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Independente do Cosmos🪐

Última Atualização: 24/12/2025

POV


Meu pai sempre dizia que o cheiro da graxa era melhor do que qualquer perfume. Na época, eu achava nojento, mas hoje, acho poético. Porque naquela noite abafada de garagem, entre o ronco engasgado de um motor velho e o som metálico das ferramentas, eu finalmente entendi o que ele queria dizer.
Estava sentada no chão frio, com a coluna apoiada contra a lataria enferrujada de um carro que já tinha visto dias melhores — assim como eu. A barriga enorme me impedia de ver os próprios pés, mas não de sentir os chutes leves que vinham de dentro. Como se aquele bebê também quisesse dizer: “a gente tá junto nessa bagunça, mamãe.”
As mãos estavam imundas. As unhas, encardidas. E o coração…? Desmontado.
— Esse eixo não vai alinhar sozinho, — meu pai murmurou, com a cabeça enfiada dentro do capô, como sempre fazia quando queria adiar uma conversa difícil.
— E esse bebê também não vai esperar o motor pegar, né? — rebati, com um sorriso cansado que tentava disfarçar a angústia.
Ele não respondeu. Só continuou mexendo em silêncio, como se cada parafuso apertado fosse uma forma de evitar as palavras que realmente importavam.
A verdade é que eu deveria estar em casa, com as pernas pra cima, assistindo reprise de corrida na TV e comendo chocolate direto do pacote, mas a oficina era o único lugar onde eu ainda me sentia… eu. Antes das fraldas, antes das consultas, antes do mundo tentar me convencer que meus sonhos tinham prazo de validade.
— Eu podia ter ido mais longe, sabe? — soltei, porque o silêncio dele já estava me machucando. — Se não tivesse me apaixonado por alguém que só tinha beleza e charme. Se não tivesse engravidado. Se não tivesse acreditado que amor bastava.
Meu pai largou a chave inglesa com cuidado, mas não como quem termina um serviço e sim como quem se prepara para escutar.
— Você ainda vai, filha. Talvez não do jeito que imaginou, mas vai.
Fechei os olhos.
Quis acreditar. Mesmo com os olhos queimando. Mesmo com o mundo inteiro pronto pra rir de uma “mãe solteira” com graxa na mão e um diploma de engenharia ainda no papel.
Mas então ele se ajoelhou ao meu lado, limpou a mão na camiseta manchada e encostou a testa na minha. Como fazia quando eu era criança e chorava por causa de um corte no joelho.
— Esse menino vai crescer ouvindo o ronco de motor como canção de ninar — sussurrou. — E vai ter orgulho de você, o mesmo que eu tenho agora.
Ali, entre peças soltas, promessas sussurradas e amor bruto de pai, alguma coisa se encaixou em mim, talvez não o eixo do carro, mas o meu.
Eu não ia desistir. Nem por ele, nem por mim e nem pelo bebê que já parecia pisar no acelerador de dentro do meu ventre.
Eu ia correr, mesmo que ninguém me deixasse entrar na pista.




POV


Era estranho pensar que eu estava ali, de novo. Naquele ambiente tão familiar, tão barulhento, tão masculino — e, ainda assim, tão meu.
O cheiro de combustível queimado me atingiu como uma lembrança antiga. Daquelas que ficam presas na pele e no fundo da garganta. Respirei fundo. O macacão vermelho da Ferrari grudava nas costas sob o sol implacável de Maranello. O suor escorria pela minha nuca antes mesmo do turno começar, mas eu estava firme. Ou, pelo menos, sustentando a melhor imitação de firmeza que aprendi a usar com o tempo.
Atravessei o portão de acesso com a credencial pendurada no pescoço e o coração batendo rápido, como se quisesse anunciar: você conseguiu. Porque ali estava eu, na equipe principal da Scuderia Ferrari.
Depois de dois anos na sombra da equipe júnior — desmontando protótipos, ajustando peças em salas abafadas, ouvindo gente me chamar de “a menina da oficina” com aquele tom condescendente — eu finalmente tinha sido promovida. Meu nome estava na escala da temporada.
Meu nome.
Na escala.
Da Ferrari.
Lembrei com nitidez do momento em que recebi a notícia.
Estava enfiada até o cotovelo numa carenagem que ninguém queria desmontar quando meu chefe direto me chamou de canto. Pensei que fosse bronca — como sempre era, mas então ele sorriu. Um sorriso raro.
“Parabéns, . Você passou. Vai integrar a equipe principal na próxima temporada.”
Fiquei parada por um segundo, como se o cérebro precisasse reiniciar. Senti os olhos encherem, mas disfarcei passando a mão no rosto sujo de graxa. Voltar à pista de verdade. Com os carros mais rápidos do mundo, ao lado de engenheiros que eu cresci admirando — e que agora seriam meus colegas.
Naquela noite, eu não dormi. Nem de medo, nem de nervoso, mas porque a adrenalina já tinha voltado a correr nas minhas veias. O mesmo sonho que quase me tiraram, só porque eu engravidei.
Eu tinha vinte anos quando vi o teste mais importante da minha vida dar positivo. Um teste de farmácia, não de desempenho técnico. Não era o que eu esperava, mas também não era algo de que eu pudesse fugir.
O pai do meu filho?
Um erro. Um erro insistente, bonito e fugaz.
Ele não sumiu — ao contrário, sempre aparecia nas redes, sorrindo em fotos com legenda de “pai presente”. Mas quando o teve febre no meio da noite, ou quando eu precisei de alguém para segurá-lo enquanto fazia uma entrevista… ele nunca estava.
E, mesmo assim, eu continuei porque parar nunca foi uma opção. Porque meu pai, Ramón , não deixou. Ele me deu uma bancada no fundo da oficina e uma promessa: “Você vai chegar lá, . Um bebê não destrói sonhos. Só muda o caminho.”
E ele mudou. Com fralda, com leite em pó, com noites em claro, mas também com o apoio dele e com o da minha mãe, Lucía, que dividia comigo as madrugadas de choro, aquecia mamadeiras e dizia, sempre que eu ameaçava desmoronar: "Você não tá sozinha, . Nem por um segundo."
E com o do meu irmão mais novo, Julián, que largou o intercâmbio pra ficar comigo no primeiro ano do . Ele embalava meu filho enquanto eu desmontava simuladores, me acordava quando eu cochilava em cima de um livro, decorava fórmulas comigo como se estivesse treinando pra corrida, não pra viver.
Foram anos de estudo solitário. De especialização pela madrugada. De cursos online feitos com fone de ouvido, enquanto o dormia no sofá da oficina. Enviei currículos que nunca foram respondidos. Participei de feiras onde fui ignorada como se fosse invisível. Fui recusada dezenas de vezes — sempre com os mesmos eufemismos: “Talvez numa próxima oportunidade.”
“Seu perfil não combina com o ritmo da escuderia.”
“Precisamos de alguém com mais flexibilidade.”

Eles nunca diziam “mãe”, mas era disso que estavam falando.
Só que eu escutei pior, fui chamada de ajudante quando já comandava processos inteiros. Tive que ouvir outro receber os créditos pelas soluções que saíram das minhas mãos. Perguntaram se eu estava ali para “trazer café”, quando eu era a única que identificava o ruído estranho no eixo central sem precisar de scanner.
Então não, ninguém me deu espaço. Eu o arranquei com ferramenta, com cansaço, com cada hora que passei provando que sabia mais do que esperavam de mim. Fiz isso por mim, pelo meu filho e por todas as que ainda viriam.
E agora… eu estava aqui, no coração da Ferrari.
Maranello.
Com o nome no crachá e o macacão ajustado por cima das cicatrizes que me trouxeram até aqui.
Ajustei a alça da mochila no ombro e segui o corredor até os boxes. Meus tênis pisavam com cautela sobre o chão riscado de pneus e óleo, mas minha cabeça já estava longe, correndo entre engrenagens e sensores. Era a única forma de calar a voz que ainda sussurrava que eu podia falhar, que iam rir ou duvidar.
Cheguei ao box principal e a Ferrari estava lá. Imponente, escarlate e rodeada por técnicos, engenheiros, e olhares que fingiam não estar me notando, mas eu sentia como sempre senti.
A curiosidade disfarçada de indiferença. A dúvida vestida de protocolo.
Antes de dar o primeiro passo, respirei fundo. Peguei o celular do bolso do macacão. Era um ritual, minha âncora.
Uma notificação.
Mensagens
Agora
Papai 💛
Enviou uma mensagem de voz:
1:45


Apertei o play.
Sabia que ia me desmontar, e me desmontou.
— Mamãe... é... você vai ganhar a corrida hoje? — a voz do veio baixinha, meio enrolada, com aquele chiado de coberta por cima da cabeça. — Eu tô com o carrinho vermelho, tá? Igual o do seu trabalho. A vó falou que é Ferrari. Te amo. Tchau!
Sorri sozinha. O rosto esquentou. Ele tinha quatro anos e o coração já batia no mesmo ritmo que o meu, no ritmo da pista.
Nos despedimos naquela manhã bem cedinho com o sol quase nascendo. Um café corrido na cozinha dos meus pais, uma mochila com carrinho de brinquedo, e um beijo na testa com gosto de culpa e saudade.
Depois, foi uma corrida silenciosa contra o relógio: voo pra Bolonha. Estrada até Maranello. Poucas horas de sono entre um deslocamento e outro.
O mundo achava que chegar até ali era só mérito técnico, mas ninguém via os voos às cinco da manhã, a febre inesperada no meio de um treino, ou o malabarismo de parecer estável quando se está desmoronando por dentro.
Apertei o celular entre os dedos.
Te amo até a lua e de volta, meu amor. 🚀❤️
Guardei o aparelho com cuidado. Como se fosse a peça mais delicada do mundo para mim.
Inspirei fundo.
Hora de trabalhar.
A oficina mais poderosa do mundo estava prestes a descobrir que por trás das minhas mãos sujas de graxa… batia um motor tão potente quanto qualquer V6 turbo que eles já viram.
E parece que o universo quis me testar no segundo seguinte.
? — a voz veio firme, cortando o burburinho dos boxes. — Vem comigo.
Levantei o queixo, ajeitei a manga do macacão com mais calma do que eu sentia por dentro, e assenti com a segurança ensaiada mil vezes no espelho. Aquela era minha entrada em cena e eu me recusei a tropeçar.
O homem que me esperava era Matteo Donati, engenheiro-chefe da Scuderia. Alto, esguio, cabelo grisalho e um olhar que analisava tudo como se fosse feito de código binário. Ele carregava uma prancheta na mão e o tipo de postura que fazia qualquer um medir as palavras antes de falar. Eu já o tinha visto em reuniões da equipe júnior — sempre à distância. Era a primeira vez que ele me chamava pelo nome e, pelo jeito, também a primeira vez que muitos ali me viam.
Porque bastou eu cruzar o corredor em direção à ala dos técnicos principais para sentir o impacto. E não foi de boas-vindas.
Olhares.
Um, dois, cinco.
Conversas que pararam no meio, parafusos que deixaram de girar. Testas franzidas, sobrancelhas arqueadas, e aquele silêncio que carrega mais julgamento do que qualquer palavra. Alguns me fitaram rápido, como se me catalogassem: nova, mulher, pequena demais pro ambiente. Outros me encararavam de cima a baixo, tentando encontrar a lógica por trás da minha presença. Como se eu fosse uma peça avulsa jogada na bancada errada.
— Esta é — Matteo anunciou sem entonação, como quem comunica uma troca de peça, não a chegada de uma nova colega. — Vai atuar com vocês nos boxes a partir de hoje. Experiente. Formada. Preparada.
Ninguém disse "bem-vinda". Nem um aceno de cabeça ou um sorriso real.
Um dos técnicos baixou os óculos de proteção devagar, me olhando como quem examinava defeito de fábrica. Outro, mais novo, se inclinou e cochichou algo pro colega ao lado — que soltou uma risadinha e bateu no ombro dele.
Curiosidade disfarçada de simpatia. Deboche com verniz de profissionalismo. Surpresa mal disfarçada de incômodo.
Engoli seco, mantendo a postura, se eu deixasse a coluna ceder ali, não voltaria a se alinhar nunca mais. Matteo seguiu andando, e eu fui atrás. Ouvi um comentário abafado vindo de trás:
— Essa é aquela da equipe de protótipos, né?
— A que apareceu no relatório da pré-temporada. O bom, lembra?
— Sim… mas achei que fosse só… treinamento.
Claro.
Treinamento.
Vitrine de diversidade.
Campanha bonita pra foto.
Aparentemente, ninguém ali achava que eu estaria no box para realmente colocar a mão na máquina.
Bom, eles iam descobrir...
Seguimos por entre bancadas, laptops com gráficos em tempo real, cabos pendurados, pneus alinhados como soldados. O cheiro de óleo e borracha queimada era o perfume da casa. E, de certa forma, reconfortante, mas o clima… o clima era de escaneamento.
Matteo parou diante de uma tela larga, cheia de dados e simulações rodando como um coração batendo rápido demais.
— Esse é seu setor. — Apontou com exatidão para o espaço delimitado por faixas vermelhas no chão. — Você vai trabalhar diretamente com o time responsável pelo carro número dezesseis.
Demorou um segundo pro meu cérebro entender.
Dezesseis.
O número não era só um número. Era um nome.
Charles Leclerc.
Senti o estômago revirar, não de medo, mas de decepção. Expectativa frustrada era um gosto amargo que descia lento. Se eu fosse sincera — e naquele momento, só dava pra ser —, uma parte de mim torcia pra cair no time do Hamilton. Alguém com mais anos nas costas, menos ego na frente, e uma fama de respeitar quem faz o carro dele funcionar.
Mas não. Eu ganhei o favorito da Ferrari e a bomba-relógio de humor instável que vinha junto. Suspirei fundo, ajeitando a gola do macacão. Matteo me olhou de canto.
— Algum problema?
— Nenhum — respondi. E acrescentei, seca, sem nem tentar esconder o tom: — Só… um desafio interessante.
Ou um castigo.
Porque se tem uma coisa que qualquer pessoa no paddock sabia é que Charles Leclerc podia ser brilhante no volante — mas insuportável fora dele. E agora, eu ia colocar as mãos no carro dele. Literalmente.
— Ele não vai gostar — murmurou alguém atrás de mim.
— Azar o dele — murmurei de volta, sem virar o rosto.
Era isso, meu nome agora estava vinculado ao dele.
O carro estava ali: vibrante, escarlate e intimidante. Encostado na plataforma hidráulica, com os pneus ainda cobertos, o número 16 estampado com orgulho na carenagem. Como se soubesse que era mais do que um veículo. Era símbolo. Era território. E, de certa forma, era.
Aproximei-me devagar, deixando o olhar passear pelas curvas da estrutura, pelas asas perfeitamente desenhadas, pelos detalhes milimetricamente planejados. Era uma máquina absurda. Arrogante até. Impecável.
A pintura brilhava. A aerodinâmica beirava a perfeição. O carro era um hino à engenharia. O problema, claro, não era a máquina, era o que ela vinha entregando.
Nas últimas três corridas, Charles não subiu ao pódio. E, com o desempenho, caiu também a paciência da equipe. Circulavam rumores — e na Fórmula 1, rumor era quase verdade. Falas sobre falhas técnicas, sabotagens internas, e, claro, a velha história de ego ferido destruindo conexões no rádio.
De fora, ele era o rosto da Ferrari. De dentro… um problema em alta velocidade.
Apertei os lábios e comecei a dar uma volta ao redor do carro, os passos lentos, quase cerimoniais, como se ele pudesse me contar onde doía. Era um hábito antigo o de ouvir o silêncio das máquinas. Às vezes, elas sussurravam segredos que nenhum gráfico revelava e, com frequência, diziam mais que os próprios pilotos.
Parei ao lado da asa traseira. Um desalinhamento mínimo no encaixe chamou minha atenção. Daqueles detalhes que a maioria ignorava, mas que, numa pista onde um milésimo de segundo decidia tudo, podia custar uma corrida inteira.
Cheguei mais perto. Deixei os ruídos do box desaparecerem atrás de mim. As vozes, as ferramentas, os sensores apitando… tudo se dissolveu até sobrar só a minha respiração e o carro. Passei os dedos devagar pela estrutura lateral, sentindo o leve relevo da tinta, o calor ainda pulsante das últimas voltas, os pequenos arranhões camuflados na perfeição da carenagem. Tudo nele era impecável. A estética, o ajuste, a engenharia.
Tudo, menos o que importava: o desempenho.
O carro, segundo os relatórios, estava instável em curvas médias, perdendo tração nas saídas e gerando tempos inconsistentes. A telemetria? “Quase certo.” Mas a pista não mentia.
Fiquei agachada ao lado da suspensão, o olhar treinado lendo o desenho das peças como quem lia um idioma secreto. E ali, de novo, o desalinhamento. Sutil. Milimétrico. Mas suficiente para causar vibração, ruído falso no torque, e perda de estabilidade em alta carga.
E foi quando vieram as vozes, aquelas que a gente fingia não escutar — mas nunca esquecia.
— Ainda ninguém resolveu a maldita instabilidade no eixo traseiro? — sussurrou um engenheiro, dobrando a prancheta com força contida.
— Já tentaram de tudo — respondeu outro, com desdém entediado. — E o príncipe do grid não ajuda muito com os surtos de estrelismo. Não dá para saber se o problema é o carro ou a cabeça dele.
— Ou os dois — completou um terceiro.
Fingi que não ouvi, mas ouvi e guardei cada palavra. Entre os dentes. Entre os ossos. Era isso que diziam fora dos rádios, longe das câmeras. Charles Leclerc: um prodígio temperamental, um milagre com ego inflado. E agora, o meu milagre problemático.
— chamou Matteo, a voz neutra, sem se virar. — Te passaram os dados de telemetria? A gente precisa entender por que o carro tá instável em curva média. Parece tudo certo no papel, mas em pista...
— Em pista, alguma coisa está sendo forçada demais — respondi, sem me levantar. — A resposta pode estar no torque de regulagem… ou na flexão da suspensão. Posso desmontar essa peça?
Matteo me lançou um olhar rápido por cima do ombro. Surpreso, talvez. Mas não me vetou. Assentiu.
— Pode. Está nas suas mãos agora.
Ele não fazia ideia do quanto essa frase carregava peso. Coloquei as luvas com um gesto calmo. Preciso. Na minha cabeça, um flash repentino se acendeu como uma lembrança indesejada.
Charles Leclerc.
Camisa branca da equipe semiaberta, cabelo bagunçado de propósito, expressão entediada, câmera ligada.
"Acho que se a equipe tivesse feito o trabalho direito, a gente não teria terminado atrás. Fiz a minha parte."
Outra cena: ele saindo do carro, jogando as luvas no cockpit com força, ignorando o engenheiro no rádio.
"Talvez se escutassem mais o piloto ao invés de só analisar planilhas..."
Mais uma — claro que tinha mais uma.
"Não, eu não tô feliz com o carro. E não, não vou sorrir para câmera."
Revirei os olhos só de lembrar. Aquele era o tipo de piloto que fazia barulho quando tudo dava errado… e se achava responsável por cada vitória quando tudo dava certo.
Bonito? Claro. Até demais.
Carismático? Talvez. Se você curtisse um ego com direção hidráulica.
Para mim, aquilo era verniz. Só um brilho liso cobrindo o clássico ego mimado da elite das pistas e agora ele era meu piloto. Ótimo.
Voltei ao trabalho. Puxei o carrinho de ferramentas pro meu lado e me abaixei de novo diante da suspensão traseira como quem se curvava diante de um segredo prestes a ser revelado. Tudo naquela parte do carro gritava perfeição, mas perfeição demais, às vezes, é só um bom disfarce.
Com uma chave torx em mãos, comecei a soltar a cobertura. Meus movimentos eram rápidos, mas contidos. Respeitosos. Eu não estava apenas desmontando um carro, estava entrando no território de um piloto que odiava mudanças, e mais ainda, odiava gente nova. Senti alguém se aproximar atrás de mim. Nem precisei olhar.
— Tá fazendo o quê aí? — a voz masculina veio com um tom debochado, arrastado, como quem testava limites.
Não respondi de imediato. Concluí o movimento e só então falei, sem tirar os olhos do que fazia:
— Verificando a flexibilidade da fixação traseira. Tem uma diferença mínima de acoplamento entre o lado esquerdo e o direito. Isso pode causar vibração em curva média e distorcer a leitura de torque.
Silêncio.
— Foi o que o estagiário sugeriu na etapa passada. E não deu em nada.
Virei o rosto devagar. Encarei o homem com um sorriso curto, seco, cheio de arame farpado.
— A diferença é que eu não sou estagiária e eu sei exatamente o que estou procurando.
Voltei a mexer. Soltei o encaixe interno com cuidado, girando a peça com a sensibilidade de quem escutava o carro com os dedos. E ali estava. Um desgaste lateral no anel de vedação. Invisível a olho nu. Só perceptível quando se sabia o que procurar — e quando.
— Achei — murmurei.
Ele se calou. Depois, ajoelhou ao meu lado e observou em silêncio por alguns segundos.
— Isso… não estava no relatório.
— Não mesmo — respondi. — Porque todo mundo aqui tá procurando defeito no lugar errado.
Me levantei com a peça na mão e caminhei até a bancada com os sensores. Matteo me observava de longe. Não disse nada, mas o aceno discreto com a cabeça… foi suficiente.
Foi ali que eu soube, a equipe podia não ter me recebido de braços abertos, mas a partir daquele momento, ninguém ia conseguir fingir que eu não estava ali.

🏁🛠️

O alojamento da equipe ficava nos fundos do paddock, atrás de uma fileira de containers adaptados que pareciam ter sido montados com pressa e esquecimento. Camas estreitas, armários minúsculos e paredes tão finas que dava pra ouvir a respiração do vizinho de beliche — ou o ronco, se tivesse azar.
Nada de glamour. Nada de silêncio. Mas confortável o suficiente pra quem aprendeu a cochilar em bancos de oficina, com o som de parafusadeiras embalando o sono. Me joguei na cama sem tirar as botas, sentindo a musculatura reclamar do dia inteiro.
Os pés latejavam, os ombros estavam duros como aço e a cabeça rodava com dados, ruídos, e a lembrança constante de que todos ali estavam prontos para duvidar de mim. Suspirei fundo e estiquei o braço até o celular, largado no travesseiro como se esperasse por mim.
A tela acendeu com uma única notificação.

Videochamada
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Papai 💛
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Toquei. A tela piscou e então apareceu o rosto mais importante do mundo.
¡Hola, mamá! — disse , com os olhos brilhando e o cabelo todo bagunçado, o pijama meio torto, o sorrisinho do pós-banho estampado no rosto.
Meu coração derreteu. Sem drama ou aviso. Derreteu de verdade.
— Oi, meu amor. Tudo bem por aí?
¡Sim! ¡A abuelita fez espaguete com bolinhas! — respondeu, animado. Depois baixou a voz como se contasse um segredo — Eu guardei duas bolinhas pro meu coelho de pelúcia.
Riu baixinho, cobrindo os olhos com a mão, como se aquilo pudesse conter a avalanche de ternura que subiu dentro de mim.
— Espero que o coelho tenha gostado. — Ele assentiu com tanta seriedade que parecia estar assinando um contrato.
¿Mamá… você já viu o carro do Leclerc? — Sorri de canto, massageando a têmpora com o polegar.
— Vi sim. Tá inteiro, bonitão… e exigente — brinquei. — Vermelho igual ao seu carrinho preferido.
Uaaau... — ele sussurrou. — E é você que deixa ele rápido assim?
— Isso mesmo, meu piloto mirim. Sou eu quem cuida pra ele correr direitinho.
Que legal… — Ele ficou pensativo por um instante, e então perguntou com os olhos brilhando: — E um dia a gente vai ver uma corrida de perto?
O tempo parou por um segundo. Só o suficiente pra eu respirar, só o suficiente pra sentir o que aquela pergunta causou dentro de mim.
— Vai sim — respondi, com a voz mais firme do que me sentia. — Eu vou te levar. Um dia você vai sentar na arquibancada, com um fone de ouvido gigante e uma bandeira vermelha nas mãos. E vai ver seu nome estampado na minha camisa e vai saber que tudo isso foi por nós dois.
Ele sorriu, satisfeito, como se aquilo bastasse. E antes de desligar, fiz uma careta, porque era tradição.
— E quem sabe até consiga um autógrafo do Leclerc... se ele não for um idiota completo.
gargalhou. Aquele riso livre, redondo, cheio de luz. O som mais bonito que ouvi o dia inteiro.
Desliguei a chamada com o sorriso ainda preso no rosto, os olhos ardendo naquele ponto entre a exaustão e o amor. O tipo de cansaço que pesava, mas não machucava. O tipo de amor que sustentava o corpo mesmo quando tudo dentro dele queria deitar e chorar.
Me deitei de costas, sentindo o colchão duro ceder minimamente. Fechei os olhos por um instante — só um. Aquele segundo onde o mundo inteiro se calava e você se permitia existir sem performance.
Mas a paz durou exatos oito segundos. O celular vibrou de novo.
Uma nova notificação apareceu na tela acesa:

Notificação agora
🔔 Alerta interno – Scuderia Ferrari
Charles Leclerc chegou ao paddock – status: em atividade.


Abri os olhos devagar, encarando o teto branco e sem graça do alojamento.
Era isso.
Amanhã, ele estaria ali. No box. Com o mesmo ego inflado que eu vi em dezenas de entrevistas, com a mesma fama de insuportável. E, agora, com o meu nome vinculado ao dele — no papel, no sistema, no carro.
Sorri de canto. Aquele tipo de sorriso que nascia do desafio, do cansaço e da vontade de vencer. Amanhã, eu conheceria o piloto que todos diziam ser insuportável. Mal podia esperar.

POV Charles


A verdade?
Eu odiava chegar por último.
E não era por pontualidade, nunca foi. Era pelos olhares, cochichos disfarçados de curiosidade, sorrisos automáticos de quem já ensaiou a frase perfeita pra quando eu passasse. Técnicos, engenheiros, assessores — todos com a mesma expressão plastificada de surpresa. Como se ainda fosse novidade o rosto da Ferrari aparecer no paddock.
Cruzei o corredor central com os óculos escuros no rosto e a mochila jogada de lado, o andar calculadamente desleixado. O teatro estava todo ali e ainda funcionava.
— Ele chegou.
— Tá com cara de quem não dormiu.
— Deve estar puto com a suspensão nova…
Fingir que não ouvia fazia parte do uniforme. Caminhei em linha reta ignorando tudo: os cliques de celular, os “bom dia” burocráticos, as tentativas de contato visual. Eu era bom nisso.
Mas hoje… Hoje, a máscara pesava mais que o capacete.
Três corridas seguidas sem pódio.
Três.
E o mundo já começava a me enterrar como se minha carreira tivesse terminado no GP anterior.
“Estrelismo.”
“Arrogância.”

Como se talento viesse com manual de boas maneiras, como se um erro virasse defeito de caráter, mas ninguém ali fazia ideia do que era carregar esse macacão. Principalmente agora.
Porque dividir o box com Lewis Hamilton mudava tudo. Com ele, cada movimento era uma comparação, se ele errava, era uma leitura estratégica. Se eu erro, é ego inflado.
Ele é o multicampeão.
A lenda.
A marca registrada da Fórmula 1.
E eu?
Eu sou o garoto que prometeram que ia ser o futuro, e que agora todo mundo analisava tentando descobrir se ainda tinha validade. A equipe jurava que não havia favoritismo, que os dois carros tinham o mesmo suporte, o mesmo investimento, o mesmo respeito.
Mas bastava estar lá dentro por cinco minutos pra perceber que os sorrisos eram mais largos para o outro lado, as instruções no rádio eram mais detalhadas, o benefício da dúvida só existia quando não era eu que errava.
E fora do box, pior ainda.
A imprensa me devorava com olhos famintos, esperando a próxima queda. Qualquer gesto virava manchete, qualquer pausa era interpretada como drama. Se falava demais, era egocêntrico, se me calava, era arrogante, se perdia, era o problema, se ganhava… era porque “o carro melhorou.”
No fundo, todo mundo tinha alguma coisa pra dizer sobre mim e nenhum deles sabia a metade do que era carregar esse macacão. Mas tudo bem. Eles não precisavam saber, só precisavam me ver vencer.
Eu estava encostado perto do mural de briefing, revendo mentalmente os dados da última sessão, quando ouvi:
— Parece que colocaram alguém novo no carro do Leclerc.
A mandíbula travou antes que eu pudesse fingir indiferença.
— A moça da equipe de protótipos?
— É. Dizem que ela é afiada. Matteo aprovou direto.

Continuei encarando o mural, mas o corpo inteiro reagiu. Como se um alerta silencioso tivesse disparado dentro do peito, colocaram alguém novo no meu carro de novo e sem me avisar.
Fechei os olhos por dois segundos.
Inspirei.
Soltei devagar.
Não era a primeira vez, mas doía igual. Eu odiava surpresas ainda mais a forma como certas decisões eram tomadas, como se eu fosse só mais um componente da máquina. Não o cara que arrastava esse carro pelo grid mesmo quando tudo tava errado.
Ela podia ser boa.
Podia ser ótima, mas eu já aprendi a desconfiar de gente nova com currículo brilhante e zero quilometragem comigo. Porque era sempre assim: eles entravam querendo provar alguma coisa. Queriam mostrar serviço, mostrar superioridade, mostrar inovação, mas esqueciam que carro não era só dado. O carro era feeling, pulso, conexão e nenhum relatório substituía isso.
Lembrei do engenheiro que quis mudar o padrão de frenagem traseira baseado num algoritmo revolucionário, aquaplanei na terceira volta. Na outra temporada, teve um que apostou tudo numa nova refrigeração de motor com base numa tese experimental, o motor ferveu antes do fim da sprint.
Então, não. Eu não sou cobaia. Eu sou o que sobrava depois que os outros erravam. E se essa nova responsável — seja lá quem for — atrapalhar meu carro, eu vou pedir substituição. Sem cerimônia. Sem hesitar.
Ainda não sabia o nome dela, mas já sabia o suficiente. Era só mais alguém tentando provar que merecia estar ali. E eu… eu não estava disposto a pagar o preço da insegurança de ninguém.
Mas a curiosidade era uma merda. Principalmente quando vinha disfarçada de desconfiança. Larguei os papéis sobre a bancada e atravessei o box com passos lentos, calculados, como quem não tinha pressa, como quem não estava procurando nada. Mesmo quando sabia exatamente o que queria ver.
O cheiro de óleo queimado misturado ao som ritmado das parafusadeiras preenchia o ar como uma música familiar. Quase reconfortante.
Quase.
Entrei esperando ver o de sempre. Mesmas caras, mesmos gestos, mesmos olhares que desviavam rápido quando percebiam que eu estava observando. Mas tinha algo diferente no ar, ou melhor… alguém.
Ela estava de costas, macacão vermelho, cabelo preso num coque simples, prático. Postura reta, centrada, ajoelhada ao lado da suspensão do meu carro — do meu carro — como se aquele lugar fosse dela, como se já fizesse parte do box.
Os movimentos eram precisos, sem hesitação ou aquela ansiedade típica de quem sabia que estava sendo observado. Ela não estava ali pra aprender, nem pra observar. Ela estava ali pra mexer, intervir e parecia saber exatamente o que fazia.
E isso… me incomodou.
Porque quando alguém colocava as mãos no seu carro sem nem te olhar nos olhos… sem perguntar… sem ouvir você primeiro… isso diz muita coisa.
Diz: “não preciso da sua opinião.”
Diz: “já entendi o que você faz de errado.”
E isso, honestamente, me irritava.
— Charles — a voz de Matteo surgiu ao meu lado, calma como sempre. — Aquela é . A nova responsável pela sua parte técnica.
.
O nome soou conhecido. Relatório da pré-temporada, uma análise técnica elogiada. Precisão acima da média, boa demais pra alguém que, até então, não fazia parte da equipe principal.
Ela se levantou, com calma, tirou as luvas e limpou as mãos em um pano sujo de graxa. Virou-se devagar e foi aí que nossos olhares se cruzaram pela primeira vez. Ela não sorriu, não piscou ou abaixou a cabeça.
— Leclerc — disse, seca, como quem recitava uma peça de reposição.
Só isso.
Sem firulas, reverência ou empolgação. Como se eu fosse só mais um nome numa prancheta.
— respondi, no mesmo tom.
Ela assentiu. Um único movimento com a cabeça e então, simplesmente, voltou ao trabalho. Simples assim.
Ela tinha aquele tipo de olhar que não pedia permissão para existir, que não se curvava e isso… já me irritava.
Afastei-me alguns passos, encostando na bancada de ferramentas, braços cruzados. De onde eu estava, conseguia vê-la claramente. Trabalhava com foco absoluto, como se o resto do box não existisse, mas eu sabia que existia. Sabia demais.
E bastaram poucos segundos para o murmúrio começar atrás de mim.
— Aposto que foi uma escolha de marketing da Ferrari. “Olhem como somos inclusivos.” — disse um dos técnicos, rindo com desdém.
— Ou ela puxou algum fio certo. Ninguém sobe tão rápido assim só com currículo.
— Aposto quanto quiser que ela vai ferrar tudo na primeira corrida e depois vai culpar o sistema.
Engoli a raiva, mas não por ela e sim porque eu sabia exatamente o que vinha depois desse tipo de fala. Sabia como funcionava, com qualquer novo, o julgamento era cruel. Com uma mulher… era sempre mais sujo.
— Bonitinha ela é, né? Até dá vontade de ver o carro quebrar só pra ela vir arrumar.
— Se fosse tão boa quanto é metida, o problema do eixo já teria sido resolvido.
— Será que ela sabe pra que serve um difusor? Ou tá aqui só pra fazer o Charles sorrir?
A última frase veio com uma risada alta, espalhafatosa, ridícula.
Revirei os olhos. E dessa vez, falei.
— Se quebrar, pelo menos ela vai saber onde procurar, melhor do que alguns por aqui.
A risada morreu no ar. O silêncio que veio depois foi imediato, constrangido. Como quando alguém pisava fora do traçado e todo mundo sentia o impacto. Mas eu nem olhei ou dei espaço para reação. Só continuei ali, braços cruzados, expressão neutra.
O mais curioso?
Ela também ouviu. Dava pra ver na tensão sutil dos ombros ou na forma como os dedos continuavam firmes, mas a mandíbula estava mais contraída. Ela ouvia. Sabia que estavam falando dela e mesmo assim, não respondeu. Não desviou o olhar ou perdeu o ritmo das mãos.
Ela só… continuou. Como se aquelas palavras não tivessem peso ou como se já tivesse ouvido coisa muito pior. E, de algum jeito, eu sabia que tinha mesmo.
Talvez ela soubesse o que estava fazendo. Talvez aquele olhar direto, aquela precisão meticulosa, aquela frieza profissional escondessem algo além do currículo. Talvez existisse talento ali.
Mas eu não confio em talvez.
Nunca confiei.
Estava prestes a voltar pro box quando ouvi passos firmes atrás de mim.
— Tá com essa cara desde que cheguei ou é pessoal comigo? — a voz veio descontraída, com aquele sotaque britânico que já era parte da trilha sonora da Fórmula 1.
Virei devagar.
Lewis Hamilton.
Uniforme vermelho da Ferrari. Óculos escuros. Um sorrisinho de canto que dizia o que as palavras não precisavam: ele sabia exatamente o efeito que causava quando entrava em qualquer lugar.
— Você chegou atrasado. Eu só estava compensando o desequilíbrio de carisma no box — respondi, tentando soar mais leve do que me sentia.
Ele riu, deu um tapinha no meu ombro e parou ao meu lado. Ficamos ali, lado a lado, em silêncio, assistindo o vai e vem da equipe como se estivéssemos analisando uma reta longa demais, aquela em que você sente o carro vibrar antes de qualquer curva.
— Fiquei sabendo que trocaram sua equipe técnica — ele comentou, casual, mas com o peso exato das palavras. Ele sabia. Essas trocas nunca foram só técnicas.
— Me avisaram depois. Claro.
— E a nova?
Olhei de canto para o box.
.
Ajoelhada ao lado do difusor traseiro, o rosto parcialmente encoberto por uma mecha de cabelo escapando do coque. Mãos firmes, olhar focado. Como se tudo ao redor fosse apenas ruído branco.
— falei. — Vem da equipe de protótipos.
— Já ouvi falar dela. Dizem que é boa, técnica e precisa.
— É. Técnica. Fria. Concentrada.
— E isso te incomoda? — Demorei a responder.
— O problema não é ela — falei, por fim. — É que ninguém pergunta se eu quero essas mudanças. Só jogam no meu colo e esperam que eu confie de olhos fechados.
Lewis assentiu, calmo. O tipo de calma que só vinha com anos de pista e desgaste emocional.
— Não é sobre confiar de olhos fechados. É sobre dar espaço pra alguém mostrar que sabe o que tá fazendo.
— E se ela errar? — Ele me olhou de lado, um rastro de sorriso nos lábios.
— Então você faz o que sempre faz: segura o carro com uma mão e carrega a equipe nas costas com a outra. — Suspirei, rindo com amargura.
— Ótimo. Mais uma corrida normal, então. — Ele riu também, mas o tom era diferente. Quase um aviso.
— Vai com calma, Charles. Nem todo mundo veio aqui pra te sabotar. Às vezes, as pessoas só querem o mesmo que a gente: vencer.
Ele se afastou com um aceno leve. Deixou as palavras no ar como fumaça de pneu queimado e eu fiquei parado ali, observando ao longe, os gestos precisos, o silêncio carregado de tudo que ela ainda não disse. Talvez o Lewis estivesse certo, mas confiar… confiar exigia algo que eu não tinha mais pra dar.
Voltei pro alojamento com a voz dele ainda martelando na cabeça:
"Nem todo mundo veio aqui pra te sabotar."
Fácil pra ele dizer, era intocável. O tipo de cara que podia errar e ainda sair aplaudido. Eu, não. Eu era o cara que, se fizesse uma curva um centímetro errado, virava motivo de piada na coletiva.
Joguei a mochila sobre a cadeira, o corpo pesado, o cansaço martelando nas têmporas. Peguei o celular.
Antes mesmo de desbloquear, o celular começou a vibrar. Fechei os olhos por um segundo. Pensei em ignorar, mas atendi. Talvez por costume, ou por culpa.
— Oi — falei, baixo.
— Finalmente — a voz da Alix soou cansada, mas carregada de expectativa. — Dois dias sem um sinal seu, Charles. Você sabe o quanto isso me machuca? — Suspirei, deixando o corpo cair na cama.
— A gente terminou, Alix. Você precisa parar de se machucar por isso.
— Eu não consigo desligar esse sentimento do dia pra noite. Achei que você também não conseguiria. — Ela não gritava, não cobrava, só deixava a tristeza vazar por cada palavra.
— Eu só… tô exausto.
— Você sempre tá, mas agora parece exausto até de mim. E eu ainda tô aqui, tentando encontrar alguma brecha pra voltar. — Silêncio. — Vi umas fotos da equipe. Tem uma engenheira nova. , né? — Fiquei calado.
— Só me diz se tem alguém no meu lugar agora.
— Não tem ninguém. — Ela respirou fundo.
— Tá. Mas tem alguma coisa em você que mudou, Charles. Desde antes da gente terminar, você já não tava mais aqui. — Fechei os olhos. O silêncio entre nós ficou mais alto que qualquer motor.
— Eu sei. E eu sinto muito. De verdade.
— Eu queria que a gente funcionasse — ela disse, com a voz embargada. — Mas não tem como se reconectar com alguém que já foi embora por dentro. — E desligou.
Fiquei olhando pro celular por alguns segundos, como se ele pudesse me explicar em que curva a gente perdeu o controle. Duas chamadas perdidas. Quatro mensagens não lidas. Todas dela.
Alix
Você vai continuar me ignorando?
A gente não pode tentar mais uma vez?
Você pensou em mim hoje?
Me diz que não acabou de verdade.

Suspirei. Longo. Pesado.
Não era sobre ciúmes. Era sobre ausência. Sobre o que a gente deixou morrer aos poucos e fingiu não ver. Ela nunca quis entender de motores, curvas, classificações. Mas talvez porque eu nunca abri espaço pra ela fazer parte disso.
Deixei o celular de lado. Era mais fácil conversar com um carro do que com alguém que ainda te amava... mesmo quando você já não sabe mais amar de volta.
Fechei os olhos por um instante, e o rosto da atravessou minha cabeça. Concentrada. Em silêncio. Não sorria, não bajulava, não pedia nada. E talvez fosse por isso mesmo que ela me desarmasse tanto.
O quarto estava escuro, o celular jogado de lado e a minha cabeça… um caos.
Como se cada pensamento gritasse mais alto que o motor da Ferrari no modo quali. Me virei na cama, encarei o teto. E, como sempre, minha mente correu pra longe demais.
Coletiva de imprensa – 2022.
Uma sala lotada. Flashs estourando. Repórteres sorrindo demais, bajulando demais.
“Charles, mais uma pole. Três vitórias seguidas. Como você faz isso parecer tão fácil?”
“Trabalho em equipe, muito foco… e talvez um pouquinho de talento.”
Todo mundo riu. Até eu ri. Aplaudiam. Me chamavam de prodígio.
"O príncipe da Ferrari."
Avanço alguns anos.
Coletiva de imprensa – agora.
Cadeiras vazias no fundo. A expressão dos jornalistas era mais curiosa do que entusiasmada.
“Charles, você acha que o problema é o carro… ou você?”
“A gente ainda tá analisando. Não existe só um fator.”
“Mas você tem cometido mais erros. Algum motivo específico?”
“Pergunta seguinte.”
Não riram dessa vez.
Anotaram.
As manchetes no dia seguinte não falavam de estratégia, nem de falha mecânica. Falavam de mim.
“Charles Leclerc vive pior fase na Ferrari.”
“Pressão interna cresce.”
“Estrelismo ou crise de confiança?”

É assim que funcionava. A imprensa te erguia como se você fosse uma estátua… e depois torcia pra ver a queda. Talvez o mais irônico seja que, em nenhum dos dois cenários, eles realmente me conheciam. Nem no auge, nem no fundo do poço.
E o mais triste? Talvez eu também não.
A batida na porta veio seca e insistente. Como tudo naquela manhã.
— Leclerc? Matteo pediu que você vá à sala de estratégia. Agora.
Revirei os olhos antes mesmo de sair da cama. Claro, porque o dia ainda podia piorar.
Me arrastei até o espelho, passei a mão no cabelo só pra tentar parecer minimamente funcional e vesti o moletom da equipe — o zíper já meio emperrado, o emblema começando a apagar. O celular vibrava na cômoda, pulando com tantas notificações que parecia impaciente. Não li nenhuma.
As mensagens da Alix ainda estavam lá. Silenciosas, espaçadas. E eu já tinha passado da fase de responder por obrigação.
Desci com passos firmes, o tipo de andar meio arrastado, meio ensaiado. O tipo que diz: sim, eu tô aqui, e não, não quero conversar. Sabia que estavam me observando, sempre estavam.
Quando entrei na sala de estratégia, três pessoas estavam sentadas à mesa: Matteo, dois engenheiros de dados e ela.
estava sentada com a coluna ereta, a prancheta no colo, a expressão indecifrável. Como se aquilo fosse apenas mais um item da agenda, como se minha presença não significasse absolutamente nada, como se eu fosse invisível.
Me sentei sem dizer uma palavra. Matteo começou o briefing com sua habitual frieza cirúrgica.
— Detectamos instabilidade persistente nas curvas médias desde a última etapa. A telemetria sugere que o problema pode estar relacionado à resposta da suspensão traseira, combinada com a pressão de acoplamento irregular no torque lateral.
Ele virou a tela pra mim. Gráficos coloridos, números em cascata, como uma versão técnica e angustiante de uma obra de arte abstrata. Eu reconhecia o padrão e reconhecia o tom.
encontrou um ponto de desgaste que passou batido nas últimas três revisões. Ela sugeriu um ajuste técnico na flexibilidade do eixo traseiro.
Lancei um olhar breve — e gelado — na direção dela. Ela não se moveu, piscou ou não me deu nem o prazer de parecer desconfortável.
— Encontrou um ponto de desgaste ou… só achou um lugar pra deixar a sua marca pessoal no meu carro? — disparei, a voz baixa, mas cortante.
Dois segundos de silêncio. Matteo pigarreou, um dos engenheiros apertou os lábios. ? Nem uma reação.
— Os dados indicam melhora na estabilidade com o ajuste sugerido. Já aplicamos no simulador, e os resultados foram satisfatórios — Matteo completou, com a objetividade de quem não queria entrar em atrito… mas também não pretendia voltar atrás.
— Ah, claro — ironizei, encostando na cadeira com o corpo tenso. — Se o simulador aprovou, então tá tudo certo. Vamos ignorar os dois anos de sintonia que eu tive com a equipe anterior. Jogar fora. Substituir. Atualizar. Tudo em nome do palpite da novata.
Um dos engenheiros tentou suavizar. A voz veio quase conciliadora:
— Não foi palpite. Ela fez a leitura com base no padrão de desgaste progressivo dos últimos treinos. A análise foi… impressionante, na verdade.
Impressionante.
Claro.
A nova queridinha.
— Tá ótimo — murmurei, me levantando tão rápido que a cadeira quase arranhou o chão. — Quando o carro quebrar na curva cinco, pelo menos a gente já vai saber quem culpar.
Ela não respondeu.
Não justificou.
Não desviou os olhos.
Apenas anotou algo na prancheta, como quem registrava uma observação qualquer. Como se eu fosse só mais uma variável estatística numa planilha e talvez… eu fosse mesmo.
Mas aquilo queimou mais do que deveria.

🏁🛠️


O dia foi um desfibrilador emocional: reunião tensa, treino técnico sem foco, mensagens que não paravam de chegar e um incômodo constante pairando sobre tudo.
O nome e o silêncio dela, o jeito como ninguém se atrevia a defendê-la, ou a enfrentá-la.
Passei pelo box no fim do turno e, claro, lá estava ela. Sozinha, concentrada, com aquela postura que parecia dizer que o resto do mundo era ruído. Trabalhava em silêncio, como se fosse a dona do carro, do meu carro.
Me encostei na bancada, braços cruzados. Olhei por alguns segundos, esperando que ela percebesse, que olhasse, reconhecesse minha presença de algum jeito. Mas não, ela seguia ali. Indiferente. Como se não fosse parte do jogo, ou como se já tivesse vencido.
— Você realmente gosta de fingir que nada te afeta, né? — falei, o tom propositalmente provocativo. — Porque se é uma performance, tá perfeita. Até me convenceu.
Ela não respondeu. Apenas terminou de ajustar o que mexia, girou uma chave com firmeza, e guardou a ferramenta com uma calma quase insultante.
Se virou.
Lenta.
Olhos fixos, expressão controlada.
— Acha que o mundo gira em torno da sua opinião, Leclerc? Parabéns. Descobriu a gravidade.
— Eu só acho curioso como você tem sempre uma resposta pronta… menos quando te desafiam — rebati, sem perder o tom. — Fica calada, finge que tá acima de tudo, mas na real? Tá morrendo de medo de errar.
Ela parou. Respirou fundo e, pela primeira vez, não voltou ao trabalho.
Medo de errar? — repetiu, devagar, como quem digeria uma ofensa antes de triturá-la.
O sorriso que se formou nos lábios dela não tinha humor, e sim raiva e história.
— Você tem ideia do que é trabalhar num lugar onde todo mundo espera que você falhe… só pra confirmar o que já pensam sobre você?
— Seja bem-vinda à Fórmula 1 — respondi, sarcástico. Quis soar cínico, mas ela não deixou.
A voz dela subiu um tom. Não gritou, mas cortou o ar como uma faca afiada.
Não. Bem-vindo ao mundo real, Charles. Onde mulher tem que ser três vezes melhor pra ser tratada como se fosse mediana. Onde você pode jogar um rádio na parede, xingar engenheiro, sair bufando do carro… e no dia seguinte ainda ser chamado de “gênio passional”.
Ela deu um passo à frente. Só um, mas parecia que a sala inteira se inclinava com ela.
— Eu tô nesse box há dois dias e já ouvi mais insinuação nojenta do que você provavelmente ouviu em toda a sua carreira. E sabe o que eu fiz? Nada. Trabalhei em silêncio. Corrigi erros atrás de erros que ninguém viu. Mexi num carro que você não quis tentar entender. Mas você… você acha que tem o direito de me chamar de insegura?
Silêncio. Nem as ferramentas tilintando ao fundo. Nada. Só ela, ali. Respirando com raiva e firme, mas era mais do que raiva, era um tipo de exaustão que vem de uma vida inteira sendo desacreditada.
— Você não me conhece. Não sabe do que eu abri mão. Do que eu tive que engolir pra estar aqui. E, sinceramente? Eu não preciso da sua aprovação.
Ela deu o último passo. Ficou a poucos centímetros de mim. O olhar dela tinha um tipo de fogo que não queimava por fora, mas deixava cinzas por dentro.
— Eu só preciso que o carro não quebre. E ele não vai. Porque você tá nas minhas mãos, Leclerc. Quer goste disso ou não.
Ela se virou e saiu com a mesma precisão com que apertava uma peça no lugar certo: firme, sem olhar pra trás.
E eu? Fiquei ali. Com a última frase dela ecoando na minha cabeça, mais forte que qualquer motor em rotação máxima.
Você está nas minhas mãos. Quer goste disso ou não.
POV


Eu ainda estava com a mão fechada em punho quando entrei no alojamento.
Fechei a porta com um tranco que fez a parede tremer, ou talvez fosse só eu. O corpo inteiro pulsava, os músculos tensionados, o maxilar travado. A briga com Leclerc me assombrava em eco, frase por frase, como um rádio desregulado preso na minha cabeça.
Joguei a mochila no chão, arranquei o zíper do macacão até a cintura e me sentei na beira da cama como se não confiasse mais nas minhas próprias pernas.
— Arrogante, mimado, convencido, estrela de quinta categoria com um ego do tamanho do mundo — murmurei, sozinha, com raiva demais pra pensar direito. — Acha que porque tem um número no carro e gente puxando o saco, pode falar o que quiser com quem quiser.
Meu celular vibrava com alguma notificação qualquer. Ignorei. Em vez disso, desbloqueei e procurei o número do meu irmão.
Julián atendeu no segundo toque, com a respiração acelerada e música eletrônica de fundo.
— ¿Qué pasa? Você tá viva?
— Eu tô puta, preciso desabafar! Quase matei um piloto hoje. Isso conta?
— ...Ah. Leclerc?
— Leclerc.
— Puta merda, o que ele fez?
— O de sempre. Respirou. Olhou pra mim como se eu fosse um erro de digitação. Me desafiou. Me chamou de insegura — respondi, despejando tudo em uma única frase.
— E você?
— Coloquei ele no lugar dele.
— Carajo,
— Alguém precisava dizer. — Julián ficou em silêncio por um momento, e então soltou uma risada baixa.
— Tô orgulhoso. Mas, irmã, respira. Você já ganhou por ter irritado o queridinho da Ferrari em dois dias. Agora foca no carro, ok?
Assenti, mesmo sabendo que ele não podia ver.
— Já tô focando. Te quiero.
— Te quiero más!
Desliguei. Me joguei de costas na cama e encarei o teto por alguns segundos, o coração ainda acelerado.
A voz dele ainda ecoava na minha mente. O olhar de desprezo, a provocação disfarçada de ironia. Mas o que me atingia de verdade era o fato de ele achar que podia me ler. Me reduzir. Me medir por um dia e meio de convivência e um punhado de frases atravessadas.
Eu respirei fundo, mais uma vez. Me levantei.
Caminhei até a bancada improvisada perto da janela. Meus relatórios estavam todos lá. Análises do dia anterior, os dados do simulador, o padrão de torque da curva cinco, os gráficos do desgaste lateral.
Ali estava o que importava. O que eu podia controlar. Peguei a caneta, ajustei a luz da luminária e comecei a trabalhar. O carro ainda precisava de ajustes. E, sinceramente? Eu também, mas um deles eu já tinha resolvido.

🏁🛠️


Cheguei ao box antes do sol subir completamente.
O paddock ainda estava em silêncio. Só o som de alguma empilhadeira ao longe e o farfalhar dos toldos sendo abertos no pit lane. A maioria da equipe ainda nem tinha descido dos alojamentos. E eu? Já estava ali, com o macacão amarrado na cintura, o cabelo preso em um coque prático e os olhos grudados nos dados da noite anterior.
O café da manhã ficou esquecido ao lado do teclado, frio, sem gosto, mas eu nem lembrava de ter fome. As curvas médias continuavam no meu radar. A vibração no eixo traseiro tinha diminuído, mas não desapareceu por completo. Era um alívio, sim, mas também um alerta.
Revisei o gráfico da curva cinco, comparando os tempos entre a entrada e a saída. O delta de tração ainda oscilava um pouco mais do que eu gostaria. Comecei a rabiscar anotações na prancheta, códigos rápidos, pequenas hipóteses. Talvez o problema não estivesse só na estrutura… talvez tivesse a ver com o mapeamento da frenagem. Estava tão concentrada que nem ouvi os passos.
— Você trabalha em silêncio, mas movimenta meio box, . — Levantei os olhos. Matteo Donati. Camisa da equipe impecável, caneta no bolso, e aquele semblante que sempre parecia a ponto de desaprovar alguma coisa.
— Cheguei cedo — falei, simples, voltando o olhar pro monitor.
— Percebi. E agradeci. — Ele se aproximou, analisando por cima do meu ombro. — Isso é do treino de ontem? — Assenti.
— Estou tentando entender por que a vibração não desapareceu por completo. Os sensores ainda registraram instabilidade mínima na volta 17.
— E você já tem hipóteses?
— Três. Nenhuma confirmada. Ainda.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos. Depois soltou, casualmente, ou o mais casual que Matteo conseguia ser:
— Seu relatório de ontem… enviei pra chefia técnica da escuderia.
Meu dedo parou no meio do gráfico.
Pisquei. Uma vez.
Duas.
— Enviou?
— Sim. Eles pediram algo sólido sobre a performance no setor dois, e o seu material estava mais completo do que qualquer outra coisa que recebi ontem. Fui direto ao ponto.
Fiquei quieta.
Assenti com a cabeça, sem soltar um sorriso, sem erguer a voz. Mas por dentro? Por dentro, algo se acendeu, não um alarde, mais como um farol. Brando. Firme. Vermelho. Ferrari.
Era só um relatório, mas era meu. E agora… alguém de cima estava lendo. Voltei os olhos pra tela, ajustando uma linha do gráfico.
— Obrigada — falei, sem levantar o tom. Matteo deu de ombros.
— Continue assim, . Não é sobre provar que sabe. É sobre continuar sabendo.
Ele se afastou, e eu fiquei ali, com as mãos firmes. O olhar afiado e o coração — pela primeira vez desde que cheguei — levemente em paz.
Quase dez minutos depois, um dos mecânicos entrou carregando uma prancheta e um copo de café, com a cara ainda amassada de sono. Era o mesmo que, dois dias antes, tinha feito piada sobre “a estagiária do difusor”.
Ele hesitou ao passar por mim. Parou. Leu meu relatório pela metade do monitor e pigarrou.
… — disse, com o tom estranho de quem tentava soar casual, mas não conseguia esconder o desconforto. — Você acha que a oscilação no torque da curva nove pode estar vindo do mapeamento de frenagem?
Virei devagar, sem pressa ou ironia.
— Não. Pelo tempo de resposta e pelo padrão de vibração, o problema está no acoplamento de suspensão secundária. Mas se quiser, eu te mostro os dados depois.
Ele assentiu. Um aceno curto.
Quase murmurou um “valeu”.
Quase.
Não era exatamente respeito, mas era o começo. Voltei a me concentrar no que estava fazendo, tentando retomar a linha de raciocínio no relatório quando o celular vibrou no bolso do macacão.
Olhei o nome na tela, senti o estômago virar.
Caio.
Atendi no automático, já sabendo que não vinha nada bom.
— ele começou, com aquele tom neutro que ele usava toda vez que queria parecer educado antes de soltar alguma bomba. — Então… sobre o fim de semana. Vai ficar difícil pra eu pegar o . — Fechei os olhos por dois segundos.
— Difícil por quê?
Surgiu um compromisso.
— Compromisso ou balada? — Ele riu. Aquele riso leve, irritante, de quem nunca levava nada a sério.
Não exagera, vai. Eu peguei no último final de semana.
— Sim. Por quatro horas. E ele voltou sem almoçar, Caio.
Olha, eu sei que você tá aí nesse teu trabalho novo, importante, com gente famosa, e deve estar se achando...
— Não termina essa frase — cortei, fria. — Só diz: você vai ou não vai buscar o no sábado?
Não vai dar. Mas no outro a gente combina. Prometo compensar.
— Claro, como da última vez. E da anterior. E da outra também.
, não precisa transformar tudo em briga.
— Não é briga, Caio. É rotina. É você fugindo da responsabilidade como se fosse opcional.
Eu trabalho também, tá? Não é só você que tem uma vida corrida. — Revirei os olhos tão forte que quase vi o céu de Maranello.
— Você posta selfie na academia às onze da manhã e vídeo tomando chopp às cinco. Não me testa. — Silêncio. Curto.
Eu preciso desligar — ele disse, já impaciente. — Fica pra próxima, tá?
A linha caiu. Sem tchau. Sem desculpa.
Fiquei olhando pro celular por um momento, com a respiração presa no peito. estava contando os dias para ver o pai. E, mais uma vez, quem ia inventar uma desculpa boa… era eu.
Suspirei, jogando o celular sobre a bancada com cuidado. Não dava pra quebrar o aparelho, era caro demais pra isso. Mas também não dava pra engolir aquele nó na garganta sem fazer nada.
Respirei fundo, desbloqueei a tela e procurei o número do meu pai. Ele atendeu no segundo toque, como sempre fazia.
Hola! Tá tudo bem?
— Mais ou menos — respondi, sentindo a raiva se transformar em exaustão. — O Caio ligou. Disse que não vai poder pegar o esse fim de semana.
De novo... — ele murmurou do outro lado, com a voz baixa. — O que ele disse agora?
— Que “surgiu um compromisso”. Nem teve coragem de mentir direito.
Esse garoto... , você quer que eu fique com o ? A gente dá um jeito. Eu e sua mãe podemos levar ele no parque, fazer panquecas, essas coisas que ele gosta…
Sorri, mesmo com o peso no peito.
— Não, pai. Eu tô pensando em pegar o trem até Barcelona amanhã à noite. Aproveito o sábado e o domingo com ele. Me organizo por aqui, vou ver com meu chefe.
Você tem certeza? Achei que esse fim de semana era cheio pra você.
— Eu sempre tenho alguma coisa, pai. Sempre está cheio, mas o não pode crescer achando que só sobra tempo pra ele quando tá tudo tranquilo — falei, a voz começando a embargar. — E eu sinto saudade. Do cheiro dele, das perguntas dele, de ver ele dormir no sofá com o carrinho vermelho na mão…
Meu pai ficou em silêncio por um segundo. Depois falou com aquela firmeza doce que só ele tinha:
Então vem. A gente prepara tudo. E se quiser, eu o levo até a estação pra te encontrar.
— Obrigada, pai.
E ?
— Hm?
Você não tá sozinha, tá? Mesmo quando parece. — Fechei os olhos por um instante, só pra segurar.
— Eu sei. — Desliguei com mais calma. Respirei fundo.
Peguei a prancheta de volta e olhei os dados na tela. Nada mais fora do lugar, tudo sob controle. Ou quase. Mas agora… agora eu tinha um plano, e uma promessa para cumprir.

🏁🛠️


O box estava cheio, mas, curiosamente, o silêncio era o que mais pesava. Charles entrou no carro sem olhar pra ninguém. Fez os movimentos de sempre: luvas, cinto, ajuste do rádio. Tudo milimetricamente igual às dezenas de vídeos que eu já tinha visto dele.
Mas ali, a poucos metros… era diferente. Ali, ele era mais do que o rosto das campanhas. Era o piloto real. O que podia sentir na pele — ou nas rodas — tudo que eu mexi.
Ajustei o fone no ouvido, fingindo foco na tela à minha frente, mas a tensão estava cravada nos ombros, nos dedos pressionados contra a borda da mesa. No queixo rígido demais pra quem já tinha revisado aqueles dados três vezes.
— Vai iniciar volta rápida — avisou Matteo, ao meu lado, com a voz baixa.
Engoli em seco e observei. O carro saiu da garagem como uma flecha rubra. Primeiro setor, fluido. Curvas bem encaixadas, frenagem limpa. Segundo setor... o mais importante. O mais frágil. Onde tudo podia dar errado.
Esperei.
A tela piscou. As linhas de torque e pressão mantiveram a curva. Sem picos, sem ruptura.
— Curva cinco estável, sem vibração perceptível — informou um dos engenheiros.
E então, a voz dele no rádio:
O carro tá mais estável no setor dois.
Quase imperceptível, virei o rosto. Matteo me lançou um olhar rápido. Não disse nada, mas a ausência de crítica, vinda dele, já era um elogio. Assenti, uma vez só, sem sorrir. Mas por dentro? Eu senti.
Minutos depois, o carro voltou ao box. Charles tirou o capacete com calma, passou a mão nos cabelos úmidos e pulou pra fora do cockpit com a mesma naturalidade de quem faz isso desde os seis anos.
Caminhou na direção oposta ao meu canto, como se não tivesse visto, mas antes de sair do box, parou. Olhou por cima do ombro.
— Não tá ruim.
Virei devagar, mantendo a expressão neutra. E respondi, com a precisão de uma peça recém-ajustada:
— Ainda não.
Ele assentiu, com um gesto quase imperceptível e seguiu.
E eu?
Voltei a analisar a telemetria. Porque não era sobre um elogio, era sobre o carro. E o carro… estava finalmente começando a falar comigo.

🏁🛠️


O calor dentro da sala técnica era diferente, não vinha do motor, e sim dos olhos. Três engenheiros estavam sentados, acompanhando as imagens do treino que acabara de acontecer. Matteo, em pé ao meu lado, entregou o controle da tela para mim.
, apresenta pra gente o impacto do ajuste. Curva cinco em especial.
Assenti, ajeitando a prancheta contra o antebraço. Cliquei nos gráficos. O painel se acendeu com os dados de telemetria.
— A correção na flexibilidade do eixo reduziu em 38% a oscilação lateral do torque em curvas médias. A rigidez residual foi compensada pela redistribuição de carga no conjunto de suspensão secundária. O resultado foi uma estabilidade superior na transição de frenagem para tração.
Apontei para a linha azul.
— Aqui está a leitura da volta anterior. E aqui, a leitura da volta em que o ajuste foi aplicado. Diferença de 0.271 na saída da curva cinco. Mais controle. Menos ruído de resposta.
Ninguém falou por alguns segundos. O silêncio era quase respeitoso. Charles estava de pé, braços cruzados, encostado na parede do fundo. Observava os gráficos, me observava também.
Não disse nada de imediato. Mas, por fim, soltou:
— Parece que você sabe mesmo o que tá fazendo. — Virei o rosto com calma e o encarei.
Eu sei.
Ele não rebateu, nem sorriu. Só assentiu, quase imperceptível. E isso… foi suficiente.
Mais tarde, já perto do fim do expediente, procurei Matteo. Ele estava revisando anotações no tablet quando me aproximei.
— Matteo? — Ele levantou os olhos.
— Sim?
— Eu preciso conversar com você sobre o fim de semana. — Ele ergueu uma sobrancelha, esperando.
— Eu sei que é primordial que eu esteja aqui no domingo. E estarei. Mas o Caio… o pai do meu filho… ele cancelou a visita. De novo. Eu... — respirei fundo, escolhendo as palavras com cuidado. — Eu queria saber se existe a possibilidade de trazer meu filho comigo. Só por dois dias. Ele ficaria no alojamento comigo, quietinho, sem atrapalhar nada. Juro que vou cuidar pra não interferir em nada.
Matteo me observou por alguns segundos. Longos. Eu já estava pronta pra ouvir um não, mas ele apenas fechou o tablet e disse:
— Você precisa estar no dia da corrida. Isso não muda. Mas quanto ao seu filho... traga-o.
— Sério?
— Se você consegue fazer um carro desse responder como respondeu hoje, tenho certeza que consegue lidar com um garotinho curioso. Não vejo problema.
— Obrigada — falei, aliviada, mas ainda formal. — Desculpa por pedir algo tão pessoal. Eu só...
. — Ele me interrompeu, com um raro tom brando. — Você trabalha com precisão, entrega resultado e é isso que importa. O resto… a gente resolve.
Sorri, pequeno, mas de verdade.
E pela primeira vez desde que pisei ali… Senti que não precisava pedir desculpas por ter uma vida fora dos motores.

🏁🛠️


O box já estava mais silencioso. As ferramentas voltaram para seus lugares.
Os monitores desligados, os dados salvos. E, ainda assim, minha cabeça continuava processando.
Cada clique do torque, linha da suspensão ou palavra não dita.
Caminhei pelo corredor dos alojamentos com os passos mais lentos do dia. Cansaço pendurado nos ombros. Olheiras começando a anunciar que a adrenalina estava baixando.
Mas firme.
Inteira.
Vi alguém vindo na direção contrária, mexendo no zíper do casaco da equipe, os passos leves demais pra quem carregava tanta história nas costas.
Lewis Hamilton.
Ele me viu, e sorriu. Aquele sorriso pequeno, maroto, quase preguiçoso, como se soubesse de um segredo que o resto do mundo ainda não entendeu.
— Você já fez mais barulho aqui em dois dias do que gente que tá há dois anos.
A frase veio como uma piada. Mas o olhar? Carregava respeito. Parei, respirei, e deixei um riso escapar pelo nariz.
— Desculpa se baguncei o silêncio.
— Não peça desculpas. Barulho também move o carro — ele disse, ainda sorrindo.
Assenti, meio sem saber o que dizer, mas por dentro, aquilo bateu diferente. Porque vindo dele… Era como ouvir o som de um motor que você sempre quis escutar de perto.
— Boa noite, .
— Boa noite, Hamilton.
Segui em frente. Os passos ainda cansados, mas com uma leveza nova no peito. Não era todo dia que alguém como ele te reconhecia pelo que você faz e não pelo que esperam que você seja.
Voltei pro alojamento com o corpo pedindo cama e a cabeça ainda ligada no modo estratégia. Tomei um banho rápido, prendi o cabelo com uma presilha qualquer e me joguei na cama com o celular em mãos, os dados da suspensão ainda rodando atrás dos olhos.
Toquei na chamada de vídeo.
Do outro lado, o rostinho mais importante do mundo apareceu.
¡Mamá! disse, com aquele sorrisão de quem já esqueceu qualquer coisa ruim do dia. — Você viu eu e o vovô brincando de corrida hoje? Ele foi o carro azul, eu fui o vermelho!
— Vermelho Ferrari, né? — sorri, já derretendo. — Que nem o da mamãe.
E aí? Seu carro ganhou hoje?
— Ainda não correu, mas… ficou quase tão rápido quanto você. — pisquei. — Isso quer dizer que a mamãe tá indo bem, hein?
Vai ganhar! — ele falou com a certeza de quem nunca duvidou. — E depois vai me dar carona!
— Melhor que isso. Você vai passar o fim de semana comigo aqui no trabalho. — Os olhinhos dele se arregalaram.
Sério?
— Sério. O papai não vai poder te ver dessa vez, então eu pedi permissão e consegui. Ao invés de segunda e terça, vamos ter quatro dias inteiros juntos. Só eu, você, um monte de ferramentas… e um carro de Fórmula 1 bem doido.
Ele abriu um sorriso tão grande que até a tela do celular pareceu acender mais.
Eu vou ver o carro? O vermelho?
— Vai. Vai ver o carro, vai dormir no mesmo lugar que ele, mas só se prometer ficar quietinho e não apertar nenhum botão, tá?
Prometo! — ele gritou, antes de bocejar logo em seguida.
— Te amo até a lua e de volta, meu piloto.
Eu também te amo, mamá.
Desliguei a chamada com aquele som suave de fim de ligação, e eu fiquei ali por um instante, segurando o celular contra o peito.
Era por ele.
Sempre foi.
Peguei a prancheta do lado da cama, com as anotações da telemetria ainda inacabadas, e passei os olhos pelas linhas técnicas. Suspirei, mas não de cansaço e sim de decisão.
Me ajeitei melhor, firmei o olhar nos números, e murmurei, quase como um voto:
— Vou ter que engolir. Um por um.
POV Charles Leclerc


Comecei o dia suando, não porque quis, mas porque precisava. A academia do hotel ainda estava vazia quando cheguei. Os primeiros raios de sol entravam pelas janelas altas, tingindo tudo de um dourado calmo, o tipo de calma que eu não sentia há dias.
Coloquei os fones, escolhi uma playlist aleatória e aumentei o volume no máximo. Subi na esteira e corri. Quilômetro após quilômetro. Como se cada passo fosse capaz de esmagar a irritação que crescia no peito.
Mas não funcionava.
Porque toda vez que meu corpo queria entrar em automático, minha cabeça fazia questão de lembrar. O jeito que ela olhou pra mim. Firme, sem recuar, como se eu não fosse ninguém especial.
Como se eu fosse só mais um problema na prancheta dela. Eu passei a vida sendo observado. Mas ela? Ela olhava como quem dizia “eu não tô aqui pra te agradar”. E isso… isso me desconcertava mais do que eu gostaria de admitir.
Aumentei a velocidade da esteira.
O suor escorria pelo rosto, grudando na camiseta da equipe. Minhas pernas começavam a pesar. Mas a cabeça? Ainda no box. Na frase dela.
"Você está nas minhas mãos. Quer goste disso ou não."
Saí da esteira, respirei fundo e fui direto pras barras.
Treino de força.
Carga alta.
Movimentos precisos.
Se eu focasse só nos músculos, talvez parasse de pensar nela, mas era impossível. Porque ela não se impunha com gritos. Nem com carisma, ela se impunha com silêncio. Com olhar. Com resultados.
E isso me irritava. Porque não era só respeito que ela estava arrancando — era território. Eu puxava o ferro com mais força do que devia, até os braços tremerem.
Tentei me convencer de que era só orgulho ferido, mas era mais do que isso. Era uma curiosidade desconfortável. Ela não se encaixava nas categorias que eu costumava usar, e talvez por isso… eu não soubesse onde colocá-la. Ainda.
Tomei um banho rápido, deixando a água quente cair direto na nuca. Como se pudesse derreter a raiva ali, mas ela não derreteu. Ao sair, ouvi um barulho vindo do quarto. Não esperava ninguém. E, certamente, não esperava ela.
Alix estava encostada na bancada, o celular nas mãos, como se não tivesse acabado de entrar sem pedir.
— Você não parece feliz em me ver — disse, baixo, quase um suspiro.
— Porque eu não esperava você aqui.
— Achei que a gente podia conversar.
— Conversar? Depois de dias sem se falar, você aparece no meu quarto sem avisar? — Ela deu um meio sorriso cansado.
— Vai dizer que não pensou em mim nenhuma vez?
— A gente terminou, Alix.
— Eu sei. — Ela deu de ombros, mas a voz embargou. — Eu só não aprendi a lidar com isso ainda.
Suspirei, esfregando a nuca.
— Então veio aqui pra quê? Pra gente se machucar mais?
— Pra te ver. Pra lembrar que ainda sei quando você tá prestes a desabar. — O olhar dela se estreitou. — E… pra perguntar se essa engenheira nova tem alguma coisa a ver com o jeito que você anda.
— Você não faz ideia do que tá falando.
— Talvez não, mas eu sei de uma coisa que você vai gostar…
Quando as mãos dela tocaram meus ombros, eu não recuei. Pelo contrário. O corpo respondeu antes da cabeça, como sempre. O beijo foi rápido, urgente, e dessa vez eu correspondi sem pensar muito. Talvez porque fosse mais fácil sentir do que pensar.
A gente caiu na cama com pressa, sem medir, sem freio. E no meio do calor, eu deixei acontecer. Cada toque, cada gemido, cada segundo me distraía da bagunça na minha cabeça. Por alguns minutos, parecia bom. Parecia simples. Parecia suficiente.
Mas quando tudo terminou, o silêncio voltou mais pesado do que antes. Ela virou pro lado, como se ainda tivesse espaço ali. Eu fiquei olhando pro teto, com o peito subindo e descendo devagar, e a sensação me atingiu como um acidente em curva seca: não era saudade, não era amor. Era só instinto.
E junto dele, o arrependimento. As rachaduras que acabaram com a gente nunca deixaram de existir — e agora estavam mais visíveis do que nunca. Eu podia até ter cedido no corpo, mas a cabeça sabia a verdade: o que sobrou entre nós era vazio.
Fechei os olhos, mas o sono não veio. Só uma pergunta insistente: por que eu ainda deixava essa porta entreaberta?

🏁🛠️


O box já estava pulsando. Engenheiros andando rápido, Matteo dando instruções, o barulho de parafusadeiras se misturando ao chiado dos pneus frios sendo montados.
Era um sábado comum, ou deveria ser, mas meu olhar foi puxado por uma cena que não combinava com a rotina cronometrada da equipe: uma criança.
Pequeno, devia ter uns quatro anos. Tinha o moletom vermelho da Ferrari amassado nos cotovelos e uma mini prancheta de brinquedo nas mãos. O cabelo castanho cacheado caía desordenado sobre a testa, e os olhos? Os olhos brilhavam.
Ele estava de pé ao lado da , falando baixo, encantado com o carro. Sorri de canto. Pensei que fosse filho de alguém da equipe, mas então ele falou, com toda naturalidade do mundo:
— Mamãe, posso tocar no volante?
Parei.
O sorriso sumiu.
Mamãe.
Ele chamou ela de mamãe.
Demorei um segundo para associar. Não fazia sentido na minha cabeça. A que eu conhecia — ou achava que conhecia — era obstinada, fria, completamente entregue ao trabalho.
E agora… aquilo?
Olhei de novo para o menino. A curvatura do sorriso, o formato dos olhos, até o jeito atento de observar… havia algo ali que lembrava muito a . Era sutil, mas impossível de ignorar. Ela abaixou um pouco pra falar com o menino, apontando alguma coisa no carro. Estava sorrindo. Um sorriso tão leve que parecia quase… improvável vindo dela.
O menino assentiu, animado, e logo depois foi conduzido por uma mulher com uniforme de staff, uma assistente da equipe de apoio que provavelmente tinha recebido instruções claras da própria .
Era óbvio que ela tinha se virado sozinha. Tinha providenciado tudo. Organizado cada detalhe para que o filho ficasse em segurança, mesmo enquanto o mundo ao redor exigia que ela estivesse cem por cento concentrada em sensores, dados e desempenho.
E eu continuei olhando.
Atordoado.
Como se tivesse descoberto uma variável nova que mudava toda a equação.
Esperei alguns minutos, depois me aproximei. Ela estava de pé em frente à bancada, digitando no monitor de análise com a precisão de sempre. Mas as mãos dela… pareciam mais firmes do que nunca.
— Então... — comecei, tentando parecer casual — você tem um filho. — Ela não se virou, nem hesitou.
— Tenho. — Fiquei em silêncio por dois segundos. Depois soltei, sem pensar:
— Não parece.
Dessa vez, ela parou de digitar.
Devagar.
Virou o rosto na minha direção. O olhar era diferente, mais fundo. Mais duro.
— O que exatamente não parece, Leclerc? — a voz dela veio baixa, mas firme. — Que alguém como eu pode ser mãe? Ou que uma mãe pode estar aqui?
— Não foi isso que eu quis dizer — recuei, tentando desfazer o tom.
— Então reformula, porque do jeito que você falou, pareceu exatamente isso.
Engoli seco.
Ela cruzou os braços, como se já tivesse vivido essa conversa mil vezes antes, e soubesse exatamente onde ela ia terminar.
— Você tá surpreso, né? Achou que sabia quem eu era. A engenheira que trabalha em silêncio, que não sorri, ou não erra. Mas eu tenho um filho, Leclerc. Um filho que dorme com um carrinho vermelho na mão e pergunta todo dia quando vai me ver de novo.
, eu só…
— Você só pensou o que todo mundo pensa. Que eu devo ter largado alguma coisa pra estar aqui, que eu não dou conta, ou que tem algo errado comigo.
— Eu não disse isso.
— Mas pensou, tá no seu olhar.
O silêncio entre a gente ficou espesso. Ela soltou um suspiro pesado, e o tom mudou. Menos raiva. Mais verdade.
— Eu não sou uma variável, Leclerc. E o não é um obstáculo, ele é o motivo de tudo.
Fiquei ali. Sem saber o que responder. Porque naquele momento… ela não era só uma engenheira. Ela era mãe e era também profissional. E era as duas coisas com a mesma força.
E isso… isso me desmontou.
Entrei no carro com a cabeça longe do traçado. Ainda conseguia ver os olhos do menino brilhando diante do volante. Ainda ouvia a forma natural como ele a chamou de “mamãe”. Ainda sentia o impacto da resposta dela: "ele é o motivo de tudo."
Tentei sacudir aquilo como se fosse só poeira emocional, mas não era. A tinha me desmontado sem levantar a voz. Sem fazer cena. Apenas sendo tudo o que disseram que ela não podia ser, ali, naquele lugar.
Agora eu precisava focar e entregar, porque no fim das contas, era isso que me restava: ser impecável na pista.
Pisei fundo.
O treino classificatório começou e o carro… respondeu.
Pisei fundo.
As primeiras voltas foram de aquecimento. Levei o carro com cautela, sentindo cada ponto de contato com o asfalto, mas logo, o instinto assumiu o comando.
Na curva três, segurei firme. Na curva quatro, testei o limite de frenagem.
E então veio ela.
Curva cinco.
A mesma que vinha me tirando segundos nas últimas três etapas. A mesma que parecia devorar estabilidade, arrancar a traseira do carro e cuspir o tempo no cronômetro. Mas não hoje.
Hoje, ela veio lisa.
Suave.
Precisa.
Como se, pela primeira vez em muito tempo, o carro estivesse... do meu lado.
Respirei fundo, voltei pros boxes, ouvi a análise, fiz ajustes e voltei pra pista.
A cada volta, o tempo baixava. A cada volta, o carro confirmava o que eu já sabia, mas ainda não queria admitir: acertou.
Do lado de fora, a vi de relance. De pé, ao lado da bancada de análise. Fones no ouvido, prancheta na mão, olhar fixo nos dados. Inabalável.
Ela não me olhou, mas eu sabia que ela sabia.
Última volta.
Tudo encaixado. As engrenagens, os sensores, meu corpo, minha raiva contida. Quando cruzei a linha, o tempo piscou na tela.
P2.
Max na pole, mas eu estava colado. Três décimos.
A equipe comemorou.
Tapas nas costas, sorrisos, anotações frenéticas. E ? Ela só assentiu. Não sorriu, não buscou reconhecimento, só registrou o tempo com a frieza de quem sabia exatamente o que fez, e o que ainda vai fazer. Saí do carro sentindo o suor escorrer pelas costas. Mas o peito? Carregado de outra coisa.
Não era só alívio, ou adrenalina.
Era respeito.
E talvez… um pouco de dívida.

🏁🛠️


Mais tarde, depois da reunião técnica, saí por uns minutos, fingindo que precisava respirar, quando, na verdade, só queria silenciar o mundo por meia hora. E foi aí que vi os dois. , andando com passos curtos, prancheta em uma mão, mochila infantil na outra. E ao lado dela, o garotinho de moletom vermelho e tênis com luzinha nas solas.
Ele pulava a cada três passos, como se o paddock fosse um parque de diversões gigante. Com o suquinho na mão e os olhos escaneando tudo com atenção, parecia em missão secreta.
Não percebi que tinha parado até o menino me ver. Ele me apontou com o canudo ainda na boca, sem filtro algum:
— Você é o cara do carro vermelho! — gritou, orgulhoso da própria descoberta. — Mamãe disse que você grita muito no rádio!
Travei.
Sério, engasguei no ar. parou como se alguém tivesse puxado o freio de mão.
! — ela sussurrou, os olhos arregalados. — Não fala assim com os outros, cariño…
Mas o menino já estava vindo na minha direção. A curiosidade era mais forte que qualquer tentativa materna de controle.
— Você tem botão de turbo? — ele perguntou, agora a dois passos de mim. Pisquei.
— Não exatamente, mas gostaria de ter — respondi, tentando manter a seriedade.
— O carro da mamãe é muito barulhento? — ele encostou no meu braço com a naturalidade de quem não entendia de limites sociais, só de interesse genuíno.
— O carro da sua mãe é uma máquina de precisão. Eu só grito mais.
— Achei que fosse um videogame gigante! — ele disse, já olhando pro meu relógio. — Esse botão é pra lançar banana, igual no Mario Kart?
Tive que rir. Mais do que isso: eu quis rir.
— Não, esse é só pra ver as horas mesmo. Mas se eu tivesse um botão de banana, prometo que usava na largada.
— Mamãe ia descobrir e dizer que é falta de ética. — Ele deu de ombros com a sabedoria de um velho de 70 anos. — Ela é brava com isso.
Olhei pra . Ela estava a dois metros, os braços cruzados, a expressão tensa… Mas os olhos? Estavam cheios de algo que não era raiva, era cuidado, atenção, algo parecido com orgulho.
— Você vai ganhar amanhã? — perguntou. Me abaixei um pouco, ficando na altura dele.
— Vou tentar, mas só se você torcer por mim. — Ele estendeu a mão como se selasse um acordo.
— Só se você parar de gritar no rádio. — Toquei a mão dele, rindo de novo.
— Negócio fechado.
Ele correu de volta pra , satisfeito. E quando ela se virou pra mim, pronta pra se desculpar, eu fui mais rápido:
— Não precisa dizer nada. Ele é ótimo. — Ela hesitou.
— Ele é tudo.
E naquele instante, eu soube. Não era só ela que me desconcertava. Era o mundo inteiro que ela carregava com uma mão, enquanto apertava parafusos com a outra.

🏁🛠️


O despertador tocou antes da luz do sol entrar.
Domingo.
O dia da corrida sempre começava com silêncio, mas não o silêncio calmo, o outro. O carregado. O que vem antes de algo que pôde mudar tudo ou reafirmar o que você já temia.
Me vesti no automático, roupa térmica, tênis, relógio. Me olhei no espelho por um segundo a mais. Não sei se era pra me reconhecer ou pra lembrar que já estive ali antes. Mil vezes.
Mas aquela manhã parecia diferente.
E eu sabia o motivo.
Desci para o paddock mais cedo. Os boxes ainda estavam meio vazios, gente ajustando os últimos detalhes, algumas câmeras espiando comedidas. E foi ali, no canto, encostada em um dos containers, que eu a vi.
.
Ajoelhada no chão, com o joelho apoiado numa toalha dobrada. Colocava fones de ouvido infantis na cabeça do , que tentava fugir das mãos dela como um peixinho escorregadio.
— Você vai usar sim, . Vai ter barulho demais lá embaixo.
— Mas eu quero ouvir o grito do seu carro! — ele protestou, com a convicção de quem já é fã da mãe e da máquina.
Ela riu.
De verdade.
Uma risada leve, desprevenida e bonita.
finalmente cedeu e levantou os braços, permitindo que ela ajustasse os fones. Os cachinhos dele estavam rebeldes, escapando pela lateral do arco, como se tivessem vida própria.
passou a mão com cuidado, ajeitando a franja enroladinha com aquele gesto automático de quem já fez aquilo mil vezes. Depois, beijou o topo da cabeça dele, com um carinho que parecia tão íntimo quanto poderoso.
Aquela cena… A que parecia feita de aço, agora ali, de joelhos diante do filho.
E pela primeira vez, entendi: ela não dividia a vida entre o box e a maternidade, vivia as duas ao mesmo tempo, com a mesma intensidade e firmeza. E isso… Era mais do que qualquer vitória.
Matteo apareceu pouco depois, os passos rápidos, a prancheta sob o braço.
— Último briefing. Setores dois e três estão respondendo bem, mas cuidado na largada. A Red Bull Racing pode jogar o Verstappen pra cima de você logo na primeira curva.
Assenti com a cabeça. Ele falou mais — números, estratégias, combustível — mas parte de mim já tinha saído da sala.
Meu corpo estava ali, mas a cabeça… já estava no cockpit.
Sentei no carro como quem voltava para uma versão de si que só existia ali. Capacete, luvas, rádio no ouvido. Fechei os olhos por um segundo. Só um.
Vi tudo.
Todos.
Jornalistas esperando o erro, engenheiros esperando explicações e torcedores esperando mágica. Vi até , com os braços cruzados, o olhar clínico e um menino de fones gigantes assistindo ao mundo com a inocência de quem ainda achava que tudo terminava bem.
Respirei fundo.
Pisei na embreagem.
Luzes vermelhas e silêncio absoluto.
E então: verde.
A largada foi limpa.
Verstappen tomou a ponta, eu fui atrás. As voltas se sucederam em ritmo alucinante. O rádio falava, mas eu só escutava o motor. O carro respondia.
Na curva cinco — a maldita curva cinco — a traseira se manteve firme. Nada de vibração. Nada de instabilidade. Ela funcionava. O ajuste dela funcionava. No setor dois, a aproximação. No setor três, a tensão. Últimas voltas. Max defendia com agressividade, mas eu conhecia o traçado. Conhecia o carro. E, dessa vez… o carro me conhecia de volta.
Ultrapassei.
Justo na curva cinco.
Justo onde o erro costumava morar.
Pisei fundo na saída, retas finais. O barulho ensurdecedor, bandeira quadriculada. Primeiro lugar. A adrenalina me rasgava por dentro. O suor grudava nas costelas, mas eu só conseguia pensar em uma coisa.
Apertei o botão do rádio.
Bom trabalho. — falei, sem pensar. — O carro estava perfeito.
Silêncio.
E então:
Diz isso pra .
As palavras ainda ecoavam na minha cabeça quando os flashes começaram a disparar. O pódio parecia ainda mais alto naquele dia. Não porque era o topo, mas porque eu sabia exatamente o que me custou chegar ali.
Max em segundo.
Norris em terceiro.
Os três de pé, braços erguidos. Champagne voando, flashs disparando como uma rajada de vento. Gritos da torcida, fogos subindo no céu do circuito. O hino da vitória ecoava, mas eu não conseguia focar no som, só no que havia por trás.
A curva cinco.
O ajuste.
O silêncio dela.
Desci do pódio com o macacão encharcado e o rosto dividido entre exaustão e êxtase. No meio da aglomeração atrás da barreira de seguranças, um rosto conhecido me fez travar o passo. Alix. Não deveria estar ali. Mas estava, com um sorriso que parecia mais um pedido de espaço do que uma celebração, cercada por fotógrafos prontos para capturar qualquer gesto.
— Eu sabia que você ia ganhar… — ela disse, alto o bastante para que todos ouvissem, avançando antes que eu pudesse pensar em recuar. Estendeu os braços e, por reflexo, segurei o troféu mais firme, inclinando o corpo para o lado numa tentativa de evitar o contato.
Não adiantou. Ela se aproximou rápido e puxou meu rosto para um beijo. Foi breve, mas o suficiente para os flashes dispararem em sequência. Um retrato perfeito para os jornais, e o pior retrato possível daquilo que nós éramos agora.
Os aplausos e gritos ao redor eram barulho de fundo. E, enquanto tudo isso acontecia, parte de mim… ainda estava no box.
Assim que desci da área do pódio e consegui escapar da multidão, segurei no braço da Alix, firme, sem dar espaço pra resistência.
— Vem. — minha voz saiu seca, quase dura.
Ela arqueou a sobrancelha, surpresa, mas deixou que eu a conduzisse até um corredor lateral, longe dos fotógrafos e do barulho da celebração. Quando a porta se fechou atrás de nós, o silêncio caiu pesado.
— O que você tá fazendo aqui, Alix? — perguntei, ainda segurando o troféu como se fosse um escudo.
— Vim te ver. Te parabenizar. E porque… — ela respirou fundo, a voz embargada. — Porque eu ainda sinto sua falta, Charles. A gente podia tentar de novo.
Balancei a cabeça, frustrado, sem conseguir esconder a exaustão.
— Não, Alix. A gente já tentou. E não funcionou.
— Mas eu sei que ainda existe algo entre nós. Eu vi como você não me afastou lá fora… — ela deu um passo à frente, buscando o mínimo de abertura. — Só mais uma chance.
— Não. — minha resposta foi firme, sem espaço pra discussão.
Ela desviou o olhar, mordendo o lábio, como quem buscava outra saída.
— Então… talvez a gente não precise de rótulos. Sem compromisso, sem cobrança. Só nós dois, quando você quiser, quando precisar.
Suspirei, fechando os olhos por um instante. A ideia poderia ser tentadora, mas só porque era fácil.
— Você não merece isso. — falei, devagar, olhando direto nos olhos dela. — Eu não vou te usar pra tapar um vazio que eu não sei preencher.
— Não seria usar, Charles. Seria escolha. Minha também. — a voz dela soava quase suplicante.
— Não. — repeti, mais baixo dessa vez. — O que você precisa é se amar mais do que me ama. Se dar mais valor do que dá pra essa ideia de nós dois que já não existe.
O silêncio ficou entre nós, carregado. Ela engoliu em seco, tentando manter a postura, mas os olhos marejados a entregavam.
— Você fala como se fosse tão simples.
— Nunca foi simples. Esse é o problema.
Ela respirou fundo, virou-se sem mais nada dizer, e saiu. A porta se fechou atrás dela com um clique seco.
Fiquei ali, sozinho no corredor, ainda com o troféu na mão e uma sensação amarga no peito. Vencer naquela pista deveria bastar… mas, de repente, tudo parecia menos do que suficiente.

🏁🛠️


Voltei aos bastidores quando a equipe já estava dispersando.
Foi ali que a vi.
.
No canto, encostada perto da bancada de análise, sem prancheta, fone, ou pose. Ela só me olhou por um segundo.
Rápido.
Mas o suficiente pra saber que tinha visto tudo. Me aproximei devagar, ainda com o zumbido da corrida dentro da cabeça. Ela não se mexeu.
— Aquela curva... — comecei, a voz mais baixa do que eu queria admitir. — Foi sua.
Ela ergueu uma sobrancelha, sem ironia.
— Foi do carro. Eu só ouvi o que ele tava dizendo.
Assenti, quase sorrindo.
Olhei pro lado e lá estava ele, o garotinho de fones gigantes, dançando em volta da caixa de ferramentas como se também tivesse vencido.
— Ele tem sorte. — comentei, sem pensar. não hesitou.
— Ele tem mãe.
E aquilo… Aquilo pesou mais que o troféu nas minhas mãos.
POV


A segunda-feira trouxe sol.
O tipo de sol raro, delicado, que parece pedir silêncio, como se até o céu tivesse entendido que era folga.
Estávamos sentados num banco de praça em Maranello. Eu com um sorvete de limão que derretia mais rápido do que dava tempo de saborear. com um de chocolate, metade na boca, metade espalhado pela bochecha e pelo nariz.
— Mamá, se eu colocar um foguete aqui atrás... — ele levantou o carrinho vermelho, sério como um engenheiro em formação — ...ele vai mais rápido que o carro do Leclerc?
Suspirei com um sorrisinho, limpando o chocolate do rosto dele com um guardanapo já encharcado de chocolate.
— Vai sim. Direto pro banco de penalidades da FIA.
Ele gargalhou como se eu fosse a pessoa mais engraçada do planeta, talvez eu fosse, pra ele, era suficiente.
se jogou no gramado logo em seguida, fazendo o carrinho descer por uma rampa improvisada entre dois bancos. Era estranho e bonito vê-lo assim: livre.
Num mundo que não cobrava, que não media, que não comparava.
Eu também estava estranhamente... leve. Sem o macacão, sem dados para revisar, sem vozes no rádio. Vestia uma camiseta folgada, tênis, óculos escuros e aquele sentimento raro de que, por um dia, a vida podia andar devagar.
Mamá! — ele gritou de longe. — Vem brincar comigo!
— Agora?
— Sim! Você nunca brinca no dia da corrida!
Me levantei com uma risada e corri até ele, ignorando o tênis sujo e a calça manchando na grama. Ele me entregou o carrinho com solenidade.
— Você vai ser o carro azul. Mas ele tá com defeito, então não vale usar turbo sem avisar.
— Entendido, engenheiro-chefe.
Nos deitamos de bruços lado a lado, correndo com os carrinhos por cima da grama, desviando de folhas secas como se fossem obstáculos de pista, soltando um “vruuum!” aqui e ali só para rir um do outro. narrava a corrida com sotaque de rádio:
— E ultrapassa todo mundo e... voa!
— Cuidado com a asa traseira! — gritei, fingindo um acidente dramático.
— Mamá, você é muito dramática!
— E você é muito rápido!
Ele se jogou em cima de mim, rindo, e eu o segurei no ar, como fazia quando ele era menor. Já estava pesado, já cansava. Mas o riso dele… O riso dele fazia qualquer peso valer.
Eu ainda ria, deitada na grama, quando senti aquele silêncio estranho se instalar em volta. Não o silêncio natural — o silêncio de gente que não pertencia ao momento.
Levantei o olhar. Saltos baixos, vestido claro, maquiagem impecável. O tipo de mulher que parecia sair de catálogo e nunca de casa sem ensaiar o olhar. Ela me avaliou como quem examinava uma peça de roupa fora do cabide.
— Que cena… adorável — disse, se aproximando. O sorriso era doce, mas os olhos não. — E essa belezinha aqui é...?
— ele respondeu antes de mim, erguendo o carrinho. — Eu sou o filho da .
Ela arqueou as sobrancelhas, agachando-se só o suficiente para parecer delicada.
— Filho da … — repetiu, como se estivesse testando o som da frase. — Que fofo. Eu sou a Alix. Namorada do Charles.
Ah.
Então era ela.
Segurei o carrinho junto com o e estendi a mão, mantendo o sorriso entre os dentes.
. Responsável pelo carro dele.
— E também pela companhia fora das pistas, imagino — retrucou, como quem lançava anzol para ver se fisgava.
— Só pelo que diz respeito ao carro — devolvi, firme.
Ela não pareceu satisfeita com a resposta.
— Vocês estavam se divertindo? — perguntou, o olhar varrendo a grama como se buscasse defeitos invisíveis.
— Um pouco. Minha primeira corrida com vitória no fim de semana. Achei que merecia comemorar fora do box pela primeira vez.
— Claro. Família é tudo, né? — disse, baixando o olhar para . — Mas deve ser difícil conciliar filho, viagens, trabalho em um ambiente tão… masculino.
— Eu chamo isso de especialização. E ele chama de “ver mamãe consertar foguetes”.
assentiu com a seriedade de quem carregava um crachá imaginário.
Mamá é muito boa com o carro do gritalhão. — Ela forçou um riso.
— Imagino. E o pai dele? Também trabalha com carros? Ou você é… casada?
Respirei fundo, pronta para responder, mas foi mais rápido:
Mi papá vem me ver de vez em quando. Mas ele não gosta muito de Fórmula 1. Ele gosta de tirar foto para postar depois.
Engasguei com o ar. O sorriso da Alix vacilou por um segundo antes de se recompor.
— Interessante... — murmurou, como quem saboreava o gosto do veneno.
— O que é interessante, Alix — rebati, cada sílaba afiada — é como algumas perguntas parecem preocupação, mas carregam mais julgamento do que empatia.
O silêncio que se seguiu foi denso, incômodo.
Ela ajeitou a alça do vestido no ombro, recobrando a pose.
— Bem, aproveitem o dia. Só quis cumprimentar. — O sorriso dela foi mais afiado que gentil. — O Charles é importante demais para andar mal acompanhado.
Virou-se e se afastou com passos firmes, como quem saía de cena antes que o aplauso acabasse.
Fiquei ali. Na grama, com meu filho, o carrinho e a sensação de que, mais uma vez, não era a quem estava fora do lugar.
Depois que Alix desapareceu da praça, voltou pra corrida como se nada tivesse acontecido. Como se o mundo ainda fosse simples, e gente estranha fosse só figurante na brincadeira.
Mamá, vamos brincar mais uma vez? Última volta, prometo.
— Última volta de agora ou última volta tipo “corrida com bandeira vermelha”? — perguntei, me jogando de novo na grama.
— Última de verdade. Juro.
Corremos mais uma vez com os carrinhos. Ele narrando como se fosse um comentarista profissional:
toma a frente com o foguete azul! na cola! Quem vai ganhar?!
— Quem vai dormir depois do almoço, isso sim — retruquei, tentando recuperar o fôlego.
Ele se jogou no meu colo, rindo alto. E ali, com a cabeça dele encostada no meu peito e o carrinho ainda nas mãos, eu quis congelar o tempo. Guardar aquilo em algum lugar entre o motor e o coração.

🏁🛠️


Mais tarde naquele mesmo dia, depois de correr na praça, rir até doer o estômago e tomar sorvete como se não houvesse amanhã, peguei minhas coisas no box, chamei um táxi até o aeroporto de Bolonha e embarquei no último voo disponível para Barcelona.
Duas horas e quarenta minutos de avião. Um cochilo quebrado, uma cabeça cheia de dados ainda rodando em segundo plano, e uma saudade apertada que já começava a pesar antes mesmo do pouso.
Cheguei em casa pouco depois das oito da noite. A cidade ainda respirava o fim do dia. As ruas do meu antigo bairro tinham aquele cheiro de padaria misturado com vento salgado do mar. E mesmo depois de tudo — de todas as pistas, boxes e motores — Barcelona ainda me reconhecia. E eu a reconhecia de volta.
Assim que toquei a campainha da casa dos meus pais, ouvi os passos apressados.
— Olha quem chegou! — veio a voz da minha mãe lá de dentro, quente como sempre.
A porta da frente da casa dos meus pais já estava aberta. Como sempre.
O cheiro vinha antes do abraço: arroz fresco, carne grelhada, alguma coisa no forno com queijo derretido.
Ela apareceu com o avental florido e as mãos cheias de farinha. Lucía era baixinha, de cabelo preso num coque frouxo e olhos que enxergavam demais. Me envolveu num abraço forte, daqueles que esmagavam as saudades.
— Finalmente! Já tava achando que esse negócio de carro tinha feito você esquecer da gente.
— Só dos seus horários, mãe. Nunca da comida — respondi, rindo.
Meu pai, Ramón, surgiu logo depois, com as mãos sujas de graxa, o rosto suado e o macacão meio aberto no peito. O mesmo de sempre. Abriu os braços e me apertou com força.
— Minha menina voltou. E venceu. Eu vi. Tava com o cronômetro na mão.
Vi que o carro não vibrava mais na curva cinco. Você mexeu ali, né?
Assenti, rindo.
— Mexi. E o piloto ainda tá tentando entender como.
correu pro avô com o carrinho na mão, e o velho se agachou no chão como se fosse um menino também.
Abuelito, eu gritei "vá mamá" bem forte quando começou. Acha que ajudou?
— Foi o empurrão da vitória — respondeu ele, sério como se estivesse assinando um contrato.
Julián, meu irmão mais novo, apareceu logo em seguida com o mesmo corte de cabelo desalinhado e um moletom do em mãos.
— Ele largou isso no banco de trás — disse, jogando o moletom em cima do sofá. — Vocês correram da polícia ou da Fórmula 1?
— Das duas — respondi. — Mas só uma me paga salário.
O almoço foi caótico e perfeito.
Panelas no centro da mesa, pratos sendo repostos, pedindo “mais batata igual a do tio”, minha mãe se orgulhando da entrevista que tinha visto na TV (“essa menina é minha filha, olha o nome aqui!”), meu pai perguntando de peças, e Julián me dando bronca por não responder as mensagens.
— Como estão as coisas com o carro do Leclerc? — meu pai perguntou, depois da terceira garfada.
— Intensos — respondi, bebendo água. — Ele grita, eu ignoro. Ele grita de novo, eu ajusto o carro. E agora, ele ganha corrida.
— Então ele que te agradeça.
— Nem isso ele sabe fazer direito. Mas tudo bem. O carro falou por mim.
Minha mãe me serviu mais arroz e disse, do jeito dela:
— Vai ter gente que vai olhar pra você com cara feia a vida inteira. Só pra tentar esquecer que você é melhor do que eles.
Fiquei em silêncio por um momento. Não porque duvidei, mas porque me lembrei.
Depois do almoço, brinquei mais um pouco com na sala, ajudei a guardar a louça e preparei a mala com a calma de quem queria adiar. Mas o relógio não adiava por ninguém.
Na hora de ir embora, sentou na escada com a mochila pequena nas costas e o carrinho vermelho nas mãos.
— Você vai viajar de novo? — Ajoelhei na frente dele, segurando as alças da mochila.
— Vou. Pro Japão agora.
— É muito longe?
— É. Mas é só uma semaninha. Segunda-feira que vem eu tô aqui de novo, prometo. — Ele fez bico.
— Mas sem foguetão dessa vez? Só você?
— Só eu. Você vai ficar com a vovó, o vovô e o tio Julián. E eu vou te ligar todo dia. De manhã, de noite, até se você não quiser.
— Eu sempre quero. — Me abraçou com força. E dessa vez, eu apertei ainda mais.
— E traz um presente legal. Eu ainda tô pensando o que eu quero…
— Vou ver o que posso fazer — sussurrei, com a voz já apertada.
Antes de sair, minha mãe me entregou um potinho com pão doce e disse pra eu não esquecer quem me ensinou a desmontar uma embreagem e a aguentar gente grossa.
Sorri. Abracei cada um.
E quando a porta do carro se fechou atrás de mim, com a mala no porta-malas do aplicativo e o acenando da varanda com o carrinho vermelho na mão, eu segurei o choro como quem segurava o volante numa curva molhada.
O motorista perguntou se o ar-condicionado estava bom. Assenti com um sorriso vazio. Nem lembro se respondi em voz alta.
Encostei a cabeça no vidro da janela e deixei Barcelona passar por mim como se o mundo tivesse diminuído a velocidade só pra me despedir.
“Vai doer sempre assim?”, pensei.
Talvez.
Mas o carro seguiu. O aeroporto me esperava. O Japão também.
E lá no fundo, eu sabia:
O carro… já sentia minha falta.

🏁🛠️


O paddock em Suzuka era organizado demais. Quase desconfortável pra quem cresceu entre bancadas improvisadas e graxa no tênis.
Mas ali estava eu, no Japão. Segunda etapa da temporada. Com jet lag nos olhos e relatório técnico na ponta da língua.
Já passava das dez da manhã quando finalizei os ajustes no mapeamento O calor era úmido, denso, e o box parecia uma estufa de tensão — do tipo que antecedia tempestade ou largada. Trabalhava em silêncio, com os olhos na suspensão dianteira e a mente lutando para não fugir até Barcelona.
.
A voz me puxou de volta. Levantei o rosto.
Charles.
Macacão aberto na cintura, cabelos bagunçados, a expressão menos dura do que de costume.
— Oi — respondi, sem largar a peça nas mãos.
Ele se apoiou de leve na bancada, como quem não tinha pressa.
— Seu filho, o … ele é esperto. Acho que gostei dele mais do que ele gostou de mim.
Um canto do meu lábio cedeu.
— Ele gostou, sim. Só não é muito fã de gritos no rádio.
Charles riu, baixo, abafado pelo som metálico do box. E por um segundo, a tensão quase se dissolveu.
Quase.
Meu bolso vibrou. Uma notificação. Outra. Depois, a tela acendeu em insistência.
Caio.
Revirei os olhos antes mesmo de atender.
— Preciso atender essa — avisei, já me afastando alguns passos, sem esperar resposta.
Apertei o verde na tela e levei o celular ao ouvido, a voz contida, calculada:
— O que foi agora?
, então... sobre o fim de semana. Não vou poder pegar o de novo. Surgiu uma viagem a trabalho, e...
— Você tá de brincadeira comigo? — interrompi, a voz mais alta do que pretendia.
Charles levantou os olhos do chão, atento. Eu me virei de costas, tentando conter o sangue fervendo.
— Já é a segunda vez em duas semanas, Caio! Eu atravessei meio planeta com o coração na mão achando que ele estava seguro com você. E agora vem com isso?
Eu disse que ia tentar — ele respondeu, com a velha calma irresponsável de sempre. — Mas talvez no domingo eu consiga passar lá. Uns dias depois, sei lá...
Fechei os olhos, respirei fundo e soltei:
— Você não tem a menor ideia do que é responsabilidade. Você só aparece quando convém. E quando some, quem segura tudo sou eu. Sempre fui eu. Não me liga mais pra “tentar”, Caio. Me liga quando tiver certeza.
Desliguei antes que ele pudesse retrucar.
Fiquei ali, respirando fundo, mãos nos quadris, olhos no chão. O ar parecia mais denso de repente. Mais quente.
Ou talvez fosse só a vergonha de ter explodido com plateia. Me virei, e Charles ainda estava parado no mesmo lugar. Não disse nada.
— Era o pai do — soltei, antes que ele pudesse perguntar. — Ele sempre diz que vai buscar, sempre some na última hora, sempre tem uma desculpa pronta. A novidade é nenhuma.
Ele assentiu, devagar, respeitando o espaço, mas os olhos diziam mais. Talvez algo entre empatia e... surpresa.
— Eu... não sabia que você segurava isso tudo.
— Não espero que saiba — respondi, voltando a ajustar a cinta da bancada. — Não conto pra todo mundo. Mas... acho que você viu o suficiente.
Charles deu dois passos pra frente, como se fosse dizer algo, mas parou.
— Se precisar de ajuda... sei lá. Com o aqui ou... sei que não é meu lugar. Só queria dizer que...
— Que grita, mas escuta — completei, levantando o olhar pra ele.
Ele sorriu, breve. Quase tímido.
— Isso aí.
Nos encaramos por um instante. Longo o bastante para parecer alguma coisa. Curto o suficiente pra não virar nada.
Depois ele saiu.
E eu voltei ao trabalho. Com o carro à minha frente, as ferramentas na mão...
e uma bagunça emocional tentando não gritar mais alto do que o rádio.
O resto do dia me engoliu como só a rotina de paddock sabia fazer. Treinos livres, reunião técnica, atualização dos sensores. O carro número 16 foi desmontado, analisado, reconstruído peça por peça.
E eu estava lá. Em cada torque, cada dado, cada ruído que só eu parecia ouvir no meio do barulho.
Mesmo com a cabeça em Barcelona, com a voz do Caio ainda ecoando no ouvido, com Charles surgindo e sumindo feito uma dúvida mal resolvida — eu mantinha o foco. Porque isso, ali na minha frente, era o que eu podia controlar.
— chamou Matteo no rádio. — Estamos prontos para o teste de pista. Última volta antes da revisão de mapa.
— Entendido — respondi, ajeitando os fones e checando os dados no monitor.
Do meu ponto de visão, vi Charles se aproximando do carro. Macacão fechado, expressão neutra, mas havia algo diferente na forma como ele olhava o cockpit.
Como se agora soubesse que havia mais do que porcas e parafusos por trás daquela máquina.
Ele entrou. Fechamos o halo e a pista foi liberada.
O rádio chiou:
— Leclerc no traçado. Setor um em progresso.
Acompanhei os gráficos na tela com os olhos semicerrados. A suspensão traseira estava respondendo com perfeição. A distribuição de peso… equilibrada. Curvas médias? Lisas. Limpas. Rente ao traçado como nunca.
A telemetria falava o que ele talvez não dissesse em voz alta.
— Setor dois limpo. Estabilidade perfeita.
— Torque ideal na curva oito — informou outro engenheiro ao meu lado.
Charles soltou, quase casual:
O carro tá… leve. Preciso. Tá bom.
Silêncio no box.
Depois:
Pode avisar a . Ela acertou de novo.
Eu não sorri. Só balancei a cabeça, como quem marcava mais um ponto na conta de quem já cansou de provar o próprio valor.
— Preparem o carro para o segundo stint — avisei, profissional até a raiz. — E atualizem o mapa da curva onze. Ainda tem margem ali.
Mais tarde, enquanto desmontava o setor frontal com as luvas encharcadas de suor, ouvi alguém atrás de mim comentar:
— Engraçado como ela não comemora nunca. Nem parece que tá fazendo milagre.
Não respondi.
Milagre era quando alguém acreditava que você não conseguia — e mesmo assim, você vai lá e faz. Eu não comemoro milagre, só continuo entregando.

🏁🛠️

O hotel era silencioso demais.
O tipo de silêncio que só aparecia quando o corpo estava exausto, mas a cabeça ainda corria. Fechei o notebook depois de revisar os últimos ajustes. As anotações estavam todas organizadas, os mapas atualizados, o carro... pronto. Pelo menos por fora.
Mas por dentro?
Sentei na cama com as pernas cruzadas, o cabelo ainda úmido do banho e o celular entre as mãos, já discando no automático.
Videochamada
P
Papai 💛
Chamando agora...

A tela acendeu com o rostinho dele iluminado pelo abajur da casa dos meus pais.
Mamá!
— Mi amor.
A voz dele era um cobertor quente.
— Como foi o dia aí?
Legal. O abuelito me ensinou a usar a chave de fenda. E eu montei um foguete de papel. Mas ele não voou muito... só caiu no pé da abuelita.
— Ai, meu Deus. Ela ficou brava?
Não. Só falou "ai, ". Igual você. — Sorri. Baixinho. Daqueles sorrisos que só ele arrancava de mim.
— Agora me diz… você já pensou no que quer de presente?
Ele ficou em silêncio por um instante. Um daqueles silêncios cheios de ideias.
Mas não pode ser carro de verdade, né?
— Não. Ainda não tenho permissão da FIA para isso.
Então... um robozinho. Daqueles que andam, falam e dançam igual o do vídeo.
— Um robozinho?
Com luz no olho! — Ri, cobrindo a boca.
— Tá bom. Um robozinho com luz no olho. Vou dar um jeito de encontrar um no Japão.
Você é a melhor mamá do mundo.
— E você é o melhor pedacinho dele. — Ficamos alguns segundos em silêncio, só ouvindo a respiração um do outro. — Dorme bem, tá?
Você também. Boa corrida, mamãe.
— Te amo até a lua e de volta.
E mais um pouco.
Desliguei devagar. Deixei o celular ao lado da cama e encarei o teto do quarto escuro.
Amanhã era dia de corrida e o carro estava pronto, eu também, mas do meu jeito. Com tudo o que me faltava… e tudo o que me movia.


POV Charles Leclerc


Acordei antes do despertador. De novo. O teto do quarto do hotel me encarava como se soubesse que eu estava fingindo estar em paz.
Respirei fundo. O corpo ainda. A cabeça, não.
Passei a mão no rosto, tentando espantar o cansaço que nem devia estar ali — dormi cedo, comi direito, fiz tudo que um piloto de elite faz antes do dia da corrida. Mas, ainda assim, algo estava desalinhado. Como uma peça minúscula fora do lugar que faz o carro inteiro vibrar.
Me vesti em silêncio. Moletom da equipe, tênis, fone no ouvido com uma música instrumental que não ajudava em nada. Desci pro café, dei bom dia que não veio do estômago, e me sentei na mesa de sempre. Frutas, proteína, café preto.
Tudo no mesmo lugar, tudo no piloto automático.
Mas eu não estava no mesmo lugar.
Pensei na .
Na forma como ela explodiu dois dias atrás, com o telefone na mão e a voz embargada, falando com o pai do filho. Na forma como ela voltou pro trabalho no minuto seguinte, como se não tivesse rachado por dentro. Como se juntar os pedaços fosse mais uma tarefa na lista do dia.
Eu não sei por que aquilo não saiu da minha cabeça. Talvez porque me deu raiva. Ou talvez porque… não era sobre ela. Era sobre mim. Sobre o fato de que, mesmo trabalhando com ela tão de perto, eu não sabia nada além do nome.
. Engenheira. Mãe. Coração blindado. E, por algum motivo que eu não queria investigar agora, isso me incomodava.
Peguei o celular. Nenhuma mensagem nova. Ótimo. Abri o grupo técnico da equipe e digitei:
"Estarei nos boxes mais cedo. Quero revisar a curva 9 antes do primeiro stint."
Mensagem enviada. Lida segundos depois.
Fechei o celular, deixei o café pela metade, e levantei com aquela sensação familiar de que o dia seria longo, e que eu precisava vencer mais do que uma corrida.
Enquanto atravessava o saguão do hotel, pensei: hoje é dia de correr. E, com sorte… de esquecer. O paddock já respirava velocidade.
Caminhei entre os containers e tendas como sempre fazia: passos firmes, olhar focado, expressão que ninguém ousava atravessar. Mas, por dentro, tudo estava mais barulhento do que deveria.
Cumprimentei dois engenheiros com um aceno rápido e segui para o box. O ambiente ali dentro era mais leve do que o de costume — talvez pela vitória na última corrida, talvez porque Lewis parecia invencível de novo. As pessoas relaxavam quando sabiam quem ia vencer.
Mas eu não.
Não depois de sábado.
P2. De novo.
Olhei para a tela com os dados ainda fixos na classificação:
Lewis em P1.
Eu em P2.
Max em P3.
Como um padrão que se repete e arranha por dentro.
Passei os olhos pelo box e a vi. . De pé ao lado do Matteo, prancheta em mãos, concentrada em algo que parecia mais importante do que o mundo. Ela falava pouco. Anotava muito. Checava os dados com os olhos e com o corpo — como se respirasse o carro. Como se escutasse algo que ninguém mais ouvia.
Ela não me viu ou fingiu que não me viu, mas meu olhar ficou nela por mais tempo do que deveria.
E eu soube.
Ela estava sendo impecável e aquilo me irritava mais do que eu gostaria de admitir.
Não pelos resultados, ela era, com folga, a engenheira mais precisa que passou pelo meu carro nos últimos dois anos. Mas porque… ela fazia parecer fácil. Como se manter tudo funcionando fosse só questão de atenção. Como se segurar o próprio mundo nas costas não exigisse esforço.
Respirei fundo.
Revisei a estratégia pré-corrida. De novo. Fui até minha bancada e abri o tablet com os gráficos dela — as sugestões, os mapas de torque, os ajustes de telemetria. Tudo certo, tudo técnico. E, pior, tudo eficiente.
Não tinha o que criticar.
Fechei o tablet. Passei pelas ferramentas. Por ela.
Não falei nada.
Ela também não.
Fui até a sala de concentração. A porta fechou atrás de mim com um baque seco, abafando o resto do mundo. Entrei no modo piloto.
Porque era domingo e, no domingo, eu não pensava em mais nada.
Só que, naquele dia, eu pensei…

🏁🛠️


Suzuka.
As luzes do grid apagaram e, por um segundo, tudo ficou em branco. Depois, foi barulho. Foi corpo. Foi instinto.
Arranquei bem. Segui colado no rastro do carro do Lewis desde a primeira curva, tentando forçar um erro, uma brecha, um centímetro de hesitação.
Mas ele não cedia. Nenhum dos dois cedia. Max vinha atrás, como uma sombra agressiva e impaciente, mas, por enquanto, era entre eu e Lewis.
Volta 3.
Volta 6.
Volta 9.
No rádio, a voz. Aquela voz. Reta, limpa, exata:
"Curva 9 está perfeita. Leitura limpa."
Não disseram o nome dela, mas eu soube.
Ajuste de suspensão, torque lateral. Pressão de acoplamento. O toque dela. O trabalho dela. A resposta saiu quase automática, seca:
"Carro responde bem."
E era verdade.
O carro estava firme. Preciso. Como não ficava há tempos. As curvas médias, antes instáveis, agora fluíam com naturalidade, era como correr sobre trilhos. Quase.
Mas quase… não é o suficiente.
Voltas finais. Pneu médio. A asa traseira de Lewis ainda à minha frente. Tentei uma aproximação na chicane. Não deu. Tentei outra na curva Spoon. Também não. Ele segurava tudo com a frieza de quem já correu com o mundo nas costas — e venceu.
Quando cruzei a linha de chegada, o P2 piscando no painel foi como um soco no estômago. Soltei o volante devagar, a respiração presa na garganta. As mãos firmes, mas o peito… vazio.
No rádio, a voz da equipe:
"Boa prova. Limpa. Sólida."
Silêncio.
Depois:
"...o carro tava no ponto."
Mais um segundo de silêncio. Então acrescentei, com a voz baixa, sem pensar:
"Diz isso pra ."
E fechei os olhos.
Não era sobre a curva, nem sobre o carro. Era sobre ela estar certa, mais uma vez.
A cerimônia foi como todas as outras. Flashs. Mãos erguidas. Garrafas de champagne estourando antes mesmo do hino acabar. Lewis comemorava com classe. Sempre soube como fazer isso. Max forçou um sorriso, o tipo que não alcançava os olhos. E eu?
Sorri também, mas sem alma. Sem peso real. Como quem treinava o rosto para parecer inteiro mesmo quando sabe que alguma coisa trincou por dentro.
— Parabéns, Lewis. — falei, com um aperto de mão firme, ainda sob os aplausos.
— Vocês estavam colados. Foi uma bela corrida. — ele respondeu com um sorriso verdadeiro. — Ainda bem que eu dormi bem essa noite.
Max bufou ao lado, tirando o boné com certo exagero teatral.
— Duas corridas seguidas perdendo pra Ferrari. — comentou, com o tom carregado de provocação leve. — Não vai ter uma terceira.
— Pode tentar. — respondi, sem conseguir tirar o gosto de quase da boca.
— Tentar? Leclerc, você já corre como se estivesse devendo vitória pra alguém.
Ri de canto, por instinto. Mas não era riso, era só sobrevivência. Max se afastou para as fotos. Lewis foi cercado pelos repórteres. E eu fiquei ali, com o troféu na mão e um nome martelando na cabeça.
.
A medalha de prata pesava no peito, mas o que pesava mais era a sensação de que… de novo, não bastou.
Alix apareceu no instante em que o protocolo terminou. Surgiu como sempre surgia: impecável, segura de si, perfeita para a foto. Me puxou pela gola do macacão, beijou meu rosto e virou-se para os fotógrafos com a postura de quem entendia o show.
Eu a segurei pela cintura. Mecânico. Ensaísta. Vazio.
E ali, com o barulho ao redor, a música ainda ecoando e o gosto metálico da corrida na boca, eu soube. Não tava funcionando. Não nós dois, não esse teatro em que ela fingia que ainda fazia parte do meu mundo e eu fingia que não me importava com o incômodo disso.
Depois do pódio, fui direto pro motorhome. Tirei o macacão até a cintura, lavei o rosto na pia gelada e encarei o espelho. O reflexo parecia cansado demais pra ter acabado de conquistar um segundo lugar. Tomei um gole longo de água e encostei na bancada.
E, como um eco que me atravessou sem pedir licença, veio a frase: “Você está nas minhas mãos. Quer goste disso ou não.”
.
Na curva 9.
No rádio.
Na cabeça.
Sorri. Pequeno. Quase imperceptível. E foi aí que a porta se abriu.
Alix.
O salto firme no piso, as taças de champanhe nas mãos, o perfume forte, o olhar cheio de significado.
— Vai me dizer que nem um brindezinho você vai me dar? — perguntou, depositando as taças na bancada. — Você ficou lindo nas fotos. A imprensa tá babando. “Charles Leclerc ao lado da namorada deslumbrante.” — Fez aspas com os dedos e sorriu, satisfeita. — Fecha o ciclo da Ferrari com perfeição.
Suspirei.
— Alix, o que você tá fazendo aqui? — Ela piscou, confusa, como se a pergunta não fizesse sentido.
— O quê? Eu vim te ver. Pra te apoiar.
— Eu pedi pra você não vir mais ao paddock. — Minha voz saiu firme, sem margem pra mal-entendido. — A gente não tá junto, Alix. E eu não quero mais esse tipo de confusão.
O sorriso dela murchou, mas não a postura.
— Confusão? Eu apareço pra te parabenizar e isso é confusão? — Ela deu um passo à frente. — Eu estive com você em tudo. Quando ninguém acreditava, quando você era só o garoto promissor de Mônaco. E agora eu sou o quê? Um problema de imagem?
— Eu tô dizendo que acabou. — Olhei nos olhos dela, firme. — Eu não quero mais você aqui. Nem nas corridas, nem nos bastidores. Isso precisa parar.
O riso que ela soltou foi baixo, incrédulo, quase histérico.
— Você acha mesmo que pode me desligar assim, Charles? Como se eu fosse só mais um acessório do carro?
— Eu não acho. Eu decidi. — Cruzei os braços. — Você não faz mais parte da minha vida. E eu não vou mais admitir que apareça como se fizesse.
Ela respirou fundo, o orgulho tentando conter o tremor da voz.
— Então é isso? Você vai fingir que eu nunca existi?
— Não. Eu só não vou fingir que ainda existe “a gente”. — Os olhos dela brilharam, não de ternura, mas de raiva.
— É por causa dela, né?
Travei.
— Quê?
— Da engenheira. A . — A voz dela endureceu. — Eu sabia que isso ia acontecer. Desde o dia em que vi o jeito que você olhava pra ela.
— Alix, isso não tem nada a ver.
— Tem, sim! — cortou, agora gritando. — Você acha que eu sou idiota? Eu vejo o jeito como você fica quando ela tá por perto. O respeito. A tensão. O silêncio. Você nunca me olhou assim!
— Eu não vou discutir isso.
— Claro que não. Porque é verdade! — Ela riu, amarga. — Você tá apaixonado por ela.
— Eu não tô apaixonado por ninguém. — Falei mais baixo, mas firme. — Só quero paz. E você precisa entender que o que existiu entre nós... acabou.
Ela ficou me olhando por alguns segundos, como se procurasse um traço de dúvida em mim. Não encontrou.
— Você vai se arrepender. — A voz dela tremia agora, entre o orgulho e o ressentimento. — Eu sempre soube que você era bom demais pra ser de alguém por inteiro.
Pegou a bolsa da poltrona, os dedos trêmulos, e abriu a porta com força.
— Boa sorte com a sua engenheira — disse por fim, cuspindo a palavra como ofensa. — Ela vai precisar ter o dobro de paciência que eu tive.
A porta bateu com força. O som ecoou pelo motorhome.
Fiquei parado, por alguns segundos, com o peito apertado e o barulho do paddock distante. O silêncio que restou não era o de fim de discussão — era o som exato de um ciclo se encerrando.
E ainda assim, por baixo de toda a exaustão, algo ecoava como um sussurro incômodo: você está apaixonado por ela.
Neguei, baixinho, mas o coração não acreditou.
Lembrei dos olhos da sobre os gráficos. Da firmeza da voz dela no box. Da forma como ela não abaixava a cabeça — nem mesmo quando tudo dizia pra ela se calar. Do , com o carrinho vermelho na mão e aquela frase que me desarmou no meio de tudo:
Mamãe disse que você grita muito no rádio.
Eu ri. Lembrei disso agora, e ri de novo, sem querer.
Mas então sacudi a cabeça.
Não, pelo amor de Deus, isso é loucura. É coisa da Alix. Paranoia, ciúme mal resolvido. Ela quis atacar onde doía. Só isso.
Peguei a garrafa de água e bebi como quem tentava afogar um pensamento. Mas o pensamento… não afundou.
Voltei a ouvir o barulho dos flashes, da cerimônia, da multidão lá fora.
E, no meio do ruído todo, o nome dela ficou.
Preso.
Firme.
.

🏁🛠️


Já era noite em Suzuka. O paddock, antes barulhento e fervilhando, agora parecia respirar devagar, como um animal cansado. Eu caminhava sem rumo definido, com o zumbido da corrida ainda ressoando nos ouvidos.
Foi aí que ouvi.
A voz da , baixa, mas firme, do outro lado de uma pilastra, conversando com alguém da equipe de logística.
— É um robozinho pequeno, com luz no olho… é o que ele viu no vídeo. Eu só queria trazer igual. Mas se não der tempo de passar na loja…
Ela estava ansiosa. Aquilo me surpreendeu.
. A mulher que desmontava um eixo sob pressão como se estivesse organizando um fichário. Que lidava com comentários machistas sem perder o ritmo das mãos. E ali… insegura por causa de um brinquedo.
Hesitei. Depois me aproximei devagar.
— É um robô pro ? — Ela virou na mesma hora, ligeiramente tensa, mas não surpresa.
— Você estava ouvindo?
— Sem querer. Ou… mais ou menos.
— Eu vou fingir que acredito.
— Quer ajuda? — Ela arqueou uma sobrancelha.
— Para comprar um brinquedo no Japão?
— Você já ajustou minha curva nove. Acho justo eu retribuir com um robô de luz no olho.
Ela encarou por um segundo, tentando entender se era ironia ou gentileza genuína. Talvez fosse os dois.
— Certo. Mas se ele vier dançando, o crédito é todo seu.
— Justo.
Saímos do paddock poucos minutos depois. Eu com um boné puxado até a sobrancelha e um moletom com o capuz levantado. Ela prendeu o cabelo em um coque improvisado e trocou o uniforme por uma jaqueta leve e calça jeans.
Ninguém nos reconheceu.
As luzes da cidade dançavam nos vidros das vitrines e no asfalto ainda úmido. O Japão à noite era outro mundo — calmo, limpo, quase silencioso. Caminhamos por ruas estreitas cheias de lojinhas e placas coloridas, enquanto a ia olhando vitrines com os olhos de alguém que queria acertar.
— Quantas vezes você já esteve aqui? — ela perguntou, sem me encarar diretamente.
— Algumas. Corridas, eventos… nunca por muito tempo. Mas eu gosto daqui.
— Dá pra sentir. — Ela parou em frente a uma vitrine e sorriu. — É tipo o oposto do paddock. Aqui ninguém precisa provar nada.
Entramos em uma das lojas. Pequena, abarrotada de brinquedos e bonecos eletrônicos com olhos que acendiam em azul, verde e vermelho. Levamos uns bons dez minutos até que ela, finalmente, apontou com o dedo e os olhos brilhando.
— É ele! É esse! Olha, o olho pisca igualzinho ao vídeo!
Ela deu dois pulinhos curtos, quase imperceptíveis, mas que me fizeram sorrir como um idiota. Pegou o robô com o maior cuidado do mundo, como se fosse feito de cristal, e se virou pra mim com aquele mesmo brilho nos olhos:
— Será que ele vai gostar?
— Vai amar. — respondi sem hesitar. — Você comprou o robô. Mas vai entregar o mundo pra ele.
Ela ficou em silêncio por alguns segundos, segurando a caixa com as duas mãos.
— Obrigada por isso.
— Não fiz nada demais.
— Fez sim. Você me ajudou a presentear a pessoa mais importante da minha vida.
— E agora?
Ela olhou ao redor, depois pra mim.
Sorriu.
Um sorriso de verdade. Um daqueles que vem quando a cabeça ainda está tentando entender o que o coração já sentiu.
— Agora... agora eu só espero que ele durma com esse robô abraçado.
— E se ele não dormir?
— Bom… — ela deu de ombros, andando à frente com a caixa nos braços — Aí o Charles Leclerc vai ter que descobrir como consertar um robô quebrado por excesso de amor.
Eu ri.
E não percebi que tinha parado de pensar no pódio, na equipe, no que Alix disse. Por uma noite, o mundo parecia mais simples e ela... mais próxima.

🏁🛠️


Mais tarde, já de volta ao motorhome da equipe, me juntei ao lounge com alguns rostos familiares.
Daniel, o piloto reserva da Red Bull, estava jogado numa das poltronas como se tivesse corrido duas provas seguidas. O fisioterapeuta da equipe revisava um relatório no tablet sem realmente ler, e o Pierre Gasly apareceu com uma latinha de energético, rindo de algo que eu perdi no começo.
— Mano, aquela curva 11 quase me jogou na caixa de brita — comentou Daniel, já gesticulando. — Achei que fosse terminar a corrida em Tóquio central.
— Foi a mesma que o Max quase perdeu o carro ontem, não foi? — Pierre perguntou.
— Sim! Ele tava tipo "não, eu controlo tudo", e de repente o carro tava sambando — riu o fisioterapeuta.
Todo mundo gargalhou. Eu também, um pouco. Mas por dentro… eu ainda estava em outra pista.
Até que o assunto mudou. E ficou… mais próximo.
— Aliás — comentou Daniel, como quem jogava algo aleatório no ar — vocês viram a engenheira nova da Ferrari? ? Trabalhou com os protótipos antes.
O fisioterapeuta assentiu, mexendo no tablet.
— Vi, sim. Discreta, mas afiada. Dizem que foi ela que fez os ajustes do carro do Charles.
Fingi que não ouvi, continuei bebendo água, devagar. Nem ergui os olhos. Mas claro que eles não iam parar ali.
— E como ela é, Charles? — perguntou Pierre, com aquele sorriso que sempre vinha antes de provocação.
Demorei um segundo antes de responder. Mas respondi.
— Perfeccionista. Discreta. Técnica. — Respirei fundo. — Modesta também. Nunca assume o crédito. Mas… ela entende o carro. De verdade. Você fala e ela já está dois passos à frente.
Pierre me olhou de lado, divertido.
— Competente… e bonita, vai. Aquela calma dela tem alguma coisa.
— Ela tem cara de quem desmonta um motor inteiro e ainda te dá um fora educado — emendou Daniel, rindo.
Deixei escapar um sorriso de canto, mas não comentei nada. Encostei o copo na mesa, me recostei no sofá e deixei o nome dela rodar pela minha cabeça mais tempo do que gostaria.
. .
Bonita, nunca pensei nela assim, não com esse adjetivo primeiro.
Mas agora que falaram...
Me veio o cabelo cacheado preso com pressa, o rosto suado sob o boné da equipe, a expressão concentrada no box. Pensei nas mãos dela — ágeis, firmes, sem hesitação. No jeito como ela me enfrentou naquela noite no box, sem abaixar o olhar nem por um segundo.
E no outro lado dela. A que falou do robozinho, que sorriu com os olhos. Que pulou de leve quando encontrou o brinquedo na prateleira da loja escondida. A mãe. A mulher.
E eu ali.
Tentando não pensar mais do que devia.
Mas já pensando demais.




POV


O aeroporto de Tóquio estava lotado. Gente apressada, carrinhos atravessando o caminho, anúncios em japonês ecoando pelos alto-falantes e minha cabeça… pendurada no fio da exaustão.
Arrastei minha mala até a fila de embarque, o celular vibrando com notificações acumuladas da equipe. Respondi três mensagens seguidas da logística, uma do Matteo com ajustes para a próxima prova e outra do Julián, perguntando se eu ia querer paella ou lasanha no almoço do dia seguinte. Nenhuma delas exigia resposta imediata, mas a sensação de urgência me acompanhava até nos ossos.
Balancei o ombro pra soltar a tensão da mochila, já acostumada com o peso dela. Mas quando estiquei a mão pra abrir o zíper principal, procurando o passaporte… Veio o estalo.
O robô.
Congelei por um segundo. Senti o sangue gelar.
Joguei a mochila no colo e abri com pressa. Revirei documentos, uma blusa amarrotada, meu fone, o grimório de anotações, uma miniatura da Ferrari que o me deu antes de eu embarcar.
Nada.
Revirei de novo. Tirei tudo.
Abri até o bolso lateral onde eu nunca guardava nada útil. E o brinquedo... não estava lá.
Fechei os olhos.
A loja, a busca, a felicidade idiota de ter encontrado exatamente o modelo que ele queria. O robô com luz nos olhos. Com o braço articulado. O tal do vídeo que ele viu no tablet do Julián e comentou por dias. E agora…
Fechei a mochila devagar, com um nó na garganta.
Olhei para o relógio. Vinte minutos pro embarque. O portão já começava a chamar o meu grupo. Não dava mais tempo de voltar pro paddock. Nem pro motorhome. Nem pra nada.
Abaixei a cabeça e murmurei, mais para mim do que pra qualquer um:
— Parabéns, . Você esqueceu o presente que prometeu.
Uma criança pequena sorriu pra mim do outro lado da fila, segurando um bonequinho de ação com capa de herói. A mãe dela ajeitou o chapéu do filho com carinho.
E eu engoli em seco.
Fiz o check-in, passei pelo raio-x. Sentei na poltrona da janela com o corpo imóvel e o coração... em algum lugar entre o Japão e o colo do meu filho.

🏁🛠️

O carro de aplicativo parou diante da casa térrea de fachada clara e portão vermelho desbotado — o mesmo que rangia desde que eu era adolescente. As janelas estavam abertas, e o cheiro de manjericão escapava pela cortina como convite.
Toquei a campainha e, antes mesmo do segundo toque, ouvi a voz animada da minha mãe gritando lá de dentro:
— Já vou, já vou! Se for você, , tem lasanha no forno!
Sorri antes mesmo da porta abrir. Foi Julián quem apareceu primeiro, com o mesmo cabelo bagunçado de sempre e uma camiseta antiga dos Rolling Stones.
— Olha quem voltou cheirando a graxa de pódio — disse, abrindo os braços.
— E você continua cheirando a videogame e sarcasmo — rebati, mas fui direto pro abraço.
Foi quando ouvi o som que mais me fazia falta: passos apressados, baixinhos, batendo no piso da sala, seguidos de um grito entusiasmado.
— MAMÁ!!!
surgiu como um foguete, os cachos desgrenhados e o rosto parcialmente coberto de chocolate. Se jogou no meu colo como se tivesse passado meses sem me ver.
— Eu contei os dias! Foram um bilhão!
— Um bilhão?! — apertei ele forte. — Então eu vou ter que te abraçar um bilhão de vezes.
Beijei o topo da cabeça dele umas cinco vezes seguidas, até ele reclamar que estava ficando com cócegas.
Entramos e o cheiro da lasanha invadiu o peito como um abraço de conforto. Minha mãe estava na cozinha, com o avental florido e o rosto suado de quem venceu outra batalha gastronômica.
— Já senta. Tá quente, tá fresca, e você precisa de energia.
— Ela vive à base de café, mãe — Julián comentou.
Revirei os olhos com o comentário dele. Nos sentamos à mesa grande da cozinha, com toalha plástica e marcas de panela do domingo passado. A lasanha estava absurdamente boa, como sempre. O suco de laranja natural, as piadas do Julián, o carinho da minha mãe, até o olhar do meu pai — sempre mais silencioso, mas presente — tudo me lembrava que, por mais veloz que a vida fosse, era naquele quintal, naquela cozinha, naquela mesa… que eu desacelerava.
Ele não disse nada até o segundo prato. Só então ergueu os olhos pra mim, sério e orgulhoso.
— Vi a corrida. Segundo lugar. Mas o carro… parecia outro. — Assenti com um sorriso pequeno.
— Era. E teve muito de mim naquele ajuste. — Ele brindou com água. Só isso. Mas pra mim, significava tudo.
Ainda estávamos rindo quando limpou os dedos sujos na própria camiseta — que já era praticamente uma obra de arte moderna feita de chocolate, queijo e molho vermelho — e olhou pra mim com aquela expressão que misturava doçura e expectativa.
— Mamãe… — começou, com a boca ainda cheia de lasanha. — Cadê meu robozinho?
A pergunta foi simples.
Simples como um sopro.
Mas doeu como um golpe que eu não vi chegando.
Meu garfo parou no meio do caminho. Engoli em seco antes mesmo de responder. Minha mãe e Julián continuaram conversando entre si, alheios, mas o mundo ao redor pareceu perder um pouco da cor por alguns segundos.
— Então… — ajeitei o corpo na cadeira, tentando parecer natural. — Eu tive um imprevisto, amor. Mas vou resolver isso, prometo.
me encarou por alguns segundos. Os olhos escuros e grandes, herdados do avô, me examinaram como se pudessem escanear a verdade por trás da voz calma. E então ele deu um sorrisinho discreto, sem dizer nada. Apenas deu de ombros e saiu correndo em direção ao quintal, onde seu caminhãozinho vermelho estava esperando por mais uma aventura.
Mas o olhar dele... ficou comigo.
Ele tinha só quatro anos, mas já entendia. Não com raiva, não com cobrança. Mas com aquele tipo de decepção silenciosa que dói mais porque não vem com palavras — só com o peso do que foi esperado e não veio.
Passei a mão pelo rosto, disfarçando o incômodo. Respirei fundo.
— Ele esperava muito por esse robô — falei, baixinho, mais pra mim mesma do que pra qualquer um.
Meu pai me olhou por um instante, mas não comentou. Só colocou mais suco no meu copo e apertou minha mão por baixo da mesa. Era o jeito dele de dizer: você tá fazendo o melhor que pode. E o pior? Eu sabia disso. Mas ainda assim… doía.
Depois do almoço, enquanto ela lavava a louça e Julián distraía com perguntas sobre foguetes e dinossauros, me refugiei na sala com o notebook no colo, tentando responder alguns e-mails da equipe. Era difícil focar — a barriga cheia, o cheiro de alho refogado ainda no ar, o som dos passarinhos lá fora. Tudo dizia descansa, menos a aba com planilhas abertas.
corria pelo quintal, com um capacete torto e uma mangueira de brinquedo que ele jurava ser um propulsor de foguete. Ria alto, tropeçava no chinelo, se erguia como se nada tivesse acontecido.
E foi no meio desse caos infantil e delicioso que a campainha tocou.
Três toques secos. Rápidos.
Levantei o olhar do notebook. Senti o frio no estômago vir antes mesmo de me levantar. Minha mãe também escutou e se virou da pia, os olhos estreitando como se já soubesse.
— Espera alguém? — ela perguntou, enxugando as mãos no pano de prato.
— Não — respondi, já indo em direção à porta com o coração batendo mais alto do que deveria.
Abri a porta e lá estava ele.
Caio.
De óculos escuros, camisa branca amassada e aquele mesmo sorriso de vitrine. O sorriso que só funcionava em tela de celular.
— disse, como se meu nome ainda fosse íntimo.
— Que surpresa — falei, mantendo a porta semiaberta. — Depois de um fim de semana inteiro sumido.
Ele tirou os óculos devagar, talvez esperando que isso bastasse para parecer arrependido.
— Tive uns jobs de última hora. Não deu pra encaixar.
— Mas deu pra postar foto com cachorro, com pizza, com helicóptero… — murmurou Julián, atrás de mim, com um copo de suco na mão.
Antes que qualquer um pudesse continuar, a voz mais esperada cortou o silêncio:
PAPAAAA!
atravessou a varanda como um raio, os cachos saltando, o rosto iluminado como se Caio tivesse voltado de um planeta distante. Se jogou nos braços dele com toda a força que só criança pequena sabia dar.
— Tava com saudade do seu papi?
— MUITA! Eu vi você no celular! Você estava com um cachorro! E no helicóptero! E comendo pizza sem mim! — Caio riu, girando ele no ar como se aquilo resolvesse tudo.
— A gente vai fazer tudo isso junto da próxima vez, combinado?
Minha mãe surgiu na porta da cozinha, com o pano de prato agora preso na cintura.
— Boa tarde, Caio. — A voz dela era educada, mas carregava uma ponta de gelo que só eu sabia decifrar.
— Oi, Dona Lucía. Tá tudo bem?
— Por aqui, tá — ela respondeu. — O menino, pelo menos, tá feliz de te ver.
Caio se ajeitou com no colo e olhou pra mim.
— Posso entrar? — Respirei fundo.
— Só por causa dele.
Entramos. correu até o sofá, puxando o pai pela mão para mostrar o desenho do “super foguete”. Julián se encostou na porta, observando de braços cruzados. Minha mãe se manteve próxima, como quem diz: não vai ter conversa torta aqui, não.
Foi quando meu pai apareceu no corredor, secando as mãos com um pano e com o jornal dobrado debaixo do braço.
— Que visita inesperada. — disse, sem disfarçar o tom neutro.
— Oi, seu Daniel — respondeu Caio, forçando um sorriso. — Vim ver o .
— Ainda bem que alguém não precisa avisar antes de chegar — retrucou meu pai, lançando um olhar rápido pra mim. — Mas já que está aqui...
Fui até a cozinha fazer um café e, claro, Caio veio atrás.
— Você tá bem?
— Tentando. O que não ajuda é alguém prometer ver o filho e sumir.
— Eu já disse…
— Não, Caio. Para com isso. Jobs de última hora, mudança de planos, postagem nova no feed... Você sempre tem uma desculpa. Só não tem prioridade.
— Eu tô aqui agora, não tô? — respondeu ele, com aquele ar de quem acha que presença pontual resolve tudo.
Antes que eu retrucasse, meu pai apareceu na porta da cozinha.
— Estar aqui de vez em quando não é o mesmo que estar presente, Caio. — disse calmo, mas com firmeza. Caio engoliu em seco.
— Eu sei, seu Daniel, mas é que o trabalho—
— O trabalho é seu, o filho é dos dois. — interrompeu. — E enquanto você tá voando de helicóptero, ele fica perguntando por que o pai dele não vem. Eu que escuto isso no café da manhã.
O silêncio caiu pesado.
Minha mãe encostou no batente da porta, braços cruzados. Julián, da sala, fingia ver TV, mas ouvia tudo.
— Você sumiu, Caio. E ele ficou esperando. Ele contou os dias. E sabe o que é pior? Ele ainda fica feliz quando você aparece. — acrescentei, sentindo a voz falhar.
— Porque ele é meu filho, .
— Então aja como pai. — meu pai cortou, seco. — Porque o que você faz hoje, ele vai lembrar amanhã.
— Eu tô tentando... — Caio começou, mas meu pai balançou a cabeça.
— Tentando não é o suficiente pra uma criança que mede amor em presença, não em curtidas.
entrou correndo nesse instante, segurando o tal foguete de papel.
Mama, papa disse que a gente vai construir um de verdade um dia! — Caio se agachou e sorriu.
— E a gente vai, campeão. Vai ser incrível.
— Promete?
— Prometo.
Meu pai soltou um suspiro leve, quase imperceptível, mas pesado o bastante pra cortar o ar.
— Promessa boa é aquela que vem com atitude, filho — disse, olhando diretamente pra Caio. — O resto é só palavra.
Caio desviou o olhar. Minha mãe cruzou os braços. Eu só balancei a cabeça. Ela já tinha ouvido aquela promessa antes. Eu também. Mas ainda acreditava. E isso… partia meu coração.
Caio tirou a bendita selfie no jardim com ainda grudado nele como um adesivo. Flash, sorriso treinado, legenda mental pronta. Quando devolveu o filho com um beijo rápido na testa e um “eu te ligo depois”, ninguém tentou fingir que estava feliz com aquilo.
Ele foi embora como chegou: rápido, superficial, eficiente no teatro.
Assim que o carro dele sumiu na esquina, meu pai pousou o jornal na mesa.
— Esse menino tem mais flash do que responsabilidade.
— Esse menino tem mais pose que presença. — completou minha mãe, quase para si mesma.
— E ainda aparece como se tivesse feito um favor. — disse Julián, cruzando os braços enquanto olhava pela janela.
Fiquei em silêncio, observando no sofá, com o foguete no colo e o sorriso ainda preso no rosto. Meu pai se aproximou devagar, pousou a mão no meu ombro e disse baixo:
— Ele não entende o valor do que tem, filha. Mas você entende. E é isso que salva o .
E, por um instante, tudo que Caio deixava cair parecia sustentado ali — entre as mãos firmes do meu pai e o amor que nunca faltava nessa casa.
correu pro quintal, agora testando a velocidade de um carrinho no chão de pedras. Ainda estava rindo. Ainda acreditava que o pai voltaria no domingo seguinte. E isso partia meu coração mais do que qualquer abandono declarado.
A noite caiu devagar sobre a casa.
Depois do banho, ajeitei no sofá com um mini quebra-cabeça de Fórmula 1 e me sentei ao lado dele, organizando a bagunça na minha mala de mão. Embalagens, adaptadores, roupas que não usaria mais até a próxima viagem.
Meu corpo gritava por descanso.
— Mamá — chamou , apontando uma peça colorida — esse aqui vai no carro ou na pista?
— Na pista, amor. É o pódio.
— Ah, então vai ficar bem no alto! — Sorri, mesmo com os olhos ardendo.
Quando ele terminou de montar e encostou a cabeça no meu braço, respirei fundo e, enquanto ele brincava com os dedos, abri o aplicativo de mensagens e digitei com cautela:

10:45
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Foto de Perfil
Mateo
offline

Mateo, sei que é cedo pra pedir, mas… teria alguma chance de eu levar o pro próximo GP? Sei que envolve logística, e que estou extrapolando. Mas preciso ser mais mãe. Principalmente por ele ter um pai que só é bom no Instagram.

10:32 Visualizado


Fiquei olhando pra tela por alguns segundos antes de apertar “enviar”. E mesmo sabendo que a resposta poderia ser um “não”, a sensação de ter tentado já era algo. Me levantei devagar, colei um post-it no espelho do quarto e escrevi:

"Comprar novo robô"


Depois, olhei meu reflexo. As olheiras, o cansaço, a firmeza que ainda sobrava no olhar.
— Eu dou conta — sussurrei, como quem selava um pacto.
Nem que eu precise me refazer peça por peça, nem que tenha que começar do zero.
De novo. E de novo.
Por ele.
Por mim.
Por tudo que ainda estava por vir.
Ainda estava de pé em frente ao espelho, o post-it recém-colado tremendo levemente por causa do ventilador da parede, quando o celular vibrou sobre a cômoda.
Mensagem de Matteo.
Abri, o coração já esperando um "precisamos conversar sobre isso com calma". Mas não. Era direto. Como sempre. Mas com uma delicadeza que ele raramente deixava à mostra:


10:45
Signal Wi-Fi Battery 85%
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Mateo
offline

Mateo, sei que é cedo pra pedir, mas… teria alguma chance de eu levar o pro próximo GP? Sei que envolve logística, e que estou extrapolando. Mas preciso ser mais mãe. Principalmente por ele ter um pai que só é bom no Instagram.

10:32 Visualizado

, quando eu aprovei sua entrada na equipe principal, foi com currículo e histórico técnico em mãos, mas também sabendo que você é mãe. Nunca vi isso como obstáculo. E continuo não vendo.
Sempre que quiser levar o , vamos dar um jeito. Aqui também é seu lugar. E agora, é o dele também.

10:38


A garganta fechou.
Simples assim.
Sem drama, sem burocracia.
Apenas… acolhimento.
Sentei na beirada da cama com o celular nas mãos e o peito cheio de alguma coisa que parecia gratidão e peso saindo ao mesmo tempo. Respirei fundo.
Atrás de mim, dormia já torto na cama, com a metade do quebra-cabeça montado encostado no peito. Levantei devagar, peguei uma coberta fina, ajeitei sobre ele e sussurrei:
— Vai ver você vai conhecer o Japão antes do que imagina, astronauta.
E apaguei a luz.
A manhã chegou com sol tímido e vento nos cabelos.
Eu vesti com uma camiseta nova da Ferrari — presente do Julián — e calcei nele os tênis com luzinha que ele jurava serem “de piloto”.
No quintal da casa dos meus pais, enquanto minha mãe colocava uma garrafa térmica de chá na mochila e meu pai se despedia com aquele abraço sem pressa, eu só pensava numa coisa: ele vai comigo dessa vez.
Não tinha lição de casa. Nem horário de escola. Só férias e o direito de viver algo novo. Algo que era meu, mas que eu queria dividir com ele.
— Vai trazer ele de volta com sotaque italiano — brincou Julián, bagunçando os cachos do antes de colocar a mochilinha do dinossauro em suas costas.
— Ou com o nome do Verstappen na ponta da língua, se vocês não se cuidarem — emendou minha mãe, fingindo reprovação.
— Eca, mamãe! Verstpen não! — rebateu na hora, fazendo todos rirem. Segurei a mão dele com firmeza.
— Vamos mostrar pro mundo que a força também pode ser feita de amor, filho.
Simmm! — ele completou, sério. Meu pai me deu um beijo na testa.
— Se cuida, filha. E aproveita.
Assenti, o nó na garganta já formando, mas sem cair em lágrimas. Não dessa vez.
Ao atravessar o portão da casa, com saltitando ao meu lado, percebi como aquela cena parecia um começo.
De novo.
Mais um.
Dessa vez, com ele.
O voo para Mônaco foi tranquilo — ou o mais tranquilo possível com uma criança empolgada, uma mochila cheia de carrinhos e perguntas como "a Ferrari dorme num hotel também?".
Quando aterrissamos e seguimos até o paddock, o cheiro do mar misturado ao som distante dos motores em teste era quase como um abraço pra mim.
Para , era mágica.
— Mamãe… é aqui que você conserta os carros que fazem barulho? — ele perguntou, os olhos arregalados, grudado na lateral do meu corpo.
— É aqui, meu amor.
— E eu posso ver?
— Pode ver tudo. Mas só de longe — falei, piscando.
— Tá bom. Mas se precisar, eu sei como mexer nas rodas, tá?
Sorri.
E ali, no meio da pista mais lendária do mundo, com a mãozinha dele apertando a minha, eu soube:
Estava tudo certo.
Ou, pelo menos, caminhando pra isso.
O paddock de Mônaco parecia mais apertado do que nunca — mas talvez fosse só a forma como meu coração batia com força no peito. Tudo parecia mais intenso ali. O sol refletido nos carros, o barulho dos motores sendo ajustados, o mar azul ao fundo. E agora… a mãozinha de presa à minha.
Alguns técnicos pararam pra olhar.
Outros apenas disfarçaram, mas os cochichos estavam ali, pairando no ar como cheiro de borracha queimada.
Ignorei.
Ou tentei.
Matteo foi o primeiro a se aproximar. Sem rodeios, sem cerimônia. Do jeito Matteo de sempre.
— disse, com um aceno breve, os olhos já baixando para com familiaridade. — O foguete voltou ao paddock, é? — soltou minha mão por um instante e estufou o peito.
— Missão Mônaco iniciada! — anunciou, como se fosse agente secreto em miniatura. Matteo sorriu. Sincero. Raro.
— É bom tê-lo por aqui de novo. Parece que o desempenho da equipe melhora quando ele aparece.
— Concordo — falei, com um sorriso curto. — Mas aviso logo que o copiloto exige chocolate no briefing.
— A gente se adapta — respondeu, dando uma piscadela para , que riu.
— Obrigada, Matteo. Por isso. Por tudo.
Ele balançou a cabeça, sério.
— Você não precisa me agradecer por exercer o que já faz melhor que muita gente: conciliar. Você comanda um motor de Fórmula 1, . E ainda assim, seu filho sorri com os dois pés no chão. Isso… isso é coisa de quem sabe exatamente onde pisa.
Soltei um riso discreto, sentindo o nó no peito apertar, daquele tipo que vem quando você percebe que, por um breve segundo, alguém te enxergou de verdade.
Seguimos até meu setor. ainda agarrado à minha perna, apontando para cada detalhe como se nunca tivesse estado em um paddock. E talvez, mesmo tendo estado… ainda fosse novo. Ainda fosse mágico.
Então, eu o vi.
Charles.
De pé, mais adiante, como se não soubesse se devia vir ou ficar. O olhar rápido dele passou por mim, por , e depois… sumiu.
Literalmente.
Desapareceu no corredor.
Por um instante, achei que tinha imaginado. Continuei organizando meus equipamentos, distraída por perguntas de um dos engenheiros, até que uma sombra parou do meu lado.
Olhei.
Charles estendia uma sacola simples. Plástica. Com o logo colorido de uma loja de brinquedos de Tóquio, discretamente amassada nas bordas.
— Você esqueceu isso.
Parei. O peito travou por um segundo. Encarei a sacola. Devagar. Como quem reconhecia um fantasma que nunca imaginou reencontrar.
— Você… pegou pra mim?
— Eu vi no canto do motorhome. Lembrei da sua animação na loja.
Meu estômago apertou. Mas não deixei transparecer. Segurei a alça da sacola com cuidado, como se fosse feita de vidro.
— Obrigada. Eu… ia dar um jeito. — Ele deu de ombros.
— Já deu.
Foi quando apareceu correndo atrás de um dos mecânicos, os olhos grudados na sacola em minha mão.
— O meu robô! — gritou, sem cerimônia, arrancando o brinquedo lá de dentro com uma felicidade que fazia tudo doer, no melhor dos sentidos.
Abraçou o boneco com força, como se fosse o tesouro mais importante do mundo. Charles se agachou.
— Ele ainda dança?
— Não sei — respondeu. — Você sabe ligar?
Charles apertou o botão, ajeitou o bonequinho no chão de concreto, e o pequeno robô começou a se mover de um lado pro outro, com luzes nos olhos piscando. gargalhou.
— Ele dançou! Mamãe, ele dançou!
Fiquei em silêncio. Com as mãos nos bolsos do macacão, os olhos fixos naquela cena.
E o coração? Batendo forte, inquieto.
Porque, por mais que eu fingisse, tinha alguma coisa ali começando a mudar.

🏁🛠️


já dormia.
O pequeno corpo encolhido sob a coberta fina, os cachos espalhados no travesseiro, e o robô — aquele mesmo — brilhando ao lado dele com as luzes piscando em um azul quase hipnótico.
Me sentei na beirada da cama e passei os dedos com cuidado pelo cabelo dele.
Tinha algo de sagrado naquele instante. Algo que me lembrava que tudo isso — corridas, troféus, e até os desafios de fazer um carro cruzar a linha de chegada — não se comparavam à responsabilidade de cuidar daquele pequeno ser humano que achava que eu podia tudo.
E ali, no escuro, só pensei:
Quantas vezes mais eu vou conseguir equilibrar tudo isso?
Deixei um beijo na testa dele e saí do quarto devagar, como quem fechava a tampa de um segredo.
No corredor do hotel, o silêncio era quase acolhedor. Eu estava sem sono. O corpo exausto, mas a cabeça girando em marcha alta.
Peguei o celular. Hesitei.
Abri o grupo da equipe. Rolaram os nomes, os números. Vi o dele.
Toquei.
Privado.
Fiquei olhando a tela por longos segundos antes de finalmente escrever:

21:12
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Charles Leclerc
online

: Oi! É a ! Obrigada por ter salvo o dia do . De verdade. Você não tem noção do quanto ele queria aquele robô. Quando eu cheguei em casa e não trouxe, ele ficou decepcionado. Por isso quis trazê-lo para Mônaco.

21:12 Visualizado


A resposta não demorou:

21:15
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Charles Leclerc
online

: Oi! É a ! Obrigada por ter salvo o dia do . De verdade. Você não tem noção do quanto ele queria aquele robô. Quando eu cheguei em casa e não trouxe, ele ficou decepcionado. Por isso quis trazê-lo para Mônaco.

21:12 Visualizado

: Você salvou o meu. Só retribuí. Pelo brilho no olhar dele, ele com certeza estava esperando muito por isso. Fico mesmo feliz de ter ajudado nessa.

21:13


Sorri sozinha. O tipo de sorriso que você tentava esconder até de você mesma.

21:20
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Charles Leclerc
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Oi! É a ! Obrigada por ter salvo o dia do . De verdade. Você não tem noção do quanto ele queria aquele robô. Quando eu cheguei em casa e não trouxe, ele ficou decepcionado. Por isso quis trazê-lo para Mônaco.

21:12 Visualizado

Você salvou o meu. Só retribuí. Pelo brilho no olhar dele, ele com certeza estava esperando muito por isso. Fico mesmo feliz de ter ajudado nessa.

21:13

Ele dormiu com o robô do lado do travesseiro. E disse que vai treinar o brinquedo pra correr também.

21:14 Visualizado

Olha, se ele ganhar do Max na próxima simulação, a gente promove ele.

21:14



Ri.
E continuei digitando.

21:20
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Oi! É a ! Obrigada por ter salvo o dia do . De verdade. Você não tem noção do quanto ele queria aquele robô. Quando eu cheguei em casa e não trouxe, ele ficou decepcionado. Por isso quis trazê-lo para Mônaco.

21:12 Visualizado

Você salvou o meu. Só retribuí. Pelo brilho no olhar dele, ele com certeza estava esperando muito por isso. Fico mesmo feliz de ter ajudado nessa.

21:13

Ele dormiu com o robô do lado do travesseiro. E disse que vai treinar o brinquedo pra correr também.

21:14 Visualizado

Olha, se ele ganhar do Max na próxima simulação, a gente promove ele.

21:14

Você já veio pra Mônaco de férias ou só nas temporadas?

21:15 Visualizado

Nasci aqui. Tenho uma casa perto do porto. Mas mesmo quando tô em casa… nunca consigo relaxar de verdade. Sempre esqueço de desligar o ‘modo carro’.

21:15

Claro, né. Casa com vista pro grid imaginário. Tudo normal.

21:15 Visualizado

Não é tão exagerado assim…

21:15

Charles, você provavelmente tem uma garagem mais tecnológica que o aeroporto de Narita.

21:15 Visualizado

Só uma garagem funcional. E um simulador no quarto de hóspedes. Totalmente comum.

21:15

Ah, sim. Simples. Igualzinho lá em casa, onde o quarto de hóspedes também serve para guardar brinquedo quebrado e roupas que eu não dobro há três semanas.

21:15 Visualizado

Parece mais organizado que o meu, pra ser sincero.

21:15











Ri alto, sozinha, e no escuro do quarto, já havia voltado — não queria deixar o sozinho. Estava sentada ali, com o celular na mão e o coração meio bobo.
O tempo começou a passar e a conversa foi se espalhando como quando você se perdia numa estrada boa demais pra querer chegar logo. Falamos de comida japonesa que nenhum de nós soube pedir direito, da vez em que ele esqueceu o passaporte no carro e perdeu um voo, e eu juro que consegui ver a cena inteira na minha cabeça.

21:20
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Charles Leclerc
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Oi! É a ! Obrigada por ter salvo o dia do . De verdade. Você não tem noção do quanto ele queria aquele robô. Quando eu cheguei em casa e não trouxe, ele ficou decepcionado. Por isso quis trazê-lo para Mônaco.

21:12 Visualizado

Você salvou o meu. Só retribuí. Pelo brilho no olhar dele, ele com certeza estava esperando muito por isso. Fico mesmo feliz de ter ajudado nessa.

21:13

Ele dormiu com o robô do lado do travesseiro. E disse que vai treinar o brinquedo pra correr também.

21:14 Visualizado

Olha, se ele ganhar do Max na próxima simulação, a gente promove ele.

21:14

Você já veio pra Mônaco de férias ou só nas temporadas?

21:15 Visualizado

Nasci aqui. Tenho uma casa perto do porto. Mas mesmo quando tô em casa… nunca consigo relaxar de verdade. Sempre esqueço de desligar o ‘modo carro’.

21:15

Claro, né. Casa com vista pro grid imaginário. Tudo normal.

21:15 Visualizado

Não é tão exagerado assim…

21:15

Charles, você provavelmente tem uma garagem mais tecnológica que o aeroporto de Narita.

21:15 Visualizado

Só uma garagem funcional. E um simulador no quarto de hóspedes. Totalmente comum.

21:15

Ah, sim. Simples. Igualzinho lá em casa, onde o quarto de hóspedes também serve para guardar brinquedo quebrado e roupas que eu não dobro há três semanas.

21:15 Visualizado

Parece mais organizado que o meu, pra ser sincero.

21:15

A equipe inteira já conhece minhas manias, mas ninguém supera a minha superstição com os tênis de treino.

21:17

Você é do tipo que se perder o cadarço, acha que a corrida tá amaldiçoada?

21:17 Visualizado

Exatamente esse tipo.

21:17

Céus. Isso é mais específico do que imaginei.

21:17 Visualizado

Você também tem uma superstição, . Acha que ninguém viu, mas toda vez que entra no box, encosta os dedos no número do carro antes de trabalhar nele.

21:17

Você... notou isso?

21:18 Visualizado

Claro. É o tipo de coisa que só alguém muito concentrado faz. Ou alguém que acredita que o trabalho começa com respeito. E eu vejo você fazendo isso toda vez.

21:19


Demorei pra responder.
Porque as palavras... me pegaram. E porque o jeito como ele disse, ali, digitado em silêncio, soou como um elogio que encostava onde ninguém tocava.
O coração já batia mais rápido.
O que eu tô fazendo?
Ele tinha uma namorada. Mesmo com o silêncio, com as ausências, com os rompantes — ela ainda existia. Era parte da vida dele. E eu… Eu estava rindo. Me abrindo. Me sentindo... vista.
Não podia.
Respirei fundo e digitei:

21:20
Signal Wi-Fi Battery 74%
Foto de Perfil
Charles Leclerc
online

Oi! É a ! Obrigada por ter salvo o dia do . De verdade. Você não tem noção do quanto ele queria aquele robô. Quando eu cheguei em casa e não trouxe, ele ficou decepcionado. Por isso quis trazê-lo para Mônaco.

21:12 Visualizado

Você salvou o meu. Só retribuí. Pelo brilho no olhar dele, ele com certeza estava esperando muito por isso. Fico mesmo feliz de ter ajudado nessa.

21:13

Ele dormiu com o robô do lado do travesseiro. E disse que vai treinar o brinquedo pra correr também.

21:14 Visualizado

Olha, se ele ganhar do Max na próxima simulação, a gente promove ele.

21:14

Você já veio pra Mônaco de férias ou só nas temporadas?

21:15 Visualizado

Nasci aqui. Tenho uma casa perto do porto. Mas mesmo quando tô em casa… nunca consigo relaxar de verdade. Sempre esqueço de desligar o ‘modo carro’.

21:15

Claro, né. Casa com vista pro grid imaginário. Tudo normal.

21:15 Visualizado

Não é tão exagerado assim…

21:15

Charles, você provavelmente tem uma garagem mais tecnológica que o aeroporto de Narita.

21:15 Visualizado

Só uma garagem funcional. E um simulador no quarto de hóspedes. Totalmente comum.

21:15

Ah, sim. Simples. Igualzinho lá em casa, onde o quarto de hóspedes também serve para guardar brinquedo quebrado e roupas que eu não dobro há três semanas.

21:15 Visualizado

Parece mais organizado que o meu, pra ser sincero.

21:15

A equipe inteira já conhece minhas manias, mas ninguém supera a minha superstição com os tênis de treino.

21:17

Você é do tipo que se perder o cadarço, acha que a corrida tá amaldiçoada?

21:17 Visualizado

Exatamente esse tipo.

21:17

Céus. Isso é mais específico do que imaginei.

21:17 Visualizado

Você também tem uma superstição, . Acha que ninguém viu, mas toda vez que entra no box, encosta os dedos no número do carro antes de trabalhar nele.

21:17

Você... notou isso?

21:18 Visualizado

Claro. É o tipo de coisa que só alguém muito concentrado faz. Ou alguém que acredita que o trabalho começa com respeito. E eu vejo você fazendo isso toda vez.

21:19

Preciso dormir. Amanhã vai ser puxado. Boa noite, Leclerc.

21:21 Visualizado

Boa noite, . Até amanhã.

21:24


Bloqueei a tela.
Mas não os pensamentos. Me joguei na cama, os olhos no teto, e só consegui pensar: o que tá acontecendo comigo?
E por que… por que parece tão certo e tão errado ao mesmo tempo?






POV Charles Leclerc


Acordei antes do despertador.
De novo.
Mas não era ansiedade pela corrida, nem pelos jornalistas que estariam no paddock, nem pelas voltas que eu vinha ensaiando mentalmente desde a noite anterior. Era outra coisa, ou melhor — alguém.
Peguei o celular do criado-mudo sem pensar. Tela bloqueada, nenhuma notificação nova. Mas mesmo assim, abri o chat.
.
As mensagens estavam lá, as palavras simples, vivas. Mais nítidas do que qualquer gráfico de telemetria.
Sorri. Idiota. Só de lembrar do jeito como ela escrevia, como ria, ou como falava do filho.
Falamos de besteiras, rimos mais do que o necessário, talvez mais do que devêssemos.
Quando mencionei o gesto que ela fazia antes de trabalhar no carro — os dedos discretos no número da pintura — o silêncio que veio depois da mensagem dela me pegou.
“Você… notou isso?”
Claro que notei, eu noto tudo nela.
Mas foi a última mensagem que me puxou de volta pra realidade.
“Preciso dormir. Amanhã vai ser puxado. Boa noite, Leclerc.”
Boa noite, Leclerc.
Como se isso não tivesse mudado nada.
Suspirei. Deixei o celular encostar no peito e fiquei olhando pro teto, onde só o escuro respondia.
Ela tinha alguém?
Levantei.
Fiz tudo no automático: roupa de treino, shake, tênis, fone de ouvido. Mesmo caminho de sempre até a sala do fisioterapeuta. Ele já me esperava com o elástico de resistência pronto.
— Dormiu bem? — ele perguntou, puxando a faixa.
— Dormi… — respondi, mesmo sem acreditar.
Começamos com mobilidade, depois costas, core. O cronômetro apitava, o suor escorria, os músculos ardiam, mas a cabeça... não estava ali.
— Tá com o pescoço travado de novo — ele murmurou, ajustando minha postura. — Força no olhar. Foco.
Foco.
Essa palavra.
Essa palavra de novo.
Mas como é que eu foco se a voz dela ainda ecoava nas minhas mensagens? Se o sorriso dela, o jeito como falava do , o rastro da conversa da noite passada… ainda estavam grudados em mim?
E aí, como se a cabeça já não estivesse ocupada o suficiente, veio a lembrança da Alix. A discussão. A porta batendo. A acusação jogada no ar:
“Você está apaixonado por ela...”
Balancei a cabeça como quem tentava tirar a frase da memória à força.
Será?
Não.
Claro que não.
Aquilo era só mais uma projeção da Alix, uma última tentativa de se manter ali, mesmo quando tudo já tinha terminado. Aquilo era loucura. Mas por que, então, aquela frase não saía da minha cabeça?
Suspirei.
Apliquei força.
No treino, no olhar e corpo, mas a mente… a mente estava ocupada demais tentando não pensar nela.
E falhando miseravelmente.
O paddock ainda estava acordando quando eu os vi. , agachada ao lado do filho, os dois tão imersos no que faziam que por um instante pareceram parte da paisagem. Ela explicava algo sobre calibragem dos pneus, apontando pra um medidor digital com a paciência de quem já sabia que ensinar era também um jeito de amar.
— Tá vendo esse número aqui? — ela dizia. — Se passar disso, o carro pode escorregar. E se tiver menos, ele não gruda no chão.
— Igual quando meu tênis tá frouxo? — perguntou, franzindo a testa.
— Exato. — ela sorriu, e o menino pareceu ter descoberto o segredo da Fórmula 1 ali mesmo.
Me aproximei devagar, só observando os dois por alguns segundos. O mexia nos cabos com aquele fascínio curioso de quem ainda não aprendeu a ter medo de quebrar as coisas. , por outro lado, mantinha uma mão sempre perto — pronta pra impedir um desastre, mas sem sufocar a curiosidade dele.
— Cuidado com esse aí — falei, me abaixando ao lado deles. — Ele é mais temperamental do que parece.
olhou pra mim com os olhos arregalados.
— Ele explode?
— Não. Só reclama muito quando alguém puxa os fios errados — brinquei, e vi disfarçando um sorriso.
— Obrigada por isso — ela disse, sem muito entusiasmo, mas com aquele tom que carregava mais do que deixava transparecer.
Respirei fundo. Não era meu plano, mas as palavras saíram.
— Vocês vão ficar até segunda? Porque… bom, tem uma piscina na minha casa. poderia gostar. E… não sei, talvez você também.
Ela me encarou por um segundo longo. Hesitou. Os olhos avaliando mil variáveis ao mesmo tempo. Mas antes que ela respondesse, vibrou:
— Piscina? Sério? Com foguete?
— É… talvez sem foguete, mas tem um escorregador d’água. — sorri, desarmado.
respirou fundo. E então veio a alfinetada, delicada como um bisturi.
— Não acho que seja uma boa ideia. Sua namorada...
— A gente não tá mais junto, na verdade, terminamos há muito tempo — soltei, quase baixo demais.
Os olhos dela buscaram os meus por um momento. Vi a surpresa contida, o julgamento suspenso. Ela não disse nada. Mas não precisou.
, claro, não se importava com o subtexto.
— Mamãe, por favor! Eu prometo que não vou levar o robô pra água!
Ela olhou pra ele, depois pra mim, depois pro céu — como quem pedia paciência ao universo inteiro.
— A gente conversa depois da corrida, tá? — disse, voltando o olhar pra mim.
Assenti.
Foi só isso.
Mas naquele momento, mesmo sem foguete... alguma coisa já estava prestes a decolar.

🏁🛠️


O sábado não foi bonito.
O carro teve um problema na válvula do MGU-K — uma falha minúscula, mas que afetou todo o sistema de recuperação de energia. Perdi potência nas retas, estabilidade nas saídas, e junto com isso… a chance de largar na frente.
P5.
Na minha casa.
Norris em P1, como se estivesse esperando por isso desde 2023. Verstappen em P2, com aquela cara de que já venceu antes mesmo de começar. Piastri em P3, mais técnico que ousado. Russell em P4, eficiente, frio.
E eu. Charles Leclerc. P5.
Num circuito onde largar atrás é quase sinônimo de perder.
Na minha casa.
A frustração veio como freada brusca em curva molhada.
Ainda mais quando vi todo mundo esperando que eu sorrisse pra foto oficial. Mas o que ninguém viu… Foi ela.
.
Ela passou a noite ajustando o carro com Matteo. Correndo contra o tempo. Correndo por mim. Revisou cada linha da telemetria como se estivesse lendo um mapa para salvar alguém. Ajustou torque, trocou sensor de temperatura, recalibrou o diferencial.
Eu vi, mesmo fingindo que não vi.
A concentração dela, o silêncio pesado, o cabelo preso de qualquer jeito e o tablet colado ao peito. Ela não dormiu e nem reclamou, só trabalhou.
E agora… aqui estávamos.
Domingo. Corrida.
Entrei no modo piloto assim que vesti o macacão, mas alguma coisa não se encaixava. A cabeça… não desligava.
O barulho do paddock parecia abafado demais. Como se o mundo estivesse me pedindo pra escutar só o que vinha de dentro. Respiração, pressão, cobrança. passou por mim de novo. Tablet nas mãos, postura reta e fone no ouvido. Focada.
Nossos olhares se cruzaram rapidamente, só um segundo, mas foi suficiente.
Não houve aceno, nem sorriso, mas eu senti. Ela estava lá. Presente. Por mim, pelo carro e pelo trabalho dela.
— Charles — Matteo chamou, entregando o capacete. — Vinte minutos.
Assenti, puxei o zíper do macacão até o pescoço. O peso do capacete nas mãos parecia o mesmo de sempre, mas eu não estava. Hoje, o que me apertava não era o cinto. Era o que eu não sabia nomear.
E aí, no silêncio entre um ajuste e outro, uma verdade escapou sem permissão:
“É só uma corrida. Mas hoje… eu queria ganhar por ela também. Pra ela ver.”
Porque quando ela me olhava… eu queria ser melhor.
Luzes apagaram, Mônaco rugiu e Max disparou.
Não foi surpresa.
O carro da Red Bull colou no asfalto como se tivesse nascido ali. Gasly segurou firme em segundo — aquele tipo de dia raro em que tudo se encaixa. Sainz fez o que Sainz sabe fazer: pressionou. Preciso, agressivo, colado no câmbio do Pierre.
E eu…
Larguei bem, mas só isso.
O carro não rendia como nos treinos. A curva 11 me cuspia a traseira a cada volta. O tempo escapava. As chances também.
— Curva 11 com perda de tração. Ajuste torque para o setor três. — disse a voz dela no rádio.
Fria. Técnica.
Mas eu reconheceria aquele timbre no meio do caos de um furacão. Fiz o ajuste. Torque reconfigurado. Setor três mais equilibrado, mas ainda não era o bastante.
Gasly segurou o segundo lugar até o fim como se a vida dele dependesse disso. Sainz colou na traseira, tentou na saída da Rascasse — não conseguiu.
E eu?
P4.
Quarto lugar.
Sem pódio. Em Mônaco.
No rádio, o engenheiro-chefe anunciou:
— Corrida limpa. Obrigado, Charles. Quarto lugar confirmado.
Nada da e talvez isso tenha doído mais que o pódio que não veio. Soltei o volante com força contida, tirei o capacete devagar e olhei ao redor.
Todo mundo batendo palmas. Aplaudindo a vitória do Max. O esforço do Pierre. A consistência do Sainz.
Mas, dentro de mim… era só o eco do que não aconteceu.
O capacete já estava fora, o macacão aberto até a cintura e mesmo assim, eu ainda não conseguia respirar direito. Passei direto pela equipe, pelo menos até o ponto inevitável: o corredor da imprensa.
Microfones.
Câmeras.
Boletins ao vivo em pelo menos três idiomas diferentes.
Sorri.
O tipo de sorriso treinado. Raso.
Charles, decepcionado com o quarto lugar? Principalmente aqui, em casa?
— Eu corro pra vencer — respondi, curto. — Sempre.
Você acha que a estratégia da equipe contribuiu para essa posição abaixo do esperado?
— Acho que todo mundo deu o melhor hoje. Não foi suficiente. Acontece.
Mas você largou em quinto. Esperava mais desempenho do carro?
— O carro melhorou muito desde o treino de sábado. A gente teve um problema com o sistema de gerenciamento de energia. Conseguimos ajustar parte disso. Mas aqui… cada curva cobra caro.
Você estava visivelmente tenso no carro. Pressão por correr em Mônaco?
— Correr em Mônaco é sempre pessoal. Mas pressão não é o problema. Expectativa, talvez.
Você falou no rádio: “Diz isso pra ”. É a engenheira nova, certo? Alguma tensão ali ou… algo mais?
Levantei o olhar.
A pergunta ficou no ar por um segundo a mais do que devia.
— A faz o trabalho dela. Muito bem, aliás — respondi, seco. — A corrida é sobre o carro, não sobre os nomes em volta dele.
Engoli a vontade de sair andando, só continuei respondendo o básico até me liberarem. Até os flashes cessarem, até as vozes sumirem.
Saí do corredor da imprensa com o rosto ainda quente. Nem pelo calor, mas pelas perguntas. Pelo tom. Pelo jeito que transformavam cada curva em uma falha de caráter.
Vi a equipe à frente, mas antes mesmo de chegar ao box… Meus olhos encontraram algo melhor.
.
Cabelo cacheado, suado, camiseta da Ferrari um número maior do que o corpo. E nas mãos? Uma plaquinha feita com papelão e canetinha vermelha. Número 16. Contornado com estrelas tortas.
Ele me viu e gritou antes que eu pudesse me esconder dentro de mim:
— Você foi muito rápido, Charles! Eu contei! Você era o mais legal!
Parei.
Não totalmente, mas o passo vacilou. O peito aliviou. Soltei um riso abafado, cansado, mas real.
— É mesmo? — perguntei, ainda ofegante.
Ele assentiu com uma convicção de quem não entendia de pódio, mas entendia de heróis.
Atrás dele, .
Calada, postura reta, olhar firme. Mas havia algo suave nos olhos dela naquele instante. Um quase-sorriso contido.
Nossos olhares se cruzaram. Por um segundo longo demais pra ser apenas educação. Ela não disse nada, eu também não, mas naquele espaço entre o “não dito”, havia tudo.
Agradecimento, cumplicidade e… algo novo. Algo que eu não tinha nome ainda, e isso me assustava mais do que qualquer pergunta de jornalista.
— A gente quase pegou o Sainz, né? — perguntou, animado, com a placa apertada contra o peito.
sorriu de canto, agachando-se ao lado dele.
— Quase, piloto foguete. Mas sabe o que atrapalhou? O desgaste do pneu no terceiro setor. Lembra o que a mamãe disse sobre tração? — assentiu, sério.
— Se perde tração… escorrega.
— Isso. E se escorrega… perde tempo na curva.
— Mas ele corrigiu! — retrucou, olhando pra mim com olhos grandes. — Eu vi! No rádio você falou pra ajustar torque. — riu baixo, me encarando com um brilho quase cúmplice.
— Ele presta atenção em tudo.
— Puxou você, então — comentei, sem pensar demais. Ela ergueu uma sobrancelha, divertida.
— Ele puxou o que tem de bom. O resto... ele já vai aprendendo com o tempo.
Continuei ali, por um instante a mais do que o necessário. Como se o mundo pudesse parar só pra que aquela cena durasse mais.
Continuei andando, mas mais leve.
Mais inteiro.
E com a certeza de que, naquele dia, aquele placar de papel e aquelas estrelinhas mal desenhadas… Valiam mais do que o troféu.
No fim do dia, depois que o motorhome se esvaziou e a adrenalina virou cansaço, peguei o celular.
Sem pensar demais, ou talvez pensando demais, e mesmo assim fazendo.
Abri o chat privado. O mesmo que ela disse "boa noite, Leclerc" há poucos dias — e que desde então parecia o lugar mais vivo do meu telefone.
Digitei:
Charles: O convite ainda tá de pé. Se quiserem, a piscina tá aqui. E foguetes são bem-vindos.
Esperei.
Uns segundos.
Uns minutos.
Talvez o tempo suficiente pra eu achar que tinha sido idiota.
Então veio a resposta.
: já tá com a sunga na mochila. Eu levo o protetor solar.
Ri de verdade. Sozinho, sentado no sofá da minha casa, ainda com o macacão pendurado numa cadeira e o cabelo bagunçado.
Encostei a cabeça no encosto, fiquei olhando pro teto por longos segundos.
E pensei:
Talvez... talvez eu esteja mesmo ferrado.
Mas, pela primeira vez, essa palavra não parecia tão ruim assim.




POV


Mônaco sempre pareceu um lugar fora da realidade. Prédios que se empilham como peças de luxo, carros que valem mais que apartamentos e aquele cheiro de dinheiro que se mistura com o sal do mar. Eu nunca me senti parte disso. Nem quando vinha a trabalho, nem quando passava correndo por alguma rua estreita a caminho do paddock.
Mas naquela manhã, com ao meu lado no banco de trás do carro, agarrado ao robô como se fosse uma extensão do braço, tudo parecia diferente. Talvez porque eu não estivesse ali como engenheira. Nem como mulher que engole palavras no box. Eu estava ali como mãe. E, de algum jeito, isso mudava tudo.
Charles mandou a localização mais cedo, com uma mensagem curta: “Portão branco. Número 14.”
Achei que seria um daqueles prédios com fachada espelhada e elevador que reconhece a digital. Mas não. Era uma casa. Simples, pelo padrão monegasco. Três andares, janelas grandes, plantas bem cuidadas. Portão eletrônico discreto, nenhum carro de ostentação na entrada. Só uma bicicleta escorada no muro e o som abafado de música vindo de dentro.
balançava as pernas no banco com impaciência. Eu revia mentalmente todas as formas de tornar aquela visita… segura. Leve. Sem margem para confusão.
Só que não era só isso. A frase que Charles tinha deixado escapar ainda ecoava — a gente não tá mais junto.
Não parecia recente, dava pra ver no silêncio que ele carregava.
Era um fato.
E, contra a minha vontade, meu coração tinha batido um pouco mais rápido ao saber disso.
— É aqui? — perguntou, os olhos brilhando de curiosidade.
Assenti, soltando nossos cintos e alisando o vestido leve que tinha escolhido pra parecer relaxada. Falhei. Meu coração batia como se eu estivesse prestes a apresentar um projeto na frente da FIA.
Toquei o interfone. A voz dele veio em segundos.
— Oi. Já tô descendo.
se ajeitou na minha frente e sorriu com todos os dentes.
E foi ali, no meio do bairro mais caro de Mônaco, com meu filho segurando o robô que Charles tinha me ajudado a entregar, que eu pensei: “Isso aqui… vai dar merda.”
Mas quando ele abriu o portão, com o cabelo bagunçado e o sorriso despretensioso, eu simplesmente entrei e deixei o que podia dar errado do lado de fora.
disparou casa adentro como se tivesse sido acionado por um semáforo verde. Passou direto por mim e por Charles, os passos ecoando no piso claro. A casa era ampla, iluminada, cheia de detalhes que diziam muito sobre ele: quadros com fotos de corridas antigas, capacetes em prateleiras altas e troféus discretos no canto. Nada espalhafatoso. Tudo organizado demais pra ser apenas vaidade.
— Uau... — exclamou de algum lugar mais ao fundo. — Mamãe! Tem um volante aqui! É de verdade?
Segui o som até a sala ao lado e encontrei meu filho de pé diante do simulador. Os olhos brilhavam como se tivesse encontrado o Batmóvel.
— Pode brincar? — perguntou ele, virando-se pra Charles com uma empolgação genuína. Charles riu, se abaixando até ficar na altura dele.
— Só se prometer que vai bater todos os meus recordes.
fez um positivo com o polegar e já pulou pro assento, completamente imerso.
Ficamos alguns segundos apenas observando a cena, os dois em silêncio, enquanto testava os botões como se fosse um engenheiro mirim. Charles apontou com a cabeça em direção aos fundos da casa.
— A piscina é ali. Fica à vontade.
Caminhei atrás dele até o quintal, ainda me sentindo… em trânsito. Como se meu corpo tivesse aceitado o convite, mas minha mente ainda estivesse discutindo com ele.
A piscina era bonita. Retangular, bem cuidada, com algumas espreguiçadeiras e plantas nos cantos. Nada grandioso. Mas tinha aquele ar de coisa bem-feita, pensada pra ser lar e não cenário de revista.
— Obrigada — falei, enfim. Charles apenas assentiu.
— Achei que o ia gostar. Ele parece estar precisando de um fim de semana sem rotina.
— Ele tá, sim — murmurei. E depois completei: — Eu também.
O riso do cortou o ar como um tiro de largada. Livre. Espontâneo. Sem filtro.
— Mamãe! Olha isso! — ele gritou da sala, empolgado demais pra lembrar que eu estava a dois cômodos de distância.
Sorri sem perceber. O som dele feliz sempre fazia isso comigo, desmontava qualquer muralha.
— Vai com calma aí, piloto — avisei, entrando na sala e encontrando meu filho completamente imerso no simulador, as mãos pequenas firmes no volante, os pés mal alcançando os pedais.
— Tô quase batendo seu tempo, Charles! — anunciou, concentrado.
Charles riu baixo, apoiado no batente da porta.
— Quero ver, então. Mas ó… — ele apontou com a cabeça para o quintal, onde o sol já brilhava alto. — A piscina tá liberada.
Os olhos do se arregalaram como se alguém tivesse anunciado pole position.
— Sério?! — Ele largou o volante num pulo e já começou a tirar os fones. — Posso ir agora?
— Calma, campeão — interrompi, erguendo a mão. — Antes da piscina tem um combinado, lembra? — Ele fez aquela careta clássica de criança contrariada.
— Protetor… — murmurou, derrotado.
— Isso — confirmei, já pegando a bolsa. — É rápido.
— Mas eu quero ir agora… — reclamou, já andando na direção do quintal.
— E vai — respondi, firme. — Em dois minutos. Vem cá.
Ele resmungou alguma coisa, mas obedeceu. Sentei-o no sofá e passei o protetor com cuidado nos ombros, nas bochechas já levemente quentes e na ponta do nariz.
— Precisa de ajuda com o pequeno rebelde aí? — Charles perguntou, divertido.
— Tô lidando — respondi, lançando um olhar para o , que fez careta só por esporte. — E não venha defender, ou ele vai te recrutar como cúmplice da próxima birra.
Charles ergueu as mãos, rendido.
— Tudo bem, tudo bem. Só tô do lado de quem pilota melhor o simulador. — Ele piscou para o , que abriu um sorriso instantâneo.
— Mamãe pilota foguetes de verdade, tá? — rebateu, inflando o peito.
Antes que eu pudesse responder, ele disparou em direção ao quintal.
— Isso aí — murmurei, mais pra mim mesma do que pra qualquer um.
O sol tocava minha pele com cuidado quando o segui, quente na medida certa. já se equilibrava na beirada da piscina, impaciente demais pra esperar qualquer coisa que não fosse água.
— Cuidado! — avisei, tarde demais.
O mergulho veio acompanhado de um respingo alto e uma gargalhada ainda maior.
Quando ergui o olhar, notei Charles encostado no batente da porta, observando a cena com um sorriso discreto, atento demais pra quem dizia não saber lidar com finais de semana comuns.
Ele caminhou até o jardim e começou a tirar a camiseta. Devagar. Naturalmente. Mas nada em mim foi natural assistindo àquilo.
O torso definido, a pele levemente dourada pelo sol, a barriga marcada com a precisão de quem convive com treinos, disciplina e uma genética generosa demais. Ele passou a mão pelo cabelo com aquela displicência irritante de quem não faz ideia do próprio efeito — ou talvez fizesse, e isso tornava tudo pior.
Charles pulou na piscina com facilidade, levantando água e riso ao mesmo tempo. gritou de empolgação, tentando se esconder enquanto ele fingia ser um tubarão desajeitado.
Eu me sentei na espreguiçadeira, os óculos escuros protegendo mais o meu olhar do que do sol em si. Observava os dois: o piloto sério, acostumado a entrevistas, estratégias e números, agora brincava ali, inteiro, como se aquele papel tivesse sido feito sob medida pra ele.
E havia algo ali.
Algo na forma como Charles deixava a guarda cair perto do meu filho. Algo na leveza que ele não mostrava no paddock. Algo que me fez esquecer da planilha de torque e dos relatórios de desempenho.
— Você não vai entrar? — ele perguntou, nadando até a borda onde eu estava.
— Não. Eu… tô bem aqui — respondi, cruzando as pernas, o vestido leve caindo até a altura do joelho.
— Mamãe, entra! — gritou do outro lado, batendo as mãos na água. — Você prometeu nadar comigo!
Suspirei. Drama em forma de gente pequena.
— Prometi nadar com você, não com tubarões — falei, olhando para Charles com um sorriso de canto. Ele ergueu as mãos em rendição.
— Prometo que me comporto. Mais ou menos. — Ri, balançando a cabeça.
— Tá bom. Um mergulho. Só um.
Levantei devagar, ajustei os óculos escuros e, num gesto rápido demais pra permitir arrependimento, tirei o vestido por cima da cabeça.
O biquíni era preto, simples. Pequeno o bastante pra não esconder nada.
A cicatriz da cesárea atravessava o baixo ventre como uma linha silenciosa. As estrias suaves na pele, a textura real das coxas, os seios mais cheios — tudo o que a maternidade deixou como lembrança permanente. Não era mais o corpo de antes, mas era o corpo que tinha carregado meu filho. O corpo que sobreviveu a tantas versões de mim.
Por um segundo, me senti exposta demais. E quando olhei pra frente… os olhos do Charles estavam fixos em mim.
Não famintos.
Não invasivos.
Apenas… presentes.
Como se ele estivesse vendo tudo.
E escolhendo ficar.
— Vem logo, mamãe! — chamou, quebrando o momento.
Mergulhei sem pensar.
A água estava morna. A risada do meu filho era o som mais feliz que já ouvi. E, ali, entre braçadas e respingos, eu percebi: aquela segunda, naquela casa em Mônaco, com aquele homem e aquele menino… Era uma curva inesperada da vida. E talvez, pela primeira vez, eu estivesse disposta a deixar o carro derrapar um pouco.

🏁🛠️

A água da piscina fazia ondas pequenas, tranquilas, o som rítmico das risadas preenchendo o quintal como uma trilha sonora particular. Charles e estavam mergulhados — literalmente — em uma competição que envolvia saltos, respingos e um boneco inflável que representava o "chefão da última curva".
Eu, sentada em uma espreguiçadeira, com o biquíni ainda úmido e os óculos escuros no rosto, observava os dois. Tinha saído da piscina há uns vinte minutos. Não porque estava com frio, mas porque… bom, era muita exposição. E porque parte de mim ainda não sabia exatamente o que fazer com aquele tipo de alegria espontânea.
Passei protetor solar nos ombros de novo, ajustei a canga ao redor do quadril e peguei o celular. Abri a tela, mas não digitei nada. Apenas deslizei o dedo pelas notificações, tentando me distrair — ou talvez me proteger daquela sensação de estar segura demais ali.
Foi quando ouvi os passos leves e molhados se aproximando.
— Tudo certo? — a voz dele veio baixa, quase gentil demais pro Charles que eu conheci no box semanas atrás.
Ergui os olhos. Ele estava com o cabelo pingando, sorriso manso e os braços apoiados na beirada da espreguiçadeira. continuava nadando, entretido com seu mundo de foguetes imaginários.
— Tá — respondi, devolvendo o celular ao colo. — Só… estranho me sentir tão em paz.
Charles arqueou uma sobrancelha. Não perguntou mais, só ficou ali. Presente.
— Estranho… mas bom? — ele perguntou, com aquele meio sorriso que parecia sempre à beira de um flerte.
Virei o rosto um pouco para encará-lo de verdade e não precisei dizer nada. Ele entendeu no meu olhar e eu entendi que ele entendeu.
O sol já começava a escorregar pelo céu quando saímos da piscina. protestou, claro — queria mais dez minutos, depois mais cinco — mas bastou a promessa de “comida feita pelo piloto” para que ele pulasse do deck enrolado na toalha como se fosse um super-herói.
Dentro de casa, o ar ainda carregava um cheiro suave de manjericão e alho. Um aroma que não parecia recente, mas acolhedor. Como algo que tinha sido preparado com antecedência.
Charles passou direto pela cozinha, foi até o fogão e acendeu uma das bocas.
— Tá quase pronto — comentou, levantando a tampa da panela e mexendo o molho com calma. — Só esquentar.
— Você já tinha cozinhado? — perguntei, erguendo uma sobrancelha enquanto ajeitava os cabelos ainda úmidos no coque improvisado.
Ele deu de ombros, com um meio sorriso tranquilo.
— Achei que a gente ia acabar com fome depois da piscina. Planejamento básico de sobrevivência.
Na mesa posta de forma simples — louça clara, guardanapos dobrados com cuidado — ele foi colocando os pratos. A pasta alla norma já vinha fumegante: berinjela macia, molho de tomate encorpado, manjericão fresco e queijo pecorino ralado na hora.
— Isso tá com um cheiro… — comecei.
— …de restaurante — completou , já se sentando com os cotovelos na mesa e os olhos famintos.
Charles riu, servindo os pratos com uma naturalidade que quase me desarmou. Como se fosse rotina. Como se aquela cena tivesse sido ensaiada pela vida, não pela pressa.
— Você cozinha melhor do que alguns lugares que eu comi na Itália — comentei, depois da primeira garfada. — E olha que isso é um elogio de alguém criada com lasanha da Dona Lucía.
— É o maior elogio possível — acrescentou, a boca cheia. — Mamãe come muito.
Revirei os olhos, mas ri. Charles também. balançava as perninhas sob a cadeira, já com o queixo sujo de molho.
— Charles… como é que é ter um simulador de verdade? — perguntou, curioso. — É tipo… igual ao videogame do meu tio?
— Bem mais legal — ele respondeu. — Mas tem menos dragão e mais curva fechada.
— E dormir na casa de um piloto — continuou , sério, como quem faz uma pergunta muito importante — dá direito a alguma carteirinha especial?
Charles fingiu pensar enquanto enchia o copo dele de suco.
— Se der, me avisa — disse. — Porque acho que a minha já venceu.
gargalhou, batendo palminhas.
E eu observei a cena em silêncio, sentindo aquele incômodo bom de quem percebe que algo simples estava ficando… importante demais.
— Então eu sou o único com a carteirinha agora!
— Claramente o mais importante da mesa — comentei, rindo também, enquanto limpava o canto da boca dele.
— E mais exigente — acrescentou Charles. — Já vi críticos menos rigorosos que você.
— Eu sou piloto foguete, tenho que ser exigente — ele disse com a maior naturalidade do mundo.
E nós dois rimos. Como se aquele momento tivesse nascido pra durar.
De sobremesa, ele apareceu com potinhos de sorvete artesanal.
— Gelato, na verdade — corrigiu ele, fazendo charme.
— O senhor tá se esforçando demais pra ganhar pontos com o crítico aqui — falei, apontando pro .
— E tá funcionando — o pequeno respondeu, já com chocolate escorrendo pelo canto da boca.
Eu sorri. De novo. Do tipo que escapa. Do tipo que não se segura.
Por um instante, pensei: é assim que é? Essa sensação de calmaria, de não precisar estar na defensiva o tempo todo? E quando nossos olhares se cruzaram de novo por cima da mesa… algo no meu peito cedeu mais um pouco.
Assim que terminou o último pedaço de sorvete, já estava se contorcendo na cadeira, inquieto.
— Agora posso voltar pra piscina? — perguntou, já escorregando do assento antes mesmo da resposta.
— Não, senhor. — Cruzei os braços, com aquele tom de mãe que carrega mais ciência do que ameaça. — Você acabou de almoçar. Tem que esperar a digestão, lembra?
Ele parou, bufando alto, como se o mundo fosse uma conspiração contra as crianças e seus planos aquáticos.
— Mas eu não tô com dor! — protestou. — Meu estômago tá normal!
— Mesmo assim, . É perigoso. Mais uns quarenta minutinhos e você volta, tudo bem?
Ele cruzou os bracinhos, emburrado, e se jogou no sofá com a mesma indignação de um piloto que perdeu a pole position por meio décimo.
— Pode ligar a TV pra ele? — pedi, já procurando o controle. — Um desenho qualquer, só pra distrair a revolta.
— Deixa comigo — Charles respondeu, pegando o controle e passando rapidamente pelos canais. — Tem algum preferido, foguete?
— Qualquer um que não tenha comida — murmurou , ainda de cara fechada.
A TV começou a exibir um desenho animado com monstros coloridos e carros falantes. assistia de lado, com o robô colado no peito, mas os olhos já piscavam mais devagar.
Charles se virou pra mim, com um meio sorriso.
— Ele tem personalidade. Bastante.
— Ele é uma força da natureza com pernas — brinquei, me recostando na cadeira. — Mas é meu caos preferido.
Charles se sentou de frente pra mim, apoiando os braços sobre a mesa. A tensão da manhã já parecia ter se dissolvido. O sol batia de leve na sala, refletido nas janelas amplas da casa.
— Me conta mais sobre os protótipos — ele disse, com a voz mais baixa, quase como se estivéssemos conspirando em meio ao silêncio da tarde. — Como era trabalhar com eles? Sempre achei essa parte meio... secreta.
Soltei uma risada curta.
— Quase uma sociedade secreta mesmo. Muita coisa não podia vazar. A gente testava sistemas que nem tinham nome ainda. Aerodinâmica, sensores, reações de materiais. Às vezes parecia que eu tava brincando de montar carros de outro planeta.
— E você era a comandante da nave — ele comentou, o tom suave.
— Algo assim. — sorri. — Mas também era a que limpava o chão depois que tudo dava errado.
A conversa seguiu por mais uns bons minutos. Falei dos erros mais malucos, das tentativas que renderam explosões de fumaça, dos engenheiros que apostavam café em cada simulação. Ele me ouviu com atenção, fazendo perguntas, rindo nos momentos certos, e contribuindo com pequenas histórias dele também.
Quando o silêncio chegou de novo, olhei para o sofá.
estava deitado de lado, o robô apertado nos braços, a boca entreaberta no começo de um cochilo profundo.
— Apagou — murmurei, com a voz mais baixa.
— O que a piscina não levou, o almoço resolveu — Charles respondeu, sorrindo.
Me levantei devagar, observando meu filho dormindo com aquele tipo de entrega que só as crianças conhecem. O robô ainda agarrado ao peito, os cabelos cacheados colados na testa pelo calor da tarde, os cílios descansando como se o mundo fosse gentil.
Charles se aproximou e parou ao meu lado, com a voz baixa, quase um sussurro:
— Quer que eu o leve pro quarto de hóspedes? Vai dormir mais confortável lá.
Assenti, sem conseguir falar. Algo naquela calma me desmontava por dentro. Ele se abaixou, com cuidado, pegou nos braços como quem segura um segredo precioso e sumiu pelo corredor.
Fiquei ali por alguns segundos depois que o silêncio tomou conta da casa. Então caminhei até a varanda.
O céu começava a se tingir de dourado, refletindo no azul profundo do mar. Mônaco se espalhava abaixo, viva, distante, quase irreal. Mas meus olhos ficaram presos na água, no movimento lento das ondas. Era como se tudo tivesse desacelerado de propósito.
Ouvi passos atrás de mim.
— Ele nem se mexeu depois que eu o coloquei na cama — a voz do Charles veio baixa, respeitosa.
Sorri de leve, sem virar.
— Ele não costuma dormir fora de casa à tarde.
— Pois é… — houve uma pausa. — Mas já tá bem acomodado. Levei ele pra cama do quarto de hóspedes. Cobri direitinho.
Aquilo… me atravessou mais do que eu esperava.
— Obrigada — murmurei. — Ele costuma acordar desorientado quando dorme em lugar diferente.
— Eu fiquei ali um pouco — ele completou. — Até ter certeza de que tava mesmo dormindo.
Virei o rosto, encontrando Charles parado a poucos passos de mim. Não havia pressa nele. Nem pose. Só aquele jeito atento que ele tinha quando realmente estava presente. Ele se aproximou e parou ao meu lado, apoiando os antebraços no parapeito da varanda.
— Ele é um garoto incrível — comentou, olhando para o horizonte. — Curioso. Esperto. E… tranquilo. Apesar de tudo.
— Apesar de mim? — perguntei, com um meio sorriso.
— Apesar do mundo — corrigiu. — Criança sente quando o mundo pesa.
O silêncio voltou a se instalar entre nós. Mas não era desconfortável. Era denso. Cheio.
— Faz tempo que minha casa não fica assim — ele disse, depois de alguns segundos.
— Assim como? — Ele respirou fundo antes de responder.
— Viva. Normal. — Engoli em seco, os olhos ainda no mar.
— Você vive cercado de gente.
— Não é a mesma coisa.
Ele virou levemente o rosto na minha direção, mas não me encarou de imediato.
— Eu não sei o que você faz… — disse, baixo, como se estivesse testando as próprias palavras. — Mas meu mundo fica mais leve quando você aparece.
Fechei os olhos por um instante. A frase pousou devagar, pesada e suave ao mesmo tempo. Quando falei, minha voz saiu mais baixa do que eu esperava.
— Desde quando isso mudou? Porque você me odiava. — Charles franziu o cenho e virou o rosto para mim, os olhos firmes.
… eu nunca te odiei.
— Parecia.
— Eu sei. — Ele passou a mão pelos cabelos, um gesto nervoso, honesto. — Eu fui um idiota. Medroso. Desconfiado. Você chegou num momento em que tudo estava uma bagunça na minha cabeça, mas nunca foi ódio. Eu só não sabia o que fazer com alguém como você.
— Alguém como eu? — perguntei, sem esconder a ironia.
— Que não me bajula, não espera nada de mim. Que tem uma vida real, complexa, linda… e que ainda assim faz tudo parecer simples.
Virei o rosto, tentando conter o turbilhão no peito, mas ele deu um passo mais perto.
— Você me enfrentou. Me viu. Mesmo quando eu tentei esconder tudo. E agora… — a voz dele baixou — eu olho pra você e não vejo o box, nem o carro. Eu vejo você. A mãe do . A mulher que carrega o mundo nas costas… e ainda encontra espaço pra sorrir.
Demorei a responder. Porque ali, com o mar como testemunha, o mundo parecia pequeno demais.
— Eu não sei se isso é certo, Charles.
— Talvez não seja — ele murmurou, a distância entre nós diminuindo cada vez mais. — Mas parece inevitável.
Um segundo.
Dois.
E pela primeira vez… não parecia haver mais nada a explicar.
O chão da varanda parecia estreitar a cada movimento dele, e por um segundo eu me perguntei se teria força pra dizer o que precisava, mas o coração já estava batendo fora do ritmo.
Ele parou diante de mim. Os olhos buscando os meus, como se pedissem permissão pra entrar em território sagrado.
— Se eu te beijar agora… você vai embora?
Demorei um instante. O bastante pra sentir o peso daquela pergunta. Pra entender que, se eu respondesse errado, nada mais entre a gente seria o mesmo.
Engoli em seco, sem afastá-lo.
— Se você me beijar agora… vai ser pior pra tentar esquecer depois.
E ele… não se afastou.
Pelo contrário.
Se aproximou ainda mais. A mão tocando de leve a minha cintura, os dedos da outra roçando meu rosto como quem descobria um lugar novo com reverência.
E então aconteceu.
Devagar.
Como se o tempo estivesse nos esperando.
Os lábios se encontraram num beijo lento, sem pressa, mas cheio de urgência guardada. Era macio e firme ao mesmo tempo, como se os corpos conversassem numa língua antiga, que só o silêncio entendia.
O cheiro do fim de tarde no ar.
O som abafado da cidade lá embaixo.
As mãos dele se movendo com cuidado, me puxando mais perto, como se soubesse que qualquer movimento brusco quebraria o feitiço.
Minhas mãos tocaram os ombros dele, depois o pescoço, e por um segundo... eu me permiti.
Permiti sentir.
Permiti querer.
Permiti esquecer o mundo, só por um instante.
Quando nos afastamos, ele ainda tinha os olhos fechados. E eu não sabia se era medo de abrir e perceber que foi sonho… ou vontade de continuar ali.
… — ele sussurrou, como se dissesse meu nome pela primeira vez.
E eu apenas respirei fundo, porque não havia resposta fácil, mas o beijo… já era resposta o suficiente.
Ele ainda estava ali, perto demais pra que eu fingisse que não tinha acontecido nada. Longe o suficiente pra que, se eu quisesse, pudesse escapar, mas eu não queria.
Charles abriu os olhos devagar. E neles… não havia pressa. Nem dúvida. Só aquela vontade contida que já dizia mais do que qualquer palavra.
E então, ele me beijou de novo.
Dessa vez, sem hesitação.
Sem freio.
As mãos vieram certeiras. Uma na minha nuca, a outra na base das minhas costas, me puxando com mais firmeza. Meus dedos se fecharam no tecido da camiseta dele, como se procurassem apoio pra não cair em mim mesma.
O beijo era mais quente agora.
Molhado.
Urgente.
As bocas se buscavam como se tivessem fome, como se aquele espaço entre nós fosse tempo demais desperdiçado.
A mão dele subiu pela lateral do meu corpo, os dedos roçando de leve a costela, a curva do meu quadril, o tecido fino do meu vestido molhado ainda da piscina. Um arrepio percorreu minha espinha e eu deixei escapar um som baixo contra a boca dele.
As mãos dele exploravam com cuidado, mas também com vontade. Como se me memorizasse ali, no toque. E eu deixei. Por um segundo longo, inteiro, eu deixei.
Até que…
Parei.
Ofegante.
Com as mãos espalmadas contra o peito dele, tentando criar distância onde antes havia encaixe. Charles me olhou. Os lábios entreabertos, a respiração tão descompassada quanto a minha.

Balancei a cabeça, confusa. Os dedos ainda tocando a camiseta dele.
— Eu… não sei o que a gente tá fazendo.
— A gente tá sendo sincero.
— Sincero demais.
Ele não sorriu.
Só assentiu, respeitando o espaço que, naquele instante, eu ainda precisava. O silêncio entre nós voltou a se instalar. Mas era outro agora. Carregado. Elétrico. Íntimo. E mesmo com o corpo gritando pra voltar, eu dei um passo pra trás.
... eu… vou ver se ele ainda tá coberto.
Virei as costas antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa. Antes que eu mesma quisesse dizer mais alguma coisa.
Mas enquanto atravessava o corredor, com o gosto do beijo ainda na boca e o toque dele na pele, só uma coisa ocupava minha mente: eu tô perdida. Perdida demais.





Continua...


Nota da autora: Meus amores, chegamos à última atualização do ano 🥹💛
Obrigada por cada comentário, cada mensagem, cada surto compartilhado comigo ao longo dessa jornada. Vocês fizeram 2025 ser um ano muito especial pra mim como autora.
Esse capítulo foi um abraço quentinho. Um dia simples, íntimo, cheio de pequenos gestos, a casa do Charles, o Liam ocupando espaço com tanta naturalidade, risadas leves, silêncio confortável… e, claro, o primeiro beijo. Nada explosivo, nada corrido. Só aquele momento que precisava acontecer exatamente assim.
Espero que vocês tenham sentido o mesmo calor no peito que eu senti escrevendo. Que esse capítulo fique com vocês durante as festas, como um lembrete de que as coisas mais importantes às vezes acontecem nos detalhes.
Desejo a todas vocês boas festas, um Natal cheio de afeto, e um Ano Novo leve, com saúde, amor e muitas histórias boas pra contar (e ler 👀📚).
Nos vemos em 2026 com mais capítulos, mais emoções e mais caos do jeitinho que a gente gosta.
Com todo meu carinho,
🖤 Nyx

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