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Independente do Cosmos🪐

Finalizada!

só queria tomar um banho.
Era tudo o que precisava; deixar a água morna cair sobre seu corpo e comer alguma coisa que não fosse comida de avião, além de dormir o máximo de tempo que pudesse até a manhã seguinte.
Ela não achava que era pedir muito, para ser sincera. Mas, pelo jeito, para o universo, era sim.
Arrastou a mala pelo lobby lotado do hotel, tentando equilibrar o celular, a pasta com os papéis e informações do festival e a mochila pesada que estava no ombro. conseguia observar a movimentação agitada no saguão, crachás pendurados no pescoço de algumas pessoas, vozes em alemão, francês e inglês.
Sabia exatamente como funcionavam festivais de cinemas, já que os frequentava com frequência por conta do trabalho, mas aquele em si parecia um formigueiro de tanta gente espalhada.
Se aproximou da recepção assim que chegou sua vez.
Respirou fundo. Só mais alguns minutinhos de burocracia e, finalmente, o chuveiro.
— Boa noite — disse, apoiando o cotovelo no balcão. — Reserva em nome de — apontou com o dedo para o próprio nome no crachá, sem muita paciência.
A recepcionista sorriu cordialmente; o exato sorriso que funcionários de hotéis cinco estrelas são treinados a dar.
— Claro, só um instante.
Ela digitou rapidamente no computador e, a cada segundo que passava, só pensava em quanto tempo mais demoraria para simplesmente tomar o banho que estava sonhando desde que havia colocado os pés no aeroporto da Alemanha.
— Hm, que estranho — ouviu a recepcionista dizer baixinho. Sua testa estava franzida para o monitor.
— O que foi?
— Parece que… O quarto da sua reserva já está ocupado — piscou, sem entender.
— Como assim ocupado?
— Temos duas reservas associadas ao quarto 304 — explicou, voltando a ler na tela. Era notável que a recepcionista começava a ficar nervosa. — Uma no seu nome a outra em nome de… — aproximou o rosto do computador. — .
.
O nome piscou em sua mente por alguns segundos, como um alarme insistente e enjoado.
Não. Não era possível.
Podia ser qualquer outra pessoa. Um homônimo. Um erro no sistema. Qualquer coisa, menos ele.
— Deve ter algum engano — respondeu rápido demais. Engoliu em seco. — Tem vários na Alemanha, certo?
Sua risadinha saiu forçada.
Mas a recepcionista nem teve tempo de responder. O barulho do elevador soou mais alto que o normal e, por reflexo, virou o rosto.
E, como se o destino não estivesse brincando o suficiente em demorar com seu bendito banho quente, apareceu; vestia um moletom claro, o cabelo loiro bagunçado e o crachá de convidado do festival pendurado no pescoço.
O mesmo sorriso tímido, os mesmos olhos claros, o gesto automático de passar a mão no cabelo quando estava cansado.
Por um segundo, não a viu. Só caminhou em direção a recepção como qualquer hóspede anônimo.
— Senhor ? — o chamou, levantando a mão.
quis abrir um buraco no chão e enfiar o corpo inteiro ali mesmo.
se virou assim que ouviu o próprio nome e aí seus olhos encontraram o de .
Foi como levar um soco no peito em câmera lenta.
O mundo continuou barulhento ao redor; malas, rodinhas e vozes misturadas. Mas, ela só conseguia ouvir o próprio coração batendo quase nas suas orelhas.
parou no meio do caminho, deixando seus olhos percorrerem o rosto de , como se precisasse de alguns segundos para ter certeza de que era mesmo ela ali.
Três anos desde a última mensagem.
Três anos desde a última ligação atravessando o fuso horário para dizer que sentia saudade.
Três anos desde o silêncio.
— Você? — ao menos piscou. Sua voz estava um pouco rouca, quase falha.
Ela engoliu em seco.
— Aparentemente, sim — cruzou os braços, desviando o olhar do dele. Como se aquilo fosse o suficiente para proteger os próprios sentimentos explícitos em seus olhos.
A recepcionista olhou para os dois, notando a tensão.
— Vocês se conhecem?
— Já nos conhecemos — corrigiu, impaciente. Apertou a mandíbula, contando os segundos para sair dali o mais rápido. Queria estar longe do olhar desacreditado de .
Longe o suficiente dele.
— Então… — a recepcionista voltou seu foco à tela do computador. — Parece que houve um erro em nosso sistema. O quarto 304 foi reservado em duplicidade, para os dois.
— Fiz essa reserva há semanas — rebateu. — Preciso de um quarto. Vou trabalhar no festival e preciso estar descansada para amanhã.
— Eu também — acrescentou. Seu olhar ainda estava preso em . — Estou a convite do festival. Minha equipe resolveu tudo com o hotel.
Ótimo pensou. Era só o que faltava; perder seu banho quente e uma bela noite de sono por culpa de .
Por culpa dele outra vez.
— Infelizmente — continuou o funcionário, deslizando o dedo pela tela touchscreen. — Estamos lotados. Todos os quartos já estão ocupados por convidados do evento. Não temos outro quarto disponível para hoje.
Ela sentiu o chão balançar nos seus pés. E não era por conta do jet lag.
— Como assim não tem? — insistiu. — Nem um single, nada?
A outra balançou a cabeça, já começando a ficar constrangida.
— Podemos tentar realocar um de vocês amanhã, se houver alguma desistência. Mas hoje… A única opção seria, bom… Compartilhar o quarto. Pelo menos por essa noite.
quase quis rir. Não era possível que a recepcionista estivesse dando aquela opção. Preferia compartilhar uma cama com o papa ao invés de .
Piscou algumas vezes, pronta para recusar.
— De jeito nenhum.
— Posso arrumar outro lugar para dormir. Sei que vai ser difícil por conta da hora, mas não tem problema. Talvez eu até cochile no saguão — comentou, se virando para a funcionária. — Não se preocupe.
— O senhor não pode dormir no saguão — o cortou, com gentileza. — Por regra do hotel. E seria desconfortável para o senhor. O quarto 304 possui cama de casal king size, é bem amplo. Podemos providenciar travesseiros e cobertores extras. É só por uma noite.
Cama de casal king size.
Aquilo ecoou mais de uma vez na cabeça de . E de também.
Como se o tamanho da cama fosse resolver alguma coisa.
sentia sua cabeça latejar. Cansaço, irritação e humilhação se misturavam.
— A senhora pode tentar outro hotel, se preferir — continuou, tentando ajudar. — Mas, sendo sincera, com o festival acontecendo, será muito difícil encontrar vaga na cidade hoje.
Ou seja; ou ela subia para o quarto com ele, ou ia disputar um banco duro em qualquer aeroporto da região.
Soltou um suspiro longo, sentindo o orgulho brigar com a falta de opções.
deu um passo mais perto do balcão, mantendo uma distância respeitosa.
— Se isso ajuda — disse, com a voz mais baixa, quase só para ouvir. — Posso ficar o mínimo possível no quarto. Saio cedo, volto tarde. Você quase não vai perceber que eu tô lá.
E como ela não perceberia?
respirou fundo mais uma vez, engolindo a vontade de simplesmente virar as costas e ir embora.
— Tudo bem — cedeu. — Mas é só por hoje.
A recepcionista quase suspirou aliviada.
— Perfeito. Vou preparar as chaves — anunciou, digitando mais algumas coisas antes de colocar dois cartões magnéticos sobre o balcão. — Quarto 304. Elevador à direita, terceiro andar.
pegou um dos cartões sem olhar para . Só queria acabar com aquilo de uma vez.
— Obrigada — murmurou.
Se virou e começou a puxar a mala em direção aos elevadores, sentindo, sem precisar conferir, que ele vinha logo atrás.
Ambos entraram em silêncio assim que o elevador abriu as portas.
Três anos para nunca mais se cruzarem.
E, na primeira vez que aquilo acontecia, o destino decidia colocar os dois no mesmo quarto.

O quarto era exatamente o que se esperava de um hotel de festival: funcional, bonito, impessoal. Piso claro, paredes em tom neutro, uma escrivaninha encostada à janela, frigobar, TV presa na parede e, no centro, uma cama de casal king size coberta por um edredom branco impecável.
entrou primeiro, arrastando a mala para dentro fazendo o barulho das rodinhas no chão acabar ficando alto demais.
Deixou a mochila na poltrona, a pasta sobre a escrivaninha e só então se virou para ver fechando a porta atrás de si.
E, por um segundo, sentiu o desconforto do silêncio ficando ainda mais presente.
— Bom… — começou, coçando a nuca. Um gesto que conhecia bem demais. — Pelo menos a cama é grande.
Ela lançou um olhar fulminante em sua direção.
— Isso não ajuda.
fechou a boca na mesma hora.
caminhou até a cama, parando do lado mais próximo da janela.
Colocou a mão ali, como se marcasse território.
— Eu fico desse lado — murmurou.
— Claro — concordou rapidamente, deixando a mochila aos pés da cama, do outro lado. — Sem problema.
abriu a mala, começando a remexer nas roupas em busca de um pijama e de um moletom mais confortável. Sentia o olhar dele passeando pelo quarto, tentando encontrar um lugar para onde ir que não fosse exatamente perto demais ou longe demais.
— Você tá trabalhando no festival como tradutora, né? — perguntou. tentava quebrar o silêncio enquanto tirava o crachá do pescoço e jogava em cima da escrivaninha. — Vi seu nome na lista de equipe.
Ela não levantou os olhos.
— Uhum.
— Faz isso há muito tempo?
— Tempo suficiente — respondeu, dobrando uma camiseta com mais força que o necessário.
Ele respirou fundo.
— Eu acompanhei algumas coisas suas, sabe? Entrevistas que você traduziu, eventos…
finalmente ergueu o olhar para ele, uma sobrancelha arqueada. Ele a acompanhava mesmo de longe?
— Me stalkeando?
ficou visivelmente sem graça.
— Não desse jeito.
— E tem jeito certo de stalkear? — devolveu, seca.
abriu a boca, mas desistiu de responder. Tirou o moletom, revelando uma camiseta simples por baixo. O movimento foi automático, mas notou mesmo assim; o jeito como o tecido esticou nos ombros, marcando os braços que ela havia tocado há anos atrás.
Desviou o olhar depressa, irritada consigo mesma por reparar.
— Posso… — apontou para a escrivaninha — Trabalhar ali um pouco, se isso não for te atrapalhar. Tenho que revisar umas coisas do festival.
— Desde que você não ronque sobre o teclado, faça o que quiser — respondeu, pegando as coisas e sumindo no banheiro.
Trancou a porta sem pensar duas vezes. O que raios estava acontecendo ali, afinal de contas?
ficou sozinho por alguns segundos, apenas ouvindo o som da água começando a correr lá dentro.
Largou a mala ao lado do armário, apoiou as mãos na cintura e soltou um suspiro lento.
Era claro que teria que ser assim. Depois de três anos sem coragem de enviar uma mensagem, o universo acharia uma boa ideia jogar os dois na mesma cama.
Foi em direção à mala, abrindo e pegando seu notebook.
Quando saiu do banheiro, minutos depois, já estava sentado à escrivaninha, com a tela iluminando o rosto e os óculos apoiados na ponta do nariz.
Ela tentou não reparar no detalhe dos óculos. Falhou outra vez.
O cabelo, agora úmido, caía levemente nos ombros. O pijama era simples, confortável, zero pensado para impressionar alguém; até porque a última pessoa que ela teria em mente ao escolher roupa de dormir naquela manhã era justamente ele.
— O banheiro é todo seu — comentou, passando uma toalha pequena pelo pescoço. — Não vou monopolizar o secador, nem nada. Pode ficar tranquilo.
— Obrigado — respondeu, sincero. — Já vou.
se jogou sentada na cama, pegando o celular para conferir mensagens e o cronograma do dia seguinte. A tela exibia notificações do grupo da equipe do festival e ela fazia o possível para focar sua atenção neles.
Não no rapaz que havia conquistado e despedaçado seu coração há alguns anos, sentado bem na sua frente.
— Li seu nome no cronograma também — comentou, depois de alguns minutos. — Vai fazer a tradução da masterclass de sábado, né?
— Entre outras coisas — disse, sem tirar os olhos do celular. — A gente não para muito nesses eventos.
— Você sempre foi boa em falar por todo mundo — ele arriscou, sorrindo de canto. — Agora faz isso profissionalmente.
Ela fechou o aplicativo e olhou pra ele.
— Não tenta ser fofo. Não combina com o fato de que você é péssimo em responder mensagens.
engoliu em seco.
— Eu mereci essa.
— Mereceu algumas piores — retrucou, voltando a mexer no aparelho.
Ele não respondeu.
Se levantou, pegou as roupas na mala e foi para o banheiro sem dizer nada.
Foi o momento em que suspirou, deixando o celular na cama. Deixou o corpo cair também, exausto.
Ela queria dormir, o cansaço físico gritava, mas sua mente não descansava.
estava ali.
No mesmo quarto.
Na mesma cama.
Quando voltou, estava de camiseta escura, calça de moletom e o cabelo também úmido. já tinha puxado o edredom até a cintura e fingia estar profundamente interessada em algum feed qualquer na tela do celular.
— Olha, eu… — coçou a nuca outra vez. — Posso pegar um travesseiro, um cobertor e dormir no chão. Fica mais confortável pra você.
Ela olhou para o chão. Frio, duro, desconfortável.
— Não vou levar a culpa de você dormir no carpete do hotel — disse, depois de alguns segundos. — Não sou tão cruel assim.
— Acho que mereço um pouco de desconforto — tentou brincar, mas permaneceu séria.
— Isso não vai apagar o que você fez — soltou, seca. — E amanhã suas costas vão estar destruídas e sei que sua agenda deve estar cheia. Vai ser ruim pra todo mundo.
assentiu.
— Então eu… Fico aqui. Prometo manter uma linha imaginária no meio — apontou para o outro lado da cama, com certo cuidado. Quase como se qualquer coisa que dissesse ou gesto que fizesse pudesse colocar tudo a perder. Se é que tinha algo para perder.
— Ótimo.
Ele pegou dois travesseiros e se deitou de lado, de costas para ela. O colchão afundou levemente e sentiu o corpo esquentar, mesmo sem querer.
O silêncio se tornou presente outra vez.
apagou a luz do abajur, deixando o quarto em um breu.
E, por alguns minutos, o único som possível de se ouvir era o do ar-condicionado e da respiração dos dois.
Ela, de olhos abertos, encarando o teto.
Ele, de olhos fechados, fingindo estar dormindo.
se mexeu minimamente, tentando encontrar uma posição mais confortável, mas aquilo havia sido o suficiente para que o corpo de se aproximasse alguns centímetros. Nenhum dos dois havia se tocado, porém perceber o que havia acontecido fez com que ambos sentissem o corpo quase pegar fogo.
Ela prendeu a respiração. fez o mesmo.
— Desculpa — sussurrou, ainda de costas para . — Vou ficar mais na beirada.
— Espero que não caia. Não vou te levar para o hospital.
soltou uma risadinha fraca só de ouvir o meio tom de piada vindo dela.
— Justo.
E então, ficaram em silêncio mais uma vez.
Mas, era nítido que algo ali parecia diferente de antes.
Menos gelado e ríspido, talvez.

não fazia ideia de quanto tempo havia se passado desde que apagou a luz do abajur.
Vinte minutos. Uma hora. Ela não fazia ideia.
Tudo o que tinha certeza era de que seu sono não vinha de jeito nenhum.
Seu corpo virava de um lado para o outro, tentando encontrar um espaço confortável o suficiente para que sua mente pudesse desligar, mas tudo o que conseguia focar era que , seu ex-namorado, estava deitado dormindo bem do seu lado.
Depois de três anos.
Tentou focar no barulho do ar-condicionado e até mesmo repassou mentalmente o cronograma do festival que aconteceria horas depois. Nada funcionava.
Ela não conseguia parar de pensar no que estava acontecendo.
— Ainda não dormiu, né?
Ouviu a voz de dizer baixinho, quebrando o silêncio.
Seu coração descompassou.
virou o rosto em direção à ele, mesmo sem enxergar muito bem.
— Não — respondeu. — Difícil conseguir dormir depois dessa ironia do destino.
Ele riu fraquinho, sem humor.
— Também não consigo.
Ficaram em silêncio mais alguns segundos. ajeitou o edredom grosso no corpo e pressionou os lábios, respirando fundo.
Se já estava acordada e ao menos conseguia dormir, não iria passar a noite inteira engasgada com todas as perguntas e dúvidas que havia tido nos últimos anos.
— Porque terminou comigo daquele jeito? — soltou, de repente. A frase saiu mais rápido do que imaginou.
Seu coração tamborilava tão forte que quase seria capaz de escutar.
demorou para responder. quase conseguiu vê-lo engolindo em seco.
— Achei que a gente fosse deixar essa conversa pra sempre sem resposta — murmurou.
— Parabéns — retrucou, sentindo novamente a pontinha de mágoa. — Três anos é tempo suficiente pra fugir do assunto.
Ele suspirou, virando o corpo devagar na cama até ficar de frente para ela. sentiu o colchão afundar minimamente, o aproximando dela.
— Eu fui covarde — disse, por fim. — Isso você já sabe.
riu sem graça.
— Já desconfiava, na verdade. Saber mesmo, ninguém nunca me contou.
ficou em silêncio por um momento.
— Naquela época tudo aconteceu muito rápido — iniciou. — Os projetos, as filmagens, entrevistas, viagens… Todo mundo tinha uma expectativa sobre o que eu deveria ser, como eu deveria agir, o que eu não podia errar. Eu tentava dar conta de tudo e fingir que estava tudo bem, mas não estava.
ouvia atenta, mas ainda assim não havia abaixado a guarda.
— E isso te impediu de dizer um eu não tô bem? — perguntou, baixinho. — Porque claramente você conseguiu digitar um acabou.
Ouvir a frase vindo direta e pessoalmente de quase esmagou o coração do rapaz. Sabia que tinha a magoado e se arrependia daquilo todos os dias, mas não fazia ideia de quão pesado seria notar a mágoa que ela ainda carregava depois de todos os anos.
— Comecei a ter crises — continuou, sem fugir do assunto. — Ataques de pânico no set, noites sem dormir, medo de ficar em público. Todo mundo precisava que eu continuasse funcionando. Não queria que você visse aquela versão minha.
apertou os dedos no lençol.
— Já vi versões suas bem piores — engoliu em seco, tentando disfarçar a raiva que sentia. — Inclusive aquela vez que você tentou cozinhar e quase incendiou seu apartamento. Não foi isso que me fez ir embora.
sentiu o coração quase parar. Eram coisas como aquela que o fez se apaixonar por .
E mesmo assim a deixou escapar.
Ele sorriu de leve.
— Eu tava com medo, . Medo de não conseguir ser o namorado que você merecia. Medo de te arrastar pra uma vida em que eu tava sempre cansado, ausente, ansioso. Parecia mais justo te deixar livre.
— Justo? — repetiu, incrédula. — Você chama de justo decidir por mim?
Ele até abriu a boca, mas havia sido mais rápida.
— Você não só terminou comigo — continuou. Sua voz começava a falhar aos pouquinhos. — Você me apagou. Sumiu. Desapareceu como se eu fosse descartável. Nem a decência de me olhar na cara e dizer que tava com medo, que não tava bem. Fui dispensada por mensagem, . Mensagem.
Ele fechou os olhos, sentindo o peito afundar.
merecia cada palavra que ela dizia.
— Eu sei — murmurou. — Penso nisso toda vez que lembro. Penso em você lendo a mensagem, em como deve ter te magoado. Não me orgulho de ter sido esse cara.
Ela respirou fundo, tentando segurar o choro fraquinho que viria à tona se continuasse se recordando do que havia acontecido.
— Mudei de país, para um lugar desconhecido, por você. Mudei minha rotina, meus planos. Tudo, — sussurrou, virando o rosto. Como se pudesse ver sua fragilidade e ela quisesse esconder. — E, do nada, eu só parei de existir na sua vida.
O silêncio se tornou presente outra vez. Mas, diferente de antes, não era incômodo. Era como se ambos tivessem mil coisas para falar, mas não soubessem como continuar colocando para fora.
Ele se aproximou mais um pouco. Agora conseguia ver o contorno do rosto de , o cabelo bagunçado e os olhos claros a procurando.
— Nunca parei de pensar em você — confessou. — Nenhum dia. Nenhuma vez que voltei pra Alemanha. Em cada lugar eu pensava em você e no que tinha feito.
quase sentiu o coração ameaçando a ceder pelas palavras de , mas se segurou, tentando se recompor.
— E o que te impediu de, sei lá, mandar uma mensagem qualquer? Oi, fui um idiota, tô tentando não ser mais. Já seria um começo, .
sorriu triste.
— O medo de que você não respondesse — disse, sem rodeios. — E mais medo ainda de que você respondesse. Se eu olhasse pra você de novo, ia querer ficar. E eu ainda não sabia se conseguia ser alguém que valesse a pena ficar.
Ela ficou quieta.
Aquilo não apagava tudo o que havia feito. Não desfazia os dias em que ela ficou encarando a tela do celular esperando uma desculpa que nunca veio. Mas, parecia extremamente sincero para que ela pudesse duvidar.
Suspirou, virando também o corpo de frente para ele. A distância entre eles agora era mínima. Ela conseguia sentir o calor da respiração de e o cheiro familiar de sua pele.
— Não precisava de você perfeito — murmurou. Sua voz estava quase sumindo. — Só precisava que você fosse honesto. Comigo. Com você mesmo. Qualquer coisa teria sido melhor do que nunca mais ver você.
quase a abraçou.
— Eu sei. E se pudesse voltar atrás, me obrigaria a ir atrás de você. A bater na sua porta, a pedir pra você gritar comigo na minha frente e não pela tela de um telefone.
Ela deixou escapar uma risadinha, triste.
— Eu teria gritado mesmo.
— Eu sei — repetiu. — E eu mereceria cada grito.
Por alguns segundos, os dois ficaram se olhando. Tão próximos, mas tão distantes ao mesmo tempo.
— Nunca quis que você achasse que era pouca coisa — sussurrou. — Você foi exatamente o contrário. Foi tanto que eu não soube lidar. E isso não é desculpa. É só a verdade que eu deveria ter dito há três anos.
Ela sentiu os olhos queimarem. Piscou rápido, segurando a emoção.
— Você me machucou pra caralho, .
— Eu sei… — pressionou os lábios. — E eu não espero que uma noite num quarto de hotel resolva o que três anos estragaram. Mas, se eu tiver a chance de consertar pelo menos um pedaço, eu vou tentar, .
sentiu o peito quase explodir.
moveu a mão devagar por cima do lençol até quase encostar na dela. Ele parou ali esperando, sem pressionar. olhou para o espaço minúsculo entre os dedos dos dois, pensando em um turbilhão de coisas ao mesmo tempo.
Poderia recuar. Poderia puxar a mão de volta, virar para o outro lado e encerrar a conversa com um boa noite frio. Mas, ao invés disso, deixou que os dedos se aproximassem um pouco mais, o suficiente para sentir o toque leve da ponta dos dedos dele nos seus.
Sentiu o braço arrepiar e o corpo esquentar.
respirou fundo, como se tocá-la fosse o ápice de seu alivio.
— Eu sinto muito — disse, baixinho.
— Isso não arruma tudo — respondeu. Sua voz estava mais calma.
— Eu sei — concordou. — Mas é um começo?
Ela pensou por um instante. Depois, apertou de leve os dedos dele, num gesto quase imperceptível.
Talvez.
Ficaram assim por alguns segundos; as mãos entrelaçadas por cima do lençol que os cobria, só relembrando dos momentos que um dia tiveram juntos.
Então, se aproximou um pouco mais. não recuou.
O rosto dele ficou a poucos centímetros do dela e conseguiu ver nitidamente os traços que achava que já tinha esquecido; a curva do nariz, o contorno da boca, a linha da mandíbula que ela conhecia de tanto observar de perto.
— Se não quiser, é só dizer — murmurou. — Eu paro. Vou pro meu lado da cama, pra minha vida, pro que você achar melhor. Mas, se não me disser nada…
não disse.
se inclinou devagar e ela fez o mesmo.
O choque dos lábios foi instantâneo. E nada calmo. Era urgente, impaciente, sufocado por tudo o que havia ficado preso há três anos.
o puxou para mais perto pela gola da camisa, sentindo o gosto de a impregnar por inteiro.
Era como se ambos não quisessem perder qualquer tempo.
A mão dele deixou o lençol e subiu devagar pela lateral do corpo de , sentindo o tecido fino do pijama e o calor da pele por baixo. Quando os dedos de tocaram sua cintura, ela arfou contra sua boca, mas não recuou; apertou ainda mais a barra da camiseta entre os punhos.
A única coisa que se passava da cabeça de era que precisava dele o quanto antes. E não pensava diferente.
Suas pernas se entrelaçaram sem muita delicadeza por baixo do edredom, em um atrito que conheciam bem. Era possível notar que o quarto, antes silencioso, agora era inundado por respirações curtas e suspiros.
O pijama começou a parecer tecido demais entre os dois. Os dedos de deslizaram pela barra da blusa fina que vestia, hesitando por um segundo, respeitando caso ela dissesse não. não pensou duas vezes e levantou os braços, deixando claro o que ele poderia fazer.
— Senti tanto a sua falta — confessou, antes de beijá-la outra vez.
sorriu de canto. Ouvir a confissão de a fez, por meio segundo, querê-lo em sua vida novamente.
— Você não faz ideia de como eu também senti.

levou alguns segundos para entender onde estava.
A primeira sensação que teve foi o ar frio do ar-condicionado do quarto e um calor específico que a envolvia por trás.
O braço de repousava pesado sobre sua cintura, a mão aberta, encaixada entre o colchão e o tecido do pijama que ela sequer lembrava que havia vestido.
E sentia a respiração dele, lenta, batendo na sua nuca.
Merda.
Ela apertou os olhos por um segundo, como se pudesse adiar o que havia acontecido por mais alguns instantes. Mas, ouviu o celular vibrando em algum lugar perto da cabeceira.
esticou o braço com cuidado para alcançá-lo, tentando não acordar .
Não deu certo.
— Desliga, por favor — murmurou. Ela quase arrepiou só de ouvir a voz rouca de .
Apertou o botão, silenciando o alarme e ficou mais um segundo ali, imóvel, com o celular na mão e a respiração presa. só conseguia se lembrar da noite anterior.
As mãos dele.
As palavras sussurradas.
A confissão atravessada entre um beijo e outro.
O corpo de respondendo como se nenhum dia tivesse passado desde a última vez que estiveram juntos.
Lembrava de tudo em flashes; o toque das mãos de em sua pele nua, o jeito como ele dizia e e o modo como o quarto inteiro parecia pequeno demais para os dois.
E, agora, com abraçado a si, a noite anterior pareceu grande demais para o que realmente foi.
engoliu em seco.
Tirou a mão dele de sua cintura e se virou na cama. ainda tinha os olhos fechados e o cabelo loiro bagunçado. Tinha também uma leve marca de sono em uma das bochechas e os lábios entreabertos deixavam escapar uma respiração calma.
Suspirou, levando a mão até o próprio cabelo, sentindo o emaranhado que se formou ali durante a noite.
— Vai ficar me encarando por muito tempo?
Ouviu sussurrar com um sorrisinho de leve no canto dos lábios.
quase rolou os olhos.
— Se eu disser que sim, você volta a dormir?
Ele abriu um dos olhos, preguiçoso e conseguiu um sorriso completo assim que a viu.
— Bom dia.
— Ainda tô decidindo se é — murmurou.
se ajeitou na cama, deitando de costas, com uma das mãos cobrindo o rosto por um instante, organizando os pensamentos antes de falar.
— Como você tá? — perguntou, virando o rosto na direção dela outra vez.
considerou encurtar a conversa, encerrando por ali. Mas, respirou fundo e pressionou os lábios, virando o rosto para ele também.
— Cansada. Dolorida… — sentiu as bochechas queimarem. — E com a agenda cheia pra hoje.
Ele riu baixinho.
— Perguntei emocionalmente — esclareceu.
Ah — fez uma careta leve. — Emocionalmente eu tô… Confusa? E um pouco irritada comigo mesma.
Ele se apoiou no cotovelo, a observando.
— Irritada porque..?
— Porque, depois de tudo o que você fez, ainda é você — respondeu, direta. — Ainda é você quem consegue estragar minha cabeça e consertar meu corpo na mesma noite.
fechou os olhos por meio segundo.
Quando abriu de novo, viu a expressão de ainda séria, como se passasse tudo o que aconteceu em mente.
— Não me arrependo de ontem — comentou, ainda sem tirar os olhos dela.
— Eu também não — ela admitiu, num suspiro. — Esse é o problema.
Ficaram alguns segundos em silêncio, encarando um ao outro.
— Preciso levantar — comentou, afastando o lençol e sentando na beira da cama. — Tenho ensaio da masterclass daqui a pouco. Se eu chegar atrasada, vão me matar.
a observou levantar e prender o cabelo em um coque improvisado com o elástico no pulso.
… — chamou. sentiu o corpo esquentar ao ouvir seu nome sendo chamado pela voz dele outra vez.
Parou, sem se virar.
— Não vou fingir que tudo tá resolvido porque passamos a noite juntos — continuou. — Seria estúpido.
Ela riu sem qualquer humor.
— Surpreendente. Três anos atrás você era ótimo em fingir as coisas.
— E ainda sou — confessou. Seus olhos procuravam os dela. — Mas, ontem não estava fingindo nada.
respirou fundo, ainda sem olhar para trás.
Eu sei.
E entrou no banheiro antes que aquilo continuasse.
Ela precisava pensar e espairecer sobre tudo. Será que havia sido um erro?

🛏️💙

O dia passou mais rápido do que imaginava.
Ela atravessou o hotel com crachá, caderno e fones de ouvido pendurados no pescoço, entre salas, traduções simultâneas e ajustes de última hora. O corredor principal do festival fervia com gente, flashes, jornalistas, fãs segurando fotos e cartazes com o rosto de alguns famosos que estariam presentes, diretores discutindo, assistentes conferindo listas e horários.
Era o tipo de caos em que costumava se afundar para não pensar em mais nada além do trabalho. Mas, daquela vez em específico, sua mente não parecia funcionar muito bem e só conseguia focar em lembrar o que havia acontecido na noite anterior com .
Aquilo a irritava profundamente.
Principalmente por ter encontrado algumas vezes durante o dia; o que não ajudava a esquecê-lo.
Os dois haviam trocado alguns olhares discretos, como se perguntassem um ao outro o que aconteceria depois. O que seria deles depois. E se conversaram em algum momento depois.
Era torturante. Mas, ainda assim, decidiu focar em seu trabalho.
E foi só no fim do dia que finalmente conseguiu desacelerar de vez. A programação do festival havia acabado por completo e as pessoas que haviam participado começam a se espalhar para os bares, assim como a equipe técnica começava a desconectar toda a fiação do evento.
aproveitou para escapar da agitação, pegando o corredor menos movimentado, sentindo que se não ficasse sozinha por meio segundo, explodiria.
Avistou a porta do quarto que estava ainda hospedada com e encostou o cartão magnético na maçaneta, entrando sem pensar duas vezes.
deixou a mochila na poltrona, tirou os sapatos, suspirou pesado e o corpo cedeu na cama.
Precisava de um banho. Precisava de sono. Precisava, principalmente, esquecer a noite anterior.
Ouviu uma batida leve na porta e respirou fundo outra vez.
Um.
Dois.
Três toques.
Caminhou até ela e abriu. estava no corredor, sem terno, sem crachá e sem a equipe. Usava uma camiseta clara, uma jaqueta jeans por cima e um olhar brilhante que ela conhecia bem.
— Se for pra discutir de novo, quero pelo menos um pouco de água — disse, encostando o corpo no batente da porta.
Ele sorriu de canto.
— Eu trouxe — levantou a mão, mostrando uma garrafinha d’água que provavelmente estava bebendo no caminho até lá. — Aprendi com a melhor.
— Entra logo.
Ela abriu espaço. entrou, fechando a porta atrás de si.
Poderia ter usado o próprio cartão magnético para entrar, mas depois do ocorrido anterior, queria fazer o possível para não chatear .
Não mais que antes.
— Sei que você tá cansada — iniciou, ficando de frente para . — Prometo ser direto.
— Isso é novo.
ironizou, arqueando a sobrancelha levemente. Seu coração batia acelerado, já receosa sobre o que quer que viria a seguir.
— Tô tentando impressionar — pressionou os lábios, tentando deixar o clima mais leve. Respirou fundo. — Não sei como dizer sem parecer um idiota outra vez, mas preciso tentar mesmo assim.
Ela cruzou os braços.
— Começa admitindo que foi um estúpido, talvez.
— Bom ponto — concordou. — Fui um estúpido. Terminei da pior forma possível, na hora errada e do jeito mais covarde. Poderia ter dito que estava mal, poderia ter pedido ajuda, poderia ter deixado você decidir se queria ficar ou não. Só que decidi sozinho, como se tivesse o direito de te proteger de mim mesmo te machucando.
sentiu o peito apertar.
— Nesse aspecto você foi bem eficiente — soltou uma risada curta, sem humor. — Doeu exatamente como você imagina.
— Eu imagino pior — admitiu, já com a voz começando a falhar.
Ela percebeu.
se aproximou um pouco mais.
— Não tô aqui pra pedir que você finja que isso não aconteceu. Nem pra dizer que uma noite resolve tudo. Só… Não aguento a ideia de ir embora do festival e saber que isso vai ser só uma lembrança.
respirou fundo.
— E o que você quer que seja, então?
— Quero que aqui seja onde começamos a fazer diferente — disse, firme. — Não posso prometer que nunca vou errar. Sou péssimo nisso e você sabe. Mas, posso prometer que, se me deixar tentar de novo, não vou sumir sem dizer uma palavra. Vou estar lá. Em chamada, em mensagem, em pessoa, quando der. E, se eu estiver mal, eu vou te falar. Nem que seja pra você jogar na minha cara que eu tô sendo dramático.
continuou o olhando, absorvendo cada palavra. Seu coração ainda tamborilava.
Ela podia dizer que era pouco. Podia dizer que ele devia ter vindo com algo mais cinematográfico, algum discurso grandioso digno de coletiva de imprensa e manchete de tablóide, já que estava acostumado com aquilo. Mas, no fundo, o que tinha faltado da outra vez não era algo grande. Tinha faltado exatamente aquilo que ele oferecia naquele momento; constância, honestidade, e presença.
— Eu tô com medo — depois de um tempo em silêncio, admitiu. — Muito mais do que deveria. Medo de acreditar em você e daqui a alguns meses me ver de novo encarando o celular, esperando você responder.
— Eu também tô — disse, sem hesitar. — Tô com medo de errar, de não dar conta, de não conseguir equilibrar tudo. Mas, da última vez, deixei o medo decidir por mim. E a única coisa que consegui foi te perder de um jeito que eu não consigo perdoar. Hoje quero que essa decisão seja nossa. Mesmo que a gente erre junto.
estendeu a mão, com cuidado.
— Se disser que não, vou aceitar. Vou sair por aquela porta, vou fazer minhas malas e vou viver com o fato de que a melhor coisa que me aconteceu foi algo que eu mesmo destruí. Mas se você disser que sim… Vou passar os próximos dias, meses e anos, tentando ser, pelo menos, um pouco menos idiota do que eu fui.
olhou para a mão dele.
A mão que ela conhecia tão bem.
A mesma que segurou a sua na primeira vez que atravessaram uma rua na Alemanha, a mesma que segurou suas malas, sua xícara de café, sua cintura.
A mesma que não apareceu do outro lado da tela quando ela mais precisava. E a mesma que, na noite anterior, parecia estar tentando, desesperadamente, tê-la outra vez.
Ela poderia recusar.
Poderia poupar a si mesma de uma nova dor, se proteger atrás do orgulho e da frase fácil e clichê de que merecia alguém melhor. E talvez merecesse mesmo.
Mas, enquanto encarava, sentia que já sabia exatamente qual decisão tomar.
Respirou fundo. Depois, apenas por teimosia, o fez esperar um pouquinho mais.
E então, levou sua mão até a dele.
Ela sentiu o quentinho dos dedos de e quase suspirou de saudade.
— Não sei se consigo confiar cem por cento em você agora. Não sei se vou conseguir te perdoar rápido. Não sei se isso aqui vai dar certo. Mas… — apertou os dedos dele. — Sei que não quero que a gente termine de novo por mensagem.
soltou o ar devagar, como se estivesse segurando a respiração desde que entrou no quarto.
— Eu aceito isso. De verdade.
— E se você sumir de novo — ergueu o olhar. — Não vai precisar esperar três anos outra vez. Vou atrás de você. Pessoalmente. Só pra te quebrar na porrada.
Ele riu, fechando os olhos brevemente.
A risada que era fascinada.
— Vou anotar isso — concordou. — Mas, se tudo der certo, quero que o próximo voo que você pegue não seja pra me bater. Seja porque tá com saudade.
Ela revirou os olhos, mas sorriu.
— Tá falando demais.
deu um passo à frente, diminuindo qualquer distância restante entre os dois. Ele ainda segurava a mão de .
Sua mão livre acariciou o rosto dela com delicadeza.
— E você continua me deixando nervoso — admitiu.
— Você tem meu número — lembrou. — Meu e-mail. E todas as redes sociais. Se sumir, dessa vez é por opção.
— Não vou sumir — a voz de era calma. — Mas, só pra garantir…
Ele soltou a mão dela para pegar o celular no bolso da calça jeans. Desbloqueou a tela, digitou algo rápido e, segundos depois, o celular de vibrou em cima da cômoda.
Ela o pegou e leu, sentindo o coração aquecer.

SMS
Depois daqui, quero te encontrar independente do lugar. Só me dizer onde e eu vou.

— Tá se garantindo por escrito?
— Aprendi que provas documentais são importantes — respondeu, sorrindo torto. — Especialmente com alguém tão boa com palavras quanto você.
Ela mordeu o lábio por um segundo, pensando e depois digitou rapidamente, fazendo o celular de vibrar.

SMS
Quando eu voltar pra casa, te mando o nome de um café. Se você aparecer, talvez a gente descubra se isso vai dar certo de verdade.

ergueu o olhar, sorrindo gradativamente.
— Eu vou aparecer.
— Vamos ver — o provocou.
— Realmente acha que eu perderia isso duas vezes? — murmurou.
observou seus olhos brilharem.
— Isso o que?
Ele não respondeu. Só segurou a cintura de e a puxou de uma vez, fazendo o corpo dela bater contra o peito dele. E, meio segundo depois, seus lábios se encontraram; um beijo quente, apressado, com muita saudade.
agarrou a gola da camiseta de , o puxando ainda mais, sentindo os joelhos ameaçarem ceder.
Quando se afastaram, manteve o rosto perto do dela.
— Só pra você não ter dúvida de que vou aparecer mesmo — sussurrou. — Nem que eu tenha que atravessar meio mundo pra esse café.
Ela riu baixinho, tentando recuperar o ar e a noção de chão ao mesmo tempo.
— Se me beijar assim, talvez eu até chegue antes de você.
sorriu. Daquele jeito que começava nos lábios e você conseguia ver nitidamente se estendendo para os olhos.
E, pela primeira vez em três anos, ela não sentiu medo do que vinha depois.
Só uma vontade absurda de que esse depois chegasse logo.


FIM.


Nota da autora: Foi um prazer enorme participar desse amigo-fic incrível e mais maravilhoso ainda foi escrever essa fic para a Sammy! Espero que tenha gostado <3


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