Independente do Cosmos🪐
Última Atualização: 11/05/2025.Eram potinhos de vidro que brilhavam contra a luz do fim de tarde.
Ela vivia os guardando, esperançosa para capturar as pequenas luzes douradas que viviam dançando pelo jardim, iguais a vagalumes que, aparentemente, apareciam só para ela.
Bem pertinho, a avó Annie observava tudo na pequena, sem dizer nada, enquanto tricotava para lá e para cá.
A garotinha agora tinha os olhos no quintal. Parecia pensativa.
— Hoje apareceu uma luz em volta do moço da padaria. Bem grandona.
Annie parou de tricotar na hora. Travou as mãos por um segundo, olhando para o trabalho no colo, antes de encarar a neta.
— E como ela era? — perguntou curiosa, mas atenta.
— Parecia triste — murmurou, dando de ombros e voltando a olhar para seus potinhos. — Como se tivesse apagando.
Annie ficou séria, de um jeito estranho. Sua expressão ficou pesada e preocupada, mas disfarçou rapidamente, sorrindo logo depois.
— Nem toda luz quer ser salva, meu bem.
ficou quieta, pensando no que a avó tinha dito. Depois olhou para Annie.
— Por que só eu consigo ver isso?
A avó não respondeu de imediato. Deixou o crochê de lado e se aproximou da pequena , de oito anos. Acariciou seu rosto, calma e abraçou a neta de lado.
— Algumas pessoas nascem encantadas — sussurrou. — Como você.
Queria ela, para ser sincera. Antigamente, a garota sentia o cheirinho de chá de ervas que sua avó fazia, vindo da sala de descanso e se lembrava bem de todas as histórias maravilhosas que ela contava.
Agora, bem diferente de anos atrás, o lugar estava vazio, cheio de poeira e quase gritando que precisava de uma reforma imediata.
Haviam algumas caixas de papelão empilhadas pelos cantos, esperando para serem despachadas na segunda-feira.
segurava um porta-retrato enfeitado e passou o polegar pelo vidro empoeirado. Era uma foto de sua avó, sorrindo como sempre costumava estar. Ela apontava para o nada, como se estivesse vendo algo bonito demais para ser explicado.
Seu coração doeu. Perder Annie havia sido uma das piores coisas que aconteceram em sua vida. Por mais que já estivesse com idade o suficiente, não estava preparada para não ter mais a avó em sua vida.
Ela era sua mãe. Seu apoio, sua melhor amiga.
E agora não estava mais ali.
Engoliu em seco, com os olhos já marejados. Tudo o que havia lhe restado estava naquela casa e ainda tinha que vendê-la.
Foi então que, antes de passar os dedos no rosto, enxugando as lágrimas teimosas que escorriam, sentiu o corpo arrepiar.
De pouquinho a pouquinho, surgindo do rodapé de madeira, saiam algumas esferas minúsculas douradas. Não eram como luzes iluminando a casa inteira, mas pontinhos que pulsavam por cada cantinho que passavam.
De uma em uma, a quantidade ia crescendo. Elas passavam pelo arco da sala, seguindo até o corredor e, por fim, para a porta dos fundos.
Exatamente em direção à floresta que cercava o bairro.
Sentiu a ponta dos dedos tremerem, logo depois suas mãos. não falava mais das luzes. Ninguém acreditava nela quando pequena, só Annie.
Ela sequer se lembrava. Havia guardado no fundo de sua mente para nunca mais se machucar.
E agora, isso.
Seu coração apertou. E acelerou como nunca.
Foi quase como se pudesse ouvir a voz de Annie, um pouco rouca, ecoando em sua mente.
— A floresta tem segredos, pequena. Como as pessoas. Se as luzes te chamarem, feche as janelas e cortinas. Nunca, sob hipótese nenhuma, vá até elas quando anoitecer.
A pequena franziu o cenho, curiosa com o que a avó dizia. Estava sentada no balcão da cozinha, balançando as pernas no ar.
O que será que havia na floresta?
— O que tem lá, vovó? Vagalumes?
Annie parou. Olhou para a neta e sorriu, triste. Quase como se recordasse de algo antigo, uma saudade bem distante.
— Não, meu bem. Vagalumes são só insetos. O que tem na floresta é… Outra coisa.
— Outra coisa como o quê? — insistiu, inclinando o corpo minimamente para frente. Suas mãozinhas seguravam o granito frio do balcão.
A avó deixou o pano de prato de lado, com os dedos longos e calejados, demorando meio segundo a mais sobre o tecido úmido. Olhou pela janela da cozinha, observando a escuridão do lado de fora, só com algumas silhuetas das árvores e a pouca luz que vinha da iluminação baixa ao redor da floresta.
— Coisas que não pertencem ao nosso tempo — respondeu, com a voz mansa. Quase sussurrando. — Que aparecem quando a floresta decide respirar. Elas parecem faíscas de ouro flutuando pelo ar, . Como se estivessem te chamando para brincar.
piscou, pensativa. Se lembrou do moço que entregava o leite de manhã e de como uma luzinha parecida costumava brilhar perto do ombro dele, ou de como o humor do seu pai parecia mudar quando a luz em volta dele ficava mais fraquinha.
— Tipo as luzes que ficam perto das pessoas na rua, vovó? — perguntou, tombando a cabeça para o lado. — Elas também saem da floresta?
Annie tencionou os ombros por um milésimo de segundo, mas disfarçou rápido, embora o olhar preocupado tenha entregado o choque.
— E por que não posso ir? Se elas chamam, não é educado ir ver o que é? — continuou, dando um sorrisinho sapeca, enquanto balançava as pernas um pouco mais rápido. Mais agitada e animada.
Annie soltou uma risada fraca, mas ainda com o olhar preocupado. Se aproximou do balcão e tocou a ponta do nariz da neta com o indicador.
— Elas vão te levar onde você não deve ir, meu amor.
— É mesmo, vovó?
A avó balançou a cabeça, assentindo. Fez uma pausa e olhou mais uma vez a floresta à dentro.
— A magia da floresta é a coisa mais linda que você vai ver na vida, mas ela cobra um preço muito alto — disse, olhando nos olhos da neta. — Se for até lá, vai se esquecer do resto do mundo. E quando o amanhecer chegar, todas as luzes que te levaram até lá, vão embora. Só a saudade vai ficar. É uma dor que não cabe no peito, meu bem.
Annie endireitou a postura, suspirando. Parecia saber muito bem sobre o que falava. Então, deu um tapinha leve na coxa de e sorriu calorosamente, quebrando o clima que havia ficado.
— Por isso, chega de perguntas por hoje. Desce do balcão, vai escovar esses dentes e vai para a cama. E, olha... Feche bem a cortina do quarto.
engoliu em seco, ainda com os olhos focados nos pontos dourados que piscavam.
Aquilo havia ficado em sua cabeça por um bom tempo. Não era como se fosse uma historinha qualquer que sua avó contava para que ela dormisse. Alguma coisa dizia que tinha algo a mais.
Algo que precisava entender. E ter certeza de que não estava ficando louca.
— Desculpa, vovó. Mas eu preciso saber o que é — sussurrou, como se Annie realmente fosse ouvi-la.
Ela sentia o coração quase explodindo dentro do peito. Foi até a porta dos fundos e a empurrou. O barulho alto do trinco a deu um leve susto, mas não era como se alguém fosse aparecer para perguntar o que tinha acontecido.
Sua avó não estava mais ali para dar broncas. Nem mesmo para segurar sua mão.
sentiu o vento gelado de imediato e abraçou o próprio corpo ao sentir o arrepio na espinha. Na mesma hora, as luzes douradas pararam, como se percebessem que ela estava ali, tão perto. Pararam de dançar de um lado para o outro por um segundo, deram uma voltinha no ar e começaram a entrar na floresta, bem devagar.
Exatamente chamando por .
A garota deu um passo para fora da varanda, em direção à floresta. Sentiu alguns pingos de chuva e respirou fundo, tendo certeza de que estava fazendo a maior besteira da vida.
Será que deveria ir mesmo lá?
— É rapidinho — afirmou para si mesma. Puxou o casaco fino, tentando cobrir o corpo um pouco mais. — Só vou ver até onde isso vai.
E começou a andar outra vez atrás da fileirinha brilhante. Pouco tempo depois, as luzes do poste e da varanda já estavam longe, e agora só era possível enxergar as árvores ao redor, além dos vagalumes que ela tanto ouvia falar quando pequena.
Precisava confessar que não tinha a menor ideia de quanto tempo já havia se passado e o quão longe estava da casa, mas algo chamou a atenção.
Era som de água.
E não se lembrava de ter algum lago, ou até mesmo rio, naquela parte da floresta em Killarney.
Afastou algumas folhas grandes que atrapalham sua visão com as mãos e o que viu meio segundo depois quase a fez prender o fôlego.
Bem à frente, havia um lago enorme escondido e iluminado, com uma água tão limpa que era quase possível refletir as luzes douradas que ainda piscavam espalhadas por ali.
Mas, não foi bem a beleza do lugar que fez o coração de quase sair do peito. Já que, há poucos metros dela, estava um garoto. Sentado em uma pedra, na beira do lago. Ele estava abaixado, com os joelhos dobrados e apreciando algo na água que ela não fazia ideia do que era.
O engraçado era que ele parecia fazer parte do lugar. Como se tivesse nascido ali junto das árvores. Só que, o mais inacreditável, e o que quase fez esfregar os olhos para ter certeza do que acontecia, eram as dezenas de criaturinhas que voavam ao redor dele.
E não eram mesmo os vagalumes da sua avó Annie.
se aproximou um pouco mais até conseguir enxergar o que eram. Tinham formas humanas minúsculas, feições delicadas e asas transparentes que brilhavam no escuro, soltando uma poeirinha dourada no ar.
Algumas sentavam no ombro dele, outras puxavam de leve os fios escuros bagunçados do seu cabelo, fazendo um barulhinho que parecia um sininho.
Céus, eram fadas. Fadas!
Ela queria se aproximar mais. Queria ter certeza do que estava vendo. Foi quando pisou em um dos galhos secos, fazendo um barulho mais alto do que deveria.
O estalo pareceu quase um tiro.
No mesmo segundo, a nuvem de fadas parou de dançar, congelando no ar e virou o rosto em direção ao barulho. Os olhos do garoto se arregalaram quando a viu. Seu susto foi tão grande que quase se desequilibrou da pedra, levantando em um pulo.
As criaturinhas ficaram agitadas, voando rápido de um lado para o outro, assustadas. Só que ele não parecia ligar para aquilo. Como se fosse o menor de seus problemas.
Ele não conseguia tirar os olhos de .
Se aproximou minimamente dela, andando pela margem do lado, despreocupado, até parar bem perto da garota.
Ficou a encarando por alguns segundos, tentando entender e explicar para si mesmo o que acontecia ali. O que ela estava fazendo ali.
No meio da noite.
Em um lugar que ninguém deveria achar.
— Você consegue vê-las, não é?
