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✮⋆˙Independente do Cosmos✮⋆˙
Última Atualização: 27/07/25

O arrependimento começou a tomar conta do meu corpo assim que o meu despertador tocou às cinco da manhã. Beber na noite passada não foi uma boa ideia, não quando eu treinaria na manhã seguinte.
Lana arrancaria meu fígado e faria picadinho dele se eu mandasse uma mensagem hoje de madrugada para cancelar o nosso horário.
O fato de a patinação artística não ser um esporte universitário oficial da U SPORTS — a liga universitária canadense — não impede em nada que a minha querida treinadora me treine para ser a melhor e buscar um ouro olímpico.
E é por essa razão que estou me forçando a caminhar o mais rápido possível enquanto adentro a Ice House. Cruzo com poucas pessoas pelo caminho, já que boa parte dos estudantes evita madrugar no rinque, principalmente pela manhã, e sigo meu trajeto usual até o segundo rinque.
Um pequeno palavrão escapa dos meus lábios assim que Lana entra no meu campo de visão. Seu cenho está franzido e sua boca demonstra todo o seu descontentamento enquanto ela fala — ou briga, acredito ser o mais correto — com alguém em seu telefone.
— Isso é um ultraje, como algo assim acontece e vocês sequer lançam um comunicado? — O tom de voz seco de Lana se torna mais alto conforme eu sigo, cuidadosamente, em sua direção. — E se eu não tivesse percebido esse problema e Madeline entrasse no rinque? O descaso de vocês com a patinação artística é deplorável. Estarei avisando Elodie sobre isso, ela entrará em contato com vocês mais tarde.
Engulo em seco ao ouvir a menção do nome de minha mãe. Lana nunca o traz à toa para as conversas, e sinto a curiosidade de perguntar o que aconteceu no mesmo segundo.
Contudo, disposta a não ser a próxima a ter a orelha puxada pela russa à minha frente, espero até que ela termine a ligação.
— O que foi?
Os olhos de Lana me analisam rapidamente, passando pelas minhas roupas amassadas e meu rosto ainda inchado pelas poucas horas de sono.
— É seu dia de sorte, não vai precisar treinar de ressaca — diz, fazendo uma careta desgostosa que franze suas feições. — O sistema de resfriamento quebrou. Cheguei mais cedo e estava analisando o gelo quando notei que ele estava irregular.
— Caralho.
O palavrão escapa antes que eu possa conter. Gelo irregular é um dos maiores inimigos dos patinadores; uma simples mudança na superfície pode causar um baita acidente.
— Eles não avisaram nada — murmuro, buscando meu celular e procurando por algum e-mail da faculdade notificando sobre isso.
Uma risada sem humor escapa dos lábios de Lana.
— Esses filhos da puta não avisaram. Liguei para o reitor e ele falou que o notificaram ontem à noite, mas ainda não tiveram tempo de lançar o comunicado. — O estresse se torna ainda mais perceptível em seu tom.
— E o novo programa? Preciso começar a treinar o mais rápido possível.
— Vou falar com a sua mãe a Laura. Assim que eles derem uma posição pra ela, nós te avisamos.
Concordo com um aceno de cabeça, sabendo que a resposta deles para ela não demorará muito. Afinal, a Carleton sequer tenta esconder que odiaria perder Elodie como patrona.


⛸️

Assim como esperado, a universidade não demorou mais do que algumas horas para responder à minha mãe sobre a situação do sistema de resfriamento. O que sabíamos até então era:
– Um problema de manutenção ao longo dos últimos meses havia causado danos maiores do que poderíamos ver — ou imaginar — no gelo.
– Eles não tinham previsão de quando a situação seria normalizada.
– Todos os treinos precisariam ser transferidos para o primeiro rinque, popularmente conhecido como o rinque de hóquei.
Implorei para a Lana que ela não me obrigasse a dividir o mesmo gelo que eles, mas nem meus olhos redondos e suplicantes, nem minha tentativa de suborno funcionaram com ela.
Resolvi mudar de tática, tentando convencê-la de que treinar na Brewer Arena, o rinque comunitário local, seria muito melhor. Mas Lana não deu o braço a torcer, resmungando que todo o dinheiro que minha mãe investia naquela universidade deveria, ao menos, valer para um esporte melhor do que um monte de brutamontes se batendo no gelo e arrancando dentes.
E é por isso que me encontro parada, ao lado de Lana, enquanto esperamos o treino de hóquei terminar — trinta minutos atrasado.
Consigo ouvir cada bufada que escapa de seus lábios misturada a grunhidos quase ininteligíveis, mas não preciso ser um gênio para saber que ela está xingando todos os jogadores — e o treinador — que seguem patinando, mesmo após Lana tê-los avisado que o horário deles já acabou.
Três vezes.
— Desisto, eles não vão sair desse rinque nunca mais. — Ela se vira na minha direção, pressionando a mão nas minhas costas enquanto me empurra sutilmente em direção ao gelo.
— Lana…
— Eles estão usando só metade do gelo, . — Seus esforços não param. — Use a outra metade, vamos começar o seu programa agora mesmo ou não vamos conseguir treinar nada hoje.
Me apoio no vidro rapidamente, tirando os protetores das lâminas e os entregando para minha treinadora antes de deslizar no gelo.
Olho para a metade da quadra onde alguns jogadores seguem treinando arremessos ao gol e percebo que nenhum deles parece notar minha intromissão.
Me afasto o máximo possível de seus equipamentos pesados e tacadas agressivas, parando próxima ao local onde Lana está sentada nas arquibancadas. Patino por alguns minutos apenas para sentir minha lâmina triturar as irregularidades no gelo deixadas pelos jogadores.
Dou um joinha na direção de Lana, sinalizando que ela pode soltar a música, e me preparo para começar o programa curto da temporada passada. Essa é sempre a nossa escolha: uma forma de manter a coreografia viva na memória e decidir o que será reaproveitado para a próxima temporada e o que será descartado.
Deslizo pelo gelo, ignorando os outros sons da arena e focando apenas na música que sai da caixinha de som portátil da Lana.
Executo os movimentos com facilidade, tão acostumada a eles quanto a uma simples tarefa do dia a dia. Me preparo para realizar um axel duplo, um dos saltos mais fáceis da coreografia, e pulo com a leveza necessária, mas um impulso me joga para trás quando algo atinge meu ombro com toda a força, me desequilibrando.
Tento recuperar o equilíbrio, balanço meus pés incontáveis vezes em busca de encontrar o gelo e evitar a queda, mas não consigo.
Meu corpo parece cair em câmera lenta.
Fecho os olhos antes do impacto, já antecipando a dor infernal que vou sentir.
Meus pensamentos me escapam junto com uma lufada de ar assim que meu corpo bate no gelo frio e eu perco a consciência.

🏒

!
Porra.
Caralho.
Puta que pariu.
Minha mente continua listando todos os palavrões que conheço enquanto cruzo o gelo, sentindo o coração apertado ao ver a esguia figura desmaiada no chão.
— Parabéns, mané. — O tom de repreensão do Owen me alcança, mas não me preocupo em notar com quem ele está falando.
Meus olhos estão focados na garota, e neste momento, isso é tudo o que importa.
No hóquei, usamos uma variedade de equipamentos que nos protegem em casos de colisões e quedas, então não me desespero quando algum dos meus companheiros vai de encontro ao gelo.
Contudo, ela não usa nada além de uma legging e um casaco térmico. Seu corpo mal está aquecido o suficiente para o rinque, e não há nada ali que a proteja de uma queda.
E a culpa é minha.
Eu não rebati o disco que a acertou, mas também não tinha notado sua presença até o incidente acontecer.
Paro de patinar assim que chego próximo o suficiente de sua figura caída, cuidando para não jogar nenhuma lasca de gelo em sua direção.
Não demoro em pegá-la nos braços e aconchegá-la contra meu corpo ao perceber que não há nenhuma mancha avermelhada no chão.
— Vou levá-la para a enfermaria — falo para ninguém em específico, começando a patinar em direção à saída.
— ISSO É CULPA SUA!
Por um momento, questiono se a frase é fruto do meu subconsciente culpado, mas duvido muito que minha consciência tivesse uma voz feminina e um leve sotaque carregado.
Passo os olhos pela arquibancada e logo encontro a dona da voz, parada em frente ao Treinador Braun, com os olhos arregalados e o rosto avermelhado, esbravejando com ele, mesmo tendo metade da altura dele.
Não penso duas vezes antes de me dirigir até lá, disposto a tentar acalmar os ânimos da desconhecida.
— Se vocês prestassem atenção na merda do horário, isso não teria acontecido. — O tom dela soa mais baixo, mas não menos irritado. — Vocês não são os donos desse rinque.
Franzo o cenho em confusão, encarando o relógio em uma das paredes e vendo que ainda estamos dentro do nosso horário usual de treinos.
— Me desculpe…
— Você sabe como uma queda pode afetar negativamente um patinador? — A pergunta sai seca. — Claro que não. Afinal, seus pequenos trogloditas vivem se socando até cair.
Reprimo a risada que tenta escapar ao ouvir a forma como ela se refere ao meu time, mas o pequeno som que deixo escapar já é suficiente para atrair o olhar feroz dela na minha direção — que rapidamente se suaviza, dominado pela preocupação, quando seus olhos repousam na figura inconsciente em meus braços.
— Vou levá-la para a enfermaria. Você quer me acompanhar?
Minha pergunta faz sua atenção voltar para mim, seus olhos claramente divididos entre a preocupação e a raiva.
Um simples aceno de cabeça em sinal de concordância é tudo o que recebo, antes que ela se vire na direção do Treinador Braun, assumindo novamente a feição raivosa.
— Da próxima vez, preste atenção no horário. — Ela cospe as palavras, cheia de raiva. — Se algo acontecer com a
Ela deixa a ameaça morrer no ar, virando-se e caminhando na direção da enfermaria, sem se preocupar em terminar o que pretendia dizer.
Mas sua intenção fica clara. E eu não tenho dúvidas de que ela conseguiria acabar com Scott Braun em questão de minutos, sem pensar duas vezes.
Sigo em silêncio o caminho que ela lidera, andando com cuidado, já que não me preocupei em recolocar as proteções das lâminas.
O silêncio só é quebrado quando deposito a garota inconsciente sobre a maca vazia, assim que adentramos a pequena sala da enfermaria.
— O que aconteceu, senhorita Volkova? — a enfermeira questiona rapidamente, aproximando-se do nosso pequeno grupo.
— Ainda não ensinaram o time de hóquei a dividir. Um disco acertou ela.
Franzo o cenho diante da escolha de palavras dela, sem entender exatamente o que quis dizer.
— Muito obrigada por toda a ajuda. — Seu tom transborda sarcasmo. — Mas você já pode ir embora.
Abro a boca para dizer que gostaria de ficar até que a garota acordasse, pronto para me desculpar em nome de todo o time de hóquei, mas o olhar irritado que Volkova me direciona me faz engolir em seco.
— Desculpa — murmuro, antes de sair rapidamente dali, decidido a não piorar ainda mais o humor da mulher.
Outro dia, posso encontrar essa garota e pedir desculpas direito. E, o mais importante, descobrir o que ela estava fazendo no rinque enquanto ainda estávamos treinando.
Não é muito inteligente dividir o gelo com um time de hóquei em plena prática. Principalmente se ninguém sequer percebeu a sua presença ali.




Continua...


Nota da autora: Era óbvio que eu não ficaria de fora da Expedição de Aniversário de 1 ano do FFVERSE, né?

Confira minhas outras fanfics:
A Week In Bali [Liam Payne — Restritas — Shortfic]
Are You The One? [Originais — Restritas — Longfic]
Flames of Redemption [Mitologia — Restritas — Longfic]
Heavenly Flames [Mitologia — Restritas — Longfic]
I'll Never Let You Fall [Originais — Restritas — Shortfic]
Stone Eyes [Mitologia — Restritas — Longfic]
When Love's Around [Originais — Romance de Época — Shortfic]
Wings of Betrayal [Mitologia — Restritas — Longfic]


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