I - because you're mine…
caminhava com passos firmes, o rosto fechado pela frustração e cansaço, enquanto seus braços apertavam os livros que segurava contra o peito. Ela conseguia sentir o vento frio bagunçando seus cabelos, deixando ainda mais evidente a sensação de desconforto que esquentava dentro de si.
. Era sempre sobre ele. E aquilo a irritava profundamente.
Quando abriu a porta do dormitório, encontrou sua prima, Sally, já largada em sua cama com livros espalhados por todo canto e o ar relaxado de quem não precisava se preocupar com qualquer coisa.
Sally a olhou, arqueando uma das sobrancelhas.
— Que cara é essa? Já sei — fez uma pausa dramática. rolou os olhos, já sabendo que estava por vir. — outra vez, é?
largou a bolsa no chão com mais força do que o necessário, junto com os demais livros e se jogou na cadeira próxima à escrivaninha.
Era loucura se sentir daquele jeito por alguém que sequer trocava alguma palavra com ela.
— Ele nem sabe que existo. Não sei mais o que fazer, Sally — soltou, em um muxoxo. A prima continuava olhando. — Eu poderia atravessar o campus pegando fogo e ele não ia estar nem aí.
Sally quase deixou uma risadinha escapar com a feição amargurada de . Achava engraçado como ela morria de amores por .
— Já pensou em, sei lá… Parar de se preocupar com isso?
Sugeriu. No fundo sua voz tinha um quê provocativo.
riu, sem qualquer resquício de humor.
— É sério? Você sabe que não é tão fácil assim. Gosto dele, droga! E o fato de ele sequer me notar me deixa… Não sei, pequena? — passou as mãos pelo rosto, confusa com os próprios pensamentos.
— Pequena? — Sally arqueou a sobrancelha, outra vez. Se levantou da cama e caminhou até a prima, apoiando o corpo na mesa ao lado. — , você é uma bruxa! Pequena?! Só pode estar brincando… Se tem uma coisa que você não é mesmo, é pequena.
— Isso não ajuda! — bufou, revirando os olhos. — E o que você quer que eu faça? Saia jogando feitiços por aí só porque me sinto mal? Não é assim que funciona — cruzou os braços, apontando o nariz para o lado oposto de Sally. Até sentir o olhar dela queimando sobre si. E conhecia muito bem aquele olhar. — E se der errado? E se eu acabar mexendo com algo maior do que posso controlar?
— Ou talvez você consiga o que quer — disse, simples. Como se não fosse nada demais. franziu o cenho. Do que raios ela estava falando? — Um feitiço de amor, . Dã. Tenho certeza que já pensou nisso.
A mais nova apertou os lábios, nervosa só de pensar na ideia de mexer com feitiçaria outra vez. Faziam anos desde que se juntou com sua família para fazer algo do tipo, mesmo que a última vez ainda estivesse fresca em sua mente. Se lembrava perfeitamente do cômodo amplo e antigo da casa de suas tias, das velas acesas e espalhadas e dos sussurros das gerações de bruxas que vinham antes dela e Sally.
E claro que já havia pensado em fazer aquilo mais uma vez, só que nunca teve coragem de admitir.
Não para Sally, não em voz alta. A situação também não parecia ajudar muito em sua decisão.
— Já pensei, sim.
— E?
Sua prima cruzou os braços, como se achasse um absurdo ter que pensar muito sobre o assunto.
— Talvez possa funcionar. Não sei, talvez… me notaria — sentiu a garganta se fechar, quase em um nó. — Mas… Isso é loucura, Sally. Ele vai acabar gostando de mim só pelo feitiço e eu não quero forçar nada.
Sally ficou em silêncio por alguns segundos, observando a prima como se tentasse de alguma forma ler seus pensamentos. E entrar em sua mente.
— Ah, … Você tem poder. Poder de verdade. Só que com grandes poderes, vem grandes responsab—
— Você tá zoando que vai me falar uma frase de Homem Aranha?
— Vai mesmo me interromper, chata? — rolou os olhos. — Posso continuar?
balançou a cabeça, assentindo após.
— Quero dizer que isso não é um feitiço à toa. Você também não pode lançar um encantamento e esperar que tudo se resolva em um passe de mágica. Literalmente.
— Sei disso — rebateu, irritada. Mas, no fundo, sabia que Sally tinha razão. — Se eu continuar assim, vou pirar! E ele já me deixa louca só de existir.
A prima sorriu de canto, compreensiva, mas sem perder o ar de superioridade.
— Acho que você só precisa de um empurrãozinho. E não precisa ser nada pesado. Só o suficiente pra ele te notar, pra ver que você sempre esteve ali.
Ela deu de ombros, ainda apoiada à mesa.
não respondeu de imediato e ficou alguns segundos observando a expressão de Sally. Ela parecia extremamente confiante, como se aquilo não fosse problema algum.
E invejava toda a calma e confiança da prima.
— E se der errado?
Sally riu fraquinho.
— É só um feitiço, . Se der errado, a gente resolve. Mas, e se der certo, hein? Você vai ter pro resto da sua vida!
ficou um pouco pensativa. A ideia de usar a magia que a garota tinha era tentadora demais, e seria uma solução e tanto para a questão que estava tirando sua paz.
Só que, algo dentro de si ainda a segurava, como um alerta enjoado bem no fundo de sua mente.
— Tudo bem, então. Vamos fazer isso.
🧙♀️✨
estava sentada no chão do quarto com suas pernas cruzadas enquanto tinha alguns frascos e potes espalhados ao seu redor. A luz fraca do abajur jogava sombras sobre as paredes, enquanto o quarto era preenchido por um silêncio confortável.
Do seu lado, Sally mexia em um punhado de ervas e sua expressão era tranquila, como se soubesse exatamente o que estava fazendo. E conseguia notar que os olhos da prima brilhavam diferente, como se aquilo a libertasse.
As duas sabiam o que estavam prestes a fazer. Só que sentia uma pontinha de nervosismo e curiosidade dentro de si.
— Tá pronta?
Sally perguntou, ainda inexpressiva. Seus olhos estavam focados no pequeno caldeirão à sua frente.
engoliu em seco, sentindo o coração acelerar. Aquela era uma escolha definitiva, algo que não poderia ser desfeito tão facilmente.
Observou as ervas verdes e a mistura colorida que começava a borbulhar levemente, um sinal de que as coisas estavam começando a tomar forma.
— Não sei… — iniciou, um pouco hesitante. — O que pode acontecer? E se isso sair errado e ele acabar me odiando? E se…
A frase pairou no ar, enquanto milhares de questionamento pairavam na mente de .
— , não é um feitiço que vai transformá-lo em alguém que ele não é. É só uma ajudinha pra ele ver o que já existe. Você se sente atraída por ele e ele pode se sentir atraído por você também. Não é nada demais.
A prima sorriu e seu tom otimista era quase contagiante.
E contagiante era o contrário de Sally Owen.
sabia que a prima possuía um jeito de encarar a vida que a fazia parecer leve, como se a gravidade não a afetasse. Era a típica bruxa alegre, sempre pronta para brincar com magia e explorar as possibilidades.
Ao contrário dela, que frequentemente se sentia presa em suas próprias inseguranças.
— Olha, só o fato de você estar aqui considerando a ideia, já é um grande passo — Sally continuou, colocando um pouco mais das ervas no recipiente. — O que você tá fazendo não é nada ruim. É amor! Só isso.
deixou um sorrisinho escapar, quase se esquecendo das coisas que lhe afligiam.
Talvez fosse exatamente isso o que precisava. Dar um primeiro passo.
— Vamos lá então — sentiu uma faísca queimar dentro do peito. — O que preciso fazer?
Sally sorriu, quase travessa.
— Primeiro vamos terminar de preparar a poção. Coloque um pouco das pétalas de rosa e o mel — apontou para os dois vidrinhos próximos à . Ela o pegou, deixando cair um pouco no caldeirão. — Isso. Agora, você vai precisar recitar algumas palavras do feitiço — ligou o display no celular, acendendo o bloco de notas com algumas frases escritas. Antes de passar para a prima, Sally ergueu o olhar. Parecia mais séria que o normal. — Não esqueça que o que você sente por ele precisa ser sincero. A intenção é tudo.
Com isso, Sally abaixou o olhar outra vez, desta misturando os ingredientes meticulosamente.
fez o mesmo, a ajudando. Só então sua atenção foi atraída para outra coisa.
A mistura no caldeirão começou a ficar mais espessa, iluminada e o aroma doce começou a preencher o quarto, o envolvendo em um ambiente quase mágico.
Era como se a própria essência do amor estivesse se materializando ali, diante delas.
— Agora, sussurre as palavras. Vamos fazer esse amor acontecer — Sally incentivou, vibrando com o que acontecia.
respirou fundo, fechando os olhos brevemente.
Não teria mais volta.
— Desperta o desejo que está oculto, traz à tona o que o coração esconde. Que ele veja o que nunca viu, que ele sinta o que nunca sentiu… — a garota murmurava, quase em um sussurro. franziu o cenho, ainda recitando, mas algo parecia diferente agora. Era quase como se o desejo começasse a pulsar por suas veias.
O caldeirão começou a brilhar e borbulhar com fervor em um rosa profundo iluminando o quarto inteiro.
sentiu um frio na barriga. Parecia que a energia dançava pelo quarto.
— Quase lá… Só tem que adicionar o último ingrediente; a gota de essência do amor — Sally disse, baixinho para não quebrar a concentração da prima. Ela a observava atentamente.
hesitou por um instante. Aquela era a parte final, que definia tudo o que iria acontecer a partir do momento que ingerisse a poção.
Suspirou e com um movimento decisivo, virou o vidrinho com o líquido quase transparente. Assim que a gota caiu, o caldeirão estremeceu, deixando explícito que o feitiço funcionava.
— Tá feito, priminha — Sally disse, olhando a poção com admiração. — É só fazer com que beba isso até amanhã à meia-noite. Já pensou em como vai fazer?
mordeu o lábio, sentindo o coração acelerar dentro do peito. O que parecia ser um desafio divertido agora se tornava uma missão que poderia mudar o rumo de sua vida amorosa.
E a pressão de garantir que tudo saísse certo a deixava extremamente ansiosa.
— Bom, tem a festa de Halloween da universidade. Pensei em colocar na bebida dele por acidente…
Sally olhou para , com uma expressão engraçada no rosto. Segundos depois, desatou a rir.
— Por acidente? Você é louquinha, sabia?
— Ei! Foi você quem deu a ideia, Sally!
Retrucou, tentando esconder o embaraço que corava suas bochechas.
A verdade era que a ideia a aterrorizava e animava ao mesmo tempo.
— Claro, mas não sei se por acidente é a melhor estratégia. Não pode deixar isso à sua sorte — a prima cruzou os braços e balançou a cabeça, como se estivesse avaliando a situação. — Se fizer isso, pode acabar parecendo uma desesperada.
— Ok, gênio. E o que você sugere?
rolou os olhos. A última coisa que queria era dar a impressão de que estava se aproveitando de .
— Simples. É só se oferecer pra distribuir algumas bebidas. Você coloca no copo dele e tá feito. É só garantir que ele vá beber.
Ela sorriu, confiante.
considerou a ideia da prima. A festa seria a ocasião perfeita e a ideia não era lá tão ruim.
— E se ele não aceitar a bebida? — fez uma careta.
— Aí você se vira. Faz um charme, inventa alguma coisa — Sally deu um tapa no ombro de , que resmungou após. — Vai conseguir!
O coração de acelerou ao imaginar a cena. Se viu em meio aos convidados, com uma bandeja de bebidas na mão e ao seu lado, rindo e se divertindo. Com os olhos escuros brilhantes, os cabelos negros bagunçados como costumava estar…
A visão era tentadora, não podia negar.
— Ok. Vou tentar. No ruim você me salva de algum jeito.
Sally arqueou uma das sobrancelhas para a prima.
— Ótimo. Se for pra te salvar, vou ter que inventar algo melhor do que um feitiço do amor.
balançou a cabeça, rindo fraquinho das caras e bocas que Sally fazia. Sabia que a estava contrariando.
— Qual é, Sally. Eu tô levando isso à sério, sabia? E se essa brincadeira toda der errado? O que eu faço?
A prima rodopiou pelo quarto, guardando os fracos e parou na frente de , com os olhos semicerrados.
— Se der errado, você só vai ter que se reinventar como uma nova bruxa sem sorte no amor — piscou, exagerada. rolou os olhos. — Olha pelo lado bom, vai ter história pra contar. Imagina! E foi assim que eu tentei fazer se apaixonar por mim com uma poção de amor e acabei atraindo um gato no lugar…
franziu o cenho e desatou a gargalhar ao ouvir a prima a imitando, enquanto gesticulava de um lado para o outro.
Sally sempre conseguia quebrar o gelo de alguma forma.
— Há-há. Engraçadinha. Mas, eu tô falando sério, tem que prometer que vai ficar de olho durante a festa. Vou precisar do seu apoio.
Sally parou de uma vez, deixando o olhar cair sobre . Mesmo com todas as brincadeirinhas e implicâncias, ela não pensaria duas vezes em estar lá pela prima.
— Tudo bem! — levantou as mãos em rendição. — Só se me prometer que, se acabar atraindo um gato de verdade ao invés de , vai ter que me deixar trazer ele pra casa!
— Sally!
. Era sempre sobre ele. E aquilo a irritava profundamente.
Quando abriu a porta do dormitório, encontrou sua prima, Sally, já largada em sua cama com livros espalhados por todo canto e o ar relaxado de quem não precisava se preocupar com qualquer coisa.
Sally a olhou, arqueando uma das sobrancelhas.
— Que cara é essa? Já sei — fez uma pausa dramática. rolou os olhos, já sabendo que estava por vir. — outra vez, é?
largou a bolsa no chão com mais força do que o necessário, junto com os demais livros e se jogou na cadeira próxima à escrivaninha.
Era loucura se sentir daquele jeito por alguém que sequer trocava alguma palavra com ela.
— Ele nem sabe que existo. Não sei mais o que fazer, Sally — soltou, em um muxoxo. A prima continuava olhando. — Eu poderia atravessar o campus pegando fogo e ele não ia estar nem aí.
Sally quase deixou uma risadinha escapar com a feição amargurada de . Achava engraçado como ela morria de amores por .
— Já pensou em, sei lá… Parar de se preocupar com isso?
Sugeriu. No fundo sua voz tinha um quê provocativo.
riu, sem qualquer resquício de humor.
— É sério? Você sabe que não é tão fácil assim. Gosto dele, droga! E o fato de ele sequer me notar me deixa… Não sei, pequena? — passou as mãos pelo rosto, confusa com os próprios pensamentos.
— Pequena? — Sally arqueou a sobrancelha, outra vez. Se levantou da cama e caminhou até a prima, apoiando o corpo na mesa ao lado. — , você é uma bruxa! Pequena?! Só pode estar brincando… Se tem uma coisa que você não é mesmo, é pequena.
— Isso não ajuda! — bufou, revirando os olhos. — E o que você quer que eu faça? Saia jogando feitiços por aí só porque me sinto mal? Não é assim que funciona — cruzou os braços, apontando o nariz para o lado oposto de Sally. Até sentir o olhar dela queimando sobre si. E conhecia muito bem aquele olhar. — E se der errado? E se eu acabar mexendo com algo maior do que posso controlar?
— Ou talvez você consiga o que quer — disse, simples. Como se não fosse nada demais. franziu o cenho. Do que raios ela estava falando? — Um feitiço de amor, . Dã. Tenho certeza que já pensou nisso.
A mais nova apertou os lábios, nervosa só de pensar na ideia de mexer com feitiçaria outra vez. Faziam anos desde que se juntou com sua família para fazer algo do tipo, mesmo que a última vez ainda estivesse fresca em sua mente. Se lembrava perfeitamente do cômodo amplo e antigo da casa de suas tias, das velas acesas e espalhadas e dos sussurros das gerações de bruxas que vinham antes dela e Sally.
E claro que já havia pensado em fazer aquilo mais uma vez, só que nunca teve coragem de admitir.
Não para Sally, não em voz alta. A situação também não parecia ajudar muito em sua decisão.
— Já pensei, sim.
— E?
Sua prima cruzou os braços, como se achasse um absurdo ter que pensar muito sobre o assunto.
— Talvez possa funcionar. Não sei, talvez… me notaria — sentiu a garganta se fechar, quase em um nó. — Mas… Isso é loucura, Sally. Ele vai acabar gostando de mim só pelo feitiço e eu não quero forçar nada.
Sally ficou em silêncio por alguns segundos, observando a prima como se tentasse de alguma forma ler seus pensamentos. E entrar em sua mente.
— Ah, … Você tem poder. Poder de verdade. Só que com grandes poderes, vem grandes responsab—
— Você tá zoando que vai me falar uma frase de Homem Aranha?
— Vai mesmo me interromper, chata? — rolou os olhos. — Posso continuar?
balançou a cabeça, assentindo após.
— Quero dizer que isso não é um feitiço à toa. Você também não pode lançar um encantamento e esperar que tudo se resolva em um passe de mágica. Literalmente.
— Sei disso — rebateu, irritada. Mas, no fundo, sabia que Sally tinha razão. — Se eu continuar assim, vou pirar! E ele já me deixa louca só de existir.
A prima sorriu de canto, compreensiva, mas sem perder o ar de superioridade.
— Acho que você só precisa de um empurrãozinho. E não precisa ser nada pesado. Só o suficiente pra ele te notar, pra ver que você sempre esteve ali.
Ela deu de ombros, ainda apoiada à mesa.
não respondeu de imediato e ficou alguns segundos observando a expressão de Sally. Ela parecia extremamente confiante, como se aquilo não fosse problema algum.
E invejava toda a calma e confiança da prima.
— E se der errado?
Sally riu fraquinho.
— É só um feitiço, . Se der errado, a gente resolve. Mas, e se der certo, hein? Você vai ter pro resto da sua vida!
ficou um pouco pensativa. A ideia de usar a magia que a garota tinha era tentadora demais, e seria uma solução e tanto para a questão que estava tirando sua paz.
Só que, algo dentro de si ainda a segurava, como um alerta enjoado bem no fundo de sua mente.
— Tudo bem, então. Vamos fazer isso.
estava sentada no chão do quarto com suas pernas cruzadas enquanto tinha alguns frascos e potes espalhados ao seu redor. A luz fraca do abajur jogava sombras sobre as paredes, enquanto o quarto era preenchido por um silêncio confortável.
Do seu lado, Sally mexia em um punhado de ervas e sua expressão era tranquila, como se soubesse exatamente o que estava fazendo. E conseguia notar que os olhos da prima brilhavam diferente, como se aquilo a libertasse.
As duas sabiam o que estavam prestes a fazer. Só que sentia uma pontinha de nervosismo e curiosidade dentro de si.
— Tá pronta?
Sally perguntou, ainda inexpressiva. Seus olhos estavam focados no pequeno caldeirão à sua frente.
engoliu em seco, sentindo o coração acelerar. Aquela era uma escolha definitiva, algo que não poderia ser desfeito tão facilmente.
Observou as ervas verdes e a mistura colorida que começava a borbulhar levemente, um sinal de que as coisas estavam começando a tomar forma.
— Não sei… — iniciou, um pouco hesitante. — O que pode acontecer? E se isso sair errado e ele acabar me odiando? E se…
A frase pairou no ar, enquanto milhares de questionamento pairavam na mente de .
— , não é um feitiço que vai transformá-lo em alguém que ele não é. É só uma ajudinha pra ele ver o que já existe. Você se sente atraída por ele e ele pode se sentir atraído por você também. Não é nada demais.
A prima sorriu e seu tom otimista era quase contagiante.
E contagiante era o contrário de Sally Owen.
sabia que a prima possuía um jeito de encarar a vida que a fazia parecer leve, como se a gravidade não a afetasse. Era a típica bruxa alegre, sempre pronta para brincar com magia e explorar as possibilidades.
Ao contrário dela, que frequentemente se sentia presa em suas próprias inseguranças.
— Olha, só o fato de você estar aqui considerando a ideia, já é um grande passo — Sally continuou, colocando um pouco mais das ervas no recipiente. — O que você tá fazendo não é nada ruim. É amor! Só isso.
deixou um sorrisinho escapar, quase se esquecendo das coisas que lhe afligiam.
Talvez fosse exatamente isso o que precisava. Dar um primeiro passo.
— Vamos lá então — sentiu uma faísca queimar dentro do peito. — O que preciso fazer?
Sally sorriu, quase travessa.
— Primeiro vamos terminar de preparar a poção. Coloque um pouco das pétalas de rosa e o mel — apontou para os dois vidrinhos próximos à . Ela o pegou, deixando cair um pouco no caldeirão. — Isso. Agora, você vai precisar recitar algumas palavras do feitiço — ligou o display no celular, acendendo o bloco de notas com algumas frases escritas. Antes de passar para a prima, Sally ergueu o olhar. Parecia mais séria que o normal. — Não esqueça que o que você sente por ele precisa ser sincero. A intenção é tudo.
Com isso, Sally abaixou o olhar outra vez, desta misturando os ingredientes meticulosamente.
fez o mesmo, a ajudando. Só então sua atenção foi atraída para outra coisa.
A mistura no caldeirão começou a ficar mais espessa, iluminada e o aroma doce começou a preencher o quarto, o envolvendo em um ambiente quase mágico.
Era como se a própria essência do amor estivesse se materializando ali, diante delas.
— Agora, sussurre as palavras. Vamos fazer esse amor acontecer — Sally incentivou, vibrando com o que acontecia.
respirou fundo, fechando os olhos brevemente.
Não teria mais volta.
— Desperta o desejo que está oculto, traz à tona o que o coração esconde. Que ele veja o que nunca viu, que ele sinta o que nunca sentiu… — a garota murmurava, quase em um sussurro. franziu o cenho, ainda recitando, mas algo parecia diferente agora. Era quase como se o desejo começasse a pulsar por suas veias.
O caldeirão começou a brilhar e borbulhar com fervor em um rosa profundo iluminando o quarto inteiro.
sentiu um frio na barriga. Parecia que a energia dançava pelo quarto.
— Quase lá… Só tem que adicionar o último ingrediente; a gota de essência do amor — Sally disse, baixinho para não quebrar a concentração da prima. Ela a observava atentamente.
hesitou por um instante. Aquela era a parte final, que definia tudo o que iria acontecer a partir do momento que ingerisse a poção.
Suspirou e com um movimento decisivo, virou o vidrinho com o líquido quase transparente. Assim que a gota caiu, o caldeirão estremeceu, deixando explícito que o feitiço funcionava.
— Tá feito, priminha — Sally disse, olhando a poção com admiração. — É só fazer com que beba isso até amanhã à meia-noite. Já pensou em como vai fazer?
mordeu o lábio, sentindo o coração acelerar dentro do peito. O que parecia ser um desafio divertido agora se tornava uma missão que poderia mudar o rumo de sua vida amorosa.
E a pressão de garantir que tudo saísse certo a deixava extremamente ansiosa.
— Bom, tem a festa de Halloween da universidade. Pensei em colocar na bebida dele por acidente…
Sally olhou para , com uma expressão engraçada no rosto. Segundos depois, desatou a rir.
— Por acidente? Você é louquinha, sabia?
— Ei! Foi você quem deu a ideia, Sally!
Retrucou, tentando esconder o embaraço que corava suas bochechas.
A verdade era que a ideia a aterrorizava e animava ao mesmo tempo.
— Claro, mas não sei se por acidente é a melhor estratégia. Não pode deixar isso à sua sorte — a prima cruzou os braços e balançou a cabeça, como se estivesse avaliando a situação. — Se fizer isso, pode acabar parecendo uma desesperada.
— Ok, gênio. E o que você sugere?
rolou os olhos. A última coisa que queria era dar a impressão de que estava se aproveitando de .
— Simples. É só se oferecer pra distribuir algumas bebidas. Você coloca no copo dele e tá feito. É só garantir que ele vá beber.
Ela sorriu, confiante.
considerou a ideia da prima. A festa seria a ocasião perfeita e a ideia não era lá tão ruim.
— E se ele não aceitar a bebida? — fez uma careta.
— Aí você se vira. Faz um charme, inventa alguma coisa — Sally deu um tapa no ombro de , que resmungou após. — Vai conseguir!
O coração de acelerou ao imaginar a cena. Se viu em meio aos convidados, com uma bandeja de bebidas na mão e ao seu lado, rindo e se divertindo. Com os olhos escuros brilhantes, os cabelos negros bagunçados como costumava estar…
A visão era tentadora, não podia negar.
— Ok. Vou tentar. No ruim você me salva de algum jeito.
Sally arqueou uma das sobrancelhas para a prima.
— Ótimo. Se for pra te salvar, vou ter que inventar algo melhor do que um feitiço do amor.
balançou a cabeça, rindo fraquinho das caras e bocas que Sally fazia. Sabia que a estava contrariando.
— Qual é, Sally. Eu tô levando isso à sério, sabia? E se essa brincadeira toda der errado? O que eu faço?
A prima rodopiou pelo quarto, guardando os fracos e parou na frente de , com os olhos semicerrados.
— Se der errado, você só vai ter que se reinventar como uma nova bruxa sem sorte no amor — piscou, exagerada. rolou os olhos. — Olha pelo lado bom, vai ter história pra contar. Imagina! E foi assim que eu tentei fazer se apaixonar por mim com uma poção de amor e acabei atraindo um gato no lugar…
franziu o cenho e desatou a gargalhar ao ouvir a prima a imitando, enquanto gesticulava de um lado para o outro.
Sally sempre conseguia quebrar o gelo de alguma forma.
— Há-há. Engraçadinha. Mas, eu tô falando sério, tem que prometer que vai ficar de olho durante a festa. Vou precisar do seu apoio.
Sally parou de uma vez, deixando o olhar cair sobre . Mesmo com todas as brincadeirinhas e implicâncias, ela não pensaria duas vezes em estar lá pela prima.
— Tudo bem! — levantou as mãos em rendição. — Só se me prometer que, se acabar atraindo um gato de verdade ao invés de , vai ter que me deixar trazer ele pra casa!
— Sally!