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Independente do Cosmos🪐

Última Atualização: 12/12/2025

Bianca Rossi

Rossi

Acordei com o gosto de sangue na boca. Tinha mordido a bochecha de novo durante o pesadelo. Ainda sentia o cheiro de gasolina e o som dos gritos ecoando nos meus ouvidos quando os olhos se abriram para o teto alto do quarto do hotel.
Paris.
Estávamos em Paris.
se mexeu ao meu lado antes mesmo de eu respirar fundo.
— Outra vez? — sua voz era áspera de sono, mas as mãos já estavam procurando meu rosto no escuro.
Não respondi. Como explicar que depois de tantos anos, ainda sonhava com o porão da casa do meu pai? Com aquele cheiro de mofo e ferro? Como explicar que mesmo quando devia descansar, meus demônios ainda me rondavam, dançavam em minha mente? Como explicar que, para mim, sonhos e memórias eram a mesma coisa? Que eu carregava cadáveres em todos os segundos que minha mente funcionava?
Seus dedos encontraram minha testa, traçando linhas suaves até meu queixo.
— Vem — ela ordenou, jogando as cobertas para o lado antes que eu pudesse protestar. Seus pés descalços encontraram o carpete enquanto me puxava pela mão em direção ao banheiro.
A porta do banheiro rangeu levemente quando ela abriu. O mármore frio sob meus pés me deu uma pequena preguiça de entrar ali, mas ela não me deu tempo para pensar. Suas mãos encontraram o interruptor, e a luz dourada do lustre se acendeu, revelando o banheiro enorme do hotel, tudo em mármore branco e dourado, com um boxe de vidro tão grande que podia facilmente ser uma pequena sala. Ela não falou. Apenas se virou para mim, com os olhos ainda pesados de sono. Seus dedos subiram até o meu peito, onde a camisa do pijama já estava encharcada de suor.
— Tira — ela ordenou, suave, mas com o tom mandão que ela tinha na maioria do tempo.
Eu obedeci, puxando o tecido sobre a cabeça e deixando cair no chão. Seus olhos percorreram meu torso, as tatuagens, as cicatrizes, tudo que ela ainda estava aprendendo a decifrar. Ela não fez nenhum comentário. Apenas ergueu as mãos e começou a desabotoar seu pijama, deixando o tecido cair sobre os ombros antes de empurrá-lo para trás. Não havia malícia ali. Nada de provocação, nada de pressa. Apenas uma intimidade tão natural que doía.
Ela se virou e abriu a porta do boxe, ajustando a água. O vapor começou a subir quase imediatamente, enevoando o espelho atrás de nós.
— Entra — ela disse, colocando a mão no meu peito para me guiar. Eu entrei, a água quase escaldante atingiu minhas costas primeiro. Ela veio atrás, fechando a porta de vidro, e por um momento, ficamos ali, sob a água quente, sem pressa. Seus dedos encontraram meu cabelo primeiro, ensaboando devagar, como se quisesse ter certeza de que eu ainda estava ali, presente. — Fecha os olhos — ela murmurou, e eu obedeci. Eu obedecia com uma rapidez absurda, mesmo negando, mesmo falando que não obedeceria ninguém. Seu toque era firme, mas não invasivo. Como se ela soubesse exatamente onde eu precisava ser tocado e onde precisava de espaço. Quando suas mãos desceram pelos meus ombros, eu não consegui evitar o leve tremor. — Tá tudo bem — ela sussurrou, com os lábios quase tocando minha nuca. — O que é? — disse, apontando para a caveira com rosas no meu peito.
— Clube dos 21. Todos os homens da famiglia fazem.
Seus dedos desceram para a frase em latim sobre minhas costelas.
"Sanguinis honor"?
— Honra de sangue. — traduzi automaticamente.
Ela fez que sim, como se estivesse anotando mentalmente, como se fosse normal. Então sua mão parou na mais discreta das seis pequenas linhas atrás da minha orelha esquerda.
— E essa?
Meu corpo ficou rígido antes que eu pudesse controlar.
.
. — ela replicou, teimosa para um santo caralho.
Respirei fundo.
— Cada linha é um homem que matei antes dos 18.
O ar entre nós mudou. Ela não recuou, mas seus dedos tremiam levemente quando continuaram o caminho, parando na cruz invertida entre minhas omoplatas.
— Essa?
— Não. — A palavra saiu mais áspera do que eu pretendia. — Essa não.
Ela estudou meu rosto por um momento, então simplesmente acenou com a cabeça e pegou o sabonete.
— Tá bom — murmurou, começando a lavar minhas costas.
— Por que você quer saber dessas coisas? — perguntei, virando-me para encará-la.
ergueu os olhos, gotas d'água escorriam por seu rosto.
— Porque são parte de você — disse simplesmente. — E eu casei com tudo.
Minha mão encontrou seu rosto antes que eu pudesse pensar melhor. Ela se inclinou para o toque, fechando os olhos.
— Você é a coisa mais estranha que já aconteceu comigo — confessei.
Ela riu, sua risada ecoou todo o boxe e foi o melhor som que já ouvi em toda a minha vida.
— E olha que você já foi baleado. — Ela apontou para outra tatuagem, um relógio sem ponteiros no meu antebraço. — Essa significa que seu tempo acabou? — brincou.
— Significa que horários são sugestões. — retruquei, ainda a olhando.
Ela riu, mas então seu olhar ficou sério.
— E a pior? Qual é a que você mais odeia?
Minha mão voou automaticamente para a marca atrás do meu ombro direito, uma tatuagem pequena, quase escondida. Um simples número: 17.
— Essa eu não consigo falar — admiti, a voz mais baixa do que pretendia. — Não hoje.
estudou meu rosto por um longo momento, então simplesmente pegou minha mão e a pressionou contra seus lábios.
— Tá bom — sussurrou. — Mas um dia, você vai precisar me contar.
Eu sorri e concordei, porque, pela primeira vez na vida, eu quase acreditei que poderia mesmo contar.
não parou as perguntas, muito menos a maneira carinhosa com que perguntava sobre tudo que não sabia. Sobre as histórias que eu escondia sob o terno perfeitamente ajustado. Sua mão foi até outra, dessa vez ela escolheu a mais desbotada para saber.
— Essa foi a primeira? — perguntou, voz quase perdida no ruído da água.
— Aos quinze — respondi, os olhos fechados. Meu pai me arrastou para a cadeira como presente de aniversário.
Seu polegar passou sobre os contornos pretos, como se memorizasse cada linha. Então desceu.
A água ainda escorria em rios quentes pelas nossas peles quando os dedos dela encontraram a primeira cicatriz importante, três linhas paralelas no abdômen, grossas e irregulares.
— Arame farpado — disse antes que ela perguntasse. — Eu tinha feito merda e estava fugindo de um carro da polícia. Caí no meio de uma cerca. Foi engraçado na época, acho que eu tinha uns dezessete.
Seus dedos tremeram levemente, mas continuaram. Logo abaixo, uma marca circular queimada, do tamanho de uma moeda.
— Charuto cubano. — expliquei secamente. Ela engoliu seco. — Minha mãe achou engraçado me ver aguentar a dor sem gritar.
A cicatriz mais antiga tinha três linhas finas e profundas, eram quase artísticas.
— Chicote do meu pai. Primeira vez que falhei numa tarefa importante.
Ela ficou imóvel. Virei meu pulso esquerdo para cima, revelando a rede de linhas brancas e finas cruzando os vasos.
— Interrogatório. Tinha dezesseis. Eles queriam informações sobre meu pai.
olhou para aquelas marcas e algo em seu rosto se partiu, eu pude ver a dor em seus olhos, a desilusão ou realidade, talvez.
— Quantos dias?
— Não contei.
Ela me puxou contra seu corpo com uma força que me surpreendeu, seus dedos cavando em minhas costas como se tentasse apagar cada marca através do contato.
A cicatriz veio a seguir, um sulco pálido e irregular entre minhas costelas, do lado esquerdo.
— Faca?
— Canivete. Detroit, 2012.
Ela não fez perguntas. Apenas inclinou a cabeça e pressionou os lábios levemente no local, um beijo que não era de pena, mas de reconhecimento. As mãos dela continuaram, explorando cada relevo da minha pele como um arqueólogo desenterrando ruínas. Quando encontraram a marca de queimadura circular no meu ombro direito, senti meu corpo tensionar.
— E essa?
Eu virei o rosto, encarando-a.
— Quando conheci você.
Seus olhos se arregalaram por uma fração de segundo antes de endurecerem.
— Você estava sangrando naquele dia e eu nem...
— Você estava ocupada tentando me matar e ainda estávamos com um cara tentando nos matar. — lembrei, com um sorriso torto aparecendo. — Foi justo.
Ela me encarou, com gotas d'água escorrendo por seu rosto, então de repente puxou minha cabeça para baixo, nossos rostos ficaram colados sob a água quente.
— Idiota — rosnou contra meus lábios antes de me beijar com uma fúria que fez meus joelhos fraquejarem. Quando nos separamos, ofegantes, suas mãos ainda tremiam onde se agarravam aos meus ombros. — Nenhuma nova cicatriz sem me contar. Nenhuma. Entendeu?
Eu olhei para aquela mulher louca, linda e furiosa, e pela primeira vez entendi o que Lorenzo quis dizer quando disse que sua irmã era a pessoa mais teimosa que ele já conhecera.
— Sim, Donna. — murmurei, puxando-a contra meu corpo marcado.
— Você não é essas cicatrizes, sabia? Você não é o que fizeram com você.
— Então o que eu sou? — perguntei, genuinamente curioso.
Ela pegou minha mão e colocou sobre seu próprio peito, onde seu coração batia rápido e forte.
— Meu . Só meu.
E quando nossos lábios finalmente se encontraram, simplesmente porque queríamos, eu soube que Lorenzo, onde quer que estivesse, estava rindo. Porque sua irmã tinha feito o impossível, encontrado o coração de um homem que acreditava não ter mais um.




Rossi

Ele estava no telefone. Há vinte e três minutos. Eu contei, um por um.
De novo.
Alguém provavelmente ia morrer e ele nem tinha tomado café.
Sentado na ponta da poltrona, com a mão no queixo e os olhos duros mirando algum ponto fixo da parede que só ele parecia enxergar, falava baixo, mas cada palavra dele parecia uma ordem prestes a virar sentença de morte. Eu não entendia italiano tão bem quanto ele achava que sim, mas já tinha aprendido a reconhecer o tom.
Hoje o tom era mais ordem do que negociação.
Ajeitei meu corpo no sofá, puxei o travesseiro pro colo e virei de lado. Suspirei pela quarta vez, bem alto, pra ver se ele notava, tentando desesperadamente chamar a atenção do meu marido em nossa lua de mel.
Nada.
Dei uma exagerada e deixei o braço cair, imitando quase uma cena de morte dramática em filme antigo. Nem uma levantada de sobrancelha por parte dele.
Peguei meu celular. Sem bateria.
Fiquei olhando pro teto. Contando rachaduras invisíveis impossíveis de existir em um hotel como o que estávamos.
Dobrei as pernas.
Estiquei de novo.
Suspirei.
. — Nada. — … — Ele só virou um pouco o rosto, com aquele cenho franzido, pedindo silêncio com o olhar. — Meu marido, amor da minha vida e minha eterna tortura em forma de homem, você vai falar nesse telefone por quanto tempo mais?
Ele cerrou os olhos, tentando segurar o riso. Eu vi.
Vitória.
Ou quase, já que ele continuou falando.
Nessuno si muove finché io non dico. Ho detto di aspettare. E voglio dire aspettare. Capito?
Revirei os olhos me recusando a dar-me por vencida, me espreguicei devagar, deixando a camisola curta subir mais do que o necessário, levantei e caminhei até ele. Quando seus olhos ficaram fixos nos meus o suficientemente para que a atenção agora fosse, pelo menos, dividida, sentei no colo dele. Simples assim.
. — ele advertiu, sem interromper a ligação.
— Continue ignorando a minha existência. — respondi, passando os dedos pelos botões da camisa dele. — Vamos ver quem vence.
O toque da minha unha no pescoço dele fez os ombros ficarem tensos. Dessa vez fui eu que ri. Outra vitória. Quando estava no telefone, o resto do mundo parecia não existir mais. Eu me recusava a ver isso acontecendo.
Hoje, não. Hoje ele não ia terminar aquela ligação com a alma carregada de sangue dos outros. Hoje, eu queria ele. Inteiro. Só pra mim.
Pousei os dedos no ombro dele e deslizei pela clavícula, depois desci lentamente pela frente do peito. A camisa dele estava aberta nos primeiros botões, então desabotoei o segundo, depois o terceiro... Continuei até minha mão ter espaço. nem se mexeu, mas eu vi. O pequeno arrepio que subiu pela pele. A pausa quase imperceptível no queixo antes de voltar a falar.
Inclinei o corpo, colando o meu contra o dele, e deixei meus lábios roçarem atrás da orelha. A barba por fazer me arranhou de leve e isso só me incentivou ainda mais.
— Você vai ficar muito tempo aí? — perguntei baixinho, como quem não quer interromper, mas eu queria. Muito.
Nada. Nem um olhar.
Ah, meu amor, então vamos ver até onde você aguenta.
Desci a mão até o abdômen dele por baixo da camisa. A pele dele estava quente. Comecei a desabotoar o resto da camisa, um botão de cada vez. Meus movimentos eram lentos, preguiçosos até, mas o propósito era muito claro. Continuei os beijos em seu pescoço, em seguida, desci os lábios, lambendo a curva entre o ombro e a clavícula dele. Distribuí pequenos beijos ao longo do peitoral do meu marido, contornando os músculos das costas enquanto me ajoelhava entre as pernas dele.
Quando olhei para ele, o maxilar estava travado e as mãos já estavam brancas da força que ele utilizava para apertar o celular.
Sbrigati, merda. Mi stai facendo perdere tempo. — ele cuspiu no telefone, mas o tom não era o mesmo. Nem perto.
Ri baixinho.
Afastei a camisa completamente, deixando-a cair pelos braços dele, e beijei o ombro nu. Depois lambi a pele, desenhando um caminho de saliva até a nuca. Senti o corpo dele estremecer. Aproximei a boca bem no ouvido dele, tentando esconder a minha satisfação e suspirei, soltando um gemido baixo e rouco. Os gemidos que eu sabia que ele não suportava ouvir até que estivesse completamente duro.
— Vai continuar fingindo que eu não existo? — Ele não respondeu e, como uma boa esposa, fiz o que qualquer mulher faria no meu lugar. Eu continuei.
De joelhos, eu passei as mãos pelas coxas dele, por cima da calça social. Era impossível não ver o volume grande e completamente duro apertado entre a roupa. Sorri. Eu desabotoei o cinto, então ele segurou o meu pulso.
… — a voz dele saiu tensa, rouca e abafada pelo maxilar travado.
— Shhh… — sussurrei, lambendo a parte interna do pulso dele enquanto olhava pra cima. — Continua no telefone. Eu soltei o botão da calça, desci o zíper bem devagar, com os olhos fixos nos dele.
não falava mais. Apenas ouvia, como se tentasse desesperadamente se manter presente naquela conversa. Vagarosamente, passei a língua pelo abdômen dele, sentindo os músculos se contraírem sob meu toque.
A calça já estava frouxa e, ainda assim, a ereção dele era impossível de ignorar.
encostei mues lábios bem na base do seu quadril, onde a pele é mais fina e suguei ali forte, vendo um pequeno hematoma começar a se formar. gemeu, baixo, quase inaudível, mas ainda assim ouvi. Passei a mão por cima da sua cueca, apertando devagar e ele soltou um palavrão abafado em italiano antes de finalmente afastar o celular do ouvido. Eu olhei para ele, divertida.
— Desligou?
— Porra, .
— Você demorou demais.
Ele me puxou pelos braços, me fazendo levantar, e me prensou contra a parede mais próxima. O peito dele ficou colado ao meu e os olhos queimavam.
— Você está testando meus limites?
Apertei os lábios contra o sorriso que queria escapar.
— Estou lembrando você de onde está o seu lugar hoje. — levei a mão até o pescoço dele e puxei um pouco mais pra perto. — Comigo. Com a sua mulher.
Ele me beijou com força, como se quisesse me punir por ter vencido.
A boca dele invadiu a minha com posse e, por um segundo, quase me faltou o ar. As mão sdele agarraram minha cintura com força, me esmagando contra a parede como se ele quisesse me fundir a ela. Não era um beijo de carinho, era de retaliação. Ainda assim, sorri contra os lábios dele. Porque mesmo quando ele queria me dominar, eu sabia que era ele que estava perdendo completamente o controle.
— Cazzo, Donna. Você acha que pode brincar comigo assim? — ele murmurou entre os beijos.
— Achei que fosse esperto o bastante pra perceber mais rápido.
Desafiei.
Um segundo.
Só um segundo de silêncio.
Então ele me virou de costas, com brutalidade, prensando meu peito contra a parede fria. Seu corpo colou ao meu por trás e as mãos fortes deslizaram pela lateral da minha cintura até alcançarem a parte interna das minhas coxas.
— Você quer que eu te lembre quem manda? — rosnou contra meu ouvido, mordendo de leve minha orelha.
Senti minha perna fraquejar, mas odiaria ceder. Era uam característica dos Moretti.
— Você acha que consegue?
A risada que saiu do fundo da garganta dele foi sombria. Quase animalesca.
Ele puxou meus cabelos com uma brutal ternura, beijando minha nuca, mordiscando minha pele enquanto suas mãos subiam por debaixo da minha camisola.
— Você acordou pedindo por isso, hm? — As mãos se encaixou em minha calcinha e, apesar de estar de costas, eu pude sentir o sorriso que ele esboçou. — Se você quiser abrir as pernas para me distrair, , vai ter que aguentar as consequências. — Ele segurou meu queixo, forçando meu olhar no dele. — E eu juro, por Deus, que não vou parar até você implorar pra eu deixar você respirar.
Ele virou o meu rosto com uma das mãos, seus dedos marcaram minha mandíbula e minhas pernas fraquejaram no mesmo instante. Senti quando ele se abaixou um pouco atrás de mim. Quando as mãos dele afastaram minhas coxas e os dedos correram pela minha pele exposta, explorando os contornos de meu corpo com uma calma doentia. Ele me tocava com domínio, como se conhecesse cada resposta que meu corpo podia dar e como se soubesse ampliá-las.
E Deus, ele sabia.
Ele deslizou um dos dedos, esfregando-o contra a minha calcinha, em seguida afastou-a para o lado, assim, simples. E,q uando o seu dedo estava molhado o suficiente, ele arrastou mais acima. Mais lentamente.
... — falei, com a respiração entrecortada. Eu sabia o que ele estava fazendo.
Ele se aproximou do meu ouvido novamente, com aquele tom rouco e devastador.
— Você está tão quieta agora, amor. Onde foi parar toda sua coragem? — A risada baixa escapou dos meus lábios, mesmo com o corpo todo em alerta. Ele estava testando meus limites agora. Empurrando as barreiras que eu mesma tinha provocado. — Você vai fugir?
— Não.
Ele sorriu contra minha nuca.
— Boa resposta.
Com uma das mãos, ele voltou a me tocar onde eu já estava molhada, pulsando, aberta pra ele. Com a outra ele explorou. Primeiro devagar, com a ponta de um dedo, suave, com cuidado, como se estivesse me mapeando, sentindo a reação do meu corpo ao desconhecido. Eu arfei, ma agarrando mais a parede, meus olhos fecharam-se com força. Meu corpo inteiro tremia, mas não era de medo, era de antecipação. Era de querer aquilo tanto quanto ele, talvez mais.
— Tão apertada. — ele murmurou, com os dedos dançando entre um prazer e outro. — Olha como você treme — sussurrou no meu ouvido. — Nunca foi tocada aqui? Você guardou isso pra mim, ?
Ele soltou um gemido rouco, misturando raiva e adoração, e, então, pressionou os lábios na minha nuca de novo. A mão dele continuava firme no meu quadril, me mantendo exatamente onde ele queria. Com uma paciência perversa, ele usou a mão molhada para preparar, para provocar. Tocava em mim por trás com pequenos círculos, empurrando só um pouco, só o suficiente pra me deixar louca. Enquanto isso, os beijos subiam pela minha coluna e os dentes marcavam minha pele.
Minhas mãos se apoiaram na parede e mordi o meu lábio inferior com força. Parte de mim queria recuar, parte queria mais. Toda parte sabia que era tarde demais pra dizer não.
— Eu disse que era sua. Por inteiro.
A respiração dele ficou mais pesada atrás de mim. Ele se afastou um pouco, só o suficiente pra me abrir com mais facilidade e me posicionar. Uma das mãos pressinou firme no meu quadril, enquanto a outra ficou entre as minhas pernas, me tocando e me distraindo. Quando ele se afastou, por poucos segundos, reclamei, mas não durou muito tempo. Apenas o tempo suficiente para que ele terminasse de abaixar a sua calça.
— Relaxa pra mim — murmurou, num tom de comando e carinho, ao mesmo tempo.
E quando ele pressionou devagar, empurrando, me senti dilacerar. Lentamente. Centímetro por centímetro. As mãos dele não me deixavam fugir, ao invés disso me prenderam mais ali, enquanto seus dedos continuavam, sem parar, deslizando em círculos no meu clitóris. A dor se misturava a uma ardência, mas os dedos dele continuavam tão ágeis que eu não conseguia identificar onde doía e onde me excitava.
Os movimentos começaram devagar. Controlados. E aos poucos, foram ficando mais fundos, mais intensos. A cada estocada, um grunhido escapava dele. E eu gemia, entre a dor e o prazer, com o rosto colado à parede e o coração explodindo no peito. Uma das mãos dele subiu até minha garganta, me fazendo virar um pouco o rosto pra que ele pudesse olhar dentro dos meus olhos mesmo de lado.
— O que foi, querida? Vai gozar sabendo que agora você é só minha, até aqui? — Eu perdi o ar. E perdi o chão. Os movimentos que antes era doloridos se tornaram tudo. Era gostoso ver ele deslizando para dentro de mim, a forma que ele estocava mais forte, me fazendo gemer alto, a maneira que suas mãos apertavam o meu quadril e, céus, eu o sentia indo tão fundo. Gozei com um grito abafado contra a parede. — Agora sim você me tirou da porra da reunião.





Rossi

Ela ainda gemia de forma baixa e sem vergonha alguma, com o rosto colado à parede e as pernas tremendo. Meu nome escapava dela como um pecado e o corpo dela, ainda quente, ainda apertado, me engolia por inteiro.
Eu estava enterrado até o fim enquanto ela me apertava como o inferno. Como se o corpo dela estivesse me punindo por ser o primeiro. Minha mão pressionava a base da sua coluna, forçando a curvatura do corpo dela, a bunda estava empinada na posição exata. A outra mão descia até o meio das coxas dela, tocando devagar, sentindo o clitóris inchado contra meus dedos, sensíveis, causando nela um pequeno choque todas as vezes que eu encostava.
Os joelhos de cederam e, ainda assim, ela não tentou fugir. Ficou ali, aberta, suada, tão fodidamente minha que o sangue parecia ferver por debaixo das nossas peles. Apertei seu quadril com mais força e as estocadas ficaram mais pesadas, mais curtas, mais urgentes. O corpo dela era pressionado contra a parede cada vez que eu empurrava e a bunda dela balançando enquanto me engolia era a porra da visão mais linda que Paris já tinha me dado.
O prazer subiu com tudo, me rasgando por dentro até não conseguir conter. Enterrei até o fim e gozei ali mesmo, dentro dela, com um grunhido rouco contra a nuca suada. Gozei em jatos longos, quentes, marcando o corpo dela por dentro de um jeito que ninguém nunca marcou. Continue assim por mais alguns segundos, sentindo ela aquecer o meu pau, colado nela, sentindo a pele enquanto ela ainda latejava.
Puta que pariu.
Eu conhecia o prazer. Já tive o suficiente pra saber quando é bom, quando é rápido e quando é simples. Mas aquilo? Porra, aquilo me fez ver estrelas.
Tirei devagar, vendo o corpo dela estremecer mais com a ausência. Ela estava cansada, ofegante e mesmo assim mantinha as mãos na parede como se ainda estivesse presa ali, por mim. Aproximei o rosto e beijei o topo da caeça dela. O cabelo estava bagunçado, mas isso conseguia deixá-la ainda mais bonita.
A porra da imagem ia me assombrar depois. Na cama. No carro. Em qualquer merda de reunião que eu tivesse. contra a parede, aberta, fodida, com meu nome escapando da boca dela como se fosse tudo que existisse no mundo.
Me aproximei devagar, enfiei a mão na nuca dela e puxei o corpo dela pra mim.
— Ainda não terminei com você — falei baixo, contra a pele. — Mas vou te dar cinco minutos pra respirar.
— Você está tentando ser generoso, Don Rossi?
O de quem sabia exatamente o que estava fazendo comigo.
Apoiei a mão nas costas dela e a afastei só o suficiente pra me recompor. Vesti a calça com calma, mas a respiração ainda falhava, o corpo ainda estava quente. Vi quando ela deslizou pela parede ese virou, procurando algo para se apoiar. O sorriso que veio em meu rosto, foi imediato.
— Cale a boca — murmurei contra o pescoço dela, com os dentes roçando na pele. — Ou eu volto agora mesmo. — Levanta. — falei, firme.
Ela virou o rosto pra mim, com os olhos pesados de prazer.
...
— Agora, amor. — estendi a mão. — Ou eu vou te carregar. — Ela gemeu baixinho, mas colocou a mão na minha. Puxei-a com firmeza. Ela cambaleou, com o corpo mole, e eu segurei pela cintura antes que caísse de novo, mas não disse nada. então eu a levei até o banheiro. Abri o chuveiro com água morna. Não era só carinho, era necessidade. Ela tava fraca. Exausta. E eu queria ela inteira quando fosse minha de novo. — Tire o resto da roupa, querida.
Ela me olhou de lado.
— Vai ficar me observando?
— Não. — cruzei os braços. — Vou garantir que você não desmaie no banho.
Ela soltou uma risada fraca, quase vencida, mas tinha aquele sorrisinho no canto da boca.
Ela riu de novo. Tirou a camisa, depois o sutiã. Por fim, chutou a calcinha de lado. Entrei atrás dela, de cueca ainda. E fiquei ali. Encarando cada parte daquele corpo que agora era meu. Encostei na parede oposta e fiquei ali, observando-a lavar o cabelo, as costas arquearem, as mãos deslizarem pela pele, mas não a toquei. Ainda não, embora estivesse contando os minutos.
Foda-se a reunião. Foda-se Paris.
Tudo que importava agora era . A mulher que me tirava do eixo. Que provocava, que testava, que sorria no meio do caos como se não soubesse o monstro que criava e gostasse dele.
— Depois disso — falei, com a voz baixa e firme. — A gente pode sair. Você quer Paris? Eu vou te dar Paris.
Ela parou de se mover e me olhou por cima do ombro.
— É isso que você quer, me dar Paris?
Caminhei até ela. Encostei o corpo no dela mais uma vez. E quando minha boca ficou colada em seu ouvido de novo, mordisquei lentamente.
— Que você se lembre de quem você pertence. Por dentro. Por fora. Em todo maldito lugar.
Ela tremeu. E sorriu.




Rossi

Paris continuava barulhenta, apesar do barulho ser diferente. Não era como Nápoles, não era como Roma. O caos aqui parecia um pouco mais educado. As pessoas ainda andavam apressadas, mas não se esbarravam. Os carros buzinavam, mas não havia tantos gritos. Acho que, na verdade, as pessoas daqui fingiam que era uma cidade romântica quando, na verdade, era apenas mais uma cidade cansada.
— Isso aqui é um abuso de glicose. — comentei, olhando a sacola que ela carregava cheia de doces. Ela riu e empurrou um pedaço de brioche na minha boca, me obrigando a comer.
— Cala a boca e aproveita, Don azedo. O corpo precisa de açúcar para funcionar com energia. Não te ensinaram isso?
Mastiguei sem reclamar, apesar do pouco tempo com ela eu sabia que, de forma geral, estaria sendo mais sábio se não contrariasse a minha Donna. O gosto era doce demais para o meu paladar, mas o sorriso dela enquanto via a minha expressão compensava todo o açúcar. conseguia tornar qualquer merda palatável, inclusive eu.
Ela puxou meu braço pra um mercado de rua e parou em frente a uma banca de flores, ela se aproximou, sentindo o cheiro das flores e, então, pegou um buquê.
— Você gostou? — Ela acenou com a cabeça, ainda encantada. Por meio segundo me perguntei se ela já teve essas experiências antes, quantas vezes ganhou rosas, de quem ganhou. Antes que ela percebesse, paguei. Se ela pedisse a Torre Eiffel, eu daria um jeito.
— Isso não combina com a imagem de homem perigoso e impiedoso, você sabe, né? — ela debochou, me vendo com o buquê na mão.
— Foda-se a imagem.
Ela me olhou, surpresa e sorriu. Como se tivesse ganhado mais que um buquê. Seguimos andando quando um artista de rua chamou a atenção dela. Em cinco minutos saímos de uma floricultura e estávamos sentados, sendo desenhados por um cara que parecia mais bêbado do que artista. O resultado ficou uma merda, mas ela gargalhou tanto que doeu no meu peito. A risada dela fez com que aquele desenho se tornasse belo.
— Você vai guardar isso? — perguntei, encarando a caricatura ridícula.
— Eu vou mandar emoldurar. — ela disse, com convicção absurda.
Ela encostou em mim, e por alguns segundos, ninguém gritou meu nome, ninguém sangrou nas minhas mãos, ninguém morreu por minha causa. O mundo ficou pequeno. Só ela, eu, o barulho da água e uma Paris que, com ela, era mais romântica do que cansada.
O celular vibrou no bolso. Ignorei.
Segunda vez.
Terceira.
Cazzo.
Na quarta, olhei a tela. Dessa vez não era Vicenzo ou Roman, era Bianca. Não era a Bianca controlada, afiada, que até sob ameaça de morte falava como se tivesse o domínio da situação, era a Bianca quebrando e isso não era bom.
Ela falou de problemas em Marselha, de um velho nome que avisava que o inferno estava com portas abertas de novo e alguns demônios estavam saindo mais cedo do que o esperado.
— Temos um problema. Em Marselha. — a voz dela falhou na metade da frase. — Um dos nomes antigos, , um dos nomes dele reapareceu.
— Quem?
— Angelo Santoro.
Fechei os olhos.
Senti a mão de se apertar na minha, tentando entender pela minha expressão o que acontecia, mas eu só conseguia pensar numa coisa: merda. Merda pra caralho.
Angelo Santoro não era só um nome. Era a porra de uma lembrança, uma sombra, um dos homens mais leais a Giorgio. Um dos únicos que sabiam demais. Que sumiu por vontade própria quando viu que as coisas iam cair pro lado errado, e que se reaparecesse, não seria por acaso.
— Ele está se movimentando?
— Já tem gente seguindo ordens dele em Marselha. Alguns aliados estão sendo aliciados. Uns capos menores, gente que ficou sem liderança com a queda dos Montelli... estão aderindo. Não sabemos se é pessoal, se é pela Famiglia antiga ou se é contra nós. Mas ele ainda usa o nome de Giorgio — a voz dela baixou — Ele está querendo algo grande.
Não respondi de imediato. Santoro era Giorgio nascido com menos poder e em uma outra Família, mas a mente trabalhava doentia igual. Era ele o estrategista por trás de muitas das execuções mais cruéis que a gente viu na juventude. E se ele tava saindo do inferno... era porque alguém abriu a porta.
— Me escuta, Bianca — falei baixo, mas firme. — Não age. Só observa e manda tudo pra mim. Qualquer aproximação dele, qualquer contato, qualquer merda. Eu quero nome, lugar e horário. Entendeu?
— Sim.
— Ele não vai pôr os pés em território Rossi sem sentir o gosto do próprio sangue. — finalizei, desligando. Quando me virei para o lado, percebi uma curiosa, ligeiramente assustada e, ainda assim, ali. — Precisamos voltar.
Ela assentiu sem drama e sem retrucar, mas antes de dar o primeiro passo, me segurou pelo antebraço.
— Vai me dizer quem é?
— Um fantasma. — respondi, sem romantizar. — Um que nunca deveria ter voltado.
E se voltou, alguém vai morrer por isso.
— Vai me contar? — perguntou.
— No caminho. — Falei, porque era verdade. Ela tinha me convencido que se eu quisesse a proteger, precisava manter ela sábia, esperta e dentro. Não fora. — Você sabe que pode viver um inferno, certo?
— E eu sou a mulher do diabo. Eu aguento.
Porra. Eu a amava.
Ela dizia isso como se fosse simples. Como se o que vinha pela frente não fosse sangue, fogo e decisões que queimavam a alma até virar carvão. Decisões que ela própria não lidaria e que eu me amaldiçoaria por arrastá-la pra isso.
Mas ela era a minha mulher agora e se ela queria a verdade, então ela teria.
Quando entramos no carro, já estava com os olhos atentos. Esperta. Lúcida. Preparada para ser a Donna que a famiglia precisava.
— Santoro era o braço direito do meu pai. Um dos poucos que nunca teve medo de sujar as mãos. Enquanto Giorgio mandava, ele fazia. Tinha método. Tinha prazer. Ele mata devagar porque acha que a dor educa. — permaneceu em silêncio, com o cenho levemente franzido. — Ele desapareceu há anos. Quando meu pai começou a ruir. Ninguém sabia se tava morto ou só escondido, mas agora ele tá de volta e está juntando nomes. Gente que a gente deixou viva por escolha ou por estratégia. E essa gente tá com sede.
— Sede de quê? — ela perguntou.
— De guerra.
— E o que a gente faz?
Olhei pra frente, mantendo as mãos firmes no volante.
— A gente dá a eles o que querem.
— Guerra?
— Não. Medo.
— E como se faz isso com alguém como ele?
— Mostrando que eu não sou Giorgio. Eu sou pior quando mexem com o que é meu.
Balancei a cabeça, com um leve sorriso amargo nos lábios.
— Acha que ele vai tentar me atingir?
— Ele vai tentar atingir tudo o que me faz humano. — Falei, sem rodeios. — Você, meus irmãos, tudo. Mas se ele fizer isso, não vai ter buraco no mundo onde ele possa se esconder. Ninguém vai tocar em você e, se tocar, ninguém vai sair vivo. Eu prometo isso.
virou o rosto pra janela e ficou em silêncio por um tempo. Eu conhecia aquele silêncio. Era dela digerindo. Engolindo o medo como se fosse um gole de veneno necessário.
— Não é morte que eu quero, .
A voz dela veio baixa, mas firme. Como se ela estivesse escolhendo cada palavra com cuidado, não por mim, mas por ela mesma. Pela consciência pura que ela tentava manter mesmo depois de ter casado comigo.
— Eu sei — respondi, mas mantive os olhos na estrada, sentindo a pressão invisível do olhar dela sobre mim. — Mas às vezes, não é sobre o que a gente quer. É sobre o que precisa ser feito.
Ela respirou fundo.
— E o que precisa ser feito agora? — perguntou, com aquele jeito calmo que ela tinha de dissecar monstros. — A gente espera ele fazer o primeiro movimento?
— Não. A gente já tá atrasado.
Silêncio de novo. Mas dessa vez, foi diferente. Quando parei o carro no aeroposto, ela ainda me olhava.
— O que foi? — perguntei.
— Nada. Só... você muda quando fala dele. Do Santoro. Fica mais escuro.
— Porque ele é uma sombra. Eu odeio o que meu pai fazia, mas ele aprendeu com Santoro. Ele viveu com os Santoros. Giorgio era impiedoso, mas tinha a famiglia. Santoro não tem pelo que lutar.
— Você tem medo dele? — ela perguntou, direta.
Eu encarei ela por alguns segundos, sem responder.
— Não. — disse, por fim. — Mas tenho medo do que eu vou me tornar pra pará-lo. Ele vai vir por onde achar que somos mais frágeis. — falei, com o olhar voltado pro prédio à frente. — E eu preciso que você seja o oposto disso.
— Eu já sou, . Você só precisa me deixar mostrar. — Ela soltou minha mão devagar, como se precisasse sentir a ausência do toque pra organizar os próprios pensamentos. Então começou, olhando pra frente, mas vendo algo que não estava ali. — Eu só não sei se aguento perder você também, .
Ela não disse “também” à toa.
O nome do irmão dela não foi dito em voz alta, mas estava entre nós dois como um fantasma sentado no banco de trás. Ela perdeu Lorenzo pra guerra de outros homens. Pra um jogo que ele nunca devia ter jogado, era compreensível o medo de que o mesmo acontecesse com o seu marido.
— Você não vai me perder — falei, firme. — Eu não sou o Lorenzo.
— Mas você é um Rossi, o Don deles. E a diferença entre vocês é que ele entrou na sua guerra. Você é a guerra. — Engoli em seco. Porque ela estava certa. Eu era a porra da guerra. A tempestade que arrastava tudo no caminho, e por mais que tentasse proteger quem estava ao meu lado, às vezes, eu também arrastava. Ela olhou pra mim. Séria. — Eu não quero viver pra enterrar outro homem que eu amo.
— Você não vai. Eu não sou o próximo corpo que você vai chorar, . Você me ouviu?
Ela hesitou por um segundo. O bastante pra me fazer sentir o estômago revirar.
— Promete? — sussurrou.
— Eu prometo.
E eu ia cumprir isso. Porque havia poucas coisas no mundo que eu não aguentava, mas, vê-la chorar estava no topo delas.





Rossi

O jatinho estava pronto, com as luzes baixas e os motores já aquecidos para a decolagem. O carro nos deixou na pista, e desceu primeiro, ele estendeu a mão para mim e andei ao seu lado até o jato. Subi a escada atrás dele, sem pressa.
Entramos na cabine luxuosa da aeronave e, logo, se acomodou no assento à esquerda, cruzando uma perna sobre a outra com uma naturalidade que parecia ensaiada. O celular já estava em uma das mãos, e antes mesmo que eu percebesse ou impedisse, as mensagens estavam sendo lidas com foco. Lá estava meu marido, no modo Rossi novamente. Eu sentei ao lado, ajeitando o casaco e a saia com calma. Ele me olhou, como se pedisse permissão para continuar no celular e não pude evitar o sorriso. Concordei de leve com a cabeça, sabendo que sua posição era nitidamente aquela, impenetrável, a que significava negócios.
Poucos minutos depois, a porta que dava acesso à cabine do piloto se abriu e ele andou até nós em passos lentos, mas não me preparei para olhar, ao invés disso, continuei com a cabeça direcionada a janela do avião.
— Buonasera, signori. Pietro De Santis, seu piloto hoje. — A voz era calma, profissional, como eu lembrava. O nome apenas confirmou, me fazendo olhar para cima rapidamente.
Quando o fiz, meu café da manhã quase voltou.
Pietro.
Cinco anos mais velho, com o mesmo sorriso fácil, o mesmo corte de cabelo militar que ele insistia em manter mesmo depois de sair da aeronáutica. Ele cumprimentou com um aceno de cabeça e as mãos firmes atrás das costas em postura militar.
— Grazie, — respondeu sem levantar os olhos do telefone, mantendo aquele tom que fazia até ministros se endireitarem na cadeira.
Pietro fez o briefing padrão de informações, ainda olhando para o meu marido: rota, previsão do tempo e tempo de voo. Então, como se percebesse o meu olhar fixo antes mesmo de mim ou de , ele se virou.
? — O sorriso dele foi instantâneo, genuíno, daqueles que faziam os olhos azuis dele desaparecerem em meio às rugas de expressão. Não sei se foi minha demora a responder ou se foi o olhar fulminante de , mas eu vi exatamente o momento em que ele percebeu meu anel, a maneira como deixou o telefone cair no colo de repente e a posse implícita no jeito que seu polegar roçou meu pulso. — Signora Rossi — Pietro corrigiu-se, mantendo a voz um tom mais baixo. — Desculpe, não fazia ideia.
desligou o telefone com um clique audível.
— Você se conhecem? — Ele perguntou naquele tom neutro que eu conhecia bem. O tom que precedia problemas.
— Ex-colega de università. — eu disse rápido, enquanto Pietro, profissional como era, já estava recuando.
— O voo será tranquilo. Por favor, apertem os cintos. — Ele desapareceu na cabine antes que eu pudesse pensar em algo para dizer.
não ligou o telefone de volta.
— Amore... — Tentei, antes mesmo que ele iniciasse.
— Università? — Ele perguntou, os dedos batendo no braço da poltrona.
— Sim, cinco anos atrás. Quase seis.
Ele olhou para mim e eu vi o cálculo por trás daqueles olhos escuros, medindo, pesando, decidindo se valia a pena perguntar mais. O avião começou a se mover.
— Ele te chamou de . — observou, casual demais.
— Sim, é o meu nome.
— Hm.
Ele não perguntou mais nada. Não precisava. Eu já conhecia aquele hm e sabia que ele significava que teríamos uma conversa longa quando pousássemos. Ou antes disso.
Pietro fez um anúncio pelo sistema de som, com a voz perfeitamente profissional novamente. pegou meu copo de prosecco e tomou um gole, deixando a marca dos seus lábios exatamente onde os meus tinham ficado. Então decolamos, eu nervosa por não saber como agir, Pietro provavelmente confuso e se perguntando como me casei com um mafioso e calculando quantas formas existiam de matar alguém em um avião em pleno voo.
fez aquele ruído baixo na garganta, o que significava que eu estava sendo difícil de propósito. O que era verdade.
— Você sorriu.
— Sorrio até para garçons, . Chama-se educação.
Ele virou o corpo inteiro na minha direção, o que numa poltrona de primeira classe era quase uma proeza.
— Você não sorriu com educação, .
— Não sorrio de forma diferente para pessoas diferentes.
— Mentira.
Peguei seu copo de whisky e tomei um gole. Ele deixou.
— Você quer mesmo fazer esse interrogatório a dez mil metros de altitude? — O avião balançou levemente, como se concordasse comigo. olhou para a cortina que separava a cabine, depois para mim.
Ele me olhou, ficou quieto por alguns segundos, então desceu as mãos até a maleta que trouxe e pegou de lá um tipo de caderno. Agradeci mentalmente pelo foco dele tornar-se outro. Pelo menos achei que estaria aliviada, mas o incômodo foi ainda maior quando ele passou trinta minutos, em completo silêncio, sem se mover e, ainda assim, coupandometade do corredor com a presença. Ele fingia ler os relatórios financeiros. Eu dizia "fingia" porque ele estava na mesma página há vinte minutos.
— Quer que eu vire para você? — perguntei, cutucando o papel com a unha. — Parece importante, já que você está estudando tanto.
Ele fechou a pasta com um estalo.
— Você disse que eram colegas.
— E éramos.
— Colegas não olham assim.
— Como?
— Como se lembrassem exatamente como você fica sem roupa.
Engasguei com a forma direta que ele falou isso e com a maneira indireta que ele tinha razão. Dizer que eu e Pietro tinhamos sido apenas amigos era uma omissão do fato de que, sim, eu havia transado com ele algumas vezes. Algumas vezes antes de ser Rossi, antes de perder Lorenzo, algumas vezes enquanto tudo ainda era normal, mas eu não estava a fim de admitir isso para o meu marido assassino.
— Dio santo, ! — Limpei os lábios com o guardanapo, tentando não rir. — Ele só foi educado.
Ele resmungou, ajustando o relógio Patek Philippe como se o mecanismo suíço de precisão pudesse resolver nosso debate.
— O italiano médio é "educado". Aquele sorriso foi pessoal.
O avião balançou suavemente, mais uma vez e eu aproveitei para escorregar a mão sob o braço dele, sentindo os músculos tensos mesmo através do terno de Armani.
— Meu Deus, você está mesmo bravo.
— Não estou bravo.
— Claro que não. Só está fazendo aquele rosto.
— Que rosto?
Aquele. — Apontei para sua expressão. — O "vou enterrar você no jardim da minha nonna".
Ele soltou um grunhido que, em qualquer outro homem, seria uma risada.
— Se eu quisesse enterrar alguém, não seria no jardim da nonna. Ela gostava das rosas de lá.
Isso sim me fez rir.
— Foi um semestre, . Ele gostava de aviões, eu gostava de viver às custas do meu pai. Foi mais uma desculpa para faltar às aulas do que um romance.
— Quantas vezes?
— Quantas vezes o quê?
— Vocês dormiram juntos.
Mamma mia... — Esfreguei os olhos. — Umas seis? Sete?
— Sete. — Ele repetiu o número como se fosse uma sentença de morte. — Onde ele te levava?
, querido, você realmente quer detalhes?
— Sim.
— Não.
Ele cruzou os braços. O terno Armani esticou perigosamente sobre os ombros. Era quase fofo, se não fosse assustador.
— Pelo menos me diz que ele era ruim.
— Na cama?
.
Ri, incapaz de resistir.
— Não me lembro.
— Todos se lembram.
— Eu estava bêbada na maioria das vezes.
Peggio. Pior.
Peguei seu queixo entre os dedos, forçando-o a me olhar nos olhos.
— Escuta aqui, mio marito. Se eu quisesse alguém com menos de 1,90m, teria ficado com ele. Em vez disso, casei com você. Mesmo você agindo, neste momento, como um adolescente.
O canto da boca dele tremeu. Vitória.
Ele finalmente soltou um suspiro, grande e exagerado, como sempre fazia quando admitia derrota sem dizer as palavras.
— Só não gosto de como ele te olha.
— Bom, ele não me olha como você me olha. Então temos um vencedor, certo? — A tentativa de piada foi falha, considerando que ele não sorriu.
— É diferente.
— Porque você é meu marido?
— Porque se ele olhasse para você do jeito que eu olho pra você, ele já estaria morto.
Eu não pude evitar de achar incrivelmanete bonita a forma maníaca que ele falava. Céus, eu estava mais perdida do que nunca.
— Ciúme é feio, Rossi. — Ele não me respondeu, o que me fez respirar fundo e continuar — Amore... — comecei, desenhando círculos no pulso dele com o polegar — você sabe que não existe comparação, né?
Ele fez aquele ruído gutural que eu conhecia tão bem.
Non è questo il punto.
— Então qual é? — ergui o rosto para encará-lo. — Querido, ele pode me olhar como quiser, pode sorrir, pode até se lembrar de como eu tomava café na faculdade. — Meus dedos traçaram sua mandíbula tensa — Mas você é o meu marido, só você sabe como eu grito seu nome quando estamos sozinhos. Só você conhece aquele lugar na minha nuca que me faz derreter. Só você — baixei a voz — Me faz sentir tão dona de mim e tão sua ao mesmo tempo. — parou de respirar por um segundo. Eu vi seu olhar mudar, a fúria dando lugar para algo mais profundo.
— Amanhã mesmo vou descobrir quem é o dono dessa companhia.
— Vai demitir ele? Esse é o seu plano?
— Ele está dirigindo o nosso avião e eu gosto muito desse jato, sendo assim, infelizmente ainda não posso matá-lo. Então, o mais lógico é comprar essa droga, demitir ele, e talvez — ele inclinou-se para sussurrar em meu ouvido — Fazer com que o único emprego que ele consiga a partir de hoje, seja como motorista de ônibus escolar em Sicília.
Dessa vez, eu não consegui segurar a risada. aproveitou para puxar meu queixo e me roubar um beijo com sabor de whisky caro e possessividade.
— Você não vai fazer isso.
— Sorria menos e eu pensarei. — ordenou contra meus lábios. Ele fecha os olhos por um instante, como se estivesse absorvendo cada palavra. Quando os abre novamente, há uma doçura ali que só eu conheço.
— Você acha mesmo que algum homem no mundo me faz sentir o que você faz? — pergunto, os dedos traçando sua mandíbula tensa.
prende a respiração por um instante.
— Diga — ele ordena, suave, mas firme.
— Ninguém — sussurro, puxando-o para perto. — Ninguém me deixa sem ar como você. Ninguém me faz perder a cabeça assim.
Finalmente seu olhar muda. A rigidez nos ombros diminui, e ele inclina a testa contra a minha.
— Maledizione — ele murmura, quase um suspiro. — Sorrio, sentindo a tensão se dissipar. — Eu não mereço você.
— Não, não merece. — Brinco, esfregando o meu nariz no dele. — Mas você tem muita sorte, porque não vou a lugar algum.
Ele solta um riso baixo, quase rouco, e então me puxa contra ele, envolvendo-me em seus braços. Seu coração bate forte contra o meu, e por um momento, esquecemos do avião, do Pietro, para onde estávamos voltando, esquecemos de tudo.
— Promete? — Ele sussurra contra meu cabelo.
— Prometo. — Respondo, enterrando o rosto em seu pescoço. — Mas você tem que prometer parar de ameaçar comprar empresas só para provar um ponto.
Ele ri, desta vez de verdade.
— Não prometo nada.
O avião balança levemente, e a voz de Pietro ecoa pelo sistema de som, anunciando nossa aproximação a Roma. solta um suspiro exagerado.
— Pelo menos ele sabe pilotar.
Ri, apertando sua mão com força.
— Veja só, progresso.
E enquanto o avião desce em direção a Roma, eu me aconchego contra ele, sabendo que, por trás de toda a frieza e possessividade, existe um amor que só nós dois entendemos.
E eu não trocaria isso por nada.



Rossi


O carro parou em frente à mansão, e por um instante, hesitei em sair dele. Eu ainda segurava a mão de quando respirei fundo antes de abrir a porta. Era estranho pensar que, agora, eu era esposa dele. Do Don. Que agora aquele caos também era meu e, em partes, acho que isso acontecua porque o ar de casa tinha cheiro de lembranças e nenhuma delas era realmente minha. O lugar era bonito, imponente como tudo o que ele fazia questão de manter sob controle, mas mesmo no meio de toda grandez e do conforto que me transmitia com o olhar, eu ainda não me sentia totalmente em casa. Talvez fosse o eco dos gritos contidos, dos segredos enterrados nas paredes. Talvez fosse só a consciência de que, por mais que essa fosse minha nova realidade, eu nunca deixaria de me sentir uma intrusa.
Ele saiu primeiro, vindo até meu lado e abrindo a porta antes que eu sequer pudesse tocar na maçaneta. O chão familiar sob meus pés causava um desconforto estranho, ainda era errado para mim encontrar conforto naquele cenário. Ainda me culpava pelos sangue derramado, mesmo que não tivesse sido em minhas mãos. Eu era parte do que odiava agora.
A porta mal havia se fechado atrás de nós quando o caos se apresentou.
— GRAZIE A DIO! — a voz de Bianca explodiu assim que a porta se abriu, desesperada, carregada de alívio e exaustão ao mesmo tempo. — Se eu precisasse correr mais uma vez com essa barriga, eu ia matar os cachorros. E a criança. E os dois que ainda nem nasceram!
Antes que eu pudesse processar a cena, os meus dois dobermans enormes passaram correndo pela sala, quase derrubando um vaso, e Vicenzo, no caminho. O rosnado brincalhão deles misturava-se aos latidos altos demais para o ambiente fechado. A mansão inteira parecia ter sido engolida por uma tempestade doméstica e descontrolada. Bianca estava encostada na parede, arfando, uma mão apoiada nas costas, a outra segurando firme um controle de TV que aparentemente usava como arma improvisada.
— Bianca… — comecei, mas ela nem me olhou. O olhar dela estava todo voltado para , como se ele fosse a encarnação de todos os seus problemas acumulados nos últimos dias.
— Vocês tiraram férias. FÉ-RI-AS. — ela cuspiu a palavra como se fosse uma afronta pessoal. — E me deixaram aqui sozinha, grávida de gêmeos, com dois cães do inferno e uma criança de seis anos que sobe no lustre e acha que não vai morrer!
passou a mão pelo rosto, respirando fundo, provavelmente tentando lembrar que não devia matar a própria irmã.
— Você não deveria estar correndo com essa barriga, — ele resmungou, com o cenho franzido. — Cadê o Vicenzo? Ele não estava aqui pra te ajudar?
— Você acha MESMO que o Vicenzo é ajuda? — Bianca riu sem humor.
— Ei! — a voz grave ecoou pela escada, e logo depois ele apareceu, com a mesma expressão entediada de sempre. — Primeiro: ninguém pediu minha ajuda. Segundo: quem colocou esses bichos dentro de casa foi o Roman, não eu.
— Ótimo. — Bianca jogou as mãos para o alto. — Ele some por dois dias e ainda me deixa com dois demônios em forma de cachorro. Eu devia ter fugido também. Com o Lucca e o controle remoto. Ninguém ia notar.
apertou a mandíbula. Era sutil, mas eu já aprendia a ler os sinais de quando ele começava a se irritar.
— Roman sumiu há dois dias? — ele repetiu, com a voz mais baixa agora, mais fria.
— Sumiu. — Vicenzo deu de ombros, se encostando no batente da escada. — Mas eu aposto meu carro que ele tá enfiado em algum motel com alguma puta. É a única coisa que ele sabe fazer.
— Não fale assim. — Bianca disse de imediato, o tom cortante. — Eu não gosto quando vocês falam assim de uma mulher.
— E eu não gosto de eufemismo, — ele retrucou, com um sorriso torto. — Roman não gosta de mulheres, Bianca. Ele gosta de putas. Tem diferença.
— Você é um idiota, — ela respondeu, cansada, virando de costas e indo até o sofá com dificuldade.
Enquanto o caos continuava a se desenrolar entre eles, uma nova voz surgiu de dentro do corredor, alta e feliz, completamente alheia à tensão
!
Antes que eu pudesse me virar, senti o impacto. Um corpo pequeno e leve colidiu contra o meu, me envolvendo com braços finos e apertados demais para o tamanho dele.
— Lucca! — sorri, abaixando-me para envolvê-lo melhor. — Meu Deus, como você tá grande!
Ele riu alto, agarrado ao meu pescoço, sem pressa de soltar.
— Você demorou! Achei que não vinha mais!
— Eu voltei, sussurrei. — Tô aqui agora.
Ele se afastou só o suficiente para me olhar nos olhos, o sorriso iluminava seu rosto redondo, ainda infantil. Mas logo franziu a testa ao perceber ali, imóvel, observando a cena com o olhar impassível. Seu queixo se ergueu em direção a , os olhos estavam estreitados com a bravura que só uma criança de seis anos poderia ter diante de um desconhecido gigante com a expressão neutra.
ficou parado, com as mãos nos bolsos, encarando o menino como quem estudava uma peça rara ou se preparando para uma batalha. Acho que a segunda opção era a melhor, considerando que ele olhava Lucca com medo. Como se, de todas as guerras que já enfrentou, essa fosse a mais delicada: ser apresentado ao irmão da mulher que ele mantinha sob o próprio sobrenome.
— Quem é esse homem? — ele perguntou, desconfiado, estreitando os olhos como quem avaliava um inimigo.
Antes que eu pudesse responder, se abaixou devagar, ficando da altura dele.
— Sou o . — Disse com a voz firme, mas não dura. — E você é o Lucca, certo?
Lucca assentiu, mas não tirou o corpo de perto do meu.
— Você mora aqui também? — ele perguntou, sério.
soltou um som quase risonho pelo nariz, depois olhou pra mim antes de responder
— Se você deixar, sim.
Lucca pareceu considerar por um momento, antes de responder e, então, acenou com a cabeça.
— Mas eu durmo com a . E os cachorros são meus amigos.
ergueu uma sobrancelha e se levantou, deixando uma mão descansar de leve nas minhas costas.
— Veremos sobre isso.
Bianca riu do sofá, cansada demais pra se importar com qualquer formalidade.
— Boa sorte com isso, . Ele não divide nem o controle da TV.
— Tudo que eu mais queria era uma creche. — ele murmurou, ríspido, sem nem me olhar direito. — Ótimo. Mais um dos problemas causados por você.
Ele passou direto, deixando o ombro encostar no meu ao passar, e por um segundo eu senti vontade de responder, mas o calor dos braços de Lucca ao meu redor e o olhar de fixo nele seguraram minha reação. Eu ainda não sabia como equilibrar o mundo de onde vinha com o mundo em que me enfiei, mas no meio do caos, do barulho, das farpas afiadas trocadas entre irmãos, e da energia incansável de uma criança que agora fazia parte de tudo aquilo, ficou muito perceptível que a mansão dos Rossi jamais seria tranquila. Mas era segura e, talvez, pudesse ser um lar.
se afastou primeiro, com os dedos deslizando dos meus numa despedida silenciosa. Ele chamou Vicenzo com um aceno de cabeça, e o irmão, ainda irritado comigo, com Roman ou com o mundo, o seguiu até a porta dos fundos.
— Lucca, — chamei, abaixando-me outra vez e ajeitando os fios de cabelo bagunçados da testa dele. — Leva os cachorros pra casinha deles, no jardim? Eles precisam de água e descanso, igual todo mundo aqui.
— Mas eles não querem dormir, eles querem brincar! — ele reclamou, cruzando os braços.
— E você quer que eu fique aqui com você, né? — ergui a sobrancelha, e ele assentiu, convencido. — Então faz isso pra mim. Eles descansam, e eu fico com mais tempo e atenção para você, que tal?
Ele considerou. Lucca era novo demais para entender metade das coisas acontecendo naquela casa, mas não era bobo. Sabia negociar. Ele deu um beijo barulhento na minha bochecha e saiu correndo atrás dos cachorros como se aquilo fosse sua mais nova missão de guerra.
Bianca estava jogada no sofá, com uma das mãos apoiando a parte inferior das costas, a outra repousando sobre a barriga imensa. Sentei-me ao lado dela, com cuidado, e esperei até que ela suspirasse fundo e se rendesse à minha presença.
— Você está bem? — perguntei baixinho, estendendo a mão até encostar de leve na barriga esticada. Os bebês se mexeram sob meus dedos, como se também tivessem me respondendo.
Bianca fechou os olhos por um segundo.
— Tô cansada. Inchada. E se um dos dois chutar minha bexiga de novo, eu vou ser obrigada a tirar eles de dentro de mim a força. — Ela olhou pra mim de lado, com a sombra de um sorriso nos lábios. — Fora isso, tô ótima.
— Eles são fortes — Comentei, tentando aliviar o peso da atmosfera. — Devem puxar a mãe.
Ela riu, mas foi um riso breve, curto demais pra ser leve.
Por um momento, apenas ficamos ali, ouvindo os sons ao fundo: o latido dos cães, a voz distante de Lucca, e o tom abafado da conversa de e Vicenzo do lado de fora, mas não demorou para que a inquietação tomasse conta de mim. Era sutil, mas Bianca estava desconfortável e, por algum motivo idiota, ou talvez pelo motivo lógico do desconforto dela, percebi que aquilo podia se tratar de Roman e do jeito que ela sempre mudava quando falávamos sobre ele.
— Bianca — comecei devagar, mantendo o tom o mais neutro que consegui. — Tem alguma coisa entre você e o Roman?
Ela virou o rosto tão rápido que eu quase me afastei.
— O quê?
— Desculpa — me apressei em dizer, recuando levemente, mas não o suficiente pra parecer menos culpada pela pergunta. — É que… eu vi como você fica toda vez que falam dele. E quando o Vicenzo falou que ele sumiu, você ficou nervosa.
Bianca ficou em silêncio, mas eu não gostava disso. O silêncio dela era sempre mais barulhento que qualquer grito. E então, com uma lentidão perigosa, ela se virou totalmente para mim.
— Você tá insinuando o quê, exatamente? Que eu tô apaixonada pelo Roman?
— Não tô insinuando nada, respondi, tentando manter a calma diante do olhar cortante que ela lançou. — Tô perguntando. Porque se tem algo acontecendo, talvez alguém devesse saber. , talvez.
Bianca me encarou como se eu tivesse atravessado uma linha invisível.
— Ele é meu irmão, . — A voz dela veio baixa, mas havia veneno na entonação. — Não sei como as coisas funcionavam na sua casa, mas na minha, isso não é uma possibilidade. Nem como piada.
— Desculpa. — Sussurrei, baixando o olhar. — Não quis te ofender.
Ela não respondeu de imediato. Passaram-se alguns segundos antes que eu sentisse o toque leve da mão dela sobre a minha.
— Eu tô muito cansada. — ela disse por fim, com a voz mais gentil. — Tô emocional demais. E o Roman é um idiota, mas é meu irmão. Eu cresci com ele. Eu cuidei dele e ele cuidou de mim quando e Vicenzo não eram uma opção. — Ela ia continuar, mas as suas palavras morreram antes de ganharem forma.
— Tá tudo bem, murmurei. — Não precisa explicar.
Bianca assentiu devagar e se recostou no sofá, exausta de um jeito que não tinha nada a ver com gravidez.
Deixei Bianca descansando no sofá e saí pela porta da varanda. Lucca já estava no jardim, correndo atrás dos dois dobermans como se fossem filhotes inofensivos e não duas bestas musculosas que só obedeciam a ordens em italiano ríspido.
— Ei, general. — chamei com um sorriso, cruzando os braços enquanto observava a cena. — Precisa de reforços?
— Eles são bobos. — ele respondeu, ofegante, parando com as mãos nos quadris. — Fingem que não escutam, mas escutam sim. Igual adulto.
— Concordo plenamente.
Me aproximei e dei um assobio curto. Um dos cães, o maior, parou de correr e veio em minha direção. O outro, relutante, logo seguiu. Juntos, levamos os dois até a casa dos cães, uma construção firme no canto do jardim, com espaço, sombra e até almofadas mais confortáveis do que as que eu costumava ter em casa.
— Pronto, disse, fechando o portãozinho de madeira com o trinco de ferro. — Missão cumprida, Capitão Lucca.
— Agora você vai ver meu quarto! — ele exclamou, segurando minha mão com força e já me puxando de volta para dentro. — É meu de verdade, sabia? Bianca disse que ninguém manda nele além de mim. Nem você.
— Nem eu?
— Nem você.
— Hmmm… não sei se foi exatamente isso que ela disse. — brinquei, mas por dentro, meu coração apertava.
O caminho até o quarto dele era uma sucessão de memórias recentes e dores antigas. Era impossível estar ali e não pensar em Lorenzo. Quando Lucca abriu a porta, senti meu peito doer. O quarto era amplo, colorido com bom gosto. Havia brinquedos organizados em uma estante, livros infantis bem cuidados, uma cama com lençóis do Spider-Man, o herói favorito dele desde os quatro anos. E desenhos nas paredes. Vários. Alguns, claramente feitos por ele.
— Você gostou? — ele perguntou, ansioso e com os olhos brilhando de expectativa.
— É lindo. — respondi, ajoelhando para ficar na altura dele. — É mais bonito do que qualquer quarto que eu já vi.
Ele sorriu como se tivesse ganhado o mundo. Em seguida, pulou em cima de mim e me fez cair sentada no tapete felpudo.
— Você não viu a gaveta de doces!
— Você tem uma gaveta de doces?!
— Shhhh, é segredo! O Vizendo disse que a Bianca não sabe.
— Aposto que ela sabe sim. — murmurei, segurando a risada enquanto ele corria até o móvel.
Ficamos ali, sentados no chão. Ele pegou alguns doces e dividiu comigo, mesmo depois de eu dizer que não precisava. Lucca estava mais magro do que deveria para a idade, ainda pequeno demais para carregar os meses de solidão que enfrentamos e as longas semanas em um hospital, mas o brilho nos olhos dele era novo. E bonito. E esperançoso.
— Você brincou com a Bianca? — perguntei, passando a mão pelos cabelos dele. — Foi legal com ela?
— Ela briga mais que você. — ele reclamou com um biquinho. — Mas ela me deu biscoito de noite, mesmo assim.
— E os dias aqui? Como foram?
Ele mastigou o doce antes de responder.
— Eles me chamam de "bambino". O Vicenzo me ignora, mas o Roman me ensinou a jogar cartas. — Ele sorriu. — Eu ganhei dele, sabia?
— Duvido!
— Ganhei sim!
— Vou ter que perguntar pra ele depois.
— Ele sumiu. — A expressão dele caiu um pouco. — Mas eu gostei daqui. É grande. E tem meu cheiro agora. E meu quarto é bonitão, né?
— É o quarto mais bonitão que eu já vi. — Segurei o rosto dele entre minhas mãos. — Faz tanto tempo que eu queria te ver. Tantos dias que eu só conseguia ouvir sua voz pelo telefone…
— Você chorou alguma vez?
— Várias.
Ele se aproximou, como se aquilo pedisse urgência, e se jogou no meu colo mais uma vez. E ali, com meu irmão no colo, agarrado a mim como se o tempo perdido pudesse ser recuperado com força, eu fechei os olhos.
Respirei.
Pela primeira vez em meses, respirei fundo, sentindo que ele era meu de novo. Meu Lucca. Meu irmão. Vivo. Saudável. Comendo doces num quarto só dele. A salvo.
Graças ao homem que agora eu carregava o sobrenome.
Graças a Rossi.
— A gente vai morar aqui agora? — ele perguntou, com a voz abafada contra meu ombro.
— Vamos. — respondi, sentindo o nó na garganta crescer. — Você nunca mais vai voltar pra aquele hospital, Lucca. Eu prometo.
E quando ele sorriu, mesmo com chocolate nos dentes, eu soube: tudo o que suportei até agora, tudo que ainda teria que suportar, valia. Eu odiava as coisas ruins que fazia, mas também tinha que valorizar as boas. E estava pronta para isso, para estar com meu marido, apoiar ele, reconhecer ele e, além disso, aceitar também o que ele fazia.
— Você pode dormir aqui hoje? — ele perguntou, deitado agora no tapete, a cabeça encostada na minha perna. — Só hoje.
— Posso, sim. — respondi sem hesitar, afagando os cabelos macios dele. — Mas se eu dormir aqui hoje,… então amanhã é você que dorme comigo no meu quarto, combinado?
— Só se o não roncar igual urso.
Soltei uma risada abafada e olhei em volta. As paredes coloridas, a estante arrumada, os desenhos colados com cuidado. Era o tipo de carinho que alguém teve por ele, ou mandou que tivessem.
— Fica aqui um pouquinho — sussurrei, me inclinando para deixar um beijo demorado no topo da cabeça dele. — Vou só ver o que os grandalhões estão aprontando e já volto.
Ele assentiu, com os olhos fechando, já quase dormindo e o corpo relaxado como se soubesse, pela primeira vez, que estava seguro.
Me levantei devagar e saí do quarto, fechando a porta com cuidado. O corredor estava em silêncio, exceto por um leve barulho vindo de uma das salas laterais, onde e Vicenzo tinham ido conversar.
Andei devagar até a beira da escada. A primeira que ouvi foi a de .
— Ela está grávida, cazzo. Você não pode deixar a Bianca sozinha daquele jeito.
— Eu não deixei. Só não grudei nela como um cachorrinho. E também não sou babá de criança.
— Você é tio e ela é nossa irmã. Com uma barriga de oito meses e dois dobermans correndo soltos. Ela podia ter se machucado.
— Ela também é a mulher mais teimosa que eu conheço. — Vicenzo respondeu, irritado. — Não quis que ninguém ficasse enchendo o saco dela. E eu tenho outras coisas pra cuidar também, . Tipo o Roman, sumido há dois dias
Houve uma pausa. Senti meu estômago revirar ao ouvir aquele nome.
— Ele já desapareceu antes — disse, mais baixo. — Mas nunca por tanto tempo. Nem com ela assim.
— Talvez ele não queira ver ela com essa barriga.
Abbastanza! — ralhou, firme. — Não falo de mulher assim nem quando odeio uma.
— Roman não gosta de mulher — Vicenzo provocou, rindo abafado. — Ele gosta de puta. Tem diferença. E quanto mais vazia, melhor pra ele.
Houve um silêncio longo e desconfortável.
— Marco está vindo e espero muito que Bianca não mate ele ou ele não mate ela.
Dei um passo para trás, sem perceber que estava prendendo a respiração. Me afastei em silêncio, voltando pelo corredor até a sala onde Bianca ainda estava sentada. Ela olhava para o vazio, com a mão sobre a barriga, e a testa franzida.
— Está tudo bem? — perguntei, me aproximando com cuidado.
Ela ergueu os olhos na minha direção.
— Não sei se já estive bem esses dias. Mas agora, com vocês aqui, talvez fique um pouco melhor.
Me sentei ao lado dela e, num impulso, estendi a mão até sua barriga, acariciando de leve pela segunda vez nos últimos minutos. A barriga estava firme, pesada, viva. Era estranho como algo tão pequeno ainda podia ocupar tanto espaço.
— Você vai ser uma mãe maravilhosa, Bianca.
Ela riu com um som quase seco.
— Vou ser uma mãe surtada. isso sim. — Suspirou e recostou melhor no sofá.
— Precisa de ajuda com alguma coisa? — perguntei, me aproximando.
— Com uma máquina do tempo talvez. — ela murmurou, exausta. — Ou com um tranquilizante pras crianças também, já que estamos pedindo milagres.
Ri baixinho e me sentei ao lado dela. O silêncio entre nós foi confortável por alguns segundos, até que minha curiosidade falou mais alto.
— Bianca… — comecei devagar, tentando parecer casual. Eu sabia que não devia falar sobre o que escutava, principalmente pelo tom de voz de , mas também sabia que Bianca estava grávida. E uma surpresa não tão boa não era viável naquele momento. — Você conhece alguém chamado Marco?
Ela congelou. Não só parou de se mexer, foi como se o ar ao redor dela tivesse se tornado mais pesado. Os olhos castanhos se arregalaram, as mãos deslizaram instintivamente para a barriga como se quisessem protegê-la de algo e então ela me olhou.
Pálida.
Assustada.
— Marco? — repetiu, como se o nome tivesse vindo de um pesadelo.
Assenti, observando cada mínimo movimento dela. O rubor que subia devagar pela pele do rosto, a forma como os dedos começaram a apertar o tecido da blusa sem que ela percebesse.
— O comentou — expliquei, mantendo o tom neutro. — Ele ouviu algo sobre Marco. Disse que está vindo. Que alguém o mencionou entre as famílias. Eu achei estranho porque nunca ouvi falar.
— Você tem certeza? — Bianca sussurrou, a voz bem mais fraca agora. — Tem certeza que era esse nome? Não ouviu errado?
— Marco. — Eepeti. — Foi o que disse. Achei que talvez fosse alguém conhecido seu.
Ela desviou o olhar. Rápido demais. E quando voltou a me encarar, tinha uma muralha de ferro por trás dos olhos.
— Não conheço nenhum Marco importante — disse firme demais.
A resposta veio rápida, fria e ensaiada.
Apenas assenti, fingindo acreditar.
Bianca se recostou novamente, tentando recuperar a pose de sempre.
— Você acha que ele, esse Marco, é perigoso? — perguntei, apenas testando as águas.
Ela demorou para responder.
— Depende — disse por fim, e havia uma nota de dor sob o sarcasmo. — Perigoso pra quem?
O silêncio se estendeu entre nós. Mais denso do que antes. E eu soube que havia muito mais naquela história do que ela estava disposta a me contar.
— Se precisar conversar... você sabe que pode falar comigo, certo?
Bianca assentiu, mas não me olhou.
Marco.
Quem quer que ele fosse, tinha acabado de abrir mais uma porta nesse labirinto que era a família Rossi.





Rossi


A mansão estava quieta. Um silêncio raro, quase irreal, considerando o caos que reinava horas antes. As luzes baixas do meu escritório refletiam nos vidros de bourbon alinhados na estante, e eu mal tinha tocado no meu copo. A bebida estava lá mais por hábito do que por vontade. A porta se abriu sem bater. Bianca entrou com a postura de quem já estava exausta antes mesmo de começar a discussão. A barriga avantajada a obrigava a andar mais devagar, mas nada diminuía a ferocidade no olhar faminto daquela Rossi.
— Don — ela disse, com um sorriso amargo.
Fechei os olhos por um segundo, respirando fundo. Bianca nunca me chamava de Don e, sempre que chamava, era anunciando um caos maior do que eu gostaria.
— Sente-se, Bianca. Você não deveria ficar em pé tanto tempo.
— Não me trate como uma inválida.
— Bianca, não é o momento.
— Não? — Ela encostou as mãos na cintura, com os dedos pressionando a parte inferior das costas como se sustentassem o peso do mundo. — Então me diz qual é o momento certo pra descobrir que Marco está voltando. Porque eu achei que a gente tinha um acordo.
Arqueei os olhos, mirando a expressão raivosa de minha irmã.
— Quem te contou sobre ele? — perguntei, mantendo a voz firme.
— A — ela respondeu, sem hesitar. — E antes que você pense em culpar ela, saiba que eu a obriguei a falar.
Meus dedos se fecharam em torno do copo.
. Claro. Ela estava aprendendo rápido demais a navegar pelos segredos dessa família.
— Ele não é um problema seu — falei, evitando o olhar dela.
Bianca riu, sem humor.
— Não é um problema meu? — Ela avançou até a minha mesa, apoiando as mãos na madeira polida. — Então me explica, , por que diabos o nome dele surgiu agora? Por que ele está voltando? E por que caralhos ninguém me avisou?
Ergui o olhar, enfrentando a fúria nos olhos dela.
— Porque não é da sua conta.
Ela ficou imóvel. A respiração estava acelerada e o rosto levemente ruborizado.
— Tudo que envolva ele é da minha conta — sussurrou. — Eu sou sua consiglieri, . Minha opinião deveria ser ouvida.
— E é, mas algumas decisões são minhas. Sozinhas. — Eu pausei, percebendo que talvez estivesse sendo grosso demais. — Ele não vai te procurar.
— Como você sabe?
— Porque eu não deixarei.
Bianca apertou os lábios, com um desdém típico, mas não me respondeu. Ela contou mentalmente, respirou fundo e com uma calma que eu não sabia de onde vinha, respondeu.
— Você não controla tudo, .
— Controlo o suficiente.
Ela balançou a cabeça, desacreditada.
— Eu não quero ele perto dos meus filhos.
— E não estará.
— Você prometeu isso antes.
— E cumpri.
— Então por que ele está voltando? — A voz dela quebrou, e pela primeira vez em anos, vi Bianca vulnerável.
Segurei o copo com mais força, sentindo o cristal gelado contra a palma da mão.
— Negócios. Nada mais.
— Negócios. — Ela repetiu, como se a palavra fosse um veneno. — Tudo sempre se resume a negócios, não é?
— Bianca…
— Não. — Ela se afastou da mesa, erguendo uma mão. — Eu não quero saber. Só quero que você lembre de uma coisa: se ele pisar aqui, se ele sequer olhar para os meus filhos, eu mesma arranco o coração dele.
Eu respirei fundo, dessa vez mais pesado que o normal. Ela apertou os lábios, controlando o incômodo como sempre fazia.
— Está tudo bem com eles? — perguntei.
— Estão se mexendo muito. Massimo está cada vez mais forte. — Ela olhou para mim de relance. — Vai nascer com o temperamento do Vicenzo.
— Deus nos livre de mais uma maluco nesta família. — Me aproximei dela devagar, como se estivesse lidando com um animal assustado, e me ajoelhei no tapete persa, nivelando meu olhar ao dela. Coloquei a mão sobre sua barriga, sentindo o movimento vigoroso de dentro.
Bianca não sorriu.
— Por que deixar Marco voltar, ? — A voz dela era firme, mas eu conhecia minha irmã o suficiente para perceber o tremor escondido.
— Não vi motivo pra recusar. — Suspirei, mantendo a mão onde estava. — Ele tem laços em Palermo que não podemos ignorar. Homens leais a ele, informações valiosas — Meus dedos se apertaram levemente no tecido do vestido dela. — Alguém está tentando me matar. De novo. Preciso de todas as armas que puder ter.
— Ele não é uma arma. Ele é um risco.
— Todo homem nesse mundo é um risco, Bianca. — Suspirei, passando o polegar sobre o tecido do vestido dela, em um gesto inconsciente de conforto. — Mas ele tem informações. E considerando que depois de tantas tentativas de me assassinarem, alguém pode acertar...
— Não fale assim. — Ela cortou, com os olhos escurecendo. Ela desviou o olhar. Respirou fundo. Os olhos marejaram, mas ela piscou antes que caísse qualquer lágrima. — Você acha que ele é o pai, não é?
Ele acha que é — acrescentei.
— Eu nunca menti pra você, .
— E nunca disse a verdade também, sorellina. — Ela não respondeu. Só ficou me encarando, como se procurasse as palavras certas em algum lugar dentro dela. Mas não encontrou. Ao invés disso, apenas virou as costas. — Bianca — chamei. — Ele é o pai?
Bianca trincou o maxilar. A resposta que ela estava tentando engolir quase escapou, mas ela a engoliu mesmo assim.
— Eu escolhi não dizer quem era o pai, e você respeitou isso.
— Respeitei, sim — confirmei. — Quando não havia suspeitas desses meninos serem de Marco. Isso muda as coisas, você sabe disso.
— Isso é problema meu.
— Não. — Minha voz cortou o ar. — Não é. Você é a porcaria de uma Rossi. E se esse cara for pai das crianças, ele entra automaticamente na nossa mesa. No nosso sangue. Nos nossos segredos. Eu não me importo com o que aconteceu entre vocês. Não me importo com o que você sentiu por ele, você é adulta e dona de todas as suas escolhas, mas se ele for o pai, ele entra pra essa família. E eu preciso saber se posso confiar nele. Porque se ele for uma ameaça, Bianca, não importa o passado. Ele vai cair. Você acha que pode fugir disso pra sempre? — perguntei, encostado à porta.
Ela não se virou.
— Não estou fugindo, .
— Está, sim. Desde o dia em que vomitou na nossa sala de reuniões e fingiu que era por causa do café da manhã. Eu sou seu irmão. Eu sou o chefe dessa família. Eu consigo lidar com o que quer que Marco vá representar nisso tudo.
— Mas eles não. — Ela respirou fundo, caminhando até a janela e colocou as mãos sobre a moldura. — Marco não tem nada a ver com os bebês, .
— Isso precisa acabar, Bianca.
— O quê?
— Esse jogo de não dizer. De se esconder. Você está grávida de gêmeos. E o pai dessas crianças vai ter um lugar à mesa. Vai ter poder, voz. E pra isso, eu preciso saber se é um nome confiável.
— E se for um inimigo? — disparou, firme. — Se for alguém que você considera um traidor, você ainda deixaria ele sentar à mesa só porque vou ter filhos dele?
— Se for um inimigo — eu pausei, olhando fundo nos olhos dela. A pergunta era tola porque, no fim, ela já sabia o que aconteceria. — É morte. Você sabe disso. Um traidor não tem mesa. Tem cova. — Ela engoliu seco. — Mas você não se deitaria com um traidor — completou. — E muito menos com um inimigo.
— Eles têm o meu sangue. Isso basta.
— Não basta. — Cruzei os braços. — Eu conheço essa casa. Conheço o mundo em que a gente vive. O sobrenome tem impacto, sim, mas o que protege de verdade é quem senta com a gente. Quem come do mesmo prato e quem sangra pelo mesmo lado. Você acha que tá protegendo alguém escondendo quem é o pai, mas está colocando os bebês no meio de um jogo político que não entenderiam nem se tivessem dez anos. Se for o Marco, você tem que me dizer e se for, ele vai ter um lugar na mesa. Goste você ou não.
— Você quer dar lugar a um homem só porque ele transou comigo?
— Não. Quero dar lugar a um homem que carrega sangue da próxima geração da nossa família.
— Não importa quem seja, . Eles são meus. Eu vou criar esses meninos com ou sem o pai e você vai ter que aceitar isso.
— Talvez eu aceite. Mas o mundo lá fora não vai, esses meninos vão crescer perguntando quem é o pai deles. E se a resposta for fraca, o nome deles também será.
— Você não entende.
— Então me faça entender.
— Não posso.
— Então torça pra eu não descobrir sozinho.
Ela não me responde e não me olha antes de dar as costas e sair.
Ouço a porta bater duas vezes antes de abrir. É leve, então não é um soldado.
? — A voz dela ecoa, quando levanto os olhos vejo a silhueta perfeita da minha mulher e, do lado dela, a criança. — Procurei você pelo lugar inteiro — ela diz com um meio sorriso. — Tá se escondendo?
Me levanto devagar, mas meus olhos não estão nela. Estão no garoto que segura a mão dela com firmeza. Baixo, magro, o cabelo escuro como o dela e os olhos de Lorenzo.
O garoto me encara com desconfiança. Como se soubesse que aqui dentro não é lugar pra gente pequena. Ele aperta mais forte a mão da , mas não se esconde.
Corajoso.
Me aproximo um passo. Ele não recua. Só me acompanha com os olhos grandes e sérios demais pra alguém tão pequeno.
Cinco anos, ela havia dito, no entanto, o menino ainda carregava mais peso emocional do que a idade. Ele fica calado, me encara mais um pouco. Depois olha pra como se pedisse confirmação silenciosa de que tá tudo bem.
Ela se abaixa, passa a mão pelos cabelos dele.
— Tá tudo bem, Lucca.
Eu não sei o que ela falou antes disso, mas o menino dá um passo à frente.
É estranho.
Eu já encarei homens armados, líderes de cartéis, traidores com um sorriso nos lábios e veneno na fala. Mas isso... isso aqui? Eu não sei lidar.
— Ele se parece com o Lorenzo — falo baixo, quase sem pensar. — me olha quieta, observando Lucca, percebo que aquilo toca nela também, ela fecha os olhos por um segundo. Lorenzo era o melhor dos Rossi. O único que nunca deveria ter morrido. Ela sorri, por fim, mas é um sorriso triste e doído.
Lucca olha de um pro outro, por alguns segundos.
— Você gosta de dinossauros?
Demoro dois segundos pra entender a pergunta. Outro pra responder.
— Não sei.
Ele franze a testa, como se isso fosse inaceitável.
— Você devia gostar, tem um que come outros dinossauros. Ele é o mais forte.
Dou um meio sorriso.
— E você gosta desse?
Ele assente, firme.
— Gosto. Eu tenho um desenho dele. Quer ver?
Dou de ombros.
— Pode trazer.
Ele se anima, puxa pela mão e sai correndo com ela. A risada dele ecoa no corredor, quebrando toda a gravidade da casa e, consequentemente, o padrão inconsistente da conversa que tive com a minha irmã há alguns minutos atrás.
Lorenzo, se pudesse ver isso, teria sorrido.
Não sou um homem que costuma esperar. Mas por alguma razão, eu fico ali, de pé no meio da sala, observando a porta por onde os dois saíram. e o irmãozinho dela. Lucca é pequeno demais pra esse mundo e, com toda certeza do mundo, ele não devia estar aqui, com gente como eu, mas está. E agora, de um jeito ou de outro, isso é responsabilidade minha. Eu sempre fugi de qualquer possibilidade de ter uma criança, agora tinha uma. Uma miniatura de Vicenzo com a personalidade forte de .
Merda.
Quando eles voltam, Lucca vem correndo e com um papel amassado na mão, como se fosse um contrato valioso e entrega pra mim com os olhos acesos.
— Esse é o Indominus Rex — ele diz com orgulho. — Ele come todos os outros, mas ele também protege o irmão menor no final.
Olho pro desenho composto por rabiscos e traços bagunçados, mas dá pra ver o esforço.
— Forte — murmuro. — E esperto.
Lucca sorri, satisfeito. Como se eu tivesse passado em algum tipo de teste.
permanece atrás dele, observando. Os olhos dela estão em mim, mas não é cobrança.
Lucca volta a falar dos dinossauros, de como o dele derrota todos os outros, mas poupa o irmão. Fico olhando pra ele e me perguntando se eu teria feito o mesmo. Se com oito anos eu teria protegido meus irmãos, se tivesse escolha.
A resposta é sim.
E também é não.
Depois de um tempo, o leva até o jardim. Diz que ele precisa gastar energia antes de jantar e quando ela finalmente volta sozinha, fecho a porta da biblioteca.
— Ele é esperto — falo. Ela sorri, orgulhosa, se aproxima de mim e se aninha em meu corpo. Me permito envolver os braços ao redor de sua cintura, mantendo-a próxima a mim. — Isso muda as coisas.
Assinto, olhando para a porta por onde ele saiu.
— O quê?
— Ter alguém assim na casa. Tão pequeno, vulnerável. É estranho.
Ela engole seco.
— Eu sei. Mas confio em você.
Eu rio. Baixo.
— Talvez não devesse.
Ela se aproxima, devagar. Passa os braços ao redor dos meus ombros, como se o gesto não fosse mais uma barreira, mas um porto.
— Você pode não saber o que fazer com ele ainda, mas ele já te escolheu como o Dinossauro dele, .
Me inclino e beijo a testa dela, depois os lábios bem devagar.
Por um instante, o mundo fora da biblioteca deixa de importar.




Rossi

O portão principal se abriu com um estalo metálico, forte o bastante pra fazer meu estômago revirar. Eu estava parada ali, no topo da escadaria, ao lado de , tentando parecer firme. Tentando, na verdade, ignorar como uma simples hospitalidade, para um convidado, poderia ser também uma ameaça de morte, já que tinham vários dos homens de alinhados com armas.
Meu vestido estava alinhado, meu cabelo preso como Bianca havia sugerido e meus saltos enterravam-se no piso de pedra como se me segurassem no chão. A casa inteira estava de prontidão. Soldados perfilados, criados afastados. Aquilo não era só a chegada de um visitante, era quase uma cerimônia.
— Ele está atrasado. — murmurei, só pra dizer alguma coisa.
não respondeu. Só olhava fixo pra entrada como se a sua visão o fizesse enxergar o carro antes de qualquer um.
Ao meu lado, Bianca estava imóvel. Não falava, não respirava fundo, não olhava pra ninguém. Só fixava os olhos no nada, como se estivesse segurando algo dentro dela com todas as forças. A barriga dela parecia ainda maior naquele vestido preto justo. Vi quando os olhos dela brilharam por um segundo. Vi quando ela respirou fundo, como se precisasse lembrar a si mesma de que agora era mãe, e mães não corriam até a beira da escada por homens como Marco, o que quer que isso significasse.
Vi pela janela quando o carro finalmente entrou. Preto, escuro como todos os outros que pareciam entrar pelo portão. Assim que parou, senti minha mão suar, mas não de medo. Acho que era mais um tipo de atenção.
O carro desacelerou, e, sem seguida parou. Logo a porta se abriu e, por fim, um homem desceu, ajustando o terno que vestia.
Ele era alto. Seguro. Com o tipo de beleza que parece ter sido criada para incomodar. Cabelos pretos, barba aparada, um terno que dizia mais sobre ele do que qualquer apresentação. E uma postura calma lenta, medida exata para atrair toda a tenção para si.
O olhar dele varreu os rostos ao redor, um por um, até encontrar o de Bianca.
— Bem-vindo de volta, primo. — disse, por fim.
— Marco respondeu, com um sorriso leve. — Está mais sério do que da última vez.
— E você continua vivo. Isso é quase um milagre.
Marco deu uma risada curta e depois me olhou.
— Você deve ser a encantadora .
Donna Rossi — corrigi, sem hesitar.
A resposta saiu antes que eu pudesse pensar duas vezes. Ele arqueou uma sobrancelha, mas assentiu. Percebi engolindo o riso e escondi, instantaneamente, o rubor que subiu em minhas bochechas.
— Claro. Donna Rossi. — Ele disse aquilo com respeito, mas com um brilho nos olhos, como se me analisasse. Como se estivesse tentando entender o que viu em mim. Para minha sorte, seus olhos não ficaram por muito tempo nos meus, rapidamente foram para Bianca. Encararam fixamento o rosto dela, que não desvirou o olhar, com um fascínio que beirava a adoração. — Bianca. — disse ele, baixo, quase como se testasse o gosto do nome na própria boca.
Bianca não desviou o olhar. O encarar dela foi direto, firme e, mesmo assim, carregado de uma simpatia teatral. Até para os padrões da minha cunhada, foi um exagero.
— Marco. — Ela falou, com a voz tão doce quanto veneno. Seus lábios se curvaram em um sorriso que não chegava aos olhos. — Que surpresa desagradável vê-lo aqui.
Marco não recuou, pelo contrário, seu sorriso apenas se aprofundou, como se a hostilidade dela fosse um desafio divertido.
— Eu diria que o tempo suaviza até as feridas mais antigas, mas parece que no seu caso, só as tornou mais… inflamadas. — Não consegui evitar acompanhar o olhar dele parando sobre o ventre dela e, ela, instantaneamente colocando as mãos na frente do corpo.
apertou levemente meu quadril, avisando pelo gesto silencioso para eu não me intrometer. Seus dedos transmitiam calor através do tecido do meu vestido, mas seu olhar estava fixo nos dois. Bianca cruzou os braços e os dedos dela se contrairam como se imaginassem estrangular algo, ou alguém.
— Algumas feridas merecem inflamar. — Ela deixou a frase pairar, pesada como uma lâmina.
Marco riu, baixo e rouco, como se ela tivesse dito algo engraçado.
— Acho que já chega de saudações por hoje. — interveio, com a voz firme, mas casual — — Temos um jantar para aproveitar, não é?
Marco ergueu as mãos em rendição, mas o brilho nos olhos dele ainda desafiava Bianca, como se dissesse: Isso não acabou. E, pelo modo como os dedos dela tremiam ao lado do corpo, eu sabia que ela concordava.
Antes de seguir para a sala de jantar, dei um passo para o lado e encostei levemente no braço de .
— Só vou checar onde está Luca. Podem ir andando, eu já alcanço vocês.
Ele hesitou, com os olhos escaneando meu rosto, mas depois acenou com a cabeça, guiando os outros com um gesto suave logo após de selar os lábios nos meus em um gesto rápido, simples e inesperado.
— Não demora.
Assim que os passos deles se afastaram, respirei fundo e me dirigi para a cozinha. A luz estava baixa, tendo apenas o brilho suave do luar entrando pela janela. E lá, sentado no canto, como uma sombra esquecida, estava Vincenzo. Eu estava tão envolta a Marco e Bianca que sequer percebi quando ele sumira.
Ele não me viu entrar. Estava curvado sobre a mesa, com os dedos apertando a têmpora como se tentasse esmagar um pensamento incômodo. Aproximei-me em silêncio e toquei seu ombro. Ele se sobressaltou, os olhos escuros arregalando-se por uma fração de segundo antes de reconhecerem minha presença.
— Não encoste em mim. — ele rosnou, tirando o braço como se minha mão queimasse.
Fiquei parada, congelada, para dizer a verdade. Tinha apenas tocado de leve no casaco dele, sem intenção, sem vontade alguma de assustá-lo. Era só uma forma de chamar a atenção, mas Vicenzo virou pra mim como um animal acuado, com os olhos faiscando de tamanha raiva. Desde quando ele tinha passado da simpatia para o completo ódio?
— Desculpa — murmurei, engolindo em seco. — Eu só ia perguntar se você viu o Lucca.
Ele não respondeu de imediato. Apenas passou por mim como se fosse um vulto.
— Eu não sou babá do seu irmão.
Fiquei ali por alguns segundos, tentando entender o que tinha acontecido. Desde que chegamos da Itália, desde o casamento… Vicenzo não era mais o mesmo comigo. Ou talvez fosse, e eu só não tinha notado antes. Quando ele saiu, ainda irritado, fiquei ligeiramente desnorteada, então andei dali para outro cômodo. Encontrei Bianca perto da varanda, observando os jardins com uma expressão neutra demais pra ser casual.
— Bianca — chamei, ficando ao lado dela. — Posso te perguntar uma coisa?
Ela não respondeu, só inclinou levemente a cabeça.
— O que eu fiz pro Vicenzo?
— Ele foi grosso de novo?
— Ele foi o que costuma ser. — Respondi, frustrada. — Mas com uma dose extra de veneno.
Ela soltou uma risada sem humor, com os olhos ainda no jardim.
— Vicenzo odeia mudanças.
— Mas por quê? A gente mal se fala. Ele nem precisa conviver comigo.
— Justamente. Antes você era um corpo estranho na casa. Uma visitante. Agora não. Agora você é Rossi.
— E ainda assim, eu não entendo. Por que isso incomoda tanto?
— Porque agora você tem voz. Espaço. Presença. Isso bagunça a estrutura que sempre foi só nós quatro.
Fiquei em silêncio por um momento.
— Achei que você fosse dizer que ele me odeia.
— Ele não te odeia, . Ele só não sabe onde te encaixar ainda. Somos irmãos, mas crescemos em um mundo onde confiança se ganha com sangue, e respeito se mantém com medo. Você entrou trazendo outra lógica.
— A do afeto?
— A do amor. Isso desarma mais do que qualquer arma que ele não consegue segurar enquanto controla aquela cabecinha oca.
Ela sorriu de canto, enquanto eu suspirei, cansada.
— Eu só quero que ele me respeite.
— E vai conseguir, mas não agora. Vicenzo vai testar você, como testa todo mundo. Vai morder até ter certeza de que você não vai cair.
— Ele morde feio.
— Todos nós mordemos. A diferença é que alguns mordem de volta. — ela disse, sorrindo.
E por algum motivo, ouvir aquilo me fez respirar mais fundo.
Porque talvez ela estivesse certa.
Talvez, pra sobreviver numa casa cheia de lobos… eu só precisasse mostrar os dentes também.





Rossi


O ar estava pesado, quase sólido, carregando o cheiro do vinho tinto misturado à carne. Um aroma tão familiar quanto o reflexo do meu próprio rosto no espelho. Era um cheiro que falava de tradição, de poder e de pequenas crueldades escondidas atrás da etiqueta Rossi que todos possuímos nas veias. Todos nós estávamos à mesa. Um verdadeiro pesadelo disfarçado de rotina.
Vincenzo, como sempre, não conseguia ficar parado. Do outro lado da mesa, ele espetava a ponta afiada de uma faca de caça na madeira da mesa com um Tic. Tic. Tic. que mais parecia um tambor marcando o ritmo da nossa loucura particular.
— Uma faca na mesa estraga o apetite, Vincenzo. — Falei, por fim, irritando-me com o som e com as feições de a brincadeira do meu irmão.
Ele me olhou com desafio e provocação, mas não disse nada.
— Um convidado, que não sei de onde veio, estraga muito mais. Você não aparece aqui tem, pelo menos, uns sete meses, Marco. Qual o problema agora?
A pergunta de Vincenzo subiu, afiada como a lâmina que ele ainda girava entre os dedos. Não era uma pergunta; era uma acusação vestida de curiosidade. Todos os olhos na mesa se voltaram para Marco, que parou de cortar sua carne. Marco ergueu os olhos lentamente, enfrentando o olhar predatório de Vincenzo sem piscar e, por um breve momento, eu quis rir. Ele não era um homem fácil de intimidar, mas o tom de Vincenzo conseguia furar até a pele mais grossa. Marco sabia disso, tinha uma cicatriz no estômago, causado por uma brincadeira de infância de Vicenzo.
— Sete meses e doze dias, Vincenzo — respondeu Marco com a voz calma, mas firme. — E o problema é o mesmo de sempre: manter os negócios funcionando para que você possa continuar brincando com suas facas à mesa.
Vincenzo soltou uma risada baixa, mas até sua risada parecia o rosnado de um cão.
— Que homem dedicado. Deveríamos erguer nossos copos à sua lealdade. — Ele ergueu o copo, mas não bebeu. Seus olhos permaneceram fixos em Marco. — É estranho, porém. Os negócios estão tão movimentados que te mantiveram longe de nós por tanto tempo, mas não parecem ter te alimentado direito. Está mais magro, Marco. Preocupado?
Bianca deixou o garfo cair no prato com um tilintar alto.
— Por favor, Vincenzo. Podemos ter uma refeição em paz? Até os bebês estão agitados. — Sua mão esfregou a barriga redonda. Bianca conseguia ser estratégica até mesmo enquanto ela usava a gravidez como um trunfo, uma forma de manipular o clima da sala.
— Melhor eles se acostumarem desde já.
Marco encarava a barriga de Bianca e só parava quando os olhares se voltavam para ele.
— Bom, Vicenzo, eu vim aqui pelos barulhos. O que corre nas docas é que há ratos rosnando. Eu ainda sou um Rossi, se bem me lembro. Somos todos primos. Ou não?
Ele estava falando de Santoro, é claro. No momento em que Marco falou sobre ratos e barulhos, não havia dúvida alguma que Santoro poderia ser o maior e mais barulhento dos bichos.
— Ratos sempre rosnam — respondi, mantendo minha voz impassível. — É o que os ratos fazem até que uma ratoeira os silencie. Preocupar-se com o barulho deles é dar a eles mais importância do que merecem.
— Uma ratoeira — Vincenzo repetiu, com o olho brilhando com interesse genuíno. — Com uma isca bem apetitosa. O que acha, Marco?
— Não sei, Vincenzo. Lido com números, não com pestes.
— Tudo são números, Marco. — Vincenzo retrucou, o sorriso sumindo do rosto, substituído por uma expressão de puro desdém. — O número de dedos que um homem perde por falhar. O número de segundos que leva para alguém sangrar até a morte. As horas de uma mulher perceber que o marido não vai voltar para casa. — Seus olhos se voltaram para , quieta no seu canto como uma sombra. — Você não acha, ?
não se moveu. Apenas ergueu o queixo um milímetro, claramente desafiando Vicenzo e toda a sua instabilidade sórdida. Ela era rígida demais, quando queria e Vincenzo odiava o que não podia quebrar.
— Minhas horas são minhas, Vincenzo — ela disse, tranquilamente. — Assim como seus pensamentos são seus. E que Deus tenha misericórdia de ambos. — Vincenzo soltou um som entre um riso e um grunhido, derrotado por aquele instante. — Se me derem licença, vou verificar se o meu irmão já dormiu.
A porta da sala de jantar se fechou com um clique suave, mas o estalo ainda assim fez barulho pela sala. Vincenzo não olhou para a porta. Ele fitou o lugar onde estivera, com seus dedos tamborilando uma melodia nervosa na borda da mesa. Um músculo pulsava em sua mandíbula e, em dois segundos, um sorriso se formou no mesmo lugar. Vicenzo era um completo caos de imprevisibilidade.
— Deus tenha misericórdia… — ele repetiu o que dissera, mas o sussurro saiu distorcido, em seguida ele soltou uma risada curta, sem humor. — Ela fala como se Deus frequentasse esta casa.
Quando Marco voltou a falar, seu olhar escorregou de Vincenzo para Bianca com um interesse voraz.
— Falando em frequentar esta casa, já faz um bom tempo que não venho aquui, de fato. A sua barriga é uma mudança e tanto. O pequeno Rossi herdeiro deve estar ansioso para conhecer o mundo.
Vicenzo parou de tamborilar com os dedos e eu encarei Marco, preparando-me para escolher entre arrancar-lhe a cabeça com um tiro ou com a faca que Vicenzo ainda brincava.
Bianca, porém, não se moveu. Ela virou o rosto para Marco ee sorriu.
— A linhagem do meu filho é mais clara e pura do que qualquer coisa que seu sangue ambicioso possa produzir, Marco. Preocupe-se mais com os ratos que rosnam nas docas e menos com o ventre que você nunca tocará.
A resposta da minha irmã, apesar de afiada, despertou ainda mais admiração no homem, que a olhou encantado. A sensação que eu tinha era que Bianca poderia matá-lo e, ainda assim, ele sorriria.
Bom, para ser justo, acho que todos nós éramos assim com ela.
— Sempre direta. Adoro isso em você.
— Foque no que é seu trabalho, primo. — Ela retrucou, com um sorriso mais venenoso que o comum.
— Então é verdade. Anda mesmo atrás dela como um cão no cio, Marco? Cheirando o rastro, lambendo a mão que te rejeita. Que espetáculo lamentável.
Observo Vincenzo, não apenas ouço suas palavras. Vejo a veia saltada em seu pescoço, a pupila dilatada pela fúria crescente. Ele sempre atacou primeiro o que não podia compreender, seja a lealdade ou o amor. É mais fácil destruir do que admitir a própria carência e nisso, meu irmão é um gênio.
Marco, em contraste, é um glaciar. Move o copo de vinho tinto, observando o líquido pesado deixar marcas sanguíneas no cristal. Quando fala, sua voz é um fio de seda cortante, calculada para atingir apenas o alvo pretendido.
— Ela tem mais de mim do que sua imaginação limitada consegue conceber, Vincenzo. — Seus olhos, não pousam no meu irmão, mas em Bianca. — Coisas que permanecem. Marcas que não se apagam. — Seu olhar desce, por uma fração de segundo, para o ventre de Bianca antes de retornar ao rosto dela. — Algumas sementes, uma vez plantadas, florescem mesmo no inverno mais rigoroso. Não é, Bianca?
O passado deles nunca foi segredo, tampouco o romance repentino que nasceu quase sem ninguém perceber. Marco era nosso primo distante, quase um estranho por ter crescido do outro lado da Itália, longe da podridão que consumia a casa Rossi. Quando finalmente o conhecemos de verdade, já não éramos crianças, já tínhamos cicatrizes demais para fingir inocência. Para Bianca, ele foi um porto seguro depois do desastre que Giorgio deixou nela. Marco ficou quando ninguém mais soube como lidar com os estilhaços dela, quando até eu, por mais que tentasse, não conseguia segurar todos os pedaços. E então, um dia, simplesmente desapareceu. Sem briga, sem aviso, só uma maldita nota de desculpas e um vazio que ela nunca preencheu direito. Eu sei que foi nele que ela se apoiou, e é claro que sei também da possibilidade de o filho que Bianca carrega ser dele e, ainda assim, não digo nada. Porque, no fundo, sei que o desaparecimento de Marco deixou em Bianca uma marca quase tão funda quanto qualquer cicatriz que Giorgio já gravou em nós.
É isso que me faz respirar fundo e ter minha raiva se transformando em cálculo.
Matar Marco agora seria admitir que a insinuação tem peso. Seria transformar um boato venenoso em uma verdade sangrenta diante de todas as testemunhas e daria a ele exatamente o que ele quer: um caos onde só ele lucra.
Vincenzo, é claro, não tem tal nuance. Ele só ouviu o desafio, não a lâmina por trás dele.
— O que você está insinuando, seu filho da puta?
— Chega. — Murmurei, percebendo o olhar irritado do meu irmão vir em minha direção. Ele odiava quando eu encerrava suas brincadeiras, o problema era que eu fazia isso com frequência, considerando que ele era a porra de um sociopata. — Os ratos das docas são um problema logístico. Barulho atrai atenção indesejada. A atenção indesejada atrai a polícia. E a polícia…
— Corta o lucro. — Vincenzo completou, seu profissionalismo superava temporariamente seu mau humor. Ele recuou na cadeira, cruzando os braços. — Santoro está sendo barulhento. Está tentando atrair os clientes dos Balcas com preços baixos, e está espalhando rumores de que nossa rota pelo Mar Adriático está comprometida.
— Está? — perguntou Marco, seu interesse era genuíno. Ele era um homem de números, de fluxos de caixa e rotas de lucro e, por isso, tinha bastante utilidade.
— Não. — Respondi. — Mas ratos mentem. E idiotas acreditam. Precisamos de uma demonstração. Algo que silencie Santoro e reassinale aos nossos parceiros.
Bianca, que permanecera imóvel como uma estátua, falou pela primeira vez.
— Uma demonstração precisa de um público. Santoro dará uma festa em sua nova villa em Sorrento na próxima semana. Para comemorar seu suposto expansionismo.
Todos os olhos se voltaram para ela. Marco sorriu, um sorriso lento e predatório que alcançou seus olhos rapidamente.
— Uma festa. Que conveniente.
— O que você tem em mente? — Marco perguntou, sua voz agora era séria e já não havia resquícios do deboche anterior.
— Ele gosta de fogos de artifício. — Respondi novamente. — Vamos dar a ele um espetáculo. Um que iluminará a noite inteira e silenciará todos os seus ratos de uma vez por todas.
O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pelo som distante de uma porta se fechando no andar de cima.
estava segura.
O irmão dela estava dormindo.
E no meio do jantar, nós preparávamos um massacre.
Que bela famiglia nós tínhamos.





Rossi


Desci à cozinha com a intenção de fazer um chá. , mergulhado em suas reuniões intermináveis, sempre se esquecia de fazer pausas. Talvez uma xícara quente lhe lembrasse de respirar. Mas minha missão de paz esbarrou em Vicenzo ainda na escada.
Ele estava diante da pia, os ombros tão tensos que pareciam talhados em pedra. Bebia uísque direto da garrafa como se fosse água, um gozo após o outro. A visão me cortou o fôlego. Não era raiva, era tristeza. Vicenzo sempre foi... peculiar, mas naquele momento ele era apenas um homem se destruindo para encontrar coragem de destruir outros.
O rangido do meu passo no assoalho o fez se virar. Seus olhos vermelhos encontraram os meus, e o desdém habitual estava lá, sim. Aquele olhar que reservava para tudo e todos que considera fracos, o que, no fundo, era o mundo inteiro para ele.
— ele cuspiu meu nome como se fosse um insulto. — Vá cuidar dos seus cachorros, sim? A cozinha não é lugar para você agora.
Respirei fundo, sentindo o aroma do álcool no ar. A calma era meu escudo contra os Rossi, era isso ou eu enlouqueceria com todos eles.
— A cozinha é tão minha quanto sua, Vicenzo. O que vocês vão fazer, também me envolve.
Ele deu uma risada seca e sem humor.
— Seu irmão, com todo o respeito que um cadáver não merece, fodeu tudo. E nós estamos aqui tentando consertar a merda dele. A sua parte é ficar longe — Ele apontou a garrafa na minha direção, claramente em um gesto acusatório. — Seu irmão já se intrometeu o suficiente.
A menção a Lorenzo foi um golpe baixo, e ele sabia. Senti um nó se formar na minha garganta, mas engoli seco. Não daria esse gosto a ele.
— Isso não tem nada a ver com o Lorenzo — disse, mantendo a voz o mais estável possível. — Tem a ver com Lucca. Tem a ver com todo mundo que vai sofrer por causa dessa guerra idiota.
— Guerra? — Ele avançou. Eu pude ver os demônios dançando em seus olhos. — Isso não é guerra, principessa. É exterminação. E é o único idioma que esses merdas entendem! Você vive nessa bolha de porcelana, com seus chás e suas flores e seus ideais bonitinhos. Sabe por que te mantém trancada aqui? Porque ele sabe que o mundo real iria quebrar você em mil pedacinhos!
— Não fale do meu marido — minha voz perdeu um pouco da suavidade, ficando mais rígida, grossa e rouca. — E não me subestime. Eu sei muito bem em que mundo vivo.
Ele riu de novo, mais alto desta vez.
— Sabe? Então para de agir como se fosse melhor que a gente. Seu irmão, no final, era um animal raivoso, e você é só o perfume que ainda lembra a podridão dele.
Quando ele se virou, seu cotovelo me atingiu com força no peito, não por acidente, mas com a precisão cruel de quem sabe exatamente o que está fazendo. A dor explodiu em meus pulmões, mas foi a humilhação que acendeu o pavio que necessitava para que eu quisesse matá-lo.
Minha mão se fechou contra o cabo da faca de chef antes que minha mente pudesse processar o movimento. A lâmina reluziu sob a luz como um sorriso de aço e, em um instante, eu o tinha encostado contra a parede enquanto a ponta da faca pressionava aquela veia pulsante em seu pescoço.
Ele parou.
Por um milésimo de segundo, vi o instinto de sobrevivência cruzar seus olhos.
Mas era de Vicenzo que estávamos falando, então logo eeus lábios se curvaram em um sorriso lento e lascivo. Em vez de recuar, ele pressionou o pescoço contra a lâmina, e um fio vermelho perfeito escorreu pela sua pele.
— Finalmente — ele respirou, e havia prazer em sua voz. — A verdadeira . Todo esse disfarce de santidade me enoja.
Minha mão tremia, mas a lâmina permanecia firme.
— Afaste-se, Vicenzo.
— Por quê? — Seus olhos brilhavam em resposta, era nojo e admiração, tudo misturado. — Este é o seu verdadeiro sangue. O sangue da família. Não essa paz de mentira que você vende. Lorenzo ficaria orgulhoso, finalmente você está honrando o nome dele.
O horror me envolveu como um manto úmido. Vicenzo não ficou com medo de mim, nem por um segundo. Na verdade, ele estava feliz. Estava vendo a besta que sempre acreditou existir sob minha pele, e estava adorando cada segundo.
— Você é um monstro — sussurrei, sentindo náuseas.
— Todos somos. — seu sussurro não era mais rude, agora era quase um carinho. — É por isso que te ama, sabia? Não é pela sua paz, é pela guerra que ele sabe que você carrega dentro de você. — Foi a facada mais profunda de todas. Porque em algum nível, no lugar mais sombrio da minha alma, eu sabia que ele estava certo. Minha mão cedeu e a faca caiu no chão com um ruído metálico. Vicenzo passou os dedos pelo sangue em seu pescoço, estudando as digitais vermelhas como um artista que estuda sua obra-prima. — Não se preocupe, sua fera continuará sendo um segredo nosso. — Ele se inclinou para frente, e logo o seu hálito quente e alcoólico assoprou contra meu ouvido. — Afinal, só os monstros entendem outros monstros e, bom, somos família.
Ele achou que tinha ganhado. Achou que havia me "iniciado" em algum clube secreto de monstros, que agora compartilhávamos um segredo sujo.
— Que coisa curiosa — continuei, mantendo em minha voz um fio de veneno puro. — Porque há cinco minutos, família era a "sombra de um irmão morto" e uma "princesa ingênua" que devia ficar com os cachorros, mas agora que eu mostrei que posso ser tão doente quanto você, de repente viramos família? Agora? Só porque eu enfiei uma faca na sua jugular? — Eu cuspi a última palavra como se fosse um pedaço de carne estragada. — Que padrão adorável para se ter. — Vicenzo parou, mas não olhou para trás. — E quer saber? Sua definição de família é patética. Vocês só reconhecem lealdade quando ela vem embalada em violência. Só respeitam alguém quando essa pessoa é capaz da mesma brutalidade que vocês. — Meus olhos encontraram os dele, e eu deixei todo o meu desprezo transbordar. — Você não me vê como família, Vicenzo. Você vê em mim um reflexo distorcido de si mesmo, e isso é muito, muito triste. Leve seu "carinho" familiar para longe de mim, Vicenzo. Porque da próxima vez que você vier me oferecer essa "irmandade" com uma garrafa na mão e veneno na língua, eu vou devolver o favor.
Ele riu um som baixo e genuinamente divertido. Eu adorava e odiava o humor dele, nesse momento, odiava mais do que adorava.
— Ver você tentando ser perigosa — explicou, como se falasse com uma criança. — É como ver um gatinho sibilando. Até dá pena, mas é fofo. Gosto dessa versão. Quase dá vontade de dar um biscoito pra você fazer mais.
Ele parou na porta, virando-se com um sorriso largo e indolente
Nesse momento que a silhueta de preencheu a porta do corredor. Seu olhar, passou de Vicenzo para mim, depois para a faca ainda sobre o balcão, e finalmente fixou-se no fino filete de sangue no pescoço de Vicenzo.
— O que foi isso? — perguntou , que mesmo com sua voz calma, ainda a tinha carregada de autoridade.
Vicenzo sorriu, amplo e falso, abrindo os braços em um gesto teatral.
— O quê, isto? — tocou o ferimento, exibindo-o. — Sua adorável esposa, . — Seus olhos brilharam com desafio. — Não vai fazer nada sobre o monstro que tem em casa?
Eu senti o gosto do medo, metálico na boca. Conhecia meu marido o suficiente para ver que seus irmãos e os Rossi sempre estariam em primeiro lugar na sua vida, mas então, riu. Não uma risada alta, mas um som profundo e genuíno de diversão que ecoou na cozinha silenciosa. Ele olhou para Vicenzo, com o sorriso ainda nos lábios.
— É a minha esposa, Vicenzo. — disse, como se estivesse explicando o óbvio para uma criança. — Se não quer a fúria dela, talvez seja melhor não provocá-la. — Seu olhar escorregou para mim por uma fração de segundo, e nele havia um brilho de orgulho? — Agora, se você já terminou de provocar a minha mulher na minha própria casa, pode ir logo atrás do Roman? Esse desgraçado já brincou demais.
Vicenzo não ficou com raiva do irmão, ao invés disso nos olhou e riu.
Nada no mundo e nem ninguém, jamais conseguiria explicar o que se passava na cabeça daquele homem.
ficou na entrada, com seus olhos agora repousando totalmente sobre mim.
— Está tudo bem? — perguntei, com minha voz ainda um pouco trêmula.
Ele caminhou até o balcão, pegou a faca manchada e a examinou.
— Você devia perguntar isso a ele. Ele aprendeu uma lição hoje que eu, francamente, já deveria ter ensinado a ele há muito tempo — disse . — Há linhas que não se cruzam, mesmo com a famiglia. — Seu olhar foi até a faca novamente, e um quase-sorriso tocou seus lábios. deu um passo para o lado, em direção à porta, mas parou, como se lembrasse de algo, de repente. — Acho que vou fazer meu próprio chá, querida. — seus olhos suavizaram por uma fração de segundo, — Parece que você já fez o suficiente pela cozinha hoje à noite.





Rossi


Não é surpresa para ninguém que Vicenzo tinha incontáveis demônios, todos nós temos, mas trazê-los para dentro da minha casa e direcioná-los a minha mulher era um desrespeito. Ela estava certa em cobrar por sangue e não seria eu que a recriminaria por isso. A Famiglia começa dentro de quatro paredes, com a pessoa que divide a minha cama agora e ignorar isso seria corroer a base de tudo. Eu deveria ter cortado isso pela raiz antes. Um erro de cálculo meu, pensar que os limites eram óbvios.
Quando meus olhos encontraram os dela, vi todas as emoções presas por trás da calma forçada: raiva, humilhação e medo de ter ido longe demais. Vicenzo sempre foi bom em extrair o pior das pessoas e depois rir da bagunça.
— Está tudo bem? — Ela perguntou, deixando a voz um pouco mais rouca que o normal.
Caminhei até o balcão, peguei a faca pelo cabo e limpei o sangue com um pano limpo, metodicamente. O gesto era familiar, um hábito de todas as vezes que eu próprio já usei uma faca, possivelmente, mas era um padrão. Manter as coisas em ordem, limpas. Bagunça atrai atenção indesejada.
Vincenzo via a contenção de como fraqueza. Via a tentativa dela de manter um cantinho de paz nesta casa como uma fantasia. Ele não entendia que a verdadeira força, muitas vezes está em não usar a faca e em saber exatamente quando e onde aplicar pressão. , hoje, aplicou a pressão exata e defendeu seu território. Nossas regras são antigas, vindas das colinas da Sicília: respeito é conquistado, não dado. E ela acabara de conquistar um pouco mais do dele, da única maneira que um homem como Vicenzo entende.
Exuguei minhas mãos e me aproximei da minha esposa, puxando-a para meu peito. Beijei o topo da sua cabeça com cuidado, tentando acalmá-la.
Eu não iria punir minha mulher. Jamais. Mas teria que falar com Vicenzo. Homem a homem, irmão a irmão, capo a subordinado. O sangue dele na minha faca era um aviso que eu mesmo deveria ter dado. Outro erro meu.
Se acahava que poderia me chatear com algo, essa mulher só podia ser louca.
— Claro que sim, principessa. Ele te provocou e você respondeu dentro das nossas regras, foi uma resposta justa.
— Ele falou do Lorenzo — ela murmurou contra o meu peito, com a voz abafada.
Usar um morto, um irmão, como adaga era coisa de homem desesperado ou sem honra. Vicenzo era os dois.
— Eu sei. Não se preocupe com Vincenzo. — disse, mantendo a calma. Minha mão percorreu as costas dela, num movimento lento.
— Eu não quero causar problemas. O Vincenzo… — ela começou, mas eu interrompi com um leve aperto em seu braço.
— O Vincenzo vai aprender. — Dei uma pausa, escolhendo as palavras. — Nossa lei é clara. A casa de um homem é seu reino, desrespeitar a Donna da casa é desrespeitar o próprio Don. Ele ofendeu a mim tanto quanto a você. E isso, ele vai responder a mim. Você não causa problemas, eles já existem a algum tempo. Você só está me ajudando a solucionar alguns deles. Agora vá descansar, é função minha lidar com ele.
Ela acenou com a cabeça. Quando a porta da cozinha se fechou suavemente atrás dela, o silêncio voltou.
Salute, Rossi. Hoje, você não foi apenas minha esposa. Você agiu como uma verdadeira Donna e eu não poderia estar mais orgulhoso da mulher com quem me casei.
Saí da cozinha, esquecendo o chá de antes e fui direto para a área externa. O jardim era grande e, por algum motivo, Vicenzo gostava de jardins. Precisava falar com o meu irmão antes que ele voltasse a ser um problema incontrolável.
Ele não se virou quando me aproximei. Sabia que era eu.
— Vem me dar uma lição de moral, irmão? — A voz dele saiu arrastada, carregada de uísque e um certo desdém. — Dizer que não se ameaça a Donna da casa? Que foi falta de respeito?
— Você já sabe disso — respondi, mantendo a voz neutra. — Se não soubesse, não estaria aqui. Vim ver se o gatinho te arranhou muito fundo — comentei, parando a alguns passos de distância, mantendo minhas mãos nos bolsos do paletó.
Vicenzo soltou uma risada baixa, um som rouco que se perdeu no leve borbulhar da água que ele brincava com uma das mãos.
— Profundo o suficiente para ser interessante, não o suficiente para ser um problema — ele retrucou, finalmente virando a cabeça. — Você a treinou, ?
— Ela não é um cachorro para ser treinado, Vincenzo.
— Ah, sim! — ele exclamou, como se tivesse tido uma epifania, erguendo a garrafa em um brinde fantasma. Eu não disse nada. Só observei. Era assim que o caos do Vicenzo se manifestava: em ondas de intensidade crua, onde agressão e admiração se misturavam até se tornarem a mesma coisa. — Sempre pensei que você tinha colocado um passarinho numa gaiola de ouro — ele continuou, com a voz agora mais baixa, quase conspiratória. — Algo bonito pra olhar, inofensivo. Mas ela não é inofensiva, é? Você sabia. É por isso que casou com ela. Gosto dela, sabia? — A declaração foi feita com uma sinceridade desconcertante, como se estivesse comentando sobre um vinho raro.
— Você vai respeitar o limite. — afirmei, não precisava dar detalhes do que eu queria dizer, Vicenzo entendia perfeitamente. De todos, talves fosse o que mais me entendia.
— Ah, vou, vou. — Ele ergueu as mãos em uma rendição teatral. — Não quero que minha cunhada me abra a garganta de verdade. Onde já se viu? — O tom era de deboche, mas nos seus olhos havia um reconhecimento. Como um colecionador que encontra uma peça rara e decide não quebrá-la só para ver o que ela faz. — Como matamos alguém da famiglia?
— Do que você está falando, Vicenzo?
— Foram dois anos vendo como outras famílias apodrecem por dentro. Por traição, por fraqueza, por sangue misturado em segredo. — Seus olhos queimavam. — Eu não lutei contra a polícia, contra os irlandeses, contra o diabo que fosse, para voltar e ver o câncer começando aqui. Na nossa sala de estar.
Meu sangue esfriou. Não era uma acusação geral, era específica. Ele tinha visto algo, ouvido algo, ou, talvez, imaginado algo. Com Vicenzo a linha entre os dois era tênue demais para medir.
— Você tem um nome?
— Ainda não, mas o cheiro é o mesmo.
E eu vi, como se estivesse acontecendo de novo.
Giorgio, enorme atrás da mesa, os dedos grossos entrelaçados. Dois homens de terno barato, amarrados e ajoelhados no chão de concreto da garagem, visíveis pela porta aberta. Eram primos de alguém. O crime? Desviar mercadoria? Falar demais? Na época, o motivo era irrelevante. A lição era o que importava.
— Quando tiver o nome, nós conversaremos. Eu não sou o Giorgio, Vicenzo.
Então ele me olhou, acenou a cabeça, levantou e saiu.
Às vezes acho que Vicenzo sente falta de Giorgio.
A ideia era doentia para qualquer mente normal. Giorgio era um monstro, um psicopata com um código de honra retorcido, que matou a própria esposa por suspeita de infidelidade e que criou filhos como se fossem armas a serem temperadas no fogo do ódio. Roman, por fim, o matou em legítima defesa de todos nós. Foi um alívio.
Para Vicenzo, porém, sinto que nunca foi.
Ele se formou em Medicina, ironicamente. Ou talvez não. Lembro-me de ele dizer uma vez, bêbado e filosófico em algum bar de má reputação: “O corpo humano, , é uma maravilha de eficiência. O sistema imunológico não pensa, não sente pena. Ele identifica uma célula defeituosa, uma ameaça, e a elimina. Sem hesitar. É pura lógica.”
Era assim que a mente dele funcionava. Vicenzo era como uma daquelas antigas armas de fogo sicilianas: brutal, de curto alcance, feita para um único propósito devastador. Giorgio tinha sido o atirador. Sem ele, a arma estava engatilhada, rodando sobre uma mesa, e qualquer vibração poderia fazer ela disparar, por isso, às vezes tenho a impressão que ele sente falta da mão firme de Giorgio no seu ombro, dizendo “corte aqui”. Porque sem ela, a missão dele continua, mas a autorização final, a absolvição por seus atos, se foi. Ele não sente falta do pai, porque Giorgio nunca foi um, mas deve sentir falta da única pessoa que via o mundo da mesma maneira radical, absoluta e biologicamente fatal que ele. Enquanto o resto de nós lida com tons de cinza, Vicenzo e Giorgio só enxergavam preto e branco.
É uma prisão. A pior possível. E não há remédio, na farmácia ou no mundo, que possa curá-lo disso.





Rossi


O beijo no meu ombro foi tão leve que quase pensei ter sonhado, percebi ser real apenas com o peso do colchão cedendo quando se levantou. Abri os olhos, mas eles ainda insisitam em estarem fechados, ainda assim era o suficiente para vê-lo como uma silhueta contra a luz azulada da madrugada que entrava pela fresta da janela.
— Não é nada, principessa. Volte a dormir — ele sussurrou, com a voz ainda grossa de sono, mas eu conhecia meu marido um pouco mais a cada dia, podia sentir a pressão em sua voz, a raiva embutida no carinho que ele dispensava a mim.
Ele saiu, fechando a porta com um cuidado que era quase pior do que um tranco, porque significava que o mundo lá fora, o mundo deles, havia invadido nosso quarto novamente.
Não consegui voltar a dormir. Fiquei deitada, ouvindo o silêncio pesado da casa. Até que, alguns minutos depois, veio o murmúrio. Baixo, controlado, mas atravessando a parede do escritório ao lado. Era a voz dele no modo Don.
— Quase uma semana, Roman. — A voz de era cortante, mas ele não estava gritando. Na verdade, raramente gritava. — Três dias sem um puto de um sinal. Você acha que comanda uma concessionária? Que pode tirar férias quando bem entender, caralho? — Uma pausa. Eu conseguia quase ouvir a respiração ofegante do outro lado da linha, mesmo através da parede. — Resolver. — repetiu a palavra como se a estivesse examinando e encontrando falhas. — E essa “coisa” tem nome? Endereço? Ou é um fantasma que te fez esquecer de quem você é e a quem você deve lealdade?
Outra pausa mais longa. Um suspiro pesado, que chegou até mim. — Você não tem o luxo de fugir por dias só por uma mulher, Roman. Você tem responsabilidades e essa sua distração deixou buracos. Eu não vou cobrir os seus rastros, não vou olhar na cara dos Morzani, a quem você devia ajuda e falar que você tem uma gripe. — Um baque seco. Ele devia ter batido a mão na mesa. — Agora você vai me dizer onde esteve. E com quem. Não é pedido, é ordem. — Meu marido ficou em silêncio por mais alguns segundos, talvez ouvindo Roman. Em seguida, ele sorriu. — A sua vida É a família! — O rompante de foi curto, abafado, mas carregado de uma fúria tão profunda que fez meu sangue gelar. Ele se controlou na hora, voltando ao tom cortante. — Tudo o que você faz respinga nela. Até a mulher que você esconde. Amanhã, sete horas no depósito. E você vai trazer um nome. Ou eu vou encontrá-lo sozinho.
Se Roman escondia uma mulher e tinha viajado para vê-la, algumas coisas se tornariam óbvias a partir dali. Não que se importasse com os casos de Roman, mas porque tornava tudo mil vezes mais perigoso. Uma disputa de negócios era previsível. Um território invadido, uma dívida não paga, um traidor, tudo isso eram problemas com solução conhecida, mas um homem agindo por emoção? Por paixão? Isso era uma variável imprevisível. Um ponto cego. Na linguagem deles, um ponto cego era um ponto morto.
A linha deve ter sido cortada, porque o seguinte silêncio foi absoluto, carregado apenas pela raiva pulsando do outro lado da porta. Ouvi o ruído baixo de uma gaveta sendo aberta, o tilintar de uma garrafa de vidro contra o copo. Ele não estava bebendo, só arrumando. Um tique nervoso que ele tinha sempre que alguma ligação o irritava ou que alguma situação saía de seu controle. Ouvi passos pesados, lentos, indo e vindo no escritório. O assoalho de carvalho rangia sob o peso dele e, em minutos, parou um pouco. Houve o som abafado de um celular sendo digitado rapidamente. Uma mensagem, imaginei. Para quem? Vincenzo, para conter? Para um dos homens, para começar a procurar?
A única coisa clara era o núcleo da fúria dele: o desrespeito. Roman não tinha apenas sumido; ele tinha violado a primeira e mais básica regra. Disponibilidade. Lealdade inquestionável.
A porta do escritório se abriu. Eu fechei os olhos a tempo, fingindo um sono profundo. Seus passos foram silenciosos no carpete, mas o ar ao redor dele vibrava com tensão. A cama cedeu quando ele se deitou, não de lado para me envolver como de costume, mas de costas, rígido como uma tábua. O calor que irradiava dele não era reconfortante; era como o de um motor superaquecido, prestes a fundir.
Não era justo. Não para ele. Ele carregava o mundo nas costas e, às vezes, parecia que até mesmo a cama que dividíamos virava um posto de comando. Respirei fundo, afastei as cobertas e me levantei. Meus pés descalços foram silenciosos no carpete enquanto me aproximava. Ele não se virou, mas sabia que estava percebendo meus movimentos. A sua atenção era como um farol alto e bastante iluminada. Eu sempre sentia quando estava sobre mim.
— chamei, baixinho.
Ele emitiu um grunhido baixo.
Sem dizer mais nada, contornei-o até ficar de frente para a janela, bloqueando sua vista da cidade. Eu levantei as mãos e coloquei-as em seus ombros, sentindo a tensão de pedra sob a camisa de algodão. Ele resistiu por uma fração de segundo, todo o seu ser era programado para suportar o peso sozinho. Então, com um suspiro que parecia sair dos seus alicerces, ele cedeu. Deixou a cabeça cair um pouco para frente. Comecei a pressionar com os polegares, encontrando os nós de tensão na base do seu pescoço. Trabalhei em silêncio, deixando meus dedos tentando amassar a fúria, a desconfiança, a pura exaustão que ele jamais admitiria. Depois de um minuto, seus ombros começaram a ceder, só um pouco.
— Ele é um idiota — minha voz era um sussurro no quarto silencioso.
— É pior que idiota — a resposta dele saiu rouca, direto para o meu peito. — Idiotas só se matam. Homens apaixonados e distraídos matam todos à volta.
Continuei a massagem, insistente.
— Senta — pedi, gentilmente, puxando-o pela mão em direção à poltrona grande perto da janela.
Ele me seguiu, quase roboticamente, e se deixou cair na cadeira. Em vez de me sentar no braço ou de frente, subi no colo dele, de lado, envolvendo-o com meus braços e continuando a trabalhar os ombros agora num ângulo melhor. Ele soltou outro suspiro, mais profundo, e seus braços cercaram minha cintura, puxando-me para perto. enterrou o rosto na curva do meu pescoço, com seu hálito era quente contra minha pele.
— Uma mulher — ele murmurou, o tom agora mais de incredulidade do que de raiva. — De todas as coisas estúpidas e clichês, ele escolheu uma mulher.
— Pode ser só isso — ofereci, sabendo que era uma esperança frágil. — Um caso passageiro. Roman não é conhecido pelos casos e pela necessidade descontrolada de estar sempre enfiando em algum par de pernas?
A pergunta saiu mais cínica do que eu pretendia, mas era a verdade que todos conhecíamos. Roman era um negociador. Seus prazeres eram o poder, o dinheiro, o charme calculado para manipular. Mulheres eram um acessório ocasional, nunca o foco. Até eu sabia disso.
soltou um som baixo, uma mistura de riso abafado e desânimo.
— Era. Esse é o ponto. Ele não é assim. — Ele ergueu a cabeça. — Ele sumiu, . Não atendeu o telefone. Não checou os pontos de contato de emergência. Para um homem como o Roman, isso é o equivalente a gritar que está em perigo ou que encontrou algo que vale mais do que a própria sobrevivência. — A mão dele subiu das minhas costas até meu rosto, e rapidamente o seu polegar traçou minha linha da mandíbula com suavidade. — Você sabe o que é mais perigoso que um homem ganancioso? — perguntou, mas agora sua voz era um sussurro. — Um homem que acha que encontrou redenção. Que acha que pode lavar todo o sangue das mãos no colo de uma mulher. Esses homens ficam cegos. Cometem erros bobos. Erros que matam.
O aperto no meu estômago voltou. Ele não estava falando só do Roman agora. Havia um tom pessoal, quase de amargura, como se estivesse revendo a própria história.
— Isso ainda é sobre Roman?
— Não sei se é sobre ele. Quando eu olho para o Roman, eu não vejo só um irmão sendo fraco. Vejo um espelho do que poderia ter acontecido comigo. — A confissão saiu como um segredo arrancado. — Eu te trouxe para este mundo, um mundo que você não pediu, e te coloquei no centro de tudo isso. E houve uma época, no começo, em que eu pensei que isso poderia ser uma redenção. Foi rápido, mas cheguei a pensar que te ter, te proteger, poderia de alguma forma limpar a minha alma.
Meu coração parou por alguns minutos.
— E não pode? — minha voz era um fio de esperança.
Ele fechou os olhos por um segundo, como se a pergunta doesse.
— Não, principessa. Não limpa. Nada limpa. — Ele abriu os olhos, e eles não mostravam arrependimento. — O sangue seca — ele continuou, com seu polegar voltando a traçar meu lábio inferior, num contraste suave com a dureza de suas palavras. — Eu não te trouxe para cá para ser minha absolvição, . — Ele puxou-me ainda mais para perto, até que não houvesse espaço entre nossos corpos. — Eu te trouxe porque, pela primeira vez, olhei para algo e não vi uma jogada. Eu vi você. E eu queria. Foi simples e complicado assim. — Seu olhar vasculhou o meu rosto, buscando entendimento. — A redenção é um fardo que eu não posso te dar. Seria injusto. Seria pedir para você carregar o peso de todas as minhas escolhas.
— Então o que eu sou? — perguntei, sentindo minha voz um pouco mais firme. Parte de mim, gostava da ideia de poder redimir ele, de alguma forma, de poder trazer paz ou equilíbrio pra ele. Eu não queria salvá-lo, mas, inconscientemente, talvez eu tentasse.
Um sorriso quase imperceptível tocou seus lábios.
— Você é minha esposa. A pessoa por quem eu escolho ser melhor, todos os dias, mesmo sabendo que o monstro sempre estará lá. — Ele inclinou a cabeça. — É diferente. A redenção é um perdão que você espera dos outros ou de um deus. O que nós temos é um acordo, lembra? Um pacto. Eu protejo você deste mundo com a minha vida, e você me lembra que ainda há algo nela que vale a pena proteger. E se, em algum momento, o monstro aparecer, então você segura a faca, como segurou hoje.
— Eu nunca seguraria uma faca para você, .
— Se você precisar, quero que segure.
Eu me afastei o suficiente para olhar em seu rosto. Não havia desafio ali, apenas uma oferta.
A oferta mais horrível e íntima que um homem como ele poderia fazer.
— Você está me dando permissão para... — a palavra não saiu. Era grande demais, pesada demais, feia demais.
— Estou te dizendo que confio em você com a minha vida. — ele corrigiu. — O pacto não é só sobre eu proteger você, no fim das contas, nesta vida, às vezes, a linha entre proteger e destruir é muito fina. — Ele ergueu a mão, traçando o contorno do meu rosto com as costas dos dedos, num gesto estranhamente terno em meio àquelas palavras. — Eu vi seus olhos na cozinha. Você não hesitou. Você defendeu o que é seu. — Seu olhar penetrou o meu. — Se um dia eu me tornar a ameaça, se o monstro sair da coleira e virar-se para você, eu não quero que você hesite. Eu quero que você sobreviva.
Um calafrio gelado, percorreu minha espinha, no entanto, não era medo dele. Era o terror do que ele estava confessando. O reconhecimento de que a escuridão que ele carregava era tão real, tão presente, que ele próprio via nela um perigo potencial para mim.
— Isso nunca vai acontecer — protestei, mas soou frágil.
— Espero que não — ele concordou, simplesmente. — Rezo todos os dias para que não. Mas este mundo estraga as pessoas, . O Giorgio era a prova viva. — Ele fechou os olhos por um instante, como se estivesse afastando uma memória. — O pacto precisa cobrir todas as possibilidades. Até essa. A minha lealdade a você é incondicional e parte dessa lealdade é garantir que você sempre tenha uma saída. Sempre tenha um meio de se defender, mesmo que seja de mim.
Era a maior demonstração de amor que ele poderia dar. Não eram flores, nem juras doces, era dar-me, simbolicamente, a chave da minha própria cela. Deitei a cabeça no peito dele, ouvindo o coração batendo forte e constante.
— Acho que se você morrer, eu morro também.
Ele parou de respirar por um segundo. Todo o seu corpo, antes tenso sob o meu toque, ficou imóvel e o coração que eu escutava pareceu parar no meio da batida antes de retomar, mais forte, como se tivesse levado um golpe. Seus braços, que me cercavam, se apertaram de uma vez, com uma força quase dolorosa, como se quisesse me fundir com ele, tornar-nos um só corpo para que a minha afirmação fosse impossível.
— Não — a palavra saiu áspera. — Não diga isso. Nunca diga isso.
— Você não morre comigo. Você pega tudo, o dinheiro, as conexões limpas, a nova identidade que eu tenho guardada para você num cofre na Suíça e você some. Você vive. Você encontra um pedaço de paz longe de tudo isso e você vive.
Era a primeira vez que eu ouvia sobre um cofre na Suíça, sobre uma identidade nova, sobre o plano que ele já tinha. Um plano de fuga, só para mim. O detalhe, em vez de me confortar, só enterrou a minha afirmação mais fundo. A peça faltante do quebra-cabeças se encaixou com um clique silencioso e aterrorizante dentro de mim. Meu corpo ficou rígido no colo dele e lentamente, me afastei o suficiente para ver seus olhos.
— Você acha que vai morrer. — Eu disse, e não foi uma pergunta dessa vez, foi uma acusação. — Não é sobre controlar o Roman. É sobre arrumar a casa, não é? Porque você não acha que vai voltar dessa. Você está me dando as chaves porque acha que não vai estar aqui para usá-las.
A expressão dele não mudou.
Não houve negação.
— É uma convergência — ele admitiu, com a voz baixa e plana, como se estivesse lendo um relatório de perdas. — Muito ódio velho, muita ganância nova, e poucos homens leais no meio. O Roman, distraído. O Vicenzo é uma arma apontada para todos os lados. — Ele finalmente me olhou nos olhos, e o que vi lá não era medo. Era um cálculo frio e devastador. não lidava com sua existência como se fosse uma vida, ele lidava com ela como quem lida com um cálculo. — As chances não são boas. São as piores que já tive e se eu falhar — Ele não terminou. Não precisava. Se ele falhasse, a carnificina não pararia nele. Chegaria até mim, até os irmãos dele, até toda a estrutura que ele passou a vida construindo.
— Então não vá — a suplica saiu num sussurro desesperado, infantil. — Manda outra pessoa no seu lugar, você é o Don.
Ele sorriu, um movimento triste e torto dos lábios.
— E que vida seria essa, principessa? Uma vida de fuga, de olhar por cima do ombro, de saber que deixei meus homens para serem abatidos como cachorros? Que deixei minha honra e meu nome na lama? — Seu olhar suavizou, mas a dor nele era quase insuportável. — Você não me amaria assim e eu não me amaria.
Era a verdade mais cruel. Eu não amaria um homem que deixou outros morrerem por ele, eu amava o homem que enfrentava os dragões mesmo sabendo que poderia ser devorado. A essência dele era indissociável do cargo, do dever, daquela maldita honra que valia mais que a vida.
— Então é isso? — As lágrimas corriam livremente agora, não era apenas tristeza, era uma raiva impotente e aterradora. — Você me conta tudo isso, me faz aceitar esse pacto de sangue, só para me preparar para a sua... para o seu...
Não consegui dizer a palavra.
— Para a minha possível morte, sim. — ele completou por mim, sem rodeios. — Sim. Porque se isso acontecer, você não pode estar em choque. Você não pode hesitar. Você tem que pegar o que eu deixei pra você e correr mais rápido que a bala com o seu nome. É a última coisa que eu posso fazer por você.
Ele me puxou contra o peito com uma força brutal, e eu não resisti. Afundei os dedos na camisa dele, como se pudesse agarrar sua alma e mantê-la ali, presa ao corpo.
— Eu não quero o seu sacrifício.
Ele não soltou. Seu queixo pressionou o topo da minha cabeça, e o corpo dele, tremeu uma vez, como se uma corrente elétrica de pura agonia o percorresse.
— Eu sei, mas é o preço a ser pago. Eu não posso ter os dois, você entende? Se eu pensar em você lá fora, vulnerável, como um alvo, eu vacilo. E se eu vacilar, eles não matam só a mim. Matam você na minha frente, só para me fazer sofrer. É assim que funciona, e eu sei disso porque eu próprio já fiz isso. — Ele me separou, segurando meu rosto novamente, mas agora seus olhos eram de um comandante dando ordens para um soldado em uma missão suicida. — Então você precisa ser a minha retaguarda. A certeza de que, não importa o que aconteça comigo, algo de bom, algo que eu construí, vai sobreviver. — Ele sacudiu meu rosto, levemente, forçando minha atenção total. — Você não é o prêmio que eles podem roubar.
Então, em vez de prometer, fiz a única coisa que me restava. Puxei a mão dele e a coloquei sobre o meu próprio peito, sobre o coração.
— Sente isso? — perguntei, ecoando-o. — É o que você está pedindo para eu deixar de sentir um dia. Você pode planejar minha fuga, , pode me esconder no fim do mundo, mas você não pode planejar o que isso vai fazer comigo aqui dentro. Essa parte você tem que aceitar, essa parte é o risco do seu jogo. Então fique vivo. Volte vivo. Não me mate.





Rossi


A porta do quarto de Bianca estava entreaberta. Um fio de luz suave, de um abajur, vazava pelo vão, junto com um som ritmado e profundo: uma respiração controlada, puxada longa e solta devagar.
Empurrei a porta sem fazer barulho. Ela estava de costas para mim, de pé no centro do quarto, vestindo apenas uma camisola larga de seda que mal conseguia cobrir a curva monumental da sua barriga. As mãos dela repousavam sobre o ventre, com os olhos fechados e o rosto sereno em uma concentração profunda. Ela fazia aqueles exercícios de respiração todos os dias, acho que era uma tentativa metódica de se conectar com os dois corpos que carregava ou de se preparar para o parto que se aproximava como um trem desgovernado.
Fiquei parada na porta por um segundo, observando. Havia uma paz ali, uma normalidade quase sagrada, que parecia pertencer a outro universo, eu senti um pouco de inveja por alguns segundos, uma inveja tola e sem sustentação, considerando o fato de que ela devia estar ainda mais preocupada do que eu. Então, pisei para dentro e fechei a porta atrás de mim com um clique suave.
O ruído foi mínimo, mas suficiente para que Bianca parasse no meio de uma expiração, seus olhos se abriram de repente, arregalados no reflexo do espelho em frente a ela. Ela me viu e, então, seu corpo deu um solavanco, suas mãos voaram instintivamente para proteger a barriga antes que o cérebro processasse quem eu era.
Dio mio, ! — Ela suspirou, com uma mão no peito. — Você quase me matou do coração! O que você está fazendo aqui? Está tudo bem?
— Não — respondi, simplesmente. Minha voz soou estranha até para mim. Plana, sem emoção, como se pertencesse a outra pessoa.
Bianca me estudou, com a expressão de susto dando lugar a uma preocupação profunda e imediata. Ela era assim. Mesmo grávida, inchada, com o próprio futuro pendurado por um fio dentro dela, sua primeira reação era pelos outros.
— O que aconteceu? — Ela se virou com dificuldade, buscando apoio no criado-mudo, seus olhos escaneando meu rosto em busca de feridas, de lágrimas, de qualquer sinal visível do turbilhão.
— Nada. Tudo. — Encostei-me na porta, sentindo a madeira sólida nas minhas costas. — Os bebês estão bem?
A pergunta pareceu deslocada, mas Bianca entendeu que era um fio de normalidade que eu precisava puxar antes de despejar o abismo.
— Estão. Chutam como cavalos de corrida. — Ela tentou um sorriso pequeno, acariciando a lateral da barriga. O gesto era tão natural, tão cheio de um amor antecipado que me doeu um pouco.
Fiquei em silêncio, observando as mãos dela sobre o ventre redondo. A vida ali dentro era tão pura, tão incontaminada e tão terrivelmente vulnerável. Devia ser assustador. O silêncio se alongou, mas Bianca não me apressou. Ela sabia esperar. Era uma das coisas que Vicenzo, em um de seus raros momentos de lucidez não-álcoolica, dissera que amava nela.
— Bianca — comecei, a palavra pesou em minha língua. — Eu preciso que você me treine.
Ela piscou, confusa.
— Treinar? Treinar o quê, tesoro? A respirar para o parto? Porque eu posso te ensinar isso, estou ficando especialista.
— Não. — Abanei a cabeça, finalmente erguendo os olhos para encontrarmos os dela. — Preciso que você me treine para luta? Auto defesa? Que termo vocês usam, afinal?
O ar saiu do quarto. O rosto sereno de Bianca ficou imóvel, depois uma série de emoções rápidas passou por seus olhos: incredulidade, alarme, compreensão e, por fim, uma dor profunda.
, o que o fez? O que ele disse?
— Ele me deu um plano de fuga. — Andei até a cama dela e sentei na beirada, sentindo as pernas fracas. — Mas eu não sou boa em correr e eu não quero ser um plano. Eu quero ser uma opção.
Ela se arrastou até a poltrona próxima e se deixou cair, ofegante não pelo esforço, mas pelo peso das minhas palavras.
— Uma opção de quê, exatamente? — sussurrou ela.
— De lutar. De não ser só um alvo, ou um prêmio, ou uma peça a ser evacuada. Uma opção de saber me defender. — Olhei para minhas próprias mãos, as mesmas que haviam segurado a lâmina contra Vicenzo. Elas pareciam tão inúteis. — Ele acha que vai morrer nesta guerra. Ele está se preparando para isso e me preparando para um futuro sem ele.
Bianca fechou os olhos.
Stronzo. — murmurou, não com raiva, mas com uma pena infinita. — Ele te ama demais.
— Eu sei que parece idiota, talvez até seja, mas eu preciso do seu irmão vivo. Eu amo ele, amo a pessoa que eu conheci e estou conhecendo fora da famiglia e eu não posso perder isso. É a primeira coisa, a primeira pessoa, que me faz querer lutar depois de Vicenzo. Eu preciso de pelo menos uma chance de defender o homem que eu amo ou de, ao menos, me defender sozinha para ser um peso a menos para ele.
Ela abriu os olhos, e neles eu vi não a mulher grávida e pacata, mas a filha de um caporegime da velha escola, que cresceu ouvindo histórias de vingança e sobrevivência.
— Você sabe o que está pedindo? — a voz dela estava grave, séria. — Não é como aprender a atirar em uma lata. Bianca olhou para a própria barriga, como se conversasse com os filhos que carregava. Quando levantou o olhar para mim, havia uma resolução ali, uma aceitação triste.
— Você sabe coisas, Bianca. Você ouviu seu pai a vida toda e sabe como eles pensam, como se movem, onde guardam as coisas. E você… — Pausei, escolhendo as palavras. — Você tem um motivo ainda maior que o meu para querer que alguém nesta casa saiba se defender. — Seus olhos brilharam com lágrimas não derramadas. Ela protegeu a barriga com os braços, um gesto instintivo.
O silêncio voltou, mas agora era um silêncio de pacto sendo forjado. Bianca respirou fundo, com a mão ainda acariciando o ventre em um ritmo calmo, mas seus olhos estavam longe, calculando riscos, esconderijos e possibilidades, provavelmente.
— Não podemos usar o estande de tiro deles — ela disse, finalmente, mantendo sua voz baixa e prática. — Eles descobririam em um dia. O porão da casa do lago. O antigo. Está cheio de tralha, mas tem espaço. O som não vaza.
Meu coração acelerou.
— E as armas?
Ela sorriu, um sorriso pequeno e astuto que eu nunca tinha visto nela.
— O Roman tem um baú. Dois, na verdade, e em lugares que ele acha que eu não sei. — Ela encolheu os ombros. — Vamos começar com essas e com facas da cozinha. Elas são boas para começar porque são leves, familiares e nenhum dos homens idiotas desta casa vai sentir falta.
Parecia surreal discutir logística de treinamento de guerrilha doméstica com uma mulher de oito meses grávida de gêmeos.
— Quando? — perguntei, com mais esperança do que voz.
Bianca olhou para a própria barriga novamente, como se negociasse um prazo.
— Eu não consigo te ensinar agora, talvez depois que eu tiver os bebês ou quando eu estiver recuperada o suficiente para ficar de pé e mostrar alguma coisa. Um mês. Talvez dois. — Ela me fitou. — Pela sua urgência, acho que você não tem esse tempo. Vamos ter que ir atrás de outra pessoa.
Concordei com a cabeça. Eu não sabia em quanto tempo aquele caos todo poderia se tornar uma guerra, não sabia o nível de preocupação de e nem o quão rápido isso me atingiria.
— Quem? Vicenzo me mataria só de eu sugerir. Ou pior, acharia engraçado e me ensinaria a atirar no meu próprio pé só pela diversão e Roman é a sombra do . Ele não dá um passo sem calcular como o irmão vai reagir. Ele nunca, nunca aceitaria me treinar escondido. Seria uma traição direta.
— O Vicenzo está fora de questão, concordo, mas o Roman — Ela fez uma pausa, escolhendo as palavras com o cuidado de quem manuseia um fio explosivo. — Bom, ele tem suas próprias dívidas. — Bianca olhou para as próprias mãos, que repousavam sobre o ventre. Quando falou, a voz dela era tão baixa que pareciam sussurros, era tão baixo que ela parecia querer esconder isso dos gêmeos que carregava. — Há coisas nesta família que ficam enterradas, . Coisas que só alguns viram, e que ninguém quer lembrar. — Ela estremeceu, um tremor súbito e violento que a fez se encolher. O medo no rosto dela era instantâneo, real. — Giorgio é a palavra chave para a maioria deles.
Ela ergueu o olhar para mim, e, quando o fez, seus os olhos estavam cheios de um pedido silencioso para não perguntar mais.
— Você tem certeza? — minha voz era um sussurro. — Ele não vai só me entregar para o ?
— Tenho.
— Obrigada, Bianca.
Ela acenou com a cabeça.
— Não me agradeça ainda. Quando você segurar uma arma pela primeira vez e sentir o que é ter o poder de tirar uma vida na palma da sua mão, você vai me odiar um pouco por ter te ajudado. — Ela suspirou.





Rossi


Cheguei antes da sete.
Sempre chegava antes, era um princípio, uma segurança. Ver o terreno, sentir o espaço, garantir que não havia nenhuma surpresa, tudo isso era tão comum que beirava o natural. Fiquei de pé ao lado de uma pilha de paletes cobertos com uma lona, mantendo os braços cruzados, ouvindo o ronco distante do tráfego da manhã começando lá fora. A mente, no entanto, estava longe. Estava na quietude do quarto, no peso de dormindo contra mim.
A porta lateral rangiu. Roman entrou, fechando-a atrás de si. Ele parecia diferente. Não desleixado, seu terno era impecável, como sempre, mas havia uma palidez mais incomum em seus olhos, uma faixa de cansaço roxa sob os olhos que nem o charme habitual conseguia disfarçar. E uma agitação sutil nos dedos, que ele escondeu enfiando as mãos nos bolsos.
— Cheguei, satisfeito? — ele murmurou, deixando sua voz ecoar no vazio que o galpão nos oferecia.
— Três dias. — Respondi, mantendo o meu tom neutro.
— Eu expliquei, tive assuntos pessoais.
— "Assuntos pessoais" não foi uma explicação, cazzo. Foi uma desculpa. — Dei um passo para frente, saindo da sombra. — Você sumiu. Os irlandeses vieram cobrar a parte deles na zona portuária. Os Marzano enviaram dois picciotti para perguntar sobre os caminhões que você devia garantir e eu tive que colocar o Vincenzo para resolver. Você sabe o que isso significa.
O rosto de Roman se contraiu levemente na menção do nosso irmão. Vincenzo “resolver” sempre deixava um rastro mais largo e sangrento que o necessário.
— Eu lido com os Marzano hoje.
— Você não lida com nada até eu entender o que está acontecendo na sua cabeça. — Cortei-o, sentino minha voz começar a ficar mais rude. A que ele conhecia bem. — Você é meu capo. Meu braço direito. Sua cabeça precisa estar aqui. No negócio. Na família. Não desaparecendo no mapa por uma boceta de uma vadia qualquer.
A vulgaridade foi calculada para tirá-lo do sério, para furar a casca de diplomata. Funcionou.
— Cuidado com as palavras, .
— Cuidado com as suas ações, irmão. — Avancei mais um passo. A distância entre nós era de uns três metros agora. O espaço suficiente para reagir. — Nome. Endereço.
Ele riu, um som seco e sem humor.
— Para quê? Para você mandar o Vicenzo dar um passeio até ela? Para ameaçá-la? Para usar ela como alavanca contra mim? Não, obrigado.
A confirmação direta do que eu suspeitava foi um soco no estômago. Não era um caso. Era sério o suficiente para ele levantar barreiras contra a própria família.
— Então é isso. — Minha voz baixou, ficando perigosamente suave. — Você coloca uma desconhecida acima da segurança da famiglia. Você cria um ponto cego e acha que eu vou ficar aqui de braços cruzados batendo palma para o seu romance?
— Ela não tem nada a ver com isso. Não é um ameaça.
— Tudo é uma ameaça, imbecile! — gritei de volta, perdendo a compostura por um instante. A raiva, a preocupação, a visão nítida do desastre tomando forma, tudo era uma ameaça constante. E eu me irritava porque o Roman é a pessoa que mais deveria saber disso. — Você acha que os Marzano vão ligar se ela é fora? Se os irlandeses quiserem te apertar, vão segurar ela pela garganta! E você, o que vai fazer? Vai entregar o território deles para salvá-la? Vai trair a gente?
— Eu nunca trairia a família.
— Já está traindo! — retruquei, apontando um dedo acusatório para ele. — Por omissão! Você sumiu, deixou buracos e está emocionalmente comprometido.
Ele ficou em silêncio, mas a respiração estava ofegante e, por consequência, o peito subia e descia.
— Por que tanto pânico, ? — perguntou ele — Já tivemos deslizes piores antes e não foi o fim do mundo.
Era a pergunta que eu temia. Porque obrigava a dar voz ao fantasma que eu carregava desde a noite anterior. Respirei fundo, olhando para além dele, para as sombras do galpão que pareciam se mover.
— Você acha que o Giorgio não achou a nossa mãe diferente? No fim, ela era só mais uma peça no tabuleiro dele, e ele a quebrou quando suspeitou que estava perdendo o controle. É isso que essa vida faz e você, mais do que ninguém, deveria saber.
A menção do Giorgio e da mãe teve o efeito desejado. Uma sombra passou pelo rosto de Roman, uma dor antiga e conhecida. Ele sabia que eu estava certo.
— Então o que você quer que eu faça? — a pergunta dele saiu em um sussurro rouco, de derrota.
— Quero o nome e o endereço.
— Não. Absolutamente não. Você não vai chegar perto dela.
— Então você está nos condenando.
Ele me olhou, e pela primeira vez, vi o estrategista voltar.
— Você acha que não damos conta? — Quando eu fiquei em silêncio, Roman passou as mãos pelo rosto, esfregando-o com força. Ele estava encurralado por todos os lados: pelos inimigos externos, pelo irmão instável e por mim, que exigia uma lealdade total que ele não conseguia mais dar. — Eu não posso… — a voz dele falhou. — Eu não posso entregá-la.
Havia uma dor genuína ali, uma fenda na armadura de aço que ele sempre tinha.
— Nada é só nosso, Roman. — Minha voz perdeu a aspereza, ficando cansada. A raiva dava lugar a uma preocupação profunda, quase paternal. Ele era meu irmão, afinal. — Esse é o preço que pagamos.
Ele olhou para mim, e em seus olhos havia um reconhecimento amargo. Ambos carregávamos o fardo do mesmo pai. Das mesmas lições em vermelho sangue.
— O que você vai fazer? — ele perguntou, resignado.
— O que sempre faço. Tentar proteger todo mundo. — Suspirei. — Por ora… fique longe dela. Se você sumir de novo, eu não vou cobrir você. E o Vicenzo vai ter carta branca para caçar. É o máximo que posso fazer.
Roman ficou em silêncio por um longo momento, depois acenou com a cabeça.
— Entendido. E depois? Supondo que a contenção não funcione. Qual é o plano?
em outro país. Bianca em um bunker. É o máximo que consigo fazer.
Novamente ele ficou em silêncio.
— Ela sabe?
— Ela sabe o que precisa saber — respondi, evasivo. A relação de Bianca com meus irmãos era um campo minado onde eu preferia não pisar. Ela era nossa consigliere, a mente mais lúcida entre nós, e também o nosso maior ponto cego. De todos nós. — Ela tem os códigos e as instruções.
Roman não se satisfez. Seus olhos, sempre tão bons para ler as entrelinhas de um acordo, estavam fixos em mim, buscando algo mais.
— E as crianças? — a pergunta saiu cuidadosa, mas carregada de uma urgência que ele não conseguia disfarçar. — O plano leva em conta a condição dela? Dois recém-nascidos numa fuga?
— O plano leva em conta que ela é a pessoa mais capaz desta família, grávida ou não — respondi, escolhendo as palavras com cuidado. — E leva em conta que os bebês são Rossi, independente de quem os gerou. O sangue é o que importa. Eles serão protegidos como tal. Com a vida de qualquer um de nós, se necessário. — Ele acenou com a cabeça, mas não parecia aliviado. — A é minha prioridade pessoal e a Bianca é a prioridade da famiglia. Se cair, caímos todos.
Ele acenou e a sua postura rapidamente mudou. O caporegime voltou a ocupar o espaço que deveria.
— Vou cuidar disso. E dos caminhões dos Marzano.
— Bom. — Virei-me para sair. Antes de sair, olhei para trás. — E, Roman? Suma com a sua mulher, sim? Não é um pedido. É uma ordem do seu padrino. A família precisa de você inteiro.
Subi as escadas em direção ao escritório, mas as pernas me levaram até a porta do quarto de Bianca. Parei. Do outro lado da madeira maciça, ela estava lá. A única pessoa nesta casa que conseguia olhar para mim, para Vicenzo e para Roman e ver três homens, não três armas ou três problemas. Encostei a testa na porta fria, pensando no quanto eu precisava falar com ela. Não sobre logística ou planos de fuga, mas sobre o Roman. Ela era a única que conseguiria acalmar a obsessão dele sobre uma mulher sem que ele sentisse que estava sendo manipulado, mas invadir o espaço dela agora, com ela pesada, exausta, parecia mais um fardo do que uma solução.
— Ela está dormindo, signore.
A voz suave me fez erguer a cabeça. Era Giulia, a enfermeira particular que contratamos para os últimos meses. Estava no fim do corredor, com uma bandeja vazia nas mãos.
— Ela comeu? — perguntei, afastando-me da porta.
— Um pouco, ela está um pouco indispota, mas os bebês estão ativos, ela disse. — Giulia sorriu, um sorriso profissional que não alcançava o cansaço nos seus olhos. Trabalhar para os Rossi desgastava mesmo qualquer um.
Acenei com a cabeça.
— Obrigado, Giulia. Deixe-a descansar.
Ela se afastou com a bandeja, e eu finalmente me dirigi ao escritório. O espaço era meu refúgio e minha prisão. Paredes forradas de livros de direito e contabilidade que escondiam os verdadeiros registros do nosso império. A grande escrivaninha de carvalho, herdada do Giorgio, parecia pesar uma tonelada. Sentei-me, mas não liguei o computador. Em vez disso, olhei para a fotografia na mesa. Era de todos nós, anos atrás. O Giorgio sorridente como um tubarão, no centro. Eu, com uns quinze anos, já com a postura rígida, ao lado dele. O Vicenzo, pequeno e com olhos que já não eram de criança, encostado na perna do pai. E o Roman, do outro lado, tentando parecer digno. O Giorgio tinha uma mão no meu ombro, um gesto que era pra ser de orgulho, mas que só me ensinou o peso da expectativa. Ele não criou filhos. Criou herdeiros. Criou armas. A Bianca veio depois, uma adição estranha que ele não soube como moldar, então tratou como um computador humano; útil, mas não da mesma carne.
Onde havia errado? Talvez em achar que conseguiria mantê-los unidos apenas com força de vontade. Vicenzo precisava de uma guerra para se sentir vivo. Roman precisava de um propósito que não fosse apenas acumular poder. E eu precisava deles vivos e sãos, coisa que estava se tornando cada vez mais impossível.
O celular vibrou, quebrando o silêncio. Era uma mensagem criptografada de um dos nossos homens nos portos. “Movimento estranho nos containers 7B. Homens com sotaque colombiano conversando com o capataz dos Morzani.”
Eles estavam comprando ou ameaçando nossa gente de baixo escalão. Era inteligente. Era eficiente. Era exatamente o que eu faria.
Fechei os olhos por um segundo, esfregando as têmporas. Tinha que mandar alguém lá. Alguém que causasse medo, que limpasse o problema sem perguntas. Alguém que adorasse esse tipo de trabalho.
Peguei o celular e marquei o número dele, que atendeu na primeira chamada, com a voz rouca de quem ou estava bêbado ou acabara de acordar. Provavelmente as duas coisas.
— Fala.
— Preciso de você no porto. Armazém 7B. Tem lixo para tirar.
Do outro lado da linha, ouvi o som do que imaginei ser ele se sentando na cama, pelo rangido dos molas. A energia mudou instantaneamente e sua letargia sumiu, substituída por uma excitação.
— Finalmente algo interessante. Em uma hora estou aí.
— Discreto, Vicenzo. Eu quero informação, primeiro. Descobrir quem é o capataz que está conversando. Depois, você faz a limpeza.
— Claro, claro. Discreto como um gato.




Rossi


Dois dias se passaram quando Bianca me chamou para o quarto dela, no final da tarde. Eu havia deixado Lucca com Vicenzo, o que era um enorme risco à sanidade mental daquele garoto, mas esperava que ele entendesse. "É uma emergência", eu disse, e ele, com aquela seriedade precoce que partia o coração e ele, em resposta, apenas assentiu. Vicenzo estava no jardim, desmontando e montando uma pistola pela centésima vez. Ele nem olhou quando eu disse que Lucca ficaria com ele, apenas fez um gesto de "deixa aí" com a cabeça. Era um acordo estranho: meu irmão seguro sob o olhar do homem mais perigoso da casa.
Eu esperava não me arrepender, mas sabia que provavelmente iria.
Quando empurrei a porta, já aberta, a cena me prendeu no batente.
Bianca estava sentada na poltrona grande perto da janela, com o rosto sereno mas pálido e as mãos apoiadas no veludo imenso do seu ventre. Roman estava de pé ao lado dela, meio curvado. Não estava falando, no entanto. Sua mão, larga e com os nós dos dedos marcados, repousava com uma estranhíssima suavidade sobre a curva da barriga dela. Seus olhos, sempre tão espertos e dissimulados, estavam fixos naquele ponto, perdidos em um pensamento tão profundo que parecia doloroso. Ele não estava acariciando. Estava quieto, prendendo a respiração como se estivesse tentando sentir, através da pele e do tecido, o milagre absurdo da vida crescendo em meio ao nosso caos. Me lembrava , quando tocava no ventre dela.
Acho que nenhum deles se achava digno de tocar em uma criança.
Bianca foi a primeira a me notar e quando seus olhos se encontraram com os meus, não havia constrangimento, apenas um cansaço profundo.
Roman, percebendo a mudança nela, seguiu seu olhar. Quando me viu na porta, não saltou, não tirou a mão com pressa. Ele a retirou lentamente, como quem se despede de algo precioso, e sua máscata habitual de charme calculado escorregou de volta ao lugar num piscar de olhos.
— cumprimentou, sua voz um pouco mais áspera que o normal. — Bianca disse que você queria conversar.
Fechei a porta atrás de mim, me sentindo uma intrusa em um momento que não era meu.
— É sobre um favor — disse, mantendo a voz firme. O plano dependia disso. — Um grande favor.
— Ainda estou esperando a piada.
Respirei fundo.
— Não é piada. Eu preciso que você me treine. Para eu conseguir me defender.
— Treinar? Você? — Ele deu um passo à minha frente. — Você sabe o que é um ferrolho, ? Sabe limpar um cano entupido? Sabe que atirar não é como nos filmes, que seu braço vai doer por dias, que o barulho vai deixar seus ouvidos zunindo e que o cheiro da pólvora gruda na sua pele e não sai mais?
— É por isso que preciso aprender! — Respondi com mais raiva do que queria, sentindo a frustração romper o meu medo. — Porque eu não sei de nada! E ninguém vai me ensinar!
— Exatamente! — ele retrucou, e sua voz também subiu. — Ninguém vai te ensinar porque não é o seu lugar! O seu lugar é longe disso! É o plano do , que, aliás, é o único plano sensato que já surgiu nesta casa!
— Eu não quero viver correndo! Quero lutar.
— Lutar? — Ele cuspiu a palavra, com tanto desdém que eu me encolhi. — Você acha que isso é um jogo, ? É sangue, é víscera, é gente mijando de medo antes de morrer! É o Vicenzo com os olhos vidrados porque cortou a garganta de um informante! É isso que você quer? Porque é isso que você vai ter que aprender a fazer!
Bianca interveio, sua voz era serena mesmo enquanto tentava acalmar a tempestade.
— Roman, por favor. Ela só quer não ser uma vítima.
Ele se virou para ela e a raiva dele agora tinha um alvo novo.
— E você! Você devia estar é convencendo ela a aceitar o plano do , não alimentando essa fantasia perigosa! O que você está pensando?
— Estou pensando que talvez ela tenha escolha! — a voz de Bianca tremeu, mas não cedeu. — Que talvez ela não queira o mesmo que nós fomos forçados a aceitar!
— Não tem escolha, Bianca! — Ele não gritou, mas sua voz era ameaçadora. — E você, de todas as pessoas, devia saber que mexer nisso sem o saber é traição! Eu não vou trair meu irmão! Menos ainda por um capricho!
— Não é um capricho! — Bianca implorou, e pela primeira vez vi lágrimas brilhando em seus olhos. Era estratégia ou verdade? Provavelmente as duas. — É uma necessidade, Roman! Se as coisas desabarem… se você… se o Vicenzo… — Ela não terminou, mas a mão dela foi instintivamente para o ventre. — Quem fica por nós? Só nós mesmas. Eu, presa com dois bebês. Ela, sendo caçada como um troféu com um irmão de seis anos. Você quer isso? Quer saber que nos deixou indefesas? Eu não vou conseguir fazer nada com duas crianças no colo e você sabe disso! Essas crianças vão ser as primeiras a morrer, os três.
Roman pareceu sufocar. Seu rosto estava vermelho e a veia da testa saltada.
— Pare! Pare de usar isso! Pare de usar… eles! — Ele gesticulou violentamente na direção da barriga dela.
— Eu não estou usando! Estou mostrando a realidade! — Bianca chorou agora, de verdade, com as lágrimas correndo em seu rosto. — Você sabe o que o Giorgio fez quando sentiu que perdia o controle. Você viu. Você acha que os monstros de hoje são diferentes? A precisa ter uma chance, Roman! Ela precisa poder olhar para um monstro e não congelar! E eu preciso saber que ela pode me ajudar, se um dia eu não puder correr.
Ela estava se humilhando.
A consigliere mais orgulhosa, a mente mais fria, estava se quebrando diante dele.
E, Deus, como funcionava.
Roman recuou como se tivesse levado um tapa.
Todo o sangue pareceu drenar do seu rosto. A raiva deu lugar a um horror profundo, uma dor antiga que a menção de Giorgio e o desespero de Bianca haviam desenterrado. Ele olhou para as mãos, como se visse sangue nelas.
— Maldita seja, Bianca — ele sussurrou, com a voz agora cansada, mas ainda irritada. Agora não mais por ela ou por mim, parecia ter raiva dele mesmo e de como cedia. — Maldita seja você. — Ele ergueu os olhos para mim. — Você entende o que está me pedindo? Está me pedindo para mentir para o meu irmão. Para o meu padrino. Está me pedindo para pegar a mulher que ele ama mais que a própria vida e transformá-la em algo que ele está tentando desesperadamente proteger. Se ele descobrir, ele me mata. Ponto final. Não é discussão. É uma bala.
Eu balancei, mas mantive-me firme.
— Ele não vai descobrir.
— Todo segredo é descoberto! — ele murmurou mais alto, mas era mais uma confirmação de sua derrota. Ele estava caindo. Ele olhou para Bianca, que limpava o rosto silenciosamente, mas mantinha seu olhar ainda suplicante e fechou os olhos, respirando fundo como um homem prestes a pular de um penhasco. — Tudo bem — a capitulação saiu como um gemido. — Tudo bem, seu demônio. Você venceu. — Ele abriu os olhos e me encarou, mas acho que a raiva foi direcionada a Bianca e às lágrimas dela. — Minhas regras. Meu lugar. Meus horários. Se você respirar uma palavra… — Ele não terminou. Não precisava. O ódio no seu olhar dizia tudo. — Ele se virou e caminhou até a porta. Antes de sair, parou e olhou para Bianca mais uma vez. A raiva voltou, rápida e suja. — Você é uma desgraçada manipuladora, sabia? Espero que esses bebês puxem o pai, seja lá quem for. Porque ter você como mãe é uma maldição.
E então ele saiu, fechando a porta com um baque que fez até a cristaleira tremer.
Bianca não se moveu. Ficou sentada na poltrona, com os olhos fixos na porta fechada, como se conseguisse ver através dela a figura do irmão se afastando. Ela deixou escapar um longo e trêmulo suspiro. Um suspiro que parecia carregar toda a exaustão do mundo. Vi seu queixo tremer, os lábios se apertarem numa linha fina para conter o choro que ameaçava explodir. Ela engoliu em seco, num movimento doloroso de se ver.
— Bianca… — comecei, mas minhas voz era um fio de culpa e arrependimento. Eu havia causado aquilo. Minha necessidade, minha teimosia, tinha sido a alavanca que ela usou para forçar Roman a esse canto. E ele a retaliara com a crueldade precisa de quem conhece exatamente onde dói mais.
Ela ergueu uma mão, num gesto pequeno e cansado para me fazer calar. Fechou os olhos por um instante, respirando fundo e, quando os abriu, a dor ainda estava lá, mas havia uma camada de gelo por cima, um controle que ela dominava como ninguém.
— Está tudo bem, — disse, mas a voz dela, normalmente tão suave, saiu áspera, desgastada. Era óbvio que ela mentia.
— Não está — contra-argumentei, me aproximando. Minhas próprias mãos tremiam. — Ele te odiou ali. Por minha causa.
Ela virou o rosto para mim e um sorriso fantasmagórico tocou seus lábios. Não era de felicidade. Era de uma tristeza infinita.
— Ele não me odeia. Odeia a posição em que eu o coloquei. Odeia a lembrança do que eu sou. Odeia que, para proteger uma coisa boa, — ela pousou a mão no ventre — ele tenha que trair outra. — Ela piscou rápido, afastando a umidade dos olhos. — As palavras dele são o preço. Eu pago.
— Mas ele falou da sua maternidade e dos bebês. — a frase de Roman ainda queimava em meus ouvidos. Se em mim tinha causado esse impacto, não queria nem saber o que causara nela.
— Ele tem medo que eles sejam como a gente. Como ele. Como o Giorgio. Dizer que espera que puxem o pai é a única forma que ele tem de torcer por algo melhor, sem admitir que acha que já estamos condenados. — Ela respirou fundo, endireitando os ombros com um esforço visível. — Agora chega, não temos tempo para culpa ou para chorar. Ele aceitou e agora, quando ele chamar, você vai. E você vai aprender tudo o que ele tiver para ensinar. — Seu olhar foi para a porta novamente, e desta vez, vi um tremor de verdadeiro medo. — Se for em vão, não só eles vão nos matar, mas nós vamos merecer.




Rossi


O aviso veio três noites depois, com uma mensagem no celular que eu mantinha escondido no forro da bolsa, vinda de um número desconhecido: “04:00. XXZ, 0JK58, 79AE8. Venha de preto. Sozinha.”
Bianca me ajudou a descobrir que isso era o endereço. Aparentemente Roman tinha mania de enviar códigos de letras e números, como a droga do Mozart.
O coração disparou contra minhas costelas.
04:00.
A hora em que até os monstros dormem.
Ou, aparentemente, a hora em que Roman dava suas aulas.
Não consegui dormir. Deitei ao lado de , sentindo o calor e o peso reconfortante dele, e lutei contra o impulso de me enterrar ali e esquecer tudo. Mas, como poderia? Como poderia me deitar ao lado daquele homem, que tanto aprendo a amar e aceitar um dia viver sem ele? Impossível. Saí da cama às 03:30, dando um beijo nele e dizendo que iria para o quarto de Bianca. Havíamos feito isso, uma rotina onde eu passava as madrugadas no quarto dela para que ele não suspeitasse quando, por fim, eu não estivesse lá.
Vesti-me com roupas pretas e velhas. Nada que brilhasse, nada que fizesse ruído. Olhei para . Estou fazendo isso por nós, pensei, mentindo para mim mesma, para ele, para todo mundo. Era por mim. Por um pedaço de mim que se recusava a ser apenas uma consequência na vida dos outros. Tentando ser o mais silenciosa possível, desci as escadas e passei pela cozinha escura. A rua estava deserta, fria e úmida envolta num nevoeiro ralo que engolia os postes de luz. Não era tão longe, então consegui seguir as orientações que Bianca me deu.
Ele já estava lá. Não em um carrão preto, mas em uma van velha e surrada, de entregas, estacionada na sombra mais profunda. A porta do passageiro se abriu silenciosamente quando me aproximei. Entrei.
O interior cheirava a café velho, cigarro e óleo. Roman, ao volante, também vestia roupas escuras e comuns. Ele estava com tanta raiva que nem mesmo olhou para mim.
— Coloque o cinto — ordenou, com a voz plana e profissional.
A van arrancou suavemente, mergulhando em ruas cada vez mais estreitas e escuras, longe dos bairros que eu conhecia. Nenhum de nós falou. O único som era o motor roufenho e a minha própria respiração, que eu tentava controlar. Ele parou finalmente num galpão ainda mais decadente que o que usara. Puxou a van para dentro e fechou o portão de correr antes de desligar o motor. O silêncio foi absoluto.
— Saia — ele disse, saindo pelo lado dele.
Dentro, o galpão era uma caverna úmida e vazia, iluminada por uma única lâmpada pendurada sobre uma mesa longa de madeira. Sobre a mesa, um pano, havia formas que eu reconhecia mesmo cobertas. A forma longa de um rifle. A forma compacta de uma pistola.
Roman foi direto ao ponto. Puxou o pano.
Embaixo do pano, estava uma pistola. Ao lado dela, uma caixa de munição aberta.
— Pegue. — ele ordenou.
Peguei. O metal era gelado e bem mais pesado do que parecia.
— Essa é uma Glock 19. Nove milímetros. — Suas palavras eram curtas, cortantes. — Não tem segurança alguma além do seu cérebro. O que significa que se você encostar o dedo no lugar errado, com a intenção errada, você faz um buraco em algo. Ou em alguém. Seja eu, seja você, seja a puta da parede. — Ele me fez segurar, mostrar a postura e olhar pela mira. Seus ajustes eram bruscos. Uma cotovelada no meu braço para endireitar, um chute no meu calcanhar para afastar mais o pé. Não era um toque de professor. Era a correção de um treinador de animais. Era assim que ele me via, eu acho. — Você está tremendo — ele observou. — Bom. O medo é a única coisa inteligente no seu corpo agora. — Isso é o seu dedo, ele fica no gatilho. Este é o ferrolho. Isto é onde o carregador entra. Isto é onde o cartucho ejetado sai, quente e rápido, e pode queimar seu braço se você segurar errado. — Suas explicações eram curtas e secas. — Pés na largura dos ombros. Joelhos levemente flexionados. Braços estendidos, mas não travados. Olhe pela mira. — Enquanto ele me ajustava, eu respirava fundo. Era um empurrão no quadril, um puxão no cotovelo, para Roman eu era um manequim.
Por uma hora, só fiz isso. Pegar a arma, apontar, simular o recuo, baixar.
Pegar, apontar, simular, baixar.
Meus braços começaram a arder. Minha mente, entorpecida pelo ritual, começou a parar de tremer. Então, ele pegou um carregador. O tilintar metálico das balas dentro dele foi o som mais aterrorizante que já ouvi.
— Agora, para valer. — Ele inseriu o carregador na pistola e puxou o ferrolho para trás e soltou. Clack-clack. — As regras são as mesmas. Aponte para os sacos. Puxe o gatilho. — Eu não consegui fazer, ao invés disso, eu travei. Engoli em seco, respirei fundo e pensei. Várias vezes. Eu queria mesmo isso? — O que está esperando? Uma plaquinha de puxe? Você implorou e chantageou sua entrada aqui. Puxe. O. Gatilho.
Respirei fundo e, a cada vez que eu puxava o ar, vinha junto o cheiro de mofo e óleo. Fechei os olhos por um segundo, então os abri e alinhei a mira trêmula no centro do saco de areia sujo.
Então puxei o gatilho.
— Novamente — ordenou Roman, impassível. — Até o carregador acabar ou até o seu braço cair.
E eu atirei.
De novo.
E de novo.
— Agora vem a parte que você acha que quer. — Ele colocou a arma carregada, engatilhada, na minha mão. — Lá no fundo, tem um alvo. Um retrato de papel de um homem. Não pense nele como um homem. Pense nele como um problema. Um problema que vai estripar sua família, matar seu marido, cuspior no túmulo do seu irmãozinho e queimar sua casa. Você tem três segundos para resolver o problema.
Eu levantei a arma.
Meus braços tremiam tanto que a mira dançava. O rosto no alvo era genérico, sem expressão alguma, mas, na minha cabeça, ele tinha os olhos do Lorenzo.
— Três… — a contagem regressiva de Roman começou e eu o almadiçoei por me apressar. — Dois…
Eu fechei os olhos e puxei o gatilho.
A pistola saltou e o cano quente quase tocou minha testa. O choque foi tão grande que eu dei um passo para trás, sentindo o coração bater loucamente na minha garganta. Meus ouvidos zuniam.
— Você atirou como uma criança assustada. O problema ainda está lá. Olhe. — a voz de Roman cortou o som do ambiente, carregada de desdém. Abri os olhos e, realmente, o alvo estava intacto. A bala tinha ido parar Deus sabe onde na parede de tijolos. — Você desperdiçou um recurso e não resolveu porra nenhuma. É assim que quer ajudar? — Ele se aproximou, deixando seu rosto a centímetros do meu. O cheiro dele era de café amargo e raiva contida. — Acha que o , na sua primeira vez, errou? O Vicenzo, na dele? Errar não é uma opção quando o que está em jogo é a sua garganta. Agora, de novo. E não feche os olhos. Olhe para o problema e destrua ele.
Minhas mãos sujavam de suor frio. Levantei a arma novamente. Desta vez, mantive os olhos abertos. O alvo parecia maior, mais ameaçador. Puxei o gatilho.
— Raspou — Roman comentou, sem emoção. — Se fosse real, ele estaria sangrando, furioso e com mais motivos para te matar. Parabéns. — Sua ironia era ácida. Tão ácida que só percebi a sensação quando uma gota salgada escorregou e caiu no dorso da minha mão, me fazendo perceber o momento em que comecei a chorar. Não era pelo esforço, nem pelo medo do barulho. Era pelo rosto no alvo, e, porque, sem querer, sem nem perceber o processo, eu estava aprendendo a ser exatamente o tipo de pessoa que havia puxado o gatilho contra meu irmão. Estava sujando minhas mãos com a mesma violência que o consumiu. Lorenzo não morreu por um raio ou um acidente. Morreu por alguém que apertou um gatilho com menos hesitação do que eu tinha agora. — Mais uma vez. E não chore, lágrimas embaçam a mira e enferrujam a arma.
Ele não se aproximou, não ofereceu um lenço e não falou nada. Apenas cruzou os braços e esperou, como se fosse um treinador diante de um atleta que que desmaia na pista. Engoli o resto do choro e esfreguei o rosto violentamente com a manga, limpando o sal, o suor e a fuligem. Minha visão ficou clara novamente.
Então atirei. Não olhei para Roman, apenas respirei, baixei a arma e ergui novamente. Então, disparei outra bala, e outra. Até o cheiro de pólvora se tornar mais forte do que meu próprio desespero. Quando o carregador se esvaziou, eu estava ofegante, mas em pé. Meu rosto estava seco e meus olhos, embora vermelhos, estavam secos também. Baixei a arma e a estendi para Roman, com a mira apontada para o chão, como ele me ensinou.
Ele pegou examinando-a brevemente antes de começar a ejetar o carregador vazio.
— Amanhã — falou, sem me olhar, guardando a pistola numa bolsa térmica. — Você vai aprender a desmontar isso. Se vai confiar sua vida a um instrumento, precisa saber onde ele falha.
Eu assenti, mas ainda estava presa no momento de pânico, onde o alvo de papel se transformou em outra coisa.
— O rosto no alvo — comecei, sentindo minha voz sair mais fraca do que eu queria. Roman parou de arrumar a bolsa, mas não se virou. — Ele tinha os olhos do Lorenzo? Ou foi só coisa da minha cabeça?
Ele terminou de fechar o zíper e, por um momento, pensei que ele ia ignorar a pergunta. Mas não, ele se virou, encostando na mesa de madeira rachada, mas manteve os seus olhos irritados.
— O alvo é um pedaço de papel com um desenho genérico feito por uma impressora de noventa dólares — ele disse, me avaliando lentamente. — Não tem olhos de ninguém.
— Eu sei — respondi rápido, com a frustração misturada ao constrangimento. — Mas na minha cabeça, na hora… É comum? Ver coisas assim?
— Sim. O cérebro preenche vazios com o que dói, é um defeito biológio. Ignore. — Ele cortou, impaciente. — Mas se o seu continuar encontrando o do seu irmão, você terá um problema.
— Por que é um problema?
Ele soltou um ar pelo nariz, um som de puro cansaço.
— Porque Lorenzo está morto e se você vai atirar pensando em fantasmas, você erra o alvo de verdade. — Ele me encarou. — E aí você está morta também.
Fiquei calada, mantendo os punhos cerrados ao lado do corpo.
— Não sei como separar — admiti, por fim, baixando a guarda por um segundo.
— Talvez nunca saiba, mas precisa aprender a direcionar. Na hora de apertar o gatilho, você mira no homem à sua frente, não no que está no seu cemitério pessoal. Um você pode matar. O outro, não.
Ele falava com uma lógica tão óbvia que, de alguma forma, parecia fazer sentido. De alguma maneira, por mais improvável que fosse, parecia fácil.
— Você já fez isso? — perguntei, antes que pudesse me conter. — Mirou em alguém pensando em outra pessoa?
Roman ficou imóvel, por alguns segundos. Ele parecia estar decidindo se eu era digna da resposta ou se era apenas mais uma intrusa emocional.
— Todo mundo que sobreviveu mais de um ano nesse negócio já fez — ele admitiu, com a voz mais baixa.
— Ele era bom nisso? — a pergunta saiu antes que eu pudesse censurá-la.
Um músculo tensionou na mandíbula de Roman, então ele fez uma curva, comprando tempo.
— Lorenzo atirava como se nascesse para isso — ele admitiu. — Era um problema, na verdade — continuou, com sua voz assumindo um tom de análise técnica agora. — Ele confiava demais no instinto e não respeitava a disciplina.
Eu me encolhi no banco.
— E ele ensinou alguém? — perguntei, mantendo a voz o mais neutra possível, como se fosse só uma curiosidade lógica. Como se não fosse uma tentativa desesperada de me conectar a qualquer coisa que tivesse vindo do meu irmão.
— Uma pessoa só.
— Quem? — sussurrei.
Ele não olhou para mim.
— Por que você quer saber?
As peças se encaixaram com um clique quase audível antes que ele dissesse o nome, porque só existia uma pessoa que todos eles protegiam.
— Bianca.
Ele não confirmou com palavras, apenas um ligeiro, quase imperceptível, fechar dos olhos.




Continua.


Nota da autora: Entre para o nosso grupo no WhatsApp! É lá que o coração da história bate primeiro.
Se você ama estar por dentro de tudo, não pode ficar de fora! No grupo, eu compartilho novidades em primeira mão, atualizações exclusivas, avisos importantes e, claro, mimos especiais que só quem está lá recebe.

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