✮⋆˙Independente do Cosmos✮⋆˙
Última Atualização: 20/07/25
Sua respiração rápida e entrecortada denunciava o medo de ser pega ali, os outros deuses não poderiam saber o que estava fazendo, abandonando um pequeno deus para que encontrasse a morte prematura.
Ele não poderia saber o que ela estava fazendo, mas toda aquela situação só estava ocorrendo por culpa dele, que, como sempre, parecia não conseguir manter o pau dentro das calças.
O rio Ladão abriu-se à sua frente, e a deusa ajoelhou-se na terra, a poucos passos de distância da beira do rio. Seus olhos pousaram uma última vez na criança, mas novamente nenhum sentimento bom foi despertado em seu peito, e com a amargura e o ódio estampados em sua face, a deusa abriu a mão que segurava o cesto e deixou-o cair na água.
A divindade se levantou rapidamente e deu as costas, sem se importar com a criança abandonada no lago que começava a ter seu choro misturado com o barulho das águas. Não olhou sequer uma vez para trás, não se importou com o destino da criança ou se ela sequer sobreviveria.
Aquele não era seu problema, aquela não sua filha.
Sua filha, sua menina, sua florzinha que estava perdida, e nada era ou seria, mais importante que ela.
E, com isto em mente, a deusa pôs-se a andar, disposta a lançar o inferno no mundo mortal e divino até que encontrasse sua menina. Disposta a esquecer para sempre da criança indesejada que abandonou para a própria morte.
Até aquele dia.
A musa permanecia absorta, olhando pela janela, observando os flocos de neve que caíam suavemente do céu, cobrindo a grama com uma camada fina de branco gélido. Não era comum o Olimpo ser afetado por variações climáticas dessa natureza. Afinal, era só um pensamento das divindades para alterar o clima de acordo com sua vontade. No entanto, Quione, a deusa da neve, sempre foi prudente o suficiente para não permitir que suas emoções dominassem a ponto de interferir nas estações.
Ainda assim, há mais de quatro dias os flocos de neve caíam incessantemente, e a brisa cortante forçava até mesmo os deuses a trocarem as vestes finas por roupas mais adequadas ao frio. A quietude da cena foi quebrada por uma batida suave na porta, interrompendo os pensamentos de Clio e trazendo-a de volta à realidade do seu escritório.
A musa murmurou um "pode entrar" e aguardou a entrada de quem quer que fosse.
O que a surpreendeu foi ver Hera, a majestosa rainha do Olimpo, entrar na sala. Seu olhar calmo e penetrante encontrou a deusa, que, ao contrário do usual, estava com um sorriso nervoso nos lábios. Com passos hesitantes, aproximou-se de uma cadeira livre à frente da musa.
— Bom dia, minha senhora. Em que posso ajudá-la hoje? — perguntou Clio com um sorriso acolhedor, gesticulando para que Hera se sentasse.
No entanto, Hera permaneceu de pé, posicionando-se atrás da cadeira e repousando as mãos sobre o encosto, como se hesitasse. Seu semblante sério cedeu ligeiramente, e ela falou com uma suavidade incomum para a rainha do Olimpo:
— Gostaria de saber como anda o andamento da instituição. E os novos deuses, como estão se saindo?
A pergunta fez o rosto de Clio se iluminar com um sorriso genuíno. Ela amava sua função, amava ser a responsável pelo Instituto de Treinamento Olympus, o lugar onde todas as divindades, jovens e antigas, eram moldadas até atingirem seu pleno potencial, aptas a assumir seus destinos no Olimpo.
— Está tudo perfeitamente bem, minha senhora. Como acredito que já saiba, em poucos dias iniciaremos um novo ano. Os alojamentos já estão sendo ocupados pelas divindades mais ansiosas para começar, e as turmas estão quase todas completas. Os deuses formados também se mostraram mais uma vez solícitos, ajudando sempre que possível. — A resposta trouxe um sorriso sincero ao rosto de Hera.
Embora a rainha do Olimpo pudesse não aprovar todos os jovens que frequentavam o Instituto — especialmente aqueles filhos bastardos de seu marido —, ela não podia negar a importância do local, que cumpria sua missão de preparar as novas gerações de deuses para honrar seus papéis e responsabilidades no Olimpo
— Fico contente em saber que tudo está funcionando bem. — Hera deixou que o silêncio tomasse conta da sala por alguns momentos, antes de continuar, sua voz mais suave agora. — Porém, eu gostaria de lhe pedir um favor.
Os olhos de Clio se arregalaram ligeiramente, sem entender exatamente o que a deusa poderia querer. Contudo, sabia que sua única resposta seria a mesma de sempre: submissão respeitosa à vontade de Hera.
— Claro, minha senhora. — A musa respondeu prontamente, fazendo uma singela mesura com a cabeça.
Os olhos de Hera passearam pela sala, como se a deusa estivesse pesando suas palavras, enquanto as unhas da divindade batucavam suavemente sobre o encosto da cadeira. Clio notou a leve inquietação de Hera, o que era incomum para alguém tão imponente e que, geralmente, escondia qualquer vestígio de insegurança sob sua compostura impecável. Para algo afetá-la a ponto de ser perceptível, Clio soubera instintivamente que o pedido de Hera era algo importante, até urgente.
— Gostaria que abrisse uma exceção. — Hera finalmente falou, como se a própria palavra "exceção" tivesse peso, como um decreto inevitável.
Clio se endireitou, sua mente rapidamente fazendo conexões. Ela sabia que Hera não fazia pedidos, mas ordens. E quando a deusa da família e do matrimônio falava com esse tom, era porque algo de grande relevância estava em jogo.
— Uma exceção exatamente a quê, minha senhora? — A musa perguntou, confusa, tentando compreender a magnitude do que estava sendo pedido.
Hera respirou profundamente, antes de continuar, seus olhos brilhando com um arrependimento fugaz, como se a situação que estava prestes a compartilhar a incomodasse profundamente.
— Hécate me confidenciou sobre uma jovem. A pobre menina foi criada por titãs, mas, apesar disso, ela é uma deusa. Uma deusa que não tem o conhecimento necessário sobre seu poder, nem como controlá-lo. — Os olhos de Hera pareciam se distanciar por um momento, como se a lembrança do que acabara de revelar fosse dolorosa. — Não queremos que essa jovem se volte contra nós no futuro. Ela não deveria ter sido criada pelos titãs. O passado não podemos mudar, mas o presente… O presente ainda está em nossas mãos. Precisamos evitar problemas para o nosso futuro.
Clio sentiu sua mente trabalhar a todo vapor. Como era possível que uma jovem deusa tivesse vivido com os titãs por tanto tempo sem que ninguém no Olimpo soubesse disso? Era uma situação que, por si só, carregava um peso significativo.
— Ela precisa ser ensinada sobre seus poderes e origens. Ela não pode viver em um lugar esquecido pelos próprios deuses, isolada no mundo humano. É necessário que ela entenda, que **compreenda**, que o Olimpo é sua verdadeira casa. — O nervosismo que antes dominava Hera cedeu lugar a uma firmeza tranquila, e ela falava com a autoridade de alguém acostumado a governar e tomar decisões difíceis.
— Se me permite perguntar, minha senhora, a jovem seria filha de uma divindade e de um titã? — Clio perguntou, os olhos agora fixos em Hera, observando cada nuance de seu rosto.
Hera evitou o olhar da musa por um momento, suas mãos apertando o encosto da cadeira. Quando finalmente falou, sua voz carregava um tom de melancolia que Clio não conseguia ignorar.
— Não gostaria de entrar em mais detalhes, mas acredito que está perguntando isso porque é uma informação essencial para que ela ingresse no instituto. — O olhar de Hera se perdeu em um ponto distante, como se ela não quisesse realmente revelar mais. — A pobre menina foi abandonada por seus pais, mas ao que tudo indica, sim, ambos os pais são divinos.
Clio percebeu a mágoa que se escondia nos olhos azuis da deusa, um tipo de tristeza que transcendeu a simples informação que fora dada. Hera estava pessoalmente tocada por aquela situação. Algo que ela, talvez, preferisse ter evitado.
A musa, sentindo a tensão no ar, falou com a suavidade e sinceridade que só ela possuía:
— Ela será mais do que bem-vinda no Instituto, minha senhora. — As palavras de Clio soaram doces, mas firmes, com um toque de empatia genuína. Ela esperava que, apesar das circunstâncias difíceis, a jovem conseguisse encontrar seu lugar entre os outros deuses. Ela sabia que, no Instituto, o aprendizado não envolvia apenas saber controlar o poder — mas também aprender a se equilibrar e a encontrar uma identidade entre os outros imortais.
Hera olhou para ela, seus olhos agora menos pesados, um leve alívio nas feições.
— Espero que sim, Clio. Ela precisa de um futuro, e você pode ajudá-la a encontrá-lo.
Os olhos de estavam fixos na construção que se erguia à sua frente, uma visão que parecia saída de um sonho. A carruagem puxada pelo pégasus tinha partido há alguns minutos, mas a jovem deusa não conseguia se mover. Seus pés estavam plantados no chão, como se o próprio Olimpo estivesse convidando-a a admirar a grandiosidade daquele lugar. Nunca em toda sua vida tivera contato com algo tão imenso e belo.
A imponente fachada do Instituto de Treinamento Olympus se erguia diante dela, com suas colunas douradas que reluziam ao sol e uma escadaria majestosa que parecia não ter fim. As linhas arquitetônicas eram perfeitamente equilibradas, como se o próprio universo tivesse moldado aquele edifício com cuidado meticuloso. A estrutura exalava poder, mas também uma sensação de acolhimento, algo que jamais imaginara encontrar em um local de ensino.
Ela olhou ao redor, tudo no Olimpo tinha um toque sobrenatural — tudo parecia mais brilhante, mais vibrante, mais real.
Por um momento, se sentiu pequena diante de tanta grandiosidade. Como seria capaz de se encaixar ali? Ela, que passara sua vida inteira longe dos olhares dos deuses, criada por titãs, agora se via diante de uma realidade completamente diferente. Uma realidade de poder, de história, de deuses que nunca a aceitariam por completo.
Mas, mesmo assim, algo dentro dela se acendeu. Uma chama de determinação, de esperança. Talvez aquele fosse o seu lugar. Talvez ali, no Instituto, ela encontraria o que sempre procurara: uma chance de se conhecer, de compreender seus próprios poderes e, quem sabe, a verdade sobre o seu nascimento.
Sobre os seus pais.
Com um suspiro profundo, deu o primeiro passo em direção à escadaria, o coração batendo mais forte a cada movimento, mas antes que conseguisse dar o segundo passo, a atmosfera ao seu redor mudou.
As portas do Instituto se abriram, revelando a mulher no topo da escadaria. Ela era linda de um jeito que não parecia real — cabelos dourados soltos ao redor do rosto, olhos claros e intensos, e uma presença que fazia o ar parecer mais denso ao redor dela. soube, no mesmo instante, que estava diante de algo muito maior do que tudo que já conhecera.
A mulher sorriu, com suavidade.
— Bem-vinda, . Eu sou Hera. Estou muito feliz por você estar aqui.
tentou dizer algo, mas sua voz não saiu. Apenas assentiu, apertando os dedos contra a palma da mão.
— Esse lugar... — continuou Hera, descendo os degraus até ficar ao lado dela — é para você. Para os que estão começando a entender o que são. O Instituto foi criado para isso. Preparar os novos deuses, orientar, proteger, ensinar. Cada sala, cada corredor carrega história. Mas, mais do que isso, carrega propósito.
Ela estendeu a mão, gentil. a segurou, ainda em silêncio, e juntas começaram a subir as escadas.
— Nem todos os deuses nascem em meio à glória — disse Hera, enquanto caminhavam pelos corredores amplos e silenciosos. — Alguns crescem escondidos, distantes, até que chega a hora. A sua hora chegou. Aqui, você terá espaço para entender seus dons, para se conhecer de verdade. E não estará sozinha.
olhou ao redor, absorvendo tudo. Havia janelas altas, pilares cobertos de inscrições antigas, e um ar de reverência em cada detalhe.
— Você dividirá o quarto com duas irmãs, Aurora e Selene. Costumamos deixar os estudantes em duplas, mas você foi uma novidade muito bem-vinda esse ano e as irmãs Lumenhart foram bastante gentis em oferecerem o quarto delas.
Pararam diante de uma porta de madeira clara. Hera a abriu com um leve toque, revelando um quarto amplo e acolhedor. Havia três camas, baús abertos, algumas roupas dobradas e livros empilhados no chão. Duas garotas estavam lá dentro, rindo de alguma piada privada.
Uma era loira, o rosto iluminado, os olhos brilhando como se o sol nascesse dentro deles. A outra tinha os cabelos escuros presos em uma trança e a pele clara que parecia refletir a luz da lua.
— , estas são Aurora, deusa do amanhecer, e Selene, deusa da lua — disse Hera, com um leve sorriso. — A partir de agora, são suas companheiras de quarto.
As duas se viraram ao mesmo tempo. Aurora foi a primeira a se aproximar.
— Oi! Seja bem-vinda — disse, com um entusiasmo tranquilo. — A gente vai te ajudar com tudo, prometo.
— Principalmente com as regras não escritas — completou Selene, com um tom brincalhão. — Que são as mais importantes.
abriu um sorriso tímido, ainda sem saber o que dizer. Antes que pudesse responder, a porta se abriu de novo.
Um rapaz entrou carregando uma caixa. Era ruivo, alto, com um porte forte, os traços marcantes e o olhar sereno. Havia algo nele que prendia o ar dentro dos pulmões de , como se o tempo tivesse decidido pausar por um instante só para ele passar.
Ele notou sua presença, e quando seus olhos se encontraram, sorriu.
— Com licença — disse, deixando a caixa sobre uma das camas. Sua voz era grave, mas suave.
E então saiu, sem pressa, como se soubesse exatamente o efeito que causava.
— Esse é nosso irmão — disse Selene, com um meio sorriso. — . Não se preocupe, todas têm essa reação.
As bochechas de coraram.
Aurora revirou os olhos, divertida.
— Ele está ajudando porque é meu primeiro ano aqui também — explicou. — Mas acho que ele só gosta de bancar o gentil.
As três riram, e , ainda tentando colocar os pensamentos em ordem, sentiu o peso da tensão começar a se dissipar.
— Você vai gostar daqui — disse Aurora, sentando-se ao lado da cama. — Tem aulas, treinamentos, e claro, as festas. É puxado às vezes, mas vale a pena.
— Aqui, a gente aprende mais do que a controlar os poderes — completou Selene. — A gente aprende a ser os deuses que nascemos para ser, mesmo que isso leve tempo.
respirou fundo, deixando o ar preencher seus pulmões. Pela primeira vez, aquilo tudo parecia real. Pela primeira vez, ela não se sentia tão deslocada.
Talvez, de verdade, aquele fosse o seu lugar.
E então, o sol começou a se pôr pela janela do quarto. O primeiro dia estava apenas começando.
Aquela era a sua nova vida.


