independent author of the cosmos 𓆉
atualizada em: 25.05.2026.
Em vida diante de ti estão novamente
Na morte ao teu redor, e sua vontade
Te obscurecerá: silencia-te."
— Edgar Allan Poe
Eles estavam atrás de mim.
E não era só por uma ou duas horas. Na verdade, eles estavam atrás de mim o tempo todo. Não importava onde eu estivesse, eles apareciam sem cerimônia, como se o conceito de tempo e espaço não fizesse diferença para eles. Quando eu estava em casa, dava para ignorar. Ou se estivesse sozinho em outro lugar, tudo bem também. Mas aí eles decidiam dar as caras na cafeteria ou no meio de uma aula, e aí não havia nada que eu pudesse fazer. Porque se eles quisessem me chutar ou puxar o cabelo, podiam. E faziam isso, com frequência.
Posso vê-los desde que me entendo por gente. Não só ver. Podia senti-los, ouvi-los e até tocá-los. Eles eram tão reais para mim quanto qualquer pessoa viva, e por isso, não era nenhuma surpresa o rótulo de “esquisitão” que ganhei dos outros. Afinal, o que você faria se visse alguém, aparentemente normal, começando a conversar sozinho no meio da rua? Pois é.
Por sorte, distinguir os mortos era fácil. Eles tinham uma aura... bem, mórbida. Estavam sempre pálidos e perdidos, perambulando pelas multidões. Os novatos eram os piores; gritavam aos quatro ventos, exigindo saber por que ninguém podia vê-los, porque estavam sendo brutalmente ignorados e porque não conseguiam nem botar as mãos em um envelope. Esses eram os que mais atrapalhavam a minha paz.
Era o preço que se pagava por ser um mediatário.
Basicamente, os mortos vinham até mim para resolver suas pendências aqui na Terra, como se eu fosse uma espécie de atendente de SAC do Além. Se isso te parece legal, recomendo uma consulta psiquiátrica. Porque não tem nada de bom em ser perseguido por um fantasma que quer que você leve um pedido de desculpas a alguém do outro lado do Estado, ou que implora para que você encontre um bom lar para o cachorro que deixou para trás. Ou, pior ainda, quando uma adolescente morta resolve que você vai ser o substituto do namorado que ela nunca teve.
Nunca considerei essa habilidade como um dom. Na verdade, ajudar os mortos só me dava dor de cabeça e cada vez mais distanciamento social. Elliott, meu melhor amigo, era a exceção. Ele era o único que nunca se importou com meu hábito de falar sozinho e desaparecer do nada. Nos conhecemos no ensino médio, e acabamos indo para a mesma universidade, o que foi um alívio. Fazer novos amigos nunca foi o meu forte. Fora o Elliott, as únicas pessoas vivas com quem eu mantinha contato recorrente eram meus pais, Margot e... minha avó. Tá, talvez essa última não estivesse tão viva assim.
Eu estava no quarto ano do programa de Medicina na Universidade Columbia. A escolha do curso e do campus tinham motivos plausíveis, pelo menos para mim. Queria me especializar na Oncologia, o que me traria pacientes que esperavam pela morte e eu poderia, de algum jeito, incitá-los a resolverem seus conflitos ainda em vida, tudo enfeitado com um papo bem coach. Poderia ser egoísta, mas era menos um fantasma que voltaria para me pedir ajuda depois. A escolha de Nova York também não foi por acaso. Uma cidade grande poderia esconder talentos, e dentre esses talentos eu quero dizer pessoas como eu. Nunca entendi como a seleção de mortos acontecia para nós, mas eu torcia para que eles fossem bem distribuídos de acordo com o número de pessoas disponíveis.
Minha escolha de usar jaleco branco deixava meus pais bem felizes. Desde que eles me buscaram no orfanato Saint Vincent’s em Petaluma, tenho sido motivo de orgulho em praticamente todas as minhas escolhas e atitudes, mesmo quando meus desaparecimentos e surtos de rebeldia aconteciam dia sim e dia não. Ou quando tive que ser buscado na delegacia diversas vezes entre o ensino fundamental e médio, com as acusações variando entre invasão de domicílio e desacato à autoridade. Situações de merda que saíam do controle por causa dos mortos, mas ainda assim, eles dificilmente me davam uma crítica dura. Sabia que minha mãe chorava no travesseiro à noite, assim como meu pai tirava seu Chivas Regal do armário do escritório e colocava pedras de gelo a mais, e isso me fazia pensar se eles se arrependiam de alguma forma por ter colocado um garoto estranho dentro de sua linda casa em Nob Hill.
A verdade é que eles não estavam arrependidos, e sim frustrados por não conseguirem se comunicar comigo, o que admito também ser culpa minha, que demorei pelo menos quatro anos para chamar Mary de mãe, o que seria incompreensível para toda a população americana que estava ciente da crista dourada que adornava esse sobrenome.
A família era dona de uma companhia de advocacia bastante rentável em São Francisco. O nome do meu pai, Hymie , é creditado e citado em várias entregas de prêmios empresariais por toda a Califórnia e continua sendo exemplo de gestão em vários outros Estados. Os flashes dos eventos de gala, jantares executivos na sala e pessoas estranhas trocando minhas roupas me lembravam do legítimo sentimento de peixe fora d'água. Eu odiava aquilo mais do que tudo. Odiava as perguntas inconvenientes sobre o meu passado, as insinuações sobre a possível miséria que era viver em Saint Vincent’s, as tentativas de arrancarem de mim um agradecimento público por ser salvo do terrível título medonho de órfão e várias, várias coisas.
A única solução para dar fim à toda essa exposição tenebrosa do único filho da família era me tornar um gênio que deveria estar sempre estudando ou se esforçando para a próxima prova ou um novo prêmio da feira de ciências.
Não deu outra; meus pais passaram a aceitar de bom grado que seu filho tinha outros interesses além de Led Zeppelin e tabuleiros de Catan. Depois disso, acumulei créditos o suficiente para desbancar até a geração passada na escola católica e assinei a matrícula em Stanford antes dos dezoito anos, a exatos quarenta minutos do aconchego e dos donuts de Mary. Passar os próximos dois anos e meio entrando e saindo de laboratórios de Biologia, Química Avançada e Física, encontrando uma legião de fantasmas tristonhos pelos corredores do departamento de Biologia no prédio Gilbert e tendo que torcer para que Margot recebesse folga mais cedo e aparecesse no parque Serra Grove em uma sexta-feira qualquer — onde eu sempre sabia que, assim que entrasse no carro dela, apareceria no próximo dia com uma nova tatuagem ou um novo piercing — para que me ajudasse com um probleminha de fantasma não foi a parte difícil. O difícil eram aqueles quarenta minutos. Era precisar voltar para casa depois de sumir por dois dias e não ter as mesmas histórias na ponta da língua que tinha com quatorze anos — elas mal serviam naquela época também. Era mais trabalhoso do que parecia disfarçar uma noite inteira em que você foi obrigado a mudar a inscrição de uma lápide com uma viga de ferro enferrujada, ou devolver as flores brancas de um velório ao remetente, porque “aquela vaca nem gostava tanto assim de mim. Quem ela pensa que é?” Eu não tinha mais desculpas convincentes aos vinte e um anos.
Estava na hora de ter espaço.
Mesmo com a maioridade e de ter dinheiro suficiente para me virar em Nova York — os investimentos na bolsa de valores da NYSE com a grana dos prêmios e estágios no laboratório de Bioquímica em Stanford foi o máximo que já fiz pensando em um futuro distante —, foi difícil convencer meus pais (e a própria Stanford) a aceitarem a ideia de eu me mudar para o outro lado do país. Depois de ouvir o choro de Mary por semanas, consegui que ela concordasse, junto à promessa de que me visitariam regularmente e que eu deveria ligar sempre. Essa parte era fácil, e fiz as malas mais rápido do que qualquer outro formando do pré-college de Palo Alto. Estava ansioso para ir para longe, já que é muito mais difícil seus pais — e qualquer outra pessoa com o mínimo de expectativas em você — se frustrarem com suas atitudes quando não estão por perto.
Eu não me importaria de ter pegado um quarto qualquer no alojamento do centro médico de Irving com outros calouros, mas meus pais insistiram que eu não fosse parar em um dormitório da universidade cheio de pessoas estranhas e com intenções desconhecidas. Por causa da superproteção de Mary, minha chave abria a porta de um belo apartamento na Upper West Side, ao sul de Manhattan, no quarto andar do Stonehenge Tower, um edifício quadrado de tijolos brancos com janelas grandes e um cacto no beiral. O negócio foi feito pelas minhas costas e me senti frustrado no início, mas, em menos de dois meses, quando estava ajudando Elliott com sua mudança para o Wien Hall e seu quarto minúsculo, porém agora individual, já tinha mudado de opinião, porque topar com uma alma penada verificando o pó da pequena escrivaninha do meu novo amigo foi chato. Pra caramba. Principalmente porque ele não entendeu nada quando o puxei para fora e disse que estava doido por um café de quinta categoria no lounge lá embaixo. E entendeu menos ainda quando eu disse que precisava urgentemente verificar uma coisa no seu banheiro e o pedi para ir na frente.
Por sorte, a assombração só queria saber se seu antigo quarto seria bem cuidado, porque ninguém esteve fazendo isso desde, sei lá… 1955? Os suspensórios me deixaram um pouco confuso com as datas, mas o que importa é que ele se mandou.
Ou seja: Mary foi um gênio, mesmo que nunca fosse saber disso. Como eu poderia pensar em morar com outras pessoas? Isso seria ignorar meu problema com os mortos. Morar em um lugar bem longe do campus e sem horários de entrada e saída foi a melhor decisão que deixei que tomassem por mim.
A liberdade se mostrou útil até naquele momento, quando eu acordei de um cochilo não planejado na biblioteca, levantando a cabeça com um sobressalto ridículo. Todas as articulações do pescoço estalaram. Meu Deus, parecia que eu tinha passado os últimos dois dias naquela mesa.
Saí de lá com a mente ainda embaralhada, tentando guardar um enorme exemplar de Brain Metastases de Hayat na mochila, o grande responsável pela minha insônia. Quando senti o celular vibrar no bolso, eu já sabia quem era — alguém que eu não precisava disfarçar um bocejo deprimente ou fingir que eu estava de bom humor.
— Fala. — atendi, posicionando o telefone no ombro enquanto empurrava o livro com mais força.
— Onde você está? Eu tô morrendo de fome. — Elliott gemeu do outro lado. — Já tá quase no fim do horário. E hoje tem hambúrguer! A gente nunca se atrasa pro hambúrguer.
— Você não tem membros ou dinheiro? — finalmente, consegui empurrar o livro inteiro. — Caso tenha membros, acho que você pode comer sem mim.
Ele estalou a língua e sabia que estava revirando os olhos.
— Qual é, . Você sabe que minha grana foi reduzida a zero no Lion’s Head semana passada. Me diz que pelo menos tá perto do JJ’s.
— Chego em cinco minutos.
— O Jeep chega em três.
— Três minutos na porta do John Jay e o seu bife vai ser bem passado.
— Argh. Feito.
Elliott já estava de pé na frente do restaurante do John Jay Hall quando finalmente apareci, com seus tênis Air Jordan falsificados, fones de ouvido e o boné de sempre com a aba para trás.
— Por que demorou tanto? Disse que tava sem aula de manhã. — ele murmurou quando me aproximei, e imediatamente caminhamos para os balcões de comida.
— Não tenho, tava na biblioteca. Andei preparando um artigo novo.
— Ah, é? Sobre o que é dessa vez? Bactérias que fazem plástico? — Elliott perguntou enquanto parava atrás da última pessoa na fila. Foi o momento perfeito que ele encontrou para começar a mexer no celular.
— Não, é só um artigo simples sobre as últimas descobertas da imunoterapia, e vou ver se consigo publicar no CJ antes do Spring Break. Tem certeza que hoje é hambúrguer?
A fila estava quilométrica. Tinha mais gente do que o normal, gente demais para um cardápio tão simplista. Eu e Elliott devíamos ser os únicos veteranos que ainda eram fissurados pelo hambúrguer de costela do John Jay, também porque a gente sempre aproveitava as fatias de torta de damasco que davam de sobremesa no mesmo dia — uma coincidência boa e bizarra. Devia ser por causa daquela piscadinha sedutora que Elliott lançou para a confeiteira no nosso primeiro ano. Mudou o rumo da coisa toda.
E hambúrguer de costela era um dos únicos motivos que me fazia sair de Vagelos e percorrer quinze minutos pela Riverside Dr. ao invés de me contentar com o prato do dia do Native Noodles. Elliott se importava bem mais com o que colocava no estômago do que eu.
— Viu o ranking semestral que saiu hoje? — Elliott nem tirou os olhos do celular quando disse, e muito menos emitiu qualquer tom de surpresa. — Você é o número 1 de novo.
Bufei em resposta.
Em todo começo de semestre, a Columbia divulgava um ranking dos alunos que foram mais bem sucedidos de acordo com o semestre anterior, tanto os da graduação quanto da pós, o que deixava o corpo discente completamente alucinado. Eu nunca imaginei que, entre a aristocracia da Ivy League, era mais descolado ser inteligente do que ser rico. A publicação do pódio era mais aguardada do que as férias de verão e, durante todo o semestre, esse lugar parecia um programa de sobrevivência.
Às vezes, sentia falta de Stanford e sua completa indiferença pública à genialidade alheia.
Já me senti cansado só de lembrar que, dali a algumas horas, receberia uma ligação de felicitação dos meus pais e precisaria responder à bajulação de professores e colegas no próximo horário. Isso não devia ser algo realmente ruim, ainda mais quando esse tipo de “título” trazia algumas vantagens: a revisão dos meus artigos sempre passava na frente no CJ, havia listas de hospitais e institutos de pesquisa entulhando minha caixa de entrada com propostas e o reitor me mandava convites de confraternização direto de seu e-mail pessoal. Era uma cascata de eventos que eu passava desde o primeiro ano, e que tive que aprender a lidar, mesmo que isso fugisse totalmente do meu plano aflito de ser invisível.
Naquela tarde, especialmente, eu gostaria muito de ter esse super poder.
Enquanto Elliott ainda estava concentrado em alguma rede social, um vento gélido arrepiou os cabelos da minha nuca. Antes que eu pudesse sequer pensar, uma voz rouca soprou em meu ouvido:
— Olá!
Continuei olhando para frente, fingindo que não tinha ouvido nada. Talvez se eu a ignorasse, ela se tocasse e fosse embora. Abri o celular e comecei a zapear por qualquer coisa, deixando o tempo passar. Ela ia perceber o que todos percebem: que ninguém podia vê-la. E enquanto eu não desse a primeira mordida naquele hambúrguer duvidoso com bastante ketchup, faria parte da maioria sim, com muito prazer. Não era uma boa hora para lidar com fantasmas.
Infelizmente, ela não só saiu do meu lado, como começou a tentar tocar em Elliott e em tudo que aparecesse à sua frente. Só para esclarecer, quando fantasmas tocam pessoas comuns, o máximo que elas sentem é um arrepio ou um frio súbito que logo passa. Para os mortos, não era muito diferente; é como tentar pegar uma massa cinzenta e pegajosa que escapa pelos dedos. Já com objetos, eles são bem mais habilidosos, meus hematomas podem confirmar isso.
Pessoas como eu, no entanto, conseguiam senti-los completamente. Não me pergunte por quê. Isso fazia com que os fantasmas nos achassem com facilidade e nos usassem para resolver suas pendências, como se fôssemos seus assistentes pessoais. Por isso, apesar da minha postura indiferente, eu estava aterrorizado com a ideia de que aquela garota decidisse me tocar naquele momento.
Vi Elliott se encolher com os calafrios causados pelo toque da fantasma e reclamar do frio. Continuei fingindo que nada estava acontecendo, enquanto nos aproximávamos das bancadas. Mas, no momento seguinte, quando Elliott deu um passo à frente e eu o segui, o fantasma não se moveu, o que fez com que nossos braços roçassem um no outro por um breve segundo.
Como um amador, acabei olhando para ela e, no mesmo instante, desviei o olhar. Tarde demais. Senti os dedos dela apertando meu braço direito.
— Você consegue me ver! Ei! Você tá me vendo, né?
Balancei o braço, tentando me livrar do aperto, mas ela ignorou o recado. Fechei os olhos, tentando manter a calma, e implorei mentalmente para que ela não começasse a fazer um escândalo.
— Por favor, me ajuda! Eu não sei o que aconteceu... Ninguém consegue me ver... Parece que eu, e-eu… morri…
Os olhos dela estavam arregalados e perdidos, o rosto pálido como um papel, e os cabelos ruivos desgrenhados caíam sobre o moletom com o brasão da faculdade de Direito da Columbia. A garota parecia ter uns vinte e poucos anos. E, por mais que estivesse desesperada no momento, não podia dar atenção para ela. Tentei sinalizar discretamente com a cabeça para que desse o fora, mas, em vez disso, ela apertou meu braço ainda mais forte.
— Por favor, eu te imploro! Me ajuda! Eu estava no meu quarto no alojamento e, de repente... — a voz dela falhou, os olhos mais esbugalhados, e senti o pânico crescendo dentro de mim. Ela parecia prestes a surtar. Surtar de um jeito nada legal.
A fila avançava e ela não soltava meu braço de jeito nenhum. Eu podia sentir as unhas dela cravando na minha pele, com uma força que só os mortos pareciam ter. Ao nosso redor, as pessoas riam e conversavam, sem fazer ideia do caos que estava rolando ali. Mas, se ela continuasse assim, todo mundo logo perceberia. Eles sempre percebiam.
— Agora não... — murmurei, o mais baixo que consegui, sem sequer olhar para ela, torcendo para que ninguém tivesse notado. Mas a coisa só piorou.
Ao perceber que eu realmente podia vê-la e ouvi-la, ela cravou as unhas ainda mais fundo, e senti o sangue começar a escorrer. Em seguida, fui puxado como um boneco de pano para o lado, bem na rota de saída das pessoas que seguravam suas bandejas já prontas e cheias. Quando me dei conta, vi suco de laranja se espalhar pela minha camiseta, seguido pelo impacto dos meus joelhos no chão. Ouvi o grito agudo de uma garota que caiu diante de mim, com molho de tomate e abobrinha grudada na roupa.
Todos os olhares se voltaram para nós. Elliott estava imóvel, com uma expressão que variava entre o riso e o choque. Eu, por outro lado, sentia uma mistura de raiva e incredulidade, porque não importava o quanto você se preparava para um momento como esse, eles nunca eram úteis quando fantasmas de verdade apareciam na vida real. Ainda girei a cabeça para procurar a maldita que tinha causado isso, mas é claro que ela tinha caído fora.
Senti um empurrão no peito e caí para o lado, o caos ao meu redor voltando como um balde de água fria.
— Você é maluco? — a garota à minha frente grunhiu, tentando se levantar sem escorregar nos restos de macarrão e torta de legumes espalhados pelo chão. — Tem ideia do que acabou de fazer? Deus do céu, não acredito…
Ela bufou com indignação, e algumas garotas se juntaram ao redor dela, estendendo guardanapos como se fossem paramédicos em um campo de batalha. Suas mãos tatearam o piso até puxarem uma pasta cheia de suco e o que parecia ser babaganush. Todas me olhavam com aquele olhar típico de “meu Deus, qual é o problema desse cara?” Levantei rápido, desejando que, por algum milagre, todo mundo seguisse em frente e esquecesse o espetáculo que eu acabara de proporcionar.
— Foi mal, me desculpa, a culpa foi minha. — na verdade, não foi. — Eu te pago um outro almoço, qual é o seu nome?
— Você é epilético? Ou simplesmente decidiu me atropelar? Isso foi de propósito? — ela ia aumentando o tom a cada pergunta, as bochechas ficando cada vez mais vermelhas. Ótimo, porque o que eu precisava agora, além de estar coberto de suco e brócolis, era de problemas com desconhecidos na única parte do meu dia onde eu tentava manter minha vida minimamente normal: o almoço.
— Claro que não. Foi um acidente, sinto muito, mas eu posso pagar…
— Pelo amor de Deus, não quero seu dinheiro. — ela fez uma careta antes que eu levasse a mão para o bolso da carteira. — Tenho uma apresentação importante hoje e você pode ter acabado de estragar tudo com essa sua… síndrome de Tourette, sei lá. Pode não terminar de me atrasar e me dar licença?
Ela passou por mim com um empurrão no ombro e foi embora, seguida por pelo menos três amigas, que me lançaram olhares ligeiramente menos hostis. Fiquei ali parado por um segundo até ser expulso pelas funcionárias da limpeza, que já começavam a limpar a bagunça ao meu redor. De repente, percebi o quão exposto eu estava, com todos os olhares fixos em mim, buscando entender a mesma coisa que aquela garota: como eu tinha feito aquilo? Como caí do nada sem explicação?
Grunhi e abaixei para pegar minha mochila, encarando Elliott uma última vez antes de caminhar para a saída, agora puto e sem fome.
Nem precisei verificar para saber que ele estava vindo atrás de mim.
Pensei em sua pergunta, encolhendo os ombros antes de respondê-la.
— Eu não sei, não foi de propósito. Acho que eu escorreguei.
Abri a torneira para lavar as mãos. Elliott me olhou em completa perplexidade.
— O quê? Escorregou? Tá doido? O chão tava tão limpo que eu poderia lambê-lo. Não tinha nada pra você escorregar.
É, só tinha um fantasma.
— E dá pra confiar no seu julgamento quando passou o tempo todo no Twitter? — tentei desconversar, fazendo uma nova bagunça na mochila, procurando algo que eu sabia que não estava ali. Elliott continuou me olhando, nem um pouco convencido. — Sei lá, cara, acho que só me distraí. Podemos esquecer isso agora? Preciso que você me empreste uma camiseta porque ainda tenho duas aulas antes de ir pra casa.
Elliott hesitou, mas não demorou muito para estalar a língua e simplesmente deixar a situação para trás. Pelo menos, toda a parte estranha da coisa. Ele logo abriu a mochila e tirou de lá uma camiseta preta escrita:
if (sad() === true) {
sad.stop() ;
beAwesome() ;
}
— Valeu. — agarrei ela no ar quando ele a lançou.
— Cara, você tá legal? Não tá tomando nenhum desses remédios malucos pra ajudar na concentração que vendem por aqui, né? Essas coisas são perigosas, . E que negócio é esse no seu braço? Tá sangrando.
— Nada demais, coisa da queda. — arranquei meu braço de sua vista, vestindo sua camiseta com piadas de programação que eu não entendia. — Tô perfeitamente bem, foi só um pequeno acidente.
— Você tem ideia em quem resolveu causar um pequeno acidente? — ele perguntou e eu fiquei calado. — Cara! Aquela era !
— Esse nome deveria significar alguma coisa pra mim? — dobrei a camiseta arruinada em várias partes antes de enfiá-la na mochila.
— Já te falei dela várias vezes. Das noites de quinta no Amity Hall, no Beerkeeper em dias de jogo, do Edward…
— Ah, é… — o único momento em que Elliott não falava de mulheres era quando estava comendo (salvo exceções) ou jogando, então eu já sabia que não conseguiria lembrar de todas elas, mesmo que tentasse. — Bom, foi uma merda, mas espero que ela esqueça disso tudo bem rápido.
— Eu também espero, mas essa galera do Jornalismo não esquece nada fácil. Teve uma vez que saí com uma garota do departamento que…
Como um botão invisível, apertei “desligar” e deixei as palavras dele escaparem pelo outro ouvido. Nada contra a vida amorosa agitada do meu melhor amigo, mas meu cérebro já era sobrecarregado demais com equações moleculares e referências do PubMed. Ah, e um pouquinho de discurso básico para dizer a homens mortos que não, eles não podiam voltar a vida rapidinho só para buscar uma jaqueta vermelha da Balenciaga para levar na viagem para o Outro Lado.
Foi exatamente no que eu pensei: o fantasma. Ela iria me procurar de novo, era questão de tempo. Pelo uniforme da Columbia e o visual, era óbvio que tinha morrido perto daqui, talvez há menos de duas horas. Aquilo se espalharia pelo campus mais cedo ou mais tarde, e agora eu estaria pronto para a interceptação. Torcia para que ela só quisesse saber a nota de um teste ou se seu artigo foi aceito em algum congresso de verão.
Vesti a camiseta de Elliott, dei uma ajeitada na mochila e fui para a aula. As próximas três horas passaram num borrão, com a minha concentração sendo colocada à prova cada vez que um ventinho gelado tocava a minha nuca, pensando em como ignoraria uma aparição que já sabia que eu não podia ignorá-la. A não ser que ela me pegasse na aula de Psicologia Médica, onde 98% das pessoas dormiam — se fosse um dia em que eu não tivesse tomado meu expresso duplo do Blue Java, eu fazia parte dessa porcentagem.
Assim que a última aula acabou, me livrei do professor de Histologia, que estava com um discurso interminável sobre minha última análise de cápsula renal, e fui direto para o estacionamento do campus. O sol estava quase sumindo, e as luzes ainda não tinham acendido, o que me garantiu uns minutos de solidão na escuridão de concreto de Washington Heights. Meu Jeep Wrangler estava bem ao fundo, escondido atrás de uma pilastra e longe de outros carros.
Entrei, fechei a porta e esperei.
Exatos dois minutos depois, senti o ar pesar, frio e macabro, dentro do carro.
— Tá legal, quem diabos é você?
A primeira coisa que ela fez foi esticar o braço e tocar em mim. Não daquele jeito violento e desesperado de antes, mas leve e rápido, só para constatar que eu era de verdade.
— Eu... Você está mesmo me vendo? M-mas…
— Ok, vamos pular a parte óbvia da coisa. Sim, eu te vejo, te escuto, até te sinto, como ficou bem claro. E, sim, você está morta. O que posso fazer por você?
— Morta? Mas como... — o rosto dela começou a enrugar, lágrimas enchendo os olhos. — Como isso aconteceu? Eu só estava-
E mais choro. Eram poucos os que não choravam.
— Olha, preciso que você me conte exatamente do que se lembra. Ainda dá tempo de ir pra confraternização no Outro Lado, então preciso saber por que você ainda não foi pra lá
Era nessas horas que eu tinha que reunir o que minha avó chamava de compaixão, mas eu chamava de teste de paciência. Era quase uma entrevista de admissão, onde eu não exercia o papel de aceitar ou rejeitar ninguém para o Paraíso, mas de apenas agir como o gênio da lâmpada e me dispor a realizar o último desejo de almas encarnadas que não eram lá muito silenciosas até enxotá-las para o próximo nível. Não era um trabalho fácil e nem muito agradável, ainda mais porque, honestamente, a última coisa que eu queria era passar horas com um fantasma que ainda não tinha percebido que... bem, que estava morto.
A garota passou um tempo confusa até começar a pensar.
— Ash... Ele disse que as pílulas eram só pra dormir. Eu estava exausta com o projeto de final de curso, o trabalho, as inscrições pra pós, tudo isso. Então tomei as pílulas. E, bem... adormeci. — ela parecia perdida, os olhos desfocados enquanto tentava se lembrar de mais.
— Quem é Ash?
— Um cara da Dungeons. Faz Farmácia, eu acho, ou pode ser qualquer outra coisa. Não sei muito sobre ele, e esse nem é o seu nome verdadeiro. Estávamos saindo há três semanas, e ele me deu uns comprimidos pra dormir...
— E que comprimidos eram esses?
— Eu não lembro. Ele me entregou em uma caixa sem nome.
Revirei os olhos, já vendo o tamanho da confusão que viria pela frente.
— Tá, vamos começar pelo básico: qual é o seu nome?
— Karen. Karen Bracco.
— Beleza, Karen, aqui vai a notícia: você morreu, e esses comprimidos provavelmente são a causa. Agora precisamos descobrir o que está te segurando aqui, o que falta pra você finalmente atravessar o... limbo.
— Mas eu não tomei tantos assim. Ele disse pra tomar dois comprimidos, que isso bastaria pra eu dormir o dia todo. Ele disse... — as lágrimas voltaram, agora com força. — Eu confiei nele. Ele disse que não me fariam mal.
Confiou em um cara que não disse o próprio nome?
Suspirei, guardando o pensamento, tentando reunir argumentos que pudessem fazer sentido e ajudá-la a se acalmar. Talvez fosse mais complicado do que eu pensava.
— Tudo bem, então... o que você quer? Vingança? A gente pode discutir os detalhes.
— O quê? Não! Eu só... estou confusa. Eu tinha planos, sabe? Um emprego no Departamento de Polícia de Nova York, meu apartamento em Manhattan, apresentar o Ash aos meus pais...
— Ei, foco. Você precisa se concentrar no que está te prendendo aqui, descobrir o que ainda falta pra finalmente seguir em frente. Tem algo que ainda precisa resolver?
— Não sei. Minha vida foi sempre estudo e trabalho; fui em uma única festa de fraternidade, fui beijada só uma vez no ensino fundamental e agora pelo Ash, nunca fiquei de porre, ainda sou virgem...
— Vai sonhando. — minha voz saiu mais alta do que eu pretendia, e uma pessoa que passava alguns metros adiante do meu carro me olhou como se eu fosse um lunático. — Olha, meu contrato não cobre orgias nem reencenações de American Pie. Então eu sugiro que você pense em algo mais... profundo.
— Não é isso! Eu... eu preciso achar o Ash. Preciso descobrir o que eu tomei, e... e como eu... — ela engoliu seco, balançando a cabeça, o rosto numa expressão de dor. — Ele é popular, vive dando festas e vende de tudo. Não vai ser difícil encontrá-lo, só preciso... preciso saber se ele foi o responsável por... por isso. — sua voz vacilou, quase um sussurro.
— Ei, calma. — relaxei os ombros e me aproximei um pouco. Pensei em fazer aquele toque amigável engraçado que Margot costumava fazer com os novatos, mas um olhar pacato era tudo o que eu conseguia oferecer. — Você parece... bem, como alguém que acabou de morrer. As pessoas provavelmente já estão sabendo da sua morte. E quanto ao que causou ela, é pra isso que existem autópsias, certo? Logo vai ser divulgado, Ash vai ficar sabendo e pode poupar nosso tempo se entregando. Entendeu?
Ela apenas balançou a cabeça, teimosa.
— Não. Não é suficiente, eu preciso saber o que era aquela coisa. Se ele sabia o que estava me dando. É a única forma de... de eu descansar, eu acho.
Ela cobriu o rosto com as mãos, e eu vi seus ombros começarem a tremer. Outro choro vindo. Nesse instante, meu celular vibrou, iluminando a tela com mensagens insistentes de Elliott: "Onde você está?", "Estacionamento, né?", "NÃO DIZ QUE FOI EMBORA SEM ME DAR CARONA", "Me deixa na Broadway", "HELLOOOO????", "VOCÊ NÃO VAI ACREDITAR NO QUE EU ACABEI DE SABER".
Ótimo. Mesmo que eu não respondesse, ele estaria no estacionamento de qualquer forma, o que significava que aquela garota tinha que vazar dali agora mesmo.
— Tudo bem, vou procurar o Ash. Descobrir o que ele te deu e se ele sabia o que estava fazendo. Mas agora você precisa sumir do meu carro.
— Espera... Qual é o seu nome?
— , muito prazer. Agora... — inclinei a cabeça em direção à porta.
Ela arregalou um pouco os olhos.
— Você é o ?
Ah, caramba.
— É, sou eu.
— Minha nossa, mas… você é o aluno número 1. Como você, como isso…
— Acredite se quiser, mas eu não tenho uma história pra te dar. É assim que as coisas são e pronto. Agora que tal fazer aquela coisinha de sair?
— Ah… Certo. — ela disse e, pela primeira vez, esboçou um sorriso meio desajeitado. — Você parece ser um cara legal, . Posso mesmo confiar em você?
— Se não pudesse, você nem teria me achado.
Ela assentiu.
— Tudo bem. Eu vou. E… sinto muito pelo seu braço.
Antes que eu pudesse responder, ela desapareceu, evaporando como uma miragem. As luzes do estacionamento finalmente se acenderam, e eu vi a cabeça de Elliott surgir ao longe, correndo no meio dos carros.
Ele me avistou rapidinho e já veio, ofegante, pressionando o peito com a mão e abrindo a janela assim que entrou.
— Cara... Tem um cigarro?
— Que foi? O prédio não é tão longe. — respondi, procurando um maço no porta-luvas e entregando para ele. — Você devia parar de fumar.
— Como você conseguiu parar? — ele acendeu um cigarro, o tom ligeiramente sarcástico.
— Não parei. — dei de ombros e acendi o meu também.
Depois de algumas tragadas e uma respirada, ele olhou para mim com uma expressão de choque e animação.
— Cara, você não vai acreditar. Acabaram de encontrar uma garota morta no alojamento feminino. Parece que foi há pouco tempo, antes do almoço. Tá uma confusão lá dentro...
Fiz a melhor cara de interessado que pude.
— Sério? Quem era?
— Uma tal de Karen, da faculdade de Direito. Cara, você não tem ideia do que falaram sobre o corpo. Foi... horrível. Dizem que ela teve uma overdose, tinha vômito por todo lado, ela estava roxa, os olhos abertos… — ele tremeu. — Cena de filme de terror. Nem imagino a reação de quem a encontrou.
— Overdose? Eles disseram que foi isso?
— Ah, ainda não sabem nada com certeza. A ambulância acabou de levar o corpo. Devem fazer a autópsia lá no Presbiteriano. A universidade tá tentando não chamar atenção até resolverem isso, mas o assunto já explodiu no Twitter e no Fórum, e eu acho que enviaram pro Jimmy Fallon, mas não sei por-
Enquanto Elliott falava, eu me esforçava para juntar as peças. Aparentemente, Karen tomou os remédios na noite anterior e morreu antes do almoço, o que significava que o que quer que sejam aqueles comprimidos, a ação era lenta. Só que não dá para ter uma overdose com dois comprimidos de tarja preta, mesmo se fosse codeína. Depressão respiratória era um objetivo final que a pessoa precisava se esforçar muito para alcançar.
Me obriguei a afastar a estranheza de tudo aquilo da cabeça e a focar em bolar um jeito de encontrar Ash. Precisava fazê-lo me contar se ele sabia que o que ofereceu para Karen poderia matá-la. Claro que não dava para perguntar assim, direto — o cara ia me achar um completo maluco, ou então se assustar o bastante para abrir o jogo.
Deixei Elliott na Broadway, a algumas quadras de distância de onde morava uma tal de Emilie. Ele estava apavorado demais para voltar ao alojamento naquela noite, e, sinceramente, se soubesse que eu tinha sido notificado do "incidente" pela própria vítima, acho que o trauma seria ainda maior.
Minha rua estava silenciosa e calma, o que era bem atípico em qualquer parte de Nova York, seja residencial ou não. A badalação da cidade começava cedo, e mesmo que eu não fizesse ideia do cronograma das festas e nem de qualquer coisa que envolvesse oito ou mais pessoas dividindo um teto em mansões antigas de Manhattanville, teria que arrumar um jeito de saber, pelo menos até encontrar Ash.
Claro, mesmo na era digital, encontrar uma pessoa que usa nome falso não é fácil. Karen não tinha me dado muitos detalhes sobre ele, e eu não estava exatamente animado em procurá-la de novo antes de ter as informações que ela queria. Pensei em perguntar ao Elliott, mas sob qual pretexto? E aí, você tá sabendo desse traficante meio famoso que andou se envolvendo com a garota morta? Sabe onde ele mora? Nunca. Jamais. Elliott não era tão avulso quanto eu queria que fosse para não estranhar esse interesse repentino.
Quando finalmente entrei no apartamento, tratei de limpar o ferimento no braço — cortes em formato de pequenas luas das unhas de Karen — e fui direto para o banho, tentando relaxar, mas sem muito sucesso.
Depois, entrei no Fórum e busquei informações sobre a confusão daquela tarde. A única coisa que encontrei foi um resumo seco: Karen tinha sido encontrada pela colega de quarto, uma garota chamada Katherine Keaton, do curso de Arquitetura, que mal conseguiu falar com a polícia de tanto que chorava. A única foto publicada mostrava o corpo de Karen envolto em um saco preto, com uma faixa amarela de isolamento estendida na porta do dormitório. No final da matéria, um comunicado dizia que a autópsia só ocorreria depois da autorização dos pais dela, que já haviam sido avisados, mas não deram respostas sobre quando chegariam — parecia estar rolando uma tempestade bizarra na região da Virginia, cancelando voos e trens em sequência.
Apesar disso, era uma boa notícia. A autópsia explicaria tudo. Daria fim naquilo logo, bem logo. E enquanto isso, o dormitório de Karen seria o mais triste e cinza de todos os outros prédios da Columbia.
Porque agora ele estava assombrado.
Existem várias coisas na Columbia que me deixavam perplexo.
Distribuição de notas tendenciosas aos atletas, processo seletivo absurdo em fraternidades famosas, aquela goteira imensa nos fundos da Augustus, a proteção fajuta de dados de alunos, matrículas feitas ainda em caneta e papel e, é claro, o CJ.
Eu morria de medo daquele lugar. De um jeito um tanto claustrofóbico.
O Columbia Journal era administrado pelos próprios alunos e ficava localizado em um prédio pequeno ao lado do departamento de Jornalismo, dentro do gigantesco Pulitzer Hall. Prezando pela abolição das notícias em papel e, consequentemente, a preservação das florestas, eles mantinham um site bem informativo e moderno que também chamavam de Fórum. Lá estavam todas as informações sobre a Columbia e fatos importantes que aconteciam por lá, como eventos, congressos, simpósios e, claro, o pódio semestral. Cada aluno tinha seu próprio login e funcionava como uma rede social, porém restrito apenas aos alunos da universidade e com postagens feitas apenas pelos funcionários do jornal. Se existe um lugar onde você poderia achar o básico sobre a maioria dos alunos da Columbia, esse lugar era o CJ.
Claro que eu não esperava conseguir informações sobre Ash de uma forma tão descaradamente errada. Roubar documentos escolares era uma das minhas especializações na escola católica, mas apenas porque, aparentemente, muita gente morria no século XVIII por causa de intensos contatos com as novas descobertas químicas da época e mesmo assim gostariam de saber a nota de um teste. E não me surpreendia como aquele lugar velho gostava de guardar coisas mais velhas ainda.
Mas mesmo na era digital, era difícil achar alguém sem qualquer referência de um nome. Ash não era nome de ninguém. Eu verifiquei. Existiam mais de mil alunos espalhados pelo campus, em todos os departamentos, e nenhum deles sequer começava com essas letras.
Estranho. Muito estranho.
Eu já havia visitado o CJ algumas vezes, geralmente quando precisava pedir correção de uma publicação e me deslocava para a sala do professor responsável, o Sr. Liotta, que tinha uma certa felicidade escancarada toda vez que me via. Hoje era um dia ótimo para fazê-lo sorrir.
Chegar ao CJ significava estacionar em um espaço apertado e atarracado de bikes e motocicletas. Acho que não existia pior lugar para se parar com um Jeep Wrangler. Até mesmo o senhor Liotta tinha sua Vespa presa por uma corrente nas barras de metal ao lado do prédio, mesmo que eu acreditasse que fosse muito mais por um lance particular de colecionador.
O edifício era um dos menores — tudo parecia menor ao lado do Pulitzer Hall —, mas bem estruturado e limpo. As paredes estavam com a pintura em dia e, pela janela de vidro onde se podia ver o escritório, os equipamentos eram bem modernos e atendiam às demandas. O CJ era uma referência no ramo de jornais universitários sem fins lucrativos pelo país. Pelo menos uns dez alunos ali presentes seriam os próximos âncoras da CNN e editores chefes do New York Times.
Parei diante da porta branca no final do corredor e espreitei pela janela ao lado. Lá dentro, era uma correria: gente atendendo telefonemas, digitando, berrando de um lado para o outro — ninguém me notou quando entrei. Virei à direita e fui direto para a porta marcada com "Prof. Dr. Henry Liotta". Bati duas vezes e ouvi um "entre" abafado.
— Senhor ! — ele me cumprimentou, tirando os óculos e abrindo um sorriso enorme e caloroso.
— Como vai, doutor Liotta? — apertei a mão dele, e ele apontou para a cadeira na frente da sua mesa, que, aliás, estava tão cheia de papéis, canecas vazias e, quem sabe, um fóssil ou dois, que eu quase duvidei que ele pudesse realmente me ver dali.
Diferentemente do restante do prédio, a sala de Henry era um resquício dos anos 70, uma década tecnicolor pela qual eu tinha um grande carinho. Duas poltronas em amarelo canário estavam ajustadas bem embaixo da janela, a mesa de pinheiro polida e envernizada, os abajures largos, e ele ainda tinha um modelo de rádio Grundig Satellit dos anos 60, com antena e pilhas D. De vez em quando, dava para ouvir Hotel California tocando em loop no aparelho, e fiz uma piada uma vez de que, se fosse para ouvir apenas uma coisa até morrer, que essa coisa fosse Eagles. Ele se apaixonou por mim depois disso.
— O que o traz aqui tão cedo, meu jovem? — ele ajustou os óculos e deu uma olhada rápida para o relógio, como se o próprio horário o tivesse traído. — Ainda não trouxeram meu café, estamos um pouco corridos hoje. Mas aceita uma água, um chá...
— Não, não, tudo bem. — pousei a pasta em cima da pilha já caótica de documentos, torcendo para que não virasse um tsunami de papéis. — O professor Neeson me pediu pra escrever uma coluna, parece que quer fazer mais um pedido de fundos pra uma nova pesquisa, então terminei ontem. Vim deixar pra revisão.
— Ah, o texto sobre as células T no melanoma. Neeson me falou ontem. Aquele cara vive dizendo como é importante que o nosso país seja o primeiro a falar sobre a cura do câncer, mesmo que isso seja mentira e provavelmente sempre será. Vou dar os toques finais, mas… — ele tirou os óculos e olhou por cima deles, com um ar quase dramático. — Infelizmente, hoje isso não vai acontecer, receio. Você está sabendo do que houve ontem, no campus?
— A garota? Fiquei sabendo sim.
— Uma tragédia. — ele suspirou. — Toda a equipe está focada nisso, tivemos que suspender praticamente tudo para nos concentrarmos no caso da Bracco. A CNN veio e foi um pesadelo lidar com eles... Uma dor de cabeça atrás da outra, sabe? Mas não se preocupe. Vou garantir que o artigo saia a tempo, mesmo que um pouco atrasado.
— Sem pressa, professor. — forcei um sorriso, tentando não parecer tão interessado. — Logo tudo se resolve, né? O culpado vai aparecer…
— Culpado? — ele riu com um toque de sarcasmo, como se tivesse ouvido uma piada boa. — Ah, meu jovem... Não há culpado. Esse é um caso claro de suicídio! Encontraram a pobre garota sufocada no próprio vômito. Os pais até agora estão empurrando para vir reconhecer o corpo, e tenho quase certeza de que vão se recusar a autorizar uma autópsia. O uso de drogas entre os alunos está fora de controle. Seria um ótimo tema para o próximo artigo, inclusive. Os riscos disso tudo, entende? Vou fazer uma ligação para o Oskar logo mais…
Ele continuou falando, divagando sobre a juventude e os perigos das drogas, enquanto eu assentia e tentava manter uma expressão preocupada. Ter deixado ele se empolgar com o assunto e me "explicar" o caso foi um movimento certeiro — afinal, ele acabara de confirmar o que eu temia: a autópsia não sairia tão cedo. E eu precisava de respostas antes de ser perseguido por outro fantasma.
Depois de um papo rápido sobre minhas notas e a possível residência no hospital universitário de Berlim, me despedi do professor Liotta e me preparei para sair. Do lado de fora da sala, o escritório estava um caos, e o telefone não parava de tocar. Fechei a porta atrás de mim, aliviado, e avistei um bebedouro ali perto. Minha garganta parecia seca como o Saara, mas logo reparei na plaquinha acima do galão: "NÃO USE COPOS PLÁSTICOS, TRAGA SUA PRÓPRIA CANECA". Suspirei. Nada como mais um obstáculo — até a água nesse lugar parecia exigir um esforço extra.
Como se tivesse brotado de alguma parede invisível, uma pessoa passou por mim com a precisão de um cometa. Eu estava saindo de perto do bebedouro quando fui atingido por um esbarrão de alta potência. Papéis voaram, meu braço se esticou tentando segurar alguma coisa, qualquer coisa, e, bem... o que eu agarrei foi o galão d’água, que teve a gentileza de me dar um banho completo — e, aparentemente, dar o mesmo tratamento à pessoa que caiu em cima de mim.
Antes de mais nada: dessa vez, fantasmas não tiveram nada a ver com isso. A garota que estava em cima de mim era bem real, com um olhar tão estupefato quanto o meu. Cabelo meio molhado, meio seco, ela piscava em choque enquanto o telefone no ambiente continuava tocando e as conversas ao redor tinham se extinguido, mostrando que todo mundo estava de olho na gente. Um segundo depois, percebi quem ela era.
— Não acredito. — ela bufou, saindo de cima do meu peito como se eu fosse o chão imundo de um estacionamento. — Como é que você consegue aparecer pra arruinar o dia aqui também? Toda aquela comida não foi suficiente?
— Eu acho que você é quem deveria olhar por onde anda, sabe? — eu murmurei, tentando resgatar alguns papéis que ainda não estavam completamente encharcados.
— Ah, então eu deveria olhar por onde ando? Igual ontem? — ela deu um sorrisinho sarcástico antes de arrancar os papéis da minha mão. — Tem ideia do trabalho que foi coletar esses depoimentos? Tem ideia do tanto que ainda temos pra fazer hoje? Aliás, você é algum aluno perdido aqui atrás do professor Liotta pra pedir revisão de trabalho malfeito? Porque se for, pode tirar o cavalo da chuva. Ele tá ocupado, e não vai sair pra...
— Mas o que está acontecendo aqui? — Liotta abriu a porta, olhando alternadamente para mim e a garota. — , por que está brigando com o rapaz?
se endireitou, vermelha de raiva, mas recuou um pouco.
— Professor, esse... esse cara acabou com os depoimentos que eu consegui sobre a ação da polícia. Eu ia levá-los pra revisão e agora...
O professor Liotta levantou a mão direita e se calou instantaneamente, com as bochechas ainda mais vermelhas, lutando para não pressionar o maxilar. E aí eu percebi que a água gelada tinha sido implacável: ela estava sem casaco, e se controlava para não tremer os lábios.
Liotta se voltou para nós dois.
— Não façam disso um drama. Há trabalho demais pra isso. , eu sei que você não fez isso de propósito, e estava de saída, não estava? — ele deu umas batidinhas no meu ombro, depois olhou para . — Quanto a você, senhorita , tenho uma nova tarefa. — ele entrou rapidamente na sala e voltou com uma pasta. — Digitalize, edite e finalize o envio do artigo do jovem aqui. Isso deve responder sua dúvida sobre a presença dele. É a coluna especial sobre saúde pública do centro médico de Irving.
olhou da pasta para mim, depois para o professor, folheando rapidamente as páginas.
— ?
— O próprio. — Liotta assentiu. — Agora, se me dão licença, tenho que lidar com o inferno dos e-mails e chamadas de emissoras sem mais o que fazer, querendo informações que nem temos ainda. — ele suspirou e se virou para o resto da sala, onde todos ainda estavam assistindo ao show. — E vocês aí! Voltem ao trabalho, ou vão levar pontos de demérito! , sei que você vai resolver a questão do senhor . É uma das nossas melhores alunas. E chame a moça da limpeza pra dar um jeito nessa bagunça. Senhor , desculpe o transtorno. Volte em segurança ao departamento. — ele me deu um sorriso caloroso e entrou em sua sala, desaparecendo tão rápido quanto surgiu.
olhava para mim como se eu fosse uma barata que acabara de pousar bem no meio da sua sopa. Era óbvio que nunca tinha visto o senhor Liotta falar assim com alguém. Aliás, nem eu.
— Então… você tá bem?
A garota suspirou.
— Você pode sair, por favor? Preciso chamar o serviço de limpeza e você está no caminho. Pode deixar que seu artigo será publicado assim que possível.
Sem esperar por mais reações, ela se virou e saiu pela porta de outra sala, me deixando sob o olhar atento dos poucos que ainda estavam presentes, como se eu fosse alguma atração de zoológico. Balancei a cabeça, voltando a mim, e fui em direção à saída, ciente de que, pela segunda vez naquela semana, estava no meio de uma confusão completamente evitável. Tinha um certo talento em criar esses momentos constrangedores, e o mais surpreendente era que geralmente eles envolviam apenas os mortos.
Na saída do prédio, me lembrei do novo problema: eu estava sem roupas extras, de novo. Não sabia se era cedo demais para aparecer no dormitório de Elliott e implorar (pela segunda vez) por uma camiseta limpa. Nessa época do ano, deixava um casaco morando no meu banco de trás, um elemento acessível muito bem aproveitado nessa cidade que logo mais estaria se afogando em neve. De repente, pensei em oferecê-lo à tal — afinal, ela parecia precisar tanto de um casaco quanto de um calmante, mas a ideia desapareceu tão rápido quanto veio.
Porque algo mais urgente chamou minha atenção.
No mural de madeira ao lado da entrada, onde os panfletos de eventos jornalísticos se amontoavam, havia um cartaz bem maior e mais chamativo: “FESTA NA DUNGEONS! VENHA E TRAGA MAIS UM & A CERVEJA! SEXTA 21H!” O pôster parecia até piscar, como um sinal de neon para os desavisados (ou para os bem avisados que sabiam o que era bom).
Uma ideia, louca e impossível, começou a se formar. As palavras de Karen ecoaram na minha cabeça: “Ele é popular, vive dando festas e vende de tudo”.
É, o jeito seria tentar.
Sem realmente acreditar no que eu estava prestes a fazer, entrei no carro e disquei o número de Elliott.
Quase meia hora depois, ele apareceu na porta da frente, com um olhar meio perdido e girando a cabeça como se estivesse num labirinto (a Augustus nem era tão grande assim). Acenei do fundo do salão, e ele começou a caminhar na minha direção com passos cada vez mais rápidos, e fiquei convicto de que a razão disso fossem os olhos muito retos e dentes ligeiramente trincados da bibliotecária ranzinza, que reconhecia um “arruaceiro do T.I.” de longe. Palavras dela, não minhas.
— E aí, cara? Que foi? — ele praticamente berrou enquanto puxava a cadeira à minha frente, chamando a atenção geral e recebendo um “shh!” agressivo. Suspirei, me perguntando por que exatamente eu achara que marcar encontro com Elliott numa biblioteca era uma boa ideia. — Foi mal. — murmurou em direção aos nossos vizinhos. — Galera bem nervosinha, hein?
— Eles ficam ariscos com qualquer um que provavelmente insultaria os povos sumérios por terem inventado os primeiros livros. Tipo você.
— Ei, esse negócio é coisa do passado. Isso aqui é mórbido, cara. Já inventaram o Kindle há mais de uma década, esse prédio inteiro podia estar sendo usado pra fazer mais um pub.
— No meio do centro médico?
— Vocês precisam relaxar de vez em quando, não? Pra abrir mão das orgias nos congressos e coisa assim. — ele deu uma olhada cética ao redor. Quis perguntar da onde ele tinha tirado isso, mas lembrei que eu é que tinha contado essa fofoca. — Mas e aí, o que tá pegando? Falta pouco para o almoço, quer ir no Amadeus? Eu vi o cardápio do John Jay, e hoje definitivamente não é um grande dia. Aliás... o que houve com a sua roupa?
Ignorei a última pergunta.
— Vamos numa festa na sexta.
Elliott piscou duas vezes.
— Como é?
Abri o banner de divulgação da festa na Dungeons no computador e o virei para Elliott. Ele se debruçou sobre a tela, os olhos brilhando.
— Festa na Dungeons? Uma das maiores fraternidades do lado leste? Cara, você tá falando sério? — Elliott riu alto, e mais um “shh!” se fez ouvir. Ele ergueu as mãos em rendição, mas o sorriso continuava. — Não brinca. Você tá legal, ? Desde quando o menino de ouro do ranking decidiu bancar o universitário comum?
— Sei lá, de repente quero ir nessa. — dei de ombros, tentando soar casual. — Vai dar bastante gente?
— Pode apostar que sim. Festa na Dungeons nunca decepciona, e dessa vez não vou ter que aturar os fracassados do meu departamento. — ele puxou o celular e começou a digitar freneticamente. — Preciso postar isso pra já.
Revirei os olhos.
— Não precisa sair publicando qualquer coisinha, infeliz digital. Que exagero.
— Qualquer coisinha? . Numa festa. Isso é uma notícia, meu amigo.
— Nem pense nisso, Elliott. Que parte de privacidade você não entendeu?
Ele ergueu as sobrancelhas, como se eu estivesse sendo o estranho ali.
— Ah, você quer falar de privacidade? Deixa eu te lembrar que o “estudante do ano” também é o nome mais comentado no Fórum, principalmente no início do semestre quando os Lions ainda não começaram a temporada e nenhuma outra fofoca do verão estourou por aí. E ah, algumas pessoas acham que você não existe porque é meio deprê não ter rede social hoje em dia, mas algumas garotas acham isso o máximo, elas amam um carinha low profile. E todo mundo vai à loucura quando souberem que o não é um nerd cheio de espinhas que usa camisa xadrez de botão e óculos fundo de garrafa.
Franzi o cenho, um pouco… chocado.
— Eu não sou “deprê” por não ter uma conta no TikTok. Que papo é esse? Desde quando esse tipo de discussão existe?
Elliott parou de digitar e arregalou os olhos, como se eu estivesse realmente por fora da hora, do dia e do ano atuais do calendário romano.
— Você é o aluno número 1, ! E estamos em uma das arenas de guerra da Ivy League, aqui as pessoas se preocupam com estudos e notas de teste. E pra chegar lá no topo, a galera no mínimo imagina um cara meio estranho que nunca sai do quarto e cria baratas num aquário. Esse tipo de gente nunca prega um sutiã na maçaneta da porta do dormitório quando quer trepar ou tatuam a letra de Highway to Hell no ombro. Esse é o estereótipo que Gatinhas e Gatões deixaram dos verdadeiros nerds pra gente, infelizmente. Por isso que quando te verem… bem, eles vão gostar. Provavelmente até demais.
Ele abriu um sorriso sugestivo. Queria não fazer ideia do que ele dizia, mas infelizmente me lembrei da expressão de Karen e de quando ouviram meu nome e entendi tudo. Aparentemente, eu não me parecia com alguém trancado o suficiente.
— Não era exatamente isso que eu tinha em mente. — murmurei, vendo meu plano de ser invisível encontrando um enorme obstáculo: a internet. Eu não estava nem um pouco a fim de ser observado e avaliado por qualquer par de olhos fora da minha bolha, onde até meu jeito de andar poderia virar pauta para uma efervescência social.
Elliott balançou os ombros com desdém.
— Isso é irrelevante. Vai acontecer de qualquer jeito.
— Se você diz... — fechei o computador e me levantei. — Agora, vamos. O almoço está garantido no Amadeus.
Elliott soltou um gritinho animado, fazendo com que recebêssemos nossa última advertência antes de finalmente deixarmos a biblioteca.
Morte no campus nunca é algo simples. No minuto em que a notícia corre, é como se o próprio ar mudasse: conversas baixas no final das aulas, trocas de olhares durante o almoço, cochichos nos laboratórios e até um silêncio que paira no corredor. Karen era o nome no epicentro disso tudo, ainda que o mundo lá fora parecesse um pouco alheio. Para o resto do país, ela era apenas uma garota que “não suportou a pressão” — de acordo com as palavras frias de sua mãe em uma entrevista ao CJ, que rapidamente se espalhou pela cidade. Os pais de Karen não quiseram nem saber de autópsia; apenas sacudiram a cabeça e disseram que não queriam mais prolongar aquele pesadelo.
Não iria julgá-los por isso, mas também não iria apertar suas mãos e dizer “muito bem, vocês são o exemplo de bons pais” porque eles negaram a autópsia. O que significava que sua filha ficaria no meu pé por mais um tempo.
Na entrada do dormitório feminino, flores e velas se amontoavam, junto a uma pequena homenagem deixada em seu armário. A faculdade de Direito fez questão de honrar a aluna formanda com um recap do seu único artigo publicado e participações em projetos de voluntariado para crianças de rua em Chinatown. O reitor também organizou uma palestra sobre saúde mental e os perigos dos opióides, um discurso cheio de palavras educadas e classudas, mas que escapou a todos que já estavam chapados de alguma mistura de benzodiazepínicos às 7 da manhã para valer de alguma coisa.
Não conversei muito com Karen desde aquele nosso trato no carro. Pensei que, depois da notícia de seus pais, ela ficasse ainda mais ansiosa e virasse um carrapato em mim, mas não aconteceu. A garota só vagava pelo campus, seus olhos inexpressivos observando as pessoas que deixavam flores, ou ficava parada ao fundo do John Jay, olhando as tortas do dia e prestando atenção em todo mundo que chegava perto. Sabia o que ela estava procurando: ser vista. Encontrar, por algum milagre divino, outra pessoa com a habilidade esquisita de ver além da névoa de normalidade desse mundo.
Não demorou muito para ela saber que teria de se contentar comigo. E como eu não podia ignorá-la, dei um jeito de mostrar o cartaz da festa na Dungeons e explicar o que eu pretendia fazer — ou tentar. Esperava sinceramente que ela me respondesse com um “você é mesmo bem burro se acha que isso vai dar certo”, mas em vez disso, recebi seu total apoio imediato, o que era preocupante porque o plano era uma merda.
Seja como for, depois disso a garota parecia mais calma. Em paz. Nem chorou tanto quando as flores começaram a murchar no corredor. Tudo voltou a um ponto perto do normal, pelo menos até quinta-feira.
Porque na sexta, só se falava de uma coisa.
Nunca tinha me arrumado para uma festa antes. Digo, não uma festa que não envolvesse vinho Tignanello, lustres de cristal e ternos sob medida que escondiam minhas tatuagens. A galera de Vagelos fazia mais o tipo “noite de Jangga no Bard Hall, traga seu próprio kit de sobrevivência”, o que acabava se tratando de horas em uma discussão sobre quem trapaceou no jogo, quem ultrapassou a dosagem de álcool no drink de frutas, quem transou escondido no laboratório de análises clínicas e estragaram a amostra até o fim de tudo, quando os veteranos precisavam voltar correndo para o hospital, e o restante estava bêbado demais para jogar, rir ou flertar. E sem um fiapo de música sequer.
Isso tudo não chegava perto de noites malucas ao estilo Arquivo X que eu já tinha ouvido falar de Elliott ou minha zona de conforto: sofá de casa e jantar no restaurante de fast-food mais próximo — e, se for para ser honesto, só com duas pessoas: Elliott e Margot. Minha ideia de uma boa aventura era ir a algum lugar novo, de preferência recém-construído, lugares onde dava para ter certeza de que ninguém tinha morrido e deixado algo para trás, empurrando cadeiras, furtando talheres e perguntando a qualquer um se teriam bons dentes para doar.
Então, dá para imaginar minha empolgação ao descobrir que a tal Dungeons ficava em uma propriedade do século XVIII restaurada, no pé de uma pequena colina na extremidade mais afastada de Manhattanville.
É, nada como a perspectiva de fantasmas com perucas coloniais para animar a noite.
Quando finalmente estacionei o Jeep, uma quadra inteira separava a gente da entrada da casa. A rua estava abarrotada de carros e o jardim da frente lotado de gente que parecia mais animada do que eu conseguiria fingir em mil anos. Mesmo dali, dava para ouvir a música ribombando como o apocalipse lá dentro.
— Eu disse! Hoje vai ser épico! — Elliott anunciou, já fora do carro, esticando os dois braços para cima em um alongamento especial.
Soltei uma risada, me inclinando para pegar meu casaco no banco de trás, até que Elliott me parou com a mão no meu braço.
— O que você tá fazendo?
— Pegando meu casaco? — respondi o óbvio. — Estamos a um passo do inverno, caso você não tenha notado.
— Tá maluco? — ele se aproximou e arrancou o casaco das minhas mãos, jogando de volta no carro. — Lá dentro vai estar um forno, , eu garanto. Vai ser tipo QUEN-TE. — ele soletrou a palavra lentamente, como se eu de repente tivesse me transformado em um neanderthal. — Deixa alguém além do seu espelho ver um pouco mais desse corpo, tá legal? — ele ajustou minhas mangas até o cotovelo e deu um sorriso satisfeito. — Pronto, agora com as tatuagens à mostra e um sorriso convincente, você tá vestido pra matar. Um homme fatale, entendeu? Vamos lá.
Não acredito que ele acabou de falar homme fatale.
Ele agarrou meu braço e me puxou, apressando o passo. A cada metro quadrado, a enorme porta dupla de madeira parecia mais ameaçadora, deixando escapar uma mistura de sons, cheiros e a promessa de contato exagerado. Elliott estava quase correndo quando, finalmente, chegamos à entrada, os ombros roçando nos das outras pessoas que se espremiam para entrar. Uma vez lá dentro, fui obrigado a concordar com Elliott sobre o lance do calor. O frio congelante que Nova York já começava a despejar na população em pleno novembro não tinha a menor chance ali, onde a energia era pura combustão: gente dançando, se esbarrando e se esfregando ao som ensurdecedor de Black Eyed Peas, com garotas em roupas mínimas dominando o espaço em cima das mesas.
Não se passaram nem cinco minutos e eu e Elliott já estávamos com aqueles famosos copos vermelhos nas mãos, cada um com um líquido suspeito dentro.
— Vai, ! — Elliott gritou, levantando o copo com entusiasmo. Fez uma contagem com os dedos, e quando chegou a três, um pequeno grupo em volta gritou e viraram o copo, ele inclusive. Entendi a deixa e segui o movimento. O líquido desceu rasgando como fogo, quente e amargo. Pelo bem da minha sanidade, nunca quero saber o que acabei de tomar.
Antes que eu me recuperasse, Elliott já estava gritando que precisávamos de mais bebidas e marchando na direção da cozinha. O lugar estava tão lotado quanto a Times Square no ano-novo, e um mar de gente acabou tendo a mesma ideia que nós: pegar qualquer bebida para abater o gosto daquela coisa tenebrosa que se parecia muito com gasolina.
Chegando lá, percebi a quantidade de opções: vasos e garrafas térmicas improvisadas transbordavam de cervejas e vodkas, sem falar nas mesas cobertas de copos e garrafas vazias. Elliott rapidamente pegou duas Budweiser de uma das bolsas ao lado da pia e me entregou uma, junto com um cigarro, que aceitei sem hesitar.
Aparentemente, dizer "não" naquele lugar te transformaria em um exilado.
Meu amigo estava explodindo de animação. Desde nosso primeiro ano, eu já tinha visto todos os seus lados, e sabia que, mesmo sendo um cara legal, nunca foi exatamente aquele que se enturmava de primeira. Ainda mais se estivesse vestindo os mesmos jeans manchados de agora, junto com uma jaqueta bomber com estampa de vômito (uma maneira educada de ilustrar). Eu, pessoalmente, nunca passaria meus braços e a cabeça por uma roupa daquelas. Ele analisava cada garota que passava com um olhar sugestivo, tentando engatar uma conversa, embora, honestamente, todas as tentativas caíssem por terra.
Depois de um tempo, conferi o relógio no celular. Uma hora perdida naquele lugar. Decidi que era agora ou nunca: precisava encontrar Ash. Eu não tinha um plano brilhante, mas nem o mais merda dos planos poderiam ser executados sozinhos. O que significava que eu precisava colocar em prática um antigo martírio pessoal: interagir com as pessoas. Sair distribuindo um “olá, tudo bem?” como se eu estivesse totalmente interessado na resposta.
Mas, bem, em uma hora eu ainda não tinha topado com nenhuma assombração, então talvez o lugar estivesse limpo de verdade, sem andarilhos da Segunda Guerra Mundial ou cemitério indígena construído embaixo desse piso. Isso tornava tudo 10% mais agradável.
Num piscar de olhos, Elliott se afastou e já estava em uma rodinha de garotas a poucos metros, provavelmente achando que essa era a chance da vida dele. Ele já tinha bebido o suficiente para ultrapassar a linha entre “engraçado” e “constrangedor", mas dessa vez, eu não iria julgar. Pelo menos ele estava distraído, o que me deixava livre para focar no meu objetivo e me mandar daqui o quanto antes.
Comecei a examinar o ambiente. Desde que chegamos, eu e Elliott já tínhamos rodado pelos corredores da casa, e agora estávamos em uma área ampla, entre o jardim com piscina e a cozinha de inox. A quantidade de pessoas zanzando por ali diminuiu um pouco depois que as bolsas térmicas com bebida foram distribuídas pelo restante dos cômodos. À esquerda, uma escadaria enorme levava ao segundo andar, onde existia um espaço mínimo para passar, cercado de gente se pegando sem pudor, envolvidos em luz baixa e fumaça, sem nem pensarem por um segundo em terminar de subir para irem aos quartos. Era provável que não poderiam? Ash proibia libertinagem nos espaços feitos para dormir? Ou cobrava por isso também, tipo uma locadora do sexo?
Existia esse tipo de coisa nas festas universitárias? Nova York era mesmo a cidade mais brilhante do mundo.
Mas aquela iluminação baixa, com luzes de LED girando loucamente com seus feixes coloridos, realmente estavam dificultando muito a minha visão. Me afastei um pouco de Elliott e do grupo alheio, andando sorrateiramente pela galera bêbada, tentando não esbarrar em ninguém (da última vez que aconteceu, uma garota com uma tiara de chifres do diabo soltou um grito: “EI! VOCÊ É MESMO AQUELE LÁ?”), apertando minha cerveja e o cigarro entre os dentes até escapulir por uma área em que meus ombros estavam mais livres e uma geladeira improvisada ficava bem ao lado de uma máquina de lavar (que estava transbordando de camisinhas). Criativo.
Foi bem ali, quando terminei de tomar o último gole daquela coisa quente e pegava a primeira cerveja em temperatura ambiente da geladeira, que eu a vi. Foi de relance, enquanto eu escaneava os arredores disfarçadamente pela oitava vez. Ela estava parada junto das mesmas garotas do refeitório, com o quadril apoiado na bancada, um copo vermelho na mão e um sorriso leve nos lábios. O primeiro que vi nela, aliás. Legal saber que ela tinha a capacidade de sorrir, e não de só rosnar como um animal furioso.
Foi só completar esse pensamento para que ela virasse a cabeça na minha direção e me visse na mesma hora. Mesmo naquela quase escuridão, deu para ver muito bem seu protótipo de sorriso derreter e sumir como se nunca tivesse existido. Tive quase certeza que franzi as sobrancelhas, encarando ela sem desviar o olhar. A garota parecia estar desejando ter um poder de Dracarys e soltar fogo em cima de mim. Ou, se fosse possível, virar aquela máquina de lavar em cima da minha cabeça, porque estava revezando seu olhar de desdém entre mim e ela.
Ah, porra.
Segui seu olhar e notei que eu estava esticado quase em cima daquela coisa, apoiando o quadril do mesmo jeito que ela estava fazendo na bancada. Não sei em que horas fiz isso e nem quanto tempo fiquei encarando ela naquela pose um tanto perturbadora, mas me ajeitei depressa, limpando a garganta, tentando sugar um pouco mais da nicotina no cigarro quase apagado enquanto sentia o rosto arder por alguns milésimos de segundos. revirou os olhos e mudou a posição, me dando as costas completamente, deixando claro que o próximo sorriso agora viria quando ela tivesse um aneurisma severo e se esquecesse completamente da minha presença ali.
Nunca fui odiado desse jeito. Quero dizer, não sei se ela me odiava de verdade, mas estava há anos-luz de me ver como uma presença indiferente ou razoável. Tomar um banho de suco de laranja era tão grave assim? E da segunda vez, ela esbarrou em mim. Dois encontros desastrosos que me pintaram como um idiota completo, mesmo que eu não quisesse. Agora, estava muito claro que, se o ser adorável que era desprezava alguma coisa, essa coisa era eu.
Bom, não havia nada que eu pudesse fazer sobre isso.
Dei meia volta para sair de perto daquela distribuidora bizarra de preservativos e consegui dar três passos até Elliott surgir como um furacão, trazendo umas quatro garotas com ele à tiracolo. Elas me cercaram como predadoras, sorrindo para mim primeiro com simpatia, depois com exaltação.
— E aí, ! Adivinha só: falei pra essas gatas que vim com meu melhor amigo, ninguém menos que em pessoa, mas elas acharam que eu tava mentindo. Dá pra acreditar? — ele riu com perplexidade, e então fez um gesto para as garotas. — Digam oi, meninas! Juro que ele não morde!
Uma das garotas — ruiva, cabelo liso caindo até a cintura e um batom vermelho que a deixava a cara da Rowena uns trilhões de anos mais jovem — empurrou Elliott levemente para o lado até ficar bem na minha frente.
— Então, você é o . — ela lançou um sorriso daqueles de cinema, claramente bem treinado. E, pelo jeito que as amigas se alinharam atrás dela, parecia a líder do grupo. — Caramba, é um prazer. A gente tá no primeiro ano de Medicina, e, bom, você já deve saber que as pessoas em Vagelos falam bastante o seu nome. Você é tipo uma celebridade de Irving. — ela deu um risinho e ajeitou o cabelo. — Sei que o seu negócio é terapias-alvo de câncer, mas pensei que a gente poderia conversar. Sobre o internato, ou qualquer outra coisa mais difícil…
Dali em diante, as palavras dela se perderam quando o som disparou para um nível quase desumano. Fiz o que pude para ouvir, mas acabou que fui levado, ou melhor, arrastado para fora da pista de dança, rumo ao jardim, onde o volume era menos ameaçador para os tímpanos e o número de pessoas diminuiu drasticamente. Também estava mais frio, o que explicava.
Olhei para as garotas, ponderando. Parte do meu trabalho extracurricular era mesmo reparar nos mínimos detalhes — nos olhares, nos gestos, nas pretensões não tão disfarçadas. Claro que a ruiva já tinha deixado as segundas intenções bem claras. Talvez até terceiras ou quartas. Mas, se eu já guardava toda a minha paciência e compaixão para lidar com os mortos, sobrava pouco para o resto da humanidade. E, sinceramente, eu não achava que a caloura bonita claramente rica, geniosa, cheia de opções e que nunca deve ter entrado em um transporte público estivesse precisando de compaixão.
Mas eu finalmente estava falando com alguém.
Por isso, dei meu melhor para treinar as expressões mais genuínas de interesse — precisava parecer que estava totalmente absorvido em cada palavra que saía da boca daquela garota. Nós nos acomodamos um pouco longe de Elliott e das outras, que, de algum modo, pareciam totalmente envolvidas com meu amigo. Ótimo. Aquilo tinha que ser rápido.
Enquanto ela falava sem parar sobre tudo o que a fascinava — sempre dando um jeito de incluir a mim e meus “supostos” interesses na lista —, eu tentava manter um ar de paciência. Tudo isso enquanto ela deslizava as mãos na cara dura por onde quer que pudesse alcançar de mim na fraca iluminação à beira da piscina. A cada minuto, a menina se aproximava um pouco mais na espreguiçadeira, e lá pelas tantas, eu já tinha perdido a conta de quantas vezes afastei sua mão boba, tentando passar a impressão de que só queria conhecê-la melhor primeiro e não a intenção real, que era, de jeito nenhum, me atracar com uma desconhecida numa festa que eu nem queria estar.
Provavelmente, não ia querer dar uns amassos nela nem fora daquela festa. Questão de princípios. Ela só estava interessada no cara do ranking, o que significa que estava articulando todas aquelas frases e citações mirabolantes porque pensava que eu me impressionaria. Como se eu fosse um cara que só daria importância a pessoas que soubessem o que é um dendrito e botões sinápticos.
— Então… Jenny. — soltei um suspiro de alívio no meio de uma de suas frases, satisfeito por lembrar o nome dela. — Aquela história sua sobre o experimento de difusão na célula foi… uau. Sério, deve ter dado um trabalhão, fiquei impressionado.
— Jura? Que incrível ouvir isso de você. — ela iluminou os olhos. — Peguei a ideia de um artigo seu, que, aliás, é um dos melhores que já li. A forma como você explicou osmose e as aquosas foi tão didática… e profunda. Sei que foi voltado para os alunos do preparatório, mas tinha um certo quê avançado que mal deu pra notar. Foi brilhante. — e lá veio outra mão deslizando sem qualquer permissão pelo meu braço.
— Mas então… — limpei a garganta, tentando aumentar a distância. — Imagino que foi difícil fazer tudo isso e ainda apresentar. Sei muito bem como a professora Shire pode ser exigente.
— Bom, ela é uma vaca.
— É… meio que é. — sorri amarelo. — Aposto que você passou várias noites em claro, com aquela pressão toda. No ano passado, um cara saiu chutando a porta da sala e abandonou tudo no mesmo dia.
Ela riu, meio sem graça.
— Acho que todo mundo ouviu essa história. Teve uma hora que pensei em fazer o mesmo, sim. Se sentir exausta é uma merda, ainda mais em vários dias da semana. E eram tantos dados, caramba. Onde ela vai enfiar aquelas porras de números? Levar pra ONU? — ela resmungou com os lábios na borda do copo. Quase abri a boca e perguntei se ela tinha alguma noção de quem era Costanza Shire e de sua ligação real com a ONU, mas fiquei quieto. — Enfim, foi uma fase fodida. Mas dei um jeito, fiquei ligada por dois dias seguidos, e deu tudo certo.
Curvei os lábios para baixo.
— Sério? Que truque foi esse?
Ela retribuiu com um sorriso, um pouco conspiradora.
— Só uma coisinha que a galera faz. Segredo. Não precisamos falar disso. Mas queria contar o que a técnica do laboratório falou sobre o anatômico no meu primeiro dia…
— Qual é o segredo? — insisti, agora mais firme, inclinando-me um pouco para perto. Vi o impacto que isso teve, porque ela logo arfou um pouquinho. — Eu não tô por dentro da galera. As pessoas mal me conhecem e devem achar que eu sou uma cópia do Robocop, mas esses dias eu tô acabado. Tá na hora de mandar formulários para o internato, e eu não faço a mínima ideia de pra onde ir, qual hospital vai ser o melhor, em qual deles vou poder guardar minhas culturas, onde tem as melhores bolsas e esse tipo de coisa. Metade do departamento surge com propostas e vivem me lembrando que o tempo tá acabando. E eu só queria dormir. — dei uma risada seca e irônica, me aproximando só mais um pouco. — Então… será que eu também não mereço um descanso?
Jenny respirou fundo, como se tentasse acalmar o próprio coração ou talvez ganhar tempo para decidir se deveria ou não me contar. Mas a hesitação não durou muito; meu olhar deixava bem claro que eu não estava exatamente pedindo, e que, talvez, ela poderia receber algo em troca se dissesse. Pelo menos, queria que ela pensasse isso.
— Comprei uns remédios com um cara do campus. — ela começou, balançando o líquido dentro do copo. — Ele vende de tudo, mas sabe, nada exatamente... legal. Não faço ideia de onde ele consegue as coisas, mas o povo jura que é coisa de primeira. Pura, top de linha.
— Hum… — murmurei, me esforçando para parecer casual, quase desinteressado. — E esse cara, tem nome? Algum ponto de encontro ou algo assim?
Ela olhou ao redor, e uma pontinha de sorriso se formou no rosto dela, talvez impressionada com minha falta de sutileza.
— As pessoas o chamam de Ash. Mas todo mundo diz que esse não é o nome verdadeiro dele. — ela tinha uma expressão meio cúmplice, meio provocadora. Com certeza estava pensando que antes das três da manhã, eu estaria com ela no meu colo em uma das duas camas do quarto que ela compartilhava com alguma das outras no dormitório. — Tenho um e-mail, se precisar. Só dá pra falar com ele por lá. Mas, sério, gatinho, com certeza você não precisa se meter com esse tipo.
Ah, você nem faz ideia.
— Na verdade, eu preciso, sim. — respirei fundo, tentando demonstrar uma exaustão que, com sorte, parecia autêntica. — Eu não queria falar, mas… Quero muito ir pra Oxford, Jenny. E eles não responderam meu formulário até hoje, mesmo com as três cartas de recomendação mais fodas que alguém nesse país pode conseguir. Harvard é uma boa opção, até o Texas é uma ótima escolha, mas Oxford… eu quero eles, sabe? Mas eles não parecem se importar e a ansiedade tá me comendo vivo. É aquela que tira o sono, entende?
Ela assentiu com uma compaixão exagerada. Percebi que ela ficaria muito bonita se tirasse toda aquela maquiagem pesada.
— Claro. Meu Deus, não sabia que Oxford eram uns merdas completos. Nem parece que formaram o Stephen Hawking. — disse, com os dentes um pouco trincados. — Claro que dá pra te entender. Algumas pessoas podem ter medo de você ser o número 1 fora daqui também.
— Então, você pode me arrumar o e-mail? — perguntei, dando meu melhor sorriso de quem está à beira do abismo, mas tentando parecer digno.
Ela hesitou, mas mantive aquela expressão compenetrada que Margot vivia dizendo que a deixava molhada na mesma hora, e foi o suficiente. Rapidamente, a garota puxou uma caneta da bolsa, olhou ao redor como se fosse cometer um crime e começou a escrever as informações na palma da minha mão.
— É só mandar e aguardar a resposta dele. — ela diminuiu o tom de voz. — Ele vai te dizer onde encontrá-lo.
— Jenny, você acabou de salvar minha vida. — coloquei entusiasmo nas palavras, e ela sorriu de um jeito derretido. — Prometo que vou te recompensar com uma bebida. Duas, na verdade. É o mínimo, não?
— Só uma bebida? — ela ergueu uma sobrancelha e chegou mais perto, segurando minha mão e reduzindo a distância entre nós até que seu rosto ficou a poucos centímetros do meu. Tentei disfarçar o desconforto e toquei seu rosto de leve, numa tentativa de suavizar a situação.
— Duas bebidas, gata. — sussurrei, adotando um tom abafado. — E você sabe que compartilhamos um segredo aqui, né? Então, sem comentários sobre isso por aí. Sei que entende o que quero dizer.
Ela assentiu, rápido o suficiente para que eu me perguntasse se estava bem, e logo puxou o lábio inferior para os dentes. Dei um beijo leve na bochecha dela, agradecendo sem exageros, e senti os olhos dela me observando enquanto me afastava, sem dizer uma palavra.
Sempre fui um mentiroso de primeira. Tipo bastante. Tenho que ser, considerando que nasci com um defeito grave de ver o que as pessoas não veem e interagir com elas. Passei a vida inteira inventando desculpas e traçando estratégias para me misturar e não ser internado junto com pacientes de esquizofrenia no hospital psiquiátrico, fazendo meus pais acreditarem que eu era só… bem, o cara mais desastrado do universo. Explicava os machucados estranhos, as saídas abruptas e até as crises de "rebeldia", quando eu me metia numa briga com alguém ou precisava, sorrateiramente, invadir uma propriedade de Pacific Heights para pegar uma fotografia de uma família que nunca vi na vida. Meus pais, a polícia e a assistente social diziam o mesmo: ele está naquela idade. Daqui a pouco as coisas se ajeitam. Não sabia exatamente o que significava “aquela idade”, mas concordava com tudo, dispersando a comoção.
Então, é lógico que fingir interesse em uma garota qualquer que conheci há menos de duas horas não era nada. Fácil. Meio chato, mas fácil. Assim que me afastei o suficiente de Jenny, mandei uma mensagem para Elliott, avisando que estava dando o fora, mas não valia a pena esperar sua resposta. Mesmo se estivesse transtornado de bêbado, o cara me mataria se eu o tirasse do seu harém particular, então só informei que ele precisaria voltar de táxi e fui apreciar minha liberdade.
No entanto, sair daquela festa foi mais difícil do que eu pensei, porque o número de pessoas na casa tinha triplicado. Atravessar aquilo foi ruim, melequento e um pouco assustador, considerando que um cara com metade do cabelo pintado de azul raspou a bunda exposta na minha calça. Ignorei os olhares espichados para cima de mim, e os burburinhos que começavam e acabavam depressa. Impressionismo da minha mente, eu esperava. Normalmente, as pessoas só olhavam para mim quando me viam no meu habitat natural de ser um completo esquisito.
Já passava das duas da manhã e o ar do lado de fora estava congelante, com vapor branco escapando da minha boca assim que respirei o ar puro. Abaixei as mangas da camisa e dobrei na rua, andando rápido na direção do carro, dando uma última olhada para trás, vasculhando as bordas das janelas vitorianas, a chaminé de tijolos desgastados e o quintal com gramíneas fracas, prontas para serem soterradas pela neve, procurando algum sinal de fantasma na redondeza, qualquer coisa que aquela gente bêbada não estava vendo e jamais veria.
Mas não tinha. A casa estava mesmo limpa. Uma casa velha e que deve ter sido reformada pela última vez em 1987. Uma raridade boa de se ver.
Finalmente alcancei o Jeep, só que, claro, tinha um problema. Óbvio que tinha. Porque aquilo ainda era uma festa, e eu ainda estava em Nova York.
Por algum motivo que jamais vou entender, um grande Toyota RAV4 preto estava parado bem na frente da porta do motorista do meu carro, bloqueando não só a minha entrada, mas também grande parte da rua. Não que alguém fosse se queixar àquela altura, já que eu era o único a sair da festa enquanto ainda havia pessoas chegando. Mas com aquele carro naquela posição, eu não conseguiria ir embora nunca, nem mesmo se chamasse um táxi.
E como se a situação não pudesse piorar, lá estavam eles: um casal, claramente se engolindo vivo, encostado na porta do carona do Toyota, bem entre meu Jeep e o carro ao lado. A garota estava prensada contra a janela, o vestido a bons quilômetros acima dos joelhos. E o jeito que o cara estava beijando ela… definitivamente era o caso de usar a palavra “engolir” com todas as letras.
Limpei a garganta, uma, duas vezes. Até que finalmente eles pararam e me olharam. E pra completar o nível de constrangimento, a garota era ninguém menos que . Ela pareceu extremamente desconcertada ao me ver, ruborizando da cabeça aos pés, fazendo toda aquela fachada de durona cair por terra.
— E aí, amigo. — o cara se virou para mim, com uma voz completamente embriagada, os olhos quase fechados. Era poucos centímetros abaixo de mim, mas tinha postura de atleta, um cabelo claro farto e um nariz romano bastante distinto. Margot teria dito que ele parecia bem-apessoado. Para mim, ele só era um cara fedendo a álcool barrando meu caminho. — Alguma coisa interessante pra você aqui?
— O carro é seu? — apontei para o Toyota, tentando me manter o mais educado possível. Ele balançou a cabeça afirmativamente, ainda um pouco confuso. — Poderia, por gentileza, abrir um espacinho pra eu sair? Aqui não é bem a Avenida Madison. — falei, fazendo um gesto na direção do Jeep estrangulado no meio-fio.
Ele olhou para mim, depois para o Jeep, depois de volta para o Toyota, como se estivesse tentando resolver um cálculo complicado de Física. Finalmente, soltou , deu um passo em minha direção e disse, com um tom impaciente:
— Isso precisa ser agora? Eu estou no meio de uma coisa aqui.
— É, deu pra ver. Mas ainda precisa ser agora.
— A gente já vai. — disse, pegando na mão do cara com certa pressa. — Vamos, Edward, me dá as chaves.
— O caralho de chaves. — ele soltou a mão dela abruptamente, e deu um passo pra trás, surpresa. — Sério, você acha que vai embora agora? Tá cedo demais! Fica aí e aproveita mais um pouco. Você deve ser calouro, né? Então esse é o seu momento! Vai lá, participa da bebedeira de ponta-cabeça no tanque, agarra uma gata na suíte… é disso que você vai realmente lembrar da CCU, sabia? — um sorriso enorme e afiado se abriu nos seus lábios meio vermelhos. Margot também diria que ele tinha dentes excelentes.
No meu caso, odiei todos eles instantaneamente.
— O cara entende a nossa língua? Pode fazer uma mímica ou explicar pra ele que eu tô com um pouco de pressa aqui?
Olhei para de soslaio.
— Edward...
— Cara, quem você pensa que é, falando assim com a namorada dos outros?
— EDWARD!
O grito dela me fez virar na hora. ainda estava vermelha, mas não parecia constrangida pelo fato de eu ter flagrado seu amasso radical. Era um desconforto diferente — como se estivesse amedrontada com o grito que acabou de dar.
— Vamos embora, anda. Podemos ir pra sua casa, que tal? — sugeriu ela, quase num murmúrio.
A proposta fez o cara parar e encará-la com aquele tipo de olhar que só piorava as coisas. Mesmo tentando soar casual, a tensão no rosto de era clara, assim como seu desinteresse real em dizer aquilo. Mas é óbvio que, no estado do idiota, ele não ia perceber nada.
Em seguida, ele deu uma risada estranha, alta, tipo uma gralha, e então, sem mais nem menos, agarrou o glúteo da garota e a deu um beijo forte na sua boca antes de caminhar até a porta do motorista do Toyota. Ela ficou lá parada, os olhos fugindo dos meus por alguns segundos, até que finalmente, sem escolha, levantou o queixo para me encarar. E foi naquele segundo que alguma coisa mexeu comigo de um jeito muito errado. Nem sei bem de onde veio, mas o instinto de dar um soco na cara do tal Edward e desmanchar aquele sorriso de atleta bateu forte.
sumiu do meu campo de visão e abriu a porta do carona quando o motor foi ligado. Antes de entrar no carro, ela olhou nos meus olhos de novo, como se quisesse dizer algo, mas não fez. E daí, algo estranho aconteceu.
Atrás dela, vi uma sombra, meio indefinida, sem rosto, só… uma presença pesada, espreitando bem perto dela. Cravou o que pareciam ser olhos em seus movimentos, observando desde o momento em que ela subia e se acomodava no assento, puxando o cinto de segurança e murmurando algo ininteligível para o namorado imbecil que nem sequer virou a cabeça para olhá-la.
O som do motor reverberando no escuro me tirou do transe, e pisquei. O vulto desapareceu tão rápido quanto tinha surgido. Vi o carro cantar pneus e ganhar velocidade, se afastando depressa enquanto meus olhos ainda tentavam processar o que acabaram de ver.
Olhei para a fachada da casa, soltando o ar tão forte que me envolveu em uma enorme névoa branca.
Talvez aqui não estivesse tão limpo assim.
a) Não tinha como alguém que comandava um esquema daquele tamanho no campus ser tão descuidado.
b) Elliott faria perguntas que eu definitivamente não queria responder.
c) Elliott não ia sossegar até conseguir as respostas, e elas provavelmente destruiriam a sanidade mental dele — e meu status de melhor amigo na mesma tacada.
Preferi focar no caminho mais tradicional. O e-mail dizia para estar à 1 da manhã no segundo andar da Dungeons, última porta do corredor. Não me admirei com a continuidade da festa por hoje também, mas não fiquei animado de ter que voltar àquela mesma casa — não depois que tinha literalmente escapado dela ontem e não depois de ver aquela… coisa no final. Uma coisa esquisita que não tive tempo de pensar ou pesquisar sobre (lê-se: perguntar à minha avó), mas eu não tinha escolha. Decidi que tudo acabaria naquela noite, e ainda com tempo de sobra para assistir os irmãos Soprano brigando por um pedaço de torta na reprise da HBO.
Cheguei a pensar em abordar Ash de forma mais inteligente, mas me lembrei de uma coisa que Margot vivia me dizendo: todo mundo acredita no invisível, , e todos têm medo quando são confrontados por ele. Não que isso deixasse a minha decisão mais racional. Era um plano péssimo. Terrível. Tinha tudo para dar errado. Só esperava que não desse tão errado a ponto de ser irreversível.
O som estridente do interfone me tirou dos pensamentos concentrados nas gotículas de café na máquina. Suspirei, já sabendo quem era só pelo padrão dos toques.
— Cara! — Elliott entrou pela porta antes mesmo de eu abrir direito, se jogando no sofá retrátil. — Você não vai acreditar onde eu estava.
— Então nem precisa contar. — avisei, voltando para a cozinha. Eu sabia onde Elliott morava, e se tinha batido ali bem depois das nove da manhã e usando a mesma roupa de ontem, dava para saber que estava bem longe de casa. — Tá com fome?
— Sempre. — respondeu, ofendido, como se eu tivesse perguntado algo óbvio. — E deixa eu te dizer: você é oficialmente o melhor amigo do mundo. Acabei de riscar o ménage da minha lista de coisas pra fazer antes de morrer.
— Que galanteador. Pretende plantar uma árvore também?
— O mundo já tá fodido, . Uma árvore a mais não vai salvar a gente do próximo meteoro.
— Faz sentido. — dei de ombros, despejando o café na caneca preta com a logo de Vagelos. — Mas ménage? Achei que tinha te visto com quatro garotas.
— Uma delas estava mais interessada nas outras do que em mim. Fica quieto e respeita minha vitória.
Ri enquanto terminava o prato favorito de Elliott: pão e geleia (sem preferência de sabor). Coloquei dois em cima da bancada e ele se levantou do sofá, faminto.
— Mas e você, sumiu ontem. — disse, enquanto mastigava como um sobrevivente no apocalipse zumbi. — Procurei por você que nem doido e nada. Meu celular até descarregou. Sorte que as garotas me deram carona pra casa. Pra alguma casa.
— Fiquei cansado, te avisei na mensagem. Parece que meu professor precisava de um relatório de última hora urgente.
Isso não era totalmente mentira ou totalmente verdade. Elliott sabia que, se existisse um grupo em todo aquele campus que poderia ser visto trabalhando ou perambulando de madrugada além dos mendigos em volta dos portões, esse era a corja da faculdade de Medicina. Era normal o seu orientador te mandar um e-mail às duas da manhã pedindo coisas urgentes e você respondê-lo na mesma hora.
— E a Jenny? Ela era a mais gata das quatro. Tava na cara que você tinha tudo pra se dar bem.
— Sei lá. Não rolou. — dei de ombros, agora fazendo um sanduíche para mim. Elliott ficou parado, o canto da boca sujo de geleia de amora, a testa franzida como se eu tivesse acabado de dizer que ia platinar o cabelo.
— Ah, fala sério. Isso é por causa da Margot?
Agora eu estava franzindo a testa.
— O quê? Como a Margot veio parar nessa conversa?
— Não sei, talvez porque ela é a única garota que ocupa algum espaço sexual na sua vida?
— Ela é só uma amiga, Elliott. Não faz sentido trazer ela pra esse contexto.
— Amigos que transam, entendi. — ele ergueu uma sobrancelha enquanto lambuzava o pão com mais pasta de amendoim. — O “clube” onde ela trabalha tem mais amigas assim? Será que ela me apresenta?
Balancei a cabeça, pegando meu café e voltando para a sala. Encerrar assuntos ignorando Elliott era meu talento especial, e ele já sabia quando parar. Especialmente se o tópico fosse Margot.
Margot McDonnell era minha melhor — e única — amiga de verdade. E, sim, nosso relacionamento podia parecer complicado à primeira vista, mas, na verdade, não era. Crescemos juntos no orfanato Saint Vincent’s, duas crianças totalmente diferentes que gostavam de uma brincadeira muito peculiar: quem ajudava o Sr./Sra. Fantasma primeiro.
Sim, Margot era igual a mim.
Isso, mais que tudo, já era um dos principais motivos do porquê éramos amigos. Nos 22 anos da minha vida, nunca conheci outra pessoa que enxergasse os mortos como eu e, por mais que eu reclame do fardo que isso às vezes se torna, é muito mais fácil lidar com ele quando você não está sozinho.
Margot nunca conseguiu ser adotada definitivamente. Eu era o oposto dela: quieto, retraído, a cara enfiada em algum livro aleatório, enquanto ela parecia não ter um filtro. Era desbocada, bagunceira, teimosa. No dia em que meus pais foram me buscar, ela gritou uma série de palavrões para eles, chorando, e até correu atrás do carro enquanto íamos embora. Aquilo me despedaçou. Por meses, cada vez que eu fechava os olhos, revivia aquela cena, o rosto dela ficando menor no retrovisor. Mas eu sempre me lembrava da promessa que fizemos um ao outro: nunca deixaríamos de ser amigos, e com certeza iríamos nos encontrar de novo. Margot tinha sido a primeira pessoa a me arrancar da concha onde eu tinha me trancado, me dando algo que eu nem sabia que precisava — a chance, mesmo que mínima, de ser eu mesmo.
Nos anos seguintes, eu dava um jeito de me esgueirar até o telefone preso na cozinha escondido dos meus pais e ligava para o orfanato sempre que podia. Queria contar a Margot sobre a minha nova vida, minha nova casa, sobre meus avanços, especialmente com os "senhores fantasmas" que só nós entendíamos, e ouvir sobre as aventuras dela. Mas as notícias que chegavam pela senhora Coppola eram sempre preocupantes: Margot tinha fugido de mais um lar temporário, brigado na escola, tentado escapar do orfanato, passado a comprar cigarros. Ela não podia ter celular, então, nossas conversas eram raras e espaçadas, até desaparecerem de vez quando cheguei ao ensino médio.
Os primeiros anos sem ela foram insuportáveis. Ninguém mais entendia o lado mais estranho da minha vida, aquele que só Margot conhecia e aceitava. Era como tentar esconder uma parte enorme de mim mesmo, sufocante a ponto de eu ir me fechando cada vez mais. Principalmente para os meus pais. É claro que eles notaram que tinha algo de errado comigo, e tentaram ajudar com o melhor que seu amor e dinheiro conseguiam oferecer, mas eles jamais poderiam. Não era algo que eu podia simplesmente explicar.
Então conheci Elliott, no primeiro ano da escola católica. Ele era o tipo de pessoa que fazia tudo parecer mais leve, como se a vida fosse o seu cenário de sitcom e ele precisasse fazer a plateia rir. Foi quando eu comecei a me envolver em conversas aparentemente normais entre outros garotos, como namoradas, jogos, Pornhub e “ei, quer ir dar um trago lá na quadra?”. Ele não ligava para as minhas "esquisitices" — como falar sozinho no vestiário da educação física, ser detido por invasão de domicílio e odiar museus com todas as forças. Ele fazia perguntas, claro, mas tinha uma habilidade incrível de deixar as coisas para lá. Elliott me lembrava Margot, de certo modo. Não na aparência ou nos trejeitos, mas na maneira como me fazia sentir. Com ele, aquela sensação de estar sozinho diminuiu um pouco, abrindo espaço para que eu tivesse outros amigos também.
E foi por causa dele que tudo mudou. No dia da formatura do colegial, Elliott sugeriu que a gente, junto com dois outros caras da nossa turma, explorasse o subúrbio de São Francisco. Depois de algumas decisões questionáveis e subornos improvisados, acabamos em um clube noturno. Era um lugar pequeno, mal iluminado, e ninguém pareceu se importar com um grupo de adolescentes desajeitados vestindo smoking e cheirando a ponche de cereja se infiltrando. Eu estava seguindo o fluxo, já meio bêbado com a vodka que o cara de aparelho tinha roubado do estoque do pai, e nada preparado para o que vinha a seguir.
Estávamos sentados em uma mesa, esperando o show começar, quando as luzes diminuíram. Um holofote brilhou no palco. E lá estava ela. Margot.
Ela usava lingerie coberta de brilho e lantejoulas. Mesmo com anos de distância e maquiagem pesada cobrindo o rosto, eu a reconheci imediatamente. Foi como se o tempo congelasse, me levando de volta ao orfanato. Meus amigos estavam agitados, mas eu mal conseguia respirar.
Depois do show, nossos olhares se cruzaram. Ela me viu na multidão, e então tudo aconteceu rápido demais. Num instante, eu estava sentado, tentando processar; no outro, já estávamos juntos no bar, falando sem parar. Margot me contou tudo o que aconteceu desde que perdemos contato: como saiu do orfanato aos 17, os bicos que teve, as viagens por impulso, uma brevíssima fase nômade até, finalmente, acabar ali. Provavelmente, ela esperava que eu dissesse alguma coisa. “Nossa, mas stripper? O que você pensa que tá fazendo? Achei que estaria vendendo planos dentários ou abrindo uma sorveteria”. Mas não disse nada, porque nada daquilo me incomodava. Margot era alguns poucos anos mais velha do que eu e sempre foi esperta e decidida, sempre fez o que queria fazer. O fato de ela dançar seminua em um pole dance não mudava um terço da imagem que eu tinha dela. Pelo contrário, admirava o quanto ela era boa naquilo.
Isso também leva a outra parte da noite, onde ela me pagou drinks coloridos, me chamou pra dançar e acabei acordando em um quarto de hotel do outro lado da cidade seis horas depois, pelado e arranhado. Com ela.
Elliott disse que aquele dia foi muito importante para eu acabar com o burburinho de que eu fazia parte do espectro aroace.
Desde então, Margot e eu sempre mantivemos contato, mesmo que isso significasse trocar longos e-mails porque, de alguma forma inexplicável, ela sempre estava sem celular. Há cerca de um ano, ela se mudou para Nova Jersey, onde começou a trabalhar em um clube mais badalado e, agora, que não exigia suas habilidades de dança. Pelo jeito, a mudança tinha sido um upgrade: mais dinheiro, mais amigos e, claro, mais responsabilidade. Agora que estávamos mais próximos, conseguíamos nos ver com mais frequência. Às vezes, ela até me ajudava com... bem, assuntos envolvendo os mortos. Eu adorava isso — na verdade, valorizava cada segundo ao lado dela, porque com Margot eu podia ser eu mesmo, sem máscaras e sem pessoas prontas para te colocar em uma camisa de força.
Elliott nunca conseguiu entender essa dinâmica. Para ser justo, poucas pessoas entenderiam só olhando de fora. Eu e Margot tínhamos uma conexão... peculiar. Havia um carinho mútuo, e sim, algumas dessas noites de bebedeira ou aquelas em que a vontade batia, eu acabava acordando com ela na minha cama, mas não era algo que eu via necessidade de rotular. Não era romântico, não era exclusivo, não era aquele tipo de coisa que você selaria com uma aliança. Era só... eu e Margot. Gastando tempo juntos. Vivendo o que só a gente podia viver.
Mas, para Elliott — e provavelmente para qualquer pessoa com um senso de normalidade mais convencional — ela parecia minha namorada. Ou, no mínimo, alguém por quem eu deveria estar apaixonado. O que, claro, só tornava as coisas mais complicadas, porque, honestamente, eu nem sabia direito o que significava se apaixonar.
Sentei no sofá e puxei o laptop da mesa de centro, planejando estourar Mr. Blue Sky do Eletric Light Orchestra e fingir que estava interessado em ler os artigos que o doutor Neeson tinha me passado, enquanto Elliott se jogava na poltrona. Abri primeiro meus e-mails, mas nada de Margot responder o último que mandei. Fazia só dois dias, então não era grande coisa, mas sabia que ela teria algo a dizer sobre o caso de Karen. Ah, e provavelmente também me daria um sermão por ter ido a uma festa sem ela.
— E aí, o que vai fazer hoje? — Elliott perguntou, agora com as migalhas de pão caindo no peito.
— Vou voltar pra Dungeons. — respondi, sem desviar os olhos do laptop.
O silêncio que se seguiu foi tão expressivo quanto a cara de choque que eu podia imaginar no rosto dele.
— O quê? — ele praticamente gritou. — Espera aí... Como assim? Você se divertiu tanto assim ontem e eu nem percebi?
— Não tinha como você perceber alguma coisa com duas línguas simultâneas entrando na sua boca.
— Eu sabia que aquele beijo triplo não tinha sido minha imaginação. Obrigado. — ele esticou o braço, e deu um suspiro de alívio. — Mas ainda não sei onde tá a lógica de você querer repetir uma noite que você encerrou cedo demais.
— Sei lá. Foi mais legal do que eu esperava. — dei de ombros, tentando soar indiferente.
— Legal tipo… muito legal? — ele insistiu, com as sobrancelhas quase se unindo na testa.
Suspirei.
— Tá bom. Foi bem legal assim. Se quiser, pode ir comigo de novo.
Elliott levantou tão rápido que parecia que alguém tinha enfiado um alfinete na bunda dele.
— Cara, eu não sei o que você anda tomando esses dias, mas a resposta é sim. Pra qualquer coisa que você sugerir! Se eu encontrar mais três gatas como aquelas, juro que meu nome vai parar no Guinness. “Maior recorde de pegação da CCU”. O que acha?
— Acho que o Guinness tem mais classe do que isso, Thomas.
— Cala a boca! Vamos te vestir direito dessa vez, pra você arrasar mais que ontem. Sério, as pessoas vão até querer tirar fotos, e todas aquelas garotas…
— Elliott, segura a onda. Se você se empolgar demais, elas vão sair correndo.
Ele deu de ombros, com um sorriso maroto.
— Tudo bem. Aí eu deixo você trazer todas elas de volta.
Eu estava ridículo.
Não era uma conclusão difícil de chegar, já que eu parecia uma versão carnavalesca de um leprechaun. Elliott sabia que eu odiava verde. Sabia que eu odiava mocassins. E, ainda assim, lá estava eu, parecendo um cartaz vivo de St. Patrick’s Day, pronto para ser a estrela principal do desfile de Boston. Quis queimar tudo aquilo, ou talvez me queimar, considerando que jamais esqueceria da imagem de mim mesmo que vi no espelho.
Eu sei que era só por uma noite, e só por um trabalho extracurricular que eu fazia pelos mortos, mas aquele verde não ia rolar.
Acabei me virando com algo mais próximo de mim: camiseta branca, jaqueta de couro e jeans escuros com botas. Não era exatamente o que eu usaria em dias normais, mas pelo menos não era... verde. Elliott, por outro lado, parecia cada vez mais confiante — ou absolutamente alheio — com sua bomber estampada de animal print (um tigre, para ser específico) que, honestamente, me fez desistir dele. Culpei o ménage pelo excesso de autoestima.
Quando chegamos à festa, percebi que havia ainda mais gente do que no dia anterior. Elliott, com sua eficiência em viver com o nariz no celular, comentou que a divulgação das fotos de ontem no Instagram tinha feito a maior parte do serviço em atrair toda aquela gente. Disputando espaço e oxigênio em menos de 30m², havia pessoas de cidades vizinhas, atletas de universidades locais e até de nossos famosos rivais de Princeton, e agora eu precisava lidar com um mar de ombros, cotovelos e hálitos duvidosos para conseguir atravessar o salão principal.
Antes de se perder na multidão, Elliott virou-se para mim.
— Vou pegar bebidas. Fica aqui. E se te oferecerem um cigarro vermelho, foge.
Assenti, sabendo que era exatamente o que eu não faria. Assim que ele desapareceu na massa humana, nem hesitei em ir para o outro lado, direto para onde eu me lembrava ter visto as escadas. Elliott me perdoaria depois. Subi os degraus largos em semi-espiral, desviando de um montão de cenas de beijos diferentes e pessoas que já tinham perdido a batalha contra o álcool.
Marchei pelo corredor inteiro até a última porta. Ash estaria lá. Se tudo corresse bem, resolveríamos aquilo hoje, e Karen — e tudo o que ela representava — seria coisa do passado. O que, diga-se de passagem, era uma das únicas vantagens de lidar com mortos: eles despejavam seus problemas de uma vez só e depois desapareciam, nos largando aqui com as consequências de seus escândalos.
À medida que eu caminhava, tive de novo aquela impressão de estar sendo observado. Elliott mencionara algo sobre meu nome estar circulando no Twitter depois da festa anterior, criando certo burburinho. Ótimo. Mais uma camada de desconforto. Não era o tipo de atenção que eu precisava hoje enquanto estava prestes a ter uma conversa um pouco difícil com um cara que trabalhava com tráfico de tarja preta.
Quando cheguei ao quarto, a porta estava fechada e, curiosamente, vazia de espectadores ao redor dela, como acontecia nos quartos vizinhos. Dei dois passos para o lado, me preparando para esperar, quando ela se abriu de repente. Antes que pudesse reagir, uma mão me puxou para dentro com uma rapidez instantânea. A porta se fechou atrás de mim com um clique perturbador.
A atmosfera do cômodo era medonha. A luz fraca limitava minha visão, mas o ponto mais claro estava à direita: uma grande mesa de madeira escura e polida. Atrás dela, um homem com os pés apoiados, como se estivesse em uma pausa casual no meio de uma reunião de negócios. Ao redor, mais duas figuras quase invisíveis. Por um breve segundo, me senti em uma cena deletada de O Poderoso Chefão.
Então ele se levantou, com uma calma ensaiada, e caminhou na minha direção. Sobretudo preto, jeans escuros e coturnos tão surrados que dava para perceber mesmo a meia-luz. A fumaça de um cigarro abandonado na mesa pairava no ar, dando o toque final no cenário clichê de mafiosos.
— ? — ele perguntou, com um sorriso quebrado que não prometia coisa boa.
Estendeu a mão.
— Sou o Ash.
Apertei a mão dele, tentando não parecer tão desconfortável quanto me sentia.
— Relaxa, não precisa ficar tímido. Todo mundo aqui é amigo. — disse, despreocupado, mas não serviu pra me passar um pingo de confiança. — Trouxe a grana?
Assenti com a cabeça e puxei os duzentos dólares do bolso. Cada nota parecia pesar mais que deveria. Se eu visse Ash no campus pilotando uma Harley ou dirigindo um Audi, não me surpreenderia nem um pouco. O cara cobrava bem caro pelo serviço.
Ele contou nota por nota devagar, meteu o dinheiro no bolso e fez um gesto discreto com a cabeça para um dos caras encostados na porta. O sujeito sumiu por uns segundos antes de voltar com uma maleta preta, colocando-a em cima da mesa com um baque seco.
— Certo. — Ash voltou para trás da mesa, com a maleta entre nós. — Vamos ao que interessa. Do que você precisa? Relaxar? Curtir? Apagar? A gente tem de tudo. Só falar.
Eu já tinha ensaiado essa conversa na minha cabeça umas mil vezes, mas agora, cara a cara, minha garganta parecia feita de areia. E as pessoas extras na sala só complicavam tudo — não que eu tivesse medo de briga, mas sair no soco com dois brutamontes enquanto tentava lidar com Ash não era exatamente um plano brilhante. Já não era muito brilhante agora. E queria acreditar que eu estaria preparado caso as coisas chegassem àquele ponto, mas na verdade não estava — eu nunca estava.
— Tá tudo bem aí? — a voz de Ash era casual, mas seus olhos analisavam cada pedaço do meu rosto, procurando algo.
"Que se foda", pensei. Eu estava ali, já tinha entregado o dinheiro. Tinha que ir até o final, mesmo se fosse um final onde eu teria que relembrar os golpes básicos de defesa pessoal que eu usava contra os mortos.
— Quero a mesma coisa que você deu à Karen Bracco.
Não sei como minha voz saiu tão firme e clara.
O rosto de Ash congelou por um segundo antes de ele mascarar o choque com um risinho nervoso. Do meu lado, os dois grandalhões na porta começaram a se mexer, claramente interessados na conversa.
— O quê? — ele riu de novo, mais forçado dessa vez. — O que você acabou de falar?
— As pílulas que você deu pra Karen. A garota suicida da semana passada. Quero o mesmo que ela ganhou. Pelo visto, dá o maior barato.
Ash apoiou as duas palmas abertas em cima da superfície amadeirada da mesa, forçando a expressão a permanecer do jeito que eu tinha encontrado no início: fria, autoritária.
— Eu não faço ideia do que você está falando, amigo. Vendo coisas pra várias pessoas todos os dias, então se você não quer nada e veio até aqui pra ficar de papo furado, melhor sair logo.
— Então a gente precisa ter algum tipo de relacionamento amoroso pra eu conseguir o produto também? — dei de ombros. — Isso é uma pena, porque não vai rolar. Se existir outra maneira, talvez-
Ash estava na minha frente antes mesmo de eu terminar de falar, sua mão segurando a gola da minha camiseta com tanta força que senti o tecido ameaçar rasgar.
— Como você sabe disso? — ele sussurrou, a tensão escorrendo por cada palavra. Um leve pânico foi muito perceptível naquele rosto de pedra. — Quem é você?
— Você não precisa mesmo saber.
— O que você quer?
— Quero saber se você a matou.
— Karen? Eu jamais faria isso. — ele estava se esforçando para parecer ofendido, mas o suor na sua testa contava outra história.
— Faria, sim. — estreitei os olhos. — Ela morreu depois de tomar suas balinhas "inofensivas".
— Que porra?! — ele me soltou em um impulso tão forte que me fez segurar nos calcanhares pra não cair. Seus ombros não paravam de tremer. — Tá sabendo disso como? Ela saía com você também? Eu devia saber que ela não era tão monogâmica quanto dizia.
— Esse é o menor dos seus problemas, cara. Você sabia o que estava dando pra ela? Sabia que ela morreria por isso?
— Mas é claro que não! — ele passou as mãos na cabeça e andava de um lado pro outro. — Eu dei Lorazepam pra ela, mas foi só isso! Nem disse pra ela tomar tantos assim. Eu também fiquei surpreso quando soube, porque não tinha nada naquela porra além do que a bula já diz. Eu nunca imaginei que ela faria uma coisa dessas.
— E ela não fez. Ela tomou exatamente os três comprimidos que você disse, e acordou morta. Não é possível que você não tá vendo nada de errado nisso. Vai lá, cara, confessa.
— Opa, o que está havendo aqui? — uma nova voz interrompeu, profunda e grave, vindo da porta.
Várias coisas aconteceram ao mesmo tempo. Aquela voz, carregada de irritação, vinha dele: Edward; o cara bêbado que eu tinha expulsado da frente do meu carro ontem à noite. Hoje, pelo menos, ele parecia sóbrio. Quer dizer, tão sóbrio quanto alguém com a cara dele pode parecer.
Minha cabeça virou automaticamente em direção ao som, e só então me dei conta de como minha última frase havia saído alta demais. Não era só Edward; estava logo atrás dele, parecendo tão surpresa quanto eu.
Ah, ótimo. Era exatamente disso que a situação precisava: plateia.
Edward cruzou o cômodo em passos largos, parando bem na minha frente. Seus olhos alternaram entre mim e Ash.
— Alguém pode me explicar que porra tá acontecendo? — a pergunta era mais direcionada a Ash do que a mim. — Posso saber o que esse bosta tá fazendo aqui?
Ah, então ele se lembrava de mim.
— Como… Como você sabia? — Ash ignorou completamente o surto de Edward, seus olhos ainda fixos em mim, a voz carregada de incredulidade. — Como sabia que eu disse três comprimidos?
Engoli em seco. Tinha me preparado para confrontar Ash, mas nada na minha mente calculou esse cenário ridículo com personagens extras e luz de fundo dramática. Como eu explicaria aquilo? Na frente de toda essa gente?
Mas eu também não conseguia ir embora, então a situação estava pior do que eu pensava. Janelas? Eu não conseguia enxergar direito naquela escuridão. A porta estava fora de cogitação, pelos dois caras parados que não iriam relaxar enquanto não me socassem até a morte. Armas? Nada que pudesse neutralizar quatro pessoas de uma vez. De repente, desejei mais do que tudo que Elliott, em seu momento pleno de embriaguez, abrisse mais uma porta errada na vida e me desse uma brecha.
Edward cutucou Ash para que ele "acordasse" do transe de olhar para mim e levantou as sobrancelhas. Ash balançou a cabeça e, de repente, a mesma expressão de bad boy que tinha assim que entrei retornou.
— Esse cara veio aqui me perguntar se eu matei a Karen. — Ash finalmente murmurou, o rosto endurecendo novamente.
— O quê? — Edward riu, mas foi aquele tipo de riso que não combina com diversão. Era mais cínico, afiado. Ele se virou para mim. — Você é maluco? O que te faz pensar uma coisa dessas?
— Ele sabe que eu saía com ela. — Ash quase sussurrou e Edward revirou os olhos.
— E daí que ele sabe disso? Foi um lance passageiro, não foi? Você nem estava mais com ela quando ela decidiu fazer merda. Não tem que deixar esses cretinos entrarem aqui e perguntarem isso. — Edward deu mais uma risada e Ash permaneceu mortalmente sério. Depois de um segundo, o rosto de Edward também mudou. — Você não estava mais com ela, não é? A gente conversou sobre isso, eu te disse pra largar aquela infeliz.
— Ele não fez nada disso. — falei pela primeira vez, chamando a atenção de todos. — E não só isso, mas enfiou Lorazepam nela, que provavelmente foi a causa da morte, mas ela nunca quis se matar. Na verdade, ela nem sabia o que estava tomando. Ela só confiou nele. — joguei os braços para apontar para Ash. Pelo canto do olho, vi atrás de Edward, na escuridão, o rosto pálido de choque. Edward parecia mais com raiva.
— Que porra é essa? — ele resmungou para si mesmo. — Então, aquela meretriz também tava dando pra esse aí? — com um riso maldoso, ele se aproximou de mim, colocando uma mão nos meus ombros. — Qual é, cara? Vai pra casa. Tem coisas muito mais interessantes nessa festa do que bancar o Sherlock por uma garota morta. Você tá estragando todo o clima do lugar.
A voz dele era suave e calma, mas por que ao ouvi-la eu sentia uma força sombria prestes a me engolir?
— Ei, não acredita em tudo que aquela garota te disse. Não vê que ela estava te enganando?
— Quero que ele confesse. — falei firme, olhando em seus olhos. A expressão de Edward tornou-se séria de novo.
— Vai pra casa, tô te avisando.
— Eu já disse que não a matei. — Ash disse, o desespero novamente salpicando seus olhos. — Eu menti, Edward. Não terminei com ela. Eu... sei lá, não lembrei disso.
— Cala sua boca! — Edward rangeu os dentes ao falar com o amigo, seu olhar generosamente assustador. — Olha o que a sua estupidez tá causando. Quer foder com tudo mentindo pra mim assim?
— Com tudo? O que você tem a ver com isso? É mais um integrante da trupe do mal desse cara que não fez questão de falar com a polícia? — perguntei, e só depois de meio segundo percebi o que fiz.
Na verdade, Edward também pareceu perceber o que tinha feito. Mas não tive tempo de questioná-lo por mais tempo porque, sem mais nem menos, o cara resolveu me socar. Mas não um simples soco. Foi um baita soco de alguém que parecia ter alumínio entre os dedos. Foi tão forte na minha boca que me fez perder o equilíbrio e ser lançado para trás, batendo o canto da testa em um tipo de quina e desabando no chão logo em seguida.
A primeira reação do meu cérebro foi ficar embaralhado com o baque e minha visão ficar turva, então eu sabia que alguém tinha gritado alguma coisa assim que caí, mas era como se eu estivesse embaixo d'água. E antes que eu pudesse me recuperar, senti a gola da minha camiseta sendo puxada e mais um soco. Depois outro. E mais outro. Ele nem me dava tempo de sentir dor.
Se há algo que os socos fizeram por mim — além de me garantir uma dor do caralho —, foi me ajudar a clarear os ouvidos e a mente. A confusão deu lugar a um entendimento maior do que estava acontecendo. Aquela voz aguda, entrecortada por gritos era de , sem dúvidas. Mas, antes que eu pudesse processar direito, um impacto forte atingiu minha barriga. O ar me fugiu dos pulmões. Todo o universo inchou e sangrou diante dos meus olhos.
Os socos sozinhos não estavam mais sendo suficientes para aquele boçal.
Foi quando percebi que estava mesmo levando uma surra. O sangue escorrendo da minha testa nublava minha visão, pingando no chão. Ainda assim, ouvi as risadas de Edward. Elas pareciam... distantes, o que não fazia sentido para alguém que deveria estar me acertando. Então lembrei: as outras pessoas do recinto. Dois caras guardavam a porta, ambos estudantes e não muito brutamontes, mas, na desvantagem de dois contra um, fugir era uma estratégia risível.
A voz de seguia ao fundo, mas as palavras eram indistintas, como se estivessem no fundo de um abismo. Não era comigo que ela falava. Não podia ser. Talvez, se parassem de me espancar por um segundo, eu conseguisse ouvir melhor. Mas, entre tentar me defender e me agarrar à consciência que insistia em escapar, ouvir era um luxo que não podia me dar.
Então, como por um milagre, eles pararam.
A dor inundava cada parte do meu corpo. Parecia que eu nunca mais seria capaz de levantar a cabeça de novo, mas fiz mesmo assim. Forcei os olhos, como se fingir que minha visão estava intacta fosse disfarçar meu estado deplorável. Edward estava sorrindo, o tipo de sorriso que não alcança os olhos e faz você se perguntar como a humanidade chegou até aqui. Ele segurava pelo braço. Ela gritava meu nome, desesperada, e lutava para se soltar. Depois de algumas tentativas frenéticas, conseguiu.
Ela correu até mim, abaixando-se e me forçando a olhá-la nos olhos.
— Ei, ei, olha pra mim. Você está bem? — ela me balançou, apesar de não ser o certo a se fazer, mas reconheci o seu desespero: ela também não queria que eu apagasse. — Por favor, aguenta firme. Diz alguma coisa. Qualquer coisa!
— , o que você pensa que tá fazendo? — ouvi a voz de Edward. — Vem pra cá agora mesmo.
— Já chega! — gritou, virando-se para ele. A coragem na voz dela estava tingida de medo, trêmula, mas estava lá. — Para com essa loucura! Você tem noção de quem ele é? Se ele mostra a cara desse jeito no campus, pode rolar até uma investigação e então a casa vai cair pra vocês! Uma coisa vai ligar à outra, será que vocês não entendem isso? Ele é , caramba!
Sei que quis me dar uma mãozinha, mas aquele silêncio pesado e sufocante que tomou o ambiente depois da menção do meu nome não era exatamente uma ajuda. Muito pelo contrário. Revelar minha identidade não era me fazer um favor.
— Quê? — murmurou Ash. — O engomadinho de Irving? O que um cara desse tá fazendo aqui?
E com um grunhido, ele não esperou nenhuma resposta, tampouco uma confirmação. Seus pés agiram primeiro, rápidos e ligeiros, e ouvi sons de trincos de maletas e pílulas balançando em vidros de plástico. Tentei lentamente me mover por cima do colo de .
— Que porra é essa? Você tá saindo? — Edward soou indignado.
— Claro que tô saindo, não sou um imbecil, a noite acabou, Belfort. Se o seu pai descobrir sobre isso, vai ser muita sorte se eu apenas tiver a matrícula riscada. — Ash respondeu.
— Acha mesmo que esse babaca vai falar alguma coisa? Teria que explicar primeiro o que estava fazendo aqui, não acha? E não foi pra comprar nada.
— Que se dane, muita gente importante do alto escalão entra aqui, mas elas não saem com um nariz quebrado! Isso não faz parte dos negócios!
— Se liga, Ash! Meu pai é um idiota, vai acobertar tudo. Ninguém vai sair prejudicado.
— Só se for pra você, Belfort. Ele continua sendo o reitor e não vai deixar isso barato pra nenhum de nós caso isso saia daqui. Resolve isso. Vamos nessa. — ele gritou para os outros dois caras e então, em menos de um segundo, seus passos desapareceram pela porta.
A vertigem começou a me dominar. Podia sentir os dedos de tremendo enquanto ela tentava puxar alguma coisa perto da minha cabeça, e juro que estava fazendo do possível ao impossível para conseguir me movimentar, para achar um jeito de cair fora dali como Ash e seus comparsas, agora que a porta estava finalmente livre. Uma rajada de luz branca iluminou a superfície da minha pálpebra, quase se fechando, mas ela logo foi afastada por uma sombra grande pairando acima de mim.
— Vamos embora, . Agora. Larga esse idiota. — Edward a puxou pelo braço novamente.
— Não. — ela sussurrou, a voz trêmula voltando a aparecer.
— Não vou repetir.
— Não! — se desvencilhou com força, surpreendendo-o. — Se eu o deixar aqui, só vão encontrá-lo amanhã. E você sabe disso. Ele precisa de um hospital urgente.
Por um instante, o quarto ficou em silêncio. Edward se aproximou, colocou uma mão nas bochechas dela, forçando-a a olhá-lo. Sua voz saiu baixa, perigosa:
— Você vai se arrepender disso, .
Algo no tom dele me fez querer me mexer. Com dificuldade, muito mais raiva do que força, empurrei meu corpo para cima, tentando me colocar de pé. Mas ele já tinha saído, as palavras ainda pairando no ar como ameaça.
, ofegante, pegou o telefone de novo. Desta vez, juntei o que restava de energia para segurar sua mão antes que ela completasse a ligação.
— Nada... de hospital. — consegui balbuciar, cada palavra um esforço, muito mais dor do que eu pensava envolvida. Eu tinha 95% de certeza que meu nariz estava quebrado.
Ela piscou, atônita.
— Nada de hospital? Olha pra você! Você enlouqueceu? Você está sangrando e... Ei! Você não pode se levantar!
— Eu preciso ir. — fiz um esforço sobre-humano para conseguir segurar na mesma quina onde havia batido, que percebi agora que se tratava de uma pequena mesinha de cabeceira. A dor no abdômen foi tão aguda que me arrancou um gemido, me puxando de volta para o chão. Algo quente e metálico encheu minha boca antes que eu pudesse evitar; o sangue jorrou, confirmando o que eu já temia. Ótimo. Além dos socos, eles provavelmente me deram de presente uma contusão pulmonar de leve. Ou não tão leve assim.
— ! — gritou novamente, e pelo menos agora sua tremedeira era pelo medo de que eu morresse a qualquer momento e ela fosse a única testemunha. — Por favor, aguenta, não apaga! Que se dane o que você diz, você vai pra um hospital agora mesmo.
— Não... por favor. — minha mão encontrou os pulsos dela antes que ela alcançasse o celular. Não sei como consegui. — Você não entende... eu não posso.
Os olhos dela estavam brilhando, quase transbordando lágrimas. E, honestamente, eu a entendia. Estava sendo um completo idiota por fazer isso com ela, mas a última coisa que imaginei era estar numa situação dessas com , uma garota que não me conhecia e que não sabia o quanto hospitais eram o lugar errado para eu pisar agora. Pelo menos como paciente.
O problema é que ela tinha um ponto: eu sozinho não conseguiria nem chegar na porta. Mas envolver mais alguém não era uma opção.
— O que você quer dizer com "não pode"? Por que não pode? — a voz dela quebrou, e a garota sacudiu meus ombros com mais força do que eu achava possível para alguém tão pequena. — Ei, acorda! Você não pode dormir, entendeu? Onde tá aquele seu amigo? Como é o nome dele? Posso chamar ele… Fala comigo!
Mas a escuridão já tinha decidido que era minha hora. A cada segundo, o peso nos meus pulmões aumentava, como se alguém tivesse decidido estacionar um caminhão lá dentro. A dor irradiava por todo meu corpo, e o som da voz de parecia vir de muito, muito longe.
Nos meus últimos instantes de consciência, o mundo ficou enevoado, quente e vermelho. Só lembro de murmurar algo que soou como "Irving" antes de tudo desaparecer.
Mas fantasmas não sentiam tanta dor. Eu duvidava muito disso. Mesmo tendo acesso à comunidade do lado de lá com frequência, não poderia dizer que eu sabia exatamente como era estar morto, mas eles nunca reclamavam de uma dorzinha de cabeça sequer, nem quando recebiam um soco bem dado no nariz.
Mas logo tive certeza de que, mesmo se tivesse ido dessa para melhor, não iria estar parado aqui, bem debaixo de luzes fluorescentes ardendo no teto e sentindo cheiro de álcool 70 e excesso de éter.
Bem, não se eu tivesse morrido por Edward.
Minha tentativa de bisbilhotar o lugar em volta se virou contra mim quando tentei me levantar rápido demais. A dor que veio disso quase me arrancou um grito. Todos os músculos do meu corpo berraram por socorro, jogando meu tronco de volta para trás. Uma superfície acolchoada reduziu bem o impacto da ação e tentei respirar melhor, tentei segurar a dor, tentei não manifestar que estava tão fodido. Mas daí, estar fodido não parecia ser o problema maior.
O problema foi virar a cabeça e reconhecer perfeitamente o ambiente. Minha visão ainda era um pouco nebulosa, mas alguns feixes fracos de luz entravam pelas aberturas das persianas e o ar-condicionado estava ligado, detonando minha pele nua do tronco, onde uma bandagem de cor bege tomava todo o espaço da minha costela de um jeito desnorteado. Olhei na outra direção e identifiquei três bancadas de mármore acinzentado dispostas pela sala, cada qual com seus béqueres, pias, pipetas, dezenas de pinças e jalecos amontoados um em cima do outro em um cabideiro próximo. Ao lado dele, um manequim de plástico reforçado cor de creme picotado em partes como cabeça, tronco, pernas, pés, braços e mãos repousava numa pilha no canto, como se tivesse sido desmontado às pressas ou simplesmente atirado no chão de qualquer jeito.
Todas as lembranças da noite anterior explodiram na minha mente na mesma hora.
Ela realmente havia me trazido para o centro médico de Irving. Aliás, eu nem acredito que fui capaz de dizer isso à ela.
Com um grunhido, me forcei a sentar novamente. A dor foi tão violenta que minha visão quase ficou preta. Mas não podia ficar ali para sempre — ainda mais que não fazia ideia de como tinha entrado. Depois de uma batalha épica contra o meu próprio corpo, consegui ficar de pé. Cada movimento parecia demorar uma hora para ser feito, mas pelo menos consegui me autoavaliar: a respiração estava mais fácil, nenhuma costela quebrada. Provavelmente um monte de contusões. Mas definitivamente, nenhum plano de ir ver um médico tão cedo.
No canto da sala, avistei uma pia com um espelho. O que vi no reflexo me fez gemer. Meu rosto parecia… o irmão gêmeo do gigante Sloth. O nariz estava inchado como uma bola de tênis, a ponte levemente curvada para o lado. Sem dúvidas, quebrado. Um curativo torto na testa, hematomas vermelhos espalhados como se eu fosse um quadro abstrato. As marcas roxas abaixo dos olhos já estavam chegando com força total. Ótimo. Perfeito. Se não fosse por esse detalhe, talvez eu conseguisse disfarçar as demais fraturas. Infelizmente, aquilo teria de ser resolvido da única forma rápida e não recomendada que eu conhecia.
Respirei fundo. Hora do show.
Com um estalo assustador — e um grito que certamente acordaria qualquer um num raio de dois quilômetros — coloquei o osso de volta no lugar. Era tão horrível quanto parecia. Na verdade, era muito mais horrível do que isso.
— Meu Deus, o que tá fazendo de pé? — a voz de entrou na sala, e nunca fiquei tão feliz em ouvi-la.
Ela correu até mim e segurou meu braço, me guiando de volta para a maca. Não existia nenhuma possibilidade de eu resistir a isso — minhas pernas já estavam prestes a desistir de mim.
— Gelo. — murmurei, ainda pressionando o nariz recém-reconfigurado com as mãos.
Ela olhou para mim como se eu fosse o maior idiota do mundo, e provavelmente não estava errada. Mas não disse nada. Em vez disso, saiu da sala quase correndo e voltou poucos minutos depois com uma compressa improvisada feita de gaze.
Chiei um agradecimento enquanto pressionava aquela coisa no meu rosto. tirou o casaco que usava e se sentou ao lado das minhas pernas no leito.
Pela primeira vez, prestei atenção nela. Ela estava exausta, o vestido manchado de sangue — meu sangue, aliás. As sobrancelhas loiras estavam paradas em uma expressão contínua de irritação, e o cabelo tinha sido penteado com os dedos em algum dos banheiros desse prédio, com certeza.
Meu olhar seguiu para o casaco que ela tinha jogado no colchão. Meu casaco.
Ela percebeu.
— Ah… Foi mal, peguei emprestado pra ir à cafeteria. Espero que não se importe.
— Não me importo. Mas… você tá bem? — apontei para os braços dela, onde marcas vermelhas eram visíveis perto dos cotovelos.
Ela olhou e deu de ombros.
— Isso? Não é nada. Eu estou bem. Deveria se preocupar com você mesmo. Tem ideia do quanto me assustou?
— O que aconteceu? — tirei a compressa. — Como eu cheguei aqui?
— Você estava determinado a não ir pra um hospital e mencionou essa enfermaria antes de apagar. Tive que te arrastar até o carro. E quando eu digo arrastar, foi literalmente isso. Ainda bem que todo mundo estava bêbado demais pra reparar, porque foi vergonhoso.
— Você dirigiu?
— De jeito nenhum. Chamei um Uber. O motorista não era de fazer perguntas. Mas trouxe sua chave comigo. — ela apontou para a bolsa vermelha apoiada em uma cadeira.
Fiquei olhando para ela, confuso, e talvez, um pensamento nada urgente ou nada útil tenha se passado pela minha cabeça na hora: por que largou meu carro pra trás? Justo em um lugar cheio de pessoas com grande potencial ao vandalismo?
Meu Deus, eu ainda não estava recuperado.
— Eu já entendi esse seu olhar. — ela balançou a cabeça e soltou uma risadinha sem graça. — Antes que você pergunte, eu não dirijo.
— O quê? — não acreditei que ela tinha mesmo captado aquilo. — Mas… Naquela noite, com o boçal, você parecia bem confortável em dar uma de Ayrton Senna.
— Não disse que não sei dirigir. — ela deu de ombros, um pouco teatral demais. — Só não dirijo.
A explicação parecia absurda, mas, sinceramente, meu cérebro estava cansado demais para discutir a lógica falha.
— Pode relaxar, eu avisei uma amiga que estava na festa pra ficar de olho no seu carro algumas vezes. Claro, isso gerou algumas perguntas que eu não soube responder, mas, sinceramente, esse é o menor dos problemas.
— Você não precisava ter feito isso.
— Eu sei. Mas já que eu me propus a ajudar, não ia desistir por causa de... sei lá, falta de mobilidade.
— Não, eu quis dizer isso. — apontei para mim mesmo. — Você não precisava ter se envolvido nisso, entendeu? Essa era uma situação minha, algo que eu precisava resolver sozinho.
Ela inclinou a cabeça, avaliando minhas palavras.
— Hum. Entendi. — sua voz era séria agora, mas havia algo curioso no jeito que ela estreitou os olhos. — Bom, acho que é tarde demais pra isso, né? Na verdade, já era tarde demais a partir do momento em que eu te vi naquele quarto. Sabe, as pessoas que vão lá têm um certo objetivo, e eu não pensei que fosse desse grupo de pessoas.
Eu quase ri, mas o cansaço venceu.
— Tá falando do gabinete do traficante de dipirona? Relaxa, não é o que você tá pensando. Não tenho interesse em me envolver nisso.
— Difícil de acreditar. Quem marca um encontro com o Ash geralmente não tá só “olhando”.
— É, eu imaginei. — dei de ombros, encerrando a conversa ali. Ou pelo menos era o que eu esperava. — Mas isso é um problema meu, você não entenderia. Assim como nunca vou entender o que você fazia lá.
desviou os olhos, mas logo os voltou para mim de novo.
— Tá bom, não vou perguntar sobre isso. Mas... Eu ouvi umas coisas lá. Sobre a Karen. Não sabia que você tinha um lance com ela, ela parecia bem apaixonada pelo Ash.
Eu pisquei, confuso.
— Um o quê? Não, pera... Não. Nada disso. Nunca tive nada com a Karen. Na verdade, eu nem a conhe-
Droga.
Parei com a boca aberta. Idiota!
— Espera aí, o quê? Você ia dizer que nem a conhecia?
— Não é isso. — minha voz saiu defensiva, apressada. — Só não éramos tão próximos quanto seu namorado pensou.
Ela estreitou os olhos.
— Você sabia coisas demais pra quem não era tão próximo dela.
— Eu também sei coisas demais sobre saxofones, e não quer dizer que eu já tenha chegado perto de um.
— Ela encontrou com você naquela noite? Te contou sobre algum problema que estava passando? Vocês eram amigos de biblioteca ou coisa assim?
Um vinco se abriu na minha testa. Meu nariz doeu com isso.
— Você é da polícia? Tá querendo me interrogar, ? Amanhã eu vou acordar e descobrir que você vendeu essa história pro jornal?
— A gente só tá conversando, . Nem tudo precisa ser tão preto no branco. Você me deixou curiosa, só isso. — ela respondeu, mas engoliu em seco. De uma coisa eu podia estar certo: aquela garota não estava ali por ninguém além de si mesma. Provavelmente, devia ser uma dessas meninas metidas à Nancy Drew, sedentas por um mistério alheio, com um quarto separado em casa onde guardava mapas e equipamentos de observação montados em um tripé. Esse tipo de gente que eu não podia me envolver. — Eu tô acompanhando o caso da Karen desde o início e até agora não surgiu nenhuma nova informação. E daí você aparece dizendo aquelas coisas…
Porque aparentemente, eu sou um imbecil.
— Pois é, mas eu não posso te ajudar com isso. — me levantei, ignorando a pontada de dor que subiu pela lateral do meu corpo, e comecei a procurar as minhas roupas.
— Você já vai? E os seus machucados? — soou exasperada, como se eu fosse um adolescente rebelde saindo pela janela no meio da noite. — Eu te trouxe aqui porque eu não ia discutir com um cara inconsciente, mas você precisa de um hospital urgente.
— Eu me viro. Obrigado. Agora, preciso chamar um Uber pra buscar meu carro. — comecei a procurar meu celular. Não estava achando a camiseta de jeito nenhum, nem os sapatos.
— Calma aí. — deu um passo à frente e colocou a mão no meu peito, me forçando a parar. — Olha, eu realmente não quero me meter nos seus problemas malucos mais do que já me meti porque já notei o quanto você é um Billy the Kid disfarçado, mas você não pode mesmo sair desse jeito.
— Você saiu desse jeito. — gesticulei com o queixo para o vestido dela, ainda com manchas de sangue.
— É por isso que seu casaco ajudou. Mas a questão aqui é que já amanheceu, e se alguém nos ver e começar a tentar adivinhar o que aconteceu, a gente tá ferrado. Então, que tal você sentar por mais uns minutinhos nessa bendita cama e me esperar trazer umas roupas emprestadas clandestinamente do achados e perdidos? Aproveita e toma o seu café. Não andei até o Taszo’s e implorei por desconto de 1 dólar à toa.
Ela nem me deu tempo de protestar antes de desaparecer pela porta, deixando um rastro de perfume adocicado no ar. Por um lado, estava certa: ninguém poderia descobrir o que aconteceu ontem — e digo ninguém, mesmo. Por causa da briga e de tudo que resultou dela. impunha isso como ameaça velada só pelo olhar apreensivo e amedrontado: "Mantenha a boca fechada, ou o animal que chamo de namorado pode acabar com você — e talvez comigo também, caso eu esteja por perto e sinta pena da sua estupidez de novo."
Eu não tinha a menor intenção de abrir a boca. Meus problemas agora eram outros, muito maiores. Como resolver as novas complicações que surgiram da falha monumental em resolver as antigas. Uma grande merda que eu pensaria melhor depois de terminar aquele café.
Alguns minutos depois, estava de volta. Desta vez, trajava uma camisa listrada de meia manga e um macacão branco, como se estivesse pronta para ir tomar café num daqueles bistrôs parisienses dos filmes Before Sunrise. Sem cerimônia, jogou um jeans e uma camiseta limpa na minha direção, junto com um moletom.
— Toma. Veste isso. — ela não esperou uma resposta. Apenas começou a recolher as roupas manchadas do chão e enfiá-las em uma sacola de pano que dizia "Enfermaria da Irving" em letras desbotadas.
— Vou lá fora apagar mais alguns rastros da nossa presença aqui enquanto você se troca. — disse, agora recolhendo itens aleatórios de cima da mesinha ao lado da maca, que, só agora percebi, estava um caos.
— Você que fez o curativo? — perguntei, raspando uma mão no peito.
— Fiz. Nada ao nível Grey’s Anatomy, mas o Google era o único professor que eu tinha, então espero que não se importe. Pra ser honesta, achei que você fosse sangrar até morrer, então andei rápido. Não tava afim de carregar esse trauma.
— É, nem eu.
Assim que saiu, troquei de roupa. O jeans era simples, e a camiseta preta, boa e confortável o suficiente para não parecer que estava prestes a ir para o lixo. Coloquei as roupas sujas na sacola que ela havia separado, amassei o copo de papel da cafeteria e o joguei na pequena lixeira, e saí da sala. estava encostada na parede, com os olhos perdidos no teto, balançando a perna direita sem parar.
Assim que me viu, ela remexeu em sua bolsa e me entregou na mesma mão minha carteira, meu maço de cigarros, minhas chaves e meu celular.
— Tive que desligá-lo porque um tal de Elliott não parava de ligar. Acho melhor você acalmá-lo antes que ele enfarte ou esgote o sistema telefônico da cidade.
— Não duvidaria disso. — enfiei os pertences nos bolsos que eu estava acostumado: celular e carteira atrás, chaves e cigarros na frente. A parte dos cigarros parecia ter chamado um pouco mais a atenção de , não de forma muito boa. Ela olhou para o manejar das minhas mãos naquele pacote de alumínio amassado como se eu estivesse guardando um dedo decepado ali, bem dentro do jeans. Mas o que quer que estivesse pensando, não me fez o favor de soltar.
— Tá legal, então… podemos sair de fininho pelo setor do berçário, o movimento é muito fraco no domingo. E também tem o…
— Você vai pelo berçário, eu vou pelo setor de medicação. A enfermeira-chefe costuma ir na igreja aos domingos de manhã de vez em quando, e os residentes dela sempre matam esse horário. Odeiam procurar veias e coisas assim. — dei de ombros e torci a boca. Aqueles veteranos idiotas odiavam sujar as mãos com quem tinha o desconto mais humilde no plano de saúde. Quando pessoas de baixa renda estavam envolvidas, o glamour era mínimo, senão insignificante.
Ela fez um gesto com a cabeça, pronta para ir embora. Mas eu a chamei antes.
— , espera.
Ela se virou com uma expressão que dizia “o que foi agora?”.
— Obrigado. Como eu disse, você não precisava ter feito tudo isso. E... espero que isso fique só entre nós.
Ela soltou uma risada curta, carregada de ironia.
— Pode ficar tranquilo. Ninguém vai saber que eu carreguei em um Uber até a enfermaria da Irving. Mas, convenhamos, daria uma ótima matéria pro CJ.
Meu olhar deve ter sido suficientemente assassino, porque ela levantou as mãos em rendição.
— Tô brincando! Acredite, eu não quero ser associada a isso em momento nenhum.
— Ótimo. Ficamos entendidos.
— Ficamos. — ela deu um passo para ir embora, mas parou de novo, girando nos calcanhares como se tivesse lembrado de algo. — Mas sabe, preciso dizer, até na semana passada eu acreditava fielmente que não existia e tudo não passava de invenção do reitor Belfort. Nunca aparecia, nunca dava as caras em nenhuma festa e de repente começa a marcar presença em todos os lugares. Talvez você sempre esteve por aí, provavelmente com um nome falso? Vou descobrir ainda esse ano que você é um impostor? — ela estreitou os olhos, me avaliando. Arqueei as duas sobrancelhas, quase tocando no couro cabeludo. — É, isso não importa. Pra mim, o que importou mesmo foi o que você disse da Karen. E eu não vou te chamar pra uma entrevista no CJ e nem nada parecido, mas se você acredita tanto que alguém a matou a ponto de ir perguntar diretamente ao Ash, então sabe de algo que as outras pessoas não sabem. Tem mais história nisso e eu tô afim de descobrir, porque Karen merecia mais do que sufocar no próprio vômito sem mais nem menos, virando motivo de horror pela mãe e por todos os outros crápulas do campus sem poder se defender. Então, obrigada. — ela abriu um sorriso mais verdadeiro. — Você me mostrou que não sou a única a ver alguma merda nisso, então posso voltar a sondar o assunto.
É o quê?
— Espera aí, eu não queria...
— Adeus, senhor . — ela acenou, dando um tchauzinho, e saiu apressada.
— Você não vai achar nada! — gritei.
Mas duvido que ela tenha escutado.
Estacionei o Jeep em frente ao prédio e soltei um suspiro pesado, o tipo que faz os ombros caírem de cansaço. Não encontrar Elliott plantado na minha porta foi um verdadeiro alívio. Eu ainda não tinha uma história pronta para explicar porque eu parecia o Jake LaMotta no final de um torneio, então quanto mais eu o evitasse, melhor seria. Conhecendo a cabeça não tão lógica do meu amigo, ele pensaria em todas as opções do mundo para o olho roxo daquela vez, opções que variam desde um engasgo quase fulminante no barril de cerveja até sexo extremamente selvagem ao estilo BDSM com Jenny ou qualquer outra garota que demonstrasse o mínimo de interesse, menos uma caverna de drogas e Lions do basquete. Ainda bem.
Entrei no apartamento e me apressei para fazer a primeira coisa que O Manual Secreto dos Delinquentes mandava: encher a banheira com gelo. Nunca dava para ter certeza do que você encontraria quando saía de casa para resolver o problema dos mortos, mas um possível cenário de briga sempre precisava ser considerado. Sempre. Desse jeito, o próprio instinto de prudência fazia o resto, como deixar pacotes prontos de gelo na sua geladeira e atualizar o estoque da caixa de primeiros socorros, limpando os rastros do problema antes mesmo que eles se tornassem efetivamente um problemão.
Quando finalmente me joguei na banheira, uma dor familiar me abraçou. Não que eu estivesse reclamando. Já tinha passado por isso tantas vezes que ela não me incomodava mais. Mas, dessa vez, algo parecia... diferente. Não nos machucados em si — aqueles caras podiam ter me transformado em carne moída, sim, mas os mortos teriam feito muito pior. Era outra coisa. Uma sensação estranha. Uma parte de mim sabia que devia prestar atenção, mas a outra estava ocupada congelando as ideias.
A dor do gelo ajudava a reorganizar os pensamentos, e eu precisava disso. estava martelando na minha cabeça de um jeito enjoado e repetitivo. Tinha certeza que ela acabaria deixando a história de Karen para lá, mas ao mesmo tempo, ficava preocupado de tudo não ser apenas fogo de palha. Honestamente, esperava muito que fosse. Não porque me importava com vê-la dando com a cara na parede, mas porque, em algum momento, sua curiosidade viria para cima de mim, o que significava que chegaria perto de uma verdade assustadora para ela, e isso, é claro, seria o dito cujo problemão.
Ainda assim, tinha algo que ela disse que eu não conseguia ignorar: a história estava mal contada.
Mal contada é um eufemismo, aliás. Karen não se suicidou. Eu sabia disso porque ela mesma me contou, mas, caso eu fosse uma pessoa normal e ficasse sabendo por outro veículo, pensaria a mesma coisa. E , se tivesse coragem suficiente para seguir adiante naquilo, precisaria enfrentar perguntas que provavelmente nem queria as respostas. Os amigos do namorado, por exemplo. Ash, Edward e o resto do grupo. A sujeira deles era visível até de longe. Mas , estando naquele quarto, ligada a Ash... a garota não estava tão por fora quanto gostava de fingir. Era o suficiente para eu concluir que ela tinha falado aquilo no calor do momento. Ou pelo menos era isso que eu precisava acreditar para conseguir dormir.
Saí da banheira quando comecei a sentir que os meus dedos estavam muito perto de cair. Refiz novos curativos — os de não estavam ruins, mas estavam longe de ser ideias. O gelo reduziu os inchaços, o que foi um ponto positivo. Meu nariz, porém, continuava uma obra-prima do Salvador Dalí, mas histórias para narizes quebrados existem aos montes. Os hematomas nas costelas também estavam seguros, longe dos olhos de Elliott por baixo do meu moletom. E com um bom estoque de analgésicos, eu talvez conseguisse fingir que estava em ótimas condições. Minha mentira ainda não estava completa e eu não tinha clareza sobre todos os acontecimentos porque, bem... Eu estava desmaiado na maior parte deles
Mesmo assim, algo me dizia que não estava tudo sob controle. E eu odiava essa sensação. Minha vida dependia de controle. Controle era como eu conseguia manter uma vida dupla funcionando sem explodir. Não podia me dar ao luxo de pontas soltas. Nem de pessoas curiosas (qualquer coisa que pudesse se tornar uma bola de neve e fazer homens de branco invadirem o meu apartamento).
Era simples: menos pessoas na minha vida significavam menos perguntas, menos mentiras e menos desculpas. Uma matemática que sempre funcionou.
Exceto com Elliott.
Ele era a exceção. E por mais que me incomodasse mentir para ele, a outra alternativa era pior. Não é que eu achasse que ele sairia gritando meu maior segredo aos quatro ventos. Era só que... bom, ele correria. De mim. E eu não queria que ele corresse.
Por isso, fiz o que sempre faço: afastei a sensação de descontrole, guardei as verdades num lugar bem fundo e fingi que estava tudo bem. Porque, na minha vida, é assim que as coisas funcionam. Sempre foi.
Com isso, dormir se tornou um conceito abstrato demais para a bagunça na minha cabeça. Então, fiz o que qualquer pessoa sensata faria: liguei o celular. Elliott provavelmente tentaria me ligar de novo, e dessa vez eu atenderia. Era o mínimo, certo? Mas meia hora passou, e nada. Nem uma chamada. Concluí que ele devia estar apagado — ou pior, vindo para cá. Suspirei, resignado. Já que o inevitável estava a caminho, decidi que esperaria com uma cerveja na mão. Péssima ideia, considerando os analgésicos que eu já tinha tomado, mas quem estava preocupado com coerência?
Levantei, fui até a cozinha e alcancei a garrafa. Antes que pudesse dar o primeiro gole, um grito ensurdecedor atravessou o ar como uma faca, fazendo com que eu largasse a cerveja. O som do vidro se estilhaçando no chão foi seguido pelo estrondo de copos explodindo na bancada.
Eu virei tão rápido que quase desloquei o pescoço.
— Sério, vó? Essa era minha última cerveja!
Ela estava lá, no meio da bagunça, me analisando de cima a baixo com o olhar de quem já sabia que ia sobrar para mim.
— Santo Deus, mas o que foi que aconteceu com você?! — gritou, indignada. — O que você aprontou dessa vez, moleque?
— Ah, é uma história longa. A senhora morreria de tédio.
— Muito engraçado. Fala logo, seu insolente. — ela me deu um tapa no braço, e eu, é claro, aproveitei para exagerar na reação.
— Ai, vó! — fiz uma careta digna de Oscar.
— Meu Deus, me desculpa, querido. — a preocupação genuína durou exatamente meio segundo antes de voltar ao modo interrogatório. — Mas quem fez isso com você? Me diz o nome dessa alma penada que eu mesma resolvo!
— Calma aí, Viúva Negra. — comecei a catar os cacos de vidro no chão. — Isso não foi trabalho de nenhum fantasma. Foi só uma briguinha normal, com gente de carne e osso.
— Briguinha?! — ela quase teve uma convulsão. — Desde quando você virou um delinquente? O que você estava fazendo, rolando no chão com brutamontes? Ah, se seu pai soubesse disso…
— Qual pai? — dei de ombros, jogando os cacos na lixeira. — Se for o Hymie, ele não vai saber de nada. Sou bom em apagar meus rastros, lembra? Agora, se a senhora tá falando do meu outro pai…
— Não tô falando de ninguém! — a voz dela tremeu, como sempre quando o assunto virava para isso. — Qual o motivo de tudo isso? Foi por causa de alguma garota? Não me diga que Margot te meteu em outra encrenca.
— Não tem nada a ver com garotas. Quer dizer... talvez um pouquinho.
Ela arqueou uma sobrancelha.
— Um pouquinho? O que isso significa?
Suspirei, cansado daquilo, mas contei tudo. Karen, os capangas de Ash, a surra e, claro, a ajuda inesperada de . Minha avó ouviu cada detalhe com a paciência que só um fantasma centenário poderia ter. Quando terminei, ela balançou a cabeça, claramente desaprovando cada parte da história.
— Então você ajudou essa tal de Karen?
— Acho que sim. Consegui o que ela queria, mas não sei se é o suficiente.
— Bom, você fez sua parte. Se ela continuar aqui, eu mesma mando ela pro outro lado. Mas essa ... Ela namora o ignorante que te bateu? E agora quer brincar de detetive? Você confia nela?
— Não confio em ninguém, vó. Já disse isso. é curiosa demais e tem um puta mau gosto pra relacionamentos. Mas vai cansar logo e desistir, tenho certeza.
Ela não pareceu tão convencida quanto eu esperava, mas deixou o assunto morrer. Por alguns minutos, pelo menos.
Então, claro, a campainha começou a tocar incessantemente. Suspirei, sabendo exatamente quem era.
— Elliott chegou. — murmurei.
Minha avó deu um último olhar de julgamento antes de desaparecer no ar, não sem antes resmungar algo sobre "moleque pervertido".
Abri a porta, e lá estava Elliott, entrando sem pedir licença, como sempre.
— Eu espero que você tenha uma boa explicação pra ter me deixado plantado no meio da festa e que ela diga como você sumiu deixando seu carro pr… — ele virou na minha direção, e o olhar dele congelou no meu rosto. — Mas que porra é essa, ?! Você não atende as ligações a noite toda e agora parece que se meteu em briga de gangue?
— Sabia que isso podia facilmente ser interpretado como briga de casal? — provoquei, tentando desviar o foco.
Ele olhou para os lados, como se alguém realmente pudesse nos ouvir dali.
— Cara, o que tá pegando? — ele disse, num tom entre irritado e preocupado. — Eu passei horas achando que você tava, sei lá, num necrotério ou coisa pior. Achei que ia ter que identificar seu corpo e explicar pra sua mãe como você foi parar lá.
— Um necrotério? Muito dramático, não? — dei uma risada curta, mas o olhar que ele me lançou era de quem não ia achar graça nem das próprias piadas. — Tá, ok. Tive uma noite complicada, só isso. Me perdi na festa, bebi um pouco demais, e talvez tenha rolado uma briga. Essas coisas normais de festa.
— “Talvez” uma briga? — ele arqueou as sobrancelhas, incrédulo. — Você tá com a porra de um curativo no nariz, . Não parece o cacete de um “talvez”.
— É, pois é. — tentei dar de ombros, mas o movimento fez meu nariz doer ainda mais. — Nada grave. Só um nariz fodido, mas em uma semana já vou estar novo em folha.
Eu tentei rir de novo, numa tentativa patética de minimizar a situação. Não funcionou. Elliott cruzou os braços, e seus olhos estavam tão arregalados que eu achei que ele ia explodir.
— O quê? — ele praticamente gritou. — Como pode tá rindo com isso? Você levou uma surra! E agora eu quero nomes. Anda, quem foram os idiotas que te bateram? Vou descobrir um monte de podre deles e jogar no Fórum. Vou hackear o Wi-Fi da casa deles e mudar a senha pra “eu sou um zé boceta”. Ninguém vai escapar, .
— Ei, calma aí, Mr. Robot. — coloquei as mãos na frente, como se isso fosse conter a avalanche que era Elliott irritado. — Tá tudo bem. Juro. Foi só uma briga de bêbado, nem lembro direito quem começou e porquê. Pode relaxar.
— Relaxar? — ele me olhou como se eu tivesse perdido completamente o juízo. — Ah, claro. Não lembrar de uma briga é sempre um sinal de que ela foi super tranquila. Se toca, olha pra você, cara. Como pode chamar isso de “uma briga de bêbado”? O que eles fizeram pra você? Você precisa me contar.
— Elliott, eu já contei. Ou, pelo menos, o que eu lembro. Foi rápido, bagunçado e, sinceramente, não importa mais. — suspirei, esfregando as mãos no rosto. — Eu só quero dormir um pouco antes de terminar os relatórios pra amanhã. Então, você veio pelo café ou...?
— Você tá maluco? — ele segurou meu ombro com força, me forçando a encará-lo. — Desde o ensino médio eu não te vejo com tantos curativos, e você era uma máquina de arrumar briga naquela época. Se tava com problemas, por que não me ligou? O que você arrumou dessa vez? Derrubou cerveja em alguém e chamou o cara de "irmão perdido do Nick Carter"?
— Eu podia ter feito isso. É o meu estilo. — sorri. Ele não se convenceu. — Qual é, cara. Não foi nada. Sei que eu sumi, foi vacilo. Mas não ia te meter numa confusão dessas. Não tinha nada de grave. Você tinha coisa melhor pra fazer, não tinha?
— Não tenta desviar o assunto. — ele me olhou sério, mas sua expressão suavizou um pouco. — Desde que viemos pra Nova York, você tava tão tranquilo, tão... de boa. E agora aparece assim? Já imaginou o que sua mãe faria se recebesse uma ligação da polícia?
— Iria surtar. — suspirei, derrotado. — Tá bom, vou tomar mais cuidado. Prometo.
Tentei sorrir, mais confiante do que antes. Ele pareceu engolir minha história, embora eu soubesse que não ia escapar de mais perguntas depois.
— Certo. Mas não teve mesmo nada a ver com zoar o Nick Carter ou o cabelo de alguém, né? Sabe que nem todo mundo entende suas piadas.
— Elliott...
— E que horas foi isso? — ele continuou, ignorando minha tentativa de mudar de assunto. — Saí da festa às cinco da manhã e seu carro ainda tava lá.
Passei as mãos pelos cabelos, tentando pensar rápido. Eu sabia exatamente o que faria ele acreditar, mas isso só ia complicar ainda mais as coisas.
— Eu tava ocupado. Com... uma garota.
Seus olhos se iluminaram como os de uma criança que acabou de ganhar a nova pista lava-jato da Hot Wheels.
— Uma garota? Como assim uma garota? Você tava beijando alguém enquanto levava uma surra? Isso é multitarefa em outro nível.
Revirei os olhos.
— Eu não tava beijando ninguém enquanto levava uma surra. Foi antes. Ou depois. Nem sei mais.
— Não acredito! — ele praticamente saltou para mais perto. — Tá, mas quem é ela? Qual o nome dela? Quero saber tudo.
— Não lembro. — minha voz saiu firme, mas ele não pareceu notar. — E nem vou lembrar agora porque tô exausto e cheio de OxyContin no sangue. Então, se puder me deixar descansar...
— Mentira! Foi tão bom assim? Cara, como você não me conta isso assim que cheguei? Eu perdoava a briga sem mim na mesma hora.
Foi muito difícil me livrar dele depois disso. Repeti várias vezes que não lembrava quem era a tal garota, nem o que tinha rolado, e Elliott acabou aceitando, mais porque adorava brincar com minha “frieza emocional” do que por acreditar em mim.
Depois que ele saiu, o efeito dos analgésicos começou a passar, e a dor voltou com força total. Antes de pensar demais, tomei mais dois comprimidos, me joguei na cama e caí no sono antes de chegar ao quinto carneirinho.
A Valley View Elementary School oferecia vagas limitadas para as crianças do orfanato, porque a alcunha de ser pública não significava terra de ninguém, como tinham explicado para a senhora Coppola. Aceitamos famílias que não tem dinheiro, mas ah, como aceitaremos crianças que podem nos deixar a qualquer momento?
Era isso o que a coordenadora dizia, com um sorriso enorme e perverso, sem esconder por nenhum minuto o quanto achava garotos indigentes uma peste da humanidade.
De qualquer forma, aplicavam uma prova metodicamente impossível para crianças que aprendiam a se alfabetizar, na enorme maioria das vezes, no centro da sala enorme e conjugada do casarão da Saint Vincent’s, e sempre ficavam ternamente surpresos quando algum deles passava. Quando eu passava, melhor dizendo, mesmo que a prova fosse aplicada todos os anos. E assim, frequentei aquele prédio com pintura bege fosca a quase 15km do orfanato mais como necessidade do que qualquer outra coisa. As aulas eram legais, a maioria dos professores também — alguns deles compartilhavam da mesma opinião da coordenadora megera sobre órfãos, mas não tentavam me fazer chorar ou coisa parecida —, e o fato de não ter nenhum fantasma mais legal ainda.
Ainda assim, minhas férias eram sempre rodeadas das mesmas perguntas: ainda vou pisar aqui no ano que vem? Vou poder frequentar um lugar diferente? Morar em um lugar diferente?
Vou ter pais?
Esse era o tipo de pensamento intrusivo que, quando vinha, eu o afogava na mesma hora, no mesmo segundo, fingia que não existiam. Odiava dar poder a uma curiosidade que reforçaria o estigma de criança coitadinha que foi abandonada pelos pais em um orfanato no interior. Odiava o que essas coisas poderiam se tornar caso eu desse ouvidos a elas. Odiava ainda hoje, mesmo quinze anos depois, então não. Sempre tive problemas maiores e bizarros para me preocupar do que quem foram as pessoas que me colocaram no mundo e porque me jogaram de volta para ele.
No final, acabava ficando tudo bem se eu tivesse que voltar para Valley View. Como disse antes, um lugar sem fantasmas se transformava num oásis ou na Terra da Moranguinho para mim, mesmo que fosse um cenário da prisão de Shawshank na prática. A única pessoa que eu me despedia no horário de saída era de Vito Brando, o zelador de cabeça raspada e tatuagem na nuca que só usava um macacão azul com umas faixas brancas costuradas às pressas, dando histórias para contar as outras crianças, que juravam que as inscrições por baixo das faixas era o número de série dele na prisão. Olhando para o sujeito, não dava para não acreditar nisso.
Mas naquele dia, depois de ter apanhado para valer naquela salinha na Dungeons e me arrastado como um desgraçado ao meu quarto depois de ter conversado com Elliott e apagado como se tivesse levado mais um golpe na nuca e fosse jogado em uma cova, me surpreendi com o fato de ter sonhado justamente com o senhor Brando. Não com ele propriamente dito, mas com alguma coisa que tinha acontecido, ou parecia ter acontecido, já que não me lembro de coisa nenhuma assim. Em um dia qualquer, eu ouvia o sinal estridente de Valley View indicando o fim das aulas às quatro da tarde, juntava minhas coisas com lentidão, desviava dos pés esticados de alguns valentões na saída da sala, que sempre procuravam as menores oportunidades para fazer o orfãozinho cair de cara no chão, andava até a saída dos fundos e encontrava o senhor Brando varrendo as escadas, juntando a poeira do pequeno campo de futebol e da ventania do litoral na base de pedra. Levantava o braço direito para ele e dava um tchauzinho.
— Aprendeu muitas coisas hoje, garoto? — ele me perguntava.
— Aprendi. Sabia que a senhora da cantina tem uma verruga na ponta do nariz e sai cabelo por ela?
Ele gargalhava. Ninguém tinha uma gargalhada como Vito.
— Sabia, garoto. Sabia que ela nunca precisa de fantasia para o dia das bruxas? Você entendeu porquê, não é?
Eu ria de volta e ia para o meu ônibus. Adorava aquele cara da mesma forma como crianças adoram coisas que não tem muito embasamento. Quando a gente cresce, parece procurar sentido e motivos para gostar de tudo, e confesso que fiquei um pouco assim, já que as pessoas sempre repensariam se gostariam ou não de um garoto que fala com os mortos. Esquisitices tinham limites. Com Vito era diferente.
Mas enquanto eu andava até o ônibus amarelo estacionado no meio-fio do outro lado da calçada, me lembrei de outra piada sobre bruxas e virei para trás. Vito estava no mesmo lugar, movendo a vassoura vigorosamente para frente e para trás enquanto juntava agora pedaços grandes de folhas secas e mortas do outono. Mas havia algo se mexendo junto com ele.
A imagem me veio nitidamente mais como lembrança do que sonho, e não sei explicar o quanto isso foi esquisito.
Uma sombra delineava todo o corpo de Vito, transformando toda a sua imagem, como se a alma dele tivesse descolado do corpo e saltasse para fora, permanecendo perto o suficiente como uma elevação em 3D num papel. A sombra repetia seus movimentos, andava com ele, o observava, mas não parecia ele, parecia… Grudado dele. Um conteúdo numa caixa. Um líquido dentro de um tubo de ensaio que vazou para fora.
— Ei, garoto! — a voz de Forrest rasgou minha atenção, gritando de dentro do ônibus, sentado no banco do motorista com seu inseparável cigarro entre os dentes. — Não vai entrar, garoto? Você ainda compra passagem, garoto?
Era assim. Como eu não tinha um sobrenome oficial, meu nome era garoto. As pessoas não pareciam saber uma forma mais educada de se dirigir a um órfão.
Percebi que tinha parado de andar e recomecei, olhando uma última vez para trás e vendo que a sombra no encalço de Vito não havia sumido. Em vez disso, ela se transmutou em outra coisa. Um homem enorme, com músculos avantajados, dedos grossos e fortes que se estenderam na direção da vassoura e a empurraram para o chão. O senhor Brando xingou, não vendo nada. Em seguida, a sombra ergueu uma das pernas e afundou o pé na articulação do joelho direito do zelador. Brando caiu com um gemido.
Parei de novo. Pensei em correr para ajudar, mas não consegui. Meu corpo tinha parado, a corrente sanguínea sendo substituída por água gelada. Chocado. Chocado com algo que só eu entenderia.
— Moleque! — gritou Forrest. Esse era tipo meu apelido para ele. — Não tá ouvindo?
Uma música aleatória começou a soar no fundo dos meus ouvidos. Forrest devia ter ligado aquele radinho que sempre ligava nas viagens, ecoando sons horríveis de funk music dos anos 60 ou o noticiário local, mas não se parecia com nada daquilo agora. Não dava para entender direito — os acordes eram animados e fortes, uma mistura de Duke Ellington soando em batida rock ‘n roll.
Mas a música era o menor dos problemas. Continuei olhando para Vito. Continuei olhando para a sombra. A sombra que tinha tocado nele.
— Moleque, escuta! — Forrest gritou de novo.
Não voltei para a Valley View no próximo outono. Eu iria começar a frequentar a Archbishop Riordan High School em São Francisco, sob o teto de Hymie e Mary , com um sobrenome oficial e apropriado. Nunca mais pegaria um ônibus amarelo escolar caindo aos pedaços, e sim um Chevrolet Cobalt dirigido por um senhor de 70 anos, que sempre dizia: lá vamos nós, senhor . Quer um sorvete ou um livro do Richard Preston? Só pode escolher um. Nunca mais estaria junto com o senhor Brando ou qualquer outro zelador, porque agora sairia pela porta da frente da escola, não desviaria mais de pés ou bolinhas de papel que me acertavam, faria alguns poucos amigos e estaria junto com professores que sugeririam novamente que eu pulasse o ano e fosse para Stanford mais cedo.
Nunca mais pensei no senhor Brando. Nem me lembrava de sua existência. Mas agora me recordava nitidamente de suas insistentes reclamações de dores no joelho, como se elas tivessem acontecido ontem. De como ele sentia falta de ar em momentos inconsistentes, como beber água. De suas olheiras despencando dos olhos e sua necessidade de ir sempre à cidade visitar um velho amigo.
Lembrei do dia em que começara a sangrar pelo nariz no meio do corredor.
E agora me lembro que tinha morrido. E continuava varrendo a poeira da escada.
— GAROTO, ESCUUUUUTAAAAAA…
Abri os olhos como se levasse um choque. Sentei ereto na cama, a cabeça zoneando, enxergando só escuridão. Um ponto de luz gritava e piscava no quarto, vindo da mesinha de cabeceira, um som que brilhava naquela música insuportável de “tananinananao, nenenene” de Jack the Bear com harmonias de Black Sabbath.
Duke Ellington. É claro.
Alcancei o celular com os dentes trincados.
— A partir de hoje vou mudar esse toque. Isso é tortura. — resmunguei, assim que consegui arrastar o ícone verde para o lado. Ainda estava sentindo um estranho embrulho no estômago, as pontas dos dedos frias como gelo.
— De jeito nenhum! Esse toque é perfeito. — Mary respondeu em sua voz normal, mas para os meus ouvidos recém acordados, soaram umas três oitavas a mais. — Como mais você vai saber que sou eu? Um clássico do Duke que ninguém com menos de sessenta anos toleraria só pode ser a sua mãe.
— Já ouviu falar em identificador de chamadas, mãe? É uma invenção moderna. Revolucionária, até.
— E daí? Nosso toque é uma declaração. Vou saber se você se livrar dele e ficar muito triste. — sabia que ela estava fazendo um biquinho de desaprovação, mesmo sem ver. Ela sempre fazia isso quando eu tentava argumentar contra seus costumes bregas e ultrapassados.
Barulhos repetitivos em cima de uma superfície de madeira e, em seguida, o chiar de uma panela no fogo indicavam que Mary estava na cozinha. Fui relaxando lentamente os músculos, sufocando um gemido de dor tardio por ter levantado rápido demais. A escuridão estava menos impenetrável no quarto, mas ainda era muita escuridão. Não fazia ideia de que horas eram.
— Eu te acordei? — ela continuou, e pude ouvir o tilintar de talheres e outras conversas baixas ao seu lado. — Por que está dormindo uma hora dessas?
De que horas estávamos falando?
— São as aulas. — de qualquer jeito, a resposta estava sempre na ponta da língua. — Oskar anda me mandando ler mais do que o normal. E ando virando umas noites no plantão do HICCC. Eles falsificam minha carteirinha.
— É o quê?
— Brincadeira. — falei antes que ela ficasse nervosa. Ainda estava com muito sono para irritar Mary hoje. — Você imagina porque quero agarrar qualquer horinha livre pra dormir.
— Ah, querido, é claro! Como pude esquecer! Você foi o número 1 de novo, meus parabéns! Marla, foi o número um de novo! Estou criando um prodígio! — ela afastou o telefone para chamar nossa empregada. Pude ouvir as felicitações dela ao fundo. — Seu pai está em uma reunião importante com convidados de Londres na sala de estar, mas ele também ficou feliz! Com certeza vai te ligar amanhã. — e com certeza ela estava com um sorriso de ponta a ponta por isso. — Já escolheu seus orientadores do internato? Eu e seu pai estávamos fazendo uma lista, e vimos que Michael Pacino da pediatria do Hospital Memorial de Chicago está disponível e adoraria te conhecer! Tenho certeza que se eu conversasse com o diretor…
— Você não vai fazer isso. — interrompi em um tom calmo, porém sério. Estava ali um dos maiores motivos que me deixavam nervoso em relação à Mary nos últimos cinco anos. Estava sempre precisando pará-la antes que ela assumisse o banco do motorista da minha vida e me rebaixasse a um mero passageiro, ditando as direções e decisões por mim. — Ainda faltam uns três meses antes que eu comece o internato, e não sei se crianças choronas seriam minha primeira opção.
— Mas você é ótimo com crianças.
— Não sei de onde tirou isso.
— O sobrinho de Marla. Não se lembra? Você o ajudou com matemática.
— Ele não era uma criança. — rebati, lembrando-me daquele carinha de quinze anos que estava quase passando do meu tamanho e que ainda estava na escola primária por ter repetido o ano umas zilhões de vezes, tendo uma dificuldade absurda em fazer contas de multiplicação com números quebrados. Mary sabia que cálculos não eram muito a minha área (a não ser que envolvessem medidas, fórmulas prontas e um acervo gigante de regras de três), mas achou que eu poderia ajudá-lo — e eu realmente ajudei, pelo menos com os números. Com as drogas e as gangues, aí já não tinha muita coisa que eu pudesse fazer. Ocorreu-me que ele sempre agia de modo nervoso e inquieto toda vez que precisava pisar lá em casa, mas se roubou alguma coisa de valor, nunca fizeram o favor de me contar. — E de qualquer forma, vou precisar passar por elas até a formatura, não preciso me apressar pra conhecê-las agora. Prometo que vou decidir isso antes de fevereiro, tá bom? O que está cozinhando?
— Adivinhe só! Vieiras com parma! — ela riu e aceitou bem a mudança brusca de assunto, tagarelando um pouco sobre os temperos, tempo de cozimento e a importância do tipo de louça que precisava ser usada para servir uma porção de comida tão insignificante, mas que era um prato cheio para a etiqueta. Em dois minutos, tinha esquecido o assunto do internato. — O doutor Del Rey trouxe uma louça tailandesa de presente e seria falta de educação não usá-la no jantar, apesar de eu particularmente preferir aquela que compramos em Roma, você lembra? Mas seu pai insistiu que usássemos a dele. — ela bufou e pude sentir seus olhos se revirando nas órbitas.
Ouvir minha mãe papeando sobre jantares executivos em casa enquanto picava os legumes, preparava o molho, conversava com Marla e ouvia jazz baixinho, me deixava nostálgico e com saudades de casa. Podia visualizá-la usando seu avental rosa com bolinhas brancas, um coque perfeitamente alinhado, preparando uma comida deliciosa usando salto e maquiagem. Parecia uma bolha de perfeição onde nada, nenhuma única coisinha ruim poderia acontecer.
— Não vejo a hora de ver você em casa, meu bem! Sua avó vem para o Natal e vamos preparar aquele clam chowder que você adora. E por falar nisso, como está o clima por aí? Aqui o inverno se aproxima, mas as pessoas continuam indo à praia, você bem sabe como. Um cliente do seu pai da Flórida nos convidou para passarmos o feriado de ação de graças na fazenda, e eu estaria melhor se você pudesse ir junto. — ela suspirou tristemente, já imaginando minha resposta.
— Ação de graças em um lugar deserto cercado de cavalo, grama e cigarras? Vou precisar de um tratamento psiquiátrico depois. — soltei uma risadinha, e ela resmungou algo como “idiota”. — Já conversamos sobre isso antes. As pesquisas no HICCC precisam muito de mim nesse semestre, e não vai fazer mal você e papai passarem o feriado com outras pessoas. A sua comida fará todos bem mais felizes, aposto que nunca provaram um molho de cranberry como o seu.
— Eles provavelmente devem contratar uma cozinheira. — resmungou.
— Eles vão te provocar desse jeito? Que gente mais sem coração. — joguei as pernas para fora da cama, esticando mais os ombros. Percebi que uma fresta particularmente grande da cortina estava aberta, jorrando uma luz forte e branca dos postes para dentro do quarto, o que causaria um grande déficit do meu sono dependente da escuridão total, e como não havia ninguém para fazer isso além de mim… — Dá essa chance pra esses manés executivos, vai. A esposa desse cara não é aquela que é professora de yoga?
— Na verdade, ela é especialista em Niyama e Pranayama.
— Nomes difíceis de coisas que doem o corpo, que seja. Vai pro meio do mato e mostra pra ela os seus seis dias por semana de pilates. Vou ligar duas vezes para ter certeza que você está se comportando.
Ouvi uma risada e uma fungada ao mesmo tempo. Mary estava finalmente começando a ficar emotiva.
— Vai ser a primeira e última vez. — disse, com a voz embargada, mas que logo se recuperou. — Não gosto dessa ideia. Sinto sua falta. Eu e seu pai vamos te ver assim que ele conseguir fechar esse contrato hoje, fiquei sabendo que o reitor Belfort está organizando um recital de Natal. Aí podemos voltar para São Francisco todos juntos.
— Combinado.
Eu esperava ter resolvido todos os meus problemas antes do Natal.
Ouvi Marla falar algo sobre pôr a mesa e mais tilintar de talheres.
— Vou ter que desligar, querido. Parece que a reunião terminou.
— Tudo bem, mãe. Manda um abraço e boa sorte ao papai.
— Você está bem, não é? Estou tão atarefada que até me esqueci de perguntar… — sua voz agora estava estourada, provavelmente porque estava equilibrando o telefone no ombro com a cabeça tombada enquanto andava pela cozinha e organizava os petiscos. — Está precisando de alguma coisa? Você está se alimentando direito? Comidas de delivery e restaurantes de universidade não se enquadram como direito, caso você esteja pensando nessa resposta.
— Abriu uma barraquinha ótima de churrasco na Rua 88, você ia adorar, janto lá toda semana. Mas acho que os vizinhos começaram a reclamar que seus gatos estão desaparecendo…
— Não tem graça. — ela cortou, e não pude aguentar uma risada que doeu cada milímetro de músculo do nariz. — Está correndo ainda? É importante se exercitar, mesmo que você não tenha muito tempo. E não quero te ver com um cigarro na boca de novo!
— Cheguei aos 80kg no supino, é um número importante aos 22 anos. — não pretendia contar quando foi a última vez que eu tinha feito um supino.
— E o Elliott? Está te fazendo companhia? Besteira, esse garoto não larga do seu pé. — ela suspirou e ouvi os pratos sendo empilhados um a um. Ouvi mais uma vez a voz de Marla.
— Está tudo em ordem, mãe. Vai servir o jantar antes que papai comece a ter de contar as piadas de golfe pra entreter os convidados, ninguém merece isso.
— Você tem razão! — ela riu. — Te amamos, querido. Estou com muitas saudades!
— Eu também, mãe.
O visor do celular marcava 20h00 da noite quando desliguei. Ainda não me sentia completamente descansado. Além das dores no corpo, tinha aquela confusão mental, o esforço que meu cérebro estava fazendo para tentar lembrar de alguma coisa. Uma sensação esquisita demais.
Andei até o banheiro, ligando a torneira e jogando um pouco de água no rosto. A palidez continuava ali, nada convidativa, dando um aspecto doente e mirrado. Os hematomas diminuíram de tamanho, mas permaneciam da mesma cor, o que significava que eu precisaria de outra banheira de gelo.
Voltei para a cama com o intuito de tentar dormir de novo. Senti que poderia dormir por pelo menos dois dias inteiros, procurando as melhores desculpas para minha ausência nas aulas práticas, nas reuniões com Oskar, nas pesquisas do HICCC e tantas outras coisas que enchiam minha agenda imaginária, mas de repente estava sendo alvo de pensamentos desenfreados. Os mesmos de antes, aqueles que começaram fracos porque minha mente estava fraca e cansada, mas que agora estavam mais nítidos, vivos e urgentes.
Saltei da cama, colocando jeans, tênis e um moletom preto estampado com o desenho do dedo do meio torto e ossudo do E.T. de 1982. Puxei a cortina para cobrir a luz e saí, não sabendo exatamente o que estava fazendo, mas já estava fazendo. Precisava falar com Karen — afinal, era aquilo que eu fazia. E daria fim aquela história hoje mesmo. No fim das contas, ela só queria saber a resposta de Ash, não é mesmo? Uma resposta que ela mesma não poderia conseguir sozinha. Depois disso, não conseguia ver motivos para que ela estendesse o assunto.
Hoje, Karen Bracco iria finalmente partir em paz.
Eu nunca tinha pisado no campus fora do horário letivo desde que me mudei para Nova York, e agora estava aqui, quebrando regras pela segunda vez no mesmo dia. Sair não tinha sido difícil — os estudantes ainda circulavam aos finais de semana, já que a biblioteca, os laboratórios, restaurantes e as demais instalações com projetos ativos continuavam funcionando. A enfermaria de Irving não era uma delas, o que me fez questionar, mais uma vez, como diabos conseguiu nos colocar lá dentro da última vez.
Agora eu estava duplamente arrependido de não ter perguntado. Ela parecia saber todos os atalhos, todos os segredos, e passava as horas livres tomando chá com as amigas e lendo livros do Dickens. Pelo menos, é o que eu gostava de pensar.
Estacionei o carro do outro lado da avenida, longe o suficiente das grades pretas do portão principal. Um único vigia noturno estava na guarita, mais concentrado no celular do que em qualquer outra coisa. Sorte minha, porque meu cérebro estava esgotado para inventar desculpas convincentes.
Desci do carro e contornei as grades, mantendo distância suficiente para ficar fora de vista. Com um olhar rápido, analisei o portão. Tinha uns três metros de altura, mas as barras horizontais formavam uma espécie de escada improvisada. Fácil.
Assim que meus pés tocaram o chão do outro lado (com um baque de dor do cacete que tirou metade do meu fôlego), puxei o capuz sobre a cabeça e segui em frente, com passos rápidos e olhar fixo no chão. As luzes do campus brilhavam ao longe, refletindo no concreto, e meu coração disparou quando avistei dois vigias com lanternas. Respirei fundo e passei por eles, rezando para não ser notado.
Dois minutos depois, vi as luzes acesas dos dormitórios e soltei um suspiro de alívio. Talvez fosse um sinal de que eu não estava completamente fora de lugar. Algumas pessoas passavam por mim, provavelmente estudantes voltando de festas clandestinas. Não era o único a quebrar regras naquela noite.
Cheguei ao John Jay Hall sem ser notado, o que já parecia um milagre. O prédio era imenso, com seus quinze andares e fachada imponente. Caminhei até o primeiro elevador que encontrei, apertando o botão do terceiro andar enquanto puxava o celular para ver as horas. Tinha um prazo estipulado para três coisas importantes. A primeira era terminar de ler o novo artigo de Oskar sobre terapia com células CAR-T; a segunda era pedir que Oskar me arrumasse um formulário qualquer sobre qualquer especialização para o internato que tinha me esquecido completamente em qualquer hospital; e a terceira era responder Margot. A última vez que a vi foi no solstício de verão, em uma festa maluca em Williamsburg onde tentei com todas as forças me esquivar, mas Margot tinha insistido que eu precisava de alguns arrependimentos na vida. E eu me arrependi muito de ter saído de casa naquele dia.
O restaurante estava silencioso. Olhando-o dessa forma, parecia muito maior do que era normalmente, com a aglomeração de pessoas impedindo uma visão panorâmica do local. As mesas de madeiras vazias, os pilares também de madeira, o pé direito alto com o teto em mármore branco, os lustres espalhados pelo lugar totalmente apagados. Ele também estava vazio, e a iluminação aqui (quando ligada) era muito diferente das outras partes do prédio. As paredes tinham uma pintura lisa esverdeada, que com a luz fluorescente de dentro do teto tornava tudo ainda mais verde e doentio, como a ala de um hospital. O único barulho do ambiente eram os refrigeradores espalhados e os barulhos fracos da máquina de salgadinhos ao lado do balcão. Olhei para todas as direções, dei uma batida leve na porta escrita SOMENTE FUNCIONÁRIOS para ver se havia alguém, e quando não recebi resposta, voltei para a entrada e puxei uma das cadeiras com encosto laranja para travar a porta. Melhor prevenir do que remediar.
Suspirei e esperei.
Não é que eu pudesse chamar os mortos a hora que eu quisesse. Digo, mais ou menos. Mesmo se pudesse 100%, isso seria algo que eu definitivamente nunca faria. Mas o negócio é que eles não podiam me encontrar onde quer que eu estivesse. Fantasmas tinham uma certa condição que impedia sua mobilidade livre pelo mundo afora: eles ficavam presos aos arredores de onde haviam morrido, podendo se deslocar para dois ou três quilômetros para longe de seu ponto de partida, mas ainda assim, não completavam o trajeto de Manhattan até Long Island. Se não fosse por isso, eu já teria a casa transformada em uma taverna de assombrações, encontrando os engraçadinhos até mesmo dentro do capô do carro ou destruindo outras BMW por aí. Eles até poderiam aparecer, mas não sabiam como. Minha avó tinha explicado isso uma vez. Os mortos não tinham lembranças sólidas de tempo e espaço.
Mas no geral, se eu estava no território deles, bastava que eu chamasse seus nomes ou simplesmente pensasse neles. Sempre eficaz, não demorou muito para que a silhueta de Karen se materializasse sob a semi escuridão apavorante, pálida e com uma expressão confusa, não entendendo como tinha ido parar ali.
— E aí, Karen.
— , é você? — ela se aproximou, apertando os olhos mais como um ato de costume do que uma necessidade. Não dava para identificar meu rosto tão escondido por baixo do capuz, mas acredito que Karen não tenha conhecido outra pessoa que pudesse vê-la além de mim na última semana. — Como vim parar aqui? Nós estamos… estamos sozinhos?
— Eu chamei você. Ou invoquei, tanto faz a forma cinematográfica que você prefere interpretar. E a não ser que tenha um poodle esquecido dentro daquela cozinha, estamos sozinhos.
— Ah. — ela baixou os ombros em uma expressão indecifrável. Olhou ao redor, reconhecendo cada milímetro do lugar, o que não era estranho, já que ela frequentava aquele refeitório. De repente, fiquei curioso em perguntar se ela andava dando uma passeada em seu antigo quarto e se sua colega já tinha arrumado uma substituta, mas esse era o tipo de pergunta inconveniente que me faria dar um soco em alguém se fosse dirigida a mim. Devia ser bem merda ver as pessoas seguindo em frente enquanto você tinha ficado literalmente para trás.
Mas era para isso que servia meu trabalho e de outros esquisitões que tagarelavam com os mortos por aí: vá em frente. Siga a luz. A gente por aqui vai fazer o mesmo.
Ainda com o mesmo semblante, Karen caminhou até uma mesa de quatro lugares e se sentou, parecendo um pouco mais feliz, se é que eu poderia pensar isso, mesmo sem dar um mísero sorriso. Acho que tudo melhorava quando você podia ser vista e ouvida.
— Posso te fazer uma pergunta? — disse ela. Eu assenti e fui me sentar ao seu lado.
— Claro, manda aí.
— Você é médium ou coisa assim?
Pisquei umas três vezes.
— Quê?
— É. Invocar os mortos, conversar com eles, saber seus segredos. Consegue ganhar algum dinheiro com isso?
Umedeci os lábios e escorreguei as costas com mais folga na cadeira. Ignorei a dor incômoda que isso causou.
— Não curto muito ser chamado assim, mas é, a definição combina. Mas não coloco uma roupa verde neon e armo uma barraquinha embaixo do viaduto com um tabuleiro ouija cobrando cinquenta dólares a hora. Não sei como as pessoas acreditam nisso.
— Eu nunca acreditei nisso. — Karen pareceu um pouco envergonhada.
— Se não acontecesse comigo, eu também não acreditaria. Os charlatões mentem muito mal, mesmo que discursem como o Abraham Lincoln.
— Os fantasmas entram nas pessoas? — as duas sobrancelhas dela subiram. Abri e fechei a boca. Percebi que não sabia responder.
— Acho que isso eu ainda não vi.
— Você já viu bastante coisa, não é? — ela deu uma risadinha seca e forçada, como se quisesse parecer minimamente simpática diante da bizarrice total que é falar com os mortos.
— Acho que eu vi o esperado. Já faz muito tempo que faço isso. Que eu sou… — engoli em seco. Senti as orelhas ficando quentes e cor-de-rosa. Era tenebroso me rotular dessa maneira: olá, sou um garoto médium. , As Aventuras do Garoto Médium.
Karen cutucou alguma coisa de dentro do bolso do moletom da faculdade de Direito, pintado nas cores azuis e brancas da Columbia. Era um pouco triste pensar que agora ela o vestiria para sempre.
— Como você conseguiu? — continuou em voz baixa. Quase tive que me aproximar para escutá-la. — Passar tanto tempo vendo eles. Estando com eles. Olhando-os andar por aí querendo que tudo acabe, mas percebendo que as coisas já acabaram e eles não estavam prontos pra isso. Ninguém os preparou pra isso, e agora você está sozinha…
A voz dela falhou. Me preparei para que ela recomeçasse a chorar, mas não reforcei para que fosse em frente. No meu cartão de visitas verbal, eu não deixava exatamente claro o quanto as lágrimas de uma garota me deixavam desconfortável, então agora tinha que colher as consequências.
Mas bem, alguma coisa em Karen Bracco me deixava tão compassivo quanto o Papa Francisco.
— Eu não estava sozinho. — respondi, sem ter certeza se aquilo melhoraria alguma coisa. — Acho que tive sorte nessa parte. Muita gente deve acordar descobrindo que é diferente e tentar fugir disso a todo custo, mas no meu caso, minha avó e minha melhor amiga tornaram as coisas mais fáceis. Passei a pegar mais leve com tudo, a aceitar melhor a situação.
Karen me encarou sob aquela escuridão doente e vi seus olhos ganharem um novo tom de pujança, energia, algo que eu imaginava ser o certo quando as pessoas morriam. No fundo, não ligava mesmo de contar algumas coisas pessoais sobre mim; fofoca no Paraíso não era exatamente minha maior preocupação.
Mas ela pareceu ficar melhor. Foi uma coisa boa.
— Como você está? — perguntei enquanto colocava as mãos nos bolsos do moletom. Karen parecia mais pálida, o cabelo ruivo mais ralo, as maçãs do rosto mais afundadas, mas fora isso, parecia a mesma garota morta zanzando por aí pelo campus, que tinha sido morta nesse mesmo prédio.
— Estou bem. Quer dizer, tão bem quanto morrer deve ser. — ela iria sorrir, mas preferiu não fingir nada. — Conheci umas pessoas. Outros… fantasmas, no caso.
— Conheceu outros? — franzi o cenho.
— É, na biblioteca Arthur. Eu estava desanimada porque queria assistir ao prêmio Irell & Manella, ou olhar o prato do dia no Lenfest Café, e ele veio falar comigo. Me disse coisas legais. Me mostrou o boletim diário do NYPD. Acho que eu gostava de ler coisas assim… — mais uma careta confusa. Karen devia estar se perguntando nesse exato momento se gostava mesmo de boletins da polícia ou se imaginou isso. Queria abrir a boca e perguntar que raio de fantasminha camarada ela tinha conhecido, mas sinceramente, o tempo estava passando e ele não me permitiria me preocupar com alucinações de uma garota que já estava entrando no turno extra deste plano.
— Escuta, fico feliz que tenha feito um amigo, mas precisamos conversar. — comecei. — Sobre Ash.
Os olhos daquela cor de mel intenso brilharam quase como os olhos dos vivos faziam de curiosidade.
— Ash? Você o encontrou?
— Encontrei. É um amor de pessoa. — meu tom sarcástico fez com que ela inclinasse a cabeça curiosa. Em um piscar de olhos, a garota já estava próxima do meu rosto, quase encostando em meu nariz, e abaixou meu capuz.
— Meu Deus! — sua boca se abriu em choque enquanto ela afastava o tronco para trás. — O que aconteceu com seu rosto? Você brigou com Ash?
— Mais ou menos. Digamos que foi ele e o clubinho de verão dos Gorilas Aquáticos. — fiz uma careta, sabendo que estava fazendo uma descrição floreada do que realmente tinha sido ser alvo da surra daqueles manés, mas Karen não precisava desses detalhes.
Mesmo assim, não deu para ela disfarçar a linha de aborrecimento que se esticou na boca.
— Não acredito que ele mandou Vincent e Leonardo fazerem isso! Não sabia que ele podia ser tão covarde, tão–
— Na verdade, meu desentendimento mesmo foi com o outro cara, Edward. Ele não acha aceitável que a gente impeça que ele arme um motel no nosso carro. Acho que eu ando meio careta esses dias.
Uma sombra que não fazia parte daquela sala se apossou dos olhos de Karen. Uma sombra que durou um segundo, primeiro mostrando reconhecimento, depois retornando para a cara de dúvida de sempre.
— Edward? Edward Belfort?
— A não ser que exista outro terror do Basquete, é ele mesmo.
— Não acredito… — repetiu, com olhos entorpecidos, uma indignação nascendo novamente na garganta. — Não acredito que eles fizeram isso. Não entendo porquê. , eu nem sei o que dizer…
— Não precisa dizer nada, não foi a primeira briga que eu me envolvi. Minha avó vive me dizendo que sou um delinquente juvenil. Ela e a polícia de São Francisco. — tentei brincar, mas a expressão de Karen não suavizou em nada. — Vou ficar bem. O mais importante é que fiz o que você pediu, falei com Ash. Mas… Bom, a resposta dele…
Movi os ombros sugestivamente. Karen virou o corpo na minha direção.
— Ele negou? — perguntou. Assenti em confirmação.
— É, ele me garantiu que não te matou. Ficou desesperado quando eu só sugeri isso. E, sabe… — molhei os lábios antes de falar o que pretendia. — Acho que ele estava falando a verdade.
Não conseguia explicar como ou porquê eu acreditava naquilo. Não conhecia Ash. Não fazia a mínima ideia de nada do cara; não tinha nome, não tinha ocupação, não tinha referência, mal tinha um rosto! Era literalmente uma figura de preto e botas sujas em um canto mais sujo ainda de uma casa imensa que ninguém se importava em saber a quantidade de membros. Vivia escondido sob a jurisdição não oficial de um palerma que tinha um nome de poder e que com certeza ganhava alguma coisa em cima de seus negócios ilegais, e isso não devia transmitir confiança para ninguém. Muito menos para mim, que era acostumado a saber em primeira mão das camadas mais sombrias de outras pessoas através de suas vítimas.
Mas Ash tinha alguma coisa. Seja lá quem ele era, a expressão que fez diante da minha pergunta me mostrou algo aterrorizante. Não o medo de ser descoberto, mas o medo da própria pergunta em si, como se ela fosse a encarnação da própria Karen e ele não soubesse como ela poderia estar duvidando dele. Consegui identificar um medo racional em sua expressão, e tenho certeza que receberia perguntas difíceis de responder caso Edward não tivesse entrado.
Mesmo assim, sabia que minha opinião não valeria de absolutamente nada para a garota morta. Karen se levantou e, em silêncio, começou a andar em círculos, suas sobrancelhas franzidas no meio da testa. Ela não disse nada por um tempo incalculavelmente longo. Tentei pensar em alguma coisa para dizer, mas não havia nada.
Ela deveria sumir agora, não é? Ir para além das colinas verdes nas pinturas dos folderes dos religiosos protestantes chamando para a salvação. Acho que ela gostaria do lugar, mesmo se não tivesse Wi-Fi.
— Então… Agora está tudo bem? — perguntei, após mais alguns vários minutos de silêncio. Naquela quietude, o barulho dos refrigeradores se tornava ainda mais alto.
Karen parou de andar, mantendo os olhos perdidos no chão.
— Isso não faz o menor sentido. — murmurou em voz baixa. Ela levantou a cabeça e havia algo novo e estranho nos seus olhos: uma raiva que não estava ali antes. — Tem que ter sido ele!
Engoli em seco. Ok. Aquilo não era um bom sinal.
— Tá legal… — fiquei de pé, tentando soar o mais despreocupado possível. — Por que está dizendo isso? Você pediu pra perguntar, se lembra? Você estava com dúvida…
— Foi ele quem me entregou aqueles remédios. Talvez ele mesmo os tenha feito! Eu morri depois de tomá-los! — ganiu. Senti a temperatura cair minimamente ao redor, mas ignorei.
— Karen, Ash te deu Lorazepam. É um remédio forte para ansiedade, mas com três comprimidos você no máximo apagaria e perderia suas aulas do dia seguinte. Na sua idade, uma overdose tá fora de cogitação. O que não deixa de ser uma irresponsabilidade tomar, mas ele não te mataria.
— Como sabe se foi mesmo Lorazepam? E se for, ele pode ter alterado o medicamento. Sabia que Ash produz algumas de suas drogas? Já ouvi uma conversa entre ele e Edward sobre isso, aliás, já ouvi muitas coisas naquele corredor da Dungeons. Os dois já discutiram sobre mim, e Ash já esteve mais de uma vez insatisfeito a meu respeito, deve ter tirado umas horas pra confeccionar esse presentinho especialmente pra mim… — sua boca se curvou em uma careta de choro, apesar de seu corpo tremer em raiva.
Agora não dava para ignorar o frio. Não era algo que uma pessoa viva pudesse passar batido, por mais que não soubesse da onde vinha. Tentei chegar mais perto dela.
— Olha só, muita coisa nessa história não faz sentido, mas o fato é que você foi vítima de um excesso de benzodiazepinas e, sendo racional, uma overdose nesse caso só seria possível se você já estivesse sob efeito de outra droga antes de tomar o remédio, sendo Lorazepam ou não. O seu corpo não aguentou.
Se antes ela parecia desamparada, agora Karen olhou para mim completamente estupefata, os olhos esbugalhados como um boneco de ventrículo.
— O que você disse? — vi suas mãos fecharem em punho antes que ela desse um passo em minha direção. A voz estava tão seca quanto lixo no deserto. — Está dizendo que eu usei drogas naquele dia? — abri a boca para responder, mas ela foi mais rápida. — Isso é ridículo! Não que te interesse, mas eu nunca usei drogas, . Aquela era a primeira vez que eu iria experimentar algo mais forte do que um Tylenol. Se eu adivinhasse que nunca mais voltaria dessa maldita experiência, eu jamais teria aceitado! Jamais, entendeu?
Ela aumentou consideravelmente a voz. Dessa vez, ouvi umas três ou quatro geladeiras engasgando ao nosso lado.
— Como você pode pensar isso de mim?! — ela continuou, dando mais um passo. Os punhos continuavam fechados. — Depois de tudo que eu te contei, depois de tudo que te mostrei na semana passada. Você disse que acreditava em mim, acreditava que alguém me matou, iria só me trazer a confirmação de Ash. Porque só ele pode ter feito isso comigo! — gritou. Um dos vidros de refrigerante preso pelas grades da máquina caiu no chão. — Todo mundo lá fora sabe disso. Talvez até estivessem esperando isso acontecer. Katherine me dizia que eu era sem graça por não ceder ao estilo de vida de Ash, sempre me mandava repensar sobre o que eu realmente queria, Edward fazia questão de demonstrar o quanto eu não era bem-vinda, e por todos eles eu devia mudar, mudar, mudar… mas eu não conseguia. Não conseguia deixar de ser quem eu sou, mas ainda assim, achei que bastava pra Ash. Achei que uma hora ele iria confiar em mim assim como eu estava confiando nele! — ela respirou fundo, as lágrimas descendo agora em cascata. — Pelo visto, nada disso adiantou. Ele ainda teve a coragem… e ainda negou! Vai seguir a vida e pular fora como se eu nunca tivesse existido, ignorar tudo que fez agora que conseguiu se livrar de mim!
Olhei em volta. Uma das mesas posicionadas no canto perdeu força em uma das pernas de metal, como se alguém as tivesse acertado com um chute, e tombou para o lado, atingindo sua vizinha, que foi tombando até a próxima e próxima, como um jogo de dominó. Outros barulhos se fizeram presentes, como o som agudo da madeira das cadeiras rastejando lentamente no chão, e outros objetos caindo e se espatifando.
Que merda.
O problema nunca foi Karen ficar brava. Eu sabia dessa possibilidade e estava disposto a ser legal e dizer qualquer coisa para que ela não chegasse a esse ponto. Mesmo se ela começasse a gritar e fizesse aquela expressão furiosa, pouco importava porque, afinal, só eu poderia ouvi-la. Não existia risco algum.
Mas o negócio ia realmente mal quando um fantasma resolvia se revoltar de verdade, porque aí nada estaria mais a salvo. Eles não tinham muita pena do lugar ao redor — e nem das pessoas. Então, quando duas cadeiras voaram acima da minha cabeça e os vidros das básculas começaram a balançar, decidi que estava na hora de tomar uma providência.
— Karen, se acalma...
— Me acalmar? Eu fui assassinada, ! Eu tinha planos, propostas, um futuro brilhante pela frente! E tudo isso foi tirado de mim da noite pro dia! Para as pessoas ainda pensarem que eu fiz isso comigo mesma. — ela recomeçou a chorar, e isso fez com que os vidros tremessem com mais intensidade. — Você acha que foi fácil ver que meus pais nem se deram ao trabalho de pisar aqui pra esvaziar meu quarto? Que Katherine ficou cada vez mais tempo fora, que as outras garotas agora voltaram a fazer a Quarta da Manicure já na semana seguinte, que poucas delas vestiram preto no meu enterro, um enterro que eu nem fui capaz de ir porque não faço ideia de onde colocaram o meu corpo! E meus pais, não faço a mínima ideia se estavam lá também. Não faço ideia do que estão pensando sobre isso, se estão decepcionados…
— Tenho certeza de que a sua família entendeu que você jamais faria isso.
— Mas eles não liberaram a autópsia, não é mesmo? Eu tenho ouvidos, ! Estavam falando disso no CJ! — gritou ela, e ouvi um vidro se partir. — Não liberaram porque minha mãe tem medo do resultado, tem medo de ter tido uma filha que se drogou e não aguentou a pressão da Ivy League, que não colecionou nada na história da Columbia a não ser alguns júri simulado de sucesso e pedidos negados de Wall Street.
— Agora não é hora de se preocupar com o que sua mãe pensa ou deixa de pensar! — tentei não parecer tão incisivo, mas as máquinas estavam balançando e um desastre era iminente. Mesmo com toda a raiva espumando de Karen, seu rosto parecia tão miserável quanto estava no primeiro dia que a conheci. — Escuta, se você me disser exatamente o que aconteceu naquele dia, desde a porra do café da manhã e tudo isso, talvez a gente pode…
— Você ainda tá tentando me confundir, ! Já te disse tudo que precisava dizer! Ash fez isso comigo, ele fez isso comigo! — uma tábua na lateral da porta voou acima do chão e se espatifou no teto, e aquilo com certeza foi ouvido por toda a área do corredor. — Ele vai me pagar, ele vai...
— Karen, se acalma! — falei, entre dentes, olhando para a entrada. A cadeira que servia de bloqueio já era. Alguém com certeza tinha escutado essa confusão, o que tornava tudo mais urgente.
No entanto, de alguma forma, era como se a mente de Karen estivesse finalmente mais desperta no meio de todo aquele ódio diluído em mágoa, e isso poderia significar que eu encontraria alguma coisa.
— Olha pra mim. — agarrei em seus dois ombros, olhando para ela do jeito mais firme que minha ansiedade permitia. — Você não tá me explicando direito. Por que Ash te mataria? Se não via problema em quem você era, por que faria uma coisa dessas?
Por um instante, um milímetro de instante, vi a posição dela abrandar e o ar frio começar a se espalhar para longe, mas durou pouco, pouco demais. Os olhos dela voltaram para aquela sombra de ira que não era normal. Não era como deveria ser.
— Não tenta me enganar, eu já te contei tudo. Te contei e você acreditou nele! Você não vai me ajudar! — ela se esquivou do meu toque com brutalidade, e continuava bufando como um touro raivoso. — Ninguém vai me ajudar a fazer com que ele pague! Ash destruiu a minha vida e nem sequer falou com a polícia, nem sequer pisou aqui depois de tudo. Ele me avisou que seria assim, disse que você não estava do meu lado, que ninguém estava. — ela me encarou, o ódio escancarado em seu rosto. — Acontece que eu mesma vou resolver essa história! — Karen deu as costas para sair, mas puxei seu braço antes que ela fizesse isso.
— Do que está falando? Quem é ele? — ela me ignorou e tentou se soltar. — Eu tô falando muito sério, Karen. Ou você se acalma e acaba com esse show, ou…
Vou estar mentindo se disser que esperei que ela me escutasse. Eu não era tão ingênuo assim. Sabia que ela lutaria, espernearia, gritaria ainda mais e eu estava pronto para colocar o resto da minha integridade em jogo para pará-la, mas o que eu não esperava foi que ela me desse um empurrão que me jogaria literalmente pelos ares até bater na parede com a placa de funcionários na outra extremidade, causando um estrondo que deixaria uma marca mínima na madeira.
A dor foi tamanha que devo ter apagado por dois ou três segundos, me sentindo a vítima mais próxima de um homem bomba no metrô. Abri os olhos e fui tomado pelo cheiro potente e inconfundível de coca-cola, ketchup e todo um mix de condimentos misturado com a umidade que tomava rápido a ponta dos meus dedos e empapava a barra do meu moletom e os joelhos dos jeans, graças ao cano desfigurado de toda a fila de torneiras da pia aos fundos. Olhei para a superfície da água tomando o piso antes de ouvir uma explosão do lado de fora, quebrando o restante dos vidros das básculas ainda de pé e fazendo o mesmo com as lâmpadas embutidas no teto, mergulhando o refeitório em um breu impenetrável e cessando o barulho de todas as máquinas dentro e fora dela.
Ótimo. Ótimo, ótimo! A energia já era e era óbvio que Karen tinha desaparecido.
Forcei um pulo para cima, me apoiando na parede mais próxima, evitando que meus pés escorregassem no chão que, aos poucos, virava uma poça. Minha cabeça estava girando muito, o curativo na testa latejando na mesma intensidade que o peito. Respirei fundo duas vezes antes de puxar o celular do bolso, sentindo as rachaduras finas na superfície da tela quando deslizei os dedos por ela e apertei na lanterna.
Os refrigeradores antes perfeitamente instalados agora estavam dispostos em uma confusão de balbúrdia. Várias cadeiras e mesas tinham ido parar báscula afora, e uma outra estava pendurada dentro em um dos lustres. Um dos painéis de LED havia simplesmente explodido para fora do teto, pendendo sob uma série de fios desencapados que piscavam em choque vivo. Água jorrava de canos estourados e montes de líquido viscoso perfumado fluíam de embalagens espatifadas em todas as direções.
Xinguei Karen mentalmente. Aquilo era mais do que eu esperava, muito mais — a bola de neve que eu tanto queria, que sempre quero evitar. Bracco havia desaparecido, e dessa vez aquilo me preocupava, porque fantasmas transtornados não costumavam fazer coisas boas. Tinha certeza que Karen havia saído do prédio e isso era muito, muito perigoso. Para ela mesma e para qualquer desavisado que estivesse perto demais de facas ou outros objetos cortantes que eram facilmente manipuláveis pela telecinesia espectral dos mortos.
Precisava fazer alguma coisa. Rápido. Antes que ela tivesse a chance de se lembrar onde ficava Manhattanville, a Dungeons e Ash.
Mas antes disso, o barulho veio. O barulho que eu tanto não queria e não poderia ouvir: o de pessoas.
Passos. Gritos. Falatório. Tudo do lado de fora. Se aproximando, vindo para cá.
Minha nossa, quanta merda!
Tinha que sair dali agora, antes de qualquer outra coisa que passasse na minha cabeça. Se eu fosse pego ali, naquela situação, eu não precisaria fazer mais nada sobre aqueles tais formulários do internato porque a polícia e o comitê disciplinar decidiriam que eu era um cara perigoso demais para pensar em cuidar de outras pessoas. Iriam me deixar apodrecer por uma semana em uma cela antes de decidirem que era completamente impossível que eu tivesse feito todo aquele estrago sozinho. Me dariam talvez mais uma semana para que eu decidisse entregar meus cúmplices. Fariam exatamente o que o governo americano faz com qualquer coisa que fugisse minimamente do normal depois do 11 de setembro.
Destruir um restaurante estudantil sozinho poderia se enquadrar nisso.
Os barulhos ainda estavam longe, o que significava que as pessoas estavam se reunindo no lounge, e a correria acontecia fora da entrada. Se a energia tinha ido pro ralo no prédio inteiro, não pensariam em verificar o refeitório como primeira opção, então parti para a porta, arrastando os pés com água até o tornozelo até alcançar a próxima parede e passar as mãos por ela para achar a maçaneta. Assim que a toquei, um choque arrebentou na minha testa, fazendo com que eu fosse jogado novamente ao chão e gemer de dor. Caí sentado, a água agora invadindo toda a cintura, bolsos e mangas. Virei o rosto, enjoado, avistando um fio de luz se aproximando de mim, vindo da boca de uma lanterna de celular, acompanhado do som de passos esguichando na água suja.
— Ah, meu Deus!
Desnorteado, eu estava pronto para aproveitar a porta aberta e seguir o meu caminho. Mas o clarão se abaixou ao meu lado e iluminou o rosto que estava com ele.
Um rosto conhecido e irritantemente inesperado.
— Puta merda. — gemi, tentando me levantar. Pude ouvi-la arfar com a mesma surpresa.
— Fala sério. — bufou, e vi seus olhos se estreitando na minha direção. — Mas que merda aconteceu aqui?
Bufei. Fiquei puto. Mal conseguia ver naquela semi escuridão, mas se antes meu curativo da testa tinha sido só um pouquinho danificado, agora ele tinha virado lixo.
Esperei que ela me desse uma resposta minimamente coerente e justa, como um pedido de desculpas, talvez, mas me esqueci que a justiça dela parecia ser muito diferente da minha. Quando consegui controlar os gemidos vergonhosos e me colocar de pé, vi o rosto dela sob o círculo de luz fantasmagórico do celular e percebi que ela não estava exatamente estressada.
Aqueles olhos azuis estavam intensamente arregalados, a boca se abrindo aos poucos, mirando todo aquele caos ao redor como se estivesse vendo alguém operando uma escavadeira dentro do John Jay.
— M-mas… Que merda aconteceu aqui? Eu ouvi um barulhão e vim… — sua voz saiu naquele tom agudo de choque. A luz tinha finalmente saído da minha cara e agora estava iluminando cada centímetro da desordem espalhada por entre a água, que jorrava agora por toda a parte, inclusive para fora do corredor, graças à porta agora aberta e o barulho das vozes…
Droga.
— Não dá tempo de explicar, temos que sair daqui agora. — me apressei em dizer, puxando o capuz molhado para cima da cabeça e agilizando minha saída. Mesmo tendo usado o plural na frase, eu não queria exatamente levá-la comigo.
— Como assim? Você fez tudo isso? Quero dizer, não tem como ter sido você! Eu ouvi vozes antes de chegar, com quem você tava falando?
Antes que eu respondesse — e não tenho ideia do que, exatamente, eu responderia, já que todas as coisas que passaram pela minha cabeça não fariam justiça à educação que recebi de Mary e Hymie —, os passos lá fora ficaram mais rápidos e dinâmicos, direcionados para, é óbvio, toda aquela porra de água escapando do lugar que, inevitavelmente, acabariam descobrindo ter sido o centro de toda aquela confusão.
Meus nervos pipocaram com a adrenalina do momento. Outros feixes de luz começaram a aparecer lá fora, tornando o corredor agora uma rota de fuga cancelada.
— Merda! — resmunguei, passando por e chegando no limite do batente da porta. As luzes estavam com certeza vindo nessa direção. — Olha só, papo legal, mas agora seria bom se a gente corresse.
— É o quê?
“... e eu ouvi no refeitório…”
Fim da hora da explicação. Antes que protestasse, peguei seu pulso e puxei-a na única direção que parecia não ter sido totalmente destruída pela fúria de Karen: a porta com o selo de funcionários. A água penetrava as bordas de metal das dobradiças assim que a abri, em uma velocidade que até mesmo me surpreendi, e entrei com a garota em um espaço completamente dominado pela escuridão, fechando-a no mesmo instante que uma quantidade razoável de pessoas se colocou no ângulo de visão da entrada, jorrando luz e uma gama de vozes no espaço onde estávamos um segundo atrás.
Respirei fundo. Vi abrir a boca pra dizer alguma coisa — reclamar, com certeza, porque era o que uma reclamona de verdade faria, mas não podia dizer que ela estaria errada naquela situação específica —, mas não deixei que ela tomasse nem um fiapo a mais de ar. Me aproximei dela o suficiente para levar minha mão na sua boca, puxando seu telefone e escondendo a bolinha luminosa no meu bolso, colocando o dedo indicador no lábio para pedir que ela ficasse calada. Por dois minutos, que ela ficasse calada.
Não acreditava no que estava acontecendo, mas era o que era. Se alguém por acaso nos pegasse naquela cena no coração da balbúrdia, não precisava pensar muito para saber quais conclusões tirariam. Eu ainda não fazia ideia da dimensão de toda essa merda fora desse cômodo, o que era pior ainda. Independentemente do desfecho, o lugar tinha sofrido um abalo real. Eu devia ter olhado a hora que as últimas aulas terminariam, devia ter esperado ou voltado amanhã. Muitas pessoas juntas ao mesmo tempo no mesmo lugar só poderia significar um dia de azar.
Encontrar estava com certeza inserido nessa bolha de coisas-de-merda-que-sempre-podem-acontecer-comigo.
Nos primeiros três segundos, ela tentou se mexer para se soltar, mas quando ouviu as vozes espantadas do outro lado da porta e ouviu a palavra polícia, os olhos azuis se arregalaram ainda mais e ela achou a ideia de ficar calada mais do que justa e inteligente. Pessoas estavam sendo convocadas na administração e nos dormitórios. A polícia iria ser chamada, e sabe-se lá mais quem. Pessoas teriam que entrar para verificar a energia. Alguém precisaria domar aquele cano que jorrava água desgovernada. As carcaças das geladeiras precisavam ser recolhidas e retiradas. O lugar todo precisaria ser interditado e trancado.
O que significava que eu precisava sair daqui o mais rápido possível. E , é claro. Precisava achar alguma brecha naquele cenário nada animador e positivo para minha fuga e tentar não quebrar mais nenhum osso.
Tirei a mão de e me afastei, percebendo o quanto estávamos ridiculamente perto. Ignorei esse fato e puxei o celular dela do meu bolso, apontando a lanterna para olhar em volta pela primeira vez. A sala era muito maior do que esperei. Não era nada mais do que um depósito de infinitos lençóis brancos, toalhas de mesa, uniformes e ainda mais mesas, algumas com papéis que variavam entre se manter em cima da superfície ou boiar na pequena enchente. Só havia uma janela alta acima de uma delas, por onde entrava uma fraquíssima iluminação da noite lá fora.
— , o que está acontecendo? — sussurrou, ainda parecendo assustada e eu não a culparia por isso. Mesmo que estivéssemos sozinhos, ela não seria capaz de falar mais alto do que aquilo. — Foi você…
— Não, mas duvido que acreditariam nisso caso nos pegassem. — sussurrei de volta, atento a várias coisas ao mesmo tempo: as conversas esparsas lá fora e as possíveis brechas de dentro. Não demorariam a achar aquela porta. Eu daria uma questão de minutos.
não falou mais nada. Mesmo que tudo aquilo fosse inerentemente errado para ela, pareceu ter entendido o recado bem claro: agora você também tá nessa, com plano ou não.
Andei até a janela, tomando o cuidado para não fazer barulho desnecessário com a água esguinchando nos tornozelos, e puxei uma cadeira para subir e observar. A visão que tive foi da lateral do prédio vizinho, a poucos metros de distância, sendo responsável por bloquear grande parte da luz que viria da rua. O refeitório ficava só no terceiro andar, e ao olhar para baixo, mapeei uma distância aproximada — que estava bem longe da distância de verdade — de uns cinco metros até o chão de concreto do beco que delimitava um prédio de outro, onde algumas latas de lixo abertas e manchadas descansavam no flanco das paredes e um ou outro carrinho auxiliar organizados bem ao lado da porta dos fundos.
Carrinhos. Fundos.
Desci apressado da cadeira e me virei para as prateleiras que não tinham sido completamente desmembradas.
— . — chamou com um sussurro um pouco mais alto, mas que ainda não iria ser ouvido do lado de fora. Ainda, porque a cada segundo que passava, sentia que as vozes estavam mais aglomeradas. — O que está fazendo agora?
— Segura isso. — devolvi o celular para ela, nossa única fonte de luz naquele breu. — Acho que sei um jeito da gente dar o fora daqui sem ser visto.
— E que jeito seria esse?
Puxei outra cadeira, uma revestida de madeira tão fraca que poderia se desintegrar antes que eu terminasse e me aproximei de novo da prateleira, respondendo sem olhar para :
— Vamos pular.
Ela não disse nada de imediato, mas ouvi claramente a garota engolindo um palavrão ou um grito. A falta de luz não deixou eu ver e muito menos me importar com isso.
— Pular? Mas o quê… — ela parou quando virou a cabeça para a janela. Desembainhei uma enorme quantidade de toalhas grossas de mesa, juntando tudo nos braços enquanto permitia que ela pensasse sozinha. — A janela? Você só pode ter ficado louco!
— Ou a gente pode esperar eles revirarem esse restaurante do avesso até se tocarem que alguma porra muito estranha pode estar acontecendo por trás dessa porta e nos achar. Quem sabe a máquina de café ali no fundo ainda pode estar funcionando, assim podemos servir pra eles enquanto chamam a polícia. — desci da cadeira e me certifiquei de abrir o melhor sorriso que eu podia no meio do escuro e da minha impaciência. Essa garota só podia estar de brincadeira se achava que agora era um bom momento para me chamar de louco.
Outra hora, talvez. Depois disso tudo, com certeza. Eu aceitaria, concordaria e nunca mais nos veríamos de novo. Cenário perfeito.
abriu e fechou a boca umas duas vezes e seguiu olhando e olhando para mim, sem resposta, até que eu decidisse por conta própria que ela concordava com tudo e seguisse de volta para a janela, apoiando as toalhas pesadas no parapeito enquanto voltava a subir na cadeira.
Não sei porque pensei, por algum motivo presunçoso ou esperançoso, que aquela parte do John Jay Hall fosse tão moderna quanto todo o prédio, mas aquelas dobradiças enferrujadas, a tranca dura das janelas coloniais e toda a poeira acumulada nos beirais me lembrou de que a Columbia parecia ter uma política extremamente rigorosa em reformar os prédios de cima para baixo. O terceiro andar não merecia a atenção da administração e, com o inverno cada vez mais próximo, toda entrada de ar ficaria permanentemente fechada até o fim de março.
Ótimo. Que ótimo.
Mexi no cadeado na lateral da janela e torci para que ele estivesse tão oxidado quanto todo o resto. As vozes do lado de fora estavam aumentando, o barulho das pernas se movendo duras pela água também, e era apenas questão de tempo para que os seguranças, a polícia, os alunos, as recepcionistas, coordenadores e toda a parafernália de autoridades pisarem ali e se reunirem no cenário que uma jovem morta tinha montado especialmente para eles.
Isso se o espírito estropiado de Karen não estivesse por aí fazendo mais vítimas de concreto.
Grunhi. Estava perdendo um tempo precioso naquela fechadura. A pouca luz que entrava de fora vinha das migalhas de reflexo que os postes faziam na calçada, fora algumas luzes de emergência dos andares que tinham sido atingidos. E a luz do celular que segurava…
— Ah, me dá licença.
De repente, tive o braço puxado para baixo pela manga do moletom. me tirou da cadeira e tomou meu lugar, levando as duas mãos para a parte de trás da cabeça e tirando de lá algo brilhante e um pouco fosco na meia luz.
Uma presilha. Eu nem sabia que havia uma presilha.
inclinou o corpo e pegou o cadeado na mão, já esticando as hastes de metal do acessório como se esticasse um laço de fita, o rosto inalterado. Seu cabelo loiro caiu em cascata ao lado do rosto enquanto ela enfiava a pontinha do objeto no pino e fazia movimentos rápidos para lá e para cá até ouvirmos o clic da destranca, a luz do poste iluminando a cor rosa do adorno em formato de flor em cima da presilha.
tirou o cadeado e abriu a janela, descendo da cadeira sem nem olhar para a frente.
— Isso deve bastar. — ela disse em voz baixa, jogando o cabelo para trás. Ela olhou pra mim e sei que deveria estar esboçando uma resposta ou simplesmente já me movendo para sair fora daqui, mas…
— Uau. — decidi pegar um segundo do tempo para proferir aquilo. — O que mais você esconde do seu currículo? Também coloca uma máscara de gato e prende ladrões de bolsas na Quinta Avenida?
— Ah, vai se f-
“... os eletricistas. E a administração. Eles não viram ninguém entrar por aqui, e as câmeras…”
A voz em questão veio de muito, muito perto. Não me dei mais um segundo para pensar e pulei para cima da cadeira, peguei as toalhas separadas, coloquei metade do corpo para o ar frio do lado de fora e joguei as roupas na direção do ponto retangular do carrinho lá embaixo.
Os dois tecidos se abriram como as asas de um paraquedas até caírem com perfeição no carrinho, como bolas de basquete na cesta. Dei uma olhada para os dois lados na rua, ouvindo ainda mais barulho acontecendo no térreo, luzes distantes se aproximando como lanternas de seguranças, algumas vermelhas e azuis que logo mais estariam brotando ali, e tudo que indicava que aquela janela de escuridão e silêncio dos fundos do John Jay estava com os minutos contados.
Puxei a perna para passá-la pelo parapeito e ouvi arfar:
— Espera!
Parei e virei apenas a cabeça para trás.
— O que é agora?
Ela trocou o peso da perna duas vezes. Reparei que ela estava começando a ficar pálida. Digo, já parecia bem pálida, mas agora estava com a típica cara de “parece que viu fantasma”. Devia pensar que eu estava prestes a me tornar um.
— Como… Como? — ela balançou a cabeça em negação, e notei o que ela estava tentando expressar: aquele plano não parecia mais tão brilhante ou necessário se te faria perder uma perna.
Pensei em dizer um “qual é, vamos logo, não tá na hora de se preocupar com a própria integridade quando nossos históricos estão em jogo” porque é claro que podíamos ter ótimas notas, mas mesmo assim, ser suspeito de ter desencadeado a destruição de uma seção inteira de um alojamento não ia pegar bem nas reuniões do fim do semestre. Eu estava pronto de verdade para apressá-la e não me importar nem um pouco com suas questões. Mas havia algo naqueles olhos dela, na linha de sua boca — sei lá o que era, sei lá porque reparei — que me fez tirar minha perna estendida do beiral, respirar fundo e me abaixar para ficar da altura dela.
— Ei, olha pra mim. — falei baixo, encarando-a de um jeito que não a fizesse se perder do meu olhar. — Eu vou primeiro e você vai atrás de mim, lá embaixo eu vou te segurar. Ok?
Ela assentiu, mas parecia nem estar respirando.
— Promete? — sua voz saiu tão falha que mal escutei, mas concordei do mesmo jeito. — Anda, eles estão chegando.
Voltei ao parapeito, agora sem pretensão de voltar atrás mesmo se me pedisse para parar de novo. Odiava a visão de garotas com medo, mas ela parecia mesmo precisar de um empurrão ou então ficaria para trás, e como eu poderia deixá-la ali com o risco de que abrisse a boca sobre a primeira coisa que viu assim que entrou ali? No caso, eu? Cheguei aqui depois e fui mantida refém por aquele maluco que vocês chamam de número 1, olha ali embaixo, olha ali, não veem que ele está correndo? Vão atrás dele agora!
Eu duvidava muito que fosse isso que ela falaria, mas era melhor prevenir do que remediar.
Finalmente agachado no beiral, olhei para trás, na direção de uma com seu olhar de puro horror e mirei bem a superfície do carrinho antes de saltar para o vento frio.
Aquele não foi o melhor salto e muito menos o melhor pouso da minha vida, que precisei morder os lábios para não gemer de dor, tendo a certeza absoluta de que teria um hematoma feio crescendo na minha testa no dia seguinte, já que não consegui dar um minuto de paz para o curativo. Me debati um pouco no meio das toalhas de mesa até tirar todas elas de cima de mim, agradecendo ao universo por ter pensado em jogar tantas ali embaixo. A queda seria mil vezes pior se não fosse por elas.
Olhei para cima. já estava com a cabeça inclinada para baixo, e daquela distância eu conseguia ver seu dilema entre fechar os olhos e fazer aquilo logo ou fingir que tudo não tinha passado de um delírio da sua cabeça e simplesmente voltar para dentro e se encolher até que tudo passasse.
Esperava sinceramente que ela não ficasse com a segunda opção.
Fiz um gesto sutil com a mão, confiando na sua capacidade de leitura labial para dizer: tá tudo bem. Pode pular. Vou te segurar, lembra? Não vou deixar você morrer.
Eu duvidava muito que alguém fosse capaz de morrer caindo de uma altura de cinco metros, mas a mente dela poderia estar em pânico, e mentes em pânico paralisavam tanto quanto correntes de ferro.
Finalmente, pareceu tomar uma decisão e passou as pernas pela janela, tendo o cuidado de não olhar para baixo em momento nenhum, prendendo a respiração com força conforme algumas luzes aumentavam ao redor. Agora vi claramente algumas bocas de lanternas na entrada do pequeno beco, e pelo susto, me abaixei ainda mais no carrinho, olhando para em alerta para que ela esperasse pelo menos um minuto até toda aquela gente passar antes que…
Tarde demais. Quando dei por mim, as duas pernas dela agora estavam totalmente para fora da janela e, sem ter mais como adiar, a garota se jogou de lá de cima, caindo tão rápido na minha direção que mal tive tempo de erguer os braços para pegá-la.
A verdade é que não consegui pegá-la. Não de um jeito galanteador ou minimamente seguro, pelo menos. Afundei nas toalhas com seu peso, sentindo dor em cada milímetro do corpo e, dessa vez, não escondi tanto o gemido, mesmo que não fosse de propósito.
— Au! — ela resmungou, tentando se mexer em cima de mim. — Isso foi uma péssima ideia.
— Nem me fala. — trinquei os dentes, tentando lutar com os braços dela e os meus no meio daquela confusão de tecidos, como se a matilha de panos estivessem nos afogando. murmurou mais alguma coisa, provavelmente um “onde está a minha bolsa?” ou “preciso dar o fora daqui”, mas outra voz alta seguida de uma luz imensamente forte sobressaiu qualquer coisa que ela pudesse proferir:
“Ei, o que é aquilo ali?”
Tive novamente um daqueles momentos em que o corpo age primeiro do que o cérebro é capaz de processar. Em um movimento muito ágil para quem estava mancando há algumas horas atrás, puxei para baixo, deitando-a naquele espaço minúsculo do carrinho de pano e com a outra mão, estava puxando o tecido branco mais grosso para cima e lançando-o sobre nós, colocando de novo a mão na boca dela antes que ela pensasse em dizer um simples “o quê?”
A escuridão nos tomou de novo. Mal conseguia ver o rosto dela, mas sabia que aqueles olhos estavam arregalados outra vez, e esperava que ela não estivesse sentindo o bombear cruciante do meu coração 100% em estado de alerta com o barulho de passos. Passos fortes e rápidos, como uma manada de animais ou simplesmente um mini terremoto acontecendo bem do nosso lado, prontos para identificarem formas estranhas dentro daquele carrinho e flagrar dois fugitivos que não tinham explicações para dar.
Mas os passos nunca chegavam. Prendi o lábio entre os dentes, controlando a respiração enquanto sentia a de , quente e acelerada na palma da minha mão, preocupado de repente do peso que eu estava exercendo sobre ela, mesmo que não soubesse exatamente em qual posição ela estava depois do lance rápido de puxar-e-esconder. Ainda assim, o corpo dela encaixado embaixo do meu me trazia uma sensação… estranha. Tão estranha que não parei de ponderar sobre isso nos próximos sei lá quantos minutos até a luz de fora se extinguir, os passos mudarem de rota e juntar as duas mãos no meu peito e me empurrar para o lado, livrando-se da toalha acima de nós com um grunhido sufocado.
— Você precisa parar de fazer isso. — ela resmungou em voz baixa, tateando os tecidos em busca de alguma coisa. Estava evitando olhar para mim a todo custo, como se eu fosse uma casca de banana nojenta que apareceu no seu piso. A pouca iluminação dos postes deram até mesmo outra cor ao seu rosto.
Ela estava corando?
— O quê? — perguntei, e notei meu tom meio abobado. De repente entendi porque ela estava nervosa, e me senti o extremo do patético quando me toquei que estava em cima dela, com rosto e corpo colados naquele espaço minúsculo que mal cabia só eu.
Ah, bom. Que ótimo. As coisas não podiam ter ficado mais esquisitas.
— Ah. É. Foi mal. — foi tudo o que consegui dizer antes de ajeitar minhas próprias pernas e sentir os olhos dela me fuzilando. Nós dois conseguimos nos levantar aos tropeços e precisei ajudá-la mais uma vez a sair de dentro do carrinho. Ela tinha pernas mais curtas do que eu pensava.
— Você tá legal? — perguntei assim que ela pousou e bateu nas próprias roupas. Seu tênis branco de cano alto era apenas um imenso amontoado de meias molhadas.
olhou para mim e assentiu, ajeitando a bolsa pequena de couro nos ombros.
— É, parece que sim. Só vou precisar marcar sessões extra de terapia depois de ter tido a certeza que iria morrer.
Ergui uma sobrancelha. Precisava repetir para ela que não teria como o lance da morte acontecer de uma altura tão pequena?
As sirenes recomeçaram ao longe com mais força e voltamos à realidade. Pude ver os músculos dos ombros dela se retesando enquanto virava a cabeça para a entrada do beco.
— O que a gente faz agora? — perguntou . Abri a boca, prestes a dizer alguma coisa, mas uma voz estridente e muito mais assustadora do que todas as luzes vermelhas e azuis soou acima de nós:
— Ei, vocês! O que estão fazendo aí?
Olhei para cima como um jato. Um foco de luz estava dançando em nossa direção, uma lanterna que tremulava nas mãos da pessoa que tinha nos achado. Arfei na hora e olhei para , dizendo apenas uma coisa antes de voltar a me mexer:
— Meu carro! Vem!
Puxei sua mão, mirando nas cascatas grosseiras de sombras nas bordas do prédio vizinho até a avenida de trás, onde o Jeep estaria estacionado a menos de dez metros. não protestou e, em poucos segundos, estava a alguns passos na minha frente. Quando estávamos prestes a curvar na esquina para a avenida, ouvi uma voz dizer ao longe, sem gritar ou sussurrar, apenas emitindo um som opaco carregado pela brisa de vento frio e noturno:
— Isso, corram, seus idiotas!
E se não estivesse tão concentrado em dar o fora, podia jurar que ela não me era estranha.
c o n t i n u a–
as palavrinhas no dicionário são poucas e muito rasas pra explicar o que toda essa história significa pra mim. toda escritora que se preze tem um sentimento especial sobre a sua primeira obra, e os meus são tão grandes e expressivos que não cabem aqui nessa notinha. finalizei essa fanfic faz mais ou menos quatro anos, sob outro pseudônimo, mas sigo falando sobre ela e divulgando pra quem quer que seja porque acredito que esse tipo de história é atemporal, é divertida e instigante ao mesmo tempo. hoje em dia eu ando reescrevendo essa epopeia, mas acho justo para aquelas que quiserem saber o que esperar, ver tudo que tá contado aqui, nessa fic cheia de WTFs e outros xingamentos, mas também muita risada e até um pouco de tristeza (vamo ser sincera, né).
se você nunca leu, tenho certeza que seu último pensamento depois do final será: "ainda bem que eu parei aqui." e ainda bem mesmo! foi um prazer te mostrar isso.
um beijo de alís.
