Mansão Phi Kappa Beta — Parte II
Abril/2000
Passei pelo corredor esbarrando em todo mundo. Quando cheguei à escada do porão, o PJ tava lá, parado na frente dos degraus, olhando pra todos os lados. Ele balançava uma garrafa vazia na mão, o olhar perdidaço. Eu já tava seguindo reto, mas acabei parando ali, tentando me espremer contra a parede pra não impedir a passagem de ninguém.
— E aí? — ele acenou com a cabeça. — Tô procurando a Lori, ela sumiu. Viu em algum lugar desse andar?
— Vi não.
— Me ajuda a achar ela, . Ela disse que também foi ao banheiro, mas, pô, já faz um tempão. E ela não tá em canto nenhum daqui. Lá embaixo eu tenho certeza que ela não tá.
— PJ… Tô indo embora, mano. Sem tempo pra isso.
— Ei, calma aí — ele me segurou pelos ombros. — O que aconteceu? Você tá estranho pra caralho.
Pensei um pouco, mas sabia que não adiantava enrolar.
— DeWolff.
— Sabia. Uma hora eu quase desisti daquilo ali — ele apontou pra fila pro banheiro atrás da gente. — Cheguei a descer pro porão de novo, mas aí vi vocês dois perto da mesa de ponche e nem quis me meter. Voltei pra cá. Eu sabia que você tava atiçando o cara. Aposto meu rim que você se fodeu, diga aí.
Eu pisquei devagar. Respirei fundo pelo nariz.
— Me fodi.
— Pois é. O que ele fez, te expulsou? — PJ soltou um risinho sarcástico, daqueles que mal sai pelos lábios. — Deixa de ser trouxa, . Cão que late muito não morde, mano. Ele sempre faz isso. É tudo bravata, sossega aí.
— Não, foi mal, não vou sossegar. Perdi o pique de ficar aqui fingindo que tô curtindo.
— Irmão, relaxa — ele deu um passo à frente. — Tá com o cu preso só pelo DeWolff? Quê isso? Ou também viu a Renée lá dentro?
— PJ… Foda-se a Renée. Se o Nate me vir aqui, ou qualquer um desses jogadores que ele usa como escolta, eu tô fodido. Essa é a real. Eu tô fodido.
— Caralho, mas você irritou tanto o lindinho assim?
— Você sabe que não precisa de muito.
Ele travou o rosto por um segundo. Segurou meu ombro com uma mão. Quase pensei que tava prestes a me levar a sério.
— Cara, pensa só… Ainda acho que você tá pirando à toa.
Respirei bem fundo, mais uma vez, mas não falei nada. Se tinha uma coisa que me dava preguiça era ter que discutir algo tão óbvio pra mim.
— Calma aí — PJ me impediu de sair de novo. — Olha, eu nem tô a fim de ficar muito tempo também, mas espera um pouco. Vamos pro porão de novo, pelo menos até você esfriar a cabeça. Ninguém vai te incomodar lá.
— Como não?!
Sem responder, ele tirou a máscara do Jason Voorhees que tava pendurada no pescoço e enfiou ela na minha mão. Deu nem tempo de protestar e o PJ já tava arrancando a máscara do Ghostface da minha cabeça, aí encaixou no pescoço dele. Ele ainda tava usando o casacão verde e as luvas do Jason. A máscara de Pânico ficou meio frouxa enquanto o rosto dele continuava exposto.
— Aí, perfeito — ele ergueu os braços, esperando que eu fizesse alguma coisa, com aquela cara de quem achava que tinha acabado com todos os meus argumentos.
Eu dei uma última olhada ao redor. A primeira coisa que pensei foi na . Se a gente se visse por aí de novo, principalmente no porão, eu ia acabar me enfiando em mais uma conversinha mole com ela. Dali em diante era só explicar o que tava rolando, um Vamos dar o fora daqui? e eu sabia que a ia topar. Aí a gente pegaria um táxi até a república – eu tava de carona com a Lori, então não precisaria avisar ninguém, ela que se virasse com o PJ. Porra, tava perfeito mesmo. Mas antes disso, eu precisava pelo menos fingir que tava embarcando nessa palhaçada dele.
Botei a máscara do Jason no rosto. O PJ nem falou mais nada e também cobriu a cara com o Ghostface. Então a gente desceu pro porão.
Lá embaixo tava ainda mais cheio do que antes. Mais ou menos perto de um conglomerado de pessoas dançando, demos de cara com a Lori, com um braço entrelaçado no da Alana. A Lori tava com umas asas de anjo falsas encaixadas nas costas, e foi a primeira coisa que o PJ reparou quando paramos na frente delas.
— Fui dar uma passeadinha lá no Céu — ela explicou, quase tropeçando. A amiga até segurou ela mais forte pelo braço. — Gostou? Voltei mais santinha agora. Prometo.
A Alana deu uma encarada na Lori tão atravessada que eu pensei que o PJ também tivesse reparado. Mas eu olhei pra ele e faltava escorrer baba do sorrisinho que ele deu. O cara tava completamente alheio.
— Santinha, é? — ele coçou a barba, aí deu uns dois passos na frente dela. — Parece que alguém andou se comportando mal lá no Céu, ou será que você só tá querendo me convencer disso?
— Isso depende do que você tá disposto a acreditar — ela deu uma piscadinha exagerada. A Lori sustentava o olhar do PJ o tempo todo de um jeito inexplicável.
Não passei mais um segundo observando os dois e a Alana me agarrou pelo braço, do nada, e me arrastou pra um canto um pouco mais afastado deles. Ela olhou pra trás, se certificando de que a amiga ainda tava ocupada com o PJ, aí começou a falar baixo comigo, quase sussurrando.
— Olha, eu preciso te contar uma coisa…
— Quê? Não tô te escutando.
— Eu preciso te contar uma coisa — ela chegou perto e falou alto, mais perto do meu ouvido. — Mas você não pode comentar nada com ninguém, ok? Principalmente com ele.
Pelo gesto que a Alana fez com a cabeça, ela tava falando do PJ.
— O que foi?
— A Lori… Ela tá meio… — Ela fez uma pausa. Mordeu o lábio. Cara, eu já não tava me aguentando mais de curiosidade. — Sei lá, descontrolada hoje. Já bebeu demais e tá agindo estranho. Eu tô ficando preocupada.
— Descontrolada como?
Eu voltei meu olhar pra Lori, que agora tava girando pra longe do PJ enquanto ele ria dela. Pra mim, a garota só tava aproveitando a festa como qualquer outra pessoa. Quer dizer, fora das competições de softbol, o PJ me falou que ela também evitava sair muito porque o técnico sempre dizia que “atleta tem que dar exemplo”. Era quase esperado que ela fosse encher a cara na primeira vez que realmente se soltasse.
— Ah, deixa pra lá — a Alana estalou a língua. — Deixa, você não vai entender. É besteira.
— Que besteira? Fala.
— Acho que fiquei de saco cheio de cuidar de gente bêbada, só isso. E você, tá com essa máscara agora por quê?
Eu demorei um pouco pra raciocinar. Ainda tava interessado no assunto Lori Fez Alguma Merda. — Ah… É um rolo que eu nem quero comentar.
— Não vai tirar ela, não?
— … Ainda não.
A Alana não insistiu. Eu também não quis dar trela. Caímos num silêncio que foi crescendo, ficando, pesando, até passar um minuto inteiro. Na moral, a ideia de ficar ali todo escondido começou a parecer uma merda sem fim. Aí, falamos ao mesmo tempo:
— Acho que vou dar o fora.
— Quer dançar?
Me fodi de novo. Ainda bem que ela não tava vendo a minha cara.
— Ah… — a Alana falou primeiro. — Esquece, então.
— Desculpa.
Antes que eu pudesse pensar em algo melhor pra dizer, a Lori surgiu do nada, quase trombando no meio da gente. Ela tava com as bochechas vermelhas, o batom meio borrado, sorrindo de orelha a orelha que nem o Coringa.
— O que vocês tão cochichando aí? O PJ foi buscar mais bebida, sabiam? — ela falou praticamente berrando na nossa cara.
A Alana me lançou um olhar rápido, quase implorando por ajuda, só que a única coisa que eu fiz foi levantar as mãos. Já tinha problemas demais pra querer ser o juiz de uma picuinha de duas garotas.
A Alana simplesmente revirou os olhos, deu meia volta e foi embora pro outro lado.
— Iiiiiih — a Lori zombou. — Acho que ela não tá conseguindo me acompanhar. Que pena.
— O que você andou aprontando lá em cima que ela ficou neurada?
A Lori deu uma risadinha. — Sshhh!
De repente a gente viu o PJ chamando por ela do outro lado do porão. Eu olhei pra mesa de bebidas e ele tava lá, conversando com ninguém menos que a .
— Vou lá, né. O grudento me chama — a Lori reclamou e saiu andando na direção deles.
Alguma coisa tava rolando, mas eu tava longe de querer me meter. Quanto mais eu olhava pra dali do meu canto, mais meu cérebro recebia umas descargas elétricas, uma atrás da outra. Ela tagarelava com o PJ, sorriso largo pra Lori, mão grudada no ombro de um, braço já enganchado no outro, daquele jeito que só quem cresceu espremido entre irmãos numa casa cheia sabia fazer. E a voz dela, porra, a voz dela furava o barulho todo e chegava até mim como se não tivesse mais ninguém na festa. Porque ninguém no mundo tinha um timbre daqueles, alto demais pra caber em lugar nenhum.
Aí, por algum motivo, meu olho pegou algo lá no fundo. Um Freddy Krueger de papo com seus discípulos, a uns dez passos deles.
Uma hora a enlaçou o PJ e a Lori num abraço só, e as duas começaram a rir – elas tavam tão malucas que tentavam se segurar uma na outra pra não cair. O PJ tava paradão. Olhou na minha direção como se quisesse saber se eu também tinha percebido o DeWolff ali perto. Eu assenti com a cabeça.
De repente começou a tocar Backstreet Boys, e foi tipo um raio estourando em cima da . Ela ficou estatelada no lugar, só por um segundo, aí se soltou do PJ e da Lori e correu pra se enfiar no meio de uma galera que tava dançando no meio do porão. Até os que tavam ali só pra encher linguiça começaram a se mexer em volta dela. Era doido como todo mundo entrava fácil na onda da quando ela dançava.
Caminhei devagar até onde o PJ e a Lori estavam, tentando não chamar muita atenção.
— Você não vai acreditar — ela inclinou um pouco na minha frente. — Acabei de conhecer a digníssima amiga da Jenna. Gostei dela. É das minhas. Né, PJ? Fala como ela é legal.
— Ela é gente boa, ela é gente boa — ele falou. — Ela e a Jenna às vezes têm a mesma síndrome de Poliana, mas ela é massa.
Eu dei uma risada. Porra, o PJ realmente não fazia ideia de quem a era. Ele via só o básico, a mina que ria até do vento. Não sei como ele não percebia que ela era muito mais cínica e pessimista do que a Jenna. Enquanto a Jen ia mais pela corrente de acreditar na “bondade intrínseca” das pessoas e que “o amor vence tudo”, a tinha certeza que todo mundo olhava só pro próprio umbigo – e que isso não era coincidência.
— Eu vou sentar um pouco — a Lori avisou. — Tô meio tonta. Podem ficar aí, já volto.
Ela se arrastou lá pro lado do sofá grandão, bem atrás de onde o DeWolff tava. Eu e o PJ continuamos parados perto da mesa de bebidas. Eu cruzei os braços e fui o primeiro a reclamar.
— Cara. Não aguento mais ficar de máscara.
— Eu coloco a minha pra te fazer companhia — ele puxou a cara do Ghostface pra frente do rosto de novo. — Vamos lá pro sofá também. Não quero deixar a Lori sozinha perto desses topetinhos de gel.
Ele fincou as mãos nos meus ombros e foi me empurrando. A gente passou igual umas sombras perto do DeWolff e os outros, então alcançamos a Lori arrastando os pés, com a alma em outro lugar. O PJ correu pra segurar ela, aí eu aproveitei pra me jogar no meio do sofá vazio como se fosse meu direito divino. Segundos depois a Lori desabou do meu lado. O PJ sentou do outro e tirou a máscara pra respirar.
— Não aguentou um minuto — eu falei pra ele. O filho da puta só riu.
— Calma, é só um pouco. Não fui eu que virei inimigo público do DeWolff.
Ele apontou com o queixo na direção de onde eles estavam. Não tínhamos nos afastado muito. Ali no sofá a gente ficava mais ou menos atrás deles. A música não chegava tão alta naquele canto, então ainda dava pra ouvir pedaços das conversas dos caras se eu prestasse atenção.
— Irmão… — PJ falou pra mim, mas deu uma cutucada de leve no ombro da Lori. Ela continuou dormindo. Aí ele voltou a me olhar. — Acho que fui corno hoje.
Quase falei “viaja não”, mas eu meio que concordava com ele.
— O que você acha? — ele pediu.
— Tudo é possível…
— Ah, , sai fora com essas respostas vagabundas. Manda a real.
— Beleza. Se você não foi corno hoje, eu sou o novo integrante dos Backstreet Boys.
Ele ficou calado por um momento, aí apoiou os cotovelos nos joelhos, o tronco inclinado pra frente. Deve ter entrado numa crise existencial. Eu me afundei no sofá e cruzei os braços, tentando bancar o desinteressado, mas também fiquei pensando naquilo. Só que meu ouvido continuou grudado no papinho dos arrombados ali na frente.
“Não, pô, falando sério. Eu gosto das mais quietinhas.” Era a voz do Finnegan. Todo mundo falava que metade das mulheres desse campus já deram pra esse cara, mas eu preferia acreditar que elas não seriam tão desavisadas assim.
Eles continuaram o falatório.
“As que se fazem de santa? Tipo a Megan Thompson?”
“Não, tipo a Samantha Brooks.”
“Quem é essa?
“É uma que tá lá no Céu hoje, mas tava mamando o Roy atrás do carro outro dia porque achou que ele ia sair com ela depois.”
O Finnegan deu uma risada estrondosa. “Pois é. A Samantha é gostosa, mas fez tanto doce que encheu o saco já. Buceta tem que ser acessível, porra, se começa a me dar trabalho demais eu dou o fora e como a próxima da fila.”
O PJ se remexeu no sofá e me olhou com uma sobrancelha levantada. Eu fiz um sinal com os dedos pra mostrar que também tava ligado na conversa deles.
“O bom das quietinhas é que elas só viram uns dois paus na vida, aí pegam um melhorzinho e acham que é premium.”
O Finnegan ficou puto quando ouviu aquilo. “Melhorzinho o caralho. Você fala que uma Ferrari é ‘melhorzinha’ que um Fusca, porra?”
“Pra mim, o negócio é outro”, finalmente o DeWolff abriu a boca. “Gosto das que se acham espertinhas, conseguem formar uma frase completa. Aquelas que têm um mínimo de neurônios funcionais pra me acompanhar. Daí pensam rapidinho que tão no comando.” Ele fez uma pausa. O maluco tava saboreando a própria frase. “Tipo um jogo, saca? Igual quando eu quebro a defesa, taco o ombro num linebacker e abro caminho pro cara com a bola. Elas acham que tão me bloqueando, mas na real tão só seguindo o meu manual. A melhor parte é ver até onde elas aguentam. E quando percebem que tão perdendo…” Ele deu uma risada baixa. “Já era. Touchdown garantido.”
A conversa tava tomando um rumo que eu conhecia bem demais.
— Papo torto do caralho — o PJ falou baixo. — Ainda bem que a gente veio pra cá. Imagina a Lori sozinha aqui, mano. Nesse estado.
Eu balancei a cabeça pra concordar. Toda hora esquecia que precisava me esforçar pra comunicar debaixo daquela porra de máscara do Jason.
“Mas e aí, tão a fim de dar uma animada na festa?”
O DeWolff foi o primeiro a responder. “Acho que dá pra dar uma zoada de leve, né? Nada de mais.” Todos riram.
— Tá ligado que ele tá falando sério, né? — eu me curvei um pouco por cima da Lori pro PJ me ouvir.
“Tá com a filmadora preparada aí, Nate? Pra só… Plim. Apertar o play lá no quarto.”
— Puta merda… — o PJ franziu a testa, os olhos fixos no DeWolff. Eu nem me surpreendi. — Queria falar não, mas acho que a é uma das que tá na mira desse filho da puta hoje. Ele tá rodeando ela desde que a gente chegou.
— O quê? A ?!
— Eles que convidaram ela pra festa.
Eu até ergui a coluna e sentei direito. — Brinca não.
— É sério, pô. Ela me contou ali, agora, pra mim e pra Lori. Convidaram ela e a Jen.
Fiquei com vontade de vomitar um bloco de concreto. — E por que a Jenna não mencionou essa porra hora nenhuma?
— Ué, porque a gente não perguntou.
— Meu Deus, cara…
Eu enfiei as mãos por baixo da máscara pra esfregar o rosto. Não era possível que a Jenna tinha dado tanto mole assim. Ela sempre me pareceu tão indiferente a esses atletas. Caralho, não era possível que as duas faziam parte do grupo de garotas no campus que queriam dar pro Finnegan.
O PJ também botou a máscara do Ghostface de novo, e eu tinha certeza que ele só fez isso pra me consolar. Fiquei pensando no que caralhos eu poderia fazer agora. Eu mal tava processando que o DeWolff já tinha interagido com a dentro e fora daquela festa.
Pensei na Renée. Pensei no dia que ela saiu carregada pelas amigas do quarto dele e foi salva por uma questão de sorte.
Ficamos eu e o PJ disfarçados encarando aqueles caras por tempo demais. Foi aí que fodeu. Fodeu mesmo. Bastou o DeWolff dar uma bobeira de leve pra reparar, aí ele resolveu se afastar do grupo e se aproximar da gente. E, enquanto ele vinha, um passo depois do outro, o ar no meu pulmão foi virando gelo. O que me restou naqueles poucos segundos foi tentar calcular quantos ainda faltavam pra tudo explodir na minha cara.
O PJ recuou no próprio sofá, como se pudesse ser engolido pelo estofado de couro. Eu continuei uma estátua. Tava com a cabeça a mil, e vontade de sair vazado não faltou, mas meu corpo não me respondia mais.
O Nate meteu o dedo na cara do PJ.
— Eu pensei que tivesse te dado um aviso, Seaver. E eu não dou dois.
O PJ tirou a máscara. O DeWolff travou por um segundo. Os olhos dele fulminaram o PJ, depois correram pela Lori – que já tava roncando baixo do meu lado – e, por último, pararam em mim. Ele começou a rir baixo. Aí a risada foi só aumentando. De repente ele tava gargalhando igual uma hiena.
— Que gracinha! — ele berrou. — Vocês acharam que iam me passar pra trás com essa merda? Hein? Fala pra mim. — Ainda se contorcendo de rir, a mão dele disparou na minha direção e puxou minha máscara com força, só pra soltar de volta logo depois.
Tinha algo na risada daquele pau no cu que tava fazendo meu sangue ferver. A máscara batendo no meu rosto foi só a última palha. Então eu levantei.
— Essas festas tão começando a ficar previsíveis demais — eu olhei pra ele. Parecia que só o fato de eu ter me levantado afetou o cara ainda mais. Tive que render as mãos quando ele deu um passo adiante. — Você pediu pra falar, eu tô falando, porra. Calma. Tô achando que é você quem tá precisando de um Valium pra dormir‐‐
O DeWolff veio pra cima de mim. Ele agarrou minha camisa do mesmo jeito que fez mais cedo.
— Mermão. Foda-se o que você acha. — O maluco rangeu os dentes tão forte que eu achei que ele fosse partir a mandíbula no meio. Eu dei uma espiada no PJ, que também se colocou de pé atrás do Nate, mas numa distância mais segura. Engraçado, de repente sumiu aquela certeza toda de que o DeWolff só fazia bravata. — Pra falar a verdade, Seaver… — ele rosnou perto da minha cara, com aquela cadência de quem adorava se ouvir. Nunca estive tão arrependido de não ter bebido mais. Como eu queria estar anestesiado o bastante agora pra dar uma cabeçada bem no meio daquela veia da testa dele que tava pedindo pra estourar. — Seu falso moralismo não vai colar agora. Adivinha, eu tô pouco me fodendo pra ele.
Eu dei uma risadinha seca.
— Tá pouco se fodendo, é? — eu levantei minha mão e acariciei a dele, ainda fechada no punho que agarrava minha camisa e puxava ela pra cima. — Caralho, Nate. Você tá aqui, me segurando como se fosse me estrangular, praticamente me levantando do chão e tirando minha roupa, mas ainda assim diz que não liga pra mim. Aprende a mentir melhor, porra. Começa tirando a mão do pau pra falar comigo, bota na consciência pelo menos uma vez.
— Meu pau eu vou botar na goela da primeira que cair de joelhos aqui pra mim hoje. Pensa nisso quando você acordar da porrada que eu vou te dar.
Eu lancei um último olhar pro PJ, só pra ver se vinha algum tipo de intervenção. Mas ele franziu metade do rosto e torceu a boca pra um lado, igual quem espera um golpe – só que o golpe não era pra ele.
Foi rápido demais. O punho do DeWolff veio fechado, cortando o ar, com toda força. Eu mal tive tempo de piscar antes que ele me acertasse em cheio no alto da maçã do rosto, bem no canto da sobrancelha. Senti a ponta de cada osso dos dedos dele cravarem na minha cara. A máscara trincou, a dor explodiu, foi espalhando pelo resto do meu crânio. A força foi tanta que meu rosto inteiro girou pro lado. Por um momento, até achei que meu pescoço fosse ceder à pressão, porque aquele soco não só quis me atingir, quis arrancar minha cabeça do lugar. Minha visão piscou por um segundo, e eu senti o gosto de sangue na boca antes mesmo de entender o que tinha acontecido.
Meu corpo ficou mais pesado de repente. As pernas moles. O chão veio na minha direção muito rápido, e eu bati com o ombro primeiro, depois desmoronei. Tudo ficou abafado. Na moral, parecia que eu tava debaixo d’água. Só conseguia ouvir o som distante de umas risadas ao fundo, depois os suspiros de gente chocada e um zumbido agudo no meu ouvido direito. Tentei me mexer, mas minha cabeça tava latejando pra caralho.
Pisquei algumas vezes. Eu via tudo borrado. Acho que tinha umas pessoas ao meu redor.
— Tá vivo, mano? — o PJ agachou do meu lado esquerdo. — Segura a minha mão. Aperta quando você sentir que consegue levantar.
Eu levantei o braço com dificuldade. Esperei um tempo até apertar a mão dele. O PJ me ajudou a ficar mais ou menos de pé e me levou arrastado de volta pro sofá. Tirei a máscara quando eu sentei, e ela veio com uns pedaços lascados grudados no meu rosto, arrancando fiapos de pele junto. Ardendo pra desgraça. Ele ficou olhando pra mim, parado na minha frente.
— Puta merda, . Que paulada. Tá cheio de pedaço de plástico fincado na sua pele.
Eu deixei o pescoço tombar pra trás no sofá. Senti meu cabelo úmido de suor e, provavelmente, sangue, caindo na minha cara enquanto eu tentava respirar fundo sem queimar os pulmões. Minha cabeça tava que nem um peso morto que eu não aguentava mais sustentar. Depois senti os dedos do PJ mexendo na minha testa, puxando os troços afiados. Ele fazia isso devagar, com o rosto na altura do meu. A dor pelo menos tinha parado de vir em ondas tão fortes, mas tinha uma pressão latejando no meu ouvido que não me dava trégua um minuto.
— Você tinha duas opções. Ficar quieto e sair ileso ou abrir a boca e levar porrada. Claro que você escolheu a segunda. Genial — o PJ falou enquanto arrancava outro pedaço. — Se eu tomasse um murro desse por sua causa, a gente ia passar fome na mão do Alex pelas próximas duas semanas. Lasanha coalhada. Almoço e jantar. Tá maluco. Tenho prioridades.
Eu até riria se metade da minha cara não estivesse dormente.
— Cadê… — tentei perguntar.
— Eles se dispersaram. O Finnegan foi o primeiro a subir. O DeWolff só não te deu um chute no chão porque umas pessoas chegaram e ficaram em volta, aí ele fugiu lá pro outro lado. Pelo visto não tava querendo plateia.
Eu me endireitei no sofá e procurei o Nate com os olhos.
— A gente devia ir embora — PJ continuou. — Nem com essa treta a Lori acordou, e não para de escorrer sangue dessa sua ferida aí.
Vi o arrombado conversando com a . Lá do outro lado, um de frente pro outro. Entre o sofá e o lugar onde eles estavam ainda tinha metros de gente dançando, luzes vermelhas piscando e aquela fumaça branca engolindo as pernas das pessoas até os joelhos. Nenhum universo paralelo existia onde eu não fosse me meter naquilo.
— A gente tem… que tirar ela daqui — foi o que eu consegui dizer.
— Quem?
— A — eu apontei com o dedo na direção que eles estavam. O PJ também viu. — Vai lá falar com ela.
— Como?!
Eu ergui o corpo um pouco mais. Tava me deixando puto não conseguir falar direito. — Sei lá. Tira ela… daqui.
— E como é que eu vou tirar a daqui sem falar com a Jen? Elas vieram juntas. A Jenna vai me matar, caralho.
— Dá um jeito.
— Porra, …
— A Jenna vai matar todo mundo se esse filho da puta encostar um dedo na .
Ele ficou visivelmente mais ansioso. Até todo fodido eu tinha que pensar num plano primeiro.
— Vai lá — pedi. — Eu acordo a Lori... Levo ela pro carro... Fico te esperando lá.
— Mano… Tá maluco? Você tá confiando demais no seu estado atual. A Lori nem consegue andar direito, como você vai carregar ela sozinho? — ele balançou a cabeça pros lados e riu. — Esquece, não tem jeito. Aceita isso.
— PJ. Caralho. Você não quer me tirar do sério no meu estado atual.
— Ok, então… — Pela primeira vez ele gastou uns cinco segundos pra pensar de verdade. — Eu subo e falo pra Jenna, aí a gente vaza e deixa que ela dá um jeito de tirar a dali. Pode ser?
Eu nem precisei ponderar sobre o plano dele pra saber que não ia dar certo.
— Pode ser? — ele insistiu.
— Pode.
— Ok. Me espera aqui.
— Vai rápido.
Mais uma vez naquela noite eu tive que fingir que tava acatando outra ideia do PJ. Assim que ele saiu e sumiu entre as pessoas, eu virei pro lado e dei um empurrão no braço da Lori pra ver se ela acordava.
Ela nem se mexeu. Continuei sacudindo o corpo dela inteiro, chamando pelo nome dela umas dez vezes.
— O que é…?
— Vambora. A festa acabou.
— Ah, é? Hum. Pode ir, me deixa aqui... Tchau.
Ela se aninhou ainda mais no sofá. Putz. Eu inspirei o ar algumas vezes. Meu braço tremeu quando apoiei a mão no encosto, buscando força pra levantar. Tudo doía. Eu tava com vontade de cuspir aquele sangue acumulando na minha boca, mas não tinha tempo nem pra isso. Não agora.
Finalmente consegui ficar de pé. Respirei fundo. Olhei pra trás, pra onde eles estavam. O DeWolff falava alguma coisa pra , e ela tava toda soltinha com ele. Falava umas coisas também, aí abria um sorriso maior que o outro. Metade da porra do caminho já tava feito praquele arrombado. E eu tava atrasado. Cada segundo que passava era mais um pedaço daquela merda escapando das minhas mãos.
Eu cheguei um pouco pra frente e puxei a Lori pelo braço, praticamente arrancando ela do sofá. Ela ficou ali parada, em pé, mole que nem uma boneca de pano, me encarando e piscando devagar.
— Vambora, Lori. Agora. Sem discussão.
Eu ainda a segurava pelo braço, só porque não confiava de soltá-la nem fodendo. A mina tava mais desequilibrada do que eu. Aí ela arregalou os olhos quando finalmente olhou pro meu rosto.
— Caramba… Caramba! Meu Deus do céu, o que aconteceu com você, ? — ela embolava todas as palavras. Não sabia se ria ou ficava preocupada.
— Dei uma voltinha na Elm Street.
— Elm… Street? — ela deu uma engasgada, a mão subindo rápido para tampar a boca. — Nate DeWolff te bateu?
Eu resolvi olhar pra ele de novo, do outro lado do porão. O Freddy Krueger tinha se movido, tava mais perto ainda da , e de onde eu estava, ela quase desaparecia atrás dele.
— Sim. E agora a gente já vai. Na moral, é a última vez que eu vou falar isso.
— Tá bom, tá bom. Já entendi.
Andei devagar com a Lori cambaleando, agarrada ao meu braço. Encontramos o PJ na frente da escada.
— Avisou a Jenna? — eu perguntei.
— Avisei, mas… Mano, ela tava pegando umas duas meninas ao mesmo tempo. Sei lá se prestou atenção no que eu falei.
Eu dei uma risada sem humor nenhum. — Pois é. Agora faz o que eu falei antes. Vai lá falar com a que eu vou pro carro com a Lori.
Ele olhou na direção do DeWolff. — Quê isso, . Sem chance. Olha lá.
Não olha.
Não olha.
Não olha.
Era só nisso que eu pensava.
Sabia que aquilo ia me detonar por dentro, e aí sim eu perderia completamente a cabeça, mas lá estava eu, olhando mesmo assim. Daquele ângulo dava pra ver os dois de perfil, e eu já tava esperando dar de cara com o inevitável. Pelo menos seria rápido, ia acelarar o baque. Mas não, foi pior. Foi o teatro do quase. Foi assistir a mão do DeWolff segurando o queixo da , a mão que não devia nem ter esfriado ainda do soco que ele me deu. Depois foi reparar no dedo dele pressionando contra o lábio de baixo, metade já desaparecendo dentro da boca dela. E os dois estavam a, sei lá, menos de um metro de distância um do outro. A nem se mexia. Tava parada, rígida, vidrada no cara, ou talvez só bêbada demais pra reagir.
Por algum motivo o DeWolff foi saindo de perto dela depois de ter falado alguma coisa. Foi andando numa boa, sem pressa nenhuma, até a mesa de bebidas. Aí eu saquei o que tava rolando. Sabia exatamente o que ele tava fazendo. Puta merda, isso me deixou tão puto que a minha última lasca de sanidade foi pro caralho.
Eu agarrei o ombro do PJ e dei um berro no ouvido dele. — Vai lá, cacete. Aproveita e fala com ela agora. Rápido, antes que o Nate volte.
— E eu vou falar o quê?
— Sei lá, porra! — Eu quase esmaguei o ombro dele, aí soltei. Ele deu um tropeço pra trás. Minha cabeça tava a ponto de estourar. — Só tira a daqui. Eu não vou fazer isso, porque se ela me vir assim, vai querer saber a história inteira. Não vai dar tempo.
— Você tem que tirar ela daqui, PJ.
A gente olhou pra Lori. Foi ela quem falou, do nada. Aí não sobrou mais uma sombra de dúvida no trouxa do PJ – ele saiu em direção à e, quando tive a certeza que ele não ia voltar atrás, eu subi as escadas com a Lori apoiada em mim, atravessando a galera parada ou transitando pelos cômodos. No meio do trajeto as pessoas começaram a me encarar demais, então eu vesti a máscara do Jason pra esconder o estrago no meu rosto.
O Kadett da Lori tava estacionado na rua da mansão, um pouco mais pra baixo, espremido entre outros carros enfileirados.
— Cadê a chave? — perguntei. A Lori resmungou algo ininteligível, aí começou a fuçar os bolsos da saia vermelha. Quando finalmente sacou a chave, quase deixou escorregar, só não caiu no chão porque eu tava sem paciência nenhuma e arranquei da mão dela.
O clique das portas destrancando foi o som mais lindo do mundo. Abri a do passageiro pra Lori. Ela tombou pra dentro do carro e se atirou no banco de trás. Nem esperei ela se acomodar, bati a porta e dei a volta, aí sentei no banco do motorista e girei a chave com força. Meu pé esquerdo afundou na embreagem, o direito no freio, depois puxei o freio de mão e já engatei a primeira marcha. Só precisava do PJ aparecer com a , o resto era só uma questão de acelerar.
Aí os minutos se arrastaram.
Um inferno.
A Lori já tinha até voltado a dormir.
Cada vez que eu olhava pelo retrovisor, esperava ver o PJ e a saindo pelas portas da mansão. Ou só o PJ, e se isso acontecesse, eu ia ficar tão puto, mas tão puto que talvez nem esperasse ele chegar no carro. Eu ia sair e foda-se, juro por Deus que ia enfiar a cara dele no capô. Ia fazer aquele inútil comer lasanha coalhada daqui até os fins dos tempos.
De repente, um vulto de máscara do Ghostface apareceu no retrovisor. Desacompanhado. Meu irmão, minhas mãos suaram frio e eu quase deixei o volante escapar. Mas o cara virou pra esquerda e sumiu atrás de uma árvore.
— Filha da puta. Não é ele.
— Mmmphssh...? — A Lori remungou no banco de trás. Depois apagou de novo.
Eu já tava pronto pra meter a cara no volante, quando, até que enfim, aleluia, eles surgiram, atravessando as portas da mansão. O PJ vinha puxando a pela mão, praticamente a arrastando enquanto ela tentava resistir. Ela tava usando a porra do casaco do Nate.
Eles foram se aproximando cada vez mais. O PJ quase abriu a porta onde a Lori tava apoiada, aí deu a volta e jogou a pra dentro pelo outro lado. Ela caiu sentada no banco atrás de mim, meio desajeitada, e ficou ali parada, com cara de assustada, piscando rápido demais enquanto tentava entender o que tava acontecendo.
Eu olhei pelo retrovisor. Ela me deu uma encarada de volta. Um silêncio absoluto enquanto o PJ contornava o carro de novo pra entrar. Ele sentou ao meu lado e fechou a porta.
— Que porra é essa, PJ? — a voz da saiu estrangulada.
Aí, sem pensar muito, tirei a máscara do Jason e deixei cair no apoio de braço atrás da marcha.
A quase teve um troço.
— ?!
Nem respondi. Só pisei fundo no acelerador. O Kadett deu um solavanco pra frente e arrancou na rua, deixando um rastro de pneu cantando atrás da gente. Dirigir aquele carro era diferente da Chevy. O Kadett era muito mais leve, mais nervoso, sempre à beira de escapar do meu controle. Se a Lori acordou, já tinha dormido de novo, porque nem resmungou dessa vez. Continuava aninhada no mesmo lugar como se o barulho dos pneus fosse só parte de um sonho ruim.
— Alguém pode me explicar por que eu tô aqui? — a botou o cinto, meio desesperada. — Era pra eu tá beijando o Nate DeWolff nesse exato momento!
Ela só podia tá brincando comigo, porra. Segurar pra não explodir exigiu cada grama de autocontrole que eu tinha sobrando. Eu olhei bem pra ela, pelo retrovisor, mais puto do que eu achava possível ficar naquela noite.
— Você não faz a mínima ideia de quem é esse cara.
— Como assim? Ele foi tão legal comigo — ela cruzou os braços e olhou pro lado. Igual uma criança birrenta. Eu voltei a prestar atenção no trânsito, aí senti o olhar dela de novo pelo espelho por um bom tempo. — O que raios aconteceu com sua cara, ? Se meteu em briga, é?
— Depois eu te explico. Agora não dá. Sem mais perguntas até a gente chegar, ok?
— Chegar aonde? Pra onde você tá me levando? Eu quero voltar pra festa!
— Não. Sem chance.
Eu mantive os olhos na rua. Minha mão direita segurava o volante com força enquanto eu finalmente descansava o outro braço na janela. O PJ tentou falar alguma coisa, mas eu nem ouvi direito. Tava mais ligado na e em qualquer movimento que ela fazia, e ela ficava mais agoniada a cada minuto.
— Tá bom, então — ela bufou, ainda perplexa. Tava nem aí pra disfarçar a revolta também. — Já que você arruinou completamente a minha noite com seu autoritarismo ridículo, que aparentemente eu nem tenho direito de saber a razão, pelo menos me deixe no Belva Hall.
— É pra lá mesmo que a gente tá indo — larguei minha resposta e me voltei pra rua.
— Ótimo.
Houve um breve segundo de paz, brevíssimo, que eu felizmente soube aproveitar. Até ele ser estilhaçado pela voz da estourando pelo carro de novo.
— Espera! Não! Eu não posso dormir no meu quarto hoje, a Sadie vai se encontrar com um cara e me pediu pra dormir no quarto da Jenna. Falando nisso, onde ela tá?! Você mandou o PJ sequestrá-la também, ?
— Pouco antes de falar com você — o PJ começou a justificar —, eu fui atrás dela pra explicar a situação, mas ela não me deu muita bola. Tava no meio de um beijo triplo e me encheu de patadas. Mas se te tranquiliza um pouco, , a Jen concordou e sabe que a gente tá te levando.
— Ela… sabe…?
— Viu? — eu falei. De novo nossos olhos se encontraram no retrovisor. — Considere isso um resgate, não um sequestro.
— O que diabos tá acontecendo, pelo amor de Deus? Dá pra vocês pararem com essa putaria comigo? Por que eu sou a única que não tá entendendo nada? Por que vocês não podem me falar nada agora? Merda, por que eu tenho que esperar a hora que você quer, ?!
Aquela enxurrada de perguntas fez meu cérebro escorrer pelas minhas orelhas. Tudo que eu ouvia era um zumbido ensurdecedor dentro da minha cabeça.
— Porque SIM, ! Porque eu tô dirigindo agora! Porque eu tô puto e não quero ter que gritar com você, caralho!
O silêncio que veio depois foi absurdo. Até acordou a Lori, igual quando alguém desliga a TV no meio de um cochilo. Mas ainda bem que ela só mudou de posição – mais uma pessoa falando na minha cabeça e eu ia desmaiar no volante.
A apoiou o queixo na palma da mão, o cotovelo na porta, e ficou olhando pela janela. Cada respiração dela embaçava o vidro numa nuvenzinha de vapor. Aparecia e sumia, aparecia e sumia. Um climão da porra começou a me corroer por dentro.
Eu sabia que ela tava magoada. No meio daquela bagunça toda, era fácil esquecer que a nem tinha pedido pra estar ali. Ela não tinha escolhido ser o centro de uma treta que nem era dela. Eu queria falar alguma coisa, pedir desculpas, mas, puta merda, nada saía.
Só queria que a entendesse que ela tava longe de ser parte do problema. Na verdade, era exatamente o oposto.
— … Desculpa — eu disse me sentindo um merda. — Falei que vou explicar depois, quando chegarmos. Sei que é difícil agora, mas, por favor, só tenha um pouco de paciência. Não tô bravo com você, é com... Você ainda vai entender.
Ela me ignorou. Nem ameaçou olhar pra mim. Continuou vidrada na janela, como se a paisagem que passava rápido fosse muito mais interessante do que qualquer bobagem saindo pela minha boca. Mas tudo bem. Eu não esperava que ela me desculpasse na hora. Até lá, eu ia aguentar o silêncio. Mas a também não era do tipo que ficava quieta por muito tempo.
Fiquei me perguntando o que tava passando pela cabeça dela.
— — ela me chamou, tão baixinho, quase como se tivesse se arrependido meio segundo depois. Nem o PJ deve ter ouvido. Eu só ouvi porque ela tava bem atrás de mim. E acho que só continuou a falar porque eu olhei pra ela. — Quem fez isso com você… foi Nate DeWolff?
Minhas sobrancelhas foram lá pro alto da testa. A ideia de que a pudesse suspeitar dele me pegou de surpresa. Ela não parecia muito ligada nisso quando os dois tavam quase se pegando lá no porão meia hora atrás.
Eu devia imaginar. A não era de deixar passar nada.
— Foi — respondi.
Ela ficou de queixo caído. Aposto que tava tentando ligar os pontos, mas duvido que teria todas as respostas sozinha. Fiquei ansioso pra contar tudo, soltar tudo na lata de uma vez, mas minha cabeça tava doendo demais pra isso.
Sabia que a ia pirar sem um final pra essa história, mas, sinto muito, dessa vez ela ia ter que aprender a se conformar com umas pontas soltas.