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Autora Independente do Cosmos ✨
Atualizada em: 20/07/2025

quatro meses depois da copa
Aeroporto da Costa Rica


— Tem certeza que não pode ficar? Aqui também tem clubes de futebol, eu posso falar com meu pai e…
.
Segurei os ombros da minha melhor amiga, obrigando-a a dar uma pausa e respirar entre as frases rápidas que estavam saindo em disparada da sua boca, demonstrando o quão ruim ela era em despedida. Eu não era muito melhor, e estava me sentindo péssima por deixá-la ali, mas nós duas tínhamos carreiras diferentes e sempre soubemos que minha vida não estava na Costa Rica para sempre. Meus planos futuros sempre envolveram me formar e voltar para a Espanha, onde eu pretendia arranjar uma oportunidade e consolidar a minha carreira. Ela sempre soube disso.
Ainda assim, não tornava as coisas mais fáceis. Era a primeira vez que eu precisava me despedir dela; desde que nos conhecemos, ainda no início do meu intercâmbio em seu país natal, raramente nos desgrudamos. Fazíamos quase tudo juntas. Ela me mostrou o que significava ter uma amiga e moldou o meu conceito de amizade. De amor fraterno. Do que era ter alguém para compartilhar suas conquistas e dores.
Eu ia sentir falta dela. Eu ia sentir falta demais.
— Respira, por favor — eu pedi, esboçando um sorriso em meu rosto, suavizando a minha expressão.
Ela olhou para mim com aflição, os ombros tensos, mas fez o que eu pedi e respirou fundo, soltando o ar pela boca em um bufo, deixando seus ombros caírem meio derrotados em seguida. Pude ver ela engolir a seco e foi só quando seus olhos começaram a lacrimejar que eu me aproximei, abraçando-a pelo pescoço, eu mesma me esforçando para não espelhar a sua reação. Prometi que não ia chorar, assim como também prometi que ia voltar.
— Vou sentir sua falta — ela murmurou.
— Eu também vou, , todos os dias — murmurei de volta, ainda presa dentro dos seus braços.
Seria estranho viver em um lugar sem ela constantemente por perto. Mesmo tendo seu próprio lugar, estava sempre enfiada dentro do cubículo que eu chamava de apartamento, recusando convites de festas e eventos, porque era melhor ficar no silêncio comigo, aproveitando a companhia uma da outra, dizendo que não teríamos aquilo para sempre.
E ela estava certa.
A prova disso era que eu estava indo embora. E mesmo sabendo que isso um dia aconteceria, mais cedo ou mais tarde, eu sempre ia sentir que não aproveitei o tempo com ela o suficiente.
— Não precisamos fazer disso grande coisa, certo? — eu disse, quando ela me soltou e eu pude olhar para o seu rosto meio molhado de lágrimas novamente. — Você pode me visitar quando quiser. Tem mais dinheiro do que eu — brinquei, dando um peteleco em seu nariz.
Ela revirou os olhos e riu, limpando as suas bochechas molhadas. Ela ia ficar bem.
Se tinha alguém que conseguiria ficar mais do que superbem, era ela. Eu, por outro lado, não tinha uma ideia certa do que me esperava na Espanha. O frio na barriga estava me acompanhando naquela viagem de volta para casa.
Para o país que eu chamava de lar.
— Você vai me contar se estiver precisando de algo? — ela investigou, me analisando com aqueles olhos certeiros.
Encolhi um ombro.
— Você sabe que eu não gosto de te incomodar e… ai! — reclamei, sem conseguir terminar a frase, massageando o local que ela tinha me beliscado no braço. — Tá, tudo bem, eu vou te contar.
estreitou os olhos para mim, desconfiada.
— Eu vou contar — insisti, para que ela acreditasse na minha palavra.
Considerando que eu era uma péssima mentirosa, ela aceitou a minha palavra e, seguido de outro suspiro, me abraçou bem rápido novamente, o que me fez soltar uma risada baixa.

— Cala a boca, você está indo para o outro lado do mundo, não vou conseguir te abraçar sempre que eu quiser mais — ela se adiantou em dizer, antes que eu falasse qualquer coisa a respeito. Deixei que ela ficasse grudada em mim depois daquele argumento agressivo. — Tá, olha.
Ela se afastou. Me segurou pelos ombros e encarou os meus olhos e eu franzi os lábios, esperando.
— Você é a minha melhor amiga do mundo todo e o Oceano Pacífico…
— Atlântico.
Ela parou no meio do seu discurso, me olhando confusa.
— O quê?
— Entre a Costa Rica e a Espanha fica o Oceano Atlântico, não o Pacífico — expliquei.
balançou a cabeça, me fuzilando com o olhar e eu prendi o riso. Ela odiava quando eu fazia isso.
— Ai, juro… Como eu tava falando antes de você me interromper, você é a minha melhor amiga do mundo todo e o Oceano Atlântico não vai mudar isso — continuou, frisando o oceano certo, meus lábios se esticando em um sorriso orgulhoso. — E eu já tive muitos amigos a minha vida inteira, mas você, … Não existe ninguém como você, entendeu?
Franzi o nariz, sentindo-o arder, as palavras se incendiando até penetrar o meu coração.
— Eu te amo. Você está voltando para o seu país, para a sua casa, e o único pedido que eu vou te fazer não é para você me ligar todos os dias, porque isso você vai fazer de todo jeito, obviamente, mas meu pedido é simples: não se esconda dentro do seu quarto, amiga.
Não sei como ela adivinhou que eu provavelmente faria isso, sim, mas não questionei. Também não argumentei contra.
— Esqueça os mil artigos que quer ler, todas as pesquisas que quer conhecer, todos os ossos humanos do corpo e coisas do tipo e saia mais — ela continuou, o sorriso crescendo. — Sua cabecinha já é cheia de conhecimentos acadêmicos úteis, mas seu corpo precisa de contato humano. Você precisa de contato humano — acrescentou. — E seria ótimo se você transasse mais também.
Soltei uma risada incrédula e balancei a cabeça, afastando suas mãos dos meus ombros em protesto. Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ela levantou um dedo em riste e completou:
— Não pense que eu esqueci dele.
Engoli a seco e mordi a minha bochecha com a invocação daquela lembrança.
Eu pensava naquele dia todos os dias desde então e, apesar de não ter acreditado que ele realmente queria manter o contato, dias depois fui surpreendida com a mensagem de um número desconhecido dizendo simplesmente:
“Sou eu”
“O ”.

— Se você não esqueceu, imagine eu — murmurei, soltando um suspiro involuntário.
Não conversamos muito, apesar disso. Nossas rotinas eram muito diferentes e o fuso horário não ajudava a manter um contato decente, mas ele tem estado na minha cabeça com mais frequência do que eu gostaria. E mesmo com ele dizendo para eu avisá-lo quando pisasse em solo espanhol outra vez, não avisei.
Não sabia como fazer isso e voltar já era algo que eu estava arriscando fazer. Não tinha emprego garantido, não teria a comigo. Eu estaria por conta própria.
De novo.
— E isso significa que… — Antes que ela pudesse completar a frase, o som do alto falante interrompeu o seu raciocínio ao anunciar a chamada do meu voo.
Nós duas engolimos a seco ao mesmo tempo ao se dar conta do momento inevitável.
Eu vi quando os lábios dela tremeram, antecipando o seu choro, que ela permitiu não vir. Já era difícil o bastante ir embora sozinha, ela iria odiar me ver ir embora com o peso de estar deixando-a para trás, mesmo que temporariamente.
— Eu te amo, — falei, com um sorriso, eu mesma segurando minhas próprias lágrimas. — Obrigada por ser minha amiga.
— Isso não se agradece.
— Não importa, vou te agradecer pelo resto da minha vida — retruquei.
Quando o voo anunciou a segunda chamada, respirei fundo e abracei-a pela última vez, ainda bem mais apertado do que antes. Esperava que estivesse conseguindo esconder o quão apavorada eu estava de voltar.
— Vai. — Ela me soltou, franzindo o nariz. — Vá lá viver seu sonho espanhol.
Ri, balançando a cabeça. Segurei a minha mala e fui me afastando em passos lentos.
— Eu não tenho um sonho espanhol.
Ela nem se abalou com a minha negação. Ficou no mesmo lugar, assistindo enquanto eu ia embora.
— Tem, sim. E ele joga pelo Atlético Bilbao.
Revirei os olhos, acenei em despedida e finalmente tive coragem de dar as costas e seguir para o portão de embarque, o coração minúsculo apertado contra o meu peito. Não só por deixar a e o país que me acolheu.
Mas porque voltar para casa era sempre estranho.




Continua...


nota estrelada da autora: Essa continuação mora na minha cabeça desde a existência da oneshot que eu criei há um tempo atrás e que sempre resultou em um pedido de continuação da parte de quem leu. Finalmente Laura e Unai Simón estão entre nós novamente e espero conseguir ser justa com a trajetória dos dois. Se você não leu a primeira parte, clica aqui💫

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