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✮⋆˙Independente do Cosmos✮⋆˙
Última Atualização: 27/07/25

Abraço o corpo frio de Lena contra o meu, mesmo com meus movimentos erráticos e com o tremor que assola meu corpo, mas não quero deixá-la ir.
Não quero deixá-la.
A simples ideia de viver em um mundo sem ela, sem minha irmãzinha, me apavora total e completamente. A única constância em toda a minha vida foi a minha irmã, essa que agora jaz imóvel em meus braços, tendo sida tirada desse mundo cedo mais.
Lágrimas banham meu rosto, soluços e súplicas escapam de meus lábios rachados e sangrentos.
— Por favor, por favor, não vá. — Minhas súplicas soam roucas e suplicantes.
Suplicando a toda e qualquer forma de divindade.
Aos deuses bruxos que nos abandonaram tantos anos atrás.
Aos deuses cultuados do outro lado do mar.
Aos anjos.
A qualquer um que possa mudar a situação, que possa trazer Lena de volta a vida, de volta para mim.
— Não me deixem perdê-la, ela é tudo o que eu tenho, tudo o que eu sou. — Continuo, depositando toda a minha fé quase inexistente de que alguém vai me escutar.
Não sei por quanto tempo continuo ali, suplicando e chorando, agarrada a Lena e rezando para que alguém nos salve, mas percebo quando minhas preces desesperadas são atendidas.
A atmosfera parece mudar completamente, como se o mundo ao redor perdesse o foco enquanto um estranho surge das sombras de nossa cabana. Aperto ainda mais o corpo de Lena contra o meu, protegendo-a mesmo que ela não esteja mais aqui.
— Não precisa proteger sua irmã, estou aqui para ajudá-la. — A voz grossa soa mais como um animal do que com uma voz humana.
Um arrepio de pavor toma o meu corpo, arrepiando todos os meus pelos.
Uma voz me diz para negar a ajuda, para agarrar Lena e ir para o mais longe dali. Uma espécie de sexto sentido, um fraco resquício do que antes já foi o poder da Corte das Bruxas.
Mas a ignoro completamente quando pergunto:
— V-você consegue trazê-la de volta?
As sombras cobrem quase todo o seu rosto, mas um sorriso predatório brilha por entre a escuridão.
A voz na minha cabeça se torna mais alta, mais insistente.
Ignoro-a com ainda mais força.
— Existem poucas coisas que eu não consigo fazer nessa vida, querida.
O arrepio vem ainda mais intenso dessa vez, mas não estou preocupada com qualquer que seja o aviso que meu sangue bruxo e fraco está tentando me alertar.
Não quando implorei aos Deuses e fui ignorada, ou quando tentei todos os feitiços e poções que li em todos o grimórios que consegui encontrar.
E nada funcionou.
— Mas, tudo na vida tem um preço, e isso não seria diferente.
A voz em minha mente aumenta.
— O preço é alto, enganar a morte não é fácil.
E aumenta ainda mais.
— Eu pago! — O desespero está explícito em meu tom de voz. — Pago qualquer coisa, faço qualquer coisa por ela.
Troco minha vida pela dela, mas não falo essas palavras em voz alta, sabendo que Lena nunca me perdoaria por isso.
O sorriso nas sombras se torna maior.
Cruel.
Satisfeito.
Parecendo agradado com a minha resposta ou como se soubesse o que eu pensei segundos atrás, mas que não compartilhei.
Ele se move rapidamente, buscando algo e então jogando-o pelo chão em minha direção. Observo um punhal dourado — aparentemente de ouro — deslizar até minhas pernas e encaro o objeto por alguns segundos, antes de voltar minha atenção para o desconhecido nas sombras.
Para a divindade benevolente escondida ali.
— Use o punhal.
Meus olhos se arregalam com sua frase, a voz em minha cabeça gritando ao ponto de me fazer querer gritar para que se cale.
Uma risada ecoa pela cabana, quebrando a quietude do lugar.
— Tudo o que eu peço, em troca da vida da sua irmã, é uma gota do seu sangue. Um simples corte no seu pulso é o suficiente. — Sua voz soa ameaçadora. — Não estou pedindo que você se mate.
Não penso duas vezes antes de descer a lâmina contra minha pele.
Não penso nas consequências.
A única coisa que penso é em Lena.
O metal frio corta minha pele no instante que entra em contato com ela.
A voz na minha cabeça grita tão alto, que eu fecho os olhos numa tola esperança de que ela suma.
— Mas você irá desejar que isso acontecesse.
E essa é a última coisa de que eu me lembro, antes de uma escuridão pacífica me alcançar.


O latejar insistente é a primeira coisa que eu sinto conforme volto a realidade. A escuridão se agarra em mim, negando-se a me abandonar por completo. Fico mais alguns segundos — ou minutos, não sei bem — no limbo onde minha mente está desperta mas meu corpo não, até que meus olhos se abrem.
E se fecham no mesmo segundo, ofuscados pela luminosidade do local ao qual me encontro.
Conto mentalmente até três antes de abri-los novamente, e não consigo conter o suspiro de maravilhamento que escapa dos meus olhos enquanto encaro o opulento salão vermelho e dourado, esse segundo com um brilho tão intenso que chego a cogitar se os adornos são feitos de ouros.
Tirando os lustre pendurados no teto, a sala não possui nenhum outro móvel ou decoração. O enorme salão está vazio, completamente vazio a não ser por mim.
Até que não está mais.
Uma sombra brilha a direita, e assim que a encaro fixamente, um homem aparece onde antes não havia nada. Fecho os olhos com força, cogitando se essa é apenas uma ilusão visual ou um pequeno surto meu, e os abro novamente alguns segundos depois.
Agora, mais pessoas ocupam o chão do salão, o burburinho de vozes começa a quebrar a quietude do cômodo.
Meus olhos continuam esquadrinhando a cena, mas eles não param de chegar. Jovens, adultos e idosos, de diferentes idades e reinos se encontram ali, espalhados e perdidos.
A confusão é o semblante presente em todos os rostos, e não preciso procurar uma superfície refletiva para saber que é a minha também.
Não sei onde estou, não sei o que querem de mim.
Então, com um estalo, a voz meio humana meio animal retumba em minha mente “Não estou pedindo que você se mate. Mas você irá desejar que isso acontecesse.”
Lena.
O desespero por sua morte, a desolação e a tristeza me acertam como um soco no estômago, arrancando todo o meu ar e me fazendo cambalear alguns passos para trás.
A barganha com o deus desconhecido queima em minha mente e um arrepio percorre meu corpo.
Como mágica, ou maldição, a queimação se torna física no instante seguinte, queimando meu pulso direito como se labaredas infernais pintassem minha pele. Com os olhos fixos, observo quando a queimação dá lugar a marca tríplice, as três fases das luas que representam as três grandes bruxas. Há muito tempo atrás, minha linhagem e toda Llori cultuavam as deusas e praticavam magia, mas A Inquisição, tornou proibido a adoração a deuses pagãos.
Eles matavam qualquer um que se opusessem ou que praticasse bruxaria, e assim uma linhagem inteira de poder foi reduzida a nada mais do que histórias antigas de poderes há muito adormecidos.
O simples símbolo em minha pele seria capaz de me fazer ser enforcada em praça pública, mas esse pensamento não me incomoda.
Não quando esse é um pequeno preço a se pagar para ter a vida de minha irmã comigo.
Eu trocaria minha vida pela dela, sem sequer pensar duas vezes sobre isso.
— De novo não…
O resmungo choroso me desperta dos meus pensamentos, fazendo-me virar na direção do homem parado ao meu lado.
E, pela deusa, que homem.
Seu cabelo ruivo é bagunçado, aparentando ser tão indomável quanto o fogo, e seus olhos verdes como safiras me encarando com a mesma intensidade a qual eu o encarava. Corro meus olhos para as pequenas sardas que descansam em suas bochechas, em seguida para seu nariz que parece ter sido quebrado muitas vezes, minha atenção desce e se fixa na boca carnuda e rosada que poderia fazer até mesmo o mais santo dos homens pecar.
Ele é um pouco mais alto do que eu, nada mais do que alguns centímetros, mas muito maior. Músculos dourados escapam da manga curta de sua camisa que está colada no seu peitoral, e, descendo rapidamente minha visão, encontro coxas tão grossas que são quase da largura do meu quadril.
O desconhecido é inumanamente belo, parecendo muito mais a personificação erótica de um deus esquecido.
— Gosta do que vê, bruxinha? — Um sorriso malicioso cresce em seus lábios após a pergunta.
Sua voz é grossa e rouca, e eu não consigo conter o pensamento de como seria ter esse homem como amante, sussurrando obscenidades em meus ouvidos e usando sua boca cheia para adorar meu corpo.
Seu sorriso se torna ainda maior, como se ele pudesse escutar os pensamentos pecaminosos que começam a percorrer a minha mente.
Isso é loucura, mas me assusta o suficiente para que eu me afaste do belo desconhecido.
Preciso descobrir onde estou.
Como voltar para casa.
Como voltar para Lena.
Pensamentos pecaminosos com um desconhecido — por mais belo que ele seja — não vão me levar a lugar nenhum, não vão me levar de volta para minha irmã.
E ela é tudo o que importa.
Sempre foi.
Sempre será.
Uma sirene toca, alta e estridente, atraindo a atenção de todos e interrompendo os sussurros na sala. O ar na sala pesa e a tensão aumenta, meus pelos todos se eriçam enquanto eu tento compreender o que está acontecendo.
Observo o longo salão e vejo alguns participantes se encarando, o pavor estampa suas feições e empesteia o salão.
Algo muito ruim vai acontecer.
A voz volta a falar, inundando meu cérebro com uma só palavra.
Fuja.
Fuja.
Fuja.
Uma figura que só pode ser denominada como demoníaca emerge das sombras.
Seu corpo humano é musculoso, tão musculoso que parece que sua pele levemente avermelhada vai rasgar a qualquer segundo. Asas vermelhas e membranosas emergem de suas costas e se estendem abertamente, além de um par de chifres, igual de cordeiro enfeitar sua testa.
Ironicamente, a criatura usa um terno básico.
A visão faz minha cabeça rodar, a voz em minha cabeça se torna mais alta, mas não alta o suficiente para escutar a voz bestial que ecoa por todo o salão:
— Sejam todos bem-vindos à nossa vigésima quinta edição dos Jogos do Abismo, no qual a morte é certa... para quase todos.
A voz retumba como um trovão, reverberando nas paredes douradas e fazendo o chão vibrar levemente sob meus pés. O silêncio que toma o salão não é de respeito, mas de puro terror. Como se, ao menor som, algo fosse despertar ou atacar.
O demônio abre os braços, como se estivesse apresentando um espetáculo. Seu sorriso revela dentes demais para uma boca humana.
— Regras? — Ele continua, dando um passo à frente, com os olhos dançando de participante em participante. — São poucas. Sobrevivam. Matem. Vencerão apenas os que forem úteis ou os que forem... os últimos.
Um arrepio rasteja pela minha espinha. A tensão no ar é densa, como eletricidade acumulada antes da tempestade — prestes a explodir.
— Viveram suas vidas acreditando que tinham escolhas — a voz do demônio agora soa mais baixa, quase íntima. — Mas todos vocês fizeram pactos. Barganhas. Trocas. Alguns sabiam exatamente o que estavam fazendo. Outros... — seus olhos se fixam nos meus por um segundo que parece uma eternidade, e um calafrio gélido me atravessa — foram apenas enganados. Pobres tolos.
O ar foge dos meus pulmões. A realização começa a se desenrolar dentro de mim como um nó apertado finalmente sendo desfeito.
— Dentro do Complexo, tudo é permitido — ele continua, sua voz voltando a ecoar pelo salão. — Mentiras. Traições. Sangue. Desejo. Ódio. Amor. Aqui, vocês não são mais cidadãos de reinos, nem filhos de famílias nobres ou miseráveis. Aqui vocês são apostas.
Ele ergue uma das mãos, e no centro do salão, uma chama azulada se acende como uma fogueira etérea. A fumaça se ergue e se molda, formando sete grandes portões, altos e imponentes, com palavras entalhadas em ferro negro corroído pelo tempo. Os portões giram lentamente, revelando seus nomes um a um:
Luxúria. Gula. Avareza. Preguiça. Ira. Inveja. Orgulho.
Cada palavra parece pesar no ar como uma sentença.
— Vocês serão testados dentro e fora das provas. Os sete pecados possuem seus próprios domínios dentro do Complexo — diz o demônio, e seu tom se torna quase divertido. — Toda semana, cada um de vocês será lançado aos limites. Testes físicos. Testes psicológicos. Às vezes sozinhos. Às vezes... uns contra os outros.
Seu sorriso se alarga, tornando-se predatório. Há algo faminto nele, como se a simples ideia do nosso sofrimento fosse combustível para sua existência.
E, provavelmente, é.
— Boa sorte no jogo — ele sussurra, e desaparece.
Sinto o gosto metálico do medo subir pela garganta. Meus olhos ardem com as lágrimas que se acumulam, mas não permito que escapem. Meu estômago se revira. Minha visão vacila.
Ao salvar a vida de Lena, eu acabei perdendo a minha.
Não foi um deus misericordioso que veio ao meu encontro.
Foi um demônio.
E agora, ele têm a minha alma.



Continua...


Nota da autora: Sejam bem-vindos aos jogos infernais!

Essa história tem como inspiração Carnaval/Phantasma, A Serpente e as Asas Feitas de Noite e Reino das Bruxas.


Confira minhas outras fanfics:
A Week In Bali [Liam Payne — Restritas — Shortfic]
Are You The One? [Originais — Restritas — Longfic]
Flames of Redemption [Mitologia — Restritas — Longfic]
Heavenly Flames [Mitologia — Restritas — Longfic]
I'll Never Let You Fall [Originais — Restritas — Shortfic]
Stone Eyes [Mitologia — Restritas — Longfic]
When Love's Around [Originais — Romance de Época — Shortfic]
Wings of Betrayal [Mitologia — Restritas — Longfic]


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