Alguns encontros começam no invisível, onde almas perdidas encontram caminhos que nem o tempo pode apagar.
Era como se o mundo estivesse desmoronando sob seus pés — se é que ainda os tinha e conseguia senti-los.
A sensação era estranha; desconexa. Como se flutuasse entre a realidade e um sonho ruim, onde a verdade que presenciava se tornava devastadora e, ao mesmo tempo, surreal.
E só o fazia se dar conta de apenas uma coisa: estava morto.
Não tinha como negar.
Não depois de atravessar uma parede pela terceira vez naquela noite, de tentar abrir uma porta e sua mão passar pela maçaneta como se não fosse nada.
Como se fosse feito de fumaça.
Perdeu as contas de quantas vezes tentou se lembrar do que havia acontecido, do que havia o levado até ali, de como se tornou um fantasma vagando no escuro. Sua mente parecia um grande nada.
A única coisa que se lembrava e sabia com certeza era que o lugar em que estava, com os móveis espalhados e inteiramente desorganizados, era seu apartamento.
Ou pelo menos havia sido.
olhava atentamente as caixas espalhadas ali, a poltrona que costumava jogar o corpo quando chegava cansado do estúdio agora tinha um gato deitado e, — o mais irritante —, pessoas que nunca tinha visto na vida.
Sentiu a raiva começar como uma chama pequena; uma pontada chata, que começava a incomodar e queimar. Quem eram as duas? Como ousavam invadir seu espaço sem o menor pudor?
Mas, o que achou ser uma minuciosa chama, se transformou rapidamente em um incêndio dentro de . Não conseguia aceitar.
O apartamento era seu, era o único lugar que se sentia seguro apesar de tudo.
Sua mente embolava em meio a confusão.
se movia pelo cômodo, percorrendo o apartamento como um espírito enlouquecido. Não conseguia entender, muito menos processar o que acontecia.
Queria gritar, queria fazer algo, mas tudo o que conseguia era flutuar, sem corpo, sem força e sem a capacidade de controlar o que acontecia dentro de si.
O sentimento insistente de raiva continuava a queimar, parecendo não ter fim. Mas, o problema não era a raiva em si. Era o vazio. A ausência de tudo o que uma pessoa sentiria em momentos como aquele. Não tinha dor, nem mesmo tristeza.
Não havia nada.
era como uma casca oca, sem alma, sem vida, sem calor.
Não havia lágrimas em seus olhos, não havia desespero em seu peito. Não havia mais nada. Ele era só um corpo inexistente, uma sombra.
Era a droga de um espírito.
A única coisa presente era a raiva e o incômodo indescritível que sentia com a situação. sabia que, mesmo que não pudesse mais estar ali, que não pudesse tocar em seus móveis, ainda era a sua casa. Só de ver duas estranhas mexendo em tudo, tirando suas coisas do lugar… O enfurecia. O enlouquecia.
— Como ousam? — disse, mais alto que o normal. Como se e Rachel fossem ouvi-lo de alguma forma.
Queria que as duas soubessem que ele ainda estava ali. Queria que sentissem o que ele sentia; a frustração de estar preso. A fúria de ver algo que amava sendo destruído, mesmo que soubesse, bem no fundo, que nada mais era seu.
Mas, nada daquilo fazia sentido. Ele estava ali, mas não estava ali.
Um fantasma.
não era mais real.
O primeiro impacto veio como um trovão pelo céu de Manchester.
A lâmpada da sala começou a oscilar, os fios se emaranhando de uma maneira impossível. Em segundos, a lâmpada se estilhaçou no chão. O som do vidro quebrando ecoou pela casa, ressoando pelas paredes como um grito fino.
e Rachel gritaram pelo susto e Gaspar pulou para trás aterrorizado, com seu rabo eriçado e os olhos fixos no canto em que estava. correu até ele rapidamente tentando o acalmar, mas o bichano só continuava ainda mais agitado, exatamente sentindo e vendo algo que nenhuma das duas era capaz de ver.
— Oh, tadinho. Olha como treme… — comentou, segurando Gaspar com força em seus braços. Tentava acalmar um pouco mais.
Rachel estava de pé ao lado dela, com os olhos arregalados enquanto olhava para os cacos de vidro espalhados pelo chão, como se fossem algo de outro planeta.
Respirou fundo e tentou sorrir.
Forçou uma risadinha, ainda que tensa com a situação.
— Caramba, que susto! — levou uma das mãos no peito. — Engraçado, não vi nenhuma previsão de chuva.
olhou para a amiga, ainda um pouco pálida.
— Eu também não. Sem contar que estava um calor horrível mais cedo.
Rachel balançou a cabeça, olhando para a janela enquanto o vento balançava as cortinas recém colocadas pela tarde.
— Mas é coincidência demais a lâmpada ter caído, não é? Olha que estrago! — acompanhou o olhar da amiga, observando os cacos espalhados e a lâmpada dos outros cômodos ainda oscilando levemente. — Talvez você tenha trago um fantasma inquieto com a mudança. Vai ter que lidar com ele agora.
A amiga pressionou os lábios, contendo a risadinha com a brincadeira.
ergueu uma sobrancelha, tentando descontrair, mesmo que a ideia de um fantasma fosse loucura demais para ser verdade.
— Há-há. Sério, Rachel? Piadinha assim uma hora dessas?
A amiga deu de ombros, ainda com um sorriso brincalhão.
— Quem sabe? Vai que o prédio é assombrado mesmo? Isso ia explicar muita coisa, como a porta rangendo e o encanamento que fez barulho o dia inteiro.
suspirou, olhando ao redor. Mas, deixou uma risadinha escapar depois. Rachel adorava contar histórias como aquela.
— Pode ser. O prédio é antigo mesmo. Vai ver que os fios estavam soltos e a lâmpada simplesmente explodiu de repente — fez um carinho no topo da cabeça de Gaspar, que ronronou. — Que bobeira, não é, meu filho?
Ele ronronou mais uma vez.
Rachel começou a juntar os cacos espalhados por ali.
— Estou brincando. Talvez tenha exagerado um pouquinho. Fantasmas são coisa de filme, certo? Não vamos ficar paranóicas.
olhou para a amiga, sentindo a tensão em seus ombros um pouco menos intensa, mas ainda presente.
Balançou a cabeça, pronta para esquecer o que havia acontecido.
— É. Fantasmas não existem.
— Vou fazer um chá enquanto você termina aí. Vai ajudar a relaxar antes que eu vá embora — Rachel se agachou para pegar os pedaços de vidro, mas sentiu uma sensação fria atravessar a sala, como se o ar tivesse mudado rapidamente.
sentiu o corpo tremer com o vento gélido. Gaspar ergueu a cabeça de repente, suas pupilas dilatando e o pelos voltando a arrepiar, e olhou extremamente focado para um canto em específico da sala.
A risada nervosa de Rachel parou no meio do caminho. E a voz de saiu quase em um sussurro.
— Me diz que não foi só eu que sentiu isso — murmurou, olhando ao redor outra vez. Seu corpo inteiro estava arrepiado.
A amiga ergueu a cabeça, franzindo as sobrancelhas enquanto observava um tanto preocupada.
— , não é nada. Foi só uma coincidência boba, sabe? As janelas estão abertas. O tempo deve estar mudando e entrou algum vento frio — forçou um sorriso que parecia mais uma careta. — E, por favor, você mesma disse que não acredita nessas coisas. Se duvidar é só sua mente querendo pregar uma peça. É isso, nada demais.
Rachel caminhou até a cozinha, deixando sozinha no centro da sala.
E, enquanto tentava concentrar seus pensamentos em qualquer outra coisa, permanecia no canto do cômodo, observando as duas com olhos sombrios, o peito balançando de raiva. Ele estava a um passo de deixar o que sentia consumir o que restava de sua razão.
A visão de ambas, tão pequenas e vulneráveis, tentando ignorar o que acontecia ali só piorava o que ele sentia.
não suportava ver aquilo. Sentiu uma onda de frustração tomando conta de si enquanto a raiva se tornava um monstro dentro do seu peito. Queria que visse a verdade, que sentisse o peso do que estava sentindo.
se moveu rapidamente. Deslizou pelo cômodo, deixando o ar um pouco mais frio do que de costume.
Ao passar perto de um dos armários, alguns livros e enfeites caíram com um barulho seco, batendo no chão e espalhando papéis pela sala. deu um salto, com os olhos se arregalando enquanto olhava os objetos caídos no chão.
— O que…?
Murmurou, não se dando conta quando Rachel adentrou o cômodo novamente, segurando as duas xícaras nas mãos. Ela ergueu as sobrancelhas, observando tudo espalhado e o olhar assustado de .
— Ué, aconteceu alguma coisa?
respirou fundo, deixando o corpo cair para trás, ainda sentada ao chão.
Balançou a cabeça, olhando para a amiga, que colocava o chá na mesinha de centro da sala.
— Acho que ando muito assustada ultimamente.
Rachel se sentou ao lado de e colocou uma das mãos no ombro da amiga.
— Isso é resultado da mudança, amiga. Deve estar te deixando mais ansiosa do que imagina.
Deu um leve sorriso, assentindo. Rapidamente pegou uma das xícaras, acompanhando sua amiga.
parou em um dos cantos da sala, com seus punhos fechados e os olhos opacos transparecendo o ódio que sentia. Só o fato de estar ali, impotente, sem poder se comunicar e sem ser visto o corroía inexplicavelmente. Sua vontade era a de quebrar a sala inteira até que fosse notado, até que colocasse um fim em toda a bagunça de sua vida.
Gaspar, que havia visto tudo e agora estava inquieto, deu um pequeno salto de onde estava, se aproximando do canto onde a energia de parecia emanar. Os olhos do gato brilharam, confusos e ele rosnou baixinho, como se tentasse entender o que acontecia ali. observou a reação do animal e achou estranho vê-lo tão próximo daquele jeito.
— Talvez você seja o único que entende, Gaspar — murmurou, sua voz quase sumindo. Sabia que o gato talvez não o visse ou entendesse, mas só assim sentia que poderia se acalmar um pouco mais. — Isso não importa, no final das contas.
O gato rosnou uma vez, baixinho.
Mas, ao invés de se afastar, como imaginou que faria, encostou sua cabeça contra o vazio onde o fantasma estava. Até parecia que estava o consolando.
olhou para o gato, surpreso e um pouco melancólico. A expressão de Gaspar, com seus olhos verdes grandes e atentos, parecia dizer que, de alguma forma, entendia mais do que deveria.
— Nunca imaginaria chegar ao ponto que um gato é o único que talvez possa me ver e ainda tenta me consolar. Isso deve ser vingança do destino.
Gaspar deu uma leve esfregada contra o lugar onde estava e o fantasma quase sentiu um calorzinho improvável.
Olhou para o bichano, com a expressão ainda mais triste do que antes.
nunca sentiu tanta falta de estar vivo, como naquele momento.
👻
ajeitou cuidadosamente um dos últimos livros na estante recém-montada.
Por mais que a noite já se mostrasse evidentemente tarde, o apartamento ainda estava repleto de caixas espalhadas e abertas em uma bagunça típica de uma mudança que acontecia, mas o lugar começava a ganhar um toque pessoal, do jeitinho que imaginava.
Gaspar estava deitado no topo de uma das caixas empilhadas. Diferente de mais cedo, agora parecia mais calmo, mesmo que ainda olhasse para um ponto vazio na parede.
Rachel encostou o corpo na porta da sala, observando com um sorriso. Ela estava exausta, com os cabelos claros bagunçados e uma mancha de poeira na calça jeans, mas a satisfação de ajudar sua melhor amiga valia muito mais do que todas as outras coisas.
— Então, parece que está quase pronto, hein? — brincou. deu uma risadinha, balançando a cabeça enquanto colocava os outros enfeites na prateleira.
— Quase. Mas acho que vou precisar de um bom tempo para organizar tudo como quero — virou o corpo e seus olhos encontraram os de Rachel. — Obrigada por ter vindo. Não faz ideia do quanto me ajudou.
Rachel balançou a cabeça.
— Sei que você está começando de novo e isso pode ser difícil. Mas, olha, vai fazer isso dar certo, . Você sempre faz — fez uma pausa. Rachel tinha um sorriso brincalhão no canto dos lábios. — E amigos são para isso! Sabe que a qualquer momento vou estar aqui por você.
sorriu, sentindo o coração esquentar. Agradecia aos céus por ter uma amiga como ela em sua vida.
— Prometo que não vou deixar você fazer todo o trabalho duro sozinha da próxima vez — brincou, um pouco mais aliviada.
Rachel riu e deu um leve empurrão no ombro de .
— Vou cobrar essa promessa, ok? — fez uma careta — Agora, sério, se alguma coisa der errado ou se precisar de ajuda para organizar o resto, pode me ligar. Duas pessoas fazem mais do que uma sozinha.
assentiu. Gaspar, que observava a cena da caixa que ainda estava deitado, deu um miado frouxo, como se também estivesse prometendo que manteria bem.
— Pode contar com isso. Vai ser ótimo ter alguém por perto, ainda mais se for pra me ouvir reclamando dos vizinhos ou dos barulhos estranhos pela casa — disse, com um sorriso que mal conseguia esconder.
Sentiu os braços de Rachel enlaçando seu corpo em um abraço leve e a apertou com carinho.
— Isso mesmo. Você não está sozinha. Vai dar tudo certo, — se afastou, olhando para a amiga. — Qualquer coisa, é só ligar, viu?
assentiu. A acompanhou até a saída do apartamento e, quando a viu sair e a porta se fechar com um leve clique, o vazio na casa pareceu se intensificar um pouquinho mais do que se lembrava.
O apartamento que começava a ganhar um toque seu, ainda parecia estranho e distante.
Gaspar observava a cena com olhos atentos. E, como se percebesse a mudança no clima e o incômodo de sua dona, pulou até o chão e caminhou até , encostando a cabeça em sua perna.
Ela sorriu, se sentindo um pouco mais tranquila.
— É, Gaspar, agora somos só nós dois, não é? — se agachou para acariciar a cabeça dele, sentindo o calor da sua pelagem escura.
O gato respondeu ronronando suavemente e fechou os olhos, se sentindo confortável.
se ergueu, olhando para a bagunça que ainda tomava conta de quase todos os cantos, mas agora minimamente. A casa estava um caos, mas ao menos já parecia mais dela do que antes, com as coisas fora das caixas, mesmo que bagunçadas. A sensação de estar começando uma nova fase trazia um pouco de alívio.
E o cansaço começava a pesar aos pouquinhos.
Respirou fundo, balançando a cabeça. Precisava descansar.
— Acho que é hora de tomar um banho — murmurou, olhando para o relógio na parede. Já passava da meia-noite e o cansaço se arrastava por seu corpo. Gaspar, que estava próximo da mulher, correu imediatamente para o quarto, o que só fez rir fraquinho. Ele amava dormir com ela.
Enquanto se afastava em direção ao banheiro, o fantasma a observava, imóvel.
Sua presença invisível como sempre, mas com a mesma sensação de que algo estava errado. Não fazia ideia de quem era aquela mulher. Não sabia como havia chegado até ali ou o que fazia em sua casa. Mas, tinha certeza que ela não pertencia àquele lugar.
Sentia isso de forma visceral, como se o simples fato de estar ali fosse uma afronta à .
permaneceu parado, com os olhos fixos na porta do banheiro, ouvindo o som da água caindo do outro lado. Sentia a frustração e o desgosto tomando conta de si.
O apartamento ainda tinha o mesmo cheiro que não conseguia esquecer e agora, mesmo depois de morto, sentia como se uma parte dele tivesse sido invadida.
Sentiu a presença de Gaspar se aproximando e olhou para baixo, o vendo deslizar para perto com os bigodes tremendo. O gato olhou em direção ao banheiro, onde ainda tomava banho e então seus olhos se fixaram na figura invisível de , com a expressão mais curiosa que o normal.
olhou para o animal, ainda mais sério do que antes.
— Ela não pertence aqui, bichano. Diga isso à sua dona — resmungou, com o tom de voz carregado de amargura. — Como alguém tão cheia de vida, tão simples, pode ocupar um espaço como esse? Meu espaço! O espaço onde eu vivi, onde eu… Existia.
O gato continuou o olhando, curioso com suas ações. Parecia tentar entender de alguma forma.
bufou, mais frustrado do que antes. A dor de ter sido arrancado de sua própria vida e de ver sua casa invadida por alguém tão irrelevante — e que ele ao menos conhecia — o consumia.
Quando a mulher saiu do cômodo, com os cabelos molhados caindo pelas costas e seus pijamas folgados, a acompanhou com o olhar. O brilho da luz do banheiro refletia em sua pele e ela parecia tão... Viva. Se movia com tamanha naturalidade, exatamente como se a casa fosse sua há anos, como se o lugar que conhecia bem, fosse seu lar agora.
O que mais lhe irritava era o fato de não poder fazer nada para que aquilo acabasse de vez.
— Vai embora, — sussurrou, mais para si mesmo do que para a mulher.
E desapareceu segundos depois.
👻
se remexeu na cama, ajeitando os lençóis sobre seus ombros.
Suspirou, aliviada por finalmente ter um espaço só seu. Durante os últimos meses, a simples ideia de estar sozinha em um lugar que era só seu parecia quase surreal. A mudança para o apartamento significava mais que um simples recomeço.
fechou os olhos por um momento, sentindo o cansaço se espalhar pelo corpo. O dia havia sido longo e, apesar da bagunça ainda presente em alguns cantos, o sentimento de ter um lugar só seu era indescritível.
Quase virou o corpo para se render ao sono quando a luz do corredor piscou de repente, interrompendo seus pensamentos.
franziu a testa e abriu os olhos, observando a lâmpada tremer levemente, como se uma corrente de ar estivesse passando pela casa. Mas, a janela estava fechada, deixando evidente que não havia como passar algum vento por ali.
Um calafrio percorreu sua espinha e se sentou, tentando ignorar a tensão que começava a crescer.
— Deve ser só minha imaginação — murmurou, tocando os próprios ombros como se pudesse afastar o arrepio que a abraçou.
Notou a luz piscar novamente e dessa vez sentiu o coração bater mais rápido.
Olhou para o celular na mesa da cabeceira, quase com medo de pegá-lo, mas pensou na amiga. Ela provavelmente a entenderia, mesmo que estivesse cansada.
pegou o telefone, pronta para enviar uma mensagem, mas… O que diria?
“Oi, Rachel, a luz está piscando e eu estou com medo”?
Talvez fosse exagero. E se fosse só a sua mente cansada mostrando coisas que não existiam?
Respirou fundo mais uma vez, largando o telefone de volta e se deitando de lado.
Os lençóis se amontoaram ao seu redor, mas não aqueciam. Só então percebeu que a luz do corredor parou de piscar e o silêncio após começou a acalmá-la minimamente. Mas, algo chamou a atenção de . E não era mais a luz piscante ou qualquer outra coisa visível, mas sim o som de um estalo, como se algo estivesse se movendo aos poucos.
Piscou, sentindo o medo se instalando como um nó na boca de seu estômago.
— Isso não pode ser real — sussurrou, já sentindo o corpo tremer levemente. Gaspar, que estava dormindo em um canto da cama, levantou a cabeça e olhou ao redor com os olhos dilatados e brilhantes. Parecia em estado de alerta, como se a qualquer momento fosse correr para longe. — Também não gosto nada disso, Gaspar.
Olhou para o gato, como se falar com ele a confortasse de alguma forma.
O puxou para perto e acariciou os pêlos de seu amigo. Enquanto o fazia, olhou para a porta, que parecia mais escura agora, como se algo fosse sair dali a qualquer instante.
Do outro lado, continuava a observar a mulher, ainda que sentisse a raiva queimar dentro de si. A verdade era que ele queria urrar, dizer qualquer coisa, tudo para que ela percebesse que aquele lugar não era dela.
Que nunca seria dela.
Mas, quando tentou falar qualquer coisa, apenas um som fraco e abafado escapou.
— Saia daqui!
Tentou dizer, mesmo sabendo que talvez aquilo fosse em vão. A única coisa que conseguiu ouvir foi o vento batendo contra a janela do lado de fora.
Ela arregalou os olhos, olhando ao redor desconfiada. Mas, balançou a cabeça como se quisesse se livrar da sensação o quanto antes.
— É só o vento. Não é nada demais. Vamos dormir que isso vai passar — murmurou, apertando Gaspar contra seu corpo.
O gato continuava olhando fixo para a porta, o rabo balançando devagar.
Sabia exatamente o que acontecia ali.
— Não é só o vento — debateu, mas o som foi ainda mais fraco dessa vez. Ele olhou para Gaspar, que continuava com os olhos fixos no fantasma. — Diga a ela, bichano. Diga que ela não pertence a essa casa.
O rabo do gato chicoteou de um lado para o outro, como se respondesse de alguma forma.
passou a mão por suas orelhas, distraída.
— Que foi, hein? — franziu o cenho. — Também não gosta do barulho? Não deve ser nada demais.
riu com desdém. Um riso seco, carregado de ironia. Coisa da cabeça dela? Se ao menos soubesse o realmente estava naquele apartamento…
— Patético…
Resmungou.
Deu um passo em direção à cama e o chão pareceu ranger sob seu peso, mesmo que ninguém mais pudesse ouvir. Gaspar ficou ainda mais tenso, com os pelos do pescoço eriçados.
acariciou o animal de novo, tentando acalmá-lo.
— Vamos, amigão, está tudo bem. Só estamos cansados, é isso.
Ela fechou os olhos, sentindo o corpo finalmente relaxar contra os lençóis, mas não conseguiu desviar o olhar. Havia algo na mulher que o incomodava mais do que qualquer outra coisa.
Não era só o fato de estar ocupando o lugar que era dele. E não era só por ela estar viva, já que ele estava…
Era a leveza com que existia.
A forma como o sorriso dela parecia iluminar o lugar que só conseguia lembrar como sendo escuro e vazio. E isso o irritava mais do que qualquer coisa.
Deu mais um passo, mas parou. O que faria se ela o visse? Se percebesse sua presença de alguma forma? A raiva se misturava com o cansaço e a sensação de derrota que não conseguia mesmo ignorar.
Gaspar soltou um miado curto, mas já havia adormecido, sua respiração ficando um pouco mais devagar.
ficou ali a observando dormir, lutando contra a solidão esmagadora que sempre voltava e a raiva de ter alguém ocupando o lugar que era seu.
E só então, no fundo, começou a perceber que não era que não pertencia àquele lugar.
Era ele.