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Independente do Cosmos🪐

Última Atualização: 14/12/2025



Meu mundo tinha se reduzido a uma tela, com apenas duas colunas de excel. Eram 3h47 da manhã quando somei as colunas pela quarta vez, como se os números tivessem mudado de ideia e fosse possível, agora, fazer um milagre com eles, no entanto, tudo estava igual.
Aluguel: atrasado.
Empréstimo Estudantil: em fase de cobrança judicial.
Cartão de crédito: bloqueado.
Clínica Haven: R$ 18.347, semanais.
Na outra coluna tínhamos apenas a minha conta bancária, definhando a cada dia.
Merda.
A Haven era um milagre da medicina, e os milagres tinham preços altamente proibitivos. Minha irmã, Sophie, estava lá agora, provavelmente dormindo do outro lado da cidade, em um quarto branco que cheirava a medicamentos e desesperança descontrolada. Sua doença era rara e silenciosa, primeiro havia levado sua mobilidade, depois nossas economias e agora ameaçava levar o pouco que lhe restava. O tratamento experimental era a nossa única esperança, mas cada dose da medicação importada custava muito, muito, mais do que eu recebia. Eu já nem sabia mais quantos trabalhos de edição de vídeo eu precisaria pegar para pagar aquela parcela.
O meu documentário sobre mulheres no folk foi um sucesso, me rendeu aplausos, um prêmio e um portfólio impecável, mas também me trouxe tantas dívidas que eu sequer tinha conseguido procurar outro emprego. A produtora faliu há seis meses e, com isso, eu fiquei com o troféu de melhor direção e uma pilha de contas a pagar.
Fato curioso: o troféu valia apenas cento e cinquenta e sete dólares. Eu tentei vendê-lo. Não é irônico o quanto as pessoas se matam por prêmios que não valem dez por cento do trabalho delas?
Foi nesse desespero mudo, metódico e matutino que o meu e-mail notificou a chegada da proposta de Sillas. O assunto era seco e direto: Documentário - Vantar
O meu estômago embrulhou automaticamente.
Vantar.
Rovahn.
Lydia.
Fechei o e-mail, ignorando-o completamente. Vantar era um capítulo que eu tinha rasgado do meu livro e eu, definitivamente, me recusava a lembrá-lo.
Obviamente meu telefone tocou. Sillas era tão desagradável quanto as pessoas que representava e odiava ser ignorado, mesmo que por minutos. Deixei tocando, como sempre fazia após às 22h, três minutos depois, uma mensagem apareceu.

", aqui é Sillas Grant. Preciso falar com você sobre um projeto. É urgente. Sei da sua situação no Haven, posso ajudar."



O meu coração bateu rápido e logo em seguida parou. É claro que ele sabia, todos os diabos sabem exatamente como conquistar suas vítimas, não seria tão atrativo se não soubessem.
Sillas não era apenas um empresário, ele era uma lenda, e lendas sempre são notoriamente perigosas. Sillas Grant, em específico, é quase uma instituição. E nenhuma instituição vem até você, a não ser que queiram algo que só você pode dar.
Três dias foi o tempo que levei para ceder e aceitar encontrá-lo. O carro preto e anônimo que ele mandou me buscar logo veio e, em menos de trinta minutos, estávamos em um arranha-céu que, provavelmente, a entrada já era metade do que eu precisava pagar no tratamento de Sophie. Pelo jeito que os garçons olhavam pra mim, com uma mistura de desdém e pena, eu já sabia que esse era o tipo de lugar que os preços não vinham no cardápio.
Sillas já estava na mesa quando cheguei. Eu não o conhecia pessoalmente, mas todos no ramo visual já tinham ouvido falar dele. Ele era um homem de sessenta anos, com cabelos ligeiramente grisalhos perfeitamente penteados e um terno que valia mais do que meu carro.
. — Ele cumprimentou, apontando para a cadeira vazia a sua frente. — Obrigado por vir.
— Como o senhor sabe da minha irmã? — Ignorei toda a educação, deixando minha voz sair um pouco mais áspera do que eu pretendia. Não tinha muito como me culpar, isso era totalmente Dahmer.
Ele colocou o copo de água mineral sobre a mesa, com cuidado, então me olhou com um sorriso óbvio.
— É o meu trabalho saber. Assim como também é o meu trabalho saber que você recusou três propostas de trabalho essa semana porque não queria se afastar dela e correr o risco de não se despedir dela em seu leito de morte. Algo admirável, mas economicamente insustentável. — Antes que eu conseguisse responder, ele deslizou uma pasta marrom sobre a mesa. — Vantar. Documentário da turnê de retorno. Seis meses de filmagens. Salário oito vezes maior do que qualquer outro projeto que você já considerou na vida.
O meu estômago deu um nó, de novo.
Vantar.
Rovahn.
— Não. — A palavra saiu como um sopro. — Eu não trabalho com rockstars.
— Sim, eu imaginei que essa seria a sua reação. Olha, eu vou ser bem sincero com você. Eu gosto do seu trabalho, bastante até e é triste receber um não seu, principalmente porque, se você recusar, eu garanto que nenhum estúdio sério tocará nele. Além do mais, a sua irmã realmente precisa do dinheiro. — Eu não respondi de imediato. Não era exatamente como se a ameaça dele fosse mudar a minha vida, eu era uma mulher de um único grande projeto de sucesso, não tinha portas e portas abertas para mim assim, para que ele fechasse todas. — Okay. Além do valor contratual eu pago todos os custos hospitalares da sua irmã por… dois anos.
— O senhor não pode estar falando sério. Rovahn é um pesadelo ambulante. Todo mundo sabe.
O sorriso de Sillas não se abalou. Ao invés disso, pareceu se intensificar.
— Exatamente. E é por isso que estou aqui, e não contratando o quinto diretor premiado que ele vai expulsar em dois anos. — Ele abriu a pasta, revelando uma pilha de documentos. No topo, uma foto de nos bastidores de um show, o rosto distorcido em puro sarcasmo e fúria. — Nos últimos 24 meses, ele agrediu um fotógrafo, jogou uma câmera de um penhasco em São Francisco e fez o diretor anterior, um sujeito muito duro, por sinal, ter uma crise de choro no meio do set. A seguradora ameaçou cancelar nossa apólice.
— E o senhor acha que eu, sozinha, vou conseguir fazer o que todos esses profissionais experientes não conseguiram?
— Não estou achando, . Estou certíssimo. — Seus olhos percorreram meu rosto, me analisando. — Seu documentário sobre a turnê final de Martha Bleu... você a filmou nos últimos três meses de vida dela. A mulher era conhecida por ser difícil. E você não só conseguiu o material, como conseguiu sua confiança. Você é persistente, resiliente e, o mais importante... — Ele fez uma pausa dramática. — Você é invisível.
Arquei uma sobrancelha engolindo a pequena humilhação que surgiu entre a frase dele e minhas entranhas.
— Desculpe, o quê?
— Para homens como , você é um móvel. Ele vai tentar te derrubar, vai gritar, vai tentar te assustar. Mas você não é uma fã que ele pode desapontar, não é um colega que ele pode intimidar com o status. Você é uma profissional fazendo seu trabalho. E pelo que sei de você... — Seus olhos escanearam minha expressão impassível. — ...nada do que ele disser vai te atingir pessoalmente. Você é a pessoa mais blindada que eu já encontrei nessa indústria e não tem nenhum histórico com ele. — Ele tirou uma última folha da pasta, um contrato. O valor escrito fez meu coração acelerar. Era a liberdade financeira e a vida da minha irmã, garantida. — Eu não estou te pedindo, . Estou te oferecendo uma solução para todos os seus problemas. Em troca, eu só preciso de alguém que consiga filmar aquele desgraçado. Alguém que não vai correr chorando no primeiro insulto. Alguém como você. — Ele deslizou a caneta sobre a mesa. Era uma caneta pesada, de metal frio. — O é um monstro, mas ele é meu monstro. E eu preciso que alguém dome ele, pelo bem do meu investimento. E pelo bem da sua irmã.
Olhei para a caneta.
Olhei para a foto de .
E pensei em Sophie.
— Algo mais que eu precise saber? — disse, minha voz soando estranha nos meus próprios ouvidos.
O sorriso de Sillas foi o mais genuíno até agora.
— Só um último detalhe. Um incidente que você precisa conhecer para evitar áreas sensíveis. — Ele tomou um gole de água, comprando tempo. — Há uns dez anos, uma fã chamada Lydia Mears se suicidou. A imprensa tentou ligar a morte dela ao . — Ele fez uma pausa, observando minha reação. Eu mantive a respiração estável e as mãos imóveis sobre a mesa.
— O que aconteceu? — perguntei, com a voz deliberadamente plana.
— Num meet & greet, ela chegou até ele chorando, dizendo que a música dele tinha salvado a vida dela. E , bem… estava num dia particularmente ruim. — Sillas encarou o copo, evitando meu olhar. — Foi… infeliz. A garota tinha histórico de depressão. Alguns meses depois, ela se matou. A família deu entrevista, a imprensa fez a ligação. Foi bem feio. — Seus olhos encontraram os meus, duros como pedra. — Eu enterrei um risco de negócio. Contratei os melhores advogados, comprei o silêncio de quem precisava ser pago, processei os veículos que publicaram a história. — Ele se inclinou para a frente, baixando a voz. — Mas veja bem, , naquela época, o valia uns dez milhões de dólares. Hoje? — Ele soltou uma risada baixa. — Hoje, ele vale, no mínimo, noventa. E essa turnê vai levá-lo para a casa dos trezentos e cinquenta. Um patrimônio desses precisa ser protegido. Então esse tema é absolutamente proibido. É uma linha que você não pode cruzar. Entendeu? Nenhuma pergunta, nenhuma insinuação, nenhuma imagem de arquivo. Esse fantasma precisa permanecer no caixão. — Ele fixou os olhos em mim, garantindo que suas palavras tivessem o peso de uma ordem absoluta. — Você está aqui para documentar a redenção, não os demônios. A volta triunfal, não os cadáveres no armário. Esse é o acordo.
A sala parecia ter ficado sem ar. O peso daquelas palavras, da confissão tão casual, quase me sufocou.
Ele não fazia ideia de quem eu era.
De que eu, de dez anos atrás, também era uma fã.
De que a Lydia era minha colega de quarto.
De que eu era a última pessoa que ela ligou naquela noite.
— Perfeitamente — respondi, sustentando com minha voz um sussurro rouco. — Linha vermelha. Entendido.
Ele assentiu, satisfeito, e ergueu o copo em um gesto de brinde mudo.
— Então bem-vinda ao inferno, . Espero que você sobreviva a ele.
Meu coração batia tão forte que eu temia que ele pudesse ouvir.
Havia uma ironia perversa naquilo, uma justiça poética retorcida. O homem que havia destruído Lydia, agora me pagaria para salvar a única família que me restava.
Sillas observava satisfeito, acreditando ter recrutado a profissional perfeita, imparcial e blindada.
— Bem vinda ao inferno, . Eu realmente espero que você sobreviva a ele.
Ele não fazia ideia. Ele pensou que estava me contratando para evitar um fantasma, mas não percebeu que estava colocando o fantasma no comando da filmagem.



Rovahn


O sol do lado de fora da clínica era um filho da puta. Insistente, muito claro, e me fazia sentir como uma barata saindo de um esgoto depois de uma enchente. Pisquei, sentindo a luz cortar meus olhos como uma faca. Oito meses. Oito meses sem um gole de álcool, uma substância ilícita, por qualquer que seja, e sem nada além de conversas de grupo, remédios que me deixavam burro e a sensação constante de que eu estava me desfazendo por dentro.
— Lembre-se, , um dia de cada vez — a terapeuta, uma mulher com a voz suave e os olhos cheios de uma pena que eu detestava, disse na porta.
— Vou tentar lembrar disso entre os solos de guitarra, as garrafas de whisky e as carreiras de pó, Mara — retruquei, dando de ombros. A jaqueta de couro preta parecia estranha no meu corpo, mais leve, como se eu tivesse perdido uma camada de pele dentro daquele lugar. Honestamente, não duvidava que tinha mesmo perdido.
Meu carro, um monstrinho lindo, preto e polido, esperava na calçada, com Leo, meu segurança e babá de plantão, ao volante. Ele acenou com a cabeça, sem sorrir. Leo era pago para não se importar com meu humor.
— O Sillas mandou uma mensagem — ele disse, assim que entrei no carro, o cheiro de couro novo enchia satisfatoriamente minhas narinas. — Quer te ver no The Pearl.
— O Sillas pode esperar — resmunguei, encostando a cabeça no vidro frio. Precisava de um cigarro. Precisava de um drink. Precisava de qualquer coisa que me fizesse sentir de volta no controle, em vez de um boneco sendo puxado pelas cordas de todos ao meu redor.
— Ele disse que é sobre a diretora nova. Do documentário.
Fechei os olhos.
A porra do documentário. Minha "redenção" cuidadosamente coreografada. A última diretora chorou. Ou foi a anterior? Já estava difícil lembrar. Todas se misturavam em uma mancha de lágrimas e frustração.
— Que seja então. — murmurei. — Vamos acabar com isso logo.

The Pearl era o tipo de lugar que Sillas adorava: discreto, caro e cheio de pessoas que fingiam não me reconhecer. Ignorei o maître com um aceno de cabeça e caminhei em direção ao canto onde Sillas sempre se sentava. Ele estava lá, é claro. Sorrindo aquele sorriso de tubarão, mas não foi nele que meus olhos se prenderam. Foi na mulher que estava sentada à sua frente. Uma mulher de cabelos escuros presos de maneira desleixada, usando uma blusa cinza simples e jeans. Nada de marcas, nada tentando chamar atenção. O jeito que ela estava sentada a deixava ereta, mas não rígida, as mãos estavam pousadas sobre a mesa como se estivesse totalmente no controle e tudo isso gritava que ela não estava impressionada. Que ela não estava ali para pedir nada.
Merda. Ele contratou uma freira?
Então, quando ela virou o rosto para mim, não foi exatamente a expressão de uma freira que eu vi. Seus olhos eram de um cinza claro e afiados como estilhaços de vidro, varrendo-me da cabeça aos pés em meio segundo, sem medo, sem admiração e talvez até com um pouco de raiva. Ela me avaliou, e pela expressão neutra em seus lábios, eu não tinha certeza se tinha passado no teste.
Bem, pelo menos é bonita.
Não uma beleza óbvia, de revista. Era algo mais afiado. Inteligente. Algo que fazia você querer olhar de novo só para tentar decifrar o que se passava por trás daqueles olhos.
— a voz de Sillas cortou a minha avaliação. — Excelente timing. Esta é . Sua nova diretora.
Meus olhos permaneceram fixos nela. Ela não desviou o olhar.
— Nova vítima, você quer dizer — disse, puxando uma cadeira e sentando-me sem cerimônia. Meu joelho deliberadamente quase esbarrou no dela, no entanto, ela não se moveu. Apenas baixou a vista para o meu joelho, depois voltou a me encarar, com a sobrancelha levemente arqueada.
Ponto pra ela.
— Olá, . — ela respondeu, o tom de sua voz era mais suave do que eu esperava, no entanto, ainda era um tanto quanto firme.
— Espero que seja mais durável que a última — disse, pegando o copo de água que não era meu e tomando um gole. — Ela acabou chorando no armário de limpeza. Acho que não gostou das minhas sugestões criativas. — Um flash de… desgosto? diversão? passou por seus olhos, rápido demais para eu capturar.
— Depende das sugestões — ela disse, com os dedos entrelaçados sobre a mesa, firmes e sem tremores. — Se forem tão clichê quanto suas letras de três acordes, talvez eu precise chorar também.
Um riso quase me escapou.
— Tenho certeza que não foi isso que ela quis dizer, .
Eu ignorei ele, ainda encarando . Havia uma serenidade nela que era ao mesmo tempo intrigante e irritante. Como ela conseguia ficar tão calma? Ela não tinha ouvido as histórias? Não sabia quem eu era nem a fama idiota que me precedia?
— E o que te traz para o meu circo particular, ? — perguntei, inclinando-me para frente, invadindo o espaço dela. Seu perfume era leve, algo como lavanda e papel velho. Nada do cheiro doce e pesado que eu associada às mulheres em meu mundo. — Sillas deve ter te pagado uma fortuna.
Ela finalmente moveu as mãos, cruzando os braços sobre o peito, num movimento despretensioso que, no entanto, me fez sentir como se eu fosse um estudante de primário sendo repreendido pela professora da classe.
— Todo mundo tem seu preço, — ela disse, seu tom era plano e sereno. — O meu só era mais alto que a sua capacidade de assustar as pessoas.
Um sorriso lento e involuntário curvou meus lábios.
Boa. Ela tinha colhões, outro ponto para ela.
— Isso vai ser interessante — murmurei, mais para mim mesmo do que para ela.
Seus olhos de aço encontraram os meus mais uma vez
— Não para você. — O canto da boca dela se curvou levemente enquanto ela sussurrou de volta.
Leo, que estava parado a uma distância discreta, tossiu para disfarçar uma risada. Até Sillas parecia impressionado com a audácia dela.
Os olhos dela não se afastaram dos meus, e pela primeira vez em meses, algo dentro de mim, além do tédio, despertou.
Era o instinto de caça.
— Não para mim? — Repeti, baixando a voz para que apenas ela ouvisse. Sillas observava, com o claro sorriso de dono de circo ainda estampado no rosto, satisfeito que os animais estavam se encarando. — Querida, assistir você tentar me domar vai ser o melhor entretenimento que eu tive desde que saí daquela clínica.
Sillas, que tinha ficado em silêncio observando o nosso duelo como um espectador numa rinha de galos, decidiu intervir.
— Perfeito! — ele se intrometeu, batendo a mão levemente na mesa. — Vejo que a química já está fluindo. Excelente para as câmeras. — Os lábios de se curvaram em algo que quase era um sorriso. — Acho que vocês dois vão trabalhar muito bem juntos. , terá acesso total. A partir de segunda-feira, ela e sua equipe estarão com você em todos os momentos. Ensaios, gravações no estúdio, shows... até mesmo nos seus momentos de "lazer". — Ele deu uma ênfase especial na última palavra, um claro aviso disfarçado.
Meu olhar permaneceu preso ao de . Ela não pareceu perturbada com a ideia de me seguir como uma sombra. Na verdade parecia aceitar o desafio muito bem, como se dissesse: "Tente me chutar. Eu gostaria de ver você tentar."
— Acesso total? — repeti, com minha mente já considerando todas as possibilidades, as provocações, as armadilhas que eu poderia armar para ela. As portas que eu poderia trancar. As verdades que eu poderia sussurrar no escuro só para ver se ela tremia. — Que sorte a minha.
— Nos bastidores, nos estúdios, nos camarins — Sillas confirmou, com seus olhos brilhando com avareza. — O público quer autenticidade, . Eles querem ver a luta. A jornada do herói.
— Eles querem ver um animal enjaulado — retruquei, sentindo a velha raiva subir na minha garganta.
— E você está sendo pago cento e noventa e sete milhões para sentar quieto na gaiola e rosnar de vez em quando — ele respondeu, com sua doçura desaparecendo. Era por isso que eu, em algum nível, respeitava aquele velho bastardo. Ele nunca fingia ser algo que não era por muito tempo. — As filmagens começam segunda-feira
— Espero que você tenha feito seu seguro de vida. — Eu disse, mantendo o olhar preso nela.
— Preocupe-se com o seu, Rovahn.
Ela finalmente pegou a taça de água que eu tinha bebido e, sem quebrar o contato visual, colocou-a de lado e pegou um copo limpo. Eu ignorei o gesto de nojo dela, pegando a caneta que ela tinha usado para assinar o contrato e girando-a entre meus dedos.
Sillas agradeceu ela por ter vindo e, então, ela virou as costas e saiu.
— Bem, essa foi uma reação diferente — ele comentou, pegando sua taça de whisky.
Eu não respondi.
Meus olhos, traiçoeiros, tinham seguido cada movimento de enquanto ela saía, e agora estavam firmemente fixados na sua retaguarda. A mulher vestia um jeans simples e uma blusa, nada que tentasse ser sensual, mas a maldita tinha uma bunda que era uma obra de arte da natureza. Redonda, perfeita, e que balançava com uma confiança silenciosa que fez meus dentes se apertarem.
— Pare de olhar para a bunda da sua diretora, — a voz de Sillas cortou meu foco, cheia de diversão.
— Eu não estou… — comecei a mentir, mas ele me interrompeu com um aceno de mão.
— Por favor. Eu a contratei, não sou cego. — Ele tomou um gole.
Arrastei meus olhos para longe da porta e os fixei nele, um sorriso sarcástico surgindo em meus lábios.
— Relaxa, Sillas. Eu sou um cavalheiro.
— Você é um desastre com jaqueta preta. E ela é a profissional mais cara que eu já contratei. Mantenha isso em mente. — Ele inclinou-se para frente, o tom se tornando sério. — Ela é a sua última chance, . A última peça do quebra-cabeça para essa turnê ser um sucesso. Comporte-se. — Virei-me de volta para a mesa, pegando o copo de água que ela havia tocado e esvaziando-o de um só gole. Ainda dava para sentir o fantasma do perfume dela. Sillas balançou a cabeça, mas o sorriso não desapareceu do seu rosto. — Ela não é seu tipo, . E, pelo que pude perceber, você definitivamente não é o tipo dela.
— O meu tipo é 'gostosa e me odeia', Sillas. Ela se encaixa perfeitamente.
— Se você assustá-la…
— O que? — Eu o interrompi com certo sarcasmo — Você vai me mandar de volta para a clínica? Vai cortar meu financiamento? — Me inclinei sobre a mesa, mantendo o sorriso no rosto. — Você e eu sabemos que eu valho muito mais para você como o garoto-propaganda problemático do Vantar do que como um zumbi bem-comportado. Eles não pagam bilhões para ver um homem são. Eles pagam para ver o gênio à beira do abismo. E ela não vai durar duas semanas — disse para Sillas enquanto caminhávamos para a saída.
Mas pela primeira vez, eu esperava estar errado.
Puta que pariu, eu mal podia esperar para voltar ao trabalho.





A porta do elevador se fechou atrás de mim, isolando-me no silêncio abafado do corredor do restaurante. Só então deixei que a máscara de frieza rachasse e soltei um longo e trêmulo suspiro, por fim, apoiei suavemente as costas contra a parede fria, sentindo as pernas fracas.
Merda.
Aquele homem era pior do que eu imaginava.
Muito pior.
Minha mente rodopiava, regurgitando cada momento daquele encontro desgraçado. A postura desleixada de Rovahn, se jogando na cadeira como se o mundo todo fosse seu apoio de pés. Aquele olhar... Deus, aquele olhar que me despiu e me avaliou em dois segundos com um tédio arrogante, como se eu fosse um obstáculo menor no caminho dele para o próximo gole de uísque.
Filho da puta.
A palavra ecoou na minha cabeça, venenosa e satisfatória.
Arrogante, egocêntrico, mimado, desgraçado…
Demorou exatas uma hora e dez minutos de xingamento contra ele. O tempo exato do restaurante até a minha casa praguejando a existência de Rovahn.
Puxei a chave do bolso, mas minhas mãos ainda estavam um pouco trêmulas pela raiva contida. A imagem dele pegando meu copo de água, bebendo como se fosse um direito dele, me fez ranger os dentes. Não era só o jeito irritante que ele tinha que me incomodava, era a audácia, a completa falta de noção de limites.
Era tudo um jogo para ele, um teste para ver até onde podia empurrar.
Ele continua sendo exatamente o tipo de homem que destrói mulheres como a Lydia. Exatamente o mesmo.
O ódio me fez enfiar a chave na fechadura com força.
A porta da minha casa se abriu para um espaço impessoal e limpo. Joguei minha bolsa no sofá e caminhei direto para a pequena cozinha, enchendo um copo com água gelada. Bebi tudo de um só gole, tentando apagar a sensação residual dele no ar, o fantasma do seu perfume amadeirado e do seu desdém. Tentando deletar de todo o meu sistema aquele seu sorriso lento quando eu revidei. Como se eu fosse um animal de estimação novo fazendo um truque engraçadinho.
Ele estava se divertindo.
A minha raiva, o meu desprezo, tudo isso era entretenimento para ele.
Vá para o inferno, Rovahn.
Eu estava aqui por Sophie. Cada centavo daquele salário obsceno iria para a Haven, para dar à minha irmã uma chance de viver uma vida que não fosse definida por dor e medo.
Eu era uma mercenária, e ele era o trabalho. Nada mais.
Novamente me lembrei da expressão dele quando eu peguei o copo que ele tinha bebido e coloquei de lado, o seu olhar brilhou como se eu tivesse finalmente feito algo que valesse a pena sua atenção. Eu não queria a atenção dele. Eu queria o meu dinheiro e sumir. Queria documentar sua queda, não me tornar parte do espetáculo.
Abri minha pasta no laptop, sentindo a luz azulada iluminar a escuridão que começava a cair lá fora. Havia e-mails para responder, cronogramas para estudar e um império de logística para dominar. Era nisso que eu era boa, no controle, na ordem.
E Rovahn era o caos personificado.
Eu conseguia ver nos olhos dele o quanto ele não acreditava em mim, o quanto ele me via como mais uma peça descartável em sua máquina de auto-destruição.
Tudo bem, seu babaca.
Meus dedos pairaram sobre o teclado, com mais inspiração do que jamais tive a vida inteira.
Vamos brincar.
Ele queria um espetáculo? Ele teria um. E quando eu terminasse com ele, o mundo inteiro veria o homem vazio, a farsa, o menino mimado que brincava com a dor dos outros porque não tinha coragem de enfrentar a própria.
Eu não era a Lydia.
Eu não estava aqui por admiração, eu estava por Sophie.
E por vingança.
E, secretamente, no fundo mais profundo e sombrio da minha alma, uma pequena e terrível parte de mim mal podia esperar para ver a expressão no rosto dele quando ele percebesse que, pela primeira vez na vida dele, ele tinha encontrado alguém que não apenas resistiria ao seu fogo, mas que tinha vindo preparada para jogar gasolina.
Ele achava que ia me destruir? Pois morreria tentando.
Eu não filmaria a lenda. Eu filmaria o homem. Cada piscar de olhos nervoso, cada surto de raiva, cada momento de fraqueza que ele tentasse esconder atrás de um acorde de guitarra ou de uma piada ácida.
Eu me lembro da Lydia. Não da Lydia dos últimos dias, frágil e quebrada, mas da Lydia de antes. A Lydia que dançava no nosso quarto de dormitório com um pôster dos Vantar na parede, a Lydia que tinha seus olhos brilhando com uma fé cega. "Ele entende a dor, ", ela me disse uma vez, segurando o álbum contra o peito. "Ele canta o que eu sinto."
Rovahn não entendia a dor de ninguém além da sua própria. Ele a empacotava e vendia como entretenimento, enquanto pessoas reais como Lydia se afogavam nela.
Um plano começou a se formar na minha mente, eu não confrontaria ele com raiva. A raiva era o que ele esperava, o que ele sabia como manipular. Em vez disso, eu usaria um silêncio impenetrável e uma paciência de santa. Eu seria um espelho, refletindo cada um dos seus truques baratos, cada tentativa de chocar ou intimidar, se volta para ele. Eu o forçaria a se encarar, dia após dia, até que não restasse nenhum lugar para ele se esconder. E quando ele finalmente quebrasse, porque homens como ele sempre quebram, minha câmera estaria lá. Pronta.
Mas um espelho era uma defesa, não um ataque.
Para realmente atingi-lo, eu precisava atacar onde ele era mais vulnerável e, Deus me perdoe, eu sabia exatamente onde ficavam essas feridas.
Houve um tempo em que minha vida girava em torno de Rovahn. Uma época vergonhosa e doentia, da qual eu sentia nojo ao lembrar. Eu era pior que uma fã; era uma estudiosa. Eu devorava cada entrevista, analisava cada letra como se fosse um código, mapeava cada uma de suas manias com a precisão de um profiler. Sabia que ele detestava o som de pessoas mastigando, que tinha um medo irracional e patético de aranhas e, o mais crucial, que ele tratava a luz do sol como um vampiro. Ele era uma criatura noturna. Suas raras aparições diurnas o mostravam sempre pálido, de óculos escuros, irritadiço e visivelmente desconfortável, como se a claridade física pudesse, de alguma forma, expor suas sombras interiores.
Seria perfeito.
Peguei o celular, com minhas digitais já secas e minhas mãos firmes e liguei para Sillas. Ele me atendeu no segundo toque.
— Silas? aqui.
. — A voz dele era neutra. — Por favor, não me diga que já desistiu. Aquele contrato tem uma multa, sabia?
— Pelo contrário, tive um insight para a primeira filmagem.
— Estou ouvindo.
— Precisamos quebrar a imagem pública do desde o início. E se mostrarmos o contrário? Temos que fugir do óbvio se quisermos destaque.
— O óbvio seria?
— A escuridão, o caos, os bastidores noturnos, os shows de rock. Isso todo mundo já vê, não seria atrativo para o público. Nós precisamos de contraste, de claridade.
Sillas, do outro lado, ficou em silêncio. Eu conseguia imaginá-lo em seu escritório, com os dedos tamborilando na mesa de madeira maciça, enquanto calculava a minha ideia como um dos riscos que ele controlava tão bem.
— Que tipo de claridade? — a pergunta era cautelosa.
— A claridade literal do sol. Pensei em um amanhecer na praia. A primeira luz do dia refletindo no mar, banhando o … seria uma metáfora visual poderosa do renascimento dele. O público vai adorar.
— O problema é que o vai odiar. — ele retrucou, secamente. — Ele é um morcego que veste couro. Vai ficar de péssimo humor, resmungando, e provavelmente vai sabotar a filmagem.
Meu coração acelerou, para um empresário bem sucedido, Sillas conseguia ser bastante manipulável.
— Exatamente! — exclamei, injetando um entusiasmo cuidadosamente dosado na minha voz. — É isso que vai tornar real, Sillas! O desconforto dele! A luta interna! Colocar um homem que vive na sombra sob a luz crua do amanhecer é genial! A resistência dele é a história, é a metáfora que se torna realidade. Será a coisa mais honesta que ele já fez na frente de uma câmera e, consequentemente, a que mais vai trazer conexão com o público.
Houve outra pausa, mais longa desta vez. Eu segurei a respiração. Estava me vendendo não como uma vingativa, mas como uma visionária. Uma garota-prodígio que estava prestes a entregar a ele o momento mais autêntico da carreira de seu artista. Até eu compraria a ideia.
— Você tem uma forma perversa de pensar, — a voz dele vinha carregada de interesse e medo, ao mesmo tempo. — Cinco horas é o mais cedo que eu vou conseguir. Podemos fazer isso na praia do sul, é uma das favoritas daquele desgraçado, mas se ele quebrar uma câmera, o custo sai do seu cachê.
— Ele não vai quebrar nada — garanti, com uma calma que não sentia. — Confie em mim. Você me contratou para isto afinal, não foi? Então me deixe trabalhar. O resultado vai ser inesquecível, Sillas. Inesquecivel.
Amanhã a caça começaria e o predador, pela primeira vez, não seria ele.



Rovahn


Eu e Jax estávamos no estúdio de ensaio, tentando encontrar um novo refrão que não soasse como uma cópia barata de tudo que já havíamos feito, coincidentemente estávamos falhando miseravelmente.
— Está uma merda — declarei, jogando a guitarra no sofá.
— Só porque você acordou com o pé esquerdo não significa que a música é ruim — Jax retrucou, dedilhando uma linha de baixo persistente. — Significa que você é insuportável e apenas isso.
Eu pensei em responder e em dizer que aquele toque era genérico e não tinha emoção alguma, mas antes que eu pudesse expressar minha indignação, meu telefone tocou. Esperei para ver se haveria desistência, quando não houve, peguei o telefone. Só uma pessoa insistia daquele jeito.
— Fala — atendi, sem disfarçar o tédio.
, meu campeão! — a voz dele era simpática demais, o que sempre significava problemas. — Como vai a criatividade?
— Está indo embora a cada segundo que eu falo com você. — Por mais hostil que parecesse, eu e Sillas tínhamos uma ótima relação. Ele era o mais próximo que tive de um pai, mesmo assim, era divertido irritar o velho. — O que você quer?
— Só uma atualização de agenda, já que você ignora tudo que envio por e-mail. A teve uma ideia brilhante para as primeiras imagens.
Jax fez uma expressão de "quem diabos é ?" e eu revirei os olhos. A minha urgência não estava em explicar quem era ela, mas sim na sensação de desconfiança pura que começou a se formar no meu estômago. Todas as outras ideias boas de diretores, incluíam me fazer parecer um palhaço.
— Que tipo de ideia? — perguntei, mas a pergunta era mais um aviso.
— Ela quer capturar você no alvorecer, vai ser uma metáfora de um novo começo. Lindo, não é? — Eu podia ouvir o tom de satisfação vindo bem no fundo da voz dele.
Velho maldito.
Eu não acreditei no que estava ouvindo.
— Perdão, acho que a ligação cortou. O que foi mesmo que você disse?
— A filmagem começa às quatro da manhã na praia do sul. O carro passa na sua casa.
O silêncio no estúdio foi absoluto. Até Jax parou de tocar.
— Quatro da manhã? — minha voz não passou de um sussurro incrédulo. — Na PRAIA?
— A luz é perfeita nesse horário, . As fotos vão ficar ótimas e o investimento vai ser baixo, considerando a iluminação natural.
— É uma porcaria! — gritei, explodindo. Levantei-me tão rápido que a cadeira caiu para trás com um baque. — Você perdeu completamente a cabeça, Sillas?! Quatro da manhã? Eu não vejo as quatro da manhã desde que eu tinha dezenove anos e estava drogado até a alma!
— A autenticidade é a chave, . A acha que…
— EU NÃO DOU A MÍNIMA PRA O QUE A ACHA! — berrei, segurando o celular com tanta força que quase o esmaguei entre os dedos. — Você pode enfiar essa metáfora de novo começo no…
Clique.
A linha caiu.
Fiquei parado, ofegante, olhando para o telefone.
O desgraçado tinha desligado na minha cara.
— Quem ela pensa que é? A Mãe Natureza? Vamos fazer um piquenique na porra do nascer do sol? — Era pessoal. Tinha que ser. Ela não estava apenas fazendo um documentário, ela estava declarando guerra. E o primeiro ataque tinha sido brutalmente eficaz. — Ela não sabe com quem está mexendo. — murmurei, pegando o violão e dedilhando um acorde distorcido e agressivo.
Jax riu, pegando seu baixo de volta.
— O que eu acho, meu amigo, é que ela sabe exatamente com quem está mexendo. Só que parece que ela não se importa.
Fiquei em silêncio por um momento, os dedos descansando nas cordas. Jax tinha a habilidade irritante de tocar nos pontos certos com a precisão de um cirurgião bêbado.
— Ela é paga para me aguentar e eu sou pago para ser aguentado. É uma transação, se ela não facilita o meu trabalho, então eu vou dificultar o dela.
— Toda transação tem um vencedor e um perdedor, . — Jax se aproximou, baixando a voz. — E pelo que eu vi até agora, ela está ganhando. Ela te botou numa praia às quatro da manhã, cara. — Ele deu um tapinha no meu ombro, pegou o caso do baixo e começou a se encaminhar para a porta. — A Lauren queria seu cartão de crédito, a Sarah queria sua alma. O que essa quer? Porque até agora, parece que ela só quer ver você se afogando.
— Não sei o que ela quer, mas ela esqueceu a parte em que eu construí um império de bilhões de dólares nessa merda de indústria. Não se faz isso sendo burro.
A admiração dela no restaurante era real, por segundos, enquanto eu entrava, eu vi os olhos dela brilharem. Eu vi. Esse ódio profissional e meticuloso dela agora era o outro lado da mesma moeda. Pessoas não dedicam tanto esforço para destruir algo que desprezam. Elas simplesmente ignoram.
— Cuidado, — Jax advertiu, antes de fechar a porta. — Você está procurando problema.
Meu sorriso se alargou.
— O problema é o que me mantém interessado, Jax. Sempre foi. — Baixei a guitarra e peguei minha jaqueta, encarando nosso reflexo distorcido no corpo negro e polido do instrumento. — E essa mulher acaba de se tornar o meu problema favorito.
Ela queria uma guerra? Tudo bem. Mas ela não era a única que podia jogar sujo. Se ela queria me ver no nascer do sol, eu ia dar a ela um espetáculo.

[...]


Cinco horas da manhã não era um horário. Era a porcaria de uma obscenidade, uma violação dos direitos humanos básicos de qualquer ser humano que não seja um padeiro ou um psicopata. Atirei um travesseiro na direção do som, mas o aparelho continuou com o barulho insuportável, me fazendo contemplar seriamente a ideia de jogá-lo pela janela, em vez disso arrastei meu corpo para desligá-lo e fui até o chuveiro, deixando a água gelada parte da ressaca moral que sempre me acompanhava ao acordar.
A reabilitação tinha muitas desvantagens, mas pelo menos lá ninguém me acordava antes do sol nascer para "capturar a luz do amanhecer". Que porra de frase idiota. Eu era um músico de rock, não a droga de uma semente de girassol.
A van do estúdio cheirava a café barato e otimismo falso. Ignorei os bom dia animados da equipe, enfiei meus fones de ouvido e fingi dormir o caminho todo. Quando chegamos no local, me deparei com uma praia deserta, eu estava de um humor tão negro que a areia quase escureceu sob meus pés. A nova diretora, é claro, já estava lá.
Quando cheguei ela estava de costas para mim, observando o mar. Seu casaco cinza parecia absorver a pouca luz disponível no lugar e apesar dela estar impecável, o que me surpreendeu foi o tamanho da equipe. Tínhamos apenas um cinegrafista, um operador de som e ela. Era a menor equipe que eu já tinha visto em um set.
Ela nem olhou para mim quando eu cheguei, apenas fez um gesto sutil para uma cadeira de praia solitária posicionada perto da água.
— Não — grunhi, parando ao lado dela. — Não vou sentar naquela coisa e ficar olhando para o mar como a porra de um Hamlet deprimido.
— Eu sou sua diretora, . Lamento informar, mas você vai fazer o que eu quiser.
O que mais me enfureceu não foi o jeito que ela falou isso, foi a parte de mim, pequena, enterrada sob toneladas de cinismo, que se contorceu de satisfação ao ouvir aquilo. Meus dedos se contraíram. Eu queria quebrar algo. Preferencialmente o ego impecável dela.
— Você acha que pode me dar ordens? — Minha voz saiu mais baixa e logo avancei um passo, invadindo o espaço que ela tão cuidadosamente mantinha. O vento marinho agitou o cabelo dela, mas ela não recuou. Seus olhos, da cor do céu antes de uma tempestade, mantiveram os meus. — Você não sabe mesmo com quem está falando.
Era uma atuação brilhante, até para os meus padrões. Eu quase pude sentir a equipe tensa atrás de nós, segurando a respiração, mas a verdade, a verdade era que eu obviamente faria o que ela queria. Eu já havia decidido na noite anterior. Eu cederia, mas sem o espetáculo de fúria que ela esperava. Essa pequena encenação era só para salvar as aparências. Para fazer ela acreditar que ainda estava no controle do jogo.
— Sei perfeitamente. Estou falando com um homem que está a uma contratação de distância de ser demitido pela própria gravadora. — Ela inclinou a cabeça, num movimento quase imperceptível. — E que, apesar de toda a sua famosa rebeldia, assinou um contrato que o obriga a cooperar comigo. Então, você pode fazer isso do jeito fácil, ou pode fazer do jeito difícil. No final, o resultado será o mesmo. Você, sentado naquela cadeira.
Três diretores antes dela tinham chorado. Dois tinham pedido para sair do projeto. E eu estava aqui, sentado numa cadeira de praia como um bom menino. Era a forma mais íntima de violência que eu já tinha experimentado, obviamente jamais admitiria isso. Seria dar a ela ainda mais pontos do que ela já tinha. Três pontos, em dois dias? Seria record. Além disso, depois de meses de reabilitação forçada e simpatia falsa, uma boa briga era exatamente o que eu precisava. Tudo bem eu ceder, se, no fim, a diversão iria aumentar em poucas doses. A decepção dela era quase palpável. Ela esperava fogo, e eu lhe dei gelo. Pelos meus cílios, vi a mão dela, que estava relaxada ao lado do corpo, fechar-se levemente.
— Odeio essa cadeira — cuspi, olhando para o móvel de vime como se fosse uma ferramenta de tortura.
— Todos nós temos nossos sacrifícios a fazer — ela respondeu, pela primeira vez com um fio de cansaço — não por mim, mas pela situação — permeou sua voz. — O meu é acordar às três da manhã. O seu é sentar-se nela por vinte minutos.
Era tão irracionalmente lógico que me deixou sem ar. Sinceramente, eu estava descobrindo uma admiração doentia pela forma como sua mente funcionava. Com um ruído de frustração que veio das profundezas do meu peito, virei-me e afundei na cadeira. O vime rangeu, reclamando do meu peso. Cruzei os braços e meu corpo todo uma linha tensa de desafio.
— Feliz? — rosnei.
Ela não respondeu. Apenas fez um sinal para o cinegrafista. A câmera zumbiu, focando em mim. E então ela se moveu. Não para trás das cenas, mas para o lado, ficando à beira do meu campo de visão. De pé, observando o mar que eu me recusava a encarar, seu perfil cortando a luz fraca. Meu corpo, traindo cada princípio que eu já tive, começou a ceder. Os ombros, sem minha permissão, baixaram um centímetro. Era um alívio patético, depois de uma vida sendo a pessoa no comando, a fonte de todo o caos, parar de lutar, mesmo que por apenas vinte minutos.
— Vou precisar passar um pouco de pó no seu rosto. — Ela informou, se aproximando calmamente com uma pequena necessaire que estava no canto, ao lado dela.
— Não sou o adereço da sua foto bonita.
— Não, você é o produto. E produtos precisam estar bonitos e bem iluminados.
não se posicionou atrás do monitor. Em vez disso, se agachou na areia, ao meu lado. Sua proximidade era desconcertante. Pela primeira vez, notei uma pequena cicatriz perto de sua têmpora esquerda, uma linha branca e fina quase escondida pelos fios de cabelo. Como ela tinha conseguido aquilo?
— Relaxe o maxilar — ela disse, com sua voz mais baixa agora. — Você parece pronto para morder alguém.
— Eu estou.
Jaxton riu baixinho, se apoiando em uma duna próxima.
— Que delícia de cena. — O infeliz murmurou, me fazendo encarar ele com mais ódio do que jamais senti.
— O que você está fazendo aqui, Jax?
— Sillas me pagou. Disse para eu garantir que você não jogasse nenhuma câmera cara no mar de novo.
— Shh. Fiquem quietos. Jax, por favor, vá para outro lugar, sim? — Jax a olhou ofendido, então olhou para mim esperando alguma reação, mas apenas dei de ombros. Assim que ele se afastou, ela continuou. — Velar, cena um, tomada um.
Como se o mundo todo estivesse concordando em ceder a , uma maldita gaivota pousou na areia à minha frente.
— Até os pássaros me julgam — murmurei.
não respondeu. Quando olhei para o lado, ela estava sorrindo. Não um sorriso de deboche ou vitória, mas algo suave e quase inadvertido. Um simples sorriso transformou completamente seu rosto, apagando temporariamente a rigidez que ela carregava. Era um sorriso muito bonito para alguém tão irritada.
— Ela não está te julgando — ela sussurrou. — Só quer saber se você tem comida.
— Pois diga a ela que estou mais faminto do que ela.
A gaivota inclinou a cabeça, como se estivesse considerando minhas palavras.
Ela se levantou, sacudindo a poeira de areia que não chegou a cair de suas calças.
— Olha só, achamos alguém que gosta de você. — A gaivota olhou para mim, em seguida soltou algum som ridículo e engraçado. — Pronto. Conseguimos.
— Conseguimos o quê? — perguntei, genuinamente intrigado.
Ela já se afastava, mas jogou a resposta sobre o ombro, com um sorriso que, agora sim, esbanjava vitória.
— O sorriso.





A porta do camarim fechou-se atrás de mim com um clique suave. Só então permiti que meu corpo desabasse contra a madeira, sentindo minhas pernas cederem sob o peso de uma verdade forte, mas que eu não queria admitir.
Merda.
Aquele sorriso ainda tinha um poder fora do comum sobre a fã que insistia em não morrer dentro de mim. Aquele sorriso pequeno, espontânio e genuíno que transformara completamente seu rosto, revelando, por pouquíssimos segundos, o homem que tinha insistido em acreditar que existia. Um homem capaz de se divertir com a simples estupidez de uma gaivota. A reação imediata do meu rosto me irritou o suficiente ao ponto do calor que subiu por minhas bochecas se espalhar como tremor em minhas mãos.
A fã, a garotinha ingênua que pendurava pôrteres dele no quarto, despertou sussurrando um irritante fato: ele é ainda mais lindo quando sorri.
Maldita traidora.
Eu me empurrei para longe da porta, caminhando até o lavatório com passos trêmulos. A água fria jorrou da torneira, e eu molhei meu rosto, tentando apagar a imagem daquele sorriso.
Eu usei todo o meu conhecimento íntimo sobre ele, suas manhãs terríveis, sua aversão ao sol, seu problema absurdo com praia e areia. Tudo que estava ao meu alcance, eu tinha usado como arma. E esperava resistência, rebeldia, um comportamente explosivo que afastaria todos os diretores. Em vez disso, ele me entregou aquela cena perfeita: o rockstar contido, quase vulnerável, sob a luz do amanhecer.
E o pior é que toda aquela cena que montei para desestabilizar ele, funcionaria perfeitamente para o documentário.
Minhas mãos se fecharam na borda da pia.
Ele podia ser charmoso, podia ser inesperadamente autêntico, podia fazer aquela parte de mim que ainda se lembrava da admiração estremecer, mas ainda era eu que controlava as lentes e editava as narrativas. Quando este documentário estivesse completo, o mundo veria a verdade que eu escolhesse mostrar.
Respirei fundo, endireitando os ombros. O sorriso dele tinha sido bom, mas eu estava aqui para capturar a queda. Era isso que eu faria.
Sentei à minha mesa e ligei o equipamento de edição, determinada a mergulhar no trabalho. Por cinco minutos inteiros, revisei cronogramas e respondi e-mails com eficiência robótica. Até que a tela do meu laptop escureceu, entrando em modo de repouso.
E quando a tela se iluminou novamente, lá estava ele.
O take do sorriso.
O screensaver tinha ativado o último arquivo de vídeo aberto. E agora Rovahn me encarava da tela, congelado no exato momento em que seu rosto se abrira naquela expressão rara e genuína. Por um longo momento, fiquei apenas olhando. Estudei cada detalhe: o modo como os cantos de seus olhos se estreitavam, a suave curva de seus lábios, a maneira como a luz do amanhecer suavizava suas feições normalmente duras. A imagem era perfeita.
Clico com o botão direito.
Marco como favorito.
Faço o backup automático na nuvem.
Arquivo E77, take 4. Salvo em dois lugares agora: no meu sistema e na memória teimosa que se recusa a esquecer por que comecei a estudá-lo em primeiro lugar.
O toque do meu celular me arranca daquele loop de pensamentos autodestrutivos, trazendo consigo o lembrete automático da Aurora Haven.
Medicação de Sophie - 19h
Desligo o notebook com mais força do que o necessário, trancando o sorriso de lá dentro e começo a juntar as minhas coisas; bolsa, casado, chaves. No carro, a caminho do hospital, passo por um outdoor gigante anunciando a nova turnê do Vantar. A imagem dele, sério, com um olhar carregado, numa foto que já havia sido meu plano de fundo de tela, me encara na estrada. Como se fosse uma maldição.
Quando chego no hospital, alguns minutos depois daquela imagem me acompanhar, embora ela ainda me assombre. Sophie está acordada, sentada na cama com um livro aberto no colo. Seu sorriso é fraco e apaga instantaneamente o rosto de da minha mente.
— E aí, como está a minha irmã famosa? — ela brinca, mas a voz está um pouco cansada.
— Não sou famosa, Soph. Estou dirigindo um documentário, não fazendo um — respondo, me sentando na cadeira ao lado da cama e pegando sua mão. É fria, como está sendo todos os dias desde que ela começou o seu tratamento. — Como você está se sentindo?
— O mesmo de sempre. Entediada. Conta alguma coisa interessante.
O que eu conto? Que o homem que ela uma vez idolatrou na parede do nosso quarto agora é meu assunto profissional? Que eu o obriguei a acordar às quatro da manhã e, em troca, ele me deu um sorriso que está me tirando a sanidade? Que estou tão confusa quanto determinada?
— Nada interessante, apenas muita burocracia, logística, aquela coisa chata de sempre. — digo, evitando seus olhos enquanto ajusto o cobertor sobre ela.
Sophie me observa com a perspicácia aguçada de quem passa muito tempo deitada, lendo livros e usando-os como ferramentas para ler as pessoas.
— Você está mentindo. Algo aconteceu. Seu rosto está diferente.
Sinto o calor subir às minhas bochechas. Maldito sorriso do , ainda me assombrando.
— É só cansaço, Soph. Os horários são malucos.
— É o documentário do Vantar, né? — ela pergunta, e meu coração dá um salto. Eu nunca tinha contado detalhes. Não queria que ela soubesse que eu estava lidando com ele. — A enfermeira ontem comentou que viu uma notícia. Rovahn em turnê nova, com um documentário sendo filmado. Você tá trabalhando com ele.
Ela não parece brava ou animada.
— É só um trabalho. Um trabalho muito bem pago — enfatizo, apertando sua mão.
— Não deixe ele te machucar também.
Ela não precisou falar o nome de Lydia, não precisou dizer isso em voz alta, mas eu lembrei.
— Ele não vai. Eu não me importo com ele daquele jeito, Soph. — É a maior mentira que já contei. Eu me importo. Me importo com uma fúria tão profunda que beira a obsessão. E, depois de hoje, me importo com uma curiosidade tão perigosa que tremo ao pensar nela. — Agora vá dormir, sim? O seu medicamento já deve estar fazendo efeito e eu pedi para você não lutar contra o sono que ele causa.
— Você é chata. — Ela murmura, mas se aninha ligeiramente entre os lençóis, soltando a minha mão. Eu sorrio e, em seguida, me aproximo, dando um beijo em suas mãoes. Então espero ela dormir, observando-a.
Eu odeio mentir para ela.
Minha mente é traiçoeira por isso, porque me leva até ele de forma rápida. Por um segundo me pergunto onde ele está, se está em um hotel caro, provavelmente em um estúdio, ou fazendo alguma coisa tão extravagante e irritante quanto ele mesmo.
Pego o celular e abro o arquivo de vídeo do sorriso mais uma vez. Desta vez, não olho para os olhos dele ou para a curva dos lábios. Olho para o contexto: a cadeira de praia barata, a equipe mínima ao fundo, a gaivota boba. Vejo a cena pelo que ela é: uma armadilha que eu mesmo montei. E eu mesma caí. Num sorriso de um homem que eu mesma jurei odiar.
Esse era o problema, afinal. É muito mais fácil odiar um monstro do que um homem. Sophie está certa em se preocupar, não posso me dar ao luxo de ser a próxima vítima de seus comportamentos cruéis. Preciso me lembrar que, não importa quanta humanidade eu veja nele, não é meu trabalho redimi-lo. Ele não é um demônio. É um homem quebrado. E homens quebrados são perigosos não porque são maus, mas porque você consegue ver os cacos. E parte de você quer ajudá-los a se recolherem.
Meu telefone vibra. É uma notificação de e-mail do produtor associado com o cronograma de amanhã: "Entrevista Inidividual com Rovahn - 14h - Estúdio B | Processo criativo e influências"
A vida era uma bola imensa de ironias mesmo, uma maldita que insistia em lembrar, o tempo inteiro que vou ter que sentar diante dele e fazer perguntas que vão além da superfície. Vou ter que encarar aqueles olhos marrons que hoje, por um instante, perderam todo o cinismo. Vou ter que ouvir a voz dele, que é mais áspera pessoalmente do que nos discos, falando sobre coisas que importam.
E tenho medo.
Medo de que ele me conte algo verdadeiro.
Medo de que eu goste.
Medo de que, no final deste documentário, eu não seja mais capaz de separar a mulher que veio para destruí-lo da garota que um dia sonhou em conhecê-lo.
Entro no carro, mas não ligo o motor. Fico ali, no escuro, com as mãos no volante.
Sophie está certa. Eu preciso tomar cuidado.
Mas o perigo não é ele me machucar como machucou a Lydia.
O perigo é que ele me faça querer ser machucada.
O motor do carro ronca baixo quando finalmente ligo a ignição, mas não tiro da marcha. A playlist do meu celular conecta automaticamente ao bluetoth e os primeiros acordes de uma música antiga do Vantar enchem o carro.
Eu quase desligo, meu dedo paira sobre o botão, mas não consigo apertar.
É Whiskey and Regrets, do primeiro álbum. A música que a Lydia tocava em loop nos dias mais sombrios. A voz de , mais jovem, mais crua, corta o silêncio do carro. "Eu erro melhor do que acerto, e falo melhor do que sinto..."
Fechei os olhos.
É uma armadilha.
Tudo sobre ele é uma armadilha cuidadosamente montada, mesmo quando ele nem sabe que está montando.
Essa música foi escrita por um garoto de vinte e poucos anos cheio de raiva e talento bruto. O homem que eu enfrentei hoje na praia é o que sobrou depois que o talento virou fama e a raiva virou um vício, mas a voz, essa ainda é a mesma. Ainda consegue passar por todas as minhas defesas e tocar no mesmo lugar estúpido e sentimental que jurei ter cauterizado.
Abro os olhos e enfio o carro na marcha, a música continua tocando enquanto eu navego pelas ruas quase vazias, mas eu deixo. É uma forma de punição. De lembrar por que estou aqui. deveria ser uma tarefa, um meio para um fim, em vez disso, ele está se tornando o centro.
Volto para o meu notebook, mas não abro o roteiro do trabalho. Abro o meu aplicativo de notas secreto, aquele que existe desde a facudade. A senha é o nome da Lydia.
Clique.
O texto carrega.
"Ele pisca rápido quando mente."
Meus olhos descem pela lista que fiz quando tinha dezenove anos e muito tempo livre.
"Toca na cicatriz acima da sobrancelha esquerda quando está ansioso ou mentindo. (Caiu do palco em Berlim, 2014. Levou 5 pontos.)"
"A voz dele fica mais rouca e arrastada depois das 23h ou depois de três drinks. Antes disso, é limpa e cortante."
"Odeia a palavra 'gênio'. Endireita as costas e fica frio quando a usam."
"Tem uma tatuagem mal feita no pulso direito, coberta por outra depois. Nunca menciona. Cobre instintivamente com a mão esquerda ou a manga."
"Quando está realmente interessado em algo (não performático), os olhos não piscam. Ele 'engole' a cena ou a pessoa. Fica absolutamente imóvel."
"Tem fobia de abelhas/vespas. Não pânico, mas uma aversão física visível. Congela."

Paro de rolar. A lista continua, páginas e páginas. É assustador. É constrangedor. É a prova de que minha "obsessão profissional" começou muito antes de Silas Grant me fazer uma oferta.
E é, acima de tudo, um mapa.
Um mapa que usei hoje para colocá-lo naquela praia. Um mapa que posso usar amanhã para guiá-lo pela entrevista. Um mapa que me diz exatamente onde cutucar para provocar uma reação, e onde evitar para não causar um desastre. Amanhã, na entrevista, vou ter que usar esse conhecimento. Vou ter que observar cada piscar de olhos, cada movimento, cada inflexão de voz. Vou ter que jogar xadrez com um mestre, usando as jogadas que ele mesmo, sem saber, me ensinou.



Rovahn


O estúdio estava quente. , a minha frente, mantinha uma postura impecável, com as mãos calmas sobre a pancheta. Seus olhos me dissecavam vivos. Eu já odiava entrevistas, esta prometia ser uma cirurgia sem anestesia.
Era nítido o quanto essa mulher me desprezava.
— Dá pra baixar essa merda? Tô sendo interrogado, não assado.
O cara se mexeu rápido e logo diminuiu a temperatura.
— Vamos começar pelo começo — ela disse, assim que me sentei, mas a voz era neutra como um bisturi. — Whiskey and Regrets é a música que as pessoas mais associam a você. O que ela significa hoje? A Rolling Stone chamou de hino de uma geração perdida.
Armadilha. Pergunta feita para me fazer soar como um idolo pretensioso ou um rebelde ingrato.
— Acho que a geração seguinte teve hinos melhores — respondo, o sarcasmo vindo como um reflexo. — Os nossos eram muito barulhentos. Os deles são mais… eficientes em causar dano.
— Danos a quem?
— Aos próprios ouvintes, preferencialmente. É mais lucrativo.
— Falando em lucro. O processo criativo para esse novo álbum, depois de tudo ele mudou? Ou você ainda escreve do mesmo lugar?
Ela estava sondando a reabilitação, a sobriedade, sem mencionar nenhuma das palavras proibidas. Passei a língua nos dentes, sentindo o gosto metálico da raiva. Eu odiava falar sobre o processo.
— O lugar é o mesmo — retruquei, mas minha voz ficou mais lenta. — O apartamento é o mesmo. A guitarra é a mesma. A diferença é que eu canto sóbrio agora, então o gosto é pior.
— Então o processo de escrita continua exatamente o mesmo? — Havia uma certa incredulidade em sua voz. Dei de ombros.
— O processo é sentar e tentar não quebrar a guitarra contra a parede. Não mudou muito. Só a taxa de sucesso.
— E o que faz a diferença entre quebrar e não quebrar?
Eu mexi na cadeira. Era uma pergunta idiota.
O que faz a diferença? Acordar e lembrar que prometi ao Jax que não faria mais merda? Olhar no espelho e ver o mesmo cara de sempre, mas com um pouco menos de veneno no sangue?
— A diferença é que as guitarras tão muito caras
Ela me olhou por alguns segundos, pareceu se perder em alguns pensamentos e, por fim, acenou com a cabeça.
— Entendi — ela disse, simples assim. Como se tivesse coletado uma amostra satisfatória. — E a banda? Como tá sendo trabalhar com o Jax e a Lily nessa fase?
Ela quase disse “nessa fase sóbria”. Sei que pensou. Meus dedos encontraram o lóbulo da orelha esquerda e começaram a esfregar.
— Eles tão felizes porque eu chego no horário. Eu tô feliz porque eles não me encaram mais como uma bomba-relógio. É um bom acordo comercial.
— O que você quer que esse documentário mostre?
Pensei por um segundo. A verdade? Que eu queria que mostrasse o suficiente pra justificar o cachê e calar a boca da gravadora.
— Quero que mostre um cara fazendo o trabalho dele — falei, com a voz saindo mais cansada do que eu queria. — Nada de redenção, nada de vilão. Só um cara. Um cara com um trabalho chato e que escolhe os venenos preferidos, às vezes.
— E qual é o seu veneno preferido agora?
Olhei diretamente para ela.
— Você.
Ela não fez nenhum movimento brusco, mas seus olhos escureceram um tom abaixo do normal. Ela piscou de forma rápida, duas vezes e eu permaneci imóvel.
— Eu sou um veneno? — perguntou, com a voz ainda controlada.
— A única diferença entre um veneno e um remédio é a dose. Até agora, você está na dose certa para ser interessante. Passou disso, vira problema.
— E você trata seus problemas como?
— Como lixo tóxico. Isolo, embalo e enterro bem fundo.
Ela finalmente quebrou o contato visual, baixando os olhos para a prancheta. Ela quase riu, estava se divertindo com aquilo.
— Então eu sou um risco, um veneno em dose controlada e potencial lixo tóxico? Lembre-se que eu estou fazendo o seu Documentário, senhor Rovahn. — Ela levantou o olhar de novo.
Sorri, desta vez com um pouco mais dos meus dentes.
— Eu sei, o documentário é a seringa e eu sou só sou a cobaia.
— Cobaias geralmente não têm poder de veto sobre o que é filmado.
— Essa cobaia tem um contrato de cento e noventa milhões e um advogado melhor que o seu. — Inclinei-me para frente, deixando os cotovelos nos joelhos. — Você pode apontar a câmera, , mas eu decido até onde você foca.
O canto da boca dela se moveu lentamente, formando um quase-sorriso contido que me fez querer vê-lo por completo.
— Você pode decidir o que vou olhar, mas eu decido o que mostrar. E o público decide no que acreditar. É uma equação de três variáveis. Você controla apenas uma. Não está sendo um pouco... arrogante?
— Você se acha muito esperta. — murmurei, mantendo um sorriso forçado nos lábios.
— Não, eu sou esperta. E você também é. É por isso que estamos aqui.
— Isso foi um elogio? Porque posso ter algumas coisa a mais para te mostrar, algo maior que a minha inteligência.
A provocação saiu da minha boca antes que meu cérebro pudesse filtrar, era baixa e íntima mais. O operador de som ainda na sala, tossiu discretamente e começou a arrumar seus fios, dando-nos uma falsa privacidade.
O quase-sorriso dela congelou e então se transformou em algo mais estudado, mais calculado. Seus olhos fizeram um percurso lento indo do meu rosto, aos meus ombros e minhas mãos descansando nos joelhos, antes de retornarem ao meu olhar.
— Sua inteligência, no momento, é o único ativo que me interessa.
— Estou aqui para filmar os espaços entre os acordes, não entre seus lençóis.
— Que pena. — Inclinei-me ainda mais para frente, diminuindo a distância entre nossos rostos para menos de um metro. O perfume dela era discreto, mas havia um toque suave de lavanda e de algo mais cítrico. — Os meus lençóis têm uma acústica excelente.
Ela não recuou. Seus olhos, agora escuros como fumaça, permaneceram fixos nos meus. A respiração dela permaneceu calma, mas eu vi o movimento rápido na sua garganta quando ela engoliu seco.
— Eu aprecio coisas que têm substância, Rovahn. Durabilidade. — Ela inclinou a cabeça, um movimento estudioso. — Lençóis são descartáveis. Assim como os convites que você provavelmente está acostumado a distribuir.
Era isso que eu adorava nela, ela era rápida. Ela não recuava, ela contra-atacava. Era excitante, até.
— Nem todos os convites — retruquei, deixando meu olhar percorrer deliberadamente a linha do seu pescoço até a curva dos seus lábios. — Alguns são edição limitada. Para colecionadore
Ela finalmente riu, um som breve e seco que não chegou aos olhos.
— Ainda assim, consegue ser previsível.
Meus dedos brincaram com a corrente de prata no meu pescoço, um gesto casual que eu sabia que chamava atenção.
— Eu posso ser muitas coisas, mas previsível não é uma delas.
— Todo viciado é previsível — ela respondeu,. O ataque agora tinha sido mais pessoal, mostrava o epicentro do descontrole dela diluindo. Eu sorri.
— Sabe a melhor parte de estar sóbrio? — Ela me olhou com curiosidade e desdém, ao mesmo tempo. — É que tudo que eu digo, eu quero dizer.
— O que me diverte, no entanto, não é o que você diz em sua infinita sobriedade. — ela disse, pegando sua prancheta e se levantando — é imaginar o tom de vermelho que o rosto do Silas ficaria se essa gravação vazar. — Ela bateu levemente com a prancheta na palma da mão. — Então vamos manter o foco nos acordes, não nas insinuações de quinto escalão. Até amanhã, senhor Rovahn.
Enquanto ela saía, eu só conseguia pensar em uma coisa. Uma maldita coisa que meu corpo pareceu gostar tanto que começou a executar. O telefone tocou duas vezes antes que a voz lisa do meu empresário preenchesse a linha.
. Espero que esteja ligando para me dizer que não quebrou nada.
— Preciso de uma alteração no contrato do documentário, Silas.
Houve um silêncio carregado do outro lado da linha. Eu conseguia ouvi-lo calculando o custo.
— Que tipo de alteração?
— Quero a em tempo integral. Na turnê, no ônibus, no avião e em todos os shows.
— Ela já vai acompanhar os principais, . É o combinado.
— Não é suficiente.
— Pelo amor de Deus, . Ela não vai aceitar.
— Aumenta o cachê dela, sei lá, dobra. Eu pago a diferença.
Ele suspirou, um som pesado que conhecia bem e era suave aos meus ouvidos, como sons de rendição.
— Você está fazendo isso para dificultar a vida dela ou para melhorar o produto?
— Os dois — admiti. — Ela acha que me conhece. Quero dar a ela a chance de realmente conhecer. Vai ser educativo para todos nós.
— Se você fizer besteira, eu acabo com você.
Eu sorri. Então desliguei, sem esperar resposta.




Continua.


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