Independente do Cosmos 🪐
Última Atualização: 16/10/25Halloween.
Desde que haviam se conhecido no fundamental da Lawrence, em Massachusetts, o pacto havia sido feito; todo ano a data comemorativa seria comemorada na casa de um deles e, naquele em específico, seria na residência de South.
E claro que ela não poderia recusar.
Com a ajuda deles, preparou todos os comes e bebes em uma mesa gigante que não só reunia variados tipos de comida, como salsichas em formato de dedo e pizza de múmia, mas também os doces e bebidas mais estranhas que encontraram para comprar.
Agora, se encontravam sentados no carpete em círculo, rodeados de alguns copos vermelhos já usados e algumas pipocas espalhadas pelo chão.
— Podíamos colocar um filme depois. E poderia ser Halloween. Michael Myers é um clássico — Josh comentou, lançando uma bala para cima antes de abocanhá-la.
Claire revirou os olhos, ajeitando os óculos de grau de forma desconfortável. A garota não gostava muito do Halloween, só estava ali por muita insistência de sua prima, .
— Eu tô aqui pra me divertir. Não pra ficar vendo filmes de terror — desconversou, apoiando o queixo nas mãos. — Já basta você tentando dar susto toda hora.
Ele deu uma risadinha.
— Eu só tentei uma vez!
— Você tentou imitar um fantasma atrás da cortina, idiota — Ethan comentou, empurrando o amigo. Os demais riram.
— É. Mas teve gente aqui que quase se borrou de medo — olhou de canto para Mirna, que não fazia a menor questão de dar bola para o engraçadinho do Josh. Ela não tinha paciência para a personalidade completamente irritante do amigo.
— Cala a boca — murmurou. — Tenta crescer um pouco. Vai te fazer bem.
O loiro fez uma careta, mostrando o dedo médio segundos depois.
— Parem vocês dois, vai. Vamos agir como um grupo de amigos decentes — se ajeitou, jogando algumas pipocas que estavam espalhadas, nos dois.
— Decentes? Com esse grupo? — Ethan apontou para todos eles. — Acho que você tá pedindo demais, .
— Tô pedindo o mínimo — respondeu. Pegou seu copo vermelho e deu um gole na bebida já quente. — E, sinceramente? O mínimo seria vocês pararem de agir como se tivessem doze anos.
Josh colocou a mão no peito, fingindo ofensa.
— Doze não. Quinze.
— Mentalmente, talvez — Mirna rebateu, arrancando uma risadinha de Claire e .
Josh a empurrou com o pé, começando uma briga falsa entre os dois. Quem quer que visse eles e não os conhecesse, com toda certeza diriam que existia um amor escondido no coração dos dois amigos. Mas, claro que não ousariam dizer tal coisa em voz alta.
A música da playlist havia mudado e tocava um rock antigo, quase um instrumental com órgão e sinos, bem a cara do Halloween, começou a tocar. O grupo de amigos estava mais relaxado, jogando conversa fora enquanto acabavam com os doces que haviam comprado. Quase não era possível ouvir a chuva fraquinha que caía do lado de fora, batendo contra as janelas.
— Ok. Chega de drama vocês dois — Claire endireitou a postura, um pouquinho mais animada que antes. — A gente podia abrir os presentes, né?
— Finalmente — bateu palminhas. — Achei que íamos passar a noite discutindo a imaturidade do Josh.
— Até você, ?! — protestou.
Mas a garota o ignorou, mais focada nos presentes que Ethan e Mirna juntavam no meio do círculo.
Como de praxe, além de se reunirem na data comemorativa, também sempre faziam um amigo oculto bobo entre eles. Com presentes bestas e engraçados.
Todos adoravam.
Fizeram um rápido sorteio e a primeira pessoa a tirar o nome havia sido Mirna.
Puxou o embrulho com seu nome escrito e rasgou o papel sem qualquer delicadeza, abrindo um sorriso mínimo no canto dos lábios; uma caneca preta com o desenho de um gato usando chapéu de bruxa.
— Olha. Até que esse eu gostei — comentou, ainda olhando o objeto.
— Eu que te tirei — Ethan disse, orgulhoso. — Achei bem a sua cara.
— Ah, é? Por quê? Por que odeio gente?
segurou a risada e o garoto deu de ombros.
— Basicamente, né?
Os demais amigos riram, achando graça da situação. Josh aproveitou para distribuir mais doces e oferecer mais bebidas.
— Eu falei que ia combinar com ela. Caneca preta, gato mal-humorado… Perfeito pra ela — Josh olhou para a garota. E dessa vez, foi ela quem deu o dedo do meio para ele.
Claire havia sido a próxima e pegou o embrulho com seu nome. Ao abrir, olhou o que segurava com atenção; um pequeno pingente em forma de abóbora. Era uma graça!
— Quem me tirou?
Josh levantou a mão.
— Fui eu. Achei que ia combinar com você.
Ela fez uma careta, mas sorriu logo depois.
— É bonitinho. Obrigada!
— Tá vendo? — o garoto se apoiou no sofá. — Também sei ser fofo às vezes.
— E isso assusta — Ethan murmurou, tossindo logo depois.
Todos ali riram.
olhou para os outros pacotes espalhados no carpete e pegou o seu. Parecia pesado, apesar de pequeno. Quando abriu, deu de cara com um livro de contos de terror.
E ela amava terror.
— Caramba! Quem tirou meu nome?
— Eu! — Claire disse, animada. — Juro que tentei achar um livro mais leve, mas lembrei que você adora esse gênero. Então ia combinar.
sorriu, abraçando a prima rapidamente.
— Obrigada! Eu adorei.
Ethan foi o próximo e logo depois, Josh. Os dois fizeram a festa com seus presentes; uma máscara de zumbi e outra do Ghostface. Típico demais e bem a cara dos dois amigos.
Pouco tempo depois todos os presentes já tinham acabado ou, pelo menos, deveriam ter acabado. A contagem estava certa, mas nenhum deles conseguia entender porque ainda sobrava um.
Mirna indagou primeiro.
— Não era pra ter sobrado nenhum presente. Né? — apontou para a caixa preta, com um laço também preto, mas cintilante, no canto do carpete.
Todos se entreolharam. O presente realmente não havia sido de nenhum deles. Não tinha nome, nem qualquer etiqueta.
— Ok. Isso é estranho — Ethan aproximou o corpo minimamente, observando o embrulho. — Não tem nome, nem nada.
Josh se inclinou, assim como o amigo, mas um pouco mais curioso que ele.
— Deve ser pegadinha. E dessa vez tenho certeza que não fui eu.
— A gente não combinou de fazer nada disso — a prima de cruzou os braços. — Todo mundo só trouxe um presente, certo?
— Certo — assentiu. Olhou para os amigos, esperando a confirmação. — Certo, né, gente?
Josh, Ethan e Mirna assentiram rapidamente, como se suas mentes estivessem pensando em quem poderia estar dando uma de esperto. Ficaram todos em silêncio por alguns segundos, mais tempo do que realmente deveriam ficar.
— E agora? A gente abre ou joga fora? — Mirna encostou o corpo no sofá. Como se aquilo não fosse nada demais. E esperava mesmo que não fosse.
Josh sorriu travesso.
— Joga fora nada. Vamos abrir, vai que é alguma coisa legal.
Claire, do seu lado, bufou. Aquilo não parecia ser boa coisa.
— Claro. Presentes misteriosos sempre acabam bem em filmes de terror, né?
— É só uma caixa, Claire — Ethan empurrou a garota levemente pelo ombro, tentando aliviar toda a tensão. — E não estamos em um filme de terror.
ainda tinha os olhos focados no pacote.
— Tá. Acho que vou abrir.
— Mas… — Claire tentou impedir. Josh, na euforia, tapou a boca da garota que resmungou meio segundo depois.
— Abre logo! Ou vamos virar a noite tentando decidir isso.
Ela respirou fundo, puxando a caixa preta para si. Desatou o laço da fita escura e balançou o que segurava logo depois.
Fez uma careta.
— Isso aqui tá pesado — murmurou. tentou tirar a tampa, fazendo um certo esforço e a cola que a segurava parecia endurecida, como se tivesse sido colado há muito tempo.
— Quer ajuda? — Ethan se aproximou.
— Não, acho que… Consegui.
A tampa desgrudou logo depois. E a ansiedade de todos ali foi sumindo aos pouquinhos.
Dentro da caixa tinha um saquinho transparente. Cheio de dentes.
Alguns amarelados, outros rachados. E um ou dois ainda sujos de algo escuro.
Sangue seco.
Ninguém ousou falar nada. Os amigos permaneceram estáticos, processando o que acontecia.
foi quem se pronunciou um tempo depois, sentindo o coração chacoalhar dentro do peito.
— Isso é sério? — perguntou baixo, quase sem voz.
Claire tapou a boca com uma das mãos, com os olhos arregalados.
— Meu Deus…
— Eu não fiz isso — Josh riu sem graça, mais nervoso do que todos reunidos ali. — Juro por Deus que não fiz.
— Tá de sacanagem? Que brincadeira ridícula é essa? — Mirna exclamou, nitidamente irritada com a situação. Ethan, do seu lado, parecia uma estátua, totalmente em choque.
A garota, ao ver a situação dos amigos, se aproximou pegando o saquinho das mãos de . Queria pelo menos mostrar que não deveriam se preocupar, já que provavelmente era um daqueles dentes de brinquedos que eram vendidos nas lojas da cidade.
Mas, ao analisar de perto, soltou o embrulho transparente com rapidez.
— Isso não é plástico… — comentou, com certo nojo na voz. — São dentes de verdade.
Claire, por reflexo, se afastou do círculo que estavam sentados. Josh tinha a expressão assustada, assim como Ethan, que não conseguia parar de encarar o “presente”.
No fundo da caixa preta, notou um papel amassado e também sujo. O pegou com a ponta dos dedos, abrindo com toda a aversão que sentia no momento.
A caligrafia era torta, rabiscada e manchada de marrom.
Sentiu o estômago revirar.
E, por um momento, ninguém mais respirou.

