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Independente do Cosmos🪐

Última Atualização: 20/02/2026




A música alta tocava pelo antigo galpão ferroviário abandonado, havia uma multidão de jovens pouco se importando se o barulho estava demais para os arredores da região. Onde estavam, a polícia não tinha qualquer jurisdição ou autoridade, devia ser por isso que mal se preocupavam se uma viatura apareceria do nada para acabar com a festa regada a bebidas, drogas, contrabando e sexo.
Os jogos de luzes improvisados batiam contra o ambiente precário do galpão, alternando entre várias cores dentro do ambiente amplo — mas que estava começando a ficar apertado pelo tanto de gente.
Embora a maioria se misturassem, havia uma disputa entre duas gangues para tomar o controle total da pequena cidade de Ravenport. Aquele galpão, onde a festa acontecia e as drogas rolavam sem qualquer impedimento, era a zona neutra dos Corvos e dos Serpentes, nenhuma das gangues assumia o controle do armazém. Então ninguém se preocupava com o que acontecia em noites como aquelas.
O cheiro da ferrugem se misturava com a maresia, cigarros e bebidas, dando ao ar um peso que só aquele lugar conseguia carregar. Olhares entre os Corvos e serpentes eram trocados de formas nada discretas, em uma declaração silenciosa para ninguém se atrever a ultrapassar algum limite o qual levaria a consequências que nenhum deles queria lidar naquele momento. Porém, não conseguia evitar, seus olhos declaravam guerra a qualquer Serpente que ousasse olhá-lo por mais de alguns segundos. Ele não estava ali por vontade própria, tão pouco estava feliz com isso. estava ali por causa de , sua irmã mais nova. Ela só tinha 18 anos e estava andando com alguns Serpentes. Isso deixava seu irmão irritado, até porque, ele não confiava nem nos próprios Corvos, quem diria em alguém da outra gangue.
Ele estava bebendo, sentado em uma passarela que lhe dava a visão de todos ali embaixo, vigiando cada passo de sua irmã, e obviamente, dos Serpentes. Até que seus olhos astutos perceberam algo que o deixou ainda mais atento. estava sentada em um sofá, e tinha um cara, que no mínimo deveria ser cinco anos mais velho que ela, e o idiota passava a mão na perna da garota, a apertando de forma nada sutíl. respirou fundo, e seu olhar voltou para a garota, querendo ver a reação dela, porém, tudo o que viu foi seu sorrisinho, claramente chapada.
levantou, puxando seu corpo para cima ao segurar na barra de ferro que cercava a passarela, e foi andando em passos pesados e firmes até a escada enferrujada que daria acesso à parte debaixo do galpão.
Em poucos minutos ele já passava por entre as pessoas indo em direção aos Serpentes, sem se importar com os olhares em aviso que eram lançados em sua direção. Até que parou na frente do sofá, e sequer se deu ao trabalho de abrir a boca, apenas pegou pelo braço, e a puxou para cima, fazendo com que se levantasse bruscamente.

— Ai, você está me machucando — a garota reclamou, fazendo uma careta enquanto tentava manter seu corpo mole de pé, sem ficar balançando para frente e para trás.
— Não, eu não estou. Vamos embora — declarou, irritado com aquela situação.

Do outro lado do sofá, passando informações de um atalho para uma possível rota de fuga caso um dos planos arquitetados não desse certo e acabasse colocando os Serpentes em risco, precisou olhar de relance duas vezes para o que estava acontecendo diante daquela parte do armazém. não precisou de muito mais que dois segundos para reconhecer que, como sempre, se tratava dos Corvos querendo chamar a atenção.
revirou os olhos, ponderando se iria ou não se intrometer em assuntos que não lhe convém, mas acabou praguejando baixo um palavrão.
Aquele poderia ser um ambiente neutro, porém a paz era selada por uma fina e frágil camada de vidro. Se pressionassem um pouco, trincaria. E depois disso, a guerra começaria em um piscar de olhos.

— Vai com calma, Corvo — falou em um tom manso e ponderando, porém um pouco alto. Não quis se levantar para ir até aqueles dois, mas ainda assim tentou intervir a possível cena.

O olhar de vagou até a voz que chamou sua atenção, e ele mediu lentamente , até encarar seus olhos com certo fervor.

— Eu estou calmo — respondeu com sua língua afiada, e puxou contra seu peito.
, me solta. Eu não vou embora. — Sua irmã tentou se soltar da mão firme que segurava seu pulso.
— Eu não estou pedindo, estou comunicando que vamos embora — avisou em um tom ameaçador para a garota.
— Solta ela, cara — o Serpente que até então estava com se pronunciou, percebendo que não a deixaria em paz.

Antes que o Corvo se pronunciasse novamente, o homem puxou pela cintura, fazendo com que ela caísse em seu colo dando uma risadinha travessa.
respirou fundo, certo de que aquilo daria uma merda muito grande. A prova eram as pessoas ao redor que até já tinham parado de dançar e agora os encaravam curiosos e, até mesmo, assustados; alguns já puxavam os celulares, apontando em sua direção, certos de que presenciariam — ao vivo e a cores — mais uma das brigas entre as gangues.
então se viu na obrigação de levantar, coçando o rosto em completo tédio. Ele odiava chamar a atenção por esses motivos pequenos; definitivamente odiava também a violência, sem qualquer precedentes, que começaria se nada fosse feito.

— Essa é uma zona neutra — ele falou, se colocando perto dos três idiotas que estavam a ponto de acabar com a diversão da noite. Então agora seus olhos pragmáticos se voltou para o Serpente. — A menos que queira começar uma guerra, aqui e agora, por conta de uma garota, continue segurando ela — falou em um tom de ameaça.

Quando o rapaz pareceu ponderar por alguns segundos e depois soltar a garota, rolou os olhos.

— Foi o que eu pensei — desdenhou. Seus olhos seguiram para o Corvo, não o conhecia, não sabia sequer seu nome, mas já tinha decidido que não gostava dele pela simples cena que queria armar. — Pegue a garota e volte para o seu lado do armazém — falou baixo.

segurou sua irmã pela cintura para que ela não saísse de perto dele dessa vez, então olhou para , tendo que erguer um pouco seu rosto por perceber que o cara era mais alto e maior que ele. Seu olhar sequer se intimidou por aquilo, ele não se importava com isso, enfrentaria até dois do tamanho do sujeito sem nem pestanejar.

— Como é? — perguntou afrontoso. — Agora essa porra tem lado? Zona neutra até onde eu saiba, é neutra.
— Não pareceu nenhum pouco neutra para você ainda a pouco — respondeu, o semblante completamente calmo e até aparentando mostrar tédio.
— Para com isso, pediu, começando a ficar preocupada.

Ela sabia que o irmão não era alguém que tinha muita paciência, especialmente para lidar com as pessoas, em especial; Serpentes. a olhou e riu de forma sarcástica.

— Hm, agora você quer que eu pare? — Ele encarou sua irmã com os olhos levemente estreitados.

Para , aquilo estava acontecendo porque começou, ele só estava tentando impedir que algo pior acontecesse.
continuou assistindo aquela cena com tédio em seus olhos e em sua linguagem corporal. Era basicamente isso que estava sentindo mesmo. Ele já tinha resolvido o problema, já tinha feito o Serpente soltar a garota, era só o Corvo parar de palhaçada e voltar para onde sequer deveria ter saído. via que ele estava querendo briga, e isso o fazia querer rolar os olhos a cada cinco segundos. Então ele fez o que sempre fazia quando os palhaços faziam graça demais para conseguir sua atenção: deu as costas para o Corvo e a garota, seguindo bem para onde estava antes e voltou a conversar com seu colega, explicando o mapa que tinha desenhado. Como se nada tivesse acontecido.

— Viu, não tem ninguém querendo arrumar briga aqui, só você! — reclamou, nervosa com a situação. — Agora para de agir como se fosse a porcaria de um namorado ciumento, e me deixa curtir a festa.

riu de leve, e apenas a soltou para segurar seu pulso e sair puxando ela para longe daqueles homens, a levando para o lado onde tinha mais Corvos, e a largou entre eles. Ninguém ali ousava colocar a mão em , sabiam como poderia ser brutal quando estava irritado, ele não tinha a menor piedade.
A garota deu uns passos à frente, cambaleando e se virou, irritada, olhando para o irmão, e bufou contrariada, sabia que não conseguia medir forças com ele. Então, ela ajeitou sua saia e cabelo, e saiu andando, mas não foi para muito longe, e começou a dançar com as pessoas como se nada tivesse acontecido. era ótima nisso, em fingir que a realidade ao seu redor sequer existia.
Dentro dos Serpentes, embora fosse respeitado, era visto como “distante demais”. Ele não brigava com garras e dentes para defender a honra da gangue, e odiava o exibicionismo que alguns tinham por estarem participando dos Serpentes.
Devia ser por isso que, de todos, ele era o mais afastado da “família” que tinham se tornado. Fazia parte, claro, mas não com toda a devoção e entusiasmo com que estavam acostumados a ver. A verdade, que muitos não queriam enxergar, mas que tinha visto desde muito novo, era que sua gangue poderia ser tão predatória quanto os Corvos.
Após passar as informações que julgou necessária para um dos membros dos Serpentes, se deixou levar pela música alta e bebida. Ainda era jovem, afinal de contas. Seguiu para o bar, porém, ao passar pela multidão de gente que dançava se esfregando uma a outra, sentiu quando uma mão tocou seu ombro e escorregou rapidamente até seu braço, o puxando de leve.
Ao olhar para o lado, estreitou os olhos. Era a mesma garota que estava no colo de um dos idiotas machões com quem era obrigado a conviver.

— Dança comigo — ela pediu, perto demais do seu ouvido.
— Cadê seu pitbull? — perguntou em desdém, se referindo ao rapaz que tinha ido em panos quentes tirar ela do lado dos Serpentes.

A garota riu, puxando mais para si.

— Não sei do que está falando.

Aquele tom e também o olhar inocente não o enganava, a garota além de se fazer de sonsa, estava chapada.

— Escuta, por mais que seja bonitinha, você não vale o risco de uma briga que eu nem quero participar — falou, direto e certeiro como sempre.
Pensou que isso afastaria a garota, geralmente era o que acontecia com todas as outras quando abria a boca e era sincero até demais.
— Só uma dança e eu te deixo em paz — Ela insistiu, sorrindo de lado.

olhou ao redor antes de responder. Não por medo, mas por precaução. Quando não viu nada que pudesse representar perigo a si mesmo, seus olhos astutos voltaram para a garota.

— Uma dança, garota do Corvo, mas sem se esfregar — alertou.

sorriu abertamente e já puxou para si. Ousada e astuta, ela pegou as mãos de e colocou em sua cintura antes de passar os braços por seu pescoço.
A música era uma batida animada de uma melodia pop chiclete que nem se deu ao trabalho de prestar atenção, ele só se deixou levar pelo ritmo e balanço que a garota o guiava.
tinha voltado para a passarela que cortava o armazém, não tinha perdido sua irmã de vista como ela achava. Ele a vigiava, como um corvo fazia, mas de longe, esperando por qualquer coisa que viesse acontecer para ele ter uma boa razão para socar um Serpente essa noite.
A garota estava olhando fixamente para o rosto de , enquanto seus dedos finos iam subindo pela nuca dele, mas desciam depois, deixando que suas unhas finas e pontudas arranhassem a pele dele, em uma singela provocação.

— Você não me disse seu nome — falou, levando seu rosto para perto do de .
— Serpente — O rapaz respondeu sem sequer pensar. Uma forma de alertar a garota onde e com quem ela estava se metendo.
— Isso já está mais do que claro, a tatuagem de serpente no pulso entregou tudo — rebateu, colando mais seu corpo ao dele.

estreitou os olhos para ela, medindo seu rosto de cima abaixo. Até que ela era bonitinha, mas não valeria a pena a dor de cabeça que viria a seguir.

— Não sei quem está tentando irritar, mas não vai conseguir me usar para isso — Ele a alertou, mas continuou dançando. Uma coisa não tinha nada a ver com a outra.
não se deixou abalar, e riu de leve. Suas unhas finas passaram pela nuca do rapaz e a arranhou mais forte dessa vez. Foi impossível refrear o leve arrepiar que a pele de deu.
— Diz uma coisa, mas seu corpo mostra outra — A garota murmurou, passando a ponta do seu nariz pelo maxilar de em pura provocação.

não conseguiu ver nada naquele momento, por todas as luzes do armazém se apagaram, assim como a música que parou. A energia tinha acabado. As pessoas começaram a gritar e vaiar em reprovação. Porém, viu isso como uma vantagem, e segurou a mão de agora, o puxando para qualquer canto. As pessoas ligavam as lanternas dos celulares para conseguir ver algo, mas nesse momento, tinha perdido sua irmã de vista, e isso o deixou irritado.
Ele levantou rapidamente de onde estava e segurou no corrimão de ferro, tentando achar em qualquer lugar, mas não conseguia, e isso o fez praguejar. Então, ele desceu rapidamente para tentar encontrá-la e avisou aos outros Corvos que sua irmã tinha sumido.

— O que pensa que está fazendo, garota? — se viu na necessidade de perguntar.

Podia estar escuro, mas ele percebeu facilmente que o puxava mais para o canto do armazém, bem na parte que era praticamente desativada.

— Quero me divertir com você — ela respondeu, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
Sempre pragmático, travou os passos e por ser mais forte que ela, impediu que continuasse.
— Já disse que não vou bancar a fagulha para a explosão que você quer criar — disse, agora mais sério.
— Você fala demais, calado é um poeta — contrapôs irritada, e simplesmente virou em direção a .

A próxima coisa que sentiu foram os dedos esguios segurarem seu rosto e então os lábios de já estavam nos seus. Eles eram macios e quentes, mesmo que se preparasse para empurra-la. Sua tentativa nem chegou a ir para frente, já que enfiou a língua em sua boca sem esperar por permissão. Automaticamente a mão de seguiu até os seus cabelos e os enroscou pela nuca, dando uma pequena volta em sua mão. Bom, se ela queria um beijo, tinha acabado de conseguir.
chupou sua língua, e o gosto de álcool se misturou à própria boca, mas isso não o fez parar. Ouviu quando ela suspirou e o sorrisinho em seus lábios foi o suficiente para querer continuar. Passou sua língua pela dela, por baixo e pelo lado, antes de girar o beijo e tomar o controle da situação. arfou com isso, e quase perdeu o equilíbrio por estar na ponta dos pés.
percebeu, e logo sua mão livre se posicionou em sua lombar; tanto a puxando para mais perto, quanto para lhe dar estabilidade.
O beijo que começou um tanto afobado, foi se tornando mais rápido e intenso. não queria parar, não via motivos para pará-la, então continuaram daquela forma. A garota começou a dar uns passos cegos para trás, puxando o Serpente consigo, até que ela escorou por uma porta, e deu um sorrisinho com isso. Então, soltou o pescoço dele apenas para tentar girar a maçaneta, e conseguiu. soltou uma risadinha, e puxou pela camisa para dentro.
O lugar era um escritório velho, tinha alguns arquivos, prateleiras, um sofá de couro todo rasgado, e uma mesa grande de madeira. A garota apenas fechou a porta e se virou, pegando o celular no bolso e iluminou o lugar, então foi até a mesa e se sentou, com suas pernas abertas.

— Vem cá… — chamou como uma gata manhosa.

riu malicioso, agora muito mais entregue ao momento do que minutos atrás. Bem, ele tinha tentado dar um chega para lá na garota dos Corvos, mas além de insistente, ele não viu mais nenhum outro se aproximando dela para tirá-la de perto dele.
A lanterna do celular agora apontava para cima, mas a luz indireta iluminava parcialmente o local, dando a a visão de suas pernas abertas. Ele passou os olhos por ela, uma vez e depois outra, até começar a dar passos lentos em sua direção. Se colocou entre suas pernas e levou as mãos por suas coxas apertando com certa força e depois subindo perigosamente os dedos por dentro do tecido da saia, mas antes de chegar perto da calcinha, ele logo descia. Gostava de provocar, era excitante para ele.

— Você está me deixando molhada com isso — disse, choramingando e tentando empurrar de leve seu quadril contra sua mão. — Minha calcinha é de algodão, e está ficando tão encharcada…
O que disse fez respirar fundo e sorrir ainda mais malicioso.
— Já está molhada? — ele perguntou inocentemente, escorregando agora os dedos até a parte de dentro das suas coxas. — Mas eu nem fiz nada — soprou, subindo os dedos até que seu indicador tocasse no tecido da sua calcinha.

Foi um toque tão de leve, que nem deveria ser considerado um, de fato. A menina arfou de leve em frustração, e olhou safada para , e abriu um pouco mais suas pernas, desejando o toque dele mais do que qualquer coisa. Ela realmente estava muito excitada com toda a situação, principalmente pelo fato de saber que deveria estar como louco atrás dela por ter sumido da vista dele, e que qualquer um poderia encontrá-los ali, e especialmente por ser um Serpente.
sorriu um pouco mais pela reação que ela teve e então deixou que o seu indicador passeasse pelo tecido de sua calcinha, chegando perto das dobras e voltando. Realmente a mulher estava molhada, e o que ele estava fazendo só contribuia para que sua lubrificação molhasse ainda mais sua calcinha. Para , uma das melhores partes do sexo eram os jogos de provocações, o flerte, aquele sensação elouquecedora que o tesão trazia de descontrole. Ela se segurava para não pegar o pulso dele e fazer com que ele enfiasse os dedos logo nela, sua respiração estava pesada enquanto seus olhos travessos encaravam o rosto dele.
lambeu os lábios, e inclinou seu corpo ligeiramente para frente e alisou o pau dele por cima da calça, gemendo baixinho apenas para provocá-lo. O pequeno gesto fez respirar um pouco mais forte e, em resposta à atitude da garota, escorregou dois de seus dedos pela costura da calcinha.
lambeu os lábios e prendeu o próprio gemido ao sentir o quão molhada ela estava, seus dedos deslizaram deliberadamente até o clítoris da mulher e o circulou lentamente, fazendo pressão e parando sempre que a via arfar.
Ela sentia o quão isso fazia sua entrada ficar ainda mais úmida e quente, e tirava suspiros de seus lábios. Então, sua pequena mão começou a alisar o pau de por cima do jeans, mas isso parecia tão pouco para ela diante do que realmente desejava. Então, sem tirar os olhos dos dele, seus dedos esguios foram até o botão, o puxando, fazendo com que abrisse, e depois desceu pelo zíper, lhe dando espaço para colocar sua mão dentro da cueca dele agora e o segurar.

— Nossa, eu não esperava por isso — comentou safada, sorrindo, ao sentir a grossura dele.

não conseguiu conter o sorriso malicioso com o que ouviu.

— Não, e o que estava esperando, garota dos Corvos? — perguntou retoricamente, mas sequer esperou por sua resposta.

deixou seus dois dedos entrarem, e mordeu os lábios em tesão. Ela gemeu manhosa e abriu mais suas pernas, e empurrou de leve o quadril para frente.

— Algo menor, não muito satisfatório — confessou, dando uma risadinha. — Geralmente caras como você tem mais pose do que pau.

Dessa vez não conseguiu conter o sorriso arteiro que moldou seus lábios. Não podia negar, a garota tinha uma língua afiada e isso o divertia. Ele odiava quando ficava com pessoas e elas pareciam temer qualquer reação sua caso se soltassem um pouco mais. Como se, por ser um Serpente, ele fosse perigoso o tempo inteiro. Bom, ele era, mas isso não vinha ao caso.
Não a respondeu. Não com palavras, pelo menos.
curvou seus dedos e começou a estocar, indo mais forte. Isso a instigou, e fez sua mão alisar mais rápido em seu pau, sem tirar seus olhos dele. Se não estivesse tão excitada e querendo gozar primeiro só com os dedos de a fodendo, a garota iria se abaixar ali mesmo e enfiar o pau dele todo em sua boca, ela adorava ver a cara dos homens quando gozavam por causa dela.
Seu quadril começou a se mover na beirada da mesa, fazendo com que ela sentisse ainda mais prazer por os dedos dele estarem estimulando da forma como gostava, até que sua outra mão puxou seu pulso e trouxe seus dedos molhado até seu clitóris, querendo mais contato naquele ponto que estava extremamente sensível.

— É isso que você quer? — perguntou, apertando o polegar em seu clítoris inchado, o esfregando com pressão, ao mesmo tempo em que seus dedos aumentavam o ritmo.

Porra, seu pau estava mais do que duro, ele o sentia pulsar de desejo.
Quando viu a garota no colo do Serpente mais cedo, jamais imaginaria que seria ele a estar com ela de pernas abertas e gemendo daquele jeito tão safado enquanto a fodia com os dedos. A parte mais gostosa, era que ele sabia que aquilo o traria problemas se o cara que estava com ela descobrisse que os dois estavam quase transando. A ideia de, a qualquer momento, a energia do velho galpão voltar e alguém entrar pela porta atrás dele e os flagrar só instigava seus movimentos.

gemeu em total aprovação.

— Não — respondeu soltando o ar por entre seus lábios. — Eu quero gozar chamando o seu nome.

Os olhos dele se estreitaram. Filha da puta.

— Quer gozar chamando por um Serpente? — questionou, curvando novamente seus dedos, massageando seu canal e apertando o polegar em seu clítoris.
— Quero gozar chamando o seu nome — repetiu, gemendo mais forte, sentindo que estava quase chegando ao seu orgasmo.

chegou seus lábios perto dos seus e os lambeu, contornando com a ponta da lingua.

— sussurrou entre seus lábios, dando um selinho apertado logo depois. Ele não diria seu nome inteiro para uma garota dos Corvos, era mais esperto que isso. — Agora seja uma boa garota e goze chamando meu nome — mandou, acelerando o que fazia, em um ritmo fervoroso e intenso.
— Ah, … — gemeu exatamente como ele mandou, abrindo mais suas pernas e jogando a cabeça para trás, fechando seus olhos de forma apertada e mordendo seu lábio inferior. — eu vou gozar. — Soltou totalmente manhosa, masturbando ele ainda mais rápido agora, conforme a necessidade que ela sentia que ele também fizesse nela. — Não para, , não para — disse com a voz totalmente falhada, sentando as ondas, tomando seu corpo, e fazendo sua boceta pulsar nos dedos dele em antecipação ao orgasmo.

Nesse ponto, não estava mais contendo as próprias reações. Seu quadril estava se movendo em direção a sua mão, procurando mais contato e alívio a própria ereção que pulsava de um jeito dolorido e, ao ver que ela aumentou o que fazia, foi impossível não sentir seu pau ficando mais grosso e sensível, um claro sinal de que também gozaria. Mas, como não gozar tão rápido com aquela desgraçada gemendo daquela forma? Os dedos de estavam encharcados e ele sentia o quão apertado estava ficando, já que sua boceta se contraia com mais frequência agora. Obedecendo completamente o que pedia, ele não parou, estocando cada vez mais fundo, curvando os dedos e estimulando o seu ponto de prazer, tendo o seu próprio intensificado por aquele ambiente repleto de gemidos.

. Ah, … eu… eu to gozando… — ela gemeu para ele, se desfazendo em seus dedos, totalmente prazerosa, arfando com a sensação do orgasmo dominando seu corpo.

A mão dela continuou se movendo rápido enquanto ainda estava na onda do prazer gostoso que sentia.
A reação que teve foi tão gostosa que ele só queria prolongar mais daquilo. não pensou muito, enquanto via praticamente gemendo como uma gata manhosa, continuou esfregando seu clítoris sem poupar seus movimentos. Seu pré-gozo começou a escorrer e, com os olhos grudados nos dela, ele soltou um gemido rouco e arrastado, deixando o próprio orgasmo vir sem segurá-lo mais. jogou a cabeça para trás, mordendo o lábio inferior com força ao ter aqueles tremores deliciosos atingindo cada terminação nervosa sua, relaxando seus músculos naquele prazer que atingiu o seu ápice e agora o levava para o alto. Parecia que sua mente tinha se dissolvido em fumaça e essa fumaça se tornaram nuvens que, naquele pequeno instante proibido, turvou sua mente.
deixou seu corpo ir para trás em um sorriso safado, soltando o pau de . Ela deitou na mesa, apoiando seus pés na beirada dela, e suspirou, fechando os olhos, e sorrindo de forma aberta.

— Até que você sabe usar os dedos — comentou, dando uma risadinha. — Costuma fazer isso com frequência?

Ele riu para ela, tirando seus dedos de sua boceta molhada e depois os lambendo enquanto a observava. se abaixou, ficando entre as pernas ainda abertas de e afastou sua calcinha, lambendo toda sua excitação. Deixou uma mordida no interior da sua coxa. A garota gemeu em satisfação com aquilo e soltou uma pequena risada, gostando daqueles toques.

— Isso tem importância? — ele respondeu tardiamente, deixando que o ar quente batesse perto de seu clítoris. — Você tem um gosto delicioso — confessou, passando novamente a língua por sua boceta.

Ela sequer conseguiu responder agora, apenas arfou em aprovação, sentindo que mesmo por ter acabado de gozar, estava ficando excitada de novo por causa daquele homem. Sua mão foi até os fios dele, e o alisou, mas se fechou em seguida com certa força e jogou seu quadril contra o rosto dele.

— Então prova mais — respondeu em tom de provocação, se deliciando com o que ele fazia com aquela boca gostosa.

As mãos de se fecharam em sua lateral, bem na calcinha, arrancando de suas pernas sem qualquer cuidado. Um segundo depois, e ele já estava se ajoelhando para ficar na mesma altura que aquela boceta gostosa e enfiou a língua em sua entrada, começando a fodê-la sem qualquer aviso prévio.

— Deus… — soltou, totalmente surpresa e desejosa, arqueando de leve suas costas. — Que delícia — sussurrou, passando a mão leve pelo seu próprio peito e o apertando, beliscando o mamilo.

saiu de sua entrada, sugando com certa força o seu clítoris — que provavelmente ainda estava sensível —, deslizando por seus dentes logo em seguida.

Eli. — Ele a corrigiu com um rosnado baixo, chupando novamente seu ponto sensível. — Deus não te faria gemer assim — disse, voltando com a língua para sua entrada, mas alternando agora entre fodê-la e subir até seu clítoris, o circulando e sugando com pressão.

Ela riu, mas acabou gemendo manhosa em seguida, torcendo seus dedos nos cachos dele. Seu quadril começou a se mover contra seu rosto novamente, enquanto seus gemidos saiam baixos e manhosos. Seus olhos se fecharam, ela se entregava àquela onda de prazer nova que lhe dava.

— gemeu como ele tinha a corrigido. — Depende, você poderia ser um deus — disse, travessa.

Aquela garota cheirava a problemas há um quilômetro de distância, soube no momento em que a viu. E, ainda assim, lá estava ele com a cara entre suas pernas e a boca chupando seu clitóris como se sua vida dependesse disso. Afastou os lábios um pouco, chupando seu dedo do meio e novamente a penetrando com desejo. Seus movimentos não eram nada lentos ou gentis, tinha percebido que ela não só gostava, como aguentava, então não se conteve. Abocanhava seu ponto sensível voltando a fodê-la com o dedo, enfiando mais um em seguida. Ele queria calar aquela boquinha atrevida, fazê-la se engasgar com os próprios gemidos e não ter mais nada assolando sua mente do que seu nome.

— Porra — ela resmungou entredentes se movendo na mesa, arfando e sentindo o quão seu corpo ia esquentando. — Eu preciso muito que você enfie seu pau em mim — disse totalmente fogosa.

não pensou duas vezes com aquele pedido, se afastou, levantando em seguida. Ele tateou os bolsos, procurando por sua carteira com certa pressa. Tinha certeza absoluta de que carregava um pacote de camisinhas ali. E por Deus, se não carregasse, ele sairia só para procurar por alguém que tivesse. Felizmente não precisaria ir a esse extremo, pois, como pensou, realmente tinha o preservativo em sua carteira. Não perdendo mais sequer um segundo, ele destacou e abriu o pacotinho com os dentes, deslizando o material por sua ereção — já dura outra vez. se aproximou novamente e pincelou sua glande por toda a boceta de , usando da lubrificação dela para deixar a camisinha ainda mais molhada.
A garota gemeu quase como alívio por sentir aquilo, e sorriu abertamente. Ela mordeu seu lábio inferior, movendo levemente seu quadril, então se sentou e puxou pelo pescoço, o beijando com vontade, enquanto passava suas pernas ao redor da cintura dele, querendo sentir logo o seu pau todinho dentro dela.
Seus dedos seguraram os cachos de , e os torceram ao passo que mordeu o lábio inferior dele e puxou. tinha um fogo inabalável, ela queria sempre mais, nada nunca era o bom suficiente, porém, o fato de ter conseguido a feito gozar apenas com os dedos, já a deixou surpresa, e obviamente, querendo mais daquele homem.
Retribuindo o beijo com tão ou mais fervor que a garota, levou a mão até o próprio pau e a posicionou em sua entrada, enfiando tudo de uma única vez. O gemido a seguir veio do seu peito, preso pela garganta e ele mordeu o lábio inferior da mulher com força, em resposta ao que faziam. Mal esperou que se acostumasse com seu tamanho e já foi estocando, movendo o quadril com agilidade e intensidade. Não eram todas as garotas que o deixava com tanto fogo assim, geralmente preferia ficar e transar com caras, mas aquela desgraçada estava fazendo algo em sua mente.
Ela gemeu alto contra seus lábios e os lambeu, até sua língua tocar a ponta de seu nariz, e não se intimidou nenhum pouco com a forma que as mãos do homem a pegava. começou a mexer seu quadril com fervor contra o de , querendo que ele fosse me gostoso contra ela. A garota voltou a beijá-lo com vontade, enfiando a língua e pegando a dele cheia de fervor, que chegava a arder seus lábios. Sua mão tocou o rosto dele e as pontas de suas unhas alisaram sua pele, para depois arranhar e segurar seu rosto, afastando seus lábios. Mas antes que suas unhas marcassem o rosto do homem, ele segurou seu pulso, a impedindo. não sabia qual era o joguinho de , mas ninguém podia saber que os dois transaram, isso era um fato.

— Que pau delicioso, nossa — ela disse sorrindo de levinho, e remexendo mais seu quadril.

Ela estava bem apertada contra ele, muito molhada e excitada de uma forma que nem sequer pensava em conter. Seus gemidos saíam em bom tom, declarando o quão gostoso estava sendo fodida. sorriu entre seus lábios, arfando pelos movimentos rápidos que fazia e a forma descompensada que estava tomando ar. Ele enfiou o rosto na curva do seu pescoço, deixando algumas mordidas e chupadas, mas tomando cuidado para não ser forte demais e deixar marcas. suspirava e gemia por causa disso, alisando a nuca e cabelo dele, o puxando para si, apertando suas pernas ao redor e se impulsionando cada vez mais, em uma fome que parecia ser insaciável.
Até mesmo em momentos como aqueles, não deixava de ser extremamente cuidadoso; era como se sua mente meticulosa não se desligasse por completo, e ele sequer tentava mais fazer com que acontecesse, apenas havia aceitado o fato de que era daquele jeito e nada mudaria. Isso não queria dizer, no entanto, que não estava cumprindo um ótimo papel em lhe dar prazer, porque porra… Ele não estava nem conseguindo pensar em palavras para descrever.
, pensando em intensificar ainda mais o prazer que a mulher sentia, levou a mão até sua boceta, começando então, sem parar de estocar, a massagear seu clítoris outra vez. Rápido, intenso, sem parar.
Aquilo fez os gemidos delas ficarem ainda mais incontroláveis. Seu corpo quente estava fazendo sua roupa colar em seu corpo por causa do suor. A garota sequer pensava em algo que tivesse sido tão delicioso quanto aquilo, geralmente os caras não se preocupavam em fazer ela gozar, e isso a fazia procurar sempre mais e mais homens para que tentasse se satisfazer de alguma forma. Ela nunca tinha gozado mais de uma vez em um sexo, mas estava levando para seu segundo orgasmo, e isso era algo que a deixava curiosa para saber até onde ele conseguiria levá-la.
Sua voz já estava saindo falhada, o nome de eram apenas sílabas desconexas, enquanto suas pernas começavam a tremer, indicando que ela não conseguiria levar aquilo muito adiante. Suas mãos estavam segurando no Serpente com toda a sua força, sentindo que logo seria quebrada por aquele prazer que ele estava fazendo-a sentir.
não estava tão diferente dela, o suor descia escorrendo por sua testa, molhando de leve seus fios mais longos que batiam rente a sobrancelha, também sentia a fina camada se acumular pelo pescoço e lateral, descendo por sua carótida. Mas nem mesmo todo o suor do mundo o faria parar. Ele sabia que estava perto de gozar novamente, talvez por isso que começou a estimular o clítoris de .
Dificilmente transava daquele jeito em festas — até porque geralmente ele nem ficava tanto tempo assim. Eram negócios e depois seguia seu caminho —, mas se recusava a deixar uma pessoa ir embora sem, ao menos, dois orgasmos.
Seus gemidos começaram a escapar, roucos, arrastados, bem safados, enquanto continuava chocando seu quadril contra o de com fervor. A cada novo espasmo de prazer que sentia, ele ia mais fundo, procurava por aquilo de novo, se deixando ser guiado pelos sons que ela fazia e a forma como ela se mexia.

… — gemeu quase sem som agora, seus lábios entreabertos contra o dele. — Eu vou gozar — confessou, sem fôlego dessa vez.

Sua boceta estava ficando muito apertada, pulsando com o pau dentro dela, em uma onda de prazer que a faziam gemer mais fino e manhosa.
Aquilo foi como música para os ouvidos de . A mão livre dele subiu do seu quadril, subindo por sua barriga exposta, até chegar na barra do cropped que usava. não pensou muito, subiu aquilo com tudo embolando por sua clavícula. Com os seios amostra, desceu a boca até eles e os abocanhou com vontade, um e depois o outro; mordendo, chupando com vontade os bicos que estavam durinhos, só para depois escorregar por seus dentes em uma mordida.

— Porra! — ela gemeu mais alto, segurando a cabeça dele contra seu peito, querendo mais daquela boca em sua pele quente.

Ela sequer conseguiu falar mais alguma coisa, porque começou a gemer sem parar, gozando e perdendo o ar por causa disso, deixando todo seu corpo trêmulo, e aos poucos foi perdendo a força que segurava .
Quando foi perceptível para ele que ela estava gozando, não conteve mais o próprio orgasmo. passou a estocar ainda mais rápido, em busca do seu prazer. Ele aproveitava que a boceta de se contraía, ficando ainda mais apertada em torno do seu pau, o apertando nos pontos certos. Quando o prazer atingiu seu limite e sua pele até formigou, seu pau pulsou forte. Ele chupou o peito de com certa força, bem acima do bico, mas quando viu que estava sendo demais e poderia deixá-la marcada, afastou a boca e arfou, fechando os olhos com força. Sentindo os lábios secos, ele os umedeceu e tirou seu pau de dentro dela, se afastando minimamente para se livrar da camisinha e jogar por qualquer lado. Não era como se ligasse.
Subiu o rosto, rodeando a língua pelo bico do peito da mulher uma última vez antes de abaixar o cropped que ela vestia.
Foi nesse momento que as luzes voltaram, os gritos de aprovação do outro lado foi ensurdecedor e ele revirou os olhos para tamanha animação com algo tão idiota.

— Eu vou primeiro e depois você vai — avisou, acreditando que não precisava deixar mais claro do que aquilo para a garota: eles não podiam ser vistos juntos.

Ela riu.

— Nem fodendo. Eu vou sair antes — disse em tom de autoridade.
— Como quiser. — Ele deu de ombros sem dar muita importância, e então saiu do meio de suas pernas.

desceu da mesa, mesmo que suas pernas estivessem bambas, chapada de diversas formas diferente, apoiou a mão atrás de si, apenas em uma pose confiante. Então olhou para sua calcinha no chão pensando um momento sobre se iria pegar ou não, e decidiu por deixá-la ali. Ajeitou sua saia em seu corpo, passou a mão em seus fios úmidos e os prendeu em um coque desajeitado, sem sequer olhar para . Apanhou o celular sobre a mesa, e saiu sem falar nada.
não a olhou também, ocupado demais em se ajeitar para voltar a parecer minimamente decente; passou os dedos por seus cachinhos, levando os fios mais rebeldes para trás e deu um jeito de se livrar do suor em seu rosto e pescoço. Ele contou exatos cinco minutos depois que a mulher saiu da sala para só depois fazer o mesmo e, ainda assim, por precaução deu a volta pelo armazém, indo pelo caminho mais longo.
Agora sim foi para o bar, o destino que tinha em mente antes de esbarrar naquela garota a qual nem se deu o trabalho de perguntar o nome. Com sede e muito mais calor do que antes, pediu uma cerveja ao barman, sentando-se em um dos banquinhos para se recuperar. A desgraçada tinha deixado suas pernas bambas.
Do outro lado do armazém, estava dançando novamente, fingindo que nada tinha acontecido, ignorando totalmente os tremores em seu corpo, enquanto tomava um drink que alguém enfiou em sua mão. Um dos Corvos a encontrou e falou que estava procurando-a, e a garota apenas deu de ombros, se importando menos ainda com aquilo, mas com um sorrisinho satisfeito em seu rosto.


estava no bar dos corvos jogando sinuca quando seu celular vibrou em seu bolso. Ele não era de ficar mexendo no aparelho, mas no momento que estava esperando a jogada do outro Corvo, o garoto pegou o celular e viu que era o seu pai. Eles não tinham uma relação muito boa, especialmente pelo homem mais velho ser da polícia, e o seu filho fazer parte de uma gangue que fazia contrabando de drogas e armas.
Thomas sempre foi bastante rígido com os filhos desde criança, a única fonte de carinho vinham de Anya, a mãe deles, mas isso teve fim quando a mulher foi embora, deixando apenas uma carta dizendo que não suportava mais ter aquela vida e que não era para procurá-la. Obviamente que Thomas ignorou e tentou encontrá-la, mas nunca a achou. tentou não demonstrar, mas sempre sentiu falta de sua mãe, e carregava consigo a aliança dela em um colar que estava sempre em seu pescoço, era o bem mais valioso que tinha, e a única coisa que restou do que um dia Anya foi. Já se tornou totalmente revoltada com isso, e seu irmão tentava lhe dar carinho e amor que conseguia, mas às vezes ele era distante demais para conseguir demonstrar algo.
Então, quando viu que era seu pai querendo algo, ele olhou a mensagem no mesmo momento. Eles já não se falavam há algumas semanas.

chegou machucada e não quer me dizer o que houve”
“Se trancou no quarto e não quer me deixar entrar”
“Preciso levar ela para a delegacia para fazer um corpo de delito.”
“Consegue me ajudar com isso, ou pelo menos descobrir quem fez isso com ela?”


Ao ler aquilo, o sangue de ferveu no mesmo instante. Ele sequer respondeu, apenas guardou o aparelho no bolso interno de sua jaqueta, jogou o taco de sinuca sobre a mesa, e caminhou rapidamente, em passos pesados, para o lado de fora do bar. nunca se importou muito se fizessem algo com ele, mas não admitia que fizessem com sua irmã.
Assim que chegou em sua XC-W, pegou o capacete e subiu na moto, dando partida logo em seguida, e saindo dali com o pneu traseiro derrapando. Ele dirigiu o mais rápido que o motor da moto conseguiu, e após poucos minutos já estava estacionando na frente da casa de seus pais.
Thomas estava sentado na varanda fumando, e olhou para o filho como se avaliasse se ele estava apto a falar com . , sempre calado, entrou sem ao menos desejar boa noite, e marchou até o quarto de sua irmã.
Tentou abrir a porta, mas estava trancada.

, abre isso — mandou, batendo o mais suave que conseguiu na porta.
— Me deixa em paz você também, ! — ela berrou de dentro do quarto.

suspirou de forma pesada e apoiou a lateral da cabeça na maneira, contando até dez, em uma tentativa de se acalmar para poder lidar com a situação. A única coisa que o fazia perder a cabeça era .

— Eu posso entrar pela porta ou pela janela, o que depende é de como isso vai acontecer — avisou em um tom mais baixo agora.

Não demorou muito, e ele apenas ouviu um “click” da porta sendo destrancada. Isso o fez soltar o ar em um pequeno alívio momentâneo. Então, girou a maçaneta e entrou. A luz estava apagada, e quando seus dedos tocaram o interruptor, ouviu um fungado baixo.

— Não — disse baixinho.

Seu irmão respeitou isso, e apenas entrou, e trancou a porta também. Vagou devagar no escuro até a cama da garota e procurou pela luminária de galáxia que tinha ali, a acendendo e fazendo com que o cômodo se tornasse um universo vermelho, rosa e roxo. Ele viu sentada no chão, com as costas apoiadas na cama e as pernas encolhidas contra o peito. O cabelo cobrindo as laterais do rosto, escondendo o que tinha ali. O mais velho se abaixou em sua frente e apoiou com cuidado as mãos sobre os joelhos dela, e cuidadosamente, tentou colocar uma mecha de cabelo atrás de sua orelha, mas sua irmã recuou.

— Me deixa ver — pediu em um tom baixo.

Ela se encolheu mais, envergonhada do que tinha acontecido consigo mesma, mas aos poucos, mesmo relutante, deixou que tirasse o cabelo de seu rosto. Os lábios dele se retraíram no instante que viu a bochecha dela machucada, roxa, e o hematoma ia se espalhando para seu olho aos poucos. O coração dele disparou e se apertou em seu peito em pura revolta. Ainda com cuidado, colocou o cabelo dela para trás do ombro e pode ver o pescoço de sua irmã marcado, bem roxo. Os olhos minuciosos de foram procurando mais vestígios, até que viu os pulsos e braços com hematomas, e as unhas sujas de sangue.

— Preciso de um nome — falou, tomando fôlego para não ter um acesso de raiva.

Ela negou com a cabeça, se recusando a entregar quem tinha feito aquilo. apertou a ponte do nariz com certa força, fechando os olhos da mesma forma.

— Se não me falar, eu vou revirar essa cidade até descobrir, vai ser bem pior — avisou sério, e sabia que ele faria exatamente isso.
— O pessoal chama ele de Jerry, mas eu não sei o nome dele de verdade — confessou, fungando e passando as costas de sua mão pelo nariz. — Deixa isso para lá, .
— Tem alguma foto dele? Eu não posso pegar o cara errado.

Sua irmã se encolheu novamente, mas pegou o celular, e mostrou uma foto do homem. Era um Serpente, e o reconheceu no mesmo instante, o sujeito era o que estava sentada no colo no dia da festa. Ele não falou mais nada, apenas se levantou, mas sua irmã o segurou pela mão com força.

— Não faça nada — suplicou, chorando de novo.

Ela sabia que isso poderia dar muito errado e seu irmão poderia simplesmente morrer por causa de uma briga com um Serpente, e não queria perder ele também. Porém, o garoto não deu a mínima, afinal, ninguém encostava em sua irmã e saia ileso. Não eram assim que as coisas funcionavam. Então se desfez da mão da mais nova, e saiu andando rapidamente.
Ele passou pela porta de forma bruta e apressada, ignorando qualquer pergunta de seu pai.

! — Thomas chamou, vendo o filho subindo na moto e colocando o capacete. — Para onde você está indo?!
— Resolver esse assunto — respondeu simplesmente antes de dar partida e virar a moto, indo em direção que o levaria ao Píer dos Serpentes.

O garoto acelerava com violência, cortando carros e motos que ousavam passar em sua frente. Seus olhos intensos borbulhavam ódio puro. Ele era feito de emoções fortes, e aquilo o fazia ferver por dentro. não sabia sentir pouco, tudo o que sentia era muito, apenas não tinha o hábito de demonstrar, era mais fácil fingir que estava morto por dentro. E aquele momento era um o qual deixava totalmente exposto seu sentimento totalmente explosivo.

A XC-W cruzou a placa que estava escrito “Pier dos Serpentes. Não ultrapasse.” e aquilo não podia ser mais irônico no momento. Ele estacionou e pegou uma barra de ferro que sempre estava presa na moto, e tirou o capacete, o colocando preso no retrovisor. Seus passos pesados o levou até uma doca que recebia mercadoria, e seus olhos passavam pelo lugar procurando o rosto daquele homem. Os Serpentes que o via davam gritos e avisos de advertência, o mandando parar, e todos eram ignorados pelo garoto. Até que achou o sujeito que era chamado de Jerry.
sequer pensou, ele girou a barra de ferro nos dedos e acertou ela na lateral da cabeça do homem, o fazendo cair na hora.


***


Ainda era dia quando tinha sido convocado no Píer dos Serpentes para poder passar uma alternativa de rota pela Floresta de Black Pines. era um dos poucos que sabiam atravessar pelas vastas árvores e folhagens altas sem sequer precisar de uma lanterna para se situar. Para ele, era tão fácil quanto respirar, apenas conhecia aquele lugar como a palma de sua mão — de tantas foram as vezes em que precisou usá-la como escapatória; seja para se esconder, para fugir ou para emboscar algum inimigo, e matá-lo posteriormente.
Por isso o garoto não se importou muito de ter sido chamado, afinal, se os Serpentes precisavam dos seus serviços, ele precisava ajudá-los.
Ele desceu do alto do Farol Brismstone sem pressa, no entanto. Sempre ia àquele local quando queria se isolar completamente de toda a loucura que Ravenport era, ou para pensar. Algo em ter a vista para o mar e poder imaginar seu pai voltando em um barco, como um maldito milagre, era uma das coisas mais idiotas que ele sempre se via fazendo — mesmo que inconscientemente.
nasceu na área mais pobre do território dos Serpentes, e acabou perdendo os pais cedo demais. Aos 14 anos já se via órfão e completamente à mercê da crueldade do mundo, quando, sem qualquer outra opção, seu tio, membro veterano dos Serpentes, o acolheu como um filho.
gostava de pensar que a vida não tinha dado a ele muita escolha a não ser se tornar um criminoso. Mas era exatamente isso que você se tornava em Ravenport; ou era a vítima, ou o culpado.
gostava de pensar que era um sobrevivente.

Mesmo que tivesse carro, preferiu ir andando até o Píer, não era tão distante assim, porém, ao chegar nas docas a lua já tomava conta do céu e o escuro alimentava ainda mais aquela vibração insana que emanava perigo.
O cheiro de óleo de barco lhe era tão costumeiro que já nem o sentia mais, e quando sentia, não se incomodava com ele. Assim como a brisa salgada da maresia, ou a ferrugem que vinha dos contêineres mais antigos — ou dos barcos pesqueiros abandonados.
A iluminação quase precária vinda dos poucos postes estrategicamente colocados para garantir aquela atmosfera que transmitia medo e poder, deixavam os grafites espalhados por todos os lados ainda mais vibrantes.
Ali não era lugar de ninguém, além dos Serpentes. E quem entrava sem ser convidado, acabava espancado ou morto — na pior das hipóteses, os dois.
Não demorou dois minutos desde que entrou pelo labirinto dos contêineres e das docas, andando sem se preocupar em se perder, para que fosse logo visto por um dos vigias.

— Demorou, hein, — O comentário ácido deveria lhe alfinetar, mas sequer se deu ao trabalho de responder a quem estava fazendo a guarda.

Por ser criado por um dos veteranos, quase considerado um dos primeiros a se tornar um Serpente, tinha ciência de que tinha regalias que muitos sequer sonhavam em ter.
Como um cachorro adestrado, se fosse chamado, você precisava atender ao comando imediatamente. E lá estava , chegando quase depois de 3 horas de ser convocado.

— Ah, aí está ele! — Heitor, um dos cabeças dos Serpentes, abriu os braços e levantou da mesa, abraçando de lado.
— Fui chamado — explicou, com um sorriso forçado, rapidamente se desvencilhou do contato.
Três horas atrás — Isaac pontuou, olhando para ele com repreensão.

deu de ombros.

— Já estou aqui, não estou? — falou de forma retórica e calma, sem se abalar, indo de uma vez por todas para o outro lado da mesa onde o mapa da Floresta de Black Pines estava aberto.

Isaac odiava aquele jeito calmo, discreto, cordialmente calculado e pragmático de , ele o dava nos nervos.

— Eu mapeei a rota dois dias atrás, o que tem de errado com ela? — questionou, admirando o próprio trabalho.
— O problema, meu caro, é que aqueles malditos Corvos estão rondando. E se estão pela área…
— Quer dizer que estão esperando por nossas mercadorias — interrompeu Heitor, chegando a sua linha de raciocínio.
— Podemos ter um traidor entre os nossos também — Isaac disse, e seu tom acusatório não passou despercebido por .
— Está querendo dizer alguma coisa? — perguntou, levantando as sobrancelhas. Mas diferente do primeiro, sua voz estava extremamente passiva, seus movimentos calculados.
— Você sabe o que eu estou dizendo, . Você não é confiável. Não é um de nós — Isaac rosnou em resposta.

Se estava esperando uma reação explosiva de , Isaac Fields se frustraria. O garoto levantou a manga da jaqueta que vestia e mostrou a tatuagem de Serpente cravada em sua pele. Não desviou os olhos, sequer piscou. Era uma resposta muda: ele era um Serpente, e não trairia os seus, por algumas cargas de cocaína.

— Não esqueça que nem sempre os cães que mais rosnam são confiáveis. Às vezes, eles rosnam para os inimigos, outras, para seus donos. Nunca sabemos onde a lealdade de um animal feroz pode estar — murmurou, sem muita emoção na voz.
— Isaac… chega. — Heitor chamou pelo outro rapaz, agora o repreendendo por ter visto que ele faria exatamente o que disse em poucas palavras. Como um cão raivoso, Fields atacaria.
— Bom, não se preocupem, a nova rota será feita e entrego ainda essa noite — garantiu. — Talvez não use a linha funcional da Floresta, e sim essa área aqui — Ele deslizou os dedos pelo mapa até chegar à outra extremidade de Ravenport, onde estava localizado o Hotel Cliffside. — As árvores aqui também são altas, a neblina densa, caminhões não serão vistos com facilidade pela polícia e os malditos Corvos não vão esperar que usemos o ponto de passagem dos forasteiros como rota de contrabando — explicou rapidamente e então olhou para Heitor.

O mais velho sorriu abertamente outra vez, gostava de como pensava rápido e fazia tão bem o seu trabalho. Desde que tinha dado essa responsabilidade ao garoto, 5 anos atrás, os Serpentes nunca mais tiveram problemas com suas mercadorias roubadas ou apreendidas.
Isaac bufou, arrastando a cadeira e saindo do contêiner com cara de poucos amigos.

— Vou ficar esperando por sua ligação — Heitor avisou, levantando também.
— Não vai demorar, Heitor — respondeu, mas sua atenção estava no mapa, pensando no que precisava ser feito.
— Eu preferia quando você me chamava de tio — O mais velho falou mais baixo, fitando seu sobrinho que sequer lhe dava atenção.

levantou a cabeça, se prendendo a imagem do senhor de meia idade que era o mais próximo que tinha de uma figura paterna.

— E aumentar ainda mais a minha fama de nepobaby? Eu passo, obrigado — rebateu bem humorado, o que tirou uma risada nasalada do mais velho. — Vá para casa, Heitor, você está acabado — aconselhou, notando as olheiras fundas em sua face.
— Me respeite, moleque — Heitor riu, porém assentiu. Estava mesmo se sentindo cansado.
— Eu não vou sair do Píer hoje, vá descansar, cuido de tudo para você — garantiu, pois sabia que aquela era a preocupação do seu tio.

O mais velho o fitou mais uma vez, agora tentando se lembrar em qual momento o garoto assustado e que chorava de saudade dos pais, tinha se tornado aquele homem sério e forte. Heitor tinha muitos arrependimentos na vida, muitas inseguranças nas decisões que tomou no passado; mas quando olhava para , via que, pelo menos com aquele garoto, ele não errou.

— Se tiver algum problema, me ligue — ele disse, agora muito mais em um tom paternal do que como um líder falando ao subordinado.
— Consigo me virar — respondeu, a atenção dispersa no mapa e em seu caderno de anotações.
— Heitor o chamou novamente, e prontamente o olhou. Conhecia aquele tom. — Me ligue se tiver qualquer problema — repetiu.
— Tudo bem, tio — O mais novo respondeu baixinho. Se fosse para dar paz de espírito ao seu velho, faria exatamente o que tinha sido pedido.

Se dando por vencido e acreditando no sobrinho, Heitor foi embora sem olhar para trás, ele precisava de um banho, ibuprofeno, whisky e muitas horas de sono.
Sozinho outra vez, mas agora com trabalho a fazer, tirou o fone do bolso da calça e conectou ao seu celular. Uma playlist de rock começou a tocar alto enquanto ele se perdia em estratégias. Não era uma tarefa fácil, não era só pensar no caminho. precisava presumir possibilidades do que poderia dar errado, e em como resolver as situações hipotéticas. Ele tinha que ter um plano A, mas por baixo das mangas os planos B, C, D — e o restante do alfabeto — tinham que estar a postos também.

A música alta quase o impediu de perceber a movimentação e gritaria que estava vindo do lado de fora. Pausou a música prontamente, pensando ser algo de sua cabeça ou do solo da guitarra que vinham altos em seus ouvidos, mas não era. Realmente alguma coisa estava acontecendo do lado de fora do contêiner em que estava.
Praguejou um “porra” e deixou os fones em cima da mesa, junto com seu celular, odiava ter sua concentração interrompida. Do lado de fora a gritaria ainda estava maior, porém não era idiota e trancou a porta antes de ir verificar o que era. Naquele contêiner continha documentos importantes demais para deixar a mercê da sorte.
E, por experiência própria, sabia que se a sorte realmente existia, ela nunca estava ao seu favor.
Ao chegar na doca onde todo o alvoroço parecia acontecer, seu cenho se franziu de leve ao ver um Corvo em seu território. Não só isso… O maldito estava praticamente espumando de ódio enquanto atingia um dos Serpentes com uma barra de ferro. Porém, ao contrário do que imaginava, aquilo não parecia ter sido motivo o suficiente para que os demais parassem com aquela palhaçada sem sentido. Muito pelo contrário. Os demais Serpentes tinham feito um círculo ao redor dos dois e assistiam entretidos, gritando por mais, sedentos por violência. O Corvo batia com a barra no homem, sem pudor algum, e só tinha uma coisa descrita em seus atos; ódio.
viu quando Isaac jogou uma barra de ferro para seu colega, tentando igualar a briga, que a pegou, mesmo ferido, e bateu com ela no rosto do Corvo que caiu no chão, grunhindo, o sangue escorrendo pela lateral de seu maxilar e gotejando no chão.
Isso fez rolar os olhos.
Sem dizer uma palavra sequer, passou pelos Serpentes e, aqueles que o reconhecia, paravam de rir, abrindo caminho. Podiam não gostar de , mas sabiam que se ele abrisse a boca para Heitor , estariam fodidos.
O Corvo e o Serpente começaram a rolar no chão aos socos, não tinha defesa, apenas ataque, um atrás do outro, pareciam dois animais.
Como aquilo podia ser considerado entretenimento? se perguntava. Patéticos.
Jerry tinha acabado de conseguir se soltar do Corvo e se arrastava para mais longe, até que seu olhar bateu em e, como um maldito covarde, se escondeu atrás dele. Com as mãos no bolso da frente da jaqueta, parou e estreitou os olhos para a atitude do Serpente. O Corvo sequer olhou para , seus olhos fervorosos estavam em Jerry, o maxilar travado em uma clara contenção de raiva.

— O show acabou, voltem aos seus postos — falou, a voz ligeiramente baixa, girando o dedo no ar.

Sem medo algum, se aproximou dois passos do Corvo, o reconhecendo como o mesmo cara que estava procurando briga no dia da festa. Os demais Serpentes começaram a dar as costas, sussurrando coisas sobre que jamais teriam coragem ou culhões de dizer em sua cara. Não que ele ligasse para isso, pois estava pouco se fodendo para o que pensavam dele.

— Ele é meu — falou sobre Jerry, a voz baixa, cortada e contida, mas sua respiração estava extremamente pesada.
— Você está longe demais do seu bar para vir até nosso Píer procurando por briga e fazendo exigências — respondeu sem se deixar abalar. — Aconselho que volte para o lugar do qual nunca deveria ter saído.

Jerry, ainda atrás de , gemia baixo, arfando e cuspindo sangue. Não tinha forças nem para se levantar e ir se esconder. olhou o homem e depois voltou a encarar sem medo algum em seus olhos. Na verdade, a única coisa possível ver, era o ódio.

— Vou matar ele, e você não vai me impedir disso quando eu começar. Ele tocou no que não era dele, e isso não vai ficar assim — respondeu em um tom claro de ameaça.

O sangue escorria pela lateral do seu rosto, molhando o pescoço e a jaqueta.

— Admiro seu senso de humor, mas você sabe que isso não vai acontecer — rebateu. Estava ficando impaciente e irritado com aquele cara. Ele conhecia um imã de confusão quando se deparava com um.
— Isso foi só um aviso. Se eu o ver novamente, você nunca mais vai ver ele — disse, chegando mais perto de e erguendo o rosto. — E espero que ele não tente nem ao menos chegar perto da , então dá um jeito de prender o seu cachorrinho.

pendeu levemente a cabeça para baixo e encarou a íris cheia de ódio do Corvo, estreitando os olhos com o que ouviu.

— Do que você está falando? — perguntou, verdadeiramente confuso.
— Eu não fiz nad…
— Calado! — mandou, interrompendo o choramingo de Jerry.

tentou avançar no homem novamente, mas prontamente o cercou, indo para o mesmo lado que ele foi, se colocando na frente.

— Você é um ser racional, Corvo. Fale sibilou, colocando a mão no peito de , o afastando de leve.
— Não nesse momento — respondeu com total sinceridade.

Para , ele não se importava em morrer naquele momento se isso significasse que levaria Jerry junto. Ele sequer queria pensar no que aquele homem fez com sua irmã, porque isso fazia seu sangue ferver demais.

— Eu não vou sair daqui sem ele — disse, voltando a ficar cego de raiva novamente.

apertou a ponte do nariz, soltando o ar de forma pesada, tinha se arrependido de ter dito a Heitor para tirar a noite de folga.

— O que ele fez para você? — perguntou devagar, como se estivesse falando com uma criança. — Se comunique com palavras — pontuou, com certo desdém e ironia.

estava, sinceramente, achando que aquele cara não passava de um valentão que se alimentava de brigas e caos. Um típico Corvo, na sua opinião. olhou para o homem com o maxilar travado, ele não queria falar o motivo pelo qual queria matar Jerry, afinal, nunca foi de deixar os outros lidarem com seus problemas, sempre resolveu todos por conta própria.

— E você vai fazer o que com a informação? Enfiar no cu e rodar? Dá um tempo, você não vai resolver a porra do meu problema com ele, então só me entrega esse pedaço de bosta, que me viro com o que sobrar — declarou rapidamente, irritado, e mais uma vez tentando passar.

queria Jerry de qualquer maneira, e ele estava cogitando passar por cima de para isso. não era de resolver as coisas na base da violência, e tentava, até o último momento, manter o diálogo. Ele nunca era o primeiro a levantar a voz, ou dar o primeiro soco.
Mas isso não queria dizer que não sabia se defender.

— Escuta, você não pode chegar no meu território com seus um metro e meio de altura e de raiva, querendo um dos meus — travou o maxilar para não perder a compostura, empurrando com certa força agora o Corvo que quis passar novamente.

Ele assoviou alto, em um código. Um dos Serpentes se colocou em posição em cima de um contêiner, apontando o rifle para as costas de .

— Se você se aproximar um passo sequer antes de me explicar o que está acontecendo, vai ter uma bala na sua espinha antes mesmo de chegar perto de mim de novo — Seu tom de aviso e ameaça era explícito. achava que a morte era sempre um caminho fácil, ele preferia muito mais o sofrimento. — Então, Corvo, se gosta de andar com as próprias pernas, fale — rosnou.

teve que respirar fundo agora para se concentrar e tentar pensar no que faria. Ele também não era do tipo que entregava as pessoas.

— Ele sabe o que fez, e está avisado. Não cruza o meu caminho — falou por fim, e começou a dar uns passos para trás, indo até a barra de ferro que estava no chão e a pegando.

O olhar de seguiu os movimentos do Corvo como uma serpente pronta para dar o bote na primeira oportunidade. Não que defendesse assim os membros da gangue, mas também não deixaria na cara dos inimigos que, na maior parte do tempo, estava pouco se fodendo para o bem estar daqueles idiotas. Porém não podia deixar isso tão aparente para os de fora, principalmente quando se tratava de Corvos.

— Já fez seu show novamente, cara, agora dá o fora daqui — falou mais incisivo, apontando para a saída do píer.
— Você não me viu fazendo show — rebateu irritado, indo para sua moto.

encaixou a barra de ferro onde ela sempre ficava e subiu em sua XC-W, e pegou o capacete, o passando pelo seu braço apenas para não o sujar com o sangue que ainda saía do corte em sua bochecha. Ele olhou para de forma intensa, e deu partida na moto, saindo dali da mesma forma que entrou, rápido e agressivo, seguindo de volta para a casa do seu pai.

Só depois que o Corvo foi embora, que se virou para Jerry, o fitando. O panaca ainda continuava sentado, encarando toda a situação com medo nos olhos, como o covarde que era.

— Vai me contar o que fez para o Corvo? — perguntou, soltando o ar de forma intensa.
— Transei com a garota dele e ele surtou — Jerry respondeu baixo, fazendo força para se levantar.

não acreditou nenhum pouco nas palavras de Jerry, o cara tinha fama de ser escroto. O liberou, mandando se limpar e voltar ao seu posto; não tinha provas contra ele, afinal de contas.
Por enquanto.
voltou até o contêiner que estava antes e rapidamente digitalizou o mapeamento novo que fez, enviando para Heitor como tinha prometido, e ainda se prontificou a modificar mais coisas caso ele achasse necessário.
Não pretendia sair do Píer, mas se viu na necessidade de fazer isso depois da aparição do Corvo e do que disse. Como a memória de era muito boa, claro que ele tinha decorado a placa da moto de , o que facilitou muito o processo de invadir o sistema de tráfego da cidade e ver por quais ruas aquele veículo passou depois que saiu do Píer.
pegou um dos carros que estavam disponíveis alí e seguiu pelo caminho que aquela moto fez. Não demorou muito para chegar até a rua pouco movimentada, essa era uma das vantagens de se morar em cidade tão pequena como Ravenport. Ele parou a caminhonete relativamente longe, escondida em uma rua sem saída e desceu. Não sabia qual casa era a daquele cara porque não conseguiu ver, as câmeras daquela rua não estavam funcionando, coincidentemente. Isso não o impediu de andar à procura de qualquer coisa que sanasse sua curiosidade, no entanto.


***


chegou na casa de seu pai logo, mas estava vazia. Nem o carro do departamento de polícia estava lá. Isso o fez pensar com mais lógica, Thomas queria levar para a delegacia. O garoto entrou em seu antigo quarto, ainda tinha alguma roupa sua perdida por ali. Achou uma camisa preta e desbotada, de uma banda que nem ouvia mais. Então foi para o banheiro. Ele limpou o sangue, tendo que tomar um banho rápido para conseguir se livrar daquilo, e fez uns pontos falsos com esparadrapo no corte que estava fundo em sua bochecha.
Logo ele já estava em sua moto novamente indo atrás de sua irmã. Parou na frente da delegacia e acenou brevemente para os policiais que estavam ali, todos conheciam ele desde que era criança e Thomas o levava para lá em seus plantões matinais. encontrou seu pai, que estava sentado em sua mesa, com um semblante sério. O homem de meia idade ergueu a cabeça e suspirou por ver o filho mais velho também machucado agora.

— Cadê ela? — perguntou em um tom baixo.
— Estão fazendo o exame, já deve estar saindo — confessou, em um tom pesado, carregado de culpa. — O que você fez?
— Nada que você deva saber — respondeu, cruzando os braços e encostando na mesa.
— Fico sempre me perguntando em qual momento que falhei tanto contigo para ter se tornado essa pessoa…
— Fodida? — sequer deixou que seu pai terminasse a frase. — Não foi culpa sua, relaxa. Eu escolhi isso.
me culpa, me culpa por tudo. Por você ter ido embora, por Anya ter nos deixado, até mesmo pelo que deixa as pessoas fazerem com ela — Thomas confessou em forma de lamento. — Eu tentei dar tudo para vocês, mas eu precisava trabalhar para isso.
— Se te serve de consolo, ela faz o que quer, e não é culpa de ninguém isso também. — Ele não costumava pensar sobre isso, mas quando fazia, tentava não colocar a culpa de tudo em alguém, cada um tinha feito suas próprias escolhas. — Vou ficar uns dias na casa de vocês para ver se ela se acalma um pouco.
— Obrigado. — Era a única coisa que o homem poderia fazer, agradecer.

Eles ficaram ali mais algum tempo, o silêncio se arrastando lentamente, matando cada um à sua maneira, esperando ser liberada. não queria pensar no que Jerry fez, mas era impossível. Todas as vezes que fechava os olhos lembrava-se dos hematomas espalhados pelo corpo de sua irmã, e o que aquilo queria dizer. Era ruim demais para que a ficha caísse totalmente, e ele só conseguia sentir raiva, nojo e repulsa do Serpente. Se realmente tivesse conseguido terminar o que começou, estaria cavando uma cova rasa agora.
saiu da sala, o rosto molhado, olhos inchados e vermelhos, assim como seu nariz. A garota não falou nada, apenas foi até seu irmão e o abraçou com força, escondendo seu rosto na clavícula dele. Ele a apertou contra seu corpo e ficou afagando suas costas em algo que poderia dizer ser um carinho. Thomas apenas saiu de perto dos filhos e entrou na sala pela qual a filha tinha saído e fechou a porta.
não queria ficar ali, então ele puxou para fora da delegacia e a levou até sua moto. Pegou seu capacete e colocou em sua irmã com cuidado, para não machucar ainda mais seu rosto. Ele prendeu seus próprios fios longos em um coque, e subiu na XC-W, dando apoio para a garota fazer o mesmo. Ela subiu com movimentos lentos, e limitados, e quando sentou, soltou um pequeno gemido de dor, abraçando a cintura do mais velho. Aquilo fez travar o maxilar com força, tentando conter sua raiva.
Então ele deu partida e a levou para casa, tentando não acelerar muito para que sua irmã não se sentisse desconfortável com os possíveis movimentos bruscos que ele poderia fazer. No caminho ele passou no drive-thru do Foggy Fries, e comprou três lanches, pedindo o favorito de , já que ela não queria falar com ninguém naquele momento. De forma silenciosa ele tentava diminuir a dor dela com pequenos atos que pudessem fazer com que não pensasse no que tinha acontecido horas atrás.
Eles chegaram na casa. olhou a varanda e aos arredores tendo certeza de que nenhum Serpente poderia estar por perto, sabia que Jerry era covarde o suficiente para ainda tentar assustar . Ele não viu nada, então desceram da XC-W, e entraram, indo para o quarto da garota. A luz da luminária ainda estava acesa, porém clareava pouco. tentou acender a luz mais uma vez, porém não deixou. Isso tirou um suspiro pesado dele.
Sem falar nada eles se sentaram na cama e começaram a comer o lanche que tinham levado, tomando seu milkshake de morango com calda de chocolate, evitando ao máximo olhar nos olhos de . Ela tinha medo de que ele visse o quão machucada estava, e tentaria esconder aquilo para sempre dele.

— Ele quem te machucou? — perguntou baixo, com a voz rouca.
— Não importa — respondeu no mesmo tom. — Quer assistir alguma coisa?

Ela assentiu com a cabeça, se sentando de lado na cama depois que terminou de comer, e ligou a TV, colocando The Vampire Diaries para ver. não se importou, ele de fato não prestaria atenção, só queria que pudesse se sentir melhor. Porém, ao decorrer do episódio seus olhos se fecharam, e o garoto acabou cochilando. não se deu conta disso, apenas percebeu no momento que se levantou para ir ao banheiro. Acabou rindo nasalado e negou fraco com a cabeça.
A garota saiu do quarto de forma silenciosa e foi até o banheiro, demorando lá, tentando não começar a ter outra crise de choro quando viu os hematomas em suas coxas. Ela respirou fundo algumas vezes, e tentou se concentrar em sua respiração, mas quando percebeu que não conseguiria, saiu do banheiro, indo a caminho do quarto.


***



ficou bastante surpreso quando viu o Corvo saindo, dentre todas as casas daquela vizinhança, logo da porra da casa do xerife da cidade. Bom, ou realmente os Corvos estavam tramando de acabar de vez com os Serpentes, ou aquele cara estava aprontando outra coisa com a polícia de Ravenport.
Não que importasse, a polícia não tinha qualquer autoridade sobre nenhuma das duas gangues, porém isso não queria dizer que as possíveis tentativas poderiam atrapalhar os contrabandos e o dinheiro que rolava com as drogas.
Malditos Corvos!
se escondeu entre alguns carros, observando o cara sair minutos depois, cantando pneu com a moto. Naquele momento, percebendo que a casa estava vazia, ele se aproximou. Não iria entrar, era mais esperto que isso. Mas rodeou a propriedade, rondando todas as nuances da estrutura. Ligou para um dos seus contatos, pedindo os dados do xerife da cidade, precisava se preparar.
Aquele pequeno momento não durou muito, porque logo depois o som do motor da moto soou novamente e ele soube que estava de volta.
Se escondeu novamente, agora um pouco mais de perto para observar o que ele faria. Não foi nenhuma surpresa quando o viu com uma garota na garupa da moto, o que fez seu semblante se torcer, no entanto, foi não só ver que se tratava da garota que tinha transado na festa do armazém abandonado, como perceber os visíveis hematomas pela pele da garota depois que ela tirou o capacete.
não precisou mais do que aquilo para juntar os pontos.
Mas não foi só isso. Jerry tinha dito que eles dois transaram.
respirou tão fundo que seus pulmões até queimaram, e a raiva lhe subiu como ondas quentes e revoltosas pela boca do estômago. Ele não era um cara violento, mas ele não suportava a ideia de que um Serpente tinha feito aquilo a uma mulher.
Esperou que os dois entrassem na casa e ficou um tempo ali, pensando no que faria com Jerry. Aquele comportamento não seria aceitável. Na época em que seu tio era mais novo os Serpentes eram conhecidos por seu comportamento grotesco e animalesco, mas isso tinha mudado. não deixaria que aquela gangue voltasse a se tornar àquilo.
passava pelo corredor quando parou ao ter tido a impressão de que viu alguém do lado de fora. Seu corpo todo tremeu, ela ficou com medo de ser Jerry, e pensou em chamar , mas em um surto de raiva, ela pegou um taco de beisebol e foi andando até a porta. A garota só queria ter a chance de revidar o que aquele animal tinha feito. Ela abriu a porta de madeira e depois a de tela, olhando ao redor.

— Aparece logo, seu cuzão! — falou alto, irritada.

logo reconheceu a voz fina da garota, e ponderou se apareceria ou não. Por fim, decidiu que seria pior se continuasse escondido. Ela poderia chamar o outro cara, ou quem sabe, a porra do xerife.

— Esse ódio não deveria ser direcionado para mim — ele disse baixo e calmo, saindo de onde estava, deixando que a garota visse que se tratava dele. Esperava que ela não se lembrasse dele, para ser sincero.

A garota uniu as sobrancelhas com força, tendo alguma familiaridade com a voz dele, e uma parte sua ficou surpresa ao ver em seu quintal. Embora soubesse quem era, isso não a fez abaixar a guarda, apenas apertou o taco com mais força em suas mãos.

— O que você está fazendo aqui? Terminar o que o Jerry não conseguiu? — perguntou irritada, sentindo seus olhos ficarem molhados de novo.

Era um misto intenso de sentimentos que estava sentindo naquele momento, que jamais conseguiria colocar em palavras.
Ok, aquela insinuação tinha ofendido profundamente . Ele torceu o semblante em nojo por ter ouvido suas palavras, porém, ao estar de frente para a garota foi que ele viu o real estrago de seus hematomas.

— Jerry nunca mais tocará um dedo em você — ele avisou baixo, sem rebater qualquer outra coisa que ela falou.

Ela riu, mas não por graça, riu de nervoso e pura descrença do que ouviu.

— Não preciso que você faça nada — rebateu, apertando mais seus dedos no taco de beisebol ao ponto que os nós estavam brancos e doloridos. — Ainda não me respondeu o motivo de estar aqui. Como que você sabe onde eu moro?
— Não estou pedindo sua benção, estou avisando. Goste ou não — respondeu, mantendo o tom baixo. Suas mãos estavam dentro dos bolsos da frente da jaqueta, escondendo seus nós brancos. — Seu namorado apareceu no território dos Serpentes pronto para começar uma guerra com as duas gangues, eu precisava saber o porquê — informou.

retraiu os lábios com aquilo, e respirou fundo, abaixando a guarda em seguida e soltando o taco. Seu corpo todo estava tremendo, e ela sentia seu peito doendo de novo. Não tinha imaginado que tinha feito aquilo, e ela começou a ficar com medo de perder seu irmão também.

— Ele não é meu namorado — foi a única coisa que conseguiu responder, sua voz saindo cortada.
— Não me importo o que ele é seu — deixou aquilo claro. — Não vou perguntar se você está bem, a resposta está mais do que clara. Isso não ficará assim, saiba disso — pontuou, dando as costas para ir embora.

tinha uma serpente para cortar a cabeça.

— Espera — disse baixinho, olhando para as costas de . — Você pode ficar um pouco? — pediu quase sem voz.

Odiava concordar com os outros, mas sabia que estava certo, ela não estava bem. parou os passos e a olhou por cima dos ombros. Era só uma garota com medo de um covarde. Ele se virou de volta para ela, mas não se aproximou.

— O seu “não namorado” está aí — o Serpente falou, apontando com o queixo para dentro da casa. — Essa é a casa do xerife da cidade — adicionou, como um dos outros motivos para não ficar.
— Então me deixa ir contigo — pediu com a voz fraca. — Só um pouco. Eu não quero ficar aqui.

uniu fortemente as sobrancelhas com aquele pedido um tanto quanto inusitado, realmente não esperando por isso. Não tinha um coração mole, não se compadecia por muita coisa, mas viu certa fragilidade no comportamento da garota e soltou o ar com força. Assim como no dia da festa, ele teve a mesma impressão de que era um ímã para problemas, e lá estava ele indo diretamente para o centro do furacão que ela parecia ser.

— Vem — Ele a chamou, voltando a andar para onde a caminhonete surrada estava escondida.

sequer pensou, desceu o pequeno lance de degraus descalça mesmo e acompanhou até a caminhonete, ela não falou nada, na verdade não tinha muita vontade.
Ele entrou do lado do motorista e esperou que ela fizesse o mesmo. Ainda achava aquilo uma péssima ideia, mas ligou o motor depois que a garota estava dentro do veículo e seguiu para longe daquela vizinhança. dirigia em uma velocidade permitida, não porque estava com ele, mas sim porque ele não via necessidade de ir em alta velocidade. Para , esse tipo de coisa só servia para chamar atenção e ele odiava ter os olhos dos outros em si. gostava do anonimato para agir da forma como queria sem se preocupar com os burburinhos que os cidadãos gostavam de fazer.
Ravenport era tão monótona que qualquer situação fora do habitual que acontecesse já se tornava um grande espetáculo.
ficou apenas calada, olhando a cidade pelo vidro sujo da caminhonete velha. Até que achou que o silêncio estava a incomodando, e esticou o braço, girando o botão do rádio para ver se ligava, não funcionou e ela foi tentando até encontrar um que fizesse aquilo ligar. Não tinha um toca CD ou fita K7, era apenas um rádio que mal pegava as estações. Ela foi girando até encontrar uma sintonia que desse para ouvir algo, deixando em uma que estava chiando mesmo, e conseguia ouvir Hear You Me, do Jimmy Eat World. A garota não conhecia a banda, mas não ligou para isso, gostou da melodia e da letra.
Suas mãos foram até seus fios, e ela começou a trançar um pedaço da frente, com cuidado. Seus dedos finos escondidos pela a manga do casaco grande que vestia, um que tinha encontrado no armário cheio de mofo de .

— Tem vezes que eu prefiro pensar que a minha mãe morreu, do que pensar que ela foi embora e nos deixou sem ligar para nada além de si mesma — confessou simplesmente do nada, sem se importar o que pensaria sobre. — Ela costumava fazer tranças na minha franja quando eu estava doente. Nunca entendi o motivo, mas eu gostava. Às vezes eu penso que deveria ser mais como ela, ter coragem para fugir daqui sem olhar para trás. Enfim, eu não conseguiria ir muito longe sem meu pai me arrastar de volta. — Suspirou de forma pesada e fechou os olhos.

Então chegou perto de , e deitou a cabeça no ombro dele, se encolhendo ao seu lado, já que o banco era apenas um, tendo o espaço até para três pessoas.

era calado por natureza, gostava da companhia do silêncio, mas sabia que nem todo mundo era adepto a isso e que, às vezes, o silêncio poderia ser alto e endurecedor demais; por isso não se surpreendeu ao ver a garota mexendo no rádio velho, procurando por alguma música que preenchesse o ambiente.
O que o surpreendeu mesmo, foi começar simplesmente a lhe dizer coisas sobre sua vida e depois… se encostar nele. Ela queria apoio? Conforto? Carinho? Ele a olhou de relance, voltando à atenção para as ruas no segundo seguinte. Apertou ainda mais os dedos ao redor do volante quando, em um ato impensado, levantou o braço e o passou pelos ombros de , em um abraço meio desajeitado de lado, controlando o volante com apenas uma mão agora.

— Posso te conseguir uma identidade falsa — sugeriu. — Todos os documentos, na verdade. Você sai daqui como uma nova pessoa, ninguém te encontra.

O próprio já pensou em fazer isso. Na verdade, ele ainda pensava. Mas não conseguia por conta de Heitor. não sabia como abrir mão do único pai que tinha.
soltou um suspiro longo com aquela ideia. Não era algo ruim, ela queria aceitar, isso era um fato, porém pensar em deixar seu irmão para trás, isso a deixava apreensiva. Sabia que a única coisa que impedia de afundar ainda mais era ela.

— No dia que eu tiver coragem, você faria isso por mim? — perguntou pensativa.
— Se eu ainda não tiver tido coragem para fazer por mim mesmo e continuar nessa cidade, sim — respondeu com simplicidade e honestidade.
— E se um der coragem para o outro? — divagou, encarando a rua a sua frente, soltando o ar de forma pesada. — Foi mal, não deveria estar falando essas coisas. Eu só estou furiosa com tudo e querendo colocar fogo nessa cidade infernal.

a olhou de relance outra vez, se perguntando o que a garota tinha visto nele para estarem daquela forma e cogitando uma possível fuga juntos. Não fazia o menor sentido.

— Já disse que vou cuidar do Jerry — ele relembrou. — Não coloque fogo na cidade ou eu vou perder muito dinheiro — Tentou soar minimamente divertido, mesmo que seu humor fosse um tanto quanto mórbido na maior parte do tempo.

Como agia no silêncio e era observador até demais, virou uma esquina e depois outra, passando com a caminhonete velha bem de frente a delegacia, como quem não quer nada. Uma coisa eram aqueles dois estarem na casa do xerife da cidade; agora o Serpente iria descobrir o porquê.
O primeiro passo era ver a reação da garota.
olhou para a delegacia e não se importou. Ela não ligava que alguém a visse, até gostava da ideia que seu pai soubesse que estava no carro de um Serpente para ver se importava um pouco mais.

— Eu não quero que você… Eu não quero pensar que ele pode morrer por minha causa — confessou, sentindo seu próprio corpo estremecer com a ideia de ter que carregar isso consigo.
— Morrer? — ele repetiu a palavra, de um jeito engraçado, achando fofo o pensamento da garota. — A morte é muito fácil — concluiu.
— Perder o pinto é uma ideia que iria me satisfazer — comentou em brincadeira, rindo de leve. — Mas eu não quero. já se machucou, não preciso que mais alguém fique assim também.

O comentário da garota o fez rir nasalado, porque acreditava muito na lei do retorno e já tinha planos do que fazer com Jerry. No fim, aquele covarde iria implorar para morrer de uma vez.

— O que o “” é seu? — questionou, queria saber o tamanho do buraco que estava se metendo, porque já tinha entendido que o nome pertencia ao encrenqueiro que tinha ido ao Píer mais cedo.
— Eu não posso dizer — respondeu, retraindo os lábios.

Não era como se as pessoas não soubessem, era algo fácil de descobrir. pediu uma vez a que não falasse que eram irmãos, porque seria perigoso para os dois, especialmente se algum Serpente soubesse, mesmo que ele já demonstrasse que se importava demais com a garota. Ela entendia a gravidade disso, e tentava não contar a ninguém, logo quando seu irmão já tinha saído de casa há anos.

— Vou descobrir de um jeito ou de outro, estava te dando a chance de ser sincera comigo — deu de ombros. — A propósito, seu nome eu posso saber ou eu vou ter que ir pelo jeito difícil também? — questionou, se dando conta de que provavelmente sabia apenas o apelido da garota.
— E por que isso deveria te interessar? Não me entenda mal, mas eu não sou alguém que você deveria se importar muito — rebateu, respirando fundo.

não se importava. Não da forma como ela estava pensando, pelo menos. Mas se não era um Corvo, a garota andava com um e estava dentro da casa do xerife da cidade. Era, no mínimo, curioso e interessante os contatos que ela tinha. Seria muito escroto da sua parte se aproximar da garota para conseguir qualquer informação valiosa para os Serpentes? Bom, ao menos ele a trataria com respeito, então esperava que isso amenizasse um pouco.

— Vai ser pelo jeito difícil, então… — o Serpente disse, passando a ponta dos dedos em seu braço em uma espécie de carinho, ignorando totalmente o que falou.

Ela não respondeu, porque pensava que se fosse para que descobrisse algo, não seria nada que estivesse saindo pela sua boca, pelo menos. detestava entregar as pessoas, geralmente fingia que não via ou se negava a falar, era o único que conseguia tirar alguma coisa dela.
A garota se aconchegou contra e fechou os olhos, tentando não pensar em nada daquilo, até porque se sentia muito cansada.
Novamente, o Serpente olhou a atitude da garota pelo canto dos olhos, fitando as ruas e o trânsito inexistente logo depois. De todas as garotas disponíveis naquela cidade, logo uma Corvo estava na caminhonete velha com o símbolo dos Serpentes pichado na lataria, exibindo para todos com olhos, que o veículo pertencia a gangue. Pensou em perguntar se ela já tinha passado pelo processo de inicialização, mas sequer sabia se os Corvos tinha um, e se não tivessem, iria acabar entregando uma das tradições da sua gangue. Nos Serpentes, você só era considerado realmente parte depois que montasse o esquema completo de um contrabando, passando diretamente pelo território dos Corvos. Se fossem descobertos, automaticamente não passavam e eram descartados. A tatuagem da serpente vinha depois, claro, quando já era oficializado.

O celular de vibrou em seu bolso e ele o tirou rapidamente, vendo que se tratava de uma ligação de Heitor. Não atendeu, por motivos óbvios, mas ali soube que seu pequeno momento com a garota dos Corvos tinha acabado. Ele entrou pelo acostamento, já no limite da cidade e deu a volta. Estava mais perto do Píer do que de onde tinha pegado a garota, mas nem fodendo que a levaria para o antro dos Serpentes. Não só seria perigoso para ela, como para ele mesmo. O caminho até a casa do xerife foi rápido, e agora ele estacionou o carro bem em sua porta, mas não o desligou.

— Preciso cuidar de um assunto — falou baixo, esperando que ela entendesse que aquela era sua deixa para ir embora.

assentiu com a cabeça de forma lenta. Em algum momento no caminho tinha cochilado no ombro de . Ela esfregou os olhos com as costas dos dedos e soltou um chiado quando tocou sem querer onde estava machucado. Então se afastou do Serpente e olhou para seu rosto com atenção, alguns segundos em silêncio antes de se aproximar e dar um beijo em seu rosto, mas no canto de seus lábios. virou minimamente o rosto, fazendo com que os lábios da garota pegasse um pouco mais da metade.

— Obrigada — agradeceu, se afastando em seguida, olhando fixamente em seus olhos.

Era o máximo de carinho e gratidão que ela conseguia expressar por tê-la tirado de casa um pouco e dado uma volta na cidade para acalmá-la.
O Serpente assentiu em silêncio, olhando agora para seu rosto tão de perto. Mesmo que não expressasse qualquer reação, ele ia acabar com Jerry.

— Se cuida — Ele desejou, sincero.
— Já tem gente demais fazendo isso.

Então chegou mais perto e beijou os lábios dele de um jeito sutil, fechando seus olhos em seguida. se deixou levar pelo toque da garota. Já tinham transado, um selinho não mataria nenhum dos dois. Como estava sem cinto, ele virou o tronco, ficando meio que de frente para ela e passou as costas do indicador por sua bochecha, onde tinha visto que não estava machucado. Ela recuou de leve com aquilo, não estava acostumada a ser tocada daquele jeito, e isso a fez sentir estranha.
se afastou um pouco.

— Machucou? — questionou baixinho.
— Não — sussurrou, desviando o olhar. — Não foi nada. — Negou de leve com a cabeça fazendo um pedaço da sua franja que estava com a trança agora, caísse pela lateral de seu rosto. — Eu preciso te deixar ir.

O Serpente assentiu, notando que deveria ter mais coisas por trás daquele comportamento da garota, mas que não se daria ao trabalho de perguntar. Não por agora, pelo menos. Voltou à posição que estava antes, as mãos descansando no volante da caminhonete. ficou olhando o perfil dele por alguns segundos antes de puxar o seu rosto e lhe dar outro selinho, esse mais forte e apertado. Em seguida se afastou e saiu do carro rapidamente, dando uma pequena corrida de volta para a casa, mas parou quando chegou aos degraus e olhou para trás, esperando ver a caminhonete ainda ali.
soltou uma risada nasalada com o segundo selinho que ela lhe deu, deixando a sombra de um olhar divertido reluzir em suas íris castanhas. Não era muito de sorrir, poucos eram os momentos e os felizardos que tinham aquela parte sua.
Ele esperou até que atravessasse o carro e acenou com os dedos em sua direção quando a garota olhou para trás uma última vez, e a caminhonete só saiu da frente da casa após ela entrar na residência.
Quando saiu do Píer dos Serpentes, em busca de mais informações sobre o Corvo encrenqueiro, definitivamente não esperava que fosse encontrar , ou que eles fossem andar de carro enquanto conversavam. Foi… estranho. Mas o Serpente decidiu não pensar nisso naquele momento.
Ao passar pela esquina novamente, foi quando tirou o celular do bolso e retornou a chamada do seu tio.
A noite estava longe de chegar ao fim.


Como esperado, a nova rota para que os caminhões atravessassem a cidade foi um êxito, nem a polícia e muito menos os Corvos imaginaram ou estavam esperando que os Serpentes fossem usar a parte abandonada do Hotel Cliffside como caminho até o Píer, era algo audacioso até demais para uma gangue poderosa.
Com isso, as docas estavam iluminadas com luzinhas penduradas de um lado para o outro, o som alto tocava uma batida envolvente e todos os Serpentes riam e comemoravam em uma festa interna. Afinal, quanto mais contrabando desse certo, mais dinheiro eles teriam em seus bolsos.
estava sentado em uma cadeira de praia, tinha uma cerveja na mão direita, na esquerda ele segurava seu celular e analisava a mensagem que tinha recebido de Gregório. Como prometeu a , descobriria mais sobre ela e o Covo encrenqueiro pelo jeito difícil e, uma semana depois, lá estava com a ficha completa da família .
Ah, sim, porque o maldito tinha que ter transado logo com a filha da porra do xerife da cidade, e o irmão mais velho da garota precisava mesmo ser a merda de um Corvo. A informação que tinha em mãos só não o fez esquecer do que passou a semana planejando, porque tinha feito uma promessa.
Não só para , mas para si mesmo.
Jerry iria pagar pelo que fez. Porque se o covarde tinha sangue frio para fazer aquilo com uma garota, não demoraria muito até fazer com outra — isso se já não tivesse feito.
A mera possibilidade fazia a raiva esquentar o estômago de e a repulsa vinha crescente em sua corrente sanguínea, arrepiando seus pêlos em total desaprovação. , no entanto, não agia com os sentimentos a flor da pele, sabia que isso só faria suas ações serem descuidadas, o que o tornaria cego para as demais consequências se agisse de qualquer jeito.
O Serpente fingiu beber por horas a fio, com a mesma garrafinha de cerveja em mãos, que já tinha se esvaziado há tanto tempo que ele sequer saberia dizer. Estava esperando o momento em que o restante da gangue ficassem bêbados ou altos o suficiente para não escutarem os possíveis gritos de Jerry. Duas horas depois, perto das três da manhã, a alcool já tinha entrado completamente no sistema e na mente de todos. Os Serpentes que não estavam se esgueirando pelos contêiners para transar, estavam bêbados demais e começavam a ir embora.
A neblina da madrugada fria e o cheiro salgado da maresia tomou conta do Píer como um filme de suspense geralmente era feito. Assim como uma serpente, estava rondando sua presa desde muito cedo, observando o momento certo para dar o bote fatal em sua vítima e colocar para fora o veneno que tinha dentro de si.
Jerry andava cambaleante até a saída do Píer, o idiota tinha pedido sua moto em uma aposta contra um Corvo e agora estava andando a pé de um lado para o outro, como o incompetente frouxo e inútil que era.

— Aí, Jer — levantou da sua cadeira, chamando pelo Serpente por seu apelido.

Jerry olhou para trás e isso quase o fez cair. apressou os passos, dando uma pequena corridinha até o moreno.

— Opa! Quase caí — falou em uma simpatia e humor completamente falso.
— Bebi demais, cara — Jerry disse entre a risada embolada que mal conseguiu segurar.
— E você tá sem moto, né? — continuou seu teatro.
Jerry bufou, balançando a mão no ar com certa irritação.
— Perdi aquela bosta para um Corvo que roubou a corrida! — ele praguejou super contrariado.
— Porra, sério? Malditos Corvos! — imitou o gesto do Serpente e Jerry concordou, se apoiando ligeiramente em um dos contêineres. — Vamos, cara, vou te dar uma carona — tentou outra vez sua voz simpática super fingida.

Não sabia se era tão bom ator assim ou se Jerry estava tão bêbado que sequer estava percebendo o tom super fingindo. Não importava, na verdade. Jerry acompanhou até seu Cadillac Eldorado 1960 vermelho. Tudo que não gostava de chamar a atenção caia por terra quando ele saía com aquele carro, mas não tinha o que fazer, era seu xodó e pertenceu ao seu pai, não se desfaria daquele veículo por nada na vida.
Com muito custo colocou o bêbado no banco do passageiro e jurou aos seus e ao inferno que se Jerry vomitasse em seu carro, ele o mataria sem ao menos concluir o que tinha em mente.
percebeu que Jerry apagou antes mesmo que saísse completamente do Píer dos Serpentes e isso até que foi bom, assim evitaria perguntas desnecessárias. não seguiu em direção onde sabia que o Serpente morava, muito pelo contrário; ele pegou a saída à esquerda, ao invés da direita, seguindo diretamente para a Floresta Black Pines. O lugar era sua armadilha pessoal. Ninguém conhecia a floresta tão bem quanto .
Logo a rua asfaltada foi trocada pela barro e o carro balançava com frequência. parou de qualquer jeito e desligou o motor, mas os faróis continuaram acesos. Jerry continuava dormindo e revirou os olhos para o jeito como ele roncava como o porco nojento que era. Desceu do veículo, indo até o porta malas, de lá tirou uma mochila preta com o que precisava e deixou em cima da lataria vermelha, bem no capô. deu a volta, destravando a arma em sua mão agora e abriu a porta do passageiro de uma vez.
Jerry pendeu de lado e quase caiu de cara no chão, mas acordou no momento seguinte.

— Que porra é essa, cara?! — Jerry reclamou, coçando o rosto e bocejando.
— Desce — Agora sem qualquer vestígio daquela simpatia forçada, mandou, empurrando o cano do revólver em sua cabeça.

Os olhos de Jerry se arregalaram imediatamente, como se sua sobriedade o atingisse bem naquele momento. Foi possível ver seu pomo-de-adão subindo e descendo com ele engolindo em seco.

— O q… O que você tá fazendo, ? — perguntou assustado, em um fio de voz, como o covarde frouxo que era.

empurrou ainda mais o cano de metal contra sua pele, de um jeito bruto.

— Você está surdo? — rebateu, a voz tão fria quanto o sereno e a neblina que rondava a floresta. — Desce. Do. Carro — falou pausadamente agora.

Sem muitas alternativas e com real medo de levar um tiro, Jerry colocou as mãos para cima, em rendição, e desceu do carro como o Serpente mandou. segurou em seu ombro com a mão livre e foi lhe dando empurrões com brutalidade até a dianteira do Cadillac, Jerry tropeçava nos próprios pés, quase caindo pelo caminho.

— Escuta, cara, não sei que brincadeira de mal gosto é essa, mas não tem graça — ele tentava falar, mas era possível escutar nitidamente o bolo em sua garganta, já que sua voz saía de forma estranha agora.

se mantinha calado, mas a postura rígida e o maxilar travado denunciava que sua paciência estava se esgotando. Quando Jerry chegou bem onde queria, ele chutou a parte de trás do joelho do Serpente, o fazendo gritar de dor e cair de joelhos na terra úmida e quente da floresta. A respiração de Jerry vinha rápida e curta, a fumaça saia de sua boca junto com o ar frio que gelava sua espinha.

— Fiquei sabendo que você gosta de bater em mulheres, Jerry — disse, parando agora de frente ao homem.

Jerry já estava com o rosto molhado de lágrimas, e soluçava baixo, clamando por sua vida. Patético, na opinião de .

— Eu não sei o que aquela vadia disse, mas é mentira! — tentou se explicar, gaguejando e soluçando.
— Mas eu nem disse nomes ainda — se fez de desentendido, rodeando o porco.
— Não precisa dizer nomes… É mentira! É tudo mentira, eu não f-fiz nada! E-eu j-juro! — Jerry falou em desespero.

estalou a língua no céu da boca, um sonoro sinal de negação. Sua cabeça balançava também, lentamente, de um lado para o outro. Ele foi até o capô do carro, abrindo a mochila e vendo exatamente o que tinha consigo.

— É o seguinte, Smith… eu não acredito em você — suspirou pesado, encostado o revólver na lataria vermelha do carro.
— P-por f-favor, …P-por fa-vor! — O outro implorava.
— Mas somos uma família, não é? Serpentes acima de tudo e blá-blá-blá aquela ladainha de sempre — rolou os olhos. — Por isso, vou te dar uma vantagem — Ele se encostou no capô, cruzando os braços. — Vou te dar cinco minutos para correr e fugir de mim — propôs. — Se eu não te encontrar, você está livre.

Mesmo com as pernas trêmulas Jerry se colocou de pé e olhou por cima dos ombros, encarando em completo pavor. O Serpente tinha um brilho completamente sádico no olhar, esperado pela decisão dele.

— Vamos, Jerry, vai ser divertido — Ele deu de ombros.
— Por favor, cara… Não podemos só esquecer isso? — O covarde tentou argumentar.

simplesmente tirou o celular do bolso e abriu no cronômetro. O configurou no tempo informado ao Serpente e virou a tela do celular para que ele visse o relógio.

Corre rosnou para Jerry.

Dessa vez, vendo que não teria escapatória a não ser fazer o que tinha sido exigido pelo outro, e pensando que pelo menos daquela forma ao menos teria uma pequena chance de fugir daquele sádico maluco, Jerry Smith correu por sua vida, desaparecendo pela mata alta e troncos grossos das milhares de árvores que tinham na floresta.
Enquanto esperava o tempo passar, ficou jogando candy crush pacientemente, estava em um nível relativamente difícil de ganhar e perdeu a conta de quantas vezes precisou refazer o mesmo nível e não passar. Aquilo sim o tirava mais do sério do que gostaria de admitir. Respirou profundamente quando o alarme tocou informando que o tempo do cronômetro chegou ao fim e se obrigou a bloquear o celular.
colocou o revólver no cós da calça e de dentro da bolsa pegou um facão enferrujado e completamente cego; fora, é claro, uma chave inglesa grande.
Com uma calma invejável, adentrou pela floresta escura. Ele não corria, sequer estava com uma lanterna. Conhecia aquele lugar como o diabo conhecia o inferno. Seguiu calmamente na mesma direção que Jerry fez, assobiando uma música chiclete que estava em sua cabeça.
Quinze metros depois, já era possível ouvir os gemidos de dor e o arfar baixo que vinha de um ponto da mata. Não foi difícil encontrar Jerry caído no chão, chorando e praguejando baixinho, com uma armadilha de animal cravada um pouco acima do seu tornozelo.

— Seus cinco minutos acabaram — cantarolou.
— Você é… um filho da puta! — Smith rosnou e soluçou ao mesmo tempo. — Não pode fazer isso, porra, você é a porra de um Serpente e não ferimos os nossos! — gritou dessa vez.

andou até onde o outro estava e se agachou na sua frente.

— Eu sou um Serpente diferente — deu de ombros, umedecendo os lábios.

Então ele se levantou e, sem esperar por qualquer coisa que Smith pudesse dizer, o atingiu no rosto com a chave inglesa. Jerry gemeu alto, chorando e voltando a implorar para que parasse, que não fizesse aquilo.
Claro que o Serpente não o ouviu, afinal, Smith também não tinha escutado ou levado em consideração as lamúrias de — que com certeza o pediu para parar.

— Por… favor… — Jerry engasgou no próprio sangue, após mais uma porrada da chave em seu rosto. Tinha quebrado e engolido um dente, fora o maxilar que latejava e pulsava forte por toda sua cabeça.

chutou seu ombro, o fazendo cair deitado de barriga para cima. Não queria postergar aquilo. Tinha mais o que fazer. Abriu a calça de Smith e a puxou para baixo de uma única vez, com cueca e tudo. Fraco demais para reagir e tentar impedir, Smith se concentrava em tentar continuar respirando.
O grito seco e completamente desesperado, no entanto, o impediu de fazer qualquer outra coisa. A pressão, junto do queimor que se alastrou por suas células irradiou em pura dor. Seus olhos se voltaram para baixo, se dando conta de que tinha acabado de cortar seu pênis.

— Só para garantir que você não vai enfiar de novo essa minhoquinha em quem não quer — o Serpente falou baixo, como se estivesse explicando a uma criança que ela não podia empurrar o amiguinho na fila da escola.

Sangue jorrava por toda a parte agora, e Smith mal conseguia pensar, nenhuma palavra saía de sua boca. Ele apenas chorava e pedia por sua vida.
Mas não parou por aí. A próxima coisa que tirou do homem foi, literalmente, sua pele, bem na parte da tatuagem de serpente. Jerry não merecia estar vinculado àquele símbolo. Por fim, suas mãos foram os próximos membros que ele perdeu ainda consciente, berrando em dor e implorando pela própria vida.

Duas horas depois, quando já amanhecia, após enterrar o corpo sem vida de Smith pela Floresta Black Pines, colocou seus membros arrancados dentro de uma caixa preta e voltou até seu carro.
O Serpente seguiu até seu apartamento, tomou um banho rápido para o sangue seco e terra colada em seu corpo e voltou ao veículo. dirigiu até o Bar do Crow's Nest, e parou bem antes da porta para não chamar atenção de nenhum Corvo, já era arriscado demais estar no território deles sozinho.
Desceu do carro com a caixa em mãos e a deixou na porta, dava para ouvir o barulho que vinha de dentro. Com certeza ainda haviam Corvos bebendo ali.
saiu rapidamente, voltando para seu apartamento.
A caixa que ficou na frente do Bar dos Corvos, não tinha remetente ou destinatário, apenas um recado escrito à mão deixado bem na tampa:

“Ele não vai tocar em mais ninguém”

***

Era aproximadamente quase sete horas da manhã, o sol ainda estava fraco demais, deixando apenas o clima gélido no ar a beira-mar de Ravenport, daquele jeito que ninguém desejava levantar cedo para fazer qualquer tipo de coisa. Tinha ainda o sereno e a neblina que eram costumeiras.
Na frente do bar Crow’s Nest tinha um pequeno tumulto, Corvos se amontoando ao redor de uma caixa onde estava com a tampa aberta e o verso virado para baixo, deixando a frase de aviso à mostra para quem se aproximasse, conseguisse ler. Aquela movimentação estava chamando atenção de o suficiente para que se desse ao trabalho de ir verificar, já que conseguia ouvir o murmurinho lá de dentro do bar. Ele não fazia isso por curiosidade, não se importava muito com as coisas, mas poderia ser algo relevante, não que achasse que a vida girava em torno de si, mas geralmente o que acontecia aos corvos, acontecia com ele também. A gangue era como sua família, e o garoto tinha um apreço por isso.
tinha bebido a noite toda ao ponto de sentir que caminhar para muito longe seria algo complicado de se fazer, e já tinha decidido que dormiria no sofá do bar. Não seria a primeira vez que faria isso. Então, seus passos até o lado de fora foram lentos, cuidadosos demais para que não falassem, porque se tinha uma coisa que ele detestava era demonstrar alguma falha em público. O garoto foi andando entre os outros corvos até que chegou perto o suficiente para ver o que tinha na calçada. Seus olhos estreitos, sérios, mas confusos, em uma tentativa de entender o que era aquilo. Tinha sangue demais na caixa e o que parecia ser dois pedaços de carne. levou algum tempo até entender o que era aquilo, e o que poderia significar. Até que suas sobrancelhas foram se erguendo de forma sutil, quando compreendeu que aquilo era uma tatuagem de serpente, juntamente com um penis e um recado muito bem específico.
Foi fácil de entender que tinha feito o que não tinha terminado.
Por mais que não quisesse acreditar realmente que fosse o autor daquela obra, ele também estava surpreso pelo fato de que um Serpente tinha ido em partido a um Corvo, aquilo jamais tinha acontecido antes, e poderia simplesmente causar um caos. Sabia que dedos começariam a ser apontados indicando traição, e não queria esse tipo de algo em suas costas. Sentia seu coração batendo ligeiramente mais rápido, em uma espécie de euforia apesar do que aquilo tudo que aquilo poderia significar. Saber que Jerry não estava mais vivo para tocar em alguém o deixou feliz. Então sorriu de leve com aquilo, em satisfação. Ele sabia que não era algo normal ficar contente pela morte de alguém, porém, além de nunca ter se importado muito com isso, estava muito satisfeito, só não estava mais porque não tinham sido suas mãos que fizeram aquilo.
Sua felicidade poderia ter se tornado mais longa, mas percebeu que não podia saber daquilo, e que precisava também entender o motivo que realmente tinha feito aquilo. Ele não queria acreditar que tinha sido por causa da sua invasão ao Píer, e que sua atitude tinha levado aquele acontecimento. Era demais para sua cabeça no momento, o álcool não o deixava pensar com clareza. Então, se afastou daquele murmurinho e seguiu até sua moto, puxando a chave do bolso da frente de seu jeans surrado. Ainda incerto sobre o que iria fazer.
Ele sequer queria imaginar como iria se sentir caso soubesse daquilo, era um peso que não desejava que a irmã tivesse. Não achava que ela seria capaz de lidar com algo do tipo, e teve medo de que a garota se afundasse ainda mais em tudo de errado que fazia. Afinal, era a morte de um homem, mesmo que Jerry tivesse lhe feito mal, não tinha como saber como ela iria reagir.
Ele sequer pensou em colocar um capacete naquele momento. não estava apto a tomar decisões muito espertas depois de ter passado a noite em claro bebendo o que podia no bar dos corvos. Porém, o garoto apenas subiu na moto, colocou o capacete em seu braço e deu partida, indo em direção ao Píer dos Serpentes. Estava determinado de que falaria com sobre aquilo. Estava quase chegando, quando parou a XC-W em um posto para colocar gasolina. E por um minuto de lucidez, percebeu que sequer sabia o que falaria com o Serpente responsável. Perguntaria o motivo pelo qual levou a fazer aquilo? Mas e depois, o que faria? Jerry já estava morto. Ele não tinha que lidar com os motivos que levaram os meios, e sim as consequência que aquela morte causaria.
O Corvo soltou um pequeno gemido, e apertou suas têmporas. Era difícil de pensar. Então, tomou a única decisão que parecia realmente fazer sentido, abasteceu a moto e voltou para sua casa, ou melhor, trailer. morava em uma favela de trailer em Ebonvale, um lugar afastado, que era divisa com a floresta de Black Pines, ao norte de Ravenport. Não era um lugar bonito, quente e agradável, mas era o que tinha. trabalhava para os corvos, então seu dinheiro vinha dos serviços que lhe era dado, ele não queria chamar atenção, ou sabia que seria ainda pior. Ebonvale era um lugar dos Corvos, eles tinham tomado as terras e feito uma aglomeração de trailers ou casas de madeira, não tinham despesas, então era fácil morar ali. A polícia não ousava se aproximar do lugar, porque sabiam o quão perigoso poderia ser para alguém que não fazia parte da gangue.
precisou cruzar toda a cidade para chegar em Ebonvale, o vento gelado da manhã lhe dava um pouco de clareza sobre os fatos, mas ainda assim não sabia muito bem o que fazer. Não queria chamar atenção, então precisaria ser o mais discreto possível sobre o ocorrido.
Ele estacionou na frente do seu trailer e logo entrou, mas se deparou com Matthew deitado em seu sofá, apenas de cueca e vestindo uma camisa de . O garoto apertou a ponte do nariz, olhando aquela cena, e respirou fundo. Tinha vontade de jogar Matt para fora, porém aquilo causaria um alvoroço logo pela manhã, e ele estava cansado demais para isso no momento. Então caminhou até seu quarto, e se jogou na cama, que ficava no fundo do trailer, e puxou as cortinas curtas para que a luz do dia não o incomodasse, e daquele jeito acabou dormindo até o meio da tarde.
despertou sentindo o cheiro de comida, e isso o fez torcer o nariz, porque estava se sentindo enjoado e com uma ressaca fodida. Ele abriu os olhos, e pela porta aberta, conseguia ver Matthew na cozinha, fazendo algo para eles, exatamente vestido como antes. soltou um gemido frustrado e se virou para o outro lado, cobrindo a cabeça com um travesseiro e se arrependendo disso, porque o corte em sua bochecha ainda era fundo, e sangrou um pouco, logo quando não tinha feito pontos de verdade na ferida. Não se importou com aquilo, só queria diminuir a sensação da ressaca.

— ouviu Matt chamando, e ele tentou ignorar para ver se assim o cara ia embora. — Eu sei que está acordado. Vem comer — chamou, e o carinho em seu tom de voz incomodou ainda mais.
— Vai embora — mandou, ainda com o travesseiro cobrindo a cabeça. — Leva a comida se quiser, mas só vai embora. — Ele não tinha a menor paciência para lidar com o outro garoto.
— Pare de besteira, vem comer — pediu, a voz agora em notas mais baixas, claramente chateado.
— Por que você está aqui? — perguntou, tirando o travesseiro do rosto e olhando para ele.
— Quantos dias que você não come direito? — Tinha um olhar preocupado em Matthew.
— Não preciso que você faça comida para mim, eu sei cozinhar. Só vai embora — repetiu.

Antes que Matt conseguisse argumentar, alguém bateu fortemente na porta.

— Departamento do xerife. — Era o próprio Thomas .

não teve tempo de levantar para abrir, porque Matthew já fez isso para desgosto do dono do trailer. O xerife olhou lentamente para o garoto magro que abriu a porta, vestindo a roupa de seu filho como se acabassem de ter transado. O homem mais velho desviou o olhar logo em seguida, sentindo uma ponta de irritação em relação àquilo, pois nunca aceitou o que era, um homem que gostava de outros homens.

está? — Thomas perguntou rispidamente.

O seu filho já tinha levantado rapidamente agora, com a vertigem e dor de cabeça lhe o impedindo de ser mais rápido, enquanto sua visão escurecia por alguns segundos, até conseguir chegar na porta, e se segurar nela, claramente com uma cara de ressaca que poderia ser vista à quilômetros de distância.

— Oi — falou com seu pai, estreitando os olhos por causa da claridade.
— Precisamos conversar. Pode ser aqui ou na delegacia, você decide — respondeu, e olhou para Matthew, indicando que era para o garoto ir embora.

O mais novo olhou para o garoto mais uma vez. Já tinha lhe mandado embora algumas vezes, e não queria ter que abrir sua boca para falar a mesma coisa. Porém, desta vez Matt não debateu, apenas foi até o sofá, vestiu o restante de suas roupas, e foi embora vestindo a camisa de . Assim que estavam à sós, o xerife entrou no trailer e olhou ao redor, fazendo uma careta para o que via.

— Você poderia limpar esse chiqueiro de vez em quando, sabia? — comentou de forma crítica, e voltou a olhar para seu filho.

O garoto encostou no balcão da pia e cruzou os braços, encarando seu pai totalmente entediado.

— Duvido que você veio aqui para reclamar sobre a limpeza da minha casa — rebateu com a língua afiada como sempre.

Thomas concordou com a cabeça e tirou seu chapéu, se sentando no sofá, ainda olhando para os lados e examinando tudo ao seu redor.

— Você está sabendo que Jerry Smith está desaparecido? — perguntou como se não quisesse nada.
— Não sei quem é Jerry Smith — respondeu sem se dar ao trabalho de pensar em quem era tal pessoa.
— É o Serpente que você brigou uns dias atrás no Pier — contou, agora voltando a olhar para o filho.
— Hm, para mim eles são todos iguais — comentou em desdém. — Mas não, eu não sabia que esse animal estava desaparecido. Por que?
— Porque o órgão genital dele junto com a tatuagem de Serpente dele foram deixados na frente do Crow’s Nest hoje pela manhã, e ninguém viu ele desde ontem a noite. E coincidentemente você o ameaçou de morte na frente de várias pessoas, e o que torna tudo ainda mais estranho é que o DNA dele corresponde ao que foi encontrado na — disse jogando uma pasta de arquivo aberto com fotos sobre a mesinha de centro entre latas de cerveja vazias e maços de cigarro.
— Não fui eu, por mais que gostaria de ter sido — disse de forma despreocupada nem ao menos se dando ao trabalho de olhar aquilo.
— Por mais idiota que seja, eu acredito em você, mas a menos que consiga provar isso, vão querer te prender como suspeito, a menos que tenha algum álibe — explicou com calma, sem tirar os olhos do rapaz.
— Eu fiquei no Crow’s Nest a noite toda, fui para lá ontem por volta das sete da noite. A menos que seja fisicamente possível estar em dois lugares ao mesmo tempo. Eu acho que tenho um bom álibi, xerife. — Estava totalmente despreocupado com isso.
— Vou verificar a informação. Por acaso você não teria ideia de quem poderia ter feito isso, não é?

Thomas não era burro, ele tinha plena ciência do que o filho fazia e com quem se metia, mas apenas preferia fechar os olhos para alguns assuntos, era melhor assim. apalpou seu jeans procurando por um maço e o pegou quando encontrou amassado no bolso traseiro, então acendeu um cigarro de forma lenta, tragando e ignorando a forma que sua cabeça latejava por isso, juntamente com o enjoo.

— Não. E sinceramente, não quero saber. Isso me poupa a dor de cabeça. — Mentiu sem nem ao menos piscar.

Ele não simplesmente achava que era , era uma certeza. Não tinha como ser qualquer outra pessoa quando nem ao menos falou sobre o ocorrido com alguém, e achava que também não teria feito isso, conhecia bem sua irmã.

— Certo — disse, e se levantou do sofá, pegando o arquivo e o fechando. — Se souber de algo, me ligue. — Se virou para sair dali. — Ah… Ella Foxes vai lá em casa hoje, disse que vai levar uma lasanha, se você quiser aparecer…
— Ella Foxes não é muito nova para você? — perguntou em deboche.

Seu pai rolou os olhos e colocou o chapéu.

— Ela só está sendo gentil — respondeu, mas segurou um sorrisinho que quis sair dos seus lábios.
— Uma mulher de trinta e poucos anos querendo ser gentil com o xerife da cidade. Entendi, é claro — rebateu irônico e riu nasalado. — Com certeza que vou aparecer no jantar de família e vou levar algum cara comigo. — Agora tinha um tom ácido em sua voz.
— Você consegue ser desagradável quando quer. Eu só acho que seria bom para te ter por perto. Ela ficou bem calma nos dias que você esteve conosco — explicou em uma tentativa que fizesse o filho abaixar a guarda.
— Não era como se ela tivesse energia para brigar com alguém depois do que fizeram — rebateu, e respirou fundo. — Obrigado pelo convite, mas eu não vou.

Thomas olhou uma última vez para seu filho e assentiu com a cabeça, saindo do trailer e fechando a porta. continuou encostado na pia fumando de forma pensativa. O que fez iria trazer problemas, ele precisava resolver aquilo. Então apagou seu cigarro, foi tomar um banho rápido para então sair, e tentar encontrar o Serpente em algum canto da cidade.

***

O burburinho em Ravenport sobre o órgão mutilado e deixado como presente aos Corvos já estava rolando solto. sabia que aquilo aconteceria, o estranho seria se todos já não estivessem comentando sobre. O que não achou que fosse acontecer tão rápido, no entanto, foi o dedo da polícia em achar um suspeito para a vítima. pensou que teria alguns dias até que descobrissem se tratar de Jerry.
Talvez os próprios Corvos tivessem dito à polícia quem suspeitava que fosse, afinal, estava mais do que claro que a gangue rival trabalhava a ferro e fogo para acabar com os Serpentes.
No Píer, após a bebedeira da noite e madrugada anterior, o silêncio era até mesmo incômodo. Dava para ouvir os sussurros dos membros cochichando que a tatuagem de um Serpente foi arrancada e deixada no bar dos Corvos, que foi a própria gangue rival que fez isso.
ficou no Píer trabalhando até onde sua mente aguentou, após isso, pegou seu Cadillac e foi até meados do Porto Velho para receber, de um dos traficantes da gangue, a quantia acordada para a mercadoria nova que os Serpentes tinham distribuído.
A visita foi breve e não demorou nem cinco minutos, não se estendia em assuntos supérfluos com ninguém, principalmente com traficantes. Mandou uma mensagem para Heitor informando que já estava com o dinheiro e o entregaria mais tarde para as divisões subsequentes.
Ao invés de voltar para o Píer ou seguir para a casa do tio, dirigiu até o Farol de Brimstone. Precisava pensar, ficar sozinho. E lá era o seu lugar para isso.
ficou o dia todo rodando a cidade, e indo em lugares os quais sabia que não seria morto, afinal, se o xerife achava que foi ele quem tinha feito aquilo a Jerry, era o que os Serpentes achavam também. Ele estava fodido até que provassem o contrário, mas tinha aprendido; nunca mais ameaçar alguém em público. pensava que se tivesse sido ele pelo menos teria sido prazeroso, e no final poderia ter o mesmo destino com algum tipo de satisfação. Só que agora ele poderia apenas morrer por causa de outra pessoa.
No final das contas pensou que o deveria estar no Píer dos Serpentes ou em apenas em algum lugar privado. Era difícil achar alguém como não sabia nem ao menos seu nome. Então, por fim, foi até o farol fumar e pensar no que iria fazer.
Segundo os Corvos que encontrou, tudo aquilo tinha começado porque a mãe de Jerry tinha ido na delegacia pela manhã e falado que seu filho tinha sumido, e que tinha arrumado uma briga dias atrás, a mulher temia pelo pior. E a partir dali foi fácil. O xerife foi até os Serpentes, que falaram sobre o que fez, então ele foi até os Corvos, ninguém sabia o que seu filho tinha feito, mas disseram que tinham deixado uma caixa na porta do bar, e que aquilo era emboscada da gangue rival, querendo incriminar eles. Era literalmente um lado empurrando a culpa para o outro. Thomas então ligou os pontos, e foi fácil descobrir que era a ligação daquele crime, por isso acreditou que seria o culpado.
estacionou sua moto ao lado de um cadilac vermelho. Passou os olhos pelo carro que era enorme e chamava muita atenção, e se perguntou porque aquele carro não estava em um museu. Porém, reconheceu o quão bonito era. De qualquer forma, não ficou muito tempo ali. Ele caminhou até a porta do farol, sentindo o vento e a maresia embolando seus longos fios soltos, até entrar no lugar, e fazendo a corrente de ar parar de atravessá-lo.
O garoto foi subindo a longa escadaria de madeira, acendendo um cigarro no caminho, negando o sedentarismo que aquilo poderia lhe causar. Quando chegou no final, e olhou ao redor, ele não poderia ter ficado mais surpreso. O destino tinha lhe levado exatamente até onde ele queria. estava exatamente ali.

— Se alguém me falasse sobre esse momento, eu chamaria a pessoa de louca — comentou, tragando o cigarro enquanto se aproximava do outro homem.

estava apoiado no parapeito, olhava para o mar e sentia a brisa forte bater em seu rosto, refrescando sua pele. O momento estava perfeito, até que ouviu passos subindo pela escadaria. Rolou os olhos, se fosse Heitor querendo o dinheiro agora, ele bateria no tio. Porém, tinha esquecido de que ninguém sabia que ele se escondia naquele lugar quando precisava de um tempo.
Suas sobrancelhas se uniram ao reconhecer aquela voz.
Era o Corvo encrenqueiro.

— Tirou as palavras da minha boca — rebateu, olhando para de soslaio pelo canto dos olhos.

percebeu que o rapaz estava fumando e respirou fundo o cheiro da nicotina. Ele estava tentando parar com aquela merda, mas era estupidamente difícil acabar com o hábito adquirido desde os 15 anos.

— Estou te procurando há algumas horas. Bela merda que você fez — Já reclamou, enquanto se aproximava do Serpente e encostou no parapeito ao lado dele. — Ótimo jeito de me foder pelo que fiz com seu Serpente.

uniu de leve as sobrancelhas. Não pelo que disse, isso para ele pouco importava, na verdade. Mas o fato do homem apenas imitar seu gesto, ficando ao seu lado, encostado ao parapeito. realmente tinha uma visão de que aquele Corvo só sabia rosnar.

— Não sei do que está falando — o Serpente rebateu de prontidão, a voz calma e passiva que sempre usava.

Porém sabia, óbvio, ele só não se entregaria.

— Você pode falar isso para o xerife, mas não rola comigo — comentou, dando de ombros e tragando. — Quer? — ofereceu o cigarro.

olhou de relance outra vez, agora para o cigarro oferecido, e suspirou em derrota. Ele tinha controle sobre muitas coisas da sua vida, mas aquele era um vício que o controlava, não o contrário. Pegou o cigarro, dando uma tragada intensa e prendendo a fumaça em seus pulmões. Era louco pensar que a nicotina já estava agindo em seu organismo e o acalmando? Provavelmente sim, mas era exatamente dessa forma como se sentia. O Serpente devolveu o cigarro ao Corvo, pendendo a cabeça para cima e só agora soltando a fumaça que tinha prendido.
ficou observando cada movimento, detalhe e forma que fazia aquilo. Algo em sua naturalidade, frieza e calma chamava atenção, e lhe dava um certo charme ao fazer aquele pequeno ato.

— Vai me dizer como me achou? — perguntou, curioso.
Ninguém sabia que ele ia ao farol, justamente porque ninguém frequentava aquele ponto abandonado — e quase caindo aos pedaços — da cidade.

— Destino, certamente. — Deu de ombros, enquanto fumava. — Já tinha desistido de te encontrar, eu só vim aqui para fumar. Gosto da vista.
— O destino é um engraçadinho — comentou, ponderando suas palavras e ações.

Uma parte sua não gostou que aquele cara estivesse ali. gostava de pensar que aquele era seu lugar, de mais ninguém. Naquele farol, olhando para o mar e com aquela esperança ridícula de que um dia seu pai voltaria, deixava de ser um Serpente e se tornava apenas um órfão que mal se lembrava do som da voz de seus pais; mas que sentia a saudade corroendo em seu peito.

— Por que deixou a porra da caixa na frente do bar? Você era a única pessoa que sabia o que aconteceu. Eu não falei para ninguém, e duvido que tenha aberto a boca dela — falou bem sério e direto. — A polícia e os Serpentes acham que fui eu. Se eu não for preso, vou ser morto. Se pelo menos você tivesse me deixado acabar com o que comecei, eu estaria me fodendo por um bom motivo.

estalou a língua no céu da boca, bufando baixinho.

— Eu não sei do que está falando, Corvo — ele repetiu. — Mas se soubesse, diria que descobriram muito rápido que se tratava do Jerry, porque ele tinha comprado uma passagem para Massachusetts ontem a noite — contou, dando de ombros.
— A mãe dele foi na delegacia falar que ele não tinha voltado, e que tinha se metido em uma briga dias atrás. O xerife apenas juntou as peças. O DNA que foi tirado da era o mesmo do que tinha na caixa — explicou, respirando fundo.

A mera menção do procedimento que a garota passou, irritou profundamente . Jerry sofreu por horas até morrer, mas ainda assim o Serpente não achava que tinha sido o suficiente. Deveria ter demorado mais, sofrido bem mais.

— Considere sua situação resolvida — murmurou depois que soltou o ar.
— Só se for para você — rebateu com irritação. — Dê um jeito de tirar essa merda das minhas costas — avisou, dando um passo para trás.

estreitou os olhos, odiava aquele comportamento agressivo gratuitamente.

— Você escutou o que eu disse ou o vazio da sua cabeça é tão oco que faz ecos aí? — o Serpente questionou, apontando para a cabeça do moreno — Acabei de dizer para considerar sua situação resolvida. Você sabe o que significa isso? — perguntou retoricamente. — Que está resolvido.
— Eu ouvi, tem um cara provavelmente morto e a culpa é minha. Realmente, está resolvido, para você. Se livra de dois de uma só vez — retrucou ainda mais irritado, jogando a guimba do seu cigarro fora.

Agora riu em escárnio, virando o corpo para apoiar os cotovelos no parapeito.

— Está me acusando do quê, exatamente, filho do xerife? Eu sequer tenho parentesco com a polícia da cidade, tenho muito mais a perder do que você — Embora tivesse veneno em suas palavras, mantinha o tom frio e passivo.

riu de leve. Percebeu que o Serpente sabia demais sobre ele, quando sempre tomou cuidado para nunca falar seu sobrenome com ninguém, e especialmente sobre . Era hora de recuar.

— Você é muito mais babaca do que eu pensava — disse e se virou para ir embora.

Ele viu que estava perdendo o seu precioso tempo, e iria resolver aquilo de outra forma.

— Você tem que ser sempre tão impaciente?! — falou, vendo que o Corvo já se preparava para sair. — Por isso que todos te acusam, você faz um show por onde passa, se agisse na surdina ninguém sequer te cogitaria como suspeito — adicionou em um tom de conselho não solicitado. — Eu vou resolver isso, já te disse — frisou, para ver se dessa vez aquele cara entendia.
— Falou o homem que colocou a porra de uma caixa com um pau e a tatuagem de um Serpente na frente do bar dos Corvos. Você não foi nada discreto. Se sabe tanto de mim como está insinuando, teria dado o seu recadinho de outra forma — disse com desdém, caminhando até a escada para descer. — Fica longe da — deu seu último aviso.

revirou os olhos.

— Ou o quê? — questionou, sobre ficar longe da garota, um ar de diversão e desafio brilhando em suas íris. Ela não parecia nenhum pouco desconfortável em estar perto dele.

parou e olhou por cima de seu ombro, tinha raiva em seus olhos.

— Está avisado. — Seu tom de voz foi mais baixo e sério agora.

Ele não precisava dizer com todas as letras que faria algo com caso continuasse atrás de sua irmã. não era do tipo que avisava mais de uma vez, realmente ele sequer avisava.
umedeceu os lábios, sorrindo de lado para o Corvo. Não era de se deixar ameaçar, e com certeza não seria aquele cara o primeiro. Se a garota quisesse ficar com ele de novo e ele estivesse afim, ficariam.

— Espero não te ver mais aqui, Damien falou no mesmo tom que o outro usou.

sequer se abalou com aquilo, afinal, se sabia que ele era filho do xerife, o seu nome era o de menos agora.

— Não sabia que o farol era a sua propriedade, vossa majestade — debochou, virando seu corpo e apoiando no corrimão da escada. — Sempre vim aqui desde criança, não é como se você fosse me proibir disso.
— Então perdemos uma grande oportunidade de sermos amiguinhos? — debochou. — Também venho desde criança e nunca te vi aqui. Aliás, essa é a primeira vez que tenho tamanha infelicidade. Quando o carro vermelho estiver lá embaixo, nem sobe — deixou avisado.

O Corvo começou a rir fraco, e logo aquilo se tornou uma gargalhada, ao ponto que sua cabeça foi para trás.

— Você é muito idiota — respondeu, negando de leve. — Arranja uma cadeira, assim você espera sentado o momento que eu vá deixar de vir aqui por sua causa — disse em puro divertimento agora.
— Então da próxima vez ao menos traz a sua irmã — comentou, dando de ombros.

Não, geralmente ele não era o cara que provocava. Mas não podia negar que tinha algo engraçado em ver o Corvo espumando de ódio.

— Se não quer me encontrar, então não suba quando ver minha moto lá embaixo — completou, sorrindo de lado, e se virou para descer.
— Vai ser ótimo dividir o farol com você, vamos organizar uma agenda — completou mais alto, irônico, para que o rapaz pudesse ouvir mesmo depois de começar a descer as escadas.
— Vai se foder, Serpente — mandou já alguns degraus mais baixos. — E você deveria ir embora também, está vindo uma tempestade. A capota do seu carro está aberta.

sequer se deixou abater pelo que disse ou o tom usado, e sinceramente iria ignorar completamente, porém o que o fez ir em direção às escadas e também descer, logo atrás do Corvo, foi o aviso sobre a tempestade. Viu as costas de , que estava uns quatro degraus a frente, mas não apertou os passos, sentia que precisava de distância daquele encrenqueiro nato. Desceram em silêncio, até chegar a parte de fora do farol e rapidamente foi subir a capota do Cadillac antes mesmo de fazer qualquer outra coisa.
olhou aquilo e riu de leve.

— Roubou essa banheira de qual museu? — perguntou apenas para encher o saco.
— Não foi do chiqueiro que conseguiu essa moto, com certeza — rebateu, torcendo o nariz para a moto de .
— Ela é bonita, eu sei — respondeu sem se importar com o comentário do Serpente. — Quando formos amiguinhos eu te deixo dar uma voltinha.

revirou os olhos.

— Não andaria nisso nem me pagando — ele desdenhou, mas só para implicar. Também gostava de motos e queria comprar uma, mas não diria isso ao Corvo.
— Eu não cobraria mesmo — disse com certo ácido agora, colocando o capacete.

Os primeiros pingos de chuva começaram a cair, e isso tirou um suspiro de , de qualquer forma ele iria para casa mesmo.
entrou no Cadillac, não ofereceria carona ao Corvo. Se ele não quisesse se molhar, que esperasse dentro do farol pela tempestade passar. Por precaução, enquanto ainda tinha a sua vista, abriu o porta luvas do seu veículo. O envelope continuava no mesmo lugar que tinha deixado, ainda assim, o abriu para conferir se o dinheiro estava lá. Ele não confiava nos Corvos, e aquele cheirava a problemas. O Serpente ligou o veículo, saindo calmamente em seguida.



Quando deu um jeito em Jerry, já tinha um plano traçado em mente: havia comprado uma passagem para Massachusetts com o cartão de crédito de Smith, e havia tirado todo o dinheiro dele do banco. Seria a desculpa perfeita para que todos apenas pensassem que o Serpente tinha saído de Ravenport sem pretensão alguma de voltar. Tudo teria dado certo, se a mãe intrometida do morto não fosse dar com a língua nos dentes menos de 24 horas depois do sumiço do filho. não contava também que, dentre todos os dias para a polícia de Ravenport ser eficiente, o xerife tinha escolhido justamente aquele dia em específico.
Aconteceu tudo como uma bola de neve descendo sem freio, aumentando a cada nova rolagem; deixando claro que o impacto seria destrutivo quando finalmente parasse. Nesse caso, aquele maldito rolo compressor estava indo em direção ao Corvo encrenqueiro.
estava sendo jurado de morte pelos Serpentes e a gangue não queria saber se os Corvos revidariam, eles matariam a qualquer custo.
Não queria admitir, porém, aquela merda incomodou , ele não era bem o tipo de cara que gostava de ver os outros pagando por erros que não cometeram. Talvez fosse por isso que ele fez do que fez com Jerry, depois que viu o que o porco teve a capacidade e covardia de fazer com .
Enfim, não havia mais como desfazer aquilo e não se arrependera, porém agora precisava fazer algo por baixo dos panos novamente; dessa vez para livrar da morte e represália.
Quatro dias depois de deixar a caixa no bar dos Corvos, um presente bem inusitado, conseguiu montar uma armadilha perfeita para que Isaac Fields levasse a culpa por toda a situação. Bem, em defesa de , o moreno já tinha visto certos comportamentos de Isaac que eram bastantes suspeitos, fora que, sempre que montava os planos de rotas e o Serpente estava presente, magicamente as informações vazavam e os Corvos tentavam roubar as cargas de drogas.
Ele não tinha como provar que Isaac era o traidor, mas sabia que se tratava dele.
Para que o plano desse certo, infelizmente ele precisaria da ajuda… de um Corvo. Não qualquer um, isso era fato.
precisava de .
O Serpente foi alguns dias até o farol, na esperança de encontrar o Corvo, mas ele não apareceu em nenhum momento, o que o deixou frustrado.
No entanto, notícias ruins se espalhavam em Ravenport como pragas egípcias e se aquele encrenqueiro tivesse sido morto ou pego pelos Serpentes, já estaria sabendo. Sequer levou em consideração a hipótese de estar preso, o Corvo era filho do xerife afinal de contas; imaginou que o pai faria de tudo para manter seu filho longe das grades. Mas até quando o mais novo conseguiria ficar longe das presas dos Serpentes?
Era uma questão de tempo.
disse ao encrenqueiro que iria resolver o problema, e para ele, a palavra era tudo o que uma pessoa possuía. Simplesmente odiava não cumprir com o que prometeu.

não podia ficar em Ebonvale, mesmo que o lugar fosse dos Corvos, ele sabia que ainda assim os Serpentes poderiam entrar ali a qualquer momento e matá-lo enquanto dormia. Ele sabia muito bem como eram, perigosos e traiçoeiros. Não era à toa o nome deles ser tão sugestivo. Então, naquele mesmo dia que tinha se encontrado com , ele foi até seu trailer, pegou o que conseguia de roupa e foi para a casa do seu pai. Ninguém seria louco o suficiente para entrar na casa do xerife e nem tão esperto para saber onde estaria, a não ser , que era uma das poucas pessoas que sabia sobre .
O garoto não precisou falar nada com seu pai, quando Thomas abriu a porta e viu seu filho ali, já sabia o que aquilo queria dizer, e apenas o deixou entrar.
não saia de casa e pediu a que não falasse a ninguém que ele estava ali. Obviamente que a garota desconfiou que seu irmão estava se escondendo, e suspeitou ser dos Serpentes quando ele tinha arrumado briga com Jerry, porém não perguntou nada.

Quando tinha procurado por toda a cidade e nem mesmo os Serpentes no Píer sabiam onde diabos estava, foi que chegou a conclusão de onde o homem estaria. Poderia não ser a delegacia da cidade, mas era o lugar mais seguro e que ninguém jamais imaginaria que ele estivesse.
esperou que anoitecesse e pegou seu Cadillac, dirigiu até a vizinhança em que o xerife morava e estacionou duas ruas antes.
Estava chovendo, mas não tão forte. Havia dias em que Ravenport enfrentava uma tempestade sem fim. O céu clareava esporadicamente com raios e relâmpagos, os trovões fortes estrondava sob o céu, dando a estranha sensação de que a qualquer momento o mundo acabaria.
puxou o capuz para tentar se proteger da garoa e ventania forte que o cercava, escondendo as mãos nos bolsos da frente do casaco. A passos largos ele seguiu até a casa do xerife, mas foi só quando verdadeiramente parou de frente a casa, que percebeu que não poderia simplesmente tocar a campainha e esperar que fosse atendido.
praguejou, rondando a casa umas duas vezes, imaginando que a qualquer momento alguém acabaria ligando para a polícia por achar que ele tentaria invadir a residência.
Até que ouviu a janela de um cômodo abrir. parou os passos no mesmo instante e encarou a garota.

— Você tem que parar com essa merda — falou irritada. — Eu já te vi passando duas vezes pela janela. Você é grande demais para não ser notado.
— Eu meio que não estava tentando ser discreto, para ser bem sincero — ele respondeu, chegando mais perto da janela aberta agora.
— Muito esperto. Se meu pai te visse, você iria amar ter sido discreto — rebateu afiada, dando um sorrisinho. — O que você quer?

puxou o capuz para baixo, deixando o rosto e seus fios bagunçados balançarem lentamente pelo vento frio.

— Eu sei que o xerife não está aqui. Passei na delegacia antes de vir — respondeu de prontidão. Ele nunca dava um passo em falso. — Cadê o Corvo? — questionou assim que ela perguntou o que queria.

uniu as sobrancelhas encarando de forma estranha.

— Como assim você sabe que o Thomas é meu pai? — perguntou cruzando seus braços e olhando desconfiada para o garoto. — Acha mesmo que vou te falar onde ele está? — riu negando com a cabeça. — Homens, inacreditáveis — disse frustrada, segurando a janela para abaixá-la, e fechar a cortina na cara dele.
— Você não pode ser tão inocente assim — ele rebateu de forma educativa e paciente, como se a resposta fosse bastante óbvia.

encarou bem o que a garota estava prestes a fazer, ponderando se entraria pela janela ou se tentaria de outra forma. A verdade era que não estava esperando encontrar com , talvez por este motivo não tivesse simplesmente tocado na campainha.

— Vai se foder — rosnou para ele. — Realmente fui inocente em achar outra coisa sobre você.

Então bateu a janela, o olhando pelo vidro, irritada.

— Qual é, falou baixo, batendo as costas dos dedos no vidro. — Me deixa entrar — pediu.
— Seria ótimo se você soubesse o meu nome porque eu te contei — disse e puxou a cortina, e se afastou.
— Eu sou um Serpente, o que você achou que eu faria? Precisava saber quem você era — se explicou rapidamente, deixando a mão em um arco por cima dos olhos. Porém se sentia um tanto quanto insultado pelo comentário da garota.

Ela grunhiu do lado de dentro, tentando se conter, mas ela estava muito frustrada por , então foi até a janela novamente, puxou a cortina com força e abriu o vidro.

— Bem que fala que vocês são falsos. Um Serpente, né? Eu não vou te falar onde o está, e espero que você se foda. Agora sai da minha janela ou eu vou ligar para o meu pai — avisou, sorrindo fechado, e de forma cínica.

A fina garoa começou a engrossar, e novamente a tempestade estava voltando. Outro trovão e o céu clareou completamente em um relâmpago forte, o raio veio logo em seguida.
piscou com certa força, os pingos já escorriam por seu rosto e se acumulavam em seus cílios, pesando em seus olhos e embaçando de leve a visão.
Fitou por mais um segundo antes de colocar novamente o capuz, dando a volta para ir embora. Ele se deu por vencido, não encontraria nada ali, apenas uma gripe.
Não demorou muito e entrou no quarto de , olhando bem para a irmã.

— Quem era? — perguntou o garoto.
— Quem era o que? Está ficando doido? — Ela rolou os olhos e se afastou da janela, batendo as mãos em suas coxas.
— Sério? Eu estava no corredor ouvindo você conversando com alguém. Então, tem como responder quem estava me procurando?! — Foi mais firme dessa vez, olhando sério para ela.
— Não importa, eu não falei nada. Então não se preocupe, seu segredo está muito bem guardado — disse saindo do quarto, mas foi atrás.
— Ok, não precisa falar — respondeu já abrindo uma pequena porta no hall, e pegando um taco de basebol.
, não! — falou rapidamente, segurando o irmão pelo braço. — É o . Ele veio perguntar onde você estava. Mas eu não contei.
— Primeiro; quem é ? Segundo; como ele sabe onde você mora? — Uniu as sobrancelhas com força, percebendo que sua irmã estava fazendo merda, de novo.

Os dedos de se retraíram, soltando o braço do irmão, então deu um sorrisinho fechado.

— Foi o que pensei — resmungou, e seguiu para a porta.

A garota não o impediu dessa vez, e só ficou olhando a porta aberta por onde tinha saído. Ele caminhava em passos rápidos até chegar na calçada e olhar para os lados. Viu a uma certa distância uma pessoa se afastando, então começou a andar rapidamente atrás dela.
Tirando a residência do xerife da equação, não sabia mais onde poderia encontrar , e isso estava o frustrando de uma forma inimaginável. Não que se mostrasse ser a pessoa mais confiável da face da terra, mas ao menos achou que não o veria como uma ameaça. Qual é, eles tiveram um momento na caminhonete!
Seus pensamentos foram cortados quando, tarde demais, ouviu passos rápidos e apertados em sua direção. se preparou para o que viria a seguir, já imaginando que teria que brigar.
girou o taco na mão, o apoiando no ombro, dando passos mais rápidos, se preparando para bater no Serpente, quando ele reconheceu, por mais que não quisesse, o cheiro do perfume marcante de .
se virou, encararia de frente quem fosse o espertinho que tentaria uma briga. Embora sua visão estivesse parcialmente embaçada pela chuva forte, seria impossível não o reconhecer. As íris castanhas do Serpente vagaram do seu rosto para o taco em sua mão.

— Sério, encrenqueiro? Um taco de beisebol? — questionou, puxando o capuz para baixo novamente e levantando a sobrancelha.

estava segurando o ar em seus pulmões, e ficou encarando o Serpente por um momento, então abaixou a guarda.

— Não era como se eu fosse ter uma arma na casa do xerife — comentou rolando os olhos. — Achei que fosse mais esperto.

apenas levantou a camisa, mostrando a o revólver no cós da própria calça. desceu o olhar lentamente até a pele exposta de , e seus olhos ficaram exatamente ali, sem descer um centímetro, até que precisou olhar de volta para os olhos do rapaz por perceber o que tinha acabado de fazer.

— Melhor ter uma, nunca se sabe quando vai precisar — comentou, estreitando de leve os olhos para a reação de .
— Dane-se. O que você quer? — perguntou, querendo ir direto ao ponto por diversos motivos.

O Serpente revirou os olhos, começando a ponderar se realmente ainda estava disposto a livrar a pele daquele Corvo encrenqueiro. Ele umedeceu os lábios, não que precisasse, estava encharcado agora.

— Isaac Fields — falou o nome. — Me consiga provas de que ele está trabalhando com os Corvos e eu consigo fazer com que ele seja culpado pelo presente que deixei para você no bar — Sua voz estava duas casas mais baixas, ninguém podia ouvir aquilo, sob nenhuma hipótese.
— Sabia que tinha sido um presente — comentou dando um sorrisinho. — Mas o que está me pedindo vai além do que posso fazer. Está me pedindo para entregar alguém. Além do que, eu não tenho acesso a organização dos comboios.
— Ele não é só “alguém”. É um Serpente. Sei que está trabalhando com os Corvos, só preciso de provas — frisou, ignorando propositalmente o comentário de . — Precisa dar um jeito de achar alguma coisa, eu já tenho algo em mente, só preciso disso.
— Vai matar ele também? Mais um Serpente que possivelmente vai entrar na minha conta? Seus amigos querem me matar, ouvi dizer que estão até dando recompensa. E você quer que eu ajude a colocar mais um no caixão? Me pergunto que tipo de louco você é — questionou de forma retórica.

não via o menor sentido no que estava falando.
E, para mostrar que nem mesmo na rua do xerife eles estavam seguros, ouviu de longe o barulho cansado e arrastado do motor da caminhonete velha. não pensou muito, foi até a passos apertados, seus dedos se fecharam em seus braços, na dobra dos cotovelos; ele o empurrou até que entrassem em um pequeno beco, entre uma casa e outra. não ofereceu resistência alguma, porque tinha visto a caminhonete se aproximando ao longe.

— Quanto tempo até eles descobrirem que é aqui que você está se escondendo? — rosnou baixo, perto demais do Corvo. — Só faz o que eu tô pedindo, encrenqueiro.
— Dependendo de você, eu dou no máximo uma hora — respondeu irritado, sem se afastar. — Não posso sair daqui, você sabe melhor do que eu que estão me caçando.

respirou fundo, só agora percebendo que continuava com os dedos em volta dos seus braços. O soltou, dando um pequeno passo para trás, encostando na outra parede que tinha ali.

— Me pergunto por que estou me dando o trabalho de querer te ajudar — resmungou, passando os dedos por seus cachinhos molhados agora.

Os olhos de seguiram o movimento que a mão de fez, para então depois voltar a encarar seus olhos mesmo que a iluminação fosse ruim ali.

— Porque você se meteu no assunto que não era seu, e agora estou fodido por sua causa. Não é como se você estivesse me ajudando, exatamente — rebateu.

Ele virou seu rosto, olhando para a rua e vendo a caminhonete passando devagar, então se encolheu ao lado de , se escondendo na sombra.
O Serpente percebeu o que fez e não precisou de muito para entender. Ele mesmo se colocou mais à frente do Corvo, deixando que sua altura cobrisse qualquer visão que teriam sobre ele. franziu o cenho, não achava que teria aquele tipo de reação.

— Volta para a casa do xerife — rosnou, indo até a ponta do beco para ver onde a caminhonete estava. — Vou chamar a atenção deles para o outro lado do bairro, e ver se consigo ficar com as buscas nessa rua — murmurou.

Damei o puxou para fora do campo de visão e o virou de forma brusca. puxou seu braço, odiando o toque bruto do Corvo, e o empurrou de leve.

— Para com essa merda. Isso vai fazer eles me procurarem aqui — falou rapidamente. — Eles vão ficar rolando o bairro por algumas horas, se te virem aqui vai ser pior.

Outro trovão estrondou pelo céu, e o clarão do relâmpago veio logo em seguida.

— Dá para você parar de ser assim? — rosnou. — Volta para a casa do xerife, por ali — apontou para o final do beco onde estavam.
— Eu? Você querendo sair por aí e se colocando no meio de problema que não é seu, e fazendo todo mundo ficar em cima de mim! Eu? Eu mesmo? — rosnou, encarando os olhos do outro garoto.

se aproximou novamente, tapando a boca do Corvo logo em seguida, o prendendo contra a parede com o próprio corpo. automaticamente tentou se soltar, empurrando , mas sendo totalmente inútil, então sua mão ficou segurando a jaqueta do outro.
Os olhos do Serpente se estreitaram, e ele sussurrou um “Shii” ao Corvo. Sua cabeça virou para o lado, a caminhonete passava outra vez, bem mais lentamente agora, se empurrou mais contra , escondendo completamente o rapaz com seu corpo.
olhava para cima, encarando irritado fixamente o rosto de , porém sua própria respiração estava ficando pesada, sentindo o cheiro forte do perfume do outro tomar seus pulmões, afundando em seus brônquios. Seu corpo estava totalmente preso contra a parede, e agora não tinha mais resistência, apenas conformidade, assim como seus dedos iam afrouxando o aperto na jaqueta de . O cabelo de ambos totalmente molhado, grudados em suas peles.

— Quer ficar putinho? Beleza — sussurrou, estava tão perto de que seus narizes quase se tocavam. — Vou conseguir o que eu preciso sozinho — disse no mesmo tom, fitando as íris do homem à sua frente, porém os olhos de desceram pelo rosto dele até encarar seus lábios e depois voltar.

não tinha o soltado ainda, e, novamente, percebeu aquelas íris tempestuosas descendo e se demorando por um caminho que não deveria. Primeiro foi quando levantou a camisa, agora… seus lábios. O Serpente uniu levemente as sobrancelhas, tirando sua mão da boca de bem lentamente, arrastando de leve a palma por seus lábios.
Por um momento achou que tinha percebido o olhar que deu em seus lábios, depois achou que teria uma reação brusca, se afastando ou coisa pior, mas aquele outro ato o pegou desprevenido. Acabou franzindo o cenho tentando entender o que tinha acabado de acontecer realmente ali. Estava achando que era coisa da sua cabeça.
Percebendo a confusão no olhar do Corvo, limpou a garganta, se afastando dele. A chuva não tinha dado trégua por um segundo sequer desde que começou, e naquele ponto os dois estavam encharcados.

— Só volta para a casa do xerife e continua em prisão domiciliar voluntária — falou baixo, olhando para o lado novamente.
— Não. Eu não sei que tipo de loucura você tem, mas não vou deixar sair daqui agora, não vou arriscar mais. Já estou fodido o suficiente — rebateu, ainda encostado na parede, e olhando para o outro cara na sua frente.
— O tipo de loucura que eu tenho? Eu tô arrumando a bagunça que eu fiz — se explicou.
— Exatamente, e vai fazer ainda mais se não me ouvir agora — rosnou, e se afastou, mas sua mão ainda segurava a jaqueta do Serpente, o puxando consigo.

rolou os olhos, bufando baixinho em seguida. Sequer se incomodou por o puxar pela jaqueta.

— Ah, sim, porque você é um exemplo a ser seguido e ouvido — desdenhou. — Lembra que foi você a entrar no meu território espumando como um cachorro raivoso?!
— É diferente agora, o motivo é outro — respondeu, mas parou e olhou para os lados quando chegou na rua.

Então virou e puxou o capuz de .

— Esconde essa cara, você é muito fácil de ser reconhecido — advertiu puxando tanto o capuz do outro, que cobriu o rosto dele todo, e isso tirou uma risada fraca de .
— E pra onde você acha que eu vou com você? — questionou, percebendo que o Corvo estava praticamente o puxando e ele, deixando, por incrível que pareça.
— No momento você iria até a puta que pariu — respondeu voltando a puxar o garoto, voltando para a casa do Xerife.



sabia que aquilo era loucura, porém, era a melhor opção. Ele não iria arriscar de algum Serpente ver que estava rondando o bairro. torceu os lábios para , era possível aquele cara ser sempre tão grosseiro e mal educado? Por Deus, o Corvo simplesmente exalava raiva do nada.
Andaram rapidamente até a casa do Xerife e percebeu — antes mesmo de chegar na porta da residência — o que pretendia fazer.

— Vai me convidar para jantar também, Corvo? — debochou.
— Cala a boca! — resmungou irritado, já subindo o lance de degraus.

abriu a porta e empurrou para dentro. O Serpente resmungou um “mal educado” bem audível propositalmente para o comportamento do outro, que o ignorou totalmente. apareceu rapidamente no hall quando ouviu a porta batendo. A garota arregalou os olhos, e oscilou o olhar.

, o que está acontecendo?! — perguntou preocupada agora com o que aquilo poderia dizer.
— Nada, , assunto nosso — respondeu rapidamente.

Ele passou a mão no cabelo molhado, e viu que os dois estavam encharcando todo o hall. O garoto rolou os olhos com aquilo. acenou para , sabendo que a atitude irritaria .

— Eu ainda posso bater com esse taco na sua cara — avisou logo, e guardou o objeto no armário novamente.
— Por Deus, você tem outro humor além o da irritação? — desviou a atenção para o garoto, que sequer se deu ao trabalho de falar alguma coisa. — Ele tem outro humor atém desse? — desviou agora, perguntando com certo humor, voltando a atenção para que o fitava sem discrição.

fez uma careta para , ainda estava chateada com ele. Então, apenas se virou e saiu de perto, indo até a cozinha para pegar um pano e limpar a sujeira que os dois estavam fazendo com aquelas botas sujas e molhadas. voltou a puxar consigo, indo para o quarto dele.
Quando entraram, fechou a porta, e foi até a outra, entrando em um banheiro e pegando duas toalhas, entregando uma a .

— Vai para o banheiro e tira essas botas — mandou, enquanto começava a tirar a própria camisa que estava ensopada.

Quando entrou no quarto, viu que parecia muito com um de hóspedes. O Serpente pensou então que, ou não morava naquela casa ou tinha o levado para um quarto diferente do seu.

— Você manda demais, já percebeu isso? — resmungou, mas antes de começar a ir para onde o garoto tinha indicado, passou os olhos por ele, vendo que começava a tirar a camisa.
— Eu sou irritado, mando demais, algo mais para anotar na minha lista de coisas que te incomodam? — debochou enquanto tirava sua roupa molhada, e se secava.

não queria, ele até tentou, mas seus olhos seguiram por todo o corpo de quando viu que ele estava se despindo. limpou a garganta, o Corvo era tão irritado, que ele pensou que se fosse pego, ele iria querer partir para a agressão. Seguiu então para o banheiro, deixando suas botas lá. A toalha em suas mãos seguiu para seus fios quando voltou para o quarto, ele esfregou de leve o tecido por seu cabelo, tirando o excesso de água.
olhou e parou de se secar por um momento, a sua mão em seu pescoço com o tecido macio da toalha contra sua pele, enquanto o resto dela descia pela frente do seu corpo tapando parcialmente seu peito, mas totalmente a parte de sua barriga, até o meio das coxas, mas dando para ver que ele não estava usando mais nenhuma peça de roupa. Então seus olhos desceram lentamente por todo aquele homem que estava molhado bem na sua frente. Conseguia ver a camisa branca colada e transparente em seu corpo por baixo de sua jaqueta que estava aberta. A calça molhada e apertada contra suas coxas que pareciam ser bem fortes.
travou o maxilar tão forte que seus dentes até doeram. Seus olhos passaram cima abaixo por aquele desgraçado apenas uma vez, mas foi bem lentamente, até voltar às suas íris castanhas.

— Thomas deve ter alguma camisa que te sirva, vou buscar e você me dá essa daí para secar — avisou e desviou o olhar, então foi até o armário para algo para vestir.

O Serpente deixou a toalha em cima da cama por um breve momento, se livrando da jaqueta de couro primeiro; a camisa branca e completamente transparente foi a peça que saiu logo depois. Voltou a pegar a toalha, passando por seu peitoral e abdômen. deu um passo em direção a e estirou a mão com a camisa molhada em sua direção.
O garoto que agora já estava de calça, e tentava não olhar para trás, teve que levar o olhar até o Serpente. Ele encarou a camisa na mão dele, então olhou além dela, seu olhar indo em direção a toda aquela pele exposta, com os músculos perfeitamente entalhados naquele corpo. Praguejou mentalmente por ter percebido o que tinha acabado de fazer de novo, talvez, pela terceira vez naquela noite. Então apenas pegou a camisa e a soltou no chão.

— Já levo, vou terminar de me vestir — falou, pegando uma camisa na gaveta.

não queria admitir a si mesmo, mas seu corpo esquentou com a…terceira olhada mais intensa que lhe lançou em um espaço de menos de uma hora. Assentiu brevemente com o que ele disse, virando de costas para ele. abriu o botão da calça e desceu o zíper, tirando a peça para se enxugar também. Não que fosse aceitar muito mais do que uma camisa do xerife, mas ao menos poderia espremer seu jeans e o vestir novamente em seguida.
terminou de se vestir e se virou, e travou o maxilar com força ao ver apenas de cueca e de costas para ele, o tecido branco, totalmente marcado e transparente. Aquilo e nada era a mesma coisa.

— Vou levar para secar — disse, pegando as roupas molhadas, incluindo a calça de .

O Serpente o olhou por cima dos ombros, e se odiou pelo que faria a seguir.

— Espera — murmurou, levando os dedos até sua cueca e a tirando também. enrolou rapidamente a toalha na sua cintura, virando para fitar , entregando a própria cueca ao Corvo.

mordeu com força a ponta de sua língua, mas desviou o olhar rapidamente, e murmurou qualquer coisa, pegando a cueca de e saiu rapidamente do quarto, só então percebeu que tinha ficado segurando o ar até estar no corredor. Então foi rapidamente até a lavanderia e colocou as roupas na máquina, deixando no modo de lavagem e secagem. Assim que se virou para ir ao quarto de seu pai, ele deu de cara com , que estava encostada na porta com os braços cruzados.

— Por que você trouxe ele para cá? — perguntou claramente contrariada com aquela situação.
— Precisamos cuidar de alguns assuntos, e está chovendo lá fora, não ia ficar conversando com ele na varanda. O Thomas iria adorar ver um Corvo e um Serpente na porta da casa dele — debochou, dando um sorrisinho fechado, passando por sua irmã.

Ela rolou os olhos, e bufou, porém não falou nada, apenas deixando seu irmão em paz. foi rapidamente até o quarto de Thomas e pegou uma camisa e um calção qualquer, apenas para não ficar enrolado na toalha. Aquilo estava começando a provocar de uma forma que ele não queria.
Logo em seguida voltou para seu quarto e entrou, novamente fechando a porta. Então se aproximou de e lhe estendeu a muda de roupa.

continuou parado quando o Corvo saiu, soltando o ar de forma pesada logo em seguida. Os pingos de chuva batiam forte contra o vidro da janela fechada, denunciando que aquela tempestade estava longe de terminar. seguiu até a cortina, a abrindo de leve para ver a rua. Nem mesmo com aquele dilúvio a caminhonete dos Serpentes deixou de passar mais uma vez pela rua; o barulho cansado do motor estava sendo facilmente mascarado pelos ruídos da chuva e os estrondos dos trovões.
Ele passou a mão pelo rosto, se perguntando como tinha parado naquela situação um tanto quanto estranha até demais: dentro da casa do xerife, no quarto do filho do policial e… nu.
A porta se abriu e olhou de soslaio, virando para que entrava novamente. Em silêncio ele pegou as roupas que o garoto tinha oferecido e vestiu primeiro o calção, se livrando da toalha ao redor da sua cintura. A camisa foi o último item a vestir, e então fincou os olhos no Corvo.
desviou rapidamente e seguiu até a mesa de cabeceira, pegando o maço de cigarro e foi até a janela, abrindo apenas o vidro para a fumaça sair, então acendeu o cigarro, sentando no peitoril.

— Quer? — ofereceu.

bufou, sabendo que estava prestes a ceder novamente ao seu vício. Andou até onde o garoto estava e pegou o maço, dessa vez tirando um cigarro inteiro para si, e o levou para os lábios. aproximou mais o rosto do de , até que seu cigarro tocasse ao dele e tragou, soltando logo em seguida para deixar que a brasa acendesse o seu.
ficou olhando para o rosto daquele homem, tendo certeza agora que aquilo era uma provocação, ele só estava na dúvida exatamente qual tipo que era, se queria tentar irritar, ou ver como iria reagir. De qualquer forma, ele não expressou nenhuma reação, mas isso também queria dizer algo, afinal, não tinha se afastado também, apenas soltou a fumaça pelo nariz.
sentiu o calor do olhar do Corvo em si, e estranhamente não se incomodou com isso. Muito pelo contrário, quando as brasas finalmente foram o suficiente para acender seu cigarro, ele também não se afastou. Subiu o olhar, seguindo pelos lábios de , passando por seu nariz, até chegar em suas íris, e manteve aquele contato visual. Seu semblante estava neutro, porém sério, intenso. Tragou o cigarro outra vez, sentindo agora a nicotina entrando por seus pulmões em forma de fumaça e então a soltou pelo nariz e lábios.

— Está com dificuldade para acender o cigarro, Serpente? — ergueu uma sobrancelha.

não o respondeu, apenas puxou novamente o ar e o soltou em forma de fumaça, bem na cara do Corvo. Ele rolou os olhos e empurrou de leve pelo peito para se afastar, enquanto abanava o ar na sua frente para dispersar.

— O que você pretende fazer com o Isaac? — Decidiu colocar o assunto anterior em pauta.
— Por que quer saber? — o Serpente rebateu, segurando o cigarro entre os dedos, se deliciando com o efeito da nicotina.
— Meu Deus, tem como ter uma conversa contigo? Ou eu só vou ter que te trancar no banheiro até aqueles caras irem embora? — Questionou todo irritadinho.

A reação de tirou uma pequena risada de e o Serpente umedeceu os lábios, olhando para seu rosto emburrado. rolou os olhos em puro tédio.

— Você se irrita com muita facilidade, encrenqueiro — comentou, se aproximando do beiral da janela para soltar a fumaça presa em sua garganta. — Não vou matar o Isaac, eu só preciso de um culpado para quem matou o Jerry — explicou agora mais sério.
— Como? — perguntou, muito interessado, afinal, aquilo estava enchendo de merda até o pescoço.

o fitou, se perguntando se poderia dizer seu plano a pessoa que menos confiava na face da terra. Se encostou na parede ao lado, pendendo a cabeça para cima.

— Jerry descobriu que Isaac estava trabalhando para os Corvos, e o ameaçou com isso. Isaac matou Smith para silenciá-lo — Resolveu explicar a muito por cima o que faria.
— Hm… e para não ser sua palavra contra a dele, precisa que eu descubra se isso é mesmo real — comentou pensativo. — Cadê o seu celular?
— Não preciso que você descubra, é real — ele interpôs. — Eu só não tenho provas físicas, mas tudo com Isaac está absurdamente estranho no Píer. Se eu não o culpar, ele vai jogar a culpa em mim por trabalhar com os Corvos, o círculo dele está fechando antes mesmo de Jerry — explicou, indo até o banheiro onde tinha deixando o seu celular e o revólver.

não falou nada, apenas esperou que o aparelho fosse entregue, desbloqueado. Primeiro ele abriu o mapa de Ravenport, e pinou um ponto dentro da floresta Black Pines, depois olhou se tinha o aplicativo do snapchat, e quando não encontrou, baixou e estendeu o celular para .

— Faz uma conta. Vou te dar o meu contato, se descobrir alguma coisa, te mando. Marquei no mapa um ponto de encontro. Se Isaac estiver mesmo entregando vocês, é nesse lugar que passa as informações — explicou rapidamente.

Enquanto ia ouvindo a explicação de , acessou aquele aplicativo já com a conta do seu e-mail, assim seria mais rápido de finalizar o cadastro. Quando terminou, voltou ao mapa e deu zoom no pino que o Corvo marcou.

— Quando é o encontro? — questionou, devolvendo o celular para que salvasse seu contato no snapchat.
— Dias aleatórios, pelo que sei — comentou dando um suspiro.

Os corvos mais velhos sabiam que era filho do xerife, e mesmo tendo aceitado ele na gangue, nunca confiaram de fato nele. Aquilo fez soltar um grunhido baixo, sem a ajuda do Corvo como pensou que teria, seria mais difícil conseguir provas contra Issac. Ele pegou o celular de e colocou seu contato, então viu o nome do Serpente.

? — falou em tom de pergunta, estendendo o celular de volta.
— Não era o que estava esperando? — perguntou de forma sugestiva, pegando o celular.
— Não sei, não acho que você tem cara de — implicou, lambendo os lábios e tragando o cigarro de forma lenta.

passou os olhos por seu rosto, parando em seus lábios quando os umedeceu. Tragou o cigarro com força, desviando o olhar quando percebeu o que tinha acabado de fazer. tinha notado, ele ainda não estava muito acreditando no que estava vendo.

— disse a . — Pode me chamar assim, se quiser.
— Não sei se gosto.
— Tem sempre que implicar com alguma coisa? — o Serpente perguntou retoricamente, balançando de leve o cigarro do lado de fora da janela, para jogar as cinzas.

Ele olhou para o céu, se perguntando quando aquela tempestade filha da puta iria cessar para ir embora.

— Sim — sua resposta tinha sido só para contrariar. — Está com pressa? — perguntou, virando o rosto e olhou o cara que estava mais perto agora.

o fitou pelo canto dos olhos.

— Só não estou nenhum pouco ansioso para quando o xerife chegar — comentou.
— Não faço ideia do que ele iria ficar mais feliz; de um Serpente na casa dele, ou um cara com as roupas dele no meu quarto, e com o cabelo molhado… — debochou, rolando os olhos. — De qualquer forma, ele nem precisa saber que você está aqui, a menos se quiser ir se apresentar como meu amiguinho.
— Passei despercebido pela polícia incompetente dessa cidade até agora, prefiro continuar assim, amiguinho debochou, jogando a bituca do cigarro pela janela.

Sem ter muito o que fazer, e praticamente preso naquela casa até que a chuva passasse ou os Serpentes parassem de rondar aquela vizinhança, se sentou na beirada da cama, jogando o corpo para trás em um suspiro cansado.
ficou olhando para ele por um tempo, o tecido fino do calção marcando… Seus olhos ficaram ali por quase um minuto inteiro, imaginando como aquela região era.

— Quer pedir pizza? — perguntou, tentando tirar aquele tipo de pensamento de sua cabeça.

suspendeu de leve o tronco, apoiando o peso nos cotovelos e encarou o Corvo. Aquela posição não poderia ter deixado ele ainda mais atraente.

— Pepperoni e a outra metade você escolhe — falou em um tom baixo, fitando os olhos do Corvo.

ficou sustentando o olhar dele, e continuou ao se levantar, deixar a guimba do cigarro no cinzeiro e pegar o próprio celular.

— Algo para beber? — Desbloqueou o celular e começou a mandar mensagem para a pizzaria.

não sabia o que aquele contato visual queria dizer, mas estava gostando, então continuou. Acompanhou cada movimento de com o olhar, passando as íris por todo seu corpo, e voltando para seu rosto, quando viu que o garoto estava com a atenção no seu celular. Voltou a deitar como estava antes.

— Escolhe aí — murmurou, decidindo que era melhor encarar o teto, já que sua mente estava o levando para lugares que não deveria.
— Cerveja — disse, sem tirar os olhos do aparelho.

Decidiu pedir apenas uma pizza de pepperoni mesmo, e um pack de cerveja. Então deixou o celular de volta na mesa e foi até a cama, sentando na outra ponta dela e apoiando as costas na guarda.

— Quem te falou sobre mim? — perguntou, olhando para o rosto de .

virou a cabeça para o lado, vendo de cima.

— Te segui até aqui depois que saiu do Píer naquele dia — contou, como se aquilo explicasse tudo.

O garoto uniu as sobrancelhas confuso.

— Não, você não seguiu. Eu tomei cuidado — disse sem acreditar naquilo.
— Não tanto cuidado quanto imagina — rebateu, subindo um pouco mais na cama e se virando de bruços. Ele apoiou o queixo na mão. — Eu sou bem discreto, modesta parte.

O Corvo acabou passando os olhos pelo corpo do Serpente. É só conseguiu pensar em uma coisa naquele momento; Porra, ele não precisava ser gostoso desse jeito.
— Não, você não é nada discreto — respondeu voltando a olhar para seu rosto.
— Eu te segui até aqui e você nem percebeu — respondeu aquilo, apenas para provar seu ponto.

só se deixava ser descoberto quando realmente queria. Seus passos eram minuciosamente calculados. Ele até pensou em dizer naquele momento que ficou com a irmã do Corvo e ele também não tinha ideia daquilo, mas desistiu da hipótese.

— E isso te levou até o meu nome? E sobre que o xerife era meu parente? Porque eu entrando aqui não quer dizer que sou filho dele. — não estava satisfeito apenas com aquela informação.
— Você é muito curioso, encrenqueiro — comentou, se virando de barriga para cima outra vez. — Achei que estivesse tramando com a polícia para prejudicar os Serpentes, quis te investigar — ele deu de ombros, e assentiu em entendimento.
— Vai ficar se esfregando na minha cama? — Ergueu uma sobrancelha. — Estou na dúvida se é uma tentativa de sentir o meu cheiro nela ou se está afim de deixar seu cheiro impregnado nela.
— Estou procurando uma posição, engraçadinho, esse colchão é péssimo — resmungou.
— Quer mais espaço para você continuar? — Seu tom de voz saiu mais baixo agora.
— Não, gosto de me esfregar no apertado — ele respondeu, só para implicar com .

A verdade, no entanto, era que estava se sentindo estranho pela normalidade com que os dois estavam lidando com a situação. Quer dizer, super normal um Corvo e um Serpente estarem na mesma cama, na casa do xerife.
Por mais que não quisesse, respirou mais fundo com aquela resposta e sentiu seu corpo ficando ligeiramente quente, afetado com o tipo de pensamento que lhe tomou. Então, mais uma vez desviou o olhar e ficou quieto.
O celular de começou a tocar, preguiçosamente o garoto levantou de onde estava e foi em direção ao aparelho, vendo que o identificador constava ser Heitor. Ele ponderou se atenderia ou não, pensando que qualquer coisa que dissesse, o Corvo poderia o prejudicar futuramente, por fim, decidiu que não atenderia; recusando a chamada.
Ele seguiu até a janela, dando uma olhada no tempo e também no movimento da rua, deixando que a cortina impedisse que fosse visto do lado de dentro.
ficou calado, sentado em sua cama, apenas observando .

— Sua irmã é Corvo também? — questionou ao garoto.

Não que fizesse o tipo que participava de gangue, mas as aparências, muitas das vezes, enganavam.

— Não, ela não gosta que mandem nela — contou, dando de ombros.

Menos mal, pensou. Ao menos não tinha transado com o inimigo.

— Você também não tem nenhum pouco cara de que gosta de ser mandado — o Serpente comentou, voltando até a cama e se deitando como estava antes.

O garoto até pensou em responder, dizendo que ele também não gostava, mas que foi preciso se tornar um Corvo. No começo realmente não gostou, mas depois já tinha se tornado tão automático fazer o que era mandado, que não se importava mais, até porque, os Corvos sempre lhe deram o que era preciso para sobreviver em Ravenport.

— E o que o xerife acha do filho estar em uma gangue? — Diante do silêncio de , perguntou outra vez.
— Isso é um interrogatório? — retrucou, estreitando os olhos em sua direção. — Ou está tentando ser meu amiguinho para conseguir o que quer?
— Achei que estivéssemos conversando? — o garoto rebateu, naquele mesmo tom passivo e educado que sempre usava. — Mas tudo bem, também sei ficar calado — disse, literalmente fechando a boca.
— Você é oito ou oitenta — resmungou, e pegou mais um cigarro, acendendo logo. — Não sei se quero te contar o que meu pai acha, e muito menos o motivo que virei um corvo, é algo pessoal demais.

esticou o braço em direção ao cigarro depois que tragou, em um pedido silencioso, e até mesmo atraente, pelo menos aos olhos do Corvo, que tombou a cabeça ligeiramente para o lado, descendo o olhar pelo rosto do homem, mas entregou o que estava pedindo.

— Se me disser que foi um ato de rebeldia contra o xerife, eu vou embora — falou com certo humor, pegando o cigarro.
— Seria bom se tivesse sido isso — murmurou mais para si mesmo.

levou o cigarro até os lábios, segurando com a ponta do polegar e indicador, tragando profundamente.

— Fumo desde os 15, vivo tentando parar, mas sempre volto — comentou despretensiosamente, devolvendo o cigarro ao Corvo.
— E por que está tentando parar? — Pegou o rolinho branco de volta e tragou, encarando a olhos de .
— Saúde e essas baboseiras — ele deu de ombros, balançando a mão no ar.

tinha a memória vívida da sua mãe dizendo que ele nunca deveria fumar. Era poético demais ele ter começado justamente porquê ela tinha morrido.

— Pessoas de vinte anos não precisam se preocupar com saúde. Fume essa merda e lamente depois — disse, estendendo o cigarro para ele.
— Você é sempre tão delicado — desdenhou, mas pegou o que lhe foi oferecido, tragando outra vez. — Então, vai dizer por que quis se tornar um Corvo? Os Serpentes não te agradaram?
— É por esse motivo que as pessoas querem ficar comigo, faz parte do meu charme — ironizou a situação, enquanto pegava outro cigarro para ele e colocando o cinzeiro na cama, entre eles. — Eu já tinha amigos que eram Corvos, e também nunca foi um pensamento fazer parte dos Serpentes. — Deu de ombros.
— Sério? Nosso plano de saúde é ótimo — implicou, batendo de leve o cigarro no cinzeiro e voltando a fumar.
— Por que você se tornou um Serpente? — questionou de volta.
— Pelo plano de saúde, óbvio — debochou, rolando os olhos, com um ar de sorriso. empurrou de leve a perna dele, em resposta. — Meus pais morreram quando eu era mais jovem, os Serpentes me acolheram — explicou sem entrar em muitos detalhes.
— Sinto muito… Ou não, talvez você só esteja falando isso para deixar o clima pesado porque eu não quis te contar o motivo que virei um Corvo — rebateu rapidamente de forma esperta, fumando seu cigarro.

Sua reação até tinha pegado de surpresa, mas tão rápido quanto veio, ela foi embora.

— Você é um babaca — o Serpente resmungou, rolando os olhos.
— Estou adorando todos os seus comentários negativos sobre mim, me pergunto sempre qual vai ser o próximo — implicou, dando um sorrisinho. — A minha história também é triste, mas ainda assim não quero contar.
— É porque sua pior atitude é sempre a próxima — rebateu, sem se deixar abalar. Ele bateu o cigarro de leve no cinzeiro novamente, apreciando a nicotina no seu organismo.

não aguentou, e acabou rindo de leve. Então, ouviu a campainha tocando e levantou, colocando o cigarro no cinzeiro. Levantou da cama berrando para a irmã receber a pizza para eles, enquanto saia do quarto para pagar o pedido. fez o que foi mandado, levando para a cozinha, onde seu irmão já estava esperando. Ela pegou o dinheiro, e saiu. deixou uns pedaços para a garota, pegou as coisas e voltou para o quarto, fechando a porta com o pé. Ele foi até a cama e colocou a caixa de pizza no meio dela. Depois tirou duas cervejas do engradado e entregou uma para .

— Isso é estranho — comentou , abrindo a caixa e pegando um pedaço de pizza, se sentando onde estava antes.

O Serpente não podia concordar menos.

— Se quiser, podemos duelar para saber quem manda na caixa de pizza — sugeriu, bebendo um gole da cerveja.

não via muito problema em interagir com Corvos, mas eles, em sua grande maioria, faziam de tudo para provocar os Serpentes.
acabou sorrindo de lado, mordendo um pedaço da pizza enquanto olhava para , como se o tivesse provocando diante a questão do duelo. Aquilo fez dar uma risada, porque ele fingiu que pegaria a caixa para si, e a segurou rapidamente.
O que só deixou a situação ainda mais estranha. Agora eles estavam… brincando um com o outro?

— Sobre o que mesmo que você quer duelar, Serpente? — perguntou bebendo um pouco da sua cerveja.

passeou os olhos por seu rosto, se demorando um pouco em seus lábios quando viu eles encostarem na boca da garrafa. Desviou os olhos, pegou um pedaço de pizza e o enfiando na boca para se ocupar com qualquer outro pensamento.

— Vou te poupar da humilhação de perder para mim — disse.
— Dependendo do que eu perder, posso até gostar — comentou, rindo de leve.

Sua resposta fez o Serpente estreitar os olhos.

— E o que seria? — instigou, levantando uma das sobrancelhas.
— É melhor eu me poupar — rebateu com um sorrisinho no rosto.
— Ah, não, Corvo, agora você vai dizer. Vamos, eu te desafio.
— Isso não funciona comigo, meu ego não se incomoda com essas coisas — disse rindo mais um pouco e apoiando as costas no encosto da cama, bebendo mais cerveja e comendo mais um pedaço da pizza.

Uma sequência de trovões quebrando no céu reverberou pelo ambiente, mas em Ravenport aquele tipo de coisa era tão habitual que se tornava até comum entre a população. O que ninguém sabia era que, no fundo — desde criança —, sempre teve medo de tempestades. A sensação piorou um milhão de vezes mais depois que seu pai morreu pelo mar.
travou o maxilar, olhando para a janela de relance e respirou fundo, mantendo o semblante indiferente e calmo; mas por dentro ele estava ficando tão agitado quanto as ondas que se quebravam no mar.

— Te incomoda? Os trovões? — perguntou ao notar a tensão no maxilar do outro.

Os olhos castanhos de subiram até . Outro trovão, dessa vez mais alto. fechou os olhos lentamente e respirou fundo de novo, assentindo em silêncio.

— Quer maconha? — ofereceu, em uma tentativa que aquilo pudesse acalmar .

já começava a sentir seus batimentos aumentarem. Enquanto os trovões estavam mais baixos, ele conseguia controlar aquele medo irracional, mas à medida em que a tempestade foi tomando mais e mais forma, com os trovões quebrando nos céus tão forte que até vibrava, a agonia passou a apertar mais forte o seu peito.
Era meio contraditório ter medo de tempestades em uma das cidades que mais chovia em todos os Estados Unidos; a cidade deveria se chamar Ravenstorm, na opinião de .
Esperava que fosse zoar aquilo, afinal, era um medo estúpido e infantil, mas se surpreendeu com o que o garoto ofereceu.

— Sim — Aceitou de prontidão, se perguntando se não tinha sido rápido demais.
— Vou bolar um baseado — falou terminando de comer a sua fatia e levantando.

foi até o banheiro, lavou as mãos, e depois voltou, pegando algumas coisas no armário, e tirou de lá um iPod velho junto. Ele jogou para o aparelho que tinha enrolado um fone de ouvido, e o Serpente o pegou no ar.

— Acho que isso vai ajudar — avisou, apontando o mp3, enquanto se sentava novamente na cama com uma caixa em mãos.

Certo, tinha algumas atitudes que estavam pegando completamente desprevenido. Uma coisa era oferecer maconha, isso era até considerado normal, dadas as circunstâncias; outra, completamente diferente, era aquilo. Ele desenrolou o fio, colocando os fones em seguida. Estava um pouco sem jeito, para falar a verdade. Ninguém nunca tinha percebido antes que ele tinha medo de tempestades — apenas seus pais, mas eles estavam mortos — , e sempre cuidou de si mesmo sozinho, procurando meios para se manter calmo até que a maldita chuva desse uma trégua.
por sua vez ficou calado, bebendo sua cerveja e concentrado no que fazia, escolhendo o que usaria. Sabia que se o seu pai chegasse em casa e sentisse o cheiro de maconha iria surtar. Ele não estava afim de arrumar encrenca, não agora. Então pegou uma blunt de chocolate, o cheiro adocicado se tornava predominante quando queimava o papel. Na caixa tinha pequenos frascos com um bub cada, e a etiqueta na frente com os nomes. Escolheu um skunk, porque sabia que iria deixar mais relaxado, pegou um pouco de prensado para misturar e cortou as duas com uma tesourinha, totalmente concentrado no que fazia, bebendo sua cerveja. Às vezes olhava de relance para , que vez ou outra mexia no mp3 e parecia se encolher sutilmente entre as trovoadas.
Aquele iPod era uma das coisas mais pessoais que tinha. As playlists cuidadosamente criadas, assim como os nomes de cada uma, eram a forma dos seus sentimentos traduzidos.
mexia nas playlists, vendo as músicas que tinham ali e se perguntando se tinha sido a montar elas. Escolheu a primeira música e depois outra, decidindo que deixaria no aleatório mesmo, enquanto esperava que o Corvo voltasse com o baseado.
então começou a bolar o baseado cuidadosamente, e quando estava passando a língua pelo papel, ficou olhando para . desceu as íris até seus lábios, fitando sua língua passando pelo papel, ele se perguntou se estava implicando ou provocando.
As duas possibilidades estariam certas em afetá-lo.
então estendeu o cigarro de maconha para o garoto, que prontamente o pegou sem esperar, procurando pelo isqueiro logo em seguida. Quando o achou, acendeu o baseado e tragou, prendendo a fumaça.

— Porra, está forte pra caralho — comentou meio esganiçado, rindo enquanto tossia de leve, estendendo para .

Ele riu pegando o baseado, e tragando devagar, sem tirar os olhos de , que sequer piscava, o encarando também.

— Achei que era o intuito te fazer relaxar rápido — disse sorrindo enquanto soprava a fumaça para cima.

O aroma do chocolate era forte, mascarando bem o cheiro de maconha.
se aproveitou do que ele fez e deixou o olhar vagar por seu pescoço, se atentando na pele alva e no pomo-de-adão muito bem marcante que tinha. O Serpente esticou a mão novamente, pedindo silenciosamente pelo baseado outra vez, e tirou um dos fones, oferecendo para .

— Acho melhor você ficar com os fones — avisou, vendo a sequência de clarões refletidos pelo quarto, devolvendo o baseado ao .

torceu o rosto, mas não para o Corvo ou o que sugeriu. Voltou a botar o fone prontamente, topando o volume na esperança de abafar completamente os ruídos. Pegou o baseado, tragando profunda e lentamente dessa vez, jogando a cabeça levemente para trás, de olhos fechados. Estava forte, deixava um sabor adocicado na boca.
ficou olhando aquela cena, a fumaça saindo dos lábios de , ela se dissipando no ar em desenhos abstratos. Ele precisava admitir que era uma cena sexy, especialmente quando aquele Serpente era tão bonito daquela forma, cada traço do seu corpo perfeitamente esculpido, poderia ter sido feito até por Michelangelo. Seu corpo não o deixava negar o desejo que tinha por homens, e aquele em específico estava despertando um desejo nele naquela noite. Isso era uma merda por diversos motivos. Ele não podia simplesmente sentir aquilo, afinal, era um Corvo e um Serpente.
Quando abriu os olhos para entregar o baseado a , viu a forma como o garoto estava o olhando. Era a quarta vez? Quinta? tinha perdido as contas, até porque ele andava retribuindo esses olhares também; assim como agora. Estirou o baseado em direção ao Corvo, mas não cessou o contato visual, se perguntando se era algo da sua cabeça apenas, ou se desde aquele beco — depois que empurrou e tapou a boca de — que vinha lhe lançando um tipo mais específico de olhar.
O garoto Corvo pegou o baseado, e levou até seus lábios, tragando lentamente sem desviar o olhar do outro. Sentia um frio em sua barriga o tomando, e depois da terceira tragada, já estava ficando chapado, aquilo realmente estava forte.
já estava ficando chapado, a música alta e a maconha agora estavam fazendo um ótimo trabalho em abafar a tempestade e os trovões que o assustavam. Umedeceu os lábios, continuando naquela troca de olhares intensa que os dois entraram, e não pararam desde então. Não seria hipócrita em negar que via bastante beleza em , mesmo com seu jeito petulante e grosseiro, que adorava arrumar briga — o total e completo oposto de .

, eu trouxe comida! — a voz alta e grave de Thomas soou do outro lado da porta, seguido da batida contra a madeira.

desviou o olhar até a porta, arregalando os olhos. Era a porra do xerife de Ravenport. Ele esqueceu, por um momento, de quem era filho e onde realmente estava. Isso não podia voltar a acontecer. Tirou os fones de ouvido rapidamente e levantou da cama em um pulo, indo onde seu celular e a chave do carro estavam.
Aquilo tirou uma risada de , que levou até a boca para que o som não fosse muito alto e acabasse denunciando os dois, então apenas avisou ao seu pai que já tinha pedido pizza.

— Te aviso se conseguir algo — sussurrou para o mais novo, abrindo a janela e passando uma perna depois a outra.

Aquela foi a despedida de , e o garoto saiu com tanta pressa, que sequer lembrou que suas roupas estavam na lavanderia de — ou que sua jaqueta, revólver e botas estavam espalhados por seu quarto. E o Corvo percebeu isso, mas estava se divertindo demais com a situação para comentar qualquer coisa, e apenas deixou o Serpente ir embora com a roupa do seu pai em meio da chuva forte, e se esquecendo totalmente que o bairro estava sendo vigiado.
Mesmo odiando tempestades, enfrentou aquela chuva intensa até seu Cadillac, duas ruas depois de onde estava. Chegou no carro completamente ensopado de novo, e de maxilar travado em tensão. Não esperou por mais nada, ligou o motor e deu o fora daquela vizinhança o mais rápido possível. De qualquer forma, por mais que não tivesse conseguido o que estava esperando, deu a ele um ponto de partida, e agora ficaria de olhos bem abertos naquela parte da localização da Floresta de Black Pines.


estava com raiva de pelo simples motivo de que por algum momento quando eles estavam naquela caminhonete velha andando pela cidade, sentiu que ele não era que nem os outros babacas com quem transava. Porém, isso caiu totalmente por terra quando ele apareceu na casa dela procurando por . A garota sentiu que tinha sido usada o tempo todo, e que tudo o que tinha rolado tinha sido apenas para provocar seu irmão de alguma maneira, ou que era para tirar algum tipo de proveito dela por saber que era a filha mais nova do xerife. Era ridículo pensar que ele seria diferente, afinal, era um Serpente. Ela só conseguia pensar nisso, e essa merda estava a irritando profundamente, porque bem lá no fundo, desejou que fosse diferente mesmo.
Depois daquela noite, a única coisa que ficou pensando foi no cara na janela de seu quarto, molhado, com seus fios colados em seu rosto, pedindo para que o deixasse entrar. Não tinha como dizer que a cena não era tentadora, porque foi. Ela achou ele extremamente gostoso naquele momento, assim como quando entrou pela porta da frente com . Obviamente que ficou incomodada com o fato do seu irmão ter levado ele de volta para casa, mas não mais com o fato que os dois ficaram trancados naquele quarto por mais de uma hora, silenciosos demais. Até tentou ouvir alguma coisa, mas o barulho da tempestade não permitiu que escutasse nada. Em algum momento sua mente vagou longe demais, e chegou a achar que estava até mesmo transando, só que não se permitiu pensar muito nisso por dois motivos; primeiro que não parecia o tipo que pegava garotos, segundo; ela ficou com raiva em pensar seu irmão pegando o cara que ela claramente ainda estava afim.
Não era como se aquilo fosse uma competição, mas não gostava de dividir as coisas com ninguém, e a mínima idéia sobre isso estava a aborrecendo profundamente, em um instinto possessivo. De qualquer forma, não falou nada com , apenas seguiu calada, por medo de ouvir o que não queria. Depois desse dia também não ficou muito em casa, porque achou que poderia aparecer lá novamente, pasme, atrás de seu irmão. Era melhor não saber para não passar mais raiva.
Ela estava com suas amigas no Foggy Fries, que era uma lanchonete que todo mundo amava por causa do seu enorme balde de batatas fritas com maionese caseira, uma receita tradicional da família Broods, donos do lugar. Ela estava tomando seu milkshake de morango com calda de chocolate, quando seus olhos capturaram o Serpente entrando no estabelecimento.

tinha passado os últimos dias em volta apenas de tentar conseguir provas de que Isaac estava mesmo trabalhando com os Corvos. Todas as noites, desde que saiu às pressas da casa do xerife, ia até a floresta Black Pines. Infelizmente ele não encontrou, em nenhum desses dias, Isaac e algum membro dos Corvos. Isso estava o deixando frustrado, e também agitado. Já tinha percebido que, de uns dias para cá, o círculo estava se fechando para Fields, coisas e informações que só eram ditas para membros de confiança que estavam vazando para os Corvos.
A preocupação de , era aquele panaca começar a conduzir a narrativa de modo que ele levasse a culpa. Não era segredo ou surpresa para que Fields vivia questionando sua lealdade na gangue. Isso atrelado as informações vazadas, na grande maioria, serem as rotas que criava, poderia começar a levantar suspeitas para seu lado.
Precisava resolver aquilo com urgência, ou o próximo a ser enterrado em uma cova rasa, no meio da floresta, seria ele.
desceu do carro, escondendo as mãos no bolso da frente da jaqueta, seu habitual. A diferença era que hoje estava usando uma das que tinha o nome e a imagem dos Serpentes nas costas. Não curtia muito usar aquela peça, achava de péssimo gosto ter que se auto intitular membro da gangue, mas foi preciso dessa vez. Tinha ido com Heitor na cidade vizinha, em uma reunião de negócios com uma outra gangue. E bom, sua jaqueta favorita tinha ficado na casa do xerife também.
Ele entrou no Foggy Fries, o sininho balançou assim que abriu e passou pela porta, seguiu até o balcão e fez o pedido de sempre: milkshake de chocomenta com gotas e calda de chocolate, hambúrguer e fritas. Não foi para nenhuma das mesas, optou por ficar sentado no banquinho do balcão mesmo, já que estava sozinho.
ficou olhando aquele homem na expectativa que ele fosse olhar para ela em algum momento.

— Eu não sei o motivo dos mais bonitos serem os mais perigosos — Morgan falou, descendo os olhos lentamente por , enquanto bebia seu milkshake.

Aquilo fez virar a cabeça na mesma hora e encarar a amiga, que sequer a olhou de volta, ocupada demais admirando a paisagem que proporcionou às garotas. Isso deixou a garota irritada, claro que ficaria, se tinha ficado assim em relação com seu irmão, com Morgan não seria diferente, especialmente por saber o quão oferecida sua amiga era, como se a própria não fosse.
Então, pegou seu milkshake de morango, e se levantou, ajeitando a blusa e deixando seu decote mais a mostra, e foi até de forma certeira, e bateu com a enorme taça de vidro sobre o balcão, chamando atenção, e se sentou ao lado dele, levando o canudo até seus lábios de forma sonsa, sem olhar para ele, e apenas encarando o enorme cardápio que tinha na parede a sua frente.
olhou para o lado, prestes a perguntar se a pessoa estava com algum problema, quando viu que se tratava de . Ele umedeceu os lábios, sorrindo discretamente de lado. Não tinha visto a garota, mas a julgar pelo milkshake pela metade dela, ela tinha visto ele e estava ali querendo sua atenção.

— ele a chamou. — Que surpresa te encontrar por aqui — completou, fitando a garota de perfil.

Ela rolou os olhos, e o encarou, deslizando o olhar por todo seu rosto, descendo e subindo, até parar nas orbes castanhas do rapaz.

— Não me parece surpreso — comentou, torcendo o nariz de leve. — O que está fazendo aqui? Veio atrás de mim de novo para saber do ? — Seu tom de voz era ácido.

estreitou de leve os olhos em direção a garota. Ela estava irritada com ele, embora não soubesse o motivo. E se respondesse a ela que ela que foi atrás dele e não o contrário, já que ele sequer tinha a visto, ele apostaria que ela ficaria ainda mais irritada. Aparentemente aquele era um humor recorrente nos , chegou a conclusão.
O pedido de chegou bem na hora e ele agradeceu a atendente com um sorriso discreto. Pegou seu copo de milkshake e levou o canudo aos lábios, sugando um pouco.

— Ah, eu estou muito surpreso — adicionou. — Você está muito bonita essa noite, e todas as outras, imagino — comentou sem se deixar abalar pelo tom que ela estava usando. — Está sozinha?

Ela estreitou os olhos em sua direção.

— Larga de ser falso — rebateu, irritada com o comentário dele. — Quer saber se eu estou sozinha, por que?

franziu de leve o nariz, agora realmente achando algo totalmente fora da casinha o comportamento da garota.

— Nada. Mudei de ideia — falou por fim, voltando a atenção ao seu pedido.

Não tinha tratado mal em nenhum momento, e não iria engolir a mulher o tratando daquela forma, totalmente de graça.

— Ah, corta essa — disse sem paciência. — Diz logo — pediu, deixando agora sua voz sair mais suave.
— Ia pedir para ficar aqui comigo, mas se for pra continuar me tratando desse jeito, melhor não — respondeu de prontidão, dando de ombros, odiava enrolações.

Aquilo tinha pegado a garota totalmente de surpresa, e seu semblante mudou drasticamente, ficando mais suave, e sem graça agora. A garota ficou calada e voltou a tomar seu milkshake, e como uma boa intrometida, pegou uma batata do prato de e comeu.
olhou de soslaio para o que a garota fez e soltou uma risadinha nasalada, balançando a cabeça de leve em negação.

— Duas Cherry Pies, por favor — ele pediu um pouco mais alto à atendente novamente, levantando os dois dedos no ar.
— Pediu uma para mim? — perguntou chocada com aquilo.
— Sim, a não ser que queira dividir comigo, mas logo avisando que eu luto pelo meu pedaço de torta — o garoto respondeu.

deu uma grande mordida em seu sanduíche de frango frito apimentado, e soltou um suspiro de aprovação pelo sabor. A garota quis rir, mas segurou, não queria dar o braço a torcer e demonstrar que estava gostando daquilo, então mordeu o lábio inferior de leve.

— Eu aceito — disse por fim, em um tom mais baixo, mas pegou outra batata do prato de , molhando no milkshake dele e comendo. — Eca, é com menta! — Fez uma careta tomando um gole do dela para tirar o gosto ruim da boca.
— Garota, não fale do meu milkshake de chocomenta — rebateu em um falso tom de bronca, puxando seu copo para mais perto.

Embora estivesse cansado do dia agitado, não estava de mal humor. Aproveitou que estava ao seu lado e empurrou de leve seu ombro, pegando uma batatinha e a molhando no milkshake dela dessa vez, comendo em seguida.

— Falo sim, é horrível! é ainda pior, ele só pede o de menta. Parece que está tomando um chiclete. E outra, quem gosta de chiclete de menta? Tem gosto de pasta de dente — resmungou fazendo uma careta. — A menos que… — disse, e olhou para os lábios de .
— A menos que… — ele repetiu, sugestivo, sabendo bem onde a garota queria chegar, já que também olhou os lábios dela.
— Oi! A não nos apresentou — Uma outra garota chegou ao lado de , segurando em seu ombro e apertando os dedos em sua jaqueta. — Sou a Morgan — ela sorriu de forma bem aberta.

olhou para o lado, vendo que a garota se sentou no outro banquinho, com ele no meio das duas. estava quase rosnando para a amiga, conseguia até mesmo sentir seu rosto esquentando com a raiva que sentia por aquilo, mordendo até mesmo a ponta de sua língua para não fazer alguma besteira.

— Chocomenta é meu favorito! — Morgan comentou, apontando para o copo do rapaz.
— Você odeia essa merda, Morgan. Se manda daqui — respondeu rapidamente, olhando feio para a amiga.

dividia sua atenção entre as duas garotas que estavam cada uma ao seu lado, prendendo de leve a risada que queria sair. A torta que pediu chegou, e ele levou o prato até próximo de . Ela olhou aquilo, e uma sombra de sorriso quase saiu do seus lábios, e teria feito isso se o comentário que sua amiga fez a seguir, não a tivesse deixando ainda mais irritada:

— Eu gosto sim de chocomenta! — Morgan retrucou. — Você divide a sua torta comigo? — a garota questionou para , tocando em seu braço.

levantou as sobrancelhas, olhando bem sério para a garota. estava cogitando em virar o milkshake do Serpente bem em cima de Morgan para ver se assim a garota saía dali logo, já que ela estava declarando tanto que gostava de chocomenta.

— Estou me perguntando em que momento você achou que temos alguma intimidade — Embora estivesse com a voz serena, seu semblante era sério. nunca aumentava a voz. — Ainda sou um Serpente — adicionou, levando suas orbes até os dedos finos dela.

Morgan o soltou no mesmo instante, engolindo em seco. Aquilo não poderia ter deixado ainda mais contente, ela simplesmente amou o tom e a forma que ele falou com a garota que claramente estava se metendo onde não tinha sido chamada. Então, se aproximou até o ouvido de , apenas para que ele ouvisse aquilo:

— Você não pode me deixar molhada dando um fora em outra garota bem na minha frente — comentou com uma voz suave em pura provocação.

Não estava molhada de fato, mas sentiu uma pressão quente em seu baixo ventre, a deixando excitada.
sorriu de forma discreta, deixando sua mão descansar na coxa da mulher. Ele apertou com certa pressão, alisando em seguida. Ela quase arfou fraco com aquilo, sentindo o seu corpo ficando mais quente, e logo pensou que poderia realmente começar a ficar do jeito que disse que já estava.

— Eu vou voltar para nossa mesa, — Morgan avisou baixinho, levantando em seguida.
— Vai sim — ela respondeu, mas olhando nos olhos de , sem prestar muita atenção na outra garota agora.

O Serpente sequer fez questão de se despedir da outra garota. Não era assim tão acessível quando se fazia parecer. O lance com tinha começado naquela festa, caso contrário ele também estaria dando um chega para lá nela. era um pouco chato com garotas, ele curtia mais caras.

— Quer dar uma volta depois que sairmos daqui? — sugeriu , pegando uma batatinha e molhando outra vez no milkshake dela, comendo em seguida. — Acho que o Drive-In deve estar passando um filme desse século.
— Pode ser — respondeu, dando um sorrisinho fechado. — Vou querer balas e chocolate — avisou com um sorriso, dando uma trégua.

subiu mais a mão em sua coxa, descendo até perto do joelho, concordando com o que ela disse. Não era assim tão cara de pau pra chamar a garota direto apenas para transar, nem fazia seu tipo esse comportamento. Se o clima rolasse, transariam até mesmo em seu carro, se não, ao menos saberia se o lance que aconteceu entre eles foi por conta da bebida da festa.
Foi automático, a garota ficou arrepiada, mas não demonstrou nada.
voltou a comer seu sanduíche, sem pressa, e vez ou outra ria de leve com a mulher roubando suas batatinhas.

— Vou pedir para colocar a torta para viagem — sugeriu para ela, porque estava cansado dos olhares que estavam recebendo.
— Está bem — concordou, voltando a tomar o milkshake, terminando com ele, e fazendo um barulhinho irritante com o canudo enquanto olhava para .

voltou a atenção a garota, mirando seus lábios ao redor do canudo, sabendo bem que estava fazendo de propósito. Seus dedos se fecharam mais na coxa de , subindo perigosamente enquanto pedia para colocar as tortas para viagem e pagava não só a conta dele, como a dela também.
Ela segurou o ar com aquilo, e estava começando a ficar difícil controlar a forma que aquele homem estava a fazendo sentir. A excitação de ter a mão dele em sua coxa em um lugar público, e sabendo que as pessoas estavam olhando, a deixava realmente com o meio de suas coxas bem quentes.
Então, quando o pedido chegou, a garota mesmo pegou o pacote, e levantou, saindo na frente deixando seu quadril se mover mais do que o normal para provocar . seguiu logo atrás dela, as mãos escondidas nos bolsos da jaqueta, mas seu olhar centralizado na bunda da mulher.
Do lado de fora, seu carro estava estacionado bem de frente a lanchonete, e por ser um carro antigo não tinha trava elétrica, mas estava aberto. Só havia um único Cadillac em Ravenport e todos sabiam que pertencia a um Serpente, ninguém era maluco de mexer naquele carro. apontou para o carro, indicando a onde entrar e seguiu ao banco do motorista.
A garota deu um sorrisinho e entrou no lado do carona e olhou para a hamburgueria, vendo suas amigas a encarando pela janela, um sorriso veio em seus lábios e ela apenas balançou os dedos para as garotas, rindo de leve.
O Serpente manobrou, saindo em seguida. Iria perguntar se queria que ele fechasse a capota do carro, mas pensou que faria isso de qualquer forma quando chegassem ao Drive-in da cidade. Quando estacionou, quase do outro lado de onde estava, estava parcialmente vazio, e um filme já estava começando.

— Vou fechar a capota e comprar seus doces — ele avisou.
— Traz algo para beber também — pediu, sorrindo de leve.

assentiu, descendo do carro. Mas antes mesmo que chegasse até a capota, tirou a jaqueta que usava e estendeu para a garota. Ele sabia uma coisa ou outra sobre tratar garotas bem e estava frio, a neblina já começava a tomar conta, deixando o clima sereno. Mais uma vez ela ficou surpresa, então pegou a jaqueta e a vestiu, puxando mais para si o tecido e sentindo o cheiro do perfume do homem impregnado na peça, e discretamente, cheirou o colarinho.
foi e voltou rapidamente.
Tinha comprado doces, alguns chocolates e também pipoca. Tentava equilibrar tudo em seus braços, porque também trazia os refrigerantes de cereja que tinha pedido. Imaginou que fosse gostar. Se sentou novamente do lado da mulher, entregando o refrigerante e deixando o pacote com os doces no meio deles.
sorriu com aquilo, e esticou seu corpo, dando um beijo na bochecha dele, rindo fraquinho.

— Obrigada — agradeceu, pegando uma barrinha de chocolate, e já a abrindo.

Um vislumbre de um meio sorriso apareceu brevemente pelos lábios de e ele assentiu, passando o braço direito pelo banco. Seus dedos tocaram de leve no ombro de , se movimentando em desenhos abstratos. Dificilmente saía para encontros — muito mais por opção sua do que por qualquer outro motivo —, mas quando acontecia, como agora, ele gostava de deixar a pessoa bastante confortável. Quando entrou no Foggy naquela noite, não imaginava que encontraria , isso era um fato.
A garota não se incomodou com o toque, apenas relaxou um pouco, porque estava achando fofo as coisas que estava fazendo. Ficou comendo o chocolate e depois algumas balas, até que pegou o pacote e o colocou para o outro lado, tirando qualquer coisa que tivesse no meio deles, então levou sua pequena mão até a coxa forte de , e alisou de forma sútil, como se não tivesse pretensão alguma.
até que estava realmente prestando atenção no filme; como imaginado, era algo antigo, mas até que ele gostava de filmes de outras épocas — literalmente. Porém, em um dado momento olhou para baixo ao sentir a mão de em sua coxa. O Serpente fingiu que não percebeu, mas se aproximou mais da mulher, abrindo um pouco mais as pernas.
Aquilo foi o suficiente para a garota. Sua mão alisou mais a parte de dentro da coxa dele, e deixou suas unhas arranharem o jeans, mas em momento algum, ela o olhou. Ele sorriu sutilmente, gostando daquele pequeno jogo que entraram.
continuou fazendo desenhos abstratos no ombro de , mas agora, assim como ela, deixou que seus dedos deslizassem até sua clavícula por dentro de sua jaqueta, e de lá, até seu seio, rodeando o mamilo despretensiosamente.
A pele dela se arrepiou, e o bico do seu peito foi endurecendo por causa daquele tipo de contato, sua barriga gelou e seu baixo ventre ficou bem quente. Então fechou suas pernas, apertando elas de leve uma contra a outra, tentando conter o pequeno estrago que estava causando, teve até mesmo que segurar para não suspirar e fechar os olhos.
continuava com aquela sombra de um sorriso, agora mais sacana, mordendo o lábio inferior ao ter as unhas de fincadas em sua perna. Em resposta a isso, ele beliscou o bico do seu seio, esfregando entre o polegar e o indicador, já se sentindo quente.
Certo, agora sim ela estava começando a ficar molhada, e isso a fez morder o lábio inferior, segurando o ar. Porra. Era a única coisa que se passava em sua cabeça naquele momento, enquanto sua mão começou a subir mais pela coxa de .
Percebendo que ela estava ficando afetada e excitada, ficou brincando com seu mamilo, o circulando e beliscando esporadicamente. Suas pernas se abriram mais em resposta ao que tocava, a calça já se tornando apertada pela ereção que crescia.
deixou seu corpo ir deslizando lentamente para o lado de , até sua cabeça estar na altura da barriga dele, e logo suas mãos foram até sua calça e começaram a abrir.
Desde a primeira vez que tinha posto os olhos em , naquela festa do armazém, soube que a garota cheirava a loucura. A prova era aquela. O drive-in não estava cheio, certo, mas também não estava vazio.
suspendeu de leve o quadril e deixou que a garota puxasse sua calça até a metade das coxas. Seu pau já estava muito mais que acordado e marcava na boxer preta que usava. Então sentiu a língua de passando por ele, molhando o tecido, até que deu uma mordiscadinha. Suas pequenas mãos puxaram a cueca, e ela não perdeu tempo, colocando a cabeça do pau de em sua boca e chupando.
Ele gemeu rouco, levando a mão até os fios longos da garota e os torcendo em algumas voltas. As pálpebras pesaram sob seus cílios e fechou os olhos, sendo tomado pela sensação deliciosa da boca de o envolvendo. Não quis guiar seus movimentos, queria saber do que era capaz, então a deixou mais livre.
segurou a base e começou a masturbar junto enquanto chupava ele devagar, deixando o pau entrar em sua boca até onde conseguia. A menina gemia baixinho por estar fazendo aquilo no estacionamento do drive-in, e sentindo o quão molhada ia ficando.

— Caralho, gemeu apertado, passando a outra mão pelo rosto, se livrando dos seus fios que estavam grudando na testa.

Seus dedos entraram pelos cabelos da garota, fazendo um tipo de carinho.

— Que boquinha deliciosa — soprou. — Só perde para sua boceta molhada.

Ela suspirou forte, sentindo sua entrada ficando quente, ouvir aquilo a afetou demais, então seus lábios começaram a descer mais rápido, dando atenção a aquela cabeça e esfregando a glande junto. fechou os olhos com força, jogando a cabeça para trás, seus gemidos eram baixinhos, porém recorrentes, e ele se esforçava para não chamar atenção. Por mais que a capota estivesse fechada, os vidros do carro não tinha película, então facilmente dava para perceber se algo acontecesse.
A respiração dela estava pesada, os gemidos agora eram manhosos, junto com suspiros. Sua mão descia e subia rápido, apertando o pau do cara, o chupando cada vez mais apertado. Quanto mais ele gemia, mais aumentava a velocidade de sua boquinha naquele pau.
se deliciava em puro prazer, deixando que comandasse e fizesse o que queria com seu pau completamente duro. À medida que os movimentos dela aumentavam, a respiração de foi ficando mais curta, e seu membro pulsando com pressão. Ele acariciou com mais intensidade a nuca da mulher, torcendo de leve os fios em seus dedos. O prazer se alastrava por todo seu corpo, se concentrando em seu pau e ele estava perto, sabia disso.

— Vou gozar — avisou baixo, entre um gemido e outro, umedecendo os lábios secos.

então tirou a boca, e só ficou masturbando até ele gozar, mas continuou abaixada para ninguém vê-la ali. A respiração de foi ficando mais curta, seu pau pulsando em volta de sua mão, assim como a glande que soltava pré-gozo. levou a palma levemente fechada até a cabeça do seu pau quando sentiu os primeiros jatos escapando de forma apertada. Ele soltou um gemido manhoso, gozando.
A garota soltou um risinho em satisfação e se afastou casualmente, pegando umas balas de goma e enfiando na boca, comendo como se não tivesse feito nada demais, enquanto voltava a assistir o filme. Porém, suas coxas estavam fechadas fortemente, suadas, quentes e até mesmo latejando de leve por causa da excitação que sentia. Ela estava absurdamente molhada, porque foi delicioso ouvir gemendo o nome dela e falando aquelas coisas, adorou saber que tanto sua boca, quanto sua boceta eram deliciosas para aquele homem.
continuou um tempo a mais parado, aproveitando os resquícios de prazer e relaxamento em seu corpo. Quando voltou a tona, abriu o porta luvas, tirando um pacote de lenço umedecido e se limpou. Aquilo foi estupidamente gostoso, era uma desgraçada, ainda mais por fingir que nada aconteceu.
levou sua mão até as pernas de , abrindo com um pouco de força, para que ela as mantivesse aberta, e acariciou sua boceta por cima de sua calça, fazendo pressão e sentindo o quanto aquela área estava quente e úmida.
A garota respirou fundo e suas pernas se abriram um pouco mais, porém ainda olhava para a enorme tela do drive-in.
seguiu até o botão da calça, abrindo aquilo com uma mão sem nenhum problema, e desceu o zíper, folgando o jeans ao redor do seu quadril. Seus dedos seguiram para o cós da sua calcinha, puxando o elástico e o soltando em provocação.
Aquilo atraiu o olhar de para ele, que ficou encarando seu rosto.

— Quer ajuda? — perguntou em tom de provocação.
— Levanta o quadril e abre as pernas — mandou, sério, fitando suas orbes com malícia.
— Tenho um jeito melhor… — disse, e voltou a deixar seu corpo perto do dele.

A garota apoiou as costas na lateral do peito de , deixando seu corpo virado para a porta, e esticou a perna, apoiando o pé na porta que tinha o vidro aberto, e ficou como se estivesse meio deitada contra o homem enquanto assistia o filme. O braço dele estava passando por cima do ombro dela, e dando acesso total para dentro de sua calça aberta.
ficou quieto, observando como uma serpente vê a sua presa se movendo. Quando finalmente se ajeitou, levou novamente a mão até seus seios, o apertando com vontade, antes de descer e enfiar a mão por dentro de sua calcinha. Seus dedos escorregaram por sua lubrificação e o homem grunhiu em como ela estava molhada. Empurrou mais a mão para dentro, passando os dedos por suas dobras, até chegar perto de sua entrada. Fingiu que iria penetrá-la, mas logo subiu até seu clítoris e o rodeou lentamente. Ele sentiu mover o quadril de leve contra a mão dele, mas segurou o ar, e mordeu o lábio inferior. Ela estava com muito tesão, ainda mais, ansiosa para gozar nos seus dedos de novo.
Sem aviso prévio, passou a massagear o clítoris de com rapidez e pressão. Seus dedos escorregavam com facilidade pela lubrificação da garota e ele estava se segurando para não mandar ela tirar a calça e deixar que ele a chupasse.

— Porra! — grunhiu perdendo o ar por um segundo.

Ela não achou que iria fazer naquele jeito, levando a excitação dela rapidamente a beira. A garota mordeu com mais força o próprio lábio para não gemer, porque ela queria, estava se torcendo para conseguir se conter, e não pedir para aquele homem a comê-la. Depois do que aconteceu com Jerry, ela não tinha feito mais nada com ninguém por não estar se sentindo confortável, mas com aquele Serpente, ela sequer conseguia conter algo.

— Que bocetinha gostosa — sussurrou, encarando a tela do drive-in como se não estivesse masturbando a garota ao seu lado.

Mas agora seus movimentos estavam lentos, quase parando, porém se movendo com pressão, sentindo o quão inchado e pulsante o clítoris de estava. Isso a permitia respirar mais fundo e sentir a onda de prazer ficando menor e contida apesar de estar quente demais a sua entrada. O seu coração batia rápido demais por causa daquela situação toda, e isso só a deixava estupidamente mais molhada.

— Ela está toda molhadinha para você — sussurrou safada, dando um sorrisinho.

Sua resposta foi o que fez voltar a masturbá-la mais rápido, como fazia antes, volta e meia escorregando os dedos até sua entrada, mas sem a penetrar. Os gemidos de começavam a sair abafados e presos em sua garganta, curtinhos e manhosos, e apenas mais longos quando os dedos do Serpente paravam de estimular seu ponto sensível tão rapidamente. levava até seu limite, mas não a deixava gozar, fazendo ela deslizar pela borda do prazer e sua boceta se contrair em desejo.
Lentamente, destoando completamente aos movimentos desejosos e rápidos que fazia, desceu até sua entrada, penetrando devagar com dois de seus dedos. Ele suspirou com isso, lambendo os próprios lábios em puro desejo.

— Rebola — pediu, estocando bem de leve em sua boceta.

não conseguiu manter a pose naquele momento, ela fechou os olhos, suspirando e segurou o braço de , então começou a rebolar devagarinho nos dedos dele, gemendo como uma gata mansa, e entreabrindo os lábios.

— Assim? — perguntou baixinho, e safada, entrando no jogo de .

O Serpente deixou seus lábios se aproximarem de sua orelha e lambeu de leve seu contorno, soltando o ar quente. arfou totalmente arrepiada. Aquilo estava absurdamente gostoso.

— Assim mesmo… — sussurrou, mantendo o ritmo de sua mão. — Agora imagina meu pau fodendo essa boceta molhada — disse rouco, pegando um pouco mais de velocidade.
— Então enfia mais um, porque o seu pau é mais grosso que isso — confessou entregue aquele prazer que sentia.

sorriu maliciosamente, mas já voltava a respirar de forma pesada e curta. Fez o que pediu e enfiou mais um dedo, os curvando dentro dela.
A garota mordeu o lábio inferior fortemente segurando o gemido mais alto com o que estava sentindo, e seus dedos finos apertaram o braço forte de , rebolando mais rápido naquela mão, enfiando as unhas em sua pele.

… — gemeu manhosa, tomando fôlego, e apertou mais os olhos.

umedeceu os lábios, e levando a outra mão até seus seios, os alisando pesado por cima do tecido da blusa de malha. Queria ter tempo de olhar as reações da garota, mas estava ocupado se certificando de que ninguém prestava atenção no que acontecia dentro daquele carro.
Passou a meter mais rápido em , seguindo a forma como ela rebolava, mas precisou levar a outra mão até seus lábios quando a garota soltou um gemido mais alto.

— Shii — sussurrou ofegante no pé do seu ouvido.

arfou, revirando os olhos por baixo das pálpebras, sentindo que estava quase se desfazendo nos dedos daquele homem.
Pôde ser ouvido o som de notificação, mas ninguém se importou com aquilo no momento, já que a onda do orgasmo estava vindo, fazendo a entrada da garota começar a se contrair ao redor dos dedos dele.
Mesmo com os movimentos limitados, aumentou a velocidade dos seus dedos, estava nítido que ela gozaria e ele queria prolongar seu prazer ao máximo, estocando com vontade, se curvando para tocar em seu ponto.
Os gemidos dela foram abafados pela mão grande de em seu rosto, então a outra mão livre dela segurou o pulso dele com força, respirando fundo e apertando ligeiramente seus olhos ao sentir seu corpo ir se quebrando de prazer. Os gemidos curtinhos e afetados eram ouvidos pelo homem, enquanto sua mão ia ficando ainda mais molhada com se desfazendo em seus dedos.
O pau de já estava duro novamente, e ele só conseguia pensar o quão delicioso seria se enfiar naquela boceta tão molhadinha e que estava se contraindo em seus dedos. Porra, era estupidamente safada, e estava adorando o quanto ela se entregava.
As unhas dela desceram arranhando a parte interna de seu braço enquanto ofegava pelo orgasmo gostoso que aquele homem a proporcionou, e só pensava o quão estava molhada naquele momento, chegava a ser desconfortável por causa do jeans.
Com cuidado, o homem tirou a mão de sua calcinha e seguiu até a própria boca, lambendo e chupando sua excitação com vontade.

— Vai se foder, porra, vai se foder pra caralho — falou ao abrir os olhos, vendo aquela cena. — Vou jogar um tijolo na sua cara para ver se fica feio. Vai se foder, sério.

não era de rir, mas a reação de tirou uma risada baixa e ele negou de leve com a cabeça, mas como o safado que era, voltou rapidamente os dedos até sua boceta, só para pegar mais de sua lubrificação e lamber.

— Você é uma delícia — ele soprou.
— Não, para com essa merda — disse segurando o pulso dele antes que enfiasse de novo os dedos dentro da própria boca. — Meus neurônios não estão mais funcionando direito com você fazendo isso!

rolou os olhos, a sombra de um sorriso malicioso brilhando por todo seu semblante. Ele pegou uma embalagem de chocolate, e a abriu. Quebrou um quadradinho e levou até os lábios de , ainda sorrindo sutilmente pela forma como ela estava.
A garota rolou os olhos com aquilo, mas abriu a boca, aceitando o chocolate. Ela ainda estava ofegante, seu corpo tremia ainda, quente e um pequeno suor acumulado em sua nuca, porém, seu coração permaneceu batendo forte.
O Serpente passou o nariz por seus fios, sentindo seu cheiro e depois deixou um pequeno beijo em sua cabeça. se remexeu de leve no assento, e foi só naquele instante que sentiu o celular esquecido no bolso.

— Você não pode ser fofo, sabe disso, né? É contra as regras — comentou, mais sequer se mexeu, ainda estava meio deitada contra o corpo de .

O comentário de tirou uma pequena risada dele.

— Então desce do carro, eu já consegui o que queria — rebateu, mas em um claro tom de implicância e brincadeira.
— Nem fodendo, estou longe de casa e sem bateria para chamar um uber — avisou, dando de ombros, pouco se importando.
— Isso não é problema meu — respondeu, mas também não estava falando sério.
— Foda-se, agora eu sou um problema seu — disse dando de ombros.
— Um problema estupidamente manhoso e gostoso — adicionou.
— Não esqueça do delicioso — acrescentou dando uma pequena risadinha.
— Claro, como pude esquecer da melhor parte — concordou, passando novamente o nariz por seus fios, fazendo a garota sorrir fechado.

então tirou o celular do bolso, para ver do que se tratava a notificação que recebeu antes. Uniu de leve as sobrancelhas ao perceber que se tratava de uma mensagem de .
Como tinha passado o dia mexendo no aplicativo, aprendeu a mudar o nome dos contatos salvos e na tela brilhava um horário junto com o nome do remetente:
Encrenqueiro 🐦⬛ 02:45 am Era a única coisa que a mensagem dizia.
olhou para o canto superior da tela do celular, vendo que já passava das onze, bloqueou o celular, deixando no banco.

— Eu tenho que resolver uma coisa — falou baixinho, passando a ponta do nariz por sua orelha. — Preciso te deixar em casa e ir.
— Hm, ok — falou meio a contragosto, mas se sentou direito no banco, pegando mais um pedaço de chocolate.

se ajeitou no banco, ligando o carro em seguida. Poderia ter ficado até o fim do filme, porém precisava de um banho antes de encontrar com o outro irmão . Dirigiu sem pressa até a rua onde a garota morava e foi ponderando se parava o carro ou não de frente a sua porta. Por fim, realmente parou o Cadillac bem rente a calçada, olhando rapidamente para a casa e vendo algumas luzes acesas; assim como o carro do xerife estacionado em frente à garagem.
olhou para a casa e depois para , e se aproximou dele, beijando seus lábios, os pressionando e depois se afastou.

— Boa noite — Desejou, e se afastou, levando a mão até a maçaneta do carro para abrir a porta.

prontamente segurou em seu pulso, impedindo que ela saísse.

— A jaqueta — murmurou.

Se a peça não tivesse o símbolo da gangue, não se importaria nenhum pouco em deixar que ela ficasse.

— Poxa… depois eu te devolvo, está frio — falou, se fazendo de inocente e passando as mãos pelos próprios braços.

estreitou os olhos.

— Se seu pai te ver com a jaqueta gritando Serpente, ele vai surtar e querer ser um ótimo policial que ele não foi em todos esses anos, e vai ao Píer saber quem é o Serpente que está com sua filhinha, e eu não vou me responsabilizar ou defender ele quando sair de lá apanhado e quase morto. A decisão é sua — expôs o que provavelmente aconteceria.
— Não estou esperando que você se responsabilize mesmo — rebateu com um sorrisinho, puxando a alavanca da porta.
, a jaqueta — falou outra vez, mais incisivo.
— Poxa, cadê o fofinho? — perguntou fazendo um biquinho, e abriu a porta tentando sair rápido por ela, dando risada.

Ele tinha ideia da dor de cabeça que teria se aquela garota saísse por aí desfilando com sua jaqueta. E definitivamente não queria aquele problema.

— O fofinho ficou no drive-in. O Serpente precisa da jaqueta de volta. Você ainda é filha do xerife e seu irmão ainda é um Corvo — expôs, sem soltar a mão do seu pulso, para que não saísse.
— Acha que eu ligo? — perguntou aproximando seu rosto do dele, e lambendo sua boca. — É tão ruim assim eles saberem que você anda me dedando até gozar na sua mão?

travou o maxilar com o que ela fez. Ele era discreto com suas relações, o total oposto de que aparentemente queria praticamente colocar um outdoor escrito em neon que estavam tendo algo casual.

— Você não liga, mas eu ligo — respondeu mais sério agora. — Você sabe que se eles dois descobrirem é capaz até de me caçarem no inferno. Seu irmão já me ameaçou, não que eu ligue. Só tira a jaqueta, vamos nos poupar de dor de cabeça.
— Achei que você e o fossem amigos agora, não acho que ele vai se importar com seus dedos em mim — falou mordendo com força o lábio inferior dele. — Mas eu já entendi…

Se afastou e tirou a jaqueta, jogando na cara dele, e pegou o pacote de torta em seguida. A garota saiu do carro batendo a porta com força.
Se estava esperando que ele fosse atrás dela, se enganaria. Aquele era o motivo para que não curtisse muito ficar com garotas. Tinha sempre esse lance de joguinhos no meio, e isso o tirava a paciência de uma forma que não sabia explicar. Estava curtindo estar com , por que ela queria apressar as coisas e já deixar escancarado aquilo? Não dava só pra continuar como estavam e ver no que ia dar?
De qualquer forma, não se importou, não tinha feito nada de errado, apenas pediu para que a mulher respeitasse seus limites.


não estava saindo de casa, então ele contava com os seus amigos fazendo fofocas diárias sobre o que andava acontecendo. Sofia geralmente era a que mais falava, contava até mesmo das tiradas que os outros caras levavam. Joshua era mais preciso, falava apenas sobre coisas que achava relevantes, ele nunca foi muito de longos assuntos, porém, era uma companhia quando se queria silêncio. Ronam às vezes aparecia para falar coisas aleatórias, e comentou que tinha ouvido alguns Corvos falando sobre encontrar alguém, por volta das 2:45 am, para receber informações sobre os novos carregamentos. Naquele momento soube que era dessa informação que precisava passar para . Era isso, estavam quites agora, era só esperar o Serpente cumprir sua parte e fazer algo certo.
até mesmo tentou ver alguma série depois disso, mas não conseguia se concentrar muito tempo em nada. Tomou um banho e até mesmo fumou um baseado para tentar relaxar, porque nada o deixava calmo. Pegou o celular e olhou a mensagem que mandou para , viu que o cara tinha visualizado. Respirou fundo e bloqueou o aparelho, levantando da cama para tomar um banho.
Não era da sua conta, porém pensar que iria para aquele encontro sozinho e teria mais Corvos espalhado pela floresta, isso o fez decidir que iria até lá. Por mais que não devesse nada ao Serpente, ele se viu em débito, pelo menos era isso que queria pensar.
Assim que estava pronto, pegou a chave da moto e saiu. Ele conhecia bem a floresta, seu avô tinha uma cabana lá, mas quando precisou de dinheiro para agradar a nova namorada, o velho vendeu o lugar para os Corvos. Então, adentrou Black Pines sem pensar duas vezes, quando saiu do limite do perímetro urbano. Ele procurava por qualquer vestígio de , enquanto andava mais devagar agora.

Depois de deixar em casa, passou em seu pequeno apartamento no centro da cidade, tomou um banho rápido e descansou um pouco.
Pensou em mandar alguma resposta para , mas por fim decidiu que não, que falaria com ele apenas quando tudo estivesse resolvido.
Deixou seu carro na garagem do prédio, o veículo chamava atenção demais para o que estava prestes a fazer e saiu a pé. O capuz cobria seu rosto novamente, e menos de vinte minutos depois, já estava adentrando a floresta de Black Pines, segundo pela vasta escuridão, sem precisar de lanterna. Ele ia em direção ao pino que marcou, estava adiantado quase uma hora, já que não queria correr o risco de alguém o pegar em flagrante. Seus passos travaram, no entanto, ao ouvir o barulho de motor, provavelmente de moto. se escondeu entre as árvores, tirando seu revólver da parte de trás da sua calça.
teve a impressão de que viu alguém passando pela mata, então parou a moto e desligou o motor para tentar ouvir qualquer coisa que pudesse lhe dar alguma pista de qualquer coisa.
Ótimo, o motor tinha desligado, realmente era alguém que provavelmente estava procurando por ele. não queria acreditar que tinha caído diretamente em uma armadilha dos Corvos e agora morreria. Travou o maxilar, respirando de forma mais silenciosa que conseguiu. Lentamente saiu de onde estava, sua visão já tinha se acostumado a escuridão da floresta, por isso não teve qualquer dificuldade em enxergar a pessoa que estava parada na mata.

— Estou desarmado — falou baixo, ao mesmo tempo em que destravou o gatilho da arma.

Por mais que tivesse detestado isso, ele reconheceu a voz do Serpente e rolou os olhos, tirando o capacete.

— Só se for o seu cu que está desarmado — rebateu impaciente como sempre.

Sabia muito bem que não estaria ali sem uma arma. sequer precisou pensar, quando ouviu aquela boca suja, logo soube que se tratava de .

— Você tem uma boca tão suja — comentou, travando novamente o gatilho e guardando a arma no cós da calça. — O que está fazendo aqui, encrenqueiro? — perguntou, indo até o Corvo.
— Não fale dela quando fica olhando para ela sempre que pode — implicou, dando uma risada abusada que fez o Serpente revirar os olhos. — Estou evitando que você se perca para sempre na floresta. Sobe aí, fresco — mandou, olhando se aproximando.
— Disse que ela é suja, não que é feia — rebateu, sobre a boca de . — Conheço essa floresta até de olhos fechados — rebateu, cruzando os braços.
— E ainda assim não negou — murmurou, rindo nasalado. — Claro que conhece. Anda, não tenho tempo.

ponderou aquilo, se deveria mesmo subir em uma moto com um Corvo. Tinha tudo para dar errado e ele se ferrar bonito naquela história toda.

— Espero que não seja uma armadilha — praguejou, subindo na garupa da moto logo em seguida.

Não queria ter que abraçar por trás, mas era uma moto, o contato era direto e não tinha muito em que se segurar; então rodeou a cintura do Corvo com seus braços.

— Se fosse para te prender, eu não faria assim — rebateu malcriado, e entregou o seu capacete para . — Cobre essa sua cara, porque qualquer um que bater os olhos em seu rosto, vai te reconhecer.
— Anda pensando em como quer me prender, encrenqueiro? — questionou, arqueando uma das sobrancelhas. Ele pegou o capacete, rolando os olhos. — Minha beleza é algo característico demais; eu sei.
— Sim, todos os dias desde que te conheci, dentro de um caixão com no mínimo dez pregos de cada lado — debochou, sorrindo de forma fechada.
— Assim você fere meus sentimentos — o Serpente retrucou, fechando a viseira do capacete.
— Duvido que você tenha algum — resmungou, rolando os olhos.

Então, girou a chave na ignição, dando partida, e saindo dali com calma por causa da terra que poderia levar facilmente os dois para o chão. saiu da trilha que era usada eventualmente pelas pessoas e seguiu por entre as árvores agora, sabendo por onde passar, até que parou a moto, desligando o farol.

— Acho melhor irmos andando, a moto vai fazer barulho demais — comentou, esperando descer.

entendeu o recado e desceu assim que a moto parou, tirando o capacete e o empurrando bem de leve no peito de . O Corvo já segurou o objeto e ergueu uma sobrancelha com aquela ação.

— Você já está sendo caçado pelos Serpentes, se fizer isso agora e for descoberto, vai ser alvo dos Corvos também — falou baixo, sempre pensando em todas as possibilidades. — Volta pra casa do seu pai — aconselhou.
— É bom, não é? Ter que confiar no outro, sabendo que a porcaria da sua vida está dependendo da palavra de alguém — ironizou, colocando o capacete pendurado no guidom da moto, e descendo dela, se afastando de em seguida.

Será que todos os eram teimosos? Se conhecesse o xerife, veria os mesmos comportamentos? Bufou, apertando os passos, mas pisando com cuidado para não quebrar algum galho seco e denunciar sua presença.
As folhagens estavam levemente úmidas, e a terra ainda molhada, se recuperando da tempestade de dias atrás.
olhou por cima do ombro para ver se estava o seguindo, então parou por um momento. Tinha a impressão de ter ouvido vozes, então levou o dedo até os lábios, fazendo sinal para que ficasse parado.
aguçou a audição e interrompeu seus passos assim que sinalizou. Fechou seus olhos para se concentrar mais e tentar reconhecer se alguma das vozes era de Isaac, mas não conseguia entender muita coisa.
Luzes de lanternas cruzavam a floresta agora, assim como o barulho de passos. puxou devagar para perto para se esconderem atrás de uma árvore. o seguiu sem pestanejar, escutando também passos mais grosseiros e sem cuidado contra os galhos jogados pelo chão.
O Serpente tocou no ombro do Corvo, chamando sua atenção, e quando o fitou, levantou 2 dedos, apontando para o lado direito; e mais dois para o lado esquerdo.
Eram quatro pessoas, pelo que o Serpente percebeu — e ele quase nunca errava.
negou com a cabeça, e segurou a jaqueta de para não se afastar e muito menos fazer qualquer besteira que pudesse foder com os dois.

— Já era em tempo de marcar outra reunião — Um dos caras falou, acendendo seu cigarro. — As armas e as drogas que os Serpentes estão trazendo para cá são melhores que as nossas — comentou.
— Heitor está tentando monopolizar os demais para o nepobaby dele.

abriu mais os olhos, reconhecendo a voz de Isaac. Puta merda. Apertou os dedos no braço de , balançando a cabeça em afirmação várias vezes. Aquilo só fez ficar encarando o Serpente com atenção o tempo todo, pela pouca iluminação que a lua dava aquela noite.

— Precisamos de mais — Outro homem se pronunciou.
— Mais? Te dei as rotas da última carga no mês passado e você ainda nem me pagou tudo — Isaac rebateu irritado. — Eu tô me arriscando aqui e o filho da puta do anda fazendo as rotas escondido de mim, vou ter que dar uma pausa.

escutava as coisas com atenção, sabendo que estava fodendo os Corvos para ajudar naquele plano. Se o Serpente realmente não desse pelo menos um jeito naquela situação, iria se sentir um traidor ainda maior. Sabia que não era justo o que estava fazendo com a gangue que lhe acolheu quando precisou, mas também, ele iria acabar morrendo, e não estava vendo ninguém tentando ajudar ele sem ser . Então isso não o fazia sentir tão mal naquele momento. Esperava mesmo que aquilo desse certo.
tirou rapidamente seu celular do bolso, cuidando para que a iluminação da tela não chamasse atenção. Não poderia tirar foto naquele escuro, não daria para ver nada. Porém, só precisava de uma coisa minúscula. Ele abriu o gravador e tentou se soltar de para chegar mais perto. Era só chamarem Isaac pelo nome e o Serpente responder; era tudo o que precisava.
soltou o outro, e ficou encostado na árvore, olhando para aquele homem e pensando que talvez tivesse sido melhor ele nem vir, quanto menos soubesse, melhor. Afinal, nem os próprios Corvos confiavam no filho do xerife mesmo.

— Eu estou pouco me fodendo se o nepobaby daquela corja de cobras está desconfiando de você — O mais velho rosnou para Isaac, impaciente. — Os Serpentes estão, há muito tempo, com uma vantagem muito grande sobre Ravenport e se continuarem assim, nós vamos deixar de ter qualquer influência!

olhou para quando ouviu aquela informação, se perguntando se o garoto sabia daquilo ou se o incomodava estar ouvindo que praticamente a gangue rival estava ganhando território e poder.
levantou o rosto de leve em um sinal claro, se perguntando o motivo que o Serpente o encarava, quase questionando o que ele queria.

— Eu não posso pegar mais informações do sem que ele desconfie ainda mais. Mas posso dar um sumiço nele, sem o garoto por perto, outra pessoa entra no seu lugar e então fica mais fácil — Isaac sugeriu.
— Estou pouco me fodendo para o que você precisa fazer. Só faça — O mesmo homem mandou.

encarou um ponto qualquer à sua frente, mas sem de fato prestar atenção no que era. Seu maxilar tensionou, e seus músculos travaram. Isaac não estava mais pensando em jogar a culpa nele. Agora Isaac Fields queria matá-lo.
ficou surpreso, ele achava que os Serpentes protegiam uns aos outros como dava a entender.
segurou tudo dentro de si para simplesmente não confrontar Isaac naquele segundo e mandar que ele tentasse matá-lo agora. Paciência, no entanto, era uma das virtudes que mais se orgulhava de ter.

— Vão te passar o novo horário, do mesmo jeito de sempre, é bom que da próxima vez você apareça com soluções ao invés de problemas — O Corvo mais velho rosnou, e percebeu que aquilo foi uma deixa para que os outros fossem embora.

Não tinha conseguido nada; exceto que agora precisava dormir com um dos olhos abertos. Muito bom, se antes queriam morto, agora queriam a cabeça de também. Pelo menos eles tinham isso em comum.
ficou em silêncio por mais um tempo, apenas ouvindo os passos irem ficando mais distante dos dois lados, e quando achou que era seguro, começou a andar em direção a sua moto.
parou a gravação em seu celular, seguindo o filho do xerife mais atrás. Sua mente trabalhava rápido, procurando soluções ou um jeito de bolar outro plano. Por mais que desse para ouvir a voz de Isaac na gravação, provavelmente estaria baixo devido à distância em que estavam e isso não serviria como prova contra Fields.
tinha voltado a estaca zero, só que agora com um alvo bem no meio de sua testa. Pelo menos era apenas um Serpente e ele sabia de quem se tratava, era só tomar mais cuidado, pensou.
Assim que chegaram na moto de , o garoto se virou, e encarou .

— O que você vai fazer agora? — questionou, encostando na moto e pegando um cigarro no bolso interno de sua jaqueta.
— Duvido muito que tenha dado para identificar a voz de Isaac na gravação — o Serpente praguejou baixo, e para comprovar, passou a gravação pelo alto falante. — Não tenho nada, não posso fazer nada com isso — grunhiu, guardando o celular no bolso. — Vou ter que continuar fingindo que não sei de nada.
— Eu não posso continuar te ajudando com isso, sinto muito — disse por fim, sabendo o que provavelmente iria pedir para ele. — Eu não posso ficar traindo as pessoas que me dão tudo. Eles já não confiam em mim porque o Thomas é meu pai.
— Não esperava que fosse me ajudar novamente — o Serpente deixou aquilo claro.

sequer esperava que tivesse passado o ponto de encontro e o horário, para ser bem sincero. Então houve um silêncio tão grande que era possível ouvir o som que a mata fazia, os animais, o vento, e até mesmo a respiração dos dois.

— Bem — ainda estava bem pensativo sobre aquilo. — Eu não esperava que a única pessoa que está tentando fazer algo agora estivesse jurada de morte também. — Respirou de forma mais longa. — Tem onde dormir?

deu de ombros, já esteve em situações similares, em que era ameaçado de morte, tantas vezes que não se assustava mais.

— Meu apartamento — falou com obviedade. Não iria se esconder. — Quanto a você, volta para a casa do xerife, e esconde essa moto, ela tá marcada — avisou, apontando para o veículo que estava encostado.
— Acha mesmo que é uma boa ideia dormir lá? Esse idiota sabe onde fica? — perguntou, e por mais estranho que soasse, tinha um tom de preocupação em sua voz.
— Sabe — torceu o nariz. — Posso ficar na casa do Heitor — comentou pensativo, analisando as possibilidades.
— Quem é esse cara? Eu ouvi o nome dele algumas vezes, mas não sei quem é. E outra, o Isaac sabe onde o Heitor mora? — não tirava os olhos de enquanto fumava, e pensava sobre toda a situação.

O Serpente se aproximou do Corvo, pegando seu cigarro entre os dedos, tragando profundamente antes de deixar a fumaça sair por ela mesma, por seu nariz e boca. Os olhos de seguram cada movimento, até como o pomo-de-adão subiu e desceu pelo homem a sua frente ter tragado a fumaça, então retornou a encarar seus olhos de forma lenta.

— Heitor é um dos líderes dos Serpentes — Limitou a dizer, devolvendo o cigarro a . — Ninguém vai tentar nada se eu estiver lá.
— Tem certeza? — rebateu em uma desconfiança nata.

não era de acreditar muito nas pessoas e estava relutante demais em confiar totalmente em mesmo com as pequenas provas que vinha tendo. Na verdade, o Corvo esperava a qualquer momento a facada que iria levar pelas costas, tanto figuradamente como literalmente, e conseguia imaginar perfeitamente a mão daquele homem que estava na sua frente estaria na outra ponta da faca, o vendo sangrar bem devagar.

— Neste ponto eu não tenho certeza de muita coisa — respondeu com sinceridade. — Mas confio no Heitor até de olhos fechados.

não iria dizer que se tratava do seu tio, seria informação demais e, infelizmente, não confiava no Corvo para dar essa informação de mão beijada. Qualquer um poderia querer pegar o mais novo para tentar ameaçar o mais velho de alguma forma.

— Certo — sussurrou pegando o cigarro de volta. — Se você confia tanto nele assim, por que não fala a verdade para ele? — Levou o rolinho branco até em seus lábios, tragando sem desviar dos olhos de .
— Ouviu quando me chamaram, diversas vezes, por meu apelido carinhoso de “Nepobaby”? — o Serpente levantou uma das suas sobrancelhas. — Se eu chegar lá sem provas, não vai valer de nada.
— Foda-se essa merda, tá ligado? É a porra da sua vida, e a minha também. Deixem te chamar de qualquer merda, ninguém tem a ver com a sua vida, e ninguém vai morrer por você — rebateu com certa raiva daquilo, e virou o rosto, olhando a mata densa agora.

suspirou, de certa forma tinha razão e o Serpente sabia disso.

— Eu vou ver o que consigo fazer — Ele se deu por vencido, pegando novamente o cigarro do Corvo, tragando mais para tentar se acalmar. — Te aviso se conseguir algo — informou em um claro tom de despedida, entregando o rolinho branco para .
— Eu te dou uma carona até o limite da floresta — avisou, acabando de fumar o cigarro que lhe foi entregue. — Se você quiser — completou.

não respondeu, não verbalmente, pelo menos. Se aproximou mais da moto, esperando que subisse para que ele fizesse o mesmo. o olhou ainda encostado da moto, e puxou o ar. Ele apagou a guimba na sola da bota e a colocou presa no guidão da moto para jogar fora depois, então pegou o capacete em seguida e entregou para .

— Isso tudo é medo que te vejam com um Serpente? — questionou, aceitando o único capacete que o Covo tinha consigo.
— Os Serpentes já querem me matar, eu não preciso que os Corvos queiram também. Um traidor não tem segunda chance e ninguém vai querer saber dos meus motivos — respondeu de forma totalmente sincera, enquanto subia na moto agora.

subiu em silêncio, pensando em uma forma de livrar o Corvo de toda aquela bagunça. Maldita seja a mãe de Jerry, ele pensou. Seus braços envolveram novamente a cintura de , se segurando nele. olhou para baixo dessa vez, examinando na penumbra da noite a forma que eles estavam, e não falou nada, assim como da primeira vez. Apenas virou a chave, e o farol acendeu, iluminando tudo ao redor e ofuscando a visão deles, e quando deu partida, o ronco ecoou pela floresta. O garoto tirou o descanso e saiu dali o quanto antes, porém, dessa vez um pouco mais rápido do que antes, pegando a trilha que o levaria para o sul de Black Pines, já que imaginava que ficaria por lá, quando o norte era onde ficava Ebonvale.
A velocidade não incomodava o Serpente, estava acostumado, por isso não falou nada com correndo daquele jeito, porém ele se prendia ao garoto. Reconheceu o sul da floresta pelo caminho que o Corvo fazia, pensando que talvez fosse para o farol para pensar um pouco. O barulho das ondas batendo e se quebrando acalmava e ele conseguia pensar com clareza. Era tipo um refúgio.
Quando chegou no limite da floresta, foi diminuindo a velocidade e parando, desligando o motor da moto e o farol para não chamar atenção, então deixou seu corpo ir para trás, esticando sua coluna, mas suas costas apoiaram no peito de .
, a princípio, estranhou o garoto indo para trás, achando que tinha acontecido algo. Suas sobrancelhas se uniram de leve e ele deixou as mãos escorregarem pelas laterais de , fechando os dedos em sua cintura para dar apoio ao garoto. O Corvo segurou o ar com aquele contato, nunca tinha ficado tão perto de daquela forma, e isso foi ainda mais estranho. Uma coisa era o lance da troca de olhares, como se fossem apenas provocações bobas, assim como quando implicavam de forma aleatória um com outro, só que aquilo ali era bem mais íntimo para . O garoto nunca foi muito de deixar que qualquer um o tocasse.

— Aqui está bom? Ou quer que eu te deixe em outro lugar? — perguntou com a voz baixa, soltando o ar, virando a cabeça e olhando o Serpente por cima do ombro.

Um pequeno sinal de alerta veio soando crescente na mente de , o mandando soltar e se colocar ao máximo de distância dele. Sua pele até se arrepiou com isso. Umedeceu seus lábios, apertando um pouco mais a cintura dele antes de afrouxar seus dedos. subiu a viseira, encarando meio de perfil e passeou suas orbes por todo seu rosto, descendo da moto logo em seguida. Aquele ato fez o Corvo relaxar quase que automaticamente, mas sentiu suas costas esfriando pela falta de contato com o peito quente do Serpente.

— Valeu pela carona — ele murmurou, tirando o capacete.

tentou pentear seus cachinhos com os dedos mesmo, esticando o capacete para , que o pegou em seguida, já o colocando. Conseguiu sentir o cheiro do shampoo do outro agora.

— Vê se fica vivo, ainda preciso que você conserte as coisas — comentou, abaixando a viseira e ligando a moto novamente.
— Ah, que fofo, somos amiguinhos agora, já está até preocupado comigo — respondeu, implicando com Damian.
— Depois que o Isaac for pego, você pode morrer — disse, dando de ombros e dando partida, acelerando e virando a moto, fazendo um pouco de terra ir contra o Serpente.

rolou os olhos, mas fechou o semblante e fez cara feia para a atitude ridícula de . Ele levantou a mão e deu o dedo do meio para o Corvo que já estava até distante dele, pela velocidade da moto, murmurando para si mesmo um “babaca”. Mas diferente do que o Corvo imaginava, não voltou para seu apartamento ou para casa de Heitor, como disse que iria. Ele aproveitou que já estava ali, bem na divisa da floresta, e caminhou para o farol de Brimstone.




Continua...


Nota da autora: A ideia de uma fanfic juntas está em nossas mentes há alguns meses, porém só agora que realmente levamos a sério, e assim PW nasceu! Não esqueçam de comentar.
Nos vemos na próxima att!
Beijos da Jaden e da Polaris <3

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