Independente do Cosmos🪐
Última Atualização: 20/02/2026Era aquele tipo de coisa que o fazia acreditar ainda mais o quanto gostava de trabalhar em contato com as pessoas, conversando com elas, conhecendo seus gostos e o que se passavam em suas mentes.
Distraído com a música que cantarolava baixinho enquanto terminava de ajeitar o interior do lugar, seguia de um lado para o outro, ora lavando alguma louça que os clientes sujaram, ora reordenando os livros da forma como ele gostava de deixar organizado.
Até que Nicolai, seu melhor amigo, entrou no lugar de forma silenciosa, querendo assustar , que sempre estava distraído demais com seus afazeres para notar o garoto que agora caminhava devagar até ele. Quando estava próximo o suficiente, as mãos de Nico foram até a cintura de seu amigo, e o segurou com força, enquanto dava um grito, seguido de uma risada estridente.
A reação do garoto não foi outra, gritou junto de Nicolai, mas por um motivo diferente, já que tinha se assustado. Seus músculos retesaram e ele deu um pulinho também, olhando para trás com rapidez.
— Você é um idiota, Nico! — Osborne reclamou, mas não havia um indício sequer de irritação em sua voz. Ele estava rindo agora, para ser bem sincero.
— Você também é — rebateu, ainda rindo do susto que deu em . — Vai demorar para sair? Talvez eu tenha conseguido duas entradas para uma festa em Silberring. — Tinha um sorrisinho travesso no canto dos lábios dele.
empurrou de leve o amigo que ainda segurava sua cintura e caminhou para o outro lado da estante, colocando alguns livros lá também.
— Pensei em ficar aqui e ler um pouco — falou pensativo.
— O livro não vai desaparecer se você o deixar na prateleira por uma noite, sabia? — Nicolai rolou os olhos em tédio, se encostando na estante em que mexia.
— Se você não dissesse, eu não ia saber! — respondeu em completo sarcasmo e prendeu o riso. — Você não vai me deixar em paz se eu não for, não é? — se virou para o amigo.
— Paz não está no meu vocabulário — confessou, sorrindo mais, e seu olhar desceu pelo rosto do garoto, voltando até seus olhos em seguida. — Você nunca sai. Parece um velho.
— Eu saio sim! — rebateu. — Daquela vez lá, que você me chamou, eu fui!
— Vir trabalhar não conta — avisou, erguendo as sobrancelhas. — Deus, isso faz 84 anos.
Osborne apertou a ponte do nariz e soltou um suspiro derrotado. Sabia que, quando Nicolai começava a implicar por ele ser caseiro e preferir não participar de festas, o garoto ficaria horas e mais horas nesse assunto.
— Tudo bem, Nico. — Se deu por vencido e negou de leve com a cabeça. — Eu só preciso fechar aqui, vinte minutos e meu turno acaba.
— Ótimo. Eu vou pegar um café — disse sorrindo todo vitorioso, e foi até a máquina de café.
Nicolai era abusado, então ele já passou o balcão e começou a mexer nas coisas, preparando o seu próprio café, sem se importar se aquilo incomodava ou não, achava que simplesmente não tinha nada demais.
— Eu já te disse que você não pode entrar aí — reclamou com o amigo, mas continuou o que estava fazendo antes. — Qualquer dia desses o dono vai colocar uma placa na porta com a sua foto e um x bem grande em cima. Ele olha pelas câmeras — comentou.
— Quando isso acontecer, podemos pensar em algo. Enquanto isso, eu só estou pegando um café — respondeu, rindo e se encostando no balcão, tomando um gole da bebida quente. — Hm, muito melhor que o seu.
— Você é abusado demais. Me lembre mesmo por que eu continuo sendo seu amigo? — Osborne conteve o ímpeto de cruzar os braços, e puxou o carrinho com o restante dos livros para o final da estante.
— Porque você não consegue achar ninguém mais legal do que eu. Simples. — Sorriu abertamente, e se virou, apoiando os cotovelos no balcão e sentando na cadeira que usava quando estava ali sozinho. — E porque eu te faço rir sempre das minhas idiotices. Confesse.
— Mondwelle tem 7 milhões de habitantes, eu tenho certeza de que consigo achar outra pessoa legal — rebateu em um leve sarcasmo e se virou para olhar Nico por cima dos ombros. — Não vou confessar nada, além de abusado você anda ficando muito egocêntrico e eu odeio isso. — Rolou os olhos, terminando de colocar os livros nas prateleiras.
— Tente e irá falhar miseravelmente — disse piscando um dos olhos para , e rindo de leve. — Não sou egocêntrico — reclamou, fazendo uma careta e tomando o café.
Osborne negou de leve com a cabeça e prendeu o sorrisinho. Não tinha problema nenhum em admitir que gostava do jeito descontraído de Nicolai, apesar do garoto ser abusado e comer seu juízo a maior parte do tempo.
Conhecendo o melhor amigo como ninguém, se apressou em terminar o que precisava dentro da cafeteria, caso contrário sabia que Nico ia começar a reclamar e o apressar.
— Não vou ficar até tarde — avisou ao amigo, apontando para Nico. — E você vai me dar carona pra voltar.
— Uhum, tá bom — apenas concordou sem dar muita atenção enquanto mexia no celular. — Você já foi na Galeria do Eclipse Hall?
— Não — respondeu pegando as chaves e a sua jaqueta. — Tira a cara desse celular, alienado. Levanta — mandou e empurrou de leve o ombro do amigo para que ele levantasse. — Esse não é aquele lugar que tem festas clandestinas e a polícia bate lá quase todas as vezes? — Arqueou uma das sobrancelhas para o melhor amigo.
— Achei que você ia demorar mais — comentou guardando o aparelho no bolso interno da jaqueta e terminou de tomar o café, jogando o copo de papel no lixo. — É, e também é onde tem as melhores festas — falou dando um sorriso largo enquanto se levantava e ia em direção a porta da cafeteria.
— Você ainda vai meter a gente em problemas, Nico — Osborne resmungou balançando a cabeça.
Fazendo o ritual de todas as noites, rodou a chave três vezes na fechadura e depois passou o cadeado, girando por fim a plaquinha de “aberto” para “fechado” que ficava do lado de fora.
— Você é tão certinho que me pergunto se ainda é virgem — Nico debochou, já do lado de fora e encostado na sua moto, esperando por seu amigo.
— Você vai morrer com essa dúvida no seu coração. — Prontamente e sorrindo, respondeu e pegou o capacete, o colocando logo em seguida.
— Preferia morrer com outra coisa — rebateu arteiro, sentando direito na moto e colocando o próprio capacete.
— Eu não vou perguntar, porque vindo de você, sei que vou querer te bater. — deu uma risadinha e se sentou atrás do melhor amigo, não vendo problema algum em passar os braços por sua cintura. — Vai devagar, ninguém tá apostando corrida — pediu.
— Também não te falaria — retrucou, rindo fraco. — Bem, eu estou sempre apostando corrida — disse, dando partida na moto e acelerando duas vezes sem sair do lugar, para arrancar com ela em seguida, fazendo o pneu cantar.
Mesmo que já soubesse que Nicolai teria um comportamento como aquele, o estômago de gelou quando ouviu o ronco do motor e depois o vento gelado bater em sua pele. Grunhiu baixinho um “desgraçado” para o amigo e se apertou mais contra ele, que apenas riu por sentir a pressão em sua cintura, e acelerou ainda mais. Osborne odiava andar de moto, e evitava a todo custo. Demorou meses até ele aceitar uma carona de Nicolai, já que achava aquilo extremamente perigoso e seu amigo não ajudava muito andando sempre correndo.
Nicolai adorava aquele tipo de adrenalina, fazia com que se sentisse tão vivo, era quando seu sangue ficava mais quente e corria rápido em suas veias, aquela vitalidade pulsando de forma ardente. Ele era absolutamente viciado em tudo que o fazia sentir aquilo, então quando não estava participando de algo clandestino, estava se metendo em problemas, o que deixava todo mundo louco, enquanto o garoto só achava tudo sempre muito engraçado.
Eles cruzaram a ponte que levava para o outro lado da cidade, onde a atmosfera era totalmente diferente. Silberring era luxuosa, repleta de arranha-céus com seus imponentes vidros tão escuros quanto a noite, hotéis cinco estrelas, clubes privados, festas clandestinas, galerias de arte moderna e antiga. O lugar se mesclava com o antigo e o moderno, era um encontro de cultura, rico em história e lendas. Era como entrar em uma cidade criada para os ricos, e tudo o que eles poderiam ter. Aquela parte da cidade carregava também um ar sombrio, onde tudo era encoberto pelas riquezas de quem ali habitava.
se abraçava em seu melhor amigo a cada curva ou acelerada que ele dava, reclamando baixinho por não ver necessidade nenhuma para que Nicolai andasse tão rápido. Parou, porém, no momento em que entraram em Silberring, pois os olhos de Osborne ficaram encantados com o que estava vendo, então sua atenção foi totalmente roubada e o garoto se viu olhando de um lado para o outro.
— Caramba, quem frequenta esses lugares? — perguntou para Nico depois de descer da moto, olhando ao redor enquanto tirava o capacete e arrumava seus cachinhos.
— Ricos — contou, rindo daquilo. — Você não sai de casa! Se andasse mais comigo, viria aqui mais vezes.
— Se eu andasse mais com você, teria cabelos brancos precocemente — explicou, e entregou o capacete a Reed. — Você vai me pagar um uber para quando eu quiser voltar — avisou.
— Eu? Por que? — questionou, tirando o capacete e passando seus dedos pelos seus fios lisos, os jogando para trás.
— Porque você não sabe andar como uma pessoa normal — pontuou, mesmo que ainda estivesse olhando ao redor como uma criança que estava indo pela primeira vez ao parque de diversões.
— Larga de ser chato — reclamou, e colocou o capacete pendurado no retrovisor da moto. — Você adora andar agarradinho em mim. — Piscou um olho, e sorriu de lado.
— Você é impossível, Nico. — se limitou a dizer, não levando nenhum pouco a sério o que o amigo dizia. — Vamos entrar logo — pediu, porque em sua mente quanto mais rápido fossem, mais rápido voltariam.
Nico rolou os olhos e foi andando na frente, entrando em um beco entre dois prédios antigos, e caminhando até uma porta, que tinha uns desenhos arcanos e de um eclipse. Ele olhou para e acenou com a cabeça. Então bateu nela, e esperou que alguém atendesse. Uma portinhola foi aberta, revelando um par de olhos âmbar, quase amarelos de tão forte que a cor era, o que fez franzir as sobrancelhas. Nicolai estendeu dois convites para a pessoa, que pegou e fechou a portinhola em seguida. Levou alguns segundos até que a porta de ferro grande e pesada se abrisse, revelando um homem grande e forte, todo tatuado e com piercings. Reed sorriu com aquilo, sentindo seu coração bater mais agitado por finalmente conseguir entrar naquele lugar. Não era fácil conseguir aquilo.
Antes mesmo de entrarem já estava achando o lugar sinistro de tão estranho e vinha repensando suas decisões, cogitando realmente pedir um uber e ir embora. Tudo bem que estavam do outro lado de Mondwelle e seria uma fortuna o valor da corrida, mas tinha em mente o ditado de que todo valor era justo se fosse para ele ir para sua casa e deitar na sua cama quentinha.
Quando passaram pela porta, no entanto, o ambiente inteiro mudou para algo intoxicante e a transformação foi tão brusca que Osborne até precisou olhar para trás, vendo os últimos resquícios da rua — já que a porta estava se fechando outra vez — para ter certeza de que aquilo não era tão irreal.
— Cara, a gente devia mesmo ir embora daqui — segurou no ombro de Nico, o puxando levemente para que parasse de andar.
A música parecia vibrar em seu peito, assim como todos os outros sons que vinham dali de dentro, e Osborne não gostou nenhum pouco da sensação.
— O que? Por que? — perguntou sem entender o motivo daquilo, parando de andar e olhando para o amigo. — Vamos entrar, se a festa estiver ruim, vamos embora. Eu prometo.
não conseguia explicar, não em palavras pelo menos, mas desde o momento em que viu aqueles olhos âmbar na portinhola, sua mente passou a piscar em letras garrafais e em neon a palavra perigo, enquanto Nicolai não achava nada demais, pois já estava acostumado com as pessoas de Silberring, e o quão estranhas elas pareciam ser a maior parte do tempo.
— Só acho que aqui não é um bom lugar — explicou ao amigo, suas íris agora passando ao redor do ambiente como se estivesse procurando pela ameaça que o retraia.
— Ah, fala sério, . Deixa de besteira — disse rolando os olhos, e segurando a mão do amigo, o puxando para continuarem andando.
Todo o encanto que sentiu por estar em Silberring tinha passado, via as pessoas dançando, conversando e rindo como se estivessem em outra realidade, tal qual uma aura intoxicante os deixassem flutuando em meio ao que se passava. Osborne deixou que Reed o levasse para onde queria, e ele esperava que aquela sensação sem fundamento passasse de uma vez por todas.
Nicolai olhava para os lados gostando do lugar. O pé era alto, e as colunas enormes davam um ar gótico, com arcos que separavam uma coluna da outra, tal qual parecendo uma igreja subterrânea. Flashes de luz disparavam contra a fumaça azul que era solta de tempos em tempos, piscando juntamente com a batida da música electro-industrial. Nas paredes havia quadros enormes de pinturas que pareciam datas por volta de 1500, no mínimo. A atmosfera sombria tomava cada canto daquela enorme galeria.
Eles foram até o balcão, e Nico pediu duas bebidas, pagando assim que os copos foram entregues com o líquido que borbulhava e saia fumaça. Aquilo fez Reed sorrir abertamente, gostando ainda mais daquilo. Ele deu um longo gole, e suspirou. Estava gelado, e tinha um gosto de gin, mas com outra coisa misturada que não soube decifrar o que era.
pegou o copo e cheirou antes de beber, ainda achando aquilo tudo muito estranho e macabro para o seu gosto, mas estava se esforçando por saber que Nico tinha feito tanta questão da sua presença e, porque realmente ele saia pouco com o amigo. O mínimo que deveria fazer era curtir um pouco com ele. Deu um gole no copo, prendendo a careta que quis vir logo em seguida e se obrigou a engolir seja lá o que aquilo fosse, olhando novamente ao redor para ver as pessoas que dançavam.
De longe aquele não era bem o ambiente que gostava de participar, mas sabia que antes mesmo de chegar na metade da sua bebida, já estaria alcoolizado o suficiente para que aquilo fosse suportável e ele até se divertisse um pouco.
Nico olhou para os lados e acenou para o seguir, então foram para o meio das pessoas, já mexendo os seus corpos conforme a batida da música tocava. Como o lugar era grande e antigo, a acústica dele dava a impressão de estarem ouvindo sussurros desconexos, deixando o clima ainda mais pesado. Era como se a galeria estivesse tentando hipnotizar todos que estavam ali. Além do cheiro de absinto que tinha por ali, esfumado com um tom agridoce e ferroso.
Mesmo que Osborne tentasse empurrar para o lado o incômodo que continuava sentindo por estar ali, não conseguia por muito tempo. Logo seus olhos curiosos e astutos iam passando pelo ambiente, observando as pessoas ao mesmo tempo em que sentia que estava sendo observado. Ele bebeu mais um gole daquela coisa que Nico pediu e fitou a parte de cima, porém as luzes atrapalhavam sua visão, fazendo seus olhos se estreitarem.
— Vou procurar o banheiro — falou perto do ouvido do amigo.
— Vou contigo — avisou, virando o rosto e encarando de perto.
Osborne assentiu, e por ser mais alto que Nicolai, procurou por alguma placa que sinalizasse o banheiro, até que a viu e segurou no pulso do melhor amigo para que não se perdessem. foi desviando de quem estava atrapalhando seu caminho, e tomando cuidado para não derrubar o copo que estava parcialmente cheio. Ainda que o lugar fosse enorme, tinha o dobro de pessoas desde que chegaram.
— Que droga! — Osborne deu um passo para trás rapidamente, mas não o suficiente para impedir que seu copo virasse em sua camisa depois que uma mulher esbarrou nele e sequer parou para se desculpar. — Acho que ela não me viu.
— O que houve? — Nico perguntou, soltando sua mão e segurando a cintura de por trás.
— O copo virou em mim. — Osborne virou de leve o rosto e aumentou o tom de voz para que o amigo ouvisse. — Acho que ela não me viu, esbarrou sem querer.
— Relaxa, a gente cuida disso no banheiro — falou, apertando a cintura do amigo para que continuasse andando.
Sem ter muito o que fazer, apenas concordou e continuou o caminho que estava fazendo, agora no entanto, a mão de Nico não saiu de sua cintura. Se fosse qualquer outra pessoa ele estranharia, porém Nicolai era seu melhor amigo, sequer o via de qualquer outro jeito se não o fraternal.
Por sorte, a fila do banheiro não estava grande, e em menos de cinco minutos os dois já conseguiram entrar.
— Só esse lugar para conseguir deixar um banheiro sinistro — comentou depois que passou os olhos pelo ambiente e sacudiu a cabeça em negação. — Que droga, isso não vai sair da camisa. — Ele tirou a jaqueta que usava, vendo a região molhada e levemente manchada de vermelho.
— Tira a camisa — Nicolai pediu, deixando o seu copo sobre o balcão da pia.
retraiu os lábios, mas fez o que o amigo pediu, puxando de um lado só a barra da camisa que vestia e a passando por seus braços, fazendo o caminho contrário em seu tronco. Os olhos de Nicolai passaram vagarosamente pela pele que foi ficando exposta, e ele precisou respirar fundo, mas não desviou.
— Nunca mais ir em festas vestindo branco, está anotado na minha cabeça — Osborne fez piada, já que não conseguia se manter irritado por muito tempo. Ele se aproximou da pia e abriu a torneira, pronto para esfregar o tecido.
— Você teve azar, só isso — Nico comentou, seguindo ele com o olhar. — Quer ajuda?
— Você por acaso tem um tira manchas aí? — respondeu a pergunta com outra, olhando de soslaio para o amigo. — Se sim, eu aceito — riu mais uma vez. — Relaxa, eu to bem, só perdendo um pouco da dignidade, mas é algo característico meu.
Nicolai apenas riu de leve.
— Estou tentando saber qual é a dignidade que você perdeu — disse sem tirar os olhos do amigo.
— Todo molhado, cheirando a bebida e ainda por cima lavando a camisa na pia desse lugar — enumerou. — Quer mais?
— E o que tem demais nisso? — Deu de ombros. — Já me molhei várias vezes na festa, e só fiquei ainda mais gostoso com a camisa molhada e colada no corpo — riu um pouco, passando os olhos por . — Se quiser eu lavo a camisa, ou você fica com a minha. Tanto faz.
O que o amigo disse fez rolar os olhos.
— Isso porque você adora ser o centro das atenções, Nico — comentou e continuou esfregando a camisa na água corrente. — Acho que consegui tirar um pouco… — torceu bem o tecido, tirando o máximo de água que conseguiu e depois vestiu novamente a peça, ficando de frente para Reed. — E aí, dá para ver muito? — Questionou.
— Porra — murmurou olhando aquela cena. — Dá sim, está marcando tudo — contou olhando descaradamente para .
— Você é tão besta — Osborne riu, sem levar a sério uma única palavra do amigo.
Ia pegar a jaqueta para vesti-la por cima novamente, mas desistiu e entrou em uma das cabines individuais. Não queria usar o banheiro, ele só queria mesmo sair um pouco daquela aura do lado de fora que parecia sugar todo mundo para uma outra dimensão e era como se apenas ele conseguisse ver.
Nicolai não falou nada, apenas ficou encostado na pia esperando sair da cabine. Se perguntava se o amigo se fazia de louco ou se realmente não tinha a menor ideia do que realmente estava rolando ali. Nico não sabia mais o que falar para deixar mais explícito o que queria e sentia, a não ser que falasse com todas as letras, mas esse não era o seu estilo.
Dois minutos depois, saiu da cabine e lavou suas mãos, vestindo sua jaqueta novamente. A camisa úmida colava por todo o seu tronco e deixava tudo transparente, isso incomodaria Osborne em outro momento, mas o ambiente estava tão escuro do lado de fora do banheiro que ele sabia que ninguém olharia para ele.
— Vai usar? — perguntou apontando com o polegar para uma das cabines.
— Hm? Não — Nico falou distraído e negou com a cabeça. — Vamos?
concordou acenando de leve, mas agora deixou que o amigo saísse na frente para que ele fosse mais atrás. Já tinha perdido sua cota de sorte da noite e não queria que mais nada fosse derrubado em sua roupa.
Nicolai foi andando na frente, bebendo o resto de sua bebida, olhando toda hora por cima do ombro para saber se seu amigo estava perto dele.
— Quer pegar outra bebida? — ofereceu, já que Osborne tinha derrubado a dele.
— Por enquanto não — negou de leve. — Eu sei que você está doido pra ir pegar alguém, Nico, só vai. — Deixou claro que o amigo poderia o deixar sozinho.
— Eu quero pegar você — ele respondeu rindo, voltando a olhar para frente enquanto andavam.
— Sim, sim, claro, de meia noite — Osborne respondeu a brincadeira idiota do amigo, também acompanhando sua risada.
— Meia noite eu posso te beijar, então? — Nicolai olhou de novo para , e tinha um sorrisinho de lado em seus lábios, e em seguida olhou no relógio. — Falta pouco.
— Você é tão literal às vezes — rolou os olhos. — Vem, beijoqueiro, vamos arrumar alguém para você enfiar essa sua língua. — Segurou nos ombros do amigo, se colocando ao seu lado para voltarem a andar para a pista de dança.
— Eu já disse quem eu quero beijar — ele rebateu, rolando os olhos, e bebendo mais do seu drink.
não falou mais nada, mesmo que continuasse rindo da brincadeira. Nicolai tinha um jeito de levar a vida e as situações que, de certa forma, invejava um pouco. Era tão leve e despreocupado, que Osborne se perguntava se o garoto tinha alguma preocupação, ou jogava tudo para os ares.
Seguiu com o amigo até estarem no centro de toda a festa e o soltou balançando os próprios ombros de leve no ritmo da batida de Moth to a Flame do The Weeknd que tocava, parando de frente para Nicolai e começando a dançar.
Seu amigo o olhou, e sorriu de lado, dançando junto com ele, mas sem tirar seus olhos dos de . Aos poucos foi se aproximando mais, bebendo o seu drink e oferecendo para o garoto a sua frente, que passou a aceitar, mesmo que tomando em menor quantidade.
O refrão da música foi chegando e os flashes de luzes piscaram um pouco mais, assim como a fumaça artificial subiu e jogou a cabeça para trás rindo mais aberto. Era fraco para bebida — não que estivesse bêbado —, já estava um pouco alto e, como esperado, tudo alí ficou mais interessante e divertido.
Do mezanino, um homem com um par de óculos escuros em seu rosto, olhava para baixo através das lentes vermelhas, as pessoas dançando e se divertindo. Seus olhos astutos e minuciosos analisavam cada um deles, procurando algo que fosse do seu interesse, ele sempre achava. Não costumava ser muito exigente naquela questão, quando o sabor no final era relativamente igual, apenas com pequenas nuances que seu paladar afiado conseguia diferenciar. Apesar da música estar estupidamente alta, e conseguisse sentir a vibração dela por cada parte do seu corpo, ele sequer se importava com aquilo, tinha virado apenas ruído, quando seus ouvidos aguçados buscavam outro tipo de batida, algo mais suave e ritmado. Até que seu olhar parou, fixos nos dois garotos que dançavam juntos. Sua língua deslizou pelos lábios, os umedecendo, e um sorriso no canto surgiu. Aquilo era tão fácil e divertido para ele. — como as pessoas o chamavam ao decorrer dos séculos — se virou e passou por entre as pessoas e as criaturas que estava ali, que praticamente abriram caminho para ele. Então saiu do mezanino, e passou pelo longo corredor até chegar nas escadas e descer para o andar inferior.
A forma como andava exalava dominação e controle, qualquer um que o olhava saia da sua frente sem nem ao mesmo precisar falar nada, eles abriam espaço para a realeza como meros servos. Ele seguiu em direção que os garotos estavam, sua gargantilha de diamante rebatia o reflexo da luz que piscava sem parar, reluzindo na escuridão, dando um lampejo de visão para as pessoas que conseguiam vê-lo. Até que chegou onde realmente queria, parando atrás de . Naquele momento ele sentiu um cheiro doce, e não era de perfume ou qualquer coisa parecida, vinha do garoto que dançava, da sua pele que transpirava. Isso o fez lamber os lábios. Em dias mais brutais apenas pegaria a sua presa pelo cabelo e o morderia, fazendo o sangue jorrar no outro homem na frente dele. Porém, ele queria ser mais civilizado dessa vez. Apenas deslizou sua mão de forma suave pelas costas de , fazendo com que sentisse o toque, e o olhasse.
Osborne ria abertamente, seu corpo se mexia sem que ele precisasse se forçar e ele ia dançando no ritmo da música, deixando com que ela entrasse por baixo de sua pele, até que vibrasse em seus ossos. Não daria o braço a torcer tão facilmente para Nicolai, mas seu amigo tinha razão em dizer que ele precisava sair mais. Sua atenção se voltou para outro lugar, no entanto, quando sentiu um frio atingir seu estômago e também um toque se arrastando de leve por suas costas.
Rapidamente Osborne olhou por cima dos ombros e viu um cara, precisou conter a careta que quis sair quando viu que o homem simplesmente usava um óculos de sol — ridículo, na opinião de — naquele ambiente que já era escuro e fechado, mesmo que a maioria das pessoas estivessem usando.
— E aí! — Ele se virou mesmo assim, sendo gentil como sempre, o cumprimentando de forma animada.
— Posso te pagar algo para beber? — perguntou de forma cordial, um sotaque forte de alguma outra parte da Europa, enquanto sua mão se afastava das costas do garoto.
Nicolai viu sendo simpático com alguém, e uniu as sobrancelhas, olhando por cima do ombro do amigo, e vendo o outro homem ali. Isso fez sua mão ir até a cintura de Osborne e o puxar para perto, que olhou surpreso para ele.
— Ele está acompanhado — avisou a em uma tentativa de fazer o homem ir embora.
— Desculpa, mas ele sabe disso? — ergueu uma sobrancelha de forma bem sútil e ergueu o queixo de leve em direção a .
— Ele sabe falar por si mesmo — Osborne falou em terceira pessoa, e deu um tapinha na mão de Nicolai, se afastando dele. — Não quero bebida, obrigado — disse a e depois se virou para seu melhor amigo. — E você tem que parar de me proteger de qualquer pessoa que chega perto, eu não sou um animal indefeso — reclamou de forma séria.
— Você é um gatinho filhote, — Nico o corrigiu, tirando uma careta do seu amigo.
rolou os olhos com as coisas que estava ouvindo, às vezes achava as pessoas tão superficiais, por isso gostava de matar rápido, era bom para poupar seus ouvidos. Ele não costumava ser recusado, e aquilo foi inesperado. Todos aceitavam qualquer coisa que oferecesse. Isso o fez estreitar os olhos em direção a que estava de costas. Poderia facilmente compelir, mas não gostava de usar esse poder, ele gostava de ver as pessoas fazendo as coisas por livre e espontânea vontade.
— Eu vou no banheiro, e não, você não precisa ir comigo, eu sei o caminho — avisou a Nico, dando as costas sem esperar por uma resposta dele.
amava seu melhor amigo, mas por vezes a sua superproteção o irritava, porque parecia que Osborne não era capaz de lidar com nada ou ninguém, como se fosse uma criancinha inocente e indefesa.
Ele foi andando em direção ao banheiro, mas mudou de percurso na metade do caminho e seguiu até o balcão do bar, pedindo uma garrafinha de água ao barman — que o olhou torto pela escolha de bebida.
Obviamente que o seguiu por entre as pessoas, e passou ao lado dele.
— Achei que não queria beber nada — comentou, olhando para o barman e fazendo apenas um sinal com a mão, em um pedido silencioso para lhe servir o de sempre.
Osborne se virou ao reconhecer tanto a voz, quanto o sotaque forte.
— Não queria beber nada com você — esclareceu e abriu a garrafinha, tomando um gole enquanto desviava o olhar.
Aquilo fez rir nasalado, e um pequeno sorriso se formou no canto de sua boca com tamanha ousadia. Agora ele estava se divertindo com aquilo, observando um reles mortal fingindo ser dono do próprio nariz, como se livre arbítrio fosse realmente real. estava ali porque queria, apenas por isso. Ninguém, absolutamente ninguém, fazia o que ele não queria. Quando não conseguia com suas palavras, ele usava o medo, e quando para alguns loucos aquilo não era o suficiente, ele persuadia.
— Posso saber o motivo? — Seu olhar se voltou para o garoto.
— Você não ofereceu bebida só por gentileza — esclareceu o que tinha passado em sua mente. — E eu não sei o que quer, mas a resposta é não.
Não costumava ser tão direto assim, mas aquele mesmo aviso em neon de antes estava soando em sua mente de novo, e confiava em seus instintos.
Tinha que ficar longe daquele cara. A atitude daquele garoto petulante estava deixando bem curioso. Os humanos não costumavam ser tão hostis com ele de forma gratuita, tinha algo por trás daquilo e o vampiro queria descobrir.
— Tem problema com um homem te oferecendo uma bebida mesmo que eu não tenha pretensão alguma? — perguntou, mas olhou para o barman que colocou o copo na sua frente.
Era sangue com whisky, o cheiro forte da bebida fazia o aroma ferroso ficar mais discreto, conseguia confundir os humanos e acharem que o líquido âmbar estava misturado com outro tipo de bebida, apenas mais um drink exótico do Eclipse Hall.
Osborne olhou para o copo, notando que o cara sequer tinha feito algum pedido, o barman apenas colocou ali o copo como se já soubesse o que ele queria. Fora, claro, a forma como o funcionário parecia olhar para ele; totalmente submisso.
— Eu peguei uma água, coloca na conta dele — avisou ao barman, apontando para . — Bebida paga, obrigado. — Seu olhar foi para o homem.
O barman olhou para como se quisesse saber se aquilo seria permitido, e o vampiro apenas assentiu de leve com a cabeça, fazendo um gesto banal com a mão.
— Não respondeu a minha pergunta — pontuou, olhando para Osborne novamente.
estreitou os olhos.
— Tenho problema com quem acha que tem um rei na barriga — rebateu. — Obrigado pela água, bom trabalho — falou, mas única e exclusivamente para o barman, e tentou passar por .
— Eu te ofereci uma bebida, nada mais que isso. O fato de ter vindo até o bar não quer dizer que o ato é exclusivo seu. Então, antes de ser hostil, e me acusar de algo, tenha pelo menos um bom motivo para isso — falou de forma extremamente cordial e calmo, achando ridículo o comportamento do garoto. — Boa festa, com licença.
Foi só naquele momento que algo pareceu ter virado na mente de . Ele não era assim, nunca tinha sido, na verdade. Estava agindo na defensiva como se estivesse sendo atacado por todos os lados.
— Me desculpa — pediu, segurando de leve o braço de para que ele não se afastasse, mas logo o soltou, porque sua pele formigou ao sentir a dele tão gelada e seu peito errou uma batida. — Eu não sei o que me deu, só… me desculpa.
olhou de forma lenta para a mão do garoto que o tocou, tamanha ousadia poderia ser facilmente confundida, ou simplesmente petulante demais, ao ponto de ser o suficiente para que Osborne não respirasse mais no próximo segundo. O rosto do vampiro se inclinou ligeiramente para cima, encarando os olhos de com sua frieza nata, mesmo que os óculos-escuros escondessem sua real natureza.
— Não — respondeu com simplicidade, levando o copo até seus lábios e tomando um gole do seu drink, que manchou ligeiramente sua pele de marfim.
Osborne retraiu os lábios e assentiu pesaroso, envergonhado com a postura que teve com um cara que só ofereceu uma bebida a ele. Suas íris pararam de leve pela cor que se moldou perto dos lábios do homem e ele estranhou a bebida ser tão espessa, mas guardou a dúvida para si. Porém, a língua de passou lentamente por onde estava molhado, tirando qualquer resquício de sangue e whisky que pudesse ter ficado ali.
— Novamente, desculpa. Boa festa — desejou baixinho, indo procurar por Nicolai.
não falou absolutamente nada, apenas seguiu o garoto com o olhar, enquanto questionava se deveria apenas caçá-lo e matá-lo até o final da noite, ou se iria brincar com ele como gato e rato. A ideia predatória o deixava excitado, tinha um bom tempo que não se divertia com a comida. Humanos eram tão previsíveis, mas não agiu como tal, e isso deixava o vampiro com mais vontade ainda de brincar com o garoto antes de devorá-lo. Então um sorrisinho surgiu no canto dos seus lábios. Ele terminou de tomar o seu drink e voltou para o mezanino. De lá conseguia ver perfeitamente tudo o que precisava, especialmente Osborne.
estava se sentindo culpado e envergonhado, jamais tinha tratado ninguém da forma como tinha falado com e ele sequer entendia o porquê ter agido como agiu. Só teve aquela sensação de perigo e se agarrou a seus instintos — que se provaram ser falhos até demais.
O garoto voltou até onde seu melhor amigo estava, não falou ou deu abertura para que ele comentasse sobre o que aconteceu; só tentou acompanhar Nicolai dançando e, vez ou outra, aceitava um pouco do que o amigo bebia, desejando dispersar cem por cento sua mente que continuava repreendendo suas últimas atitudes.
E até deu certo, voltou a sentir seu corpo mais mole, e também calor, muito calor. Ele tirou a jaqueta, ficando só com a camisa que, nessa altura do campeonato, estava úmida da água misturada ao seu suor.
Pelo restante do tempo em que permaneceu na Eclipse Hall ao lado de Nicolai, não conseguiu se livrar da sensação incômoda de estar sendo observado — como se olhos invisíveis o seguissem com curiosidade silenciosa, uma plateia fantasma oculta entre as sombras. De vez em quando, ele até desviava o olhar para os cantos do salão, procurando o espectador clandestino que sua mente insistia em imaginar, mas nunca encontrava nada. Acabou concluindo que estava apenas ficando paranoico.
A sensação, porém, se recusou a desaparecer. Permaneceu grudada nele durante todo o tempo em que ficou em Silberring e o acompanhou até a porta de casa, onde Nicolai se despediu. E quando finalmente se deitou, rolando de um lado para o outro na tentativa de adormecer, ela apenas se intensificou — firme, inquietante, como se alguém estivesse ali, fixo nele.
Ele se sentiu completamente insano quando resolveu vasculhar o quarto inteiro, abrindo portas, verificando cantos, chegando até a espiar pela janela. Tudo o que viu foi a rua vazia e silenciosa.
Só depois de muito esforço — e de convencer a si mesmo de que era apenas efeito da bebida — conseguiu finalmente adormecer.
O que não sabia era que seus instintos, desde o primeiro instante, estavam absolutamente certos.
Então, em uma das noites que estava com a neblina mais densa, e um leve chuvisco, ele entrou na cafeteria vestindo um enorme sobretudo, seus fios molhados e brilhando por causa das gotículas de água presa neles, e suas botas levemente sujas de lama. O seu perfume invadiu o recinto, um almíscar com um tom amadeirado. passou os dedos gélidos pelo seu cabelo tentando se livrar da umidade deles, e os bagunçou de leve, jogando para o lado, fazendo a franja cair pela lateral do seu rosto. Então, de forma totalmente minuciosa, tirou seu sobretudo e o pendurou em um gancho que tinha ao lado da ponta, onde estava um casaco de .
O vampiro se dirigiu até uma mesa no canto, e se sentou, pegando o cardápio e passando os olhos por ele de forma lenta mesmo que conseguisse ler extremamente rápido. Apesar de sua aparência e comportamento, ele ainda tentava parecer com os humanos às vezes.
A cafeteria estava com um movimento mais ameno, o horário de mais trabalho tinha passado e agora só restavam os clientes que só iam para um café e aproveitar o clima para ler um bom livro. conversava com uma das clientes sobre a indicação que tinha dado a ela na semana anterior, e comentavam sobre o progresso de sua leitura enquanto o garoto fazia desenhos na espuma do café que ela pediu — algo que ele adorava fazer.
O sorriso leve e sem preocupações nos seus lábios, seguido com o semblante calmo e gentil era a combinação perfeita para deixar todos confortáveis e garantir que desejassem voltar mais vezes à cafeteria.
— Eu tenho que atender àquela mesa — anunciou a garota, entregando o expresso a ela.
— Ah, que pena, , o papo estava tão bom — choramingou manhosa.
— Eu odeio quando eu venho trabalhar e tenho que trabalhar, é tão tóxico da parte dos clientes — Osborne comentou bem humorado, tirando uma risadinha da garota.
Ela, no entanto, pegou um dos guardanapos e aproveitou que estava com uma caneta por perto. Anotou seu número no papel e arrastou até .
— A gente pode marcar para conversar fora do ambiente tóxico — falou esperançosa.
pegou o guardanapo, não falou nada, só deu um meio sorriso amarelo e guardou o número em seu bolso murmurando um “preciso ir”.
olhava discretamente a cena com um tédio enorme, pensando em como os humanos eram tão patéticos e sem graça. O sorrisinho da garota o deixava enjoado. Tirando o fato de que queria atenção, porque não bastava que os poucos clientes ali estivesse o observando curioso, ele queria os olhos de em si. Seus olhos até rolaram algumas vezes na pequena interação do atendente com a cliente oferecida. Certamente ela não responderia a mensagem quando Osborne mandasse algo, isso, claro, se ele encontrasse o guardanapo depois. Porém, quando percebeu que estava se virando para ir até sua mesa, ele fingiu que estava totalmente concentrado no cardápio, passando a página de um lado para o outro, em dúvida do que pedir, ou pelo menos interpretando algo que seria uma pessoa indecisa com tantas opções.
— Boa noite! — cumprimentou em seu bom humor, tirando da lateral da sua calça o caderninho de pedidos e sua caneta. — Bem vindo ao Mondlicht Café, vai pedir agora ou precisa de mais um tempinho para escolher? — perguntou educado.
apenas ergueu de forma lenta seu olhar do cardápio para , seus olhos extremamente claros, em um tom de verde cintilante que se perdia com mel quando chegava perto de sua pupila. Ele sentia o cheiro do garoto que se destacava dentre os demais, agora bem mais forte por estar mais perto.
— Boa noite — respondeu em um tom baixo, com seu forte sotaque rasgando sua voz. — Estou na dúvida entre um chá de laranja com mel e limão, ou um café com creme — confessou, voltando a olhar para o cardápio que estava em sua mão repleta de anéis, em seu teatro perfeito.
Osborne fez um leve biquinho pensando no que indicar diante das duas opções do homem, mas não deixou de olhar para suas mãos, os anéis que ele usava chamaram sua atenção por um único momento.
— Posso te indicar o café com creme — comentou. — A noite está fria, combina mais, e eu posso complementar com um toque de avelã e damasco — completou pensativo, sem sequer lembrar de .
— Hm, você faz o café ficar mais gostoso do que o chá? — Questionou, e ergueu de leve seu rosto, voltando a olhá-lo.
— É minha especialidade — respondeu em bom humor, sorrindo leve.
— E se eu não gostar, posso devolver? — O canto do seu lábio se curvou de leve em um sorriso pequeno.
— Se você não gostar, o café fica por conta da casa e te faço o chá que pediu — garantiu, já que tinha notado que aquele não era um cliente regular. Ele reconhecia os rostos costumeiros, e aquele não era um. — E aí, vai querer ser surpreendido pelo meu café? — perguntou gentil.
— Vou te dar a chance de me surpreender — disse, percebendo que não o reconheceu, e achou aquilo um absurdo, todos que viam o seu rosto se lembravam.
Osborne sorriu e anotou o pedido na comanda da mesa em que o homem estava, porém antes de ir para a parte interna do balcão fazer o café, seguiu até uma das estantes rapidamente procurando um livro em específico.
cantarolava baixinho enquanto passava os olhos pela prateleira e seu indicador acompanhava o movimento, até que achou o livro desejado. Ele voltou para a mesa em que estava e deixou rente ao homem o livro Cem Anos de Solidão, um clássico do realismo mágico.
Era uma de suas maiores manias, ele atendia os clientes e, enquanto os observava, ia traçando possíveis obras que poderiam gostar. Quase nunca errava, e esperava que não acontecesse logo agora com o cliente novo.
O vampiro olhou para o livro e sua expressão foi extremamente genuína agora, porque tinha sido pego de surpresa, porém o título do livro foi uma espécie de insulto, suas sobrancelhas se uniram fortemente em uma pequena careta. O que estava insinuando? Que ele era sozinho? Aquilo era ultrajante. nunca estava sozinho, ele sempre tinha servos e mais servos o cercando, todos o venerando e desejando, querendo que fosse a sua vez de ser notado aos olhos dele. Sequer tocou no livro, quis queimar aquilo, porém, apenas pegou o seu celular e ficou mexendo, tentando passar o tempo enquanto aguardava o seu pedido.
Osborne foi preparar o que indicou a , caprichando bem nas especiarias e também no desenho que fez na espuma do creme, então cerca de cinco minutos depois, estava voltando com a xícara na bandeja — e até colocou uns biscoitos de leite ao lado. Com cuidado, colocou o pedido do homem à sua frente e segurou a bandeja embaixo de um dos braços.
— Não gostou do livro? — perguntou curioso, notando que estava da exata mesma forma que tinha deixado.
— Qual foi o seu critério para a escolha dele? — Seu olhar sério se ergueu até encarar o garoto que estava começando a deixá-lo irritado com tamanha petulância.
— Você não me parece um cara que lê romances sem ficar entediado, e obras de autoconhecimento ou auto-ajuda te dariam o mesmo sentimento — explicou. — Cem Anos de Solidão é um dos meus livros favoritos, foge do comum que esperamos encontrar, é profundo sem ser pedante. Lindo, mágico, engraçado e triste ao mesmo tempo. A escrita é poética e vívida, quase hipnótica — foi falando, empolgado pela pergunta que tinha sido feita, sem perceber o quanto tagarelava.
Poética seria a forma que o sangue do garoto iria esguichar quando enfiasse suas garras nele. Era o que o vampiro pensou em meio de sua irritação. Autoconhecimento? Autoajuda? Aquilo era realmente sério? Ele já tinha passado tempo demais consigo mesmo para conhecer cada parte sua, não tinha nada em que não soubesse e conhecesse. Porém, em meio a tudo aquilo, ele percebeu que não estava fazendo por provocação, estava sendo realmente genuíno, especialmente pela forma que seu coração batia.
— Obrigado pela preocupação, mas eu gosto de escolher o que vou ler — agradeceu em um tom baixo, porém cordial como sempre.
Osborne ainda pretendia falar mais, ele sempre se tornava um insuportável tagarela quando se tratava dos livros que gostava. Mas entendeu que o assunto tinha sido encerrado e apenas sorriu gentilmente para o cliente, recolhendo o livro que tinha colocado em sua mesa.
— Se precisar de mais alguma coisa, só me chamar. — Se despediu com um aceno singelo e breve de sua cabeça.
Talvez um pouco do seu sangue na bebida.
Foi o que pensou, mas apenas assentiu de forma sútil para o garoto de retirar. Ainda estava incomodado com o que quis insinuar, mas não iria falar nada, afinal, era só um humano que não fazia ideia de quem realmente é.
Osborne continuou o que já estava habituado e era rotineiro a se fazer. Atendia os clientes e conversava animadamente com eles, se empolgando sobre o que andavam lendo e até recomendava mais obras. Ele brincava com sua família e com Nico de que nem parecia que estava trabalhando, já que se divertia enquanto o fazia.
Aproveitando que estava tendo mais uma pequena pausa, o garoto foi recolhendo os livros que estavam pelas mesas, os colocando no carrinho e foi até as prateleiras das estantes, cantarolando distraído enquanto guardava os livros em seus devidos lugares.
apenas ficou sentado, bebendo café enquanto mexia no celular, mas estava de fato prestando atenção em , no que fazia, nos sons que ele emitia até mesmo quando respirava, como se procurasse por algo oculto no garoto, mas nunca achava nada. O vampiro cogitava se mataria ele aquela noite ou não, mas sabia que era apenas a sua irritação pela petulância dele, porém o lado inocente era o que o mantinha vivo ainda. Essa era a verdade.
Quando terminou seu café, ele se levantou, silenciosamente como todos os seus movimentos sempre era, uma espécie de fantasma entre os vivos, e foi caminhando da mesma forma por entre as prateleiras olhando o que tinha de interessante ali, obviamente Osborne era o título que mais o interessava, ainda assim continuava com seu teatro, sendo sútil, e passando os olhos pelos livros. Nada lhe chamava atenção de fato.
Se não fosse pelo movimento de ter que se virar para pegar mais outro livro, certamente que não notaria a presença de ali. O garoto sorriu de leve para o homem, mas não parou de cantarolar e organizar a estante, deixando que ele escolhesse o que leria — como mesmo deixou claro que era o que preferia.
A presença daquele cara ali, no entanto, estava deixando o garoto levemente inquieto.
— Você canta bem — comentou de forma distraída, passando o indicador na lombada de um livro e o puxando, fazendo cair em sua mão com maestria e destreza.
— Obrigado. — Riu de canto. — Todas as quintas temos a noite do cover — comentou. — Deveria vir também.
— Eu? — O vampiro riu nasalado, negando com a cabeça. — Você canta nas quintas?
assentiu.
— Sim, você. — Continuou. — Tem cara de que aprecia arte, se me permite dizer — deu de ombros. — Sim. Eu, meu violão e um sonho — brincou.
— Eu aprecio muitas coisas — respondeu cordialmente, abrindo o livro e passando os olhos pela primeira página. — Cantar é para os mortais — disse, rindo nasalado e sorrindo de forma sútil. — O sonho é querer que alguém te escute de verdade?
— E não é o que todos nós somos? — questionou retoricamente, sorrindo de leve, quando o homem falou sobre os mortais. — O sonho de juntar dinheiro o suficiente para a faculdade — explicou e então se virou para ele depois que viu o carrinho já vazio. — Os clientes deixam muitas gorjetas.
— É uma forma de expressão. Cantar é para pessoas que têm sentimentos, apenas isso — explicou o que quis dizer sobre. — Claro, dinheiro — sussurrou para si mesmo frustrado, até porque por um momento ele cogitou que seria por outro motivo. — Se quinta eu estiver disponível, tento vir aqui.
sorriu e passou os dedos por seus cachinhos.
— Não me disse se gostou do café — comentou.
— Foi bom — respondeu sem tirar os olhos do livro. — Você quem fez os biscoitos?
Osborne o fitou por dois segundos, primeiro passando os olhos do livro que ele lia, e depois em seu rosto. Fez isso mais duas vezes.
— Sim, às vezes me arrisco na cozinha.
— Coloque menos manteiga da próxima vez, vai fazer o biscoito ficar mais crocante — avisou em forma de conselho.
O retrair dos lábios do mais novo foi inevitável.
— Certo, majestade — murmurou para si mesmo, bem baixinho, apenas um mover de lábios. — Licença, preciso voltar a trabalhar — avisou educado, puxando o carrinho.
O vampiro quis rir naquele momento.
— Está começando a entender — murmurou, ficando mais entretido com o comportamento do garoto.
olhou por cima dos ombros aquele cara completamente estranho e, pelo que percebeu, um poço sem fundo de egocentrismo. Era melhor ficar longe dele, e se arrependeu amargamente de ter falado sobre a quinta do cover. Passou a desejar que ele não aparecesse. E que nunca mais voltasse à cafeteria. De gente assim, queria distância.
se encostou na estante e ficou lendo um pouco do livro que tinha pegado, era um romance de vampiro, ele gostava de ler e ver o quanto os humanos eram criativos em romantizar vampiros. Ele gostava do quão obscuro poderia ser a mente dos mortais de se apaixonar pela própria morte, algo totalmente sem fundamento quando a única coisa valiosa que tinham realmente eram suas vidas, e a entregar em troca de um amor parecia tão pequeno aos olhos dele.
O vampiro ficou ali por um tempo lendo aquela obra inteira, curioso para saber como terminaria, e quando chegou no final, percebeu que era só o primeiro de uma saga. Isso o fez rolar os olhos totalmente frustrado por ter que procurar agora a continuação daquilo. Então olhou pelas prateleiras e não encontrou nada, e isso o fez ir até o balcão, onde estava conversando com a mesma garota de antes, e colocou o livro sobre ele, o empurrando devagar na direção do garoto.
— Licença, garoto — disse para que Osborne o olhasse, sabendo que não tinha feito isso antes por mera pirraça.
— Só um minuto, Maya — pediu educado a garota que sorria abertamente para ele. — Pois não? — Olhou para .
— Você tem as continuações desse livro? — perguntou indicando o que estava entre eles.
— Terceira estante depois do lustre, lado esquerdo, prateleira do meio — Osborne respondeu de imediato.
— Ah, não, , eu estou levando o segundo livro — Maya informou, mostrando a obra em sua bolsa.
— Hm — murmurou, e seu olhar seguiu bem sério para a mulher, depois voltou a encarar o atendente. — Pode encomendar os outros?
Ainda que tivesse chegado à conclusão de que não queria mais aquele cara na cafeteria, não era do seu feitio deixar nenhum cliente insatisfeito.
— Demora quinze dias para que a remessa de encomenda chegue. Eu tenho à trilogia em casa, se você vier na quinta, te empresto. — Sorriu de canto.
— Tudo bem — respondeu de maneira educada.
pegou sua carteira no bolso de sua calça e colocou cem euros sobre o balcão. Então se afastou, indo em direção a porta, mas é claro que não chegou a ir tão longe.
Quando Osborne viu a nota, seus olhos se arregalaram, principalmente porque o homem não esperou pelo troco. Ele pulou o balcão com maestria, e seguiu com o dinheiro em mãos.
— Licença. — Deu uma pequena corridinha até parar de frente ao mais velho. — O café não custa nem dez euros — explicou pausadamente.
— É pelo empréstimo dos livros, a sua atenção, e a gorjeta também — explicou desviando dele e pegando seu casaco no gancho.
— Ainda assim seria uma gorjeta muito alta — murmurou olhando para a nota.
— Algum problema? — quis saber enquanto colocava seu enorme casaco. — Não é por isso que você canta?
levantou os olhos até os de .
— Só nunca recebi uma gorjeta tão alta. — Riu um pouco sem jeito e suas bochechas coraram. — Obrigado, cara!
— Você não canta tão mal — brincou, dando um pequeno sorriso. — Vossa Majestade — corrigiu a forma que foi chamado.
Foi impossível Osborne conter o revirar de olhos, porém ele continuava sorrindo.
— Certo. Te vejo na quinta, cara. — Frisou novamente a palavra, piscando um dos olhos em diversão para .
— Achei que você tivesse aprendido, engano meu — rebateu com certo humor, se virando e indo em direção a porta.
— A te chamar de majestade? — perguntou um pouco mais alto. — Vai sonhando. Boa noite. — desejou hospitaleiro.
— ! Volta pra cá, quero conversar com você sobre o próximo capítulo — A voz estridente e manhosa de Maya chamou a atenção do atendente, que logo virou para voltar.
— Bem, você já falou uma vez — retrucou em um tom que sabia que ouviria, enquanto saía da cafeteria sem se despedir.
seguiu para um dos becos e sumiu até o topo do prédio da frente, onde tinha a visão perfeita da cafeteria, mesmo com a neblina extremamente intensa impedindo a visão de qualquer humano ter até mesmo um metro de distância. O vampiro aguardou de forma paciente, aquilo não era um problema quando a eternidade não era nada para ele. Os minutos viraram horas e a garota saiu da cafeteria apenas quando a fechou, indo para lados opostos depois de se despedirem e ela deixar um beijo apertado na bochecha do garoto. O vampiro desceu do prédio sem fazer qualquer barulho e foi seguindo Maya em meio da neblina, ficando perto o suficiente para ela sentir a sua presença e soubesse que tinha algo por ali.
Maya olhou para trás rapidamente e apressou seus passos de forma bastante apertada. Odiava como Mondwelle se tornava sinistra de uma hora para outra, e mesmo sua mãe dizendo que ela não deveria voltar tão tarde, ela não se aguentava e, pelo menos três vezes por semana ficava até a hora que a cafeteria fechava, conversando com , querendo a atenção do garoto. Ela estava feliz, apesar de tudo, pois tinha dado um passo arriscado tendo entregado a ele seu número, porém acreditou que não viu nada demais em sua atitude, já que estavam conversando normalmente depois.
O vampiro ergueu levemente seu rosto e puxou mais o ar, sentindo o cheiro da garota mudando, sendo misturado com o de medo, fazendo sua língua deslizar lentamente por seus lábios de forma suculenta. A criatura sorriu abertamente, se aproximando mais e deixou o ar sair por seus lábios que chegaram ao ouvido da garota.
— Não deveria andar à noite — sussurrou com a voz rouca e cortante, se afastando tão rápido quanto chegou, fazendo com que tivesse a impressão de que estava ouvindo coisas.
Maya se virou rapidamente e soltou um gritinho, a mão automaticamente foi até seu peito e sua respiração trepidou, assim como suas pernas que já começavam a tremer. Não tinha ninguém, e mesmo assim ela jurou ter ouvido uma voz.
Apertando a alça da bolsa em seu ombro, ela não quis esperar para saber o que aconteceria, virou novamente e seu andar rápido se tornou uma corrida. Se tivesse sido esperta, teria chamado um Uber, mas Maya era teimosa e preferia ir de metrô, o que dava uma caminhada de cinco minutos de onde estava.
Aquilo fez rir extremamente divertido, o seu sorriso foi se tornando cada vez maior, maldoso e monstruoso, os dentes brancos e afiados tocando seu lábio, e furaria sua pele não fosse tão resistente. Ele foi atrás da garota sussurrando que deveria correr mais, a apavorando em puro deleite. O cheiro dela ficando cada vez mais delicioso, os poros se abrindo pelo medo e a corrida. Então, em um movimento leve e simples, ele cortou a alça da bolsa de Maya com suas garras.
A esse ponto ela já chorava desesperada, o pavor tomava conta de cada célula do seu corpo e ela tremia tanto que mal sabia como se mantinha de pé. Talvez fosse por isso que, quando sua bolsa caiu, ela tropeçou e foi junto ao chão, gemendo de dor por sentir os joelhos ralando, assim como a palma de suas mãos. Rapidamente tentou se levantar, mesmo com sua pele e ossos reclamando pelo esforço. Ela só precisava ir embora, chegar em casa e se trancar.
se deliciava com a cena, deixando seu instinto selvagem cada vez mais exposto. Ele deixou que Maya levantasse e voltasse a correr, então deu a volta e parou na frente dela, fazendo com que a garota trombasse contra seu peito.
— Por Deus! — Maya gritou, ia pedir por socorro, mas logo reconheceu aquele como sendo o cara da cafeteria. — Ai! Ainda bem que é você! — falou em alívio, limpando o rosto. — Estávamos na cafeteria ainda pouco, com o , lembra? — Sua voz trepidava, deixando claro o choro preso em sua garganta. — Poderia ir comigo até a estação do metrô?
agora parecia apenas um “humano”, então sorriu de forma gentil, mas franziu o cenho de leve e olhou para baixo.
— Você está sangrando? — perguntou olhando para a mão dela como se estivesse preocupado.
— Eu acabei caindo — choramingou, e então mostrou a ele a lateral da panturrilha e joelho, onde estava bem mais arranhado e saindo mais sangue.
— Posso? — Apontou para a mão dela.
— Pode — respondeu, mas sem muita força, já que não sabia o que o homem pretendia.
O vampiro pegou o pulso dela com cuidado, e o ergueu, vendo o sangue saindo do arranhão em sua palma. Então puxou um lenço no bolso interno do seu sobretudo e levou até a ferida, pressionando de leve, transferindo o sangue para o tecido, e o levou em seguida até seu nariz, cheirando, e fechou os olhos por um segundo, mas voltou a abri-los. Ainda segurando o pulso da garota, ele levou a mão dela até seus lábios, sem desviar o olhar, e lambeu a ferida lentamente, saboreando o gosto.
— Que merda você está fazendo?! — Maya tentou puxar a mão, mas ele era incrivelmente muito forte, então não adiantou de muita coisa. — Me solta, maluco! — mandou, e tentou chutar as bolas de , que a virou com facilidade, fazendo as costas dela bater contra o seu peito.
— Você não deveria ser tão intrometida — sussurrou contra a orelha dela, sibilando bem baixo.
— Do que você está falando? — Ela se sacudiu. — Me solta! — pediu outra vez, porém já estava soluçando. — Por favor. Tem dinheiro na minha bolsa, só pega e vai embora.
— Você sabe do que estou falando, garotinha — respondeu passando seus dentes afiados lentamente pela pele dela. — Eu tenho cara de quem quer o seu dinheiro? — Os lábios dele passaram pela lateral do pescoço da garota, que se arrepiou em puro medo.
Maya estava suando e tremendo, ela continuava tentando se soltar, mas era como estar presta ao material mais resistente do mundo, seus esforços sequer surtia o mínimo efeito contra .
— Eu não sei do que você está falando — soluçou, as lágrimas caindo de forma pesada. — Por favor, me deixa ir. Por favor — implorou.
— Se intrometeu em uma conversa que não estava convidada — contou, afundando seus dentes na carótida da mulher, rasgando a pele dela e fazendo o sangue espirrar na boca de .
A pontada dolorosa atravessou a pele de Maya que gritou alto. Por instinto seu corpo passou a produzir adrenalina e ela ia tentando se debater, mesmo com a dor que sentia. Precisava se livrar daquele maluco e ir para um lugar seguro.
Mas era em vão, além dele ser extremamente forte, ela ia se sentindo cada vez mais fraca, e a dor que começou em seu pescoço ia irradiando para todos os lugares. O vampiro foi sugando aquele elixir da vida até que não restasse mais gota alguma naquele corpo que foi murchando em seus braços como uma flor morta. Ele a soltou no chão como se não fosse nada e lambeu os lábios melados, ganhando um leve tom escarlate. se abaixou e começou a mexer na bolsa da garota, tirando de lá o livro que ele queria, dando um pequeno sorriso contente, assim ele não precisaria esperar até quinta para ler aquela continuação. Então se levantou, pegou o celular e mandou uma mensagem para um dos seus servos ir limpar aquilo, ele nunca se preocupou com um corpo e isso nunca mudaria.
O vampiro se virou e começou a andar para o lado oposto enquanto abria o seu novo livro e começava a ler tranquilamente, já que agora estava bem alimentado e mataria sua curiosidade.

