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independent author of the cosmos 𓆉
atualizada em: março 2026.

"Os espíritos dos mortos que estiveram
Em vida diante de ti estão novamente
Na morte ao teu redor, e sua vontade
Te obscurecerá: silencia-te."
— Edgar Allan Poe


Eles estavam atrás de mim.
E não era só por uma ou duas horas. Na verdade, eles estavam atrás de mim o tempo todo. Não importava onde eu estivesse, eles apareciam sem cerimônia, como se o conceito de tempo e espaço não fizesse diferença para eles. Quando eu estava em casa, dava para ignorar. Ou se estivesse sozinho em outro lugar, tudo bem também. Mas aí eles decidiam dar as caras na cafeteria ou no meio de uma aula, e aí não havia nada que eu pudesse fazer. Porque se eles quisessem me chutar ou puxar o cabelo, podiam. E faziam isso, com frequência.
Posso vê-los desde que me entendo por gente. Não só ver. Podia senti-los, ouvi-los e até tocá-los. Eles eram tão reais para mim quanto qualquer pessoa viva, e por isso, não era nenhuma surpresa o rótulo de “esquisitão” que ganhei dos outros. Afinal, o que você faria se visse alguém, aparentemente normal, começando a conversar sozinho no meio da rua? Pois é.
Por sorte, distinguir os mortos era fácil. Eles tinham uma aura... bem, mórbida. Estavam sempre pálidos e perdidos, perambulando pelas multidões. Os novatos eram os piores; gritavam aos quatro ventos, exigindo saber por que ninguém podia vê-los, porque estavam sendo brutalmente ignorados e porque não conseguiam nem botar as mãos em um envelope. Esses eram os que mais atrapalhavam a minha paz.
Era o preço que se pagava por ser um mediatário.
Basicamente, os mortos vinham até mim para resolver suas pendências aqui na Terra, como se eu fosse uma espécie de atendente de SAC do Além. Se isso te parece legal, recomendo uma consulta psiquiátrica. Porque não tem nada de bom em ser perseguido por um fantasma que quer que você leve um pedido de desculpas a alguém do outro lado do Estado, ou que implora para que você encontre um bom lar para o cachorro que deixou para trás. Ou, pior ainda, quando uma adolescente morta resolve que você vai ser o substituto do namorado que ela nunca teve.
Nunca considerei essa habilidade como um dom. Na verdade, ajudar os mortos só me dava dor de cabeça e cada vez mais distanciamento social. Elliott, meu melhor amigo, era a exceção. Ele era o único que nunca se importou com meu hábito de falar sozinho e desaparecer do nada. Nos conhecemos no ensino médio, e acabamos indo para a mesma universidade, o que foi um alívio. Fazer novos amigos nunca foi o meu forte. Fora o Elliott, as únicas pessoas vivas com quem eu mantinha contato recorrente eram meus pais, Margot e... minha avó. Tá, talvez essa última não estivesse tão viva assim.
Eu estava no quarto ano do programa de Medicina na Universidade Columbia. A escolha do curso e do campus tinham motivos plausíveis, pelo menos para mim. Queria me especializar na Oncologia, o que me traria pacientes que esperavam pela morte e eu poderia, de algum jeito, incitá-los a resolverem seus conflitos ainda em vida, tudo enfeitado com um papo bem coach. Poderia ser egoísta, mas era menos um fantasma que voltaria para me pedir ajuda depois. A escolha de Nova York também não foi por acaso. Uma cidade grande poderia esconder talentos, e dentre esses talentos eu quero dizer pessoas como eu. Nunca entendi como a seleção de mortos acontecia para nós, mas eu torcia para que eles fossem bem distribuídos de acordo com o número de pessoas disponíveis.
Minha escolha de usar jaleco branco deixava meus pais bem felizes. Desde que eles me buscaram no orfanato Saint Vincent’s em Petaluma, tenho sido motivo de orgulho em praticamente todas as minhas escolhas e atitudes, mesmo quando meus desaparecimentos e surtos de rebeldia aconteciam dia sim e dia não. Ou quando tive que ser buscado na delegacia diversas vezes entre o ensino fundamental e médio, com as acusações variando entre invasão de domicílio e desacato à autoridade. Situações de merda que saíam do controle por causa dos mortos, mas ainda assim, eles dificilmente me davam uma crítica dura. Sabia que minha mãe chorava no travesseiro à noite, assim como meu pai tirava seu Chivas Regal do armário do escritório e colocava pedras de gelo a mais, e isso me fazia pensar se eles se arrependiam de alguma forma por ter colocado um garoto estranho dentro de sua linda casa em Nob Hill.
A verdade é que eles não estavam arrependidos, e sim frustrados por não conseguirem se comunicar comigo, o que admito também ser culpa minha, que demorei pelo menos quatro anos para chamar Mary de mãe, o que seria incompreensível para toda a população americana que estava ciente da crista dourada que adornava esse sobrenome.
A família era dona de uma companhia de advocacia bastante rentável em São Francisco. O nome do meu pai, Hymie , é creditado e citado em várias entregas de prêmios empresariais por toda a Califórnia e continua sendo exemplo de gestão em vários outros Estados. Os flashes dos eventos de gala, jantares executivos na sala e pessoas estranhas trocando minhas roupas me lembravam do legítimo sentimento de peixe fora d'água. Eu odiava aquilo mais do que tudo. Odiava as perguntas inconvenientes sobre o meu passado, as insinuações sobre a possível miséria que era viver em Saint Vincent’s, as tentativas de arrancarem de mim um agradecimento público por ser salvo do terrível título medonho de órfão e várias, várias coisas.
A única solução para dar fim à toda essa exposição tenebrosa do único filho da família era me tornar um gênio que deveria estar sempre estudando ou se esforçando para a próxima prova ou um novo prêmio da feira de ciências.
Não deu outra; meus pais passaram a aceitar de bom grado que seu filho tinha outros interesses além de Led Zeppelin e tabuleiros de Catan. Depois disso, acumulei créditos o suficiente para desbancar até a geração passada na escola católica e assinei a matrícula em Stanford antes dos dezoito anos, a exatos quarenta minutos do aconchego e dos donuts de Mary. Passar os próximos dois anos e meio entrando e saindo de laboratórios de Biologia, Química Avançada e Física, encontrando uma legião de fantasmas tristonhos pelos corredores do departamento de Biologia no prédio Gilbert e tendo que torcer para que Margot recebesse folga mais cedo e aparecesse no parque Serra Grove em uma sexta-feira qualquer — onde eu sempre sabia que, assim que entrasse no carro dela, apareceria no próximo dia com uma nova tatuagem ou um novo piercing — para que me ajudasse com um probleminha de fantasma não foi a parte difícil. O difícil eram aqueles quarenta minutos. Era precisar voltar para casa depois de sumir por dois dias e não ter as mesmas histórias na ponta da língua que tinha com quatorze anos — elas mal serviam naquela época também. Era mais trabalhoso do que parecia disfarçar uma noite inteira em que você foi obrigado a mudar a inscrição de uma lápide com uma viga de ferro enferrujada, ou devolver as flores brancas de um velório ao remetente, porque “aquela vaca nem gostava tanto assim de mim. Quem ela pensa que é?” Eu não tinha mais desculpas convincentes aos vinte e um anos.
Estava na hora de ter espaço.
Mesmo com a maioridade e de ter dinheiro suficiente para me virar em Nova York — os investimentos na bolsa de valores da NYSE com a grana dos prêmios e estágios no laboratório de Bioquímica em Stanford foi o máximo que já fiz pensando em um futuro distante —, foi difícil convencer meus pais (e a própria Stanford) a aceitarem a ideia de eu me mudar para o outro lado do país. Depois de ouvir o choro de Mary por semanas, consegui que ela concordasse, junto à promessa de que me visitariam regularmente e que eu deveria ligar sempre. Essa parte era fácil, e fiz as malas mais rápido do que qualquer outro formando do pré-college de Palo Alto. Estava ansioso para ir para longe, já que é muito mais difícil seus pais — e qualquer outra pessoa com o mínimo de expectativas em você — se frustrarem com suas atitudes quando não estão por perto.
Eu não me importaria de ter pegado um quarto qualquer no alojamento do centro médico de Irving com outros calouros, mas meus pais insistiram que eu não fosse parar em um dormitório da universidade cheio de pessoas estranhas e com intenções desconhecidas. Por causa da superproteção de Mary, minha chave abria a porta de um belo apartamento na Upper West Side, ao sul de Manhattan, no quarto andar do Stonehenge Tower, um edifício quadrado de tijolos brancos com janelas grandes e um cacto no beiral. O negócio foi feito pelas minhas costas e me senti frustrado no início, mas, em menos de dois meses, quando estava ajudando Elliott com sua mudança para o Wien Hall e seu quarto minúsculo, porém agora individual, já tinha mudado de opinião, porque topar com uma alma penada verificando o pó da pequena escrivaninha do meu novo amigo foi chato. Pra caramba. Principalmente porque ele não entendeu nada quando o puxei para fora e disse que estava doido por um café de quinta categoria no lounge lá embaixo. E entendeu menos ainda quando eu disse que precisava urgentemente verificar uma coisa no seu banheiro e o pedi para ir na frente.
Por sorte, a assombração só queria saber se seu antigo quarto seria bem cuidado, porque ninguém esteve fazendo isso desde, sei lá… 1955? Os suspensórios me deixaram um pouco confuso com as datas, mas o que importa é que ele se mandou.
Ou seja: Mary foi um gênio, mesmo que nunca fosse saber disso. Como eu poderia pensar em morar com outras pessoas? Isso seria ignorar meu problema com os mortos. Morar em um lugar bem longe do campus e sem horários de entrada e saída foi a melhor decisão que deixei que tomassem por mim.
A liberdade se mostrou útil até naquele momento, quando eu acordei de um cochilo não planejado na biblioteca, levantando a cabeça com um sobressalto ridículo. Todas as articulações do pescoço estalaram. Meu Deus, parecia que eu tinha passado os últimos dois dias naquela mesa.
Saí de lá com a mente ainda embaralhada, tentando guardar um enorme exemplar de Brain Metastases de Hayat na mochila, o grande responsável pela minha insônia. Quando senti o celular vibrar no bolso, eu já sabia quem era — alguém que eu não precisava disfarçar um bocejo deprimente ou fingir que eu estava de bom humor.
— Fala. — atendi, posicionando o telefone no ombro enquanto empurrava o livro com mais força.
Onde você está? Eu tô morrendo de fome. — Elliott gemeu do outro lado. — Já tá quase no fim do horário. E hoje tem hambúrguer! A gente nunca se atrasa pro hambúrguer.
— Você não tem membros ou dinheiro? — finalmente, consegui empurrar o livro inteiro. — Caso tenha membros, acho que você pode comer sem mim.
Ele estalou a língua e sabia que estava revirando os olhos.
Qual é, . Você sabe que minha grana foi reduzida a zero no Lion’s Head semana passada. Me diz que pelo menos tá perto do JJ’s.
— Chego em cinco minutos.
O Jeep chega em três.
— Três minutos na porta do John Jay e o seu bife vai ser bem passado.
Argh. Feito.
Elliott já estava de pé na frente do restaurante do John Jay Hall quando finalmente apareci, com seus tênis Air Jordan falsificados, fones de ouvido e o boné de sempre com a aba para trás.
— Por que demorou tanto? Disse que tava sem aula de manhã. — ele murmurou quando me aproximei, e imediatamente caminhamos para os balcões de comida.
— Não tenho, tava na biblioteca. Andei preparando um artigo novo.
— Ah, é? Sobre o que é dessa vez? Bactérias que fazem plástico? — Elliott perguntou enquanto parava atrás da última pessoa na fila. Foi o momento perfeito que ele encontrou para começar a mexer no celular.
— Não, é só um artigo simples sobre as últimas descobertas da imunoterapia, e vou ver se consigo publicar no CJ antes do Spring Break. Tem certeza que hoje é hambúrguer?
A fila estava quilométrica. Tinha mais gente do que o normal, gente demais para um cardápio tão simplista. Eu e Elliott devíamos ser os únicos veteranos que ainda eram fissurados pelo hambúrguer de costela do John Jay, também porque a gente sempre aproveitava as fatias de torta de damasco que davam de sobremesa no mesmo dia — uma coincidência boa e bizarra. Devia ser por causa daquela piscadinha sedutora que Elliott lançou para a confeiteira no nosso primeiro ano. Mudou o rumo da coisa toda.
E hambúrguer de costela era um dos únicos motivos que me fazia sair de Vagelos e percorrer quinze minutos pela Riverside Dr. ao invés de me contentar com o prato do dia do Native Noodles. Elliott se importava bem mais com o que colocava no estômago do que eu.
— Viu o ranking semestral que saiu hoje? — Elliott nem tirou os olhos do celular quando disse, e muito menos emitiu qualquer tom de surpresa. — Você é o número 1 de novo.
Bufei em resposta.
Em todo começo de semestre, a Columbia divulgava um ranking dos alunos que foram mais bem sucedidos de acordo com o semestre anterior, tanto os da graduação quanto da pós, o que deixava o corpo discente completamente alucinado. Eu nunca imaginei que, entre a aristocracia da Ivy League, era mais descolado ser inteligente do que ser rico. A publicação do pódio era mais aguardada do que as férias de verão e, durante todo o semestre, esse lugar parecia um programa de sobrevivência.
Às vezes, sentia falta de Stanford e sua completa indiferença pública à genialidade alheia.
Já me senti cansado só de lembrar que, dali a algumas horas, receberia uma ligação de felicitação dos meus pais e precisaria responder à bajulação de professores e colegas no próximo horário. Isso não devia ser algo realmente ruim, ainda mais quando esse tipo de “título” trazia algumas vantagens: a revisão dos meus artigos sempre passava na frente no CJ, havia listas de hospitais e institutos de pesquisa entulhando minha caixa de entrada com propostas e o reitor me mandava convites de confraternização direto de seu e-mail pessoal. Era uma cascata de eventos que eu passava desde o primeiro ano, e que tive que aprender a lidar, mesmo que isso fugisse totalmente do meu plano aflito de ser invisível.
Naquela tarde, especialmente, eu gostaria muito de ter esse super poder.
Enquanto Elliott ainda estava concentrado em alguma rede social, um vento gélido arrepiou os cabelos da minha nuca. Antes que eu pudesse sequer pensar, uma voz rouca soprou em meu ouvido:
— Olá!
Continuei olhando para frente, fingindo que não tinha ouvido nada. Talvez se eu a ignorasse, ela se tocasse e fosse embora. Abri o celular e comecei a zapear por qualquer coisa, deixando o tempo passar. Ela ia perceber o que todos percebem: que ninguém podia vê-la. E enquanto eu não desse a primeira mordida naquele hambúrguer duvidoso com bastante ketchup, faria parte da maioria sim, com muito prazer. Não era uma boa hora para lidar com fantasmas.
Infelizmente, ela não só saiu do meu lado, como começou a tentar tocar em Elliott e em tudo que aparecesse à sua frente. Só para esclarecer, quando fantasmas tocam pessoas comuns, o máximo que elas sentem é um arrepio ou um frio súbito que logo passa. Para os mortos, não era muito diferente; é como tentar pegar uma massa cinzenta e pegajosa que escapa pelos dedos. Já com objetos, eles são bem mais habilidosos, meus hematomas podem confirmar isso.
Pessoas como eu, no entanto, conseguiam senti-los completamente. Não me pergunte por quê. Isso fazia com que os fantasmas nos achassem com facilidade e nos usassem para resolver suas pendências, como se fôssemos seus assistentes pessoais. Por isso, apesar da minha postura indiferente, eu estava aterrorizado com a ideia de que aquela garota decidisse me tocar naquele momento.
Vi Elliott se encolher com os calafrios causados pelo toque da fantasma e reclamar do frio. Continuei fingindo que nada estava acontecendo, enquanto nos aproximávamos das bancadas. Mas, no momento seguinte, quando Elliott deu um passo à frente e eu o segui, o fantasma não se moveu, o que fez com que nossos braços roçassem um no outro por um breve segundo.
Como um amador, acabei olhando para ela e, no mesmo instante, desviei o olhar. Tarde demais. Senti os dedos dela apertando meu braço direito.
— Você consegue me ver! Ei! Você tá me vendo, né?
Balancei o braço, tentando me livrar do aperto, mas ela ignorou o recado. Fechei os olhos, tentando manter a calma, e implorei mentalmente para que ela não começasse a fazer um escândalo.
— Por favor, me ajuda! Eu não sei o que aconteceu... Ninguém consegue me ver... Parece que eu, e-eu… morri…
Os olhos dela estavam arregalados e perdidos, o rosto pálido como um papel, e os cabelos ruivos desgrenhados caíam sobre o moletom com o brasão da faculdade de Direito da Columbia. A garota parecia ter uns vinte e poucos anos. E, por mais que estivesse desesperada no momento, não podia dar atenção para ela. Tentei sinalizar discretamente com a cabeça para que desse o fora, mas, em vez disso, ela apertou meu braço ainda mais forte.
— Por favor, eu te imploro! Me ajuda! Eu estava no meu quarto no alojamento e, de repente... — a voz dela falhou, os olhos mais esbugalhados, e senti o pânico crescendo dentro de mim. Ela parecia prestes a surtar. Surtar de um jeito nada legal.
A fila avançava e ela não soltava meu braço de jeito nenhum. Eu podia sentir as unhas dela cravando na minha pele, com uma força que só os mortos pareciam ter. Ao nosso redor, as pessoas riam e conversavam, sem fazer ideia do caos que estava rolando ali. Mas, se ela continuasse assim, todo mundo logo perceberia. Eles sempre percebiam.
— Agora não... — murmurei, o mais baixo que consegui, sem sequer olhar para ela, torcendo para que ninguém tivesse notado. Mas a coisa só piorou.
Ao perceber que eu realmente podia vê-la e ouvi-la, ela cravou as unhas ainda mais fundo, e senti o sangue começar a escorrer. Em seguida, fui puxado como um boneco de pano para o lado, bem na rota de saída das pessoas que seguravam suas bandejas já prontas e cheias. Quando me dei conta, vi suco de laranja se espalhar pela minha camiseta, seguido pelo impacto dos meus joelhos no chão. Ouvi o grito agudo de uma garota que caiu diante de mim, com molho de tomate e abobrinha grudada na roupa.
Todos os olhares se voltaram para nós. Elliott estava imóvel, com uma expressão que variava entre o riso e o choque. Eu, por outro lado, sentia uma mistura de raiva e incredulidade, porque não importava o quanto você se preparava para um momento como esse, eles nunca eram úteis quando fantasmas de verdade apareciam na vida real. Ainda girei a cabeça para procurar a maldita que tinha causado isso, mas é claro que ela tinha caído fora.
Senti um empurrão no peito e caí para o lado, o caos ao meu redor voltando como um balde de água fria.
— Você é maluco? — a garota à minha frente grunhiu, tentando se levantar sem escorregar nos restos de macarrão e torta de legumes espalhados pelo chão. — Tem ideia do que acabou de fazer? Deus do céu, não acredito…
Ela bufou com indignação, e algumas garotas se juntaram ao redor dela, estendendo guardanapos como se fossem paramédicos em um campo de batalha. Suas mãos tatearam o piso até puxarem uma pasta cheia de suco e o que parecia ser babaganush. Todas me olhavam com aquele olhar típico de “meu Deus, qual é o problema desse cara?” Levantei rápido, desejando que, por algum milagre, todo mundo seguisse em frente e esquecesse o espetáculo que eu acabara de proporcionar.
— Foi mal, me desculpa, a culpa foi minha. — na verdade, não foi. — Eu te pago um outro almoço, qual é o seu nome?
— Você é epilético? Ou simplesmente decidiu me atropelar? Isso foi de propósito? — ela ia aumentando o tom a cada pergunta, as bochechas ficando cada vez mais vermelhas. Ótimo, porque o que eu precisava agora, além de estar coberto de suco e brócolis, era de problemas com desconhecidos na única parte do meu dia onde eu tentava manter minha vida minimamente normal: o almoço.
— Claro que não. Foi um acidente, sinto muito, mas eu posso pagar…
— Pelo amor de Deus, não quero seu dinheiro. — ela fez uma careta antes que eu levasse a mão para o bolso da carteira. — Tenho uma apresentação importante hoje e você pode ter acabado de estragar tudo com essa sua… síndrome de Tourette, sei lá. Pode não terminar de me atrasar e me dar licença?
Ela passou por mim com um empurrão no ombro e foi embora, seguida por pelo menos três amigas, que me lançaram olhares ligeiramente menos hostis. Fiquei ali parado por um segundo até ser expulso pelas funcionárias da limpeza, que já começavam a limpar a bagunça ao meu redor. De repente, percebi o quão exposto eu estava, com todos os olhares fixos em mim, buscando entender a mesma coisa que aquela garota: como eu tinha feito aquilo? Como caí do nada sem explicação?
Grunhi e abaixei para pegar minha mochila, encarando Elliott uma última vez antes de caminhar para a saída, agora puto e sem fome.
Nem precisei verificar para saber que ele estava vindo atrás de mim.


— Cara... O que foi aquilo? — foi a primeira pergunta de Elliott quando chegamos ao banheiro mais próximo. Estava vazio, o que me deu a chance de arrancar a camiseta e jogá-la na pia, mas vendo seu estado mais de perto, era mais recomendável que fosse jogada no lixo.
Pensei em sua pergunta, encolhendo os ombros antes de respondê-la.
— Eu não sei, não foi de propósito. Acho que eu escorreguei.
Abri a torneira para lavar as mãos. Elliott me olhou em completa perplexidade.
— O quê? Escorregou? Tá doido? O chão tava tão limpo que eu poderia lambê-lo. Não tinha nada pra você escorregar.
É, só tinha um fantasma.
— E dá pra confiar no seu julgamento quando passou o tempo todo no Twitter? — tentei desconversar, fazendo uma nova bagunça na mochila, procurando algo que eu sabia que não estava ali. Elliott continuou me olhando, nem um pouco convencido. — Sei lá, cara, acho que só me distraí. Podemos esquecer isso agora? Preciso que você me empreste uma camiseta porque ainda tenho duas aulas antes de ir pra casa.
Elliott hesitou, mas não demorou muito para estalar a língua e simplesmente deixar a situação para trás. Pelo menos, toda a parte estranha da coisa. Ele logo abriu a mochila e tirou de lá uma camiseta preta escrita:

//life motto
if (sad() === true) {
sad.stop() ;
beAwesome() ;
}


— Valeu. — agarrei ela no ar quando ele a lançou.
— Cara, você tá legal? Não tá tomando nenhum desses remédios malucos pra ajudar na concentração que vendem por aqui, né? Essas coisas são perigosas, . E que negócio é esse no seu braço? Tá sangrando.
— Nada demais, coisa da queda. — arranquei meu braço de sua vista, vestindo sua camiseta com piadas de programação que eu não entendia. — Tô perfeitamente bem, foi só um pequeno acidente.
— Você tem ideia em quem resolveu causar um pequeno acidente? — ele perguntou e eu fiquei calado. — Cara! Aquela era !
— Esse nome deveria significar alguma coisa pra mim? — dobrei a camiseta arruinada em várias partes antes de enfiá-la na mochila.
— Já te falei dela várias vezes. Das noites de quinta no Amity Hall, no Beerkeeper em dias de jogo, do Edward…
— Ah, é… — o único momento em que Elliott não falava de mulheres era quando estava comendo (salvo exceções) ou jogando, então eu já sabia que não conseguiria lembrar de todas elas, mesmo que tentasse. — Bom, foi uma merda, mas espero que ela esqueça disso tudo bem rápido.
— Eu também espero, mas essa galera do Jornalismo não esquece nada fácil. Teve uma vez que saí com uma garota do departamento que…
Como um botão invisível, apertei “desligar” e deixei as palavras dele escaparem pelo outro ouvido. Nada contra a vida amorosa agitada do meu melhor amigo, mas meu cérebro já era sobrecarregado demais com equações moleculares e referências do PubMed. Ah, e um pouquinho de discurso básico para dizer a homens mortos que não, eles não podiam voltar a vida rapidinho só para buscar uma jaqueta vermelha da Balenciaga para levar na viagem para o Outro Lado.
Foi exatamente no que eu pensei: o fantasma. Ela iria me procurar de novo, era questão de tempo. Pelo uniforme da Columbia e o visual, era óbvio que tinha morrido perto daqui, talvez há menos de duas horas. Aquilo se espalharia pelo campus mais cedo ou mais tarde, e agora eu estaria pronto para a interceptação. Torcia para que ela só quisesse saber a nota de um teste ou se seu artigo foi aceito em algum congresso de verão.
Vesti a camiseta de Elliott, dei uma ajeitada na mochila e fui para a aula. As próximas três horas passaram num borrão, com a minha concentração sendo colocada à prova cada vez que um ventinho gelado tocava a minha nuca, pensando em como ignoraria uma aparição que já sabia que eu não podia ignorá-la. A não ser que ela me pegasse na aula de Psicologia Médica, onde 98% das pessoas dormiam — se fosse um dia em que eu não tivesse tomado meu expresso duplo do Blue Java, eu fazia parte dessa porcentagem.
Assim que a última aula acabou, me livrei do professor de Histologia, que estava com um discurso interminável sobre minha última análise de cápsula renal, e fui direto para o estacionamento do campus. O sol estava quase sumindo, e as luzes ainda não tinham acendido, o que me garantiu uns minutos de solidão na escuridão de concreto de Washington Heights. Meu Jeep Wrangler estava bem ao fundo, escondido atrás de uma pilastra e longe de outros carros.
Entrei, fechei a porta e esperei.
Exatos dois minutos depois, senti o ar pesar, frio e macabro, dentro do carro.
— Tá legal, quem diabos é você?
A primeira coisa que ela fez foi esticar o braço e tocar em mim. Não daquele jeito violento e desesperado de antes, mas leve e rápido, só para constatar que eu era de verdade.
— Eu... Você está mesmo me vendo? M-mas…
— Ok, vamos pular a parte óbvia da coisa. Sim, eu te vejo, te escuto, até te sinto, como ficou bem claro. E, sim, você está morta. O que posso fazer por você?
— Morta? Mas como... — o rosto dela começou a enrugar, lágrimas enchendo os olhos. — Como isso aconteceu? Eu só estava-
E mais choro. Eram poucos os que não choravam.
— Olha, preciso que você me conte exatamente do que se lembra. Ainda dá tempo de ir pra confraternização no Outro Lado, então preciso saber por que você ainda não foi pra lá
Era nessas horas que eu tinha que reunir o que minha avó chamava de compaixão, mas eu chamava de teste de paciência. Era quase uma entrevista de admissão, onde eu não exercia o papel de aceitar ou rejeitar ninguém para o Paraíso, mas de apenas agir como o gênio da lâmpada e me dispor a realizar o último desejo de almas encarnadas que não eram lá muito silenciosas até enxotá-las para o próximo nível. Não era um trabalho fácil e nem muito agradável, ainda mais porque, honestamente, a última coisa que eu queria era passar horas com um fantasma que ainda não tinha percebido que... bem, que estava morto.
A garota passou um tempo confusa até começar a pensar.
— Ash... Ele disse que as pílulas eram só pra dormir. Eu estava exausta com o projeto de final de curso, o trabalho, as inscrições pra pós, tudo isso. Então tomei as pílulas. E, bem... adormeci. — ela parecia perdida, os olhos desfocados enquanto tentava se lembrar de mais.
— Quem é Ash?
— Um cara da Dungeons. Faz Farmácia, eu acho, ou pode ser qualquer outra coisa. Não sei muito sobre ele, e esse nem é o seu nome verdadeiro. Estávamos saindo há três semanas, e ele me deu uns comprimidos pra dormir...
— E que comprimidos eram esses?
— Eu não lembro. Ele me entregou em uma caixa sem nome.
Revirei os olhos, já vendo o tamanho da confusão que viria pela frente.
— Tá, vamos começar pelo básico: qual é o seu nome?
— Karen. Karen Bracco.
— Beleza, Karen, aqui vai a notícia: você morreu, e esses comprimidos provavelmente são a causa. Agora precisamos descobrir o que está te segurando aqui, o que falta pra você finalmente atravessar o... limbo.
— Mas eu não tomei tantos assim. Ele disse pra tomar dois comprimidos, que isso bastaria pra eu dormir o dia todo. Ele disse... — as lágrimas voltaram, agora com força. — Eu confiei nele. Ele disse que não me fariam mal.
Confiou em um cara que não disse o próprio nome?
Suspirei, guardando o pensamento, tentando reunir argumentos que pudessem fazer sentido e ajudá-la a se acalmar. Talvez fosse mais complicado do que eu pensava.
— Tudo bem, então... o que você quer? Vingança? A gente pode discutir os detalhes.
— O quê? Não! Eu só... estou confusa. Eu tinha planos, sabe? Um emprego no Departamento de Polícia de Nova York, meu apartamento em Manhattan, apresentar o Ash aos meus pais...
— Ei, foco. Você precisa se concentrar no que está te prendendo aqui, descobrir o que ainda falta pra finalmente seguir em frente. Tem algo que ainda precisa resolver?
— Não sei. Minha vida foi sempre estudo e trabalho; fui em uma única festa de fraternidade, fui beijada só uma vez no ensino fundamental e agora pelo Ash, nunca fiquei de porre, ainda sou virgem...
— Vai sonhando. — minha voz saiu mais alta do que eu pretendia, e uma pessoa que passava alguns metros adiante do meu carro me olhou como se eu fosse um lunático. — Olha, meu contrato não cobre orgias nem reencenações de American Pie. Então eu sugiro que você pense em algo mais... profundo.
— Não é isso! Eu... eu preciso achar o Ash. Preciso descobrir o que eu tomei, e... e como eu... — ela engoliu seco, balançando a cabeça, o rosto numa expressão de dor. — Ele é popular, vive dando festas e vende de tudo. Não vai ser difícil encontrá-lo, só preciso... preciso saber se ele foi o responsável por... por isso. — sua voz vacilou, quase um sussurro.
— Ei, calma. — relaxei os ombros e me aproximei um pouco. Pensei em fazer aquele toque amigável engraçado que Margot costumava fazer com os novatos, mas um olhar pacato era tudo o que eu conseguia oferecer. — Você parece... bem, como alguém que acabou de morrer. As pessoas provavelmente já estão sabendo da sua morte. E quanto ao que causou ela, é pra isso que existem autópsias, certo? Logo vai ser divulgado, Ash vai ficar sabendo e pode poupar nosso tempo se entregando. Entendeu?
Ela apenas balançou a cabeça, teimosa.
— Não. Não é suficiente, eu preciso saber o que era aquela coisa. Se ele sabia o que estava me dando. É a única forma de... de eu descansar, eu acho.
Ela cobriu o rosto com as mãos, e eu vi seus ombros começarem a tremer. Outro choro vindo. Nesse instante, meu celular vibrou, iluminando a tela com mensagens insistentes de Elliott: "Onde você está?", "Estacionamento, né?", "NÃO DIZ QUE FOI EMBORA SEM ME DAR CARONA", "Me deixa na Broadway", "HELLOOOO????", "VOCÊ NÃO VAI ACREDITAR NO QUE EU ACABEI DE SABER".
Ótimo. Mesmo que eu não respondesse, ele estaria no estacionamento de qualquer forma, o que significava que aquela garota tinha que vazar dali agora mesmo.
— Tudo bem, vou procurar o Ash. Descobrir o que ele te deu e se ele sabia o que estava fazendo. Mas agora você precisa sumir do meu carro.
— Espera... Qual é o seu nome?
, muito prazer. Agora... — inclinei a cabeça em direção à porta.
Ela arregalou um pouco os olhos.
Você é o ?
Ah, caramba.
— É, sou eu.
— Minha nossa, mas… você é o aluno número 1. Como você, como isso…
— Acredite se quiser, mas eu não tenho uma história pra te dar. É assim que as coisas são e pronto. Agora que tal fazer aquela coisinha de sair?
— Ah… Certo. — ela disse e, pela primeira vez, esboçou um sorriso meio desajeitado. — Você parece ser um cara legal, . Posso mesmo confiar em você?
— Se não pudesse, você nem teria me achado.
Ela assentiu.
— Tudo bem. Eu vou. E… sinto muito pelo seu braço.
Antes que eu pudesse responder, ela desapareceu, evaporando como uma miragem. As luzes do estacionamento finalmente se acenderam, e eu vi a cabeça de Elliott surgir ao longe, correndo no meio dos carros.
Ele me avistou rapidinho e já veio, ofegante, pressionando o peito com a mão e abrindo a janela assim que entrou.
— Cara... Tem um cigarro?
— Que foi? O prédio não é tão longe. — respondi, procurando um maço no porta-luvas e entregando para ele. — Você devia parar de fumar.
— Como você conseguiu parar? — ele acendeu um cigarro, o tom ligeiramente sarcástico.
— Não parei. — dei de ombros e acendi o meu também.
Depois de algumas tragadas e uma respirada, ele olhou para mim com uma expressão de choque e animação.
— Cara, você não vai acreditar. Acabaram de encontrar uma garota morta no alojamento feminino. Parece que foi há pouco tempo, antes do almoço. Tá uma confusão lá dentro...
Fiz a melhor cara de interessado que pude.
— Sério? Quem era?
— Uma tal de Karen, da faculdade de Direito. Cara, você não tem ideia do que falaram sobre o corpo. Foi... horrível. Dizem que ela teve uma overdose, tinha vômito por todo lado, ela estava roxa, os olhos abertos… — ele tremeu. — Cena de filme de terror. Nem imagino a reação de quem a encontrou.
— Overdose? Eles disseram que foi isso?
— Ah, ainda não sabem nada com certeza. A ambulância acabou de levar o corpo. Devem fazer a autópsia lá no Presbiteriano. A universidade tá tentando não chamar atenção até resolverem isso, mas o assunto já explodiu no Twitter e no Fórum, e eu acho que enviaram pro Jimmy Fallon, mas não sei por-
Enquanto Elliott falava, eu me esforçava para juntar as peças. Aparentemente, Karen tomou os remédios na noite anterior e morreu antes do almoço, o que significava que o que quer que sejam aqueles comprimidos, a ação era lenta. Só que não dá para ter uma overdose com dois comprimidos de tarja preta, mesmo se fosse codeína. Depressão respiratória era um objetivo final que a pessoa precisava se esforçar muito para alcançar.
Me obriguei a afastar a estranheza de tudo aquilo da cabeça e a focar em bolar um jeito de encontrar Ash. Precisava fazê-lo me contar se ele sabia que o que ofereceu para Karen poderia matá-la. Claro que não dava para perguntar assim, direto — o cara ia me achar um completo maluco, ou então se assustar o bastante para abrir o jogo.
Deixei Elliott na Broadway, a algumas quadras de distância de onde morava uma tal de Emilie. Ele estava apavorado demais para voltar ao alojamento naquela noite, e, sinceramente, se soubesse que eu tinha sido notificado do "incidente" pela própria vítima, acho que o trauma seria ainda maior.
Minha rua estava silenciosa e calma, o que era bem atípico em qualquer parte de Nova York, seja residencial ou não. A badalação da cidade começava cedo, e mesmo que eu não fizesse ideia do cronograma das festas e nem de qualquer coisa que envolvesse oito ou mais pessoas dividindo um teto em mansões antigas de Manhattanville, teria que arrumar um jeito de saber, pelo menos até encontrar Ash.
Claro, mesmo na era digital, encontrar uma pessoa que usa nome falso não é fácil. Karen não tinha me dado muitos detalhes sobre ele, e eu não estava exatamente animado em procurá-la de novo antes de ter as informações que ela queria. Pensei em perguntar ao Elliott, mas sob qual pretexto? E aí, você tá sabendo desse traficante meio famoso que andou se envolvendo com a garota morta? Sabe onde ele mora? Nunca. Jamais. Elliott não era tão avulso quanto eu queria que fosse para não estranhar esse interesse repentino.
Quando finalmente entrei no apartamento, tratei de limpar o ferimento no braço — cortes em formato de pequenas luas das unhas de Karen — e fui direto para o banho, tentando relaxar, mas sem muito sucesso.
Depois, entrei no Fórum e busquei informações sobre a confusão daquela tarde. A única coisa que encontrei foi um resumo seco: Karen tinha sido encontrada pela colega de quarto, uma garota chamada Katherine Keaton, do curso de Arquitetura, que mal conseguiu falar com a polícia de tanto que chorava. A única foto publicada mostrava o corpo de Karen envolto em um saco preto, com uma faixa amarela de isolamento estendida na porta do dormitório. No final da matéria, um comunicado dizia que a autópsia só ocorreria depois da autorização dos pais dela, que já haviam sido avisados, mas não deram respostas sobre quando chegariam — parecia estar rolando uma tempestade bizarra na região da Virginia, cancelando voos e trens em sequência.
Apesar disso, era uma boa notícia. A autópsia explicaria tudo. Daria fim naquilo logo, bem logo. E enquanto isso, o dormitório de Karen seria o mais triste e cinza de todos os outros prédios da Columbia.
Porque agora ele estava assombrado.

⛓︎


Existem várias coisas na Columbia que me deixavam perplexo.
Distribuição de notas tendenciosas aos atletas, processo seletivo absurdo em fraternidades famosas, aquela goteira imensa nos fundos da Augustus, a proteção fajuta de dados de alunos, matrículas feitas ainda em caneta e papel e, é claro, o CJ.
Eu morria de medo daquele lugar. De um jeito um tanto claustrofóbico.
O Columbia Journal era administrado pelos próprios alunos e ficava localizado em um prédio pequeno ao lado do departamento de Jornalismo, dentro do gigantesco Pulitzer Hall. Prezando pela abolição das notícias em papel e, consequentemente, a preservação das florestas, eles mantinham um site bem informativo e moderno que também chamavam de Fórum. Lá estavam todas as informações sobre a Columbia e fatos importantes que aconteciam por lá, como eventos, congressos, simpósios e, claro, o pódio semestral. Cada aluno tinha seu próprio login e funcionava como uma rede social, porém restrito apenas aos alunos da universidade e com postagens feitas apenas pelos funcionários do jornal. Se existe um lugar onde você poderia achar o básico sobre a maioria dos alunos da Columbia, esse lugar era o CJ.
Claro que eu não esperava conseguir informações sobre Ash de uma forma tão descaradamente errada. Roubar documentos escolares era uma das minhas especializações na escola católica, mas apenas porque, aparentemente, muita gente morria no século XVIII por causa de intensos contatos com as novas descobertas químicas da época e mesmo assim gostariam de saber a nota de um teste. E não me surpreendia como aquele lugar velho gostava de guardar coisas mais velhas ainda.
Mas mesmo na era digital, era difícil achar alguém sem qualquer referência de um nome. Ash não era nome de ninguém. Eu verifiquei. Existiam mais de mil alunos espalhados pelo campus, em todos os departamentos, e nenhum deles sequer começava com essas letras.
Estranho. Muito estranho.
Eu já havia visitado o CJ algumas vezes, geralmente quando precisava pedir correção de uma publicação e me deslocava para a sala do professor responsável, o Sr. Liotta, que tinha uma certa felicidade escancarada toda vez que me via. Hoje era um dia ótimo para fazê-lo sorrir.
Chegar ao CJ significava estacionar em um espaço apertado e atarracado de bikes e motocicletas. Acho que não existia pior lugar para se parar com um Jeep Wrangler. Até mesmo o senhor Liotta tinha sua Vespa presa por uma corrente nas barras de metal ao lado do prédio, mesmo que eu acreditasse que fosse muito mais por um lance particular de colecionador.
O edifício era um dos menores — tudo parecia menor ao lado do Pulitzer Hall —, mas bem estruturado e limpo. As paredes estavam com a pintura em dia e, pela janela de vidro onde se podia ver o escritório, os equipamentos eram bem modernos e atendiam às demandas. O CJ era uma referência no ramo de jornais universitários sem fins lucrativos pelo país. Pelo menos uns dez alunos ali presentes seriam os próximos âncoras da CNN e editores chefes do New York Times.
Parei diante da porta branca no final do corredor e espreitei pela janela ao lado. Lá dentro, era uma correria: gente atendendo telefonemas, digitando, berrando de um lado para o outro — ninguém me notou quando entrei. Virei à direita e fui direto para a porta marcada com "Prof. Dr. Henry Liotta". Bati duas vezes e ouvi um "entre" abafado.
— Senhor ! — ele me cumprimentou, tirando os óculos e abrindo um sorriso enorme e caloroso.
— Como vai, doutor Liotta? — apertei a mão dele, e ele apontou para a cadeira na frente da sua mesa, que, aliás, estava tão cheia de papéis, canecas vazias e, quem sabe, um fóssil ou dois, que eu quase duvidei que ele pudesse realmente me ver dali.
Diferentemente do restante do prédio, a sala de Henry era um resquício dos anos 70, uma década tecnicolor pela qual eu tinha um grande carinho. Duas poltronas em amarelo canário estavam ajustadas bem embaixo da janela, a mesa de pinheiro polida e envernizada, os abajures largos, e ele ainda tinha um modelo de rádio Grundig Satellit dos anos 60, com antena e pilhas D. De vez em quando, dava para ouvir Hotel California tocando em loop no aparelho, e fiz uma piada uma vez de que, se fosse para ouvir apenas uma coisa até morrer, que essa coisa fosse Eagles. Ele se apaixonou por mim depois disso.
— O que o traz aqui tão cedo, meu jovem? — ele ajustou os óculos e deu uma olhada rápida para o relógio, como se o próprio horário o tivesse traído. — Ainda não trouxeram meu café, estamos um pouco corridos hoje. Mas aceita uma água, um chá...
— Não, não, tudo bem. — pousei a pasta em cima da pilha já caótica de documentos, torcendo para que não virasse um tsunami de papéis. — O professor Neeson me pediu pra escrever uma coluna, parece que quer fazer mais um pedido de fundos pra uma nova pesquisa, então terminei ontem. Vim deixar pra revisão.
— Ah, o texto sobre as células T no melanoma. Neeson me falou ontem. Aquele cara vive dizendo como é importante que o nosso país seja o primeiro a falar sobre a cura do câncer, mesmo que isso seja mentira e provavelmente sempre será. Vou dar os toques finais, mas… — ele tirou os óculos e olhou por cima deles, com um ar quase dramático. — Infelizmente, hoje isso não vai acontecer, receio. Você está sabendo do que houve ontem, no campus?
— A garota? Fiquei sabendo sim.
— Uma tragédia. — ele suspirou. — Toda a equipe está focada nisso, tivemos que suspender praticamente tudo para nos concentrarmos no caso da Bracco. A CNN veio e foi um pesadelo lidar com eles... Uma dor de cabeça atrás da outra, sabe? Mas não se preocupe. Vou garantir que o artigo saia a tempo, mesmo que um pouco atrasado.
— Sem pressa, professor. — forcei um sorriso, tentando não parecer tão interessado. — Logo tudo se resolve, né? O culpado vai aparecer…
— Culpado? — ele riu com um toque de sarcasmo, como se tivesse ouvido uma piada boa. — Ah, meu jovem... Não há culpado. Esse é um caso claro de suicídio! Encontraram a pobre garota sufocada no próprio vômito. Os pais até agora estão empurrando para vir reconhecer o corpo, e tenho quase certeza de que vão se recusar a autorizar uma autópsia. O uso de drogas entre os alunos está fora de controle. Seria um ótimo tema para o próximo artigo, inclusive. Os riscos disso tudo, entende? Vou fazer uma ligação para o Oskar logo mais…
Ele continuou falando, divagando sobre a juventude e os perigos das drogas, enquanto eu assentia e tentava manter uma expressão preocupada. Ter deixado ele se empolgar com o assunto e me "explicar" o caso foi um movimento certeiro — afinal, ele acabara de confirmar o que eu temia: a autópsia não sairia tão cedo. E eu precisava de respostas antes de ser perseguido por outro fantasma.
Depois de um papo rápido sobre minhas notas e a possível residência no hospital universitário de Berlim, me despedi do professor Liotta e me preparei para sair. Do lado de fora da sala, o escritório estava um caos, e o telefone não parava de tocar. Fechei a porta atrás de mim, aliviado, e avistei um bebedouro ali perto. Minha garganta parecia seca como o Saara, mas logo reparei na plaquinha acima do galão: "NÃO USE COPOS PLÁSTICOS, TRAGA SUA PRÓPRIA CANECA". Suspirei. Nada como mais um obstáculo — até a água nesse lugar parecia exigir um esforço extra.
Como se tivesse brotado de alguma parede invisível, uma pessoa passou por mim com a precisão de um cometa. Eu estava saindo de perto do bebedouro quando fui atingido por um esbarrão de alta potência. Papéis voaram, meu braço se esticou tentando segurar alguma coisa, qualquer coisa, e, bem... o que eu agarrei foi o galão d’água, que teve a gentileza de me dar um banho completo — e, aparentemente, dar o mesmo tratamento à pessoa que caiu em cima de mim.
Antes de mais nada: dessa vez, fantasmas não tiveram nada a ver com isso. A garota que estava em cima de mim era bem real, com um olhar tão estupefato quanto o meu. Cabelo meio molhado, meio seco, ela piscava em choque enquanto o telefone no ambiente continuava tocando e as conversas ao redor tinham se extinguido, mostrando que todo mundo estava de olho na gente. Um segundo depois, percebi quem ela era.
— Não acredito. — ela bufou, saindo de cima do meu peito como se eu fosse o chão imundo de um estacionamento. — Como é que você consegue aparecer pra arruinar o dia aqui também? Toda aquela comida não foi suficiente?
— Eu acho que você é quem deveria olhar por onde anda, sabe? — eu murmurei, tentando resgatar alguns papéis que ainda não estavam completamente encharcados.
— Ah, então eu deveria olhar por onde ando? Igual ontem? — ela deu um sorrisinho sarcástico antes de arrancar os papéis da minha mão. — Tem ideia do trabalho que foi coletar esses depoimentos? Tem ideia do tanto que ainda temos pra fazer hoje? Aliás, você é algum aluno perdido aqui atrás do professor Liotta pra pedir revisão de trabalho malfeito? Porque se for, pode tirar o cavalo da chuva. Ele tá ocupado, e não vai sair pra...
— Mas o que está acontecendo aqui? — Liotta abriu a porta, olhando alternadamente para mim e a garota. — , por que está brigando com o rapaz?
se endireitou, vermelha de raiva, mas recuou um pouco.
— Professor, esse... esse cara acabou com os depoimentos que eu consegui sobre a ação da polícia. Eu ia levá-los pra revisão e agora...
O professor Liotta levantou a mão direita e se calou instantaneamente, com as bochechas ainda mais vermelhas, lutando para não pressionar o maxilar. E aí eu percebi que a água gelada tinha sido implacável: ela estava sem casaco, e se controlava para não tremer os lábios.
Liotta se voltou para nós dois.
— Não façam disso um drama. Há trabalho demais pra isso. , eu sei que você não fez isso de propósito, e estava de saída, não estava? — ele deu umas batidinhas no meu ombro, depois olhou para . — Quanto a você, senhorita , tenho uma nova tarefa. — ele entrou rapidamente na sala e voltou com uma pasta. — Digitalize, edite e finalize o envio do artigo do jovem aqui. Isso deve responder sua dúvida sobre a presença dele. É a coluna especial sobre saúde pública do centro médico de Irving.
olhou da pasta para mim, depois para o professor, folheando rapidamente as páginas.
?
— O próprio. — Liotta assentiu. — Agora, se me dão licença, tenho que lidar com o inferno dos e-mails e chamadas de emissoras sem mais o que fazer, querendo informações que nem temos ainda. — ele suspirou e se virou para o resto da sala, onde todos ainda estavam assistindo ao show. — E vocês aí! Voltem ao trabalho, ou vão levar pontos de demérito! , sei que você vai resolver a questão do senhor . É uma das nossas melhores alunas. E chame a moça da limpeza pra dar um jeito nessa bagunça. Senhor , desculpe o transtorno. Volte em segurança ao departamento. — ele me deu um sorriso caloroso e entrou em sua sala, desaparecendo tão rápido quanto surgiu.
olhava para mim como se eu fosse uma barata que acabara de pousar bem no meio da sua sopa. Era óbvio que nunca tinha visto o senhor Liotta falar assim com alguém. Aliás, nem eu.
— Então… você tá bem?
A garota suspirou.
— Você pode sair, por favor? Preciso chamar o serviço de limpeza e você está no caminho. Pode deixar que seu artigo será publicado assim que possível.
Sem esperar por mais reações, ela se virou e saiu pela porta de outra sala, me deixando sob o olhar atento dos poucos que ainda estavam presentes, como se eu fosse alguma atração de zoológico. Balancei a cabeça, voltando a mim, e fui em direção à saída, ciente de que, pela segunda vez naquela semana, estava no meio de uma confusão completamente evitável. Tinha um certo talento em criar esses momentos constrangedores, e o mais surpreendente era que geralmente eles envolviam apenas os mortos.
Na saída do prédio, me lembrei do novo problema: eu estava sem roupas extras, de novo. Não sabia se era cedo demais para aparecer no dormitório de Elliott e implorar (pela segunda vez) por uma camiseta limpa. Nessa época do ano, deixava um casaco morando no meu banco de trás, um elemento acessível muito bem aproveitado nessa cidade que logo mais estaria se afogando em neve. De repente, pensei em oferecê-lo à tal — afinal, ela parecia precisar tanto de um casaco quanto de um calmante, mas a ideia desapareceu tão rápido quanto veio.
Porque algo mais urgente chamou minha atenção.
No mural de madeira ao lado da entrada, onde os panfletos de eventos jornalísticos se amontoavam, havia um cartaz bem maior e mais chamativo: “FESTA NA DUNGEONS! VENHA E TRAGA MAIS UM & A CERVEJA! SEXTA 21H!” O pôster parecia até piscar, como um sinal de neon para os desavisados (ou para os bem avisados que sabiam o que era bom).
Uma ideia, louca e impossível, começou a se formar. As palavras de Karen ecoaram na minha cabeça: “Ele é popular, vive dando festas e vende de tudo”.
É, o jeito seria tentar.
Sem realmente acreditar no que eu estava prestes a fazer, entrei no carro e disquei o número de Elliott.




c o n t i n u a–


NOTA DA AUTORA › seja bem-vinda ao tesouro da nação!
as palavrinhas no dicionário são poucas e muito rasas pra explicar o que toda essa história significa pra mim. toda escritora que se preze tem um sentimento especial sobre a sua primeira obra, e os meus são tão grandes e expressivos que não cabem aqui nessa notinha. finalizei essa fanfic faz mais ou menos quatro anos, sob outro pseudônimo, mas sigo falando sobre ela e divulgando pra quem quer que seja porque acredito que esse tipo de história é atemporal, é divertida e instigante ao mesmo tempo. hoje em dia eu ando reescrevendo essa epopeia, mas acho justo para aquelas que quiserem saber o que esperar, ver tudo que tá contado aqui, nessa fic cheia de WTFs e outros xingamentos, mas também muita risada e até um pouco de tristeza (vamo ser sincera, né).
se você nunca leu, tenho certeza que seu último pensamento depois do final será: "ainda bem que eu parei aqui." e ainda bem mesmo! foi um prazer te mostrar isso.
um beijo de alís.


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