I
O cansaço tomou conta do corpo de assim que a mulher colocou os pés no Aeroporto Internacional de Roma.
Sentiu o calor característico da cidade a envolvendo quando pisou fora do portão de embarque, fazendo uma careta surgir no seu rosto enquanto empurrava o óculos de sol para cima do nariz.
não gostava do clima quente. Preferia mil vezes um sobretudo nas temperaturas baixas de sua cidade natal, Manchester.
Continuou a arrastar as malas, só então se dando conta de toda agitação que se encontrava na porta de saída do lugar; milhares de turistas, assim como ela, demonstravam sua ansiedade e animação em conhecer a cidade.
O último, sendo contrário para .
Sua única ansiedade e animação era a de estar logo no hotel. Enquanto observava todas as pessoas ao redor, seu olhar capturava cada movimento, cada momento, de qualquer que fosse a pessoa que passava por si. Cada viagem a trabalho era uma oportunidade perfeita de explorar e capturar a essência de um lugar através de fotos. amava o que fazia, sem nem mesmo hesitar. O peso da câmera pendurada na bolsa que carregava era reconfortante; não era só uma ferramenta de trabalho, mas quase uma extensão de si mesma. Os rostos desconhecidos no aeroporto se tornavam alvos fáceis de suas fotografias. sempre se perguntava sobre as histórias que cada pessoa carregava, os momentos que poderiam ser congelados no tempo e as expressões que captavam a emoção de estar em Roma.
Suspirou. Sua profissão a deixava em êxtase.
As vozes de June e Arthur a trouxe para a realidade. Os dois, além de serem seus colegas de trabalho, formavam um casal para lá de apaixonado. June, a loira dos cabelos esvoaçantes e ondulados, uma romântica inteiramente incurável. E Arthur, o moreno sorridente que deixava seu entusiasmo a cada lugar que passava com sua namorada.
— Você só pode estar brincando que vai continuar com esse olhar entediado, — June exclamou, ajeitando a bolsa nos ombros minúsculos. — Nós estamos em Roma e mesmo a trabalho, esse lugar é perfeito para encontrar amor.
A animação da mulher era perceptível.
rolou os olhos.
— Claro. Porque é tão fácil encontrar o amor quanto tirar uma foto perfeita — soltou, irônica.
Ouviu a risadinha fraca de Arthur.
Sabia que irritaria a amiga ao falar daquele jeito. As duas tinham pensamento inteiramente opostos sobre o romance. Qualquer que fosse ele.
— Talvez você consiga os dois aqui, cuore. Nunca se sabe o que Roma pode te oferecer.
— Cuore?
a olhou.
— É, coração. Andei estudando — deu de ombros. e Arthur riram. — Você sabe que encontrar um amor — fez aspas com os dedos. — Não está exatamente no topo da minha lista de prioridades, não é?
June arqueou as sobrancelhas ao ouvir.
Não perdeu o brilho nos olhos ainda assim. Sabia que logo conseguiria convencer de que, de alguma forma, Roma tinha o poder de mudar até mesmo os corações mais céticos, como o dela.
— Pode negar o quanto quiser, mas o amor está em todo lugar. É só uma questão de estar aberta a enxergá-lo — piscou.
Arthur, já acostumado com o mesmo assunto que vivia surgindo entre as duas, interrompeu, de forma leve.
— Querida, você sempre vê o mundo por esse filtro cor-de-rosa — ajeitou os fios loiros desajeitados da namorada com a ponta dos dedos. — Deixa encontrar o que quer que esteja a esperando, na hora certa. Ok?
deixou um sorriso escapar ao olhar o amigo. Uma forma de agradecer.
As palavras de June trouxeram um sorriso irônico nos lábios da mulher. estava tão acostumada com a natureza otimista e apaixonada de June, quase todo o tempo, mas sabia que as diferenças entre elas eram mínimas comparadas ao quanto sua amizade significava.
Enquanto a amiga se entregava de corpo e alma para qualquer que fosse a história de amor, faria o possível para correr dela.
Sem pensar duas vezes. — Tudo bem, vocês venceram. Mas só dessa vez — June apontou para os dois, antes de conseguirem um táxi.
Não demorou muito para que o trio colocasse suas bagagens no porta-malas.
se acomodou na janela aberta e, enquanto o veículo percorria as ruas movimentadas da cidade, seus olhos observavam toda a arquitetura de Roma passando do lado de fora enquanto suas June e Arthur csoltavam risadinhas do seu lado.
June olhou para a amiga rapidamente. Entendia perfeitamente que histórias de amor não eram exatamente seu ponto forte.
Resolveu por deixá-la quieta, por enquanto, e não tocar mais no assunto.
A luz do fim de tarde deixava a cidade ainda mais bonita do que já era.
admirava o cenário com um olhar distante, focada nos próprios pensamentos.
Conseguia ouvir, ao longe, sua amiga tagarelar sobre seus estudos e descobertas recentes, além de achar incrivelmente romântica a cidade, o que só fez o sorriso no canto dos lábios de crescer. A diferença entre as duas era nítida.
O otimismo de June era contagiante, mas para , a realidade muitas vezes era mais complexa e intrigante.
Complicada demais. Enigmática demais.
Foi impossível não refletir sobre as escolhas que a trouxeram até ali.
Seus relacionamentos anteriores haviam sido como fotografias em preto e branco, cheias de momentos vazios e expressões desbotadas. Se lembrava das promessas quebradas, das palavras não ditas e das despedidas frias. Cada decepção em seu coração se transformou em uma visão inteiramente diferente sobre o amor.
A ideia de se abrir novamente era algo que evitava a todo custo. Para , a solidão era uma companheira mais confiável do que o amor que poderia quebrá-la em pedacinhos a qualquer momento.
O táxi se aproximou do hotel há poucos metros. A mulher olhou pela janela mais uma vez, observando as fachadas antigas e encantadoras. Uma sensação triste a envolveu. A beleza da cidade não seria suficiente para fazê-la mudar de ideia.
Mercure Roma Centro Hotel, 19h28.
O sol havia se posto, deixando o céu rosado, misturado em tons alaranjados. No hall do hotel, , June e Arthur se preparavam para explorar cada canto que pudessem da cidade à noite.
ajustava a alça da bolsa, onde sua câmera estava, enquanto observava os detalhes do saguão do hotel. Sentia uma leve pressão em seu peito, como se estivesse ansiosa, esperançosa.
E não sabia explicar o porquê de se sentir daquele jeito.
Desde que havia pisado no aeroporto, seu coração batia frenético como se algo importante demais fosse acontecer.
Só não sabia se devia se preocupar com tal acontecimento.
Resolveu então focar sua atenção em apenas uma coisa: fotografar Roma e tudo o que pudesse até o fim daquela noite.
Aquilo até animaria, mais que o normal, mesmo a animação dos amigos em relação ao romance a deixando minimamente desconfortável.
June vestia um vestido leve e os fios loiros estavam esvoaçantes. Ela continuava agarrada ao braço de Arthur, com um sorriso radiante nos lábios.
Arthur segurava a cintura da namorada, os dois parecendo um casal de conto de fadas.
rolou os olhos, mas deixando um sorriso contido transparecer. Torcia muito pela felicidade dos dois.
— Céus, como pode um lugar ser tão lindo? — June exclamou, ajeitando a bolsa nos ombros. — As ruas, as praças, as luzes... Tudo parece mágico demais!
assentiu, assim como Arthur.
Deixaria a amiga espalhar toda sua alegria e amor, em paz.
Por enquanto.
— Concordo, amor. E tenho certeza de que vai conseguir fotos incríveis.
Deu uma piscadela para a amiga. Ela sorriu.
— Vou tentar fazer jus à cidade, pode deixar.
Os três saíram para a calçada, sentindo o vento fresco do cair da noite.
As ruas estavam cheias de pessoas, imersa no som de música distante e o aroma tentador da culinária italiana. As fachadas dos edifícios históricos, iluminadas por luzes amareladas, criavam um clima quase surreal.
Continuaram a caminhar pelas ruas estreitas de paralelepípedos e não pôde deixar de se sentir um pouco contagiada pela energia da cidade. As ruelas davam para praças encantadoras, onde muitos artistas de rua exibiam seus talentos e algumas cafeterias estavam espalhadas ao redor.
Foi impossível não tirar a câmera da bolsa, ajustando as configurações enquanto capturava tudo o que conseguia pelas lentes.
A cidade parecia um cenário de filme.
— Olhem! — June sorriu, apontando para um violinista que tocava alguma músicana próxima esquina. — Isso é tão romântico!
deixou uma risadinha escapar, achando graça em cada reação de sua amiga. Parecia uma adolescente.
Arthur, sorrindo com as atitudes da namorada, puxou June para mais perto.
— Vem, , tira uma foto nossa! Vai ser uma ótima lembrança.
— Com certeza. Façam uma pose!
apontou a câmera, enquadrando cuidadosamente o casal na imagem. June e Arthur se abraçaram sorrindo, enquanto o violinista tocava uma canção suave ao fundo. A cena era perfeita.
— Prontos? Um, dois, três…
Clique!
E, enquanto observava a imagem dos amigos na tela da câmera, não percebeu quando seu rosto transpareceu um sorriso quase nostálgico.
June e Arthur eram um casal incrível.
Ela sacudiu a cabeça, ignorando qualquer sentimento que pudesse aquecer seu coração. Quando notou, o casal já estava longe.
— Ei, esperem por mim, pombinhos!
A Fontana di Trevi estava logo mais à frente, maior do que a mulher pensou, sendo iluminada não só pelas luzes ao redor, mas pelos holofotes em cada ponta da atração. A praça estava movimentada, cheia de turistas tirando fotos e fazendo desejos, como imaginou.
, June e Arthur caminhavam devagar. Estavam experimentando um gelato, que de acordo com June, era o doce italiano perfeito para uma noite como aquela.
tinha escolhido um sorvete de pistache, enquanto June tinha um de morango e limão, e Arthur um de chocolate com baunilha.
O trio passou a andar mais devagar.
Arthur, que estava a alguns passos à frente, resolveu se afastar das amigas e fazer algumas anotações para o trabalho como sempre costumava fazer. E, enquanto as duas ficaram sozinhas, June aproveitou a para puxar conversa sobre um assunto que estava há muito tempo na sua mente.
— , — começou, com a voz suave e delicada. não se deu ao trabalho de virar o olhar para a amiga. Murmurou um hm, a fazendo continuar. — Porque sempre evita falar da sua vida amorosa?
revirou os olhos, já imaginando o que June queria.
— Você sabe que não acredito nessas coisas. Passei por relacionamentos fúteis demais para achar que vale a pena investir nisso outra vez, June.
A amiga suspirou, compreendendo ainda assim.
— Sei que teve experiências ruins, mas não acho que você deveria desistir. O amor verdadeiro está por aí em algum lugar, pode ter certeza. Realmente torço para ver você encontrar alguém especial.
deu de ombros, tentando desviar a conversa.
— Não precisa se preocupar com isso. Estou bem assim. Prefiro focar no meu trabalho e nas coisas que posso controlar.
June parou de andar e olhou diretamente nos olhos de . O gelato continuava nas suas mãos.
— Eu entendo, amiga. Entendo, de verdade. Só quero que você pense na possibilidade. Quem sabe o que te espera?
suspirou, chegando à beirada da Fontana di Trevi. Seus pensamentos ecoavam as palavras da amiga quase sempre, sobre encontrar alguém e sobre o que o futuro reservava.
Não notou quando June retirou uma moeda de seu bolso e um sorriso travesso tomou conta.
— Acho que podemos resolver isso.
— June…
— Não. É sério, — levantou o indicador. Estendeu a moeda logo depois. — Não quer fazer um desejo? Agora é a hora.
— Sabia que essa é uma das coisas que também não acredito?
arqueou a sobrancelha, cética.
June não se deixou abater pelo ceticismo da amiga e, mantendo o sorriso travesso no rosto, segurou a moeda com firmeza, determinada a não deixar escapar dessa tradição.
— Sei bem. Mas um pouquinho de fé não faz mal a ninguém, não é? — piscou. — Vai lá, faz um desejo. Quem sabe?
soltou outro suspiro, balançando a cabeça. Mas sorriu com tamanha insistência de sua amiga.
Pegou a moeda das mãos de June e enquanto olhava para a água da fonte, pensou duas vezes sobre o que realmente queria.
Fechou os olhos por um momento, deixando que um pensamento sincero começasse a aparecer.
Não seria ruim desejar algo como aquilo, certo?
A frase ecoou por sua mente uma única vez.
Com um gesto rápido, jogou a moeda na fonte, a observando descer para o fundo, se misturando com as outras que tinham ali.
O som da cascata da água se misturou a conversa dos turistas e sentiu uma sensação de alívio.
Quando olhou para June, viu a amiga comemorando, com os olhos brilhando de alegria, em uma dancinha para lá de engraçada.
— Sim! — exclamou, dando um pequeno salto de felicidade. riu. — Isso mesmo, ! Agora é só esperar.
— Esperar o quê, June?
riu, achando ainda mais graça no entusiasmo de June. Apesar de não acreditar, a cidade parecia ter um jeito de fazer com que, no fundo, ela quase acreditasse.
— Como assim o quê, oras? Esperar seu desejo se realizar.
Bem no alto das nuvens de Roma, , um cupido focado em seu trabalho, descansava em uma almofada macia de vapor, observando a terra um pouco mais abaixo.
era atraente e encantador. Tinha os olhos escuros refletindo a luz das estrelas e um sorriso que irradiava uma calma surreal, inexplicável. Em suas costas, suas asas grandes e branquinhas, se moviam levemente enquanto observava o mundo humano com uma atenção quase meticulosa.
A cidade eterna estava especialmente iluminada naquela noite em específico. As ruas estreitas e os edifícios antigos pareciam brilhar mais que o normal. estava atento aos pedidos que surgiam em um canto específico em Trevi.
Analisava cada um com paciência e cuidado, chegando até a achar graça de alguns que eram feitos por algumas mentes simples e vazias.
Quero ter mais dinheiro.
Quero ter uma carreira de sucesso.
Quero conquistar o mundo.
Os desejos, apesar do cupido até compreender, eram vagos demais. Sem resquício de algum sentimento profundo. Ele, designado a atender os pedidos mais sinceros do coração, tinha uma missão mais elevada: ajudar os humanos a encontrar e entender o que existe no fundo de seu coração.
E, enquanto continuava a observar, algo curioso chamou sua atenção. Um brilho suave e dourado piscou da Fontana di Trevi, deixando evidente uma coisa que ele sabia muito bem; Era um desejo sincero e poderoso.
se inclinou para frente, com os olhos ainda fixos na fonte. Sentiu um puxão suave dentro de si, algo que indicava que aquele pedido merecia atenção especial. E sorriu.
— Que interessante…
Murmurou.
Era raro encontrar um pedido tão puro e sincero, especialmente em uma cidade como aquela. E ainda mais fascinante era o fato de que, , não acreditava no amor verdadeiro.
A ironia disso despertou algo dentro de .
Se sentiu desafiado a mostrar à mulher que o amor realmente existia, sim, que era mais do que apenas uma fantasia, uma história contada em filmes e livros.
E que a pessoa responsável por aquilo era .
se levantou da nuvem, suas asas se estendendo enquanto descia em direção à Terra, ainda invisível aos humanos. Pairou sobre a Fontana di Trevi, observando que se afastava com seus amigos, June e Arthur.
A mulher sorria, mas podia ver o enorme escudo ao redor de seu coração. Algo que ela mesma havia construído.
era bonita e elegante. Tinha os cabelos castanhos, levemente ondulados, caindo sobre os ombros. Seus olhos, um profundo tom esverdeado, carregavam uma intensidade e uma tristeza que achou enigmática demais.
Ela escondia tamanha dor e tristeza por trás do sorriso irônico que volta e meia lançada à seus amigos.
estava fascinado. Havia algo humano e real demais nela.
Se aproximou um pouco mais, mesmo não conseguindo vê-lo e não podia estar mais decidido.
— Parece que seu pedido será atendido, .