Capítulo 01
Eu sei exatamente como isso vai acabar.
Eu, no meio de uma praia lotada, me perguntando por que aceitei sair de casa, coberta de protetor solar vencido e com areia até nas partes do corpo que eu nem sabia que podiam ter contato com a natureza. E tudo isso porque Beckett decidiu, mais uma vez, que ele sabe o que é melhor pra mim.
Spoiler: ele não sabe.
— Vai ser incrível, . Sol, mar, pôr do sol absurdo, drinks coloridos e você comigo, todos os dias. Preciso dizer mais?
Ele está jogado no sofá da minha casa, vestindo a camisa regata do Batman completamente amassada que dei a ele no seu aniversário de 23 anos, os cabelos estão bagunçados pelo treino de futebol e no rosto ele mantém aquele sorriso convencido que sempre me faz querer bater nele… ou beijar ele, mas principalmente bater.
— Sabe o que também é incrível? Ar-condicionado. Silêncio. Minha cama. E zero pessoas tentando me convencer de que pegar insolação é uma experiência de autoconhecimento. — respondo, me recostando na poltrona com uma caneca de chá nas mãos.
me olha como se eu tivesse dito que odeio cachorros e pizza ao mesmo tempo.
— Você não pode recusar essa viagem, . A galera já tá animada, alugamos aquela casa absurda na praia, tem piscina, tem churrasqueira, e, mais importante, eu estou te convidando.
— Você tá me forçando — corrijo.
— Forçando é uma palavra forte. Eu prefiro "influenciando com carisma e charme inegável".
— Você tá de chinelo com meia e a camiseta manchada de molho. Zero charme envolvido — digo, apontando pra ele.
Ele dá de ombros, como se aquilo fosse um elogio. E talvez, de alguma forma torta, seja. tem esse talento especial de parecer confortável em qualquer lugar, em qualquer roupa, em qualquer caos. Ele é o tipo de pessoa que sorri para o atendente do caixa, faz amizade com o cachorro do vizinho e canta no chuveiro músicas dos anos 2000 como se estivesse em um show particular.
Ele também é meu melhor amigo desde a sétima série, quando me defendeu de um garoto que implicou com meu aparelho ortodôntico. bateu nele com uma régua de matemática e depois me deu um chocolate derretido como presente. A régua foi confiscada, o chocolate me deu dois dias de dor de barriga, mas a amizade ficou.
— Sério, . Você precisa sair um pouco da rotina. Desde quando você virou essa adulta responsável, metódica e... — ele pausa, me analisando. — Chata.
— Uau — digo, fazendo uma careta. — Obrigada.
— É pro seu bem. Quando foi a última vez que você fez alguma coisa fora do script?
Penso por um segundo. E odeio muito o quanto ele tem razão. Eu trabalho demais, estudo demais, planejo demais. E sinto demais. Especialmente por ele. Okay, a última parte pode se manter apenas em meus pensamentos.
Ele se levanta do sofá e vem até mim. O rosto dele está perto demais, e por um instante, fico nervosa. Ele se inclina e meu coração bate tão forte que tenho certeza de que ele ouviu, mas ele só pega minha caneca vazia e me lança aquele sorriso torto.
— Além disso, eu já comprei sua barra de chocolate preferida.
— Você sempre compra chocolate quando quer que eu diga sim — digo, cruzando os braços.
— E você sempre diz sim — ele responde, triunfante, jogando a barra de meio amargo com amêndoas no meu colo. — Porque você me ama.
A frase fica no ar por um segundo. Ele sempre diz isso. Com aquele tom leve, de brincadeira, mas toda vez que ele fala, dói. Porque ele não tem ideia de como isso é verdade.
— Eu vou pensar — digo, fingindo desinteresse.
— Vai pensar até quando? A gente sai em três dias. E você é minha dupla no quarto. Já tá decidido. Te coloquei na lista.
— Você nem perguntou se eu vou querer dividir quarto com você.
— Você quer — ele responde. Simples assim. Como se conhecesse cada pedaço meu mais do que eu própria conheço, talvez conheça.
— E se eu tiver um compromisso?
— Qual? Maratona de séries com seu gato? Atualizar sua planilha de gastos mensais?
— Algumas pessoas acham isso divertido.
— Algumas pessoas precisam de terapia — ele ri, se jogando de volta no sofá. — E praia.
Suspiro, derrotada. Ele ganhou.
De novo.
— Tá. Eu vou — digo, finalmente.
joga os braços para cima, como se tivesse vencido uma partida de futebol.
— Isso! Vai ser a melhor semana da sua vida, eu prometo.
Eu rio, sem acreditar muito. De qualquer forma, no fundo, uma parte de mim espera que seja verdade. Talvez seja a parte que ainda acredita que passar uma semana ao lado do cara que eu amo, mesmo que ele nunca vá me amar de volta, vale a pena.
Ou talvez seja só carência.
— Eu ainda não acredito que você me convenceu com chocolate — murmuro, encarando a barra no meu colo como se ela tivesse me traído. Ela. Não os pensamentos malucos que envolviam e eu, na mesma cama, no mesmo quarto.
— Eu te conheço, . Sei como seu cérebro funciona. Tudo é sobre lógica, consequência e chocolate. Só precisava alinhar os argumentos certos.
Ele me olha com aquele ar satisfeito, de quem sabe exatamente o poder que tem. sempre soube. Desde os doze anos, ele aprendeu a usar o carisma como arma. E, pior, aprendeu a usar ele comigo. O problema disso era que agora ele usava contra mim e, mesmo sabendo de todas as suas jogadas, eu sempre caia em todas.
— Vai ter gente nova nessa viagem? Ou só o nosso grupinho disfuncional de sempre?
— A galera de sempre. E talvez meu irmão. Não sei ainda — responde, esticando as pernas e apoiando os pés na mesinha de centro.
— ? — pergunto, franzindo a testa. — Pensei que ele tava morando em outra cidade agora.
— Tá. Mas ele falou que talvez dê um pulo por lá. Quer fugir do trabalho, da ex maluca... coisas de adulto.
— Parece bem Beckett de ser.
— Ei! Eu sou um adulto funcional, ok?
— Você tomou sorvete no café da manhã ontem.
— E sobrevivi. O que prova meu ponto.
Reviro os olhos, mas não consigo conter o riso. Com , é sempre assim: um constante bate-volta entre provocação e carinho. Às vezes, tenho a sensação de que vivemos uma eterna prévia de alguma coisa que nunca começa de verdade. Um quase.
Ele se ajeita no sofá, apoiando o braço no encosto e me olha com aquele meio sorriso que sempre me desarma.
— Vai ser bom pra você, . De verdade. Você vive tentando consertar o mundo. Talvez seja hora de deixar alguém cuidar de você, pelo menos por uma semana.
A frase me pega de surpresa. tem momentos em que ele deixa a superfície e mergulha um pouquinho mais fundo. Não muito. Só o suficiente pra bagunçar tudo dentro de mim.
— Eu não preciso que ninguém cuide de mim — respondo, mais defensiva do que eu gostaria.
— Eu sei. Mas talvez você mereça — ele diz, num tom baixo. Quase gentil demais pra vir dele. Eu seguro o olhar dele por alguns segundos. E nesse momento, a sala parece menor. Mais silenciosa. Mais íntima. Tudo o que eu quero é perguntar por que ele nunca me escolheu. Por que ele nunca tentou.
Mas eu não pergunto. Porque eu já sei a resposta.
gosta de mim demais pra me perder. Mas não o suficiente pra me amar como eu amo ele.
— Tá — digo, tentando recuperar a leveza. — Mas se eu passar mal com camarão, você vai segurar meu cabelo enquanto eu vomito.
— Justo. Mas só se eu puder gravar e usar contra você no seu casamento futuro com um contador certinho que usa suéter no verão.
— O suéter é opcional — retruco, rindo. — Mas ele tem que saber usar fórmulas de Excel. Prioridades.
— Você vai se apaixonar por um cara com um nome tipo... Régis.
— Isso é nome de pai de alguém da sua empresa, não é?
— Sim. Ele era chato. E usava suéter. No verão.
Caímos na risada juntos, tudo parece fácil de novo. Como sempre é com . Leve. Natural. Como respirar.
Ele olha o celular e faz uma careta.
— Preciso ir. Tenho treino. Mas juro que não vou deixar você fugir dessa viagem, . Tá decidido. Sábado, 10h da manhã. Eu passo pra te buscar.
— A casa vai ser de frente pro mar?
— Vista panorâmica, baby. Tão linda que você vai querer escrever um livro sobre o pôr do sol. —Eu o acompanho até a porta e, antes de sair, ele encosta o queixo no meu ombro, me abraçando de lado. — Vai ser inesquecível, .
E ele diz isso com tanta certeza que eu quase acredito. Só não sei ainda se “inesquecível” é uma coisa boa ou ruim.
∞
O viva-voz do celular tá ativado, equilibrado em cima da cômoda entre um frasco de protetor solar e meu desodorante favorito, isso tudo enquanto tento decidir entre o biquíni preto (seguro, confiável) e o vinho (ousado, perigosamente flertante), a voz da Sarah invade o quarto.
— Você ainda tá levando coisa demais — ela reclama, rindo. — Vocês vão pra uma semana, , não pra uma temporada de reality show.
— E se chover? E se a casa tiver um ar condicionado assassino ou sei lá? E se alguém quiser fazer uma trilha e eu não for porque não levei um tênis?
— Ninguém vai querer fazer trilha. Vocês são um bando de jovens adultos preguiçosos com déficit de atenção. O máximo de trilha que vão fazer é da cama até a geladeira.
Dou uma risada abafada, jogando o biquíni vinho na mala. Dane-se. Talvez flertar com o sol conte como evolução.
— Falando em jovens adultos… — Sarah começa, com aquele tom que me faz revirar os olhos antes mesmo dela continuar, porque sei exatamente o que ela vai dizer. — já deu em cima de alguém essa semana?
— Ainda é sábado.
— Ah. — Silêncio. — ... — ela diz, com aquele tom leve, mas que me desmonta porque sei sobre o assunto antes mesmo que ela fale. — Você tá mesmo pronta pra essa viagem?
Me jogo de costas na cama, meu cabelo ainda está molhado devido a última tentativa frustrada de escova.
— É só uma semana, Sarah.
— Com o . E com o seu coração completamente apaixonado por ele. E com ele completamente cego a isso. E eu nem mencionei o fato de que ele vai, com 90% de certeza, tentar ficar com alguma loira aleatória na primeira noite.
— Uau, obrigada pelo incentivo. Vou até bordar seus conselhos na toalha de praia para me lembrar deles.
Ela ri, mas sei que ela se preocupa. Sarah sempre soube de tudo. Foi a primeira pessoa pra quem eu confessei o que sentia por e a única que viu de perto cada vez que meu coração se apertava toda vez que ele escolhia alguém que não era eu. E sim, houve aquele beijo entre eles anos atrás, numa festa meio bêbada e sem importância. Sarah me contou logo depois, com culpa nos olhos e gosto de vodka nos lábios. E eu? Eu sorri. Fingi que não doeu. E guardei por um bom tempo, mas acabei deixando pra lá depois.
— Só tô dizendo porque te amo, tá? — ela continua. — E porque se for pra você quebrar a cara, que seja com alguém que te faça sentir coisas épicas. Não com esse idiota emocionalmente analfabeto.
— Ele não é um idiota. Só é... o .
— Exatamente. E o é o tipo de cara que joga a isca, mas nunca pesca. Porque ele tem medo do que vem depois.
Fico em silêncio. É verdade. flerta, provoca, se aproxima e recua. Como se tivesse medo de mergulhar em qualquer coisa que não fosse raso. Como se amar alguém fosse um risco que ele não está disposto a correr.
— Talvez essa viagem me ajude a esquecer isso — digo, tentando soar mais otimista do que me sinto.
— Ou talvez... — Sarah fala devagar. — Você conheça alguém que veja você de verdade. Que não te olhe só quando precisa de conforto ou conselhos.
— Alguém tipo...?
— Tipo... não sei. Qualquer um. Tipo o irmão maduro e gostoso dos Becketts.
Solto uma gargalhada.
— ? Ele nem vai.
— me disse que o carro do quebrou. Ele vai pegar carona com vocês e até o carro ser consertado, vai passar as férias por aí.
Eu paro, com a mala esquecida no meio do quarto.
— Ele vai com a gente?
— Isso aí. E, cá entre nós, sempre achei o bem mais interessante que o .
— Você também achou interessante um cara que usava crocs vermelhas com meias listradas.
— Isso foi um momento de fraqueza e tequila, não um padrão. Mas voltando ao : ele sempre olhou pra você diferente. Mesmo. Repara nisso.
Olho pro celular, depois pro espelho. Meu reflexo me encara como se soubesse de algo que eu ainda tô tentando entender.
— Ele nunca disse nada.
— Porque você nunca deu espaço. Sempre esteve ocupada demais esperando pelo .
Silêncio de novo. Dessa vez mais pesado.
— Você acha que eu tô me sabotando? — pergunto, em voz baixa.
— Eu acho que você merece alguém que te escolha de olhos abertos, .
Fecho a mala com um suspiro e me deixo cair no chão, sentada ao lado da cama.
— chega em uma hora.
— E você vai estar linda. Com biquíni vinho e o coração aberto pra tudo — ela diz, animada.
Dou um risinho, mordendo o lábio.
— Te amo, Sarah.
— Também te amo. E se ele fizer alguma idiotice, me liga. Eu levo uma pá.
Desligo com um sorriso nos lábios e bagunça no peito. Não sei o que esperar dessa viagem. Mas sei que, pela primeira vez, talvez eu precise parar de esperar por .
Cinco minutos depois que desliguei, meu celular vibrou com a notificação que eu já esperava.
: “Tô descendo agora. Três minutos. Seja legal e não me faça esperar. Te amo.”
Reviro os olhos, mas sorrio mesmo assim. É a típica mensagem dele. Mandona, provocativa e estranhamente fofa.
Arrasto a mala até a porta do apartamento e dou uma última checada no espelho do corredor. Cabelo arrumado o suficiente, rosto com uma maquiagem leve que finge que eu nasci assim e um biquíni azul marinho sob a blusa oversized branca, que parece inocente demais pra estar escondendo intenções. Respirei fundo.
Três minutos e meu coração já batia como se fosse um primeiro encontro.
O som da buzina me fez saltar. Desci as escadas puxando a mala, e lá estava ele. Enrolado no capô do carro como se fosse uma propaganda de verão, óculos escuros, cabelo bagunçado pelo vento e um sorriso torto que fazia o mundo desacelerar por alguns segundos.
— Você me fez esperar — ele disse, cruzando os braços. — Eu disse três minutos.
— E eu disse que você é dramático — retruco, tentando parecer indiferente enquanto meu estômago fazia piruetas. Ele pega minha mala como se fosse leve, joga no porta-malas e abre a porta do passageiro com um floreio exagerado.
— Milady.
— Idiota.
— Sua Majestade, por favor.
— Seu ego é do tamanho dessa casa que a gente vai, né?
— Maior. A casa é modesta.
Entro no carro abafando uma risada.
— Trouxe snacks? — pergunto, colocando o cinto.
— Trouxe você. Você é meu snack emocional.
— Ew. Nunca mais diga isso.
Ele liga o carro e coloca a playlist de sempre: um mix aleatório entre The 1975, Harry Styles e umas bandas que só ele conhece. Então, depois de prontos, começamos a descer a rua.
O cheiro do carro é o mesmo de sempre. Uma mistura de perfume amadeirado, desodorante masculino e algo que me lembra a adolescência. Tipo tardes de verão e inseguranças não resolvidas.
— vai com a gente — ele diz do nada, como quem não quer nada.
Meu coração dá uma leve travada.
— Sarah me contou.
— Ele tá sem carro. E insistiu. Disse que precisava de férias mais do que eu.
— Alguém precisa mais de férias do que você? — pergunto, rindo.
Ele me olha de relance, tirando os óculos de sol e apoiando no topo da cabeça.
— Eu tava pensando em você.
— O quê?
— Que você também precisa dessas férias. Faz tempo que não te vejo desligar de tudo, . Você tá sempre cuidando dos outros, sempre com a cabeça cheia. Às vezes parece que você vive com uma lista invisível de tarefas colada na testa.
— Talvez porque eu viva mesmo — murmuro, sem conseguir evitar o sorriso pequeno. — Alguém precisa ser responsável nesse grupo.
— É, mas, só dessa vez, promete que vai relaxar?
— Prometo tentar.
Ele estica a mão e segura meus dedos por um segundo. Um toque rápido. Quase imperceptível, mas que me deixa com os pensamentos girando mais do que as rodas do carro.
— Essa viagem vai ser boa. Eu prometo.
Olho pra ele e, por um momento, me pergunto se ele tem noção do efeito que causa. Se ele sente alguma coisa além dessa leveza constante. Se, em algum canto da cabeça dele, existe a ideia de mim como algo além de... , a melhor amiga. Mas então ele solta minha mão e volta a focar na estrada, cantarolando distraidamente a próxima música.
O motor do carro vibrava suavemente enquanto tamborilava os dedos no volante, impaciente. Estávamos parados há uns bons dez minutos na frente do prédio onde morava, e já tinha trocado de música cinco vezes.
— Se ele não descer nos próximos dois minutos, eu juro que vou embora e ele vai ter que ir de Uber pra praia — resmungou, mexendo no retrovisor como se isso fosse acelerar o tempo.
— Calma, . São oito da manhã. É cedo até pro seu irmão.
— Ele disse que estaria pronto às oito em ponto. E o não atrasa. Esse atraso é sinal de que o mundo vai acabar.
Ri, encostando melhor no banco.
— Eu ainda acho surreal ele topar ir com a gente. Você vive dizendo que ele não curte essas coisas.
— Ele não curte mesmo. Mas acho que ele está cansado demais do hospital. E... talvez um pouco curioso com o nosso grupo. Ou com você.
Virei o rosto devagar.
— Comigo?
arqueou uma sobrancelha.
— Você nunca percebe, né?
Antes que eu pudesse responder e estragar tudo, a porta do prédio se abriu e apareceu, segurando uma mala com a leveza de quem já treinou aquilo mil vezes. Camiseta branca, calça jeans escura, tênis limpo. Simples, mas perfeitamente alinhado. Os cabelos castanhos estavam bagunçados de um jeito calculado, e os óculos escuros davam aquele toque final de: “sou inteligente, mas você ainda assim pode tentar me decifrar”.
olhou pra ele e soltou um suspiro dramático.
— Pronto. Lá vem o queridinho da mamãe. — abriu a porta de trás do carro, colocou a mochila com cuidado ao lado, ajeitou a mala no porta-malas e entrou com um aceno breve. — Tripulação reunida e pronta para zarpar — comentou, batendo no volante como se estivesse prestes a pilotar um barco pirata.
— Você sabe que isso aqui é só um Corolla, né? — perguntei, cruzando os braços e tentando não ficar consciente demais da presença de no banco de trás.
— Um Corolla que vai nos levar ao paraíso — ele rebateu, como se isso fosse uma verdade universal.
riu atrás de mim, e, por um segundo, tudo pareceu absurdamente confortável. Familiar, mesmo que ele estivesse entrando agora na dinâmica.
— Você dirige como um velho — provocou após a primeira curva lenta demais.
— E você tem cara de quem foi expulso de um comercial da Calvin Klein por excesso de ego — retrucou.
— Obrigado — respondeu com um sorriso.
Eu ri. Alto demais. E por um segundo, os dois olharam pra mim. com aquele ar de "te conheço", e com o ar de quem queria conhecer mais.
Sarah realmente tinha entrado na minha mente.
— Achei que você fosse desistir — retrucou, sem nem olhar pra trás.
— E perder a chance de passar uma semana com você me dando dor de cabeça? E mais três horas de playlist inquestionável? Jamais.
— Questionável é sua caligrafia de médico.
— Touché.
bufou, mas riu. Eu, por outro lado, girei no banco para encarar . Fazia meses que não o via de perto. Talvez porque ele morasse longe e vivesse imerso em plantões e turnos intermináveis de hospital. Ou talvez porque eu evitasse. Por motivos pessoais. Ele estava ainda mais bonito do que eu lembrava. O cabelo castanho estava mais curto, a barba bem feita, e os olhos dele continuavam aquele tom esquisito de âmbar com mel, fazendo eles parecerem ainda mais atentos do que antes. tem um jeito que faz a gente se sentir examinada sem ser tocada, o que, na minha cabeça, dava total sentido ao fato dele ser médico.
— Oi, — ele disse, com um leve sorriso que me desmontou meio centímetro por dentro.
— Oi, doutor — brinquei, tentando parecer casual enquanto me virava de volta pro painel.
— Não estou de plantão. Pode me chamar só de .
bufou.
— Tá vendo? — resmungou. — Esse é o problema. Você vive dando corda pra ele. Daqui a pouco ele vai medir nossa pressão na beira da piscina.
— Eu não ligaria em aferir a pressão dela. — respondeu, já ajustando o cinto como se preparasse para um procedimento.
O contraste entre eles era quase cômico. Enquanto dirigia com uma mão no volante, outra no celular trocando a música, cantando alto e se alongando no banco como se o carro fosse um parque de diversões, estava com a postura ereta, mochila perfeitamente alinhada ao lado, e os óculos escuros retos no rosto.
Eu me sentia entre dois mundos.
— Quantas horas mesmo até a casa? — perguntei, tentando me concentrar em qualquer coisa que não fosse a tensão que só eu parecia sentir.
— Umas três e meia com sorte — respondeu. — Mas a playlist tá pronta, os snacks estão no porta-luvas e, se vocês se comportarem, posso deixar cada um escolher duas músicas.
— Democracia — murmurou. — Um conceito que meu irmão claramente ainda não entendeu.
ergueu o dedo do meio pelo retrovisor, e eu ri, encostando a cabeça no banco. Enquanto gritava que a playlist dele era “perfeita, imaculada, digna de Grammy”, apenas riu e sugeriu que, se tocasse Dua Lipa mais uma vez, ele ia pular do carro em movimento.
— Você não tem o menor gosto musical — rebateu.
— Tenho sim. Só não gosto de sofrer ouvindo “Levitating” pela trigésima vez.
— Levitating é um hino. , fala pra ele.
— Eu gosto. — Dei de ombros, rindo. — Mas talvez não trinta vezes.
— Traição vinda dos dois lados. É isso. — dramatizou, batendo a mão no volante. — Preciso rever minhas amizades e meus laços de sangue. É sério, , se você cair nessa conversa de médico bem-sucedido que sabe usar palavras como “sistematização” e “nebulização”, você vai me decepcionar — continuou, jogando uma bala na boca.
Eu, no meio de uma praia lotada, me perguntando por que aceitei sair de casa, coberta de protetor solar vencido e com areia até nas partes do corpo que eu nem sabia que podiam ter contato com a natureza. E tudo isso porque Beckett decidiu, mais uma vez, que ele sabe o que é melhor pra mim.
Spoiler: ele não sabe.
— Vai ser incrível, . Sol, mar, pôr do sol absurdo, drinks coloridos e você comigo, todos os dias. Preciso dizer mais?
Ele está jogado no sofá da minha casa, vestindo a camisa regata do Batman completamente amassada que dei a ele no seu aniversário de 23 anos, os cabelos estão bagunçados pelo treino de futebol e no rosto ele mantém aquele sorriso convencido que sempre me faz querer bater nele… ou beijar ele, mas principalmente bater.
— Sabe o que também é incrível? Ar-condicionado. Silêncio. Minha cama. E zero pessoas tentando me convencer de que pegar insolação é uma experiência de autoconhecimento. — respondo, me recostando na poltrona com uma caneca de chá nas mãos.
me olha como se eu tivesse dito que odeio cachorros e pizza ao mesmo tempo.
— Você não pode recusar essa viagem, . A galera já tá animada, alugamos aquela casa absurda na praia, tem piscina, tem churrasqueira, e, mais importante, eu estou te convidando.
— Você tá me forçando — corrijo.
— Forçando é uma palavra forte. Eu prefiro "influenciando com carisma e charme inegável".
— Você tá de chinelo com meia e a camiseta manchada de molho. Zero charme envolvido — digo, apontando pra ele.
Ele dá de ombros, como se aquilo fosse um elogio. E talvez, de alguma forma torta, seja. tem esse talento especial de parecer confortável em qualquer lugar, em qualquer roupa, em qualquer caos. Ele é o tipo de pessoa que sorri para o atendente do caixa, faz amizade com o cachorro do vizinho e canta no chuveiro músicas dos anos 2000 como se estivesse em um show particular.
Ele também é meu melhor amigo desde a sétima série, quando me defendeu de um garoto que implicou com meu aparelho ortodôntico. bateu nele com uma régua de matemática e depois me deu um chocolate derretido como presente. A régua foi confiscada, o chocolate me deu dois dias de dor de barriga, mas a amizade ficou.
— Sério, . Você precisa sair um pouco da rotina. Desde quando você virou essa adulta responsável, metódica e... — ele pausa, me analisando. — Chata.
— Uau — digo, fazendo uma careta. — Obrigada.
— É pro seu bem. Quando foi a última vez que você fez alguma coisa fora do script?
Penso por um segundo. E odeio muito o quanto ele tem razão. Eu trabalho demais, estudo demais, planejo demais. E sinto demais. Especialmente por ele. Okay, a última parte pode se manter apenas em meus pensamentos.
Ele se levanta do sofá e vem até mim. O rosto dele está perto demais, e por um instante, fico nervosa. Ele se inclina e meu coração bate tão forte que tenho certeza de que ele ouviu, mas ele só pega minha caneca vazia e me lança aquele sorriso torto.
— Além disso, eu já comprei sua barra de chocolate preferida.
— Você sempre compra chocolate quando quer que eu diga sim — digo, cruzando os braços.
— E você sempre diz sim — ele responde, triunfante, jogando a barra de meio amargo com amêndoas no meu colo. — Porque você me ama.
A frase fica no ar por um segundo. Ele sempre diz isso. Com aquele tom leve, de brincadeira, mas toda vez que ele fala, dói. Porque ele não tem ideia de como isso é verdade.
— Eu vou pensar — digo, fingindo desinteresse.
— Vai pensar até quando? A gente sai em três dias. E você é minha dupla no quarto. Já tá decidido. Te coloquei na lista.
— Você nem perguntou se eu vou querer dividir quarto com você.
— Você quer — ele responde. Simples assim. Como se conhecesse cada pedaço meu mais do que eu própria conheço, talvez conheça.
— E se eu tiver um compromisso?
— Qual? Maratona de séries com seu gato? Atualizar sua planilha de gastos mensais?
— Algumas pessoas acham isso divertido.
— Algumas pessoas precisam de terapia — ele ri, se jogando de volta no sofá. — E praia.
Suspiro, derrotada. Ele ganhou.
De novo.
— Tá. Eu vou — digo, finalmente.
joga os braços para cima, como se tivesse vencido uma partida de futebol.
— Isso! Vai ser a melhor semana da sua vida, eu prometo.
Eu rio, sem acreditar muito. De qualquer forma, no fundo, uma parte de mim espera que seja verdade. Talvez seja a parte que ainda acredita que passar uma semana ao lado do cara que eu amo, mesmo que ele nunca vá me amar de volta, vale a pena.
Ou talvez seja só carência.
— Eu ainda não acredito que você me convenceu com chocolate — murmuro, encarando a barra no meu colo como se ela tivesse me traído. Ela. Não os pensamentos malucos que envolviam e eu, na mesma cama, no mesmo quarto.
— Eu te conheço, . Sei como seu cérebro funciona. Tudo é sobre lógica, consequência e chocolate. Só precisava alinhar os argumentos certos.
Ele me olha com aquele ar satisfeito, de quem sabe exatamente o poder que tem. sempre soube. Desde os doze anos, ele aprendeu a usar o carisma como arma. E, pior, aprendeu a usar ele comigo. O problema disso era que agora ele usava contra mim e, mesmo sabendo de todas as suas jogadas, eu sempre caia em todas.
— Vai ter gente nova nessa viagem? Ou só o nosso grupinho disfuncional de sempre?
— A galera de sempre. E talvez meu irmão. Não sei ainda — responde, esticando as pernas e apoiando os pés na mesinha de centro.
— ? — pergunto, franzindo a testa. — Pensei que ele tava morando em outra cidade agora.
— Tá. Mas ele falou que talvez dê um pulo por lá. Quer fugir do trabalho, da ex maluca... coisas de adulto.
— Parece bem Beckett de ser.
— Ei! Eu sou um adulto funcional, ok?
— Você tomou sorvete no café da manhã ontem.
— E sobrevivi. O que prova meu ponto.
Reviro os olhos, mas não consigo conter o riso. Com , é sempre assim: um constante bate-volta entre provocação e carinho. Às vezes, tenho a sensação de que vivemos uma eterna prévia de alguma coisa que nunca começa de verdade. Um quase.
Ele se ajeita no sofá, apoiando o braço no encosto e me olha com aquele meio sorriso que sempre me desarma.
— Vai ser bom pra você, . De verdade. Você vive tentando consertar o mundo. Talvez seja hora de deixar alguém cuidar de você, pelo menos por uma semana.
A frase me pega de surpresa. tem momentos em que ele deixa a superfície e mergulha um pouquinho mais fundo. Não muito. Só o suficiente pra bagunçar tudo dentro de mim.
— Eu não preciso que ninguém cuide de mim — respondo, mais defensiva do que eu gostaria.
— Eu sei. Mas talvez você mereça — ele diz, num tom baixo. Quase gentil demais pra vir dele. Eu seguro o olhar dele por alguns segundos. E nesse momento, a sala parece menor. Mais silenciosa. Mais íntima. Tudo o que eu quero é perguntar por que ele nunca me escolheu. Por que ele nunca tentou.
Mas eu não pergunto. Porque eu já sei a resposta.
gosta de mim demais pra me perder. Mas não o suficiente pra me amar como eu amo ele.
— Tá — digo, tentando recuperar a leveza. — Mas se eu passar mal com camarão, você vai segurar meu cabelo enquanto eu vomito.
— Justo. Mas só se eu puder gravar e usar contra você no seu casamento futuro com um contador certinho que usa suéter no verão.
— O suéter é opcional — retruco, rindo. — Mas ele tem que saber usar fórmulas de Excel. Prioridades.
— Você vai se apaixonar por um cara com um nome tipo... Régis.
— Isso é nome de pai de alguém da sua empresa, não é?
— Sim. Ele era chato. E usava suéter. No verão.
Caímos na risada juntos, tudo parece fácil de novo. Como sempre é com . Leve. Natural. Como respirar.
Ele olha o celular e faz uma careta.
— Preciso ir. Tenho treino. Mas juro que não vou deixar você fugir dessa viagem, . Tá decidido. Sábado, 10h da manhã. Eu passo pra te buscar.
— A casa vai ser de frente pro mar?
— Vista panorâmica, baby. Tão linda que você vai querer escrever um livro sobre o pôr do sol. —Eu o acompanho até a porta e, antes de sair, ele encosta o queixo no meu ombro, me abraçando de lado. — Vai ser inesquecível, .
E ele diz isso com tanta certeza que eu quase acredito. Só não sei ainda se “inesquecível” é uma coisa boa ou ruim.
O viva-voz do celular tá ativado, equilibrado em cima da cômoda entre um frasco de protetor solar e meu desodorante favorito, isso tudo enquanto tento decidir entre o biquíni preto (seguro, confiável) e o vinho (ousado, perigosamente flertante), a voz da Sarah invade o quarto.
— Você ainda tá levando coisa demais — ela reclama, rindo. — Vocês vão pra uma semana, , não pra uma temporada de reality show.
— E se chover? E se a casa tiver um ar condicionado assassino ou sei lá? E se alguém quiser fazer uma trilha e eu não for porque não levei um tênis?
— Ninguém vai querer fazer trilha. Vocês são um bando de jovens adultos preguiçosos com déficit de atenção. O máximo de trilha que vão fazer é da cama até a geladeira.
Dou uma risada abafada, jogando o biquíni vinho na mala. Dane-se. Talvez flertar com o sol conte como evolução.
— Falando em jovens adultos… — Sarah começa, com aquele tom que me faz revirar os olhos antes mesmo dela continuar, porque sei exatamente o que ela vai dizer. — já deu em cima de alguém essa semana?
— Ainda é sábado.
— Ah. — Silêncio. — ... — ela diz, com aquele tom leve, mas que me desmonta porque sei sobre o assunto antes mesmo que ela fale. — Você tá mesmo pronta pra essa viagem?
Me jogo de costas na cama, meu cabelo ainda está molhado devido a última tentativa frustrada de escova.
— É só uma semana, Sarah.
— Com o . E com o seu coração completamente apaixonado por ele. E com ele completamente cego a isso. E eu nem mencionei o fato de que ele vai, com 90% de certeza, tentar ficar com alguma loira aleatória na primeira noite.
— Uau, obrigada pelo incentivo. Vou até bordar seus conselhos na toalha de praia para me lembrar deles.
Ela ri, mas sei que ela se preocupa. Sarah sempre soube de tudo. Foi a primeira pessoa pra quem eu confessei o que sentia por e a única que viu de perto cada vez que meu coração se apertava toda vez que ele escolhia alguém que não era eu. E sim, houve aquele beijo entre eles anos atrás, numa festa meio bêbada e sem importância. Sarah me contou logo depois, com culpa nos olhos e gosto de vodka nos lábios. E eu? Eu sorri. Fingi que não doeu. E guardei por um bom tempo, mas acabei deixando pra lá depois.
— Só tô dizendo porque te amo, tá? — ela continua. — E porque se for pra você quebrar a cara, que seja com alguém que te faça sentir coisas épicas. Não com esse idiota emocionalmente analfabeto.
— Ele não é um idiota. Só é... o .
— Exatamente. E o é o tipo de cara que joga a isca, mas nunca pesca. Porque ele tem medo do que vem depois.
Fico em silêncio. É verdade. flerta, provoca, se aproxima e recua. Como se tivesse medo de mergulhar em qualquer coisa que não fosse raso. Como se amar alguém fosse um risco que ele não está disposto a correr.
— Talvez essa viagem me ajude a esquecer isso — digo, tentando soar mais otimista do que me sinto.
— Ou talvez... — Sarah fala devagar. — Você conheça alguém que veja você de verdade. Que não te olhe só quando precisa de conforto ou conselhos.
— Alguém tipo...?
— Tipo... não sei. Qualquer um. Tipo o irmão maduro e gostoso dos Becketts.
Solto uma gargalhada.
— ? Ele nem vai.
— me disse que o carro do quebrou. Ele vai pegar carona com vocês e até o carro ser consertado, vai passar as férias por aí.
Eu paro, com a mala esquecida no meio do quarto.
— Ele vai com a gente?
— Isso aí. E, cá entre nós, sempre achei o bem mais interessante que o .
— Você também achou interessante um cara que usava crocs vermelhas com meias listradas.
— Isso foi um momento de fraqueza e tequila, não um padrão. Mas voltando ao : ele sempre olhou pra você diferente. Mesmo. Repara nisso.
Olho pro celular, depois pro espelho. Meu reflexo me encara como se soubesse de algo que eu ainda tô tentando entender.
— Ele nunca disse nada.
— Porque você nunca deu espaço. Sempre esteve ocupada demais esperando pelo .
Silêncio de novo. Dessa vez mais pesado.
— Você acha que eu tô me sabotando? — pergunto, em voz baixa.
— Eu acho que você merece alguém que te escolha de olhos abertos, .
Fecho a mala com um suspiro e me deixo cair no chão, sentada ao lado da cama.
— chega em uma hora.
— E você vai estar linda. Com biquíni vinho e o coração aberto pra tudo — ela diz, animada.
Dou um risinho, mordendo o lábio.
— Te amo, Sarah.
— Também te amo. E se ele fizer alguma idiotice, me liga. Eu levo uma pá.
Desligo com um sorriso nos lábios e bagunça no peito. Não sei o que esperar dessa viagem. Mas sei que, pela primeira vez, talvez eu precise parar de esperar por .
Cinco minutos depois que desliguei, meu celular vibrou com a notificação que eu já esperava.
: “Tô descendo agora. Três minutos. Seja legal e não me faça esperar. Te amo.”
Reviro os olhos, mas sorrio mesmo assim. É a típica mensagem dele. Mandona, provocativa e estranhamente fofa.
Arrasto a mala até a porta do apartamento e dou uma última checada no espelho do corredor. Cabelo arrumado o suficiente, rosto com uma maquiagem leve que finge que eu nasci assim e um biquíni azul marinho sob a blusa oversized branca, que parece inocente demais pra estar escondendo intenções. Respirei fundo.
Três minutos e meu coração já batia como se fosse um primeiro encontro.
O som da buzina me fez saltar. Desci as escadas puxando a mala, e lá estava ele. Enrolado no capô do carro como se fosse uma propaganda de verão, óculos escuros, cabelo bagunçado pelo vento e um sorriso torto que fazia o mundo desacelerar por alguns segundos.
— Você me fez esperar — ele disse, cruzando os braços. — Eu disse três minutos.
— E eu disse que você é dramático — retruco, tentando parecer indiferente enquanto meu estômago fazia piruetas. Ele pega minha mala como se fosse leve, joga no porta-malas e abre a porta do passageiro com um floreio exagerado.
— Milady.
— Idiota.
— Sua Majestade, por favor.
— Seu ego é do tamanho dessa casa que a gente vai, né?
— Maior. A casa é modesta.
Entro no carro abafando uma risada.
— Trouxe snacks? — pergunto, colocando o cinto.
— Trouxe você. Você é meu snack emocional.
— Ew. Nunca mais diga isso.
Ele liga o carro e coloca a playlist de sempre: um mix aleatório entre The 1975, Harry Styles e umas bandas que só ele conhece. Então, depois de prontos, começamos a descer a rua.
O cheiro do carro é o mesmo de sempre. Uma mistura de perfume amadeirado, desodorante masculino e algo que me lembra a adolescência. Tipo tardes de verão e inseguranças não resolvidas.
— vai com a gente — ele diz do nada, como quem não quer nada.
Meu coração dá uma leve travada.
— Sarah me contou.
— Ele tá sem carro. E insistiu. Disse que precisava de férias mais do que eu.
— Alguém precisa mais de férias do que você? — pergunto, rindo.
Ele me olha de relance, tirando os óculos de sol e apoiando no topo da cabeça.
— Eu tava pensando em você.
— O quê?
— Que você também precisa dessas férias. Faz tempo que não te vejo desligar de tudo, . Você tá sempre cuidando dos outros, sempre com a cabeça cheia. Às vezes parece que você vive com uma lista invisível de tarefas colada na testa.
— Talvez porque eu viva mesmo — murmuro, sem conseguir evitar o sorriso pequeno. — Alguém precisa ser responsável nesse grupo.
— É, mas, só dessa vez, promete que vai relaxar?
— Prometo tentar.
Ele estica a mão e segura meus dedos por um segundo. Um toque rápido. Quase imperceptível, mas que me deixa com os pensamentos girando mais do que as rodas do carro.
— Essa viagem vai ser boa. Eu prometo.
Olho pra ele e, por um momento, me pergunto se ele tem noção do efeito que causa. Se ele sente alguma coisa além dessa leveza constante. Se, em algum canto da cabeça dele, existe a ideia de mim como algo além de... , a melhor amiga. Mas então ele solta minha mão e volta a focar na estrada, cantarolando distraidamente a próxima música.
O motor do carro vibrava suavemente enquanto tamborilava os dedos no volante, impaciente. Estávamos parados há uns bons dez minutos na frente do prédio onde morava, e já tinha trocado de música cinco vezes.
— Se ele não descer nos próximos dois minutos, eu juro que vou embora e ele vai ter que ir de Uber pra praia — resmungou, mexendo no retrovisor como se isso fosse acelerar o tempo.
— Calma, . São oito da manhã. É cedo até pro seu irmão.
— Ele disse que estaria pronto às oito em ponto. E o não atrasa. Esse atraso é sinal de que o mundo vai acabar.
Ri, encostando melhor no banco.
— Eu ainda acho surreal ele topar ir com a gente. Você vive dizendo que ele não curte essas coisas.
— Ele não curte mesmo. Mas acho que ele está cansado demais do hospital. E... talvez um pouco curioso com o nosso grupo. Ou com você.
Virei o rosto devagar.
— Comigo?
arqueou uma sobrancelha.
— Você nunca percebe, né?
Antes que eu pudesse responder e estragar tudo, a porta do prédio se abriu e apareceu, segurando uma mala com a leveza de quem já treinou aquilo mil vezes. Camiseta branca, calça jeans escura, tênis limpo. Simples, mas perfeitamente alinhado. Os cabelos castanhos estavam bagunçados de um jeito calculado, e os óculos escuros davam aquele toque final de: “sou inteligente, mas você ainda assim pode tentar me decifrar”.
olhou pra ele e soltou um suspiro dramático.
— Pronto. Lá vem o queridinho da mamãe. — abriu a porta de trás do carro, colocou a mochila com cuidado ao lado, ajeitou a mala no porta-malas e entrou com um aceno breve. — Tripulação reunida e pronta para zarpar — comentou, batendo no volante como se estivesse prestes a pilotar um barco pirata.
— Você sabe que isso aqui é só um Corolla, né? — perguntei, cruzando os braços e tentando não ficar consciente demais da presença de no banco de trás.
— Um Corolla que vai nos levar ao paraíso — ele rebateu, como se isso fosse uma verdade universal.
riu atrás de mim, e, por um segundo, tudo pareceu absurdamente confortável. Familiar, mesmo que ele estivesse entrando agora na dinâmica.
— Você dirige como um velho — provocou após a primeira curva lenta demais.
— E você tem cara de quem foi expulso de um comercial da Calvin Klein por excesso de ego — retrucou.
— Obrigado — respondeu com um sorriso.
Eu ri. Alto demais. E por um segundo, os dois olharam pra mim. com aquele ar de "te conheço", e com o ar de quem queria conhecer mais.
Sarah realmente tinha entrado na minha mente.
— Achei que você fosse desistir — retrucou, sem nem olhar pra trás.
— E perder a chance de passar uma semana com você me dando dor de cabeça? E mais três horas de playlist inquestionável? Jamais.
— Questionável é sua caligrafia de médico.
— Touché.
bufou, mas riu. Eu, por outro lado, girei no banco para encarar . Fazia meses que não o via de perto. Talvez porque ele morasse longe e vivesse imerso em plantões e turnos intermináveis de hospital. Ou talvez porque eu evitasse. Por motivos pessoais. Ele estava ainda mais bonito do que eu lembrava. O cabelo castanho estava mais curto, a barba bem feita, e os olhos dele continuavam aquele tom esquisito de âmbar com mel, fazendo eles parecerem ainda mais atentos do que antes. tem um jeito que faz a gente se sentir examinada sem ser tocada, o que, na minha cabeça, dava total sentido ao fato dele ser médico.
— Oi, — ele disse, com um leve sorriso que me desmontou meio centímetro por dentro.
— Oi, doutor — brinquei, tentando parecer casual enquanto me virava de volta pro painel.
— Não estou de plantão. Pode me chamar só de .
bufou.
— Tá vendo? — resmungou. — Esse é o problema. Você vive dando corda pra ele. Daqui a pouco ele vai medir nossa pressão na beira da piscina.
— Eu não ligaria em aferir a pressão dela. — respondeu, já ajustando o cinto como se preparasse para um procedimento.
O contraste entre eles era quase cômico. Enquanto dirigia com uma mão no volante, outra no celular trocando a música, cantando alto e se alongando no banco como se o carro fosse um parque de diversões, estava com a postura ereta, mochila perfeitamente alinhada ao lado, e os óculos escuros retos no rosto.
Eu me sentia entre dois mundos.
— Quantas horas mesmo até a casa? — perguntei, tentando me concentrar em qualquer coisa que não fosse a tensão que só eu parecia sentir.
— Umas três e meia com sorte — respondeu. — Mas a playlist tá pronta, os snacks estão no porta-luvas e, se vocês se comportarem, posso deixar cada um escolher duas músicas.
— Democracia — murmurou. — Um conceito que meu irmão claramente ainda não entendeu.
ergueu o dedo do meio pelo retrovisor, e eu ri, encostando a cabeça no banco. Enquanto gritava que a playlist dele era “perfeita, imaculada, digna de Grammy”, apenas riu e sugeriu que, se tocasse Dua Lipa mais uma vez, ele ia pular do carro em movimento.
— Você não tem o menor gosto musical — rebateu.
— Tenho sim. Só não gosto de sofrer ouvindo “Levitating” pela trigésima vez.
— Levitating é um hino. , fala pra ele.
— Eu gosto. — Dei de ombros, rindo. — Mas talvez não trinta vezes.
— Traição vinda dos dois lados. É isso. — dramatizou, batendo a mão no volante. — Preciso rever minhas amizades e meus laços de sangue. É sério, , se você cair nessa conversa de médico bem-sucedido que sabe usar palavras como “sistematização” e “nebulização”, você vai me decepcionar — continuou, jogando uma bala na boca.