Tamanho da fonte: |

Independente do Cosmos🪐

Última Atualização: 14/12/2025


ANTES


— Eu tenho certeza de que você não vai querer entrar aí agora.
Busco a tal voz, que não me era nada familiar, meu cenho franzido demonstra a confusão que eu sentia. Olho para baixo e o vejo. Ele estava falando comigo?
— Sim, estou falando com você — responde, de maneira sorridente, como se tivesse o dom de ler pensamentos.
— Por que eu não iria querer entrar na minha casa? Eu nem te conheço. É estranho falar para as pessoas não entrar na casa delas — disse, de forma desconfiada. O jovem estava sentado no chão, ao lado da porta da minha casa.
— Eu não disse que não podia entrar, eu só disse que você não vai querer entrar — afirmou, de maneira confiante, deixando-me um pouco mais irritada. — Sua mãe se chama Nora? — Aceno com a cabeça, sem saber exatamente que resposta dar. — Ela está transando com meu pai. E minha mãe não gostou nadinha de saber. Vim aqui confirmar isso, mas... não sei se vou ter coragem de contar a ela.
Sento-me ao lado do jovem, suspirando baixinho. Ele parecia precisar de companhia. Agora entendo, não consigo ficar surpresa com a situação. É o típico comportamento da minha mãe, com fortes camadas de narcisismo.
— Sinto muito — murmuro baixinho, sem saber o que dizer. A melancolia em minha voz era verdadeira, apesar de não conhecer o rapaz. — Me chamo . E, diferente da minha mãe, não saio com homens casados.
O menino então gargalha, as mãos continuavam brincando com alguma pedra que ele havia encontrado no jardim. O olho por alguns minutos, imaginando que idade ele teria. Talvez dezesseis? Com certeza não deveria passar dos seus dezenove anos.
— Me chamo . Eu também não saio com mulheres casadas ou traio mulheres em geral, mas estou esperando ficar adulto pra descobrir se herdei os genes adúlteros do meu pai — brincou, me arrancando uma risada.
Um gemido ecoa o espaço e, por mais constrangedor que aquilo seja, começamos a rir da situação. Lembro da sacola que segurava em minhas mãos e a abro, retirando duas caixinhas de comida dali de dentro.
— Você gosta? Está com fome? — perguntei, e, ao ver sua relutância, decido brincar com o caos que gemia dentro da minha casa. — Sim, o gosto é péssimo, mas tenho certeza de que minha mãe pegou dinheiro com o seu pai pra comprar.
gargalha, pegando a caixinha das minhas mãos e abrindo-a. Após isso, ele pega os talheres de plástico. Aparentemente ele não era fã de comida tailandesa, mas nenhum sabor seria tão ruim quanto chegar em casa e dizer que seu pai tinha uma amante.
— Então, por que sua mãe mandou você aqui? — comecei, curiosa. Ele deu de ombros, como se não soubesse essa resposta.
— Meu pai não está mais chegando em casa com cheiro de cerveja, agora está chegando com cheiro de... bom, da sua mãe. Minha mãe sabe que não cheira como ela, mas é insegura demais pra ver com os próprios olhos.
Concordo com a cabeça de forma positiva, parecia fazer sentido.
— Ela te pediu pra seguir ele?
— Não exatamente. Ela pediu para eu ir ao trabalho dele, mas ele não estava no trabalho e o GPS dele me fez parar aqui. Daí vi o carro dele na sua garagem. — Deu de ombros.
Levo o garfo de plástico até minha boca, com um pouco da comida, e fecho os olhos enquanto a saboreio, pensando na situação por completo. Devia ser difícil pra ele ver seu pai dessa forma, mas ele não parecia estar tão surpreso assim, como eu também não estava.
— Ele já fez antes, não é? — pergunto, meus lábios se comprimem porque não quero que seja um assunto delicado, não quero o forçar a me responder, mas acenou com a cabeça.
— Algumas vezes. A colega de trabalho, minha professora. Fico me perguntando qual o vínculo dela com ele. Se significa alguma coisa ou se ela está sendo só mais uma. — Ele parou, pensando um pouco. Talvez lembrando da sua mãe.
— Minha mãe vai a eventos beneficentes para encontrar homens ricos — falei de maneira tímida, encolhendo o meu próprio corpo vagarosamente. — balança a cabeça, como se isso fosse um bom palpite do motivo deles se encontrarem. — Você não parece rico.
ri. Gosto do seu sorriso.
Eu não sou, meu pai é — apontou, me fazendo sorrir com a resposta, gostava dessa independência dele em não agir como mais um jovem mimado. — Você não parece filha de uma mulher interesseira.
Não tenho resposta pra isso.
— Acho que eles acabaram. Minha mãe sempre liga o som quando termina — falo, após ouvir o aparelho de som ligar, explicando o motivo do meu palpite. — Quer subir comigo? — parece pensar, olhando para o chão. Ele definitivamente não queria ir para casa e eu não podia deixar com que ele encarasse seu pai assim. Talvez, se ele não ver, não vai ter sido real. — Vem — chamo, segurando sua mão e dou a volta para a lateral esquerda da minha casa, o mostro uma treliça e subo pela janela, o esperando fazer o mesmo.
— Obrigado — ele diz, mas sei que não é por ajudá-lo a mostrar o caminho. — Você gosta de X Ambassadors? — Concordo com a cabeça, de forma orgulhosa. Pouca gente conhecia a banda, mas eu era muito fã. — Você é estonteante, .
Gargalho com a forma que ele fala, as palavras que usava o davam um tom mais sério e eu gostava disso.
— Nunca me chamaram de estonteante antes. Você é peculiar, . — Ele sorri, ainda olhando o meu quarto e mexendo em algumas outras coisas com minha permissão.
O barulho de um carro ecoa pela rua e se aproxima da janela para o olhar.
— Era o meu pai — suspira. — Acho melhor eu ir. A gente se vê por aí? — Concordo com a cabeça, embora provavelmente eu saiba que nós não iríamos nos ver por aí.



AGORA


Os olhos da mulher encaram a parede, os lábios entreabertos deixando nítida a decepção que sofria ao perceber que o marido estava, mais uma vez, atrasado. Provavelmente ocupado trepando com uma das várias amantes que tinha. , filha mais nova do casal, se aproximava da mãe, arrastando consigo uma manta pequena que ela usava para dormir. A pequena encosta a cabeça no colo da mãe, que envolve as mãos sobre o cabelo da pequena.
— O papai chegou, mamãe? — a menina perguntou, se juntando à mãe na cama da maior.
— Ainda não, meu amor. Ele deve estar chegando. — concorda com a cabeça, como se não tivesse dúvidas e realmente não tinha o porquê tê-las. O único defeito do marido eram as infidelidades que ele jurava que a esposa sequer desconfiava, mas era um pai perfeito para as suas filhas. E até mesmo um bom marido.
suspirou, puxando a filha pra o seu colo. A mais velha já estava dormindo, era como se fossem duplas perfeitas. era a parceira ideal de e a pequena era completamente ligada a .
Ela não podia ser hipócrita, a culpa de tudo aquilo não era apenas do marido. Era sua também e a mensagem em seu celular, marcando o nome , confirmava isso. A mulher ignora a mensagem, não era porque seu marido estava com uma de suas amantes que ela precisaria estar com o dela.
— Oi, minha princesa, estava esperando o papai? — pergunta, entrando no quarto e afrouxando a gravata enquanto a tirava e jogava sobre a cama. O perfume doce inunda o quarto. Perfume que não era dele, tampouco dela. O homem se aproxima, deixando um beijo carinhoso no topo da cabeça feminina e a pequena pula em seus braços.
— Papai, lê os porquinhos pra mim? — ri, deixando um beijo nas bochechas da mais nova e sai com ela para o quarto rosa da pequena.
então se levanta, também saindo do quarto ou iria ficar nauseada com o cheiro do perfume da outra. A mulher caminha até o quarto de , onde a deixou dormindo horas atrás, e senta-se no chão, observando a pequena. tinha traços de , os cabelos assumiam a mesma tonalidade castanha, os lábios assumiam a linha inferior um pouco mais grossa que a superior, mas as bochechas rosadas eram mérito totalmente de , assim como o nariz fino. , por sua vez, era bem mais parecida com a mãe. A pele branca, pálida e os cabelos loiros. Todo o resto era de .
Ela aninhou a filha, deixando um beijo em seus lábios e a cobriu com as cobertas, antes de voltar para o quarto. Chegando lá, deitou-se na cama, de costas para a porta. Não queria ver o marido chegando, por isso fingia que dormia sempre que ele colocava na cama. ouve os passos de no corredor e se encolhe, fechando os olhos e controlando a própria respiração. Ele entra no banheiro e ela não precisa virar para saber que ele tomaria banho e voltaria com o seu samba canção. Era sempre assim, todas as noites. Então ele sai do banho, apaga a luz, tira a sandália e se deita de costas para a esposa.


⭑⭑⭑


— Oi — ele respondeu em um tom baixo, Lucy sorriu o cumprimentando e sua mulher fez o mesmo, mas sem o sorriso.
— Oi — respondeu ela, da forma mais amigável que conseguiu.
— O que vai fazer hoje? Vi que já deixou as meninas na escola, acabei dormindo um pouco mais. Tive reunião até tarde ontem. — Se apressou em justificar, o que deixou a esposa ainda mais irônica em seu sorriso.
Reunião.
já tinha ouvido falar de Maite, Alice, Laura, Helena... Reunião era a primeira vez. Ele achava mesmo que ela era tão cega assim?
— Vou fazer compras com a Daphne. — Ele balança a cabeça.
— Melhor eu ir trabalhar, pego as meninas na escola — informa para a esposa, que concorda com a cabeça. Ele lhe deixa um beijo no topo de sua cabeça e sai logo em seguida.
, por sua vez, também não demorou tanto em casa. Assim que sua melhor amiga aparece, ela entra no carro de Daphne e vão até o shopping. Chegando lá, como esperado, passeiam por todas as lojas. não era tão consumista, mas ultimamente conseguia descontar boa parte das frustrações de seu casamento na conta bancária do casal.
— Amiga, olha aquela bolsa — Daphne a chamou, fazendo-a ir até uma de suas lojas favoritas. estava acostumada com aquela vitrine específica, amava as bolsas de lá e a maioria das pessoas a conheciam, o que tornava comum saberem seu nome. Assim como Tony, um dos atendentes simpáticos que sorriu assim que as mulheres andaram até ele.
— Senhora Heinz, bom dia! Gostou da bolsa? — A mulher o olhou confusa, Tony pareceu entender a confusão, então logo explicou. — A bolsa que seu marido comprou no mês passado.
— Ah, claro! Como pude me esquecer, é maravilhosa! — Sorriu desconcertada. Não bastava a trair, ainda comprava presentes para suas amantes em sua loja predileta? Onde todos a conheciam? Rapidamente, pegou seu celular, digitando uma mensagem para seu marido, mas não precisou de tanto, já que ele apareceu atrás de si.
— Senhor Heinz, eu estava agora mesmo falando da bolsa que comprou semana passada. Eu falei que ela ia gostar. — O atendente sorriu simpático e saiu logo em seguida, deixando o olhar mortificado do homem sobre sua esposa.
— Foi aniversário da minha mãe — ele respondeu, coçando a cabeça.
Daphne se aproximou deles, cumprimentando-o com um abraço e sorriu com a bolsa que ela tinha adorado. Ela pagou, se despediram de e foram para casa.
— Amiga, eu não sei, não. O não teria coragem de te trair sabendo tudo que o pai dele fez com a mãe dele. — ri com desdém. Amava Daphne, mas ela era inocente demais às vezes.
— E como você justificaria o cheiro de perfume feminino que ele chega em casa todas as terças? Futebol não causa esse cheiro — falou, apontando os argumentos para as possíveis traições do marido.
Daphne suspira, não havia resposta suficientemente boa para aquilo. Apenas conseguia sentir muito pela amiga. O casamento deles fora o que fez a ruiva desejar o mesmo para si e só por isso casou-se com Aaron.
— Eu acho que vocês deviam conversar. — concorda com a cabeça, mas tudo que ela menos fazia e queria agora era conversar com o marido. Ele não sabia da traição dela e ela fingia que não sabia das traições dele. — Vocês vão pra o jantar da Lotus?
— Eu não sei. O precisa ir, vai ser a última festa com o seu pai e depois ele assume a empresa, mas não sei se estou no clima. Fora que não posso levar as meninas e não queria as deixar com a minha mãe.
— Você pode deixá-las com a mãe do — ela sugere, concordo com a cabeça. Se sentia envergonhada pelo que a mãe havia feito a ela, mesmo que nove anos atrás.
— Tem razão, ela é ótima com as meninas. Eu vou — respondeu decidida, quem sabe esse não fosse um momento de deixar as suspeitas e diferenças de lado para apoiar o marido? Seu casamento precisava disso. Ela também.



ANTES


Minha mãe me pediu para ir até o mercado, comprar coisas que não precisamos. Eu sabia que ela não estava com fome e não se preocupava em eu estar com fome, provavelmente tinha marcado novamente um encontro com Ethan, pai de . Eu me sentia frustrada, de alguma forma parecia que eu estava sendo conivente com os pesares da mãe dele. me odiaria se soubesse que eu deixo seu pai e minha mãe a sós? Não sei. Ele não parece capaz de odiar alguém.
Me aproximo do setor de hortifruti, as alfaces estavam em uma cor bonita e pego um deles com a mão, segurando o carrinho com a outra.
— Você já experimentou isso? — Olho para trás, a voz nem tão desconhecida atrás de mim leva uma uva até a boca, me aproximo.
— O quê? Uvas? — Me aproximo de , ao ver que ele estava com uma sacola de uvas na mão e uma delas ia em direção à sua boca.
— Não uva normal, . — Ele lembrava do meu nome. — Uva com sabor de céu. Tem mesmo o sabor de céu.
Gargalho baixinho porque não consigo imaginar como uma uva poderia ter sabor de céu.
— E como você sabe qual o sabor do céu, ? — Ele dá de ombros, experimentando mais uma uva.
Então sorri, com aquele sorriso.
— Eu só sei. — Eu gostava do tom infantil que nossa conversa tomava, às vezes. Não parecia que éramos dois jovens adultos com famílias desestruturadas. — Você não acredita em mim, então vem cá. Vai ter que provar uma — ele me chama e eu vou. — Primeiro você precisa fechar os olhos. — O encaro com desdém e ele sorri. — Eu não vou te oferecer a melhor uva do mundo, com sabor de céu barra paraíso assim. Precisa merecer. — Acho engraçado que ele realmente fala a palavra barra. Faço o que me pede.
É hilário porque assim que ele coloca a uva em minha boca, eu realmente sinto o gosto delicioso dela. Indescritível. O encaro surpresa e ele sorri convencido, com a cara de quem diz: “eu te avisei”.
— Se chama viés da confirmação. Quando você realmente acredita que algo pode mudar o sabor de uma coisa, seu cérebro manda sinais ao seu paladar e ele muda o sabor. — Ele leva mais uma uva até sua boca, fechando o saco logo em seguida. — “Uma vez que o entendimento de um homem se baseia em algo, isso atrai tudo à sua volta para apoiar e concordar com a opinião adotada — ele cita, sorrindo, então segura a cesta que estava na minha mão. — Francis Bacon.
— Bacon? Sério? — gargalha. Eu amo sua inteligência. E sua risada.
— Qual a sua sessão favorita? — Eu penso antes de responder, porque nunca havia parado pra pensar nisso.
— Acho que essa. Tem tudo que eu gosto, frutas, verduras, legumes, frio...
sorri de maneira divertida e dá de ombros, juntando minhas verduras com a sua uva na cesta enquanto saíamos dali.
— Eu gosto da sessão três, com salgadinhos, biscoitos e porcarias, mas às vezes saio de lá e venho à parte saudável para flertar com pessoas bonitas que andam por aí vendo... — Ele olha minha sacola, procurando o que eu estava vendo. — Alfaces.
— Seu flerte é citar homens com nome de carne? Oh, ! — desdenho de forma divertida, porque a técnica estranha dele realmente funcionou.
— Você diz isso porque não me ouviu falar do Phillip Acem. Se você acha que minha especialidade para conquistar mulher é porco, devia me ver falando dos bovinos.
Eu gargalho. De um jeito que não era tão comum eu fazer. Amava a forma que mudávamos os assuntos e que tudo parecia ser leve e se encaixar tão bem. Pessoas enxergam pessoas, não .
me nota.
— Qual sua fruta favorita? — Ele parece pensar um pouco, mas dá de ombros, escolhendo maracujá. Acho estranho, ninguém come maracujá. — Por quê? É amargo.
— É versátil e é o fruto da paixão — responde de forma honesta, dando de ombros mais uma vez. A forma que ele dava de ombros era atraente, parecia que nada era importante o suficiente pra tirar aquele sorriso de seu rosto. — Você pode fazer tudo com um maracujá. Além disso, é saudável e ajuda muito com insônia, estresse e ansiedade. — Quero perguntar como ele sabe disso, mas não sei se devo. — E a sua?
— Gosto de morangos. — A resposta é simples, porque não sei como justificar minha resposta. — É gostoso.
Caminhamos em direção ao caixa, após passarmos por mais alguns corredores. Entre uma risada e outra, me conta mais e mais curiosidades sobre as coisas. Gosto da sua inteligência para coisas aleatórias, porque são coisas que não aprendemos na escola ou faculdade e agora era algo meu e dele, claro que todas as outras pessoas do mundo poderiam pesquisar, mas falou só para mim. Após o passeio, vamos ao caixa, onde as compras são pagas.
— Vem, quero te levar a um lugar.
Então eu vou.



AGORA


, e estavam reunidos na brinquedoteca. A mais velha sofria constantemente com pesadelos e não havia sido diferente na noite anterior. Após o choro se tornar alto e audível pela babá eletrônica, os pais da pequena acordaram e a trouxeram para a cama com eles. era mais quieta que sua irmã , normalmente era mais séria e não era tão dengosa quanto a mais nova, mas quando tinha pesadelos assumia totalmente uma personalidade mais carente, o que era totalmente compreensível. então se deitou no corpo do pai, enquanto o assistia brincar com sua irmã. , por sua vez, estava entretida com um brinquedo que falava palavras em italiano, presenteado pela sua avó.
As meninas não eram ciumentas uma com a outra, mas detestavam que outras crianças se aproximassem dos pais. aos poucos se juntou às brincadeiras do dia, mas não manteve seu interesse por muito tempo e logo quis mudar o seu foco para a fome que começava a ter. A mãe da pequena desceu com ela até a cozinha, deixando e sozinhos, sentia que eles precisavam disso. A filha mais velha do casal tinha seis anos, mas não gostava de conversar sobre seus pesadelos, no entanto, os pais já estavam acostumados a decifrá-los: quando ela acordava mais carente do pai, o sonho ruim havia sido sobre ele. Quando ficava mais próxima da mãe, o pesadelo tinha como protagonista.
— Papai — chamou a menor, de maneira tímida. O homem então a abraçou com mais força, deixando o nariz próximo dos cabelos escuros da filha. — Às vezes a mamãe chora. Por que ela chora?
é pego de surpresa com a indagação da filha. Ele não tinha resposta pra isso, já pegou chorando uma vez ou outra, mas sempre que isso acontecia, ela falava que estava sensível devido ao seu ciclo menstrual. limpa a garganta, com uma pequena tosse.
— Você sonhou que sua mãe estava chorando? — nega com a cabeça, brincando os dedos e a mão grande do pai, em comparação à sua.
— A mamãe chora fora do sonho. Às vezes, quando levanto pra fazer xixi, ela tá sozinha no quarto e eu a ouço soluçar. — engasga levemente. Não sabia disso. — Promete não fazer a mamãe chorar? Eu não gosto quando ela chora.
— Eu não vou fazer sua mãe chorar — o maior promete, utilizando aquela promessa pra si também. tinha erros que foram cometidos durante o casamento e sabia que já estava suficientemente longe da esposa e ela dele.
balança a cabeça, ficando quieta por mais alguns segundos, antes de falar novamente.
— Papai... — chamou, agora de forma tímida, encolhendo-se nos braços do maior.
— Oi, meu amor. — Ele acolheu, percebendo pela forma que ela se encolhia que o que viria a seguir seria um tópico sensível para a menina.
— Promete que nunca vai abandonar a gente? — arregala os olhos com a pergunta, ele jamais seria capaz de abandonar alguma das três. Apesar das falhas, ele as amava mais do que qualquer coisa no mundo. — Eu sonhei que... — Lágrimas se formam nos olhos da pequena, e seu pai a conforta ainda mais no abraço. — Eu sonhei que você ia embora. E não voltava mais. Você não queria ser meu pai e nem da .
— ele chama o nome da pequena pela primeira vez, enxugando as lágrimas que insistiam em cair, pouco a pouco. — Não existe nada nesse mundo inteiro que me faça não querer ser o pai de vocês duas. Eu amo vocês, amo você mais do que qualquer coisa no mundo inteiro. Eu já te amo desde o dia em que eu te vi pela primeira vez e você era bem pequenina.
— Do tamanho da ? — ela pergunta, fazendo o maior sorrir.
— Bem menor do que a . Eu nunca vou abandonar vocês, aconteça o que acontecer. Eu prometo. — A pequena balança a cabeça, enxugando as lágrimas na manga comprida do pijama. — Quer tomar banho pra gente ir pra casa da vovó?
pensa um pouco, concordando com a cabeça, mas depois logo muda de ideia.
— Eu quero ficar com você e a mamãe hoje. Posso ir pra casa da vovó só depois? — O mais velho assente, com um sorriso no rosto. Nunca se negaria a passar mais tempo com a filha, principalmente após um sonho ruim. A mais velha era muito sensível, embora fosse bem mais silenciosa do que a menor das irmãs.


⭑⭑⭑


Embora parecesse algo glamouroso, não era um ambiente de tantas pessoas. No jantar, haveria apenas os sócios da empresa, o pai de e suas respectivas esposas, exceto Nora, por motivos óbvios. Ela e haviam combinado de nunca estarem no mesmo ambiente de trabalho de Ethan e ao mesmo tempo, afinal era constrangedor para ter que explicar para todos que sua mãe e o pai do seu marido eram casados. Alguns já sabiam, mas outros acabavam tendo a curiosidade desperta quando ambas estavam lado a lado.
“Vocês se parecem tanto.” “Elas são mãe e filha.” “Oh, então sua mãe é esposa do seu sogro? Suas filhas devem odiar montar árvore genealógica.”
Na maioria das vezes, a mulher evitava esses eventos porque, para sua mãe, era mais importante mostrar que era a esposa de um dos sócios ricos do que para . Era algo que ela amara em , ele não se considerava rico. Havia crescido com muito dinheiro ao seu redor, mas não se achava rico e ensinava isso às filhas. O homem sempre buscou a própria independência e por mais que seja sócio da empresa do pai, seguindo o tal legado, havia ganhado o cargo por mérito seu. Quando Ethan o convidou para a presidência, negou veemente, mas quase dois anos depois, assim que os membros sócios se reuniram e o nomearam, ele aceitou. não gostava de coisas fáceis, embora as pudesse ter.
— E as crianças, como estão? — um dos sócios perguntava, se aproximando do casal juntamente a uma mulher. — , espero que se lembre da minha filha, Andrea — falou o mais velho, que tinha por volta dos cinquenta e muitos anos. — , querida! Como você consegue ficar mais linda a cada dia? — pergunta, rodopiando a mulher, que sorri lisonjeada.
Após alguns minutos de conversa jogada fora, percebe Andrea com mais atenção, observando principalmente o sorriso que ela mantém em direção ao seu marido, a proximidade que ela insistia demonstrar em ter, os toques nos braços de . A loira então se aproxima dos dois, segurando o braço do marido com um sorriso debochado.
— Com licença, Angela. Eu vou roubar o meu marido por alguns minutos. — se despede e agradece por ele não ser tão amigável com a mulher ali, na frente de todos. — Quem é essa?
— Filha do homem que falou com a gente.
— Ela está muito próxima de você, não acha? — resmungou irritada, tentando respirar fundo. Odiava demonstrar ciúmes.
— Não fique com ciúmes. Sabe que sou seu — respondeu, roubando-lhe um selinho. Aquilo agrada a mulher, gostava do como ele não tinha vergonha de mostrar para todos que era casado, embora ainda tivesse certeza que aquela mulher era uma das amantes do seu marido.



ANTES


, isso é... Estonteante — sussurro, aquela palavra havia se tornado a minha palavra favorita desde que ele se referiu a mim com ela. Daquele dia em diante, uso estonteante para definir quando estou maravilhada com algo. Estou maravilhada com aquele lugar e estou maravilhada com o fato de me trazer até ele.
Olho o espaço ao meu redor, a água que vinha de uma cachoeira e causava um barulho tranquilizador descia branca como fumaça, mas logo se misturava à água, que assumia tonalidades diferentes. No meio era azul, mas, devido às rochas, assumia uma tonalidade verde em sua borda. Ao redor de tudo aquilo, existia uma vegetação verde, viva, pássaros cantavam e as rochas eram cobertas pela sombra das árvores. Parecia cena de filme encantado. Do outro lado, um pouco mais acima, era possível avistar ruínas, que tornavam o lugar ainda mais lindo.
Você é estonteante, . A paisagem aqui é bonita. — Sorrio, mordendo meu lábio inferior. Eu não sabia que mordia meu lábio inferior até aparecer e me arrancar todas as palavras, deixando só um gesto tímido, mas não era bem timidez o que eu sentia. Eu gostava, muito.
De repente, a tristeza me invade, suspiro baixo. Ele estava sendo incrível, me mostrando o seu espaço e eu estava acobertando a relação de minha mãe com seu pai casado, agora, em minha casa. Ele sabia disso? Sabia que seu pai não estava em casa e estava, mais uma vez, fodendo a minha mãe? Fodendo o seu casamento? Me sento sobre a rocha que dava visão à linda cachoeira, envolvendo as minhas mãos em meus joelhos.
— Sinto muito — suspiro e sinto que não preciso falar para que me entenda. Ele se senta ao meu lado, balançando a cabeça negativamente, de um lado para o outro.
— Não é culpa sua, . — É sim, eu penso. Eu poderia fazer algo para evitar ao invés de simplesmente ir aonde minha mãe me manda, mas não digo isso para ele. Não quero que ele me culpe, assim como eu própria faço. — Eu sei que meu pai está lá, é por isso que não tô em casa também. Minha mãe não gosta que eu a veja mal por causa disso. Ela acha que o casamento deles não vai durar.
Fecho os olhos ouvindo aquelas informações. Doía saber que minha mãe era responsável pelo fim de uma família, além da nossa. Crescemos achando que nossos pais são heróis, que eles são invencíveis assim como o tempo, mas eles não são. Eles são humanos, com falhas, erros e péssimas escolhas que refletem em nós. E que se impregnam como furos em nossa pele.
Abro a boca pra responder algo, mas não deixa. Ele continua falando e eu o ouço com atenção porque às vezes a melhor forma de ajudar alguém é a ouvindo.
— Eu quero ajudar ela, sabe? Quero ficar perto, a abraçar e dizer que tudo vai ficar bem, mas ela não chora na minha frente. E pessoas precisam chorar. Não gosto quando dizem que pessoas quebram, não somos tão vulneráveis assim, mas pessoas derramam. Minha mãe precisa derramar, então eu a deixo. Uma pessoa que não derrama se torna pesada demais pra si mesma, .
Concordo, mas me sinto como a mãe dele. Eu acho que não aprendi a derramar. Sempre tive que ser forte, então derramar é algo que eu não tenho costume, hábito ou vontade. Percebo que sou pesada para mim mesma.
— Não é culpa sua, tá? — Me encolho com a pergunta que ao mesmo tempo parece uma afirmação. Me sinto culpada por minha mãe fazer isso, me sinto envergonhada por não poder fazer nada. — Meu pai fez uma escolha e a sua mãe também. Isso é responsabilidade deles, não sua. Não minha. Não da minha mãe.
O abraço, com força.
É só o que consigo fazer e só o que quero sentir. Ele me envolve em seu corpo com cuidado. diz que pessoas não quebram, mas ele me segura como se tivesse medo de que eu quebre. Me sinto protegida. Me sinto em casa, mesmo estando a 7km de distância.
Descubro. Lar não é um lugar, lar é um alguém.
— Quer entrar na água comigo? — pergunta, sem me soltar do abraço. Balanço a cabeça de forma animada.
— Eu entraria em qualquer lugar com você, . — Não penso, falo. Ele sorri. Eu sorrio.
— Que dia é hoje? — ele pergunta, o olho de forma confusa antes de conferir a data em meu celular porque eu também não lembro.
— Dezessete de janeiro — falo, ele acena.
— Lembre-se dessa data, . Dezessete de janeiro é o dia em que você falou que entraria em qualquer lugar comigo. — Ele pega seu celular, digitando algo na agenda. — A partir de hoje, declaro que a data dezessete de janeiro se torna a data oficial de entrarmos juntos na cachoeira. — Gargalho enquanto o ouço falar, mas amo a ideia de termos uma data só pra entrarmos na cachoeira. Amo termos uma data. — Agora entre nessa cachoeira como entrou na minha cabeça, gradativamente e sem medo.
Noto . me nota. Estou em casa.



AGORA


— Puta que pariu, irmão. A Andrea está aqui? — Aaron pergunta, virando os olhos de forma disfarçada. Ou tentando.
— Sim, não sabia que ela iria vir — responde, bebendo um pouco do champanhe em sua taça. Sempre nesses eventos o seu pai cuidava do papel sociável, assim ele conseguia ter algum tempo sozinho com o amigo.
— E de brinde você ainda veio com a sua esposa. Isso tem tudo pra dar merda. — suspira, frustrado. As coisas tinham tomado grandes proporções, o seu casamento estava desmoronando e ele sentia que dia após dia se tornava igual ao seu pai.
Ele não sabia apontar quando foi que as coisas mudaram tanto com . De repente, ela sorria menos, se escondia mais. Ela passou a fugir dos seus toques há pouco mais de um ano, mas isso não foi o pior. Ela não conversava com ele e isso era o que mais o afetava. Eles tinham uma família, uma casa, um casamento, mas não tinham mais uma relação. Claro, isso não era desculpa para suas traições, mas ele também gostava de se sentir desejado.
— Eu não vou mais fazer isso. Está ficando cada vez pior. Tenho sorte que não sabe e preciso pôr fim nisso de uma vez por todas — disse, convicto. Aaron concordou.
— Você não devia sequer ter começado. — suspirou, sabia que o amigo tinha razão. Aconteceu tão de repente.
Em um dia, estava em casa, brigando com . Tentou a tocar e ela se afastou. Pediu para conversar e ela se trancou no escritório. fugia, dia após dia, e o homem já não sabia mais como segurá-la, então a deixou fugir. No dia seguinte, estava com Andrea, em sua sala. Ela sorria como quando mais nova. E era divertida como era. Andrea não tinha a aparência que tinha, eram diferentes e belas ao seu modo, mas tinha a alegria que não tinha mais. Então ele a beijou, não foram os lábios da sua esposa que sentiu, ou o sabor de seu beijo, mas era a primeira vez em quase um ano, ele se sentiu ele de novo. não o perdoaria se descobrisse, mas também não se perdoaria. Tampouco podia dizer que mudou de lá pra cá, ao invés disso fez mais vezes. Tocou, beijou, transou, com mais de uma mulher. Pelo menos pensava que nunca ficou com a mesma mulher duas vezes, exceto Andrea. Não tinha por elas nenhum sentimento dos que carregava pela sua esposa. Ele não era como seu pai. Não trocaria a sua família.


⭑⭑⭑


O jantar havia começado e Andrea havia feito questão de escolher o acento ao lado de . Daphne, por sua vez, estava sentada ao lado da amiga, já que seu marido Aaron também fazia parte do comitê de sócios.
Brindes foram solicitados, após isso feitos. As entradas começaram a ser servidas, mas a mulher já estava cansada e irritada com a tal Andrea, que insistia em encarar seu marido descaradamente.
— Eu vou matar essa mulher — sussurrou para Daphne, que riu como se fosse uma piada a fim de disfarçar.
— Calma, pelo menos está a ignorando — a amiga respondeu. direcionou o olhar ao marido, que realmente não estava nem um pouco afim de corresponder ao jogo da amante.
Após mais alguns minutos, os garçons entram com o prato principal e trazem mais bebida. beberica um pouco do líquido em seu copo e sua esposa faz o mesmo, mas a bebida desce quente, mesmo estando gelada. sente algo roçar em suas pernas, imediatamente seu campo de visão é ocupado por Andrea, que mantém no rosto um sorriso provocador.
Discretamente, a menor levanta a toalha o suficiente para ver Andrea esticar a perna, passando-as de suas pernas para as coxas do seu marido. não retira as pernas da mulher, ao invés disso olha pra assustado, vendo que a esposa presenciou aquilo.
— Com licença. — É tudo que a loira diz, jogando o guardanapo sobre a mesa e levantando-se da mesa com pressa, em direção ao jardim.
— seu marido a chama, em uma súplica, saindo atrás dela, no entanto é Daphne quem o segura. — Eu preciso falar com ela.
Os convidados a essa altura olham a cena confusa e Aaron tenta os distrair iniciando algum assunto aleatório sobre o trabalho.
— Espera cinco minutos, aí você vai. Me deixa falar com ela primeiro.
assente, embora não concorde. Ele não aguenta mais ficar na mesa, então sai dali de imediato ou ele mesmo seria capaz de expulsar Andrea daquele lugar, mas a quem ele queria enganar? Ele não faria isso porque sabia que Andrea tinha provocado a esposa, mas tinha sido ele o responsável por trazê-la para a sua vida.
— Amiga, por favor. O que você tá fazendo? — Daphne pergunta, observando levar o telefone até a orelha.
— Ligando para .
— Não! — ela responde, pegando o celular da mão da amiga e desligando o aparelho. — Não faz isso, não dê a ela o que ela quer. Ela quer acabar com o seu casamento, amiga.
sorri, de forma irônica. Ela quer acabar com o seu casamento? E quanto ao seu marido que estava indo pra cama com ela?
— Sabe o que eu queria, Daphne? — perguntou, com a voz embargada, embora não se permitisse derramar. — Eu queria que o viesse aqui me buscar e me tirar desse inferno de jantar. Eu quero acabar essa merda, acabar essa farsa — a mulher disse, elevando cada vez mais o seu tom de voz. — ASSIM ESSE BABACA IRIA SABER QUE EU NÃO SOU A ÚNICA CORNA NESSA PORCARIA DE CASAMENTO — gritou, sabendo que ninguém de lá de dentro poderia ouvi-la a essa distância.
Daphne se aproximou da amiga e a abraçou, lágrimas caíam de seus olhos, mas ela não iria chorar, não iria derramar. Não daria esse gostinho a ninguém. Ela aguentou coisas piores durante a sua infância, ela passou por momentos mais dolorosos. Conseguiria passar por aquele.
— Está mais calma? — Daphne perguntou, com um sorriso terno no rosto. Não sabia quantos minutos haviam ficado paradas ali no jardim, mas imaginava que tinham sido mais do que trinta. — Vem, vamos voltar para dentro. — Chamou, de forma carinhosa.
arrumou a maquiagem antes de voltarem e se depararam com um Aaron aflito na cozinha.
— Onde porra vocês se meteram? Onde porra o foi daquele jeito? — As mulheres se entreolharam confusas. Percebendo a confusão, o moreno logo tratou de explicar. — Ele saiu atrás de você e dez minutos depois foi embora transtornado.
engoliu a seco, olhando Daphne, que também havia ficado pálida.
— Eu preciso ir. Desculpa — a loira sussurrou, deixando os amigos e pegando o primeiro táxi para casa.
Sabia para onde ido. E o pior: sabia o que ele tinha ouvido.



ANTES


— O que aconteceu? — perguntei, assim que entra pela minha janela com lágrimas nos olhos. Deixo o livro que eu estava lendo de lado e ele caminha em direção a minha cama, me abraçando com força. Retribuo.
— Meu pai pediu divórcio. Ele vai casar com a sua mãe. — Fico sem palavras. Odeio minha mãe naquele momento. chora, eu choro. Me sinto culpada. Me sinto envergonhada.
— Eu... sinto muito. — Ele balança a cabeça, escondendo o rosto na curva de meu pescoço. Envolvo minhas mãos pelos seus ombros, o puxando pra mim com força. O segurando como se ele fosse quebrar.
— Posso dormir aqui hoje? — Beijo o topo da sua cabeça como resposta, afastando pra que ele se acomode ainda mais na minha cama.
— É claro que pode.
Tento não pensar na ironia que toda essa situação traz. Ele vai dormir na casa da amante do pai dele, que ele acabou de descobrir que logo mais será sua madrasta. Seu pai vai ser o meu padrasto. Seríamos quase irmãos. Isso dói em meu peito, de forma física. Não quero como irmão.
. — Ele me tira dos pensamentos e o encaro, seu rosto a poucos centímetros dos meus, os olhos vermelhos pelas lágrimas. Observo bem os traços do seu rosto, acho que nunca fiz isso. Ele era estonteante pra caralho. Minhas mãos percorrem o rosto dele, as mãos dele agarram meu quadril. — Eu posso te beijar? — Gosto que ele pergunte, mas não gosto que ele pense que eu diria não. Então o beijo.
Nossos lábios se encaixam como se tivessem sido feitos pra isso, o puxo pra cima de mim e ele se acomoda em minhas pernas. O mundo estava desabando lá fora, mas aqui dentro seríamos o refúgio um do outro. busca minha boca com mais urgência, envolvo as mãos em seus cabelos e puxo.
Não é como achei que seria nosso primeiro beijo, mas é bom. É muito bom.
— Eu estava errado. — O encaro, confusa. — A uva não tem gosto de céu, sua boca tem.
Ele puxa minha blusa pra cima e deixo que a tire, suas mãos então se envolvem sobre meus seios, me arrancando um gemido alto. Ele me diz para ficar quieta para minha mãe não nos ouvir, eu fico. Seus lábios descem até meu pescoço e não demoram a abocanhar um dos meus mamilos. passa a língua de maneira circular entre as aréolas, antes de chegar à área sensível e já enrijecida, jogo todo meu corpo para trás porque não posso me enfiar em sua boca.
Minhas mãos agarram o tecido da sua camisa e a puxo pra cima. Ele se afasta de mim, me ajudando a retirar a peça. A jogo no chão do meu quarto. Suas mãos são tão urgentes quanto as minhas e não demora até estarmos só com a roupa íntima. pega um embrulho da sua carteira e a devolve para o bolso de sua calça. Ele sorri, selando meus lábios, a urgência ainda estava explícita, mas o cuidado agora era infinitamente maior.
— Tenho certeza de que isso está na minha carteira tem uns seis meses — ele brinca, mas não ligo para o tempo que a camisinha está guardada. Só quero que ele a abra, no entanto, ele não faz isso.
tira alguns fios de cabelo do meu rosto, deixando um beijo em minha testa, seguido do meu nariz, outro em minha boca, ele volta a lamber meus seios. Suas mãos agora estão em meu quadril, descendo por minhas coxas. Sua boca continua a descer até encostar na minha calcinha, ele beija a minha calcinha.
Puta merda.
— Abra os olhos. Quero que olhe pra mim, .
Abro os olhos quando ele pede. Seu olhar está fixo no meu, ele me devora. Tenho certeza de que já me senti bonita antes de aparecer, mas é a primeira vez que me senti tão sexy.
Consigo sentir todo o meu corpo estremecer quando ele começa a descer minha calcinha, não importa quão delicados seus toques são, meu estômago inteiro consegue sentir aquilo. Sinto um calor intenso invadir todo o meu âmago.
Minhas mãos agarram o seu cabelo e pressiono meu corpo ainda mais contra sua boca quando os beijos leves se transformam em beijos intensos. O ajudo a se livrar da peça fina, consigo sentir meus peitos subirem e descerem com a respiração ofegante. Não percebo em que ponto exatamente começo a agarrar em seus ombros ou a puxar seu cabelo, mas começo a oscilar entre esses movimentos. Ele me lambe em pontos que fazem todo o meu corpo tremer. Eu não sabia qual a utilidade de uma língua até me mostrar. Os beijos e movimentos continuam frenéticos. Sinto meu corpo convulsionar abaixo de si, as minhas pernas amolecem e meus braços tremem, a respiração ainda mais ofegante. lambe minha boceta e beija minhas coxas.
Nem sequer tenho tempo de estudá-lo quando ele abre a embalagem da camisinha e a coloca. Ele volta para cima de mim, abrindo minhas pernas para se acomodar ali e grito assim que ele se enfia dentro de mim, meu corpo inteiro fica tenso com a onda de dor que me invade. Ele para os movimentos, me olhando um pouco assustado.
— Você é virgem. — Não é uma pergunta, é uma percepção. Aceno com a cabeça, ele me olha.
— Não quero que pare. Continue, , por favor. — Ele concorda, mas ainda não se move. — Quero que você seja meu primeiro e último. — Seus olhos brilham e ele se mexe lentamente, voltando a me invadir vagarosamente. Eu volto a gemer. — Quero que seja o meu único.
— Porra, — ele diz, intensificando pouco a pouco os movimentos de suas estocadas. — Eu quero ser seu único.
alterna sua atenção entre me beijar e me observar e não sei em qual dos dois ele acerta mais. Os segundos se transformam em minutos, sua boca busca mais ainda a minha e seus olhos prendem-se aos meus sempre que ele se movimenta com mais força. Já não dói mais, agora é gostoso. A forma que ele me olha e me preenche faz com que meu corpo estremeça mais uma vez. Suas mãos vão até o meu clitóris e ele estimula em um movimentar de dedos rápidos, eu grito novamente e ele tapa minha boca com a mão livre.
volta a me beijar enquanto goza, mas só sei que ele está gozando porque ele para de se mover por alguns segundos, de forma sútil. O movimento de seus dedos diminui, mas não param e não demora a ser eu a me desmanchar de prazer. Novamente.
Ele fica alguns minutos deitado comigo, me observando. Ele não finge que nada aconteceu, ao invés disso me beija de forma ainda mais apaixonada que antes. Ele se livra da camisinha no banheiro do meu quarto e volta vestido com sua cueca. Eu visto sua camisa. Ele sorri.
— Minha camisa nunca foi tão bonita.
Gargalho com a frase dele porque sei que isso é só mais uma de suas bajulações, mas amo que ele tenha falado isso. Não sei se sexo é isso, mas sinto que parte minha se fundiu a ele pra sempre. Sinto que perdi uma parte minha com ele, que só vou poder recuperar estando com ele. Ele se aproxima e os lábios dele encontram meu pescoço, onde deixa um beijo suave.
— Obrigada por se entregar a mim. Por me dar você. — Sinto minhas bochechas esquentarem porque não imaginava que ele diria isso. — ... — ele chama baixinho e busco o seu olhar, agora estávamos os dois deitados na cama. Ele sela meus lábios aos dele e encosta sua testa na minha. — Quer namorar comigo?
Fecho os olhos, mas os abro, porque quero vê-lo enquanto respondo:
— Sim.
Ele me beija. E é o melhor beijo da minha vida.



Ao chegar, foi rápido ao buscar o telefone fixo da casa. De repente, peças se encaixaram. O número que sempre ligava, mas ficava em silêncio quando ele atendia estava prestes a se revelar em um rosto. Não um trote, não uma criança inquieta, mas no homem que tocava a sua esposa. No homem que ela se relacionava. Ele não era hipócrita, sabia que não tinha direito de cobrá-la porque também não era fiel, no entanto, saber do amante de o quebrou.
De forma dissimulada, o homem discou o número de seu celular, digitando uma mensagem que o convidava ao local. Ele esperou ser engano, esperou ser mentira, algo dito por sua esposa em um momento de raiva, mas toda sua esperança esvaiu quando recebeu a resposta simples, cortante e dolorida do tal homem. “Chego em dez minutos”.
Os minutos que passaram pareciam horas, mas quando uma figura alta entrou pela casa, desviando dos móveis no escuro, sentiu algo em si quebrar ainda mais. Ele conhecia a posição dos móveis, ele tinha ido mais vezes. De forma involuntária, sua mente viajou torturante imaginando quantas vezes a figura alta tinha ido à sua casa. Ele havia transado com sua esposa, em sua própria cama. A raiva o encheu enquanto a tensão palpável se tornava sufocante.
— Então você é o amante da minha esposa — disse, mantendo a voz carregada de desprezo.
não recuou, mantendo o olhar firme.
— E você deve ser o marido, mas isso não o impede de procurar outras mulheres, não é?
As palavras foram disparadas como tiros, cada uma atingindo o alvo com precisão. A troca de olhares carregava um peso muito maior do que as palavras que foram ditas. Era como se todas as emoções estivessem contidas por uma linha prestes a arrebentar.
avançou com o punho cerrado e uma rapidez surpreendente. Um soco preciso atingiu o estômago de , fazendo-o recuar com um grunhido de dor. não hesitou ou parou, os golpes liberaram toda a dor acumulada, eram rápidos e coordenados. Raiva canalizava cada um de seus movimentos. tentou se defender como conseguia, com objetos que alcançava, mas estava claramente desorientado. continuou atacando, nada conseguiria amenizar a raiva que sentia. A ira cresceu mais e antes que a violência acompanhasse os movimentos, um grito lhe fez parar.
— PARE! , VOCÊ VAI MATÁ-LO. — A voz de ecoou o ambiente, fazendo-o se afastar enquanto suas mãos latejavam de dor. Ele observou a esposa se ajoelhar no chão, junto ao seu amante, e se afastou imediatamente. Não queria estar perto dela, a raiva era imensa e por mais dolorosas que fossem as recentes descobertas, temia que sua raiva afetasse sua esposa da pior forma.
Quando ajudou a ir embora, a luz do sol estava vindo além das janelas da sala de estar, pintando o ambiente com tons cinzas e sombras alongadas. A casa estava mergulhada em um silêncio carregado, refletindo a tensão que pairava no ar.
O confronto com havia deixado marcas visíveis. sentia a dor pulsante em seus punhos, lembrando-o do sentimento que o levara a agir impulsivamente. Ele não podia negar que havia sentido uma estranha sensação de triunfo quando finalmente se vingou de alguma forma. No entanto, essa vitória era amarga. tinha enfrentado seu rival, mas a sensação de realização foi substituída rapidamente por um vazio.
No fim, tinha sido ele que ela socorreu.
A mais nova se aproximou cautelosamente, interrompendo os pensamentos de . Ele se levantou devagar sentindo os músculos doloridos protestarem.
, precisamos conversar — ela disse com uma voz suave, carregada de emoção.
a encarou por um momento, observando os traços que um dia o fizeram se apaixonar. Mas agora aqueles traços também carregavam o peso das mentiras e das traições. Ele suspirou, afastando-se quando a raiva tentou dominá-lo novamente.
Sentaram-se em lados opostos da sala, o silêncio entre eles era opressivo. parecia nervosa, brincando com seus dedos enquanto buscava as palavras certas.
... — começou, sua voz embargada.
Ele suspirou, passando a mão pelo cabelo enquanto se servia com uísque. Ele precisava de algo que esquentasse o seu sangue e sua garganta. Algo além de raiva. Além de dor.
— Nos poupe de mais mentiras, . Acabe logo com isso, caralho.
As palavras de eram carregadas de um cansaço profundo, um cansaço que ia além do físico. Era o peso de uma relação quebrada, de promessas quebradas e confiança perdida.
— Eu também estou cansada. Cansada de esconder, de mentir para todos, inclusive para nós mesmos. — Sua voz saiu marejada, exausta de tentar manter as aparências de uma relação quebrada. — Eu me senti humilhada, continuou, sua voz tremendo com a intensidade de suas emoções. — Cada vez que eu olhava para uma das mulheres com quem você estava, eu me perguntava o que elas tinham que eu não tinha. Eu me sentia inadequada, insuficiente. — As palavras de cortavam como facas afiadas, perfurando a armadura de . Ele podia sentir a dor dela, a mágoa que ele causara. — Você não sabe o que é ter que sorrir para o mundo enquanto seu coração está desmoronando por dentro. Você não sabe o que é questionar sua própria autoestima por causa das suas ações egoístas. Você pode estar sentindo a dor de ter descoberto agora, mas eu carreguei a dor de suas mentiras por muito, muito tempo. — levantou-se, ficando de pé diante de , uma tempestade de emoções girando em seus olhos. Ela havia acumulado anos de mágoa, anos de traição e mentiras, e agora estava pronta para expor tudo o que havia estado pesando sobre ela. — Você não faz ideia do estrago que fez, . Cada vez que você me traiu, cada vez que você colocou outra mulher acima de mim, você me quebrou em pedaços. — As palavras de eram cortantes, carregadas de dor e ressentimento. Ela havia guardado aquelas emoções por tempo demais, e agora elas transbordavam em uma torrente de verdades cruas.
engoliu em seco, incapaz de encarar o olhar acusador de . Ele sabia que tinha machucado a mulher que amava, mas ouvir as palavras dela tornava tudo ainda mais real.
— Eu me tornei um fantasma na minha própria vida, um espectro da mulher que costumava ser — ela continuou, sua voz tremendo com a intensidade de suas palavras. — E tudo por causa das suas traições, das suas mentiras. Você não entende como é ver a pessoa que você ama, a pessoa com quem você construiu uma vida, te esmagar repetidamente — disse, sua voz embargada pelo peso de suas palavras. — Quer dizer, agora você sabe. Eu queria que você se sentisse da forma que eu me senti. — A sinceridade na voz da mulher era cortante e os olhos do marido estavam completamente escurecidos de raiva. Ela entendia aquilo porque, por muitas vezes, o seu próprio olhar esteve assim.
— E como foi chorar por mim enquanto estava na cama de outro? — As palavras a atingiram como uma faca. — Você transou com ele na nossa cama e vem falar de humilhação? Há quanto tempo você tá com ele, ?
Ela não conseguiu se recuperar da ira das palavras do homem, seus lábios tremeram enquanto uma mágoa crescia em sua garganta. Ele também tinha sido infiel, ele também tinha mentido, traído. Os passos do homem se aproximaram lentamente e ela pôde observar a raiva crescente que emanava dele, principalmente quando ele jogou o copo longe, fazendo-o estilhaçar na parede.
— VOCÊ TÁ SURDA? QUANTO. TEMPO. PORRA?
— Dois anos. — A resposta saiu baixa, rouca, dolorida para ambos.
— Dois anos — ele repetiu, incrédulo. A filha mais nova deles tinha quatro anos. — Eu errei pra caralho em ter te traído, mas não tenho uma história com ninguém com quem dormi. Eu fiz questão de não me aproximar delas emocionalmente, de não as trazer para a minha vida e você está com aquele filho da puta há dois anos. Eu comi muitas mulheres, mas nunca me relacionei com nenhuma delas. — O homem se aproximou da esposa. Ainda que tentasse controlar a sua raiva, precisava ouvir da boca que ele amava os sentimentos dela sobre o maldito amante. — Só falta dizer que minhas filhas o conhecem. — O silêncio fez o ódio tremer em sua boca com uma percepção indesejada. — Ele conhece as minhas filhas? — Novamente o silêncio preencheu a sala. — RESPONDE, CARALHO.
Ainda sem conseguir falar, ela balançou a cabeça positivamente. havia as conhecido um dia, quando precisou buscar as meninas no colégio mais cedo que o esperado, pegando uma carona com o homem.
A ficha caiu aos poucos, não era apenas um homem com quem se satisfazia durante o tempo em que ela e o marido não transavam. Ele conheceu sua filha, estiveram juntos por dois anos.
— Você o ama? — ergueu o rosto, raiva reverberava em seu corpo conforme ela se aproximava do marido também irado. Ao formular a pergunta, a imagem o atingiu em cheio. sendo tocada por outro, sussurrando juras de amor a outro. A menção disto o fez se afastar, precisando imediatamente quebrar algo, ou quebraria ela. Nunca a machucou fisicamente, nunca faria isso em sã consciência, mas, no momento, não confiava em si próprio. As mãos foram ao bar ele revirou tudo com a falta de resposta. Ela não se afastou, ao invés disso se aproximou ainda mais dele.
— Eu o amo. Eu amo perdidamente, completamente. Com fascínio. Eu amo a forma que ele me toca, amo o beijo dele. — Nem acreditou no que falou, mas precisava mentir para machucá-lo porque ele tinha feito isso com ela por tantos anos que agora, de uma forma torta, sombria e imatura, ela precisava descontar. Apesar da mentira ser rouca, ele a ouviu com tanta firmeza que se descontrolou por completo.
O silêncio foi quebrado quando a mão dele atingiu o rosto dela, fazendo-a se desequilibrar e cair sobre o chão. O gosto de sangue ocupou sua boca quando a mão dela seguiu para a ardência no rosto, olhando-o assustada, magoada. Ele continuou parado, observando-a na tentativa de se sentir melhor, mas de alguma forma sentiu que aquilo havia sido insuficiente. Ela merecia mais. Ele merecia mais.
Insatisfeito e aproveitando o momento em que a culpa não o consumia, ele a puxou pelos cabelos para que ela voltasse a ficar em pé. Sua mão agarrou o braço da esposa quando ele a puxou para que seus corpos se chocassem.
Sua cabeça sangrava por algum machucado que ele sequer soube se foi da briga com ou dos cacos que estilhaçou e o rosto dela estava avermelhado pelo tapa dado pelo marido. Seu braço também sangrava pelos cacos espalhados no chão que a atingiram quando ela caiu, mas em ambos as feridas internas eram as que mais sangravam.
Tudo doía, mas era o coração que latejava.
Ele caminhou, levando-a até a cozinha e a jogou de bruços sobre a mesa, sem delicadeza alguma. A mulher gemeu, sentindo a dor do mármore contra seu ventre, mas de alguma forma a dor que sentia era aliviante. Apesar da maneira torta e a situação dolorida, era a primeira vez em muito tempo que o seu marido a tocava, a brutalidade era necessária para que ela se sentisse desejada de novo. Para que ela visse que, mesmo na raiva, a queria.
O choro foi substituído por um tesão crescente quando ele empurrou o rosto dela contra a mesa, encaixando-se entre suas pernas e puxando a sua cabeça para trás pelos cabelos, apenas o suficiente para colar a boca dele no ouvido dela.
— Repita que o ama quando eu estiver te fodendo aqui, em cima da mesa que você alimenta as nossas filhas. — A possessividade em sua voz a fez tremer.
Naquela hora já não havia mais dor, ressentimento, medo, raiva, mágoa ou ódio. Apenas saudade. Uma saudade que gritava, transbordando em seus corpos.
De forma desajeitada, ele a beijou, um beijo que começou com urgência e se alastrou em intensidade. A língua quente, as salivas se misturando, o gosto de uísque em seus lábios... Tudo a lembrava do quanto ela amava a boca do marido. O beijo dele. O toque dele.
Apenas dele.
Com uma urgência intrínseca, a mulher se virou com dificuldade, subindo na mesa com a ajuda do homem.
agora estava de barriga para cima, passeando as mãos pelo abdômen definido do seu marido. se arrepiava com os toques da esposa, ninguém o tocava como ela fazia. Ninguém tinha as mãos mágicas que ela tinha.
Ninguém.
E isso foi o suficiente para trazê-lo a lembrança do porquê estavam ali. Apenas a lembrança fez com que ele tonasse as carícias ainda mais rudes, brutas. As mãos grandes passeavam pelo corpo dela, amassando, apertando e marcando cada íntimo pedaço que conhecia.
O homem afastou os lábios da boca da esposa, levando-os ao pescoço delicado e descendo-os para os seios. O vestido trazia um incômodo, ele precisava da pele dela. Por isso, rapidamente, ele alcançou a peça com as duas mãos, rasgando-a ao meio.
A pele da mulher ardeu com o tecido roçando em sua pele, queimando conforme se rasgava, e buscou a boca do loiro desesperadamente. Ela o queria de uma forma que nunca tinha sentido antes. Suas mãos buscaram o pau marcado na calça social dele e, gemendo contra sua boca, ela massageou a região. Apertando, sentindo o volume e lembrando da falta que seu corpo sentia de tê-lo enfiado dentro de si.
— Eu preciso de você — ela implorou. Não queria preliminares, a urgência era tamanha que não conseguiria aguentar. — Por favor — ela implorou por ele.
Por mais que quisesse resistir, demorando a dar o que ela queria, ele próprio não se aguentava mais. Os seios da mulher pulavam diante de si a cada movimento e quando sua boca mordiscou o mamilo, puxando-o entre os dentes, ela levou uma das mãos dele até a calcinha encharcada.
— Por favor, — implorou mais uma vez, os olhos escuros antes de raiva, agora estavam carregados de desejo pela mulher. Sua mulher.
Com urgência, ele retirou as últimas peças de roupa que os separava, sua calça foi parar no meio de suas coxas e a calcinha dela, seguindo o vestido, foi arrebentada. Ele estava duro como pedra, inchado para foder a boceta de sua esposa, e quando ela abriu as pernas para ele, seu corpo inteiro estremeceu. O moreno encaixou a cabeça do seu caralho na entrada apertada da esposa, mas antes de se enfiar por completo, ele a viu fechando os olhos, ansiosa para ser preenchida.
— Abra os olhos — ele pediu, controlando-se. Usando todo o autocontrole que já não sabia se ainda tinha. — Olhe para mim — ordenou, em um tom autoritário. Ela obedeceu, delirando com a sensação de sentir-se alargando, aberta para o seu homem. — Fale que o ama agora — o homem disse, antes de penetrá-la com força, de uma única vez.
gritou, incapaz de não sentir uma dor fina e desconfortável com o tamanho e a força. Antes que ela se acostumasse, os movimentos dele aumentaram com intensidade. Ele não ia apenas rápido, ele ia fundo. Forte. Duro. Ela então entrelaçou as pernas na cintura do homem, gemendo, descontando todo o prazer em seu lábio já machucado.
— Fala — ele repetiu, desta vez diminuindo tortuosamente os movimentos dentro dela. — Ele te come assim? — perguntou, movimentando-se com ainda mais brutalidade. Ele sentia a boceta dela o apertar e a cada vez que os movimentos eram dificultosos, ele se forçava mais para dentro da esposa. — Ele te fode como você gosta, hm? — O tom de voz rouco acompanhava movimentos lentos e intensos, fazendo-a gemer mais alto.
De forma inesperada, ele saiu de dentro dela, deixando o seu pau roçar pelos lábios da boceta rosada da esposa.
— Por favor, não para — ela suplicou, apertando mais a cintura do marido com as pernas. Ele sorriu satisfeito.
— Então fala, me diz o que você quer. — De forma provocante, a mão dele alcançou o pau, esfregando-o no clitóris inchado da esposa. — Seja uma boa puta e me diga quem você ama, .
— Você — ela admitiu, por fim, quando ele voltou a se encaixar dentro dela. — Oh, ... Eu amo você, porra. — Ouvindo a esposa falar entre uma respiração falha e outra, ele a penetrou novamente, iniciando os movimentos lentos e aumentando assim que percebeu o corpo dela estremecer.
Agora a força havia diminuído, suas mãos a ajudavam a gozar e quando ela tremeu abaixo dele, amolecendo as pernas que o agarravam pelo quadril, ele continuou trilhando um caminho de beijos pelos seios dela. Sentindo o cheiro dela.
Vendo-a ali, entregue, gemendo o seu nome e falando que o amava, ele gozou dentro dela, afundando seu rosto sobre o ombro pálido da esposa e deixando um selinho em seu pescoço.
— Eu também amo você.



ANTES


havia dito que pediu transferência de sua escola. Não por razões acadêmicas, não por problemas com a antiga escola, mas por uma única e surpreendente razão: eu.
Ele queria estar mais perto de mim. Eu, honestamente, achei que ele estava brincando no início. Mudar de escola apenas para estar mais próximo de alguém parecia uma ideia um tanto absurda. Eu o achava louco, mas ao mesmo tempo admirava a coragem que ele tinha. fazia por mim coisas que eu não teria coragem de fazer.
Eu era uma estranha entre rostos desconhecidos, uma voz silenciada pelo medo de nunca pertencer a lugar algum. E então ele apareceu. tinha um sorriso que desafiava todas as sombras que me cercavam, ele não ligava para a minha mãe golpista que era amante de seu pai e que fez o casamento deles acabarem. Tudo se tornava diferente na presença dele. Eu, que sempre me afastei, agora tinha alguém ao meu lado. não apenas mudou de escola, ele quebrou cada uma das barreiras que eu montei com aquele sorriso presunçoso e o tom de voz confiante.
O lugar em que eu estudava estava melhor, mas não foi apenas a geografia da escola que mudou, foi a dinâmica do meu mundo. Ele não apenas mudou de escola por mim, ele mudou a minha escola inteira. E, ao fazer isso, trouxe cor ao meu mundo preto e branco. Como se dissesse que, não importava onde eu estivesse, ele estaria ali também.
Eu, que antes via a escola como uma prisão, agora a via como um lugar de possibilidades. E tudo porque ele decidiu, com um gesto tão simples e extraordinário, estar presente na minha vida de uma maneira que ninguém jamais esteve.
Admirá-lo era um hábito que se instalou sem pedir permissão. No primeiro dia de aula dele, vestido com o uniforme escolar torto, parecia mais bonito do que eu poderia ter imaginado. Seu sorriso, aquele sorriso que parecia feito sob medida para mim, fazia-me acreditar que o amor tinha seu próprio tamanho. Talvez tivesse.
— Por que está me olhando assim? — ele perguntou, o sorriso evidente nos lábios. Dei de ombros, incapaz de desviar o olhar. Como alguém que só existia uma vez poderia ser tão perfeito?
— Porque eu te amo. — A resposta o fez rir, e, em um movimento rápido, ele me beijou.
— Merda, . Você me olhando assim faz com que eu não consiga guardar nenhum segredo — sussurrou, fazendo-me rir, mas o olhar curioso dele permaneceu. — Quero te levar a um lugar.
— Nós devíamos ir para a aula agora. — Minha voz soou divertida, mas era inútil disfarçar a curiosidade estampada em meus olhos.
— Talvez a álgebra possa esperar. Acho que teremos algo mais interessante hoje.
O entardecer antecipado do céu o deixava com tons suaves de laranja e roxo quando ele, com um brilho travesso nos olhos, me pediu para fechá-los.
— É uma surpresa — disse ele, mantendo um tom animado, transmitindo em sua voz a promessa de algo especial.
Observei a escuridão atrás das pálpebras, a antecipação aumentando a cada passo que ele me guiava. Seus dedos seguraram os meus com confiança, e eu me deixei levar pela escuridão, confiando no caminho que ele escolhera.
O som abafado de passos no asfalto indicava que estávamos nos aproximando do carro. , sempre tão cuidadoso, abriu a porta e me ajudou a entrar. A ansiedade crescia dentro de mim, mas eu me segurava com a excitação do mistério.
O carro começou a se mover e eu senti cada curva e giro, tentando decifrar o destino da surpresa. , ao volante, não deixava escapar nenhum detalhe sobre para onde estávamos indo. Sua voz fazia-me sorrir mesmo sem abrir os olhos cada vez que suas expectativas vinham à tona.
Finalmente, o carro parou. Ele pediu para eu esperar mais um pouco antes de revelar a surpresa. Quando ele abriu a porta, senti o aroma fresco de algo que deveria parecer a natureza e um suave toque de brisa acariciou meu rosto.
— Está pronta? — perguntou. Abri os olhos e fui recebida pela visão de uma casa iluminada pela luz suave. Era uma casa à venda, com um jardim que parecia um pedaço do céu na terra.
… — sussurrei, sem palavras para expressar a surpresa e alegria que inundavam meu coração. Ele sorriu, parecendo tão feliz quanto eu.
— Esta será a nossa casa quando nos casarmos — anunciou, com seu olhar cheio de esperança.
Exploramos a casa como se fôssemos os donos temporários daquele domínio, mas foi no jardim que verdadeiramente nos perdemos.
— Você gostou? — ele perguntou, deitado ao meu lado no meio da grama verde e fofa do jardim. Gargalhei, concordando com a cabeça.
— Eu amei, mas sabe que não vamos nos casar tão rápido, não sabe?
— Eu não ligo se vamos nos casar hoje ou daqui a cem anos, . Eu só quero que saiba que iremos nos casar, porque não existe nenhuma outra mulher no mundo que tenha sido feita para mim como você foi. Eu quero que você saiba que eu te amo e esse sentimento não é algo que vai acabar de um dia para o outro. Não vou acordar de repente dizendo que não te amo mais. Eu quero que você seja a minha mulher e a mãe dos meus filhos, e quando nossos filhos ou filhas tiverem idade suficiente, eles vão correr por esse jardim sabendo que tiveram um fim diferente do nosso. Que pudemos dar a eles uma família saudável. Eu quero te oferecer tudo aquilo que te faltou, porque você é tudo aquilo que eu não tive.
O peso das palavras dele ressoou no silêncio que se seguiu. E, na quietude da noite, pude sentir a profundidade do compromisso que expressara. Não era apenas uma casa; era o altar dos nossos sonhos compartilhados, o lugar onde o amor seria a base de cada tijolo.
A casa, iluminada pelas estrelas cintilantes, parecia aguardar ansiosamente o momento em que se tornaria o cenário de nossa jornada conjunta. Não era sobre o quando do casamento, mas sobre o como construiríamos nosso amor e família naquele lar.
Entrelacei meus dedos nos dele, sentindo a segurança e calor que ele oferecia. Naquele instante, sob o céu, o futuro se revelou como uma tapeçaria de esperança e promessas. E, no coração de tudo, estava a certeza de que, independentemente do tempo, a nossa casa seria mais do que paredes e telhado; seria um refúgio onde os nossos sonhos se tornariam realidade.



ntes de responder, as palavras saíram com a dor de uma despedida não desejada.
, eu bati em você. Eu não posso continuar machucando você. Por mais que eu te ame, não posso permitir que isso aconteça de novo. Você merece algo melhor.
As palavras de pairaram no ar, pesadas como o silêncio que se instalou na sala. O confessionário silencioso de seus erros ecoava nas paredes, enchendo o espaço com uma atmosfera sufocante de desespero. , de olhos marejados, ouviu a confissão de como um golpe visceral.
, não faça isso comigo — ela implorou, a voz embargada pela mistura de emoções. — Você não pode me dar o mundo e depois arrancá-lo de mim. Por favor, não faça isso comigo. Nós podemos consertar. Eu traí você, porra. Eu te traí e apresentei nossas filhas a ele. Eu mereci a briga que tivemos ontem, eu também te agredi. Por favor, . Não vá.
As palavras dela flutuaram pelo espaço, carregadas de arrependimento e súplica. O desespero de preenchia a sala, criando uma atmosfera densa. Ela se aproximou dele, tentando segurar a mão que segurava a alça da mala, mas ele se afastou.
— Não podemos continuar fazendo isso. — A voz de era um sussurro, carregado de sua própria dor. — Você merece mais do que eu posso oferecer agora.
O coração de se partiu enquanto ela tentava conter as lágrimas.
— Eu sei que machucamos um ao outro, mas nós podemos superar isso juntos. Não podemos deixar que isso destrua tudo o que construímos. Nossas filhas... elas precisam de um pai, eu preciso de você.
desviou o olhar, incapaz de suportar o tormento refletido nos olhos de .
As palavras de cortaram o ar, carregadas de dor e desespero. Seus olhos, inundados de lágrimas, buscavam desesperadamente os de , em busca de uma resposta que pudesse mudar o curso inevitável da partida iminente.
— Você jurou que nunca me abandonaria, . Você prometeu! Eu te amo, eu ainda te amo. Eu te amo mesmo com tudo que aconteceu e eu te amo além de tudo que aconteceu. — As palavras dela ecoaram na sala, criando uma harmonia trágica com o silêncio que as seguia. O apelo de estava impregnado de uma intensidade genuína, como se ela estivesse tentando segurar nas mãos a vida que ameaçava escorregar por entre seus dedos. — Nós dois fizemos coisas que não queríamos. As traições…
A voz de , baixa e cheia de culpa, interrompeu-a antes que pudesse continuar.
— Quando você descobriu? — perguntou, sua voz carregada de uma tristeza profunda. Ele evitava o contato visual, como se temesse confrontar a realidade do que havia feito. A força que ele não sabia que possuía causando danos irreparáveis.
— Eu sei desde a primeira vez. Quando você chegou em casa, você estava com o olhar perdido, com o cheiro de perfume feminino, e quando a te chamou de papai, você a abraçou e chorou. Eu descobri ali.
As palavras de cortaram como facas afiadas, revelando a extensão da ferida emocional que ela carregava desde o momento em que a primeira traição veio à tona.
— Por que você não fez nada? Digo, por que não tomou nenhuma atitude?
— Que atitude eu poderia tomar, ? Pedir o divórcio? A mal respirava sem você por perto e a tinha pouco mais de um ano. — O silêncio pesava o ar entre eles, os olhos ainda lacrimejados da mulher tentavam esconder a realidade adiada da perda iminente. — Por que me traiu?
— Eu… não queria. — Seus olhos foram fechados com pesar, mas ele se manteve parado no lugar que estava. — Depois que você engravidou da , você me olhava com desprezo, você me afastava o inteiro. Eu achei que fosse depressão pós-parto, mas não era. Conversei com a Daphne e você só estava infeliz comigo, não estava mal com ou com a gravidez. Eu tentei me aproximar, mas você parecia sentir nojo de mim. Depois de uns meses assim… Eu sinto muito.
— Não era nada com você, eu só não me sentia bem com o meu próprio corpo. Na gravidez da , eu ainda me sentia bonita e sexy, mas quando tive a … Foi diferente. Você vai mesmo embora?
, acabou.
A realidade das palavras dele atingiu como uma onda, deixando-a cambaleante diante do abismo que se abria à sua frente.
— Você disse que me ama. Você disse que não iria embora. Você prometeu aqui no jardim dessa casa, anos atrás, que nossas filhas não cresceriam da forma que crescemos. Você disse que nossa casa seria montada de amor. Você prometeu que não me abandonaria.
A voz de carregava a força de uma lembrança, um eco do passado que agora parecia distante. A promessa feita sob o sol do jardim agora se desfazia como cinzas levadas pelo vento.
— Por Deus, . Eu te amo, caralho, mas não quero que nossas vidas sejam assim. Não quero nossas filhas crescendo no meio de mentiras.
O desespero se insinuava na voz de , um homem dividido entre o amor que ainda persistia e a necessidade de encarar as consequências de suas ações.
— Nosso amor não é uma mentira.
tentava desesperadamente reivindicar o que restava, agarrando-se ao elo que parecia se desfazer entre eles.
— Não, mas eu não consigo ficar depois do que fiz. Eu machuquei você.
As palavras dele eram carregadas de uma dor genuína, um reconhecimento da gravidade das feridas que ele infligira. Nos olhos da mulher que ele amava tinha dor, mágoa, arrependimento, angústia e ele tinha causado tudo aquilo. Era insuportável permanecer ali.



— Eu já estou chegando, você é a mulher do padre! — a voz animada de ressoou, preenchendo o vazio tenso na casa. Suas passadas infantis ecoavam pelo quintal, anunciando sua chegada iminente.
— Eu já cheguei, minhas pernas são maiores! — emendou, entrando na casa com a mesma efusividade. As risadas infantis preenchiam o ambiente, mas se extinguiram abruptamente assim que as duas crianças, acompanhadas por Daphne, entraram na sala.
As meninas, inicialmente cheias de energia e alegria, se viram diante de uma atmosfera densa e carregada. Seus olhos curiosos se voltaram para e , captando a tensão no ar. lançou um olhar significativo para , incentivando-o a se dirigir às filhas, pois duvidava da coragem dele de romper os laços com as duas pequenas.
engoliu em seco, os olhos fitando as duas crianças, que o olhavam com curiosidade e inocência. Ele se enganou ao pensar que o mais difícil seria se despedir de . A verdadeira provação estava diante dele, nas expressões confusas e expectantes de suas filhas.
— Eu vou esperar lá fora — Daphne sussurrou, sabendo que aquele momento precisaria ser apenas da família. Logo em seguida, ela se afastou.
Com um suspiro profundo, se aproximou das crianças, tentando sorrir apesar do nó em sua garganta. e trocaram olhares, sem entender completamente a gravidade do momento, mas a aura pesada na sala deixava claro que algo não estava certo.
— Oi, minhas princesas. — tentou manter a voz firme, apesar da tristeza que o envolvia. — Papai vai precisar ir embora… por um tempo.
As pequenas pestanas piscaram em confusão, mas a compreensão começava a se infiltrar em seus olhares infantis. Os olhos de rapidamente foram até a mala pronta do pai. De forma rápida, ela observou o choro que ameaçava sair da garganta da mãe e os próprios olhos lacrimejantes do pai.
— Você vai viajar? — perguntou, enquanto a mais velha das irmãs permaneceu em silêncio.
O diálogo entre as crianças e era como um eco doloroso da despedida iminente. , ainda abraçada ao pai, olhava para ele com olhos grandes e inocentes, tentando compreender o que estava acontecendo.
— Não é isso, princesa.
— Ele vai embora, falou, por fim, sentindo a voz embargada. — Ele vai nos abandonar, que nem no meu sonho.
… — o mais velho chamou, sentindo a dor partir seu peito. Sua esposa, no entanto, não se mexia. Ela se recusava a olhar aquela cena. — Venham aqui, as duas. — correu para os braços do pai, mas a mais velha permaneceu ao lado de sua mãe. — Filha, por favor.
Contra sua própria intuição ela se aproximou do pai, permitindo que ele as abraçasse enquanto se ajoelhava ao chão para ficar em suas alturas.
— Eu não vou mais morar aqui, mas eu ainda vou vir visitá-las. Eu as amo, amo muito, vocês são tudo para mim e eu sempre vou ser o pai de vocês duas, assim como a… sempre será a mãe de vocês. Nós não seremos mais um casal, mas ainda estaremos aqui para vocês duas. Vamos morar em casas separadas, assim como o vovô e a vovó. Eu sempre vou amar vocês duas.
A explicação de era como um fio delicado que tentava tecer um senso de normalidade na trama tumultuada das emoções. As crianças, apesar de sua tenra idade, começavam a captar a gravidade da situação.
— A mamãe também?
— Sim, ela também sempre vai amar vocês duas, .
— Você sempre vai amar a mamãe também?
A pergunta de pairou no ar, capturando a essência da angústia infantil diante da dissolução da imagem do casamento dos pais. O olhar de encontrou o de , compartilhando uma comunicação silenciosa sobre o amor que, apesar de transformado, ainda permanecia. A resposta de era carregada de uma sinceridade que tentava acalmar as incertezas crescentes no coração da menina.
— Sim, eu sempre vou amar a sua mãe também.
A explosão de emoções infantis preenchia a sala, fazendo com que o peso do momento se tornasse quase insuportável. , incapaz de conter o descontrole, deixou suas palavras escaparem como um grito de dor.
— É mentira — ela falou, segurando o descontrole infantil e a explosão que viria a qualquer momento. — Você mente, você não fala a verdade. Você não a ama. Você não ama a gente.
As palavras de , carregadas de uma mistura de raiva e tristeza, eram como punhais, penetrando fundo na atmosfera já carregada da sala. O choro da menor, , também se somava ao tumulto emocional que se desenrolava.
, eu amo vocês.
— É MENTIRA. VOCÊ NÃO AMA! VOCÊ MENTE. — A explosão de palavras de era um eco da angústia que se desenrolava em seu coração infantil. Ela se recusava a aceitar a realidade dolorosa que se desdobrava diante dela.
— O papai nos ama, . Ele ama, sim. Não ama, papai? — , a mais nova das duas, tentava encontrar conforto na possibilidade de que o amor do pai, de alguma forma, permanecesse.
, de joelhos, abraçava as duas filhas, mas a dor refletida em seus olhos mostrava que as palavras delas eram como punhais em seu próprio coração. O turbilhão de emoções parecia incontrolável e a sala testemunhava a tristeza de uma família desfeita.
— VOCÊ DISSE QUE NÃO IRIA ME ABANDONAR. VOCÊ DISSE QUE NÃO IRIA DEIXAR A MAMÃE CHORAR. VOCÊ DISSE. VOCÊ PROMETEU E VOCÊ MENTIU!
— PARA DE MENTIR, . O PAPAI NÃO MENTE.
O grito estridente de cortou o ar, uma defesa veemente ao pai diante das acusações de . A tensão na sala atingiu um novo patamar, enquanto a energia nervosa se materializava em ações impulsivas. , consumida pela raiva e pela sensação de abandono, reagiu de forma impulsiva, empurrando a irmã mais nova.
— ELE ESTÁ ABANDONANDO VOCÊ TAMBÉM — gritou, repetindo as palavras carregadas de dor e ressentimento. , por sua vez, soluçava, tentando entender a turbulência emocional que se desenrolava à sua volta.
, até então uma espectadora silenciosa da angústia das crianças, interveio pela primeira vez. Ela se aproximou, pegando no colo, na tentativa de acalmar a confusão que se instalava.
, pare com isso! — repreendeu, sua própria voz denotando a frustração diante da situação. — , está tudo bem. Vamos para o seu quarto.
Enquanto buscava acalmar , , em meio à explosão de emoções, correu em direção ao seu quarto e se trancou lá. A porta batendo ecoou pela casa, um eco sombrio da ferida que rasgava a família.
, oprimido pela magnitude do momento, seguiu para o quarto de . Batia na porta com a esperança de suavizar a dor que se desdobrava dentro dela.
, por favor, me escute. Eu sei que você está magoada, mas precisamos conversar. Abre a porta, filha.
O pedido de flutuou pelo corredor vazio, mas a porta permaneceu fechada. , do lado de dentro, sentia-se afogada em uma tempestade de emoções, uma mistura tumultuada de raiva, tristeza e a sensação esmagadora de ter sido abandonada por aquele que deveria ser o seu porto seguro.
Os gritos de ressoaram dentro do quarto, uma manifestação dolorosa da tormenta emocional que a envolvia. A raiva, o ressentimento e a tristeza convergiam em suas palavras, carregadas de uma intensidade que ecoava pelos corredores vazios da casa.
— VAI EMBORA. EU ODEIO VOCÊ. VOCÊ NÃO É MEU PAI. VAI EMBORA.
As palavras dela, carregadas de uma dor que ultrapassava sua tenra idade, eram cortantes e dirigidas ao coração de . Do lado de fora da porta, ele ficou momentaneamente paralisado, absorvendo cada palavra como uma ferida que não podia curar.
O choro de ecoava pela casa, uma melodia triste que parecia harmonizar com o colapso da família. A dor que ele carregava ia além das lágrimas; era um fardo pesado de desespero e arrependimento. Ao esconder o rosto entre as mãos, ele se via diante da cruel realidade de ter perdido o amor e o respeito de sua própria filha.
, no andar de baixo, cerrava os olhos com força, incapaz de escapar das palavras ferinas de . A tristeza e a raiva misturavam-se em seu peito, formando uma tempestade emocional que deixava um rastro de devastação.
desceu as escadas e pegou a mala em mãos, seus passos pesados como se carregasse o peso do mundo. , chorando no colo de , assistia ao colapso daquilo que um dia chamou de lar.
— Eu te amo, pequena. Cuide da sua irmã, tá bom? Fala pra ela que eu a amo também. — Ele beijou a testa de , tentando deixar uma impressão de amor na filha mais nova. — Se cuida, por favor. — Um beijo na testa de foi o último gesto antes de enfrentar a porta.
— Eu nunca vou te perdoar por isso — declarou, suas palavras finalizando o corte no coração do marido.
ouviu, mas não respondeu. O peso da sua própria culpa pesava sobre ele enquanto saía pela porta, carregando consigo não apenas a mala, mas também os escombros do que um dia foi uma família unida. Ele estava acabado, dilacerado por dentro, e nem mesmo se dava ao luxo de encontrar consolo ou perdão diante do abismo que se abrira entre eles.
Enquanto o homem partia carregando a mala e a devastação das suas decisões, o eco das palavras não ditas e das lágrimas não choradas reverberava nas paredes da casa que um dia chamaram de lar. E , perdido na tristeza que ele mesmo provocou, se via afastando-se não apenas fisicamente, mas emocionalmente, da família que, de alguma forma, ainda amava apesar de todos os erros.
Estava tudo acabado.
Em ruínas.



A luz suave do dia começou a filtrar através das cortinas, iluminando o quarto de e misturando os tons laranjas do dia aos tons rosa do lugar. A voz de , repleta de carinho, rompeu o silêncio da manhã.
, meu amor. Bom dia. — tentou transmitir tranquilidade, mas havia uma preocupação latente em sua voz. acordou, ainda de maneira sonolenta, e percebeu a ausência do pai, uma figura que costumava ser a primeira a cumprimentá-la pela manhã. — Você está melhor? — perguntou, com ternura, mas a pergunta despertou a lembrança do dia anterior.
A pequena sentou em sua cama, revelando o semblante triste, que contrastava de forma pesada com sua habitual doçura.
— Ele foi mesmo embora? — A pergunta de carregava a angústia de uma criança que tentava entender o impacto da ausência do pai. sentiu o nó apertar em sua garganta, sua mente pensou em diversas respostas, mas nenhuma era fácil de ser dada. Ela olhou para o teto por um momento, tentando controlar a emoção antes de falar, consciente de que precisava ser forte para consolar a filha, mesmo que ela própria também estivesse em pedaços.
— Seu pai…
— Ele não é mais meu pai. — A interrupção de foi afiada, revelando a sua mágoa.
— Ele sempre será o seu pai. Nós não seremos mais um casal, mas isso não muda o amor dele por você. Ele ama você.
— Quem ama não vai embora. — As palavras da menina eram um eco triste da compreensão que ela estava começando a formar sobre complexidade e partida.
suspirou, tentando encontrar as respostas certas para confortar a filha.
— Às vezes as pessoas seguem caminhos diferentes, mas isso não significa que o amor delas diminua. — A pequena ouvia atentamente, seus olhos eram uma mistura de confusão e tristeza. acariciou suavemente os cabelos bagunçados da filha, tentando oferecer um conforto que, neste momento, ela própria ansiava. — Eu sei que é difícil entender, meu amor. Às vezes, os adultos cometem erros e isso nos afeta, mas o amor entre pais e filhos permanece, mesmo quando outras coisas mudam. — permaneceu em silêncio, absorvendo as palavras da mãe. A verdade ainda era uma ferida fresca, sangrando de uma forma que ela, com toda sua ingenuidade, era incapaz de entender. — Eu sei que você está magoada e está tudo bem sentir isso. Se precisar chorar, fique à vontade. Estou aqui para você agora. E seu pai, mesmo que não esteja aqui fisicamente, sempre fará parte da sua vida.
sentiu seu coração se apertar, sendo esmagado dentro do peito de uma forma que ela não compreendia. A pequena fechou os olhos, lutando contra as lágrimas.
— Por que ele foi embora? — A voz dela era um sussurro cheio de dor.
inspirou fundo, se preparando para abordar um tópico delicado.
— Às vezes, as pessoas precisam de tempo para resolver suas próprias questões. Seu pai sentiu que precisava fazer isso sozinho. Isso não tem nada a ver com o quanto ele ama você. — assentiu levemente, mas a dor ainda era visível em seus olhos.
, O PAPAI CHEGOU. — A empolgação de era gritante. A mais velha apenas olhou para a mãe de forma reflexiva e, como uma súplica, se aproximou mais da mulher.
— Eu ainda não quero que ele seja meu pai, mamãe. — As palavras de foram sussurradas em um tom baixo, como um segredo compartilhado apenas com a mãe. olhou a irmã com estranhamento, incapaz de compreender completamente as emoções que envolviam a família.
, ciente da dor e da confusão da filha, a abraçou com suavidade.
— Está tudo bem, meu amor. Você precisa de tempo pra processar tudo isso. O papai está aqui agora e ele quer falar com você, mas você decide como quer lidar com isso, está bem? Se não estiver pronta, tudo bem. Eu estou aqui para apoiar você.
assentiu lentamente com gratidão.
O cenário da manhã continuou a se desenrolar à medida que e suas filhas desciam para a sala. A luz do dia preenchia o ambiente, contrastando com a tensão que o escurecia. , após ajudar a escovar os dentes, notou que a menina, normalmente carinhosa, estava ainda mais reservada e introspectiva.
— Está tudo bem? — A gentileza na voz da mãe foi evidente, mas a pequena apenas assentiu, com seus olhos revelando uma mistura de tristeza e confusão.
A família se reuniu na sala e foi lá que encontraram , que aguardava em pé, coberto por um silêncio desconfortável. Ele estava distante aos móveis, distante ao espaço da casa. Apenas um dia fora e tudo parecia ter mudado.
, ainda irradiando alegria pela presença do pai, correu na direção dele, saltando em seu colo.
— Papai! Eu estava morrendo de saudades! — ela exclamou, o abraçando com força e efusividade.
, por sua vez, tentou sorrir, mas seus olhos buscavam , cujo cumprimento ausente não passou despercebido.
— E você, princesa? Como você está? — dirigiu-se a , mas ela permaneceu em silêncio, o ignorando por completo.
tentou se aproximar de , mas ela o ignorou, dando as costas e indo em direção à sua mãe. A dor da rejeição ardeu fundo no peito de , mas ele decidiu persistir, era a sua filha e ele não desistiria dela, mesmo que demorasse muito.
, meu amor, podemos conversar? — A menina permaneceu em silêncio, ainda ignorando a presença do pai. , vendo a dificuldade da situação, tentou mediar.
— Talvez seja melhor dar um tempo. Ela está passando por muitas emoções agora.
assentiu, mas não pôde evitar a dor que sentia a cada afastamento da filha.
— Eu só quero que saiba que eu…
se afastou mais, aumentando a distância entre eles, pedindo o colo da mãe, que prontamente a pegou. O gesto foi claro; ela não estava pronta para ouvir o que ia dizer. acariciou as costas da filha com carinho.
— Mamãe, pede para o parar. Eu não quero ouvir ele — falou, com uma firmeza surpreendente, sua voz carregava toda a rejeição que doía mais do que qualquer palavra proferida.
sentiu seu coração parar. O nó em sua garganta foi grande o suficiente para parar sua respiração por alguns segundos. Aquelas palavras o cortaram como facas afiadas. A menina que, orgulhosamente, o chamava de pai, agora o chamava pelo nome, como se ele tivesse deixado de ser a figura paterna que um dia fora.
… — murmurou, vendo a expressão devastada no rosto do marido.
Ele engoliu em seco, tentando esconder a dor que o consumia.
— Tudo bem, . Eu… eu vou dar tempo a ela. — A voz de estava carregada de tristeza, aceitando o afastamento doloroso que se tornava presente entre ele e a filha.
Não havia o que fazer para diminuir a dor. As escolhas, feitas ao longo do tempo, haviam conduzido até aquele ponto, e agora, diante das consequências, tudo que restava era assumir. A sala estava carregada com a sombra das palavras não ditas e das emoções não expressas. Cada olhar, cada silêncio, eram testemunhas da fragmentação de uma família que um dia fora unida, mas que agora era apenas um lembrete disso: do passado.
, em meio à dor, respirou fundo, aceitando o peso de suas decisões. O caminho para a reconciliação parecia distante, e a cicatriz da rejeição de marcava uma ferida que não podia ser ignorada.



ANTES


— Qual o pior vício que considera em alguém? — A pergunta foi involuntária, aumentando mais um dos momentos de intimidade que tínhamos. Eu gostava quando ele me fazia essas perguntas. Eram interessantes e me faziam pensar.
— Eu odeio cigarros. — A resposta foi honesta e não precisei pensar nela por muito tempo. — Meu pai sempre fumava quando estava muito magoado com a minha mãe.
— Você sente falta dele? — Eu sentia? Demoro um pouco mais nessa resposta. Meu pai tinha ido embora quando eu ainda era muito nova, e quando estava em casa, sua figura era sempre ausente. Sentir falta dele era incerto, pois nunca soube, de fato, o que era tê-lo por perto. — Acho que não sentimos falta do que nunca tivemos. — me olhou compreensivamente, mas a reflexão da pergunta ainda rodava a minha mente. — Tem dias que me pego pensando sobre as ausências. Sobre o que teria sido se ele tivesse ficado — confessei, mantendo os olhos fixos em algum ponto distante. — Mas a verdade é que o cheiro do cigarro, de alguma forma, se tornou uma forma de partida. Quando ele partiu, o cheiro foi embora também. Passei a ter raiva desse cheiro porque foi com ele que aprendi que alguns espaços não são preenchidos. Às vezes sinto o cheiro de cigarro em algum lugar e, por um breve instante, quase consigo ouvir a voz do meu pai.
me escutou em silêncio. Não era apenas sobre a aversão ao vício em si, ou ao que isso impactava na saúde das pessoas, era também sobre as memórias atrelados ao cheiro. Acho que, no fim, todos são assim em relação a vícios de desagrado. Não desgostamos de algo sem motivo, sempre tem alguma dor atrelada. Invisível ou não.
— Às vezes, as ausências nos ensinam mais do que as presenças — murmurou, sua voz gentil como uma brisa que acaricia a superfície da água gelada do inverno. — Eu não posso mudar quem seu pai foi pra você, ou quem sua mãe foi, mas posso mudar quem serei para os filhos que tivermos um dia. E eu prometo que eles nunca vão aprender com a ausência. — Ele não falou da boca para fora, seus olhos tinham um compromisso tão sólido quanto a terra sob nossos pés.
Eu não tinha tido um bom pai, não tinha tido um bom pai, mas nossos filhos teriam. Eles teriam mais do que tivemos e isso era a minha esperança.
Por um bom tempo achei que não podia ser mãe porque não tinha um bom exemplo em casa. Pensei que cometeria os mesmos erros que minha mãe cometeu, que por não ter tido tanto amor, eu não saberia dar. A verdade era que ainda não podia afirmar com certeza como seria quando a maternidade fizesse parte da minha vida. No entanto, uma certeza emergia em minha mente: duvidava muito que o ciclo de ausência de amor se repetiria. Sabia, com convicção, que seria uma boa mãe e ofereceria o amor que nunca tive. Seria uma boa mãe, não porque havia sido amada, mas porque eu sabia o que era não ser amada e de forma alguma deixaria meus filhos saberem disso também. Eu não tive um exemplo da mãe que eu queria ser, mas tive um exemplo do que eu não queria.
— Obrigada — mencionei de forma franca, mais baixa. Eu não estava agradecendo pelas suas palavras em específico, mas pelo conjunto de coisas que era e representava.
— Obrigado — ele respondeu no mesmo tom, me fazendo rir assim que suas mãos foram envoltas em minha cintura e ele me moveu para cima dele. Tive mais tempo para observá-lo.
Entre as poucas certezas que tinha na vida, a maior delas era . Não podia ser outra coisa senão destino. Não se tratava apenas da forma como nos conhecemos, nem sobre como duas almas quebradas conseguiram parecer tão boas uma para a outra. Era sobre a maneira como ele tornava meu mundo mais leve. Quando nos conhecemos, algo extraordinário aconteceu. Era como se o universo, em toda sua complexidade, tivesse conspirado para juntar duas peças que se encaixavam perfeitamente.
não havia sido apenas o meu primeiro namorado, ele era a âncora que mantinha minha existência equilibrada. Havia algo mágico na forma que ele tocava minha alma, curando feridas que nem mesmo eu sabia que existiam.
Ele não era apenas o amor da minha vida, era minha certeza em meio à incerteza, minha luz nas noites mais escuras. era mais do que um amor, era a razão pela qual as incertezas se dissipavam quando ele segurava minha mão.
E, céus! Eu queria segurar essa mão por toda a minha vida.



AGORA


— Você acha que tem volta? Já se passaram alguns dias… — A pergunta de Daphne parou no ar, fazendo a loira se encolher exausta em sua cama.
— Provavelmente não. — A resposta era sincera, mas havia um fio invisível de esperança em sua voz. Era impossível não haver. — Ele foi embora. Ele ouviu as filhas chorando e foi embora. — A constatação ecoou no quarto, destacando a crueldade da realidade. A dor das lágrimas das filhas traziam o som inconfundível da família se desfazendo.
— E quanto a ? Ainda pretende vê-lo? — se acomodou na cama, olhando para o teto como se o gesso branco pudesse lhe dar as respostas que precisava.
— Não sei, amiga. As coisas mudaram tanto… não sei se posso continuar com essa história. Não quero continuar — murmurou, com sua voz em um tom cansado que carregava o peso das escolhas difíceis que ela sabia que teria que fazer por si e, principalmente, por suas filhas. — Tantas coisas desmoronaram e eu não faço a menor ideia de onde começar a reconstruir.
— Sabe que não está sozinha, certo? — O aceno de cabeça de foi o suficiente para Daphne puxar a amiga para um abraço. Elas eram como irmãs, inseparáveis desde o dia que se conheceram, quando ainda estava tentando encontrar o vestido de noivas perfeito. — Ele veio buscar as meninas?
— Mamãe? — As duas foram interrompidas quando surgiu, pequena mediante à porta aberta.
— Sim, meu amor?
— Posso ficar com você? — A pergunta trouxe um sorriso nos lábios de , mas ela sabia o motivo do pedido. estava perto de chegar e as levaria para passar o dia com ele. estava evitando ficar no mesmo ambiente com o pai, como se a dor da presença dele fosse insuportável.
— Eu vou deixar vocês duas juntinhas e vou falar com a .
Quando Daphne saiu, entrou em passos lentos, subindo na cama junto à mãe e se agarrando a ela. Era doloroso ver a filha assim, ela tinha poucos anos, mas já estava lidando com uma carga emocional enorme e não tinha nada a ser feito.
— Está aqui para não ver o seu pai? — A pergunta era sincera, não havia como falar de outra forma. Ela precisava falar sobre o assunto, mesmo que isso também doesse nela.
— Ele não é o meu pai. Ele é o pai da . — O sussurro saiu baixo, rasgando o coração da mais velha. A voz da menina era quase embargada pela mágoa.
— Filha… Ele sempre vai ser o seu pai, mesmo que ele não more aqui. Ele ama você e a sua irmã e esse sentimento é algo que nunca vai mudar. — As palavras de eram uma tentativa de suavizar a dor que pairava entre elas, mas ela sabia que a ferida era profunda e que suas palavras, por mais sinceras que fossem, não podiam apagar o amargor de ver um pai saindo pela porta. se aproximou mais, buscando consolo nos braços da mãe. Seu abraço era uma mistura de tristeza e desamparo. — Eu sinto muito, . — acariciou os cabelos da filha, tentando transmitir conforto, mesmo que ela própria se sentisse perdida. — Às vezes, as coisas quebram, mas isso não significa que o amor se desfaz.
— Mas ele foi embora quando a gente precisava dele. — A voz da pequena carregava uma mistura de sentimentos grandes demais para uma criança carregar.
A mulher suspirou, sentindo o peso da dor da filha arder em seus ombros. As lágrimas ameaçavam escorrer, mas ela se esforçou para ser o pilar de força que a filha precisava.
— Pessoas cometem erros e esses erros machucam, mas isso não significa que o amor desaparece. — absorveu as palavras da mãe, mas a confusão ainda permanecia estampada em seu rosto.
— Eu queria que ele ficasse.
— Eu sei, meu amor. — acariciou suavemente os cabelos de , oferecendo um consolo que, mesmo para uma mãe, parecia insuficiente diante das circunstâncias. — Vamos ver a sua irmã? Ela também precisa de nós.
, ainda desconfiada, acenou com a cabeça, dando a mão para a mãe para que juntas fossem até a cozinha. Ao chegarem, já estava lá, encolhido como se não fizesse mais parte daquele ambiente, daquela família. Talvez porque não fizesse.
— Bom dia — ele sussurrou, seu olhar foi ao resto da esposa e desviou para a sua filha mais velha, que continuava a ignorá-lo. — Eu… queria levar as meninas para ficarem comigo, se estiver tudo bem para você.
não falou, apenas balançou a cabeça em afirmação. Jamais impediria de ver as filhas ou de passar tempo com elas. Apesar de serem apenas três dias sem ele em casa, ainda era uma dor recente e inflamada.
, sua avó queria te ver também. — A tentativa dele, no entanto, era em vão. A menina ainda não falava com ele, por maior que fosse o seu esforço.
— Mamãe, eu posso ficar com você? Eu não quero ir com o . — finalmente quebrou o silêncio, expressando seu desejo com um tom de súplica.
olhou para , percebendo a dificuldade que ele enfrentava para se reconectar com a filha, mas não podia ignorar os sentimentos da pequena ou obrigá-la. Sabia que seria pior ainda para a confusão emocional e mental que ela já tinha.
— Claro, meu amor. Se é isso que você quer, pode ficar comigo — respondeu, tentando amenizar a situação da forma mais gentil possível.
O olhar da mulher encontrou o de , carregando uma mistura de compaixão e tristeza. , engolindo o nó na garganta, assentiu, compreendendo.
— Papai, papai! Corta as minhas panquecas? — A voz animada de era um raio de sol em meio às nuvens sombrias que pairavam sobre a família.
, ainda carregando a dor pela rejeição de , forçou um sorriso e se aproximou da pequena.
— Claro, pequena — ele respondeu, tentando esconder a tristeza nos olhos enquanto ajudava com as panquecas.
Enquanto isso, se retirou para o quintal, buscando um refúgio silencioso para suas próprias reflexões. a seguiu, mantendo uma distância respeitosa, permitindo à filha o espaço necessário para processar seus sentimentos.
Decidindo dar a um momento de privacidade, se dirigiu à porta dos fundos. Ao sair para o quintal, acendeu um cigarro, buscando um breve refúgio na fumaça enquanto contemplava de longe. A cena era triste e familiar, não era a primeira vez que fumava. Apesar de nunca gostar do cheiro, o sabor tinha se tornado um vício que a aliviava das emoções que passava. Apesar de prejudicial, ter o amargor em seus lábios diminuía o amargor de sua mente.
Quando se é pequeno, você não pensa que seus pais foram ausentes porque tinham os motivos dele, você se culpa, pensa que não era importante ou suficiente para que seus pais te dessem amor. Não se torna algo sobre eles, se torna algo sobre você. Foi uma culpa que ela sentiu, mas se sentia despedaçada com a possibilidade de sua filha também se sentir dessa forma.
A fumaça do cigarro se dissipava no ar, assim como as esperanças que um dia ela tinha para seu casamento e sua família.



AGORA


— Ela dormiu? — A pergunta rouca de preencheu seus ouvidos, então ela apenas balançou a cabeça de forma positiva. se escondia quando o pai avisava que vinha e dormia cedo para não o ver sair novamente. — Podemos conversar?
Havia um tom carinhoso em sua voz, mas a mágoa ainda era dura demais para uma conversa. No entanto, sabendo que não podia evitar, concordou e ambos caminharam até a sala.
O ambiente estava impregnado com a tensão que se tornara uma presença constante na casa. e , dois estranhos que compartilhavam um passado feliz e um presente doloroso, se sentaram em lados opostos do sofá.
, eu... — começou, mas as palavras pareciam escorregar de sua língua antes que ela pudesse formar uma frase coerente.
— Eu sei que as coisas não estão bem entre nós — interrompeu, sua voz pesada com um peso que ambos carregavam. — Mas eu queria tentar fazer isso direito, . Pelas nossas filhas.
fechou os olhos por um momento, sentindo a dor latente no fundo de seu ser. Com os olhos ainda úmidos de lágrimas contidas, lançou um olhar acusador para .
— Um pouco tarde para isso, não acha?
— Nós dois erramos, não dá pra consertar, mas pelo menos podemos tentar não piorar.
— Nós dois erramos? Foi você quem abandonou as suas filhas chorando e foi embora sem olhar para trás. Você só pensou em si mesmo.
— Eu não as abandonei, eu evitei que elas vissem os seus pais se desrespeitando. Que elas crescessem em meio a um casamento infeliz achando que isso é amor, quando não é! O que ia dizer quando elas começassem a perguntar o porquê estávamos gritando?
— Pra você nunca existe uma opção melhor. Podíamos ao menos ter tentado, . Mas é isso que você faz, você vai embora. Você falou tanto do seu pai, mas se tornou igual a ele.
— Quer falar sobre mudanças comportamentais? Eu achei que você odiasse cigarros, mas pelo visto aprendeu a fumar e nem se alimentando está. Você perdeu peso, acha que isso é tentar? Porra, .
— Não sou mais sua preocupação, . Se eu quiser fumar, eu vou. Se eu não quiser comer, eu não vou comer.
— É minha preocupação quando você é a mãe das minhas filhas. Você acha que ser uma mãe irresponsável vai resolver alguma coisa? — questionou, sua expressão estava carregada de desaprovação. Ele sabia que era uma mãe maravilhosa e jamais questionaria isso se não fossem as circunstâncias acaloradas da briga. — Você está permitindo que elas vejam você se afundar! Você acha mesmo que isso é ser uma boa mãe?
— Eu não preciso dos seus conselhos sobre como ser mãe — retrucou, sentindo a raiva surgir em seu rosto. — Aliás, quer saber? E você, hm? Acha mesmo que está fazendo o papel de pai? A sequer fala com você, ela te rejeita completamente. É isso que você chama de ser um bom pai? Elas já me viram sofrer, . Elas já viram você indo embora. Você acha que eu não percebo o olhar delas, a confusão nos olhos inocentes delas? Talvez seja melhor elas me verem afundando do que repetir o ciclo de abandono que você começou.
, ferido pelas palavras de , sentiu um aperto no peito. As palavras dela o acertaram em cheio e, apesar da dor, ele engoliu a verdade a seco, respirando fundo e se aproximando da mulher com os olhos fechados.
— Não se afunde nesse abismo, . Por favor, não faça isso consigo mesma — sussurrou com tristeza e preocupação. As testas colidiram suavemente, numa tentativa de compartilhar o fardo pesado que ambos carregavam. Apesar das dores inflamadas, ele sabia que a melhor forma de desarmar a autodefesa de era cedendo pouco a pouco. — Você precisa se alimentar, você odeia cigarros, não se afunde. Não quis dizer que só me importo pelas meninas, peço porque eu me importo com você. — , incapaz de conter as lágrimas, desabou nos braços de . Ele a apertou mais forte, sentindo o peso da culpa em seu peito. — Desculpe — murmurou, sentindo suas palavras abafadas pelos soluços de . — Sinto muito, por tudo.
O abraço entre e permaneceu por um instante mais, como se ambos estivessem relutantes em se soltar desse refúgio temporário. No entanto, a realidade os chamava de volta, e rompeu suavemente o abraço.
— Eu preciso ir ver o apartamento que vou alugar — ele disse, com voz contida, seus olhos encontrando os de . Ela assentiu, tentando sorrir mesmo que seus olhos ainda estivessem marejados. beijou delicadamente a testa dela, sentindo o familiar cheiro do shampoo que sempre associou ao aconchego do lar que construíram juntos. — Se cuide, . Por favor, não suportaria se algo acontecesse com você.
Ao ver se afastando, sentiu o peso da culpa pesar sobre seus ombros. As palavras ditas durante a discussão, especialmente aquelas sobre a filha mais velha, ecoavam em sua mente, trazendo uma dor aguda. Um instante de clareza a envolveu e ela reconheceu a veracidade nas palavras de .
Com um suspiro resignado, dirigiu-se até a embalagem de cigarros que havia comprado anteriormente. Pegou-os com mãos trêmulas e, olhando para aquelas pequenas varetas de fumo, reconheceu a autodestruição que estivera prestes a abraçar.
Num gesto determinado, ela jogou todos os cigarros fora, como se estivesse se livrando não apenas do tabaco, mas também de uma parte da dor que a consumia.
, com seus olhos sonolentos, se aproximou da mãe, que a acolheu nos braços com carinho. , envolvendo a filha mais nova com ternura, depositou beijos suaves em sua testa, como se cada beijo carregasse consigo uma promessa de amor e segurança.
— Mamãe, por que a Violet ficou brava com o papai? — perguntou , com os olhinhos curiosos fixos em .
, acariciando suavemente os cabelos da filha, suspirou antes de responder.
— É uma situação complicada, meu amor. Às vezes, as pessoas ficam magoadas e é difícil lidar com esses sentimentos.
— A Violet disse que o papai não é mais o pai dela. Isso é verdade?
fechou os olhos por um momento, ponderando como explicar aquela situação delicada.
— Não, querida. O papai sempre será o pai da Violet, mesmo que as coisas estejam difíceis agora. Às vezes, as pessoas dizem coisas no calor do momento, mas isso não muda o amor que temos uns pelos outros.
— Eu não quero que a Violet fique triste, mamãe.
sorriu gentilmente para , apertando-a nos braços.
— Eu também não, meu amor. Vamos dar um tempo para que as coisas se acalmem, e tenho certeza de que, com o tempo, tudo vai melhorar.
olhou para a mãe com seus olhinhos cheios de compaixão.
— Mamãe, o papai vai voltar?
hesitou por um momento antes de responder, escolhendo suas palavras com cuidado.
— Não tenho certeza, querida. Mas, independentemente do que acontecer, nós sempre estaremos aqui para vocês duas.
assentiu com compreensão, mas seus olhinhos ainda carregavam uma preocupação infantil.
— Eu amo o papai, mamãe.
sorriu, beijando a testa de .
— E o papai também ama você, meu amor. Mesmo que as coisas estejam difíceis agora, o amor entre vocês nunca vai mudar.
— Eu só quero que a Violet e o papai fiquem felizes de novo.
era a menor, talvez por isso acabasse se deixando afetar menos pelo que acontecia ao seu redor. A menina não entendia bem sobre a briga dos pais ou a separação deles e não deixava que ela sentisse tanto a ausência dele, já que todos os dias ele colocava a filha na cama. Tudo para que ela sentisse menos o impacto da ausência diária do homem.



ANTES



— Como você imagina nossa vida daqui a quinze anos? — Olho para ao lado da minha cama e ele parece mais reflexivo que o normal. Fecho os olhos, imaginando o nosso futuro. Não há um futuro sem ele.
— Eu me imagino com você, é claro. — Comecei, sentindo ele me apertar mais em seu peito. Sorri com o gesto. — Seremos o casal perfeito, enfrentaremos várias perguntas com as pessoas achando que somos irmãos. — Ele ri nessa parte, é o sorriso mais bonito que já vi na minha vida. Passei a mão pelo cabelo, pensando um pouco mais na nossa vida futura. — Teremos dois filhos, acho. Uma menina e um menino. E, é claro, um cachorro. Mas tem que ser um dos pequenos, porque os grandões me assustam um pouco. — Dei uma risadinha e ele me acompanhou. Imaginei nossos filhos correndo pela casa com o cachorro ao lado. sorriu parecendo vislumbrar o mesmo futuro que eu. — E você, como nos imagina?
— Felizes. — Faço uma pequena careta de brava, não porque não gosto da resposta dele, eu amo. Eu amo qualquer coisa que saia da boca desse homem. — O que foi?
— Eu fui toda específica, não me venha com uma palavra.
Ele estende os braços, como se estivesse desistindo e se dando por vencido. Eu sorrio porque gosto disso, gosto quando ele me deixa vencer nossas discussões bobas e sem sentido.
— Se eu estiver com você, não tem um só cenário que não seja perfeito. Todas as possibilidades são boas quando tem você. — Fico sem palavras, ele percebe isso. Sua mão envolve meu quadril e eu me deito de bruços ainda ao seu lado.
desliza os dedos pela minha coluna em um carinho preguiçoso, como se estivesse memorizando cada centímetro da minha pele. Seus olhos me observam com tanta atenção. Quero viver neles para sempre.
— É assim que eu me sinto quando estou com você, . — Sua voz é baixa, rouca, carregada de uma certeza que faz meu coração bater mais forte.
Eu sorrio, me aconchegando mais perto, absorvendo seu calor, seu cheiro, sua presença. A ideia de um futuro ao lado dele parece tão real que quase posso tocar. Fecho os olhos por um instante, tentando gravar essa sensação no fundo da minha alma.
— Você acha que realmente teremos essa vida? — Minha voz sai quase como um sussurro. não hesita. Ele segura meu rosto entre as mãos e beija minha testa de leve antes de responder.
— Eu sei que teremos. Não importa o que aconteça, eu sempre vou te escolher. Sempre.
As palavras dele aquecem algo profundo dentro de mim, o que sinto por é algo que jamais será explicado. Ele me faz sentir segura, como se nada no mundo pudesse nos afastar.
— Você sempre fala desse jeito, como se pudesse dobrar o universo à sua vontade. — Brinco, passando a ponta dos dedos pela linha definida do maxilar dele.
— E não posso? — Ele arqueia uma sobrancelha, o vestígio de um sorriso dançando em seus lábios.
— Se puder, então quero que acelere o tempo para esse futuro chegar logo. — Fecho os olhos e descanso a cabeça em seu peito. — Eu já amo essa vida, mesmo que ela ainda não tenha chegado.
ri baixinho, o som reverberando contra minha pele. Ele envolve os braços ao meu redor e, antes de eu cair no sono, escuto seu último sussurro da noite.
— Então eu vou garantir que ela se torne real.
— Você acha que nossos filhos vão puxar mais a você ou a mim?
— Espero que puxem a sua teimosia. Assim vão saber como conseguir tudo o que querem da vida. — Ele ri, apertando minha cintura.
— Ah, então eles vão puxar você. Você finge ser todo sério, mas no fundo sempre dá um jeito de conseguir o que quer. — Retribuo a risada, sentindo meu coração leve.
— Vamos ser pais incríveis, . — Sua voz soa tão convicta que não consigo duvidar.
— Eu quero que nossa filha tenha seus olhos. — Digo baixinho. — São os olhos mais bonitos que já vi. sorri de lado, balançando a cabeça.
— E eu quero que nosso filho tenha o seu sorriso. Ele vai ser um problema quando crescer, vai derreter corações por aí.
Dou um risinho e balanço a cabeça.
— Ou talvez nossa filha seja a que derrete corações, e nosso filho seja mais reservado, como você.
parece ponderar e depois ri.
— Talvez. Mas independente de como forem, eu só quero que sejam felizes. Quero poder ensinar nosso filho a dirigir e protegê-lo das burrices que eu sei que ele vai querer fazer. E nossa filha... bem, ela vai me dar trabalho. Eu já sei.
Eu gargalho, imaginando tentando lidar com uma adolescente teimosa.
— Ela vai ser igual a mim, então? — provoco.
— Com certeza. Eu já estou com medo disso. — Ele suspira dramaticamente, me puxando para mais perto.
Fecho os olhos, e antes de dormir de verdade, penso que, se este for nosso destino, então estou mais do que pronta para ele.
— Você vai ser aquele tipo de pai superprotetor, que assusta os namorados dela na porta? — provoco, mordendo de leve o lábio para conter o riso. faz uma expressão séria, mas seus olhos brilham de diversão.
— Com certeza. Vou ficar na porta de casa de braços cruzados, olhando para qualquer um que se atreva a chegar perto dela. Se ele piscar errado, já era.
— Pobres namorados da nossa filha. — Solto uma risada, imaginando a cena.
— Pobres nada. Eles que tenham respeito. Nossa menina vai ser forte, mas não significa que eu vá facilitar para ninguém. — Ele beija minha testa de leve. — E nosso filho? Você acha que ele vai ser bagunceiro ou certinho?
Penso por um instante, sorrindo.
— Acho que ele vai ser bagunceiro na infância e todo sério na adolescência, igual a você.
— E você vai estragar ele. — estreita os olhos. — Você vai mimá-lo e fazer todas as vontades dele.
— Claro que vou! Ele vai ser meu bebê. — Brinco, dando um pequeno soquinho no braço dele.
ri e me abraça ainda mais forte.
— Então estamos combinados. Você mima, eu dou disciplina. Equilíbrio perfeito.
— E o cachorro? — pergunto de repente, me lembrando do detalhe.
— Um husky. — responde prontamente.
, huskies são grandes! Eu quero um cachorro pequeno, fofinho. — Faço um biquinho.
— Pequeno e fofo não protege as crianças. Vamos precisar de um cachorro forte. — Ele me olha desafiador.
— Um golden então? Forte e fofinho. — Tento negociar. Ele suspira, fingindo ponderar.
— Ok, um golden. Mas só porque eu te amo.
Eu sorrio, sentindo meu coração aquecido.



AGORA



A casa parecia maior sem ele ali.
encarava o vazio ao seu redor, sentindo-se pequena demais diante do espaço da ausência do seu marido. O cheiro do shampoo dele ainda impregnava o ar, como um lembrete amargo de tudo o que haviam sido e do que estavam perdendo.
passara a manhã inteira no quarto, recusando-se a sair. , por outro lado, estava sentada no chão da sala, brincando com os ursinhos de pelúcia e cantarolando baixinho. sabia que, por trás da aparente despreocupação da filha mais nova, havia uma confusão silenciosa que não podia ser ignorada. O toque suave da campainha quebrou o silêncio. se levantou hesitante, como se soubesse quem estava do outro lado da porta. Ao abrir, encontrou , com olheiras profundas e um olhar carregado de um peso invisível. Ele segurava uma sacola nas mãos.
— Eu trouxe o jantar. — A voz dele saiu baixa, quase incerta.
piscou, surpresa. Ela não esperava que ele voltasse tão cedo, muito menos com comida.
— Não precisava... — murmurou, mas deu espaço para que ele entrasse.
caminhou até a mesa da cozinha, pousando a sacola com cuidado. O cheiro quente de comida preencheu o ambiente. cruzou os braços, observando-o sem saber ao certo o que dizer.
— Eu vi que você está mais magra — ele continuou, sem encará-la. — E eu sei que você tem esquecido de comer.
Ela soltou um riso amargo.
— Agora você se preocupa com isso?
fechou os olhos por um instante, como se estivesse reunindo forças para continuar. Não era sua intenção transformar aquilo em mais uma discussão, mas parecia inevitável.
, por favor. — ele suspirou. — Eu sei que não tenho mais direito de me preocupar, mas eu me importo com você. E com as meninas.
Ela desviou o olhar, mordendo o lábio. Ele se importava. Isso doía mais do que se ele não se importasse.
— A Violet não quer te ver. — As palavras saíram antes que pudesse segurá-las.
assentiu devagar, como se já esperasse por isso.
— Eu sei. — Seu maxilar ficou tenso.

queria acreditar nisso. Queria mesmo. Mas a dor no olhar de era profunda demais para ser apagada com promessas. O barulho de passinhos interrompeu o silêncio. surgiu ao lado da mesa, olhando de um para o outro antes de sorrir para .
— Papai! — Ela correu para ele, que a pegou no colo com facilidade.
— Oi, pequena. — A voz dele suavizou-se, como sempre acontecia com . — Está tudo bem?
Ela assentiu, aninhando-se no peito dele.
— A mamãe estava triste — contou com a inocência de uma criança que ainda não entendia o peso das palavras. olhou para , que desviou o olhar rapidamente. Ele já sabia. Já via isso nos olhos dela, nos ombros tensos, na forma como seus dedos tremeram quando abriu a porta.
Ele depositou um beijo na testa de antes de colocá-la de volta no chão.
— Você já jantou, minha pequena?
negou com a cabeça, puxando a barra da blusa da mãe. suspirou, finalmente se rendendo.
— Eu vou colocar a comida na mesa.
O jantar aconteceu em um silêncio estranho. e sentaram-se um de frente para o outro, com entre eles, alheia à tensão que pairava no ar. A comida estava boa, mas sentia dificuldade em engolir. Tudo parecia pesado demais.
Quando finalmente adormeceu, a levou para o quarto e a cobriu com cuidado. Ao voltar para a sala, encontrou parado perto da porta, com as mãos nos bolsos, como se esperasse por algo.
ficou em silêncio, como se estivesse escolhendo as palavras com cuidado. Mas não queria mais palavras. Palavras já tinham sido ditas demais. Algumas ditas para machucar, outras para justificar o que não tinha justificativa. No fim, todas se misturavam em um ruído sem sentido.
Ela cruzou os braços, mantendo a distância.
— Você não pode simplesmente aparecer com comida e esperar que isso conserte alguma coisa.
— Eu sei. — olhou para as próprias mãos. — Mas não estou aqui para consertar nada.
Ela arqueou uma sobrancelha.
— Então por que veio?
Ele hesitou.
— Porque, por mais que você me odeie agora, eu ainda sou o pai delas. Elas são o meu lar.

sentiu um aperto no peito. Ela jamais conseguiria odiar , por mais que quisesse, por mais que tentasse. Ela o amava, sempre amaria.
— Um lar não se abandona, . — respirou fundo, mas não respondeu. Não havia resposta que fizesse diferença. ainda não queria vê-lo. ainda era jovem demais para entender. E não sabia mais o que esperar dele. Ela deu um passo para trás, cruzando os braços. — Se você realmente quer ser o pai delas, então seja. Mas não espere que eu facilite as coisas para você.
assentiu devagar.
— Eu não espero.
Por um momento, ficaram ali, apenas se olhando. Havia cansaço no rosto dele, mas não se permitiu sentir pena.
Ela respirou fundo e desviou o olhar.
— Fecha a porta quando sair.
E sem esperar resposta, ela se virou e foi para o quarto.
ficou parado ali, ouvindo os passos de se afastarem. A porta do quarto se fechou, cortando qualquer chance de resposta. Ele passou a mão pelo rosto, sentindo o cansaço pesar nos ombros. Não deveria ter vindo. Mas, ao mesmo tempo, não conseguia ficar longe. Ele olhou para a mesa ainda posta, para o prato de quase intocado, e sentiu um nó no estômago. Desde quando tinham chegado a esse ponto? Desde quando o olhar dela passou de amor para indiferença?
Um barulho baixo chamou sua atenção. Ele se virou a tempo de ver parada no corredor, esfregando os olhinhos de sono.
— Papai?
A voz dela era pequena, sonolenta, mas cheia de algo que já não encontrava mais em : carinho.
Ele forçou um sorriso e se agachou para ficar na altura dela.
— Oi, minha pequena. Não era para você estar dormindo?
deu de ombros e caminhou até ele, arrastando o cobertor pelo chão. Sem hesitar, levantou os bracinhos, pedindo colo. a pegou, sentindo o corpinho quente se acomodar contra o seu.
— Você vai dormir aqui hoje?
A pergunta foi inocente, mas atingiu com força.
Ele balançou a cabeça.
— Não posso, meu amor. Mas eu volto.
bocejou e enterrou o rostinho no ombro dele.
— Promete?
engoliu em seco. Não podia falhar com ela. Não mais.
— Prometo.
Ele ficou ali por mais alguns minutos, embalando a filha até que ela pegasse no sono de novo. Depois, com cuidado, a colocou no sofá e ajeitou o cobertor ao redor dela. Antes de sair, olhou uma última vez para a porta fechada do quarto de , então, saiu da casa em silêncio, fechando a porta com cuidado para não acordar . O ar frio da noite bateu em seu rosto, mas não foi suficiente para dissipar o peso que carregava no peito. Caminhou até o carro, mas não entrou de imediato. Ficou ali, parado, olhando para a casa onde, até pouco tempo atrás, ele tinha uma família.
Ele já tinha perdido . Isso era um fato. Mas e as meninas? Quanto tempo levaria até que elas também deixassem de vê-lo como parte da vida delas? A lembrança do olhar de queimou dentro dele. O desprezo silencioso, a mágoa profunda que ele não sabia como consertar. Ela não era mais uma garotinha que podia ser enganada por promessas vazias. Ela via a realidade como ela era, e era o vilão da história.
Ele suspirou pesadamente, forçando-se a entrar no carro. O relógio no painel marcava quase meia-noite, e ele sabia que não ia conseguir dormir.
Dentro da casa, continuava acordada.
Ela ouvira a porta se fechar, mas não se levantou da cama. O cheiro de ainda pairava no ar, misturado com o da comida que ele trouxera.
Era sufocante.
Os olhos ardiam de tanto forçá-los a ficar secos. Chorar não mudaria nada. Chorar não o traria de volta, nem apagaria as palavras ditas, nem faria olhar para o pai sem aquele ressentimento no olhar. Mas, mesmo sabendo de tudo isso, se sentia quebrada.
Ela se levantou e foi até a sala. Encontrou encolhida no sofá, dormindo profundamente, ainda abraçada ao cobertor. Se abaixou e passou a mão pelos cabelos macios da filha, ajeitando-a com cuidado.
Não podia se dar ao luxo de desmoronar.
Não quando ainda precisava ser a mãe que as filhas dela mereciam.



AGORA



A luz fluorescente do hospital parecia ainda mais fria com o passar das horas. estava com o cansaço físico de quem estava ali por horas, talvez porque realmente estivesse. Ele estava sentado no canto da recepção médica, os cotovelos apoiados nos joelhos, a cabeça entre as mãos e som do monitor cardíaco ainda batia em compasso com a inquietação que ele não conseguia calar.
Quando o médico entrou novamente, se levantou rápido, mas com os olhos atentos.
— Doutor? Ela... como ela está?
O médico, assentiu com um pequeno sorriso técnico.
— Estável. Ainda sob efeito dos sedativos, mas o trauma foi moderado. Houve fraturas na clavícula esquerda e no rádio distal do braço direito. Escoriações superficiais na região abdominal, mas o sangramento foi leve e cessou com o repouso. Ela já está em consciência parcial e não apresenta risco de hemorragia interna.
engoliu em seco.
— E o bebê?
O médico olhou para o tablet que segurava nas mãos, deslizando os dedos com cuidado.
— A gestação está nas primeiras semanas. Aproximadamente sete semanas e quatro dias, de acordo com a biometria fetal. Fizemos um ultrassom de emergência assim que ela foi estabilizada. A frequência cardíaca fetal está normal, 162 batimentos por minuto. Nenhuma evidência de descolamento do saco gestacional. Ou seja, a gestação, até o momento, está intacta.
ficou estático por um momento, como se o tempo tivesse escorrido entre os dedos.
— Ela… ela conseguiu confirmar se sabia?
O médico negou com um leve movimento de cabeça.
— Não. Ficou bastante abalada com a notícia. Mas reagiu bem depois do impacto inicial. Ainda está processando tudo, como imagino que o senhor também esteja.
assentiu, mas seu corpo parecia de pedra.
— Posso vê-la?
— Pode. Mas evite temas que exijam esforço emocional. O corpo dela está em processo de resposta inflamatória pós-trauma. E bom, há muito acontecendo, não é? — o médico disse com um olhar compreensivo, quase humano demais para aquele ambiente asséptico.
murmurou um "obrigado", e caminhou até a porta como quem se arrasta.
Ele abriu devagar. O quarto agora tinha um aroma leve de antisséptico e flores frescas, alguém do hospital devia ter deixado as margaridas ali. Ela estava deitada com os olhos semiabertos, exausta, mas desperta.
Quando o viu, tentou ajeitar-se, mas o braço engessado a impediu.
— Ei, calma. Não precisa se mexer — disse, com a voz mais suave do que pretendia. — Ele se aproximou, puxou a cadeira, e sentou ao lado dela, os olhos estavam presos nela como se ela pudesse sumir a qualquer instante. — Oi. — foi tudo o que conseguiu dizer.
Ela soltou o ar lentamente.
— Oi. — sussurrou. — O médico falou com você?
Por alguns segundos, o silêncio entre eles dizia tudo o que as palavras ainda não tinham força para tocar. passou a mão pelo rosto, e então, encarando-a, finalmente perguntou:
— Sim. Você sabia? Ou, sei lá, suspeitava?
Ela negou devagar, lágrimas começaram a escorrer pelos olhos inchados.
— Não. Nunca soube. Juro por tudo, . Eu nunca mentiria sobre isso.
— Sete semanas… — ele murmurou. — E a gente se separou há… seis.
Ela entendeu. A linha entre a dúvida e a dor era tênue.
— Você acha que pode não ser seu?
Ele hesitou. Não queria perguntar, mas precisou. Precisava saber.
— Existe alguma chance de ser do… dele?
Ela fechou os olhos, respirou fundo, e mesmo entre lágrimas, sua voz foi firme e direta, como costumava ser sempre que o assunto era sério demais. Doloroso demais.
— Não. Nunca me deitei com ele sem proteção. Nunca. Nem uma vez. Você pode me odiar por mil coisas, . Mas eu nunca arriscaria isso. Nunca.
Ele encarou o chão, como se aquelas palavras fossem um alívio.
— Então eu vou ser pai de novo.
Ela assentiu, com ainda mais lágrimas caindo.
— Você está bravo?
— Não. Eu tô confuso. — ele respirou fundo, olhando para o teto por um segundo, procurando palavras que pareciam fugir. — Tô assustado, sim. Um pouco perdido, mas feliz. De verdade.
Ela franziu a testa, surpresa com a resposta.
— Feliz?
estendeu a mão, como se quisesse tocar a dela, mas parou no meio do caminho.
— A gente está desmoronando, eu sei. E não sei nem se a gente ainda é “a gente”, mas saber que tem uma parte nossa crescendo aí dentro de você é muito bom. — ele fez um gesto leve com a cabeça, os olhos estavam brilhando, ela podia ver. — Isso me dá um pouco de chão no meio desse furacão.
Ela deixou uma lágrima escorrer, silenciosa. Levou a mão à barriga, instintivamente, como se só naquele instante tivesse aceitado que aquilo era real.
— Você já pensou como a vai reagir? — ele perguntou devagar, como se temesse a resposta. Ela fechou os olhos por um instante, imaginando a irmã mais velha. Sempre tão forte, tão durona, mas com um coração enorme, embora difícil de conquistar. Ela não tinha regiado bem a separação, tinha se afastado de e sempre sentia medo de perder os pais. Seria mais difícil para ela, principalmente dado o momento em que estavam.
vai ficar na defensiva, eu acho. — Ela abriu os olhos e a voz saiu rouca, cheia de sinceridade. — Não sei se vai gostar nada de dividir a atenção de novo. Ela protege demais a , mas também tem ciúmes. Sempre teve.
assentiu, imaginando a garotinha franzir o cenho, braços cruzados, talvez até evitando falar sobre o irmão que estaria por vir.
— A vai amar. — ele afirmou, sorrindo levemente. — Ela adora tudo que tem a ver com a gente, com a família. Vai querer segurar a sua barriga, contar os dias para o irmão nascer, fazer festa.
Ela riu baixinho, uma risada triste e ao mesmo tempo doce.
vai ser a melhor irmã mais nova que alguém poderia pedir.
ficou em silêncio um momento. Era difícil pensar em tudo isso sem se sentir um pouco culpado. A separação recente, o que ela tinha passado, o que todos eles estavam enfrentando, o que as meninas tinham visto e a forma que ainda estavam aprendendo a reagir. Agora o acidente da mãe e, por fim, um bebê. Tudo estava extremamente caótico e ele sabia que tinha sua grande parcela de culpa nisso.
— Sinto que dessa vez é um menino.
Ele sorriu, meio sem jeito, como se quisesse esconder o entusiasmo.
— Eu adoraria que fosse outra menina. — Ele riu, baixo. — Você já me falou isso da , lembra? Na época em que ela ainda estava na barriga, você jurou que sentia que era menino. E era menina.
— Dessa vez é diferente. Eu sinto. — Ela olhou para ele e então riu também. baixou a voz, mais sério agora.
— A gente precisa contar pra elas logo. Antes que alguém desconfie ou que elas percebam sozinhas.
Ela concordou, com um aceno de cabeça.
— Você quer que a gente chame as duas hoje?
Ele pensou por um instante, depois assentiu.
— Sim. Quanto mais cedo, melhor.
Ela não sabia se estava pronta para contar as meninas, nem para lidar com todas as mudanças de uma nova criança, mas sabia que, pela primeira vez em semanas, ela sentiu que talvez tudo voltasse a ficar bem.



ANTES



A caixa de teste de gravidez parecia pesar uma tonelada na minha mão.
O plástico rosa era ofensivamente alegre para a tempestade de pânico silencioso que revirava tudo dentro de mim. , com seus dois anos e uma energia inesgotável, corria pela sala em cima de um cavalo de pau, seus gritos de "galopa, mamãe, galopa!" ecovam como um martelo na minha cabeça já latejante.
A frase era um eco na minha mente era a mesma que minha mãe dissera quando engravidei de : Muito nova. Da minha mãe, das outras mães no parque, da própria vozinha crítica na minha cabeça.
Dois risquinhos roxos.
Não um.
Dois.
A respiração ficou presa no meu peito por tanto tempo que eu mal soube diferenciar se era um nó de terror ou de incredulidade. Como? Nós tínhamos tomado cuidado. Não foi por acidente. Foi o preservativo que esquecemos na quarta-feira? Mas como poderia este ser o problema, se eu tomava os remédios diariamente?
O apartamento, que já parecia pequeno com os brinquedos espalhados, de repente encolheu até o tamanho de uma caixa de fósforos. Onde iríamos colocar outro berço? Fraldas, leite, outra cesárea... A lista de despesas girou na minha mente como uma roda-gigante desgovernada e por mais que tivesse uma ótima renda, ainda era preocupante o quanto éramos ausentes devido ao trabalho.
— Não — eu sussurrei para o vazio, minhas costas escorregando pela porta do banheiro até eu sentar no chão frio. — Não, não, não.
As lágrimas vieram então, quentes e silenciosas. Não eram lágrimas de felicidade, eram de puro e simples medo. Medo de falhar. Medo de não dar conta. Medo de que se sentiria substituída. Medo de que me achasse irresponsável. Medo de que eu não fosse capaz de amar outro ser humano com a mesma intensidade avassaladora com que amava aquela menininha de dois anos que galopava do lado de fora da porta. Eu sabia ser mãe de uma menina, mas como saberia ser mãe de dois bebês? Eu os amaria da mesma forma? Sempre dizem que uma mãe tem um filho predileto. Na gravidez de eu fiquei genuinamente feliz, nessa... Essa criança sentia isso?
A chave girou na fechadura e, sem que eu percebesse, entrou com a jaqueta encharcada da chuva que começara a cair e sacolas de supermercado penduradas nos braços.
— O trânsito estava um inferno... — ele começou a dizer, mas a frase morreu no ar quando ele me viu no chão, encolhida. — ? — Seus olhos pousaram no pequeno bastão branco. A compreensão não foi imediata como da primeira vez. Dessa vez, foi mais lenta e mais cautelosa. Ele deixou as sacolas cuidadosamente no chão e se ajoelhou na minha frente. — ? — a voz dele estava suave, cheia de uma preocupação que me partiu o coração. — O que houve, amor?
Eu não conseguia falar. Apenas levantei o teste, minhas lágrimas ainda me traíam, caindo vagarosamente.
Ele pegou o teste das minhas mãos, com seus dedos grandes e conhecidos envolvendo os meus por um instante antes de olhar para o resultado. Eu vi o momento exato em que ele entendeu. Seus olhos se arregalaram, depois se suavizaram. Ele não gritou de alegria. Não levantou os braços. Ele apenas soltou um longo suspiro, um som carregado.
— Oh. — foi tudo que ele disse.
— Eu não dou conta, — a minha voz saiu tão quebrada que quase não reconheci. — A é tão pequena... e eu... nós... o que vamos fazer? O que nossos pais vão dizer? Que eu sou louca, que somos irresponsáveis.
— Ei, ei, calma. — Ele se moveu para sentar ao meu lado no chão, com suas costas também contra a porta, e puxou meu corpo contra o dele. — Para de respirar tão rápido. Olha para mim. — Ele colocou uma mão no meu rosto, forçando meu olhar para o dele. — O que os outros vão dizer não importa. Nada disso importa. — seus olhos eram sérios, ancorando-me. — Nós damos conta. Nós demos conta da , não demos? Foi assustador no começo também, lembra? E agora é a melhor coisa das nossas vidas.
— Mas são dois, ! Dois! — minha voz estava cheia de desespero. — Vai ser um caos.
— Vai — ele concordou, um pequeno sorriso tocando seus lábios. — Vai ser um caos lindo. E nós vamos navegar por esse caos juntos, como sempre fizemos. Eu prometo.
Ele baixou a mão e a colocou sobre minha barriga, ainda plana, ainda sem nenhum sinal de vida crescente.
— Olá, pequeno viajante — ele sussurrou e a doçura na sua voz fez novas lágrimas meus olhos. — Seja bem-vindo.
Eu encostei a cabeça no ombro dele, ainda exausta, mas agora acolhida também. Desde o dia que nos conhecemos, ele tinha esse dom. Essa forma única e completamente assustadoramente perfeita de me acalmar. Acho que não imagino mais como seria minha vida sem ele.
— Eu tenho certeza que é um menino dessa vez — murmurei, como se isso explicasse todo o meu medo. Um menino parecia uma criatura desconhecida, um território totalmente novo e assustador.
riu baixinho, um som que vibrou em seu peito.
— Impossível.
Eu me afastei um pouco para olhar para ele.
— Por que impossível?
— Porque dessa vez é a — ele disse, com uma convicção absoluta.
?
— Sim. — ele confirmou, suavemente. — Com aquele cabelo claro que você tinha quando era pequena. Vai ser doce e teimosa, e a vai ser a heroína dela.
Eu o encarei, maravilhada não apenas pela certeza dele, mas pelo nome. Ele já tinha escolhido. Já a amava.
— E o nosso menino? — perguntei, a voz mais calma agora.
— O nosso menino virá — ele disse. — Ele virá na hora certa. Quando a já for uma pequena mulher e a estiver começando a descobrir o mundo. Ele será o . E será perfeito. Mas não agora. Agora... — ele beijou minha testa. — Agora é a vez da nossa . — E de repente, o medo não tinha sumido, mas tinha encontrado um contrapeso. Ele não estava apenas me acalmando; ele estava vendo o futuro, aceitando-o e amando-o antes mesmo de ele se desdobrar. Ele já amava a . E eu, ali, no chão frio, comecei a acreditar que poderia amá-la também. O apartamento estava quieto, finalmente. A , exausta da farra, tinha adormecido no sofá, enrolada em um cobertor com estampas de cavalinhos. — Por que você está com tanto medo?
Eu estava encostada na pia, olhando a chuva lavar a cidade lá fora. Virei para ele. estava arrumando as compras na despensa, mas parou seu olhar fixo em mim.
Respirei fundo, puxando ar para pulmões.
— Acho que estou com medo de me tornar a minha mãe. — Ele não respondeu imediatamente. Ele fechou a porta da despensa lentamente e se aproximou, leanendo contra a bancada ao meu lado e deixando seu braço encostar no meu. — Com a eu tive esse medo também — confessei. — Mas era diferente. Eu sabia que podia ser mais presente pra ela, que podia escolher ser diferente, mas com a ... — minha voz quebrou. — , eu não sei se consigo ser mãe de duas crianças. E se o meu amor não for suficiente? E se eu não tiver paciência? Eu não sou paciente. Eu me irrito. Grito com a , às vezes. E a minha mãe sempre escolhia eles. Sempre escolhia os homens, a atenção deles, a validação deles, tudo que pudesse substituir a maternidadde. E se eu, inconscientemente, acabar escolhendo uma filha em detrimento da outra? E se eu me perder tanto na exaustão que me torne ela?
As lágrimas que eu pensei ter secado voltaram, escorrendo silenciosas e quentes. Era o meu pior medo.
virou-se completamente para mim. Ele não tentou me abraçar imediatamente. Em vez disso, suas mãos, grandes e firmes, seguraram o meu rosto, forçando-me a olhar para ele.
— a voz dele era grave dessa vez. — Escuta. Escuta cada palavra que eu vou dizer. — Seus olhos não desviaram dos meus. — Você não é a sua mãe. Você nunca será a sua mãe. — a declaração foi absoluta, sem espaço para discussão. — Sua mãe fugiu. Você continuou. Todos os dias. Você luta para ser melhor, para fazer melhor. Você se preocupa justamente porque você não é ela. — Ele passou os polegares sob meus olhos, enxugando as lágrimas. — Quanto à paciência... — um pequeno, terno sorriso tocou seus lábios. — Amor, você acha que eu sou paciente? Lembra da fechadura que eu quebrei na semana passada porque a chave emperrou? Lembra de quando eu gritei com a televisão durante o jogo? Nós somos humanos. Não somos pacientes o tempo todo. E a é a menina mais amada, segura e feliz que eu conheço. A maior prova disso é que ela não tem medo de galopar pela sala gritando como uma selvagem e, no meio disso, quebrar acidentalmente um vaso. Ela se sente livre para ser quem é, porque se sente segura no amor da gente. — Ele fez uma pausa, garantindo que eu estivesse internalizando cada palavra. — E você acha que o amor vai dividir? — ele continuou. — , amor não é um bolo. Você não corta pedaços. Amor é como acender uma vela. Você pega a chama de uma vela e acende outra. A primeira chama não diminui. Ela só ilumina mais. O seu amor pela não vai diminuir. Ele vai acender um novo amor pela . E ver você amar a só vai fazer a te amar mais ainda, porque ela vai ver o quanto você é incrível. — Eu estava tremendo, mas agora não era mais de medo. Era de alívio. Era como se ele estivesse tirando um peso dos meus ombros, um peso que eu carregava há tanto tempo que nem sabia mais como era ficar sem ele. — E quanto a escolher. — ele disse, deixando a voz mais firme agora. — Eu juro por tudo que eu sou, que você nunca, nunca vai ter que escolher. Porque eu estou aqui. Nós somos uma equipe. Nos dias em que a precisar de tudo de você, eu fico com a . Nos dias em que a precisar mamar a noite toda, eu levo a para comer panquecas no parque de manhã. Nos dias em que você achar que vai surtar e gritar, você me liga e aí você grita comigo. E eu seguro a sua mão até passar. — Ele finalmente me puxou para um abraço, envolvendo-me completamente. Eu enterrei o rosto no peito dele, ouvindo o bater constante e forte do seu coração. Era o som mais seguro do mundo. — Eu te escolho — ele sussurrou contra meu cabelo. — Todos os dias, eu te escolho. E ao te escolher, eu escolho elas. Todas as três. Nenhuma de vocês vai nunca se sentir em segundo lugar. Eu não vou deixar.
Eu soltei um longo suspiro, um suspiro que parecia carregar para fora todos os demônios que eu alimentava em segredo.
— Como você sempre sabe exatamente o que dizer? — murmurei contra seu peito, transbordando gratidão.
Ele riu baixinho.
— Porque eu sei, com cada fibra do meu ser, que você é a mãe que essas crianças precisam. A mãe que elas merecem.
— Eu te amo — eu disse, a voz mais firme. — Eu não sei o que eu faria sem você para me lembrar de quem eu sou.
— Você nunca vai precisar descobrir.
E eu realmente sentia que era verdade, eu sentia que ele estava certo.
Eu estava escrevendo uma nova história.
A nossa história.
E ela seria linda.



AGORA



A luz do fim de tarde entrou pela janela do quarto do hospital. O ar ainda carregava o cheiro antisséptico e o peso da conversa que haviam tido era uma trégua frágil no campo de batalha em que seu casamento se transformara. sentia a pulsação latejar suavemente no corte da testa, o braço já estava devidamente cuidado e enfaixado para que não houvesse a possibilidade de machucar-se mais, mas o coração permanecia preso, dolorido e sem um band-aid. A paz foi quebrada por uma batida suave na porta, seguida por ela se abrindo. O pai de apareceu na entrada e sua figura imponente conseguia ser um reflexo envelhecido do homem que amava. Nos seus olhos, ela via o mesmo desconforto de sempre, o fantasma da traição que unira suas famílias de forma tão disfuncional anos atrás.
Segurando cada uma de suas mãos, estavam e .
— Vovô nos trouxe! — anunciou , soltando a mão do avô e correndo para a cama, seus pezinhos rápidos fizeram um ruído leve no piso frio.
, no entanto, permaneceu no limite do quarto, com seus braços cruzados sobre o peito e os olhos grandes e sérios examinando a cena: a mãe na cama, o pai sentado na cadeira ao lado, a distância física entre eles que ela, mesmo com seus seis anos, conseguia medir e achar deficiente.
— Olá, meus amores. — disse , forçando um sorriso que esperava ser tranquilizador. Ela estendeu o braço não enfaixado para , que prontamente subiu e se encostou na cama.
Ethan fez um aceno breve para .
— Tudo bem por aqui? — sua voz era prática.
— Tudo sob controle, pai. Obrigado por trazê-las — respondeu , erguendo-se.
A tensão entre os dois homens era visível, mesmo após anos. A história de traições e desapontamentos que conhecia muito bem, tão bem ao ponto de ser envolvida completamente para tudo aquilo. Ethan, afinal, era o elo original dessa corrente. Foi a traição dele com a mãe de que, anos atrás, tinha colocado e no mesmo caminho e os mantido juntos até então.
— Certo. Então, eu volto mais tarde — Ethan disse, recuando para o corredor e fechando a porta com um clique suave.
O quarto ficou em silêncio, ocupado apenas pela respiração de e pelo olhar desconfiado de .
Os olhos redondos e curiosos de pousaram no braço enfaixado da mãe.
— Mamãe, seu braço tá com defeito? — sua voz era um fio de preocupação e curiosidade.
riu, um som leve e genuíno que parecia estranho até para seus próprios ouvidos.
— Não, meu amor. Não está com defeito. Só está um pouquinho machucado, então os médicos enfaixaram para proteger.
processou a informação, com sua cabecinha loira inclinando-se para o lado. Então, seu olhar subiu até o pequeno arranhão na testa de .
— E a sua cabeça? Vão enfaixar a sua cabeça também?
Dessa vez, soltou uma risada abafada. Era impossível não rir da lógica encantadora e desimpedida de .
— Não, pestinha. — ele interveio, suavizando-se ao falar com a caçula. — A cabeça da mamãe só tem um arranhãozinho. Não precisa de bandagem.
— Ah — disse , satisfeita. Ela então escalou para o outro lado da cama, com alguma dificuldade, e se aninhou contra o lado são de . — Eu gosto de bandagem. É colorida.
, ainda plantada como uma sentinela perto da porta, finalmente falou, sua voz possuía um tom mais baixo e carregado do que deveria ser para uma criança.
— Por que o vovô nos buscou na escola? Você vai ficar aqui a noite toda?
trocou um olhar rápido com , considerando que este deveria ser o momento. O ar, que já era pesado, ficou mais espesso. puxou a cadeira para mais perto da cama, sentando-se na beirada.
— Venha cá, — pediu , estendendo a mão. — Temos uma coisa para contar para vocês duas.
Relutantemente, arrastou os pés pelo chão, parando a alguns centímetros da cama, recusando-se a ser puxada para a órbita do que quer que fosse que seus pais iriam anunciar. Ela já tinha ouvido muitos "anúncios" recentemente, e nenhum deles foi bom.
respirou fundo, decidindo não forçar a filha deles a uma aproximação. tinha seu próprio jeito de lidar com as coisas, ela era sensível e madura demais pra idade, mas ainda era uma criança.
— Meninas, a mamãe, bem, nós... — ele hesitou, procurando as palavras no rosto cansado de . Ela o encorajou com um pequeno aceno. — Nós vamos ter outro bebê.
O silêncio que se seguiu foi cortante. empurrou o corpo para longe de , com seus olhos arregalados como pratas.
— Um bebê? De verdade? — seus lábios se abriram em um sorriso de orelha a orelha, toda a preocupação com braços enfaixados e cabeças arranhadas foi repentinamente esquecida. — Dentro da sua barriga, mamãe?
— Dentro da minha barriga — confirmou, seu coração apertando ao ver a pura e imediata alegria de . Era exatamente como tinha previsto.
— E eu vou poder brincar com o bebê? Que nem eu brinco com as minhas bonecas?
estava prestes a responder que um bebê não seria como um boneco quando se afastou bruscamente deles, todos os olhos se voltaram para a primogênita do casal. Seu rosto fechou. Seu queixo tremeu ligeiramente, mas ela o manteve firme, então seus braços se cruzaram com mais força, como um escudo.
— Por que? — a palavra saiu como um estalo, carregada de uma angústia que ia muito além dos seus seis anos.
— Por que o quê, querida? — perguntou , suavemente.
— Por que vocês vão ter outro bebê? — explicou, sentindo sua voz começar a falhar. — Vocês nem conseguem cuidar direito da gente. Vocês brigam o tempo todo. O papai saiu de casa. A mamãe está no hospital. Quem vai cuidar do bebê?
Cada palavra foi uma punhalada fina e cortante. baixou a cabeça, esfregando o rosto com as mãos. A culpa era um gosto amargo na sua boca.
Ela tinha tanta razão.
A filha dos dois tinha mais razão do que eles tiveram em todos esses anos de relacionamento.
— a voz de saiu rouca. — Nós somos uma família. As coisas estão difíceis agora, eu sei, mas nós vamos cuidar do bebê, e vamos cuidar de vocês duas.
— O bebê é uma coisa boa, filha. — tentou, sentindo a defensiva da filha apertá-la tanto quanto uma parede física. — É uma parte de mim e do papai, assim como vocês são. Uma parte do nosso amor.
encarou a mãe e pôde ver as lágrimas teimosamente contidas brilhando nos olhos da filha.
— Mas vocês não se amam mais! — ela exclamou. — Vocês não mais casados e nós não somos mais uma família! Nós vamos ter que dividir duas casas com um bebê também? O bebê vai morar uma semana com você e uma com o papai? A chorou todas as noites!
, cuja alegria momentânea foi ofuscada pela dor da irmã, começou a ficar agitada. Era dolorido ver seu lindo sorriso se desfazendo.
— Eu não chorei todas as noites — sussurrou insegura, tentando, de alguma forma, negar a própria tristeza para não ser um fardo a mais.
— Chorou sim! — insistiu , transformando sua dor em raiva. — Eu ouvi! E eu também chorei! E agora vão trazer um bebê para chorar também? Porque ele vai chorar! Não quero! Não preciso de outro irmão! Já é difícil demais cuidar da enquanto vocês brigam e brigam e vão embora! E eu... — sua voz trincou, e pela primeira vez, a fúria deu lugar a um tremor de vulnerabilidade absoluta. — E eu tive que contar para ela que tudo ficaria bem, mesmo sem saber se ia ficar! Eu tive que mentir para ela também! — A revelação foi um golpe baixo e sujo. sentiu as pernas ficarem fracas, mesmo deitada. "Já é difícil demais cuidar da ." , tinha assumido um fardo que nunca deveria ser seu. Ela não estava apenas com ciúmes; ela estava exausta. Quando e moravam juntos, eles dividiam-se. Um ficava com as meninas, enquanto outro trabalhava. Agora que um deles não estava mais em casa, enquanto trabalhava achando que as meninas estavam brincando, a cuidava da irmã.
E eles não perceberam.
Céus.
Ela deu meia-volta e correu para a porta, mas, incapaz de sair sozinha, simplesmente encostou a testa na madeira fria, com seus ombros sacudindo em silêncio. A cena despedaçou o que restava do coração de . Ela olhou para e viu seu próprio desespero e falha refletidos nele. Eram dois pais quebrados, tentando consertar uma família com as próprias mãos feridas. O amor ainda estava lá, mas naquele momento, parecia terrivelmente insuficiente.
se levantou e foi até . Ele se ajoelhou, colocando uma mão hesitante nas suas costas.
, por favor. — Ela não se mexeu. — Eu sei que magoamos vocês quando nós... quando nos separamos. — ele continuou, engolindo sexo. — E sinto muito. Sinto muito por tudo. Por ter ido embora, por ter brigado, e por vocês terem se sentindo tão mal, mas o bebê... o bebê é uma coisa boa.
— Você bateu na mamãe? — a pergunta de saiu abafada contra a porta.
O ar saiu dos pulmões de como se ele tivesse levado um soco. Ele olhou para , com seus olhos cheios de um horror resignado. Ela segurou o olhar dele, e naquele silêncio pesado, toda a feiura do que acontecera veio à tona tão forte que ele mal pode segurar, ou pensar.
— Que? Da onde... Onde surgiu isso?
— A vovó falou. Eu ouvi. — ficou petrificado, ele não conseguia responder. O rosto de esvaziou de todo o sangue, deixando uma palidez cadavérica. Ele olhou para e seus olhos não estavam apenas cheios de horror, mas de um pânico absoluto, um animal encurralado vendo o abismo se abrir. O segredo mais podre, a falha mais inominável, tinha escapado e atingido justamente a pessoa que ele mais queria proteger da sua própria escuridão. — Você vai bater no bebê?
— Não! — a resposta de foi instantânea, visceral. — Nunca. Eu juro por tudo, . Nunca.
, assustada com a intensidade, começou a chorar baixinho. a puxou para mais perto, aconchegando-a.
— Chega, por hoje — sussurrou para , exausta.
Ele assentiu, parecendo ter envelhecido dez anos em dez minutos. Ele se levantou, com as pernas pesadas.
— Vamos, meninas. A mamãe precisa descansar. O vovô está lá fora para levar vocês para jantar.
saiu da cama e foi para o pai, enlaçando sua perna. a pegou no colo, aninhando o rosto no pescoço dela, buscando consolo no seu cheiro inocente. não se moveu. Ela olhou para a barriga ainda plana de , depois para o rosto pálido da mãe.
— É um menino ou uma menina? — ela perguntou, sua voz neutra, sem emoção.
— Ainda não sabemos — respondeu , surpresa pela pergunta. — Vai demorar um pouco para descobrir.
apenas acenou com a cabeça, mantendo em seu rosto uma máscara de maturedade forçada. Ela então se virou e saiu do quarto, deixando a porta entreaberta.
carregou e seguiu a filha mais velha, lançando um último olhar para antes de sair. Percebendo o clima, Ethan apareceu de novo. Ele aproximou-se em silêncio, colocando uma mão pesada no ombro do filho.
— Está tudo bem?
abanou a cabeça, incapaz de falar. Como poderia estar tudo bem? A filha acreditava que ele era um monstro. E, no fundo, no mais profundo do seu ser, ele sabia que, naquele único e devastador momento, ele tinha sido. estava parada ao lado do avô, olhando fixamente para os sapatos.
— Preciso levá-las para jantar — disse , a voz rouca.
— Ethan chamou, ignorando o filho. — Vamos, querida. O vovô vai te levar para comer uma pizza.
não se moveu.
— a voz de foi um fio de som, uma súplica.
Ela se virou lentamente. Seus olhos, tão parecidos com os da mãe, estavam vermelhos, mas secos. Eles passaram do avô para o pai, e então para a irmãzinha nos braços dele.
— Eu não quero pizza — ela disse. — Eu quero voltar para a mamãe.
— A mamãe precisa descansar — argumentou, sentindo o chão ceder sob seus pés. Ele não suportava a ideia de voltar para aquele quarto sem nem ao menos uma das respostas para as indagações da filha.
— Eu vou ficar quietinha. Eu prometo. — Os olhos de se fixaram nos dele, e ele viu não apenas a dor, mas a mesma teimosia feroz que ele possuía. Ela estava testando-o. Desafiando-o. Querendo ver se ele a afastaria
Ethan suspirou, exasperado.
, resolva isso.
fechou os olhos por um instante. A fuga era tentadora. Entregar as meninas para o pai, afundar-se na solidão de um bar qualquer e afogar a culpa em álcool.
Mas a imagem de , de pé sozinha no corredor, encarando o bebedouro como um soldado abandonado no campo de batalha, quebrou-o.
— Tudo bem — ele concordou, a derrota tingindo sua voz. — Só por um minutinho. Nós temos mesmo que conversar um pouco mais com ela.
foi direto para a cama, mas não se deitou. Sentou-se na beirada, bem perto de , e pegou sua mão, a que não estava enfaixada. Seu toque era surpreendentemente suave.
— O bebê vai ter meu quarto? — ela perguntou, com seu olhar fixo na parede à frente, não em .
engoliu em seco, confusa com a mudança repentina de assunto.
— Seu quarto? Não, querida. O bebê vai ficar no berço no nosso... no quarto, no começo.
— O tem o quarto dela, e eu tenho o meu — continuou, sua lógica infantil traçava os contornos do seu mundo despedaçado. — Se o papai não está mais em casa, o bebê pode ficar no quarto dele.
, que estava parado perto da porta, sentiu as palavras dela como pequenas facadas. Ela não estava apenas tentando entender o futuro; ela estava tentando reorganizá-lo, encontrar um lugar para esse novo ser na nova e estranha configuração da sua família.
— Ainda não decidimos nada, disse suavemente, apertando a mão da filha. — Nós temos muito o que conversar.
finalmente se virou para olhar para a mãe.
— A vovó mentiu? — ela perguntou, direto ao ponto.
A pergunta caiu no quarto como uma pedra. parou de respirar. sentiu a mão de tremer levemente na sua. Ela escolheu suas palavras com o cuidado de quem manuseia vidro quebrado.
— A vovó... repetiu algo que não era verdade. Ela não devia ter falado sobre isso, e você não devia ter ouvido. São coisas de adulto, coisas complicadas.
— Coisas complicadas que machucam — declarou, não como uma pergunta, mas como um fato.
— Sim — a voz de quebrou. — Coisas complicadas que machucam muito.
ficou em silêncio por um longo momento, olhando para as mãos entrelaçadas. Quando ela falou de novo, sua voz era um sussurro quase inaudível.
olhou para o pai e pela primeira vez desde que tinha entrado no quarto, uma lágrima solitária escapou e rolou pelo rosto de . Ela não disse nada. Apenas soltou a mão de e, com uma hesitação que partiu o coração de ambos os pais, estendeu a mão para enxugar a lágrima que agora escorria pelo rosto de .
Era um perdão minúsculo, frágil e quase imperceptível. Mas naquele quarto de hospital, parecia um pequeno e gentil milagre.




ANTES



A casa cheirava a ele. Não apenas ao perfume pesado e caro que minha mãe agora borrifava nos pulsos antes do jantar, nem ao amadeirado e severo que emanava do casaco de Ethan pendurado no cabide do hall. Era uma mistura dos dois, um odor estranho, invasivo, que tinha se impregnado nas cortinas, no sofá e até mesmo no ar que eu era forçada a respirar.
Apesar disso, o pior cheiro ainda vinha do jardim.
Era o jasmim, eu acho.
O pé trepadeira que meu pai plantara anos atrás, sob minha janela, para que o doce perfume entrasse no meu quarto e me embalasse no verão. Era a última coisa viva que ele deixara. E agora, o jasmim florescia, indiferente, exalando sua fragrância ingênua sobre a casa que abrigava um segredo sujo. Era como se a memória do meu pai estivesse sendo usada para perfumar o adultério da minha mãe.
Eu não aguentava mais.
Do meu quarto, eu ouvia as vozes baixas deles na sala de jantar, o timbre seguro de Ethan, a risadinha nova, ansiosa, da minha mãe. Era baixo, mas ao mesmo tempo conseguia ser tão alto em minha cabeça que pareciam gritos. Eu não podia acabar com os gritos, então saí do quarto em silêncio e desci as escadas evitando os degraus que rangiam. A cozinha estava escura, passei por ela e abri a porta dos fundos, saindo para o quintal. A lua cheia banhava ele. O jasmim. As flores cobriam a cerca como um manto luxuriante, com suas flores brancas, pequenas e inocentes. O perfume era quase ofensivo em sua intensidade, doce demais, se eu pudesse categorizar, diria que ele era um perfume de conto de fadas em um cenário de pesadelo.
A raiva, que eu mantivera contida em um lugar pequeno e duro dentro do peito, começou a ferver.
Não era uma raiva barulhenta, mas era uma coisa silenciosa e assassina. Assassina o suficiente para que eu pegasse um pedaço de pau que estava caído perto da pilha de lenha. Caminhei até a cerca e comecei a dar golpes. A primeira vara que atingi quebrou com um estalo satisfatório. Flores brancas voaram, pétalas caíram como confete.
Eu golpeei de novo.
E de novo.
O pau cortava os galhos verdes, arrancava folhas e despedaçava.

Traidora.
Golpe.
Você apagou ele.
Golpe.
Seu sorriso nunca foi assim com o papai.
Golpe.

Eu respirava ofegante, o suor escorregava pelas minhas têmporas, misturando-se às lágrimas de fúria que finalmente escapavam. Eu não estava apenas destruindo uma planta, sabia disso no fundo. Sabia que estava tentando destruir o cheiro, tentando apagar a memória que agora estava contaminada e tentando, de alguma forma, machucar a nova felicidade plástica da minha mãe, que tinha sido construída sobre o túmulo do meu pai e sobre os escombros de outra família.
— Você realmente odeia jardinagem.
Eu congelei, com a madeira ainda erguida no ar. Meu coração deu um salto de susto, seguido por uma onda de vergonha quente. Seu olhar não estava na planta destruída, mas no meu rosto. Ele não parecia surpreso.
— O que você está fazendo aqui? — Minha voz saiu áspera, defensiva.
Ele encostou no portão, com as mãos nos bolsos.
— Eu vim te ver, inicialmente. Depois vi as coisas do meu pai — Ele falou isso com uma naturalidade assustadora, como se estivesse comentando sobre a rota do ônibus escolar. — Só não sabia que ele estava… se mudando.
Eu baixei a estaca em minha mão, mas não a soltei.
— Ele não está se mudando, já se mudou. Sua escova de dentes está no nosso banheiro. — fechou os olhos por um breve instante, como se absorvesse o golpe. Quando os abriu, seu olhar estava mais duro. Eu joguei a estaca no chão. — O meu pai plantou isso para mim. Agora o perfume me dá enjoo. — Ele olhou para a devastação que eu causei, para os galhos quebrados e as flores pisoteadas na terra, em seguida deu alguns passos para dentro do jardim, parando a alguns metros de mim.
— Eles vão se casar — eu disse, cuspindo a informação como se fosse veneno. Era um fato que eu tinha guardado para mim, mas na presença dele, da única pessoa que entenderia seu peso total, precisava sair.
não reagiu com choque ou espanto, apenas uma contração quase imperceptível no músculo de sua mandíbula.
— Faz sentido. Meu pai gosta de fazer as coisas “da maneira correta”. Irônico, não é? Eles quererem fazer algo da maneira correta.
A amargura dele era um espelho da minha, acho que nunca me identifiquei tanto com alguém quanto me identifiquei com . Não sabia se era pelas dores parecidas ou por algo a mais. Eu me sentei no degrau da porta dos fundos, exausta de repente. Ele hesitou, e então se sentou no chão de terra, a alguns passos de distância, encostando as costas na cerca que ainda sustentava os restos do jasmim.
— Por que você veio hoje? — perguntei, em voz baixa. — Para ver com seus próprios olhos?
Ele pegou uma flor de jasmim que havia sobrevivido ao meu ataque, do chão, e girou-a entre os dedos.
— Eu não menti. Eu vim para ver você. — Olhei para ele, surpresa. — Eu sabia que ele tinha amantes, minha mãe também. Eu ouvia as brigas em casa. Com a sua mãe, sei lá, parece real demais. Desde o dia que te vi pareceu, acho que isso foi pior, porque significava que a amante não era apenas uma mulher. Era uma mãe. Tinha uma filha. Tinha uma casa com jasmim. Era uma vida inteira que ele estava invadindo, não só a minha. Eu te odiei, por um segundo — ele admitiu, um pouco áspero. — E então eu pensei: ‘Ela provavelmente também nos odeia’. E de alguma forma, isso foi menos pior.
Eu engoli em seco. Ele tinha razão. Eu odiava a ideia da esposa traída, da família perfeita que ele tinha em casa. Odiava porque sua existência tornava a minha mãe a vilã, e a mim, a cúmplice.
— Eu não te odeio — eu disse, e era verdade. — Eu só odeio tudo isso.
— Eu também — ele concordou, simplesmente.
Ele jogou a flor longe, como se ela queimasse.
— O que vamos fazer? — A pergunta escapou de mim, carregada de uma vulnerabilidade que eu não pretendia mostrar.
olhou para mim.
— Não sei. Mas gosto de você, somos os únicos que sabem como é o gosto dessa merda toda.
— Eu só queria que o cheiro parasse — confessei, com minha voz quebrada. — Ele plantou isso. Era dele. Agora só me lembra que ele sumiu e outro homem vai ficar.
olhou para os galhos quebrados, para o massacre.
— Você não pode matar uma planta só porque ela cheira — ele disse, mas não era uma crítica. — A raiz ainda está lá. Vai crescer de novo.
— Então eu arranco a raiz!
— E depois? — Ele deu um passo à frente. O perfume do jasmin destruído era agora agridoce. — Vai ficar um buraco feio, vazio. E o cheiro deles ainda vai estar dentro da casa.
Ele tinha razão.
A revolta era inútil.
A destruição, um teatro.
A dor permanente.
A porta da cozinha se abriu com força.
! Meu Deus, o que você fez?! — A voz da minha mãe era um misto de horror e irritação. Ela viu e parou, pude ver o sangue sumindo do seu rosto. Claro que ela sabia quem era ele, claro que já tinha visto foto e ouvido histórias. — . O que você está fazendo aqui?
Ele virou-se para ela, e pela primeira vez, vi como o filho de Ethan, ele ergueu-se à sua altura total, e seu olhar, antes confuso, tornou-se frio.
— Só vim ver onde meu pai vai morar, Sra. Lawson. — O título formal caiu como uma luva de ferro. — E ver a árvore que sua filha está tentando matar. Parece que não é só na minha família que as coisas estão morrendo.
Sem dizer mais nada, ele virou-se e desapareceu na escuridão, pelo mesmo portão por onde entrara. Minha mãe ficou paralisada na porta, com a mão ainda na maçaneta, como se as palavras de a tivessem cravado no lugar. A expressão dela era uma coisa frágil e feia de se ver: culpa, medo e uma ponta de raiva por ter sido desafiada. Ela olhou para o jardim devastado, para as pétalas brancas esmagadas na terra escura, e depois para mim, encolhida no degrau com terra nas mãos e nos joelhos.
— O que ele quis dizer com isso? — Ela perguntou, mas a pergunta era retórica. Ela sabia. Sabia perfeitamente. Eu não respondi. O cansaço pesava meu corpo de forma tão contínua que até falar era cansativo. — Deus, olha o que você fez com o jasmim do seu pai. — ela disse, eu sorri na hora, mas não foi bem um sorriso. Acho que foi uma careta. Não era pela planta, nem pelo meu pai. Era porque eu tinha violado a frágil fantasia que ela estava construindo, onde tudo era belo e novo, e o passado podia ser convenientemente esquecido, não destruído. Levantei os olhos para ela, e devo ter parecido uma estranha, porque ela recuou um passo.
— E o que mais dele ainda temos aqui, mãe? A cadeira na sala? Você já trocou o estofado. As fotos? Estão no meu quarto. O cheiro do café da manhã dele? Agora é café gourmet do Ethan. — Levantei-me, mas as pernas permaneciam trêmulas. — Você está apagando tudo e trouxe o cara que está apagando outra família inteira pra ajudar. Parabéns. Vocês dois combinam perfeitamente.
O tapa veio rápido, num estalo seco. Minha face queimou, mas a dor era bem-vinda naquele momento, era algo real, algo que vinha dela, e não dessa névoa de falsidade em que vivíamos desde que ela aceitou se tornar amante e nem sequer teve a consciência pesada por isso, por fingir que tinha uma família que não era dela e por roubá-la assim.
Ela levou a mão à boca, horrorizada consigo mesma.
... eu...
— Pode guardar para você. — interrompi, passando a mão pelo rosto. — É a coisa mais honesta que você fez em meses.
Virei-me e entrei em casa, deixando-a sozinha entre os restos do jasmim. Subi as escadas devagar e ao passar pela sala, vi a mala marrom de couro perto do sofá, como um animal estranho adormecido. A mala da família de . Entrei no meu quarto e fechei a porta. Não tranquei. Já não havia mais privacidade que valesse a pena. O cheiro do jasmim era mais fraco agora, mas ainda entrava pela janela. A destruição não o eliminara, apenas o mutilara. tinha razão. A raiz ainda estava lá. Encostei a testa no vidro frio da janela e olhei para o vão escuro do portão. Para onde ele tinha ido? Para casa, para uma mãe destroçada? Para dirigir sem rumo pelas estradas escuras, engolindo a mesma raiva e humilhação que eu?
Com movimentos quase mecânicos, peguei o laptop velho da escrivaninha. Eu posia sentir minhas mãos tremerem levemente enquanto digitava o seu nome. Ele era fácil de encontrar, mais do que imaginei que seria, seu perfil tinha poucas fotos. Em algumas delas, ele sorria. tinha um dos sorrisos mais bonitos que eu já vi. Ele era bem bonito. Espero muito que não se torne meu "irmão".
A caixa de texto em branco me encarou, respirei fundo e digitei, sem pensar:

. Do jardim. Preciso sair desta casa. Por uma hora. Meio que você topa?

Enviei.
O que eu fiz? Ele vai me ignorar. Vai me achar louca.
Enterrei o rosto no travesseiro e tenho certeza que minutos se arrastaram.

. Do portão. Eles vão perceber que você saiu.

Deixa que percebam

Parque da cidade. O estacionamento perto do lago. Em 20 minutos. Não fique parada esperando, se eu demorar vá embora. Está tarde e não quero você sozinha.


Ele era protetor. Eu gostava disso.

?

Sim?

Obrigado. Por não ser só a filha dela.





AGORA


A luz da manhã invadia a cozinha, impiedosa, revelando cada migalha no chão e cada nervura de cansaço no rosto de . Ela estava encostada na geladeira, com os olhos fechados contra o enjôo que teimava em não ceder ao chá de gengibre. Essa gravidez estava sendo mais agressiva, golpeando-a com enjoos a cada cheiro diferente que sentia, mesmo aos seus favoritos. Do lado de fora, o silêncio do quintal foi abruptamente rompido.
— MÃE! PAI! SOCORRO! TEM UM BANDIDO NO JARDIM!
A voz de , mais estridente que um alarme, fez os dois adultos se entreolharem e correrem para a porta dos fundos antes mesmo de processarem. "Bandido" poderia ser qualquer coisa para a pequena, desde um pardal agressivo até um homem mascarado, no entanto, o que encontraram foi ainda mais surreal. Encostada na cerca de madeira, lambendo uma pata com ar de total despreocupação, estava uma cadela vira-lata de porte médio, com pelo amarelo-claro e orelhas meio caídas. Ela parecia exausta. Rastejando ao redor dela, em um emaranhado de patinhas desengonçadas e rabos microscópicos, havia uma confusão de filhotes. Não três ou quatro. Oito. Oito minúsculas bolas de pelo, brancas, amarelas, malhadas, buscando desesperadamente o leite da mãe.
— Não é um bandido, , é uma mamãe cachorro e seus filhotinhos — explicou , com a paciência condescendente de quem já tinha entendido a cena. Ela estava agachada a uma distância respeitosa, observando.
— Mas ela é bandida porque invadiu nossa casa! — insistiu , agora fascinada, se aproximando perigosamente. — Olha quantos bebês! São um monte de invasores!
esfregou o rosto com as mãos.
— Meu Deus. Ela deve ter entrado pelo buraco da cerca que eu ainda não consertei e acabou parindo aqui.
sentiu o enjôo se transformar em um aperto de pânico. A conta em sua cabeça não batia e insistia em fazê-la sentir-se tonta.
Uma cadela.
Oito filhotes.
Em seu quintal.
Na manhã seguinte a ela voltar do hospital, grávida, com o casamento em frangalhos e duas crianças para criar sozinha.
Claramente o universo a odiava e decidiu fazer uma piada de mau gosto.
— Nós temos que ligar para o canil ou para algum abrigo o mais rápido possível. — ela disse, sentindo a voz soar fraca até para seus próprios ouvidos.
— NÃO! — se jogou no chão, literalmente se colocando entre os pais e a ninhada. — Eles não têm casa! A mamãe cachorro escolheu a nossa casa para ter os bebês! É um presente!
— Não é um presente, , é uma responsabilidade enorme. — tentou, embora seus olhos também estivessem presos aos filhotes e a cadela olhando para eles com uma expressão cansada e quase suplicante. — Nós nem conhecemos essa cadela.
— Agora conhecemos! — anunciou , como se isso resolvesse tudo. — Eu vou chamar ela de... Girassol! Porque é amarelinha! E os bebês podem ser Botão, Margarida, Pipoca... — Ela começou a nomear ali mesmo, apontando para cada um.
— Não podemos ficar com nove cachorros, firmou a voz, tentando soar final. A dor de cabeça latejava em suas têmporas. — É impossível. Nem sabemos se ela é saudável, se tem vacinas e nem da personalidade dela. Ela pode ser perigosa, sabia?
Foi quando se levantou. Ela caminhou até a cadela e, com uma calma que contrastava com o caos, se ajoelhou lentamente. A cadela levantou a cabeça, mas não rosnou, ao invés disso, cheirou a mão estendida de e deu uma leve lambida.
— Ela não é brava — declarou, olhando por cima do ombro para os pais. — Ela só está com muito medo e cansada. Olha onde ela veio parir, mamãe. No nosso mato, ela está sozinha e não tinha um lugar melhor.
Havia uma acusação sutil nas palavras de , ecoando o sentimento de desamparo que ela mesma carregava. Ela não tinha um lugar melhor. Assim como a gente, agora, meio que não tem.
começou, com sua voz carregada de um cansaço profundo, ele odiava dizer não as filhas e na situação atual, talvez odiasse ainda mais.
— Você disse — o interrompeu, com seus olhos grandes e sérios fixos nele — que a família é pra cuidar um do outro quando as coisas ficam difíceis. Que mesmo quando a gente briga, a gente não abandona. — Ela fez uma pausa, deixando as palavras, que eram um eco distorcido das que ele usara no hospital, pairando no ar. — A Girassol e os filhotes são uma família e eles estão em dificuldades. Aqui. No nosso lugar. Se a gente ligar para o abrigo, eles vão separar todo mundo. Os bebês vão morrer sem a mãe, ou a mãe vai ficar triste e sozinha sem eles.
Era um discurso articulado, emocionalmente carregado e brutalmente eficaz. não estava apenas pedindo por cachorros, ela estava testando os princípios que tentara desesperadamente vender como verdades. Ela estava forçando-o a praticar o que pregava, usando a cadela e seus filhotes como metáfora ambulante de sua própria família despedaçada. A inteligência aguçada das filhas assombravam os pais nesse momento, principalmente o homem, que tremia de receio em decepcionar a filha novamente. sabia disso. Sabia da dor que ele sentiu quando não quis vê-lo e sabia que ele temia que, o menor das negativas, trouxesse isso novamente. ficou mudo. Ele olhou para , buscando aliado, mas viu apenas o mesmo conflito refletido nela. Negar seria confirmar, para , que os ideais de família eram apenas palavras vazias. Seria, de alguma forma, repetir o abandono que ela tanto temia. , percebendo a brecha aberta pela irmã, jogou-se nos braços de , abraçando seu pescoço.
— Por favor, papai? A gente pode cuidar! Eu vou ajudar a ! A gente dá banho, dá comida também. E aí a mamãe nem vai precisar fazer nada! A mamãe pode descansar com o bebê na barriga!
A menção do bebê fez levar a mão instintivamente ao ventre. Um novo ser. Oito novas vidas. A casa vazia e silenciosa que ela temia enfrentar agora ameaçava se tornar um canil. O pânico a inundou, mas sob ele, uma onda irracional de algo que não era alegria. Era o universo rindo e dizendo: Você acha que está no controle? Aqui, tome mais vida. Mais caos. Mais amor não solicitado.
— a voz de saiu rouca. — É uma loucura.
— Eu sei — ele respondeu, quase num sussorro, mantendo sua testa encostada na de e seus olhos fechados.
— Nós não temos condições de nos preocupar com isso agora. — ela insistiu, mas a convicção já vacilava.
— Eu... eu posso vir todos os dias, para ajudar a cuidar deles. Eu posso consertar a cerca, construir um canil melhor, levar a cadela no veterinário. — As palavras saíam de como uma torrente, uma tentativa desesperada de encontrar uma solução, de fazer algo, de consertar algo, mesmo que fosse a vida de uma cadela.
Em troca, ele estava se oferecendo, oferecendo uma presença constante. Uma desculpa para estar na casa todos os dias.
Era um cavalo de Tróia peludo e de oito filhotes.
percebeu a vitória iminente. Ela pegou o filhote mais fraquinho, o branco que parecia ter dificuldade para competir pelos mamilos, e o trouxe até .
— Olha, mãe. Ele é o menor. Precisa de ajuda. A Girassol não vai conseguir cuidar de todos sozinha.
olhou para a criatura minúscula e trêmula na mão de sua filha. Um ser frágil, dependente. Uma metáfora tão óbvia que doía. Seu coração, já tão vulnerável, cedeu. Não por causa dos cachorros, mas por causa da luz nos olhos de , que pedia por um ato de família. Talvez por causa do desespero de para ser um bom pai ou por causa do próprio instinto grávido dentro dela, que se recusava a virar as costas para a vida. Ela soltou um longo suspiro.
— Está bem.
soltou um grito de vitória que fez a cadela levantar as orelhas, alerta.
— FICAMOS COM TODOS!
— NÃO — ergueu a voz, encontrando um último resquício de autoridade. — Ficamos com eles temporariamente. Até os filhotes estarem desmamados e saudáveis para adoção. Então encontraremos bons lares para sete deles. Podemos ficar com um. Apenas um.
Era um compromisso. Um meio-termo caótico e insano, mas era um plano. acenou, com um pequeno e raro sorriso tocando seus lábios ao acariciar o filhote branco. olhou para com uma mistura de admiração, culpa e alívio tão intenso que ela precisou desviar o olhar.
— Certo — ele disse, esfregando as mãos, assumindo um ar prático para esconder a comoção. — Preciso de caixas, cobertores velhos, água e ração. , você pode me ajudar a buscar os cobertores do armário da lavanderia?
Enquanto pai e filha se agitavam, se aproximou de , ainda segurando o filhote.
— Obrigada, mãe.
— Não me agradeça ainda — murmurou, sentindo outra onda de enjôo. — Vai ser um inferno.
— Mas vai ser um inferno com cachorros — disse, com uma sabedoria muito além de seus seis anos. — É melhor que um inferno quieto.
E então, com a mão livre, tocou levemente a barriga ainda plana de .
— O bebê vai gostar do barulho.
Apoiada na pia, respirou fundo.
Antes que pudesse responder a , o universo decidiu provar seu ponto sobre o inferno com cachorros. O caos, que até então era um potencial, desencadeou-se em cascata. , tentando ser útil, voltou da lavanderia carregando uma pilha instável de cobertores velhos e lençóis furados. , em sua missão de ajuda, corria em círculos ao seu redor, batendo palmas e gritando.
— Vamos fazer uma cama fofinha para os bebês! — O movimento brusco e o barulho foram o gatilho. Dois filhotes mais aventureiros, um malhado e um amarelo, que estavam explorando os limites do ninho, deram um salto desengonçado e saíram cambaleando pela grama em direções opostas. A mãe, Girassol, levantou-se de um salto, soltando um rosnado baixo de preocupação, ela não sabia se ia atrás de um ou de outro. — O filhotinho está fugindo! — berrou , mudando de missão instantaneamente e correndo atrás do malhado, que, assustado com o monstro barulhento que se aproximava, tropeçou e rolou direto para baixo do velho balanço de ferro.
, não corra! Você vai pisar neles! — gritou, mas já era tarde. Ele tentou desviar do filhote amarelo que ziguezagueava perto de seus pés, tropeçou na pilha de cobertores e caiu de joelhos na grama molhada, os lençóis voando como bandeiras de rendição.
— Papai caiu! — anunciou , com um misto de alarme e fascínio.
Nesse momento, o filhote branco, o mais fraco que segurava com tanta reverência, decidiu que aquela era a hora perfeita para liberar seu minúsculo sistema digestivo. Um jato morno e amarelado escorreu pelo braço de e pingou no pé descalço de .
— Eca! — gritou , mais surpresa do que enojada, segurando o filhote esticado como se fosse uma bomba relógio prestes a explodir. O cheiro ácido e doce da urina de filhote, combinado com o cheiro de terra molhada, grama cortada e o café de dentro de casa, foi a combinação final. A náusea que vinha segurando com força de vontade pura rompeu todas as barreiras. Ela se virou e não conseguiu nem chegar à pia. A primeira convulsão de vômito, seca e agonizante, a dobrou ao meio no meio do caminho, suas mãos se agarrando à moldura da porta da cozinha. Ela vomitou no limiar, o chão de madeira recebendo o suco gástrico amargo e o resto do chá de gengibre. — Mãe! — A voz de foi um corte limpo através do pandemônio.
O filhote amarelo parou de correr. congelou debaixo do balanço. , ainda de joelhos no meio dos cobertores, olhou para preocupado. A mulher, por sua vez, ficou ofegante, com os olhos cheios de lágrimas involuntárias da força do enjoo, uma linha de saliva conectando seus lábios ao chão. Sentiu-se completamente exposta, miserável, envergonhada e doente. Esta era a imagem da sua maternidade agora: grávida, vomitando no quintal enquanto um exército de cachorros recém-nascidos e suas duas filhas assistiam. Girassol, a cadela, deixou seu ninho. Ignorando seus filhotes desgarrados, ela atravessou o quintal com passos cansados mas decididos e chegou até , então parou, e com um movimento infinitamente gentil, lambeu o pulso trêmulo de que estava agarrado à madeira. Era um gesto instintivo, de uma mãe para outra.
A simplicidade disso quebrou . De forma inesperada, uma risada trêmula, meio soluço, meio gargalhada, escapou de seus lábios.
— Olha — ela engasgou, limpando a boca com o dorso da mão. — Até a cadela estranha tem pena de mim.
se levantou, ignorando a terra nos joelhos da calça. Em três passos largos, ele estava ao seu lado. Sem pedir permissão, ele passou um braço firme ao redor de seu quadril e ajudou a mulher, segurando-a enquanto ela tremia.
— Vamos te levar para dentro — disse ele, com sua voz firme, ancorando-a. — , pegue um pano molhado, por favor. , fique parada e NÃO MEXA NOS FILHOTES.
— Mas o piratinha... — começou .
— PARADA. — a voz de era raramente usada naquele tom de comando, e o efeito foi instantâneo. ficou plantada no lugar, mantendo os olhos arregalados.
, ainda segurando o filhote urinador com cuidado, correu para dentro para buscar o pano. guiou para longe da bagunça, levando-a para o sofá da sala. Enquanto se deixava cair no sofá, pálida e exausta, pegou o pano das mãos de e, ajoelhando-se diante dela, começou a limpar delicadamente seu pé. Não foi uma limpeza qualquer. Foi um ato de cuidado meticuloso. Ele limpou cada dedo, passando o tecido macio entre eles, removendo o resíduo morno com uma paciência infinita. Seu toque era firme, mas suave, o mesmo que usava anos atrás para massagear seus pés inchados no final das duas primeiras gravidezes, quando o mundo deles ainda parecia sólido. Ele não falou nada, em vez disso, sua atenção era uma linguagem completa. Quando terminou de limpar, ele não soltou seu pé imediatamente. Com o polegar, ele começou a fazer pequenos círculos na planta do pé dela, numa pressão suave e conhecida, um gesto tão íntimo que fechou os olhos por um segundo, sentindo uma tensão escapar de seus ombros. Era um ponto no corpo dela que ele conhecia melhor do que o próprio, um ponto que sempre a fazia derreter, mesmo nos piores dias. então pegou a manta que estava jogada no braço do sofá, a mesma manta de lã azul-turquesa que sempre usava quando estava doente ou triste, ele a abanou suavemente e a colocou sobre as pernas dela, arrumando as pontas ao redor de seu corpo com cuidado. Seus dedos roçaram o tecido sobre seu colo, sobre o ventre ainda plano onde seu filho ou filha dormia, e sua mão parou ali por um segundo, num contato indireto, um reconhecimento silencioso da vida que carregavam juntos.
Ele se levantou e foi até a cozinha. podia ouvi-lo abrindo e fechando armários, podia ouvir a água correndo. O loiro voltou com um copo de água fria e dois biscoitos de gengibre em um pires, os biscoitos que ela só comia quando estava enjoada, que ele sempre mantinha em estoque, mesmo depois de sair de casa. Ele colocou-os na mesa de centro ao lado dela, dentro do seu alcance.
Em seguida, ele se virou para .
— Você fica com a mamãe. Só por alguns minutos. Se ela precisar de alguma coisa, você me chama do quintal, tá?
assentiu, séria, sentando-se no chão aos pés do sofá, como uma pequena guardiã.
Naquele momento caótico, com o cheiro de vômito ainda no ar e o som de oito filhotes no quintal, aquele cuidado silencioso e prático foi o mais puro "eu te amo" que poderia existir. Ele então virou-se e voltou para o caos do jardim, deixando seus ombros um pouco menos curvados, sua missão era clara: domar o exército de filhotes para que ela pudesse descansar. Porque mesmo separados, mesmo feridos, o bem-estar dela sempre seria o norte do seu compasso. Depois que Simon saiu, um silêncio frágil se instalou na sala, quebrado apenas pelos ganidos distantes do quintal e pela respiração mais calma de Isla. Violet observava a mãe, com seus olhos grandes e sérios fixos no rosto pálido ainda marcado pelo esforço do enjoo. Ela apertou o filhote branco contra o peito, como se o animal fosse sua pequena fonte de coragem, e fez a pergunta que a atormentava desde que vira a mãe se dobrar de dor na porta.
— A Girassol e os filhotinhos fizeram mal pra você, mãe?
A pergunta era tão inocente e carregada de culpa que sentiu o coração apertar. Ela forçou um sorriso cansado e sacudiu a cabeça, pegando o copo de água que deixara sobre a mesa.
— Não, meu anjo. De jeito nenhum — ela disse, bebendo um gole pequeno. A água era fresca e acalmou um pouco a ardência em sua garganta. — Eles só apareceram na hora errada. O que me deixou mal foi outra coisa.
franziu a testa, deixando com que sua lógica infantil trabalhasse.
— Foi o braço machucado?
— Também não. — colocou o copo de lado e estendeu a mão, convidando para se aproximar. A menina veio, sentando-se na beirada do sofá, mantendo o filhote no colo. — É o bebê. Às vezes, quando um bebê está crescendo dentro da mãe, o corpo da mãe fica um pouco confuso e ele fica cansado, como se estivesse brigando por espaço.
olhou para a barriga ainda plana da mãe, coberta pela manta azul. Seu rosto era uma tela pintada de curiosidade e preocupação.
— O bebê te bate por dentro? É por isso que você ficou doente?
não pôde evitar um sorriso mais genuíno.
— Não é bater, querida, ele está mandando mensagens. O corpo da mamãe está mudando muito rápido para dar conta dele, e às vezes a mamãe fica tonta, com enjoo, é um aviso.
— Mas o aviso é nojento — observou .
— É — riu, um som baixo e rouco que soou estranho até para ela. — Pode ser muito nojento e cansativo. Com você e com a também foi assim, no começo.
Os olhos de se arregalaram.
— Eu fiz você ficar doente?
— Você fez — confirmou, acariciando o cabelo da filha. — E a também, mas depois que passou, foi só amor. O enjoo some, e aí a mamãe consegue sentir o bebê se mexendo, dando chutes, ouvir o coraçãozinho, tudo isso que vem depois é a parte boa.
ficou em silêncio por um momento, processando. Sua mão livre, pequena e suja de terra, tocou a manta sobre o ventre de com uma curiosidade reverente.
— Ele está se mexendo agora?
— Ainda não, flor. Ele é muito, muito pequeno ainda, ainda menor que o seu filhotinho, do tamanho de uma ervilha.
— Uma ervilha? — parecia intrigada e um pouco desapontada. — Mas como uma ervilha vira um bebê?
— Com muito tempo, e com o corpo da mamãe trabalhando — explicou, sentindo uma onda de cansaço, mas também de uma estranha felicidade por estar tendo essa conversa. — Ele vai crescer um pouquinho a cada dia. Daqui a algumas semanas, vamos poder vê-lo em uma fotografia especial, no ultrassom. Parece uma bolinha cinza que pisca.
— E aí a gente vai saber se é irmão ou irmã? — perguntou , lembrando da empolgação da irmã.
— Se é menino ou menina, sim. Daqui a um tempo.
mordeu o lábio, seu olhar perdia-se por um momento no filhote que dormitava em seu colo.
— E o bebê vai te deixar doente o tempo todo? Você vai ficar sempre assim, cansada?
Havia um medo real na pergunta. O medo de uma criança que já via a mãe frágil no hospital e agora a via vulnerável em casa.
— Não sempre — disse, escolhendo suas palavras com cuidado. — Vai ter dias bons e dias ruins. Eu vou precisar de muita ajuda, sua, da , do papai.
O nome dele pairou no ar entre elas. olhou para a porta por onde tinha saído, para o caos que ele estava tentando conter.
— O pai sabe fazer isso. Cuidar de você quando está doente — ela afirmou, não como uma pergunta, mas como uma constatação. Ela tinha visto isso muitas vezes.
— Ele sabe — concordou, a voz suave. Era impossível negar. Aquele cuidado, aquele conhecimento íntimo de suas necessidades, era um mapa que só possuía.
De repente, um barulho vindo do quintal as fez pular. Um latido mais forte da cadela, seguido pelo som de algo de metal caindo, provavelmente a tigela de água, e o grito abafado de
— Não, , pela milésima vez, NÃO COLOQUE O FILHOTE DENTRO DA SUA CAMISETA!
olhou para a mãe, e pela primeira vez naquele dia, um brilho de diversão genuína apareceu em seus olhos.
— O inferno com cachorros — ela repetiu, sábia.
sorriu, apoiando a cabeça no encosto do sofá.




AGORA



O apartamento temporário de cheirava a tinta fresca e solidão. Era um espaço branco e vazio, com poucos móveis e pouquíssima alma, a única coisa que parecia viva era a tela do seu laptop, iluminando seu rosto marcado pela fadiga na penumbra da sala. Ele estava pesquisando, coisas que nunca imaginara precisar saber. Uma aba do navegador mostrava "Sintomas do primeiro trimestre de gravidez: alívio para náuseas severas". Outra, "Construção de canil externo resistente e acessível". A terceira, "Como socializar uma ninhada de 8 filhotes com a mãe presente". E uma quarta, discretamente minimizada, "Terapia familiar pós-separação: abordagens eficazes".
O celular vibrou no braço do sofá e, quando a foto da ex-mulher brilhou na tela, o coração dele deu um salto irracional, naquele instinto antigo de alarme sempre ligado a ela. Ele atendeu antes do segundo toque.
— Tudo bem?
— Mais ou menos. A tentou dar banho no filhote branco na pia da cozinha. Com meu shampoo.
fechou os olhos, imaginando o cenário.
— Deixou escapar?
— Ele é menor que uma barra de sabão, . Claro que escapou, na verdade, ele nadou em uma poça de água e xampu no chão, escorregou e caiu dentro do balde do MOP. — Ela fez uma pausa, e ele pôde ouvir o esforço dela para não chorar de exaustão ou rir de histeria. — Agora ele cheira a pinho e tem um emaranhado na orelha que a está tentando desfazer com um pente de boneca.
— Eu vou aí — ele disse, já se levantando.
— Não. — A resposta foi rápida, quase um reflexo. Depois, mais suave, ela completou. — Ainda não, elas finalmente dormiram. A , de tanto chorar porque o piratinha estava derretendo com o shampoo. A , de exaustão, com o filhote seco e enrolado em uma meia-lã no peito dela.
parou no meio da sala.
— E você? Está melhor?
Um longo silêncio. Ele conseguia ouvir sua respiração, um pouco ofegante.
— Ainda enjoada, mas consegui comer meio biscoito de gengibre. O que você trouxe. — Ele se sentou novamente, devagar. — Preciso perguntar uma coisa. — A voz dela mudou, ganhando um tom mais prático. — Você falou mesmo com aquele veterinário da clínica, ou só está me dando uma desculpa para vir aqui amanhã?
Ele foi pego. Tinha, de fato, marcado uma consulta, mas também tinha aumentado um pouco o drama sobre a dificuldade de lidar com a cadela sozinho, antecipando a necessidade de voltar. Ele respirou fundo, decidindo pela verdade. Uma versão dela, pelo menos.
— Marquei a consulta para depois de amanhã, mas é verdade que não vou conseguir levar a Girassol sozinho se ela estiver nervosa com os filhotes. Preciso de um isca.
Do outro lado da linha, soltou um som que poderia ser um suspiro ou um riso abafado.
— Use a como isca. Ela consegue convencer até um leão a fazer o que ela quer.
— É sobre isso que eu queria falar — a voz de ficou séria, baixa. — o que a disse, sobre cuidar da . Sobre ter que mentir para ela.
O silêncio do outro lado ficou carregado e pesado. Ele podia sentir o peso da culpa dela, ecoando na sua própria.
— Eu sei — ela finalmente sussurrou. — Eu estava tão focada em aguentar e não desmoronar na frente delas, que não vi. Não vi que ela estava carregando tudo nas costas.
— Eu também não — a admissão saiu dolorida. Ele parou, esfregando os olhos. As palavras eram insuficientes. — Ela precisa ser só criança de novo. As duas precisam.
— E como fazemos isso? — A pergunta de não era retórica. Era um desespero genuíno. — Com um bebê a caminho, com nove cachorros no quintal, com a gente… do jeito que estamos.
olhou para as abas abertas no seu laptop. O caos tinha um código. Sintomas, medidas de madeira, técnicas de socialização, estratégias de comunicação. Talvez pudessem aprender.
— Amanhã, eu levo ração de verdade, leite em pó para os filhotes caso a cadela não dê conta, e material para fazer um cercado provisório, você fica deitada. Vamos dar a uma tarefa de verdade, mas uma que ela consiga fazer. Algo que não seja cuidar da irmã.
— Ela vai gostar disso — concordou, e havia um lampejo de alívio em sua voz. — E obrigada, pelo biscoito, pela água. Por saber limpar o meu pé.
A simplicidade da gratidão dela o atingiu em cheio. ficou sem ar por um segundo.
— Sempre — foi a única coisa que conseguiu dizer.
Quando desligaram a chamada, ficou olhando para a tela do celular até ela escurecer, seus olhos logo voltaram para o laptop e ele fechou a aba da terapia. Abrindo uma nova.
Rapidamente digitou: "Atividades para crianças de 6 anos: construção de brinquedos para cachorros".
E, em seguida, em um documento em branco, começou a rascunhar uma lista prática, de um pai tentando se encontrar a saída do labirinto que ele se encontrava.

1. Cercado para os cachorros (seguro, à prova de ).
2. Conversar com SOZINHA. Perguntar o que ela quer fazer.
3. Levar almoço pronto. não pode ficar perto de cheiros fortes.
4. Encontrar a conta de luz (ela deve ter esquecido na bagunça).
5. Olhar nos olhos dela. Lembrar que, antes de tudo, era ela e eu contra o mundo.
6. Comprar as bolachas de arroz que gostava na gravidez das meninas.

O mundo agora incluía duas meninas assustadas, uma ninhada de vira-latas, um bebê minúsculo em desenvolvimento e, aparentemente, um celular barulhento que, ainda repousando ao lado do teclado, vibrou novamente. Não foi o toque especial que ele ainda secretamente mantinha para . Foi um simples e genérico buzz. A tela iluminou-se, mostrando a notificação de uma mensagem de texto.
Meredith Carter.
O nome piscou como um sinal de alerta vermelho, seguido de uma memória visceral: a pele pálida contra a madeira escura da sua escrivaninha no escritório, o perfume enjoativo dela misturado ao cheiro do café velho, seu próprio rosto enterrado em seu pescoço numa tentativa desesperada de apagar, por cinco minutos, o gosto de fracasso que tinha em casa. Meredith. Filha de Richard, sócio sênior da firma. Um caso de três, talvez quatro encontros, incluindo aquele na mesa, durante o pior inverno do seu casamento, quando parecia um fantasma de rancor e sua própria pele era um incômodo. Foi menos uma aventura e mais um ato de vandalismo emocional. Um erro caro, de múltiplas camadas, mas ainda assim um erro. Ele terminou de forma brusca quando percebeu que o desprezo que sentia por si mesmo só crescia, e que o risco para seu emprego e para o já frágil respeito do sogro, agora ex-sogro, era real demais.
Com o coração batendo um pouco mais rápido do puro instinto de alerta de um homem que vê uma mina terrestre do passado reaparecer, ele deslizou o dedo na tela.

.
Preciso falar com você.
É importante.
Meu pai descobriu tudo.
Foi feio.
Ele não entendeu.
Eu estou uma bagunça.
Você é a única pessoa que sabe.
Posso te ver?

Parando para pensar, não era um caso. Meredith um acidente de percurso em meio a um desastre, um erro que se transformou em um vínculo de terror e remorso.

Ele encontrou os extratos do procedimento.
Ele está falando em processar, em ir ao conselho da firma.
Ele acha que você me coagiu, que eu não tinha capacidade de decidir.
Por favor. Antes que isso vire um monstro maior.

O ar saiu completamente dos pulmões de .
Ele se encolheu na cadeira, como se as palavras fossem golpes tangíveis.
Procedimento. A palavra, clínica, que eles usavam para nunca dizer a outra: aborto.
A história era um pesadelo dentro de outro pesadelo. Há dois anos, depois de um briga com , uma daquelas que deixavam a casa em silêncio de cemitério por dias, ele saiu para beber. Encontrou Meredith, já ligeiramente embriagada e melancólica, em um bar perto do escritório. Discutiram sobre trabalho, sobre a vida e, ao terminar ele a deixou sozinha, irritado com o próprio mundo. Naquela mesma noite, no caminho para casa, Meredith foi arrastada para um beco por um homem. só soube na manhã seguinte, quando ela apareceu no seu escritório com o olho roxo e o pulso torcido. Semanas depois o resultado foi um positivo de um teste de gravidez na bolsa. A culpa foi instantânea e esmagadora.
Ele a deixou sozinha. Se tivesse ficado, se a tivesse levado para casa... A violência que ela sofreu parecia, em sua mente torturada, uma extensão direta de seu abandono.
Meredith, em pânico, não queria o bebê. Nem poderia. A ideia de carregar o fruto daquela violência era um horror que , apesar de sua própria confusão, conseguia entender. Ela não tinha para onde correr. O pai dela, Richard, era um católico fervoroso e rígido que ficaria devastado, pela agressão, sim, mas seria principalmente a revelação de uma gravidez e um aborto que o destruiria.
Por isso, , movido por uma culpa que o consumia e por um resquício de compaixão doentia, ajudou. Conhecia um médico discreto, deu a ela o dinheiro em espécie e acompanhou-a à clínica sombria num subúrbio distante, ele esperou na sala de espera abafada enquanto ela passava pelo procedimento. Comprou os remédios para a dor. Levou-a para um hotel onde ela poderia se recuperar longe do olhar do pai. Foi o pacto mais sujo de sua vida.
As únicas outras vezes que se deitara com Meredith fora depois disso. Não por paixão, mas por uma espécie de mutualismo trágico. Ela, fragilizada e agarrando-se à única pessoa que conhecia seu segredo. Ele, afundando mais fundo no pântano de sua própria ruína, acreditando que já estava tão sujo que um pouco mais não faria diferença. Até que o nojo por si mesmo se tornou insustentável, e ele cortou todo contato, tentando enterrar aquele capítulo podre junto com o resto de sua vida.
Agora, o cadáver estava exumado.
A mão de tremia, o suor frio escorria pela sua nuca, se Richard sabia do aborto, então acreditava que era o predador e tinha forçado sua filha fragilizada a fazer aquilo. A ameaça não era apenas profissional. Era existencial. Carter podia arruiná-lo. Pior, podia levá-lo à justiça por algo que, na narrativa dele, seria monstruoso. E não poderia se defender sem trair o segredo de Meredith, sem revelar o estupro que ela tanto queria esquecer. Era uma armadilha perfeita. Além disso, tinha o impacto mais pesado de todos. , grávida do seu filho, passando por uma revelação odiosa que a faria se sentir pior.
jogou o celular contra a parede e desta vez, ele não amorteceu. O aparelho bateu no gesso com um baque seco e caiu no chão, com a tela rachando em uma teia de linhas pretas imediatamente.
Um som animal, de raiva e desespero, escapou de sua garganta.
As opções eram todas ruins, mas uma parecia menos catastrófica, no curto prazo. Ele não podia deixar a bomba de Richard explodir sem ao menos tentar desarmar o detonador. Não apenas por serem sócios, mas pelos anos de amizade que a empresa trouxe. Com movimentos lentos, como se cada palavra custasse um pedaço de sua alma, ele pegou o celular. A tela ainda funcionava, apesar das rachaduras. Ele respirou fundo, e digitou com cuidado.

Vou te encontrar, mas apenas para conversarmos. Por uma hora. Isso não significa que vou falar com seu pai por você. E não vai acontecer nada além de uma conversa. O que aconteceu entre a gente não pode, e não vai, se repetir. Fui claro?

Obrigada, . Eu só preciso ver um rosto amigável.

A frase o fez encolher por dentro, ele não era amigável, mas ele se levantou, trocou de camisa automaticamente, com movimentos robóticos e antes de sair, seus olhos pousaram novamente na lista no laptop. "Olhar nos olhos dela." Agora, ele estava prestes a olhar nos olhos de outra mulher, para tentar salvar a si mesmo do desastre, para poder, um dia, ainda ter o direito de olhar nos olhos de .

[•••]


O café era caro e impessoal, cheio de executivos de fim de tarde. Meredith já estava numa mesa no fundo, perto de uma planta grande, ela parecia pequena, frágil, envolta em um casaco fino demais para o frio que fazia. Seus olhos estavam inchados e ela segurava uma xícara de chá com as duas mãos, como se estivesse com frio. Quando viu , um alívio visível, quase infantil, inundou seu rosto. Ele se sentou à sua frente, sem tirar o casaco, apesar disso, a distância entre eles na mesa era um abismo.
— Obrigada por vir — ela disse, a voz trêmula.
— Você não me deixou muita escolha, Meredith — a resposta saiu mais áspera do que ele pretendia. Ele se forçou a baixar o tom. — O que exatamente seu pai sabe?
Ela engoliu em seco.
— Ele viu uma transferência antiga no meu extrato para a clínica e questionou. Eu surtei. Disse que era um empréstimo para uma amiga, mas ele não acreditou. Você conhece o meu pai, ele tem seus meios. Acho que ele ligou para lá, inventou uma história, não sei ao certo o que ele fez, mas sei que ele sabe que foi um aborto. E sabe que o dinheiro veio de você. — Ela olhou para ele, com os olhos implorando. — Ele acha que você era meu amante e que me convenceu a fazer isso para esconder o caso.
fechou os olhos por um segundo. Era pior do que imaginava.
— Você tem que contar a verdade, Meredith.
— Não posso! — o sussurro dela era desesperado. — Ele me veria como algo quebrado, sujo, para sempre.
— E você prefere que ele me veja como um monstro? — a pergunta saiu sem filtro, carregada de toda sua frustração. — Prefere que ele destrua meu casamento, minha carreira, que me processe até me deixar sem condições de cuidar da minha família?
Meredith ficou em silêncio, então ela esticou a mão pela mesa, tentando tocar a dele. retirou a mão como se tivesse sido queimado, colocando-a no colo.
— Não, Meredith. Já combinamos. Só conversa.
Ela retraiu a mão, ferida.
— Você sempre foi frio assim, depois. Como se eu fosse uma lembrança que você queria apagar.
— Porque é isso que você é — ele disse. — Uma lembrança de um período da minha vida do qual me envergonho profundamente. Eu te ajudei porque me senti culpado por ter te deixado sozinha naquela noite. Foi um erro. Todos os... encontros... foram erros tentando consertar o erro anterior. Uma espiral.
Ela o observou, e algo em seu olhar mudou. A vulnerabilidade deu lugar a um cálculo rápido.
— E sua esposa? Ela sabe de alguma coisa?
— Não — a resposta foi automática. — E não vai saber. É sobre isso que se trata, Meredith. Proteger as pessoas que não deviam ser machucadas por essa bagunça.
— Então me proteja — ela sussurrou, inclinando-se para a frente. — Fale com meu pai, diz que foi consensual. Que eu estava confusa, que você me ajudou como um amigo. Não precisa mencionar o que veio antes. Só tira essa ideia de coerção da cabeça dele.
olhou para ela, vendo a mulher assustada, mas também vendo a manipulação. Ela estava pedindo que ele assumisse a culpa por uma narrativa falsa, para proteger seu segredo. Era um preço altíssimo e injusto também, ele sabia disso.
— Se eu fizer isso — ele disse, medindo cada palavra — você precisa prometer que isso acaba aqui. Sem mais contato, sem mais crises. Você lida com seu trauma com um profissional, longe de mim e nos tornamos estranhos. E se seu pai, por qualquer razão, vier atrás de mim depois disso, eu não serei mais tão compreensivo. A verdade pode ser feia, mas é uma carta que os dois temos na manga.
Ela hesitou, mas depois assentiu, um movimento pequeno e rápido.
— Eu prometo, . Eu só preciso que as coisas voltem ao normal ou o mais próximo disso. — Ela fez uma pausa, então acrescentou — É melhor para todo mundo assim. Eu não quero machucar ninguém.
A frase era um golpe de mestre. Eram palavras que soavam como renúncia, mas que carregavam a ameaça sutil: se você não fizer isso, talvez eu machuque.
Ele se levantou, fazendo a cadeira ranger no piso de cerâmica. Ele não acreditou na promessa, mas acreditou no medo dela, que era pelo menos um freio.
— Eu vou falar com ele. Uma vez. Depois disso, Meredith, estamos quites. De todas as maneiras possíveis.
— Você a ama? Sua esposa. Ama ela tanto assim?
Por um instante, a raiva o dominou. Raiva por ela ousar tocar naquilo.
— A não é uma coisa que eu amo, Meredith. Ela é o lugar onde eu existo. Eu a magoei sim, e falhei com ela. Mas, mesmo quando estava contigo era dela que eu sentia falta. Dela. Do cheiro dela no travesseiro, do jeito que ela franze a testa quando lê. Então, sim. Eu a amo.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Meredith não chorou. Não sorriu. Apenas o observou, como se estivesse vendo uma criatura estranha e fascinante pela primeira vez.
— Ninguém nunca me amou assim — ela disse, finalmente, mas sua voz era tão baixa que ele quase não ouviu. Não era uma provocação, era uma descoberta triste.
— Talvez um dia alguém ame — respondeu, e pela primeira vez, houve uma centelha de compaixão genuína em sua voz, não movida por culpa, mas por um entendimento humano básico. — Mas não pode ser eu. Eu não tenho mais amor para dar, meu amor é todo dela.




AGORA



A luz na cozinha da casa de era quente, contrastando com o céu escuro lá de fora. O cheiro da lasanha congelada ainda parava sobre o ar que se misturava ao tênuo odor doce de leite materno canino que subia no quintal. estava sentada a mesa, ouvindo sua irmã, Chloe, descarregar a quinta rodade de argumentos.
— Não estou dizendo que ele é um monstro, — Chloe falava, com gestos amplos e expressivos enquanto desembrulhava mais um pedaço de chocolate amargo, seu antídoto para o estresse alheio. — Digo que você está vulnerável. Grávida, com duas crianças e com uma casa cheia de animais. É natural querer a segurança do conhecido, mas o conhecido em questão te deu hematomas, caso tenha esquecido disso.
A mãe de ficou quieta do outro lado da mesa, com suas mãos já mais envelhecidas girando um colar de pérolas falsas. Seu olhar estava longe, na janela que dava para o quintal onde , mais cedo, construíra um cercado improvisado sob o olhar atento da filha mais velha do casal. Ela ouvia atentamente enquanto a enteada, filha do seu falecido marido, falava.
— Ele está se esforçando, Chloe — murmurou, deixando que seus dedos traçassem círculos no copo. — Você não viu ele com as meninas hoje. E com os cachorros. Ele pegou a pá, foi ao depósito, construiu sozinho…
— E é exatamente isso que me preocupa! — Chloe bateu a mão na mesa de forma suave, mas impaciente, fazendo os talheres pular. — O Pai Dedicado, o Arrependido. É muito conveniente! Cadê o que perdeu a cabeça e bateu em você depois de descobrir algo que vocês dois faziam?
fechou os olhos. A lembrança causava dor física e emocional. A sensação da traição cortando fundo a pele mais do que qualquer osso, as palavras cruéis que trocaram, o rosto dele, irreconhecível de raiva cega, avançando em direção a ela. O empurrão. A tapa.
Foi uma única vez. Nunca antes, nunca depois, mas foi.
— Ele nunca mais... — Ela começou, mas sua voz falhou.
— Não importa! — Chloe interrompeu, deixando sua voz expressar toda a fúria protetora que tinha dentro de si. — Importa que ele pôde. Que dentro dele, naquele momento, algo quebrou de um jeito que te machucou fisicamente. Você tem duas filhas, . Você vai trazer um bebê para um ambiente onde isso é uma possibilidade, por menor que seja?
A mãe de finalmente falou e, quando fez, sua voz era suave, mas carregada de seu próprio histórico de más escolhas.
— As pessoas mudam, Chloe. As circunstâncias são diferentes agora.
— Ou são piores! — Chloe rebateu, olhando para a madrasta. — Desculpa, mãe, mas você de todas as pessoas deveria saber que um homem é imprevisível. E o mundo de está desmoronando. O trabalho dele, pelo que você disse, não vai bem. O casamento acabou. E agora ele tem um bebê a caminho e uma ninhada de cachorros para sustentar. Isso é uma panela de pressão!
olhou para o quintal escuro.
prometera voltar de manhã cedo, para levar a cadela ao veterinário. Havia um foco que ela não via há anos. Era sedutor acreditar na mudança. Era tão sedutor.
— Eu ainda o amo — a confissão saiu em um sussurro, direcionado mais à sua água com gás do que às outras mulheres. — E ele me ama. Eu sei que ama.
Chloe suspirou, com a raiva dando lugar a uma preocupação profunda e cansada.
— Amor não é suficiente, . Você sabe disso. Amor não cura o medo no olhar da quando ela pergunta se ele vai bater no bebê.
A menção de foi um golpe baixo e preciso. sentiu as lágrimas queimarem atrás dos olhos.
— O que você quer que eu faça? — a voz de quebrou. — Que eu o afaste completamente? Que eu crie três filhos sozinha, com raiva e ressentimento como segundo prato? Que eu negue a elas a chance de ter um pai presente, só porque eu tenho medo do nosso casamento voltar a falhar?
— Eu quero que você pense com a cabeça, não com o útero grávido e o coração partido! — Chloe disse, mas sem a fúria de antes. — Eu quero que você exija terapia. Para ele, obrigatoriamente, mas para você também. E que qualquer passo para uma reconciliação tenha mais camadas de segurança do que o cercado que ele fez para os cachorros. Que ele prove, com ações consistentes e tempo, que aquele homem não vai voltar à tona.
olhou para as duas mulheres, marcadas por seus próprios compromissos errados. Elas estavam tentando protegê-la do mesmo tipo de dor que conheciam tão bem.
Ela sabia que Chloe tinha razão sobre o perigo, mas também sabia, no fundo de suas entranhas, que o amor que sentia por não era uma ilusão de grávida. Era uma força teimosa, tão arraigada quanto o jasmim que ele um dia a viu destruir.
— Eu vou pensar. — Foi a única coisa que ela murmurou.
Chloe observou e, enquanto fazia, seus dedos batiam num ritmo impaciente na mesa. Uma desaprovação ainda estava estampada em seu rosto, mas agora havia algo a mais. Um incômodo mais profundo.
— Você o coloca em um pedestal. Sempre colocou. Desde que eram adolescentes. O e a contra o mundo. — Ela fez uma pausa, e quando continuou, sua voz estava mais baixa, quase para si mesma. — Não sei pra que eu tento colocar juízo na sua cabeça se você sempre dá uma chance a mais pra ele.
sentiu uma pontada de irritação crescer em seu peito. Sabia que sua irmã queria defendê-la, mas o ataque a agora parecia pessoal demais.
— Isso é sobre meu casamento, Chloe. Minha vida.
— Exatamente! — Chloe ergueu os olhos e nesse momento, eles brilharam, de raiva sim, mas não por ela. Era uma raiva em nome dela, tão intensa que parecia pessoal. — E eu estou aqui vendo você repetir os mesmos padrões. Ele erra, faz um gesto bonitinho, e você derrete. Como na época da faculdade.
— Isso foi há oito anos — revidou, sentindo-se inexplicavelmente na defensiva.
— E a agressão foi há semanas! — Chloe bateu com a mão na mesa novamente, mas desta vez seu olhar não estava apenas em . Parecia distante, voltando para algum lugar doloroso. — Não esqueça que eu ajudei a limpar o sangue do seu braço e a limpar os cacos de vidro na sala.
— E eu agradeço por isso — disse , mas agora sua voz estava trêmula. — Mas isso não te dá o direito de…
— De quê? — Chloe a interrompeu, mas sua voz não vibrava mais de fúria, na verdade agora ela estava ficando estranhamente contida. — De me lembrar que eu também já limpei sujeira dele? De maneiras diferentes?
olhou para irmã. Realmente olhou. Chloe estava bela, com seus traços mais definidos e sua postura mais confiante do que antes. O estranho, em toda aquela acusação, era que ela e sempre se deram bem. Muito bem. Havia uma familiaridade entre eles que atribuíra à convivência longa, afinal, Chloe era a madrinha de e sempre esteve por perto.
Lembranças vagas surgiram, desconexas.
Chloe passando o Réveillon com eles, anos atrás, rindo muito com na cozinha enquanto preparavam uma bebida. Chloe sugerindo, com uma frequência estranha, que merecia “alguém melhor” durante uma das primeiras crises do casamento. Chloe, sempre Chloe, com um comentário afiado sobre os defeitos de , mas com um conhecimento tão íntimo de suas manias, de seu gosto por uísque, da maneira como ele amarrava os cadarços…
— Chloe… — a voz de saiu como um sopro.
A irmã mais velha pareceu perceber o que tinha insinuado. Seus olhos se arregalaram por uma fração de segundo, com um pânico genuíno cruzando seu rosto antes de ser substituído por uma máscara de frustração. Ela se levantou bruscamente, fazendo a cadeira raspar no chão.
— Esquece. Estou exausta e falando besteira. Só cuida de você, . Por favor. — Ela evitou o olhar de todos, pegando a bolsa. — Vou embora. Mãe, você precisa de carona?
— Fico um pouco mais. Vou ajudar a arrumar a cozinha.
Chloe apenas acenou, quase correndo para a porta da frente. O som da porta se fechando ecoou na casa silenciosa.
— Mãe, o que ela quis dizer? — insistiu, sentindo-se uma adolescente novamente, implorando por uma verdade sobre os adultos ao seu redor.
Esther parou, segurando um prato. Olhou para a filha e, nos olhos dela, viu a sombra de todos os segredos que ela mesma carregava; os olhos do seu falecido marido, as suas próprias traições. O que falar para sua filha se ela mesmo era uma especialista em ignorar verdades inconvenientes?
— Eu não sei. — ela disse, evasiva. — Mas sei que sua irmã te ama e que … bem, sempre teve um carisma que atraía problemas. Para ele e para quem está perto. Talvez seja uma herança direta de Ethan.
A noite se arrastou depois que Esther foi embora. subiu as escadas com os ossos pesados do cansaço. Ela entrou no quarto das meninas e, quando parou para vê-las, admirou dormindo de conchinha, com um braço protetor jogado sobre , que estava completamente espalhada e com a boca entreaberta. No colo de , enrolado em uma meia-lã, dormia o filhote branco, sua respiração minúscula fazendo o peito subir e descer em ritmo rápido. A cena era pura, terna, e por um momento, acalmou o caos dentro de .
Ela se sentou na beira da cama, observando as filhas. "Eu também já limpei sujeira dele. De maneiras diferentes." A frase de Chloe ecoava, cada vez mais clara e mais carregada.
fechou os olhos, forçando a memória. Quando?
Será que ela se referia a uma briga feia que tiveram no aniversário de casamento deles? não apareceu no jantar que ela preparou. Chloe foi quem o encontrou, bêbado, em um bar perto do escritório. "Eu lido com ele", ela dissera no telefone para . "Você fica aí". ficara. No outro dia voltara de manhã, arrependido e com a cabeça baixa. havia agradecido a irmã.
O telefone no bolso de vibrou, fazendo-a pular. Era uma mensagem do seu ex-marido.

"Tudo certo com o cercado. Girassol aceitou a ração. As meninas dormiram? Amanhã, às 13h30, te busco para a consulta. Se ainda quiser."

Ela leu a mensagem dez vezes. Quantas camadas de verdade existiam nele? Quantas versões de Harrington ela abrigara em sua vida? A parte racional dela, a que ouvia Chloe e sua mãe, gritava para ela cancelar. Para exigir respostas antes de qualquer proximidade. Mas a parte grávida, cansada e terrivelmente solitária, a parte que ainda se lembrava do toque dele em seu pé, ansiava por aquela carona. Por não ter que enfrentar o ultrassom sozinha. E havia ainda uma terceira parte, uma parte sombria e curiosa que surgiu da conversa com sua meia-irmã. Uma parte que queria vê-lo de perto amanhã, olhar nos olhos dele e procurar por algum sinal, algum vestígio de uma verdade que talvez ela não conseguisse perguntar em voz alta.
Ela digitou, apagou e, por fim, digitou novamente.

"Obrigada pelo cercado. Te espero às 13h30."





Continua.


Nota da autora: Entre para o nosso grupo no WhatsApp! É lá que o coração da história bate primeiro.
Se você ama estar por dentro de tudo, não pode ficar de fora! No grupo, eu compartilho novidades em primeira mão, atualizações exclusivas, avisos importantes e, claro, mimos especiais que só quem está lá recebe.

Barra de Progresso de Leitura
0%