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Autora Independente do Cosmos ✨
Atualizada em: 20/07/2025

my reputation’s never been worse
we can’t make
any promises now, can we, babe?
‘cause I know that it’s delicate


🎧Delicate — Taylor Swift


— Você quer que eu faça o quê?
O tom de incredulidade ganhou força naquele ambiente, preenchendo o silêncio que se seguiu após a informação do novo trabalho ser jogada no colo da agente britânica. Ela manteve a expressão neutra, mas os lábios espremidos demonstravam um pouco qual era o seu posicionamento sobre aquilo. Talvez fosse uma brincadeira de mau gosto, uma pegadinha, alguma coisa do tipo para testá-la, porque não havia a menor possibilidade dela aceitar estar naquela posição.
— Não me faça repetir, — George disse, empurrando uma pasta para ela, do outro lado da mesa.
lambeu os lábios e apertou as mãos, pousadas em seu próprio colo, tentando conter o suspiro irritado que queria deixar escapar. George não era conhecido por ser um homem contemplado por sua paciência, mas ela não se importava. Estava mais interessada em entender o esquema da coisa toda que ele acabou de inseri-la. Se parasse para pensar por um minuto, ela conseguiria pensar em outras pessoas que poderiam estar ali no lugar dela.
Para aquele trabalho novo.
— Isso é algum tipo de castigo? — ela finalmente se pronunciou, sem mover um músculo sequer na direção da pasta. — Eu sei que a coisa toda no estrangeiro foi um desastre, mas…
— Um desastre? — Ele balançou a cabeça, quase rindo. — Foi uma catástrofe, .
Beleza, ela teve que soltar aquele suspiro. Sua mão subiu para esfregar sua têmpora direita e ela até franziu o nariz. Não eram nem mesmo nove horas da manhã. Lá fora, o céu estava nublado, as nuvens carregadas. Ela pareceu se esquecer o quão fria Londres conseguia ser, uma cidade que ela não simpatizava muito, ainda que ela própria tenha nascido ali. E também era onde a agência costumava ficar, bem escondida no centro de tantos prédios, poluindo a beleza do que seria a ideia da elegância britânica.
— Então é um castigo — ela concluiu, enfim.
George encarou a mulher por alguns segundos.
Era uma missão incomum, ele admitia. Não era exatamente a especialidade de trabalho de campo da agente à sua frente, mas as rugas de estresse saltando no meio da sua testa revelavam a pressão que estava sofrendo para fazer a melhor escolha.
— Aquela missão irritou muita gente quando começou a dar errado — ele começou a dizer, recostando-se contra a poltrona de couro, ainda mantendo os olhos nela. Era um olhar sereno, mas sua expressão era o contrário de relaxada. conseguiria até mesmo contar as linhas de expressão do rosto dele, se quisesse fazer isso. — Eu sei que saiu do controle e que você tentou contornar a situação, mas você sabe que isso não importa para aqueles no alto escalão, . Eles querem um culpado.
Ela não se alterou. Seu corpo nem mesmo moveu um músculo sequer, nada fora do lugar.
— E eu não posso entregar sua cabeça de bandeja assim. Seu comandante está assumindo a culpa pela equipe, mas isso significa que o restante ainda precisa pagar de algum jeito — o homem continuou. — Eu sei que parece uma missão inferior para tudo o que você é capaz de fazer, mas ou você aceita isso ou será jogada para trabalho administrativo atrás de uma mesa e um computador velho.
E aceitar a segunda opção era o pior rebaixamento que um agente de campo podia receber daquela forma. Ela ponderou suas opções e as consequências do erro da missão. Sua mente se agitou, os polegares começando a se esfregar contra os outros dedos, um sinal sutil da leve ansiedade que acomodava o seu peito, mas ela não abriu a boca para dizer nada. Não retrucou, não argumentou, não xingou.
Ela só pensou que sua situação poderia ser muito pior, se não fosse por George. Ele teve um papel crucial na sua formação como agente, ensinando tudo o que ela sabia sobre espionagem, e agora estava dando uma opção para ela não fazer a coisa que mais odiava na vida: trabalho administrativo.
— Não tenho experiência como babá de um homem adulto — ela finalmente disse alguma coisa, o tom saindo de um jeito sutilmente duro.
George ignorou.
— É um caso simples — ele tornou a dizer. — Ele é um jogador inglês saindo de um clube inglês prestigiado para jogar em outro clube prestigiado na Espanha. Acontece que essa transferência se tornou bastante polêmica e os torcedores do clube inglês não estão aceitando muito bem.
Percebendo que ela não estava nem um pouco interessada em abrir a pasta e avaliar a situação, ele mesmo fez isso. Virou três páginas, parando na que queria, mostrando para ela. Os olhos de acompanharam os movimentos do mais velho.
— Ele está recebendo ameaças — George continuou. — A princípio, não parecia nada preocupante, pelo contrário, isso até era esperado, devido aos protestos dos torcedores, mas a coisa continuou se agravando. E perdeu o controle na última semana.
Ele apontou insistentemente para uma foto e, revirando os olhos, puxou a pasta das mãos dele e começou a analisar de modo mais atencioso. Aquela missão não tinha o seu interesse, mas ela sentia que também não tinha muita escolha, então cedeu e encarou as fotos de um carro amassado e outra de uma porta com a maçaneta quebrada, indicando uma invasão. Havia diversos bilhetes amassados, contendo textos de ameaças, acusação dele ser um traidor egoísta e coisas do tipo.
— Por que a agência pegaria esse tipo de caso? — questionou, levantando a sobrancelha. — Não parece uma preocupação nossa manter a segurança de um jogador inglês intacta.
O homem esfregou a ponta do nariz, os dedos da mão esquerda batucando levemente contra a mesa.
— Ele é famoso, o que significa que tem contatos. O agente responsável por sua carreira, por exemplo, é amigo pessoal do diretor. Ele solicitou pessoalmente uma investigação do caso e proteção pessoal para o jogador — George explicou, dando de ombros. — Isso precisa ser resolvido com discrição, . Não há necessidade de pânico. Aceite o trabalho. Em menos de seis meses, você consegue neutralizar as ameaças e finalizar essa missão.
A mais nova balançou a cabeça e soltou uma risada baixa, umedecendo os lábios secos em seguida. Ela fechou a pasta e deixou os ombros caírem de um jeito quase sutil, levantando o rosto o suficiente para manter os olhos fixos no homem do outro lado.
— Então meu castigo é fazer um favor pessoal para o diretor? — ela soltou.
— Isso não é nada para você — o homem disse, firme. — Convença os outros que o jogador está seguro e você volta para suas missões mais relevantes.
— Você tá fazendo isso parecer fácil.
— É fácil, . É só um jogador de futebol prestigiado recebendo ameaças porque teve o livre arbítrio de escolher em que clube quer jogar, mas os torcedores são imaturos demais para aceitar isso. Estão irritados e magoados, é só uma fase. E você consegue resolver rapidinho.
Ela não acreditou muito nas palavras dele.
Talvez fosse mesmo uma missão fácil e rápida e ela odiasse a ideia de ser babá daquela forma, mas também aprendeu a nunca subestimar uma missão. As coisas tinham um jeito imprevisível de se desenrolarem e mesmo que fossem apenas torcedores frustrados querendo descontar suas mágoas por uma escolha pessoal de alguém que estava deixando o clube sem pensar duas vezes, a situação passou a ter um teor preocupante quando ele sofreu um acidente e sua casa foi invadida.
— Eu tenho escolha?
Ele quase sorriu, encolhendo um ombro, dando a sua resposta típica.
— Você sempre tem escolha. Entre uma ruim e uma pior, a decisão é sua.
Voltar a campo e ser a sombra de um jogador famoso. Ser rebaixada de função e mergulhar em trabalho administrativo, presa à uma mesa e um computador velho.
Ela ponderou suas opções.
Se aquilo era um favor pessoal para o diretor da agência e ela tinha irritado as pessoas erradas com a sua equipe na última missão, se aceitasse a atual e obtivesse sucesso em manter o alvo da ameaça seguro, ela teria um pouco do prestígio do diretor. Talvez saísse daquela lista obscura que alguém estava colocando-a, pondo em dúvida todo o seu trabalho e experiência.
— Tudo bem, eu vou aceitar essa merda toda — ela disse, por fim, depois de alguns segundos muito longo de silêncio, sendo alvo da observação atenta de George. Ela se levantou, segurando a pasta com uma firmeza impressionante, talvez tomada por uma irritação genuína. — Mas já vou avisando que não vou arcar com despesas nenhuma. Hotel, alimentação, transporte… é tudo por conta de vocês.
Quando deu as costas e girou a maçaneta da porta para sair dali, encerrando aquela conversa que decidiu o seu destino na agência pelos próximos seis meses, ela parou por um instante, virando apenas o rosto na direção do mais velho quando ele chamou o seu nome.
— E, , ninguém pode saber por que você está lá.
Ela não disse nada.
Só bateu a porta e saiu andando pelo corredor, soltando um suspiro tão longo que seu corpo se cansou por um segundo. Ela ignorou todos os corpos presentes naquele andar, agradecendo mentalmente que todos eles estivessem ocupados demais para notarem a sua presença, porque estava determinada a atravessar o corredor e ir direto para a sala que dividia com outro agente.
Sentindo seus dedos formigarem, ela encarou a pasta e, depois do que pareceram dois longos segundos, finalmente abriu a primeira página e analisou a informação, lendo o nome da pessoa com quem passaria seu tempo pelos próximos meses.
E ele atendia pelo nome de .




Continua...


nota estrelada da autora: Sem nota!

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