0x1
MVP é uma honraria concedida ao jogador de melhor desempenho em uma competição, seja ela um campeonato inteiro, uma partida específica ou uma equipe.
já conhecia aquele roteiro de cor.
Em pé perto do vidro da sala VIP da equipe, seu olhar observador mirava todas as jogadas calculadas dos jogadores presentes em campo. À prova de som, a mulher não conseguia ouvir o barulho das torcidas, mas ela claramente enxergava todas as cores misturadas em branco e vermelho, denunciando o tom da marca dos dois times se enfrentando naquela noite eufórica de Champions: Arsenal contra o Real Madrid. O time inglês estava levando a melhor em campo, calando todos aqueles que acreditavam que eles seriam amassados pelo time espanhol, sempre o favorito do campeonato. O placar já estava em 4x0, mas embora a vitória do time inglês fosse um fato único a ser prestigiado por si só, não se importou com aquilo.
Ela estava mais interessada naquele que estava se consagrando o destaque da partida.
Seus olhos acompanharam os movimentos dele sem parar. Era ridículo o quanto ela nem sequer piscava, como se isso fosse fazê-la perder qualquer passe mínimo dele ou o menor dos seus movimentos. Ela não perdeu o primeiro gol dele. Um lance de falta perfeito que o fez marcar seu primeiro gol na posição. Foi tão perfeito que sequer parecia que ele nunca tinha feito aquilo. Pareceu ainda mais surreal quando, um tempo depois, ele repetiu a mesma goleada de antes, levando seu time à vitória e seu nome ao MVP da partida.
O espetáculo se engrandecia mais ainda por ser uma semifinal. O Arsenal não estava só levando a melhor da partida; eles estavam eliminando o Real Madrid da Champions League. E isso era um feito muito grande, algo que seria colocado na história da Champions, que seria lembrado por temporadas futuras.
ajeitou o crachá pendurado no pescoço, verificando que a partida já estava quase no fim. Não havia a menor chance de o Real Madrid conseguir virar os quatro gols do Arsenal em alguns minutos, ainda que o futebol fosse imprevisível àquele ponto, mas os desgastes dos jogadores em correr por noventa minutos em campo sem parar contribuíram para um cansaço que não os permitia operar milagres. Bastava o time espanhol aceitar a derrota e, de quebra, a eliminação.
Quando o cronômetro marcou os acréscimos, ela saiu da sala e desceu por uma escada que à levava ao térreo. Dali, fora das paredes cobertas à prova de som, a mulher conseguia ouvir a euforia ensurdecedora do estádio tremendo, os gunners explodindo em êxtase, comemorando a vitória implacável do seu time.
— A equipe está pronta? — questionou quando chegou perto da entrada do estádio.
Um homem segurando a câmera olhou para trás, abrindo um sorriso gentil e pequeno quando percebeu a presença dela. devolveu um sorriso mais discreto, sempre fingindo que não percebia o interesse do fotógrafo, mas o olhar malicioso de Jane, do outro lado, nunca a deixava esquecer. A agente de marketing da UEFA virou-se para a amiga, ignorando o olhar do fotógrafo, esperando que ela respondesse à pergunta.
— Tudo certo — Jane respondeu. Ela olhou para o relógio de pulso. — Vai acabar em 3… 2…
A contagem regressiva terminou quando o apito final soou dentro do campo. Jane sorriu e balançou a cabeça, porque ela sempre acertava a contagem específica do apito final. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, Rick apareceu em seu campo de visão.
— foi eleito MVP — ele anunciou. — Preparem tudo.
Como se ela não soubesse que ele levaria aquele destaque.
Ele brilhou na partida e ainda levou o próprio time à vitória, garantindo a vaga para a próxima fase do campeonato, mas nada disso foi o suficiente para preparar para os próximos passos do seu trabalho. Ela é quem entregaria o troféu. Um protocolo que ela com certeza sabia de cor, às vezes fazia tudo no automático, mas daquela vez, era diferente. A mulher respirou fundo, ajustou a postura e assistiu quando a equipe de mídia começou a correr para posicionar o backdrop e os fotógrafos se reuniam, se empurrando em posições que garantissem a eles o melhor ângulo das fotos.
— Aqui.
Jane apareceu bem na sua frente, estendendo o troféu que ela deveria entregar ao jogador inglês. pegou com as duas mãos, sentindo o peso, algo a se concentrar, para esquecer as batidas erradas do seu coração com a expectativa de estar frente a frente com de novo. Em dias de jogos, eles quase sempre se esbarravam pelos corredores. Ele também fazia questão de cumprimentá-la no meio de dezenas de pessoas, destacando o seu sorriso atencioso, o olhar sempre demorando nela muito mais do que o normal.
Eles nunca tinham parado, de fato, para conversar. Tudo o que existia entre eles eram aquelas pequenas interações, insuficientes, mas que impregnou em ambos uma atração física involuntária, inocente, crescendo sem que os dois percebessem.
— Obrigada, Jane — murmurou, aumentando o seu sorriso.
— Por que está nervosa? — Jane disparou, uma sobrancelha erguida. — Você já fez isso, tipo, mil vezes.
franziu o nariz, encarando a amiga com uma expressão que Jane considerou um pouco indecifrável.
— Não estou nervosa.
Jane olhou para baixo, indicando a perna de balançando de um jeito frenético. A mais nova sempre achava engraçado que nunca percebia os próprios sinais de nervosismo, o que mostrava que ela fazia aquilo inconscientemente.
A agente de marketing seguiu o olhar da mais nova e bufou, parando de balançar a perna quando percebeu.
— Não estou nervosa — voltou a garantir, frisando. Balançou a cabeça só o suficiente para afastar os fios de cabelo para trás. E então, tentando fugir do olhar analítico da amiga e mudar de assunto, completou: — Como eu tô?
Jane olhou para ela por um instante longo demais, mas decidiu deixar o assunto guardado para depois. sabia que não ia conseguir fugir das suas perguntas minuciosas, mas só o fato de Jane não ter disparado todas ali já era um alívio. Ela não precisava de um interrogatório quando estava prestes a entregar o troféu de player of the match ao cara que fazia seu coração dar uma batida fora do tom.
— Tá gostosa. Vai lá.
riu, balançando a cabeça; ajeitou o blazer mais uma vez e saiu, deixando Jane para trás. Ela se colocou no seu lugar de sempre, esperando o jogador inglês aparecer. Tudo ao seu redor estava agitado demais, mas se havia uma coisa que estava acostumada nos bastidores da UEFA era a agitação. A euforia acompanhava todo mundo, sempre andando lado a lado com a correria do trabalho de cada um, exercendo a sua função para que tudo e cada coisa funcionasse no seu devido lugar.
E um segundo depois, em seu momento de distração, apareceu na sua frente.
Bem na sua frente, dois palmos mais alto que ela.
prendeu a respiração por um momento, esquecendo tudo ao seu redor, seu campo de visão focando somente em uma coisa, somente nele, na forma como o uniforme do time estava colado ao seu corpo, manchado de grama, terra e suor, parecendo um lembrete visual do seu esforço na partida. O olhar dele mirou nela por uma fração de segundo, o canto dos lábios se erguendo em um sorriso discreto antes de virar e posar para as câmeras. Foi só quando teve noção da sua realidade e pigarreou baixinho, assumindo a sua postura profissional.
— Parabéns — ela disse, mantendo o tom de voz neutro e profissional. Os músculos das bochechas se contraíram só um pouquinho para devolver o mesmo sorriso discreto.
estendeu o troféu com as duas mãos, sempre seguindo o protocolo. aceitou com um meio sorriso que nunca alcançava seus olhos nas fotos, como se fosse proposital, mas era sempre diferente vê-lo sorrindo ao vivo.
A mulher abaixou as mãos, mantendo-as na frente, em uma postura discreta. Era sempre uma falta de educação sair bruscamente depois que entregava o troféu, mas mesmo que quisesse fazer isso, seus pés jamais lhe obedeceram. E ela sempre ficava para a parte inicial das fotos.
— Obrigado — ele respondeu, a voz rouca e exausta, vibrando mais do que o necessário nos ouvidos de . — Mais um para a estante de coleções.
Os flashes das câmeras estouraram, cegando os dois por alguns segundos. Fazia parte da sua função manter a composição da imagem e realizar uma entrega eficiente. Depois de posar ao lado dele entregando o troféu, a expressão sempre calculada, ela se afastou só alguns passos para não sair nas fotos que estavam tirando dele sozinho. Ela assistiu ele posar com o troféu pequeno ao lado do backdrop azul da UEFA. Quando os fotógrafos se dispersaram pouco tempo depois, não perdeu tempo em olhar de volta para ela.
Foi como se os dois estivessem sozinhos ali, mesmo com centenas de pessoas ao redor, que não prestavam atenção neles. passou a língua pelo lábio, contendo a vontade de morder a pele. A formalidade era como um véu fino rodeando os dois e ela se perguntou como seria rasgar ele.
— Você nunca sorri para as fotos — ele disse, a observação honesta pegando-a de surpresa.
— Ah, eu… — Ela coçou a bochecha, tentando relaxar os ombros. — Costume, acho.
Deu de ombros, buscando uma casualidade que também não estava acostumada em seu ambiente de trabalho. Na verdade, sua função específica ali geralmente não a deixava tão próxima dos jogadores. Ela estava sempre por trás dos bastidores, o único contato sendo no momento da entrega do troféu MVP, mas mesmo isso era de uma formalidade pura com qualquer jogador.
não conseguia entender, racionalmente falando, porque com era tão diferente. Suas mãos não suavam tanto quanto naquele instante.
— Espero que eu não tenha te deixado desconfortável por sorrir tanto — ele brincou. — Não devo ter contrastado com a sua seriedade.
Ela evitou rir, mas não conseguiu, o som escapando do fundo da sua garganta.
— Você acabou de destruir o meio-campo do Real Madrid. Me deixar desconfortável por sorrir demais é o menor dos seus problemas.
Foi a vez dele rir, o som vibrando pelo corpo inteiro de , o canto dos olhos dele quase fechando com os seus lábios repuxados em um sorriso tão cruelmente sincero.
— Então você presta atenção nos jogos.
Ela arqueou uma sobrancelha, colocando as duas mãos para trás do corpo, dando espaço para um assistente passar por eles.
— É o meu trabalho — apontou o óbvio.
— E quando não é trabalho? Ainda assiste?
Geralmente, evitava ter como hobby algo que também era o seu trabalho. A pergunta tinha uma resposta que estava bem na ponta da sua língua, mas ela não se sentiu muito inclinada a confessar que assistia as partidas que ele jogava. Bastava uma substituição tirando-o do campo que ela desligava a TV.
Mesmo assim, ela não teve a oportunidade de responder o que quer que fosse. Um dos assessores do Arsenal surgiu de repente, chamando-o para a entrevista pós-jogo que sempre acontecia. assentiu e, ao passar pela mulher, inclinou-se apenas o suficiente para murmurar de modo que só ela ouvisse:
— Se fizer parte do seu trabalho, espero que esteja por perto na final.
engoliu a seco.
Ele se afastou, deixando-a no mesmo lugar de antes, estática, assistindo-o ir embora. Ela sentiu falta do peso do troféu pequeno em suas mãos, um fantasma de um toque que nunca sentiu.
— Eu estarei — sussurrou para si mesma, como se fosse uma promessa.