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Independente do Cosmos🪐

Última Atualização: 24/12/2025


levou alguns segundos para absorver o que tinha acontecido. tinha simplesmente fugido? Assim que voltou a si, jogou os cobertores para longe e praticamente pulou para fora da cama, não se importando em calçar qualquer coisa nos pés ou vestir uma camisa. Abriu a porta rapidamente, na esperança de ainda encontrar ali, mas claro que não encontrou, o que o fez xingar alto.
A casa era enorme e podia estar em qualquer lugar. Seu quarto ficava à direita das escadas, mas havia muito para o outro lado, cômodos que sequer sabia o que eram, fora um terceiro andar que ele nunca tinha visitado.
Suas opções eram explorar uma casa que não era sua sem permissão, gritar por em voz alta ou apenas descer para o andar inferior torcendo para que ele estivesse ali.
— Você podia procurar ele por mim. — sussurrou para Mochi, que havia se levantado atrás dele. O gato o encarou cheio de desdém, miou, e então deu as costas, voltando para o quarto. quase pôde ouví-lo falando que não era problema dele. — Gato nojento. — bufou. Se mais irritado com o gato ou com , não sabia dizer.
Após pensar um pouco, optou pela terceira opção, pronto para xingar ainda mais quando o encontrasse.
Desceu as escadas em silêncio, sem ter ideia de que horas eram ou se ainda estavam dormindo, mas antes mesmo de chegar ao andar inferior, já começou ouvir vozes vindas de algum lugar ali.
Inclusive a de .
Seguiu as vozes até a cozinha, e encontrou o loiro sentado ao balcão entre e , enquanto estava de pé do outro lado, mexendo em algumas panelas. O ambiente tinha um cheiro agradável de pão fresco e café, mas apenas se sentiu irritado. ria de algo com , como se nada tivesse acontecido. O que quer que ele tivesse visto no pescoço do loiro, inclusive, havia sumido completamente, mas sabendo sobre magia e pensando na forma como estava sempre coçando aquela região do corpo, não era muito difícil imaginar o que ele tinha feito.
, acordou cedo! — exclamou ao vê-lo ali. Os outros estavam de costas, mas se viraram para ele quando falou. — Sente-se para tomar café conosco.
— Vai te ajudar com a ressaca. — comentou, mas ainda encarava sem desviar o olhar.
Não queria estar acordado tão cedo, especialmente fora da cama quando sua cabeça doía tanto. A luz tinha piorado a dor, mas teve que descer apressado porque simplesmente saiu correndo. E como se não bastasse, ele apenas agia como se tudo estivesse perfeitamente normal, como se não tivesse apenas fugido dele.
Seu ódio cresceu, especialmente porque agora ele estava descalço e sem camisa na frente de completos estranhos. Provavelmente estava descabelado também, e com remela nos olhos. Ia matar assim que tivesse a chance. Estava decidido.
— O que era aquilo? — foi direto ao ponto.
— Aquilo o quê? — perguntou.
— Também não sei. — mentiu, o que deixou ainda mais estressado.
— Você pode mentir para eles, mas não para mim. — o lembrou, e fez uma careta. Aparentemente, ele tinha se esquecido disso. Talvez não devesse ter lembrado, poderia guiar melhor a conversa dessa forma, mas não imaginou realmente que ele tivesse esquecido.
— Do que ele está falando, ? — perguntou, voltando-se para o loiro.
não disse nada, apenas desviou o olhar de forma meio culpada e o próprio assumiu então:
— Ele tinha algo no pescoço quando acordou.
Todos se voltaram para após sua fala, exceto por , que riu enquanto voltava a pegar sua xícara de café.
— Demorou muito até. — falou ele, levando sua xícara até a boca. Ele estava tão tranquilo que deduziu rapidamente que todos sabiam exatamente o que era aquilo e sobre o que ele estava falando.
. — o chamou, em tom de aviso, deixando claro que ele não deveria dizer mais nada. O outro não gostou muito disso.
o cassete. — ele respondeu. — Já passou da hora de você contar a ele.
— Isso não é da sua conta.
— Eu adoraria que não fosse, mas fazemos parte do mesmo clã. — voltou a falar. — Você está se aproximando do garoto e o trazendo para dentro. Como pretende esconder dele a principal coisa sobre você?
! — o interrompeu.
, vamos deixar o lidar com isso. — entrou na conversa, muito mais calmo, e apenas ficou em silêncio, esperando que esquecessem dele ali e falassem mais do que deveriam enquanto discutiam um com o outro.
— Se ele estivesse lidando, não estávamos nessa situação.
— Mas cabe a ele contar. — interveio também, e se deu por vencido. Ele ergueu as mãos em sinal de rendição e voltou a se concentrar em seu café.
— Eu ainda estou esperando. — voltar a falar então, impaciente. — Contar o quê?
— Nada. Não tem nada para contar. — mentiu de novo, fazendo bufar enquanto ficava ainda mais irritado. Ele o encarou cheio de ódio, sem saber se estava mais puto por estar escondendo algo ou por estar apenas mentindo sem se importar que soubesse disso.
Ele sabia que sabia, e mesmo assim não se importava. Quis gritar isso para ele, mas engoliu sua irritação no último instante.
— Então tá. — deu as costas, voltando para as escadas sem dizer mais nada. Se ele queria assim, tudo bem, não ia discutir, mas também não ia ficar ali.
No mesmo instante, ouviu se levantar para vir atrás dele.
— Onde você está indo? — perguntou, soando alarmado. Como se tudo isso não fosse culpa dele.
— Pegar minhas coisas, eu vou embora.
— Você não pode ir embora. acha que descobriu algo ontem! Precisamos testar!
— Então eu falo com depois.
— Você já está aqui agora. Pode ver isso agora. — o loiro o segurou pelo pulso, mas irritado como estava, se virou para ele rapidamente, se esquivando de seu toque.
— Você é idiota, por acaso?! — levantou a voz. — Você tem mais de noventa anos na cara e vai agir assim?!
— Assim como?! — perguntou, meio assustado com sua explosão. deu um passo para trás quando gritou, mas o fato dele insistir em se fazer de desentendido o irritava profundamente.
Se era um assunto sensível para , ele podia apenas dizer isso. entenderia. Iria engolir sua curiosidade e aceitar a resposta. Mas não, preferiu apenas mentir, fingir que estava louco. Se era assim que ia agir sempre que um assunto delicado surgisse, então preferia ficar longe.
— Vai se fuder, sério. — voltou a dar as costas, se recusando a realmente explicar algo tão óbvio. Até porque, nem era como se não soubesse. Ele sabia, ele apenas tinha escolhido se fazer de desentendido.
— Eu te falei aquele dia que tinha alguma coisa, mas que eu não queria falar sobre isso. Você disse que respeitava!
— Ah, falamos? — se fez de desentendido também. — Você está até agora falando que não tem nada, que não aconteceu nada, que eu não vi nada. De repente a gente até já falou sobre isso? Agora existe alguma coisa?
— Você sabe que sim.
— Não graças a você, já que preferiu mentir pra mim mesmo sabendo que eu sei quando você mente. — retrucou. estava certo, ele já tinha dito que não queria falar sobre isso, mas era diferente. Agora tinha visto o que era, mesmo que não entendesse. Além disso, o problema todo era mentir mesmo ciente de que já sabia uma parte da história. Ter escolhido fugir a conversar mesmo quando a conversa podia ser simples. — Você devia ter vergonha. Queria o que? Fingir que eu estou louco? Que eu alucinei?! Se eu não pudesse saber que você está mentindo, era isso que você ia fazer, não era?! Estava fácil de resolver, você podia dizer que não queria falar sobre o assunto, mas ia fingir que eu não vi nada, que eu tinha sonhado com isso!
viu na cara de quando ele percebeu que tinha feito bobagem, agido mal. Viu quando ele se arrependeu. O loiro suspirou, meio constrangido, e tentou se aproximar mais uma vez.
— Podemos conversar lá em cima? — pediu.
— Não, foda-se você, perdeu sua chance. Não quero mais conversar. — voltou a dar as costas, mas novamente, veio atrás.
— Isso não é sobre você pra você agir assim! — ergueu o tom de voz também. — Eu não me sinto confortável falando sobre isso!
— Mas é burro mesmo, cara. Como pode? — comentou de algum lugar no fundo. Já não estavam mais na cozinha, mas os dois puderam ouvir.
— Cala a boca, ! — vociferou para ele, mas parou novamente para se voltar outra vez para o loiro.
— Não, ele está certo! — retrucou. — Eu acabei de te dizer exatamente isso. Se você não queria conversar sobre o assunto era só dizer que não queria, exatamente como você fez no outro dia. Porra, você é estúpido?! Você mentiu que eu não vi nada sabendo que eu posso sentir que você está mentindo! Mentiu na cara dura, tentou me passar de doido! Era só dizer que não queria conversar, era muito mais fácil do que isso! Noventa anos na cara, pelo amor de deus!
— Minha idade não tem nada com o assunto, para de repetir isso!
— Não paro, você tem noventa anos e não aprendeu porra nenhuma. É um velho burro do caralho. — xingou, e acabou rindo. Precisou se segurar para não rir também porque apesar de estar puto, conseguia ver graça no xingamento também.
— Vamos conversar, por favor. — insistiu novamente.
— Não quero.
— Se eu sou um velho burro você é um pirralho cabeça dura.
— Não fui eu que fiquei mentindo feito um idiota e sai correndo ao invés de conversar!
— Você está fazendo exatamente isso agora. — riu novamente, embora dessa vez fosse de pura incredulidade. — Por favor, vamos conversar.
— Você já teve sua chance, .
— Está bem, eu agi errado, me desculpa! — pediu, tentando mudar de tática. Era um bom começo. — Eu menti e não deveria.
— Eu sei disso.
— Eu sei que você sabe, mas não me desculpei e eu queria me desculpar. Por favor, vamos conversar. Eu fiquei nervoso e tive a pior reação que poderia sobre isso, mas quero consertar.
o encarou em silêncio por alguns instantes, pensando se deveria ou não ouví-lo. Ainda estava irritado e ainda queria mandar a merda, mas por fim concordou com a cabeça. Não fazia sentido se negar a conversar após ter brigado com o outro exatamente por isso.
Sem dizer mais nada, voltou a dar as costas. Já estavam próximos as escadas agora e ele a subiu em silêncio, com vindo atrás.
foi o primeiro a entrar novamente no quarto e fechou a porta atrás de sí, acendendo a luz. ficou esperando por ele de pé, os braços cruzados em frente ao peito, enquanto optou por seguir direto para a cama, sentando-se na ponta com as pernas para fora.
— Desculpa ter fugido. — ele pediu, olhando para os próprios pés. — Eu só fiquei nervoso. Não era para você ver isso.
— E então decidiu mentir? Como se eu não fosse saber?
— Eu esqueci disso também na hora. Não justifica, eu sei, porque eu ainda menti...
— E insistiu na mentira. — completou, mesmo que pudesse sentir que estava mesmo arrependido. Ele estava falando a verdade agora.
— É... Mas eu realmente fiquei nervoso. Não menti sobre ser um assunto delicado pra mim, por isso eu agi assim. Desculpa. — pediu novamente, e suspirou para se acalmar. Ainda estava irritado, mas podia aceitar aquele pedido de desculpas. Sabia que era genuíno e não podia culpar por ter suas próprias inseguranças. Ele mesmo tinha várias, conseguia entender isso.
— Certo. Eu aceito suas desculpas. — falou, aproximando-se para se sentar ao lado dele. — Mas eu ainda gostaria de saber o que aconteceu, se você puder explicar.
— Eu realmente gostaria de não falar sobre isso especificamente.
— Tudo bem, eu não quero te pressionar, mas você pode me dizer do que você tem medo? O que você acha que eu vou fazer se você me mostrar? — questionou. Pelo que tinha falado, desconfiava que o que tinha visto era apenas , era ele de verdade, e estava usando magia para esconder.
Realmente não queria pressioná-lo e insistir no assunto era exatamente isso, mas era melhor usar magia para se esconder dele? Especialmente quando esconder fazia mal pra ele? Ok, ninguém tinha dito isso especificamente, mas as informações que tinha eram o suficiente para deduzir isso.
— Eu só vou descobrir se contar, o que soa um pouco incerto demais para mim. — respondeu. — Esse é o problema.
— Eu não tenho nenhum problema com a minha aparência, mas você sabe que de qualquer forma eu entendo de ser diferente e de ser excluído por isso. Eu não me afastaria por isso, . É mais fácil eu me afastar porque você não está sendo sincero. — falou. Não tinha um problema com mentiras especificamente, podia entender que algumas eram para o próprio bem. Tinha coisas que ele às vezes preferia não saber, então compreendia isso, mas falta de comunicação realmente o irritava. — Além disso, eu meio que já vi o que você tem ai por baixo, sabe? Você não precisa me contar nada, mas eu já vi e já entendi que o que quer que seja, faz parte de você. Eu já podia ter ido embora se essa fosse minha intenção. — o lembrou, se levantando da cama para encerrar a conversa já que não queria conversar. — Você não precisa decidir nada agora, mas pelo menos pense sobre isso.
Sem esperar por uma resposta, olhou ao redor para procurar suas roupas pelo quarto. Precisava usar o banheiro e se vestir para descer atrás do .
Não precisava exatamente sair do quarto para se vestir, já o tinha visto pelado por vezes o suficiente, mas a questão era muito mais deixá-lo um pouco sozinho para pensar e ter seu espaço.
Encontrou suas roupas dobradas sobre o encosto da cadeira em frente a mesa do computador e as pegou para seguir até o banheiro, mas o chamou antes disso:
?
— Uhm? — ele perguntou, virando-se para ouvir o que ele tinha a dizer.
Sinceramente, queria sim ver o que estava escondendo, mas estava disposto a esperar. Queria que pensasse sim sobre o que ele tinha dito, mas não imaginava realmente que ele fosse chegar a uma conclusão tão rápido. Basicamente, não esperava que, quando se virasse, estaria diferente do que ele estava acostumado a ver, em sua forma que agora ele sabia, era a natural.
Como tinha visto antes, havia uma enorme mancha preta se iniciando atrás de sua orelha e sumindo por baixo de sua camisa, mas agora, olhando melhor e no claro, podia dizer que era mais do que isso. Havia textura, era exatamente como a pele de uma serpente e voltou a arregalar os olhos ao notar.
Não era como a pele de uma serpente, era exatamente isso.
Sem pensar duas vezes, deixou as roupas de volta no lugar, sem tirar os olhos de , e se aproximou. ainda estava sentado no mesmo lugar, mas abriu as pernas quando percebeu que não se sentaria ao seu lado. O mais novo parou exatamente a sua frente, e inclinou a cabeça de lado para que ele tivesse mais acesso.
— Eu posso tocar? — perguntou, sem se conter. Estava admirado.
— Pode.
Com a permissão, levou a mão até seu pescoço, o tocando com a ponta dos dedos. estremeceu, e ele se lembrou de todas as vezes que o loiro teve a mesma reação quando tocado ali. Imaginou que aquela parte de seu corpo pudesse ser mais sensível que o normal, mas não fez nenhum questionamento sobre isso, mais focado em apenas admirá-lo. Constatou que a textura ali era realmente diferente e apesar de nunca ter tocado uma serpente antes, teve certeza que a textura de sua pele era exatamente igual ao do réptil.
já achava lindo antes e sequer tinha visto toda sua beleza ainda. era incrível, simplesmente perfeito e seu coração completamente acelerado dentro do peito era a prova disso. era a pessoa mais bonita que já tinha visto.
— Não é possível que você ache isso menos que perfeito, . Porra, você é lindo.
Mesmo sem olhar para seu rosto, percebeu que sorriu. Ele tinha falado aquelas palavras com tanta admiração que o loiro com certeza notou a sinceridade.
De repente, sentiu muita vontade de beijá-lo, mas quando segurou seu rosto entre as mãos para erguer sua cabeça e fazer encará-lo, teve outra surpresa. Seus olhos também estavam diferentes. Eles eram amarelados, e sua pupila não era redonda e sim esticada na vertical. Eram olhos de serpente. ficou completamente fascinado, quis socá-lo por esconder tudo aquilo.
— Você é lindo, sério. Vai se fuder. — xingou, apertando suas bochechas para que fizesse um bico pra ele beijar.
riu contra seus lábios, e o empurrou de leve.
— Você é um idiota, não deveria se esconder. É como um blackout, as pessoas fazem isso hoje em dia. Se alguém tocar e perceber o relevo você fala que fez para cobrir a cicatriz de um acidente. A pessoa vai ficar tão constrangida de ter perguntado que vai deixar pra lá. — sugeriu.
— As pessoas não são o único problema, . Eu não gosto da minha aparência.
— Por que é um idiota. — retrucou, realmente indignado com isso. — É a coisa mais bonita que eu já vi. Você é lindo, . Vai se fuder. — xingou de novo, fazendo o outro rir.
— Você tem um jeitinho lindo para elogiar as pessoas.
— Não tem nada mais sincero que um palavrão espontâneo. — devolveu, finalmente sentando-se ao seu lado na cama. — Se você realmente não se sente bem com isso, tudo bem. Eu sou a favor de fazer o que for melhor pra gente se sentir bem, mas esconder essa parte de você também é incômodo, não é? Pelo que eu entendi? Ela não faz você se sentir totalmente bem. — falou, perguntando apenas para ter certeza, mas ao invés de responder, suspirou, o que fez notar que estava insistindo em uma assunto que já tinha dito que não queria debater. — Uhm, certo. Você não quer falar sobre isso, eu tinha esquecido. Desculpa.
— Não me importo de falar sobre isso na verdade, o que realmente me incomoda é a minha aparência. — voltou a suspirar. — Acontece que a maioria dos bruxos das sombras costumam ser híbridos e podem se transformar em serpentes. — explicou, fazendo arregalar os olhos. Ele era um bruxo das sombras, afinal. Podia fazer isso? — Acreditamos que você não tenha essa habilidade, ou já teria causado algum acidente. — falou, como se pudesse ler seus pensamentos. — A transformação inclui veneno e presas, você saberia se pudesse fazer isso.
— Espera, você pode envenenar as pessoas?! — perguntou, chocado.
Ao invés de responder, mostrou os dentes. De repente havia presas ali. podia apenas fazer com que presas surgissem em sua boca, presas venenosas. deixou o queixo cair.
— Porra, isso é tão legal. — realmente adoraria poder fazer tudo aquilo, e seu comentário fez voltar a rir.
— É de se esperar que você ache isso, como um bruxo das sombras. Mesmo que não se transforme, costumamos ter um apreço pelas serpentes, como a que você tem tatuada.
— E você acha que eu ter achado bonito é por isso? — perguntou, mas já sabia a resposta. não disse nada, mas não precisou. Sua expressão já dizia tudo e precisou se controlar muito para não levantar e voltar a xingá-lo. — Você é um idiota, sério. Você acha feio apenas porque é diferente do normal, mas ser diferente é justamente o que te torna tão bonito. Você é único, e as pessoas que não podem lidar com isso ou te aceitar como você é não são pessoas que valem a pena manter na sua vida. Seu clã te aceita como você é, e eles são a família que você escolheu. Quem mais precisa te amar, ? Estranhos na faculdade que você vê uma vez ou outra valem tanto a pena assim? Ao ponto de você causar desconforto em si mesmo para esconder uma parte de você? — perguntou. — Eu entendo que você também não gosta, que você se olha no espelho e não gosta do que vê, mas você não acha que pensar tanto em como as outras pessoas vão te ver não contribui?
— Você provavelmente está certo. — admitiu. — Mas não é fácil mudar um pensamento que está com você há noventa e três anos.
— Eu entendo, mas você tem um empata em casa que também é psicólogo. Você deveria tentar isso. Deixar as coisas como estão também não vai te ajudar a mudar de pensamento. — sugeriu. — Eu não me importaria se você quisesse esconder e isso não te fizesse mal, mesmo que eu te ache ainda mais bonito assim, mas é evidente que te faz mal, então não faz sentido deixar as coisas como estão. Você não precisa decidir nada agora e nem me falar o que vai fazer, mas pense sobre isso.
— Eu vou pensar, . — suspirou novamente, mas dessa vez tinha um sorriso no rosto. Independente do que ele fosse decidir, podia sentir que ele estava aliviado com o desfecho da conversa.
— Isso é tudo que eu gostaria, obrigado. — também sorriu para ele, e acabou um pouco perdido demais nos olhos amarelados do outro. Se já era difícil lidar com o quão bonito era antes, agora era impossível. — Você disse que bruxos das sombras podem se transformar em serpentes. Você também pode, então? — perguntou a primeira coisa que lhe veio em mente, apenas para se distrair do próprio .
— Na verdade não, por isso eu sou assim. — ele explicou. — Tem relação com aquela coisa de ter nascido errado. Da mesma forma como eu não tive magia das sombras o suficiente, eu também não nasci com essa habilidade. Eu tenho algumas características físicas da serpente e o veneno, mas não posso me transformar.
Se fosse qualquer outra situação, brincaria sobre ele ter nascido todo errado, mas considerando toda a insegurança que já tinha em relação a isso, guardou o comentário para si, optando por dizer outra coisa:
— Então eu não me transformo e você se transforma pela metade... Somos uma bela dupla. — falou, fazendo rir outra vez.
— É, eu acho que sim. — ele concordou, deixando um tapa em seu joelho em seguida. — Vai se trocar, vai. Vamos tomar café e depois testar o que o aprendeu.
, sinceramente, já tinha se esquecido disso, mas tratou de se levantar assim que falou novamente sobre o assunto.
— É pra já. — concordou, seguindo rapidamente até o banheiro. também se trocou enquanto ele estava lá, e depois de estarem devidamente apresentáveis de novo, desceram as escadas de mãos dadas, o que fez de forma totalmente espontânea e fingiu que não percebeu, mesmo que todos na casa tenham olhado para suas mãos juntas quando eles apareceram novamente no andar inferior.

🔮🔮🔮

— Certo, o bruxo com quem eu falei na confraternização é um dos mais velhos ainda vivos. — começou a explicar assim que todos se reuniram na sala. e estavam sentados nas poltronas laterais a direita, , e estavam no sofá grande à esquerda e estava com no sofá do centro, em frente a televisão. — Eu descobri através de um dos livros que estamos lendo que ele estava vivo na época da caça às bruxas e isso é importante porque, também recentemente, descobri que nessa época os bruxos não apenas evitavam usar seus poderes, eles literalmente os escondiam dentro de si. Eles usavam magia para aprisionar seus poderes para que não corressem risco de usá-los e serem pegos.
Assim que terminou de falar, sentiu seu coração saltar dentro do peito. Ele não sabia dizer bem de onde vinha, mas ele teve a sensação de que estavam no caminho certo, como se algo dentro dele imediatamente começasse a gritar que sim, era aquilo.
Talvez fosse sua magia, talvez ela também quisesse aquilo e estava avisando que estavam no caminho certo. O pensamento lhe fez se encher de esperanças, mas junto dela também teve medo.
Criar expectativas muito altas era a melhor forma de se decepcionar.
— Me parece uma ideia estúpida. — falou, e todos se voltaram pra ele. — O que eles fizeram, eu digo. Os motivos para ser acusado de bruxaria na época eram os mais aleatórios possíveis e se mesmo sem usar os poderes eles fossem pegos, não poderiam se defender ou se salvar.
— É um pouco mais complexo do que isso na verdade. — respondeu, mas foi quem continuou a fala:
— Conhecendo nosso povo, eu aposto que o negócio era muito mais sobre impedir que as pessoas expusessem o mundo mágico caso fossem pegas. Era sobre proteger a maioria, mesmo que isso também estivesse prejudicando uma grande parte.
— É exatamente isso. — concordou. — Até porque, eram os camponeses que sofriam com as acusações. A burguesia não precisava se preocupar com isso.
— E eles simplesmente sacrificavam uns aos outros? — perguntou, meio horrorizado. Não era novidade tudo ser sobre quem tem mais dinheiro ou poder no final, mas eram bruxos praticamente jogando o próprio povo na fogueira para se salvar.
— É basicamente isso, com a desculpa de estar garantindo um bem maior. Na visão deles, se você fosse burro o suficiente para ser pego então merecia ser sacrificado pelo "bem maior". — continuou. — O ponto é, tenho grandes motivos para acreditar que a magia que foi usada em você é a mesma que eles usavam naquela época, porém, como não é mais um feitiço usado hoje em dia, não temos fácil acesso a ele para saber qual é. O livro onde eu achei essa informação era um livro de história, não de feitiços, mas mesmo os livros de feitiços mais antigos que eu consegui encontrar não falavam sobre ele. Por isso precisei recorrer a um bruxo que viveu naquela época.
— E ele sabia o feitiço? — perguntou, ansioso, só percebendo que se inclinou para frente quando , ao seu lado, apertou seu joelho em apoio.
— Ele me passou o feitiço, sim. Mas já avisou que não tem certeza se está certo. Não era ele quem aplicava o feitiço, ele foi um dos bruxos que teve sua magia aprisionada. O bruxo que o utilizava já estava muito velho naquela época e desapareceu há muitos anos, no fim da era de caça às bruxas. O que aconteceu é que em algum momento, os bruxos se revoltaram com a situação e quiseram seus poderes de volta. Naquela época, o bruxo mais velho era tido como um ancião, era ele quem dava as ordens e definia as regras do nosso povo. Ele era essa pessoa, e quando perdeu o controle, simplesmente desapareceu.
— Ele sumiu sem devolver o poder das outras pessoas? — perguntou, cheio de julgamento.
— Sim. E como ele era muito velho já naquela época, acredita-se que ele tenha morrido em algum lugar.
— Isso tudo não me soa muito promissor. — se decepcionou um pouco, suas expectativas começando a diminuir.
— De fato não é, mas é a primeira pista que temos. — o encorajou, e com isso precisava concordar. Quanto mais lia, maior sua certeza de que estavam andando em círculos. Aquela era a primeira informação útil de verdade.
— Então, do que precisamos? — voltou a perguntar.
— Preciso que você se deite. A magia fica aprisionada no seu coração e eu vou tentar acessá-la. Se o feitiço estiver certo, eu vou poder sentir ela aí dentro, mesmo que não consiga soltá-la.
— Se você já tem o feitiço, porque não conseguiria soltá-la? — perguntou, já temendo a resposta.
— Não sabemos ainda quanto de energia esse feitiço exige. Só vamos saber quando tentarmos... — explicou, e algo em seu tom de voz demonstrava que mesmo , não estava muito esperançoso.
Olhando ao redor, notou que ninguém parecia na verdade, como se soubessem de algo que ele não sabia. estreitou os olhos por isso, pensando sobre o que havia escutado. Imediatamente, lembrou-se de quando tentaram libertar Mochi para sua forma natural e não conseguiram. explicou que o bruxo que o aprisionou naquela forma era muito poderoso e apenas outro bruxo tão poderoso quanto poderia desfazer o feitiço.
Se era assim e o mesmo bruxo tinha aprisionado a magia de , não era muito difícil deduzir o que iria acontecer.
Era isso que ele estava falando sobre ter esperanças. A decepção que sentiu foi avassaladora.
— Vocês não podem simplesmente combinar as magias para ficar mais forte? — perguntou, embora soubesse que se isso fosse possível, eles provavelmente já teriam feito.
— Conseguimos combinar magia usando feitiços diferentes para um mesmo propósito. — explicou. — Mas para realizar o mesmo feitiço todos juntos, com um mesmo objetivo, precisaríamos fazer um ritual. Infelizmente, por se tratar de um uso muito grande de magia, os rituais são supervisionados pelo nosso conselho mágico desde que meu pai tentou dar um golpe utilizando um ritual.
— Que beleza. — respondeu, se deitando no sofá como o instruído apesar de ter zero esperanças agora.
ainda estava ali, mas apenas se deitou com a cabeça em seu colo. Não era como se já não tivessem tido mais intimidade que isso.
Tinham descido as escadas de mãos dadas, aquilo já era vergonha o suficiente para o ano todo, deitar a cabeça em seu colo não era nada, especialmente quando já estava ali de qualquer jeito.
Ou era disso que queria se convencer.
tratou de afastar logo esse pensamento. Nunca foi uma pessoa tímida, embora não estivesse acostumado com nenhuma demonstração pública de afeto. Tentou se concentrar no que iriam fazer, mesmo que as chances de darem certo fossem mínimas.
Pelo menos, se conseguisse sentir sua magia ali, saberiam que caminho seguir.
Sem dizer mais nada após toda a explicação, se aproximou. O sofá era largo o suficiente para que ele conseguisse se sentar na borda, próximo ao seu quadril, de frente para ele e . Ele ergueu as duas mãos sobre seu coração, sem realmente tocá-lo, e após fechar os olhos, uma luz verde passou a emanar de sua mão.
ficou nervoso, mas não sentiu nada além da tensão quase palpável na sala. Todos estavam tensos, observando enquanto sua expressão ia de concentrada para apreensiva e então preocupada. Não foi muito difícil de deduzir o que estava acontecendo, até porque realmente não estava sentindo qualquer coisa diferente.
Quando a luz cessou, abriu os olhos, suspirando em seguida.
— Nada? — perguntou.
— Eu pude sentir, é isso. Realmente tem um selo ali, como ele disse que teria se fosse o caso, mas não consigo romper. Provavelmente foi feito pela mesma pessoa que apreendeu Mochi nessa forma.
— Deixa eu tentar. — pediu, e se levantou. Eles conversaram um pouco antes, enquanto esperava. teve que explicar a ele o que fazer e pedir que repetisse algumas vezes as falas do feitiço. Após se preparar, assumiu o local onde estava anteriormente.
A luz que emanava de era roxa, mas além disso, nada aconteceu. ainda não sentiu nada e apenas se frustrou ainda mais, se é que era possível.
— E agora? — perguntou, voltando a se sentar quando se levantou. — Sabemos agora qual o problema e como desfazer, mas quem pode fazer isso?
— Dos bruxos vivos hoje, só o Mago Supremo consegue ser mais forte que o , mas não é como se pudéssemos apenas falar disso para ele. — respondeu. — Bruxos das sombras foram condenados ao extermínio há anos atrás, não temos como prever o que ele faria ao saber sobre você.
— Eu não acho que ele apenas condenaria sem chance de julgamento. — interveio. — é jovem, não era vivo quando tudo isso aconteceu, mas até que isso seja decidido...
— Eu já estaria morto, certo. — concluiu sua fala. — E não tem como vocês ficarem mais fortes? No caso, o ?
— Levaria alguns anos. — o próprio respondeu, e suspirou.
— Por que eu sinto que entramos em um beco sem saída? — questionou, mas era só olhar ao redor para ter certeza de que não era apenas uma sensação.
De fato estavam em um beco sem saída, ninguém sabia o que fazer agora.
— Nós entramos. — foi quem disse. — O Mago Supremo está no cargo porque é um homem sensato. Talvez até conseguíssemos sondar ele sobre isso para então pedir ajuda, mas não é como se ele estivesse disponível de qualquer forma, o homem apenas sumiu.
— Nossa melhor alternativa seria realmente um ritual para unir nossas forças, daria certo com certeza, mas com o Mago Supremo desaparecido, o conselho nunca aprovaria algo assim sem supervisão. — falou também. — Mesmo que o tenha poder o suficiente para fazer sua própria supervisão, eles estão desconfiando de tudo e todos, preocupados com outro golpe. Nunca deixariam que fizéssemos algo assim sem outros membros do conselho junto para supervisionar.
— E nós sequer temos um motivo bom o suficiente pra pedir isso. — respondeu.
— Não temos.
— Mas podemos mentir! — repentinamente, animando-se de repente. o encarou com um novo fio de esperança. — Ninguém conhece esse feitiço, certo? Então podemos dizer que é pra outra coisa. A gente pode fingir que um de nós está doente e o ritual é para cura. Vai ser de fato para cura e eles vão sentir isso. Só precisamos de um jeito pra fazer parecer que é pra um de nós enquanto fazemos no .
— Podemos ir atrás de fazer uma porção de metamorfose. — sugeriu, animando-se também. — Leva tempo, talvez meses considerando que nunca fizemos isso antes, mas com certeza um tempo bem menor do que achar o Mago Supremo ou esperar que fique mais forte.
— Cara, isso é realmente um plano! — se animou, remexendo-se no sofá. — É o melhor plano até agora, um que definitivamente vai dar certo!
Parecia de fato promissor e por um lado, voltou a ter esperanças. Porém, considerando tudo que tinha escutado, parecia também arriscado para o clã. Envolvia mentir para o conselho em prol de uma pessoa que estava jurada de morte. Eles iriam por em risco a própria vida sem nenhuma garantia de que, depois, o conselho deixaria vivo. E se acabassem se arriscando por nada? não sabia qual era a punição para esse tipo de coisa, mas considerando que eles mataram todos os bruxos como no passado, não podia ser boa.
queria viver, mas valia realmente a pena para o clã? Não podia simplesmente arriscar todos eles para seu próprio bem.
— Não acho que deveríamos fazer isso. — falou por fim, após pensar um pouco. o encarou completamente confuso, mas quem o respondeu foi :
— Nós vamos fazer.
— O quê? Você nem gosta de mim, por que iria querer arriscar seu clã inteiro por isso?
— Não gosto, mas isso não é só sobre você.
— O quê? Como assim? — questionou, meio perplexo. — Me salvar não é sobre mim?
— Por que você acha que não devemos fazer? — perguntou, interrompendo sua discussão com sem que o outro respondesse sua pergunta. Ele o estava ajudando a fugir do assunto, isso não passou despercebido por . — Você quer viver, me falou isso.
— Sim, eu quero, mas não acho justo arriscar todos vocês por isso. Pelo pouco que eu ouvi e entendi, muita coisa está em risco e eu não acho que vocês deviam se arriscar tanto. Eu sou praticamente um estranho, isso vale realmente a pena?
— Vale. — praticamente todos falaram ao mesmo tempo, o que fez estreitar os olhos. Ele encarou , e o loiro desviou de seu olhar.
Se já desconfiava que havia mais, agora tinha certeza, mas dessa vez ele apenas suspirou ao invés de discutir.
— Só nos deixe ajudar, somos sua única chance. Você sabe disso. — falou. — Nós queremos ajudar, genuinamente, e você precisa de ajuda. Não tem que pensar muito.
não estava mentindo sobre querer ajudar e sobre ser genuíno, mas ainda achava loucura, ainda achava que não valia a pena, e se ele fosse alguém correto o suficiente, desistiria disso por eles.

🔮🔮🔮

Já era fim de tarde e ainda estava na casa do clã. não tinha falado nada sobre levá-lo embora e como ainda queria falar com ele a sós, também não pediu.
Ele estava sentado nos fundos da casa, em um balanço suspenso para duas pessoas que dava para o jardim. Mochi estava deitado ao seu lado e ele tinha uma taça de vinho nas mãos com a qual brincava distraidamente.
estava certo, vinho era bom, provavelmente a melhor bebida entre as que ele tinha provado no dia anterior, mas não estava muito disposto a se embebedar novamente.
— Você está pensativo. — falou, voltando para a área externa. Ele tinha entrado para ajudar com a louça e apesar de, mentalmente, questionar porque eles apenas não usavam magia para isso, não verbalizou seus pensamentos. — Isso não tem relação com aquela coisa de nos arriscarmos por você, tem? — ele continuou, subindo no balanço para se sentar ao seu lado. — Não pense tanto sobre isso. Queremos ajudar e você precisa de ajuda, só deixe como está.
— Eu sei que vocês querem ajudar, mas eu sei também que tem algo mais sobre isso que vocês não estão me contando. — respondeu. — Por que me ajudar vale todo esse risco? Por que é que até o é a favor dessa ideia quando já deixou claro que me odeia?
pode não gostar de você, mas não é uma pessoa ruim. Ele não ia apenas te largar para morrer se pudesse ajudar.
— Não sei se acredito nisso. — respondeu. Sabia a história de agora e nem o julgava por todo aquele ódio pelos bruxos das sombras. Se fosse sua irmã, se sentiria da mesma forma.
— Eu disse a verdade, você sabe.
— Você acreditar nisso não torna verdade. — o lembrou. — Mas tudo bem, o não é o ponto aqui. O que eu quero saber é o que está em jogo de verdade, porque eu sei que tem alguma coisa que você não está me contando.
Diante de sua resposta, suspirou, se ajeitando melhor na poltrona enquanto esperava. Aquela era a chance de de provar que a conversa que tinham tido mais cedo tinha valido a pena. Ia ficar bravo se o loiro apenas fugisse do assunto mais uma vez, mas estava esperançoso de que ele não faria isso.
— Você está certo, tem mais. — falou, e , sinceramente, se sentiu aliviado. — Mas não acho que é o momento certo de conversar sobre isso ainda.
— E por que você acha isso?
— Por que talvez não seja algo que você queira ouvir agora, mas eu prometo que vou te contar quando for a hora. Não é exatamente ruim, eu acho.
— Você acha? — quase riu do quão incerto era aquilo. — Eu deveria apenas pular de cabeça sem saber onde estou me metendo?
— Você sabe onde está se metendo e sabe porque começamos a te ajudar para início de conversa. Eu devia ser um bruxo das sombras, só por isso já era pessoal para mim te ajudar, mas agora, além de tudo, somos amigos, então é ainda mais importante pra mim que você fique vivo.
— Mas tem mais.
— Tem, mas não foge muito disso, eu prometo. Assim como eu prometo também que vou te contar assim que eu achar que você está pronto para ouvir. — falou, e suspirou. Não era exatamente isso que ele esperava quando questionou , mas era melhor do que o que haviam tido naquela manhã.
— Você dizer que eu não estou pronto para ouvir não é exatamente motivador. Você sabe, não sabe? Implica que eu não vou gostar do que é.
— Foi exatamente isso que eu disse, mas não é bem sobre gostar, eu acho. É mais sobre entender. — respondeu. — Se quiser um exemplo, eu te contei sobre magia quando você não estava pronto para entender e por isso você fugiu. Pense que é mais ou menos isso. Quando for a hora eu vou te contar.
— Uhm...
Aquilo ainda não era motivador. O que mais nessa loucura toda poderia existir ao ponto de surpreendê-lo novamente? Tinha certeza que perderia muito tempo se questionando sobre isso, mas percebeu que já confiava o suficiente em para deixar para lá e realmente acreditar em seu julgamento sobre a situação.
— Se precisar, eu posso prometer de novo que nossas intenções são genuínas, mas vai continuar sendo verdade, exatamente como na última vez que eu disse. — sugeriu, mas negou com a cabeça.
— Tudo bem, eu confio em você. — admitiu, e viu se iluminar completamente diante de sua fala.
— Confia? — se virou para ele, soando tão feliz que se sentiu meio constrangido. Ele deveria ser realmente uma pessoa difícil de se lidar. — Own, ele ficou com vergonha! — avançou em sua direção, uma das mãos estendidas para lhe cutucar na barriga. se esquivou.
— Para com isso! — reclamou, mas não lhe deu ouvidos. — É por isso que dizem pra não dar asa à cobra!
se arrependeu de seu comentário imediatamente, ciente de que era inseguro com aquilo, mas riu quando interrompeu o que fazia para gargalhar. O loiro se jogou para trás em meio ao riso e arregalou os olhos quando percebeu que ele ia cair para trás. Sem pensar duas vezes, se jogou para frente para segurá-lo, esquecendo-se completamente de Mochi entre eles ou da taça de vinho. Conseguiu impedir que caísse, mas a taça voou de sua mão, indo parar em cima do gato. Mochi tomou um banho, a parte branca em seu pelo ficou manchada de vermelho, assim como o estofado do balanço.
O gato rosnou indignado e saiu correndo após mostrar os dentes.
— Mochi! — pulou do balanço. Não podia apenas deixar o bicho sujo daquele jeito.
— Meu deus o vai me matar. — resmungou, e se voltou novamente para trás. olhava para o estofado preocupado.
— Você é literalmente um bruxo. Por que vocês apenas não fazem coisas de bruxos?
não é muito fã de usar magia em casa.
só conseguiu pensar que era aquela coisa de velho de gostar de complicar a própria vida. Sua mãe tinha dessas coisas, de se recusar a usar qualquer modernidade ou tecnologia para facilitar as atividades do dia a dia, mesmo que fosse possível.
— E quem vai contar pra ele? — perguntou. — Faz logo, . Depois temos que ir atrás do gato...
— Jeon , por que é que tem um gato manchando meu tapete de vinho?! — gritou ao longe, e arregalou os olhos. Ele realmente parecia muito com sua mãe falando daquela forma.
— Merda. — xingou.
— Vai, limpa logo isso antes que ele veja. — pediu.
botou a mão em cima do estofado e a luz amarela já característica surgiu. assistiu fascinado enquanto a mancha de vinho passava a recuar de volta até se tornar um pequeno ponto e então sumir também.
Se ele não visse, nunca ia saber.
— Certo, agora a gente só precisa consertar o tapete e o gato, vai ficar tudo bem. — concluiu, notando que também estava nervoso após aquele grito.
! — voltou a gritar, e os dois arregalaram os olhos.
— Ou não. — respondeu. — Tem um gato pingando vinho na casa inteira.
— Calado. — retrucou para , antes de responder também. — Estamos indo! — gritou, voltando-se para em seguida. — Você limpa o tapete e eu procuro o gato.
— Porque eu limpo o tapete? É o seu gato. — respondeu, o seguindo enquanto entrava em casa. Se surpreendeu ao ver que realmente havia um rastro de vinho pelo chão, mas parou de andar diante da fala de .
— Você vai limpar por que foi culpa sua isso ter acontecido pra início de conversa! — retrucou, e apesar de bufar, não pôde exatamente contestar. — Mochi? — chamou, cantarolando um pouco, enquanto olhava ao redor.
se abaixou no chão da sala, aproveitando que não estava ali para agir, e se separou dele para seguir o rastro de vinho no chão.
Encontrou Mochi de volta ao quarto de , deitado em seus lençóis brancos que agora tinham uma enorme mancha de vinho. Ele tentava se limpar com a língua e urrou em frustração.
— Você não podia ter esperado?! — perguntou, e o gato parou de se lamber, mas apenas para rosnar em sua direção. — Não resmunga não! Você sujou a casa inteira. podia ter te limpado em segundos! , achei o gato! — gritou para ele, e Mochi se levantou imediatamente. não precisava entender muito para deduzir que ele pretendia fugir de novo. — Se você correr eu vou te dar um banho à moda antiga e você não vai gostar. — ameaçou, mas percebeu que foi uma péssima ideia quando Mochi o encarou como se aceitasse o desafio. — ! — gritou de novo, para que o outro se apressasse.
— Espera, eu estava dando um jeito no tapete! — o loiro entrou no quarto gritando, mas parou quando olhou para o gato, pronto para fugir.
— A banheira está cheia. — falou.
— Você ouviu, se não deixar ele te limpar você vai pra banheira.
— Essa eu quero ver. — apareceu na porta, encostando-se no batente para assistir a cena.
— Você podia ajudar ao invés disso, né? — retrucou, mas o outro apenas deu de ombros.
— Não, acho que não.
Antes que pudesse falar novamente, Mochi pulou na cama e disparou na direção deles, tentando sair pela porta da frente. Tanto quanto tiveram a mesma ideia de entrar na frente da porta e acabaram batendo um contra o outro. riu enquanto eles se empurravam, e se jogou em Mochi para tentar pegá-lo antes que escapasse.
Parecia um djavu.
! — gritou para que ele ajudasse, mas o outro apenas saiu da frente da porta, dando abertura para o gato.
— Você é desprezível! — gritou também, mas conseguiu agarrar Mochi pelo rabo no último segundo.
Mochi, obviamente, não ficou feliz, e pulou no lugar, rosnando e mostrando os dentes. precisou soltá-lo para não perder um dedo e agarrou o gato em seguida.
— Consegui!
— Não conseguiu não. — respondeu, ao mesmo tempo que Mochi lançava as unhas em sua direção. O gato o acertou no rosto e o soltou aos berros.
O gato voltou a correr assim que pôde, mas já tinha puxado o edredom de que estava sobre a cama. Quando Mochi deu por sí, já era tarde demais. jogou o edredom sobre o gato e se jogou por cima, imobilizando o animal entre os cobertores. Mochi rosnou e arranhou, mas o cobertor, por ser grosso demais, impediu que ele escapasse.
— Você vai pro banho. — decidiu, agarrando o gato ainda entre os cobertores para levá-lo até o banheiro.
— Esperava mais resistência de você, Mochi. — provocou.
— Eles vão tentar dar banho em um gato, ainda não acabou. — surgiu na porta também, segurando um balde de pipoca. O ofereceu para e o outro bruxo da luz aceitou rapidamente.
— Sério isso? — os questionou, indignado, mas o corte que ele tinha na bochecha fez os dois rirem ainda mais.
— Pelo menos a gente sabe que o Mochi é mesmo um felino. Só um felino seria capaz de tudo isso e ainda odiar água nesse nível. — comentou.
— Na verdade, depende um pouco de quanto tempo ele passou nessa forma. — apareceu também. — É normal que o familiar pegue as características do animal que ele está usando para disfarce se ficar muito tempo naquela forma.
— Que beleza, hein. Porque já não estava difícil o suficiente.
! — chamou do banheiro, e o loiro foi para lá. — Tranca a porta. Eu vou soltar o gato.
— Porque você vai soltar o gato? Ele é sanguinário!
— Ele precisa de um banho!
Xingando, usou magia para fechar a porta e trancar, mas reclamou:
— A gente quer ver também!
— Vai a merda, você! — xingou.
De repente, um pequeno olhinho apareceu dentro do banheiro e revirou os olhos, já imaginando do que se tratava, mas não disse nada.
— No três. — avisou para . — Um, dois, três! — assim que terminou a contagem, puxou a coberta e deixou Mochi cair na água. O gato rosnou e tentou escapar, praticamente flutuou na água. sentiu quando ele acessou sua magia, mas também usou a dele e de repente, Mochi estava dentro da banheira.
— Nem acredito que vencemos uma briga contra esse bicho. — comentou.
— Falta dar banho. Acho que você deveria fazer isso. — sugeriu.
— O gato é seu!
— Mas foi culpa sua que eu derrubei vinho nele.
— Eu não te pedi pra me segurar!
— Vai logo, ! Você tem uma varinha mágica!
— Varinha mágica o cassete, !
— Se o casal continuar brigando o gato vai fugir de novo! — gritou do lado de fora.
— Casal o teu cu também. — retrucou. — Vai logo .
Bugando, obedeceu, e se iniciou dentro do banheiro mais um round contra o gato.

🔮🔮🔮

Considerando que agora já tinham um plano, pôde abandonar os livros de . Porém, ao contrário do que esperava, ele ainda assim foi para a biblioteca.
ficou muito satisfeito em receber uma mensagem do mais novo avisando onde estava pouco antes do intervalo entre as aulas, era um progresso gigantesco entre os dois e ainda o tinha poupado de ir atrás dele na porta de sua sala -e perdido tempo-.
Quando chegou, procurou por ele em uma das mesas onde normalmente ficava e estreitou os olhos ao não vê-lo ali. Por um instante, se sentiu decepcionado. Não era possível que tinha se enchido de orgulho a toa, era? Que tinha saído sem avisá-lo de qualquer forma?
— Ele está lá em cima. — a bibliotecária avisou quando viu olhar para os lados, provavelmente o reconhecendo considerando a quantidade de tempo que eles passaram ali recentemente.
agradeceu e seguiu o caminho indicado, subindo as escadas. A biblioteca tinha três andares, mas não havia mesas ali em cima, apenas no térreo. Estranhou que estivesse ali, mas não disse nada. Olhou todo o segundo piso e quando não o encontrou, subiu mais um, ficando mais confuso a cada instante.
Quando já estava quase desistindo de encontrá-lo, decidindo mandar uma mensagem para pedir sua localização, viu os pés de no fundo no último corredor e se aproximou, o encontrando sentado de costas para a parede com o ipad na mão e a mochila jogada do lado.
— Da próxima vez, por favor, seja mais específico sobre onde vai estar. — pediu, rindo quando pulou de susto por estar distraído. Rapidamente, o mais novo bloqueou a tela do ipad, e o encarou com desconfiança. — O que você está fazendo? — perguntou.
Ele estava em um lugar que não costumava estar, praticamente escondido, e agora tinha escondido também o que estava fazendo. Após pensar um pouco, se deu conta de que, onde estava, não havia a menor possibilidade dele ser surpreendido por trás, ou seja, ninguém conseguiria chegar de surpresa e ver o que ele fazia.
E considerando que a única pessoa com quem ele falava era , não era muito difícil de imaginar que era justamente dele que estava se escondendo.
— Eu estava te esperando pra comer. — respondeu, mas não se moveu de onde estava, ainda segurando seu ipad como se a vida dependesse disso.
— E porque apenas não me esperou lá embaixo como sempre? — instigou.
— Por que eu não quis.
— Olha só, nem preciso ter seu dom pra saber que você está mentindo. — terminou de se aproximar. Sentou-se ao lado dele, e notou afastar o ipad. O que quer que ele estivesse escondendo, estava ali, e após pensar por um segundo, teve uma forte suspeita sobre o que era. — Você estava me desenhando? — perguntou, repentinamente animado. Se fosse aquilo seria fofo. Apesar de ter pedido tantas vezes que o fizesse, não esperava que ele faria. Além disso, estar escondendo indicava que queria que fosse surpresa. Era duas vezes mais fofo. — Deixa eu ver? — pediu, apenas para provocar.
— Não estou te desenhando, . — ele revirou os olhos, guardando o ipad na mochila. — Eu já disse que não vou te desenhar.
— E por que não?
— Porque eu não quero. — retrucou, mas apesar de dar de ombros como se não se importasse, não soltou a mochila após fechar o zíper.
— Tudo bem, se não é isso, então me deixa eu ver o que é.
— Não também. É um trabalho.
— E porque eu não posso ver seu trabalho? — insistiu, se inclinando para puxar a mochila, mas riu quando o beliscou para se afastar.
— Vou ter que dizer de novo que é porque eu não quero?
— Não seja tão rude. — reclamou, mas estava rindo. Não pretendia ver a força, mas era engraçado que realmente achasse isso. — É para ser uma surpresa? Meu desenho?
— Já disse que não estou te desenhando, . — respondeu, mas o ignorou:
— Vai me desenhar assim ou como ontem?
pela última vez, eu não estou te desenhando.
— Está bem, eu vou esperar você terminar, então.
— Puta merda você é insuportável. — reclamou. — Não deveria ter te avisado que eu estava aqui, deveria ter te deixado te procurar.
— Mas não fez porque gosta de mim. Somos amiguinhos agora e você não vai se livrar de mim tão fácil.
— Que porra de amiguinhos, . Você tem quantos anos?
— Você sabe bem.
— Infelizmente.
— Ei, o que você quer dizer com isso? — o beliscou, e pulou para se esquivar. O beliscou de volta e riu.
— Para com isso! — reclamou, mas tentou beliscá-lo novamente, se jogando sobre ele quando segurou suas mãos.
por fim acabou rindo também, mas se arrepiou quando , em retaliação, deixou uma mordida em seu pescoço.
— Para com isso, a gente está na biblioteca.
— Escondidos porque você se escondeu.
— Eu não me escondi.
— Para de mentir. — o mordeu de novo, e soltou uma risada meio nervosa.
— Você é uma cobra mesmo. — reclamou, e gargalhou, apoiando a cabeça em seu ombro.
— Você vai ficar falando isso agora?
— Você reclamou que eu menti, agora não é mentira.
riu novamente diante de sua fala, e riu junto, finalmente deixando a mochila de lado e voltando a relaxar contra a parede, com apoiando em seu ombro. Os dois ficaram em silêncio por um instante, apenas olhando as paredes da biblioteca.
percebeu que gostava dali, era quieto, tranquilo e privado.
— Sabe, normalmente eu ia odiar ser lembrado dessa coisa de serpente, mas eu não odeio quando você fala. — comentou, após pensar um pouco sobre isso. O clã mesmo evitava tocar no assunto, ciente de que não gostava, mas percebeu que quando falava era apenas engraçado. — Provavelmente é porque eu sei que você foi honesto sobre achar bonito. E porque eu sei que você não está falando realmente no intuito de me ofender. É só uma brincadeira.
— Eu fiquei preocupado que você ia se ofender na primeira vez que eu disse, mas como não se ofendeu, eu continuei. — admitiu. — Mas se você se ofender de verdade, me diga. Eu provavelmente não vou entender sozinho, mas se você pedir seriamente eu não vou insistir.
— É por isso que você insistiu tanto em conversar ontem? Por que não entende as coisas nas entrelinhas?
— É, meio que sim. — respondeu. — Tanta coisa é fácil de resolver conversando. Se você quer algo apenas fale, não espere que os outros adivinhem, especialmente eu.
— Tudo bem, está anotado. E eu vou pedir que pare de falar sobre varinha mágica, eu não sou o Harry Potter. — pediu, fazendo gargalhar. Não se ofendia de verdade com isso e sabia que sabia também. Apenas pediu para fazê-lo rir e ficou satisfeito quando deu certo.
— Boa tentativa, mas não.
— Droga, eu tento de novo na próxima vez. — fingiu decepção.
? — voltou a chamar, e o loiro ergueu o olhar para ele sem levantar a cabeça de seu ombro.
— Uhm?
— Eu estou mesmo te desenhando. — admitiu, fazendo abrir um enorme sorriso satisfeito.
— Eu sabia! — comemorou, tentando se levantar, mas segurou sua cabeça ali para conter sua animação.
— Ainda é uma surpresa, você só vai ver quando estiver pronto. — falou, fazendo o outro rir.
— Tudo bem, eu espero.

🔮🔮🔮

voltou para a casa no final da tarde naquele dia após passar quase quatro dias fora e a única mensagem que recebeu de sua mãe foi para perguntar se ele podia ficar com sua irmã.
amava Jihyo e se divertia na presença da menina, mas estava aliviado de passar aqueles dias longe de seus pais. Voltar para a casa o deixou meio nervoso e ele só percebeu isso quando entrou na rua de sua casa.
Quando chegou em sua porta, Mochi, que estava desaparecido desde o banho forçado, pulou a sua frente, rosnando para a porta, e congelou no lugar. Isso não parecia exatamente bom.
— O que foi? — perguntou, mesmo sabendo que não teria uma resposta. — Tem alguém estranho lá dentro? Magia?
Como o esperado, Mochi não respondeu, e se perguntou se deveria ligar para . O loiro não tinha ido até o café hoje, apenas enviou uma mensagem avisando que iria com atrás de um dos ingredientes para a poção de metamorfose.
Se fosse besteira, faria perder tempo, mas se não fosse então teria um problema.
Antes que chegasse em alguma conclusão, a janela de seu quarto se abriu em um baque alto e quando ele olhou para cima, viu seu pai ali, carregando várias de suas roupas nos braços antes de apenas jogá-las sacada abaixo.
Se viu em uma mistura de confusão, indignação e raiva, mas se voltou pra Mochi quando ele rosnou para o homem na sacada.
— Era sobre isso que você estava falando? — perguntou, e quando Mochi miou em resposta, entendeu que sim, era isso.
Não era nenhum ataque de alguma criatura mágica, mas seu pai bêbado podia ser tão ruim quanto.
Sem pensar duas vezes, abriu a porta e entrou em casa. Deixou sua mochila no sofá e seguiu até seu quarto, observando se encontrava Jihyo pelo caminho. A porta do quarto dela estava fechada, e antes de seguir até o seu, bateu ali.
— Jihyo? — chamou baixinho, e ela rapidamente abriu a porta.
ie! — ela exclamou, jogando-se em seus braços. Ela parecia assustada, mas fisicamente, aparentava estar bem.
— O que houve? Ele te machucou?
— Ele está bravo com o ie. Não entra lá não, vai embora. Jihyo se tranca no quarto.
— Ele está jogando minhas coisas na rua, eu preciso ver o que houve.
— Não, ie. — a menina começou a chorar, e não entendeu muito bem o motivo até ela continuar. — Ele disse que vai matar o ie. Foi depois que uns homens vieram aqui. Eles falaram que estudam com o ie.
Imediatamente, gelou. Além de , tinha apenas um grupo de pessoas com o qual já tinha interagido. Um grupo que estava revoltado o suficiente com para ir atrás de seu pai, especialmente se tivessem descoberto que o homem é pastor.
— Volta para o quarto, Jihyo.
— Não, ie. — a menina se agarrou a ele, chorando mais forte, e precisou se abaixar na altura dela para conversar.
— Jihyo, ele não vai me matar, no máximo ele pode gritar um pouco. — explicou. — Ele disse isso porque estava com raiva, mas não vai fazer nada. No máximo, ele vai me expulsar de casa, e se isso acontecer, eu dou um jeito de falar com você quando você estiver na escola, tudo bem?
— Jihyo não quer que ie vá embora.
— Eu sei, meu amor. Mas vai ficar tudo bem. Se tranque no quarto pra mim, tudo bem? — pediu, e dessa vez ela concordou com a cabeça, fungando.
deixou um beijo em sua testa e a menina voltou para dentro, trancando a porta, e apenas depois de se certificar de que ela estava segura, se levantou para seguir até o próprio quarto.




sentiu um aperto no peito quando parou em frente a porta aberta de seu quarto. Ele estava completamente destruído. Todas as as gavetas haviam sido arrancadas e estavam jogadas em um canto do quarto, completamente vazias. Seus armários estavam abertos, porém também vazios, e suas roupas estavam todas jogadas em uma pilha na sacada.
O baú de sua cama estava aberto e completamente revirado, os itens nas suas gavetas da mesa de estudos estavam espalhados pela mesa ou jogados pelo chão. Todos os discos que antes estavam pendurados em sua parede estavam em pedaços, espalhados por toda parte.
sentiu seu sangue ferver imediatamente, toda a mágoa que sentia daquele homem se tornando ódio em questão de segundos. Lembrou-se que era diante de situações assim que a magia dentro dele se manifestava e que precisava se controlar, mas foi impossível para ele.
— Que merda você pensa que está fazendo? — perguntou ao homem, tirando sua mochila das costas e a deixando no chão ao lado da porta, caso aquilo se tornasse físico. Ele não duvidava que se tornaria.
— O que eu estou fazendo? Essa é a minha casa, eu faço o que eu quiser! — o homem gritou, arrancando outro disco da parede para arremessá-lo no chão. O homem estava transtornado, mas apesar disso, não parecia bêbado, o que sinceramente era ainda mais preocupante para e o deixou com mais raiva ainda. Se estivesse bêbado ele pelo menos teria uma desculpa para estar fora de sí.
— As coisas nesse quarto são minhas. — o lembrou, tentando controlar seu tom de voz, mas como se quisesse provar seu ponto, o homem simplesmente empurrou seu guarda-roupa para frente, quebrando algumas prateleiras quando o fez tombar no chão.
apenas respirou fundo. A única coisa maior que sua irritação, era seu cansaço. Estava cansado daquela vida, da instabilidade daquele homem. Estava cansado de ter uma surpresa ruim sempre que voltava para a casa.
— Tudo que está na minha casa é meu! — o homem voltou a gritar, mas para ele soou como se estivesse em câmera lenta. — Você não mora mais aqui para tentar reivindicar nada! Você vai embora hoje! — gritou, mas meio que já esperava por isso. Esperava desde que Jihyo o contou o que tinha acontecido e sinceramente, não conseguiu se importar.
Estava cansado demais, magoado demais e acumulando ódio demais para conseguir se preocupar com o fato de que não teria para onde ir. Ele só conseguiu pensar que seria um alívio estar longe daquilo tudo, estar longe dele, mesmo que no fundo também doesse pensar que não podia apenas ter uma relação decente com o próprio pai.
Preferiu nem se dar ao trabalho de perguntar o motivo, ciente de que se o fizesse, ele apenas o ofenderia de outras formas que o irritariam muito mais.
— E você vai pagar as contas pra manter a sua casa como? — perguntou ao invés disso, não conseguindo conter a própria língua. — Com o dinheiro que você rouba dos pobres naquela sua igreja de merda?
sabia que o irritaria quando soltou aquelas palavras e era exatamente isso que pretendia. Apesar de tudo, ainda tentava manter o respeito, o enfrentava dessa forma apenas quando estava bêbado demais para se lembrar, mas sentiu certa satisfação em poder expressar o que pensava na cara dele.
Já tinha sido expulso de casa de qualquer forma, não tinha mais o que perder. Talvez pudesse fazê-lo voltar atrás de pedisse desculpas, se falasse que tinham mentido para ele, se implorasse, mas sinceramente, preferia morrer do que fazer algo assim para ele. Odiava aquele homem com todas as suas forças, mesmo que fosse triste odiar tanto o próprio pai.
Como o esperado, o homem ficou extremamente ofendido com sua fala e imediatamente avançou em , o empurrando contra a parede do corredor.
— Como você ousa falar da casa de Deus dessa forma?! — gritou. — Justo você, um pecador imundo!
— E quem é o santo aqui?! — gritou de volta, perdendo completamente o pouco de paciência que lhe restava. — Você? A bíblia não fala nada sobre desonrar a família? Sobre ser um bêbado de merda? Sobre bater na mulher?
— A única desonra para a família é você! Você acha que a bíblia aprova o que você faz?! Você se deita com outros homens, ! Você é um pecador imundo! Do pior tipo!
"Do pior tipo" quase riu daquela lógica completamente torta. Tudo bem espancar a esposa desde que você fosse um homem hétero. sentiu nojo daquele homem, mais do que um dia já havia sentido. Ele preferia que fosse um porco bêbado como ele desde que fosse hétero.
— Sua bíblia e o seu Deus não podem ditar regras pra mim. — respondeu por fim, abaixando o tom apesar de seu ódio ainda ser o mesmo. — É a sua religião, não a minha.
— Você é uma vergonha pra essa família. Até fala como eles!
— Eles quem? — não conteve uma risada, mas isso apenas pareceu irritar o homem ainda mais.
— Eu quero você fora da minha casa! — voltou a gritar.
— Claro, quando você sair da minha frente para eu pegar minhas coisas.
— Minhas coisas, essas coisas são minhas, estão na minha casa!
— Você não pagou nem as roupas do próprio corpo e quer reivindicar a casa?! Vai se fuder! — voltou a aumentar o tom de voz e, sem paciência, o empurrou para o lado, entrando no quarto.
Puxou de dentro do baú uma mala que estava ali, mas antes que pudesse fazer qualquer outra coisa além disso, foi puxado para trás e arremessado contra a mesa de estudos. Antes que tivesse tempo de entender o que estava acontecendo, foi recebido com um soco no canto da boca, forte o suficiente para lhe cortar o canto dos lábios.
Seu sangue ferveu imediatamente e, sem nem pensar no que fazia, revidou, chutando o homem para longe de sí com toda sua força. Ele caiu dentro do baú da cama e imediatamente foi para cima dele, o acertando com um burro no nariz. Ouviu o osso quebrar e o homem levou a mão até o local enquanto começava a gritar, com sangue escorrendo entre seus dedos.
— Você quebrou meu nariz! Eu sou seu pai e você quebrou meu nariz!
— Se me tocar de novo eu arrumo outro osso pra quebrar! — gritou de volta, se tremendo de raiva. Lembrou-se de novo que precisava manter a calma, mas era simplesmente impossível agora.
— Você é uma vergonha pra essa casa, você é um pecador imundo e nojento! Desonra sua família, desonra pai e mãe!
— Enfia a sua desonra no meio do seu cu! — gritou também, voltando a dar as costas para jogar suas coisas dentro da mala antes que acabasse o socando novamente. Tentou controlar a respiração para se acalmar, mas era impossível, estava espumando de raiva e sequer olhou que estava pegando para por na mala, apenas agarrou suas roupas em um bolo e enfiou ali tudo que cabia.
— Você quebrou meu nariz! — o homem continuou gritando, entre gemidos de dor, mas continuou focado na mala, tentando pelo menos parar de tremer. Quando não achou que cabia mais nada, voltou para o baú, empurrando o homem para o lado para pegar outra bolsa grande que havia ali. Costumava usá-la para os treinos de taekwondo.
Não daria pra levar tudo, precisava revirar a pilha para pegar apenas o que era mais importante agora.
Tendo-o perto, seu pai tentou avançar sobre ele novamente, mas estava preparado dessa vez e o segurou pelo punho, torcendo-o em suas costas antes de jogá-lo para longe.
— Eu disse pra não tocar em mim de novo! — gritou para ele.
— Você tentou quebrar meu braço! Eu vou chamar a polícia!
— Se eu tivesse tentado quebrar seu braço eu teria quebrado! — respondeu, mas já não olhava mais para o homem. Em vez disso, aproveitou enquanto ele estava caído no chão para se voltar para a pilha de roupas, começando a caçar algumas coisas. Amontoou suas roupas íntimas e as jogou na bolsa, mas antes que continuasse, seu pai voltou a se erguer, o alcançando novamente e se jogando em cima dele.
acabou tomando outro soco, agora no olho, embora desconfiasse de que a intenção de seu pai fosse acertar seu nariz. Gemeu de dor, de raiva, de frustração, mas antes que o homem o acertasse novamente, o empurrou para longe outra vez.
Seu pai caiu de volta dentro do quarto, e aproveitou a chance para amontoar suas meias, jogando-as dentro da bolsa também.
— Eu sempre soube que tinha algo de errado com você, desde pequeno. Nunca queria brincar com os outros meninos, nunca gostou de futebol ou de esportes. — o homem riu, cheio de desgosto, embora ele não fosse maior do que a mágoa que sentia. — Só namorou quando o obrigamos, tivemos que arrumar uma menina pra você. Sempre me deu desgosto, e agora isso. Dormindo com homens, se agarrando com eles na faculdade. Eu tenho nojo de você, tenho nojo de gente como você.
— O sentimento é mútuo. — respondeu, tentando provar para sí mesmo que não se importava, mesmo que no fundo, as palavras doessem sim. Talvez aquele homem sequer fosse seu pai, mas era o pai que conhecia. Nutria ódio o suficiente por ele para que aquele desprezo fosse um prazer, mas ainda desejava poder ter uma família estruturada como qualquer um e não ter isso é que doía.
E a fala daquele homem era justamente a prova de que ele nunca foi um bom pai, nunca conheceu o suficiente. Sempre gostou de esportes, praticou taekwondo por muitos anos, era faixa preta. O que ele não gostava era de outras pessoas, não gostava também de brincar embaixo do sol. Os esportes nunca foram um problema, na verdade sempre foi ótimo com eles, mas claro que o homem não sabia disso.
Cheio de amargura, focou em suas roupas, aproveitando-se do homem resmungando para juntar o máximo que pôde de camisetas e também uma calça que não tinha pego.
Achando ser o suficiente, fechou a mala e então a bolsa e carregou ambos consigo para fora, até o banheiro, após pegar sua mochila no chão.
— Você é um verme. — o homem continuou falando, vindo atrás de embora não o tentasse impedir mais. — Você é uma vergonha pra sociedade, todos como você são!
— Beijar a boca de outro homem não faz mal pra sociedade, o que faz mal pra sociedade é um bêbado hipócrita que espanca a esposa. — retrucou, enquanto juntava suas coisas no banheiro.
Viu pelo espelho o homem tentar avançar para cima dele mais uma vez e se virou antes que o fizesse, o encarando com todo seu ódio, e o homem recuou.
— A única vergonha pra sociedade é você, que não sabe ser um marido, não sabe ser pai e sequer sabe ser homem. — avançou alguns passos em sua direção, e seu pai voltou a recuar, provavelmente temendo levar outro soco. Dessa vez, conseguia sentir a energia que havia mencionado emanar dele. Estava sentindo tanta raiva que não lhe cabia dentro do peito.
Talvez mais tarde se sentisse mal por tudo que havia escutado do próprio pai, mas no momento sentia apenas raiva, sentia vontade de encher a cara dele de socos, bater nele como já o tinha visto bater em sua mãe.
— Ser homem ou não é mais do que gostar de mulher e você é a maior prova disso, não passa de um saco de bosta que não consegue nem pagar as contas da casa, que precisa mentir pra um bando de idiota dentro da igreja pra conseguir alguns trocados que mal pagam o que você pede no bar.
Ao invés de responder, o homem soltou um urro irritado e avançou para cima de de novo, mas apenas o empurrou contra a parede. Sua mochila e sacola já estavam sobre seus ombros, então apenas agarrou a mala de rodinhas e saiu em direção às escadas.
— Você é uma vergonha! Uma vergonha pra essa família! — o homem gritou de novo, mas não veio atrás dele dessa vez.
— Continue dizendo isso pra você mesmo e quem sabe você consegue se convencer de que a única vergonha aqui não é você.
ergueu a mala para sair de casa, e sob os gritos do homem, bateu a porta atrás de sí.
Não tinha ideia do que fazer ou de para onde ir. Não sabia como agir agora, assim como não sabia também o que seria de sua irmã em um lar tão desajustado sem ninguém para ampará-la. Precisaria dar um jeito de vê-la escondido, mas para isso precisava descobrir antes o que fazer com a própria vida e não tinha a menor idéia.
Estava cansado de ter que pensar tanto, de cuidar de tudo, estava abalado pelas palavras de seu pai, mas apesar de tudo isso, também precisava admitir que estava um pouco aliviado de não ter mais que voltar para a casa, de não ter que lidar com ele.

🔮🔮🔮

foi parar em um quarto de hotel. O mais barato que encontrou, já que teria que pagar por diária, mas sabia que isso não chegava nem perto de resolver seu problema. Apenas precisava esfriar a cabeça.
Suas mãos tremiam, e ele sentia que tinha relação com a magia dentro dele querendo sair. Estava nervoso como nunca, agitado e ansioso. Homofobia o deixava mais irritado do que chateado, mesmo que ele não esperasse qualquer coisa diferente de seu pai. Sempre soube que aquela seria sua reação, por isso se escondia.
Estava andando de um lado para o outro, sem saber o que fazer com a bola de irritação que sentia crescer dentro do seu peito. Queria gritar, queria socar alguma coisa, mas não era como se ele pudesse.
Sentia mágoa de seu pai, sentia frustração por não ter uma família decente, medo por não saber o que fazer da vida agora e tudo isso junto o estava enlouquecendo.
Não sabia dizer quanto tempo passou naquele estado, mas acabou se distraindo quando a luz do seu celular sobre a cama se acendeu, indicando uma nova mensagem.
Não precisou olhar para saber quem era.
não tinha pensado em desde que chegou no quarto de hotel, mas quando recebeu a mensagem, sequer leu o que ele tinha dito, apenas enviou a localização e o número do quarto.


Não entendi, você está nesse endereço? Por quê?



Pode vir?



Posso, mas por que você está ai?


Ao invés de responder a última mensagem, apenas bloqueou o celular novamente. Não tinha mais nenhuma cabeça para se sentar e digitar mensagens. Apenas esperou que ele chegasse enquanto continuava andando de um lado para o outro.
apareceu cerca de vinte minutos depois. Não havia realmente uma recepção no hotel, então ele apenas subiu e bateu na porta. Ansioso, se adiantou para atender, vendo os olhos do outro se arregalarem quando o encarou.
! O que aconteceu? — segurou seu rosto com ambas as mãos assim que ele abriu a porta, a empurrando com o pé para fechar quando entrou no quarto.
Sem soltá-lo, o guiou até a cama e fez se sentar. Ele apenas obedeceu enquanto o loiro se sentava ao seu lado. Ter ali lhe trouxe um alívio que ele simplesmente não esperava.
Sempre preferiu estar sozinho, não se incomodava com a solidão, mas ter a presença de era diferente. O loiro o tranquilizava e se viu grato por tê-lo ali para preencher o silêncio.
— Quem fez isso com você e porque você está...? — olhou para os lados, tentando se situar, e arregalou os olhos ao ver as malas. — Seu pai?!
suspirou, segurando suas mãos para tirá-las de seu rosto, mesmo que apreciasse seu toque e preocupação.
— Aquele grupo da faculdade foi atrás dele. E você sabe, meu pai é pastor.
— Puta que pariu, . E ele te agrediu?!
— Ele é um pastor alcoólatra. Você fica mesmo surpreso?
suspirou, parecendo irritado, mas guardou as palavras para si, provavelmente não achando pertinente para o momento.
— Me deixa cuidar disso. — ele pediu, erguendo as mãos até seu rosto novamente, mas as segurou outra vez.
— Deixa aí. Ele ameaçou chamar a polícia porque eu bati de volta. Se chamar mesmo, vou precisar provar que estava me defendendo.
— É um maldito desgraçado, mesmo. — xingou, sem se conter. conseguia sentir a irritação emanar dele também. Questionou se tinha alguma relação com a magia. Provavelmente sim. — Me deixa pelo menos tirar a dor, então. — pediu, e com isso concordou. Ele voltou as mãos para seu rosto e fechou os olhos quando a luz dourada apareceu, sentindo o quentinho que já conhecia sobre sua boca. — Como você está se sentindo sobre isso?
— Eu sinceramente estou um pouco aliviado de sair de casa. — admitiu, para sua própria surpresa. Nunca foi de falar sobre sentimentos, mas com , nem pensou sobre o que fazia. Quando viu, as palavras já saiam. Também estava mais calmo, já não tremia mais de nervoso, embora ainda se sentisse mal pelo que havia acontecido, como se a raiva se esvaindo tivesse aberto espaço para outros sentimentos. — Eu sempre quis estar longe, sempre odiei estar em casa, mas o motivo que sempre me fez ficar ainda me preocupa...
— Sua irmã. — ele deduziu, passando a seguir com as mãos para seus olhos enquanto concordava.
— É, e minha mãe também, apesar dos pesares. Ela poderia sair dessa vida se quisesse, ela trabalha, não é como se estivesse presa a esse casamento. Ofereci ajuda para sairmos de lá mil vezes, mas ela prefere se apegar nos ensinamentos da religião, se manter nessa vida medíocre, mas me preocupo mesmo assim. Quem vai garantir que elas estão alimentadas? Quem vai ficar com a Jihyo sem mim por perto? Como a Jihyo vai lidar sozinha com um pai bêbado? Eles vão me deixar ver ela? Tenho certeza que não.
— Você pode procurar por ela na escola.
— Espero que sim. Mas se eles lembrarem de avisar lá que eu tô proibido de vê-la, então a escola não vai me deixar chegar perto. — explicou, sentindo-se ainda mais ansioso ao pensar em tudo isso.
— Que inferno de situação, . — ele falou, finalmente abaixando as mãos. já não sentia mais dor em nenhum dos dois lugares, para seu alívio. — E como você se sente sobre... Seu pai? — voltou a perguntar.
Sobre a homofobia, ele queria dizer, entendeu. Parou para pensar sobre isso e mordeu o lábio inferior, mas fez uma careta quando sentiu doer novamente.
— Porra, mas assim também fica difícil. — reclamou, voltando a erguer as mãos.
— Eu esqueci, desculpa. — respondeu. Seu tom de voz soou tão contrariado que acabou rindo fraco.
— Tudo bem. Continua. — pediu, e suspirou pensando no que dizer.
Realmente não estava acostumado a só por para fora o que sentia, especialmente quando estava tão confuso e afetado com o que tinha acontecido, mas era , e novamente, quando deu por sí, já se abria para ele outra vez.
— Eu sou bem seguro quanto a minha sexualidade, normalmente são comentários que me irritam mais do que me chateiam. Me deixa puto que se preocupem tanto em onde um estranho está enfiando a boca, sinceramente, mas ele ainda é meu pai. É meio... É uma merda que ele seja um pai de merda, é frustrante que ele pense como pensa, que prefira botar pra fora de casa quem mais ajuda por causa da minha sexualidade e é uma merda ter que ouvir dele que eu sou uma desonra pra família. O que ele faz não é uma desonra? Beber e bater na esposa? — desabafou, notando que tinha se afetado com aquilo muito mais do que tinha se dado conta. Aquele homem era a pessoa que ele viu como pai a vida inteira, seria bom, só para variar, ter uma família normal como qualquer outra. — E isso me irrita ainda mais porque eu sei a resposta, pra ele isso é ser homem de verdade. Me relacionar com outro homem é que faz de mim menos homem. — parou de falar para respirar, porque já voltava a ficar puto novamente antes mesmo de terminar sua fala.
Seu pai era um completo hipócrita. Beirava o ridículo ter falado todas aquelas coisas para quando ele fazia pior. estava beijando um homem sem ferir ninguém. Seu pai brincava com a fé das pessoas, perdia a noção quando bebia, destruía a casa, a família, fazia mal a outras pessoas. Como ele podia se achar melhor que ?
— Posso te abraçar? — pediu repentinamente, parecendo sentir que ele tinha guardado muita coisa para si. ficou um pouco envergonhado com isso, mas percebeu que sim, ele queria aquele abraço e concordou com a cabeça sem encará-lo.
o puxou para seus braços, e escondeu o rosto em seu pescoço, fechando os olhos. Sentiu uma repentina vontade de chorar. Talvez estivesse um pouco mais chateado do que esperava e até do que deveria, mas guardou aquele pensamento para si, não só pela vergonha como também porque se recusava a derrubar lágrimas para alguém como seu pai, em especial após um surto homofóbico.
Acabou apreciando aquele abraço muito mais do que esperava, e para sua completa surpresa, realmente se sentiu melhor. Pensou em perguntar se havia feito algo pra isso, mas pelo que havia aprendido sobre magia, apenas seria capaz de tirar aquela sua angústia. apenas tinha feito por ele o que ninguém nunca fez, lhe dado apoio.

🔮🔮🔮

o obrigou a ir para o banho enquanto pedia comida. , como de costume, tentou fugir, mas o obrigou a comer mesmo assim. Também ficou para passar a noite, ciente de que ele precisava de suporte, mas quanto a isso, não questionou.
sabia que ele apreciava o gesto, mesmo que não fosse bom em verbalizar o que sentia. Em algum momento, tinha se tornado um enorme livro aberto para ele e acreditava que isso era mais do que apenas intimidade. Tinha começado quando ele aceitou o que os companheiros de clã diziam sobre terem uma conexão de alma.
parecia exausto após o dia agitado e foram dormir cedo. precisou usar suas peças de roupa e elas ficaram grandes demais, mas o olhou com certo fascínio, especialmente porque não escondia suas características de serpente quando saiu vestido do banheiro após tomar seu próprio banho.
Por fim dormiram abraçados e não questionou ser a conchinha de dentro, mas certa agitação ao seu lado fez com que despertasse no meio da noite.
abriu os olhos sem saber que horas eram, mas não enxergou absolutamente nada. Sabia que estava ao seu lado porque podia sentí-lo, mas não o encontrou quando olhou ao redor. Ele se mexeu de novo, suspirando alto, e o loiro imaginou que estava tendo um pesadelo. Não era a primeira vez que dormiam juntos e não costumava se mover muito.
se sentou, olhando ao redor para buscar o celular, mas o quarto estava em um breu completo. Uma escuridão na qual ele não conseguia enxergar nada mesmo após seus olhos se acostumarem com ela. Sentiu um arrepio subir por sua espinha, e somente então entendeu o que estava acontecendo.
Aquela escuridão não era normal, vinha de .
Apressado, buscou o celular sobre a mesa de cabeceira para confirmar suas suspeitas, e mesmo após apertar o botão e saber que a tela tinha se acendido, continuou sem ver nada. Aquela escuridão era magia, e precisava de magia pra ser combatida. Seu poder estava se manifestando, mas teve receio de assustá-lo se tentasse se impor.
ainda dormia, ele não sabia o que estava fazendo. Sua magia estava no comando.
. — o chamou, virando-se para ele para sacudí-lo, mas o mais novo apenas se remexeu desconfortavelmente mais uma vez. — , eu preciso que você acorde. — insistiu alarmado, mas apenas sentiu as sombras se moverem incomodadas ao redor dele. Era como se elas não quisessem que ele despertasse, como se estivessem felizes por finalmente estarem livres e soubessem que isso só estava acontecendo porque estava desacordado, sem ter idéia do que estava fazendo.
ficou imediatamente preocupado, isso não era bom.
. — o chamou de novo, mas sentiu que o mais novo apenas ficou mais agitado. Ele se moveu novamente, mais rápido. E outra vez depois dessa. Ele não estava convulsionando, era mais como um terror noturno.
Sem saber o que fazer, permitiu que sua própria magia viesse à tona, a princípio apenas iluminando o quarto, mas a magia de pareceu não gostar disso.
As sombras ao redor o atacaram imediatamente, tentando apagar a luz em suas mãos. tentou se esquivar, mas foi jogado para trás quando uma delas se chocou contra seu peito. Ela se solidificou para atingí-lo e perdeu o ar por um segundo, caindo para fora da cama.
! — gritou dessa vez, mas sentiu que isso apenas as deixou mais agitadas. — Eu preciso que você acorde!
Em uma nova tentativa de calá-lo, as sombras voltaram a avançar sobre . Ele podia sentir quando elas se aproximavam. Eram rápidas e criavam uma corrente de ar, mas ele ainda não podia vê-las, o que dificultava a ideia de combatê-las. Elas o cercaram completamente, e se sentiu preso, como se o tivessem colocado dentro de uma caixa, mesmo que a maior parte delas ainda parecesse focada em suas mãos, tentando conter o brilho que ele emitia ali.
Pelo menos não tinham se solidificado novamente para outra pancada, mas elas não demorariam para perceber que isso era muito mais efetivo.
A não ser, claro, que não quisessem machucá-lo de verdade.
Talvez soubessem sobre a conexão entre ele e e o que aconteceria com o mais novo se fosse morto. Considerando que nunca tinha praticado magia antes, a chance delas também não saberem se controlar e acabarem realmente machucando era muito grande.
Mas isso o colocava em vantagem. Tendo uma idéia, disparou um raio de luz até o teto do quarto e o prendeu ali exatamente como uma lâmpada, iluminando o ambiente. As sombras ao redor fizeram um barulho de dor, como se aquilo as machucasse. lamentou por isso, mas elas o atacaram primeiro e ele precisava fazer algo para trazer de volta.
As sombras tiveram que soltá-lo para tentar conter a luz no teto, mas disparou outra rapidamente para mantê-las distraídas. Assim que conseguiu ficar totalmente livre, se ergueu do chão e correu de volta para a cama.
, acorda agora! — pediu, o sacudindo sem nenhuma delicadeza.
As sombras emitiram de novo aquele mesmo barulho e ele soube que elas voltariam para sí rapidamente para evitar que o acordasse. Não podia deixar que isso acontecesse.
Sem pensar duas vezes, acionou novamente a magia na palma de suas mãos, mas dessa vez as levou para o peito de , utilizando magia de cura para despertá-lo. Dessa vez funcionou, e ele se sentou rapidamente na cama, assustado.
Imediatamente, todas as sombras pelo quarto se recolheram, voltando para dentro dele, e suspirou aliviado.
Não era possível notar antes, mas não tinham fechado as cortinas quando deitaram para dormir no dia anterior. Elas ainda estavam abertas e a luz da lua do lado de fora iluminava todo o quarto.
— O que aconteceu? — perguntou, com a voz rouca de sono e os cabelos bagunçados.
suspirou aliviado por tudo estar bem, mas não podia negar que ficou assustado diante das sombras assumindo o controle. Aquilo definitivamente não era normal, nunca tinha ouvido falar sobre algo assim, magia assumindo o controle do hospedeiro, mas não precisa ser um gênio para saber que aquilo era péssimo. Mesmo sem pensar realmente sobre o assunto, ele conseguia enumerar nos dedos diversas preocupações sobre aquilo.
— Não conversamos sobre isso ontem, mas vamos ficar na casa do clã. Você vai ficar lá conosco. E isso não está em discussão.

🔮🔮🔮

— Eu acho bom você ter um motivo excelente pra ter me acordado no meio da madrugada. — desceu as escadas reclamando, com os cabelos completamente desengrenhados e a cara amassada. Todos estavam mais ou menos assim, embora apenas os cabelos de estivessem completamente para cima.
— Tem magia na porta do quarto dele. — comentou, sentando-se em um dos sofás e deitando a cabeça nos ombros de , que já estava sentado ali. Ele voltou a fechar os olhos, e questionou se talvez não devesse ter realmente esperado até a manhã seguinte para fazer aquela reunião.
O assunto apenas pareceu bem urgente na hora.
— Sim, está lá. É para que ele não escute a conversa.
— E por que ele não pode escutar a conversa? — perguntou, com apenas um dos olhos abertos. tinha certeza que ele saberia a resposta se não fosse o sono, o que confirmava que acordá-los no meio da madrugada não tinha sido sua melhor ideia na vida.
Acontece que precisava de um lugar seguro para ficar e eles tinham isso, mas não podia apenas tomar sozinho a decisão de convidá-lo para ficar e tinha feito exatamente isso. Passaria a noite inteira preocupado se não conversasse logo com o clã sobre o assunto.
— Provavelmente porque a conversa deve ser sobre ele. — respondeu, para a surpresa de , que achava que ele já tinha voltado a dormir.
— O pai dele deu um show de homofobia e o expulsou de casa. — explicou, embora o problema fosse bem maior que isso. — Ele ia ficar em um quarto de hotel, mas as sombras simplesmente se manifestaram no meio da madrugada e me atacaram quando tentei fazer com que voltassem para dentro dele. Ele estava dormindo, e me pareceu que elas o impediam de acordar. Me pareceu ser a primeira vez que algo assim aconteceria, mas se elas aprenderam o que fazer...
— Isso pode ser perigoso. — completou, já parecendo mais acordado. — Elas podem manter ele dormindo para sair e controlá-lo, já que ele não consegue ter poder sobre elas normalmente.
— E também indica que o selo não está mais conseguindo conter elas como devia. — falou também. — O selo contém o , mas não a magia. Eventualmente elas podem aprender a fazer isso enquanto ele estiver acordado e se o selo continuar lá, não vamos mais conseguir trazer ele de volta.
— Não tinha pensado nessa parte e não gostei dela. — comentou.
— Então quer dizer que temos uma bomba relógio dentro de casa. — falou, e precisava admitir, realmente parecia uma péssima ideia, mas o que mais poderiam fazer?
Não viraria as costas para , especialmente agora e eles eram a melhor chance que o garoto tinha.
— Eu sei que você não gosta disso, Tae. Me desculpe, mas achei que seria muito mais fácil conter as coisas se ele estivesse aqui, entre seis bruxos.
— Mesmo descontrolada, a magia dele com certeza não é mais forte que a nossa. — falou também.
— Foi o que eu pensei. — concordou. — Mas pedi a reunião porque de qualquer forma, a casa do clã é a nossa casa. Eu não posso só trazer alguém pra morar aqui dentro.
— Não é surpresa pra ninguém que isso ia acontecer mais cedo ou mais tarde de qualquer forma. — comentou. — Estava evidente que ele ia fazer parte do clã desde o primeiro minuto.
— Não é bem sobre fazer parte do clã, é sobre morar aqui por um tempo. Ele foi expulso de casa e precisamos controlar a magia que está tentando fugir.
— Ah, . Se poupa. Até você sabe que ele vai entrar para o clã eventualmente. — foi quem respondeu. — Eu detesto a ideia, mas não é como se essa coisa de conexão de alma fosse uma escolha. Eu só gostaria que a sua não gostasse logo de um bruxo das sombras.
— Isso quer dizer que vocês estão de acordo sobre ele ficar, então?
— A gente que tá dormindo e você que faz pergunta idiota? — questionou, já dando a reunião por encerrada ao levantar do sofá.
— Eu só queria checar!
— Sim, . Ele pode ficar. — foi quem falou, levantando-se também. — Amanhã vou tentar pensar em alguma coisa para conter a magia dentro dele também, mas seria bom se você não surtasse e acordasse todo mundo no meio da noite outra vez.
— Eu vou tentar.

🔮🔮🔮

— Eu só quero entender em que momento você falou com eles sobre eu ficar se chegamos de madrugada e quando acordamos, já não tinha ninguém em casa. — insistiu, pelo que podia ser a milésima vez.
sabia que ele não estava mentindo quando disse que pediu permissão aos outros para que ele ficasse e sobre não ter necessidade de pagar aluguel, mas ainda sentia que uma peça estava faltando porque não entendia quando aquela conversa tinha acontecido.
Tudo na noite anterior, na verdade, estava meio bagunçado em sua mente. o tinha acordado no meio da madrugada parecendo assustado e o fez pegar as malas para ir para a casa dele. estava cansado e confuso demais para discutir, mas entendeu a preocupação de no caminho quando o loiro o explicou o que tinha acontecido.
Se sentiu culpado e pediu milhões de desculpas durante o trajeto, mas recusou todas, dizendo que não era culpa sua. Ficaram de conversar com o clã pela manhã, mas quando acordaram, todos tinham saído e tudo estava aparentemente resolvido.
Como se recusava a se hospedar ali e não contribuir, independente do quão ricos eles fossem, ficou decidido que ele ajudaria com as compras do mês, mas ele ainda queria entender em que momento tinham decidido que ele podia ficar e por qual motivo até mesmo aparentemente concordou com aquilo.
sentia que estava perdendo alguma informação importante, independente de estar sendo completamente honesto em todas as respostas que tinha dado até o momento.
— Você pode ser muito chato quando quer, sabia? — perguntou, ao invés de responder sua pergunta, já cansado de sua insistência.
mal tinha começado.
— Claro, se eu fosse chato o tempo todo eu seria você. — retrucou, e o loiro imediatamente parou o que fazia para encará-lo, indignado.
— Eu estou fazendo almoço pra você e é assim que você me agradece?! — retrucou, fazendo rir.
— Nós dois sabemos que esse almoço não vai sair, . Você mal sabe onde estão as panelas na sua própria casa e já me disse que não sabe cozinhar.
— E você deveria apreciar ainda mais meu gesto por isso. Eu estou tentando!
— Você está fazendo um péssimo trabalho, mas obrigado. — retrucou, fazendo o outro rir.
— Você é a pior pessoa do mundo com elogios.
estava sendo exageradamente cuidadoso com ele desde que tinham acordado. sabia que ele estava preocupado com seu psicológico, mas estava fingindo não notar. Era um pouco incomodo todo aquele cuidado, mas ao mesmo tempo era reconfortante que ele se importasse o suficiente para tentar cuidar dele, então deixou que ele continuasse, apenas tentando agir normalmente.
Naquela manhã, o levou para conhecer o resto do segundo andar, incluindo dois quartos de hóspedes que haviam na casa. O loiro decidiu que ficaria com o maior e levaram suas malas para lá. Era um quarto simples, porém grande. O dobro do tamanho de seu quarto em sua antiga casa. O chão era de madeira e as paredes brancas. Havia uma cama de casal com lençóis brancos e uma mesa de estudos que ocupava uma parede inteira de uma ponta a outra. Havia um armário grande, embutido, que nunca conseguiria preencher por inteiro e uma suíte só para ele. Era muito mais do que ele esperava, sinceramente e estava muito grato, embora desconfiasse de que fosse dormir com todas as noites.
Foi durante essa mudança de do quarto de para o de hospedes que o loiro contou sobre ter conversado com os outros, mas ainda estava insistindo no assunto, mesmo que já fosse quase meio dia.
Quando viu tentar cortar a cenoura na vertical ao invés de apenas cortar em rodelas como uma pessoa normal, percebeu que se não ajudasse, aquele almoço definitivamente não ia sair nunca.
— Sai daí, deixa que eu faço. — pediu, levantando-se para dar a volta no balcão, mas se inclinou para frente, tentando impedí-lo de acessar a comida sobre a pia.
— Não, sai! — gritou. — Eu vou fazer o almoço!
, você não sabe cortar uma cenoura!
— Eu sei sim, eu quero cortar ela em tiras! — retrucou de volta, não se erguendo de cima da comida.
acabou rindo, e se inclinou sobre para tentar pegar a faca da mão dele. O loiro se esquivou, gritando que ele saísse novamente.
— Você não vai conseguir cortar ela em tiras assim! — gritou também, embora estivesse rindo.
— Eu vou sim!
, deixa eu fazer a comida. — tentou tirar a faca dele mais uma vez, e novamente não conseguiu.
— Não! Você pode ajudar, mas quem vai fazer sou eu.
— Eu vou ser ajudante do cara que não sabe cortar uma cenoura? — voltou a rir. — Entendi.
— Eu sei o que eu estou fazendo! — se levantou para virar para ele. tomou um susto com o movimento repentino, estavam muito próximos, mas ele voltou a rir logo em seguida, notando o quão indignado realmente estava.
, você não sabe nem onde fica as panelas! — o lembrou, vendo o outro formar um bico emburrado.
— E daí, você também não sabe!
— Claro, a casa não é minha.
— Você mora aqui agora! — argumentou, apontando o dedo em sua direção.
— E vou aprender onde ficam as coisas antes de você que mora aqui há quase cem anos.
— Vai tomar no cú, eu não moro aqui há tanto tempo! — se irritou, o que fez rir de novo. Tinha descoberto que, apesar de amar irritar os outros, era o que se irritava mais rápido sempre. Ele era o típico baixinho de pavio curto e a melhor parte é que ele apenas ficava fofo quando se irritava. inflava as bochechas e ficava parecendo um bolinho. Ou dois, no caso. Um para cada bochecha.
riu outra vez com o pensamento e ganhou um empurrão do outro por estar rindo dele.
— Eu tenho certeza que o tempo que você mora aqui é mais do que minha idade. — voltou ao assunto, e o empurrou de novo apenas porque não tinha argumentos contra isso.
— Você era mais legal calado. — resmungou, virando-se novamente para a pia. — Eu só queria fazer uma surpresa.
— Faz uma pedindo comida. Você é bom em pedir comida tanto quanto é ruim em fazer.
Dessa vez riu também, voltando a se virar para bater nele com um pano de prato.
— Não vou fazer nada também, se vira. — reclamou, se esquivando de para sair de perto, mas o mais novo o puxou de volta, com tanta delicadeza que quase caiu por cima dele.
Terminaram agarrados no meio da cozinha, rindo um do outro. abaixou a testa em seu ombro, e percebeu que, apesar de tudo que tinha acontecido no dia anterior, se sentia bem como nunca antes tinha se sentido. Sabia que isso se devia a , tanto por tentar cuidar dele quanto por apenas ser e fazê-lo rir.
Talvez estivesse gostando do loiro um pouco mais do que deveria e ao contrário do que esperava, não achava isso algo ruim. A sensação de gostar de alguém era boa, apesar de um pouco assustadora também.
Quando voltou a erguer a cabeça para se afastar, não deixou que ele fizesse isso, o segurando pela cintura e colando seus lábios. A princípio, se assustou com a aproximação repentina, mas rapidamente correspondeu, jogando os braços ao redor do seu pescoço enquanto permitia que invadisse sua boca com a língua. Era um beijo lento, com alguns sentimentos a mais que o normal e o sentiu suspirar contra seus lábios. Se perguntou se ele sentia as mesmas coisas que ele ou se estava sozinho nessa, mas percebeu que não se importava, porque gostava do que tinham no momento.
— Ei, ei, ei! Isso é hora de profanar minha cozinha?! — entrou no ambiente aos berros.
pulou para trás de susto enquanto apenas ria.
— Você está sugerindo que dependendo do horário podemos profanar a cozinha?
! — ele gritou novamente em repreensão. se sentia um pouco envergonhado de ter sido pego no flagra, mas acabou sorrindo quando gargalhou mais uma vez apenas porque ele ficava ainda mais bonito quando ria.
— Estávamos fazendo o almoço. — tentou se justificar.
— E desde quando você cozinha?
fechou a cara diante de sua resposta, voltando a fazer bico, enquanto ria. Foi exatamente o que ele disse a .
— Na verdade eu estava tentando dizer a ele para me deixar fazer o almoço. — falou, e estreitou os olhos em sua direção.
— E você cozinha? — questionou.
— Sim.
— Então nós vamos fazer isso juntos hoje. — decidiu. — , sala!
— Mas eu quero ajudar! — o loiro exclamou, indignado.
— Você ajuda não atrapalhando.
— Vocês dois são desprezíveis. — reclamou, mas fez o que foi dito, batendo os pés por todo o caminho até a sala enquanto ria dele. bravo parecia tão ameaçador quanto um filhotinho de poodle.

🔮🔮🔮

tinha descoberto que o terceiro andar da casa que ele até então nunca tinha visitado consistia em apenas dois ambientes, o escritório de e um banheiro. Já tinha visitado o local agora e achou simplesmente incrível. Quase não havia paredes. Exceto pelo banheiro, todas elas tinham arcos abertos como janelas, indo até o chão. Havia uma sacada ao redor de todo o ambiente, mas ela também era aberta pelos mesmos portais, tendo apenas um muro de contenção embaixo para que fosse possível se apoiar em segurança. Havia um balanço suspenso ali também, que chamou muito a atenção de , e todo o ambiente era completamente cercado de plantas, o que fazia muito sentido considerando o poder de .
Em algum momento durante a tarde, tinha pedido que fosse ajudá-lo com alguma coisa e ficou sozinho no balanço na área da piscina. Com o tempo livre, aproveitou para continuar o desenho que fazia de , mas parou quando sentiu Mochi acessar sua magia.
Olhou para os lados em busca do gato, fazia bastante tempo que não o via, mas logo uma gritaria dentro da casa chamou sua atenção.
Preocupado, bloqueou a tela do Ipad e se preparou para levantar, mas Mochi passou correndo antes disso, carregando alguma coisa na boca. O gato pulou sobre o balanço, soltou o que quer que estivesse carregando e se deitou em cima, mostrando os dentes para a porta mesmo que não houvesse ninguém lá ainda.
Levou apenas alguns segundos, mas logo apareceu, parecendo meio sem fôlego, o que sugeria que ele estava correndo atrás de Mochi até então.
— Seu gato roubou meus fones de ouvido! — acusou, apontando na direção de Mochi que arregalou os dentes para ele novamente.
olhou para o gato de forma acusatória.
— Devolva, Mochi. — pediu, e apesar de não lhe mostrar os dentes, Mochi o encarou com desdém, como se achasse absurdo lhe pedir aquilo. — Você quer voltar para a rua? Não temos onde ficar se nos expulsarem porque você está perturbando os outros. — o repreendeu, enfiando a mão embaixo dele para pegar o case dos fones que ele sabia estar ali.
Mochi continuou olhando feio, mas não o impediu, parecendo ter entendido o ponto de sobre aquilo. Assim que pegou o aparelho, estendeu na direção de . Ele se aproximou para pegar, mas pulou de susto quando o gato fingiu que o morderia por se aproximar demais.
— Mochi! — o repreendeu novamente.
— Seu pulguento. — o xingou, olhando feio enquanto guardava os fones de volta no bolso. — Obrigado. — agradeceu, mas a forma como ele pareceu contrariado em ter que fazer isso não passou despercebida por .
o contou em algum momento durante o dia que tinha acordado o clã no meio da madrugada para falar sobre ele. Sinceramente, quis socá-lo por incomodar literalmente todos eles por sua causa, mas agora já estava feito.
Porém, o fato de ter concordado ainda o deixava extremamente curioso.
— Por que não me agradece dizendo porque me aceitou na sua casa? — propôs, e o encarou como se ele fosse idiota.
— Por , obviamente.
— Já é a segunda vez que você diz que me atura por causa dele.
— Por que é. não é só meu irmão de magia. Ele é importante para mim, como um irmão de verdade. Eu faria tudo por ele. Eu preferia que ele não se envolvesse com um bruxo das sombras, especialmente um tão instável, mas se ele te escolheu, deve ter algo bom em você. Eu confio nele.
— Me escolheu? — perguntou, confuso com essa parte, e apenas deu de ombros, não parecendo tão disposto a explicar alguma coisa.
— Quem sabe eu não comece a te aturar também agora que você mora com a gente. — respondeu ao invés disso, mas não deu muito mais abertura para conversa, dando as costas para ir embora.
ainda ficou com aquilo na cabeça, sobre ter sido escolhido, e se questionou se tinha relação com o que ainda estava esperando para lhe contar.
Tinha certeza que sim, mas apenas suspirou, voltando-se para seu ipad. Mochi tinha se deitado em cima dele, como um bom gato. negou com a cabeça.
Não era possível que aquele bicho não fosse mesmo um felino.
— Eu sei que perturbá-lo é engraçado, mas vamos tentar não ser expulsos de mais uma casa, ok? — perguntou para ele, e recebeu um miado em troca. entendeu como um "vou tentar" e ficou confuso consigo mesmo por isso.

🔮🔮🔮

Na segunda-feira, perdeu a primeira aula para imprimir o desenho que havia feito de em uma gráfica. Estava nervoso sobre entregar ou não para ele, pois tinha desenhado em sua forma verdadeira, com a pele de serpente no pescoço e os olhos amarelados.
Já estavam no intervalo, esperava pelo loiro embaixo da mesma árvore de sempre e olhava para o desenho mais uma vez. Sinceramente, o tinha achado lindo, um dos seus melhores trabalhos. Nele, estava de perfil, sem camisa. Não mostrava seu tronco inteiro, começava um pouco abaixo dos mamilos. fez questão de desenhar seu piercing também. Uma das mãos de estava erguida, e um brilho dourado saia de sua palma, exatamente como já o tinha feito fazer várias vezes.
O desenho tinha o tamanho de uma folha A5 e estava emoldurado, mas não tinha muita certeza se deveria entregar ou não.
tinha pedido muito pelo desenho, mas ele odiava suas características de serpente. Por um lado, esperava motivá-lo a se mostrar mais com aquilo, queria deixar claro o quão lindo achava a verdadeira forma de , mas por outro lado, aquilo era um presente, deveria agradar a acima de tudo e não a .
Antes que pudesse decidir o que fazer, apareceu repentinamente, e no susto, escondeu a frente do quadro em seu peito, tentando impedir que o visse. Imediatamente imaginando o que era aquilo, abriu um enorme sorriso, jogando a mochila no chão de qualquer jeito e se sentando rapidamente ao seu lado.
— É meu desenho? — perguntou animado. — Me deixa ver!
Sua animação deixou ainda mais inseguro sobre mostrar. Realmente queria que gostasse do desenho, e existia grande chances não só dele desgostar como também de se chatear.
Definitivamente deveria ter feito como preferia ser visto, mesmo que em sua cabeça, aquilo sequer fizesse sentido.
— Porque você está com essa cara? — voltou a perguntar quando ele não disse nada. — Você não gostou do desenho? Ou está com medo que eu não goste? Eu vou gostar de todo jeito, eu fico feliz só de você ter feito, eu juro!
não estava mentindo, mas ele ainda não tinha visto o desenho para poder dizer isso.
Ciente de que agora, de qualquer forma, já não fazia mais sentido apenas esconder, suspirou, decidindo se justificar antes.
— É o seu desenho. — admitiu. — Eu terminei ontem e perdi a primeira aula para imprimir, eu só estava pensando se fiz um bom trabalho...
, eu já vi os seus desenhos, você é incrível. — o interrompeu para dizer, rindo como se aquela insegurança fosse absurda, mas ele não tinha entendido bem o ponto.
— Não é isso, eu gostei do resultado. É que eu te desenhei como eu te vejo e como eu gostaria que você se visse. Eu te acho lindo e gostaria que você também pensasse assim, mas eu não acho que você vai gostar e não faz sentido dar um presente que a outra pessoa não vai gostar. Talvez eu devesse ter feito de outro jeito, mas não parecia fazer sentido também. Não seria você de verdade, entende?
— Você me desenhou com as características de serpente. — falou, entendendo onde queria chegar, mas não parecia chateado ou decepcionado por isso, o que era um alívio. concordou com a cabeça com um pouco mais de confiança por isso. — Me deixa ver. — pediu. — Eu quero ver como você me vê.
Diante de sua resposta, entregou para ele o desenho. o pegou e o virou para si para poder ver também, e para alívio de , ele sorriu quando o fez.
— Não acho que eu seja tão bonito assim. — riu, tocando o vidro da moldura com os dedos.
— Você tem uma clara distorção de imagem, então. — respondeu, olhando para enquanto ele apreciava o desenho. — Você é exatamente assim, . Lindo do jeitinho que você é.
Ao invés de responder, o segurou pela nuca e o puxou para perto, colando seus lábios um no outro. Ele iniciou um beijo que rapidamente correspondeu, sem se importar se estavam na faculdade e se alguém se incomodaria com isso.
Os lábios de eram viciantes e ele nunca recusaria um beijo seu.
Quando se separaram, juntou suas testas sem soltá-lo, e sentiu o ar lhe faltar. Ele era muito sortudo de poder ver tão de perto, mais ainda por conhecer o de verdade e saber que poderia vê-lo em sua forma natural quando voltassem para a casa no final do dia.
— O desenho é lindo, . Obrigado. — falou, deixando um selar em seus lábios.
— Eu acho que gosto de você. — soltou sem pensar e congelou por um instante por causa disso.
— Acha? Não conseguiu decidir isso ainda? — riu, mais uma vez não entendendo o que realmente tinha dito. Por um instante, o mais novo pensou em deixar por isso mesmo. Não tinha certeza sobre o que sentia, mas acabou decidindo por ir em frente.
O loiro fazia tanto por ele, e nunca foi bom com as palavras, sempre retribuía com um palavrão. tinha mais motivos para estar confuso do que ele. , na verdade, mal tinha motivos para ser tão gentil quando era sempre tão rude. Precisava falar para o loiro o que sentia. Queria que soubesse.
— Não falei sobre esse tipo de gostar, . — voltou a falar, afastando-se um pouco para que eles pudessem conversar. Viu a surpresa nos olhos do outro quando os arregalou um pouco, mas não tinha volta agora, ele já tinha entendido. — Eu não sou muito bom em demonstrar as coisas com palavras ou mesmo com gestos, mas eu gosto de você e eu não sei como explicar mais do que isso. — riu meio nervoso, mas viu o olhar de se suavizar e um sorriso surgir em seu rosto, o que o tranquilizou rapidamente.
— Você demonstra mais do que pensa, . — ele respondeu. — Você acabou de me desenhar porque eu pedi. Você não gosta de contato, mas não me repele se eu me deitar no seu colo ou quiser te abraçar e eu adoro abraçar. Você pode me xingar, mas faz o que eu peço. Eu também gosto de você, já sabia há algum tempo. E sabia também que era recíproco. Eu só não achava que você sabia. Eu estava certo pelo visto. — ele riu, e se sentiu um pouco aliviado.
Não tinha reparado em nenhuma dessas coisas, para ser sincero. Ele apenas não se importava com muita coisa se elas partissem de . Nunca se imaginou dormindo abraçado, mas gostava quando o abraçava para dormir. Não gostava de muito contato, exceto quando era ele.
É, talvez fosse mesmo um pouco óbvio, mas realmente não tinha percebido, assim como não percebeu que também gostava dele. Pelo menos não dessa forma.
Era óbvio que se importava, mas ele também se importava com as pessoas no seu clã sem gostar delas romanticamente falando. Podia simplesmente ser a mesma coisa.
— O que isso significa então? — perguntou, de repente sentindo-se nervoso. Sabia muito bem para onde aquilo encaminhava as coisas, mas precisava que a resposta fosse verbalizada para ter certeza. Nunca foi bom em ler nas entrelinhas e não queria se precipitar.
— O que você quer que signifique? — devolveu com outra pergunta, e quis agredí-lo. Estava perguntando porque queria que ele confirmasse.
— Eu perguntei primeiro.
— Você está fugindo da minha pergunta. — riu, e ele o encarou indignado.
— Você também!
— Tudo bem, tudo bem. Então eu pergunto. — voltou a falar. — Quer ser meu namorado?
não esperava um pedido, ele esperava apenas uma confirmação, que ele apenas falasse "bom, então somos namorados agora". Repentinamente, percebeu que era a primeira vez que namorava desde Yuna, e considerando que foi um namoro forçado, aquele seria seu primeiro namoro de verdade.
Também seria a primeira vez que namoraria um homem, mas apesar de ficar nervoso, sabia muito bem o que queria e confirmou com a cabeça.
— Sim, eu quero. — respondeu.
sorriu, e se aproximou para mais um beijo. imediatamente entreabriu os lábios, mas parou no meio do caminho, voltando a se afastar.
ficou confuso. Ele já tinha se arrependido?
— Eu tenho algo para te falar. Talvez devesse ter falado antes de te pedir em namoro, na verdade. — ele riu meio nervoso, e estreitou os olhos.
— Você é um bruxo e um réptil. Não é possível que tenha mais alguma surpresa além disso, é? — soltou sem pensar, chocado, e acabou gargalhando.
— É sobre mim, mas não é sobre isso.
— Estou confuso agora.
— Lembra que eu te falei que tinha mais uma coisa para contar, mas não achava que você estava preparado para ouvir? — perguntou, e arregalou um pouco os olhos. Tinha ficado realmente curioso sobre isso, especialmente considerando quantas vezes falou sobre aturá-lo por causa de , o que ele também sabia que era sobre o mesmo assunto.
— E agora eu estou?
— Não sei, mas parece ser um momento pertinente.
— Uhm...
— Nós, bruxos, costumamos ter conexões de almas com outras pessoas. Seria como dizer que temos almas-gêmeas. — imediatamente arregalou os olhos, entendendo rapidamente onde ele queria chegar. — Normalmente, é impossível que as pessoas não se correspondam quando elas possuem essa conexão e depois que elas se conhecem, também é impossível que não fiquem juntas.
— Você está dizendo que nós...
— É, eu estou. — ele mordeu o lábio inferior, meio nervoso.
— E você já sabia o que éramos?
— Não desde o início, obviamente. Só quando percebi que gostava de você, mas eu estava esperando que você percebesse também. Eu não queria impor nada. — explicou. Fazia sentido, ele queria que gostasse dele naturalmente, e esperou isso acontecer para contar. — Isso te assusta?
— Um pouco. — admitiu, mas não sabia bem o que pensar sobre o assunto. Parecia um pouco irreal para ele na verdade, mas não achava que aquilo mudava as coisas entre os dois. era alguém que ele admirava, independente de qualquer conexão. — Mas isso não muda o que eu sinto. — falou por fim, vendo sorrir por isso.
— Que bom. — ele respondeu. — Mas ainda tem mais.
— Mais?
te disse que estava do seu lado por mim. — falou, e percebeu que, de fato, o que tinha dito ainda não explicava a reação de . — Conexões de alma não aguentam a separação. Agora que nos conhecemos, se você morrer, então eu provavelmente morro também.




estava em frente a escola de sua irmã, esperando o horário de saída para tentar falar com ela antes de seus pais chegarem para buscá-la. No entanto, o assunto que rondava sua mente era outro completamente diferente: A conversa que havia tido com no dia anterior. Mais especificamente, a parte onde ele falava que, se um deles morresse, o outro morreria também.
No fundo, sabia que deveria estar assustado por sua própria conta. Sua vida literalmente dependia de uma pessoa que ele conhecia há pouco tempo, mas o que o preocupava de verdade era .
não se lembrava de já ter se preocupado tanto com alguém que não sua mãe ou irmã, mas se preocupava com . Não queria que ele morresse, e não tinha gostado de saber que a vida do outro estava presa a alguém tão instável quanto si próprio, que podia morrer a qualquer instante.
Não era possível que não houvesse nada a ser feito, alguma forma de separar os dois para que ficasse vivo se o pior acontecesse, mas se tivesse, o clã já não teria feito? Eles se preocupavam com .
A não ser que o loiro não tivesse deixado que eles tomassem uma atitude.
Mais uma vez, acabou pensando em . Se havia alguma forma de separá-los, o ajudaria. Ele o odiava por , porque amava , então se existisse alguma forma, faria aquilo, mesmo que fosse contra, apenas pela possibilidade de salvá-lo.
Repentinamente, ouviu seu celular notificar e soube que era . O loiro era a única pessoa além de sua família que tinha seu contato, mas não era como se os seus pais estivessem ansiosos para falar com ele.
Não sabia sobre sua mãe, era verdade. Ela provavelmente só descobriu que foi expulso de casa quando chegou após o serviço tarde da noite, mas tinha certeza que ela ficaria ao lado de seu pai. Ela sempre tratou todos com respeito, independente de classe, cor ou orientação sexual, mas sabia que ela sempre ficaria ao lado do marido, assim como a igreja a ensinava, e se ele decidiu que não era mais seu filho, então ela acataria a decisão em silêncio, como acreditava que uma boa esposa deveria fazer.


Por que você não me esperou? Eu podia ter te levado.

avisado a ele que perderia uma aula para ir até a escola de Jihyo e não o esperou responder justamente porque sabia que se ofereceria. Não queria abusar mais do que já estava abusando. Além disso, sequer tinha sentido ele perder uma aula apenas para servir de motorista particular quando era perfeitamente capaz de fazer aquilo sozinho.


Minha aula já acabou, estou indo até ai. Me espera.



Não precisa, .



Me espera.


bufou, mas não teve tempo de enviar outra resposta, pois ouviu o sinal tocar. Já podia ir até sua irmã.
se apressou para ser o primeiro e perguntou para a professora se podia falar com ela sem levá-la embora consigo. Precisou explicar a situação para ela, mas pelo menos conseguiu que a mulher se compadecesse, deixando que ele passasse do portão para falar com a menina ali.
Jihyo parecia cabisbaixa quando foi chamada. Certamente tinha se preocupado após ouvir toda a briga do dia anterior. não ter aparecido durante a noite ou na manhã seguinte provavelmente piorou tudo, no entanto, quando ela colocou os olhos nele na porta da escola, imediatamente se animou, arregalando os olhinhos.
ie! — ela gritou animada, correndo para ele sem pensar duas vezes. se abaixou e ela se jogou em seus braços, sendo recebida por ele imediatamente.
— Como você está? Tudo bem? — perguntou, a afastando de sí para verificar. Seu pai estava tão transtornado no dia anterior, não ficaria surpreso se ele tivesse descontado sua frustração nela, mas a menina apenas concordou com a cabeça, dizendo que estava bem.
ie que não voltou ontem. — ela falou, e lamentou tê-la preocupado. — Jihyo... Eu. — ela mesma se corrigiu. — Eu fiquei com medo.
— Eu sei, me desculpe. Não vou mais poder ficar com você, ou voltar para casa. — contou.
— Por que o papai não deixa? — ela perguntou, cabisbaixa e ele teve que concordar.
— Isso.
— Mas por quê? — ela voltou a perguntar, os olhinhos enchendo de lágrimas, e suspirou sem saber se devia ou não contar para ela o que tinha acontecido.
Por um lado, ela era muito pequena ainda para entender as coisas, mas pensou que, se não contasse, era provável que seu pai enchesse sua cabecinha com preconceito e outras coisas ruins. Não podia deixar isso acontecer, precisava aproveitar que Jihyo confiava nele para explicar como funcionam as coisas. Foi assim que acabou optando por dizer a verdade.
— Eu e o ie estamos namorando. — contou de uma vez. — É por isso que o papai me expulsou de casa.
— Mas por que, ie?! — ela continuou sem entender.
— Porque algumas pessoas acham errado dois homens namorarem. Algumas pessoas acham que homem só pode namorar com mulher e o papai é uma dessas pessoas. Ele acha que é isso que Deus quer, então odeia tudo que é diferente.
— Mas se Deus ama todos nós, ele não deveria amar você e o ie também? Mesmo que vocês estejam namorando?
— Sim, e provavelmente ama. — respondeu. Não acreditava em Deus, mas não queria influenciá-la daquela forma. Quando tivesse idade o suficiente, decidiria por conta no que acreditar. Mas em teoria, achava que ela estava certa. Se ele era tão bom quanto dizia a bíblia, se pregava o amor ao próximo, então sim, ele deveria amá-los independente disso. — Mas algumas pessoas gostam de culpar a ele pelos seus próprios preconceitos. — voltou a explicar.
— Preconceito? — ela questionou, confusa, e fez uma careta, percebendo que talvez tivesse começado a complicar o assunto um pouco mais do que o necessário, especialmente quando ele provavelmente tinha pouco tempo.
— Nós falamos que uma pessoa tem preconceito ou é preconceituosa quando ela não gosta de algo que é considerado diferente. Dois homens namorando é diferente. Quem não gosta disso nós falamos que é preconceituoso.
— Um coleguinha na minha sala não fala. Algumas crianças não gostam dele por isso.
— Exatamente, isso é preconceito. E é muito ruim. Você gostaria se fosse com você? — perguntou, e ela negou com a cabeça. — É exatamente nisso que você tem que pensar quando ver alguém diferente. Todo mundo merece respeito, independente de ser diferente ou não.
— Então o papai foi preconceituoso com o ie e agora o ie não pode voltar pra casa?
— Isso. — concordou, satisfeito que ela tivesse entendido. — Não sei também se vou conseguir te ver aqui na escola sempre. Eles podem pedir para suas professoras não deixarem, mas vou pensar em alguma coisa, ok?
— Jihyo não quer deixar de ver o ie. — seus olhos se encheram de lágrimas novamente e ela juntou os lábios em um biquinho que partiu seu coração, mas não era como se tivesse muito que ele pudesse fazer agora.
— Eu sei, também não quero deixar de te ver. — respondeu, limpando uma lágrima que acabou escorrendo pelo rosto dela. — Eu vou dar um jeito, está bem? Mas se demorar um pouco, apenas saiba que eu estou tentando e que não fui embora porque eu quis.
— Está bem.
— Abre a mochila, eu trouxe mais lanches pra você guardar no seu quarto. — falou, abrindo a própria bolsa onde os tinha colocado. Assim que Jihyo o entregou a dela, a encheu com os lanches, ciente de que agora, mais do que nunca, ela precisaria disso. era quem cozinhava em casa na maior parte das vezes. Ela provavelmente ficaria sem comer até sua mãe chegar em casa tarde da noite.
— O que você está fazendo aqui? — a voz de sua mãe soou assim que fechou o bolso da mochila da menina e a devolveu para ela.
se levantou, e Jihyo segurou sua mão, não querendo se afastar dele.
— Vim ver a Jihyo. — respondeu, mas o olhar duro da mulher já entregava o que ela pensava disso, sem que precisasse dizer.
— Se despedir, eu espero. — ela retrucou. Parecia pior do que ele esperava. Era como se todo o amor que ela sentisse por ele tivesse morrido. Talvez ela fosse tão preconceituosa quanto seu pai e ele nunca tivesse notado. — Seu pai não quer mais que ela tenha contato com você.
— E você apoia isso? — perguntou, embora já tivesse certeza da resposta.
— Você não deveria ter feito isso com a família, . — ela respondeu, se aproximando para pegar a outra mão de Jihyo.
— Deixa o voltar, mamãe! — ela pediu, mas a mulher apenas a puxou para si, afastando-se dele.
— Esse assunto não é da sua conta, Jihyo.
A menina começou a chorar, mas a mulher apenas a ignorou, a puxando para longe.
— Eu não fiz nada com a família. — a respondeu, mesmo que a mulher sequer olhasse para ele. — Sou eu que estou namorando um homem. Isso não muda quem eu sempre fui.
— Muda pra Deus. — ela devolveu, sem parar de andar, e , sinceramente, só pensou em algumas dezenas de palavrões para distribuir para ela.
— Claro, porque vocês escolhem o que seguir na bíblia como os bons hipócritas que são. — retrucou ao invés disso, aumentando a voz conforme ela se afastava. — Sinceramente, você merece a vida que tem. Merece todo o sofrimento que um marido bêbado e violento te proporciona. Você teve todas as oportunidades possíveis pra se libertar disso, mas escolheu viver essa vida e ainda levou dois filhos junto com você. Você não é melhor do que ele, e vai perder os dois filhos por causa das escolhas ruins que fez na vida.
Dessa vez, ela parou para encará-lo. Jihyo ainda chorava e desejou se aproximar para consolá-la.
— A Jihyo não vai a lugar nenhum. — sua mãe falou.
— Agora não, porque não pode. Mas pode ter certeza que assim que ela tiver a chance, vai te abandonar com o seu marido.
— Seu pai. Ele ainda é seu pai. — ela o corrigiu, e por pouco não riu na cara dela.
— Nós dois sabemos que ele não é. — retrucou. — Só acho engraçado que trair o marido está tudo bem, mas ter um filho que escolhe namorar outro homem, é demais...
— Não dá mesmo pra conversar com você. — ela voltou a dar as costas, praticamente arrastando Jihyo consigo. Ver aquilo o deixou angustiado, mas não havia nada que ele pudesse fazer. — Você enlouqueceu de vez.
— Deve ser porque fui criado em uma família completamente louca. — retrucou, mas a mulher já atravessava a rua. Provavelmente não tinha escutado, mas sabia que isso não mudaria nada.

🔮🔮🔮

Apesar de sua mãe ter feito exatamente o que esperava, ele ainda se sentia decepcionado. Diferente de seu pai, ela não era uma pessoa ruim, apenas estava cega pelos ensinamentos da igreja. gostaria muito que ela se libertasse, mas já tinha desistido completamente disso.
Não podia ajudar quem não queria ser ajudado e agora que seus pais o tinham cortado completamente de suas vidas, nem fazia sentido insistir naquilo. Não era mais seu problema.
chegou cerca de dois minutos depois que se sentou em um banco em frente a escola para esperá-lo, mas distraído em seus próprios pensamentos, mal o notou até que o loiro se sentasse ao seu lado.
— Tudo bem? — perguntou, o encarando com certa preocupação. — Conseguiu falar com ela?
— Consegui. — respondeu apenas. esperou por uma continuação, mas quando ela não veio, voltou a falar:
— Então por que você está assim? Eu buzinei e te chamei e você não me ouviu.
— Desculpe. — pediu, meio surpreso em saber daquilo. De fato, não tinha escutado nada. — Minha mãe apareceu enquanto eu falava com Jihyo. — explicou, novamente não prolongando o assunto.
— E ela está do lado do seu pai? — teve que insistir.
— Claro que sim.
— Que merda, . Eu sinto muito.
— Tanto faz, já esperava por isso. — respondeu, mas embora ele de fato esperasse, não estava realmente tudo bem. Ele estava chateado, gostaria que sua família fosse mais saudável só para variar. Assim, quem sabe, poderia se preocupar menos com a irmã, o que não era o caso. — O problema é que eles não vão deixar que eu continue vendo a Jihyo e eu fico pensando em como vão ser as coisas sem mim. Eu que garantia que ela estivesse alimentada, eu que a ajudava de manhã para vir para escola e que a trazia. Eu que impedia que meu pai brigasse com ela atoa e agora ela vai ficar sozinha durante a tarde com um bêbado. Não queria que ela precisasse aprender a lidar com ele tão cedo como eu tive que aprender, e agora... — suspirou ao invés de continuar, se sentindo frustrado.
— Podemos procurar um advogado. — sugeriu — Eu tenho certeza que algo pode ser feito para garantir que você tenha direitos sobre ela também. Especialmente quando qualquer visita surpresa de um assistente social pode provar o que acontece na sua casa.
— Mas e se tentarem apenas jogar ela em um orfanato? — perguntou. Já tinha pensado em denunciar antes, mas a chance de tudo só piorar era enorme. Tinha certeza que sua mãe jamais optaria por se separar para manter a guarda da filha. Ela sempre teve o marido como prioridade e ainda era capaz de culpar o diabo por estar tentando interferir na sua vida.
— E porque fariam isso se você é maior de idade e pode cuidar dela? — questionou.
— Não acho que um adulto praticamente sem teto sirva de exemplo de qualquer coisa. — não tinha um bom emprego, não era formado e não tinha uma casa própria. Seria difícil provar para um juíz que ele tinha plena capacidade de cuidar de uma criança, mesmo que a vida toda ele tivesse cuidado.
— Você mora com a gente, . — respondeu. — Além disso, com as instruções de um advogado, podemos fazer isso funcionar. Na pior das hipóteses, alugamos um apartamento provisório para enganar a assistente social. — sugeriu, e acabou rindo daquilo sem se conter.
— Deve ser muito bom ser rico o suficiente para cogitar uma coisa dessas. — falou, fazendo o outro dar de ombros.
— Desde que resolva o problema. Se tivermos uma casa e combinarmos nossas rendas, temos plena capacidade de cuidar de uma criança. Nós podemos resolver isso.
Era realmente uma boa idéia, e se permitiu ter esperanças. Daquela forma podia funcionar, mesmo que o mérito fosse completamente de .
achava que sabia se virar na vida, mas provava todo dia que estava completamente perdido. Sempre que achava que um problema não tinha solução, aparecia com ela. Claro que ter dinheiro e noventa anos de idade ajudava, mas não precisava fazer tanto por ele quanto fazia e era extremamente grato. Queria poder retribuir, mas existia grandes chances de , ao invés disso, acabar lhe matando.
— Obrigado. — agradeceu, apesar de novamente se sentir culpado, mas decidiu guardar aquela parte para sí mesmo. — Não consigo deixar de me preocupar com Jihyo, mesmo que eu me sinta mais leve por não estar mais em casa.
— É a sua irmã, claro que você vai se preocupar. — respondeu. — Mas você também deveria aproveitar seu momento agora que está livre. Pelo que eu entendi das nossas conversas, você se privava de muitas coisas por causa de seu pai. Deveríamos correr atrás delas agora.
— Eu não saberia por onde começar. — acabou rindo.
— Começa trocando esse moletom por uma camiseta. Você usava para esconder as tatuagens, certo? Você não precisa mais esconder. — sugeriu, e o encarou meio surpreso. Ele estava certo, mas não tinha cogitado essa possibilidade ainda. Não tinha nem pensado nisso na verdade. — Você pode fazer outras agora também, mais visíveis. Ou apenas colocar um piercing.
— Eu acho que gostaria de colocar um piercing. — respondeu, e sequer precisou pensar sobre o assunto. Sempre foi sua vontade, mas jamais conseguiria esconder algo assim, especialmente quando até mesmo as tatuagens já lhe davam um grande trabalho.
— Onde? — se animou.
— Na boca. — levou uma das mãos até seu lábio inferior, indicando o canto esquerdo, e ficou indignado.
— Porra, justo na boca?! — questionou, deixando confuso por um instante. — Como eu vou te beijar? — explicou, fazendo o outro rir mais uma vez.
— Seja criativo. — devolveu, e acabou rindo também.
— Quer que eu marque o estúdio? Podemos ir após seu serviço.
— Eu marco. Já tenho um. — respondeu. — Vai comigo?
— Óbvio, não recusaria a chance de segurar sua mãozinha.
— Vai a merda, . — ele chutou de leve seu tênis e riu mais uma vez.
— Então marca o estúdio e eu vejo a coisa do advogado.
— Obrigado, . — pediu de novo, ciente de que nenhum agradecimento no mundo seria o bastante para compensar tudo que estava fazendo por ele.
— Relaxa. — deu de ombros, já se levantando do banco. — Agora vamos para o carro, tenho que te levar para o serviço e ir para a clínica antes que o me mate por chegar atrasado.
Sem dizer nada, se levantou também para acompanhá-lo, não querendo atrasá-lo demais, mas sua mente se encheu com novas possibilidades. Tatuagens e piercings não eram a única coisa das quais ele se privava pela família. Fazia um curso que não gostava e tinha um emprego entediante apenas porque era mais condizente com o que seus pais esperavam. Talvez fosse a hora de mudar essas coisas também, supondo que ele vivesse o suficiente para isso.

🔮🔮🔮

Após o serviço, já no estúdio, se sentiu meio frustrado ao descobrir que não poderia apenas colocar uma argola no lábio como gostaria. Precisaria usar a joia reta por um tempo antes de trocar.
e estavam de pé em frente a um balcão no meio do espaço, enquanto esperavam o mais novo ser chamado. Eles olhavam um dos livros com desenhos que serviam como modelos para tatuagens e alguns eram seus. apontava para eles enquanto folheava.
— E se eu tatuar "forever young" no antebraço? — o loiro perguntou após olharem um desenho com uma frase diferente tatuada no mesmo lugar.
— Vai ser bem irônico considerando que você tem mais de noventa anos.
— Mas continuo com carinha de vinte.
— Por isso mesmo eu disse que é irônico. — respondeu. Combinaria mais com ele do que com qualquer um. A não ser que esse "um" também fosse um bruxo que não envelhecia.
— Irônico, mas vai ser igual com você, caso tenha esquecido. Talvez você até já tenha parado de envelhecer.
— Vai ser igual supondo que eu não morra.
— É bom que não morra porque eu adoraria viver um pouco mais. — brincou, e fez uma careta, odiando se lembrar daquele assunto.
— Não vamos falar sobre isso.
o encarou, mas não disse nada. No outro dia, quando lhe contou, sua única reação foi um "Ah" e o assunto morreu. Foi pego de surpresa e nunca foi muito bom naquele tipo de coisa. Suas reações mais espontâneas eram sempre não ter reação nenhuma. Só foi se preocupar com aquilo quando pensou sozinho sobre o assunto mais tarde. Ainda não sabia o que dizer sobre ele a , mas pelo menos já tinha sua própria conclusão.
, pode vir. — Doyoon, o dono do estúdio e quem faria seu piercing o chamou de dentro da sala. Sem dizer nada, se virou para seguir até ele, mas antes que desse o segundo passo, o segurou pelo pulso e o puxou de volta. Por um breve instante, sentiu-se confuso, mas não teve tempo de pensar mais que isso antes que os lábios de encontrassem os seus.
O loiro o segurou pelos cabelos e iniciou um beijo caloroso que correspondeu sem pensar, segurando-o pela cintura. Suas línguas se encontraram e suspirou entre o beijo, puxando-o para mais perto sem lembrar onde estavam ou que já tinha sido chamado. era viciante, nunca se cansaria de beijá-lo.
...? Ah. — Doyoon chamou novamente, colocando a cabeça para fora da sala e encontrando os dois aos beijos na recepção.
afastou seus lábios totalmente despreocupado.
— Agora você pode ir. — ele sorriu, dando dois tapinhas em seu peito.
— O que foi isso?
— Já que eu não vou poder te beijar por um tempo, era justo que eu pudesse aproveitar uma última vez. — deu de ombros.
o encarou sem muitos argumentos contra isso. Acabou apenas concordando com a cabeça antes de finalmente se afastar, seguindo para a sala onde Doyoon o esperava. Já não tinha mais tanta certeza assim se deveria prosseguir com sua ideia. deu uma grande amostra do que perderia se colocasse aquele piercing.
Quando entrou na sala, o tatuador o encarou com uma sobrancelha erguida e um sorrisinho no rosto. Após fechar a porta, se virou para com um olhar sugestivo, cruzando os braços em frente ao peito.
— Namorado novo, é? — ele perguntou.
Apesar de não ter amigos, Doyoon era algo próximo disso. Pelo menos já tinha estado ali vezes o suficiente para que tivessem alguma intimidade, mesmo que o contato entre eles só acontecesse quando aparecia para uma nova tatuagem.
— Falando assim até parece que eu já tive vários. — retrucou.
— Não é como se já tivéssemos conversado sobre isso pra eu saber. — Doyoon respondeu, e teve que concordar.
— É, acho que não.
nunca foi muito de falar, especialmente de si mesmo. Apenas tinham conversado sobre sexualidade porque chegou no estúdio uma vez e o namorado de Doyoon estava lá. O garoto não era bem o tipo discreto. Ele falava demais, tanto que pareceria introvertido perto dele. Com perguntas de "sim" ou "não" acabou arrancando mais de em algumas horas do que Doyoon após dezenas de sessões de tatuagens.
— O que te fez mudar de ideia e colocar um piercing? — Doyoon puxou assunto enquanto arrumava as coisas. — Achava que você queria se esconder do seu pai.
— É, digamos que eu não precise mais agora.
— Não? — o tatuador parou o que fazia para encará-lo, meio surpreso. — Então quer dizer que já pode aceitar minha proposta? De trabalhar comigo?
Embora não esperasse que a proposta ainda estivesse de pé, não podia negar que tinha sim pensado naquilo. Doyoon já tinha proposto de lhe ensinar a tatuar algumas vezes, a única coisa que o impediu de aceitar foi seu pai, que agora já não era mais um empecilho.
adoraria trabalhar com algo que realmente gostava. O café nem de longe era seu trabalho dos sonhos, assim como a faculdade de direito.
— Acho que podemos discutir isso agora. — respondeu, realmente esperançoso.
estava certo, era a primeira vez que ele estava tendo a chance de viver a própria vida da maneira que quisesse. Talvez, cortar os laços com sua família fosse exatamente o que ele precisava. Podia ser livre, mas não pôde evitar o pensamento de que, morrer exatamente agora, seria uma enorme injustiça cósmica.

🔮🔮🔮

ficou a noite inteira pensando em uma forma de ficar sozinho com . Precisava falar com o outro bruxo da luz sem que desconfiasse, mas moravam juntos agora. Não tinha como pedir um tempo sem que o loiro fizesse perguntas.
Por fim, quando decidiu tomar banho, viu uma oportunidade. O loiro até tentou levá-lo junto, mas sabia muito bem onde aquilo terminaria e usou isso como desculpa para se livrar dele.
foi para o banho emburrado, batendo os pés feito uma criança birrenta, e bufou quando gritou que ele parecia uma lagartixa emburrada. Assim que o loiro fechou a porta atrás de si, deixou o ipad de lado e pulou para fora da cama apressado, torcendo para que estivesse no próprio quarto.
A casa era grande, se demorasse para encontrar o bruxo não teria tempo para conversar com ele. Cogitou pedir ajuda para Mochi, implorar, já que conhecia o gato o suficiente para saber que ele se recusaria a ajudar tão fácil, mas para sua sorte, encontrou no topo da escada assim que saiu do quarto.
O bruxo o encarou com o mesmo desdém de sempre e iria ignorá-lo, mas o chamou antes que descesse as escadas.
— Eu preciso falar com você. — pediu de uma vez, vendo o olhar de passar de desdém para desconfiança.
— Comigo?
— Sim. Por favor. Não deve demorar. — pediu. — É sobre . — adiantou, ciente de que teria menos chances dele negar assim.
— Está tudo bem com o ? — a postura de mudou imediatamente. Ele deu alguns passos para frente, pronto para seguir até o quarto do outro, mas se colocou no caminho.
— Sim, ele está bem. Mas talvez por pouco tempo. Você sabe disso.
— Então ele te contou... — deduziu, e concordou com a cabeça.
— Sim. É sobre isso que eu quero conversar. — explicou. — De preferência onde não seja possível nos escutarem.
finalmente pareceu interessado, ou talvez apenas curioso, mas gesticulou com a cabeça para a porta de seu quarto, indicando que deveria entrar ali.
ainda não chegou e saiu. — explicou. Seriam só os dois.
seguiu até lá com logo atrás, mas parou quando chegou na porta, esperando que o outro abrisse. Quando o fez, entrou, parando no meio do quarto enquanto o bruxo fechava a porta.
O quarto que ele dividia com e era menor que o de , mas a cama era bem maior, o suficiente para que os três coubessem ali confortavelmente. Havia uma espécie de divã em frente a cama e se sentou ali, apontando a poltrona que havia em frente a penteadeira para que se sentasse também. Sem jeito, obedeceu. Era estranho estar trancado em um quarto com quando claramente não gostavam um do outro. Além disso, se deu conta de que passou tanto tempo pensando em como chegar nele que acabou se esquecendo de pensar também no que falar.
Deveria ter ensaiado, pois não tinha ideia de como começar o assunto. Um silêncio constrangedor acabou se instalando no local.
— O é telepata, não eu. — falou após alguns segundos.
me contou tudo, sobre ligações de alma... Acho que é assim que vocês chamam. — explicou, ao invés de respondê-lo. concordou. — Contou também o que vai acontecer com ele se eu morrer...
— Certo... — concordou novamente quando fez uma pausa. — Onde você quer chegar?
— Eu entendo agora porque me deixou ficar e porque decidiu ajudar, mesmo que você não tivesse escondido que é por ele, mas se você está disposto a tanto pelo , eu questionei se você também não estaria disposto a quebrar essa ligação se for pra salvá-lo.
— Você quer quebrar a ligação de alma que tem com o ? — o interrompeu, soando tão ofendido que se arrependeu imediatamente de ter ido falar com ele.
Realmente acreditava que ficaria feliz com a ideia, talvez até ansioso para se ver livre dele. Deveria ter perdido alguma coisa na explicação de sobre o assunto.
— Eu quero que o fique vivo. — se justificou. — Eu sou praticamente uma causa perdida, você sabe disso. É injusto que ele morra junto comigo por um problema que não é dele de verdade.
— É problema dele.
— O quê?
— Eu vou te dar o desconto de não saber como as coisas funcionam. — revirou os olhos. — Apenas cogitar a ideia de quebrar uma ligação de alma é ofensivo em níveis que você sequer imagina. Nós damos muito valor a isso, . E quando eu digo "nós" não me refiro apenas ao clã. Estou falando de toda a sociedade mágica. Não fale uma bobagem dessas de novo, especialmente perto do . Você vai chateá-lo. — se levantou, como se o assunto já estivesse encerrado, mas não se moveu.
não o estava levando a sério o suficiente.
— Não é pela ligação, . É pelo . — insistiu. — É porque eu vou morrer. Achei que você seria o único aqui com motivos o suficiente para me ajudar. Você não se importa se eu vou morrer, mas faria de tudo pelo .
— Não tem como quebrar a ligação, . É impossível. — ele respondeu finalmente, e um enorme peso se instalou em seu peito. precisava que fosse possível. Não tinha como ficar tranquilo sabendo que morreria depois de viver tanto tempo por sua causa. — E mesmo que tivesse, não trairia o dessa forma. Eu tenho certeza que ele preferiria morrer do que quebrar a ligação, é assim que a gente se sente sobre isso. — explicou, provavelmente pensando em e . — Entendo o que você quer fazer e os motivos, mas não dá.
— Tem que ter um jeito. Vocês também não sabiam que existia uma forma de prender a magia dentro de alguém e eu estou aqui. Você pode só não saber como fazer.
— E que diferença faz, ? — voltou a se sentar, mas não parecia mais paciente do que antes. — Não temos tempo o suficiente pra solucionar dois mistérios da magia. Um já está dando trabalho o demais. E o tempo é limitado.
— Eu só acho injusto que ele morra assim. — suspirou. — Ele me conheceu só pra isso? Pra morrer junto comigo?
— Você não vai morrer. Não vamos deixar o morrer.
— Você não tem como saber isso. — insistiu. Tudo que sabiam até agora estava totalmente contra . As chances eram mínimas. Não precisava ser um gênio pra notar.
— Tenho, porque fazemos o impossível um pelo outro. E porque se alguém consegue, é o . Eu entendo o sentimento, também ficaria desesperado se fosse o contrário, mas a ideia de quebrar a ligação... Apenas esqueça. Mesmo que fosse possível, eu tenho certeza que ele sofreria com isso. Eu tenho certeza que o prefere morrer com você do que quebrar a ligação.
ficou em silêncio por um instante, pensando se o sentimento de por ele era realmente tão forte assim. A ideia era um pouco assustadora, mas se lembrou de como ele mesmo se sentia por . Gostava dele muito mais do que achava ser possível, mesmo que ainda fosse tudo muito confuso para ele.
Mas ainda preferia quebrar aquilo do que levar consigo quando morresse.
, mesmo que o pior aconteça, o tem sorte de ter tido a chance de sentir isso. — voltou a falar, soando muito mais delicado agora. — E eu sei que ele concordaria comigo. Só temos uma ligação de alma a vida inteira e poucas pessoas conseguem encontrá-la. Vocês conseguiram.
— Eu não me sinto muito sortudo.
— Porque está com medo do que vai acontecer, mas quando isso passar, eu te garanto que você vai ver. — se levantou de novo. — Volta pra ele, antes que perceba que você sumiu. E não conte sobre essa conversa.
— Nunca foi minha intenção contar. — se levantou também.
— Eu sei que não, mas... Apenas não deixe ele saber que você cogitou isso.

🔮🔮🔮

Quando saiu do banho, já estava de volta, sentado contra a cabeceira da cama com o ipad no colo. Quando a fumaça do banho quente invadiu o quarto, ele ergueu a cabeça, encarando completamente fascinado ao vê-lo sem camisa e em sua forma natural.
vestia apenas uma calça cinza de moletom e sequer tinha penteado os cabelos, mas ainda assim era a criatura mais bonita que já tinha visto. Chegava a ser irritante.
o acompanhou com o olhar enquanto seguia até o closet, provavelmente para buscar uma camisa. Desejou pedir para que ele não fizesse isso, mas quando abriu a boca, foi outra coisa que saiu:
— Se você falar mal da sua aparência de novo perto de mim, eu juro por Deus que te meto porrada.
De dentro do closet, riu, voltando a sair com a camiseta na mão. ficou feliz que ele não a tivesse vestido.
— Você nem acredita em Deus. — o lembrou.
— Mas te meto porrada. — retrucou, puxando a camisa de sua mão assim que se aproximou o suficiente com ela em mãos.
— Ei! — reclamou, se inclinando para puxar de volta, mas a escondeu atrás de si.
— Não, fica assim.
— Você não tem o direito de pedir para me ver sem roupa depois de se recusar a tomar banho comigo! — reclamou, aumentando o tom de voz como o bom escandaloso que era. — E ainda me chamou de lagartixa!
riu ao se lembrar disso. Tinha sido totalmente natural, mas estava orgulhoso do apelido.
— Combina com você. É pequeno e fofinho, mas também é um réptil.
— Nossa, vai se fuder. — o empurrou, tomando a camisa de volta, mas não conseguiu esconder que ria do apelido ridículo.
Tomando aquilo como incentivo, tentou puxá-lo para seu colo, mas se esquivou rapidamente, pulando para longe da cama.
— Não. — ele gesticulou em sua direção, vestindo a camisa logo em seguida.
... — choramingou de forma dramática. Gostava de ver do jeitinho que ele veio ao mundo, e nem estava falando sobre estar pelado, era sobre as escamas escuras em seu ombro, praticamente brilhando só pra ele.
era totalmente perfeito. E apesar da brincadeira, realmente sentia vontade de bater nele sempre que se diminuía. Podia olhar para ele o dia inteiro de tão bonito que era, chegava a ser ofensivo que ele não gostasse do que via no espelho.
— Eu já disse, perdeu seus direitos quando não entrou no banheiro comigo.
— Mas a gente nem pode se beijar! — se defendeu.
— E a culpa é de quem?!
— Sua! Você que me incentivou! Depois de ter dado a idéia!
— Tinha muitos lugares pra você furar sem ser a boca, . — retrucou, e contra aquilo nem tinha como argumentar. O piercing de mesmo era um ótimo exemplo.
, tira a blusa. — voltou a pedir ao invés de continuar a discussão. Sabia que ia perder contra o piercing no mamilo.
— Não. — ele bateu o pé, e estreitou os olhos em sua direção.
— O que você quer que eu faça pra tirar a blusa?
— Queria que tomasse banho comigo, agora já era. — respondeu, dando a volta na cama para ir para seu lugar.
Era irônico que tivesse um lugar quando a cama deveria ser totalmente sua e deveria estar no próprio quarto, mas os dois estavam fingindo não notar a forma como as coisas de iam aparecendo aos poucos em seu quarto.
o esperou se aproximar do outro lado, e quando estava perto o suficiente, agarrou pelo pulso e o puxou para a cama. caiu de barriga para cima atravessado na cama, com a cabeça em seu colo. rapidamente se aproveitou disso para segurá-lo pelas bochechas, as apertando até que ele formasse um bico. Assim que conseguiu, deixou em seus lábios.
— Não, não, não! — o estapeou para se levantar enquanto ria. — Sem beijos, você inventou de colocar isso na cara, agora aguente as consequências!
— Nem dá pra chamar isso de beijo! — tentou puxá-lo de novo, mas o empurrou.
— Eu vou te botar pra dormir no seu quarto, . Estou avisando!
— E quem você vai agarrar no meio da noite, sucuri ofendida?!
riu, e ele teve que rir junto.
— Não, chega! Já deu de apelidos com serpentes!
— Lagartixa não é uma serpente e você também reclamou. — retrucou, e estreitou os olhos como se estivesse muito ofendido.
— Sem apelidos, qualquer apelido.
— E qual ia ser a graça?
— Pro seu quarto, sai daqui. — apontou para a porta, e gargalhou.
— Não, eu vou ficar quietinho. Prometo, bem quietinho. — juntou as mãos em sinal de prece.
— Você era mais legal quando era realmente calado.
— E você ainda insistia para que eu falasse.
— Eu não tinha ideia do que estava pedindo.
— Além de naja é uma naja burra. — soltou, sem que pudesse se conter.
! — gargalhou.
— Talvez eu tenha perguntado ideias de apelidos pro chat gpt. — falou. Não era mentira, mas não tinha sido nada útil. apenas não precisava saber dessa parte. — Eu tenho uma lista enorme deles agora.
— Pro seu quarto, chega. — voltou a apontar para a porta.
— Não, eu parei! Parei!
— Sai daqui. — insistiu.
— Não, eu parei. Estou quieto, caladinho. — passou os dedos em frente aos lábios como se fechasse um zipper.
— Acho bom. — respondeu, antes de finalmente se acomodar ao seu lado na cama.

🔮🔮🔮

No dia seguinte, estava no serviço quando recebeu uma ligação de sua mãe. Ficou surpreso ao ver o número dela na tela, não esperava ter qualquer outro contato com a mulher depois do que tinha acontecido.
Quando atendeu, não era ela do outro lado da linha e sim um conhecido dela no trabalho.
Sua mãe tinha se sentido mal durante o expediente e perdeu a consciência em algum momento. Tiveram que levá-la para o hospital e estavam contatando a família. Tentaram ligar para seu pai primeiro, mas como era de se esperar, ele não atendeu. Foi assim que acabou largando o trabalho quase no final do dia para ir até ela, preocupado apesar de tudo que tinha acontecido.
Avisou primeiro sobre onde estava indo, e depois Doyoon, se desculpando centenas de vezes com o tatuador. tinha combinado de ir até o estúdio após o expediente três vezes por semana para aprender a tatuar e já na primeira aula teria que faltar.
Às vezes parecia que nada na sua vida podia realmente dar certo.
Quando finalmente chegou no hospital, se dirigiu imediatamente para a recepção, mas parou no lugar quando viu ali, sentado em frente ao balcão.
— O quê...? — perguntou, confuso, enquanto o outro se levantava.
— A clínica é aqui perto. — explicou. — Fiquei te esperando.
— Eu sei que é perto, mas não achei que você viria. Não precisava vir.
revirou os olhos.
— Depois do que eles fizeram com você, lógico que eu ia vir. — falou, como se fosse óbvio. — E já descobri o quarto. Vamos.
Sem esperar uma resposta, o pegou pela mão e o puxou rumo ao elevador. não questionou nada, apenas deixou que ele o guiasse. Não pretendia admitir, mas gostava de sentir a mão dele na sua. Era, além de tudo, reconfortante, e sentia que ia precisar.
Estavam indo para os quartos, percebeu antes de contar, quando ele apertou o número do andar. Se fosse apenas um mal estar, sua mãe receberia medicação e seria dispensada para casa. Se ela tinha terminado em um quarto, era porque algo mais sério havia acontecido e tinha medo de descobrir o que era.
Não queria que nada acontecesse à mulher. Apesar de tudo, sua mãe era apenas uma pessoa cega pelos ensinamentos que havia tido. Alguém que cresceu na igreja, que foi treinada desde cedo a servir. sentia mágoa por tudo que ela o tinha feito passar, por ter virado as costas para ele tão rápido também, mas ao mesmo tempo entendia que ela tinha feito seu melhor dentro das limitações que tinha. Diferente do seu pai, a mulher o tratou com amor e se importava com ela, mas, além de tudo, pensou também na irmã.
Ele já estava pra morrer. Se algo acontecesse com sua mãe também, Jihyo ficaria sozinha com seu pai. Um homem desequilibrado o suficiente pra não saber cuidar nem de sí mesmo.
Jihyo teria uma vida ainda pior do que a que teve. Sentia vontade de vomitar só em pensar nisso.
— Talvez devêssemos procurar direto pelo médico. — sugeriu, parando no corredor assim que desceram do elevador.
Precisava saber o que sua mãe tinha e se deu conta de que ela provavelmente escolheria esconder dele o que tinha acontecido.
Na verdade, era mais provável que ela sequer quisesse vê-lo, que o expulsasse dali. Morreu para ela no momento em que seu pai escolheu colocá-lo para fora de casa, sabia disso. Foi até ela sem pensar, movido pela preocupação, mas agora podia ver que ela provavelmente ia preferir estar sozinha.
Definitivamente, se quisesse saber como ela estava, apenas o médico iria dizer e tentou convencer a si mesmo que isso não o magoava.
— Você não quer ver como ela está? — perguntou, soando meio confuso. Ainda estavam de mãos dadas, e manteve assim.
— Eu não acho que ela queira me ver. — contou, e viu suspirar. Ele claramente tinha muita opinião sobre o assunto, mas guardou para si quando não prolongou a conversa.
— O médico então. — decidiu, puxando para a segunda recepção que havia ali.

Para seu completo azar, o médico estava no quarto de sua mãe e não teve outra opção a não ser seguir para lá. A ideia era esperá-lo na porta, do lado de fora, mas quando o homem a abriu para sair, a mulher o viu ali.
Sua expressão, até então cansada, mudou imediatamente e soube no mesmo instante que nada de bom sairia dali.
— Eu não quero ele aqui. — falou ela do lado de dentro. Sua voz soava cansada, mas ainda assim seu tom era rude.
já esperava aquilo, mas ainda assim doeu. Preferiu se focar no médico a sua frente, fugir do sentimento ruim em seu peito, e o encontrou encarando os dois com certa confusão.
— Sou filho dela, me chamaram aqui. — explicou. — Como contato de emergência.
— Não tive tempo de rever isso ainda. — sua mãe interrompeu. — Não quero que ele continue como contato de emergência. Quero que ele saia.
O médico olhou de um para o outro sem dizer nada, mas o pedido era claro. Deveriam sair para evitar confusão, ou a segurança seria chamada.
— Nós vamos embora. — voltou a falar. — Não queremos arrumar problema.
O médico agradeceu com a cabeça e fechou a porta atrás de si sob o olhar atento da mulher do lado de dentro. Por um pequeno vislumbre, a viu relaxar por finalmente estar livre dele.
Se perguntou como era possível alguém virar as costas para uma pessoa que dizia amar tão rápido assim.
— Sinto muito. — o médico falou, algo em sua expressão provavelmente denunciava como se sentia. apenas suspirou, tentando recuperar a compostura.
— Imagino que você não possa dizer o que aconteceu, não é? — tentou, mas já sabia a resposta.
— Desculpe. — o médico negou. — Mesmo antes de vocês chegarem, ela já tinha pedido para manter o diagnóstico entre nós. Não posso dizer nada sem autorização do paciente.
— Tudo bem, eu já esperava. Obrigado mesmo assim.
O médico meneou com a cabeça, mas também não parecia satisfeito com a situação. Em silêncio, ele se afastou, enquanto os dois o assistiam ir para longe. Apenas quando o homem já não estava mais no campo de visão, o chamou.
? — ele apertou sua mão, e o encarou.
A expressão de não era boa. Ele parecia preocupado, mas , de alguma forma, sabia que aquilo não era apenas sobre a rejeição de sua mãe. Tinha algo mais, e sentiu-se imediatamente tenso.
— O que foi? — perguntou.
— Não sou tão bom nisso quanto , eu não consigo dizer o que ela tem sem tocá-la, mas... — vacilou, desviando o olhar ao invés de encará-lo. Ele parecia emotivo, como se fosse chorar. sentiu o ar escapar de seus pulmões.
, o que está acontecendo?!
— Não acho que ela tenha muito tempo...
— Muito tempo?! — perguntou, torcendo para que tivesse entendido errado. — Como assim, ? Do que você está falando?!
— Eu não sei. — respondeu, soando tão nervoso quanto se sentia. — Não consigo dizer o que ela tem, mas provavelmente é sério. E ela já deve estar assim há algum tempo. Deve ter mantido escondido...
— Como você sabe? — perguntou. Não queria desconfiar de , sabia que sequer tinha motivos, mas não era algo fácil de digerir. Veio ao hospital porque sua mãe se sentiu mal e agora descobria que ela ia morrer? Quando sequer estava falando com ele? — Você tem certeza disso? Como você pode ter certeza disso?
— Eu tenho. Eu posso ver que algo está errado, como se o corpo dela estivesse consumido pela doença. Está muito avançado, provavelmente irreversível.
— Até mesmo pra magia? — perguntou.
teria que examinar. Acho que não. Mas ... Ela sabe sobre a magia. Você não acha que ela poderia ter buscado ajuda se quisesse? — perguntou, e se dar conta daquilo foi como receber um soco no estômago.
Sua mãe era religiosa o suficiente para acreditar que aquela era a vontade de Deus. Ela não queria ajuda, ia contra o que ela acreditava.
— O que vai ser da Jihyo? Sem nós dois? — voltou a pensar na irmã.
— Você não vai morrer, .
— Você não sabe.
— Eu sei sim. — respondeu, cheio de convicção. — Nós vamos fazer de tudo pra que você fique vivo. está cuidando da poção de metamorfose e já solicitou ao conselho uma autorização para realizarmos o ritual. Vai dar certo, . Tenha fé. — apertou novamente sua mão, tentando tranquilizá-lo ao menos um pouco. esperava que ele estivesse certo. A vida de dependia disso, e agora a de sua irmã também. — Você vai ficar bem e nós vamos trazer a Jihyo para morar com a gente. Confie em mim. — ele pediu, e escolheu acreditou nisso.

🔮🔮🔮


Tenho notícias, mas elas não são boas.



Odeio quando as conversas começam assim.



Por favor, só me diga que não é sobre o .
Já tivemos um dia ruim o suficiente sem isso.



Está tudo bem?



Bom, descobrimos que a mãe dele está morrendo.
Marquei uma consulta com nosso advogado sobre a guarda da irmã dele, mas ele meio que acha que vai morrer também.



Então talvez não seja o melhor momento para contar para ele a notícia que eu tenho.



Merda.



O conselho negou, né? O pedido para o ritual?



Sim. E agora eles parecem desconfiados da gente.



Parece que não sobrou ninguém são ali.



Na verdade, é plausível. Sem o mago, somos o clã mais forte. Eles estão com medo.



E por causa disso vão deixar o morrer?



Tecnicamente, não sou eu de verdade.



Você entendeu, .



Bom, eu vou tentar falar com eles de novo. Mas é bom começarmos a pensar em um plano B.



Eu tenho quase certeza que esse já era pelo menos o plano D.



Provavelmente, mas os ingredientes da porção de metamorfose, pelo menos, já estão quase ok. É uma notícia boa.



Vai ser se conseguirmos usar, né.



Que bom que todo mundo está muito confiante.





ia processar os pais e pedir a guarda da irmã, mas ainda não tinha absorvido muito bem essa informação. Graças a , ele tinha um advogado. E graças a também, ele sabia o que fazer com sua vida.
Na verdade, se realmente parasse para pensar, ele devia tanto a que levaria no mínimo três vidas só para compensar.
Além de literalmente estar pagando o advogado, foi quem fez todas as perguntas necessárias. Ele estava sendo seu apoio financeiro e emocional. , sinceramente, já tinha desistido de negar sua ajuda. Estaria completamente perdido sem ele. E sua irmã também.
Tinham acabado de sair do escritório do advogado e, de acordo com ele, tinha sim chances de conseguir a guarda da irmã, desde que tivesse um lugar fixo para morar e que seu salário fosse o suficiente para manter as contas. Seu salário não era, mas, novamente, com a ajuda de , era possível. Teriam que ir atrás de um apartamento só para os dois, pelo menos no início, e então o advogado daria entrada nos papéis e denunciaria seus pais ao conselho tutelar. O fato da menina ficar sozinha com um homem bêbado fazia com que o processo fosse bem urgente e poderia conseguir a guarda de Jihyo enquanto o trâmite estivesse rolando no tribunal.
O advogado também sugeriu que fizesse um boletim de ocorrência contra seu pai por agressão para utilizar como prova de sua instabilidade emocional e entregou a ele mensagens do dono do bar ao qual seu pai frequentava, cobrando dívidas do homem com bebida. O dono do bar o procurava sempre que seu pai o ignorava e isso acabou sendo útil agora. Mais uma prova de que ele era um bêbado instável.
O advogado também sugeriu que entrasse em contato com a professora de sua irmã ou alguém da escola, para que testemunhassem sobre ele sempre ter sido o principal contato de emergência e também o único que atendia o telefone na maior parte das vezes.
A verdade era que sempre foi o principal responsável por sua irmã, e não faltavam provas disso para mostrar ao juíz. Jihyo sempre entregou para ele os presentes de dia dos pais da escola e ele sempre foi o único a comparecer em todos os seus eventos estudantis, inclusive reuniões escolares.
O advogado estava bem confiante quando a consulta terminou e isso lhe passava confiança também, embora não conseguisse evitar aquela pontinha de irritação por tudo isso ser necessário.
Sabia que seus pais fariam um inferno quando recebessem a intimação, especialmente seu pai. E não era sobre perder Jihyo, ele não se importava com ela. Era apenas sobre estar atacando novamente sua família que deveria parecer perfeita perante aos outros.
! — gritou, fazendo-o voltar a sí no mesmo instante em que era repentinamente puxado para trás.
se assustou, e só percebeu que estava atravessando a rua sem olhar o sinal quando um carro passou raspando por ele. o puxou para impedí-lo de ser atropelado.
— Acho que eu estava distraído. — comentou, meio sem graça, e o encarou indignado.
— Você acha?! — praticamente gritou, cheio de adrenalina pelo susto recente. — Você podia ter morrido, !
— Eu tenho certeza que você poderia dar um jeito. — brincou, tentando diminuir a gravidade do momento.
Seu coração estava disparado. Também tinha se assustado. Foi irresponsável se distrair tanto enquanto andava no meio da rua e a última coisa que ele queria era morrer, especialmente quando Jihyo e dependiam dele, mas parecia muito mais impactado com aquilo do que ele.
— Isso não quer dizer que você pode sair por ai se jogando na frente dos carros! — o repreendeu novamente, tão alto quanto antes.
— Eu sei, eu sei. Foi sem querer! — se defendeu.
— Eu sei que foi. Só... — parou um instante, provavelmente dando-se conta de que de fato não tinha feito por mal para gritar com ele. — Tome mais cuidado, por favor.
— Se eu morrer você morre. Eu vou tomar cuidado. — respondeu, fazendo revirar os olhos.
— Você sabe que esse não é o problema. Não foi isso que eu quis dizer.
sabia, ele tinha entendido. Foi quem não entendeu. A importância que ele dava para a própria vida sempre girou em torno da irmã, no fato dela precisar dele, mas agora também tinha . nunca faria propositalmente algo que o machucasse, imagina algo que pudesse matá-lo.
Estava disposto a se separar dele para mantê-lo seguro. Tinha até mesmo ido atrás de para isso. Esse era o tanto que se preocupava.
— Eu não me machucaria de propósito se isso machucasse você. — explicou, e viu perder toda a compostura. O bruxo sorriu, se aproximando para pegar sua mão.
— Eu sei que não. Mas eu gosto quando você fala coisas fofas assim.
deixou um beijo em sua bochecha e o puxou para atravessar a rua agora que o farol finalmente tinha ficado verde para eles. sentiu suas bochechas esquentarem, mas deixou que ele o arrastasse sem dizer nada.
Sua intenção não era ser fofo, apenas disse a verdade, mas ficava satisfeito que tivesse gostado. Sentia que não fazia o suficiente por , e não ser bom com as palavras não ajudava. podia saber o que sentia por ele, mas ainda era alguém que gostava de gestos muito mais do que a capacidade de de demonstrá-los. Era bom saber que tinha acertado em alguma coisa.
— Agora, sobre o que estávamos falando. O que você acha? — perguntou, sem olhar para ele. agradeceu por isso, pois arregalou os olhos em surpresa.
estava falando alguma coisa? Não tinha escutado, e seu silêncio foi resposta o suficiente para .
— Você não estava ouvindo nada do que eu estava falando, não é? — voltou a perguntar. Ele parou quando chegaram do outro lado da rua para encará-lo, e só pôde rir sem graça. — Você é péssimo. Ridículo, de verdade.
, como de costume, não estava realmente bravo, mas soltou sua mão para fazer drama, não o esperando para seguir seu caminho. Ele saiu andando na frente e ergueu uma sobrancelha. tinha uma bunda bonita demais para que fosse um castigo sair andando na sua frente, mas não falou nada, ciente de que estava mesmo errado.
— Me desculpa. — pediu, caminhando atrás dele. — Eu estava pensando em tudo o que o advogado disse.
— E você acha que eu estava falando sobre o quê? — perguntou, parando mais uma vez para encará-lo.
— Sobre apartamentos? — sugeriu. Sabia que tinha falado sobre esse assunto em algum momento, mas teve certeza que tinha errado a resposta quando , ao invés disso, bufou.
— Eu falei desse assunto há um tempão atrás, !
— Desculpa, desculpa! Me conta, eu vou te ouvir agora, minha cascavelzinha. Eu prometo.
! — perdeu totalmente a compostura quando riu do novo apelido. — Eu disse pra parar com isso! — ele tentou estapeá-lo, mas se esquivou.
Enquanto estivesse rindo daqueles apelidos idiotas, continuaria se empenhando para pensar em apelidos novos. Já tinha procurado no Google todos os sinônimos possíveis para serpentes. Estava disposto a usar cada um deles para ver sorrindo.
— Eu estava falando sobre o quarto da Jihyo. — finalmente explicou. — O quarto de hóspedes é sem graça, todo branco. Deveríamos pintar para ela.
— Você está falando da casa do clã ou do nosso futuro apartamento?
— Da casa do clã, óbvio. Onde vamos ficar.
— Vamos? E eles sabem disso? — perguntou. Eles o tinham aceitado por , mas Jihyo era outra história. Por mais comportada que ela fosse, ainda era uma criança. Ela falava alto demais, gritava sem se dar conta e fazia bagunça. Ele não podia apenas levar uma criança para morar com ele na casa dos outros.
— Você faz parte do grupo agora, . E se ela é importante pra você, então é bem vinda.
— Eu não tenho tanta intimidade com eles assim para apenas fazer parte do grupo. — respondeu. Além disso, Jihyo ainda era uma criança e nem todo mundo gostava de ter crianças por perto.
Fora o fato de que sequer tinha perguntado a eles qualquer coisa e, de novo, a casa não era dele.
— Isso não é sobre intimidade. Você não sente as coisas como a gente porque ainda não consegue acessar sua magia, mas você já faz parte de nós, é algo que sentimos, como a última peça que faltava em um quebra cabeça. — explicou, e de alguma forma, entendeu sim o que ele queria dizer. Mesmo sem acesso a magia, sentia que pertencia àquele lugar, mas achava que era um sentimento unilateral. Ainda temia ser um intruso que só tinham aceitado por causa de . — Você se encaixa na dinâmica do clã e todos nós sentimos isso. — continuou. — Até mesmo o Mochi já pertence a todos nós. Ele já pode acessar nossa magia também, mesmo que você ainda não tenha feito o ritual de iniciação no clã.
— O Mochi pode acessar a magia de vocês? — perguntou, realmente sendo pego de surpresa dessa vez.
— Ele me usou para perturbar o esses dias.
— Ele ainda está perturbando o ?!
— Você nem imagina. — riu. — Mas ele o perturba de volta, é como uma guerra silenciosa. finge que não, mas gosta do Mochi. Você não é um estranho em casa, . O Mochi já pertencer a todos nós é a prova disso. Jihyo vai ser muito bem recebida, eu te garanto.
ficava mais tranquilo em saber disso, mas ainda pretendia conversar com o clã. Não via sentido em levar outra pessoa para morar com eles sem avisar, mesmo que todos já soubessem sobre sua irmã e o quão importante ela era para ele.
Pensou em como Jihyo se encaixaria na dinâmica do clã e se deu conta de que queria aquilo, levá-la para morar com eles e não em um apartamento só para os dois. Gostava de estar com o clã, e de alguma forma, o que tinha dito sobre pertencimento fazia sentido, assim como saber sobre magia tinha feito tudo se encaixar dentro dele.
Decidiu que precisava agradecer ao clã por tudo. Só precisava saber como.

🔮🔮🔮

— Quem costuma fazer o almoço de domingo? — perguntou a no dia seguinte.
Estavam os dois na sala, sentado no chão, em frente ao computador sobre a mesa de centro, enquanto desenhava no ipad, deitado no sofá.
estava olhando apartamentos, de novo. já tinha dito a ele que aquilo não importava tanto já que a ideia sequer era que eles de fato morassem lá. Precisavam apenas que a assistente social visse o lugar, mas parecia realmente empolgado com aquilo e deixou que ele ficasse com a tarefa, já que parecia tão animado com ela.
tinha decidido falar com o clã sobre sua irmã no almoço de domingo e pensou que talvez, em agradecimento por tudo que vinham fazendo por ele, poderia aproveitar e já fazer o almoço também. Pelo menos na cozinha ele conseguia se garantir.
— É o quem costuma fazer. — respondeu, embora ainda parecesse meio distraído com o computador. — Esse parece bom, tem três quartos.
— E pra que a gente precisa de três quartos, ? A gente mal precisa do apartamento.
— Uhm, verdade. — ele respondeu, passando para outro anúncio. — Por que?
— Por que a gente não precisa de três quartos?
— Por que você está perguntando sobre o almoço de domingo.
— Ah... — ficou meio sem jeito. Tinha aproveitado para falar sobre isso justamente agora porque parecia distraído demais para fazer perguntas. Sentimentalismo o deixava meio sem jeito. — Eu pensei em cuidar disso dessa vez, em agradecimento por tudo... Acha que o vai se importar?
não se importa. — o próprio respondeu por ele, entrando na sala repentinamente. — Vai ser ótimo, na verdade. Não precisar cozinhar pra esse bando de macho. — ele se sentou no sofá em frente à televisão, após pegar o controle da TV e do videogame.
— Como se você não gostasse. — retrucou. — A idéia de termos um almoço de domingo pra você cozinhar foi totalmente sua.
— Claro, se dependesse de vocês, mal olharíamos um na cara um do outro mesmo morando na mesma casa.
— Até parece. — debochou. — dorme mais na cama dos outros do que na dele.
não conseguia imaginar o que ele conhecia fazendo algo assim, mas para a sua surpresa, riu ao invés de discordar.
tem dois namorados e não é o bastante. — comentou. achou difícil de acreditar, mas optou por não dizer nada. Não era bem uma surpresa que o problema de fosse ele. — Por que diabos você está olhando apartamentos?
Antes que pudesse responder, uma conversa do lado de fora chamou a atenção deles. Imediatamente, os três se calaram para ouvir.
— Pode não ser nada demais. — falou do outro lado da porta, e riu debochado.
— Visitas de rotina surpresa aos clãs, . Sério? — ele perguntou, soando indignado e sentiu seu sangue gelar.
Aquela conversa era sobre ele. Se estivesse na casa quando uma visita surpresa do conselho acontecesse, ele seria descoberto. Um bruxo das sombras, uma raça que tinha sido condenada ao extermínio. Aquilo definitivamente não parecia bom.
— Se realmente não fosse nada demais, estaria sabendo. — voltou a falar. — Por que não contaram para ele? Estão desconfiando de nós.
Quando se aproximaram o suficiente da porta, os dois se calaram, como se não quisessem que ninguém escutasse a conversa, e pareceram surpresos de ver os três ali quando a abriram. riu, claramente nervoso, e fez um barulho insatisfeito com a boca.
e estão lá em cima. — falou, assumindo uma postura imediatamente séria. — Acho que é hora de uma reunião.

🔮🔮🔮

Após se reunirem na sala, foi atualizado dos últimos acontecimentos, o que incluía a negativa do conselho ao seu suposto ritual de cura.
— Não te contamos nada porque eu ainda esperava convencê-los, mas acho que deu pra notar que as coisas não saíram bem como o esperado. — explicou.
— A insistência só fez com que eles tivessem certeza de que escondemos alguma coisa. — continuou. — Eles provavelmente já desconfiavam da gente. Ninguém é poderoso o suficiente pra sumir com o Mago, mas juntos nós com certeza somos o clã que mais chegamos perto disso. Eles provavelmente vão nos observar de perto agora.
— Isso não tem o menor sentido. — o interrompeu. Mochi estava deitado em seu colo, para a completa surpresa de , especialmente depois que soube que o gato ainda vivia para perturbar o bruxo da luz. — Por que pediríamos permissão para fazer um ritual que tivesse relação com o Mago Supremo? Faz menos sentido ainda quando eles pensam que já fizemos algo, juntos, em outro ritual às escondidas. Se não pedimos permissão antes, porque pediríamos agora?
— Eles estão desesperados. — respondeu. — Ninguém tem idéia do que aconteceu com ele.
— Continua sendo ridículo. — retrucou, sem querer esbarrando em Mochi quando mexeu um dos braços. O gato imediatamente arregalou os dentes para ele, e o encarou indignado. — Você está no meu colo e ainda quer brigar comigo?! — gritou, e o gato apenas fez um barulho qualquer com o nariz antes de voltar a se deitar.
entendeu aquilo como um "sim", e pela forma como os outros riram, exceto por , soube que não foi o único a interpretar daquela forma.
— Certo, então o conselho quer fazer uma visita surpresa. — voltou ao assunto. — O que fazemos?
— Eu devia ir embora. — finalmente falou. — Todo o problema aqui sou eu. Se eu for embora, o problema acaba.
— O problema só vai acabar quando o Mago voltar e ninguém sabe onde ele está. — respondeu.
— Não é bem desse problema que eu estou falando. — voltou a falar. — Eles aparecerem de surpresa só está em discussão porque eu estou aqui e eles não podem saber que eu existo. Se eu sair, não vai importar mais.
— Você não vai sair, . — foi quem respondeu.
— Você queria saber por que o estava procurando apartamentos. Eu vou pedir a guarda da minha irmã. — explicou, decidindo adiantar o assunto do almoço de domingo. — O apartamento era por causa da assistente social, mas se eu ficar lá, já resolvemos pelo menos três problemas.
— Ela é bem vinda aqui, . — falou. — Assim como você.
— Eu estou causando problemas. E se algo acontecer quando ela estiver aqui, então vai ser ainda pior.
— Não vai acontecer nada. Ninguém passa pelas barreiras de proteção sem que eu saiba. Quando eles aparecerem, o leva vocês para o apartamento e volta antes deles chegarem na porta. — falou também. — Não é isso que está em discussão aqui. O problema é eles estarem desconfiados a ponto de negar o ritual.
— Eu pedi a guarda da minha irmã. — insistiu, sem ter certeza de que tinham realmente entendido essa parte. — Vou ter que cuidar dela, morar com ela.
— Nós entendemos, . Já esperávamos por isso. — respondeu. — Você me pediu para cuidar dela se algo te acontecesse. Ela já faz parte do grupo, vocês são bem-vindos.
Diante de sua resposta, suspirou aliviado. Era bom saber que pelo menos aquele problema estava resolvido. Pensou novamente em sua vida ligada a de , e como as coisas seriam mais fáceis se pudesse apenas quebrar aquela ligação.
Se não fosse pela ligação, sinceramente, já ficaria satisfeito em ter cuidado das coisas por sua irmã.
— Obrigado por isso, de verdade. — falou, fazendo questão de olhar um por um. Tinha perdido uma família e encontrado outra. Uma muito melhor.
— Nos agradeça quando conseguirmos te salvar. — respondeu. — Eu estava pensando, podemos deixar que o conselho venha e usar um feitiço para que o pareça doente. Assim provaríamos que precisamos do ritual.
— Na pior das hipóteses, pensei em fazermos uma viagem. — sugeriu. — Existem alguns lugares com fama de conter a magia. Se ela ficar presa lá, não vão saber que estamos fazendo um ritual. Só vamos precisar dar um jeito deles não sentirem nossa falta.
— Se eles virem o doente, dizemos que ele piorou, e que fomos buscar ajuda de alguém. Isso pode dar certo.
— Acho que podemos chamar isso de plano E, então. — brincou, e recebeu outro rosnar de Mochi quando esbarrou nele pela segunda vez.

🔮🔮🔮

No sábado a noite, arrastou para o mercado. Ainda não tinha certeza do que fazer para o almoço de domingo, mas pretendia arrancar dele o que cada um gostava para tentar agradar a todos. O único problema era que , novamente, estava mais interessado no celular, ainda olhando apartamentos.
já tinha dado "ok" para três deles, mas sempre desistia e voltava a olhar.
, eu juro que vou te fazer comer esse telefone! — reclamou, parando em um dos corredores para encará-lo.
— Eu estou te fazendo um favor! — respondeu, no mesmo tom indignado, mas realmente desconfiava de que ele estava pendurado naquele aparelho de propósito apenas para irritá-lo.
Estava impossível de conseguir sua atenção. A única coisa que o fez largar aquele aparelho foi ter oferecido um boquete na outra noite, mas se lembraram do piercing em sua boca e tudo foi pelos ares.
Maldito piercing e maldito apartamento.
— Eu já teria escolhido esse apartamento dois dias atrás, ! — voltou a discutir.
— E não escolheu porque, então?!
— Por que você continua olhando!
— Claro, precisa ser um apartamento confortável para morarmos com uma criança. — argumentou.
Estavam falando alto no meio do corredor de enlatados e algumas pessoas já olhavam para os dois, mas nenhum deles se importou.
— Não vamos morar lá, !
— Detalhes. — o loiro deu de ombros, e revirou os olhos.
voltou a olhar para o celular, pronto para ignorá-lo, e jogou nele um pacote de guardanapos.
— Ai! — reclamou, deixando o pacote cair no chão.
— Eu preciso que você me ajude a escolher o cardápio de amanhã! — voltou a reclamar.
— Vamos gostar independente do que você fizer, !
— É um agradecimento, não é pra vocês gostarem de qualquer coisa. — retrucou. — Eu quero agradar todo mundo!
— Como você é chato... — revirou os olhos, abaixando para pegar o pacote de guardanapos.
— Ah, eu?! — perguntou, indignado. — Eu sou chato?
acabou rindo.
gosta de carneiro e de peixe cru. Você vai cozinhar carneiro?
— Eu tenho certeza que essa não é a única comida que ele gosta.
, só faz o que você quiser. — insistiu, fazendo-o bufar.
— Você é uma péssima ajuda.
— Estou aqui pra isso. — retrucou, voltando a olhar os apartamentos no celular como se não tivesse dito nada.
Indignado, puxou o celular de sua mão, bloqueando-o e botando em seu bolso rapidamente.
— Ei! Me devolve isso! — se aproximou, tentando enfiar a mão em seu bolso, e riu enquanto se esquivava.
— Chega de celular.
— Eu estou olhando apartamentos pra gente! — tentou se jogar nele mais uma vez, mas , novamente, não teve nenhuma dificuldade em se livrar dele.
— Vamos escolher hoje a noite, sem falta. Vamos sortear.
— Sortear o caralho, ! — se irritou, de verdade, o que apenas fez voltar a rir.
— Você é indeciso demais pra essa tarefa.
— Alguém precisa ter critérios já que você não tem nenhum! — discutiu, batendo o pé como uma criança mimada.
— Nem vamos morar lá, ! — o lembrou novamente, ainda rindo. tinha as bochechas vermelhas de irritação, e sinceramente, achava aquilo adorável. irritado era fofo.
— Foda-se! — praticamente gritou, e os dois acabaram rindo quando a outra metade do mercado que ainda não olhava para eles fez isso. — Isso é culpa sua. — sussurrou.
— Minha? Você que é escandaloso. — falou novamente, mas se conteve quando notou um homem se aproximando cautelosamente dos dois.
Quando notou para onde ele olhava, parou também, se virando para ficar de frente para o senhor.
— Com licença. — o homem falou meio sem jeito, se aproximando um pouco mais do que o necessário. estranhou a atitude, mas antes que pudesse se esquivar, o homem voltou a falar. — Eu acho que vocês estão sendo seguidos. — praticamente sussurrou.
Imediatamente, arregalou os olhos, olhando ao redor, parando seu olhar atrás de uma das prateleiras. Quando olhou para lá também, viu um homem de capa preta e capuz, escondendo praticamente todo o rosto. Assim que notou ter sido pego, ele deu as costas e saiu apressado.
O mercado inteiro estava olhando para eles por causa da discussão alta, mas aquele homem... sentiu que tinha algo mais. Ninguém olharia para eles por tanto tempo só pela fofoca, especialmente quando não estavam brigando de verdade. Ninguém parecia também estar se escondendo como ele estava. Todos estavam apenas fazendo compras, mas ele não.
— Temos que ir embora daqui. — falou imediatamente, assumindo um tom de voz mais urgente. soube que ele havia sentido magia no homem sem que precisasse dizer. — Obrigada. — agradeceu ao senhor, segurando a mão de para arrastá-lo para longe.
— As compras! — tentou protestar. Não tinha muita coisa dentro do carrinho, mas ele ainda precisava de ingredientes para o almoço.
— O homem observando era um bruxo, . — sussurrou para ele enquanto seguia para a saída. — Se ele estava espiando, ou é do conselho ou sentiu a magia dentro de você. Isso se não for os dois.

🔮🔮🔮
foi adicionado ao grupo



Eu não me inscrevi para isso.



O assunto é sério.
Estávamos no mercado e eu acho que fomos seguidos.
Tinha um cara estranho de capa nos observando de longe.
Ele era bruxo, provavelmente sentiu o .



Eu precisei tocá-lo para sentir. Você só sente porque também é um bruxo das sombras.
Ou era, no caso.



Espera, aquela coisa do cardápio foi sobre tocar minha mão?!



Surpresa!



Vou tentar falar com o Jaehyun. Ele era o mais próximo ao Mago Supremo e parece estar do nosso lado. Se ele souber de algo sobre isso, acredito que me conte.
Posso tirar dele também o que eles concluíram sobre , já que estavam seguindo vocês.



Faça isso.
Mas de qualquer forma, se eu não consigo sentir o tipo de magia que o tem de longe, duvido que outra pessoa possa.



Bom, espero que vocês estejam certos. Por que definitivamente estávamos sendo seguidos.



Mas se eles sentiram que ele é um bruxo, ainda vão se perguntar porque não o conhecem.



Desde que não tenham certeza, não vejo problema.
No máximo vão adiantar a visita lá em casa.
E já decidimos que isso vai nos ajudar.



Ainda não gosto desse plano.


🔮🔮🔮

estava tenso enquanto fazia o almoço de domingo. O motivo para isso era que o tal de Jaehyun, com quem ia falar sobre eles, não estava respondendo as mensagens. O clã temia que ele também tivesse desaparecido, justamente por ser o amigo mais próximo do Mago.
aproveitou que o almoço tinha ficado por conta de para ir atrás do homem pessoalmente, mas sentia que tinha algo muito mais importante acontecendo por baixo dos panos, algo provavelmente maior do que os seus problemas, e pela preocupação que o clã parecia exalar, ele desconfiava que eles sentiam o mesmo.
Estavam tentando dar um golpe no conselho? Parecia óbvio. E pelo que tinha dito, eram grandes as chances de desconfiarem do clã.
Se descobrissem que eles estavam escondendo , tudo sairia completamente do controle. Isso se não responsabilizassem ele mesmo, considerando que a última tentativa de golpe partiu de um clã de bruxos das sombras.
Estar ali fazendo o almoço enquanto tudo isso acontecia parecia completamente fora de contexto.
Distraído com seus pensamentos, pulou de susto quando Mochi invadiu a cozinha repentinamente. Não tinha visto o gato o dia todo. Não sabia onde ele tinha dormido, mas de repente Mochi simplesmente pulou na sua frente enquanto tirava do fogão uma panela fervente cheia de molho.
Quase derrubou tudo, por cima de sí mesmo e do bendito do gato.
— Mochi! — reclamou, indignado. — Você viu o que você fez?!
Tão tranquilo quanto poderia, Mochi simplesmente pulou em cima da geladeira, como se fosse nada, e deitou ali, soltando um resmungo qualquer em sua direção como se não desse a mínima.
E ele não dava mesmo, conseguia entendê-lo perfeitamente agora. Tinha um gato mal humorado, ranzinza e debochado. Nem dava para reclamar muito, era uma cópia perfeita dele mesmo, mas isso não mudava o fato de querer socá-lo às vezes.
— Você era mais legal quando era um sem teto. — voltou a reclamar, botando a panela no balcão no meio da cozinha. — Você é um sonso. Me convenceu direitinho que era dócil. Tudo pra que eu te levasse pra casa.
O gato resmungou novamente, e revirou os olhos. Mochi respondeu algo como "deu certo, não deu?". Gato ridículo.
— Cadê aquele demônio?! — entrou na cozinha como um furacão, calçando apenas um pé de meias. Elas eram listradas, com estampas de ursinhos. Fofas demais para ele, aliás, mas não disse nada, apenas o encarou com confusão.
— O quê?!
— Seu demônio roubou um par de cada meia dentro do meu armário! E não só as minhas, do e do também, para que eu não tivesse como pegar emprestado! — praticamente gritou, e entendeu finalmente que ele falava de Mochi.
Precisou de muito para não rir. Sabia que não devia, estava na casa dele e era seu gato fazendo bagunça, atrapalhando a rotina casa, mas não podia negar que tinha sim sua graça. Mochi era um tanto quanto engenhoso.
— Você está rindo! — voltou a gritar.
— Não estou não! — gritou também, mas a risada acabou escapando. fez uma careta enquanto praticamente urrava em sua direção. — Desculpa, desculpa! — pediu, rindo mais, e para disfarçar, se voltou para Mochi sobre a geladeira.
— Eu te disse para não sumir mais com as coisas dos outros! — gritou para o animal, apontando em sua direção de forma acusatória.
Mochi arregalou os dentes para ele, como se quisesse acusar de traição por denunciar seu esconderijo. ainda não o tinha visto ali.
— Seu bichinho traiçoeiro! — apontou também ao se virar em sua direção. Deu alguns passos para frente, mas Mochi, como um verdadeiro mestre de fuga, simplesmente pulou de cima da geladeira até o balcão no meio da cozinha.
O mesmo balcão onde estava o molho recém feito. arregalou os olhos desesperado.
— Mochi, não! — tentou impedir, mas antes mesmo que pudesse terminar sua fala, o pior já tinha acontecido.
Se propositalmente ou não, nunca saberia dizer, mas de repente estava totalmente coberto de molho.
— Puta merda! — se desesperou, correndo na direção de . Tinha acabado de tirar o molho do fogão. Fazia algum tempo que a panela estava desligada, mas não sabia se ainda estava quente ou não. — Queimou? Está tudo bem? ! — ele gritou por socorro, feliz que eles pudessem usar magia caso precisassem consertá-lo.
não pensou em muita coisa enquanto corria até ele para socorrê-lo, mas acabou por escorregar no molho pelo chão. trombou em com força demais, levando o outro a escorregar também. De repente, estavam os dois no chão, caído de costas com exatamente em cima dele.
— Mas que caralhos...? — xingou, mais confuso do que qualquer outra coisa. Tudo tinha acontecido rápido demais.
— O que é que aconteceu aqui? — entrou repentinamente na cozinha, parecendo afobado. Ele tinha acabado de sair do banho, ainda estava pingando água, tinha apenas vestido a calça as presas, provavelmente preocupado com seu grito. Ele olhou para os dois confuso, mas não demorou muito para rir também, embora ainda não entendesse nada.
— Pelo menos o molho não está mais quente. — comentou, sem jeito, e praticamente o empurrou para longe.
— Por que você ainda está em cima de mim?! — reclamou. — E ainda queria que estivesse quente?!
— Eu achei que estava! — se defendeu. Óbvio que não queria que ele se machucasse. — Por isso tentei te socorrer!
— Isso foi você tentando me socorrer? Eu podia ter morrido!
— Também podia se o molho estivesse quente!
— Com quatro bruxos em casa, você dificilmente teria morrido. — interrompeu a discussão dos dois, embora segurasse o riso como se estivesse vendo um programa de comédia.
— Não que eles não tenham tentado! — voltou a gritar.
— Eles?
— Esse demônio! — apontou novamente na direção de Mochi. O gato agora se lambia tranquilamente em cima do balcão da cozinha, como se toda aquela confusão não tivesse sido completamente culpa dele.
Aquele bicho era definitivamente maligno.
olhou de para o gato, e depois se voltou para divertido, como se achasse muito difícil que Mochi fosse realmente perigoso. Era ridículo, porque o gato quase tinha matado os dois uma boa porção de vezes, mas para seu desconto, Mochi realmente parecia apenas um gato comum enquanto se lambia daquele jeito.
Talvez concordasse um pouco com a coisa do demônio. Além de tudo Mochi era sonso. Deveria mudar o nome dele.
— Ele roubou minhas meias! — se defendeu.
— Acho melhor nem perguntar como vocês terminaram agarrados no chão, então. — voltou a rir, e revirou os olhos.
— Controle seu bicho! — gritou com , e como se finalmente se lembrasse de que tudo aquilo era culpa do seu gato, se voltou para Mochi estreitando os olhos.
O gato parou de se lamber imediatamente, como se finalmente tivesse sentido o perigo.
— O que eu falei sobre perturbar os outros?! — gritou com ele. — Eu posso não usar magia, mas se você aprontar uma dessas de novo eu juro que o te tranca dentro de uma caixa transparente!
— Eu? — arregalou os olhos, provavelmente pensando em todas as brigas que já tinham perdido contra aquele gato.
— Melhor, eu deixo o te trancar numa caixa! No alto! Em cima de uma banheira cheia de água!
sorriu vitorioso para o gato, como se um aval fosse tudo que ele precisava para se vingar, e Mochi fez um barulho qualquer com a boca.
Ele estava xingando , sabia disso. Mas desde que ele entendesse a ameaça, estava tudo bem.
Apesar de ter tido sua graça, realmente podia ter se machucado. Derrubar molho quente nele era totalmente diferente do que esconder algumas meias.
— Eu estou falando sério. — ressaltou. — Não vou te ameaçar de novo.
Parecendo revoltado, o gato pulou para longe do balcão, saindo da cozinha. Desviou do molho no chão com maestria, e bufou por causa disso.
— Bom, já que todo mundo está vivo, essa é minha deixa. — deu as costas, pronto para sair da cozinha. — Minha sugestão é que limpem tudo antes do voltar. Boa sorte!
— Eu não vou limpar nada. — retrucou, levantando-se do chão. — Coloca seu demônio pra limpar. — reclamou, dando as costas também enquanto xingava Mochi de todos os nomes possíveis.
Além de fazer o almoço, ainda teria que limpar toda aquela bagunça. Torceria para que a vingança de fosse realmente boa. Talvez até ajudasse.

🔮🔮🔮


Tenho péssimas notícias.



É um péssimo dia para péssimas notícias.



Estou achando um dia ótimo.
Especialmente a parte onde você e o tomaram um banho de molho. Juntinhos.
Se queria o emprestado, era só pedir.



Queria poder te tirar do grupo.



Deixa que eu tiro.



O que eu perdi?
Estão amiguinhos agora?



Quase íntimos. Encontrei o deitado em cima do no meio da cozinha.



O quê?!



Prefiro nem perguntar.



Melhor mesmo.
Mas eu só gostaria de lembrar a todos que o , por motivos óbvios, é o único no grupo que não é moderador.



VOCÊ COLOCOU O DE MODERADOR?!!



Ele colocou! kkkkkkk
Eu acabei de ver.



Procure outro melhor amigo.
Eu me demito.



Vocês por acaso leram a parte onde eu falei sobre notícias importantes??
Jaehyun literalmente sumiu. Ninguém no conselho sabe dele



Eu aposto que alguém do próprio conselho está fazendo isso. Não é possível.



Mas é no nosso rabo que vão enfiar.



Deveríamos cancelar o almoço?
Eu e o vamos para um hotel enquanto não resolvemos sobre o apartamento.



Não precisa disso. Se alguém passar pelas barreiras eu vou sentir. Já falamos sobre isso.



Que bom porque o almoço já está pronto.



Se meu prato estiver envenenado eu enveneno o seu gato.



Ele dá uma surra em nós dois antes de você fazer isso.


🔮🔮🔮

Um barulho alto fez pular assustado na cama, confuso. Novamente, ele estava dormindo no quarto de , como se não tivesse o seu próprio. Olhou para o lado em busca do outro. ainda estava adormecido, respirando de forma tranquila. Estava lindo como de costume, os lábios entreabertos, os cabelos desordenados. Tudo parecia perfeitamente bem, e questionou se não tinha apenas sonhado com o barulho.
Observando o quarto ao seu redor, notou que ainda estava escuro, ele parecia um breu completo, mas o que realmente chamou sua atenção foi Mochi, rosnando para a porta, com os pelos eriçados.
Algo estava acontecendo. sentiu seu sangue gelar imediatamente.
, acorda. — chamou, o sacudindo sem desviar os olhos da porta do quarto, caso alguém invadisse o local.
Não que ele pudesse fazer alguma coisa.
— O que foi? — perguntou, coçando os olhos sonolentos enquanto se sentava, mas pulou na cama também quando, novamente, um barulho alto se fez ouvir.
Antes que qualquer um dos dois dissesse alguma coisa, a porta do quarto foi aberta com um baque. Mochi pulou para a frente, pronto para atacar, mas quem surgiu ali foi .
— Passaram pelas barreiras! — ele soltou em um fôlego só. — Vocês têm literalmente um minuto pra pegar apenas o necessário, está esperando na sala.
Ele não esperou uma resposta, apenas deu as costas para sair, mas jogou as cobertas para o lado apressado, praticamente pulando para fora da cama.
— Espera, espera. No meio da noite?! — perguntou preocupado.
Esperavam que o conselho fizesse uma visita surpresa a qualquer momento, mas no meio da noite ainda parecia demais para uma visita amigável. Essa percepção deixou imediatamente nervoso. Mais do que já estava, no caso. Definitivamente algo estava muito errado.
— Eles não estão sozinhos. — parou no caminho para dizer, voltando-se novamente para eles. — Menos de um minuto agora.
— Não estão sozinhos?! — praticamente gritou. — O que isso quer dizer, ?! Estamos sendo atacados?
— O que você acha?
voltou a dar as costas para se afastar, enquanto sentia seu coração parar. Ninguém esperava por isso, mas se estava acontecendo, ele só conseguia pensar que era culpa sua. Era ele quem precisavam esconder, afinal.
Sem pensar em mais nada, saiu apressado do quarto, seguindo de perto. Mochi foi junto, e ficou para trás. Se encarregou de fazer o que havia sugerido. Não podiam sair na rua apenas com as calças. Pegou uma camisa para sí e outra para . Agarrou sua jaqueta em cima da cadeira e correu para o closet pegar uma para ele também. Jogou os tênis dos dois de qualquer jeito dentro da sua mochila, as carteiras e celulares e apenas depois correu atrás dos dois.
— Não tem a menor chance de eu deixar vocês sozinhos aqui sendo atacados! — ouviu gritar ainda das escadas.
Já estavam todos na sala, discutindo. Ainda vestiam seus pijamas, ninguém tinha tido de tempo de se preparar para nada, mas já tinha aberto um portal para fora da casa. e discutiam exatamente a sua frente.
não podia culpar por isso. Entendia sua preocupação, compartilhava dela.
Se algo acontecesse ao clã por sua culpa, jamais se perdoaria. Eram as primeiras pessoas que realmente estendiam a mão para ajudá-lo, e não esperavam nada em troca.
— Eu posso ir sozinho. — ofereceu. — Se eu não estiver aqui eles não podem acusar vocês de nada.
— Se estão atacando é porque a acusação já existe. — respondeu. — E é muito capaz que isso nem seja sobre você. Eles acham que fizemos algo com o Mago, e agora tem o sumiço do Jaehyun também.
— Mas isso não muda o fato de que eles não podem vê-lo aqui. — o lembrou.
— Por isso ele vai e eu fico. — insistiu. — Ele só precisa estar longe daqui para ficar seguro.
— Ele pode precisar de ajuda, . E só você vai poder fazer isso.
— Vocês também precisam de ajuda. — os interrompeu.
— Já somos cinco, pelo amor de Deus. — perdeu a paciência. — Parem de discutir por idiotice, saiam logo daqui. Eles estão mais perto.
— Se o problema não sou eu, o vai ser mais útil aqui do que comigo. — continuou insistindo.
— Isso não está em discussão. — retrucou, e urrou em frustração.
, se alguma coisa acontecer com a gente, é bom que um de nós esteja longe para fazer alguma coisa. — interferiu. — Você é o melhor para isso, por causa do . Vai logo, se demorar muito, o não vai ter tempo de voltar e ai sim vamos ter um problema.
Finalmente parecendo convencido, concordou, embora ainda estivesse claramente insatisfeito. se abaixou para pegar Mochi, e o gato não se opôs, provavelmente entendendo muito mais do que estava acontecendo do que o próprio . Após acomodar o gato no braço esquerdo, ofereceu a outra mão para e apenas depois que ele a aceitou, se voltou para .
— Se cuidem, por favor. — pediu, antes de andar para dentro do portal enquanto puxava consigo.
Sequer teve tempo para questionar como aquilo funcionava, ele apenas confiou em de olhos fechados como tinha aprendido a confiar.




os deixou em um lugar totalmente aleatório da cidade, longe de tudo que eles conheciam. Era longe da faculdade, longe do trabalho dos dois, e também da casa de , por segurança.
Eles entraram no primeiro hotel de procedência duvidosa que encontraram assim que se vestiram, mas não trocaram muitas palavras. Ambos estavam tensos, embora estivesse obviamente pior. conseguia sentir a agonia dele mesmo de longe, de uma forma que ele concluiu não ser exatamente natural. Era literalmente como se ele pudesse sentir o que sentia, e deduziu que tinha alguma relação com a ligação de alma entre eles.
Fez uma nota mental para perguntar sobre isso em algum outro momento, porque apesar da curiosidade, estavam com problemas maiores com os quais lidar. estava desesperado pelo clã em perigo e , preocupado, não conseguia deixar de se culpar pelo que estava acontecendo.
Eles tinham lhe dito que aquilo não era necessariamente sobre ele. O Mago desapareceu, o mundo mágico se preocupava com isso, mas eles só se colocaram na mira do conselho porque questionaram demais, perguntaram demais, e tudo isso por sua causa, para ajudá-lo.
E agora estava longe do clã em um momento tão crítico porque, se algo acontecesse a , ele não conseguiria se defender sozinho.
Tudo seria muito mais fácil para o clã se eles não tivessem se conhecido, não conseguia deixar de pensar nisso. Jihyo provavelmente não teria a mesma sorte, mas não era como se a menina fosse um problema deles. Eles não tinham qualquer obrigação com ela.
— Precisamos ver as notícias. — falou assim que entraram no quarto alugado. Ele passou apressado pela porta, e se encarregou de fechá-la atrás deles.
foi direto para o espelho de corpo inteiro no canto do quarto. Ele tocou a superfície com o dedo indicador enquanto murmurava algumas palavras incompreensíveis. se aproximou cautelosamente, curioso, e viu o reflexo no espelho tremeluzir. De repente, não eram mais os dois que estavam ali. Havia uma mulher do outro lado, embora a imagem parecesse borrada, como se ela estivesse perdida no meio de uma névoa, mas sabia que era apenas efeito da magia.
Diante dos recentes acontecimentos, o conselho está nomeando Lee Junseo como líder temporário da ONIM. — comentou a âncora, e gemeu ao ouví-la.
— O que isso quer dizer? — perguntou, olhando dela para ele. Se parecia tão nervoso, então a notícia não era boa.
— É o cargo do . — explicou. — Ele é líder da nossa força militar. Ou era. Ele não pode simplesmente fazer uma apreensão de sí mesmo, então...
gemeu também, entendendo onde ele queria chegar.
— E ele está do nosso lado? O cara novo? — perguntou. Não tinha a menor idéia de qual era a relação entre ele e , mas se eram colegas de trabalho, talvez as coisas não fossem tão ruins assim.
e ele são amigos. Mas não é como se ele pudesse ficar contra o conselho. Se ele ficar, perde o cargo também.
A intervenção se deu porque o conselho acredita que o clã Kim esteja compactuando com bruxos das Sombras. — a âncora voltou a falar, e sentiu seu sangue gelar completamente. Notou que, ao seu lado, prendeu a respiração. Nem mesmo ele esperava por isso. — Não sabemos ainda se há provas, ou quais são elas, mas o conselho emitiu uma ordem de prisão para o clã sob suspeitas de que estejam envolvidos no desaparecimento do Mago Supremo Choi Yoonjae e de Kang Jaehyun, um dos ministros do nosso conselho. As acusações geraram muitas controvérsias, especialmente devido a falta de provas. O clã Kim é muito influente dentro da sociedade, possui alguns dos bruxos mais poderosos que conhecemos, mas, justamente por isso, seriam os únicos com força o suficiente para conter alguém tão poderoso quanto nosso Mago.
— Eu aposto que ela foi paga pra dizer essa merda. — bufou, fazendo a ligação se perder quando deu as costas para o espelho em um momento de raiva. — Cassete. — xingou de novo, se virando outra vez para o espelho para repetir o encantamento.
— Ela não falou nada sobre eles terem sido capturados. Isso é bom, não é? — questionou, e riu sem muito humor.
— Talvez eles estejam sendo interrogados, mas não tem chance de não os levarem. Especialmente quando justo eu sumi.
— Justo você? — perguntou, embora tivesse uma ligeira ideia sobre o que ele queria dizer.
— Eu deveria ser um bruxo das sombras. — o lembrou. — E então eu desapareço exatamente quando eles acham que estamos compactuando com outro bruxo das sombras para derrubar o conselho. E eles te viram comigo no mercado, sabem que você tem magia. Droga, deveríamos ter previsto isso.
começou a andar de um lado para o outro, mas dessa vez a névoa continuou ali no espelho, embora a âncora tivesse desaparecido. Deduziu que ela só apareceria de novo quando tivesse mais notícias, mas continuou sem fazer perguntas.
estava estressado, não era um bom momento para aborrecê-lo mais. Além disso, ele mesmo se sentia péssimo. Não conseguia deixar de sentir aquele peso do estômago, a sensação de culpa por tudo aquilo estar acontecendo.
Precisava fazer alguma coisa, mas a única sugestão que vinha em sua mente era justamente algo que aborreceria ainda mais, tinha certeza.
— Eu deveria me entregar. — falou de repente, não vendo outra saída.
Se o clã era influente, podiam convencer o conselho a deixá-lo vivo para poupar . ficava preso, mas ficava vivo e o clã ficava livre. Ainda precisariam liberar a magia dentro dele, mas nesse caso poderiam apenas contar a verdade para o conselho, dizer que tudo isso era para manter a salvo.
Eram apenas especulações, mas era a melhor ideia que tinha.
, por outro lado, discordou imediatamente. Ele parou de andar e o encarou como se tivesse perdido completamente o juízo.
— Você enlouqueceu?!
— O problema sou eu, eles estão acusando vocês de compactuar comigo. — respondeu, lutando para não levantar a voz diante de seu nervosismo. — Na pior das hipóteses, vão me prender, mas se deixarmos que me toquem, vão ver que a magia está presa dentro de mim, como você e sentiram. Como eu faria algo contra o Mago se nem consigo usar minha magia?
— Eles não vão te prender, . Eles vão te matar! — diferente dele, praticamente gritou. — Eles estão paranóicos o suficiente para achar que o nosso clã fez alguma coisa, mesmo nos conhecendo a centenas de anos! Você acha mesmo que durante uma audiência eles vão acreditar em você? Eles podem apenas deduzir que nós mesmos fizemos algo com sua magia!
Se existia a possibilidade de uma audiência, já achava ótimo. Poderia ao menos tentar se defender.
— Ela disse que não tem provas, que a decisão de condenar o clã gerou controvérsias porque vocês são influentes e confiáveis. — o lembrou. — A opinião pública não serve de nada? Não podemos pedir que a audiência seja pública ou algo assim?
— Te entregar é dar a eles uma prova de que estávamos escondendo algo, ! — ignorou completamente a sua pergunta.
entendia sua irritação e nervosismo, também odiaria a possibilidade de fazerem mal a , mas não era somente sua vida em jogo, era o clã inteiro. Precisavam fazer alguma coisa e a relutância de em ouví-lo o deixou tão irritado quanto.
— Vocês usam magia! — ergueu a voz também. — Não dá pra simplesmente fazer uma mágica e saber se eu estou mentindo?!
— Não, não dá!
— Não dá ou você não quer?! — questionou, odiando não ter como confirmar aquela informação. Não entendia sobre como as coisas funcionavam no mundo deles, mas ele podia dizer tranquilamente que todas as negativas de tinham relação ao fato dele não querer que se arriscasse. — Precisamos fazer alguma coisa, ! disse que se algo acontecesse com eles, estarmos seguros seria bom justamente por isso!
— Te entregar definitivamente não é fazer "algo", ! Isso não está em discussão!
— E qual a sua idéia então, ?! Sentar aqui e esperar?!
— Te entregar não é uma opção! — repetiu, exaltado.
— Deveria ser! — respondeu no mesmo tom. — Eu não vou poder me esconder pra sempre, ! Especialmente se vocês conseguirem libertar a magia dentro de mim! Como vai ser quando qualquer bruxo conseguir sentir ela? Eles precisam saber que eu não sou uma ameaça, ou nada vai mudar!
— Te entregar em um momento como esse é a última coisa que vai ajudar, ! Eles podem te usar como prova sobre estarmos escondendo algo, ou podem te culpar pelo sumiço do Mago! Podem simplesmente decidir te matar sem fazer perguntas!
— Não temos como saber como eles vão agir!
— Exatamente! — gritou. — Esse é exatamente o ponto! Qual a dificuldade de entender?!
— E o que vamos fazer, então?! — gritou também. Suas mãos já começavam a tremer devido ao estresse, a magia borbulhando dentro dele. Conseguia sentir agora que sabia que aquilo não tinha nada a ver com um problema médico. — Precisamos fazer alguma coisa!
— Eu sei disso, ! Mas não vou descobrir o que fazer se você não parar de falar!
ainda queria discutir, mas segurou sua língua e se calou. Precisou respirar fundo para se conter. Brigar também não ia ajudar, eles realmente precisavam pensar e sequer sabiam ainda o que tinha acontecido com o clã. Se eles tivessem sido presos ou algo assim, a âncora teria dito. Era provavelmente isso que estava esperando em frente ao espelho, embora ainda não concordasse com a sua decisão.
se sentou na cama, nervoso, e viu o pingente de seu colar se mover embaixo da camisa. O mesmo que usava para se comunicar com o clã por meio de magia.
Uma ideia se formou em sua mente imediatamente.
Deixaria que tentasse fazer as coisas do seu jeito, mas se tudo desse errado, já sabia o que fazer.

🔮🔮🔮

A âncora não deu mais nenhuma notícia e os dois eram uma enorme pilha de nervos, embora não estivesse nem de longe tão estressado quanto parecia.
A essas alturas, o próprio já tinha se lembrado do colar em seu pescoço, mas não era como se ele pudesse usar. Se o clã tivesse sido capturado, a primeira coisa que fariam era tirar os colares de cada um, justamente para limitar a comunicação. Isso atrapalhava , mas era muito útil para o que havia planejado.
Não fazia parte do seu plano falar com o clã.
Não cobrou nenhuma resposta de . Deixou que ele andasse de um lado para o outro enquanto conversava com seus próprios pensamentos. Sabia que ele falaria quando tivesse um plano, mas as horas se passaram e nada pareceu surgir. Foi quando decidiu que a sua idéia ainda era a única que tinham.
Precisou pensar em uma forma de ter acesso ao colar, nunca o tirava do pescoço, mas quando ele foi ao banheiro, ficou sozinho com Mochi e algo em sua mente se acendeu como uma lâmpada.
Normalmente, o gato se recusava a ajudar, mas não foi o caso dessa vez. Até mesmo ele parecia entender a urgência da situação. conseguiu convencê-lo a usar sua magia para colocar para dormir e vinte minutos depois, ele estava completamente apagado em cima da cama.
Com cuidado, soltou o pingente de seu pescoço. Estava nervoso, suas mãos tremiam. Tinha medo de que tudo desse errado e ele acabasse apenas colocando em risco por isso, mas precisava fazer alguma coisa.
O clã só estava envolvido nessa bagunça por sua causa.
— Vou precisar de ajuda com isso também. — sussurrou para o gato, mesmo duvidando que fosse simplesmente acordar. Ele não estava realmente dormindo, estava apagado. Pediu por isso a Mochi, justamente porque sabia que precisaria falar.
não tinha feito nenhum encanto quando usou o colar pela primeira vez na sua presença. Ele havia explicado que era acionado pela magia do próprio clã. não era um membro oficial, mas estava contanto com tudo o que tinha dito sobre ele pertencer ao grupo, assim como Mochi pertencia. Deduziu que, se Mochi podia acessar a magia dos outros, ele também poderia, desde que o gato o ajudasse com isso.
Assim como tinha visto fazer, segurou o pingente entre as mãos, mas olhou para Mochi em seguida. Não sabia o que vinha agora.
— Vamos, você tem que fazer isso funcionar. — pediu, e gato resmungou qualquer coisa. Ele não estava gostando daquela ideia, mas queria ajudar o clã tanto quanto .
Pertencendo ao clã inteiro, ele não morreria se algo acontecesse com , mas seria diferente se ele ficasse completamente desamparado. Mochi não queria que se machucasse, mas se acontecesse, o clã seria sua melhor chance. Ele sabia disso.
E no final, os dias de já estavam contados de qualquer forma, especialmente sem o clã para ajudá-lo a recuperar sua magia. Era apenas por isso que estava se arriscando tanto. Dessa forma, pelo menos teria alguma chance.
Ele e morreriam sem os outros. Se ele pudesse salvar alguém, já seria uma grande vantagem.
Repentinamente, sentiu algo se aquecer em seu peito e olhou rapidamente para o gato. Mochi estava acessando sua magia, sabia a diferença agora. Em instantes, o pingente do colar se acendeu, exatamente como podia fazer, e sorriu vitorioso.
Certo, agora ele precisava falar. Mais do que isso, convencer as pessoas do outro lado a ouví-lo.
— Eu não sei se tem alguém ai, mas espero que tenha. — ele falou em voz alta para o colar, conferindo por um instante para ter certeza de que ele não tinha acordado. Ele sequer se moveu. — Meu nome é Jeon , e eu sou um bruxo das sombras. Ou deveria ser, se tivesse acesso a minha magia. Eu não conhecia esse mundo até alguns meses atrás e não sou responsável pelos problemas de vocês, assim como sei que o clã Kim também não é. É por esse motivo que eu estou disposto a me entregar para uma audiência, contar a minha história, provar que eu e o clã somos inocentes, desde que isso tudo seja feito publicamente. — sugeriu.
Ele podia não saber muito sobre como eles resolviam as coisas, mas o próprio falou sobre audiência e se agarrou a isso. Esperava que o conselho estivesse com as pedras do resto do clã para ouvir sua mensagem e que as pessoas aceitassem pelo menos ouví-lo, nem que fosse por curiosidade. Também estava contando com a credibilidade do clã para que lhe dessem uma chance, e não queria pensar na possibilidade de estar errado.
— É isso? — perguntou para Mochi, e o gato miou em sua direção. Ele disse que tinha funcionado, mas isso não garantia que alguém do outro lado tinha escutado a mensagem. Os colares podiam estar jogados em uma caixa qualquer, em uma sala vazia. Era um plano bem falho agora que ele parava para pensar nisso.
bufou, se deixando cair para trás, contra o encosto do sofá onde ele estava. Se aquilo desse errado, não tinha idéia de como agir.
— O que aconteceu? — falou de repente, sentando-se confuso na cama. Ele olhou para os lados meio perdido, certamente não se lembrava de ter adormecido. tentou ser rápido em esconder o colar em suas mãos, mas não foi o suficiente.
arregalou os olhos, levando a mão até seu pescoço para ter certeza de que o colar era mesmo o seu.
— O que você fez?! — praticamente gritou, pulando para fora da cama. Ele avançou apressado em sua direção, mas já não dava mais para impedí-lo de nada. — , o que você fez?! — insistiu, arrancando o colar se suas mãos quando se aproximou o suficiente para isso.
— Não estávamos chegando em lugar nenhum. Você não tinha ideia do que fazer. — se defendeu ao invés de responder.
, eu não vou perguntar de novo. O que você fez?!
ainda gritava, mas ele parecia muito mais preocupado do que irritado com sua atitude. suspirou.
— Eu pedi uma audiência pública. — confessou.
— Você o que?! — aumentou ainda mais o tom de voz. — Você falou com quem?!
Antes que pudesse dizer que ninguém o respondeu, o colar voltou a brilhar e os dois arregalaram os olhos. xingou, mas não tinha como voltar atrás agora.
— Nós aceitamos. — uma voz soou do outro lado, antes do colar voltar a se apagar.

🔮🔮🔮

percebeu que nunca tinha visto irritado de verdade.
Depois que o colar se apagou, ele estreitou os olhos em sua direção de forma totalmente assassina. Foi a primeira vez também que realmente o fez lembrar de uma serpente. Uma que parecia pronta para dar o bote e ele seria a vítima.
quase se arrependeu do que tinha feito.
Quase.
Antes que pudesse pensar no que dizer para se defender, a mesma mulher de antes voltou a surgir no reflexo do espelho, pronta para dar uma nova notícia ao mundo.
— O conselho acaba de confirmar, o clã Kim vinha de fato escondendo um bruxo das sombras em seu coven. O nome dele é Jeon . — ela falou, e sentiu o olhar fulminante de em suas costas. — Ele entrou em contato com o conselho através das pedras de comunicação do clã Kim, o que indica que ele já é um deles apesar do conselho não ter sido informado sobre a nova adição...
— Parabéns. — comentou sarcasticamente, e não precisou explicar o motivo. Dizer que a notícia estava sendo transmitida de forma tendenciosa era pouco. — Isso vai ajudar bastante.
preferiu não responder, voltando a se concentrar na mulher no espelho.
O bruxo das sombras alegou ser inocente apesar das expectativas e concordou em se entregar, desde que o conselho permita que ele se defenda em uma audiência pública. O conselho aceitou, mas não obteve ainda qualquer retorno sobre quando ou onde o bruxo irá...
Antes que a mulher completasse a frase, sua imagem simplesmente desapareceu. De um segundo para o outro, seu próprio reflexo voltou a aparecer no espelho e se virou para totalmente confuso.
O bruxo parecia ainda mais irritado agora.
— Você por acaso tem noção da merda que você fez? — perguntou, soando um tanto quanto raivoso.
— Eu consegui uma audiência pública. — respondeu, simples. Apesar da irritação óbvia de , isso era exatamente o que ele queria.
— E vai fazer o que com ela?! — voltou a erguer a voz. — Eles vão continuar fazendo notícias tendenciosas com ou sem isso!
— Foi por esse motivo que eu pedi uma audiência pública. É para que as pessoas vejam ao invés de confiar em uma âncora de jornal. — manteve seu tom de voz neutro. Também estava frustrado com a situação, mas nunca chegariam em um acordo se não parassem de gritar um com o outro. — , eu sei que você está bravo, mas não tem outra solução. — se aproximou, e segurou seu rosto entre as mãos, fazendo com que olhasse em seus olhos. — Eu queria que tivesse como fazer isso sem arriscar a sua vida também, mas sem o clã morreríamos de qualquer forma. Se eu me entregar, pelo menos teremos alguma outra possibilidade. Podemos pelo menos tentar convencê-los a me prender ao invés de me matar e então você e o clã ficariam a salvo.
esperava sensibilizá-lo, mas tudo que recebeu foi um revirar de olhos antes que afastasse suas mãos dele.
, você se meteu em uma realidade que você não conhece. Você fez deduções sobre como eles vão agir baseado em literalmente nada! Você não consegue ver isso?! — falou, ainda tão exaltado quanto antes. — Eu não pensaria duas vezes em me entregar para esse seu plano suicida se tivesse realmente alguma garantia de salvar pelo menos o clã, mas não tem! E não só isso, te matar é a melhor coisa que eles podem fazer. Eles vão te torturar, e eu vou ser obrigado a assistir!
— Se no final você e o clã ficarem a salvo...
— Vai se fuder, nem completa essa frase! — o interrompeu. — Você não tem ideia do que eles podem fazer com você, !
, eu estou literalmente com meus dias contados! — acabou erguendo a voz também. — E não só eu! Se conseguirmos salvar alguém, já é uma grande coisa! Se conseguirmos salvar você também, então eu estou satisfeito. E somente assim a gente vai ter uma chance!
— A gente não tem uma chance, !
— Então o clã pelo menos vai ter!
— Você é um imbecil! — simplesmente xingou, e percebeu que ele não tinha mais argumentos. — Um cabeça dura imbecil!
— Você já sabia disso. — respondeu.
Esperava que voltasse a retrucar depois disso, mas ele não o fez. apenas ficou em silêncio, o encarando. Seus olhos ainda eram duas fendas e podia sentir sua irritação exalando pelos seus poros, mesmo que tivesse se calado, provavelmente pensando sobre tudo o que tinha dito.
Não tinha mais nada que eles pudessem fazer e não tinha dúvidas de que chegaria na mesma conclusão que ele. Tinham sido encurralados, e não podiam apenas deixar o clã para trás.
— Eu queria que pelo menos tivesse uma forma de garantir que você ficasse bem. — voltou a falar. Lamentava aquela parte, mas realmente faria de tudo para que deixassem viver. Se conseguisse pelo menos isso, ficaria satisfeito.
— Você realmente não entendeu como essa coisa de ligação funciona, não é? — perguntou, mas já parecia um pouco mais tranquilo. — Nem depois de falar com o .
— Falar com o ? — arregalou os olhos. Não era para saber daquilo.
— Ele me contou o que você pediu pra ele. — explicou, achando graça em sua reação.
— Ele o que?! Ele me pediu pra não te contar!
— Ele me disse isso também. — riu, embora não fosse nem de longe uma das risadas divertidas que ele costumava soltar. — Ele achou que seria melhor me contar para explicar que você não sabia o que estava pedindo. Ele não queria que você deixasse escapar e eu me chateasse.
— Ele queria é me queimar. — acusou, emburrado.
— Não queria. Ele te respeita um pouco mais agora. — contou. — Você pediu ajuda de alguém que detesta pra tentar me salvar de você mesmo. Ele apreciou o gesto, apesar do pedido ter sido totalmente absurdo.
— Uhm... — murmurou, nenhum pouco convencido daquilo. — E você não ficou chateado?
— Eu entendo que você não sabia o que estava pedindo. Assim como agora.
— Assim como agora?
Ao invés de responder de imediato, voltou a se aproximar. Ele levou uma das mãos até sua nuca, e deixou que ele acariciasse seus cabelos.
, não tem a menor chance de eu viver se você não estiver junto. — falou, e sentiu aquelas palavras o atingirem diretamente no peito. — Se você for preso, a ligação pode até não me matar, mas eu ia preferir que matasse. Esse seu plano é uma missão suicida. Pra nós dois.
, por favor...
— Não. — ele o interrompeu, antes que pudesse pedir que ele não fizesse isso, que vivesse, por ele. — Apenas não. Você entende que está disposto a ser torturado para que eu fique vivo? Você está fazendo exatamente a mesma coisa e também não me perguntou nada antes. — o soltou, e odiou ter sim entendido o ponto dele. Estava disposto a embarcar em uma missão suicida por . Claro que ele faria o mesmo. — Você perdeu o direito de me pedir qualquer coisa quando pegou aquele colar para fazer o que queria. É assim que vai ser.
deu as costas para ele e foi quem não teve palavras para discutir dessa vez. Apenas o observou enquanto o bruxo pegava sua jaqueta sobre o sofá.
— Vamos. — o chamou, jogando em a outra jaqueta que estava ali. — Temos que mandar uma mensagem para a rede de notícias antes de nos entregarmos. Eles precisam noticiar o que estamos fazendo. Não queremos que o conselho apenas finja que nós desistimos.

🔮🔮🔮

O conselho se reunia no ministério, que era localizado em uma fenda entre os dois mundos: O real, e o mágico. Ou pelo menos foi assim que entendeu.
não gostou muito quando ele se referiu ao mundo que conhecia como "real", isso implicava que o outro não era, mas ninguém estava realmente preocupado em nomear as coisas da forma correta. O momento era crítico demais para que aquilo fosse relevante.
— E como a gente acessa essa fenda? — perguntou.
Estavam os dois andando no meio de uma avenida aleatória, com Mochi vindo atrás. , sinceramente, não tinha ideia de onde estavam.
já tinha usado magia para se comunicar com a âncora do jornal. Ele fez isso através de uma poça de água que ele mesmo fez no chão e agora seguiam rumo a lugar nenhum. estava tentando evitar as perguntas, mas já fazia tempo demais que estavam andando por ali.
— Eu nunca acessei a fenda por essa parte da cidade. — ele explicou. — Tem que ter um beco por aqui, em algum lugar. Só precisamos achar.
olhou para os lados, parecendo meio perdido. Sabendo o que procuravam agora, fez o mesmo, encontrando, ao longe, uma rua escura entre dois prédios.
— Tipo aquilo? — ele apontou, e estreitou os olhos para enxergar.
— Sim! Exatamente aquilo.
Como já tinha se tornado costume, o segurou pela mão e o puxou em direção ao tal beco do outro lado da rua. Ele pareceu animado por finalmente ter encontrado o que procuravam, mas isso mudou quando finalmente chegaram ao local, como se ele se lembrasse de que, talvez, estivessem se entregando para a morte.
Tenso, parou bem em frente a uma pichação de asas na parede do beco. Ela parecia brilhar ali, reluzir na escuridão, mas não perdeu muito tempo apreciando a vista, voltando-se para ao invés disso enquanto Mochi sentava-se aos seus pés.
— Deveríamos nos despedir ou algo assim? — tentou brincar, embora houvesse certa verdade em suas palavras. Não tinha ideia do que aconteceria agora.
Mochi miou insatisfeito, como se quisesse xingá-lo pelo comentário, mas apenas olhou para suas mãos que ainda estavam juntas.
— Eu estou com medo do que vai acontecer. Não deveríamos estar aqui.
— Deveríamos. Precisávamos fazer alguma coisa. — respondeu. — E você sabe que não tinha nenhuma outra solução além dessa.
— Talvez, mas não muda o fato de que estamos nos entregando pra morrer.
— Eu confio na credibilidade do clã para que pelo menos vocês se salvem. — falou, mas negou com a cabeça.
— Eu não quero me salvar. — retrucou. — Não é disso que eu tenho medo e sim do que vão fazer com você.
— Eu vou ficar bem se vocês ficarem bem. — devolveu, tentando passar tranquilidade. Mochi miou, dizendo que duvidava, mas preferiu ignorá-lo. — Abre de uma vez. Quanto antes entrarmos, antes acabamos com isso.
tentou se soltar dele para se voltar para a asa brilhante na parede, mas segurou sua mão com mais força, o impedindo de se afastar. o encarou com certa confusão, e foi surpreendido com um selar em seus lábios. Com o susto, fechou os olhos, mas três segundos depois, já tinha se afastado.
piscou em sua direção, ainda mais confuso do que antes.
— Isso pode ser uma despedida. — explicou. — Você sabe disso, não sabe?
— Eu tenho esperanças de que não seja.
— Sua esperança é baseada em teorias. — o lembrou. — Você não conhece esse mundo, não sabe como as coisas funcionam.
— Mas é melhor ter ela do que não ter nada. Não quero pensar na possibilidade de ter nos entregado à toa.
— Você estava certo, não tínhamos outra opção. Não conseguiríamos ajudar o clã a fugir e sem eles não conseguiríamos te salvar. No máximo teríamos alguns dias a mais, mas condenaríamos os cinco por nada. Se tudo der errado, essa é a opção onde salvamos mais pessoas. — respondeu, mas aquilo ainda não era o que queria ouvir.
Já tinha aceitado a possibilidade de morrer, já estava conformado com isso, mas sua esperança envolvia manter vivo também, salvar todos os seis. Não queria que fosse condenado junto com ele. não merecia isso.
— Eu não quero que você morra também, junto comigo. Eu preferia que não fossemos ligados se isso fosse manter você vivo.
— Eu não. — respondeu rapidamente, aproximando-se um passo. — Te conhecer foi um privilégio e eu não trocaria isso por nada.
odiou que as coisas precisassem ser daquele jeito, odiou que não pudesse apenas viver uma vida tranquila com e sua irmã. Pela primeira vez na vida sentiu que pertencia a algum lugar e estava prestes a perder tudo isso. Lamentava estar preso naquele problema, ter nascido como um bruxo que todos desprezavam.
Nunca quis muito para a sua vida, ou pensou no futuro, mas naquele momento, desejou poder ter um.
Dessa vez, foi quem selou seus lábios, mas não se conteve em aprofundar o beijo. Um piercing inflamado não seria problema se ele fosse morrer em breve.
o puxou para si pela cintura, e rapidamente o envolveu em seus braços, entreabrindo os lábios para que o beijasse.
O gosto era urgente, como se tentassem gravar na memória tudo o que talvez não pudessem viver no futuro. A respiração de era quente e acelerada, misturando-se com a dele. Cada toque parecia carregar o peso de um adeus que nenhum dos dois queria dizer.
Os dedos de se prenderam em sua nuca, puxando-o para mais perto, e respondeu com um aperto firme em sua cintura, afundando o corpo contra o dele.
Foi quem interrompeu o beijo primeiro, mas não se afastaram apesar disso. Queriam aproveitar todos os segundos que ainda tinham um com o outro.
— Você deveria fazer isso em sua forma verdadeira. — sugeriu, após observá-lo tão de perto. Se o pior acontecesse, parecia errado que fosse embora em uma forma que não fosse a sua. Ele era perfeito, e queria tanto que soubesse disso... — Não deveria se esconder agora.
não respondeu nada, mas aceitou sua sugestão. Em um segundo, sua pele clara foi substituída pelas escamas escuras. No outro, já encarava seus olhos amarelos de serpente.
Por um instante, o encarou em silêncio. Seu coração disparava sempre que olhava para naquela forma e se perguntou se um dia se acostumaria com isso.
Esperava ter tempo para descobrir.
— Assim está melhor. — sorriu para ele, controlando a vontade de beijá-lo mais uma vez.
— Se sobrevivermos a isso, eu prometo que vou parar de me esconder. — falou, e gemeu. Aquilo era tudo que ele mais queria. Era tão injusto que essa fosse a condição dele.
— Eu vou fazer de tudo para que isso aconteça. — respondeu, deixando mais um beijo rápido em seus lábios antes de finalmente se afastar, mantendo apenas suas mãos juntas. Precisavam fazer isso. — Vamos, abre esse negócio.
Sem dizer nada, concordou com a cabeça e estendeu a mão livre para frente. As asas na parede passaram a brilhar com mais força, em um dourado vívido, e segundos depois, e já não estavam mais ali.

🔮🔮🔮

fechou os olhos quando a luz o cegou. Ao abrí-los novamente, estava dentro de uma sala completamente branca, embora ela fosse ampla o suficiente para que ele não conseguisse enxergar seu fim em nenhum dos lados. Não parecia haver qualquer janela, ou portas. Assim como também não havia móveis. Era apenas uma sala totalmente vazia, exceto pelas mesmas asas da pixação no beco que agora estavam desenhadas no chão.
ainda segurava a mão de e os dois estavam posicionados exatamente no meio das asas brilhantes, mas Mochi tinha desaparecido. Ou, mais provavelmente, ficado para trás.
Talvez fosse melhor assim. Pelo menos alguém ficaria seguro.
— Estamos no lugar certo? — sussurrou. Não havia exatamente um motivo para isso, mas parecia que qualquer barulho ali dentro seria barulho demais. Antes que tivesse a chance de responder, no entanto, a sala foi completamente tomada por pessoas que surgiram de lugar nenhum.
pulou para trás de susto, sem ter ideia de onde todos haviam saído. Em um segundo, estavam sozinhos, e no outro estavam cercados por pelo menos vinte pessoas. Bruxos, provavelmente, e todos tinham as palmas das mãos erguidas na direção dos dois.
o puxou para mais perto, como se quisesse protegê-lo, e não pôde fazer nada além de aceitar.
— Nós viemos nos render! — se apressou em dizer. — Não precisa de tudo isso!
— Ele é um bruxo das sombras! — um dos homens falou, o que estava mais à frente dos outros. Um brilho azulado surgiu em suas mãos, e de repente estava no chão, com uma das mãos agarrando o peito.
O ar parecia ter sumido completamente de seus pulmões. Ele não conseguia respirar e seu peito doía quando tentava puxar o ar.
Achou que ao menos teria tempo de se defender, de dizer algo, mas não lhe deram essa alternativa.
— Ele não sabe usar os poderes! — o defendeu, se abaixando rapidamente ao seu lado para tentar ajudá-lo. — Parem com isso! — gritou, tocando-o no peito. viu a luz dourada surgir em suas mãos e, por um instante, conseguiu respirar novamente.
Mas foi apenas um instante.
Ele puxou o ar, sentindo-se aliviado por respirar novamente, mas então gemeu, curvando-se para frente enquanto segurava seu peito. A luz dourada em sua palma desapareceu e , mesmo sem fôlego, se desesperou.
Estavam machucando e ele era completamente inútil. Se arrependeu imediatamente daquela ideia estúpida de se entregar. Ver sofrer era a última coisa que ele queria. Ele não merecia aquilo, mas por sua culpa, estava acontecendo.
— Por que estão fazendo isso? — perguntou, com certa dificuldade devido a falta de ar. Eles estavam em maior número e mesmo assim os atacaram sem motivo algum. Os dois já estavam no chão, e ainda continuava lutando para respirar enquanto mantinha a expressão dolorida no rosto. — Não estamos fazendo nada!
— Apenas porque não podem! — o homem retrucou de forma agressiva. Ele não estava disposto a conversar, os encarava com nojo, como se fossem a escória da escória.
estava certo, nunca tiveram chance.
— Nós já nos entregamos, parem com isso. — pediu, mas acabou gemendo mais uma vez. O que quer que estivessem fazendo com ele, piorou quando tentou falar.
se viu completamente desesperado.
— Estão machucando ele! — gritou, e viu a expressão de dor aumentar no rosto de , como se estivessem se divertindo em ver seu sofrimento.
sentiu o estômago despencar, a culpa o sufocava. Era por causa dele que estava ali e a ideia de vê-lo quebrar era insuportável. não merecia aquilo. Não tinha cogitado aquela possibilidade, não pensou que poderiam machucar ao invés dele. Se algo acontecesse com , nunca se perdoaria.
— Parem, por favor. — pediu, o medo latejando em seu peito, mas apenas fizeram com que gemesse mais uma vez. Era como se quisessem testá-lo. Não estavam mais tentando contê-los, estavam apenas machucando deliberadamente. — Parem! Não fizemos nada pra vocês! — gritou, puxando para seus braços. Seus olhos fechados, e apesar dos gemidos que deixava escapar, parecia, na verdade, estar tentando se conter ao máximo.
provavelmente sabia como a culpa o massacrava e mesmo com toda a dor que infringiram a ele, tentava facilitar as coisas para .
Perceber isso apenas serviu para fazê-lo se sentir ainda pior.
— Parem com isso! — gritou novamente, em completo pânico. Saber que não podia fazer nada além de implorar o deixava completamente apavorado.
Sangue começou a escorrer pelos ouvidos de e foi tomado de pavor.
— Parem! — ele gritou outra vez, com toda sua força, enquanto se agarrava ao corpo inerte de . Era como se estivessem arrancando de uma parte importante de si e ele entendeu porque ligações de alma não conseguiam viver uma sem a outra.
A idéia de perder era avassaladora.
não percebeu que ainda gritava, mas repentinamente, a sala inteira escureceu. Durou apenas um segundo, como se a luz tivesse apenas piscado. Pensou que tivesse fechado os olhos, mas então, quando olhou ao redor, todos estavam no chão, com expressões assustadas no rosto.
Ele tinha feito aquilo, sabia que sim, embora não soubesse como. Só queria que eles parassem, implorou por aquilo com toda a sua força, e funcionou.
abriu os olhos, parecendo exausto, e , sinceramente, quis chorar.
— Me desculpa, por favor. — sussurrou, se inclinando para deixar um beijo em sua testa. se agarrou em sua roupa, mas não disse nada. Sequer teve tempo, pois no instante seguinte, o caos tomou completamente a sala.
— Ele é uma ameaça! — uma das pessoas gritou, era uma mulher, mas não se importou em procurá-la no meio da pequena multidão. Só queria saber se estava bem.
— Isso foi uma clara demonstração de que o clã Kim estava mentindo! — outra pessoa falou, finalmente chamando a atenção de .
Era isso que eles queriam quando começaram a machucar , que sua magia se manifestasse. Assim poderiam dizer que ele estava mentindo sobre não saber usar magia.
tinha dado a eles exatamente o que queriam.
— Eu não sei como fiz isso! — tentou se defender. — Vocês estavam machucando ele!
— Vamos mostrar isso na audiência. — outra pessoa falou por cima dele, o ignorando completamente. Eles apenas discutiam entre si, sem se importar em ouví-los. Era como se aquela batalha já estivesse perdida antes mesmo deles chegarem ali.
, se possível, sentiu-se apenas mais frustrado. Nunca tiveram chance, e ele ainda tinha arriscado a vida de .
— Será que vocês podem nos ouvir?! — voltou a gritar, mas era quase como se a sua voz não saísse.
— Seria bom se o jornal estivesse aqui. — outra pessoa falou. — Todos precisam saber que eles estão mentindo.
— Não estamos! — tentou novamente, sentindo seu sangue borbulhar por baixo da pele. Estava prestes a perder o controle mais uma vez, podia sentir, mas sinceramente, já não tinha muita certeza se queria ou se deveria se conter.
— Deveríamos cancelar a audiência, isso é bobagem! — alguém se revoltou na pequena multidão, e arregalou os olhos, desesperado com aquela possibilidade. Aquela audiência era o último fio de esperança que ele ainda tinha. — As pessoas já estão esperando por isso, mas se mostrarmos que ele está mentindo, vão ficar do nosso lado.
— Eu não estou mentindo! — gritou outra vez, sentindo o pânico crescer ainda mais por não saber o que fazer além disso.
— Ele aceitou usar o selo. — falou repentinamente, ainda em seus braços, e todos se calaram. o encarou, surpreso que ele estivesse são o suficiente para isso. abriu os olhos embora parecesse cansado, e encarou diretamente aquele que já havia deduzido ser o líder deles. — Já informamos a mídia, vocês não podem mais negar. Não sem levantar perguntas.
O selo ao qual se referia era uma mágica utilizada em julgamentos para saber se o réu estava mentindo. tinha explicado tudo sobre o assunto para ele e como o selo funcionava. O selo não podia ser imposto a ninguém, a pessoa precisava concordar explicitamente e verbalmente com seu uso. já tinha dado a permissão e ela já tinha sido transmitida, justamente para que o conselho não pudesse negar.
já esperava que o preconceito os fizessem agir daquela forma e por isso tinha se preparado antes, pensado em todas as possibilidades, diferente de .
Mais uma vez, ficou feliz de ter ao seu lado.
— Eles estão mentindo. — alguém falou entre as pessoas, mas todos se reuniram ao redor do líder quando este conjurou um pequeno espelho flutuante a sua frente.
não pôde ouvir o que eles ouviram, mas levou apenas alguns segundos para que um enorme burburinho crescesse entre eles. prendeu a respiração, ciente de que todo aquele descontentamento significava que eles já tinham verificado a informação e ficado extremamente insatisfeitos com ela.
O líder xingou, e quando o espelho sumiu, ele voltou sua atenção para mais uma vez. Seu olhar era raivoso, sentiu aquilo em suas entranhas.
— Chega! — o homem silenciou a todos, sem desviar o olhar dos dois. — Vocês conseguiram o que queriam. — finalmente falou para eles, antes de erguer a palma em sua direção.
Sem que nenhuma outra palavra fosse verbalizada, sentiu-se tonto, e de repente sua vista foi totalmente tomada por escuridão.

🔮🔮🔮

Quando abriu os olhos, se deparou com um teto mal rebocado. Ele estremeceu, sentindo o chão gelado em suas costas, e não demorou para se lembrar do que tinha acontecido. Pensando em , se sentou rapidamente, olhando ao redor. Estava sozinho em uma cela de concreto, pequena o suficiente para que ele só conseguisse se deitar de atravessado.
Havia grades em uma das extremidades e um balde no canto, mas além disso, apenas a umidade e o mofo nos cantos das paredes.
— Você está bem? — ouviu perguntar, ele estava na cela da frente, sentado de costas para a parede com sentado ao seu lado.
, onde ele está? — perguntou ao invés de responder, sentindo o medo crescer em seu peito conforme se lembrava de tudo que tinha acontecido. — Eles o machucaram.
— Ele está comigo. — respondeu de algum lugar por perto. não podia vê-lo, então se levantou, antecipando-se até as grades para tentar localizá-lo.
Havia um corredor estreito entre sua cela e a da frente. Eram duas fileiras de celas, mas a falta de iluminação não permitia que visse muito além do que estava a sua frente. Toda a luz vinha de algum lugar no começo do corredor, provavelmente uma porta, já que não parecia haver janelas em qualquer lugar. Não dava para saber se a luz era o sol ou de fato uma lâmpada, mas se fosse a primeira opção, a noite aquele lugar se tornaria um breu completo.
não costumava se importar com a escuridão, mas aquilo seria um tanto quanto claustrofóbico. Não estava ansioso por esse momento.
— Ele está bem? — voltou a perguntar, quando notou que não parecia muito inclinado em continuar a conversa.
— Ele não acordou ainda e não podemos usar magia aqui embaixo pra verificar. — respondeu, fazendo o sangue de gelar. Nunca se perdoaria se algo acontecesse a por sua culpa. Deveria tê-lo escutado, pensado melhor.
— Mas se eles usaram o feitiço que normalmente usam, ele vai ficar bem. — completou, provavelmente vendo o desespero estampado em sua cara.
— E se não usaram? — perguntou, não ficando menos preocupado.
— Então não temos como saber. — voltou a dizer. — Mas você tem. Você é a ligação dele.
— Eu nem sei como isso funciona, ! — respondeu, aflito o suficiente com tudo aquilo para aumentar seu tom de voz.
Ele precisava que estivesse bem. Só isso importava.
— Você não precisa saber, só precisa sentir. — voltou a falar, e apenas não o xingou porque foi interrompido por :
— Começa se acalmando. — ele sugeriu, e quase riu do quão absurdo aquilo soava. Como diabos ele deveria se acalmar diante de uma situação como essa?! A indignação deve ter ficado muito em evidência em sua expressão, porque continuou antes que ele respondesse qualquer coisa. — Respira fundo. — pediu, fazendo o mesmo para exemplificar. — Respira até ficar mais calmo, e fecha os olhos. Faça isso por . — pediu, e somente por sua última fala, obedeceu. Era por , precisava fazer aquilo por ele.
Devia isso a ele.
respirou fundo, embora não soubesse o que deveria fazer além disso. A idéia de se acalmar parecia completamente absurda, mas ele realmente tentou, mantendo seus pensamentos em .
— Ótimo, você está indo bem. — elogiou, e quis xingá-lo mais uma vez, mas se conteve. — Você certamente já percebeu em algum momento que estava sentindo o que sente. Se foque nisso, pense nele, e tente encontrar dentro de você esse fio que liga os dois juntos. Eu sei que parece difícil, mas eu juro que não é. Isso é totalmente natural para nós. Você só precisa querer encontrar.
achou sua fala completamente absurda. Aquilo parecia absurdo. Ele não tinha ideia como encontrar algo dentro de sí mesmo, mas por , ele fez aquilo, ele tentou, mesmo que não tivesse qualquer esperança de que fosse dar certo.
Foi então que ele realmente sentiu, ao contrário de tudo que esperava. Mesmo sem ver ou , ele sabia onde estava, sabia a distância exata de sua cela para a cela dos dois. Com os olhos fechados, foi como se ele visse onde estava, deitado de atravessado, com a cabeça no colo de .
Sentiu seu coração errar as batidas. Estava mesmo fazendo aquilo. Era incrível e ao mesmo tempo um tanto quanto assustador. Podia sentir o que ele sentia e podia vê-lo mesmo que não estivesse diante de seus olhos.
— Ótimo, você está indo bem. — falou, deduzindo que ele tinha conseguido. Provavelmente algo relacionado a sua linguagem corporal, já que estava tão acostumado a esse tipo de coisa. — Agora foque em seus sentimentos, nas sensações ao seu redor, em tudo que você pode sentir. está vivo, você saberia se não estivesse, mesmo sem nada disso. Mas agora, o quão bem ele está?
ainda não conseguia imaginar uma forma de tudo aquilo ser tão simples, mas continuou seguindo os comandos de , mesmo que não entendesse muito bem onde aquilo estava indo. Ele tentou se concentrar em tudo que sentia, então achou aquela parte que não parecia vir dele.
estava bem. Não sabia dizer com sabia disso, ele apenas sabia. Ele sentiu, assim como sentiu que pertencia ao clã ou como quando soube que falava sério sobre a magia. Foi algo totalmente natural, e ele abriu os olhos cheio de esperança.
sorriu para ele, mesmo que estivessem presos em celas cheirando a mofo.
— Acho que isso quer dizer que ele está bem. — ele falou, e concordou com a cabeça.
estava bem, o que era ótimo. Mas por quanto tempo? Ainda estavam presos, e lembrar-se disso fez seus ombros murcharem imediatamente.
voltou a se sentar no chão, sem esperanças.
— De que isso adianta? Se estamos presos aqui? — perguntou, embora falasse muito mais consigo mesmo do que com os outros. — Eu nunca deveria ter deixado se aproximar.
— Ah, vai a merda. — falou de algum lugar por perto. — Isso teria acontecido de qualquer forma. Vocês estão ligados um ao outro, não tinha como evitar.
— Eles estão tentando dar um golpe no conselho. — falou, provavelmente da mesma cela onde estava. — Você é apenas um efeito colateral, teríamos terminado aqui de um jeito ou de outro. Se alguém tem culpa de alguma coisa sou eu, por não ter percebido isso antes. Jaehyun ter sumido também diz muita coisa. Ele seria o mais indicado a assumir o conselho e então ele desaparece também? Eu deveria ter falado com ele antes.
— E o que vamos fazer, então? — perguntou. — Podemos fazer algo?
— Você pediu uma audiência pública. — falou. — No momento, ela é nossa melhor chance. Se não nos deixarem falar, fale por nós. Você vai estar sob o selo, não vai poder mentir, então fale sobre o conselho. Eles vão tentar te descredibilizar, mas o público assistindo tem mais força do que parece. Você precisa atingí-los.
Para seu completo desespero, nunca foi muito bom com as palavras, mas dessa vez ele precisaria ser. O clã inteiro dependia dele, precisava fazer aquilo, precisava ser convincente, e nunca se perdoaria se não conseguisse.




não sabia dizer quanto tempo ficou preso naquela cela. Em algum momento, acordou, para seu alívio, mas ele não durou muito tempo, considerando que ainda estavam presos e que tudo a partir dali era totalmente incerto.
Quando finalmente vieram buscá-los para a audiência, não sabia dizer se tinha se passado apenas algumas horas ou dias, mas essa era a menor de suas preocupações.
Toda a sua vida e também a do clã dependia do que iria acontecer naquela audiência. Dependia de suas palavras, e nunca foi um bom orador.
Estava nervoso como o inferno. Se fosse apenas por si mesmo, apenas sua vida... Mas não era, e a responsabilidade que sentia pelo clã parecia consumí-lo de dentro para fora.
Aquilo tudo era sua culpa. Se nunca tivesse entrado na vida deles, as coisas seriam diferentes e ninguém estaria passando por isso. Ele, muito provavelmente, morreria, mas pelo menos não levaria ninguém junto consigo, especialmente .
Os guardas não foram delicados quando os empurraram para os corredores, mas foram particularmente piores com ele, o que já esperava.
Todo o clã tinha algemas grossas ao redor dos pulsos. tinha explicado que elas também serviam para conter a magia. Mas , além de tudo, carregava algemas em seus pés também, que o impediam de dar passos muito largos. Como se quisessem provocá-lo, no entanto, os guardas insistiam que ele andasse mais rápido, mesmo que não fosse possível.
precisou morder sua bochecha por dentro da boca para controlar a língua e não discutir, ciente de que tudo que ele falasse apenas serviria para piorar sua situação, mas eles pareciam se divertir em empurrá-lo sempre que podiam, deixando escapar algumas risadinhas. parecia furioso com isso, mas o conteve com o olhar.
Não estavam em posição de brigar, não agora. E ninguém podia usar magia para se defender se fosse necessário.
Quando finalmente chegaram a tal sala de audiência, sentiu seu coração saltar dentro do peito. Parecia muito mais com um auditório de teatro do que com uma sala de audiência e o local estava particularmente lotado, para seu completo desespero.
Quando falou de audiência pública, esperava câmeras e não uma multidão.
A sala ao seu redor era ampla e circular. O palco, também redondo, ficava bem no meio dela. Ele era um pouco mais alto que o piso, sendo necessário subir cerca de três degraus para acessá-lo. O palco também era rodeado por um cercado de madeira para separá-los do resto do público ao redor e sobre ele havia uma mesa robusta com lugar para onze pessoas, com a cadeira do meio sendo mais alta que as demais. deduziu ser o local do tal Mago Supremo, mesmo que ele certamente não fosse estar presente. Em frente a essa mesma mesa, havia apenas uma poltrona, o lugar de , ele imaginava, e entre eles havia uma segunda mesa, pequena, com alguns poucos itens.
E não sabia se realmente queria saber para que serviam.
Atrás de , fora do palco e do cercado, havia outras seis poltronas que ele imaginou ser destinada ao resto do clã. Apesar de estarem na parte de baixo, no entanto, ficavam ligeiramente afastadas do resto do público ao redor.
Como em um auditório, haviam poltronas espalhadas por todo o ambiente, mas não era apenas isso. As paredes do teatro eram compostas por quatro andares de camarotes, dispostos em um semicírculo ao redor do palco, todos lotados. não tinha ideia de quantas pessoas cada andar comportava, mas se sentiu completamente claustrofóbico com a quantidade de gente que o observava.
Assim que as pessoas o notaram, ouviu um burburinho tomar forma. Se viu ainda mais nervoso por isso. Podia não ser exatamente uma pessoa tímida, mas havia um bom motivo para viver escondido embaixo de um capuz. Odiava atenção, e agora era literalmente o centro delas.
Sem nenhum cuidado, empurraram para o palco, quase fazendo-o cair nos degraus. Precisou conter a língua mais uma vez para não reclamar. Já estava algemado, não tinha qualquer motivo para toda a agressividade que estavam usando, mesmo que ele não fosse exatamente a pessoa favorita de ninguém ali.
Naquele lugar, apenas o clã se importava com seu bem estar, e não era como se eles estivessem em uma posição minimamente melhor que a dele.
Quando finalmente pôde se acomodar na poltrona sobre o palco, olhou para trás. O clã tinha sido direcionado para o local que ele havia imaginado, exatamente atrás dele. acenou com a cabeça de longe, tentando lhe passar confiança, mas a última coisa que se sentia agora era confiante.
Antes que pudesse desviar o olhar, no entanto, luzes a sua frente chamaram sua atenção. se virou rapidamente, em tempo de ver oito pessoas surgirem ali, sentadas em seus respectivos lugares. Três cadeiras ficaram vazias. deduziu que uma correspondia a e outra ao tal de Jaehyun, que havia desaparecido. Uma outra pessoa, que não o Mago Supremo, tomava sua cadeira, então a terceira só podia ser dele, que havia trocado de lugar para representar o Mago sumido.
— Vamos dar início agora a audiência pública de Jeon , bruxo da já extinta classe de bruxos das sombras. — anunciou o bruxo na cadeira elevada ao meio, fazendo com que todo o auditório fizesse silêncio imediatamente. Sua voz soava alta demais para um homem que falava sem microfone, mas imaginou ser mais uma vantagem de ser um bruxo. — Meu nome é In Siwoo e estarei assumindo o posto do nosso Mago Choi Yoonjae, que se encontra desaparecido até o momento. Por favor, anunciem as acusações.
Um homem já de meia idade, na ponta esquerda da mesa, pigarrou. Seus cabelos eram curtos e os fios brancos, o que fez questionar sua verdadeira idade. com noventa e três anos tinha aparência de vinte, mas se lembrava de ter comentado sobre não conhecer nenhum bruxo mais velho que .
Chegava a ser irônico que estivesse naquela posição quando sabia tão pouco sobre aquele universo.
Quando o homem finalmente começou a falar, calou seus pensamentos para prestar atenção.
— Jeon é acusado de ser um bruxo das sombras- — começou, sendo interrompido quase imediatamente.
— Vocês o estão acusando de ter nascido?! — retrucou indignado, sem pensar duas vezes. Um dos guardas que estavam próximos ao clã bateu em sua cabeça pela audácia e o encarou cheio de ódio.
— Park , é estritamente proibido interromper a audiência. — In Siwoo o repreendeu.
— Essa acusação é ridícula! — voltou a falar, sem se importar. — Ele nem estava vivo quando o golpe aconteceu para ser culpado disso de qualquer forma!
— E mesmo assim, olha onde estamos. — Siwoo voltou a falar.
— Só estamos aqui porque vocês fizeram deduções sem qualquer prova!
— Park , se você não se conter teremos que obrigá-lo a isso. — Siwoo o ameaçou, e repreendeu com o olhar. Era grato a ele pelo cuidado, mas última coisa que queria era que o machucassem novamente por sua causa.
bufou, insatisfeito, mas se calou para que o homem continuasse as acusações ridículas.
— Bom, como eu estava dizendo... — continuou ele. — Jeon está sendo acusado de ser um bruxo das sombras, uma classe particularmente perigosa. Também está sendo acusado de viver sem registro no mundo mágico, utilizando-se do mundo humano para se esconder. É acusado de mentir para o conselho sobre não utilizar seus poderes, tendo em vista que demonstrou suas capacidades logo depois. Também está sendo acusado de atacar membros do conselho para evitar que a lei seja cumprida, de conspirar com o clã Kim contra o conselho mágico, e por fim, de estar envolvido no desaparecimento do Mago Supremo, Choi Yoonjae.
— Como é?! — soltou imediatamente, enquanto todas as pessoas ao redor voltavam a falar simultaneamente, tão chocadas quanto ele.
Fazia sentido na verdade que diriam aquilo, não devia se surpreender, assim como acreditava também que todos já pensavam que ele estava envolvido nisso, mas imaginou que, diante de acusações formais, as pessoas pensariam que o conselho tinha alguma prova daquilo.
sentiu seu ódio crescer imediatamente. Tudo aquilo era injusto, e já sabia que mal lhe dariam o direito de se defender.
— Jeon . — Siwoo voltou a falar novamente, ignorando sua exclamação. — Como se declara?
— Eu gostaria de comentar todas as acusações antes de fazer uma declaração. — falou, embora já soubesse, através do clã, que não era assim que funcionava. Eles tinham tentado lhe explicar o máximo possível, já que os julgamentos ali funcionam de uma forma diferente da qual conhecia, mas ainda assim, decidiu tentar.
— São apenas duas possibilidades, se declarar inocente ou culpado. — Siwoo retrucou, sequer olhando para ele. Sua postura era autoritária e continha um desdém quase palpável, como se fosse apenas um mosquito irritante.
Ele agia como se fosse muito maior do que era de fato, considerando que só estava naquele lugar porque todas as pessoas acima dele estavam indisponíveis. Isso servia apenas para deixar ainda mais indignado.
— Não é justo que eu não tenha o direito de me defender. — voltou a retrucar, tentando ignorar o ódio crescente em seu peito.
— Inocente ou culpado? — o homem apenas repetiu.
— Inocente, me declaro inocente de todas as acusações.
— Muita audácia sua quando todo o conselho presenciou seu ataque. — Siwoo finalmente o encarou, fazendo seu sangue ferver.
— Vocês que estavam atacando. — respondeu, aproveitando a deixa. — A magia estar presa dentro de mim não impede que ela exploda quando eu estou nervoso e vocês estavam atacando .
— Então você está dizendo que sua magia é instável? — Siwoo voltou a perguntar, e imediatamente percebeu que tinha falado bobagem.
Tinha sido uma resposta burra, especialmente quando já tinha sido avisado que o homem tentaria manipular o julgamento.
— Vocês estavam atacando minha ligação de alma. — se defendeu, e pôde ouvir o choque nas pessoas ao redor. Se virou brevemente para olhar, e viu acenar com a cabeça, indicando que havia feito o certo em dizer aquilo.
Era provavelmente a primeira coisa certa que fazia desde que tivera aquela ideia estúpida de se meter ali.
— Ordem! — Siwoo pediu, aumentando o tom de voz, e todas as pessoas se calaram imediatamente. — Então você está me dizendo que não vivia no mundo mágico sem registro? — Siwoo voltou a perguntar, mudando completamente de assunto quando percebeu que o anterior já não seria mais o suficiente para condená-lo.
odiava mais aquele homem cada vez que ele abria a boca.
— Eu nem sei o que é esse registro! — voltou a se defender, frustrado. — Isso não é algo que meus pais deveriam fazer? Minha mãe não é bruxa e eu sequer sei quem é meu pai. É isso que eu estou tentando dizer.
— Você podia ter se registrado na vida adulta.
— Eu nem sabia que magia existia, onde eu ia me registrar?! — insistiu.
— Você está vivendo com o clã Kim por tempo o suficiente para saber disso, não está?
— Então eu deveria ter simplesmente vindo aqui pra vocês me atacarem antes? Como fizeram quando eu me entreguei? — questionou, e soube que tinha falado bobagem novamente quando o homem sorriu.
Siwoo o deixou de lado, e ergueu a cabeça para falar com o público.
— Bom, acho que isso deixa claro que o Sr. Jeon sabia muito bem o que estava fazendo quando não se entregou assim que soube sobre o universo mágico. — disse ele, e cerrou os dentes, sentindo a irritação borbulhar embaixo de sua pele.
A audiência mal tinha começado e já estava furioso. O homem não queria esclarecer nada, queria apenas achar alguém para culpar.
E o escolhido tinha sido ele, o cara que deu o azar de nascer como a droga de um bruxo das sombras.
— Não foi isso que eu disse, você está distorcendo minhas palavras para encaixá-las na sua narrativa. — o interrompeu quase imediatamente, precisando lutar muito para conter seu tom.
— Está dizendo que estamos manipulando esse julgamento? — Siwoo perguntou, uma das sobrancelhas erguidas.
— Sim, é exatamente isso que eu estou dizendo. — respondeu, sem medo algum.
— Sr. Jeon, acusações não são permitidas nesse tribunal. — retrucou, e dessa vez acabou rindo, totalmente descrente.
— E não é isso que vocês estão fazendo comigo?!
— Você é o réu.
— E o réu deveria ter o direito de se defender para um juíz imparcial. — retrucou, seu tom deixando claro todo o seu desgosto.
— Meritíssimo, eu gostaria de ter a palavra. — se levantou de repente, suas mãos ainda algemadas, e se perguntou se estava se saindo tão mal assim para que ele visse a necessidade de interferir.
Parecia meio óbvio que sim a julgar pelo rumo que as coisas estavam tomando.
— Não. — Siwoo negou imediatamente.
— Também estamos sob acusação aqui. — insistiu. — Nos impedir de falar é censura e eu acredito que isso vá contra as ideias desse tribunal.
— Sente-se. — Siwoo repetiu apenas, pouco se importando com o que tinha dito. As pessoas ao redor, no entanto, voltaram a sussurrar, e torceu para que aquilo fosse um bom sinal. — Quando for sua vez de falar, será chamado. — o homem completou. Se apenas pela repercussão de suas falas ou porque realmente pretendia chamá-lo, nunca saberia.
aceitou tomar o soro para responder as perguntas do tribunal. — ainda insistiu. — Esses rodeios não vão nos levar a lugar nenhum.
— Kim , se não se sentar imediatamente teremos que contê-lo. E ai sim vocês terão motivos para reclamar de censura.
Contrariado, suspirou, mas finalmente obedeceu, voltando ao seu lugar enquanto fuzilava Siwoo com o olhar.
Não ia ter como convencer aquele homem de absolutamente nada, teriam que trabalhar unicamente com a opinião pública.
— Bom, acho que finalmente podemos continuar... — Siwoo voltou a falar, mas o interrompeu novamente.
— Só vou continuar se me derem esse tal soro para tomar. — falou, e teria cruzado os braços para reforçar seu ponto se pudesse fazer isso.
— Então está se recusando a responder nossas perguntas? — Siwoo questionou, e não conseguiu conter sua língua.
— Você é surdo ou só burro mesmo? — perguntou, e repentinamente sentiu uma descarga elétrica percorrer por todo seu corpo.
gritou, mais de susto do que de dor, e se contorceu contra a poltrona onde estava sentado. Durou apenas alguns segundos, mas foi o suficiente para desestabilizá-lo completamente. Definitivamente não esperava algo assim, especialmente diante de tantas pessoas.
— Ofensas não são permitidas nesse tribunal. — Siwoo o alertou, despreocupado, deixando claro que ele havia sido o responsável por causar aquela onda de choque.
— Vocês não podem machucar ele! — se levantou também para falar, totalmente exaltado. — Ele está se oferecendo por livre vontade a tomar o soro e você escolhe machucá-lo por isso?! E depois quer reclamar que os estamos acusando de censura?!
— Eu não vou repetir. Se vocês interromperem mais uma vez, serão contidos. — Siwoo ignorou sua fala, e praticamente urrou em frustração.
— Então seja justo para que nós não tenhamos que interromper! — praticamente gritou. — Você está manipulando a porra da justiça! Sabe o que parece? Que é você quem está conspirando contra o conselho, ou não teria motivos para ter tanto medo da- — antes que terminasse de falar, ele também gritou, caindo para trás de volta na poltrona com espasmos por todo o corpo.
Siwoo tinha usado seus poderes contra ele também, e sentiu seu peito doer em uma mistura de medo e raiva. Podia aceitar que o machucassem, mas ver fazerem o mesmo com o deixava louco.
cerrou os punhos, sentindo o ódio borbulhar em suas veias. Ele podia sentir que sua magia queria se manifestar novamente, mas as algemas ao redor de seus pulsos a mantinha controlada.
tentou voltar a falar, mas soltou apenas murmúrios. Não havia nada em seus lábios, mas era como se tivessem passado uma fita sobre eles, para impedí-lo de continuar.
As pessoas ao redor também notaram isso, e novamente as falas do público voltaram a se fazer audíveis. A maioria das pessoas tinham olhares desconfiados nos rostos, e torceu de verdade para que aquilo fosse um bom sinal.
A cada instante Siwoo deixava ainda mais óbvio que estava tentando manipular todos ali.
— Como ia dizendo, não estou me recusando a falar. — tomou a voz, já que, aparentemente, ele era o único que ainda podia fazer isso. — Eu só quero garantir que vocês não possam dizer que eu estou mentindo.
— Eu decido como as coisas vão ser, e quando ministrar o soro. — Siwoo falou, mas também estava irritado agora. Era evidente não só em seu tom, como também em seu rosto. Agora era mais como se ele apenas não quisesse dar o braço a torcer, e decidiu se aproveitar disso.
— Você quer apenas nos torturar. Talvez esteja certo e você é quem está conspirando contra o conselho-
Mais uma vez, foi impedido de continuar quando uma descarga elétrica percorreu seu corpo. Tentou não gritar dessa vez, esperava por isso agora quando o provocou, mas o choque foi mais forte que o anterior, e ele acabou não se contendo.
Também durou mais tempo, e embora ainda não tivesse passado de alguns segundos, pareceu durar uma eternidade.
tentou gritar de onde estava, se debatendo contra a poltrona para se levantar novamente, mas não conseguiu, sendo contido por um dos guardas.
— Eu estou bem. — disse para ele após se recuperar, mesmo que fosse mentira. Após a segunda descarga, sentiu-se ligeiramente cansado, os músculos doloridos, mas respirou fundo para lidar com aquilo. — Você apenas está provando nosso ponto. — voltou a falar, agora direcionando sua atenção novamente para Siwoo. — Eu quero dizer a verdade sob o soro e você nos está impedindo. Todo o público aqui está vendo isso.
Siwoo olhou ao redor, e a maioria das pessoas cochichavam enquando o encaravam, parecendo tão revoltadas quanto o próprio . Todo mundo queria a verdade, e Siwoo estava impedindo que as pessoas tivessem acesso a ela.
Percebendo a insatisfação do público, Siwoo finalmente pareceu ceder.
— Tudo bem, ministrem o soro. — pediu.
suspirou aliviado, e pareceu sentir o mesmo alívio vindo do clã ao seu redor.
Siwoo acenou com a cabeça para um dos guardas por perto e o homem se aproximou da mesa no centro. Havia um pequeno frasco redondo ali, que parecia brilhar em um lilás luminoso. Ele abriu a rolha que tampava o vidro e aproximou-se com ele. estendeu a mão para pegar o frasco e ingerí-lo por conta, mas o guarda o afastou de si.
— Abra a boca. — exigiu ele, e revirou os olhos antes de obedecer ao comando. Abriu a boca e inclinou a cabeça para trás, para que o homem jogasse o líquido ali. Ele o fez, e quase se engasgou no processo, mas conteve ao máximo a tosse que surgiu em seu peito, apenas para que não pudessem acusá-lo de ter cuspido o soro ou qualquer coisa nesse sentido.
Sentiu o líquido descer gelado em sua garganta, e algo mudou em seu peito. Não sabia dizer bem o que, mas havia algo novo ali. Sentiu uma pressão incômoda, como se cada mentira que já tivesse contado estivesse tentando escapar de uma só vez.
— Diga seu nome. — Siwoo pediu.
— Jeon . — respondeu.
— Agora minta sobre isso. — Siwoo voltou a pedir, no intuito de verificar se o soro funcionava.
— Meu nome é Park- — antes que sequer completasse a fala, sentiu um frio intenso. Fumaça saiu de sua boca e junto dela uma segunda voz que se manifestou. Ela não fazia parte dele apesar de ter saído de sua boca também, como um sussurro, dizendo a verdade que ele tentou esconder. "Jeon ", ela disse, e assim que as palavras terminaram de sair uma dor intensa em seu peito o fez gritar.
O clã tinha explicado tudo isso, dito exatamente o que acontecia e como o soro funcionava, mas nenhuma palavra que eles podiam ter dito seria o suficiente para descrever a dor que sentiu. Era como se a verdade precisasse drenar suas forças para sair. Sentiu como se estivesse queimando de dentro para fora, apesar de todo o efeito do soro envolver o frio. Era como se a mentira despertasse o efeito contrário e ambas as coisas brigassem dentro dele por espaço.
se jogou para trás na poltrona, perdendo completamente o ar por alguns instantes. Segundo o clã, quanto mais palavras fossem necessárias para que a voz contasse a verdade, maior seria a dor.
sequer podia imaginar sentir mais dor do que aquilo.
Pela primeira vez, sentiu medo por si mesmo. Ele entendeu imediatamente o que o clã quis dizer sobre as pessoas muitas vezes se recusarem a falar sob efeito do soro após sentir aquilo. Mesmo ciente de que não tinha mentiras para contar, se viu receoso sobre sentir aquela dor novo. Era angustiante o suficiente para que ele tivesse medo de mentir sem querer, ou ser mal interpretado, se é que isso fazia algum sentido.
— Jeon . — Siwoo voltou a falar, sequer lhe dando tempo para se recuperar. — Você está envolvido com o desaparecimento do Mago Supremo?
vacilou por um instante antes de responder, não porque tinha alguma mentira para contar, mas sim porque ainda sentia os efeitos da mentira anterior em seu corpo. Era infinitamente pior que os choques recebidos anteriormente. Sentia-se dolorido e exausto.
— Perdeu a fala agora? — Siwoo debochou, soando vitorioso. — Ou está com medo por não poder mais mentir?
Irritado, cerrou os dentes.
— Estou sem fala porque essa porra dói. — soltou sem se conter, lutando para se sentar direito novamente. Assim que conseguiu, suspirou, se preparando para responder a pergunta da forma mais completa possível, já que era a primeira vez que aquele merda estava realmente lhe dando uma oportunidade de falar.
— Não tenho nenhuma relação com o desaparecimento do Mago, sequer o conheço e nunca fiz nada contra ele. Não sei usar minha magia, e não conseguiria lutar contra ele ou agir contra ele mesmo que eu quisesse. E eu nunca quis. — deixou claro. — Assim como nunca quis também me envolver com essa coisa de magia. Eu nem sabia que magia existia até alguns meses atrás...
— Atende-se em responder apenas o que lhe foi perguntado. — Siwoo o interrompeu quando percebeu que não estava disposto a se calar, mas ele não se importou.
— Não. — retrucou rapidamente. — Se eu não posso mentir, vocês não deviam aproveitar tudo que eu tenho a dizer? Não estou conspirando contra o conselho, assim como o clã Kim também não está.
As vozes imediatamente voltaram a se erguer ao seu redor e se sentiu satisfeito por isso. Quem não gostou, obviamente, foi Siwoo, que soltou um resmungo em frustração.
— Gostaria de lembrar ao tribunal que o fato do réu achar que algo é verdade não faz com que seja de fato. Se ele não souber que o clã Kim está conspirando contra o conselho, soará como verdade que eles não estão, mas não é. Ele apenas não sabe. — ele alertou, em mais uma tentativa de manipulação.
— Então porque não chama um deles aqui sob efeito do soro para que possam dizer por conta própria? Isso está tão fácil de resolver. Eu tenho certeza que eles não iriam se opor. — retrucou. — E quando todos verem que estamos dizendo a verdade, você pode tomar o soro também. — sugeriu, vendo o rosto de Siwoo corar em fúria.
A princípio, sabia que tinha apenas conspirado quando falou sobre Siwoo estar envolvido naquilo, mas agora já não tinha mais tanta certeza. Siwoo parecia obstinado demais em culpá-los, mais preocupado com isso do que em descobrir a verdade. podia apostar que tanto o clã quanto as pessoas ao redor, assistindo tudo, podiam ver isso.
— Jeon , você está mentindo sob efeito do soro? — Siwoo perguntou ao invés de responder sua pergunta, e o encarou completamente chocado.
— Esse é seu argumento? — questionou. — Como diabos eu faria isso? Alguém já mentiu sob efeito do soro antes? Isso ao menos é possível?
— Não é possível. — foi quem respondeu, mas no instante seguinte, soltou um grito, se contorcendo contra a poltrona.
— Eu os alertei sobre interromper a audiência. — Siwoo falou, raivoso, o que deixou tão raivoso quanto.
— Então responde minhas perguntas ao invés de fugir delas! — gritou para o homem a sua frente. — Não importa o quanto você fale, continua soando como se você fosse o único escondendo alguma coisa aqui!
Mais uma vez, sentiu a descarga elétrica percorrer todo seu corpo. Tentou não gritar, não queria dar a ele esse gostinho, mas foi impossível conter quando cada descarga era mais forte que a anterior.
Sentiu raiva de Siwoo como nunca antes sentiu de ninguém, nem mesmo de seu pseudo pai. Ele era um homem desprezível, se aproveitando do poder que tinha adquirido para agir como se fosse muito mais do que era de fato.
— Pode nos torturar o quanto quiser, isso não muda a verdade e não muda o que as pessoas estão vendo. — falou com dificuldade, ainda sentindo seus músculos doerem por efeito da descarga elétrica. Também sentia sua cabeça ligeiramente confusa quando passava, mas não era o suficiente para impedí-lo de falar. — Não estou mentindo, não posso mentir com o soro e não saberia como fazer isso se fosse possível. Eu não sei usar minha magia e mesmo que soubesse, não posso usá-la com as algemas. Todo mundo aqui sabe disso, até melhor do que eu.
— O clã Kim é experiente o suficiente para descobrir como. — Siwoo especulou.
— Se o clã fosse tão forte a ponto de fazer algo que ninguém nunca fez, eles deveriam estar ai no seu lugar e não sentados atrás de um réu, sem direito de fala.
— Você está dizendo então que o clã Kim está querendo tomar o meu lugar?
— Não estou! — praticamente gritou, furioso. — É você quem está dizendo isso, não eu! O clã não quer o seu lugar, nem o lugar do Mago, assim como eu também não quero! Só queremos viver em paz!
— Então por que me pediram permissão para um ritual? — Siwoo voltou a perguntar.
— Porque eu não posso usar minha magia, ela está presa dentro de mim, e isso está me matando!
— Então eles querem soltar a sua magia para que você possa conspirar contra o conselho?
— Puta que pariu, você é imbecil?!
Mais uma vez, gritou quando a descarga elétrica voltou a consumí-lo. Pôde ouvir o clã se manifestar atrás dele, assim como as pessoas ao redor, mas não conseguiu se situar o suficiente para olhar ao redor ou entender o que diziam. A cada descarga se sentia mais confuso e dolorido. Sentia seu corpo queimar e formigar, embora a dor nem de longe fosse tão intensa quanto a que havia sentido quando mentiu sob efeito do soro.
— Se a magia continuar presa dentro de mim eu vou morrer! E o também, porque ele é minha ligação. É só por isso que eles querem me ajudar!
Mais uma vez, sentiu a descarga elétrica consumir seu corpo e gritou enquanto convulsionava. Siwoo o estava punindo novamente, e não tinha ideia do motivo. Levou alguns instantes para perceber que ele estava tentando fazer as pessoas pensarem que estava mentindo, que aquela era uma reação ao sono e não a ele.
— Eu não menti! — lutou para dizer, apesar dos espasmos musculares que ainda sentia. Estava jogado sobre a poltrona, e não se importou mais em se levantar. — Se eu tivesse mentindo o soro teria me corrigido, eu não menti! Ele está fazendo isso, quer que pareça que eu estou mentindo! — acusou novamente, e voltou a gritar quando sentiu a descarga elétrica mais uma vez. Ficou sem ar agora, e por pouco não escorregou para o chão.
Ouviu, ao longe, tentar gritar por ele, mesmo com a venda invisível sobre sua boca.
— Vocês o estão torturando! De graça! — gritou de onde estava. — Ninguém pode mentir sob efeito do soro, você só não está aceitando a verdade porque não é o que você quer ouvir!
Siwoo atacou com seu poder também, assim como vinha fazendo com , mas ele não fez mais do que se curvar para frente, gemendo baixo.
— Você é um desgraçado! — voltou a discutir. — Está manipulando a verdade, quer que passe como vilão quando o único vilão aqui é você!
Mais uma vez, se curvou para gemer, e no segundo seguinte, foi jogado por um guarda de volta na cadeira. Ele tentou retrucar mais uma vez, mas foi calado da mesma forma como tinham feito com .
— Continue nos calando, você só está provando nosso ponto! — falou por ele.
— Jeon , existem outros bruxos das sombras além de você, conspirando contra o conselho? — Siwoo voltou a perguntar, ignorando completamente sua fala. As pessoas ao redor pareciam meio exaltadas, mas não tinha forças o suficiente para olhar ao redor.
— Nem eu nem o clã estamos conspirando contra a porra do seu conselho! — gritou, já totalmente fora de si. Foi quando uma ideia lhe ocorreu.
Ele queria provas de que aquela merda de soro funcionava, não era? Então beleza.
— Sim, eu conheço vários outros bruxos das sombras como- — antes que pudesse continuar, sentiu novamente aquela mesma dor absurda de antes. Escorregou da poltrona enquanto gritava, mas a única coisa que saiu de sua boca foi, novamente, aquela voz de antes, desmentindo o que ele tinha acabado de dizer:
"Ele não conhece outros bruxos das sombras", falou ela, e , de olhos fechados diante da dor que sentia, apenas ouviu Siwoo bater sobre a mesa em um acesso de fúria.
— Ele está mentindo sob efeito do soro! — vociferou, totalmente irritado, e teria rido se não estivesse tão exausto.
Aquilo nunca teria fim. Siwoo só encerraria aquele julgamento quando conseguisse o que queria. E não era a verdade.
— Eu não conheço nenhum outro bruxo das sombras. Se existem outros, eu não tenho ideia. Assim como não sei nada sobre esse Mago ou sobre qualquer conspiração. — falou, ainda sem abrir os olhos. Sua voz soava rouca em seus ouvidos, mas esperava que todos tivessem sido capazes de ouví-lo.
— Se não acreditam no soro, acreditem nas algemas! — falou de repente. — Não podemos usar magia com as algemas, como faríamos para ludibriar os efeitos do soro?!
As vozes ao redor se exaltaram, provavelmente dando razão a ele, mas já não se sentia lúcido o suficiente para entender o que estava acontecendo. Se manteve onde estava, jogado no chão, enquanto ouvia Siwoo gritar por ordem e xingá-lo.
sentia que aos poucos estava perdendo a consciência, mas então um rugido alto chamou sua atenção, fazendo-o se arrepiar.
Imediatamente, todas as pessoas se calaram, o máximo que ele pode ouvir foram algumas exclamações de surpresa. Siwoo murmurou algo parecido com "não pode ser" e duas outras pessoas sentadas à mesa do conselho se levantaram.
Curioso, lutou para se mover. Não conseguia se levantar, mas virou a cabeça em direção ao som para tentar ver o que acontecia. Na porta do auditório, por onde ele e o clã haviam entrado, havia um enorme tigre branco e dourado.
Ele tinha cerca de um metro de altura e pelo menos dois de comprimento. A parte de cima de seu tronco tinha a pelagem em um tom de bege escuro, semelhante ao dourado, e suas patas e barriga tinham a pelagem branca. Suas listras eram de um tom de marrom e seu rosto mesclado em tons de branco e dourado.
A criatura era linda, mas não foi realmente isso que chamou sua atenção.
Aquele tigre era Mochi. Conseguia sentir isso em suas entranhas.
novamente sentiu o ar escapar de seus pulmões, mas agora de uma forma totalmente diferente. Seus olhos se arregalaram, e ele sentiu sua atenção totalmente presa ao tigre.
— Esse é... Não pode ser. — ouviu dizer, e lutou para olhar para o clã. Não esperava nada menos que o completo choque. Era como se sentia também. Mas havia algo mais ali. Todos eles pareciam ter perdido completamente a cor. Encaravam Mochi em um torpor de incredulidade que fez deduzir imediatamente que tinha perdido alguma informação importante.
— Acho que todos já o conhecem, não? — falou um outro homem. Ele estava ao lado de Mochi, e somente então reparou nele.
— Kang Jaehyun. — Siwoo falou, para sua surpresa. Aquele era o homem que tinha, supostamente, desaparecido. O amigo que tinha buscado há alguns dias, que também era amigo do tal Mago. — O que isso quer dizer? Onde está o Mago?
— Está morto. — Jaehyun falou, instalando o caos ao seu redor. De onde estava, pôde ouvir cadeiras se arrastarem. Pessoas provavelmente se levantando de seus lugares. As conversas e murmúrios viraram uma gritaria completa e mesmo Siwoo pedindo por ordem, não conseguiu acalmar os ânimos.
Enquanto isso ainda sentia que tinha perdido alguma coisa. Todas as pessoas ao redor pareciam meio incrédulas com a presença de Mochi. Exatamente como se o conhecessem em sua forma original, que nem mesmo conhecia ainda. Ele sentia que se estivesse pensando com clareza, se não estivesse tão confuso depois da dor e das ondas de choque, também teria sido capaz de chegar em alguma conclusão importante.
— Como isso aconteceu? — pôde ouvir de algum lugar na platéia. A pessoa parecia completamente espantada.
— O familiar dele não deveria estar morto, então? — outra pessoa falou, e foi como se uma luz se acendesse repentinamente em sua mente.
A entrada do tigre tinha sido responsável por supreender as pessoas, e agora estavam falando de familiar. Sua entrada também os fez questionar o paradeiro do Mago desaparecido...
O único familiar que via ali era Mochi, o seu familiar. Que não era mais um gato.
Mesmo com dor, lutou para se sentar. Sentiu como se tivesse sido atropelado. Seus músculos mal obedeciam ao seu comando e quando ele conseguia movê-los, a dor era absurda. Cogitou desistir, mas com algum esforço extra, conseguiu se apoiar na poltrona.
Aquele tigre não parecia com Mochi, mas era ele. Sabia que era, e teve ainda mais certeza quando o animal o encarou profundamente, como se quisesse lhe dizer alguma coisa.
— Ordem! — Siwoo voltou a gritar, sua voz amplificada pela magia. se encolheu, o grito foi alto o suficiente para machucar seus tímpanos, e ele não foi o único. A maioria das pessoas tapou os ouvidos, mas por fim, o silêncio finalmente se instalou no local. — Kang Jaehyun, se explique. — ordenou.
— E você vai ouvir? Sequer acreditou no rapaz até agora, mesmo sob efeito do soro. — retrucou o homem.
— Eu não vou pedir de novo. — Siwoo vociferou, e Jaehyun deu de ombros enquanto subia no palco. Mochi ainda estava ao seu lado, mas se afastou quando finalmente subiu os degraus, parando ao lado de antes de rugir alto em ameaça.
Mochi estava ameaçando Siwoo. Ele o proibiu de machucá-lo novamente e, como resposta, viu Siwoo perder completamente a cor.
— Não é possível. — ele falou, mantendo o olhar assustado sobre Mochi.
— Não é possível que esse seja o familiar do garoto que você está torturando? — Jaehyun perguntou. — Sim, ele é. Akos foi transferido para assim que o Mago morreu.
Imediatamente, as pessoas voltaram a gritar e falar alto. O caos a pouco controlado voltando a se instalar no local. Todos já desconfiavam disso diante dos sinais, mesmo , mas ter a confirmação ainda foi assombroso, como se todos esperassem ter entendido errado.
— Transferido? — perguntou, os olhos arregalados em um espanto cortante.
— Sim, querido. — o homem voltou a falar, seu tom muito mais ameno agora que se dirigia a . — Você o conhecia como Mochi, mas seu nome é Akos. Ele era o familiar do nosso Mago Supremo e agora é seu.
— Isso quer dizer que...
— Sim. — Jaehyun confirmou, antes mesmo que ele terminasse a frase. — Choi Yoonjae, o Mago, era seu pai.

Siwoo levou vários minutos para acalmar as pessoas depois da última declaração de Jaehyun. Nem mesmo amplificar sua voz foi o suficiente dessa vez.
O tal Mago ser pai de , aparentemente, levantava mais perguntas do que gerava respostas, deixando o público ainda mais confuso do que antes. mesmo, já não sabia mais se queria entender o que estava acontecendo, sinceramente.
Já sabia que o homem que ele conhecia como pai não era seu pai, então não foi exatamente uma surpresa saber que ele tinha outro. Mochi ser a porra de um tigre enorme o chocava bem mais, para ser sincero, embora sua curiosidade maior fosse para saber onde exatamente ele ficava com aquela nova informação, sobre o homem mais poderoso do mundo mágico ser seu pai.
Não entendia nada sobre genética mágica, mas a preocupação da maioria das pessoas, pelo que ele tinha entendido, era que um bruxo das sombras só poderia nascer de outro igual, a não ser em casos atípicos como o de .
Mas não conhecia nenhum outro bruxo que poderia ter doado magia para ele, então...
A única pessoa que parecia ter todas as respostas era Jaehyun, mas ele declarou que apenas contaria tudo após ingerir o soro da verdade. Diante disso, o julgamento foi interrompido para que outra dose do soro fosse preparada e se manteve sentado no chão enquanto esperava, sentindo-se cansado e dolorido demais para se mover.
Mochi, ou agora Akos, estava deitado com a cabeça em uma de suas pernas. Ser tão carinhoso não era nada compatível com ele, mas Mochi parecia saber muito bem que não era o momento certo para suas travessuras.
Se perguntou se deveria ter medo dele agora, era um tigre deitado sobre ele, mas ainda sentia que aquele era apenas Mochi, o gatinho que ele tinha resgatado na rua, mesmo que ele agora fosse bem mais intimidador.
— Você vai ficar bravo se eu ainda te chamar de Mochi? — sussurrou para ele, e Mochi apenas ergueu a cabeça, olhando feio. A resposta foi óbvia, ele não gostava daquele nome, e apesar de toda a situação caótica, sorriu, sentindo-se um pouco mais aliviado com a presença dele por perto.
Se o pior acontecesse com ele e o clã, a vida de Mochi também estaria em jogo. Não queria que nada de ruim acontecesse com qualquer um deles, mas se fosse o caso, seria melhor se pelo menos estivessem juntos.
Levou cerca de meia hora para que uma nova dose do soro fosse preparada. Nesse meio tempo, Jaehyun exigiu que Siwoo libertasse , e do que quer que ele estivesse fazendo com os três para que não pudessem falar.
Siwoo não pareceu feliz com a exigência, mas obedeceu. Aparentemente, Jaehyun estava sobre ele na hierarquia, o que também não o deixava feliz.
Quando o soro finalmente ficou pronto, Siwoo mandou conjurarem outra poltrona para Jaehyun ao lado de , como um réu, mas o homem a rejeitou, dizendo que ficaria de pé. Siwoo, mais uma vez, se contorceu em raiva com a resposta, mas não disse nada, o que continuava achando um tanto quanto satisfatório.
Tudo que irritasse aquele homem desprezível o deixaria feliz.
Por fim, todos voltaram aos seus lugares, incluindo Siwoo na poltrona do meio na mesa do conselho. Jaehyun ficou de pé bem no meio do palco, mas não se importou em voltar para a poltrona, estava bem ali, com Mochi aos seus pés. Tê-lo por perto era reconfortante, mesmo que ele não fosse mais um gatinho pequeno.
Jaehyun testou mentir com o soro, assim como havia feito, e se contorceu de dor. Aparentemente, não estava esperando por isso quando decidiu ficar de pé e por pouco não caiu, mas conseguiu se recompor.
— Acho que podemos começar as perguntas, então. — Siwoo falou, assim que foi comprovado que o soro funcionava, mas Jaehyun o dispensou com uma das mãos, de costas para ele.
— Sem perguntas. Eu falo. — Jaehyun respondeu, e sinceramente, sentia que simpatizava mais com ele a cada segundo.
— Esse garoto que vocês estão torturando, Jeon , é filho de Choi Yoonjae, nosso Mago Supremo. — falou ele, e quando nada que indicasse uma mentira aconteceu, as pessoas voltaram a se exaltar ao redor. Ele não esperou que se acalmassem para continuar. — Choi Yoonjae, assim como , era um bruxo das sombras. — declarou, por cima de todas as vozes, e o caos se instalou outra vez em questão de segundos.
Todos pareciam perplexos, e podia entender muito bem.
A maior autoridade do mundo mágico era bruxo de uma classe que eles condenaram ao extermínio. Uma que eles temiam, que eles julgaram ser terrível e traiçoeira.
Por quantos anos Yoonjae manteve aquele cargo? Há quantas centenas de anos todas aquelas pessoas confiaram nele para manter a ordem? Um bruxo das sombras.
Chegava a ser irônico, e mesmo exausto como se sentia, por pouco não acabou rindo. Que desculpa usariam para matá-lo agora? Percebeu que finalmente tinham alguma esperança, e se virou para olhar para o clã, mas especificamente para , que sorriu em sua direção, como se quisesse tranquilizá-lo.
Provavelmente estavam pensando na mesma coisa. Aquela era a primeira boa notícia que tinha nos últimos meses. E nem ligava para quem fosse seu pai verdadeiro, não conhecia Yoonjae para sentir algo pelo homem, mas ser filho dele com certeza mudava as coisas.
— Você está mentindo! — Siwoo vociferou, e Jaehyun revirou os olhos.
— Quer testar o soro novamente? — ele perguntou. — É impossível mentir sobre efeito do soro, todos aqui estão cansados de saber disso, pare de criar desculpas. Vai querer fazer o garoto passar por um teste de DNA igual os humanos fazem para garantir? Jeon é filho do nosso Mago e não sabia disso até então. Ninguém sabia além do Mago. Ele o deixou para ser criado pela mãe humana, queria poupá-lo de crescer em uma sociedade que iria julgá-lo por existir, mas sua mãe, apesar de não ser uma bruxa como nós, conhecia nosso mundo e encontrou uma bruxa disposta a prender a magia dentro dele, como nossos ancestrais faziam. Se conhecem as histórias, sabem que apenas ela ou alguém tão forte quanto poderia libertar a magia do garoto, mas a bruxa morreu e nosso Mago desapareceu atrás de uma cura para o garoto.
— E como você sabe de tudo isso? — Siwoo perguntou.
— Ele me contou antes de partir, com garantia. Mas quando eu descobri que apenas Akos retornou, soube que tinha dado errado. A guarda de Akos passou para o garoto , e todos nós sabemos o que isso significa. Nosso Mago está morto, e somente Akos vai poder nos levar até ele. O clã Kim não tem nada a ver com isso, assim como . Eles são inocentes e tudo isso é desnecessário. Sabemos bem quem é a única pessoa conspirando aqui.
— O que você quer dizer com isso? — Siwoo retrucou diante de sua última fala.
— Temos uma hierarquia. Eu estou abaixo do Mago, seguido por . Quem te colocou nessa cadeira, Siwoo?
— Você desapareceu e tínhamos fortes suspeitas de que o clã Kim estava compactuando com bruxos das sombras, envolvidos com o desaparecimento do nosso Mago.
— Suas suspeitas se basearam apenas no fato de ser um bruxo das sombras e adivinha quem mais era? — perguntou, retoricamente. — Agora eu achei bem estranho quando eu fui repentinamente atacado ontem, antes de todo esse show. Quem foi que ordenou, Siwoo? Talvez você devesse se submeter ao soro também.
— O que você está insinuando? — Siwoo retrucou, praticamente cuspindo as palavras em sua direção.
— Você entendeu muito bem. — respondeu ele. — Você quem deveria estar nesse lugar, não , eu ou o clã Kim.
— Gostaria de lembrar a todos que ainda é um bruxo das sombras. — Siwoo se voltou novamente para o público, tentando manipulá-lo exatamente como fazia desde o início. — A raça dele foi responsável por um massacre há centenas de anos atrás.
— Pessoas ruins existem em todas as classes. Basta olhar pra você mesmo. — Jaehyun retrucou. — Me atacar e conspirar contra também é uma tentativa de golpe.
— Você está fazendo muitas especulações sem qualquer prova. — Siwoo praticamente rosnou.
— Mas estou dizendo a verdade em todas elas. Sou eu que estou sob efeito do sono, não sou? Por que não trocamos de lugar para que eu possa fazer algumas perguntas também?
— Isso não vai acontecer até verificarmos sua história. Ainda não encontramos o Mago. — Siwoo retrucou, fazendo Jaehyun revirar os olhos novamente. Ele só queria fugir da proposta, mas Jaehyun não vacilou.
— Claro, vamos então, já que você precisa ver com os próprios olhos. — respondeu ele. — Mas talvez você goste de saber de mais uma coisa antes de partirmos, os bruxos das sombras não estão extintos como vocês pensam.

🔮🔮🔮

gostou de Jaehyun. Ele instalou o caos na audiência mais de uma vez em menos de dez minutos.
Ele se recusou a falar mais sobre os demais bruxos das sombras. Decidiu que faria isso apenas se necessário e ele decidiria se era necessário ou não. também gostou dele por isso.
Por fim, ficou decidido que antes de tudo, comprovariam o que havia acontecido com o Mago, e para isso, Mochi teria que levá-los até ele.
Mochi, como um bom soldado, só aceitou fazer isso quando chegaram a um acordo sobre quem iria junto. Siwon queria ir sozinho, obviamente, mas se tremeu inteiro quando o enorme tigre dourado rugiu descontente. Ninguém confiava em Siwoo para absolutamente nada, e assim ficou decidido que, junto com ele, também iriam Jaehyun, e .
Outro membro do conselho abriu um portal após instruções de Mochi, que não tinha a menor ideia de como haviam sido passadas. Era uma abertura lilás e translúcida no meio do palco, embora não fosse possível ver nada do que tinha no outro lado.
Mochi entrou primeiro, certo do que estava fazendo. e foram atrás, condição imposta por , e então Siwoo e Jaehyun viriam em seguida.
fechou os olhos quando atravessou o portal, sentindo o coração prestes a sair pela boca, sem ter ideia do que encontraria do outro lado. Não sabia se aguenta mais alguma forte emoção aquele dia.
Para que ele fosse junto, haviam permitido que ele fosse atendido por um curandeiro, já que mal conseguia se mover depois da tortura imposta por Siwoo, mas ele ainda se sentia completamente exausto e as algemas que ainda estavam presas ao redor de seus pulsos eram pesadas o suficiente para que ele se sentisse desconfortável, especialmente depois de tudo que já tinha passado naquele dia.
Quando finalmente abriu os olhos, se viu dentro de uma espécie de caverna. Ela era estreita, não havia espaço para que mais de três pessoas ficassem lado a lado, mas não sabia dizer qual era a profundidade dela, estava escuro demais para que conseguisse ver muito além. A única iluminação do lugar vinha de uma abertura vindo de algum lugar acima deles, um pouco mais a frente, mas não era o suficiente para que soubessem o tamanho exato do lugar onde estavam.
Sem esperar por ninguém, Mochi rugiu, e então disparou para frente, correndo em direção a alguma coisa que ninguém podia enxergar. Sem pensar duas vezes ou sequer esperar pelos outros, e o seguiram, ficando grato por não carregar mais as algemas que antes estavam em seus pés também, ou nunca conseguiria acompanhá-los.
Mais a diante na caverna, havia uma espécie de altar, e Mochi parou ali em frente. Havia um corpo caído sobre os degraus, com um livro em mãos, e prendeu a respiração antes mesmo de se aproximar.
Sabia quem era, aquele era o Mago, seu pai.
não tinha se importado muito com o homem até então. Não o conhecia, e ele nunca foi uma pessoa que se apegava unicamente a laços sanguíneos. As pessoas precisavam ser parte ativa em sua vida para que ele criasse qualquer tipo de sentimento por elas, mesmo que fosse ódio, como o que sentia por seu padrasto, mas ver o Mago jogado e morto sobre os degraus frios da caverna acenderam algo dentro dele.
Se tivesse crescido com ele, as coisas teriam sido diferentes? Como era Yoonjae? Ele realmente se importava com ? O tinha abandonado com sua mãe, mas havia algum sentido nisso, teria sido morto ainda na infância se o descobrissem. Yoonjae tentou protegê-lo antes e no fim da vida tinha se sacrificado buscando uma cura para .
Perdido em pensamentos, mal reparou quando se aproximou do corpo de Yoonjae sem pestanejar. Ele o tocou com dois dedos na traqueia, para verificar os batimentos, mesmo que não houvesse qualquer dúvida sobre ele estar morto.
Mochi já havia sido transferido para . Isso não teria acontecido se o Mago estivesse vivo.
— Ele está segurando alguma coisa. — avisou, chamando sua atenção. se aproximou também, no mesmo momento que Siwoo e Jaehyun os alcançavam.
— Não toque em nada! — Siwoo o alertou, mas já era tarde.
Sem se importar com a ordem, puxou de baixo do Mago um livro grosso de aparência envelhecida e capa marrom.
— Me dê isso aqui. — Siwoo pediu, estendendo a mão, e escondeu o livro atrás de si.
— Não mesmo.
— Isso pertence ao conselho! — Siwoo tentou avançar, e , sem as algemas, estendeu uma das mãos para frente em tom de ameaça, pronto para usar seus poderes contra ele se fosse necessário.
— Isso pertence a . — retrucou. — O Mago veio até aqui para encontrar uma cura para o filho.
— Nós vamos decidir isso. — Siwoo insistiu.
— Será que eu vou ter que te lembrar que não fala em voz do conselho, Siwoo? — Jaehyun questionou. — Você apenas assumiu a audiência porque as duas pessoas acima de você estavam indisponíveis, mas eu já estou aqui.
— Você também é um réu agora!
— Eu sou uma testemunha. — Jaehyun o corrigiu. — Enquanto não houver votação para um novo líder, essa posição é minha e eu estou dizendo que o livro deve ficar com por enquanto. Ele é líder da ONIM e está representando o clã de no momento.
— Você pode ser testemunha, mas ele ainda é um réu. Além disso, ele foi destituído do cargo na ONIM.
— Por um erro seu. — Jaehyun respondeu.
— Essa discussão não vai nos levar a nada. — os interrompeu. — Vamos apenas fazer o que viemos fazer aqui e ir embora.
quis perguntar o que eles tinham ido fazer ali além de verificar que o Mago estava mesmo morto, mas se calou, especialmente quando Siwoo e Jaehyun passaram a olhar ao redor. , sendo o mais próximo do altar, terminou de subir os degraus para examinar o que havia ali. se manteve onde estava, mas os outros dois acompanharam .
— Havia um feitiço prendendo o livro no altar. — falou. — Soltar o livro provavelmente foi o que o matou.
— Mais um motivo para o livro ficar sob custódia do conselho. — Siwoo insistiu.
— Mais um motivo para ele ficar em custódia da ONIM. — retrucou rapidamente.
— Seus motivos para querer o livro são pessoais!
— E os seus não?
— Ele não era tipo o bruxo mais forte de todos? — os interrompeu, ainda afastado do altar, e todos os três se voltaram para ele. — O quão forte era esse feitiço?
— Muito. — respondeu. — Provavelmente o suficiente para encontrarmos boas respostas nesse livro, especialmente sobre você, já que era isso que ele estava buscando.
— Certamente vai precisar de um ritual. — Jaehyun comentou, e concordou com a cabeça, o que claramente irritou Siwoo muito mais do que deveria.
Era evidente que a última coisa que ele queria, era libertar .
— Vamos voltar. — interrompeu ele. — Precisamos levar o corpo do Mago de volta e terminar a audiência. Não vamos tomar nenhuma decisão aqui. Vamos colocar isso em votação, inclusive a custódia do livro.
— Até haver um novo líder escolhido democraticamente, não é você quem decide isso, Siwoo. — Jaehyun declarou, fazendo surgir um lençol branco sobre o Mago ao estalar os dedos. — Nós vamos voltar, mas para que todos vejam a forma como você quer manipular tudo ao seu favor.




Jaehyun levou o mago de volta pelo portal usando magia para que flutuasse, com o lençol branco por cima. Quando pisaram de volta no auditório, todas as pessoas se calaram imediatamente, chocadas com o que viam.
O corpo do Mago estava completamente coberto, mas considerando que tinham ido buscá-lo, não era muito difícil de imaginar quem estava ali e o que tinha acontecido.
— Esse é...? — um dos homens sentado junto a mesa do conselho questionou, mas se interrompeu antes de terminar a frase, como se não acreditasse nos rumos dos seus próprios pensamentos.
— Sim. — Siwoo respondeu mesmo assim, voltando-se para o público. — Nosso Mago Supremo, Choi Yoonjae, está morto.
Ao contrário do que esperava, as pessoas não se exaltaram dessa vez, provavelmente tomadas demais pelo choque para ter qualquer outra reação além do completo silêncio e espanto.
Aquele homem era o bruxo mais poderoso que eles conheciam, era de se esperar o choque por sua morte. Era algo que ninguém esperava, não tão cedo.
— Como isso aconteceu? — algum corajoso junto ao público finalmente perguntou, erguendo a voz para ser ouvido.
Siwoo abriu a boca para responder, mas antes que ele o fizesse, tomou a frente, aproveitando-se que estava sobre o palco dessa vez.
— Deveríamos acessar suas memórias. — sugeriu ele. — Temos uma idéia do que aconteceu, especialmente depois da explicação de Jaehyun, mas as memórias não mentem. É a forma mais eficaz de eliminar todas as dúvidas sobre o que realmente aconteceu.
A maior parte das pessoas ao redor passaram a concordar com a cabeça rapidamente, aprovando a ideia, mas Siwoo foi rápido em tomar as rédeas da situação:
— Choi Yoonjae era a pessoa de maior autoridade no mundo mágico. Violar suas memórias após sua morte seria um crime imperdoável. — falou ele.
— Choi Yoonjae era um homem honesto, esconder a verdade das pessoas não é algo que ele faria. — argumentou. — Podemos investigar, podemos falar e podemos especular, mas apenas suas memórias vão mostrar de verdade o que aconteceu. É isso que ele ia querer, especialmente se ele realmente se sacrificou para proteger um filho que vocês estão tentando condenar.
— Não iremos fazer isso. — Siwoo declarou, fazendo soar como se aquela fosse a decisão final, mesmo que não tivesse autoridade para decidir algo assim sozinho.
— Uma pena que não é você quem decide, não é mesmo? — Jaehyun retrucou. — Se necessário, podemos votar, mas pelo que me parece, você é o único contra a ideia.
— Exatamente como se estivesse tentando esconder alguma coisa. — falou também, o que , sinceramente, concordava.
Aquele homem parecia mais suspeito cada vez que abria a boca e não gostava dele. Podia não ter sentido nenhuma mentira vindo de Siwoo até então, mas não era como se ele tivesse negando ou afirmando qualquer coisa. No geral, ele apenas escapava das perguntas e acusações como podia, e não podia deixar de achar isso ainda mais suspeito.
E apostava que ele sabia sobre seus truques em sentir quando as pessoas mentiam. Siwoo podia estar fazendo de propósito para se esconder.
Diante da acusação de , todos ao redor pareceram desconfiados, fazendo com que os cochichos voltassem. Siwoo percebeu, pois encarou cheio de ódio antes de se voltar para o público mais uma vez, em uma nova tentativa de controlar a situação.
— Seremos amaldiçoados se fizermos isso. — se justificou, tentando comover o público. — Não é possível que apenas eu veja a violação que esse ato representa.
— Yoonjae tinha um compromisso com a população e não deixaria de cumprí-lo se estivesse vivo. — insistiu, sem vacilar por um único instante.
— E você quer agradecer a esse compromisso com uma violação desse tamanho?! — Siwoo retrucou.
— Ninguém está sugerindo ver nada além de suas últimas horas de vida. — Jaehyun apoiou . Poderíamos fazer uma votação sobre isso, mas acho que está claro que apenas uma pessoa aqui discorda desse plano.
— Eu estou no comando e digo que não iremos fazer. — Siwoo insistiu, mas retrucou rapidamente:
— Você não está no comando. — o interrompeu, parecendo perder o pouco de paciência que lhe restava. — Ou fazemos uma votação, ou você cala a sua boca.
— Você não é mais líder da nossa força tarefa! — Siwoo ergueu a voz, totalmente ofendido pela forma como havia sido tratado. — Não tem o direito de falar assim com um representante do conselho!
ter perdido o cargo na ONIM é outro completo absurdo. — Jaehyun se intrometeu, com toda a calma do mundo. — E esse é mais um ótimo motivo para acessarmos as memórias do nosso Mago. É a única forma de saber a verdade, já que você também decidiu que o soro não é o suficiente.
— O que também é bem pertinente. — resmungou.
— O que você quer dizer com isso?! — Siwoo vociferou, seu rosto assumindo um tom avermelhado devido a irritação que sentia.
— Exatamente o que você entendeu. — aumentou o tom também, dando alguns passos em direção a Siwoo e parando apenas quando se colocou cara a cara com ele. — Todos presentes nessa audiência, assim como todos sentados ali na mesa do conselho, sabem como o soro funciona. Sabem que nem mesmo o Mago consegue lutar contra ele, que não existe qualquer magia capaz de inibir seu poder, mas você, justamente hoje, baseado em absolutamente nada, decidiu que um moleque de vinte e três anos consegue ser mais forte do que ele. Um garoto que sequer consegue controlar a própria magia. Mas então finalmente encontramos outra forma de resolver a situação, de mostrar a verdade para a população, e novamente você decidiu sozinho que não podemos fazer isso. Por que você está tão relutante em saber a verdade?! Por que você é o único que não quer saber o que aconteceu?!
— Ele tem um bom ponto. — Jaehyun retrucou, encarando Siwoo a espera de uma resposta.
Todos esperavam. Era evidente pelo silêncio que tomava conta de toda a sala de audiência. tinha conseguido despertar a dúvida em todos os presentes e Siwoo pareceu ainda mais mortificado com isso.
— A verdade está bem óbvia. — praticamente rosnou, entre dentes. — Vocês que estão enrolando para ganhar tempo.
— Ganhar tempo? — se meteu antes que pudesse se controlar, indignado com aquela fala. — Estamos há horas aqui dando voltas no mesmo lugar e o único que está contra a idéia que acabaria com isso é você.
De alguma forma, o fato de ter aberto a boca apenas irritou o homem ainda mais. Ele encarou cheio de ódio no olhar. Já esperando pelo que viria a seguir, se encolheu, mas se colocou entre ele e Siwoo.
— Se você usar sua magia contra qualquer membro do meu clã de novo teremos um sério problema. — ameaçou.
sentiu uma pontinha de emoção quando se referiu a ele daquela forma, como membro de seu clã, mas não pode deixar de ficar nervoso por Siwoo vendo a forma como estreitou os olhos para ele enquanto falava. Tinha certeza que poderia acabar com Siwoo em um piscar de olhos se quisesse.
— Já chega disso. — Jaehyun se colocou entre os dois, usando uma das mãos para afastá-los. — Siwoo, você não foi eleito a nada, então a decisão aqui não é sua. A bancada do conselho vai votar. Quem está a favor de acessarmos as memórias do Mago para saber o que aconteceu, apenas levante a mão.
Jaehyun, como um dos membros do conselho, ergueu a mão. , mesmo em posição de réu, fez o mesmo. Todos os outros na mesa fizeram repetiram o gesto sem pensar muito, e Siwoo acabou sendo o único a se opor à ideia.
Até mesmo as pessoas na platéia, que estavam ali apenas para assistir, levantaram a mão, mesmo que seus votos não fossem válidos.
— Eu me recuso a assistir isso. — Siwoo reclamou, dando as costas para as pessoas. — Quando as consequências voltarem para vocês, eu espero que ninguém venha me procurar.
Siwoo seguiu em direção a porta do auditório sem esperar que ninguém respondesse, mas esbarrou contra uma parede invisível que o impediu de descer do palco. Ele xingou quando percebeu que tinha sido contido, e voltou-se novamente para a frente cheio de ódio, encarando com toda sua fúria. Ele esperava que fosse o contendo, mas para sua surpresa, foi Jaehyun quem falou:
— Não mesmo. — declarou ele. — Como um membro desse conselho, você vai ficar aqui enquanto fazemos isso.
— Você não pode me obrigar! — Siwoo ergueu a voz. — Eu me recuso a ser castigado por isso quando estou avisando a todos o que vai acontecer!
— Você é um membro desse conselho e não uma criança de dez anos. — retrucou. — Não pode se recusar a fazer parte de algo apenas porque a maioria votou contra o que você quer.
— Sim, eu posso. — insistiu ele. Até mesmo revirou os olhos.
— Claro, se deixar o conselho. — Jaehyun rebateu, com toda a calma do mundo. — Se sair por aquela porta, estará deixando essa sala de audiência e também seu cargo.
— Você não pode fazer isso! — gritou ele.
— Eu não estou fazendo nada. Essas são as regras do conselho, as mesmas com as quais você concordou quando se juntou a ele.
— Ótimo, então que seja. — Siwoo puxou com agressividade a toga que usava, rasgando-a no percurso enquanto se livrava dela. Furioso, jogou a peça no chão, e voltou a dar as costas para o conselho em seguida.
ergueu uma sobrancelha, achando aquilo tão dramático quanto suspeito, e não foi o único a pensar isso. riu alto, mesmo que provavelmente não devesse, e antes que Siwoo realmente conseguisse chegar até a porta, foi novamente contido por uma barreira invisível.
apostava que essa era sim de , e assistiu a cena com certa diversão.
— Como você não faz mais parte do conselho, estou determinando que agora você também faz parte dos réus. — Jaehyun falou, fazendo arregalar os olhos. — Como réu, não pode sair até que o conselho determine.
— Você não pode fazer isso! — Siwoo gritou, lutando inutilmente contra a barreira.
— Não só posso como estou fazendo. — Jaehyun retrucou. — Agora vá de uma vez para o seu lugar antes que eu te obrigue, exatamente como você estava fazendo com os outros.
— Eu sou um membro desse conselho!
— Eu acho que não. — retrucou, com certa acidez em seu tom. o agradeceu por verbalizar todos os seus pensamentos. — E foi você mesmo quem decidiu assim.
Siwoo xingou, mas obedeceu a ordem, mesmo que contrariado. Não era como se pudesse fazer qualquer coisa. Ele se dirigiu até os bancos dos réus, onde o resto do clã estava, e se sentou em silêncio, o mais longe possível de todos eles.
tinha um sorriso vitorioso no rosto e fez questão de encarar Siwoo com ele, levando o homem a xingá-lo. apenas se divertiu ainda mais com isso.
— Bom, agora eu acho que podemos finalmente continuar. — Jaehyun falou, finalmente se voltando para o público outra vez depois de toda aquela cena.

🔮🔮🔮

O corpo sem vida do Mago agora flutuava exatamente ao meio do palco, ainda coberto pelo mesmo tecido branco de antes.
Para evitar mais especulações sem fundamento, Jaehyun sugeriu que sorteassem uma das pessoas no conselho para executar o feitiço que acessaria suas memórias, sob supervisão de uma pessoa do público escolhida aleatoriamente.
Os dois já estavam posicionados atrás do homem sem vida, próximos a sua cabeça, já que o feitiço teria que ser executado dali. Quando Jaehyun autorizou, os dois iniciaram o encantamento necessário.
não conseguiu entender o que eles disseram, mas o público não pareceu estranhar as palavras usadas. Uma luz rosa saiu da mão do homem que tocava a cabeça do Mago e a magia finalmente teve início. Sobre o corpo sem vida de seu pai, se formou uma névoa cinza que não pareceu chocar nenhuma das pessoas ali. Apenas foi pego de surpresa, como era de se esperar. Era o único ali que não sabia como as coisas funcionam, afinal, e sequer tinha pensado sobre isso.
— Mostre a nós o que aconteceu na caverna onde o corpo de Choi Yoonjae foi encontrado. — Jaehyun pediu, encarando a névoa cinza.
prendeu a respiração, olhando atentamente para o mesmo lugar, e repentinamente a névoa tremeluziu, tornando-se rosa quando a imagem do Mago surgiu ali, como se fosse um filme visto de uma televisão bem ruim e embaçada.
Aquelas eram as memórias dos últimos momentos de vida de Choi Yoonjae.
Eu não pedi sua opinião. — o Mago disse para alguém que não podia ver. O homem estava sozinho na caverna onde seu corpo tinha sido encontrado, caminhando em direção ao altar que já conhecia. Devido a baixa iluminação ali dentro, se questionou se a segunda pessoa estava escondida nas sombras e estreitou os olhos, tentando ver melhor, mas tudo que ele conseguiu enxergar foi Mochi, caminhando ao lado do homem. — Você só está aqui para o caso do pior acontecer.
E como você quer que eu explique que você morreu tentando salvar um bruxo das sombras? — a outra pessoa respondeu, e arregalou os olhos ao reconhecer a voz.
Era Siwoo, e ele não foi o único a perceber isso. Os burburinhos ao redor recomeçaram. Siwoo sabia o que tinha acontecido com o Mago esse tempo todo. Mais do que isso, ele já sabia sobre , assim como o clã que ele acusava de traição justamente por esconder esse fato.
Siwoo tentou se erguer para fugir, mas foi contido pela magia de alguém ao redor. apostaria em , mas não pensou muito sobre o assunto, não quando o Mago voltou a falar dentro da névoa, incriminando Siwoo ainda mais.
Comece explicando a eles quem eu sou de verdade. — ele pediu.
Você quer que eu conte que você é um bruxo das sombras? — Siwoo perguntou, deixando claro que aquela era outra coisa que ele sabia desde o início, mesmo antes de interrogar .
Siwoo o torturou por uma informação que já tinha... E fez isso na frente do mesmo público que via toda a verdade em primeira mão agora.
Se não se sentisse tão furioso por isso, teria achado engraçado.
Toda aquela história de conspiração, Siwoo sabia desde o início que era mentira. Ele sabia que sequer sabia quem era, e mesmo assim tentou jogar tudo aquilo em cima dele.
Ele era o único alí tentando dar algum golpe.
Não vai fazer nenhuma diferença se eu já estiver morto, certo? — o Mago respondeu.
O Jaehyun, ele sabe onde você está? — Siwoo perguntou, ignorando a resposta anterior do homem.
Diante de sua pergunta, o Mago parou um instante onde estava, como se considerasse o que responder. Somente então se deu conta de que o Mago realmente estava naquela caverna apenas com Mochi. Siwoo e ele estavam se comunicando a distância, como se falassem em um telefone, mesmo que não estivessem usando um. Siwoo não podia ver que o Mago estava vacilando em responder, como se não tivesse certeza se deveria ou não dar aquela informação a ele.
Óbvio que Jaehyun sabe. — o Mago respondeu por fim, mas não teve dificuldade em ler em sua expressão que ele estava mentindo. O homem apenas concluiu que não deveria dizer a Siwoo que ele era o único que sabia onde ele estava, para sua própria segurança, o que por sí já dizia muito sobre o que o Mago pensava de Siwoo.
Seu pai também não confiava nele.
E por que você chamou a mim então, e não ele?
E qual a diferença se eu confio nos dois? — o Mago respondeu, voltando a caminhar, mas sentiu a mentira mesmo que ele estivesse morto. Seu pai não confiava em Siwoo. — Já te disse isso.
Jaehyun tinha algum compromisso, não tinha? Você não quis atrapalhá-lo. — Siwoo respondeu, deixando claro que não acreditava nenhum pouco naquilo.
Você precisa ser menos desconfiado. — o Mago respondeu, finalmente chegando ao bendito altar.
Não havia nada ali a princípio, mas como se soubesse exatamente o que procurar, o Mago passou a mão por alguma protuberância que havia na pedra. Letras começaram a brilhar exatamente ali e o Mago as leu em silêncio, apenas movendo a boca sem fazer qualquer barulho. Levou apenas alguns segundos depois disso, um livro surgiu ali repentinamente, de um segundo para o outro, com uma redoma de energia translúcida ao redor.
O que está acontecendo? — Siwoo perguntou de algum lugar. ainda não tinha entendido aquela parte, mas não se importava realmente com isso.
Mais letras haviam surgido na pedra, flutuando dela para o livro, ao redor dele, e enquanto lia as palavras brilhantes, o Mago não respondeu nada.
O que está acontecendo?! — Siwoo repetiu alarmado.
O livro está dentro de uma esfera de energia. — o Mago explicou para o outro. — Tem runas ao redor, e elas dizem como alcançá-lo.
O que? Tão fácil assim? — Siwoo questionou, mas já engolia em seco.
Se elas apenas falavam, tão simples assim, era porque exigiam alguma espécie de sacrifício em troca.
E, como prova, o Mago estava morto.
Ao invés de responder, o homem suspirou, se afastando da mesa por um instante enquanto pensava. Nada de bom sairia dali, era evidente, e todos ao redor pareciam pensar o mesmo. praticamente sentia a tensão emanar do público.
Eu quero que você me faça um juramento. — o Mago pediu, como se já soubesse, ali mesmo, que aquele era seu fim.
Ele sabia que ia morrer e mesmo assim escolheu continuar, por . Um sacrifício, e mesmo que não tivesse conhecido o homem, sentiu seu peito doer. O Mago tinha morrido por ele. Tinha feito mais por do que qualquer um, mais até do que o homem que o criou a vida inteira como seu filho. lamentou saber que nunca poderia conhecer Choi Yoonjae de verdade.
Que espécie de juramento? — Siwoo questionou, soando tão curioso quanto confuso. — Yoonjae, o que está acontecendo?
Vamos selar um pacto perpétuo. — o Mago falou, e a reação do Siwoo dentro de sua lembrança foi a mesma do público ao redor. Algo naquele pacto pareceu deixar as pessoas exasperadas e odiou, mais uma vez, não entender os motivos. Procurou com o olhar, querendo respostas, mas estavam longe demais para que ele o explicasse qualquer coisa.
Você enlouqueceu? — Siwoo perguntou, mas o Mago o ignorou totalmente, continuando sua fala:
Você vai jurar resgatar o livro e levar até Jaehyun para que ele possa salvar... o garoto. E vai jurar fazer de tudo para que esse livro realmente chegue a ele.
Yoonjae, um pacto perpétuo tem muitos riscos! Existe um motivo para que as pessoas prefiram pactos de sangue!
Não tem como fazermos um pacto de sangue agora, tem? — o Mago questionou. — Pactos de sangue envolvem sangue e você não está aqui.
Não tem como fazermos um pacto de sangue, mas o perpétuo é muito literal, qualquer mínima palavra errada e eu estarei morto! Você sabe disso!
— Então não erre as palavras.
— Isso é loucura!
— Siwoo continuou relutante. — Não posso fazer isso!
— Esquece
. — o Mago retrucou, claramente insatisfeito. Ele parecia, na verdade, desesperado, e se perguntou se ele estava nervoso por saber que aqueles eram seus últimos momentos de vida ou se era simplesmente porque as coisas não estavam dando certo. — Vou chamar o Jaehyun.
— Ele também não vai fazer um pacto perpétuo. Ele sabe o quanto isso é perigoso.
— Siwoo argumentou.
Deixe que eu me preocupo com isso.
— Se fosse ele aqui, você não pediria pelo pacto, pediria?
— Siwoo falou de forma amarga. — Você apenas confiaria nele.
— Você está errado
. — o Mago mentiu novamente.
Nós dois sabemos que não. — Siwoo insistiu. — Prove que confia em mim. Eu dou minha palavra para qualquer coisa que você pedir, mas não farei o pacto.
— Você sabe que isso é muito importante, não sabe?
— Óbvio que eu sei
. — Siwoo respondeu. — E eu prometo que farei o possível para que esse livro volte pra cá. Vamos salvar o garoto. — garantiu, mas sentiu suas espinhas gelarem ao ouvir aquelas palavras.
Siwoo não prometeu salvar , ou entregar o livro a quem poderia ajudá-lo. Ele apenas disse que faria o possível para resgatar o livro, nunca disse o que faria com ele. Se tivesse mentido claramente, o Mago sentiria, saberia disso, mas Siwoo manipulou as palavras para que isso não acontecesse. O Mago, provavelmente tenso demais com a situação em um geral, não se atentou a isso. Provavelmente focou apenas no final, em "vamos salvar o garoto".
Mas Siwoo não prometeu nada, não disse quando. Mal se envolveu no problema.
Mais uma vez, o Mago pareceu ponderar. Ele estava decidindo se deveria ou não confiar em Siwoo, mas a essa altura, já estava bem óbvio o que ele tinha feito. Ele não sentiu a mentira em suas palavras, não tinha motivos para desconfiar.
Tudo bem. — o Mago decidiu, e mesmo já sabendo que aquela seria a resposta, lamentou muito por ela.
Certo... Então porque você não começa me contando o que está acontecendo? — Siwoo questionou.
Preciso lançar um feitiço para quebrar a redoma. — o Mago explicou. — O problema é que essas runas são de repetição espelhada...
— O feitiço vai voltar para você
. — Siwoo concluiu, e Mochi, ao lado do Mago, soltou um resmungo, como se lamentasse o que iria acontecer em seguida.
Yoonjae estendeu uma das mãos para ele, tocando seu pelo em um carinho delicado que soava muito como uma despedida.
Era uma despedida. E quis abraçar Mochi ao seu lado para confortá-lo, mas não se moveu.
Sim, porém também tem uma runa de multiplicação aqui. E bem a parte onde fala em quantas vezes, eu não consigo ler. Está ilegível, certamente fizeram de propósito.
— Não pode ser tanto assim.
— Siwoo respondeu. — Ninguém nunca conheceu um feitiço que fosse capaz de multiplicar o poder em mais de cinco vezes.
— Não, mas está claro que não estamos lidando com algo comum aqui
. — o Mago respondeu. — A bruxa que prendeu a magia no garoto era provavelmente a bruxa mais velha que já existiu. Ela usou uma magia do início da nossa história para criar um feitiço novo, que ninguém sequer conhece. É evidente que ela sabe muito mais do que todos nós. Não conhecemos o feitiço, não temos magia o suficiente para quebrá-lo e agora isso.
— Como uma humana comum conseguiu acesso a uma bruxa tão forte?
— Siwoo perguntou, e sinceramente, aquela era uma resposta que também gostaria de obter.
O pai dela era um bruxo, provavelmente foi através dele, mas só ela poderia dar mais detalhes. — respondeu, voltando a se aproximar do altar em seguida. Estava na hora, e prendeu a respiração, sem saber se estava pronto para ver o que quer que fosse acontecer ali. — Não se esqueça da sua promessa.
Vale mesmo a pena? Morrer por isso? — Siwoo perguntou. — Você nem conhece o garoto.
— Não, mas ele é meu filho.
— E você não acha que deveria ao menos me dizer o nome dele? Como vamos achá-lo para ajudar?
— Akos vai guiar vocês até aqui. Assim como também pode guiar vocês até o garoto. Se o pior acontecer, Akos vai ter que ir até ele para sobreviver.
— Certo.
— Siwoo concordou, embora não soasse satisfeito com esse desfecho. — Se você realmente tem certeza disso...
— Eu tenho.
— o Mago respondeu, voltando a tocar as runas ao redor da redoma.
não ouviu o que ele disse em seguida, mas viu uma luz negra brilhar em sua mão. Ele estava fazendo o feitiço que o mataria.
Em um segundo, tudo estava normal, e então, repentinamente, uma explosão soou, fazendo pular de susto onde estava. O Mago foi arremessado para trás, bem longe de onde seu corpo tinha sido encontrado. O livro, de alguma forma, estava em suas mãos, mesmo que não tivesse conseguido ver em qual momento ele o pegou.
Desesperado, Mochi imediatamente correu até o homem, alguns lamentos escapando entre seus lábios. O corpo do homem tinha sido jogado bem mais adiante de onde ele tinha sido encontrado, e deduziu que o próprio tigre o tivesse levado de volta até o altar eventualmente.
O animal lambeu seu rosto assim que chegou até ele, e o Mago conseguiu, com certa dificuldade, erguer a mão livre até ele.
— Garanta que fique vivo e seguro. — pediu para o animal, que soltou um lamento doloroso em resposta. Mochi tentou empurrá-lo com o focinho, mas já era tarde. Aquelas foram as últimas palavras dele antes de fechar os olhos para sempre.
Quando a névoa sumiu, uma gritaria imediatamente se instalou no local, em resposta a tudo que havia sido descoberto, especialmente em relação a Siwoo.
Ele sabia de tudo o tempo todo, inclusive que o Mago estava morto. Sabia até mesmo seu nome, porque apesar de todas as tentativas do Mago em escondê-lo, em seus últimos suspiros, ele deixou a verdade escapar.
— Ordem! — Jaehyun gritou diante da completa bagunça que o local de transformou, mas foi ignorado. Uma parte das pessoas tinha se levantado para gritar e vaiar, enquanto a outra seguia confusa sem saber o que pensar. Siwoo tinha traído a maior autoridade do mundo mágico, mas por outro lado, essa mesma autoridade, o Mago, vinha mentindo para as pessoas por centenas de anos.
Choi Yoonjae era um bruxo das sombras, uma classe que todas as pessoas temiam, uma que havia sido condenada ao extermínio. O que fazer agora?
Aproveitando-se do alvoroço, Siwoo mais uma vez tentou escapar, mas foi impedido pelos guardas. Todos tinham desistido de conter o clã Kim e agora estavam ao redor dele. Entre todos os males, pelo menos havia ficado evidente agora quem realmente era o traidor ali.
Só precisavam decidir o que fazer a seguir, especialmente com ele, e o mundo mágico não tinha mais uma autoridade de verdade.
Provavelmente pensando o mesmo que ele, Jaehyun subiu na mesa do conselho, ficando de pé sobre ela. Usando alguma espécie de feitiço para amplificar a voz, ele voltou a gritar:
— Ordem! — dessa vez, sua voz pareceu se estender por todo o auditório, fazendo se encolher quando seus ouvidos doeram. Todas as pessoas ao redor se calaram imediatamente, e o encararam com certo espanto. — Guardas, algemem-o e levem-o para as celas. — pediu, referindo-se a Siwoo, e ninguém além do próprio Siwoo se opôs.
— Você não pode fazer isso! — gritou ele.
— Independente de quem o Mago era, o que você fez continua sendo traição e conspiração, logo, será julgado por esses crimes quando chegar a hora.
Siwoo gritou e se debateu, tentou fugir dos guardas, mas mesmo usando magia contra eles, ainda estava em menor número, sendo rendido facilmente. Siwoo foi arrastado para fora ainda entre berros, e Jaehyun esperou que ele fosse levado para continuar.
— Nosso Mago não está mais aqui, mas ainda temos leis. — falou ele, assim que tudo finalmente se acalmou. — Siwoo vai ser julgado como se deve, por traição, mas antes disso precisamos de um novo líder para conseguir organizar as coisas.
— E o clã Kim? — alguém perguntou na platéia. — E o garoto das sombras? Eles podem não ter conspirado contra o conselho, mas o garoto ainda é um bruxo das sombras e o clã ajudou a esconder essa informação. Isso também requer julgamento!
— Tudo bem, eu concordo. — Jaehyun respondeu. — Mas sugiro que, assim como a audiência de Siwoo, essa também seja adiada para depois que votarmos em um novo líder. Não adianta nada decidirmos qualquer coisa aqui e agora se ela poderá ser contestada futuramente porque fizemos isso sem uma figura de autoridade.
Jaehyun tinha um bom ponto, mas não tinha certeza se realmente queria que aquilo fosse adiado. Se fosse, tanto ele quanto o clã voltariam para as celas, e tudo que ele queria era resolver aquilo de uma vez por todas, o resultado sendo bom ou ruim.
— Isso é mesmo necessário? — ergueu a voz, e quando o procurou com o olhar, ele estava de pé junto aos bancos dos réus. — Como você mesmo disse antes, podemos não ter um líder, mas temos leis e, consequentemente, uma linha de sucessão. Você é o próximo líder, Jaehyun, você pode conduzir a audiência.
— Você deveria ser o próximo líder, . Não eu. — Jaehyun contestou.
— Eu sou um réu agora, não sou uma possibilidade. — respondeu. — E mesmo que fosse, as pessoas dificilmente confiariam em mim para tomar essa decisão. Você é a pessoa mais imparcial entre nós no momento. Apenas faça o que tem que fazer.
Ao invés de responder imediatamente, Jaehyun olhou para como se o mandasse calar a boca. entendeu com isso que, apesar de Jaehyun estar do lado deles, não tinha realmente um plano para resolver a situação de uma forma que os ajudasse.
Independente de tudo, ainda era um bruxo das sombras. Não existia uma forma de fazer com que as pessoas o aceitassem. E se não o fizessem, todo o clã seria condenado.
— Eu aceito qualquer punição que tenham para mim, mas peço que deixem o clã em paz. — se levantou também para tentar ajudar. — Eles só ficaram ao meu lado por .
— Não, não mesmo! — rapidamente se pôs de pé. — Não é justo que ele seja punido apenas por existir. Ninguém escolhe sua classificação e ele nasceu muitos anos depois daquele golpe! Ele é um bruxo das sombras, mas é inocente!
Jaehyun interrompeu erguendo uma das mãos em sua direção, pedindo que se calasse antes de voltar-se para .
— Garoto, a punição para bruxos como você é a morte e se você morrer, o clã não vai ficar em paz, não sem .
— Me prendam, então. Eu aceito isso. — estendeu as mãos para frente, como se pedisse para ser algemado, e ele ouviu o xingar de todos os nomes possíveis por isso.
— O bruxo está certo, não é justo condenar uma classe apenas por existir. — uma pessoa aleatória falou na platéia, e se virou para ver quem era.
Assim como Jaehyun e Mochi, que chegaram repentinamente ao local, uma outra pessoa passou pela porta, uma mulher dessa vez. Ela vestia preto dos pés à cabeça, uma calça justa de couro, botas de salto e cano alto e um blazer fechado, exibindo um decote em "V". Ela parecia jovem, mas sabia que, sendo uma bruxa, ela podia ter vinte anos ou quatrocentos, e ninguém saberia.
O ambiente ao redor começou a perder a luz repentinamente, e uma sombra escura surgiu ao redor dela. A mulher era uma bruxa das sombras, arregalou os olhos ao notar, enquanto a maior parte das pessoas no local se exaltavam alarmadas, como se ela fosse uma terrorista prestes a explodir a sala de audiência.
— Se apresente. — Jaehyun pediu, descendo da mesa sem parecer assustado como as outras pessoas.
Claro que não, ele já tinha dito que os bruxos das sombras não estavam extintos. Se havia alguém que sabia o que estava acontecendo, esse alguém era ele.
— Me chamo Ahn Hyejin. — ela respondeu, parando há poucos metros do palco. — Estou aqui representando os bruxos das sombras.

🔮🔮🔮

Hyejin pareceu bem orgulhosa do impacto que suas palavras causaram.
Assim que teve permissão, se juntou a eles no palco, sentando-se com toda elegância do mundo ao lado de , na cadeira que arrumaram para ela.
— Belo bichinho. — falou para ele, gesticulando Mochi com a cabeça.
O tigre rosnou para a mulher, claramente insatisfeito com o diminutivo, mas ela apenas deu de ombros, sem se abalar.
— Ele não gostou do apelido. — respondeu por ele, dando voz a sua indignação, mas ela apenas deu de ombros.
— Por isso mesmo é o apelido dele. — ela retrucou, fazendo com que suspeitasse que aquela não era a primeira vez que eles se encontravam.
Ela era representante dos bruxos das sombras e se ninguém sabia da sua existência, é porque ela escondia sua magia da mesma forma que seu pai, o Mago, fazia... Claro que eles se conheciam.
Levou vários minutos para que Jaehyun conseguisse acalmar os ânimos novamente, e Hyejin esperou pacientemente enquanto olhava para as suas unhas. Quando Jaehyun finalmente conseguiu silêncio para que ela pudesse falar, a mulher se levantou da cadeira, recusando-se a fazer aquilo sentada, de costas para o público.
— Como eu disse, me chamo Ahn Hyejin. — falou ela, com toda calma do mundo. — E estou aqui em nome de todos os bruxos das sombras pedindo liberdade para a nossa classe.
— Bruxo das sombras estão extintos! — alguém disse na platéia, e a mulher o encarou com um sorriso no rosto.
— Eu estava bem viva da última vez que eu chequei. — ela respondeu, gesticulando para sem seguida. — O garoto ali também. É muita audácia de vocês achar que simplesmente acabariam com uma classe inteira de bruxos. Isso nunca aconteceu, nós apenas escolhemos nos esconder para terminar com uma guerra que vocês iniciaram.
— Os bruxos das sombras iniciaram essa guerra! — outra pessoa falou, fazendo com que ela revisasse os olhos.
— Não, não. Dois deles tentaram, mas a guerra só aconteceu porque o conselho se voltou contra nós depois disso. — ela respondeu. — Bruxos ruins existem em todas as classes. Siwoo mesmo acabou de tentar um golpe, e ele era um bruxo da luz. Vocês vão tentar exterminar todos os bruxos da classe dele pelo erro de um homem? Eu acho que não, certo?
— Acontece que bruxos das sombras são mais perigosos que os demais. — o mesmo homem argumentou.
— Só porque apagamos as luzes? — ela riu, sem muito humor. — Qualquer bruxo da luz resolve isso em segundos. Com luz não há sombras. Diferente da maior parte das classes, nós temos um ponto fraco bem evidente. Bruxos com poderes psíquicos e mentais são infinitamente mais perigosos. Ninguém pode fazer nada se eles decidirem simplesmente entrar nas nossas mentes. Ninguém poderia impedir.
— Todos no mundo mágico tem um poder que pode ser perigoso se usado de maneira errada. — falou de onde estava, sem se conter. Foi um mero impulso, mas quando notou o que tinha feito, se levantou também. — São as leis que deveriam garantir a ordem. Sair eliminando qualquer bruxo só porque ele é poderoso não faz sentido. O Mago era o bruxo mais poderoso que vocês conheciam e foi colocado como líder, não exterminado. É assim que as coisas devem ser.
— E o Mago, quem vocês escolheram como líder, era como nós. — Hyejin continuou. — A pessoa em quem vocês mais confiavam era um bruxo das sombras. E se isso não basta para vocês, pensem então na quantidade de tempo, anos, que vocês vivem entre bruxos das sombras sem saber.
Um novo alvoroço se instalou com a fala de Hyejin. As pessoas não gostaram de saber que havia outros bruxos das sombras além deles soltos por ai. O próprio conselho pareceu vacilar com aquela notícia, tão preocupados quanto o resto das pessoas.
— De quantos bruxos estamos falando? — uma das pessoas no conselho perguntou, olhando para Hyejin de forma claramente preocupada.
A mulher deu de ombros.
— Muitos, mas não vou dizer quantos, assim como não vou dizer também como nos escondemos. Foram essas informações que garantiram nossa segurança. E o conselho nunca nos deu motivo para confiar nele.
As pessoas ao redor voltaram a cochichar, mas o conselho em si, ficou em silêncio. Aparentemente, tinham chegado a um impasse que ninguém sabia como resolver.
— Eu não vou sugerir uma votação, porque não é justo que vocês simplesmente decidam por nossa vida assim. — Hyejin voltou a falar após alguns instantes. — Mas não vamos mais nos esconder, e estamos juntos. Mexer com um de nós é mexer com todos.
— Está ameaçando a ordem novamente? — o mesmo homem do conselho voltou a perguntar. não tinha idéia de quem ele era ou que classe ele representava.
— Não, a última coisa que nós queremos é ameaçar a ordem. Queremos apenas o direito de viver em sociedade sendo quem somos. Eu quero que nos deixem em paz, mas estou informando que se formos atacados sem motivo, iremos revidar. Não porque queremos uma guerra, mas porque queremos o direito de sobreviver.
Diante de sua fala, algumas pessoas nas arquibancadas começaram a se levantar. Muitas pessoas. Parecia totalmente aleatório a princípio, deixando confusos todos os que ficavam para trás, mas quando as sombras ao redor dessas pessoas começaram a se manifestar de forma diferente, a intenção ficou clara. Todos eles eram bruxos das sombras, e estavam se revelando para ficar ao lado de Hyejin. Todos queriam liberdade.
Como o esperado, os bruxos de outras classes que estavam presentes na audiência se assustaram com o que estava acontecendo. Ninguém esperava que houvesse tantos bruxos das sombras ainda vivos, especialmente andando por ai normalmente, entre as demais pessoas. As vozes começaram a se exaltar, mas Hyejin voltou a falar, usando magia para se fazer ser ouvida por todos:
— Todos esses bruxos das sombras vivendo normalmente por ai são a prova de que podemos viver em sociedade de forma segura. Dois de nós cometeram um erro no passado, e um bruxo da luz cometeu um erro no presente. Isso mostra que a maldade não está em uma classe de bruxos e sim nas pessoas. Eu quero que possamos viver em paz, e para isso, sugiro um pacto de reintegração entre todas as classes mágicas. Um pacto que não será selado com palavras ou uma mera assinatura, e sim com magia, como nossos antepassados faziam.
— E como você sugere fazer isso? — Jaehyun perguntou, interessado.
Estavam no meio de um impasse, e não tinha mais o que fazer. Bruxos das sombras existiam, era inegável. As opções ali eram decretar paz, ou uma guerra, e esperava que ninguém quisesse uma guerra.
— Cada classe mágica escolhe um representante para selar o acordo aqui no palco. Vamos unir nossas magias e jurar que, enquanto o pacto estiver intacto, nenhuma classe poderá se revelar contra outra sem que a magia se volte contra quem quebrar o juramento. Um pacto desse tipo será capaz de garantir a paz sob qualquer circunstância. Bruxos não poderão mais simplesmente atacar uns aos outros com magia.
— E como vamos nos proteger se não pudermos usar magia uns contra os outros? — alguém na platéia questionou. — E nossa força policial, como vai conter as pessoas assim?
— Proteger contra o que exatamente se não pudermos usar magia para machucar uns aos outros? — Hyejin perguntou. — Se é tão importante assim para vocês poder usar magia com esse fim, podemos delimitar melhor as cláusulas antes de selar o pacto, mas eu espero que vocês se lembrem bem de quem está sugerindo isso.
— O conselho já tem um representante de cada classe de bruxo, exceto por um bruxo da luz, agora que Siwoo está preso, e um bruxo das sombras. Sugiro discutir as cláusulas em reunião fechada e selá-lo em público assim que tudo estiver decidido. — Jaehyun falou.
— Por mim está perfeito. — Hyejin respondeu. — Serei a representante das sombras. Precisamos apenas de um representante para os bruxos da luz.
— Seguindo o padrão, Kim deveria ser o próximo representante do conselho. — Jaehyun falou. — Como já foi provado diante do soro que o clã Kim não participou de nenhuma conspiração contra nós, acredito que não exista qualquer problema dele assumir o cargo.
Ao contrário do que esperava, ninguém pareceu disposto a discutir sobre assumir aquele papel. Jaehyun esperou alguns instantes, como se também imaginasse alguma resistência, mas quando nenhuma manifestação foi feita, ele pediu que se levantasse para se juntar ao palco.
Alguns instantes depois, todos os membros do conselho entraram para discutir o pacto em uma sala particular, restando aos demais apenas esperarem uma decisão do lado de fora.

🔮🔮🔮

— Quanto tempo mais isso vai demorar? — sussurrou, sentado em seu lugar nas cadeiras atrás do palco. tinha se juntado ao clã quando o conselho entrou com , e Hyejin. Estava ao seu lado, com Mochi deitado em seus pés como um cão de guarda gigantesco.
Cada vez que um guarda se mexia por perto, Mochi o acompanhava com o olhar, pronto para atacar, e notou que a ameaça velada fazia com que eles se mexessem cada vez menos.
Seria engraçado se a situação toda não fosse tão tensa.
— Imagino que nem todos lá dentro sejam tão receptivos com os bruxos das sombras quanto Jaehyun. — respondeu. — E eles devem estar ainda mais insatisfeitos com isso considerando que e estão claramente do lado deles.
— Mas não é como se tivesse muito a se fazer. — falou também. — Tem tantos bruxos das sombras quanto qualquer outra classe aqui. As opções são deixar eles em paz ou iniciar uma guerra.
— Eu tenho certeza que a velha guarda adoraria uma guerra. — comentou, e revirou os olhos.
— Então que se matem sozinhos. Ninguém liga.
— Bom, pelo menos metade da situação nós podemos dizer que já está resolvida. — comentou também, e o encarou como se ele fosse louco.
Nada parecia resolvido para ele, muito pelo contrário. Só ficava cada vez pior.
— Não me olhem assim. — continuou quando todos o encararam da mesma forma. — Provamos para todas essas pessoas que não estávamos conspirando contra o conselho ou contra o Mago. Ao invés disso provamos que quem estava conspirando era Siwoo. Isso livra nosso pescoço e também o do .
— Podemos até ter provado que não estávamos nisso com o objetivo de conspirar contra ninguém, mas só vamos estar realmente livres se esse pacto der certo e eles libertarem . — respondeu. — Se decidirem condenar os bruxos das sombras, de qualquer forma, o teremos escondido. Ainda vamos estar encrencados.
— Pode ser, mas como você disse, não tem o que fazer. As opções são liberdade ou guerra. — argumentou.
Antes que a conversa pudesse continuar, a porta da sala onde o conselho tinha se reunido se abriu, e a tensão apenas aumentou no local. prendeu a respiração, sentindo o coração praticamente sair pela boca. Todo seu destino e também do clã seria decidido agora. Não sabia se realmente estava preparado para o que viria agora.
O silêncio que se alastrou ao redor era quase palpável. Ninguém ousou falar nada enquanto as pessoas se reuniam de volta ao palco. Jaehyun, como era de se esperar, estava no centro, e foi ele quem começou a falar:
— As cláusulas do acordo foram discutidas e, para evitar o pior, iremos selá-lo. — disse ele, fazendo suspirar aliviado. segurou sua mão, e o encarou com um sorriso sem conseguir se conter. Era a primeira notícia razoavelmente boa em dias.
Imediatamente, algumas pessoas comemoraram enquanto outras começavam a aumentar suas vozes, soando exaltadas. Provavelmente os que eram contra isso. Diante daquela manifestação, Jaehyun continuou seu discurso:
— Bruxos das sombras existem, eles estão entre nós, sempre estiveram, e não podemos apenas fechar os olhos para isso. A única coisa que eles estão pedindo é o direito de viver em sociedade como todos nós. Não podemos apenas exterminar toda uma classe de pessoas inocentes devido ao erro passado de apenas dois indivíduos. Se for assim, teremos que exterminar todas as classes que já cometeram algum crime em algum momento. O pacto será feito para garantir a segurança de todos nós, e a única outra opção além dessa é iniciar uma guerra aqui e agora. — argumentou ele, e apenas quando as pessoas voltaram a se acalmar, ele continuou. — Iremos ler as cláusulas e o pacto será selado em público com magia, garantindo seu cumprimento.
— Não podem nos obrigar a seguir regras que nós não discutimos! — alguém gritou na plateia. buscou a pessoa com o olhar, vendo um homem de pé no meio da multidão.
— Na verdade, nós podemos sim. — Jaehyun respondeu. — Cada classe tem um membro no conselho por isso. Vocês escolheram seus representantes e tudo que está aqui nesse papel foi acordado por ele. O objetivo do conselho sempre foi decidir pelo bem da maioria das pessoas e é exatamente isso que estamos fazendo. Sente-se, por favor, para que possamos começar.
O homem não pareceu feliz, ele obviamente queria discutir. Algumas pessoas ao redor concordaram com ele, insatisfeitos com aquela resposta, mas quando alguns guardas começaram a se mover até lá, o homem resolveu se sentar em silêncio para que Jaehyun finalmente pudesse fazer seu trabalho.
Sem mais delongas, ele começou a ler o que havia sido acordado enquanto letras douradas surgiam atrás dele, mostrando para todos o que estava escrito no contrato em suas mãos. O pacto reconhecia formalmente a existência dos bruxos das sombras como parte legítima da sociedade e proibia qualquer ato de descriminação e extermínio. O pacto também garantia o direito aos bruxos das sombras de gozar das mesmas garantias, direitos e proteção legal como qualquer outro cidadão mágico, assim como também todas as obrigações e deveres.
O pacto também garantia a reintegração dos bruxos das sombras no conselho, com um representante fixo como qualquer outra classe bruxa. Como era de se esperar, o cargo foi designado para Hyejin, que já tinha sido escolhida por eles como porta voz.
Para a proteção das demais pessoas que se sentiam ameaçadas diantes dos bruxos das sombras, criou-se uma cláusula de emergência, onde, em caso de ameaça real e comprovada, a ONIM podia usar de medidas excepcionais de contenção e força bruta. Porém, isso valia para qualquer ameaça, e não apenas quando vinda de bruxos das sombras.
Por fim, o pacto seria selado com renovação a cada dois anos para garantir ajustes práticos. Todas as renovações seriam feitas em audiência pública, prezando a integridade do acordo.
O pacto criava uma trégua forçada, mas era exatamente aquilo que a sociedade precisava para se unificar novamente.
Quando a leitura chegou ao final, todos os representantes se reuniram em um círculo no meio do palco, um de frente para o outro. Através de um ritual que não entendeu bem, o pacto foi finalmente selado, formando uma espécie de barreira mágica ao redor do conselho, que se espalhou para fora em seguida. Primeiro para todas as pessoas ali na audiência, e depois para o resto do território.
Ninguém tinha dúvidas de que muitas pessoas estavam insatisfeitas com aquela resolução, mas não havia mais nada a ser feito. Quem quebrasse o pacto seria punido, e isso garantiria não só a ordem no mundo mágico, como também a sobrevivência de toda uma espécie.

🔮🔮🔮

Mesmo após dispensar todas as pessoas do auditório, ele demorou para ficar totalmente vazio. Muita gente não estava feliz, mas com o pacto selado, não havia nada mais a ser feito além de reclamar.
Por fim, apenas o clã Kim ficou lá, junto de Jaehyun, Hyejin e . Ele sentia que Hyejin queria falar com ele tanto quanto ele mesmo estava cheio de perguntas para ela. Imaginava que, durante a reunião para decisão das cláusulas do pacto, ela tinha explicado muitas coisas para o conselho, e ele adoraria saber de todas elas.
Quando Hyejin se aproximou de e do clã, com Jaehyun ao lado, Mochi a acompanhou com o olhar atento, como se quisesse ter certeza de que ela era confiável. Sem se abalar, a mulher apenas revirou os olhos.
— Estamos só nós aqui, já pode parar com isso. — ela falou para ele, acariciando sua cabeça. Mochi imediatamente se jogou no chão, com a barriga para cima feito um gatinho doméstico, e o encarou em completo choque.
— Você só pode estar brincando!
— Ele só é dócil com quem merece. — Hyejin se abaixou para fazer carinho em sua barriga, e sinceramente não soube dizer se quem estava mais chocado era ele ou , que vivia para brigar com o bicho.
— Ele só é dócil com minha irmã de cinco anos. — retrucou, ainda indignado, e Hyejin deu de ombros.
— Como eu disse, com quem merece.
— Akos tem um jeito peculiar de demonstrar amor, mas é o familiar mais fiel e protetor que eu já conheci. — Jaehyun falou, olhando para o animal cheio de carinho. Sendo ele próximo do Mago até então, era evidente que conhecia Mochi muito mais do que qualquer um ali.
sentiu certo ciúmes, mas guardou o sentimento para sí mesmo.
— Vou continuar chamando ele de Mochi. — resmungou, recebendo um rosnar em retorno. — Vai morar na minha casa, vai se chamar Mochi sim. — insistiu, mostrando a língua para o animal.
— Você deu o nome de Mochi pra um tigre dourado? — Hyejin perguntou, finalmente parecendo chocada com alguma coisa.
— Ele não era um tigre quando apareceu pra mim, era só um gatinho minúsculo. — se defendeu.
— E perturbado. — concluiu.
— Você fica esperto que não é só o seu fone que ele vai comer agora, ele te devora inteiro com uma bocada só. — comentou, acompanhando interessado o carinho que Hyejin fazia no bicho.
— Boa sorte pra ele. — desafiou, e Mochi o encarou com o olhar cheio de ameaça.
— Podemos discutir sobre Mochi depois? — interrompeu a conversa, e também recebeu um rosnar do ex gato de estimação. — Akos, que seja. — se corrigiu, sem deixar de revirar os olhos também. — Não sou só eu que estou cheio de perguntas, sou?
— Pergunte. — Hyejin respondeu, entendendo que aquilo era para ela. A mulher finalmente se afastou de Mochi, e o tigre resmungou insatisfeito, xingando no percurso. Ele escolheu ignorar.
— Onde ficamos agora? Com esse pacto? — quis saber.
— Bom, não espero que sejamos aceitos simplesmente, sem preconceito, mas quem quiser se revelar como um bruxo das sombras, vai poder fazer isso agora. Acho que isso basta por enquanto. — Hyejin respondeu.
— Como vocês se esconderam durante todo esse tempo? — perguntou também.
— Antigamente, na época da caça às bruxas, os anciãos usavam um feitiço para aprisionar a magia dentro dos bruxos, para que eles não acabassem expondo seus poderes sem querer. — ela explicou, e se lembrava daquela história, era a mesma magia que acreditava ter sido usava para prender seus poderes. — Yoonjae adaptou esse feitiço de uma forma que ele impedisse as pessoas de sentir nossa verdadeira essência, mas que não nos impedisse de fazer feitiços básicos, que não necessariamente precisam da parte das sombras do nosso poder. Basicamente, manipulamos magia, mas não as sombras. As pessoas ficavam confusas por não conseguir sentir qual era nossa classe, mas não é como se isso fosse uma grande novidade, algumas pessoas tem pouca magia e realmente não dá pra sentir. Só precisamos mentir.
— Certo, mas se ele conhece essa magia, então porque ele foi atrás de um livro para tentar me salvar? — voltou a questionar. Se era o mesmo feitiço, então por que ele precisou morrer por isso?
— Ah, querido. Não era o mesmo feitiço. — ela respondeu, parecendo lamentar muito por isso. questionou mentalmente quão próxima ela era de seu pai, mas guardou aquela curiosidade para depois. — Ele achou que era também, mas não deu certo quando ele tentou desfazer.
— Ele tentou desfazer? Quando? Eu não cheguei a conhecê-lo.
— Não vou saber os detalhes, mas você provavelmente esbarrou nele por ai sem saber mais de uma vez. — disse ela, deixando-o surpreso novamente. — Yoonjae nunca te abandonou completamente, ele acompanhava sua vida de longe. — explicou, e sentiu novamente aquela pontinha de dor em seu peito, por saber que sempre existiu alguém por ai que se importava com ele, e nunca chegaria a conhecê-lo.
— Ele manteve sua identidade em segredo, por segurança, mas esteve sempre por perto. — Jaehyun concordou. — Aparentemente, o feitiço que usaram em você era muito mais antigo. Seu pai até acreditava ter a força para quebrá-lo, mas ele não sabia como ou qual era o encantamento. Foi então que ele teve essa pista, dessa bruxa muito antiga que conhecia o seu avô por parte de mãe. Ele foi atrás dela e descobriu que a mulher criava feitiços com magia negra por mera diversão. Ela tentou levar seus segredos com ela para o túmulo, então Yoonjae meio que já sabia dos riscos quando encontrou aquela caverna.
— E porque ele escolheu contar isso ao Siwoo? Ele podia ter te levado. — questionou.
— Eu disse, ele sabia os riscos. Ele não esperava sobreviver. Siwoo era uma desculpa, quem sabia de tudo era Akos. Akos era a pessoa de confiança ali, era ele quem estava protegendo a verdade e também o paradeiro do livro.
— E porque ele demorou tanto então pra simplesmente mostrar o que ele sabia? — voltou a perguntas, pensando em todas as coisas que poderiam ter sido evitadas.
— Ele precisava saber em quem confiar e garantir que o livro não cairia nas mãos erradas. Akos fez o que precisava, e graças a ele, vocês estão livres agora.
olhou para Mochi, sentindo-se meio frustrado. Todo esse tempo ele teve todas as respostas e as guardou para si, mas conseguia compreender o que Jaehyun queria dizer. Tudo tinha se resolvido de forma muito melhor do que ele esperava no final. Só faltava agora resolver o seu próprio problema.
— Se a magia nesse livro é tão poderosa, vamos conseguir usá-lo para me libertar sem o Mago? — voltou a perguntar, sentindo um pouco de medo da resposta.
— Ele já tinha pensado nisso também. — Hyejin voltou a responder. — Vamos fazer um ritual, mas não entre o clã Kim. Vai ser um ritual com o nosso clã, de bruxos das sombras.


Continua...


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Nota da autora: Olá, mais dois capítulos! Espero que tenham gostado!!
Além disso, queria agradecer imensamente a todos que estão lendo <3. Vocês levaram OPDS até as constelações de ouro!! Obrigada! Fiquei muito feliz, de verdade! E quem quiser me encontrar por ai, estou no twitter. Meu user é @love4jeonjk
Até a próxima!


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