Independente do Cosmos🪐
Última Atualização: 25/10/2025.Stanford, alguns anos atrás.
O outono na universidade de Stanford costumava envolver boa parte do campus.
Entre os corredores de pedra e as árvores que soltavam suas folhas secas, Sam e adoravam passar o tempo juntos em um lugar isolado de todos os olhares do local, compartilhando entre eles cada momento inesquecível do relacionamento, junto de risadinhas gostosas e olhares cúmplices.
Sam tinha o corpo apoiado na beira da cama, com um livro aberto nas mãos, mas sua atenção estava inteiramente voltada para , sua namorada. A garota estava deitada com os cabelos escuros espalhados sobre o travesseiro, olhando para o rapaz com um sorriso relaxado.
Ela amava fazer aquilo.
— Você sempre se distrai com livros quando deveria estar me dando atenção — brincou. Os olhos brilhavam com a provocação.
Ele fechou o livro, o colocando de lado, e tinha um sorriso desenhado no canto dos lábios. Se inclinou para frente, tocando o rosto da namorada com a ponta dos dedos.
— Pra ser sincero, você é muito mais interessante que qualquer livro — respondeu, beijando suavemente os lábios de , que soltou uma risadinha.
— Gosto de ouvir isso — soprou contra os lábios do rapaz. — Mas então, já pensou sobre aquele assunto?
— Hm, qual assunto? — desconversou, ainda olhando o rosto delicado da garota à sua frente.
inclinou a cabeça, respirando fundo. Sam estava desconversando outra vez. Sabia que ele estava escondendo algo, e essa era uma das raras vezes em que sentia que o namorado estava realmente distante, mesmo estando tão perto.
— Você sabe… O futuro. Sobre nós dois. Sobre o que vai acontecer com a gente — comentou, seus olhos procurando os dele com um misto de preocupação e carinho. — Parece que estamos vivendo o presente e deixando o que é importante pra depois.
Sam ficou em silêncio por um momento, seu olhar se desviando para a janela, onde a luz dourada do entardecer pintava parte da cama dos dois. O rapaz lutava internamente tentando encontrar uma maneira de explicar algo que ele mesmo não entendia.
— , eu… Acho que tem coisas na minha vida que estão fora do meu controle. Coisas que não posso explicar pra você agora.
se endireitou, o olhar ainda fixo no rapaz. Queria entender, mais do que tudo, o que se passava dentro de sua mente e por que o destino com Sam parecia tão incerto em alguns momentos.
Respirou fundo.
— Ei. Tudo bem — Alisou o rosto do namorado. Ele sorriu rapidamente. — Não tô pedindo pra você me contar tudo, mas pelo menos me deixa saber o que tá acontecendo, quando for a hora. Quero estar ao seu lado, mas não posso se você continuar se afastando.
Sam deixou os olhos caírem no rosto da namorada, o peito em uma mistura de dor e ternura. Certamente estava colocando em uma posição difícil, e a última coisa que queria era magoá-la com seu silêncio e mistérios. E, principalmente, com toda a confusão que sua família trazia.
Segurou seu rosto com as duas mãos, seus olhos encontrando os dela com uma sinceridade inexplicável.
— Acredite em mim — disse, com a voz firme. — Se sua preocupação é nosso futuro, prometo que não vou a lugar nenhum. Não importa o que esteja acontecendo, saiba que meu coração tá aqui com você. Só... Confie que estamos destinados a ficar juntos.
sentiu um alívio momentâneo ao ouvir aquelas palavras e pôde sentir os olhos arderem. Ela tocou o rosto dele, os dedos se movendo suavemente pela pele, como se tentasse gravar aquele momento na memória.
— Eu confio em você, Sam — sussurrou. — Só quero ter certeza de que não tá se afastando de mim.
Ele sorriu. O sorriso que costumava deixar derretida de todas as formas possíveis. Sam se aproximou, puxando o corpo da namorada até que pudesse sentir o calor dele mais próximo do seu.
— Nunca faria isso.
Então inclinou o rosto, buscando os lábios de com tamanha urgência. E ela não pensou duas vezes antes de responder.
As mãos do rapaz caminhavam pela pele macia da namorada, explorando cada centímetro que pudesse. A apertava e sentia como era bom ter alguém que pudesse estar ao seu lado a cada momento de sua vida.
Sam a amava, não tinha dúvidas.
segurava os cabelos escuros do rapaz, os bagunçando com a ponta de seus dedos, enquanto o puxava para mais perto. Sentir o calor do corpo dele, a força e a ternura de seus toques a fazia entender, mais do que nunca, o quanto Sam significava para ela.
Ali, no apartamento que ambos compartilhavam, nada mais importava se não fosse o toque um do outro.
Em todo lugar.
caminhava pelo campus à noite, os passos ecoando ao amassar o gramado.
Tinha em seus braços uma pilha de livros, sabendo que o peso dos volumes sendo um lembrete das tarefas e responsabilidades que ainda tinha pela frente. Havia muito o que ser feito naquele fim de semana.
Sorriu para alguns conhecidos assim que atravessou a extensão da faculdade, ansiosa para chegar ao seu apartamento. Precisava confessar que estava animada em voltar e ter Sam consigo no fim da noite.
A rotina de estudos e o tempo separados só intensificavam o quanto apreciava os momentos que passava com o namorado.
Quando finalmente abriu a porta da sala, algo estranho a faz franzir o cenho. A sensação de familiaridade e conforto parecia estar ausente. Não notou que a porta já estava entreaberta e a luz da sala apagada. adentrou um pouco mais, caminhando pelo cômodo e esperando ver Sam relaxando no sofá ou talvez à mesa, trabalhando em algo como costumava fazer com seus projetos da graduação.
Mas, ao atravessar o hall, a mesma sensação de vazio começou a se instalar. acendeu a luz, fazendo a claridade deixar o quarto mais nítido e o que viu a fez parar no meio do caminho. O apartamento estava inteiramente desordenado, deixando evidente a ausência dos pertences de Sam. A mesa estava limpa, sem o relógio que ele costumava depositar ali e os livros espalhados junto das anotações. O armário estava aberto, as gavetas vazias, e as prateleiras, antes cheias, estavam agora desocupadas.
largou os livros no chão, seu coração começando a bater mais rápido.
— Sam? — chamou, sua voz ecoou no apartamento. — Samuel? Isso não é hora pra suas brincadeirinhas bobas.
Caminhou pelo cômodo, ainda observando a cama desfeita junto das gavetas abertas.
Não havia sinal de Sam.
Desesperada, percorreu cada canto do apartamento, abrindo armários, olhando embaixo da cama e verificando o banheiro. A sensação de solidão crescia a cada minuto e sua mente começava uma tempestade inconsolável.
Quando parou novamente na sala de estar, o chão pareceu abrir em seus pés com a ficha caindo vagarosamente. Sentiu seus olhos arderem, a garganta fechando. Como se sua alma estivesse saindo do corpo aos pouquinhos.
Sam havia a deixado. Mesmo prometendo que nunca faria aquilo.
Palo Alto.
E, mesmo o céu já sendo pintado pelas cores do cair da noite, Winchester mal notava. Sua mente estava focada em outra coisa, em outro caso que havia descoberto. Não sabia exatamente o que acontecia, além dos acidentes, mortes e relatos estranhos dos moradores locais, mas algo o incomodava no fundo do peito.
Uma inquietação. Uma pontada no coração.
Respirou fundo. Suas mãos apertavam o volante com mais força do que o necessário, enquanto sua mente estava um turbilhão.
Ele se aproximava da cidade. O brilho das luzes amareladas começavam a se tornar mais evidentes e mesmo Sam tentando focar ao máximo no que possivelmente poderia estar acontecendo ali, não conseguia parar de pensar em algo específico.
Algo que havia deixado há muito tempo.
Estar de volta ao lugar em que havia passado os anos mais felizes da sua vida era algo que não esperava, mesmo sabendo que uma hora ou outra teria que encarar alguém que não cogitava ver tão cedo.
Se lembrava exatamente de como tudo costumava ser. O café onde costumava estudar. A biblioteca que o deixava focado por horas.
E ela.
Sempre ela.
Winchester suspirou, sentindo o coração esmagar só de lembrar.
Queria esquecer. Já fazia tanto tempo. Sam queria apagar aquela parte da sua vida, já que depois que foi embora, sua prioridade havia se tornado a caçada. Não tinha como ele permanecer na mesma vida de antes, terminando a graduação e ainda assim, ajudando seu irmão, Dean.
Sam conseguia se lembrar de tudo. Dos toques, dos sorrisos, dos abraços.
Aquilo acabava com ele.
Se lembrou, principalmente, da promessa que havia feito.
E algumas horas depois, desapareceu.
Foi melhor pra ela — pensou.
O que mais doía não era saber que podia se esforçar e fazer dar certo as duas coisas. Poderia tentar conciliar o trabalho com Dean e os períodos da faculdade. Poderia explicar para ela, que era uma coisa de família e alguns fins de semana ficaria fora.
Poderia?
Ele só colocaria a vida da garota em risco. Ela poderia até…
Morrer — sua mente sussurrou outra vez.
O motor do carro trouxe Winchester de volta à realidade. Só então quando percebeu que já estava dentro da cidade, passando por alguns lugares familiares, que seu estômago revirou. Sam lembrava de cada um deles.
Desviou o olhar para o medidor EMF, como se aquilo o fizesse esquecer tudo o que pensava. Tinha certeza que logo o aparelho começaria a apitar quando chegasse ao destino.
Suspirou. Winchester estava ali para salvar pessoas, não para reviver memórias. Ouviu o celular tocando logo acima do painel do carro. Esticou o braço, pegando o aparelho e viu o nome do irmão brilhar na tela.
Não demorou a atender.
— Que foi, Dean?
— Oi, Dean, como que você tá? Sua caçada tá indo bem? Nada disso? — respondeu com sarcasmo, do outro lado. Sam rolou os olhos. — Cadê sua gentileza, Sammy?
— Eu tô ocupado.
— Ocupado revivendo os dias em Stanford? — provocou. —Já deu uma passada na biblioteca? Quem sabe não encontra algum fantasma revoltado porque não achou o livro que queria.
— Dean…
Sam resmungou, desviando o olhar da estrada brevemente. Sabia que Dean faria qualquer piadinha só por ele estar de volta à Palo Alto.
— Tá bom, vou pegar leve — riu do outro lado. — O que encontrou aí?
— Acabei de chegar. Tô indo pro centro da cidade que parece ser o foco das ocorrências. Três aparições confirmadas nos últimos dois meses e um ataque violento na semana passada.
— E você acha que é um espírito?
Sam manteve os olhos na estrada, a mão firme no volante enquanto desviava de um ciclista.
— Ainda não sei. Os relatos são um pouco inconscientes, mas é nítido que tem algo fora do lugar. Algumas pessoas falaram de uma energia sufocante. Não é só barulho ou objetos se movendo. É mais pesado que isso.
— Mais pesado? — o mais velho repetiu, claramente cético. — Não sei, não. Pode ser só um rato gigante. Não um espírito maligno.
E Dean continuava com suas gracinhas, o que só tirava Sam ainda mais do sério.
— Não é só um rato, Dean! — seu tom de voz aumentou. — As pessoas estão sendo atacadas e uma delas quase morreu. Ainda acha que é um rato?
— Tá, tá. E essa casa, qual a história?
Dean estava mais sério do outro lado.
Sam organizou os pensamentos.
— Pertencia a uma família nos anos 80. O pai desapareceu sem deixar rastro. A mãe e os filhos se mudaram logo depois. Desde então ninguém consegue ficar muito tempo lá. Escutam vozes, passos, portas batendo...
— Parece clichê.
— Tem mais. Algumas das testemunhas descreveram sentir que estavam sendo sufocadas, como se algo estivesse segurando suas gargantas. Uma mulher disse que viu uma figura escura, mas quando tentou se mexer, ficou completamente paralisada.
Do outro lado da linha, Dean ficou em silêncio por alguns segundos antes de falar novamente.
— É. Isso soa menos como um rato.
— Exato — Sam suspirou. — Vou checar a casa primeiro e ver o que consigo descobrir.
— E vai fazer isso sozinho? — Dean questionou, irônico. No fundo estava preocupado com o irmão sozinho em outro lugar.
— Eu consigo lidar, Dean.
— Claro. Olha, qualquer coisa estranha você me liga. Não quero ter que te arrastar pra fora dessa cidade com um saco de sal e água benta.
Sam sorriu, minimamente.
— Não vai precisar disso.
— Espero mesmo que não — respondeu. O som do Impala roncava no fundo. — Fica ligado, Sammy.
Antes que Sam pudesse responder algo, a ligação foi encerrada. Jogou o celular no banco do carona e apertou os dedos ao redor do volante outra vez, decidido a descobrir tudo o que acontecia logo.
Até porque, quanto antes o fizesse, mais rápido estaria longe dali.
A casa parecia fria como de costume para .
Ela apertou o cardigan no próprio corpo, como se aquilo fosse esquentar um pouquinho mais, enquanto descia as escadas da casa. O único barulho ali era o de seus passos batendo contra o piso de madeira.
Não era exatamente assustador para ela, apenas se sentia incomodada pela mesma sensação de sempre, como se estivesse sendo observada.
Foi em direção à cozinha, notando que o relógio marcava quase meia-noite. Pegou o copo d’água na geladeira e ignorou o silêncio ensurdecedor que fazia.
O barulho da porta da geladeira fechando até parecia alto demais.
Colocou o copo na pia e se virou para voltar ao seu quarto, mas o barulho do telefone tocando quase a fez gritar pelo susto.
O pegou, atendendo.
— Alô? Ninguém falou nada. A linha estava muda.
A mulher franziu o cenho, balançando a cabeça. Não acreditava que estavam passando trotes uma hora daquelas. Desligou o telefone e o colocou de volta no suporte, tentando ignorar o arrepio na espinha.
— Fala sério.
Respirou fundo, apagando a luz e se virou para subir as escadas, mas parou no segundo seguinte quando ouviu outro som. Dessa vez, parecia um leve rangido vindo da sala.
Seus olhos foram automaticamente para a porta da frente.
Ela estava entreaberta.
— Mas o que..?
tinha certeza absoluta que havia trancado todas as portas e janelas da casa antes de subir para o quarto. Deu um passo hesitante em direção à porta, sentindo os músculos do corpo ficarem tensos com cada movimento que fazia.
Precisava admitir que tremia por dentro.
Quando chegou perto, fechou a porta devagar, girando a tranca até ouvir o clique.
Mas, assim que soltou a maçaneta, ouviu outro som, dessa vez mais alto que o anterior.
Eram passos vindo do andar de cima.
Seus olhos arregalaram. Sentiu o corpo congelar ali mesmo.
— Tem alguém aí? — perguntou. Sua voz estava trêmula e levemente embargada. Sentia o peito subir e descer. Era nítido o quão apavorada estava.
Não houve resposta. Os passos continuavam e paravam. Como se alguém andasse de um lado para o outro.
Fechou os olhos com força, pensando seriamente no que faria. Se aproximou da lareira, pegando o metal do kit de limpeza o mais rápido que conseguiu. Precisava se defender sabe-se lá do que era aquilo.
Subiu as escadas vagarosamente, olhando para todos os lados.
segurava o atiçador da lareira com tanta força que os dedos estavam vermelhos. Quando chegou ao topo, o silêncio ficou ainda mais presente e ela podia jurar ouvir os batimentos acelerados de seu coração.
Observou o corredor escuro e a única luz ali era a do seu quarto, que ela havia deixado acesa quando desceu.
Notou a porta também entreaberta. Mas ao contrário da porta da sala, a do seu quarto balançava suavemente.
— Quem tá aí?!
Perguntou novamente, tentando manter o tom de voz firme. Mas quase falhou no final.
Se aproximou um pouco mais, com seus pés descalços tocando o piso frio.
Ao se aproximar do quarto, ouviu um murmúrio como se alguém estivesse falando baixo, mas as palavras eram emboladas, como se viessem de muito longe.
empurrou a porta do quarto com a ponta do atiçador, o coração ainda disparado. O cômodo parecia normal; a cama com o lençol desarrumado, a janela trancada, tudo exatamente como havia deixado.
Mas alguma coisa estava diferente.
sentiu o corpo arrepiar e teve certeza de que não estava sozinha ali.
Segundos depois, o abajur ao lado da cama piscou algumas vezes até apagar totalmente. Ela engoliu em seco, girando o corpo para olhar ao redor, mas não viu nada. Só sentiu.
Era como uma presença.
O som de risadas infantis encheu o quarto, fazendo a mulher paralisar.
Girou para trás, mas não tinha ninguém. Sentiu o atiçador tremer nas suas mãos.
— Isso não… Isso não pode ser real — murmurou para si mesma, os olhos já lacrimejando.
As risadas cessaram e um estrondo ecoou pela casa, vindo do andar debaixo. gritou de susto, andando para trás até bater na parede.
Foi então que sentiu.
Era algo gelado, como uma mão invisível, tocando seu pescoço. Girou o corpo rapidamente, mas não tinha nada, nem ninguém.
E quando tentou sair do quarto, sentiu um empurrão. Mas não era um empurrão fraco, que faria ela cair para trás. Havia sido violento, tanto que a lançou contra a cama de casal.
gritou desesperada, tentando resistir ao que quer que fosse, mas era inútil.
Tentou se levantar a todo custo, se debatendo, até que a mesma coisa gelada tocasse seus tornozelos, a prendendo ali.
— Me solta! — gritou mais uma vez, chutando e arranhando o ar.
A força em suas pernas só aumentava, agora, a puxando para fora da cama.
segurou o colchão, mesmo sendo em vão.
Precisava gritar outra vez, alguém tinha que escutar. E quando tomou ar para começar, tudo parou. Seu corpo caiu no chão amadeirado e a luz do abajur acendeu novamente.
O ar gelado havia sumido.
Percebeu o cômodo, mais uma vez, em silêncio.
ficou ali sentada no chão, estática. Tremia dos pés à cabeça, paralisada. Não conseguia processar o que havia acabado de acontecer.
Só teve certeza que precisava sair dali o quanto antes.
queria chorar. Queria gritar. Pedir por ajuda.
Ela se arrastava pelo chão do corredor, tentando se levantar a todo custo. Seus pés estavam machucados, os tornozelos inchados. A mulher não fazia ideia do que era tudo aquilo, mas tinha certeza de uma única coisa.
Queria matá-la.
Engoliu em seco quando sentiu o vento gélido outra vez. Ela sentiu a sensação mudar.
Sentiu o ar da casa ficar mais pesado que o normal, como se a qualquer momento fosse sufocá-la.
Se arrastou por mais alguns metros, já com sua visão turva pelo desespero e as lágrimas presas ali.
Ela respirou com dificuldade, tentando ignorar a dor que sentia em seus pés.
Não sabia por mais quanto tempo aguentaria.
Sentia seus braços tremendo pelo cansaço, o suor frio escorrendo por sua testa. Sentia um pânico tão grande que começava a duvidar se realmente sobreviveria.
Algo gelado encostou em suas costas. paralisou outra vez.
Ela podia sentir claramente a presença no mesmo lugar. Parecia que algo estava a observando, só esperando o momento certo para atacar.
— Por favor... — sua voz falhou. já estava sem força. — Me deixa em paz, por favor…
Tentou se arrastar um pouco mais, mas antes que conseguisse, a pressão nas suas costas se intensificou. Sentiu seu corpo ser levantado minimamente e, sem que percebesse, já estava chorando.
Ela seria lançada para longe outra vez.
tentou desesperadamente se segurar no chão. Se sentia inteiramente vulnerável.
— Não…
Murmurou, tentando se concentrar em segurar em qualquer coisa que visse pela frente. Mas não havia nada que pudesse fazer. Não tinha nada para segurar.
Fechou os olhos, esperando pelo pior. Mas, em uma fração de segundos, a pressão que a levantava, vacilou. Como se estivesse enfraquecendo.
E o corpo de despencou no chão.
Soltou um urro de dor, a pancada havia sido grande.
— Só me deixa… Em paz — sussurrou, a visão ficando turva aos poucos.
Ouviu mais passos. Não havia ninguém para ajudá-la. Teve quase certeza que aquele seria seu fim.
Foi quando o som se tornou mais presente. Mais… Humano.
sabia que estava fraca. Tinha plena convicção disso. E não teve dúvidas de que, muito provavelmente, estava alucinando quando avistou alguém que ela costumava conhecer bem.
Alguém que havia sido o amor de sua vida.
— Deixa ela em paz!
Escutou, quase perdendo os sentidos. A voz não tinha como ser a de outra pessoa; o tom era autoritário, apesar de apreensivo.
arfou. Não podia ser ele.
Não tinha como ser ele.
De relance, o viu. Os cabelos maiores, a barba por fazer. Quase jurou ter visto o medo estampado em seus olhos.
não levou muito tempo o observando. A entidade voltou a erguer outra vez como uma boneca. Winchester correu em sua direção.
— Exorcizo te, maleficum!
Gritou, apontando uma cruz de madeira pequena, em direção ao espírito invisível. A pressão sobre a mulher diminiu instantaneamente.
O que quer que estivesse segurando, soltou. E Sam, quando viu sua ex-namorada da época da faculdade despencar de uma altura considerável, correu em sua direção.
Desesperado.
Imensamente preocupado.
— ? ! Ei, fica acordada. Fica aqui comigo!
A voz de Sam Winchester estava distante, por mais que ela quisesse manter os olhos abertos a todo custo. precisava ver Sam com clareza.
Precisava acreditar que ele estava ali.
Sua cabeça latejava como nunca latejou na vida. E, sentindo a escuridão tomar conta de si, ouviu a última frase ao longe antes de apagar.
— Não posso perder você outra vez.
Medidor EMF — O Medidor EMF (Eletromagnetic Field Meter) é um dispositivo usado para detectar variações nos campos eletromagnéticos, frequentemente associado à presença de atividade paranormal, como espíritos ou entidades sobrenaturais. Na ficção, é usado para identificar locais ou fenômenos com fortes presenças espirituais.
No corpo inteiro.
Costelas, braços, tornozelos. Como se tivesse sido atropelada por um caminhão trezentas vezes seguidas. Mas, naquele caso, era por algo que ela ao menos sabia explicar.
Abriu os olhos devagar. Sua visão ainda estava turva e o cômodo quase escuro só dificultava ainda mais conseguir enxergar alguma coisa. Tudo parecia um borrão.
Fechou os olhos por alguns segundos e piscou algumas vezes após, tentando focar em qualquer que fosse a coisa. Sua cabeça latejava, pesada demais. A garganta estava seca, como se não tivesse falado há dias.
Tentou se mexer, mas só conseguiu soltar um gemido de dor. Tudo no seu corpo reclamava. Com dificuldade, apoiou os braços na cama e se sentou, ainda confusa.
Só então se deu conta que o quarto em que estava não era o seu.
Paredes brancas, móveis simples, uma mesinha de cabeceira com uma garrafa de água pela metade.
— O que..? — murmurou.
Sua cabeça latejou e levou uma das mãos até ela, massageando as têmporas com cuidado.
O que raios havia acontecido?
Ela só se lembrava do pânico, da presença, do frio. A dor no corpo e depois, o chão.
Seus olhos percorreram o cômodo outra vez. Aquele definitivamente não era o seu quarto.
fechou os olhos outra vez, forçando sua mente a se lembrar da noite anterior. E então, alguns flashes começaram a aparecer.
O espírito.
A queda.
Os passos.
E a voz.
Deixa ela em paz!
Aquela voz.
Seu coração acelerou. não estava imaginando as coisas. Era a voz de Sam. Ela reconheceria em qualquer lugar. Não tinha como esquecer.
Sentiu sua garganta apertar. Tentou se levantar, mas não conseguiu; a dor era mais forte do que qualquer outra coisa. O máximo que conseguiu foi se sentar na beirada da cama.
Seus pés tocaram a madeira fria do chão e o coração acelerou outra vez só de lembrar que Sam estava ali. Não era possível.
Ouviu passos do lado de fora e prendeu a respiração automaticamente. A voz era baixa, familiar demais.
Não tinha como ser outra pessoa. O Sam que ela não via há anos. O mesmo Sam que desapareceu da sua vida sem dizer nada.
— Eu sei, Dean, mas ela ainda tá dormindo — dizia, quase sussurrando. — Não quero assustar quando ela acordar. Não é assim. Foi demais pra uma noite só.
O coração de quase parou.
A porta se abriu lentamente, rangendo de leve. Sam entrou distraído, com o celular encostado na orelha e os olhos baixos. Sequer percebendo a mulher acordada.
Mas, quando ergueu o rosto, notando parada, o encarando, parou exatamente onde estava.
— A gente se fala depois, Dean — murmurou. Desligou o telefone sem pensar duas vezes e deixou os olhos caírem sobre a mulher sentada, fazendo seu corpo esquentar de uma forma que ele ao menos conseguia se lembrar.
Por meio segundo, nenhum dos dois respirou.
sentiu o coração bater tão alto que achou que ele pudesse ouvir. A mulher sentia a garganta doer, os olhos arderem e sua mente formulava um milhão de perguntas.
Sam deu um passo hesitante à frente. Era surreal vê-la outra vez depois de tanto tempo. Depois de simplesmente ter dado as contas e deixado para trás. Ele nunca se perdoaria.
Ela engoliu em seco. Continuou ali parada, sem acreditar no que via.
permaneceu quieta, como se qualquer movimento pudesse fazer a imagem de Sam sumir. Como se ele fosse desaparecer de novo.
Mas não sumiu.
Aos poucos, sem ter o menor controle do seu corpo, se levantou da cama com dificuldade, sentindo as pontadas das dores em cada pedacinho de si. Mas, nada era mais forte do que o choque de ter Sam Winchester parado bem na sua frente.
E então, parou de frente para ele. Perto o suficiente para ouvir a respiração pesada que Sam tentava controlar. Para sentir o cheiro que conhecia tão bem.
Perto o suficiente para ver o quão machucado ele também estava.
Levou a mão trêmula no rosto do rapaz, como se ainda precisasse tocar para acreditar na sua presença. Seus dedos deslizaram pela barba malfeita, pela pele morna da bochecha.
Sam fechou os olhos com o toque, sentindo o corpo estremecer por alguns segundos.
Ele havia sentido tanta falta de .
E foi aí que o tapa veio.
Rápido. Quente. Direto no rosto.
O som ecoou pelo quarto que estavam e Winchester apenas aceitou.
Fechou os olhos mais uma vez e assentiu mais para si mesmo do que para ela, como se deixasse transparecer o quanto merecia aquilo.
sentiu uma lágrima escorrer pelo rosto.
— Você sumiu — sua voz saiu baixa, embargada. — Prometeu que nunca faria isso. E fez. Simplesmente sumiu.
Ele ergueu o olhar, se sentindo mais culpado do que nunca.
— Eu sei.
Foi só o que conseguiu dizer. Seu coração queimava. Ardia. Quase entrando em combustão. Sua única vontade era a de abraçar e não soltar nunca mais.
bufou com sua resposta. Curta, seca e insuficiente.
Deu um passo para trás, como se precisasse de espaço para não surtar de vez.
— Eu sei? É isso o que tem pra me dizer? Depois de todos esses anos, Sam? — rebateu. Seu tom de voz agora estava mais alto.
Ele abriu a boca, mas não disse nada.
— Fiquei noites em claro tentando entender o que aconteceu — continuou, com a respiração falha. — Eu te procurei, Sam. Eu pensei que… Pensei que você tinha morrido. Sumiu da minha vida como se eu nunca tivesse existido. Como se tudo o que a gente viveu não tivesse acontecido. Foi um erro pra você? Foi isso?
Sam fechou os olhos. Ele queria mais do que tudo consertar o que havia feito. Queria voltar atrás, mas não podia. Queria ter na sua vida, mas não podia.
O importante naquele momento era resolver a situação que se encontravam. Era lidar com o que acontecia na casa. Era fazer ficar em segurança. Viva.
— Eu sei que devia ter dito alguma coisa. Que devia ter explicado — Sam se aproximou com a voz baixa. — Mas agora não é hora, .
— Não me chama assim — a mulher o cortou, passando uma das mãos no rosto. Parecia transtornada. — Não vem dar uma de herói agora só porque apareceu no meio da porra de um ataque sobrenatural. Ou seja lá o que quer que tenha sido aquilo!
Ele suspirou. Os cabelos de Sam estavam levemente bagunçados e sua bochecha, acertada pelo tapa de , ainda estava minimamente avermelhada.
— Eu tô aqui pra te proteger. Foi por isso que voltei pra cidade. Só não fazia ideia de que era você… — mordiscou os lábios, desviando o olhar brevemente. — Se soubesse, teria vindo mais rápido. Teria feito tudo diferente.
virou o rosto por um instante, tentando segurar o choro outra vez. Tinha que confessar que estava exausta. Fisicamente e emocionalmente. E lidar com Sam naquela altura só dificultava tudo.
— E então? Vai sumir de novo assim que tudo isso acabar?
Ele balançou a cabeça devagar. Se aproximou, sem pressa.
— Primeiro precisamos descobrir o que tá acontecendo na sua casa — comentou, firme. Sua seriedade havia voltado, mesmo que a voz vacilasse vez ou outra. — Eu te devo todas as respostas, . Mas antes preciso garantir que você vai ficar viva pra ouvir cada uma delas.
o encarou por um momento considerável. Seu peito subia e descia rápido pelo que acontecia ali. A verdade era que a mulher se dividia muito entre a vontade de estapeá-lo até não conseguir mais e a de correr em sua direção, se jogando em seus braços.
— Isso não vai ficar assim.
— Eu sei — respondeu, deixando os olhos claros gravarem cada detalhe do rosto de ; a mulher que era o grande amor da sua vida. — E nem quero que fique.
O carro parou em frente à casa.
O barulho do motor sendo desligado fez o silêncio ficar um pouco mais evidente do que antes, fazendo com que um leve incômodo crescesse no peito de pela situação.
Por estar ali, ao lado de Sam. E por estar de volta à sua casa, onde quase havia sido morta. E sabe-se lá pelo que.
Ela apertou os dedos contra o jeans da calça, como se aquilo de alguma forma acalmasse a turbulência que se encontrava dentro de si. E não só pelos acontecimentos da noite anterior, mas também por ter o perfume de Sam Winchester impregnando cada espaço do seu corpo, como ela bem se lembrava.
Sam continuava sentado dentro do carro, ao seu lado. Permanecia quieto.
Desde que haviam saído daquele quarto de motel, não haviam trocado mais do que palavras necessárias. Para , era melhor o silêncio do que qualquer desculpa que ele pudesse inventar. Ela não queria ouvir mais mentiras, nem explicações esfarrapadas.
Só queria tempo. Tempo para absorver o que acontecia e, de quebra, deixar sua ficha cair de que Sam realmente estava ali.
Olhou para a casa outra vez. E, com isso, sentiu o corpo doer de imediato. Só de se lembrar de tudo o que havia acontecido ali. De ser lançada de um lado para o outro. De quase…
Morrer.
soltou o ar que segurava, colocando uma das mãos na porta do carro, preparada para descer de vez. Mas então sentiu os dedos mornos de Sam de encontro a sua pele. O olhou vagarosamente.
— Você não tem que ir, . Posso cuidar disso — mencionou, pousando os olhos nela. engoliu em seco.
— Tenho sim. Se eu não entrar e encarar isso, vou passar o resto da vida com medo dessa casa — murmurou, desviando seu olhar. Era torturante demais encarar os olhos verdes de Winchester; os olhos que ela tanto era apaixonada. — A casa da minha família.
Sam não respondeu. E nem esperou que o fizesse.
Desceu do carro, batendo a porta e não olhou para trás até que subisse os pequenos degraus, e se encontrasse em frente à porta de sua casa. Quando girou a maçaneta, seu corpo estremeceu.
Foi impossível não sentir o receio lhe invadindo. O medo era sufocante.
Se lembrou da casa escura, de seus gritos, a pressão no peito e a dor. Todo o desespero que havia sentido, voltava aos poucos.
adentrou um pouco mais e sua respiração ficou um pouco mais curta. Sam entrou logo atrás, encostando a porta com certa delicadeza. Como se qualquer passo em falso pudesse colocar tudo a perder. Mais do que já estava perdido.
— Se lembra do que aconteceu?
— Lembro. Da dor, do medo. Daquela… Coisa me prendendo — assentiu, falando mais baixo que o normal. — E de você.
Sam virou o rosto em direção à ela, mas não fez o mesmo. Queria evitá-lo a todo custo.
Ela cruzou os braços, sentindo um arrepio esquisito na espinha.
— Quase morri aqui dentro. Sozinha. Não faço ideia do que aconteceu, só…
E sua frase morreu aos poucos. Parecia que tentava achar alguma explicação para o acontecido, mas não tinha nada.
Nada bom o suficiente para explicar.
abraçou o próprio corpo, como se aquilo a confortasse de algum jeito.
Sam respirou fundo e pressionou os lábios, pensando se deveria falar algo. Mas, sabendo que ainda estaria confusa com o acontecido, resolveu se calar, pegando a lanterna pequena que tinha no bolso do jeans.
O feixe de luz iluminou o rodapé, do lado da estante antiga e bem conservada.
Winchester notou uma faixa de verniz diferente, bem mal disfarçado.
— Aqui — disse, se agachando. Passou a ponta do dedo pelo lugar, mostrando para . — Mexeram nisso.
— Foi reformado quando eu era criança — a mulher murmurou, encarando a madeira. — Meu avô tinha mandado trocar a porta e o rodapé da sala.
Sam forçou devagar e o rodapé cedeu. Fácil demais.
O que deixava tudo ainda mais estranho.
Quando a madeira bateu no chão, levantando uma poeira mínima, junto dela caiu um envelope marrom, desbotado. Tinha um grampo torto.
Letras escritas à lápis.
C.P., 1979.
O estômago de revirou.
— C. P? — Sam questionou.
— Clara Parker.
— Ela era parente ou…
— Irmã da minha avó — afirmou, desviando o olhar. Clara havia sumido, como contavam em sua família. Não conseguia entender a relação de sua tia-avó com o que acontecia na casa.
Ele balançou a cabeça, abrindo o envelope. Tinham recortes de jornais; uma foto pequena, com a parede de fundo da mesma sala que estavam, a mesma estante e uma mulher de cabelo preso.
Tinha um sorriso quase apagado no rosto.
— “Jovem desaparece após discussão em casa da família. Polícia descarta violência.” — Sam leu, em voz baixa. — “Vizinhos relatam barulho na madrugada. Família não comenta.”
O rosto de esquentou.
— Sempre diziam que ela tinha ido embora — sentiu a mandíbula travar. — Só que depois nunca mais falaram disso. E quando digo nunca, é… Nunca mesmo.
— Nós podemos pesquisar e—
Um estalo alto impediu Sam de continuar. Ele franziu o cenho, olhando ao redor, como se a qualquer momento algo pudesse atacá-los.
Se levantou e, por impulso, aproximou o corpo de .
— Vou dar uma olhada — comentou, olhando para a mulher brevemente. — Fica atrás de mim, ok?
Ela assentiu. Não era como se pudesse fazer o contrário.
Precisava admitir que estava tão assustada quanto na noite anterior.
Os dois saíram do cômodo juntos, seguindo até o corredor. Foi aí que a lâmpada piscou duas vezes e apagou.
estranhou de imediato.
— Essa lâmpada é nova. Troquei essa semana.
— Não é a parte elétrica, — respondeu, olhando as paredes. — Escuta só.
Ouvir seu apelido saindo da boca de Sam aqueceu o coração de sem ela ao menos perceber. Parecia certo e seguro naquele momento.
Por um instante, quis esquecer todo o passado e ser de Sam Winchester outra vez.
Resolveu focar a atenção no que acontecia. Além do barulho da respiração dos dois, algo se arrastava no sótão. E ia descendo pela parede até um ponto específico; um quadro antigo de seus avós.
— Segura aqui — Sam pediu. pegou a lanterna com as mãos minimamente trêmulas, mas nítidas a ponto que ele pudesse notar. E Winchester realmente notou.
Virou o corpo em direção à ela, deixando um sorriso quase imperceptível aparecer.
— Ei, tá tudo bem. Só fica comigo aqui, ok? Não vou a lugar algum.
quis rir, irônica, com a última frase. Até parece que acreditaria outra vez.
Mas, antes de dizer qualquer coisa, observou o quadro tremer. Bem leve, mas tremeu. Como se alguém tivesse acabado de tocá-lo.
— Sam…
— O que foi? — perguntou, baixo.
— Tem alguma coisa errada.
— Mas o que—
Nenhum dos dois teve tempo de fazer alguma coisa. O quadro voou da parede, direto no rosto de Winchester. Sam girou o próprio corpo e puxou consigo, pela cintura. Por reflexo, encostou o corpo da mulher na parede e colou o seu ao dela.
Faria de tudo para protegê-la. Independente do que estivesse acontecendo ali.
O quadro bateu forte na parede, espalhando vidro para todos os lados. Os estilhaços voaram e um alcançou a bochecha de Sam, de raspão.
Outra lâmina alcançou a lateral de sua mão, em um rasgo maior. Winchester conseguiu sentir o sangue escorrer quente.
— Sam! — prendeu a própria respiração assim que viu o machucado no rosto do rapaz. A vontade era de tocar, preocupada com o que havia acontecido.
— Eu tô bem. Tá tudo bem.
Mas ainda não estava.
sentiu o ar ficar gelado, como se tivessem aberto alguma janela. E logo depois um aperto invisível no tórax, como se estivesse faltando ar aos poucos.
— Aqui tá… Gelado.
Sam ergueu o olhar, sabendo exatamente o que acontecia ali. Se demorassem um pouco mais, as coisas poderiam ficar mais feias do que já estavam.
Precisavam sair dali o quanto antes.
— Merda.
O alvo ali era de alguma forma.
Foi então que notou a lanterna na mão da mulher, sendo empurrada. Como se alguém quisesse tirar dali à força.
— O que é isso?! — murmurou.
Sam tentou puxar de volta, mas a força do que quer que fosse aquilo, era muito maior que a sua. Puxou um pouco mais e, então, a lanterna havia ficado leve.
Seu braço soltou com tamanha rapidez. E, no segundo em que seu corpo estava quase abraçado à , foi empurrado de volta com mais força ainda.
— Sam! — gritou outra vez.
Winchester bateu o ombro contra à cristaleira de madeira e pôde ouvir o estalo, seguido da dor quente irradiando.
Mordeu os lábios, segurando a dor. Sua mão ainda sangrava, com um provável caco de vidro enfiado ali.
— , preciso que você pegue qualquer coisa que tenha ferro na bolsa que eu trouxe. Ali! — apontou, tentando se desvencilhar da aparição que o prendia à parede. — Agora!
Ela correu até a bolsa, com as mãos e pés trêmulos. Vasculhou às cegas; fita isolante, corda, chave inglesa… E então encostou os dedos em algo frio e gelado.
— Achei! — gritou. Puxou a barra que Sam muito provavelmente tinha improvisado e levantou no ar.
Correu em direção à Winchester e o entregou. Ele fechou os dedos ao redor do objeto, virou o corpo no impulso e bateu no vazio à altura do peito.
O som foi seco e conseguiu sentir a pressão em cima de si mais leve.
— Você tem que sair daqui. Agora! — Winchester gritou de volta.
franziu o cenho.
— Não sem você!
— Agora, ! Sai da casa! — rugiu, batendo no ar com a barra de ferro outra vez. Ela balançou a cabeça, achando uma loucura o que via à sua frente.
Sam golpeando o ar. E o ar o atacando de volta.
deu um passo para trás, como se ponderasse o que fazer. E sem pensar muito, correu até Sam, o puxando com força pelo braço.
Ele a encarou por meio segundo, como se perguntasse o que raios ela estava fazendo.
— Você não vai ficar para trás.
Disse, o encarando.
Sam sentiu o peito aquecer. Deixou a barra para trás e correu com pelo corredor, até a porta de saída.
A puxou com força e o corpo dos dois foi impulsionado para fora. Parecia até mesmo que alguém tinha os empurrado.
Ele segurou com delicadeza, assegurando que ela não caísse, mas a mulher sequer percebeu. Parecia estática demais ainda encarando a casa e repassando o que havia acabado de acontecer em sua mente.
A respiração de ambos era irregular. Mas aquilo, naquela hora, não importava.
Sam Winchester só conseguia pensar em uma única coisa.
Você não vai ficar para trás.
Winchester desligou o motor do carro, ficando em silêncio, assim como .
O letreiro colorido do motel piscava vez ou outra, refletindo contra o para-brisa e aquilo parecia deixar o silêncio ainda mais evidente dentro do veículo. Nenhum dos dois conseguia formular algo decente para falar; o evento anterior ainda rodopiava na cabeça, principalmente, de .
— Você tá bem? — Sam perguntou, quase em um sussurro.
Ela piscou algumas vezes, respirando fundo.
— Eu tô viva — assentiu, encarando o nada. — E você tá sangrando.
Seus olhos seguiram até a mão de Sam e, logo depois, para o rosto dele. Sam olhou o próprio machucado e riu sem qualquer humor.
— Não é nada demais. Já tive piores.
assentiu, retirando o cinto. Mas não abriu a porta. Ela queria respostas, mais do que tudo. Respostas sobre tudo.
Principalmente sobre eles.
— Aquilo na casa… — começou, baixinho. Então o olhou nos olhos. — O que foi aquilo?
Ele encostou a cabeça no encosto e ficou alguns segundos em silêncio. Seus olhos verdes encaravam o teto do carro, mas sua mente tentava formular da melhor forma como começar a contar.
— Aquilo foi a casa cobrando uma dívida antiga — mencionou. — Alguém da sua família sofreu e… E agora quer vingança.
sentiu o coração chacoalhar dentro do peito.
— Ok. Isso é loucura. Como alguém que nem tá mais aqui quer vingança? Isso… Isso não faz o menor sentido.
Winchester virou para o lado, analisando o rosto de . Parecia perdida em seus pensamentos, procurando uma solução. Os olhos brilhantes da mulher buscavam o nada, seus cabelos estavam um pouco bagunçados e as bochechas rosadas.
Exatamente como ele costumava se lembrar. Os detalhes que era apaixonado.
— Vai fazer. Vou te explicar tudo — disse, suspirando. — Não vou te deixar no escuro dessa vez.
— Igual como fez antes?
— …
Ela engoliu em seco, ainda olhando para o rosto de Sam. Tudo o que queria era que ele fosse honesto, que a fizesse entender o que aconteceu.
— Você não vai me contar porquê foi embora? — perguntou. A voz da mulher quase havia falhado. Sua garganta parecia ter uma pedra enorme.
Sam ficou a olhando, sentindo o coração descompassar só de ver a expressão decepcionada de .
— Fui embora justamente pra não te colocar em perigo — soltou, de uma vez por todas. Ela ergueu o rosto. — Justamente pra não acontecer o que aconteceu na noite passada e hoje. Essas coisas me perseguem, . Porque acha que fui aparecer aqui depois de tanto tempo?
— Eu não sei. Eu…
respirou fundo, deixando o corpo recostar no banco.
— Não podia perder você.
— Mas não tinha que decidir por mim, Sam — mencionou. — Você podia ter me contado. Eu iria com você, eu te ajudaria, eu…
— E esse era o maior problema! — ele levou uma das mãos ao volante, o apertando. Abaixou a cabeça. — Tem noção de como eu ficaria se você simplesmente morresse em uma dessas caçadas loucas da minha vida? Se eu perdesse você pra sempre?
— E foi mais fácil me deixar pra trás?! — rebateu, no mesmo tom. Agora, seu coração pulsava em nervosismo. — Me deixar sem ao menos dizer se estava vivo? Sem ao menos ter a decência de terminar comigo?
— Nunca quis terminar com você.
— Teria sido muito melhor se tivesse terminado — disse, entre os dentes. Ajeitou o corpo no banco, já querendo sair dali o mais rápido possível. — De qualquer forma, não quero saber das suas desculpas. Vou ajudar a resolver o que quer que esteja acontecendo naquela casa.
— …
— Não fala mais nada. Pelo menos por agora. Só… — pressionou os lábios, saindo do carro. O olhou. — Só arruma atadura e algo pra desinfetar seus machucados.
— Não se preocupe com isso. Dou um jeito.
Levantou as mãos, tentando dar um sorrisinho.
O mesmo, no entanto, fez sua bochecha doer. rolou os olhos.
— Cala a boca, Samuel — e então bateu a porta.
Quando Sam a viu entrando no quarto, o deixando para trás, sentiu o corpo quase ceder no banco. Sua cabeça parecia explodir, não só por ter levado uma surra de um fantasma, mas por todas as dúvidas e arrependimentos que pairavam em sua mente.
Samuel.
A voz de ecoou em sua mente.
Céus, ele ainda amava aquela mulher como nunca.
E precisava, mais do que tudo, mantê-la protegida e em segurança.


