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Longfic | Expedição Sideral Esportes 2025

Delicado

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Prefácio

my reputation’s never been worse
we can’t make
any promises now, can we, babe?
‘cause I know that it’s delicate


🎧Delicate — Taylor Swift
Prólogo
— Você quer que eu faça o quê?
O tom de incredulidade ganhou força naquele ambiente, preenchendo o silêncio que se seguiu após a informação do novo trabalho ser jogada no colo da agente britânica. Ela manteve a expressão neutra, mas os lábios espremidos demonstravam um pouco qual era o seu posicionamento sobre aquilo. Talvez fosse uma brincadeira de mau gosto, uma pegadinha, alguma coisa do tipo para testá-la, porque não havia a menor possibilidade dela aceitar estar naquela posição.
— Não me faça repetir, — George disse, empurrando uma pasta para ela, do outro lado da mesa.
lambeu os lábios e apertou as mãos, pousadas em seu próprio colo, tentando conter o suspiro irritado que queria deixar escapar. George não era conhecido por ser um homem contemplado por sua paciência, mas ela não se importava. Estava mais interessada em entender o esquema da coisa toda que ele acabou de inseri-la. Se parasse para pensar por um minuto, ela conseguiria pensar em outras pessoas que poderiam estar ali no lugar dela.
Para aquele trabalho novo.
— Isso é algum tipo de castigo? — ela finalmente se pronunciou, sem mover um músculo sequer na direção da pasta. — Eu sei que a coisa toda no estrangeiro foi um desastre, mas…
— Um desastre? — Ele balançou a cabeça, quase rindo. — Foi uma catástrofe, .
Beleza, ela teve que soltar aquele suspiro. Sua mão subiu para esfregar sua têmpora direita e ela até franziu o nariz. Não eram nem mesmo nove horas da manhã. Lá fora, o céu estava nublado, as nuvens carregadas. Ela pareceu se esquecer o quão fria Londres conseguia ser, uma cidade que ela não simpatizava muito, ainda que ela própria tenha nascido ali. E também era onde a agência costumava ficar, bem escondida no centro de tantos prédios, poluindo a beleza do que seria a ideia da elegância britânica.
— Então é um castigo — ela concluiu, enfim.
George encarou a mulher por alguns segundos.
Era uma missão incomum, ele admitia. Não era exatamente a especialidade de trabalho de campo da agente à sua frente, mas as rugas de estresse saltando no meio da sua testa revelavam a pressão que estava sofrendo para fazer a melhor escolha.
— Aquela missão irritou muita gente quando começou a dar errado — ele começou a dizer, recostando-se contra a poltrona de couro, ainda mantendo os olhos nela. Era um olhar sereno, mas sua expressão era o contrário de relaxada. conseguiria até mesmo contar as linhas de expressão do rosto dele, se quisesse fazer isso. — Eu sei que saiu do controle e que você tentou contornar a situação, mas você sabe que isso não importa para aqueles no alto escalão, . Eles querem um culpado.
Ela não se alterou. Seu corpo nem mesmo moveu um músculo sequer, nada fora do lugar.
— E eu não posso entregar sua cabeça de bandeja assim. Seu comandante está assumindo a culpa pela equipe, mas isso significa que o restante ainda precisa pagar de algum jeito — o homem continuou. — Eu sei que parece uma missão inferior para tudo o que você é capaz de fazer, mas ou você aceita isso ou será jogada para trabalho administrativo atrás de uma mesa e um computador velho.
E aceitar a segunda opção era o pior rebaixamento que um agente de campo podia receber daquela forma. Ela ponderou suas opções e as consequências do erro da missão. Sua mente se agitou, os polegares começando a se esfregar contra os outros dedos, um sinal sutil da leve ansiedade que acomodava o seu peito, mas ela não abriu a boca para dizer nada. Não retrucou, não argumentou, não xingou.
Ela só pensou que sua situação poderia ser muito pior, se não fosse por George. Ele teve um papel crucial na sua formação como agente, ensinando tudo o que ela sabia sobre espionagem, e agora estava dando uma opção para ela não fazer a coisa que mais odiava na vida: trabalho administrativo.
— Não tenho experiência como babá de um homem adulto — ela finalmente disse alguma coisa, o tom saindo de um jeito sutilmente duro.
George ignorou.
— É um caso simples — ele tornou a dizer. — Ele é um jogador inglês saindo de um clube inglês prestigiado para jogar em outro clube prestigiado na Espanha. Acontece que essa transferência se tornou bastante polêmica e os torcedores do clube inglês não estão aceitando muito bem.
Percebendo que ela não estava nem um pouco interessada em abrir a pasta e avaliar a situação, ele mesmo fez isso. Virou três páginas, parando na que queria, mostrando para ela. Os olhos de acompanharam os movimentos do mais velho.
— Ele está recebendo ameaças — George continuou. — A princípio, não parecia nada preocupante, pelo contrário, isso até era esperado, devido aos protestos dos torcedores, mas a coisa continuou se agravando. E perdeu o controle na última semana.
Ele apontou insistentemente para uma foto e, revirando os olhos, puxou a pasta das mãos dele e começou a analisar de modo mais atencioso. Aquela missão não tinha o seu interesse, mas ela sentia que também não tinha muita escolha, então cedeu e encarou as fotos de um carro amassado e outra de uma porta com a maçaneta quebrada, indicando uma invasão. Havia diversos bilhetes amassados, contendo textos de ameaças, acusação dele ser um traidor egoísta e coisas do tipo.
— Por que a agência pegaria esse tipo de caso? — questionou, levantando a sobrancelha. — Não parece uma preocupação nossa manter a segurança de um jogador inglês intacta.
O homem esfregou a ponta do nariz, os dedos da mão esquerda batucando levemente contra a mesa.
— Ele é famoso, o que significa que tem contatos. O agente responsável por sua carreira, por exemplo, é amigo pessoal do diretor. Ele solicitou pessoalmente uma investigação do caso e proteção pessoal para o jogador — George explicou, dando de ombros. — Isso precisa ser resolvido com discrição, . Não há necessidade de pânico. Aceite o trabalho. Em menos de seis meses, você consegue neutralizar as ameaças e finalizar essa missão.
A mais nova balançou a cabeça e soltou uma risada baixa, umedecendo os lábios secos em seguida. Ela fechou a pasta e deixou os ombros caírem de um jeito quase sutil, levantando o rosto o suficiente para manter os olhos fixos no homem do outro lado.
— Então meu castigo é fazer um favor pessoal para o diretor? — ela soltou.
— Isso não é nada para você — o homem disse, firme. — Convença os outros que o jogador está seguro e você volta para suas missões mais relevantes.
— Você tá fazendo isso parecer fácil.
— É fácil, . É só um jogador de futebol prestigiado recebendo ameaças porque teve o livre arbítrio de escolher em que clube quer jogar, mas os torcedores são imaturos demais para aceitar isso. Estão irritados e magoados, é só uma fase. E você consegue resolver rapidinho.
Ela não acreditou muito nas palavras dele.
Talvez fosse mesmo uma missão fácil e rápida e ela odiasse a ideia de ser babá daquela forma, mas também aprendeu a nunca subestimar uma missão. As coisas tinham um jeito imprevisível de se desenrolarem e mesmo que fossem apenas torcedores frustrados querendo descontar suas mágoas por uma escolha pessoal de alguém que estava deixando o clube sem pensar duas vezes, a situação passou a ter um teor preocupante quando ele sofreu um acidente e sua casa foi invadida.
— Eu tenho escolha?
Ele quase sorriu, encolhendo um ombro, dando a sua resposta típica.
— Você sempre tem escolha. Entre uma ruim e uma pior, a decisão é sua.
Voltar a campo e ser a sombra de um jogador famoso. Ser rebaixada de função e mergulhar em trabalho administrativo, presa à uma mesa e um computador velho.
Ela ponderou suas opções.
Se aquilo era um favor pessoal para o diretor da agência e ela tinha irritado as pessoas erradas com a sua equipe na última missão, se aceitasse a atual e obtivesse sucesso em manter o alvo da ameaça seguro, ela teria um pouco do prestígio do diretor. Talvez saísse daquela lista obscura que alguém estava colocando-a, pondo em dúvida todo o seu trabalho e experiência.
— Tudo bem, eu vou aceitar essa merda toda — ela disse, por fim, depois de alguns segundos muito longo de silêncio, sendo alvo da observação atenta de George. Ela se levantou, segurando a pasta com uma firmeza impressionante, talvez tomada por uma irritação genuína. — Mas já vou avisando que não vou arcar com despesas nenhuma. Hotel, alimentação, transporte… é tudo por conta de vocês.
Quando deu as costas e girou a maçaneta da porta para sair dali, encerrando aquela conversa que decidiu o seu destino na agência pelos próximos seis meses, ela parou por um instante, virando apenas o rosto na direção do mais velho quando ele chamou o seu nome.
— E, , ninguém pode saber por que você está lá.
Ela não disse nada.
Só bateu a porta e saiu andando pelo corredor, soltando um suspiro tão longo que seu corpo se cansou por um segundo. Ela ignorou todos os corpos presentes naquele andar, agradecendo mentalmente que todos eles estivessem ocupados demais para notarem a sua presença, porque estava determinada a atravessar o corredor e ir direto para a sala que dividia com outro agente.
Sentindo seus dedos formigarem, ela encarou a pasta e, depois do que pareceram dois longos segundos, finalmente abriu a primeira página e analisou a informação, lendo o nome da pessoa com quem passaria seu tempo pelos próximos meses.
E ele atendia pelo nome de .
Capítulo 01
— Não está meio tarde para isso?
não precisou se virar para ver quem tinha acabado de adentrar a sala do seu escritório compartilhado. O silêncio que reinava ali antes era um indicativo particular de que não havia muita gente vagando pelo andar, anunciando que a hora do expediente tinha acabado há algum tempo, mas quase sempre perdia a noção do próprio tempo quando estava enfiada naquele cubículo pequeno. A mulher soltou um suspiro baixinho, soprou a fumaça entre os lábios e finalmente se virou para encarar a dona da voz.
Ava estava encostada contra a parede que separava a entrada da varanda com a sala. Os fios do seu cabelo estavam perfeitos, como sempre, o sorriso moldado com uma gentileza que nunca se acostumava, mesmo convivendo com ela o suficiente para isso.
— Meu vício tem sempre um culpado — finalmente respondeu.
Ava balançou a cabeça, mas sem abandonar o sorriso nos lábios rosados. Ela deu alguns passos e quebrou a distância entre as duas, parando bem ao lado de , depositando um beijo no ombro desnudo da mulher de um jeito muito íntimo. não se importou; não naquela noite. Todo o seu corpo acumulava partículas de estresse e ela sempre recorria a duas coisas para ajudá-la a extravasar: sexo e cigarro.
Como sexo estava fora de cogitação naquele momento e ela não podia mais recorrer à Ava, o cigarro sempre sobrava como sua única válvula de escape.
— Sinto muito — Ava sussurrou, muito perto. — Eu soube da sua última missão. Imaginei que não estivesse feliz com isso.
Segurando a vontade de bufar, se limitou apenas a tragar o cigarro outra vez e soprar a fumaça para o lado oposto de Ava. O expediente já tinha sido encerrado, mas desde que entrara naquela sala, de manhã, ainda não havia saído. Ficou ocupando a mente com detalhes de outros trabalhos inacabados, coisas como alguns relatórios extensos, mas, eventualmente, sua mente acabou voltando para a pasta da nova missão. Ela fez questão de deixar o arquivo longe o suficiente, mas ele continuou em seu campo de visão, sem deixá-la em paz.
Então ela estudou todas as informações que tinha dentro daquela pasta, até que tudo estivesse gravado na sua mente de um jeito que ela não precisava mais olhar qualquer folha ou qualquer informação escrita. Parte disso a diferenciava dos outros; era tão apegada aos detalhes que relia o mesmo arquivo inúmeras vezes, procurando por informações que provavelmente passara despercebido ou que ela não deu muita atenção. Muitos agentes consideravam aquilo uma perda de tempo. Para a maioria deles, detalhes importavam, no entanto, as pistas eram mais importantes.
Mas guardava para si o mínimo de tudo. Nunca se sabe quando um mero detalhe poderia fazer toda a diferença.
— Eu não tive muita escolha — respondeu para Ava, o músculo da bochecha distendido de tensão. — Mesmo entendendo os motivos, o George me empurrou para uma rua sem saída. E dá ré não funciona dessa vez.
— O que vai fazer agora?
se afastou da mulher. Não porque não suportasse toda aquela proximidade, mas porque não podia mais alimentar aquilo. Quando considerou que a distância entre as duas era segura o suficiente, ela respondeu:
— O que sei fazer de melhor. Concluir a missão.
Ava assentiu, olhando ao redor. Parecia tudo impecável, tudo no lugar, exceto pela bagunça, com papéis e pastas espalhadas.
— E para isso, preciso passar um tempo considerável na Espanha — completou.
Ava andou até a mesa dela, passando dois dedos pela borda, olhando tudo o que havia ali. Pelo horário, ela era uma das pessoas que já tinham terminado o expediente de trabalho também, mas permaneceu por algum motivo. não quis perguntar porquê.
— Ouvi dizer que o clima de lá não é muito bom.
Soltando a fumaça novamente, a mulher riu.
— Nenhum clima de qualquer lugar é bom para você, Ava.
Ava deu de ombros, sem contestar tal argumento. Ela realmente não era muito fã de frio, nem muito fã de calor e era difícil encontrar um meio termo. Cruzando os braços, ela assumiu um semblante mais sério, encostando-se contra a mesa.
— Quanto tempo?
— George disse menos de seis meses, mas sinceramente… Eu não sei. — tragou uma última vez e apagou o cigarro, jogando-o no lixo sem muita importância. Seu corpo estava um pouco mais relaxado do que antes, ainda que fosse provável que sucumbisse ao estresse em algum momento. — Não gosto de estimar tempo de conclusão de uma missão, as variáveis são sempre imprevisíveis, você sabe disso.
Claro que Ava sabia. Mesmo que não estivesse atuando em campo há quase dois anos, ela ainda se lembrava do que era participar de missões e trabalhos de espionagem, entendia o que estava falando. George realmente tinha essa mania de calcular o tempo de qualquer missão, mesmo sabendo que a maioria se estendia para além do tempo que ele quis prever. estava sendo jogada para uma situação que existia muitas variáveis imprevisíveis. Ela estaria cercada de pessoas que amavam a fama, lunáticos por futebol que não aceitavam derrotas muito bem, pessoas egocêntricas, manipuladoras e que se achavam dona de tudo. Os jogadores e o mundo do futebol tinham uma fama, e não era à toa.
— Vamos começar deixando sua hospedagem acertada por três meses — Ava iniciou. — Para facilitar a sua vida, conseguimos te deixar no mesmo andar em que o seu alvo está hospedado. A alimentação está inclusa. Terá um carro disponível em seu nome.
continuou parada no mesmo lugar, observando Ava em silêncio.
— Por que você está nessa?
Ava levantou uma sobrancelha.
— Como é?
— Esse tipo de burocracia não é o seu trabalho — esclareceu.
Ava soltou um suspiro.
— Bem, o George quer garantir que outra missão sua não fracasse.
revirou os olhos.
— Imbecil — murmurou, arrancando uma risada baixa de Ava.
Ava descruzou os braços e tirou o celular do bolso de trás da calça, destravando a tela, tirando os olhos de para verificar alguma coisa naquela tela de aparelho minúscula.
— Continuando… Sua passagem também foi comprada, o voo é em 12 horas — Ava informou, ainda sem tirar os olhos do celular. — O agente do jogador garantiu que um motorista vai te encontrar no aeroporto e você vai direto para uma reunião com eles, acertar alguns detalhes. Um representante da agência também estará presente, defendendo os interesses da empresa e, em segundo caso, os seus. Preciso te lembrar que além das pessoas presentes na reunião, ninguém pode saber o motivo de você estar lá?
— Não precisa, você sabe o que eu penso sobre regras.
— Isso não significa que você não as quebra — Ava retrucou.
Ela finalmente tirou os olhos do celular, travando a tela. Por um momento, deixou os seus ombros caírem, encarando a mais velha com um semblante sereno, disfarçando a preocupação.
— Olha, , eu sei que esse momento não é o melhor da sua carreira, mas eu acredito que você consegue resolver — a mais nova continuou. — Por mais boba que a missão pareça, ainda é uma vítima recebendo ameaças e nosso juramento de proteger vidas não distingue as pessoas, independente de que meio elas sejam. Só… volte pra casa logo, está bem?
não soube o que dizer. Reagiu apenas com um aceno de concordância, infeliz com o rumo que sua carreira estava tomando naquele momento, mesmo com a fé de Ava em sua competência, a sensação não ia embora. Outra pessoa faria melhor aquela missão em seu lugar; qualquer um que conhecesse o mundo que iria se inserir e fosse competente o suficiente para abater a ameaça, não ela; ela aceitava outras missões, algo que fosse prestigiado, valioso, importante. Mas aceitou as palavras de Ava.
Se não começasse a ver aquela missão com outros olhos — uma vítima que estava sofrendo ameaças anônimas —, não poderia dar o melhor de si e não aceitava que considerassem seu trabalho inferior. Não, pelo contrário. Ela preferia ser excelente em tudo.
Até naquilo.
— E… — Ava pigarreou. — Eu vou sentir a sua falta.
pareceu despertar dos seus pensamentos e moveu um passo, andando até a sua própria mesa.
— Ava, por favor — disse, um tom de voz indicando que não era um bom momento para aquilo. — Nós já conversamos sobre isso. E concordamos que é melhor assim.
Ava mordeu o próprio lábio e se desencostou da mesa, virando-se de frente para , do outro lado. Lembrava-se do que concordaram quando decidiram não seguir mais adiante com o que tinham, mesmo que tenha sido um envolvimento breve. O problema de Ava era que ela não sabia desapegar tão facilmente da mesma forma que a outra sabia. Pegava-se constantemente pensando se valia a pena tentar resgatar aquilo outra vez, mas sempre parecia disposta a manter sua decisão e só cabia à Ava respeitar e seguir em frente. Talvez aquele tempo longe que iria passar na nova missão fosse bom para concretizar o fim em sua mente.
— Você devia ir pra casa arrumar as malas e descansar — Ava se limitou a dizer. — Amanhã o seu dia vai ser longo.
Ela não esperou uma resposta.
só ouviu o som dos passos dela indo embora. Quando levantou o rosto na direção da porta, Ava não estava mais ali. A agente soltou um suspiro longo, se jogou contra a poltrona da mesa e deixou os ombros caírem em uma clara derrota. Seu dia tinha começado mal e terminado pior ainda.
E a missão mal tinha começado.


Uma placa escrito em uma caligrafia bonita foi a primeira coisa que ela viu quando desembarcou do avião, avistando um homem coberto de um terno impecável e fios loiros bagunçados compondo o seu perfil de motorista particular. Ele tinha um semblante sereno, a testa franzida em uma concentração deliberada, mantendo os olhos em cada pessoa que saía do corredor de embarque. Ela puxava uma mala de carrinho consigo, o som do salto ecoando a cada passo que dava contra o chão do aeroporto de Madrid, os olhos escondidos por um óculos de sol, o cabelo preso em um coque alto, usando uma calça e camisa social que a dava um ar de profissional.
O voo tinha sido uma merda.
Não conseguiu dormir nem mesmo por dois minutos sequer, então sentia-se exausta. Tentava não pensar muito em qualquer coisa, em Ava principalmente, com quem não falava desde a noite anterior. Ao menos, não uma conversa de verdade, Ava só se deu ao trabalho de enviá-la as informações sobre a hospedagem, a passagem e a reunião que teria em breve.
Mais nada.
Com um suspiro curto, parou na frente do motorista, que a olhou, curioso.
— Agente Especial ? — ele perguntou, com um sotaque inglês muito forte. A agente apenas assentiu, confirmando sua identidade. — Meu nome é Liam. Vou levá-la para a reunião. Por favor, se me permite…
Ele abaixou a placa e apontou para a mala dela. aceitou a ajuda e seguiu-o até o lado de fora do aeroporto, o ar fresco de Madrid desejando-lhe as boas vindas. O clima estava agradável. O lado de fora estava ainda mais repleto de turistas, taxistas gritando seus preços, risadas de crianças e adolescentes ecoando pelo vento. apertou os olhos por baixo do óculos e entrou no carro, agradecendo com um murmúrio baixo por Liam ter aberto a porta. Ele tinha um ar gentil genuíno e seus olhos fechavam um pouco quando ele sorria. Ela esperou ele colocar a mala dentro do porta-malas, puxou o celular dentro da bolsa pequena que carregava nos ombros e destravou a tela, verificando suas mensagens e e-mails enquanto Liam começava a dirigir pelas ruas espanholas.
Digitou apenas uma mensagem pra Ava, informando que conseguiu desembarcar sem problemas e estava a caminho da reunião. sentia vontade de desviar o caminho ou parar um por um instante, sentindo a necessidade de fumar um pouco, a abstinência da nicotina começando a fazer efeito. Não podia fumar no aeroporto e muito menos no avião, então ficou muito tempo sem relaxar. Ela sabia que deveria se livrar daquele vício, mas não conseguia, não ainda.
Além disso, não fosse a obrigatoriedade daquela reunião, a segunda coisa que mais queria era se jogar em cima de uma cama e dormir por horas. Seu corpo praticamente implorava por isso, os ombros tensos e o tornozelo direito doendo. Olhou através da janela e admirou as paisagens de Madrid, uma cidade que nunca tinha pisado na vida, mas que se mostrava disposta a recebê-la por alguns meses. Seu espanhol não era a melhor coisa do mundo, mas o improviso sempre foi uma habilidade a seu favor. A agente enxergou os prédios e as pessoas, quase se esquecendo que o motivo de estar ali era o seu trabalho.
A cidade não parecia fazer parte do que considerava ser sua punição. Se ela deixasse tudo de lado e começasse a se encantar pelas ruas de Madrid, pareceria como uma missão de campo qualquer. começava a se questionar se o seu trabalho ainda fazia algum sentido. Não porque estava prestes a se tornar babá de um jogador provavelmente arrogante e confiante demais, mas porque a burocracia de homens brancos de ternos caros se sobressaia à vontade de fazer justiça. Por mais que argumentasse contra, ela tinha consciência de que era só mais uma peça naquele xadrez.
Ela soltou o ar, pesado. Esteve tão perdida nos próprios pensamentos que demorou a ver que Liam estava estacionando o carro na frente de um prédio. O veículo parou de se mover e ela olhou através da janela, por um segundo, observando toda a extensão do prédio. Ele era grande, muito grande, devia ter torno de 30 andares ou mais, o ar chique revelando quais eram o tipo de pessoa que pisava ali.
— Fui instruído a levá-la para seu hotel quando terminar a reunião — Liam comunicou, olhando pelo espelho retrovisor. — Portanto, estarei aguardando aqui fora.
assentiu.
— Obrigada, Liam.
Pegou sua bolsa e saiu do carro. No mesmo momento, seu celular apitou uma mensagem e, pela barra de notificação, ela viu o nome de Ava e apenas duas palavras: terceiro andar. mexeu um ombro e adentrou o salão principal do prédio, ouvindo os murmúrios ambientais. A recepção era enorme e o espaço de espera parecia acolhedor, mas ela não ficou observando muito e andou direto para o elevador. Apertou o botão do terceiro andar e verificou, pelo espelho do elevador, sua aparência. Ajeitou os fios de cabelo fora do lugar e acreditou que sua expressão poderia estar melhor, mas o cansaço leve estava claramente estampado em cada parte do seu rosto e não ia disfarçar. Tudo o que queria era mesmo uma cama e 12 horas seguidas de sono, quem iria julgá-la por isso?
Quando as portas do elevador se abriram, ela saiu, segurando a bolsa em seu ombro, o celular guardado dentro no modo silencioso, e caminhou até a pequena recepção que tinha ali. Atrás do pequeno balcão estava uma mulher de altura baixa, o cabelo amarrado em um coque e uma expressão quase ensaiada, como se tivesse feito isso tantas vezes que se acostumou.
— Olá, como posso ajudar?
olhou ao redor.
— Vim para uma reunião — informou, voltando a olhar para a recepcionista. — .
Alguém já devia ter informado sobre a presença da agente, porque a recepcionista só assentiu, levantou-se e pediu que a acompanhasse. seguiu a mulher à sua frente por um corredor longo, atenta a cada espaço daquele andar. Quando chegaram à última porta, a recepcionista abriu e indicou que ela entrasse. Murmurando um agradecimento, entrou.
Parecia que todo mundo que deveria estar ali, já estavam ali.
— Agente , fico feliz que chegou bem — um homem de cabelos grisalhos a cumprimentou, estendendo-lhe a mão. — Fez uma boa viagem?
aceitou a mão estendida, apertando levemente antes de soltar e olhou para o homem. Sua expressão permaneceu neutra, sem sorriso, sem gentileza forçada, apenas o profissionalismo presente.
— Sim, senhor, obrigada.
— Por favor, sente-se e já vamos começar. — Ele indicou uma das cadeiras vazias da mesa.
Ao todo, com exceção dela própria, havia cinco homens presentes. passou os olhos; um homem de terno estava em pé, no canto da sala, enquanto o homem que a cumprimentou sentou-se na cadeira do meio da mesa. Do lado esquerdo, oposto ao seu, estava o que ela reconhecia ser o agente do jogador e o próprio jogador, atento a algo em seu celular. Tinha uma expressão entediante no rosto, como se aquele tipo de reunião fosse comum em sua vida, usando trajes casuais.
.
Era muito mais bonito pessoalmente do que era nas fotos. Nunca admitiria que o pesquisou durante o voo e fuxicou o instagram do jogador, alegando para si mesma que era para fins de pesquisa, nada além disso. Sentando ao seu lado, estava Dean, o representante da agência que Ava avisou que estaria presente.
— Senhorita — ele cumprimentou.
— Oi, Dean.
O homem de cabelo grisalho pigarreou, atraindo a atenção de todo mundo para si. largou o celular e levantou o rosto, encarando o homem.
— Acredito que todos os presentes estão cientes do motivo da reunião — ele começou a dizer. — Eu sou Rodrigo Cortez, responsável pela segurança pessoal do Sr. durante sua estadia na Espanha. Como inicialmente solicitado, o motivo verdadeiro da presença da Agente não pode ser descoberto.
— Eu ainda acho que essa é uma péssima ideia — se pronunciou, atraindo a atenção de . — Você mesmo disse que é responsável pela minha segurança, por que eu preciso de uma agente?
não gostou muito do tom que ele usou para frisar a profissão dela, mas acabou compreendendo uma coisa bastante óbvia: não era a única infeliz ali que odiava a ideia daquela operação.
— Sr. Alexander, precisa entender a delicadeza da situação — Cortez iniciou. — Você está recebendo ameaças com sua transferência, ameaças essas que não são fúteis, como o senhor mesmo disse, mas graves o suficiente para ser uma ameaça à sua vida. E, para garantir que continue vivendo e jogando normalmente sem se preocupar com os riscos, uma medida cautelosa precisou ser tomada.
— E a medida cautelosa é uma mulher? — ecoou.
queria muito ter fumado antes daquela reunião. Teria ajudado-a a relaxar um pouco e levar as coisas com um pouco mais de paciência, algo que estava se esgotando no momento. Ela encarou o homem à sua frente, sentado do lado oposto, e fechou uma mão em punho por baixo da mesa.
— A medida cautelosa em questão é uma mulher especialista em segurança, táticas de contra-espionagem e proteção de alto risco — iniciou, a atenção de todo mundo voltando pra ela. Ela também tinha experiência em campo. — Você é a proteção de alto risco.
Ela não conseguiu ler a expressão dele. O jogador inglês se inclinou apenas brevemente, sentindo a tensão que acabou de ser instalada dentro daquela pequena sala de reunião. Os olhos dele repararam em , claro, que continuava com sua expressão neutra, mas estava com os lábios apertados, como se estivesse irritada, os ombros quase curvados. Os fios do cabelo dela espalhavam-se atrás de suas costas, um rabo de cavalo quase desfeito. Ele acreditava em cada palavra que ela acabou de dizer, era só que…
— Não estou duvidando das suas habilidades, não me entenda mal — ele se adiantou em esclarecer. Talvez tivesse soado mal a forma com que ele falou. — Eu só acho uma perda de tempo, do seu tempo, cuidar dessas ameaças. Os jogadores ficam com raiva e frustrados, é normal, não tem porque sermos tão alarmistas com isso.
— Arnold, estamos falando da sua segurança — seu agente, sentado ao seu lado, um homem magro de cabelos muito lisos, disse.
— Que tal você deixar que eu avalio se é uma perda de tempo? — rebateu, quase sorrindo de um jeito forçado. Definitivamente, aquilo era uma punição. Parecia muito com uma.
— E como vamos fazer isso? Já que sua identidade não pode ser descoberta — ele retrucou de volta.
Cortez pigarreou.
— Bom, analisamos e consideramos que você fosse alocada como a assistente pessoal do Sr. Arnold — disse o homem. — Mas sua agência disse que isso não era viável.
— Porque eu não sou assistente pessoal.
Dean, ao lado dela, se remexeu.
— Você vai ter que ser alguma coisa, Agente .
— Sugerimos que a senhorita seja a namorada dele — o agente do jogador disse.
quase sempre engasgou. Ela sentiu a garganta seca e umedeceu os lábios, encarando o homem ao lado do jogador com um olhar fulminante. Ela esperou que ele falasse que era pegadinha ou algo do tipo, mas a expressão chocada de denunciou que nem ele estava esperando por aquilo.
De jeito nenhum.
— Eu também diria que isso não é viável — recusou, a voz firme.
— Você precisa estar perto dele, certo? As pessoas vão começar a comentar e questionar isso, por que não unimos uma coisa à outra?
respirou fundo.
— Me surpreende você fazer uma pergunta tão idiota… — ela escutou o murmúrio de repreensão de Dean ao seu lado — …então vou fazer outra óbvia: os jogadores dos times também vivem grudados em suas namoradas e esposas?
Ninguém respondeu. Ela fingiu não ver o jogador inglês prendendo o riso.
Isso poderia levantar suspeitas — ela continuou. — Então, não. Não tem a menor possibilidade de eu ser apresentada como a namorada dele.
Para não piorar o clima, Dean se adiantou. De repente, começou a ficar ansioso para aquela reunião acabar.
— Não precisamos de uma ligação tão pessoal para justificar a presença dela — disse. — Talvez a possa ser tradutora pessoal do Sr. Arnold…
se virou para Dean.
— Não sei espanhol.
— … ou talvez possamos dizer que ela é parte da equipe de filmagem sobre a trajetória do Sr…
— Parem de me chamar de senhor, está de bom tamanho — o jogador se pronunciou, bufando. — E eu não tenho nenhuma equipe de filmagem sobre a minha trajetória.
Cortez bateu uma palma alta.
— Agora tem — decretou, abrindo um sorriso. — Parece uma boa ideia e uma equipe de filmagem tem carta branca para te seguir em qualquer canto, então é um pretexto ótimo para a Agente conseguir ficar mais perto.
queria protestar, mas que outra ideia traria? Tinha que admitir que era mesmo uma boa ideia e ela precisava se manter o mais perto possível para conseguir cobrir a segurança dele sem margem de erro.
— Podemos prosseguir então? — Cortez questionou.
e se encararam, sem dizer nada. Ninguém sabia o que estava passando nos pensamentos um do outro naquele momento, mas o agente dele e o representante da agência dela assentiram, concordando pelos dois.
— Mais uma coisa — o homem de cabelo grisalho começou. — Sei que a Agente foi colocada para se hospedar em um hotel perto do estádio, mas tomamos a liberdade de realocá-la para o mesmo prédio do Sr… do .
E quando o homem desatou a falar sobre a logística de tudo aquilo e sobre como deixariam a diretoria do Real Madrid ciente da condição do jogador e da necessidade de uma equipe de filmagem, começou a se dissociar. Sim, ela estava irritada e, sim, ela estava cansada. E não sabia o que achar daquele jogador inglês.
Tudo o que ela queria era sair dali.
E foi o que fez. Levantou-se ainda no meio da reunião, deixando tudo nas mãos de Dean, e saiu pela mesma porta que entrou, enfim respirando fundo, esticando os dedos das mãos. Ela segurou a bolsa com a outra mão e preferiu usar as escadas dessa vez.
Quando alcançou o térreo e foi para o lado de fora, encontrou Liam, que andou na direção dela assim que a viu.
— Mudança de endereço, Liam.
— Senhorita?
deixou os ombros caírem.
— Você, por acaso, sabe qual é o prédio que o Sr. Arnold mora?

Continua…
Nota da autora
sem nota!
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