve.
revirou os olhos, deixando o torpor momentâneo e confuso para se tocar da brisa gelada batendo em suas costas. Olhou para os pés, frustrado por ter afogado um de seus tênis favoritos, a única peça livre das leis de vestimenta daquele regime ditatorial. Virou a cabeça para trás, contemplando com certa ânsia as nuvens escuras tomando o céu por completo, os barulhos terríveis dos roncos que o atravessavam, as árvores sendo puxadas pelo vento, o gramado ficando submerso a uma velocidade desconfortável, a água se aproximando cada vez mais do pé da escada, chegando perto de um ponto rosa na base desta, preparando-se para tomar o primeiro degrau…
Ele apertou os olhos. Ponto rosa. Saiu para fora de novo, ignorando as perguntas da colega — não que já não estivesse fazendo isso — e desceu rápido até a base de concreto, pegando um livro virado de cabeça para baixo, já pesado pela água, salvando-o de um belo afogamento.
Ele o balançou várias vezes enquanto corria para dentro de novo. A capa já estava enrugada e danificada, porém um nome no canto inferior era possível ser identificado: Sylvia Plath.
— O que é isso? — perguntou ao vê-lo se aproximando.
— Estava caído ali. Deve ser da biblioteca, eu vou–
O livro escapou de suas mãos em um piscar de olhos. Ele ouviu o gemido sôfrego antes que ela o arrancasse dele de forma quase brutal. Os olhos de estavam arregalados e sua respiração acelerada, vasculhando os próprios pés em busca da caixa mal fechada, perguntando-se quando havia deixado o objeto cair.
franziu o cenho, tendo a certeza absoluta de que aquela era a primeira vez que não via um sorriso naquele rosto.
— Isso é seu? — ele perguntou, cauteloso.
— Sim… Não! Quer dizer… — ela mordeu os lábios, fugindo de seu olhar, abraçando o livro no peito como um filhotinho. — Eu não…
Ela travou, as pálpebras lutando para não tremerem. Ele avaliou a expressão dela e os tiques claros de uma pessoa que não sabia mentir. Muito diferente dele. De repente. soltou uma gargalhada, um riso alto que teria reverberado pelas paredes e subido até os andares acima se não fosse o barulho forte da chuva lá fora.
— Ah, mas é claro. Estamos em uma instituição pra malucos e viciados numa era onde as pessoas têm medo de nós, então é óbvio que proibiram livros de suicidas, não é mesmo? — ele riu mais uma vez, levando uma das mãos ao peito. — Deus do céu, senhorita Comingore, não deveria ler essas coisas, elas podem te influenciar.
repuxou os lábios e baixou o olhar, agarrando o livro molhado com mais força. Um rubor intenso tomava suas duas bochechas.
— Isso é hilário, tenho que admitir. Quem diria que Comingore também esconderia seu próprio contrabando.
— Não é nada disso. Você tá entendendo errado, eu só… — olhou para ele, insegura. A garota não tinha argumentos plausíveis, mesmo que já tenha pensado no que diria caso aquele flagrante tivesse acontecido uma ou duas vezes. Mas em nenhuma delas, ela imaginava que seu acusador teria uma reação daquelas. Por fim, ela apenas respirou fundo e sussurrou: — Não conta pra Marian, por favor.
arqueou as sobrancelhas.
— Então quer que guardemos um segredinho? — ele sorriu, se aproximando dela. — Beleza, Comingore, podemos trabalhar nisso. Já deve saber porque vim parar na primeira fileira da sua igreja do sétimo dia, não sabe? Porque sou muito bom em esconder coisas. — ele falou devagar, vendo os olhos dela adquirirem um certo temor. — Porém, nada é de graça fora do seu mundinho colorido de caridade. O que eu vou ter em troca?
— O-o que você q-quer?
— Não sei. Não consegue imaginar nada que eu queira agora? Nada que me deixaria imensamente feliz?
Ela pensou por alguns segundos antes de responder.
— Cigarros?
— Seria uma boa.
— N-não! Eu não posso, eu não sei–
— Relaxa, menina, não sou tão burro a ponto de pedir que uma garota como você escolha os meus cigarros. Minha condição vai além disso. — observou o corredor atrás dela, certificando-se de estar vazio o suficiente. — Preciso que você faça vista grossa em algumas coisas para mim. Só isso.
arregalou os olhos em choque, como se na verdade, a tivesse pedido para enterrar um corpo para ele.
— O-o que você quer dizer? , eu não posso, isso não é certo…
— Tem razão, não devemos discutir o que é certo ou não, podemos simplesmente bater na porta do Johnny e deixar que aquele descendente de Stalin decida por nós. Vamos lá.
— Não! Espera. — ela agarrou em seu braço antes que ele desse mais um passo. — O que exatamente você quer fazer?
— Vejamos, como devo dizer isso? — ele cruzou os braços. — As terapias. Me livra de todas elas.
— O quê?
— Isso mesmo que você ouviu, Comingore. Uma mentirinha aqui e outra ali no seu relatório semanal para os soberanos ali em cima e eu estou livre até todo esse castigo acabar. E então, o que vai ser?
Ela mordeu os lábios e sabia que ela diria não. Ele não esperava que ela fosse concordar tão fácil, mesmo com o risco que corria, e o dilema atravessando seus olhos o fez querer rir. O acordo pouco o preocupava, ele poderia dar um jeito de fugir sozinho, mas era engraçado vê-la em cima da corda bamba, dizendo para si mesma que escorregar de propósito uma vez não a tornava a pior pessoa do mundo.
— Tudo bem. — concordou. — Eu vou dar um jeito.
Ele comprimiu os lábios, batendo palmas espaçadas e lentas enquanto balançava a cabeça.
— Ora, ora. Estou impressionado, Comingore. Seu apego por esse livro é maior do que conquistar mais almas para o seu rebanho. — ela imediatamente sentiu raiva dele. — De qualquer jeito, sua resposta foi muito agradável. Então, posso caminhar tranquilo até o meu quarto sem me preocupar com a sessão em grupo marcada para às dez, certo? Ótimo.
Ele deu um sorriso de canto e começou a virar as costas, já observando a si mesmo saltitar para o andar acima, sorrindo como um idiota pelo feito de sorte.
Mas então, por algum motivo que jamais entendeu, e que em nenhum mísero segundo pensou que poderia haver consequências tão insanas de uma atitude tão simples, ele voltou a olhá-la.
— Pensando bem, tenho mais um pedido. — falou, vendo os olhos dela voltarem a ficar apavorados. — Relaxa, não pretendo sugerir que você também desapareça da minha rotina obrigatória, apesar de que não posso dizer que a ideia não tenha passado pela minha cabeça. Nada pessoal. Só estava pensando que faz um bom tempo que não como um bolo. De chocolate, de preferência. Alguns clichês nunca perdem a graça, sabe como é. E eu não consigo enxergar o risco que algumas migalhas de açúcar podem trazer para um lugar como esse, mas já cansei de tentar decifrar esse sanatório há muito tempo.
— Não estamos em um…
— Senhor Harris! Meu Deus do céu. — a voz finalmente os alcançou, trazendo consigo uma toalha branca grossa e comprida. O mesmo homem que havia servido de escolta há menos de uma hora atrás fora atingido por apenas algumas poucas gotas nos ombros e nas costas. — Você precisa se secar, olha só o seu cabelo! Se a senhora Mastrantonio ver isso…
se esquivou dele, ainda encarando a garota. Ele levantou uma sobrancelha, aguardando sua resposta, mesmo sabendo que ela não teria a audácia de fazer isso em voz alta. Em vez disso, desviou os olhos, concordando com a cabeça devagar.
— Eu estou bem. — ele murmurou, afastando alguns fios molhados da testa. — Cuida da garota. Ela pode pegar uma gripe.
Ela contorceu a boca e lhe lançou uma piscadela antes de se retirar.
Na noite seguinte, sabia que estava sonhando.
Não era o tipo de sonho que estava acostumado. Aquela recapitulação de acontecimentos, a abertura da jaula dos piores pensamentos e sentimentos que advêm do silêncio insuportável da solidão, os sonhos que o faziam acordar no meio da noite e desejar algo peculiar, que o tornasse invisível, como a fuga da realidade em um líquido, uma tragada, uma após a outra, repetidas vezes, até que tudo se extinguisse.
Fazia um tempo que não tinha esse tipo de sonho. E mal tinha percebido isso. Essa era a maior ironia de todas.
Todo seu corpo gritava pelo descanso ao final do dia, por pelo menos duas semanas agora, e contando. As tarefas no decorrer de seu castigo tomavam sua força braçal e o tagarelar de Comingore preenchia sua cabeça, e tudo que poderia rondá-la nos intervalos de distração. Ele dormia durante toda a noite, e acordava com o barulho do sino da manhã. Ainda reclamava, porque oras, reclamar já era um traço de personalidade. Mas a garota falava tanto, e contava sobre cada um dos pacientes de forma tão detalhada, e sua voz estava tão presente no ambiente que ele jurava que a ouvia até mesmo antes de dormir. Que ela estava lá até que perdesse a consciência, e isso era frustrante, simplesmente a maior das petulâncias.
A voz dela andava se materializando tão firmemente em sua cabeça que, naquela noite, teve certeza de que estava louco. E que a culpa daquela loucura era toda de Comingore.
Porque ele ouviu a voz dela. Literalmente. E sabia que estava dormindo, mas aquele sonho era diferente. Não havia cenário, não haviam imagens de seu rosto, era apenas a voz dela. Pairando no ambiente. Sussurrando seu nome…
Ele abriu os olhos com a batida na porta. Zonzo, olhou para os lados, procurando debilmente o relógio, até se lembrar de que não havia um. As batidas retornaram, delicadas, acompanhadas de mais um sussurro de sua voz. Céus, isso não era possível. Não havia relógio, mas ainda era noite. Noite!
Ele atravessou o quarto, abrindo a porta em um rompante. Viu a garota com o punho levantado, preparando-se para mais uma batida, recolhendo as mãos logo em seguida.
— O que você quer? — ele perguntou, grogue, coçando os olhos para afastar a visão embaçada do despertar induzido. — E que horas são?
— São duas e meia.
— Você é louca?
— Já me fiz essa mesma pergunta hoje. Anda, você tem que vir comigo.
— Por que?
— Anda logo! — ela pegou na mão dele e puxou-o para fora, fechando a porta logo em seguida.
— Você finalmente decidiu aceitar seu espírito rebelde e me levar em alguma expedição clandestina? A ideia pode ser muito boa, mas você tem noção do que fariam com a gente se nos pegassem fora do quarto depois do toque de recolher? — ele balançou o braço para se soltar, mas ela estava exercendo uma força impressionante nas mãos enquanto o arrastava pelo corredor. — , você tá ouvindo? Ei…
— Dá pra calar essa boca? — ela grunhiu, em meio aos sussurros. Ele se surpreendeu por alguns instantes pelo tom rude e inédito, impossível de ser visto em qualquer outro dia.
Dois corredores estreitos e um lance de escadas depois, eles chegaram na frente da porta dupla de madeira nos fundos de uma galeria que nunca havia chegado perto. A iluminação era escassa durante a madrugada, e isso impedia grande parte de sua visão panorâmica para fins de reconhecimento, mas mesmo com toda luz do mundo, ele tinha certeza de que nunca havia estado ali.
Ele ouviu a junção dos barulhos metálicos vindos da mão dela e viu quando ela puxou um bolo de chaves de um dos bolsos da calça cinza, separando-as à medida que se aproximava da fechadura.
— Caramba! Onde você conseguiu isso? — ele olhou assustado para os lados imediatamente com o tom de voz que havia saído alto sem querer.
— O zelador, o senhor Cusack, é meu amigo. Não lembra quando te contei dele?
— Roy Cusack, o sulista que vive falando da conta de luz?
— E da de telefone também.
revirou os olhos, mostrando uma rejeição clara pelo fato de ter guardado uma informação daquelas.
— Os enfermeiros, vulgo soldados, também são seus amigos? Como não vimos nenhum deles no caminho para cá?
— Já ouviu falar em atalhos? — ela enfim girou a chave certa, causando um clic inaudível enquanto puxava uma das portas para frente. — Vem, entra logo.
Era quente do lado de dentro. Os ladrilhos hidráulicos serpenteavam em faixas negras e desconexas que causavam uma certa dor de cabeça pela confusão da estampa, e as diversas ilhas em inox espalhadas pelo cômodo pareciam aumentar o eco dos passos e até da respiração ofegante dos dois.
— O que estamos fazendo na cozinha? — ele perguntou, apertando os olhos para enxergar melhor, mas era inegável a presença dos fornos e dos suportes de utensílios bem acima de cada pia.
— Não é legal? — sorriu, caminhando até a geladeira industrial de duas portas e se inclinando para dentro dela, oferecendo também a primeira iluminação do ambiente.
mal teve tempo de perguntar o que ela pretendia. Olhou para trás automaticamente ao ver a luz, todos os nervos de seu corpo apreensivos com um possível flagrante que ele definitivamente não poderia sofrer, não enquanto todas as tarefas de Johnny não terminassem. Seria uma ótima desculpa para prendê-lo na instituição para sempre, ou pior, prendê-lo com ela.
ergueu-se novamente, colocando uma forma redonda em cima da ilha mais próxima, mostrando um bolo pequeno e cravejado de gotas azuis por cima da calda de chocolate.
— Tarãn! O seu bolo de chocolate, senhor.
Ele permaneceu estático enquanto olhava para o prato, de repente sentindo que, se estivesse sozinho, talvez chorasse. Não pelo bolo, com toda certeza, mas porque ele não esperava que ela fosse levar a sério o pedido feito no dia anterior. Não era nada decisivo em relação ao acordo, ela conseguir ou não uma sobremesa banal daquelas não era nenhuma prioridade.
Mas, de repente, ele se tocou do dia que se aproximava. E não soube como não se atentou a isso a partir do momento em que as chuvas torrenciais do fim do outono começaram. O que estava acontecendo com ele para se esquecer disso? Como poderia estar dormindo bem com a aproximação de uma data tão temível como aquela?
Achou que a requisição do bolo fosse apenas uma brincadeira de última hora, que a ideia tinha vindo do nada, e isso o causava ainda mais agitação interna. Porque em nenhum momento ele pensou, foi capaz de se lembrar da segunda quinzena que chegava, trazendo o aniversário do irmão mais velho, as lembranças boas e ruins misturadas com o luto e a culpa, e tudo que ele já estava acostumado.
franziu a testa ao olhar para o rosto repentinamente pálido do colega, perguntando-se de repente se havia realmente feito um bom trabalho.
— Você tá bem? — ela perguntou. — Não gostou do granulado por cima? Eu sinto muito, Biff disse que era o único que ele poderia conseguir com minhas últimas moedas, eu pensei que ficaria bonito, talvez, confesso que era uma preferência minha também, mas se você não gosta, eu posso dar um jeito, só precisamos–
Ele soltou uma risada gorgolejada e olhou ao redor. Encontrou uma segunda prateleira acima da ilha vizinha, onde uma pilha de pratos brancos repousava ao lado de um amontoado de temperos. Ele pegou dois e uma faca grande, a primeira que viu, voltando-se para a garota.
Ele posicionou as louças com cuidado enquanto começava a fatiar o bolo com delicadeza. olhava para os dois ao mesmo tempo, sentindo uma estranha ansiedade tomar conta do seu peito.
— Foi você que fez? — ele questionou, de olhos baixos e concentrados na tarefa.
— Foi. — respondeu ela, com a voz baixa. — Quer dizer, Biff me ajudou. Eu não sou muito boa na cozinha, mas gosto de aprender, e ele era o único que eu podia confiar que não contaria para Marian.
— Você é bem aplicada quando se trata de promessas. — ele riu, pondo cada fatia em um prato. — Devíamos fazer acordos mais vezes.
Ele empurrou o prato dela sobre a base metálica e sorriu. Contornou a ilha até o seu lado, ainda na frente da geladeira, e sentou-se no chão, com as costas apoiadas na parede morna. Ela fez o mesmo, sentando-se à sua frente, jogando os joelhos para cima. Seus pés se uniam no escuro, sem que percebessem.
Os dois deram a primeira garfada juntos, e não pode evitar a sessão de flashbacks que o invadiram com aquele sabor. Não tinha a ver com a qualidade da massa ou a receita bem sucedida, mas o fato de que Bartholomew amava bolo de chocolate. E, diferente do que esperava, não sentiu a vontade desesperada de mandar os pensamentos para longe ou o aperto no peito que o levava à angústia quando lembrava sobre o assunto. Depois de muito tempo, ele enfim pensava no irmão sem deixar que apenas a tragédia se alastrasse por todo o canto. Desta vez, ele se deleitava com as boas lembranças, como quando Bartholomew o acordava de manhã cedo para jogarem beisebol, quando assistiam os filmes de terror escondidos da mãe ou quando ele o ajudava com as provas de matemática. Momentos que pareciam longe de acabar, memórias que ficaram tão enterradas sob a tristeza que pareciam quase irreais.
encarou o olhar distraído do rapaz, que mastigava lentamente enquanto fitava o nada. Ela não se lembrava de nenhuma outra ocasião em que o tivesse visto tão sereno.
— Então… O seu silêncio significa qual veredicto?
virou os olhos rápidos para ela, como se literalmente a tivesse esquecido por alguns segundos.
— Ah… — ele riu, desconcertado. — Você fez um bom trabalho. Não esperei que fosse levar tão a sério o lance do açúcar, mas está muito bom. O granulado… combina com seu cabelo. — ele levou mais um pedaço à boca, desviando os olhos mais uma vez, de repente se sentindo um tanto constrangido por ser tão sincero.
Um grande sorriso atravessou o rosto da garota, dissipando toda a insegurança de sua postura ao ver a reação silenciosa de . Ela voltou a comer com mais afinco, animando-se com o sabor doce que também não sentia há algum tempo, e ele se viu obrigado a parar e observar mais uma vez, perguntando-se porque de repente achava a visão tão divertida e contagiante (tão bonita, como seu rosto depois da chuva!), tão merecedora de ser vivida que ele se esqueceu de todo o mau humor sentido até então.
Um silêncio reconfortante se instalou enquanto eles se serviam de mais um pedaço, até que este também acabasse. A geladeira aberta fornecia luz o suficiente no rosto de , fazendo seu cabelo azul parecer quase cinza de repente.
— Então, o que pretende fazer amanhã? — ela perguntou repentinamente, pondo o prato vazio de lado. — Digo, na hora da sessão.
— Ainda não sei. — ele deu de ombros. — Acho que vou depender da minha criatividade.
— Por que você… — ela bufou, mordendo o lábio inferior. Era de sua natureza dizer a primeira coisa que vinha em sua mente, e tinha aprendido a se controlar de certa forma quando estava com ele porque já havia sido censurada várias vezes por seus olhares, mas era mais forte do que ela. — Olha só, eu aceitei entrar no seu jogo de exigências, mas por que não dá uma chance? Nem que seja por um dia, só… Preciso saber o porquê.
cruzou os braços, estudando minuciosamente o rosto um pouco perturbado da garota. Ele não se lembrava de ter visto uma faísca de interesse tão latente por aquela questão em outra pessoa, e talvez por isso decidiu não se levantar e sair na hora.
— Não gosto de falar sobre mim… ou da minha vida, meus problemas, tanto faz. — respondeu com os olhos retos e imóveis, baixando a voz.
— Acha que ninguém vai te entender?
— E você acha que entendem? Acha que sofrimento, vícios e dificuldades tornam as pessoas iguais e empáticas? Todos aqui precisam ser amigos e confidentes só porque trilhamos caminhos alternativos para o fundo do poço? — estalou a língua, abrindo um meio sorriso sarcástico. — Kennedy diria que isso é um belo papo de comunista.
— Comunista ou não, acho que compartilhar os seus problemas te deixariam mais aliviado, limparia sua mente…
— Eu sei de algo bem mais eficaz pra limpar a mente, Comingore. — ele retomou o sorriso, fazendo com que ela arregalasse os olhos por um momento. — Por que essa cara? Não sabe do que estou falando? Vai me dizer que Marian não te passou minha ficha completa e não te revelou o verdadeiro motivo de eu estar aqui nesse campo de concentração?
não respondeu. Porque ela sabia, mesmo que brevemente. Mesmo que, em pouco tempo, já tivesse entendido toda a gravidade e o peso que a realidade tinha para .
— Não é isso…
— Então o que é? Você também quer salvar a minha vida? — ele arqueou as costas para a frente, aproximando o tronco do rosto da garota. — Como o Johnny, a Marian, como tenta fazer com todos esses pobres coitados daqui?
— Salvar a sua vida? — ela indagou, formando um vinco em sua testa, soltando uma gargalhada logo em seguida. O som pegou o garoto de surpresa. — Não, eu não quero salvar a sua vida, nem a de ninguém, por favor. Não quero essa responsabilidade nas minhas costas. Acredito que é mais importante contribuir com o bem estar e pequenas felicidades para as pessoas. Sabe, levar um pouco de paz. Afinal, não sabemos se elas vão melhorar algum dia. — ela desviou os olhos. — Acho que um pouco de atenção, gentileza e um bom sorriso são melhores do que vender promessas de restituição. Há pessoas que nunca sairão daqui, por mais que desejem, e há aquelas que não querem isso porque não confiam em si mesmas e não tem ninguém para se apoiarem do lado de fora. Talvez elas morram aqui, e viver diariamente com esse pensamento pode causar uma piora drástica em qualquer quadro que seja. Não vejo porquê ampliar um sentimento desses quando vejo uma pessoa que está lutando tanto para melhorar, sem perceber que podem existir coisas boas, mesmo num lugar como esse. — ela ergueu os olhos para cima, relaxando os ombros. — Para pessoas como nós, que já sentiram o desespero profundo, a felicidade pode ser apenas uma boa noite de sono.
não soube dizer quantos minutos se passaram enquanto ele observava a garota. Um tipo estranho de frenesi rondou seu corpo, o deixando ainda mais curioso. Quantas coisas diferentes havia sentido em um tempo recorde de um dia pro outro? Sentindo pela mesma pessoa… ele seria capaz de admitir que a cada segundo que passava, enxergava Comingore de uma forma totalmente diferente?
— Por que está aqui? — perguntou ele, sinceramente interessado.
Ela o olhou com certa surpresa. Ninguém nunca havia feito aquela pergunta.
— Acho que não importa, não é? — respondeu.
— Essencialmente não, mas estou curioso. O que pode ter acontecido pra uma garota tão sagaz vir parar nesse instituto trazendo toda uma filosofia barata de hippies da última página da Times?
Ela riu, agarrando os joelhos.
— Você é realmente um cara peculiar, Harris. — ele juntou as sobrancelhas, fazendo-a rir mais uma vez. — As pessoas nunca me perguntaram isso. Acho que elas não querem saber a verdade, e eu entendo. Sei que posso significar um escape para os pensamentos ruins ou esconder de certa forma a rotina exaustiva que pode ser um tratamento contra o vício. Posso ser chamada de a experiência que deu certo, e não posso dizê-los como vim parar aqui porque isso prejudicaria sua visão sobre mim. E está tudo bem. Dizer que passei por momentos ruins, mas que encontrei a paz funciona muito mais.
Foi a vez dele de rir. Saiu engasgado, como se estivesse tão chocado com a resposta que não conseguia demonstrar de outra forma.
— Uau. Você é bem mais esquiva do que pensei. — ele balançou a cabeça, tentando impedir a onda de perguntas que queria fazer a ela. Sobre ela.
— Acho que você consegue roubar esse posto.
— Você sabe porque estou aqui.
— Eu sei o que os formulários dizem. Hospitais, advogados e clínicas de reabilitação podem reduzir alguém a um pedaço de papel, mas eu não. — ela deu de ombros. — Por isso prefiro escutar das pessoas.
Ele abriu a boca, hesitante. Em momentos assim, ele ficaria estressado, se levantaria. Pensando bem, isso teria acontecido a partir do momento em que entrou naquela cozinha. Mas ele se sentiu engasgado novamente, sufocado, e precisava se livrar dessa sensação.
— Eu… Perdi meu irmão mais velho há treze anos. Na baía de Monterey. — ele baixou o tom de voz, ignorando a ardência no nariz. — A maldita previsão do tempo disse que o tempo iria fechar, e Bartholomew achou melhor não irmos, mas eu insisti. Insisti tanto, feito um idiota. Afinal, essas previsões podem errar, não é? — riu sarcástico. — Acabou que caímos em um perfeito olho de furacão, e a tempestade que se seguiu… Perdi as contas de quantas vezes sonhei com ela. Com as ondas, o céu escuro, a linha do horizonte que se transformou em um imenso nada… Que parecia sugar tudo ao redor. Os gritos, eles… — bufou, fechando a mão em punho escondida sobre o colo. — Acharam o corpo dele três dias depois. Em cima de uma pedra escondida sob a maré alta. A mesma em que ele bateu a cabeça ao ser sugado por essa escuridão que o matou, e também a mesma que impediu que perdêssemos seu corpo para sempre no mar. Não é hilário? A dualidade irônica de coisas que podem existir tanto como carrasco e como um ato de Deus ao mesmo tempo.
O brilho terno nos olhos de pairaram sobre o rapaz. Um sentimento puro de compaixão tomou seu peito, mais forte do que pensou, e ela tratou logo de escondê-lo ao se lembrar de que aquele tipo de coisa poderia facilmente ofendê-lo.
— Mas… e você? Onde você…
— Ele me salvou, é claro. — uma linha fina atravessou onde antes havia o sorriso irônico, e viu seu maxilar trincar com a lembrança. — O idiota estava tão preocupado comigo, mesmo depois que o barco virou. A correnteza era forte demais, mas ele conseguiu me amarrar com as cordas da vela arruinada e graças a isso não fui levado. E tentei jogá-lo a próxima corda, mas aí ele simplesmente… Se foi.
— … — ela começou, com a voz falha, pensando cuidadosamente em suas próximas palavras. — Não foi sua culpa.
— Isso é o que se espera que as pessoas digam, não é? Mas sabe o que o meu pai me disse? Que eu tinha culpa. Que se eu tivesse segurado Bartholomew com mais força, ele poderia ter sobrevivido. Que eu o matei a partir do momento em que pedi o passeio. Disse isso a um garoto de 12 anos que só era bom em correr atrás do irmão. — riu mais uma vez, passando a mão pelos cabelos. — Sabe o que eu fiz depois disso, Comingore? A única coisa que eu poderia fazer naquela época: acreditar. E tentar fugir dessa culpa sempre quando ela começava a me estrangular demais. Mesmo que, no fundo, pensava que merecesse. Consegue explicar toda essa merda pra alguém? E mesmo que consiga, mesmo que diga que entenda, sinto em dizer que nada vai mudar. Bartholomew não vai levantar dos mortos, a corda não vai chegar até ele e a porra do piano na sala não vai voltar a ser tocado.
Ele virou a cabeça para o lado, voltando a contrair o maxilar, a cerrar os punhos ao lado da cintura. Pela escuridão, não conseguia vê-lo fazer isso. Ela não se sentiu ofendida ou culpada pelo tom rude de suas palavras, como se quisesse dizer que agora ela aguentaria as palavras amargas dele só por ter deixado a curiosidade falar mais alto. Ela se sentia bem quanto a isso, mas não podia evitar o aperto no peito ao ouvir e a insistente vontade de abraçá-lo e tentar transferir algum conforto para aquele coração endurecido.
E foi o que fez. Ela inclinou o corpo para a frente, arrastando os joelhos para mais perto dele e lhe deu um abraço. Foi apertado, e sentiu a respiração quente dela em seu pescoço. Ele não soube o que fazer no primeiro momento; em dias normais, com certeza a afastaria imediatamente. Nenhuma mulher o abraçava sem mais nem menos, não uma que ele não estivesse planejando segundas e terceiras intenções. Mas aquele abraço repentino teve o mesmo efeito de se despir para uma mulher. Ele não conseguia pensar se isso era bom ou ruim. Foi tão caloroso e terno, como se tivesse sido transportado de repente para dentro de casa e abolido todo o mal do mundo e de seu próprio passado. Sentiu uma leveza, uma calmaria…
Uma gota cintilou no moletom cinza de . E mais uma, e depois outra. Não se sabe quantas molharam as costas dela até que percebesse o que estava acontecendo. Ele se afastou, fungando, sentindo-se um tanto ridículo, mas não constrangido, como pensou que ficaria.
Eles viraram a cabeça ao mesmo tempo e ele viu como os olhos dela também indicavam um choro mútuo. Ele quis odiar aquilo, detestar a forma como as poucas pessoas de fora ficavam depois de ouvirem aquele relato, como toda a pena em seus rostos o deixava tremendamente irritado…
Mas não havia pena naqueles olhos. Só uma cumplicidade maluca que havia surgido do nada, um tipo de sentimento bom que ele não viu chegando.
E de repente ele riu. Riu de verdade, e ela o acompanhou, agora sentando-se ao seu lado. Depois de tudo, era cômico. Ele não chorava há um bom tempo, e não acreditava que isso melhorava alguma coisa, mas de repente ele sabia o porquê da leveza no peito. E percebeu que nunca havia falado tanto sobre Bartholomew, sobre o acidente, como se desfizesse um nó na garganta e talvez, apenas talvez, tomou conhecimento de que agora tinha 25 anos e na verdade, naquela época, não era bom apenas em correr atrás do irmão, mas também era bom em desenhar caricaturas e pintar as árvores do quintal.
Logicamente, esses e outros pensamentos vieram depois, quando já estava de volta na cama, quando havia se despedido da garota de cabelo azul na encruzilhada de corredores, quando olhava para o teto e perdia o sono outra vez, mas não da forma demonizada e perversa como havia sido. Lembranças tão enterradas pela escuridão alheia começaram a retornar, e ele teve certeza de que dormiu com um sorriso no rosto, imaginando…
Será que é assim que a vida poderia ser?
Ninguém sabia explicar qual era o problema dele.
Não que tivesse realmente um problema. Não atualmente, para ficar mais claro. Também não significava que havia virado o próprio instrutor de catecismo de um dia para outro. Ele ainda aceitava os cigarros de Emmett e pagava por eles, ainda usava seu extenso acervo de piadas sobre o bigode de Johnny e se mantinha calado nas sessões em grupo.
Mas, bem… ele estava frequentando as sessões. E Marian jurou tê-lo visto conversando com o senhor Shepard no último almoço, onde riam alto e se divertiam durante uma partida de xadrez. E a vez em que aceitou participar do mutirão voluntário para o conserto de algum muro que havia desabado durante as últimas tempestades? Meu Deus, ela deveria estar ficando maluca, totalmente maluca.
Porém, quando olhava a companhia que o cercava dia após dia, ela sabia que estava totalmente sã, e ele também. E não queria acreditar que aquela garota tivesse algo a ver com isso, não, isso não podia, definitivamente era uma péssima ideia, Marian se martirizaria por toda sua vida por ter permitido que tal coisa acontecesse…
Mas estava ali, bem diante de seus olhos, e ninguém se atreveria a negar. Pela maneira que ele lançava um sorriso para a garota do outro lado do cômodo, o jeito como dizia o nome dela, sorrindo… Marian ficou espantada ao notar que nunca o havia visto sorrir. Mas ela estava vendo, e não era um sorriso qualquer, era direcionado, ela via o alvo claramente, e ele não podia existir! parecia estar feliz, mas porque era ignorante, porque não sabia que não deveria ficar desse jeito, não por ela.
Em sua defesa, ele nem sabia o que estava acontecendo. Apenas acordava todas as manhãs, pontualmente com o alarme, tomava seu café e ia encontrá-la. Às vezes na biblioteca, no jardim, no espaço recreativo, caminhos que ele tomava quase automaticamente agora. Entretanto, alguma coisa havia mudado, ele sabia. Não queria pensar muito porque tinha percebido que pensara muito durante toda a sua vida e perdera o mais importante: o presente. Então talvez, só talvez, ele sentia uma ansiedade que quase apertava o peito todas as manhãs e todas as noites, e não precisava ser muito esperto para notar o padrão de quando era acometido com aquelas reações que sempre apareciam quando não estava com ela, e isso poderia significar algo, mas pra quê pensar sobre esse tipo de coisa?
Porque era óbvio que ele tinha sido fisgado com algum tipo de atração maluca por aquela garota estranha. O tipo de atração que se sente quando se apaixona pela primeira vez na escola, quando não se tem a coragem necessária para demonstrar quaisquer movimentos e tudo se torna mágico e inalcançável, e consequentemente mais seguro de se estar perto da pessoa. Deixá-la flutuar na total ignorância dos sentimentos.
Ele não se lembrava de ter sentido algo parecido com isso em toda a sua vida.
Na verdade, nunca foi bom em nomear as próprias emoções. Tinha total compreensão de que queria beijá-la, mas não parecia ser só isso. Em toda sua experiência, quando queria beijar uma garota, era fácil atravessar as etapas até que conseguisse isso. Não era tão difícil a partir do ponto em que percebia que a outra parte estava igualmente interessada. Então sim, ele sabia que queria beijá-la, e sabia que talvez ela também.
Mas e depois? Iria beijá-la e simplesmente seguiriam a vida e a convivência, como estavam ultimamente? Era possível. Um beijo não significava lá muito essas coisas. Ele não era um garoto do interior e nem nada disso. Podia beijar uma garota sem pedi-la em casamento logo depois. Mas alguma coisa incômoda gritava no fundo de sua mente, algo parecido com: você só quer beijá-la? É sério? Conta outra!
Então beijá-la parecia muito raso para o que ele realmente queria. Sexo, então? Seria uma boa. Com certeza seria. A ideia o tomou de tal forma por um momento que ele teve de fazer o dobro de esforço para se concentrar na classificação de gêneros literários na biblioteca enquanto não conseguia descolar os olhos de , que tinha os cotovelos junto ao corpo e separava cuidadosamente os papéis, parecendo especialmente bonita naquela manhã, com os cabelos soltos e duas mechas presas atrás da cabeça, frouxas a ponto de se deixarem cair pela sua testa…
Ele bufou. Ah, ok, a ideia do sexo lhe parecia muito convidativa. Se ela quisesse, ele com certeza não seria maluco de negar, e talvez tivessem que planejar muito bem para não serem pegos, porque ele não era um tonto e nem nada como os outros viciados de sua ala e não estava totalmente alheio às regras do Instituto, ele sabia que aquilo era totalmente proibido, então…
Ainda não era tudo.
O sexo era legal, era uma boa. Mas e depois? Beijar tudo bem, agora transar era bem mais complicado de se lidar. Ele normalmente ia embora antes do café da manhã e nunca mais as via, mas sabia brevemente do protocolo que os amigos seguiam, e funcionava para todas as vertentes do sexo chapado, e nenhuma delas incluía encontrar a garota no dia seguinte e dizer olá.
Quando foi a última vez que ele tinha transado com alguém que não fosse sob um efeito maluco de algum entorpecente ou do próprio álcool? Ele não tinha ideia de como se aproximar de uma garota sóbrio.
Mesmo com tudo isso, o depois ainda parecia aceitável. Ele queria que ela estivesse lá no dia seguinte, talvez deitada ao seu lado, com os cabelos azuis caindo sobre os seios, o rosto encostado em seu peito, lhe dando bom dia assim que acordasse, ou no corredor como se nada tivesse acontecido, ou que trocassem risadinhas no refeitório pelo feito escondido, ou…
Não, o sexo não era o fim. Não iria sossegar os sentimentos avassaladores que estavam tomando conta dele. E, em hipótese alguma, ele pensaria no que geralmente vinha depois do sexo. Ele não mencionaria aquela palavra absurda.
Mesmo que se visse pensando nela agora, naquele momento, enquanto a olhava alguns metros à frente. Ela estava ajoelhada no meio do jardim, juntando tufos de neve enquanto tentava montar um boneco torto e sem consistência. O vento balançava seu cabelo junto com o cachecol, e tímidos raios de sol o deixavam brilhante e bonito. “O que vinha depois do sexo mesmo, ? Só duas coisas deixam um coração batendo rápido desse jeito como o seu está agora, você sabe. Uma delas é esforço físico e a outra é…”
— Olha só, ! — ela gritou, roubando sua atenção do mar de pensamentos enquanto apontava para o protótipo disforme que era o boneco. — Tentei fazer o personagem daquele jogo que você me mostrou no sábado, mas acho que ficou muito parecido com você. Olha as sobrancelhas sempre curvadas e ranzinzas. Como era mesmo o nome dele?
— O do chapéu vermelho? — ela assentiu. — Mario Bros.
— Isso! — ela riu de forma intensa, voltando-se para sua arte. — Então vou montar sua belíssima princesa pra que ele não fique solitário.
Ele riu com a cena, encostando-se na árvore logo atrás, sentindo novamente os grandes espasmos de uma tremenda paz consecutiva quando a olhava.
— Pega aquelas toalhas de mesa velhas da cozinha e faz ela de cabelo azul. — ele falou, colocando as mãos no bolso do casaco.
Ela o encarou, intrigada.
— O cabelo da princesa não é azul.
— Mas o seu é.
Ele deu de ombros, vendo o rubor se espalhar pelo rosto da garota, uma vermelhidão que não era proveniente do frio.
— Uma princesa não é alguém comum, então ela não deve ter um cabelo comum.
revirou os olhos por um momento, rindo de forma nervosa, tentando a todo custo esconder o quanto as palavras dele a atingiram.
saiu do abrigo morno da árvore, agora praticamente sem folhas, e ajoelhou-se ao lado dela, pegando os tufos de neve enquanto se preparava para montarem uma segunda base. A aproximação repentina dele fez o coração dela disparar de forma desordenada.
— E então — ele começou, apertando as luvas —, quando vou saber a história do cabelo azul?
— Não tem história nenhuma. — ela respondeu, a voz falha ainda pela recente fisgada no coração.
— Tem algo a ver com seu grande alto astral e a impossibilidade de não ajudar velhinhas a atravessarem a rua? Ou talvez seja um protesto político e pacifista contra as regras de uniforme da instituição? Confesso que foi bem criativo, me vejo obrigado a apoiar.
Ele riu de sua fala, enquanto ela não respondeu. Sua expressão tornou-se séria de repente, mesmo que a recuperasse um minuto depois. Ela, enfim, suspirou e disse:
— O azul nem sempre significa algum tipo de felicidade. Ou alto astral, como queira chamar.
— É mesmo? — ele riu. — Pra mim, um ponto de azul no meio de todo esse cinza já é um diferencial. E não qualquer azul, mas o seu azul, e tudo que faz parte de você, que pra mim já significam a própria felicidade.
Ele continuou a entulhar a neve, concentrado na tarefa, completamente alheio por alguns segundos pelo fato da garota ter ficado estática enquanto o encarava. As palavras dele tiveram o efeito de uma avalanche, e ela não sabia qual o próximo passo. Ela, assim como ele, também desconhecia o que estava acontecendo ali, o que remexia seu coração de forma brutal toda vez que o via. Ela imaginava o que poderia ser, mas a constante negação não a permitia parar e pensar. Porque ela poderia se apaixonar por um cara como Harris, mas Harris jamais se apaixonaria por uma garota como ela.
Então, ao ouvir aquelas palavras, e todas as frases ambíguas que ele soltava sem perceber há alguns dias, ela não sabia como interpretar tais sentenças. Eles estavam se dando bem e claramente construíam uma amizade, que estava sendo boa para ambos os lados, principalmente para , e ela percebia isso com clareza. Antes ela o achava inconvenientemente desagradável, e sua única coisa que a dava alegria era imaginar a loja de carros usados que ele trabalharia quando tivesse trinta anos. Mas agora ela se questionava: era assim que ele falava com todas as amigas? Será que ele não sabia do perigo que era fazê-las se apaixonarem deliberadamente por aquele sorriso, juntamente com as palavras?
Isso a irritava algumas vezes. E ah, o universo sabia muito bem que Comingore dificilmente ficava irritada. E ela gostava da naturalidade de , da forma como se portava quando estava relaxado, das palavras doces que saíam de sua boca, e ela claramente não sabia lidar com nada disso. Seu coração parecia estar se entregando sem seu consentimento, e deveria estar na cara de todos porque seu sangue pulsando frente àquilo também não fazia o menor esforço em esconder, então tudo se tornava extremamente irritante.
E aquele sentimento não poderia existir. Em hipótese alguma. Não quando ela estava prestes a ir.
Ela sentiu a bochecha corar, e voltou a se concentrar na montagem ao perceber que estava parada há tempo demais. Tempo demais olhando para o rosto dele.
— Tá frio aqui, não acha? — murmurou, de cabeça baixa. — Melhor a gente entrar. Marian disse que Biff faria chocolate quente.
Ela se levantou antes de ouvir qualquer resposta dele. Esperava ter sido verdadeira ao falar sobre o chocolate quente (que não fazia ideia se teria mesmo), mas sentia cada vez mais a dificuldade em pensar direito ao lado do rapaz.
As luzes piscando rente aos tufos de neve no jardim saudavam a chegada do Natal.
olhou para o cachecol azul pendurado no encosto da cadeira ao pé da janela. Ela o havia confeccionado na última semana, mesmo depois de ela e prometerem um ao outro não trocar presentes. Ela pretendia cumprir a promessa, mas nada a impediria de presenteá-lo na próxima semana. A temida semana.
Talvez pudesse ser visto como um presente de despedida.
Em contrapartida, ele andava de um lado a outro em seu quarto enquanto tentava embalar a grande folha de papel A4 em um embrulho mal feito e complicado que havia pedido para um cara que ensinava trabalhos manuais em algum horário da terça-feira. A tentativa de não arruinar o presente se mostrava bastante falha, mas não dava para confiar em outra pessoa para fazer aquilo por ele. certamente descobriria seu desrespeito ao acordo e tudo iria por água abaixo.
Por fim, às oito, a sala de jantar parecia mais aconchegante do que nunca. A árvore de Natal, que fora montada em conjunto com sua surpreendente participação, repousava no canto da fachada de vidro, brilhando e piscando enquanto o som abafado das conversas era animado. Ele quase não reconheceu alguns colegas com as roupas novas e livres daquela noite de véspera de Natal. As garotas estavam bonitas com maquiagem, e observou o senhor Shepard se gabando de sua terrível gravata borboleta, enquanto seguia estudando as tiras de couro que uma outra garota tinha pendurado nas próprias orelhas.
vasculhou todo o local à procura dela. Olhou a neve caindo lentamente lá fora e de repente se sentiu inquieto. Talvez ela se zangasse pela quebra do acordo? Não que ele já tivesse visto ela zangada alguma vez na vida… Ou quem sabe ela também tivesse preparado uma surpresa? Ele se lembrava de ouvir histórias sobre trocas de presentes infindáveis e pontuais todo ano com os outros internos…
A música de fundo era algo como um disco de Chet Baker ou Lester Young, ou qualquer jazz sem sentido que servia para impulsionar as pessoas a dançarem. Ele não se lembrava exatamente do que era, e muito menos se atentou a isso quando ela entrou na sala dando risada de alguma piada sem graça de Marian. Naquele momento, ele se esqueceu da neve e do frio que odiava, das luzes de Natal que eram bregas e da comida sem açúcar e pastosa que com certeza serviriam no jantar. Não, seus olhos haviam sido sugados por ela naquele vestido branco, com as mangas curtas e balançando até um pouco abaixo do joelho.
Fora daqueles muros, ele sabia que jamais repararia em uma garota tão simples e ao mesmo tempo tão excêntrica. Mas ali, enquanto a olhava, chegou a ser grato por sua mãe tê-lo encontrado naquele asfalto caótico e vazio, transbordando as drogas compartilhadas por caras de quais ele mal se lembrava do nome e ter feito todo o possível para trazê-lo onde estava naquele momento. Jamais conheceria Comingore se tivesse realmente alcançado seu objetivo naquela noite.
Ela finalmente o viu do outro lado do salão, e levantou os braços para acenar. desfez o punho que tinha formado com a mão e se preparou para caminhar até ela, tendo consciência da batida acelerada no coração, pretendendo não ignorá-la desta vez, quando seu braço foi puxado com certa urgência até a mesa.
— ! Você está tão bonito com essa camisa! Não vai acreditar no que preparei para o jantar.
Aquela garota, que não se lembrava do nome, o carregou para longe enquanto ele virava o rosto rápido para , que ria com a cena, mas também começava a ser carregada para ocupar um lugar à mesa.
Ao menos o lugar em questão era na frente de , que fazia o possível para participar e prestar atenção às demais conversas enquanto espantava a distração que era Comingore sem o moletom largo e com maquiagem, mesmo que leve, e brincos pequenos e brilhantes nas orelhas. Até o sorriso dela parecia mais especial, mais cintilante do que o normal. Ele estava legitimamente atraído por ela naquela noite, como nunca esteve antes.
Depois de uma hora, as conversas à mesa iam ficando mais altas, assim como a música, e todos pareciam entretidos demais para notarem o pequeno sinal de cabeça que fez para , convocando-a para algum ponto do lado de fora, e os dois saírem sorrateiramente do lugar sem serem notados.
Ele pegou em sua mão quando se afastaram o suficiente e subiram os três lances de escada até o terraço, que estava moderadamente frio naquela noite, mas a neve fina iluminada pelas luzes abaixo e as da cidade que brilhavam ao longe era uma visão irresistível demais para ser ignorada. riu ao correr para o beiral, pondo as mãos no concreto molhado e soltando um gemido de susto com a superfície extremamente gelada.
— Cuidado, tá muito frio. — riu, tirando o sobretudo e passando-o pelos ombros dela. — É a primeira vez que você vem aqui em cima?
— No inverno sim. E agora entendo porque nem o senhor Cusack se anima de pisar aqui nessa época do ano pra tirar a neve em excesso. — ela escondeu as mãos nas mangas longas e grossas do casaco, sentindo o cheiro dele tomar suas narinas de forma inebriante. — Como consegue fumar aqui em cima com, quem mesmo? Emmett?
— Tudo depende da velocidade do vento. — ele deu de ombros, sorrindo de canto. — Mas pelo visto Emmett anda saindo com alguma garota loira da Ala 3, então não tem sobrado muitos pra mim, sabe.
— Oh, meu Deus! Não acredito que vou ver um casal se formando aqui antes de eu-
Ela parou de falar repentinamente, diminuindo o sorriso. juntou as sobrancelhas.
— Você o quê?
— Nada, nada. — ela riu nervosa, revirando os olhos rapidamente. — E então, o que estamos fazendo aqui?
— Ah, eu… queria te dar uma coisa.
Ele rapidamente voltou-se a um dos cantos do terraço, abaixando-se ao lado de uma antiga tábua que guardava uma caixa.
— Eu não iria conseguir carregá-lo comigo, então achei mais seguro guardar aqui.
— … — arregalou os olhos enquanto o via voltar com o pacote. — O que é isso? E o combinado de não trocar presentes? Eu não trouxe nada pra você.
— Abre primeiro e pode discutir comigo depois. Vai lá. — ele estendeu o embrulho para ela, que pegou um tanto desconfiada.
O conteúdo revelado na folha A4 deixou estática por vários segundos. O desenho, tão perfeito e detalhado, com seu cabelo azul em cores vivas e seu olhar a encarando eram como se estivesse olhando para um espelho. Como se tivesse simplesmente revelado uma foto dela.
— Você… Quando… — ela não sabia o que dizer. Olhava da foto para ele repetidas vezes. — Quando você fez isso?
— Acho que tem algumas semanas. — ele deu de ombros, a satisfação salpicando seus olhos. — Foi uma bela construção durante esse tempo. Lembrei que gostava de desenhar, mas estava bem enferrujado. Foi bom usar você de cobaia pro retorno triunfal das minhas habilidades.
— Seu… — ela trincou os dentes, e ele riu. — Não acredito que me enganou desse jeito. Eu realmente não preparei nada, quer dizer, eu não…
— Tudo bem, tudo bem, sei como você é certinha com promessas. Não esperava que as quebrasse desta vez. — sentiu um tremor leve na base da nuca. Estava se perguntando qual seria o significado real do presente de , mas isso piorava os calafrios do fundo do estômago.
— Posso te dar minha parte da sobremesa. — ela tentou contornar, guardando o desenho novamente no pacote. — Ou uma camiseta de Hotel California. Qualquer outra coisa, porque sério, não posso aceitar receber algo nesse dia e não retribuir.
— Na verdade, se quer saber… — ele disse, hesitante. — Tem algo que eu quero.
— O que você quer, senhor Harris?
Ele baixou os olhos por um segundo, avaliando seus pés, pensando em como iria em frente depois de seus cinco segundos de coragem. Olhou para ela novamente, que tinha as sobrancelhas levantadas em espera, porém o brilho cômico e divertido no olhar que nunca se apagaram uma só vez desde que a tinha conhecido.
Ele teve a certeza repentina da dúvida que rondava sua mente. Do que vinha depois do sexo. Daquela única palavra que antes parecia amarga e imaginária, mas naquela hora era verdadeira, palpável. O impulso que o levou a pegar o rosto dela em suas mãos de forma delicada e suave e ir se aproximando devagar do que realmente queria, bem devagar, para que ela entendesse o que estava acontecendo e parasse se quisesse, mas por Deus, que ela quisesse aquilo, a mesma coisa que ele queria sabe-se lá há quanto tempo.
A aproximação a assustou, porém, ela não conseguiu se mexer. Ela sabia o que iria acontecer, e caso não saísse dali naquele momento, se não clareasse os ouvidos, aquilo de fato aconteceria. E mesmo com seu coração pulsando, ardendo em expectativa, sua mente gritava que ela deveria parar agora, que não deixasse aquilo avançar por mais nenhum segundo, que as consequências poderiam ser catast-
Quando ele a beijou, soube que já era tarde demais. Que ele havia tomado mais do que deveria. E queria pensar em mais martírios e frustrações se não fosse a perda quase total dos pensamentos lógicos com aquele beijo que incendiou cada parte do seu corpo.
Aquela noite teve uma duração que nenhum dos dois soube dizer quanto. Varrendo as preocupações para debaixo do tapete, se deixou levar pelo que deveria ser sua primeira aventura romântica e maluca da vida, mesmo que tivesse de dar adeus à ela mais cedo do que esperava. Saber que estava apaixonada por ele não mudava em muita coisa sobre seu destino, porém, ela havia percebido que nunca estivera à mercê da palavra reciprocidade, até experimentá-la de fato com ele. E ela implorava que aquilo, sim, pudesse mudar destinos.
A saúde de Comingore já estava debilitada há pelo menos doze anos.
Se ela tivesse pais ou fosse registrada por algum responsável alguma vez na vida, talvez pudesse conseguir uma vaga em algum centro de tratamento público e conseguir salvar sua vida com a ajuda do governo. Porém, visto as teorias da conspiração e as reportagens abafadas dos hospitais cedidos aos veteranos da guerra do Vietnã, ela duvidada muito que o governo estivesse disposto a salvar alguma vida.
Ela iria morrer.
Queria dizer que a ideia a desesperava, mas não. Ela esperava a morte, como se espera o jornal pela manhã. Era a única certeza que ela tinha. E mesmo depois de ser acolhida por um homem corpulento e autoritário como o doutor Wonka, testar novas drogas de tratamento, ser o mais perfeito e diligente rato de laboratório para a felicidade de cientistas e pesquisadores, ela sabia que não existiria saída. Talvez toda a sua dor do presente fosse o primórdio de grandes avanços para os doentes do futuro, mas ela não passaria daquilo. Sua vida se resumiria a uma estatística, e em hipótese alguma seu nome estaria na história.
Foi quando a informaram do que sempre soube: não tinha mais jeito. Ela poderia continuar vivendo dentro daquelas paredes pelo tempo que lhe restasse, mas seu sangue já não os servia mais, e muito menos as biópsias e cirurgias. Eles não sabiam exatamente quanto tempo lhe restava, mas ela saberia. Sentiria o tempo se esvaindo.
Então ela não tinha mais utilidade para os avanços medicinais. Isso parecia ser pior do que morrer. Ela queria ser útil, e viu a oportunidade em uma instituição tomada por expressões cabisbaixas e frustradas, somada aos gritos de crises de abstinências que ela volta e meia escutava. O campo de batalha contra os mais variados vícios, todos eles separados por alas e trajados de roupas cinzas e tristes.
Ela não seria triste. Lembrou-se de um livro que havia lido uma vez, sobre o poder de escolha dos sentimentos diante de alguma catástrofe. Ela poderia escolher como iria viver diante da morte iminente: ser feliz ou se mesclar junto às outras histórias de aflição e amargura que a rondavam.
Sua escolha era óbvia. Ajudar outras pessoas a tornaria útil de novo e consequentemente a traria felicidade. Mesmo que, por todas as noites, o peso sufocado em seu peito saísse para fora em diversas formas, e ela chorasse depois de todo o mal estar, e as crises de ansiedade noturnas a deixassem em claro até a manhã seguinte, quando tinha liberdade para dormir por pelo menos duas horas a mais e raramente tinha algum apetite depois daquela hora, mas a rotina havia normalizado todas essas situações. Por mais sôfregas e angustiantes que fossem todas as vezes.
No verão de 1978, quando Marian entrou em seu quarto como de costume para a medição da temperatura e pressão, ela trouxera consigo uma carta da Inglaterra. Pela sua expressão, sabia o que significava sem nem precisar perguntar. Ela poderia ser útil novamente em busca da cura milagrosa, porém seria uma última contribuição. O placar estava 50 a 50, e os resultados eram os dois extremos. Vida ou morte. E, diante de todo o sofrimento silencioso que a acometia noite após noite, ela não via porque recusar. Não que tivesse essa escolha.
No mais, Comingore pensava bem da morte. Via ela como uma amiga, a mãe que nunca tivera e que esperava pelo dia que viesse buscá-la, levando consigo todos os problemas e mazelas da vida. Havia se acostumado com a tristeza e melancolia fazendo parte de seu verdadeiro eu, e sabia perfeitamente que ninguém precisava ter conhecimento daquilo. Não precisava deixar sua marca no mundo como mais uma criança esquecida por Deus e que jamais se regozijaria da justiça de uma vida plena.
Por anos a fio, teve a filosofia de Sylvia Plath como um mantra. Como se lesse o que realmente sentia sobre si mesmo e sobre o mundo, sobre a dualidade da noite e os sonhos, a persistência em odiar o sono e a morte como uma única saída. A forma como pensava no suicídio não era lá muito usual e nem mesmo aceita na sociedade. O suicídio poderia ser a forma mais rápida de acabar com tudo aquilo, e isso não a apavorava, muito pelo contrário. A ideia de vencer, ao menos uma vez, a deixava no mínimo interessada. Vencer o mal que a atormentava, não apenas a doença de uma vida inteira, mas os pensamentos maus e desesperançosos que vieram junto com ela, que roubavam toda a cor do mundo e a deixavam afogada no cenário cinza. Ela não suportava, não aguentava a ideia de ter de deixar essa mesma vida marcar a hora que quisesse para sua morte. Não. Ela poderia resolver sozinha, por ela mesma, acima das regras.
Mesmo que não fosse tão simples assim. Entender a decisão que havia tomado de ser um ponto de bem-estar mesmo definhando por dentro foi o ponto crucial para que não tivesse tal atitude radical de imediato, mesmo que a ideia pairasse em sua mente todos os dias. Mesmo que sorrisse e se divertisse por um dia inteiro, sem interferências daquele tipo. Mesmo que ainda guardasse o livro sob o travesseiro, ou debaixo do colchão, esconderijos que ela fazia questão de mudar a cada semana. Porque ainda era uma garantia, aquilo ainda poderia ser um plano B caso não aguentasse mais, caso seu cérebro finalmente atingisse o limite e resolvesse as coisas por conta própria.
Entretanto, não fazia ideia das cartas na manga que a vida poderia esconder. Como se fosse o próprio demônio que esperaria até o último momento, até que ela atingisse o estado de espírito que vinha cultivando por tanto tempo, para então lançá-la uma última jogada. Uma que ela não esperava. Uma jogada disfarçada que fora introduzida no começo do outono, e permanecera ali, ao seu lado, por meses antes que o topasse. A jogada que Marian também não previra, e assim jogou a peça no colo da garota, que caminhou para a derrota do jogo sem saber de absolutamente nada.
Hoje, enquanto deitada sobre o peito dele assistindo o fim da aurora e a chegada da claridade, ela teve a compreensão de que havia perdido. Que talvez tivesse jogado muito sujo com a vida. Que tentara lutar demais contra o destino. Que deveria ter permanecido triste, tanto por dentro quanto por fora, que não deveria ter pintado o cabelo como forma de protesto, como teorizou o próprio , e que ele estava certo nesse ponto, a não ser que fosse um protesto contra toda uma vida no geral. Toda uma junção de coisas que queriam matá-la e, apesar de estar pronta, se sentia frustrada por não ser do seu jeito.
Desde que o conheceu, absolutamente nada foi do seu jeito. Mesmo que sua personalidade doce e solícita estivesse tão enraizada por anos de prática, e que pessoa alguma fosse ser capaz de destrinchar seus sentimentos mais profundos, somente a presença dele a deixava desestabilizada de tal forma que ela se sentia perdida no personagem, por diversas vezes.
Sabia que era inútil dar uma chance, quanto mais continuar com o que quer que estava acontecendo. Harris tinha invadido seus pensamentos, arrombado seu coração e talvez lhe mostrado que, mais do que ela fingia ver, a vida poderia ser realmente boa de ser vivida. Se ela tivesse apreciado direito. Se tivesse sido verdadeira desde o começo. Mas não tinha, e assim também não via sentido em ser apenas no final. Nem quando ele lhe perguntou sobre as cicatrizes espalhadas pelo tronco quando ela se despiu naquela noite, ou quando sempre perguntava sobre a maldita cor azul de seu cabelo, ou quando notava sua falta de ânimo ou queda de pressão repetidas vezes durante os outros dias.
Ela não sabia disso durante todos aqueles anos, mas na reta final, sabia que havia guardado todo o egoísmo contido exclusivamente para aquele dia. Foram essas e outras palavras que escreveu na última carta que depositou ao lado da cabeceira dele nos primeiros raios da manhã. O sino não tocaria e ele dormiria profundamente, sem fazer ideia de que horas ela havia deixado seus braços. E seu coração doeria, e talvez ele tivesse uma recaída, mesmo que ela pedisse explicitamente que não, mas que direito ela tinha? Ela só precisava que ele soubesse que ele foi a melhor jogada de gênio da vida contra ela, e que havia perdido. Que ele tinha devolvido um desejo de viver que ela nem sabia que tinha, o que causou um completo rebuliço em sua cabeça, mas que no final não serviriam de muita coisa.
Ele, mesmo sem saber, havia visto o eu dela de verdade. Que o azul que a identificava, inicialmente servindo para relembrá-la de seus verdadeiros sentimentos profundos e silenciosos, também poderia significar a felicidade. A harmonia, a tranquilidade. Ainda que, na carta, ela lhe revelasse que o azul também significava frieza e a própria depressão.
E, assim, ela partiu, sem grande alvoroço externo, porém sentindo que finalmente estivesse começando a morrer, como sempre esperou, mesmo com a noção evidente de que ainda não estava sendo do jeito que queria. Depois de fingir a felicidade e harmonia por tanto tempo, ela se viu livre para ir embora sem emitir um sorriso sequer, e sem segurar as lágrimas que tanto prendeu.
Afinal, Comingore era boa em atuar. Mas o show tinha finalmente acabado.
f i m.
NOTA DA AUTORA › Oiê!
Sim, eu chorei, você chorou, todos nós choramos (ou ficamos MUITO tristes) com esse final. Talvez não tenha sido o que as pessoas esperavam, mas essa história nunca foi mesmo um romance propriamente dito. Se alguém me perguntar o que ela realmente era, eu digo que ela foi uma experiência e um exercício muito bom pra mim no quesito de cavucar o ser humano até onde se possa e enxergar um pouco das razões que cada um tem pra fazer o que fazem, sentirem o que sentem e acreditarem no que acreditam. Espero que ninguém se decepcione demais rsrsrs. O Bull e a Susan realmente sentiram algo um pelo outro, mas o mundo, infelizmente, é do mesmo tom de cinza que o cenário.
Até a próxima história ɞ
Sim, eu chorei, você chorou, todos nós choramos (ou ficamos MUITO tristes) com esse final. Talvez não tenha sido o que as pessoas esperavam, mas essa história nunca foi mesmo um romance propriamente dito. Se alguém me perguntar o que ela realmente era, eu digo que ela foi uma experiência e um exercício muito bom pra mim no quesito de cavucar o ser humano até onde se possa e enxergar um pouco das razões que cada um tem pra fazer o que fazem, sentirem o que sentem e acreditarem no que acreditam. Espero que ninguém se decepcione demais rsrsrs. O Bull e a Susan realmente sentiram algo um pelo outro, mas o mundo, infelizmente, é do mesmo tom de cinza que o cenário.
Até a próxima história ɞ
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