Independente do Cosmos🪐
Última Atualização: 22/08/2025Eu sei exatamente como isso vai acabar.
Eu, no meio de uma praia lotada, me perguntando por que aceitei sair de casa, coberta de protetor solar vencido e com areia até nas partes do corpo que eu nem sabia que podiam ter contato com a natureza. E tudo isso porque Beckett decidiu, mais uma vez, que ele sabe o que é melhor pra mim.
Spoiler: ele não sabe.
— Vai ser incrível, . Sol, mar, pôr do sol absurdo, drinks coloridos e você comigo, todos os dias. Preciso dizer mais?
Ele está jogado no sofá da minha casa, vestindo a camisa regata do Batman completamente amassada que dei a ele no seu aniversário de 23 anos, os cabelos estão bagunçados pelo treino de futebol e no rosto ele mantém aquele sorriso convencido que sempre me faz querer bater nele… ou beijar ele, mas principalmente bater.
— Sabe o que também é incrível? Ar-condicionado. Silêncio. Minha cama. E zero pessoas tentando me convencer de que pegar insolação é uma experiência de autoconhecimento. — respondo, me recostando na poltrona com uma caneca de chá nas mãos.
me olha como se eu tivesse dito que odeio cachorros e pizza ao mesmo tempo.
— Você não pode recusar essa viagem, . A galera já tá animada, alugamos aquela casa absurda na praia, tem piscina, tem churrasqueira, e, mais importante, eu estou te convidando.
— Você tá me forçando — corrijo.
— Forçando é uma palavra forte. Eu prefiro "influenciando com carisma e charme inegável".
— Você tá de chinelo com meia e a camiseta manchada de molho. Zero charme envolvido — digo, apontando pra ele.
Ele dá de ombros, como se aquilo fosse um elogio. E talvez, de alguma forma torta, seja. tem esse talento especial de parecer confortável em qualquer lugar, em qualquer roupa, em qualquer caos. Ele é o tipo de pessoa que sorri para o atendente do caixa, faz amizade com o cachorro do vizinho e canta no chuveiro músicas dos anos 2000 como se estivesse em um show particular.
Ele também é meu melhor amigo desde a sétima série, quando me defendeu de um garoto que implicou com meu aparelho ortodôntico. bateu nele com uma régua de matemática e depois me deu um chocolate derretido como presente. A régua foi confiscada, o chocolate me deu dois dias de dor de barriga, mas a amizade ficou.
— Sério, . Você precisa sair um pouco da rotina. Desde quando você virou essa adulta responsável, metódica e... — ele pausa, me analisando. — Chata.
— Uau — digo, fazendo uma careta. — Obrigada.
— É pro seu bem. Quando foi a última vez que você fez alguma coisa fora do script?
Penso por um segundo. E odeio muito o quanto ele tem razão. Eu trabalho demais, estudo demais, planejo demais. E sinto demais. Especialmente por ele. Okay, a última parte pode se manter apenas em meus pensamentos.
Ele se levanta do sofá e vem até mim. O rosto dele está perto demais, e por um instante, fico nervosa. Ele se inclina e meu coração bate tão forte que tenho certeza de que ele ouviu, mas ele só pega minha caneca vazia e me lança aquele sorriso torto.
— Além disso, eu já comprei sua barra de chocolate preferida.
— Você sempre compra chocolate quando quer que eu diga sim — digo, cruzando os braços.
— E você sempre diz sim — ele responde, triunfante, jogando a barra de meio amargo com amêndoas no meu colo. — Porque você me ama.
A frase fica no ar por um segundo. Ele sempre diz isso. Com aquele tom leve, de brincadeira, mas toda vez que ele fala, dói. Porque ele não tem ideia de como isso é verdade.
— Eu vou pensar — digo, fingindo desinteresse.
— Vai pensar até quando? A gente sai em três dias. E você é minha dupla no quarto. Já tá decidido. Te coloquei na lista.
— Você nem perguntou se eu vou querer dividir quarto com você.
— Você quer — ele responde. Simples assim. Como se conhecesse cada pedaço meu mais do que eu própria conheço, talvez conheça.
— E se eu tiver um compromisso?
— Qual? Maratona de séries com seu gato? Atualizar sua planilha de gastos mensais?
— Algumas pessoas acham isso divertido.
— Algumas pessoas precisam de terapia — ele ri, se jogando de volta no sofá. — E praia.
Suspiro, derrotada. Ele ganhou.
De novo.
— Tá. Eu vou — digo, finalmente.
joga os braços para cima, como se tivesse vencido uma partida de futebol.
— Isso! Vai ser a melhor semana da sua vida, eu prometo.
Eu rio, sem acreditar muito. De qualquer forma, no fundo, uma parte de mim espera que seja verdade. Talvez seja a parte que ainda acredita que passar uma semana ao lado do cara que eu amo, mesmo que ele nunca vá me amar de volta, vale a pena.
Ou talvez seja só carência.
— Eu ainda não acredito que você me convenceu com chocolate — murmuro, encarando a barra no meu colo como se ela tivesse me traído. Ela. Não os pensamentos malucos que envolviam e eu, na mesma cama, no mesmo quarto.
— Eu te conheço, . Sei como seu cérebro funciona. Tudo é sobre lógica, consequência e chocolate. Só precisava alinhar os argumentos certos.
Ele me olha com aquele ar satisfeito, de quem sabe exatamente o poder que tem. sempre soube. Desde os doze anos, ele aprendeu a usar o carisma como arma. E, pior, aprendeu a usar ele comigo. O problema disso era que agora ele usava contra mim e, mesmo sabendo de todas as suas jogadas, eu sempre caia em todas.
— Vai ter gente nova nessa viagem? Ou só o nosso grupinho disfuncional de sempre?
— A galera de sempre. E talvez meu irmão. Não sei ainda — responde, esticando as pernas e apoiando os pés na mesinha de centro.
— ? — pergunto, franzindo a testa. — Pensei que ele tava morando em outra cidade agora.
— Tá. Mas ele falou que talvez dê um pulo por lá. Quer fugir do trabalho, da ex maluca... coisas de adulto.
— Parece bem Beckett de ser.
— Ei! Eu sou um adulto funcional, ok?
— Você tomou sorvete no café da manhã ontem.
— E sobrevivi. O que prova meu ponto.
Reviro os olhos, mas não consigo conter o riso. Com , é sempre assim: um constante bate-volta entre provocação e carinho. Às vezes, tenho a sensação de que vivemos uma eterna prévia de alguma coisa que nunca começa de verdade. Um quase.
Ele se ajeita no sofá, apoiando o braço no encosto e me olha com aquele meio sorriso que sempre me desarma.
— Vai ser bom pra você, . De verdade. Você vive tentando consertar o mundo. Talvez seja hora de deixar alguém cuidar de você, pelo menos por uma semana.
A frase me pega de surpresa. tem momentos em que ele deixa a superfície e mergulha um pouquinho mais fundo. Não muito. Só o suficiente pra bagunçar tudo dentro de mim.
— Eu não preciso que ninguém cuide de mim — respondo, mais defensiva do que eu gostaria.
— Eu sei. Mas talvez você mereça — ele diz, num tom baixo. Quase gentil demais pra vir dele. Eu seguro o olhar dele por alguns segundos. E nesse momento, a sala parece menor. Mais silenciosa. Mais íntima. Tudo o que eu quero é perguntar por que ele nunca me escolheu. Por que ele nunca tentou.
Mas eu não pergunto. Porque eu já sei a resposta.
gosta de mim demais pra me perder. Mas não o suficiente pra me amar como eu amo ele.
— Tá — digo, tentando recuperar a leveza. — Mas se eu passar mal com camarão, você vai segurar meu cabelo enquanto eu vomito.
— Justo. Mas só se eu puder gravar e usar contra você no seu casamento futuro com um contador certinho que usa suéter no verão.
— O suéter é opcional — retruco, rindo. — Mas ele tem que saber usar fórmulas de Excel. Prioridades.
— Você vai se apaixonar por um cara com um nome tipo... Régis.
— Isso é nome de pai de alguém da sua empresa, não é?
— Sim. Ele era chato. E usava suéter. No verão.
Caímos na risada juntos, tudo parece fácil de novo. Como sempre é com . Leve. Natural. Como respirar.
Ele olha o celular e faz uma careta.
— Preciso ir. Tenho treino. Mas juro que não vou deixar você fugir dessa viagem, . Tá decidido. Sábado, 10h da manhã. Eu passo pra te buscar.
— A casa vai ser de frente pro mar?
— Vista panorâmica, baby. Tão linda que você vai querer escrever um livro sobre o pôr do sol. —Eu o acompanho até a porta e, antes de sair, ele encosta o queixo no meu ombro, me abraçando de lado. — Vai ser inesquecível, .
E ele diz isso com tanta certeza que eu quase acredito. Só não sei ainda se “inesquecível” é uma coisa boa ou ruim.
O viva-voz do celular tá ativado, equilibrado em cima da cômoda entre um frasco de protetor solar e meu desodorante favorito, isso tudo enquanto tento decidir entre o biquíni preto (seguro, confiável) e o vinho (ousado, perigosamente flertante), a voz da Sarah invade o quarto.
— Você ainda tá levando coisa demais — ela reclama, rindo. — Vocês vão pra uma semana, , não pra uma temporada de reality show.
— E se chover? E se a casa tiver um ar condicionado assassino ou sei lá? E se alguém quiser fazer uma trilha e eu não for porque não levei um tênis?
— Ninguém vai querer fazer trilha. Vocês são um bando de jovens adultos preguiçosos com déficit de atenção. O máximo de trilha que vão fazer é da cama até a geladeira.
Dou uma risada abafada, jogando o biquíni vinho na mala. Dane-se. Talvez flertar com o sol conte como evolução.
— Falando em jovens adultos… — Sarah começa, com aquele tom que me faz revirar os olhos antes mesmo dela continuar, porque sei exatamente o que ela vai dizer. — já deu em cima de alguém essa semana?
— Ainda é sábado.
— Ah. — Silêncio. — ... — ela diz, com aquele tom leve, mas que me desmonta porque sei sobre o assunto antes mesmo que ela fale. — Você tá mesmo pronta pra essa viagem?
Me jogo de costas na cama, meu cabelo ainda está molhado devido a última tentativa frustrada de escova.
— É só uma semana, Sarah.
— Com o . E com o seu coração completamente apaixonado por ele. E com ele completamente cego a isso. E eu nem mencionei o fato de que ele vai, com 90% de certeza, tentar ficar com alguma loira aleatória na primeira noite.
— Uau, obrigada pelo incentivo. Vou até bordar seus conselhos na toalha de praia para me lembrar deles.
Ela ri, mas sei que ela se preocupa. Sarah sempre soube de tudo. Foi a primeira pessoa pra quem eu confessei o que sentia por e a única que viu de perto cada vez que meu coração se apertava toda vez que ele escolhia alguém que não era eu. E sim, houve aquele beijo entre eles anos atrás, numa festa meio bêbada e sem importância. Sarah me contou logo depois, com culpa nos olhos e gosto de vodka nos lábios. E eu? Eu sorri. Fingi que não doeu. E guardei por um bom tempo, mas acabei deixando pra lá depois.
— Só tô dizendo porque te amo, tá? — ela continua. — E porque se for pra você quebrar a cara, que seja com alguém que te faça sentir coisas épicas. Não com esse idiota emocionalmente analfabeto.
— Ele não é um idiota. Só é... o .
— Exatamente. E o é o tipo de cara que joga a isca, mas nunca pesca. Porque ele tem medo do que vem depois.
Fico em silêncio. É verdade. flerta, provoca, se aproxima e recua. Como se tivesse medo de mergulhar em qualquer coisa que não fosse raso. Como se amar alguém fosse um risco que ele não está disposto a correr.
— Talvez essa viagem me ajude a esquecer isso — digo, tentando soar mais otimista do que me sinto.
— Ou talvez... — Sarah fala devagar. — Você conheça alguém que veja você de verdade. Que não te olhe só quando precisa de conforto ou conselhos.
— Alguém tipo...?
— Tipo... não sei. Qualquer um. Tipo o irmão maduro e gostoso dos Becketts.
Solto uma gargalhada.
— ? Ele nem vai.
— me disse que o carro do quebrou. Ele vai pegar carona com vocês e até o carro ser consertado, vai passar as férias por aí.
Eu paro, com a mala esquecida no meio do quarto.
— Ele vai com a gente?
— Isso aí. E, cá entre nós, sempre achei o bem mais interessante que o .
— Você também achou interessante um cara que usava crocs vermelhas com meias listradas.
— Isso foi um momento de fraqueza e tequila, não um padrão. Mas voltando ao : ele sempre olhou pra você diferente. Mesmo. Repara nisso.
Olho pro celular, depois pro espelho. Meu reflexo me encara como se soubesse de algo que eu ainda tô tentando entender.
— Ele nunca disse nada.
— Porque você nunca deu espaço. Sempre esteve ocupada demais esperando pelo .
Silêncio de novo. Dessa vez mais pesado.
— Você acha que eu tô me sabotando? — pergunto, em voz baixa.
— Eu acho que você merece alguém que te escolha de olhos abertos, .
Fecho a mala com um suspiro e me deixo cair no chão, sentada ao lado da cama.
— chega em uma hora.
— E você vai estar linda. Com biquíni vinho e o coração aberto pra tudo — ela diz, animada.
Dou um risinho, mordendo o lábio.
— Te amo, Sarah.
— Também te amo. E se ele fizer alguma idiotice, me liga. Eu levo uma pá.
Desligo com um sorriso nos lábios e bagunça no peito. Não sei o que esperar dessa viagem. Mas sei que, pela primeira vez, talvez eu precise parar de esperar por .
Cinco minutos depois que desliguei, meu celular vibrou com a notificação que eu já esperava.
: “Tô descendo agora. Três minutos. Seja legal e não me faça esperar. Te amo.”
Reviro os olhos, mas sorrio mesmo assim. É a típica mensagem dele. Mandona, provocativa e estranhamente fofa.
Arrasto a mala até a porta do apartamento e dou uma última checada no espelho do corredor. Cabelo arrumado o suficiente, rosto com uma maquiagem leve que finge que eu nasci assim e um biquíni azul marinho sob a blusa oversized branca, que parece inocente demais pra estar escondendo intenções. Respirei fundo.
Três minutos e meu coração já batia como se fosse um primeiro encontro.
O som da buzina me fez saltar. Desci as escadas puxando a mala, e lá estava ele. Enrolado no capô do carro como se fosse uma propaganda de verão, óculos escuros, cabelo bagunçado pelo vento e um sorriso torto que fazia o mundo desacelerar por alguns segundos.
— Você me fez esperar — ele disse, cruzando os braços. — Eu disse três minutos.
— E eu disse que você é dramático — retruco, tentando parecer indiferente enquanto meu estômago fazia piruetas. Ele pega minha mala como se fosse leve, joga no porta-malas e abre a porta do passageiro com um floreio exagerado.
— Milady.
— Idiota.
— Sua Majestade, por favor.
— Seu ego é do tamanho dessa casa que a gente vai, né?
— Maior. A casa é modesta.
Entro no carro abafando uma risada.
— Trouxe snacks? — pergunto, colocando o cinto.
— Trouxe você. Você é meu snack emocional.
— Ew. Nunca mais diga isso.
Ele liga o carro e coloca a playlist de sempre: um mix aleatório entre The 1975, Harry Styles e umas bandas que só ele conhece. Então, depois de prontos, começamos a descer a rua.
O cheiro do carro é o mesmo de sempre. Uma mistura de perfume amadeirado, desodorante masculino e algo que me lembra a adolescência. Tipo tardes de verão e inseguranças não resolvidas.
— vai com a gente — ele diz do nada, como quem não quer nada.
Meu coração dá uma leve travada.
— Sarah me contou.
— Ele tá sem carro. E insistiu. Disse que precisava de férias mais do que eu.
— Alguém precisa mais de férias do que você? — pergunto, rindo.
Ele me olha de relance, tirando os óculos de sol e apoiando no topo da cabeça.
— Eu tava pensando em você.
— O quê?
— Que você também precisa dessas férias. Faz tempo que não te vejo desligar de tudo, . Você tá sempre cuidando dos outros, sempre com a cabeça cheia. Às vezes parece que você vive com uma lista invisível de tarefas colada na testa.
— Talvez porque eu viva mesmo — murmuro, sem conseguir evitar o sorriso pequeno. — Alguém precisa ser responsável nesse grupo.
— É, mas, só dessa vez, promete que vai relaxar?
— Prometo tentar.
Ele estica a mão e segura meus dedos por um segundo. Um toque rápido. Quase imperceptível, mas que me deixa com os pensamentos girando mais do que as rodas do carro.
— Essa viagem vai ser boa. Eu prometo.
Olho pra ele e, por um momento, me pergunto se ele tem noção do efeito que causa. Se ele sente alguma coisa além dessa leveza constante. Se, em algum canto da cabeça dele, existe a ideia de mim como algo além de... , a melhor amiga. Mas então ele solta minha mão e volta a focar na estrada, cantarolando distraidamente a próxima música.
O motor do carro vibrava suavemente enquanto tamborilava os dedos no volante, impaciente. Estávamos parados há uns bons dez minutos na frente do prédio onde morava, e já tinha trocado de música cinco vezes.
— Se ele não descer nos próximos dois minutos, eu juro que vou embora e ele vai ter que ir de Uber pra praia — resmungou, mexendo no retrovisor como se isso fosse acelerar o tempo.
— Calma, . São oito da manhã. É cedo até pro seu irmão.
— Ele disse que estaria pronto às oito em ponto. E o não atrasa. Esse atraso é sinal de que o mundo vai acabar.
Ri, encostando melhor no banco.
— Eu ainda acho surreal ele topar ir com a gente. Você vive dizendo que ele não curte essas coisas.
— Ele não curte mesmo. Mas acho que ele está cansado demais do hospital. E... talvez um pouco curioso com o nosso grupo. Ou com você.
Virei o rosto devagar.
— Comigo?
arqueou uma sobrancelha.
— Você nunca percebe, né?
Antes que eu pudesse responder e estragar tudo, a porta do prédio se abriu e apareceu, segurando uma mala com a leveza de quem já treinou aquilo mil vezes. Camiseta branca, calça jeans escura, tênis limpo. Simples, mas perfeitamente alinhado. Os cabelos castanhos estavam bagunçados de um jeito calculado, e os óculos escuros davam aquele toque final de: “sou inteligente, mas você ainda assim pode tentar me decifrar”.
olhou pra ele e soltou um suspiro dramático.
— Pronto. Lá vem o queridinho da mamãe. — abriu a porta de trás do carro, colocou a mochila com cuidado ao lado, ajeitou a mala no porta-malas e entrou com um aceno breve. — Tripulação reunida e pronta para zarpar — comentou, batendo no volante como se estivesse prestes a pilotar um barco pirata.
— Você sabe que isso aqui é só um Corolla, né? — perguntei, cruzando os braços e tentando não ficar consciente demais da presença de no banco de trás.
— Um Corolla que vai nos levar ao paraíso — ele rebateu, como se isso fosse uma verdade universal.
riu atrás de mim, e, por um segundo, tudo pareceu absurdamente confortável. Familiar, mesmo que ele estivesse entrando agora na dinâmica.
— Você dirige como um velho — provocou após a primeira curva lenta demais.
— E você tem cara de quem foi expulso de um comercial da Calvin Klein por excesso de ego — retrucou.
— Obrigado — respondeu com um sorriso.
Eu ri. Alto demais. E por um segundo, os dois olharam pra mim. com aquele ar de "te conheço", e com o ar de quem queria conhecer mais.
Sarah realmente tinha entrado na minha mente.
— Achei que você fosse desistir — retrucou, sem nem olhar pra trás.
— E perder a chance de passar uma semana com você me dando dor de cabeça? E mais três horas de playlist inquestionável? Jamais.
— Questionável é sua caligrafia de médico.
— Touché.
bufou, mas riu. Eu, por outro lado, girei no banco para encarar . Fazia meses que não o via de perto. Talvez porque ele morasse longe e vivesse imerso em plantões e turnos intermináveis de hospital. Ou talvez porque eu evitasse. Por motivos pessoais. Ele estava ainda mais bonito do que eu lembrava. O cabelo castanho estava mais curto, a barba bem feita, e os olhos dele continuavam aquele tom esquisito de âmbar com mel, fazendo eles parecerem ainda mais atentos do que antes. tem um jeito que faz a gente se sentir examinada sem ser tocada, o que, na minha cabeça, dava total sentido ao fato dele ser médico.
— Oi, — ele disse, com um leve sorriso que me desmontou meio centímetro por dentro.
— Oi, doutor — brinquei, tentando parecer casual enquanto me virava de volta pro painel.
— Não estou de plantão. Pode me chamar só de .
bufou.
— Tá vendo? — resmungou. — Esse é o problema. Você vive dando corda pra ele. Daqui a pouco ele vai medir nossa pressão na beira da piscina.
— Eu não ligaria em aferir a pressão dela. — respondeu, já ajustando o cinto como se preparasse para um procedimento.
O contraste entre eles era quase cômico. Enquanto dirigia com uma mão no volante, outra no celular trocando a música, cantando alto e se alongando no banco como se o carro fosse um parque de diversões, estava com a postura ereta, mochila perfeitamente alinhada ao lado, e os óculos escuros retos no rosto.
Eu me sentia entre dois mundos.
— Quantas horas mesmo até a casa? — perguntei, tentando me concentrar em qualquer coisa que não fosse a tensão que só eu parecia sentir.
— Umas três e meia com sorte — respondeu. — Mas a playlist tá pronta, os snacks estão no porta-luvas e, se vocês se comportarem, posso deixar cada um escolher duas músicas.
— Democracia — murmurou. — Um conceito que meu irmão claramente ainda não entendeu.
ergueu o dedo do meio pelo retrovisor, e eu ri, encostando a cabeça no banco. Enquanto gritava que a playlist dele era “perfeita, imaculada, digna de Grammy”, apenas riu e sugeriu que, se tocasse Dua Lipa mais uma vez, ele ia pular do carro em movimento.
— Você não tem o menor gosto musical — rebateu.
— Tenho sim. Só não gosto de sofrer ouvindo “Levitating” pela trigésima vez.
— Levitating é um hino. , fala pra ele.
— Eu gosto. — Dei de ombros, rindo. — Mas talvez não trinta vezes.
— Traição vinda dos dois lados. É isso. — dramatizou, batendo a mão no volante. — Preciso rever minhas amizades e meus laços de sangue. É sério, , se você cair nessa conversa de médico bem-sucedido que sabe usar palavras como “sistematização” e “nebulização”, você vai me decepcionar — continuou, jogando uma bala na boca.
A casa de praia era do jeitinho que descreveu: espaçosa, com janelas grandes, um deque de madeira que dava direto pra areia e uma brisa salgada que já invadia os cômodos mesmo com a porta fechada. Assim que entramos, correu pra garantir o quarto com vista pro mar. Eu e fomos ficando pra trás, meio rindo, meio carregando sacolas.
— Ele faz isso toda vez? — perguntou, pegando minha mochila com uma das mãos e jogando a dele no ombro.
— Sempre. E ainda finge surpresa quando a vista é bonita.
— Previsível.
— Você fala como se fosse melhor.
— Eu sou — ele respondeu, com aquele sorriso meio cínico e meio confiante que só ele sabia dar. — Só não me vanglorio tanto quanto ele.
— Duvido. Aposto que você tem um quarto preferido calculado desde antes de sair de casa.
— Segundo andar. Lado esquerdo. Melhor circulação de ar.
— Aha! Sabia!
Rimos juntos enquanto subíamos as escadas. abriu a porta do quarto com calma, como se já fosse dele, e colocou minhas coisas na cama com gentileza.
— Pode ficar nesse. Eu fico no do fundo.
— Você vai me dar o segundo melhor quarto?
— Se eu ficar aqui e você reclamar depois, vou me sentir culpado. E culpa atrapalha meu sono.
— Que cavalheirismo torto.
— Funciona, não funciona?
— Talvez — disse, sorrindo enquanto arrumava meus travesseiros. — Obrigada, . Eu aceitaria com muito prazer, mas me convidou pra dormir com ele. Você conhece o seu irmão, daqui a pouco essa casa vai estar cheia de gente e vamos precisar ter de duas a três pessoas em uma cama.
Ele me encarou por um segundo a mais que o necessário. E foi aquele segundo que me fez virar de volta pro travesseiro só pra fingir que não percebi. Ele concordou, depois levou minhas bolsas para o quarto do , depois disso descemos e encontramos abrindo uma cerveja na varanda, com os pés já sujos de areia.
— O dono da casa chegou — ele anunciou, jogando uma almofada no sofá. — Deixei o quartinho dos fundos pra você, . Cabe certinho seu ego inflado e sua moralidade questionável.
— Prefiro dormir com o ego do que com areia na cama. Você deixou a janela aberta de novo.
— Ventilação natural.
— Sujeira gratuita.
— Amor de irmão — completei, me jogando no sofá ao lado de .
— já teve bom gosto em ficar comigo, você viu? — falou, dando um gole na cerveja.
— Ela só ficou com você porque não sabia que tinha opção — rebateu com a voz calma, mas com aquele olhar sagaz que fazia tudo parecer mais provocação do que argumento.
— Cala a boca, doutor.
— Fato. Confirma, ? — olhou pra mim com uma sobrancelha levantada.
— Eu só vim pela piscina.
Os dois riram. , mais alto. , mais contido. E eu, no meio da tempestade de piadas internas e pequenas guerras de afeto. Eles ficaram em silêncio por alguns segundos, então me encarou. Sério demais, pensativo demais.
— Só… para com isso, .
— Com o quê?
— De ficar fazendo esse charme todo. Ela já te acha atraente demais.
O silêncio que se seguiu durou exatamente três segundos. Mas foi tempo suficiente pro meu rosto ficar vermelho até a raiz do cabelo.
cruzou os braços e me olhou de lado, divertido.
— Acha mesmo?
— Cala a boca — murmurei, me enfiando na almofada.
revirou os olhos, mas sorriu no fim. Fiquei mais uns segundos afundada na almofada, tentando reorganizar meus neurônios enquanto foi para a cozinha e organizou as compras que tínhamos feito. voltou a mexer no celular, distraído.
— Eu… não pensei. Só falei. Saiu.
— É, saiu mesmo.
Ficamos em silêncio por um instante. Apesar do que ele falou, não era um silêncio desconfortável. Mesmo com toda a bagunça emocional ainda pairando no ar. Com era sempre assim: mesmo quando o mundo parecia de ponta-cabeça, ele era meu ponto de equilíbrio. O cheiro de alho e cebola começou a invadir a sala, e apareceu na porta da cozinha com um pano jogado no ombro e um olhar casual.
— Vou fazer macarrão com camarão e molho branco. Vocês vão querer ou preferem pedir algo?
— Camarão? — fez uma careta. — Eu prefiro comer areia.
— Isso pode ser arranjado — respondeu, sério.
— Vou querer — falei rápido, levantando a mão.
— Sabia que você era a mais evoluída dos dois — ele disse, piscando pra mim antes de voltar pra cozinha.
me olhou de lado, como se não tivesse certeza se deveria se ofender ou rir.
— Ele sempre foi o filho perfeito, sabia?
— É mesmo?
— Notas altas, curso de medicina, ajudava na igreja, nunca quebrava nada em casa… enquanto eu... bom, você me conhece.
— Conheço. E gosto de você mesmo assim.
Ele sorriu de canto.
— É, eu sou mais divertido.
— Até o momento em que você decide quebrar o nariz de alguém numa briga de bar.
— Aquele cara mereceu.
— A única coisa que ele fez foi me beijar.
se endireitou no sofá, seu olhar ficou mais sério.
— Não. Ele estava com a mão quase entrando por baixo da sua saia. Na frente de todo mundo.
— Ainda assim…
— Eu só fiz o que qualquer amigo faria. — disse, com um ar cínico e heroico que só ele conseguiria sustentar.
Suspirei, cruzando os braços.
— Ah, claro — disse, contendo um sorriso. — Um amigo que quebra narizes em nome da moral e dos bons costumes.
Ele riu, baixo, como se não quisesse.
— Eu sou um amigo extremamente comprometido.
— Você podia ter resolvido isso sem quebrar o nariz dele.
— E perder a chance de bancar o cavaleiro de armadura ferrada? Jamais.
— Ferrada mesmo. O sangue nem saiu da sua camiseta até hoje.
— Mas você ficou impressionada.
Ele se inclinou para mais perto, seus olhos prenderam-se aos meus e o sorriso desafiador voltou a ocupar seus lábios, aos poucos.
— Fiquei? — arqueei uma sobrancelha.
— Ficou. Você só finge bem.
Revirei os olhos, encostando a cabeça no encosto do sofá.
— Um dia ainda vão te expulsar de algum bar.
— Você vai estar lá pra me tirar, então tudo bem.
Antes que eu retrucasse, surgiu na porta da cozinha com a travessa de macarrão nas mãos.
— Hora de parar com a sessão esquisita de melhores amigos que se amam e se odeiam. — anunciou com naturalidade, se aproximando com uma colher na mão. — Vamos comer, porque eu estou morrendo de fome e, felizmente, tudo já era pré-pronto. Quando os acompanhamos, ele colocou a travessa no centro da mesa e virou-se pra mim com um sorriso mais suave do que o normal.
— Espero que tenha acertado no ponto do molho. Fiz especialmente pra você.
— Pra mim? — perguntei, erguendo levemente o canto da boca.
— Claro. Você é a única aqui com bom gosto — disse, ignorando completamente o olhar fulminante que lançou. — O ainda acha que nuggets contam como refeição.
— Nugget é uma refeição — respondeu, seco. — Sentei à mesa, observando com um pouco mais de atenção.
— Vai comer ou vai vigiar? — perguntei, cutucando com o cotovelo.
Ele fingiu um sorriso.
— Só tentando entender como o virou chef gourmet de repente.
— Eu só cozinho bem pra quem merece — respondeu, voltando a me encarar por cima do copo de vinho.
— Vou lembrar disso quando a comida estiver horrível — murmurei, tentando suavizar o clima.
riu.
— Eu topo ser lembrado por você.
derrubou o garfo na mesa.
— Merda.
— Que foi? — perguntei, tentando esconder o sorriso.
Ele pegou o talher com um suspiro exagerado.
— Nada. Só deixei cair.
serviu um pouco de macarrão no próprio prato, mas antes de começar a comer, olhou em volta da mesa, como se esperasse por mais gente.
— Somos só nós três mesmo? — ele perguntou, casual, mas com um leve tom de curiosidade por trás.
— Por enquanto, sim — respondeu, sem levantar os olhos do prato. — O pessoal deve chegar mais tarde.
— Que pessoal? — perguntei, limpando a boca com o guardanapo.
— Alguns amigos nossos. — ele respondeu, dando de ombros. — Ash, Luke, Tessa, Nolan e Ivy. Disseram que saíram mais tarde, devem chegar depois das nove.
assentiu devagar, fingindo naturalidade enquanto mastigava, mas o músculo da mandíbula dele pareceu travar por um segundo.
— Acho que não conheço ninguém além de vocês dois.
ergueu os olhos.
— Conhece a Ivy — disse, como quem solta uma lembrança proposital. — Ou já esqueceu o verão passado?
deu um meio sorriso, mas não rebateu de imediato. Pegou o copo, bebeu um gole de vinho e só então falou:
— Foi só um beijo.
— É, ninguém estava muito exigente naquela época — murmurou, mexendo na comida.
O silêncio se instalou por um momento. E, ao perceber o desconforto evidente na sala, tentei mudar de assunto.
— Eles vão ficar todos aqui? — perguntei, tentando soar casual.
— Sim. Tem espaço, essa casa é enorme. — respondeu, ainda sem me encarar de verdade.
— Se precisar, posso dividir o meu com a . Não me importo.
cruzou os braços, largando o garfo e começando a olhar o irmão.
— Que gentil da sua parte, mas ela já tem onde ficar.
se virou, serviu o próprio copo e o meu antes de voltar para a cadeira.
— Ainda assim, a oferta continua de pé.
— Obrigada — respondi baixo, sem saber exatamente pra qual dos dois.
pegou o garfo de novo, mas não voltou a comer. Os olhos dele ficaram fixos em algum ponto da mesa, como se digerissem algo que não tinha nada a ver com o jantar.
— De qualquer forma — retomou, ajeitando a manga da camisa —, é bom saber que vai ter casa cheia. Gosto de gente. Dá vida ao lugar.
— E barulho — rebateu, com um sorriso curto. — Você sempre detestou o caos.
deu de ombros, como se fosse um elogio. Me mexi na cadeira, desconfortável com a troca.
— Vou checar minhas coisas, então — falei, empurrando levemente o prato. — Acho que deixei minha escova no carro.
— Eu te ajudo — os dois disseram ao mesmo tempo.
Nos entreolhamos. apertou os lábios, como se já estivesse arrependido de ter falado. levantou antes, pegando as chaves do balcão.
— Eu acompanho, tá escuro lá fora.
Assenti, sem graça, e o segui até a porta. Assim que saímos, senti o ar frio da noite me envolver. caminhava ao meu lado, em silêncio, com as mãos nos bolsos da calça.
— Você não precisava vir. Eu aguento uma escova de cabelo sozinha — brinquei, tentando aliviar. Ele me olhou de lado, com aquele mesmo olhar que vinha me incomodando desde a cozinha, não porque era ruim, mas porque era diferente. Atento. Direto demais.
— Eu sei — ele respondeu. — Mas a companhia é boa.
Sorri de leve, sem saber como responder. não era exatamente sutil. Mas também não era desrespeitoso. E era esse meio-termo que ele tinha que mexia comigo, com todas as minhas estruturas e mais algumas que eu mal sabia existir..
— Você e o são bem próximos, né? — ele comentou, ao destravar o carro pra mim.
— Desde sempre — respondi, abaixando o olhar.
Ele assentiu, como quem confirma uma teoria.
— Nunca passou disso?
Virei o rosto devagar, encarei-o por um segundo mais longo do que gostaria.
— Não. Nunca passou.
— Entendi — ele disse, mas o jeito que sorriu era quase como se dissesse que não acreditava. Peguei a escova no banco de trás e fechei a porta com mais força do que pretendia. Quando voltei a encará-lo, ainda estava lá, parado, com mãos nos bolsos e expressão calma. — Bom saber.
E então, como se nada tivesse acontecido, ele virou de costas e foi em direção à casa.
A primeira a atravessar a porta foi Ivy.
O salto dela ecoou sobre o chão de madeira como um anúncio. Perfume doce e forte, vestido justo e confiança espalhada como tinta fresca por onde passava. Ela entrou como se a casa fosse dela, como se todos nós estivéssemos ali esperando por sua chegada, mas o olhar dela não percorreu o ambiente. Foi direto para .
— There you are. — disse, com aquele sorriso que mistura charme e território marcado.
estava perto da bancada, servindo vinho em dois copos, o dele e o meu. Ele pausou o movimento por um segundo antes de erguer os olhos para ela. Eu vi quando o sorriso dele surgiu, lento, contido. Polido. E ligeiramente desconfortável.
— E perder essa recepção calorosa?
Ela atravessou a sala e o abraçou com aquela familiaridade que beira o incômodo. Não foi um abraço casual, de “amigos que não se veem há tempos”. Teve dedos se demorando nas costas, teve corpo encostando demais. E eu, que nem queria ou deveria me importar, senti os segundos longos demais. A maneira como ele demorou a soltar os braços. E senti, também, o olhar de sobre mim. Ele estava parado ao meu lado, de braços cruzados, quando inclinou o rosto em minha direção, como quem sabe demais e não vai dizer nada.
— Aposta quanto que ele não dura nem dois dias? — disse, com a voz baixa e leve, mas os olhos não tinham nada de leve.
— Quem? ? — tentei parecer desinteressada, mas não soou convincente nem pra mim mesma.
— Com essa gente toda falando ao mesmo tempo, música alta, colchão no chão da sala, drama surgindo do nada… — ele balançou a cabeça. — Vai pedir arrego até domingo.
— E você quer apostar comigo mesmo sabendo que eu vou ganhar?
— Eu conto com sua compaixão — ele respondeu, e dessa vez o olhar dele foi gentil, quase cúmplice. — E com a chance de te fazer pagar uma prenda quando perder.
Eu sorri, sacudindo a cabeça, tentando ignorar o fato de que ainda estava conversando com Ivy do outro lado da sala. Os dois riam agora, e ela tocava no braço dele como quem não precisava de permissão. Acho que me incomodei porque a atenção dele, pela primeira vez no dia, não estava voltada para mim.
— Arrogante — falei para , me forçando a manter o tom descontraído.
— Realista.
Mais vozes surgiram perto da porta. Nolan e Luke entraram conversando alto, cheios de piadas internas e energia demais para esse horário. Tessa veio logo atrás, arrastando uma mala quase explodindo, e já girou no meio da sala como uma criança em um parque de diversões.
— Essa casa é insana! — ela gritou. — Sério, quem teve essa ideia foi um gênio.
— Fomos nós dois — respondeu, apontando pra ele e pra . — Mas só um aqui é um gênio.
— O outro é você? — Ivy rebateu, sem olhar pra ele.
Uma pequena faísca brilhou nos olhos de , mas ele não disse nada. Se limitou a sorrir curto, com aquele jeito de quem registra a ofensa mas não tem energia pra responder. A casa ficou cheia de risadas, malas sendo arrastadas, música já conectada na caixa de som, gente sentando no chão, gente abrindo a geladeira. E eu ali no meio, pensando por qual maré seria arrastada primeiro. Me sentei no sofá com o copo de vinho que tinha me servido. Ivy se jogou ao lado de , tão próxima que suas pernas roçavam. Ela sorria demais, falava demais. E não parecia tão incomodado, mas também não parecia inteiro. Às vezes desviava o olhar. E, uma ou duas vezes, esse olhar pousou em mim.
Rápido demais. Discreto demais.
Mas eu vi.
— Tá sentindo isso? — ele perguntou, baixinho, de novo perto demais. O calor do corpo dele contrastava com a brisa que vinha da porta aberta.
— O quê?
— O cheiro do apocalipse.
Soltei uma risada verdadeira dessa vez, e ele sorriu também, mas os olhos ainda estavam em mim. Como se perguntassem algo que ele nunca diria em voz alta.
— Vai sobreviver? — perguntei.
— Só se você prometer continuar me protegendo da Tessa falando da dieta dela e do Luke tentando me convencer a fazer yoga de manhã.
— Um herói não escolhe suas batalhas — falei, encenando.
— Mas escolhe com quem divide o quarto. E o meu sempre vai estar disponível pra você.
Meu riso morreu na garganta. Porque os meus pensamentos não se limitaram a divisão do quarto. Ao invés disso, foram direto pra cama. Com ele. Foi nesse momento que Ivy riu alto do lado de . Alto demais. Como se quisesse nos lembrar que estava ali. sorriu também, mas parecia distraído. E por um instante, mesmo com toda aquela confusão em volta, tive a certeza de que ninguém ali queria estar em outro lugar além de onde eu estava.
O que era estranho. Porque eu mesma ainda não tinha certeza se queria estar ali.
— Dois dias — repetiu, olhando pro irmão com um riso enviesado.
— Eu vou fazer ele ficar aqui a semana inteira. — respondi, mais pra mim mesma do que pra ele.
— Fechado. E quando eu ganhar… você vai ter que me deixar escolher o filme da noite.
— Isso nem é punição.
— Vai ser, quando eu escolher um documentário sobre a história da escova de dentes.
— Eu retiro minha aposta.
— Tarde demais.
A noite pareceu ter sido empurrada, acelerada por quem quer que tivesse o controle dela. Cada minuto que passava, alguém abria uma garrafa nova, aumentava o som ou ria alto demais. O sofá já estava ocupado por quatro pessoas encolhidas como sardinhas, e duas malas tinham virado apoio de copos na sala. Nolan achou o interruptor que ligava as luzes coloridas do teto, as mesmas que ninguém sabia que existiam, e agora a sala oscilava entre tons de rosa, azul e roxo, como uma boate improvisada no meio das montanhas.
— A gente devia jogar alguma coisa — Tessa sugeriu, com a voz empolgada de quem claramente já estava no segundo ou terceiro drink.
— Strip poker! — Luke gritou, e imediatamente levou uma almofadada na cabeça da Ivy.
— Você só quer isso porque vive ganhando. — ela rebateu, fazendo todos rirem.
— Que tal Eu Nunca? — Ivy sugeriu, cruzando as pernas sobre o tapete, bem na frente de . Ele estava sentado na poltrona, uma perna apoiada sobre a outra, copo de vinho na mão. E mesmo com toda a luz piscando, eu juro que vi os olhos dele me procurando quando Ivy fez a sugestão.
— Eu Nunca é jogo de criança — comentou, largado no canto do sofá, mas com um sorriso preguiçoso no rosto.
— E mesmo assim, você sempre sai mais bêbado que todo mundo — Nolan retrucou, já puxando uma garrafa de tequila pra frente.
— Vai fingir que não quer brincar? — perguntei a , levantando uma sobrancelha.
— Eu nunca disse isso — ele respondeu, sorrindo torto.
A roda se formou com um caos natural. Copos foram enchidos, travesseiros jogados pro chão, Tessa apagou algumas luzes, e em poucos minutos estávamos todos sentados em círculo, como adolescentes numa cabana sem regras. O que era um perigo.
— Regras básicas — Luke começou, erguendo o copo. — Se já fez, bebe. Se não, observa os degenerados ao seu redor.
— Perfeito — Ivy disse, piscando pra , que não reagiu. Ele só bebeu mais um gole e se ajeitou na poltrona.
— Posso começar? — Tessa perguntou, já animada. — Eu nunca beijei dois irmãos.
Um coro de “wow” ecoou, e até eu fiquei surpresa. Meu olhar foi automático pra . Depois pra . Nenhum dos dois se mexeu.
Ivy bebeu.
— Isso foi um tiro no escuro ou você sabia? — Nolan perguntou, rindo.
— Intuição feminina — Tessa respondeu, com um sorriso afiado.
— Não sei se fico preocupado ou impressionado — Luke murmurou, e todos riram.
— Sua vez, — falou, me olhando com aquele olhar leve, mas profundo ao mesmo tempo. Indecifrável. Eu demorei um segundo. Havia algo na brincadeira que me fazia sentir exposta. Talvez fosse essa a intenção, no fim das contas.
— Eu nunca me arrependi de uma escolha que fiz no último verão — falei, devagar. E nem sei dizer se perguntei aquilo porque fiquei com ciúmes da atenção que Ivy recebia ou porque eu mesma me arrependia do quase beijo com o , quando ele estava bêbado demais pra lembrar no dia seguinte.
O silêncio foi quase imediato. me encarou. desviou os olhos.
E então bebeu.
Não rápido. Mas também não devagar. Um gole firme, um olhar direto nos meus. Meu peito apertou. Talvez eu devesse ter escolhido algo mais genérico.
— Pesado — Ivy comentou, mas não riu. Talvez porque ela soubesse exatamente o que eu quis dizer. Talvez porque ela soubesse que não era sobre ela. Ou talvez porque soubesse que era.
— Minha vez — disse, voltando a encarar todos, a expressão levemente mais fechada. — Eu nunca tive ciúmes de alguém que nunca foi meu.
Silêncio. Dessa vez, mais denso.
Eu bebi. De novo. E dessa vez, também.
Os dois ao mesmo tempo. E só nós dois.
Os olhos de pousaram em mim por um segundo a mais. Não acusadores. Só doídos, eu acho. No fim, ele bebeu também.
— Alguém tem algo mais leve pra dizer ou já podemos todos nos entregar à terapia coletiva? — Nolan brincou, tentando tirar o clima tenso.
— Eu nunca dancei bêbado em cima de uma mesa — Tessa disse, rindo.
Metade do grupo bebeu. Incluindo , que apontou pra Ivy.
— Ela quase quebrou uma estante numa festa da faculdade.
— Isso é difamação! — ela respondeu, rindo, mas dessa vez não olhou pra .
O jogo seguiu por mais algumas rodadas, mas a atmosfera não era mais a mesma. Depois de um tempo, Tessa e Luke foram atrás de cobertores, Nolan sumiu na cozinha e Ivy se deitou no sofá, pegando o celular. ainda estava sentado perto de mim, ombros quase tocando os meus, os olhos meio fechados como se calculasse o próximo movimento. Senti se mexer ao meu lado. Ele se espreguiçou devagar, passando por trás da cabeça antes de se jogar de lado no sofá, com os pés ainda no chão.
— Me empresta um pedacinho aí. — A voz dele soou baixa, quase sonolenta.
— Você já tá metade aqui — respondi, rindo, enquanto deslizava um pouco pro lado.
Sem aviso, ele se ajeitou, deitando de lado atrás de mim e passando um braço em volta da minha cintura, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Fiquei tensa por um minuto. Só um. O tempo suficiente pra sentir o corpo dele encaixar no meu. Quente. Calmo. Sem pressa.
— Tá confortável? — sussurrei, sem virar o rosto.
— Mais do que deveria estar — ele respondeu e o seu queixo roçou levemente meu ombro. Rimos baixinho, e por um instante, parecia que nada lá fora existia. Só a respiração dele no meu pescoço, o calor do corpo dele contra o meu e o som abafado de vozes e passos no andar de cima.
— Lembra daquela vez na praia, quando você me empurrou na fogueira? — ele perguntou, de repente.
Soltei uma risada abafada, tentando não chamar a atenção de ninguém.
— Não te empurrei na fogueira. Te empurrei perto da fogueira. Detalhes importantes.
— Minhas sobrancelhas não acham que foi só “perto”.
— Você ficou semanas me chamando de incendiária — murmurei, rindo, me virando só o suficiente pra ver o canto da boca dele curvar.
— Porque foi divertido fazer você tentar se desculpar. Você sempre fica meio atrapalhada quando se sente culpada.
— Eu não fico atrapalhada — rebati, mas minha voz falhou no final.
Ele riu baixinho, puxando-me levemente para mais perto.
— Tá vendo? — ele sussurrou. — Ficou agora.
Fiquei quieta por um momento, absorvendo aquilo. O jeito como ele me conhecia. As pequenas provocações. A forma como, mesmo sem dizer nada, ele fazia com que eu me sentisse tão segura.
— Não pensei que você fosse ser o primeiro a desabar no sofá — falei, tentando mudar de assunto.
— E perder a chance de dormir perto de você? — ele disse sem pensar. E quando notou, se calou por um instante. — É o lugar mais quentinho da casa.
Virei o rosto devagar, e nossos olhos se encontraram. Ficamos em silêncio por mais algum tempo, até que seu rosto mexeu de um lado para o outro em meu ombro, arranhando levemente e cheirando o meu cabelo.
— Você vai ficar com ele?
A pergunta escapou dele como um sussurro entre a respiração quente contra meu pescoço. Tão baixa que, por um momento, pensei ter imaginado. Mas o aperto sutil da mão dele na minha cintura confirmou: ele disse. E queria saber a resposta. Minha garganta secou. Fiquei imóvel, sentindo o corpo dele colado ao meu, o peito subindo devagar nas minhas costas, como se ele tivesse prendido o fôlego junto comigo.
— Eu não sei. — Murmurei, de forma simples. era bonito e claramente estava flertando comigo. Era uma possibilidade, de certa forma. E eu tinha essa regra tola de nunca mentir para o . — Eu nem sei se ele quer.
— Ele quer. — disse, rápido demais. Fiquei em silêncio, tentando entender se aquilo era só sobre o ou se era sobre mim também.
— Isso é sobre você ou sobre ele? — perguntei, ainda sem olhar pra trás.
respirou fundo. A mão dele ainda estava na minha cintura, mas agora os dedos traçavam um padrão leve, distraído, como se o toque o ajudasse a pensar.
— Eu não sou bom nisso. — Ele deu uma risadinha seca.
Não respondi. Não porque não havia o que dizer, mas porque qualquer coisa que eu dissesse naquele momento pareceria menor do que aquilo que eu estava sentindo. Mesmo não falando nada senti que, talvez, ele soubesse. Porque me puxou mais, até que meu corpo estivesse colado ao dele, até que nossas pernas estivessem entrelaçadas no sofá estreito, até que o queixo dele estivesse apoiado de leve na minha cabeça. Nenhuma outra palavra foi dita. nunca implorava. Nunca pedia. Ele só deixava as portas entreabertas e esperava que eu escolhesse entrar.
E mesmo com tudo acontecendo à volta, o único lugar onde eu queria estar era exatamente onde estava. Entre os braços de quem nunca me disse com todas as letras, mas sempre deixou claro. Que, se eu quisesse, ele seria meu lar.
— Não fica com ele. — Meus olhos se abriram devagar, mas não me virei. Não precisei. A dor estava toda na voz dele. — Por favor — ele continuou. — Não ele.
Me virei levemente, só o suficiente pra que meu rosto quase encostasse no dele. E naquele breve espaço entre a nossa pele, onde a respiração dele ainda tocava minha boca, onde os olhos dele ainda não conseguiam me encarar de verdade, tive vontade de dizer que não faria isso. Que não ficaria com . Que não queria complicar as coisas. Mas não disse.
— Não é justo me pedir isso.
E realmente não era. E era isso que doía mais.
Porque ele não estava pedindo pra ficar comigo.
Estava pedindo pra não perder.
— É, eu sei. Só... não deixa ele bagunçar você demais, tá? — ele pediu, como quem fala com cuidado demais pra não assustar. — Já tem bagunça suficiente aqui.
Subi as escadas devagar, tentando não pensar demais. Quando empurrei a porta do quarto, a luz suave do corredor se espalhou até metade do ambiente. estava deitado na cama, uma das mãos atrás da cabeça, o peito nu se movendo num ritmo calmo, calmo demais pra alguém que eu sabia estar remoendo alguma coisa. Fiquei parada ali por um segundo. E, por um instante, só observei. Depois, com a ousadia que só a intimidade traz, subi na cama e me deitei em cima dele, encaixando meu corpo ao dele como se fosse algo automático.
— Tá tudo bem entre a gente? — perguntei, num sussurro, com o queixo apoiado no peito dele. Ele não respondeu de imediato. Ficou olhando o teto, como se pesasse as palavras. Quando finalmente falou, sua voz soou baixa e embargada.
— Você sabe como foi o último relacionamento do , né?
Ergui os olhos, surpresa com o quão direto ele tinha sido, no entanto, era o . É claro que ele seria direto demais.
— Só sei que foi complicado.
riu sem humor.
— Complicado é pouco. Foi um relacionamento merda. Tóxico. Ela era ciumenta, manipuladora, fazia drama por tudo. E mesmo assim, ele sempre voltava. Sempre. Porque ela sabia exatamente onde apertar. Ela liga pra ele quase toda noite, manda mensagem e, às vezes, aparece chorando na porta do apartamento dele, como se ele devesse algo pra ela.
— E ele ainda está com ela?
— Não. Ele tenta fugir — disse rápido. — Mas o tem esse lado de querer salvar todo mundo. Especialmente quem quebra ele primeiro.
Ficamos em silêncio por alguns instantes, e eu absorvi aquilo. passou a mão pelas minhas costas devagar, leve, quase distraído, mas eu senti o peso na respiração dele.
— Só me promete uma coisa — ele disse de repente.
Levantei a cabeça, surpresa com a mudança de tom.
— O quê?
Ele virou o rosto na minha direção e, quando me encarou, os olhos estavam mais escuros, mais sérios do que eu lembrava.
— Se você for ficar com ele… me dá um tempo. Umas semanas. Só pra digerir. — A voz dele falhou no final. — Pra aceitar.
— …
— É só um pedido. Não tô te pedindo pra não fazer. Só... não joga isso em cima de mim sem me deixar respirar, tá?
Meu peito apertou, porque eu conhecia . Tão bem como me conhecia, eram dez anos de amizade, dez anos que me faziam sentir dor física. Porque ele não estava fazendo drama. Ele só estava tentando não desmoronar.
— Prometo — sussurrei.
Ele assentiu, fechando os olhos por um momento. Eu deitei minha cabeça contra o peito dele, ouvindo o coração bater mais rápido do que eu esperava. O braço dele envolveu minha cintura devagar.
— Obrigado por ainda dormir aqui. — ele disse, depois de um tempo.
— Eu não conseguiria dormir com ninguém além de você.
E era verdade.
Mesmo com tudo fora de lugar, ele ainda era o único lugar que parecia casa. Ficamos assim por um tempo. Nenhum de nós falou mais nada, mas a ausência de palavras não era incômoda, na verdade ela era quase necessária. Como se qualquer frase dita pudesse quebrar o que quer que fosse aquilo que a gente ainda não sabia nomear. O peito dele subia e descia sob minha bochecha, e vez ou outra, o braço ao redor da minha cintura apertava de leve, como se ele precisasse confirmar que eu ainda estava ali.
E eu estava.
Mesmo sem saber o que significava.
Mesmo sabendo o quanto tudo era complicado.
Eu estava.
Meus dedos traçaram devagar a linha de uma das tatuagens no braço dele, tentando ocupar o silêncio com algo que não fosse só pensamento, no entanto, era inútil. Porque pensar em era automático. E dolorosamente fácil. Por que doía tanto estar perto dele, mesmo quando era exatamente onde eu queria estar?
Ele virou o rosto na minha direção, o nariz tocando meu cabelo. Seu suspiro foi longo, quente contra minha pele.
— Você tem um jeito único de chegar nas coisas devagar, mas quando vê, já bagunçou tudo — ele murmurou, quase sem som. — E mesmo assim, eu não consigo querer você longe.
Fechei os olhos, tentando impedir que aquilo me afetasse mais do que já afetava.
— A gente é complicado — sussurrei. — Alguns dias mais do que outros.
— Hoje é um dos piores — ele respondeu com um sorriso pequeno, melancólico, e deslizou os dedos pela curva do meu quadril com cuidado.
— Mas mesmo assim — pausei, deixando o fim da frase suspenso no ar. Mesmo assim eu estava ali. Mesmo assim ele não me afastava e eu muito menos. Mesmo assim a gente continuava se encontrando nos espaços onde não podia e talvez não devia.
— Fica mais um pouco? — ele pediu, quase adormecido.
— Não vou a lugar nenhum — respondi.
Eu já estava quase dormindo quando senti o toque dos dedos dele subirem devagar pela minha costela. Era leve, como se ele não tivesse certeza se queria fazer aquilo. Mas ele fez. E eu não impedi.
— Você ainda tá acordada? — a voz dele veio rouca, mais arrastada. Baixa demais, quase um sussurro bêbado.
Assenti com a cabeça, roçando o queixo contra o peito dele. Senti ele rir, baixinho.
— Eu bebi demais — ele admitiu, com um tom que parecia meio culpado, meio despreocupado.
— Percebi — murmurei, virando um pouco o rosto para encará-lo. Nossos narizes quase se tocaram. Os olhos dele estavam meio fechados, vermelhos nas bordas, e o sorriso que surgiu foi um dos mais desajeitados e lindos que eu já tinha visto ele dar.
— Acho que se eu fosse mais sóbrio, teria mais noção do quanto isso aqui é confuso — ele disse, piscando devagar.
— E teria mais medo de fazer alguma besteira?
— É — ele riu.
Antes que eu pudesse responder, ele se inclinou um pouco. O movimento foi torto, desajeitado. O tipo de coisa que só acontece quando tem intimidade demais e limites de menos. A boca dele encostou na minha. Não foi um beijo de filme. Não foi perfeito. Foi um quase. Um deslize. Um impulso. Foi algo no meio entre o que devíamos evitar e o que não conseguíamos impedir. me virou com cuidado, me colocando por baixo com uma precisão embriagada e afobada, como se quisesse me ter mais perto do que o corpo permitia. A boca dele explorava a minha com uma intensidade que só vinha de quem esperou demais, segurou demais, desejou demais. As mãos subiram pelas minhas coxas, puxando minha perna para enrolar em sua cintura, os dedos pressionaram a pele nua sob minha camiseta como se tentasse gravar o toque. Como se precisasse daquilo pra continuar respirando.
Eu deixei.
Porque eu também precisava.
Minhas mãos estavam no cabelo dele, puxando, guiando, segurando. Meus quadris respondiam ao dele como se nunca tivessem aprendido outra coisa. E tudo era quente, intenso, urgente demais. Um amasso suado, torto, descompassado e cheio de sentimento. Daquele tipo que não se fala em voz alta.
Por um momento, esqueci de tudo.
Era só ele.
Era só a gente.
Até que parou. De repente. Com os lábios ainda colados nos meus, ele soltou um suspiro pesado. Um daqueles que vem do fundo do peito, cheio de arrependimento e lucidez atrasada. Os dedos dele subiram devagar pela barra da minha blusa, como se pedissem permissão e desculpa ao mesmo tempo. Eu podia ter afastado a mão dele. Mas não afastei. Pelo contrário, eu apenas prendi a respiração. O toque deslizou pela pele nua da minha barriga, subindo devagar, como se ele precisasse memorizar cada centímetro. A ponta dos dedos desenhou minha cintura, passou por baixo do sutiã, devagar. E mesmo que ele não dissesse uma palavra, o corpo dele falava alto.
“Me deixa.”
“Só hoje.”
“Só mais um pouco.”
Os olhos dele me encontraram no escuro. Quando nossos rostos ficaram perto demais, foi impossível evitar. se moveu por cima de mim, com o corpo inteiro pressionando o meu, como se quisesse se esconder em mim. A mão dele subiu ainda mais, tirando minha blusa com um puxão hesitante, os lábios descendo pro meu pescoço, escorregaram até o meu ombro, e passearam por minha clavícula. Ele me beijava como quem pedia perdão antes mesmo de errar. Como quem sabia que aquilo era errado, mas não conseguia parar.
E eu só queria que ele não parasse.
Minhas mãos agarraram suas costas, as unhas pressionaram a pele quente. Senti o quadril dele encaixar no meu e consegui sentir ele duro. Os movimentos se tornaram mais desesperados. Ele me beijava com força agora, arfando contra minha pele. A mão dele desceu pela minha coxa, puxando, abrindo espaço entre minhas pernas. Eu deixei. Não porque não tinha escolha, mas porque ele era a escolha.
Ele encostou a testa na minha, ofegante, com os lábios ainda colados aos meus e a voz falhando:
— Você tem noção de como me bagunça? — ele perguntou, quase num sussurro. — Do jeito mais quieto, mais seu, mais filha da puta possível? — Fechei os olhos por um segundo. Queria ter algo pra dizer. Alguma coisa que fizesse sentido. Quando abri os olhos de novo, ele já estava perto demais. E mesmo assim, ainda assim, não perto o suficiente.
As palavras dele bateram em mim como uma onda silenciosa. Eu não soube o que dizer. Porque ele estava certo. Porque ele estava errado. Porque ele era tudo que eu queria e tudo que eu não podia ter ao mesmo tempo. Ele deitou de novo, me puxando pra junto dele, como se aquilo pudesse salvar o que ainda restava da gente. A conchinha voltou. O calor voltou. As mãos dele foram parar no meu cabelo, acariciando devagar. Como se ainda fosse possível amar com delicadeza mesmo depois de quase perder o controle.
— Desculpa — ele murmurou, mas não se afastou.
— Por quê?
— Porque amanhã talvez eu diga que não lembro. Ou talvez eu finja que não aconteceu.
Fechei os olhos por um segundo, deixando a testa encostar na dele.
— Tá tudo bem — sussurrei. — A gente já finge tanta coisa mesmo.
Ficamos assim, respirando o mesmo ar, sem mais nenhum movimento. Sem outro beijo. Sem promessas. Só a bagunça entre a gente pulsando sob a pele. E, ainda assim, quando ele me puxou de volta pra conchinha, como se nada tivesse acontecido, como se tudo tivesse acontecido, eu deixei.
Porque com , era sempre assim.
Complicado.
Confuso.
Perfeito.
Meus olhos arderam, mas eu não chorei. Não naquela noite. Não enquanto ele ainda me abraçava daquele jeito. Então só puxei a mão dele pra perto da minha boca e deixei um beijo ali, na palma quente, como quem diz “eu entendo” sem precisar dizer nada. Porque no fundo, ele já sabia. Ele sempre soube. Aquela noite não foi só um deslize. Nem só tesão. Nem só carência. Foi tudo. Foi amor e confusão e medo e saudade e promessa não dita. E quando, enfim, o sono chegou, eu só desejei uma coisa: Que ele não esquecesse. Mesmo que dissesse que esqueceu. Mesmo que fingisse que não aconteceu.
Acordei com a respiração dele ainda na curva do meu pescoço.
não tinha se mexido. O braço ao redor da minha cintura permanecia firme, como se o corpo dele ainda soubesse que eu estava ali. Como se dormir comigo nos braços fosse um hábito antigo que ele ainda lembrava como fazer. Me mexi de leve, tentando ver o rosto dele. Os cílios bagunçados no rosto calmo, a pele quente encostada na minha, a camiseta que ele não vestiu de volta na noite anterior. Tudo nele parecia confortável. Familiar. Quase inevitável.
E ainda assim, silenciosamente complicado.
— Você tá acordada, né? — ele murmurou, a voz rouca e baixa, bem perto da minha orelha.
— Faz um tempo — confessei, sorrindo.
Ele suspirou, mas não se mexeu. Só apertou o braço ao redor de mim como se quisesse prender aquele instante um pouco mais.
— A gente precisa conversar sobre ontem?
— Não sei — respondi com sinceridade. — Você quer?
— Não — ele disse rápido demais.
Assenti, sem dizer nada. Ele encostou a testa na minha cabeça, e ficamos assim. O silêncio, pela primeira vez em muito tempo, não era fuga. Era cuidado. O clima entre a gente estava diferente. Não só por causa dos toques, mas acho que era pelo que a gente não dizia também. Por aquilo que passou sem legenda entre um beijo, uma respiração descompassada e um quase que não virou mais.
— , você viu meu... — Ash parou.
Meu coração disparou.
ainda estava colado em mim. Deitado. Camisa nenhuma. Meu cabelo uma bagunça em cima do travesseiro dele, a minha blusa amassada de um jeito nada sutil. Ash piscou duas vezes, depois olhou entre nós dois com a expressão de quem entrou numa história pela metade e percebeu que talvez não quisesse o resto.
— Uau... foi mal. Eu... — ele engasgou. — Eu devia ter batido.
se afastou rápido, mas não demais. Sentou na cama, coçando a nuca com cara de sono e sem saber exatamente onde enfiar o rosto.
— Não é o que você tá pensando — ele disse, direto.
Ash ergueu uma sobrancelha, desacreditado.
— Ah, claro. Porque dormir abraçado com a garota que você vive dizendo que é "só amiga", sem camisa e num quarto trancado... super normal.
— A gente é normal — retrucou, tentando soar mais convicto do que realmente estava. — A gente só tava conversando ontem. E bebemos demais. E... — ele olhou pra mim, pedindo ajuda com o olhar.
Eu dei de ombros, meio rindo, meio constrangida. Ash não respondeu de imediato. Só observou os dois por mais alguns segundos, como quem queria fazer mais perguntas, mas sabia que não devia.
— Tá. É com vocês. Mas, sei lá... parece que vocês tão sempre a meio passo de um desastre ou de um casamento. Nunca sei.
— Que ótimo. Valeu, irmão — bufou, jogando um travesseiro nele.
Ash pegou no ar com facilidade, rindo e recuando até a porta.
— Vê se veste uma camisa antes do café. Senão vai traumatizar geral.
Quando a porta fechou, se jogou de costas de novo na cama, os olhos fixos no teto.
— Ele sempre entra assim, né?
— Sempre — respondi, sorrindo. — Mas normalmente você não tá semi nu e grudado em mim.
— Verdade.
foi o primeiro a levantar de verdade. Jogou as pernas para fora da cama e ficou um tempo ali, sentado na beirada, com as mãos apoiadas nos joelhos, como se estivesse se perguntando em que mundo tinha acordado.
— Banho — ele anunciou, mais pra si do que pra mim. — Preciso de um banho gelado e uns tapas na cara.
— Vai com calma, lutador — brinquei, ainda deitada.
Ele virou de leve o rosto pra mim e sorriu, mas ele ainda tentava evitar de me encara por mais que cinco segundos. Ele pegou uma toalha pendurada atrás da porta e sumiu no banheiro. O som da água logo invadiu o quarto, e eu aproveitei pra me levantar e esticar os braços, sentindo os músculos tensos de uma noite dormindo meio torta. Quando ele saiu, o cabelo ainda pingava e a toalha estava jogada displicentemente no ombro, não ousou me olhar direito. Tinha vestido uma camiseta qualquer e uma bermuda larga, mas parecia um pouco mais no lugar. Ainda era .
— Sua vez — ele disse, apontando o banheiro com o queixo. Assenti, pegando minhas coisas, tentando parecer mais leve do que realmente estava. — E não vale gastar toda a água quente — ele acrescentou, num tom mais brincalhão.
— Como se você tivesse deixado alguma, né?
Fechei a porta atrás de mim com um sorriso que durou apenas até eu me encarar no espelho. Meus olhos ainda carregavam traços da madrugada, não de cansaço, mas daquela confusão entre querer e não poder, entre ter e não saber o que fazer com isso. Tomei um banho rápido, mais pra me centrar do que pra me limpar. A água morna ajudou a organizar os pensamentos, ou pelo menos jogá-los num canto onde eu pudesse lidar com eles depois.
Quando saí, estava mexendo no celular, recostado na parede do quarto. Assim que me viu, guardou o aparelho no bolso e fez um gesto com a cabeça em direção à porta.
— Café?
— Por favor — respondi.
Descemos em silêncio, lado a lado. Não havia mais beijos, nem toques fora de lugar, mas ainda existia a tensão que exalava. Na cozinha, Ash já estava servindo café como se nada tivesse acontecido, ou como se estivesse fingindo muito bem que não tinha acontecido.
— Dormiram bem? — ele perguntou, com uma cara de inocência tão falsa que deu vontade de rir.
— Como duas pedras — respondeu, sentando à mesa.
Eu segui o movimento dele, pegando uma caneca.
— A melhor noite de sono desde que cheguei aqui. E olha que eu cheguei ontem mesmo. — completei, tentando parecer natural.
Ash nos observou por um segundo a mais do que o necessário. Depois só balançou a cabeça, rindo meio curioso, e serviu mais café pra si mesmo.
— Sei. — rolou os olhos.
— A gente só ficou conversando.
Ash ergueu as mãos.
— Tá bom, tá bom. Sem julgamentos. Só... não se percam, tá?
Ele saiu logo depois, levando a caneca e um pão na mão, deixando a cozinha num silêncio que, dessa vez, parecia mais confortável. Eu e trocamos um olhar breve, cúmplice. Tinha coisa demais entre a gente, mas ao mesmo tempo, ainda havia essa coisa bonita que nos unia mesmo no caos: o cuidado. Ele me estendeu o pote de geleia, e quando nossas mãos se tocaram por um segundo, eu senti aquele desespero da noite anterior. Aquele toque que queima, que pede, que exige.
Ainda estávamos terminando o café quando ouvimos os passos na escada. Vozes abafadas foram se aproximando até a cozinha começar a ganhar vida de novo.
— Bom dia, solzinhos da minha vida! — Ivy apareceu primeiro, cheia de energia e um moletom dois números maior do que ela, provavelmente roubado de algum dos meninos. Seu olhar pousou rápido sobre mim e , ainda sentados lado a lado, e deu pra ver o arqueamento sutil de sobrancelhas antes dela disfarçar com um sorriso.
— Dormiram bem? — ela perguntou, puxando uma cadeira e se sentando com a naturalidade de quem já estava pronta pra examinar o clima. Antes que eu respondesse, a porta rangeu de novo e apareceu. Diferente de Ivy, ele entrou com um silêncio estudado. O cabelo bagunçado denunciava o sono recente, e o moletom cinza claro parecia recém-jogado sobre o corpo, e seus olhos funcionaram como espécie de scanner, avaliando toda a cozinha e, por fim, parando em mim. Foi rápido, mas deu pra sentir. Ele me olhou como quem estava tentando entender um código escondido. Como se tentasse descobrir que versão de mim mesma tinha acordado naquela manhã.
— Bom dia — ele disse, com a voz rouca, arrastada, como se ainda estivesse preso na cama.
— Bom dia — respondi, e meu tom saiu um pouco mais firme do que eu esperava. serviu uma caneca de café, apoiando o quadril na pia enquanto observava a cena à mesa. estava mais quieto agora, e mesmo sem me tocar, ainda parecia próximo demais.
— Parece que a galera dormiu bem demais por aqui — comentou com um sorriso torto. Ivy, percebendo a tensão ou talvez só querendo brincar com fogo, se levantou e foi até ele. Parou ao lado de , com as mãos deslizando levemente no braço dele.
— E você? Dormiu sozinho de novo? — ela provocou, com um sorriso afiado. não afastou ela de imediato, mas também não correspondeu. Ficou em silêncio por um segundo, e então olhou pra mim de novo, por cima do ombro de Ivy.
— Acordar com café quente já melhora qualquer coisa. — ele disse, ignorando a pergunta dela completamente, e se dirigiu direto a mim. — Você que fez?
— Na verdade, foi o Ash. — respondi, tentando não demonstrar o quanto a atenção dele me afetava. sorriu. Ivy bufou, num gesto teatral.
— Ok, então agora viraram o casal "amizade colorida" da casa? — ela zombou, claramente incomodada. ergueu uma sobrancelha e, com uma calma que só ele sabia usar como escudo, respondeu:
— É só amizade. Colorida talvez.
Aquilo foi o suficiente pra Ivy desviar a atenção, mordendo o lábio inferior e voltando pro lugar dela com um olhar de poucos amigos. terminou o café dele devagar, ainda encostado na pia, mas sem tirar os olhos de mim. E pela primeira vez, percebi que ele não estava só curioso. Ele estava esperando. Talvez por um sinal. Talvez por uma brecha. Talvez por mim. O olhar de veio direto pra mim. Ele não riu. Só me observou. Como se estivesse tentando entender se aquilo era verdade. Se havia algo real ali entre mim e . E, por um segundo, eu também não soube. Virei o rosto na direção de , esperando alguma expressão que suavizasse o que ele acabara de dizer, mas tudo o que encontrei foi ele abaixando o olhar, e repuxando a boca num sorriso incômodo.
— Tô brincando, tá? — disse ele, meio rápido demais, meio emburrado. — A gente não tem isso. Nunca teve. Nem vai ter.
Aquilo bateu diferente. Como uma porta fechando devagar, mas com força suficiente pra ecoar por dentro. Dei um sorriso amarelo, tentando manter o ar leve, tentando ignorar o aperto em peito nada suave. Porque doeu. Porque por mais que eu soubesse que era confuso, parte de mim sempre quis acreditar que talvez fosse diferente. Talvez ele sentisse o mesmo. Mas ali, naquele instante, na frente de todo mundo, ele apagou qualquer rastro disso. Como se não tivesse havido beijos, nem mãos por baixo da minha blusa, nem sussurros no escuro.
— Relaxa — falei, pegando meu copo e tentando disfarçar o nó na garganta. — Ninguém aqui tá saindo de lugar nenhum.
— Exato — completou, quase defensivo. — Somos só amigos.
O silêncio que se seguiu foi curto, mas cortante. Do tipo que não precisava de muito tempo pra deixar marcas. E mesmo que todo mundo tenha continuado como se nada tivesse acontecido, eu sabia que algo tinha mudado.
Em mim.
Nele.
Na gente.
Ficamos todos ali por alguns minutos, fingindo normalidade. Ivy contava algo sobre o novo livro que estava lendo, Ash ria com a boca cheia e manteve os olhos em mim por tempo demais pra ser apenas coincidência. Mas eu não conseguia focar em nada. Nem nas palavras, nem nos talheres, nem no cheiro de café recém-passado. Só no gosto amargo das palavras do Ryan.
“Nunca teve. Nem vai ter.”
Como se não fosse ele quem me puxou pra conchinha ontem. Como se não fosse ele quem falou com os dedos no meu quadril, o que a boca não teve coragem. Como se não fosse ele quem me olhava como se eu fosse a bagunça favorita dele. Levantei da cadeira, empurrando o copo meio cheio pra longe.
— Vou pegar mais café — murmurei, sem encarar ninguém.
Senti os olhos dele em mim antes mesmo de sair da cozinha. Com a cafeteira borbulhando baixinho, respirei fundo.
Só amigos.
Só amigos.
Só.
Amigos.
O problema era que não tinha mais nada de simples nessa equação. Não depois da noite passada. Não depois dos olhares. Não depois da forma como me apertou contra ele como se fosse a última coisa no mundo que ele queria perder. Ou talvez fosse exatamente isso: ele não queria me perder. Mas também não queria me ter.
— Ei — apareceu na porta da cozinha, recostado na lateral como se não tivesse sido por acaso. — Você tá bem?
Assenti com a cabeça, tentando sorrir. Ele não comprou.
— fala merda às vezes — ele disse, direto. — Ele é um ótimo cara, mas não sabe lidar com as próprias emoções. Nunca soube.
— Não é sobre isso — menti.
Ele cruzou os braços, analisando meu rosto.
— Então é sobre o quê?
Suspirei.
— É complicado.
— Já percebi — ele sorriu de canto. — Só queria que você soubesse que se ele não souber o que fazer com você, tem quem saiba.
Me virei devagar, encostando na pia. Os olhos de estavam em mim, firmes, claros.
— Isso é um convite? — provoquei, sem malícia real.
— É um lembrete — ele respondeu, com um meio sorriso. — De que você merece alguém que saiba decidir.
Antes que eu pudesse reagir, Ivy gritou da sala que o café já tava esfriando.
riu, baixando os olhos.
— E você e a Ivy? Tem que ser bem cego pra não ver que ela está muito na sua.
— A gente se beijou no verão passado, nada demais, foi só um beijo e uma mão que desceu mais do que deveria. Não sei o que ela quer comigo, na real. Não é ela que eu quero.
ficou em silêncio por alguns segundos depois de dizer aquilo, como se estivesse medindo minhas reações, esperando que eu dissesse algo, qualquer coisa, que apontasse que eu tinha entendido exatamente o que ele queria dizer com aquele “não é ela que eu quero”. E eu tinha entendido, a essa altura todos pareciam ter entendido. Ele passou a mão pelos cabelos, bagunçando ainda mais o que já parecia desordenado.
— Ivy é legal. Divertida, direta e linda, claro — ele falou, olhando pro lado, como se estivesse tentando ser justo. — Mas ela sempre age como se tudo fosse uma competição. Como se cada pessoa que entra aqui fosse mais um placar a ser vencido.
Mordi o canto da boca, observando enquanto ele pegava uma caneca e servia café pra si mesmo.
— Você acha que ela sente algo por você? De verdade?
Ele deu de ombros, levando a caneca até os lábios.
— Sinto que ela gosta da ideia de mim. De ser “a garota” que conseguiu o . Mas não sei se ela realmente se importa comigo além disso. — E então ele me olhou de novo. — Não como eu gostaria que alguém se importasse. — O silêncio pairou entre nós por alguns segundos. — Às vezes acho que ela acha que isso aqui é um jogo — ele continuou, mais calmo. — Mas eu tô cansado de jogos, acho que bati toda a minha cota com a Maya. A vida já bagunça a gente o suficiente sem precisar de mais drama.
— Posso perguntar? — murmurei. — Como foi, com você e a Maya?
Ele respirou fundo, vagando os olhos para algum ponto além de mim, como se estivesse rebobinando uma fita antiga na cabeça. A expressão dele mudou de leve e ficou mais dura. Mais contida.
— Foi bonito, mas destrutivo até o último segundo. — A voz dele saiu baixa e ele cruzou os braços devagar, como quem se protege do próprio passado. — A Maya me fazia perder o chão. Ela tinha esse jeito intenso, urgente. Fazia parecer que cada momento era o último, que se não doesse, não era real. E eu achava que aquilo era paixão. Que era assim que tinha que ser. Talvez fosse paixão mesmo, sei lá, mas era a pior versão dela. E a pior versão de mim. A gente se amava, sim… mas se destruía no processo. Tinha noites que eu dormia com o coração acelerado, mesmo sem brigar. Como se meu corpo tivesse aprendido que com ela, até o silêncio vinha armado. — Ele fez uma pausa longa, olhando pra frente, mas não o interrompi. — Acho que o pior era eu achar que aquilo era o amor de verdade. Amor de filme. Achei que intensidade era sinal de profundidade. Achei que aquela coisa de “não viver um sem o outro” era romântica. — Ele riu, sem humor. — Só que não era. Era só falta de paz e um medo absurdo de ficar sozinho. Com ela eu virei alguém que andava na ponta dos pés. O tempo inteiro. Tinha que medir cada palavra, cada gesto. Qualquer coisa podia virar faísca. — Ele passou uma das mãos no cabelo, frustrado. — Teve uma hora que nem eu sabia mais se era amor ou só vício. A gente brigava, se afastava, voltava. Um ciclo. E quando tava bom era só porque a próxima tempestade ainda não tinha chegado.
— … — chamei, baixinho, mas ele balançou a cabeça.
— Eu tô bem. — Ele sorriu com canto dos lábios, mas foi um sorriso triste. — Hoje eu olho pra trás e entendo. Entendo que amar alguém não devia ser sobreviver a ela. Que amar não é doer. Não o tempo inteiro. — Ele me olhou de novo, com mais calma agora. — E eu não quero mais isso. Cansei de intensidade que vem junto com exaustão. Quero sossego. Paz. Quero alguém que me abrace e eu não fique esperando o empurrão logo depois. — E por um segundo enquanto eu falava, eu juro, o mundo parou. Porque eu entendi o que ele estava dizendo, mesmo nas entrelinhas. Mesmo sem dizer diretamente. Era sobre mim. — Se um dia você cansar de esperar por quem não sabe o que fazer com você — ele disse, com um sorriso leve e triste — Tente olhar para os lados.
Meu coração deu um pulo desconfortável no peito.
— Você não devia falar essas coisas.
— Talvez não, mas eu falei. E não vou fingir que não disse isso. O irmão que diz e finge que não disse é o outro.
Acordei com o barulho de gelo caindo dentro de um copo e esse não foi exatamente a forma mais poética de começar o dia, não quando sua promessa de descanso foi praia, sol, bebidas e paz. Do lado de fora, o sol já queimava com a intensidade de alguém que não sabe a hora de parar, e o cheiro de café misturado com protetor solar formava um combo bizarro que, por algum motivo, me dava vontade de rir.
— Se alguém disser que estou exagerando mais uma vez, vou jogar essa garrafa de vodka no mar — anunciou Luke da varanda, segurando a garrafa como se fosse um troféu olímpico. — E não vou olhar pra trás.
— Por que foi mesmo que eu decidi vir nessa viagem com vocês? Às vezes me pergunto o meu nível de sanidade mental. — murmurei, arrastando meus pés até a cozinha, onde Ivy já montava um altar pagão de frutas cortadas e croissants amassados.
— Acordou inspirada em Hemingway? — ela me lançou um sorriso com a boca cheia.
— Sempre. Mas prefiro Bukowski antes do café.
passou por mim, do jeito bem de ser, o jeito de quem não tem pressa pra nada, vestindo só uma bermuda e o sorriso preguiçoso que usava como armadura. Ele encostou no balcão e pegou uma xícara. Eu deveria desviar os meus olhos agora e evitar o climão que se formaria se eu olhasse demais, mas era enorme. Tão enorme que eu não conseguia desviar os olhos porque, em qualquer lugar que olhasse, veria ele ali. Acho que era a isso que os memes de 'geladeira electrolux três portas' se referiam. A um homem lindo, alto, forte e com seis gominhos na barriga.
— Você dorme igual pedra — comentou. — Ivy e Luke já discutiram duas vezes e você não se mexeu.
— A paz é um dom dos justos — respondi, tomando um gole do meu café.
— Ou um sintoma de exaustão emocional. Acho que vou começar a acreditar quando diz que você precisa de descanso, . — ele rebateu, e eu levantei uma sobrancelha.
Ele era rápido. E perigoso quando queria ser engraçado. E ainda mais perigoso quando usava meu sobrenome com aquela voz rouca. Minutos depois, todos estavam acordados, meio vestidos, meio vivos. Tessa apareceu com um short jeans ridiculamente pequeno e Nolan, ainda de óculos escuros, mesmo dentro de casa.
— Por que ele parece um cantor sertanejo depois da rehab? — sussurrei pra Ivy, que só respondeu “Deixa ele viver o luto do orgulho”. Não sei a que orgulho ela se referia, já que Nolan tinha bem pouco no dia a dia.
No fim, decidimos ir pra praia porque, sinceramente, ninguém queria pensar muito e a ideia de estar molhado, bronzeado e levemente alcoolizado parecia equilibrada o suficiente pra não dar em tragédia. Luke carregava a caixa térmica como se fosse um recém-nascido. caminhava ao meu lado me dando choque a cada vez que os dedos dele quase roçavam os meus e, sinceramente, o “quase” dele era sempre mais perigoso que qualquer toque direto. Já estava um pouco mais à frente, conversando com Ash, mas olhava pra trás com frequência, como se conferisse se eu ainda estava lá.
Spoiler: eu estava.
Nos instalamos num canto da areia, entre um coqueiro inclinado e um grupo de franceses bonitos demais pra estarem tão felizes antes do meio-dia. Ivy jogou uma canga com a violência de quem estava prestes a desmaiar de calor.
— Alguém precisa fazer um TED Talk sobre a inutilidade de passar protetor nas costas sozinha — ela anunciou, apontando para Nolan, que prontamente se ofereceu.
— Eu passo — ele disse. — Sou basicamente um dermatologista nos fins de semana.
— Você vende maconha de quarta a domingo, Nolan.
— Exatamente. Vejo muita gente, então eu conheço pele.
Rimos. O tipo de riso que sai fácil entre amigos, aquele que ri da fala incoerente de Nolan e ainda assim sente o dia passar mais devagar. abriu duas latinhas e me ofereceu uma, sem cerimônia.
— Ao verão. À irresponsabilidade temporária. À beleza do tédio — ele brindou.
— E à falta de boletos por uma semana. — completei, batendo minha latinha na dele.
se aproximou e, do nada, se jogou na areia ao meu lado. Só de bermuda, com a pele dourada e o cabelo completamente bagunçado. Era quase irritante como ele conseguia parecer uma pintura italiana do século XXI, versão "peguei onda e agora quero te provocar só com o olhar". Ele se aproximou de mim, colocando o rosto quase dentro dos meus seios e me deu um beijo curto no queixo. Um dos beijos de ser, um dos beijos que me desestruturar e me fazia tremer, enquanto eu fingia que não.
— Você está bem? Não gosto quando você fica longe.
— Eu não estou longe. — Respondi, beijando a pontinha do nariz dele, mas não sei se eu acreditei nisso. Depois do nosso beijo eu estava distante. Eu não era e não conseguia ser como a Ivy, Sarah ou Tessa. Eu não sei beijar e ignorar o fato que beijei. Ou talvez eu não saiba fazer isso com o porque eu até ignoro o beijo, mas como eu ignoro o sentimento que se forma nas minhas entranhas cada vez que ele encosta em mim? Bom, não era importante agora. Ele me abraçou, eu retribui e fomos mergulhar.
A sequência foi quase cronológica: Depois dos mergulhos, algumas piadas infames e um momento digno de Oscar em que Luke foi atingido por uma água-viva imaginária onde ele gritava que, apesar de ter sido imaginário, ele sentiu, decidimos ir até o píer almoçar. O lugar era simples, com madeira rangendo sob nossos pés, cheiro de peixe frito no ar e uma brisa insistente que fazia Ivy xingar a franja a cada cinco segundos. Sentamos todos juntos numa mesa meio torta, entre pratos de frutos do mar e copos coloridos.
— Tô oficialmente de férias — disse Tessa, de boca cheia. — Se alguém me ligar do trabalho, eu mudo de país.
— Ninguém vai ligar, amor — respondeu Ivy. — A empresa funciona melhor sem você.
Tessa ergueu o dedo do meio com elegância.
— Ela só é cruel porque te ama — comentou Nolan, apontando pra Ivy.
— Não. Eu sou cruel porque tenho bom gosto e zero paciência. — Ivy rebateu, fazendo todos rirem.
Nesse momento, senti a perna de encostar na minha por baixo da mesa. Sutil, mas firme. O tipo de toque que diz “tô aqui” sem precisar de legenda. E era sempre assim com ele, mesmo quando não dizia nada, o corpo dele falava idiomas que eu não dominava, mas entendia fluente. Idioma toque, olhar, presença. Idioma “tô ferrada e fingindo controle”.
— Então, alguém vai ter coragem de pedir aquele polvo apimentado? — perguntou, mordendo uma batata frita como se fosse parte de um comercial de cerveja.
— Eu topo. Já que é pra queimar por dentro, que seja com estilo. — respondi, bebendo mais da minha caipirinha. Aquilo tinha mais álcool que suco, e, no momento, eu tinha mais coragem do que juízo.
— Isso aí, ! Finalmente uma mulher com pulso firme! — Luke levantou o copo. — Brindemos à bravura gastrointestinal!
riu baixinho ao meu lado, aquele riso que ele fazia só quando achava algo genuinamente engraçado. Me virei para ele, pronta pra alguma piada, mas quando os olhos dele pararam nos meus, a frase morreu na minha garganta.
— Você tá diferente — ele murmurou, baixo o suficiente pra só eu ouvir.
— Diferente como? — respondi, desconfiada.
— Mais solta. Tá quase parecendo uma pessoa normal de férias.
— Que elogio maravilhoso. — revirei os olhos. — Obrigada por reconhecer meu esforço em não ser uma planilha emocional ambulante.
— Eu gosto de você até quando é planilha — ele disse, apoiando o queixo na mão e me observando com um meio sorriso. — Mas gosto ainda mais quando você sorri e não tenta esconder.
Aí pronto.
Lá vem ele com essa porra de charme involuntário.
O problema de não era o charme. Era o fato de que ele nem tentava. O charme dele vinha naturalmente, como se o universo tivesse programado ele pra ser o tipo de pessoa que quebra o coração alheio só por existir com tranquilidade. Felizmente, Luke começou a tossir uma batata frita mal mastigada no exato momento em que eu estava prestes a derreter ali mesmo. Ivy e Nolan entraram em modo paramédico, enquanto filmava a cena.
— Eu juro por Deus, se ele morrer agora, eu vou ter que dar explicação pra mãe dele. — Tessa murmurou, já com a mão no celular, provavelmente discando o SAMU.
— Ele não vai morrer — disse . — Ele só tá dramatizando porque ninguém pediu o drink azul brilhante que ele inventou ontem.
— O nome era “Maré Selvagem”, por favor respeitem meu processo criativo — Luke rebateu, já recuperado e indignado.
— Seu processo criativo é uma intoxicação alcoólica esperando para acontecer, Luke. E você não devia brincar com morrer engasgado, eu quase me preocupei. — Ivy jogou, sem nem olhar pra ele.
Comida chegou. Bagunça aumentou. roubou metade do meu polvo apimentado, Ivy pediu um prato que ela odiou só pra depois comer o do Nolan, e sussurrou no meu ouvido que meu short estava “cruel demais pra um dia de sol”. Eu ri. Mas por dentro, estava um pouco derretida demais. Depois do almoço, voltamos andando pela areia, meio bêbados e meio sonolentos.
Quando chegamos de volta à casa, a maioria colapsou em camas e redes. Eu fiquei na varanda, com uma água gelada e uma cabeça cheia. apareceu minutos depois, silencioso, e se sentou ao meu lado. Ficamos em silêncio por alguns instantes. O tipo de silêncio confortável, mas cheio de entrelinhas.
— Tá pensando no quê? — ele perguntou, sem olhar diretamente pra mim, mas com os olhos fixos em algum ponto distante do mar.
— Em como seria fácil me acostumar com isso aqui — respondi. — O calor, o mar, os risos, a parte onde ninguém tá tentando sobreviver à própria rotina.
Ele assentiu, devagar.
— Viu? Você precisava de um tempo longe de todos os cálculos e controle. Você merece isso.
virou o rosto pra mim, agora olhando direto nos meus olhos. Eu respirei fundo. A brisa jogou uns fios do meu cabelo no rosto dele, e ele não afastou. Só fechou os olhos por um segundo, como se aquilo fosse alguma espécie de paz.
— Tinha esquecido como você fica quieta quando tá pensando demais — ele comentou, com a voz baixa, como se falasse mais pra ele do que pra mim.
— Você sempre percebe tudo. — respondi.
Ele deu de ombros, com um meio sorriso no canto da boca, mas não respondeu. Encostei a cabeça no ombro dele, devagar, testando o espaço. não se moveu. Pelo contrário, ajeitou o braço atrás de mim, me puxando de leve pra mais perto, como se aquilo fosse só mais um gesto automático entre dois velhos amigos. Na verdade, eu acho que era. O calor do corpo dele era familiar, mas tinha um peso novo agora. Ou talvez fosse só a minha vontade, antiga e mal escondida, bagunçando tudo de novo. Ele começou a desenhar círculos lentos com o polegar no meu braço. Como fazia quando eu chorava no carro, aos quinze. Ou quando minha mãe ficou doente. Ou quando o mundo parecia grande demais. O toque dele era sempre o mesmo.
— Tava com saudade disso aqui — ele murmurou, depois de um tempo. — Da gente quieto, sem ninguém em volta, sem celular, sem barulho.
— Eu também.
Mais um silêncio.
apoiou o queixo no topo da minha cabeça, e eu fechei os olhos. O coração batia no ritmo errado, como se não tivesse entendido que aquilo ainda era só amizade. Só. Amizade. Como sempre foi. Como ele sempre fez questão de manter.
apertou meu ombro com mais firmeza, um abraço inteiro com uma mão só. Fiquei ali, encaixada naquele espaço entre o braço dele e o fim da tarde, tentando não querer mais do que aquilo. Tentando não transformar em desejo o que ele ainda chamava de conforto. Tinha um nó na minha garganta que eu não conseguia desfazer, e acho que ele sentiu. Porque soltou um suspiro leve, quase imperceptível, e passou a outra mão pelos meus cabelos, do jeito distraído que a gente faz com um gato no colo. Como se eu fosse só uma extensão da calma daquele momento. Como se não soubesse que isso me desmontava aos poucos.
— Você tá bem? — ele perguntou, com a voz rouca, já meio arranhada de sol e sono. — Assenti, mas não me movi. Só continuei ali, de olhos fechados, porque era mais fácil não mentir quando não se precisava encarar ninguém. — Tá mesmo? — ele insistiu, mais baixo, como se estivesse falando com o meu cabelo.
— Tô — falei. E era quase verdade. Estar ali com ele sempre dava um jeito de consertar as bordas, mesmo quando o meio ainda estava todo torto. não respondeu. Em vez disso, deslizou a mão pelas minhas costas devagar, até parar na base da minha nuca, como se ainda estivesse tentando traduzir meu silêncio. Como se soubesse que tinha coisa demais ali dentro, mas respeitasse o fato de eu não estar pronta pra deixar escapar.
Ficamos assim por mais um tempo. O sol desapareceu atrás do mar, o céu foi ficando azul escuro, e a brisa trouxe o cheiro de sal e janta no ar. Dentro da casa, dava pra ouvir vozes rindo, copos sendo erguidos, alguma música baixa tocando em algum celular perdido, mas a gente não se mexia. Não porque estávamos presos, mas porque sabíamos que, se um de nós se afastasse primeiro, tudo voltaria a ser o que sempre foi. E talvez a gente ainda não estivesse pronto pra esse tipo de realidade. Não depois de lembrar como era fácil caber no silêncio do outro.
foi o primeiro a se mexer. Tirou o braço de trás de mim devagar, como se estivesse desfazendo um laço. Me deu um beijo no alto da cabeça, leve, automático, igual a todos os outros.
— Vou ver se o pessoal guardou batata pra mim — ele disse, se levantando.
Assenti de novo, ainda sem abrir os olhos. Não queria ver ele indo. Não queria ver o espaço ao meu lado ficando vazio. Nem o jeito como ele ainda me olhava quando achava que eu não tava vendo.
Só amizade, repeti pra mim. Como sempre foi.
Ainda fiquei alguns minutos ali, sozinha, com o vento brincando nos fios do meu cabelo e o som abafado das risadas vindo lá de dentro. Quando a porta rangeu de novo, achei que fosse outra pessoa, mas era ele de novo.
voltou com duas garrafinhas de água e um pacote de biscoito salgado aberto.
— Achei que você ia querer alguma coisa — disse, estendendo pra mim sem olhar direto.
Peguei a água e deixei os biscoitos no meio dos dois.
— Obrigada.
— Sempre, né? — ele respondeu, sentando de novo ao meu lado.
O silêncio voltou, mas, dessa vez, o tom dele era diferente.
— Você ainda fala com ela? — perguntei, sem pensar muito. A pergunta veio sozinha e eu nem ao menos sei como consegui formular isso. Ou tocar naquele assunto. Ela, a mulher pela qual não queria nenhuma outra.
Ele franziu um pouco a testa, sem surpresa.
— De vez em quando. Ela manda uns memes, às vezes, me marcou num vídeo de gato ontem.
— Clássico.
— É. Foi meio aleatório, mas... a cara dela.
— Você gostava dela.
— Gostava — ele confirmou, simples. — Mas acho que mesmo gostando das pessoas, ainda erramos o timing.
Ficamos quietos de novo. Ele mexia no pacote de biscoitos, sem comer, enquanto eu observava o jeito como o ombro dele subia e descia devagar.
— Você sempre sabe o timing certo. — falei, depois de um tempo.
— Só com você. — Ele me olhou, de relance. — Com o resto do mundo eu sou um desastre.
Ri, sem graça.
— Aham, claro. Conseguimos medir isso pelo tamanho do seu ego, Beckett.
— É sério, Em. Você sempre foi a única pessoa com quem não preciso fingir que tô bem — ele disse, e então mordeu um biscoito, como se aquilo não fosse o tipo de frase que fazia meu peito parecer pequeno demais pro coração que tava tentando se manter calmo. Fiquei em silêncio. Ele também. A gente tinha esse jeito estranho de conversar às vezes, a conversa parecia não estar acontecendo em voz alta, mas só entre os olhares e os gestos.
— Sabe o que mais eu tinha esquecido? — ele perguntou, depois.
— O quê?
— Como o céu fica bonito quando você tá quieta.
— Que?
— Não é pra ser poético — disse ele, rindo. — É só que... você sempre fala tanto. Mas quando não fala, parece que tudo desacelera.
— Tá me chamando de barulhenta?
— Tô dizendo que você preenche as coisas. Quando cala, a falta aparece mais.
Ele virou o rosto depois disso. Foi sutil, mas eu vi. Aquele olhar tímido que ele nunca tinha, aquela expressão de quem fala demais sem querer. Tentei não encarar o que ele quis dizer com aquilo. Então ele se inclinou de novo, encostando o ombro no meu, e falou quase como um sussurro:
— Vai dormir aqui fora hoje?
— Talvez.
— Posso ficar mais um pouco?
— Pode.
E foi isso. Ele ficou.
Acordei com alguma coisa gelada encostando na minha perna.
Demorei uns segundos pra entender onde eu tava. A luz dourada do fim de tarde invadia a varanda, pintando tudo com aquele tom laranja quente de pôr do sol. O som das ondas lá embaixo batia constante, e o mundo parecia lento e totalmente em câmera lenta. Me movi devagar, tentando levantar o rosto sem desequilibrar, e percebi que ainda estava meio deitada, encostada no ombro de . Ele ainda dormia, com o sono imensamente pesado que ele tinha.
— Vocês são lindos, mas tá na hora de levantar, casal Disney. — A voz veio carregada de ironia, e antes que eu pudesse reagir, senti um punhado de areia voar na direção da minha perna.
— TESSA! — berrei, chutando leve em direção à risada que veio logo depois.
— Vai me bater com sono mesmo? Que agressividade, . — Tessa apareceu do outro lado do parapeito, segurando um balde de praia. Ela usava óculos escuros gigantes e um biquíni de crochê amarelo, como se fosse personagem principal de algum reality de verão.
— Você jogou areia na minha perna!
— E eu fui gentil. Era pra eu ter jogado no rosto, segundo o planos do Nolan.
— Ótimo saber que vocês estão armando contra mim. — murmurei, sentando e tentando ajeitar o cabelo com os dedos. Do meu lado, resmungou algo que soava como um xingamento contra a humanidade em geral.
— Vamos! — Tessa continuou, ignorando completamente a resistência. — Vai ter luau. Fogueira. Música brega. Bebida duvidosa. Um cara que toca ukulele e provavelmente vai se apaixonar por mim. Não podemos perder.
— Que horas são? — perguntei, ainda com a voz grogue.
— Quase sete. E tá todo mundo se arrumando. Nolan tá passando protetor no pé, e não me pergunte o motivo disso. Ivy tá fazendo maquiagem que brilha no escuro. Luke tá tentando esquentar marshmallow no fogão porque não sabe esperar o fogo da fogueira. E ... bom, tá sendo o . Agora levanta. Vocês já viraram assunto.
— Como assim, assunto? — abriu um olho.
Tessa sorriu. Aquele sorriso que significava fofoca vindo em três, dois, um…
— Você acha que quando duas pessoas somem juntas nas férias de verão, ninguém vai comentar? Por favor.
coçou a testa, sem pressa.
— A gente dormiu. Só isso.
— Sei. Eu acredito. Mas os monstros que vocês criam, não são tão evoluídos quanto eu.
— Tessa. — resmunguei. — Vai trocar de roupa. A gente já vai.
— Isso! Se arrumem. Quero ver vocês brilhando sob a luz da fogueira. — ela disse teatralmente, girando o balde como se fosse uma bolsa de grife, e sumiu pelo corredor com um assobio desafinado. Ficamos alguns segundos quietos de novo, absorvendo o que tinha acabado de acontecer.
Levantei primeiro, espanando a areia das pernas e tentando arrumar o cabelo com as mãos. me olhou de baixo, com aquele ar meio divertido, meio preguiçoso, meio "a gente precisa conversar, .".
Eu tentei ignorar a forma que os olhos dele paravam em mim, a maneira que sua boca travasse como se ele tentasse falar algo, mas não soubesse exatamente como começar ou, simplesmente, o meu coração que estava batendo forte na tentativa de fingir que não estava vendo exatamente para onde aquela conversa nos levaria. Ele fechou os olhos por alguns segundos, respirou fundo e me olhou com uma dor que eu dificilmente via em seus olhos.
— Você sabe que eu jamais te magoaria, não sabe?
Não respondi logo. Peguei uma concha do chão, que provavelmente tinha saído da terra que a Tessa nos jogou e, com ela entre os dedos, tentei manter o tom leve.
— O problema não é o que você faria ou não. É o que você diz quando não pensa.
— Aquilo... — ele começou, depois parou, então continuou. — Aquilo saiu errado.
— Saiu fácil. E quando sai fácil é exatamente o que a gente pensa.
— Não foi fácil. — Levantei os olhos pra ele, finalmente. Ele sustentou meu olhar, sem as piadas de sempre, sem os escudos. Só , do jeito mais verdadeiro que eu conhecia. — Eu disse aquilo porque achei mais seguro.
— Fico lisonjeada com sua preocupação.
— Eu tô falando sério, . Eu não deveria ter dito aquilo.
— Eu também estou falando sério. E, sinceramente, não importa se você não queria ter dito. Já saiu.
— Mas não é o que eu penso.
Eu encarei a linha do horizonte, onde o céu e o mar se misturavam em uma tonalidade quase única e admirei aquilo por alguns segundos. Era bem mais fácil do que encarar o que tava nos olhos dele.
— E o que você pensa, então?
Ele hesitou. Eu senti, mais do que vi, o movimento dele se ajustando de forma desconfortável, como se estivesse se preparando pra fugir ou pra ficar, provalvemente nem ele sabia.
— Você conhece minha história toda, . Eu faço merda. Sempre faço. Invento uma briga, sumo, falo coisas que não devia. É como se eu precisasse tanto acreditar que nada vai ficar, então pelo menos eu controlo quando acaba.
Eu conhecia. Cada nome, cada porta batida, cada briga que terminava com ele sumindo por semanas. Dez anos de amizade eram dez anos vendo ele repetir o mesmo erro como se fosse a primeira vez, sempre convencido de que dessa vez seria diferente.
Ele esfregou o rosto, cansado, como se já estivesse revivendo cada fracasso ali na frente dele.
— Eu não sei fazer isso direito. Nunca soube. No primeiro mês com a Becky, eu jurava que ela era perfeita. No terceiro, eu já estava contando os minutos até poder ir embora. E no sexto eu a odiava. Odiava o jeito que ela mastigava, o jeito que falava meu nome, o jeito que fingia entender meus silêncios só pra criticar cada um deles depois, odiava as mentiras dela. E ela também me odiava. A gente terminou com ela jogando um copo na minha cabeça e eu rindo porque finalmente estava livre. — Ele riu, amargo. Então continuou. — A Jen durou quase um ano, mas terminou do mesmo jeito. Com ela, eu fui o babaca. Lembro do dia em que percebi que não aguentava mais ouvir ela falar sobre o trabalho. Comecei a inventar compromissos, a chegar cada vez mais tarde. Até que ela me pegou mentindo e eu... eu fiquei aliviado. Aliviado que tinha acabado. Isso é doentio, não é? E todas as outras? Todas acabaram da mesma forma. Ou eu virava o cara frio que some sem explicação, ou eu virava o emocionado que cobra demais. Nunca teve um meio-termo. Nunca deu certo. Sempre acabava com alguém me odiando ou eu odiando alguém. Sempre. Eu juro pra mim mesmo que vou fazer diferente, que vou me esforçar e eu juro que eu tento, mas tem algo em mim que estraga tudo. É como se eu tivesse um prazo de validade pra gostar de alguém. Eu já tentei entender por que sou assim. Talvez seja medo. Talvez seja porque é mais fácil odiar do que admitir que falhei de novo. Ou talvez... talvez eu só não saiba amar direito. — A voz dele sai com um humor tão dolorido que eu sinto vontade de chorar. É rouca, desesperada, aflita, confusa e dolorida. Quero tirar imediatamente toda a dor dele porque, pela primeira vez desde que o conhecia, vi algo nos olhos dele que parecia verdadeiramente quebrado. — Mas o que eu sei é que toda vez que termina, eu fico um pouco mais vazio e um pouco mais convencido de que não vale a pena tentar de novo. A Becky chamou isso de autossabotagem uma vez. Disse que eu tenho medo de ser feliz. E eu acreditei nisso, mas aí eu olho pra você e... Você é minha melhor amiga, a. É a única pessoa que nunca me deixou. Você sempre soube isso de mim. Desde o começo. Você me viu explodir com gente que não merecia, você me viu fugir de gente que me amava, me viu ser enganado e aceitar isso só pra eu poder dizer que tentei, você me viu ser o pior de mim mesmo tantas vezes e, mesmo assim, você ainda tá aqui. Dez anos, . Dez anos e eu ainda te procuro primeiro quando algo bom ou ruim acontece. — A voz dele quebrou um pouco mais, e ele fechou os olhos por um segundo, tentando se recompor. — É por isso que eu não posso tentar. Não com você. Porque se um dia eu olhar pra você e ver que machuquei você do jeito que machuquei todo mundo... Se um dia você me olhar e eu ver que você finalmente entendeu que eu não valia a pena... — Ele não terminou. Não precisava. — Isso é o que eu tenho de mais certo em toda a minha vida. Eu já estraguei muita coisa, com gente que confiava em mim, com gente que eu não devia confiar, e, no fim, sempre acabo me afastando. Sempre. Com qualquer outra pessoa, se der errado, eu só vou embora. Com você... eu perderia tudo. Se desse algo errado com a gente, qualquer coisa, eu não sei se eu saberia seguir em frente. Eu sei que parece covarde, e talvez seja mesmo, mas não é porque você não vale o risco. É porque você vale tanto que o medo de perder pesa mais do que qualquer possibilidade de ter. Eu sei estragar as coisas, é o que eu faço quando tenho medo. E tudo bem, eu sei lidar com isso, mas não vai ser assim com você. — Ele parou alguns segundos, respirando fundo enquanto olhava para o lado e eu juro que, por alguns milésimos do tempo, eu consegui ver ele arfar e seu peito disparar. — Você é a única pessoa que nunca entrou nesse ciclo. A única que eu nunca consegui odiar, nem por um segundo. E isso me assusta mais do que tudo. Porque se um dia eu olhar pra você e sentir esse vazio... — Ele engoliu em seco, fechando os olhos e respirando fundo, se controlando para não deixar a dor vir mais forte. — Se um dia você se tornar só mais um nome na lista de pessoas que eu magoei... Eu não sei o que sobraria de mim, . Não depois de você. Eu não sei o que seria continuar se perder você fizer parte da equação. Então, quando eu disse aquilo, que nunca teria nada com você, não era sobre você. Era sobre mim. Sobre o medo de jogar fora a única coisa que ainda me dá alguma sensação de estabilidade. Eu sou um covarde. Um merda. O que você quiser chamar. Mas eu não consigo arriscar a única coisa boa que eu tenho nessa vida.
O silêncio que veio depois foi pesado, cheio de tudo que ele não precisava dizer em voz alta. ficou em silêncio por um momento, como se estivesse revirando cada palavra que tinha dito, tentando descobrir se tinha sido o suficiente. Se tinha conseguido traduzir a confusão de pensamentos dentro dele em algo que eu pudesse entender.
Eu sabia o que ele estava realmente falando: que ele tinha medo de me perder, mas tinha mais medo ainda de ser o motivo pelo qual me perderia.
Ele não precisava dizer que me amava. Eu já sabia.
A gente ficou em silêncio de novo, mas agora era um silêncio que doía diferente. Era o silêncio de algo que a gente sempre soube, mas nunca tinha dito em voz alta. Pela primeira vez, o momento que eu mais desejei em segredo estava acontecendo e eu não tinha forças para alcançá-lo. Minha boca formava palavras que morriam antes de nascer. Eu queria dizer para ele que seríamos diferentes, que nós não acabaríamos como todos os outros relacionamentos que tivemos, mas... e se acabássemos? E se o que eu conheço e amo se tornasse apenas mais um na lista de pessoas que não conseguem me olhar nos olhos?
virou a cabeça e eu vi seu perfil contra o pôr-do-sol. Vi a cicatriz quase invisível na testa, a mesma que ele tinha adquirido daquela briga no ensino médio, o lábio que tremia levemente quando ele tava segurando emoções demais, tudo. Cada detalhe era tão familiar que doía. Eu sabia exatamente como ele cheirava depois do futebol, o som da sua risada quando era genuína, o jeito que ele mordia o lábio quando estava nervoso.
Como eu poderia arriscar perder isso?
Não precisava continuar. Eu entendia. Talvez melhor do que ele mesmo. Eu tinha visto o que acontecia quando as pessoas magoavam ele. Ele não fugia por maldade, fugia porque não sabia viver de outro jeito. Como condenar alguém por ser o que sempre foi? Meus dedos tremeram levemente contra o meu colo. Dez anos de amizade, de risadas compartilhadas em segredo, de lágrimas escondidas do mundo, tudo isso pesava mais do que qualquer desejo. Eu podia passar mais dez anos pensando nisso, sonhando com isso, e ainda assim não encontraria uma resposta que valesse o risco de perdê-lo.
Eu sabia que não era porque ele não queria.
Deus, como eu sabia.
Era exatamente por isso que doía tanto.
— A Tessa vai enlouquecer com a nossa demora. — eu disse, tentando fazer minha voz soar normal enquanto virava em direção à casa.
Quando começamos a ir em direção a entrada da casa, o espaço entre a gente era o mesmo de sempre; nem muito perto, nem muito longe. A distância perfeita para fingir que nada tinha mudado. Para fingir que meu coração não estava partido e remendado ao mesmo tempo. Para fingir que eu não tinha acabado de escolher ter metade dele para sempre, em vez de arriscar perder tudo.
— ...
— Tá tudo bem. De verdade.
Ele permaneceu quieto, talvez engolindo a própria vontade de dizer que não estava, mas não insistiu. nunca insiste quando sabe que estou decidida com algo.
— Você vai trocar de roupa?
— Preciso? Achei que eu fosse linda naturalmente, mesmo depois de acordar no meio da varanda, com frio e areia. Literalmente.
Ele deu um leve sorriso.
— Não, não precisa. Mas se for, não demora. Quero garantir um lugar perto do violão antes que o Luke tente cantar Oasis de novo.
Soltei uma risada curta.
— Tá bom, vai. Me dá cinco minutos.
— Te dou quatro. Depois te busco com outro balde de areia.
Entrei no quarto ainda rindo da ameaça do balde de areia. Por via das dúvidas, troquei de roupa rápido, vestindo um short jeans, um top preto de alça fina e uma camisa leve por cima, que podia ou não ser do próprio . Eu já tinha me acostumado a esquecer de devolver umas roupas dele desde os 15.
Quatro minutos. Ele não estava brincando.
— Tô indo! — gritei antes que ele pudesse bater na porta.
) apareceu no vão com o mesmo moletom de sempre, o capuz jogado pra trás e uma cerveja na mão. Tava com a cara limpa de quem não se importava nem um pouco se tinha areia no cabelo ou não. Só me olhou de cima a baixo e arqueou uma sobrancelha.
— Três minutos e cinquenta. Impressionante.
— Eu sou uma mulher eficiente.
Passamos pelo corredor com os últimos resquícios de sol nos acompanhando. A casa estava cheia de vozes, chinelos arrastando no chão, alguém discutindo sobre quem ia carregar o cooler. A energia era de bagunça organizada, como sempre.
Lá fora, o céu já era um degradê de azul escuro e roxo, e a fogueira tinha acabado de ser acesa. Um monte de almofadas e cangas estavam espalhadas pela areia em círculo, e o som de uma playlist qualquer tocava baixo de um dos caixotes de som que o Nolan tinha trazido. Tessa já estava lá, obviamente, com uma coroa de flores na cabeça e duas bebidas bem coloridas nas mãos.
— Aleluia! — ela gritou quando nos viu.
só ergueu a garrafa num cumprimento irônico e seguiu andando direto, escolhendo um lugar mais afastado, perto de umas almofadas dobradas e um banco de madeira meio torto. Me sentei do lado, puxando os joelhos contra o peito, enquanto ele jogava a garrafa vazia num balde de latas.
— Tá tudo tão... verão. — comentei, olhando as luzes de pisca-pisca que Ivy já tinha pendurado em alguma árvore antes mesmo de escurecer.
— É o charme da Tessa.
Ele sorriu e pegou outra cerveja do cooler, me oferecendo antes de abrir.
— Ainda quer?
Balancei a cabeça para os lados, negando.
— Tô bem.
— Boa escolha.
Por um tempo, ninguém disse nada. Só o som da madeira estalando na fogueira e a voz de Tessa do outro lado, tentando convencer a dançar com ela. Eu podia ouvir a risada dele, o som da garrafa batendo no brinde. encostou o cotovelo no joelho, apoiando o queixo na mão. Me observava de lado, daquele jeito que ele sempre fazia quando achava que eu não tava reparando, mas eu reparava. Sempre reparei. pegou um punhado de areia e começou a passar entre os dedos, distraído.
— Você ainda escreve? — ele perguntou, do nada.
— De vez em quando. Quando dá.
— Aquela história do farol?
— Ainda tá na minha cabeça. Nunca saiu de lá, na real. Só não consegui terminar.
— Por quê?
Suspirei.
— Porque o personagem principal fica preso. E eu não sei como fazer ele sair de lá.
Ele não respondeu de imediato. Jogou a areia pro alto, deixando-a cair entre nós dois, como se estivesse marcando o meio do caminho entre onde eu tava e onde ele tava.
— Talvez ele só esteja esperando alguma coisa. — disse, sem me olhar.
— Esperando o quê?
deu um leve sorriso, com o olhar perdido nas chamas.
— Alguém bater na porta.
Ficamos assim, quietos, olhando pro fogo como se a resposta estivesse lá.
— Vocês dois prometeram que não seriam antissociais e eu tenho prints destas conversas, então cuidem de serem participativos. — A voz da Tessa cortou a quietude. Ela apareceu atrás do , segurando duas pulseirinhas de neon e uma taça de alguma bebida azul, que definitivamente não devia ser azul. — Vamos. Hora da dança.
jogou o resto da areia para longe, se levantando devagar. Eu ainda tava sentada, então tive que olhar pra cima quando ele esticou a mão pra mim, mas ele não disse nada. Era só aquele gesto que a gente já conhecia de cor, aquele chamado silencioso de "você vem comigo, como sempre".
— Vai, . Tira ela da bolha. — disse Ivy, surgindo ao lado de Tessa, com uma flor presa no cabelo e o celular no bolso de trás, como se não conseguisse decidir entre o Instagram e a fogueira, mesmo todo mundo sabendo que a fogueira claramente perderia.
— Não, vocês já ficaram juntos tempo demais. Agora é minha vez de sequestrar o bonitão. — Tessa fez uma reverência exagerada e pegou a mão dele como se fosse dançar uma valsa. — Depois a gente volta pra buscar você.
Eles saíram cambaleando pela areia, e olhou por cima do ombro, acho que ele quis se certificar de que eu tava bem, como se soubesse que eu ia ficar olhando. E eu fiquei. Vi quando ele riu de alguma coisa que ela disse. Vi quando ela passou a mão no ombro dele e ele deixou. E vi quando ele olhou pra ela como se a luz da fogueira tivesse acendido dentro dela.
Não era ciúmes. Era pior. Era aquela sensação de estar assistindo alguém abrir uma porta que eu passei anos trancando com cuidado.
— Tá um pouco silenciosa pra quem está em uma festa. — surgiu do nada, com um copo na mão e uma sobrancelha levantada. Sentou-se ao meu lado, jogando um punhado de areia pra cima como se isso fosse quebrar a tensão.
— Eu sou uma pessoa quieta, segundo Beckett. — respondi, tentando soar mais divertida do que eu conseguia ser no momento.
— Tecnicamente eu sou o primeiro Beckett.
Olhei de novo pra fogueira. já estava sentado com o grupo, e agora tinha uma garota nova do lado dele. Cabelo preso num coque bagunçado, sorriso fácil. Ela jogou a cabeça pra trás rindo, e ele encostou a mão no joelho dela como se fosse natural.
Aquilo me atingiu como se alguém tivesse puxado o ar do meu peito.
Era só um gesto.
Só uma mão no joelho.
Só uma risada compartilhada.
Mas doeu.
Porque ele estava com ela, quando deveria estar aqui, do meu lado.
Porque ele nunca faria aquilo comigo.
— Vamos jogar alguma coisa? — sugeriu, mais pra me puxar do buraco do que por vontade.
— Tipo?
— Sei lá. Verdade, consequência... ou o shot da morte.
Tentei rir.
— Achei que você fosse o certinho, o irmão médico que salva pessoas e não bebe para não ser irresponsável. — provoquei, com um sorriso de canto.
— Primeiro: médicos também bebem. Segundo: sou irresponsável se for para fins científicos. — Ele levantou o copo como se fosse um troféu. — Considere esse momento uma experiência social.
— Ah, claro. Pesquisa de campo. — ergui uma sobrancelha. — E qual é a hipótese? Que eu não aguento um shot?
— A hipótese é que você é uma pessoa quieta… — ele olhou pra mim com aquele sorriso torto, já familiar — …mas só até a terceira rodada.
Ri de verdade agora. Daquela risada que escapa antes que a gente consiga segurar. E ele pareceu gostar de ter arrancado isso de mim. De ter sido o responsável pela forma que eu quase fico sem ar. Que quase começo a voar, de tão leve que estou.
— Tá bom, doutor, mas só se você jogar também. Nada de fingir que está acima das brincadeiras.
— Fechado. — ele disse, estendendo o mindinho, sério como se fosse um contrato oficial. — A medicina me obriga a ser ético.
Enlacei o dedo no dele com um aceno solene.
A brincadeira começou simples. Uma garrafa girando entre a areia, os copos passando de mão em mão, perguntas aleatórias e provocações leves. ficou ao meu lado o tempo todo, como se quisesse garantir que eu não escorregasse de volta pro meu silêncio.
— , verdade ou consequência? — perguntou Ivy, com aquele olhar malicioso de quem adorava ter um microfone imaginário.
— Verdade. — respondi, sem pensar muito.
— Se você pudesse beijar qualquer pessoa aqui hoje, quem seria?
O grupo fez aquele “oooh” coletivo clássico. Meu rosto esquentou no mesmo segundo.
— Fácil. Eu. — falou antes que eu abrisse a boca, erguendo o copo e piscando pra mim.
As risadas vieram todas juntas, e, pra minha surpresa, eu não queria desaparecer. Só olhei pra ele, tentando fingir uma cara séria.
— Você é muito convencido, sabia?
— Não é convencimento se é verdade. — respondeu, encostando levemente o ombro no meu.
A brincadeira seguiu, mas agora tudo parecia mais leve. começou a inventar nomes para os shots. O suco rosa virou Elixir da Coragem. O copinho azul, Lágrimas do Destino. E toda vez que eu ria, ele fazia questão de repetir a piada como se fosse a melhor coisa que já tinha dito.
— Toma mais uma dose do “depois do três ela vai se abrir”. — disse, me entregando um copo.
— Esse nome é horrível. — falei, mesmo rindo.
— Assim você ofende a minha criatividade. — respondeu, inclinando a cabeça.
Nesse momento, me peguei observando o reflexo da fogueira no rosto dele. era bonito de um jeito calmo. Não o tipo que roubava o ar quando entrava no lugar, mas o tipo que te fazia respirar melhor quando ficava no mesmo ambiente que você. Ele era lindo, muito lindo, mas conseguia ter tão mais além do físico que se tornava encantador. No mínimo.
— Esse tem nome? — perguntei, já desconfiada.
— “Depois desse, você começa a achar que Oasis é bom”.
— Isso é uma ofensa ao bom senso.
— Exato. Bebe logo.
Dei um gole com cara feia, mas o gosto era surpreendentemente aceitável. se sentou de novo ao meu lado, com as pernas esticadas na areia e o copo apoiado entre os joelhos.
— Você sempre foi assim? — perguntei.
— Assim como? — ele devolveu.
— Com esse equilíbrio natural entre parecer sério o tempo todo e, ao mesmo tempo, ter um senso de humor bem duvidoso. Quero dizer, ninguém com uma mente boa conseguiria criar nomes tão ruins e drinks tão bons. Faz dez minutos que estávamos jogando e, agora, eu nem mesmo sei quando saímos da roda e estamos no nosso mundo.
Ele riu. Um som curto, sincero.
— Culpa da faculdade de medicina. Eles te ensinam a manter a compostura enquanto o mundo pega fogo. Então você aprende a rir quando dá.
Ficamos um tempo em silêncio, só ouvindo o som da música vindo da fogueira, agora mais animada. A galera já tava dançando, tropeçando na areia. Alguém gritou que ia começar uma batalha de dança e foi derrubado logo em seguida com uma enxurrada de vaias.
— Você deve dançar muito mal. — comentei, vendo um dos meninos do grupo tentar um passo de breakdance desajeitado.
— Você tá duvidando do espírito competitivo da medicina? — perguntou, colocando a mão no peito, ofendido.
— Totalmente. Aposto que você dança igual ao Luke tentando cantar “Wonderwall”.
— Ok. Isso foi baixo. — Ele me encarou com uma expressão pensativa, dramática demais pra ser real. — Tá bom. Eu te desafio.
— A quê?
— A uma dança de humilhação pública.
— Nem morta.
— Então você admite que tem medo?
Revirei os olhos.
— Eu admito que valorizo meus tornozelos.
Ele riu e jogou um pouco de areia na minha perna.
— Covarde.
Fingi indignação e devolvi com mais areia, começando uma pequena guerra entre nós. Nessa altura, ninguém tava prestando atenção. E eu gostei disso. Gostei de como, mesmo no meio de todo mundo, aquele pedacinho de praia parecia só nosso.
— Ok, sua vez de inventar um nome. — disse, apontando pro copo na minha mão.
— Fácil. “Reunião de família que deu errado”.
— Isso é trágico.
— Por isso combina.
— Você é engraçada, sabia? — ele disse de repente, me olhando de lado.
— Você é muito ruim em elogios espontâneos. — retruquei, sem conseguir esconder o sorriso.
— Tô me esforçando. — respondeu, dando um gole no copo, como se aquilo ajudasse a disfarçar o leve rubor nas bochechas.
Ficamos um tempo em silêncio, observando a bagunça perto da fogueira. Um dos meninos estava tentando equilibrar uma garrafa na cabeça, enquanto outro girava em círculos até cair. A música alta, o som das ondas e as risadas tudo se misturava num ruído bom, mas meio caótico.
— Quer fugir daqui um pouco? — perguntou, num tom que não tinha nenhuma malícia, só um convite tranquilo.
— Fugir?
— Só andar. Não sei. A galera tá num nível de energia que eu não consigo competir. Tô velho demais pra perder no jogo da garrafa.
— Você tem 29 anos, .
— Exatamente.
Soltei uma risada curta do seu exagero e me levantei junto com ele, limpando a areia da roupa enquanto caminhávamos devagar, deixando a luz da fogueira pra trás e os sons diminuindo a cada passo. A areia era mais fria, e só havia o som das ondas quebrando de leve. chutava pequenos montinhos como se cada passo precisasse de uma missão.
— Você é um daqueles caras que organiza os livros por cor, não é? — perguntei, desconfiada.
— Por assunto, e por cor.
— Isso é doentio.
— Isso é eficiência estética.
Continuei caminhando, rindo com ele do nada, e do tudo. Até que paramos num pedaço de areia que parecia esquecido do resto do mundo. A lua refletia no mar como se tivesse sido pintada ali de propósito.
— Aqui tá bom. — ele disse, se sentando e cruzando as pernas, como se fizesse isso toda semana. Me sentei ao lado dele, sem pressa. enfiou as mãos nos bolsos do casaco, inclinando levemente o corpo pra frente enquanto olhava o mar.
— Você é diferente do que eu imaginei. — ele falou, como quem solta um pensamento que escapou. Virei o rosto devagar, arqueando uma sobrancelha.
— Isso é bom ou ruim?
— É o tipo de coisa que me faz querer ficar um pouco perto de mais.
Fiquei em silêncio, não por falta do que dizer, mas porque a sinceridade dele me pegou desprevenida. Ele não falava como alguém que jogava charme por esporte. Era direto, mas não apressado. Seguro. Quente. Quase perigoso. era o tipo de homem que fazia a gente baixar a guarda sem perceber.
— Você fala como se soubesse exatamente o que vai causar. Isso é perigoso demais para um quase idoso.
— Às vezes. — Fingi olhar pro mar de novo, tentando disfarçar o fato de que eu estava sorrindo de verdade agora, do tipo que aquece de dentro pra fora. — Sabe o que é engraçado? — ele continuou, mexendo um pouco a areia com os dedos. — Eu venho pra esse tipo de coisa pensando que vou aguentar umas horas, ser simpático o suficiente, e ir embora sem me envolver.
— E não é?
— Acho que não. Não agora, não com você aqui.
Desviei o olhar por reflexo. Não porque não gostei, mas porque fazia tempo que alguém não falava comigo assim, de um jeito que me convencia.
— Isso foi bem direto. — comentei, a voz um pouco mais baixa.
— Eu sou velho, lembra? Não tenho mais tempo pra rodeios. — ele respondeu, olhando pra mim com calma.
— Você é só seis anos mais velho. — murmurei, mesmo sabendo que ele tava sendo metafórico.
— E seis mil vezes mais paciente, se quiser. — respondeu com um meio sorriso. — Ele inclinou um pouco o corpo, não no impulso de diminuir a distância, mas como quem se aproxima devagar, testando o espaço que o outro permite. A testa dele quase encostou na minha. — Me avisa se eu estiver indo rápido demais. — disse, por fim.
— Você não tá. — falei, sem pensar. Porque não estava mesmo.
Eu havia passado tanto tempo pensando que, agora, tudo que eu queria fazer era não pensar.
A mão dele veio primeiro, devagar, como se cada movimento carregasse um cuidado raro, seguido por uma intenção pensada. Os dedos quentes tocaram minha mandíbula, e ao toque eram leves, o polegar deslizou até o canto da minha boca, onde ficou ali por um segundo longo demais pra ser apenas um gesto casual. O meu coração batia descompassado, mas a respiração dele era calma, como se quisesse me passar segurança com o corpo antes mesmo do toque. Quando ele finalmente se aproximou, o beijo começou com uma lentidão quase reverente, mas não era hesitante, na verdade, era inteiro. Como se ele estivesse mapeando cada segundo, cada resposta minha, cada silêncio entre os dois.
E eu correspondi.
O gosto era leve, quente, com um toque de vinho e de algo que só podia ser ele. Aos poucos, o beijo ganhou profundidade, num ritmo que não atropelava, mas seduzia. A mão dele subiu até minha nuca, os dedos entrelaçando no meu cabelo com uma precisão quase impaciente. A outra mão foi parar na minha cintura, e mesmo sem me puxar, tinha uma força contida, mas ainda assim era terna. O toque dele era aquele tipo que, se a gente se acostuma, nunca mais quer outra coisa.
Quando nos afastamos, os lábios ainda se roçaram por um instante. Ele manteve a testa colada na minha, com os olhos fechados, como se ainda respirasse tudo que o beijo tinha.
— Você tem gosto de sarcasmo. — ele murmurou, com um sorriso torto. — Tô ferrado, né?
— Totalmente. — respondi, ainda sentindo a boca quente. E antes que o pensamento escapasse, puxei ele de volta.
Dessa vez, o beijo veio mais solto, mais leve. Com risadas entre os toques, com um nariz que esbarrou no outro, com mãos meio perdidas entre cabelo e cintura, e uma urgência contida.
— A gente podia culpar o vinho. — ele sugeriu, fingindo seriedade.
— Mas ia ser mentira. — falei, mordendo o canto do lábio.
— Total.
Ele olhou pro céu por um segundo, depois de volta pra mim.
— Isso vai complicar tudo, né?
— Provavelmente. — murmurei, me encostando no ombro dele.
E só soltou um “bom” baixinho, como quem aceita a bagunça com gosto.
Ficamos em silêncio por alguns segundos, só ouvindo o barulho do mar. Eu ainda estava com a cabeça apoiada no ombro dele, e ele desenhava círculos lentos na minha perna com o dedo, sem parecer consciente do que fazia. Era bom. Leve. Quente. E foi aí que a culpa deu as caras. Silenciosa e escorregadia como a maré.
Pensei no . Pensei na nossa conversa. No nosso quase algo. Pensei nos sentimentos dele saindo tão altos e tão fortes. No jeito sério como ele tinha me olhado antes, dizendo com todas as letras:
“Só não se envolve com ele. Sério. Qualquer um, menos o .”
Afastei a cabeça devagar, ajeitando o cabelo como desculpa.
— Tá tudo bem? — ele perguntou, atento.
— Sim, só pensei numa coisa. — dei um sorriso rápido, tentando disfarçar a confusão que começava a crescer. não insistiu. Não do jeito óbvio. Só inclinou o corpo de leve, mantendo os olhos presos em mim.
— Posso fazer uma pergunta? Sem querer estragar a vibe.
— Você acabou de colocar “sem querer estragar a vibe” antes da pergunta. Agora quero saber.
Ele sorriu, meio envergonhado, mas foi em frente.
— O que você faz? Quando está na sua rotina, nos seus dias, quando não é encantadoramente sarcástica e viciante.
— Uau. Encantadoramente sarcástica? Tô adicionando isso no meu currículo. Eu trabalho com eventos. Produzo, organizo, corro, desespero. E finjo que tô tudo sob controle mesmo quando não está.
— Isso soa bem... caótico.
— Exato. Acho que por isso odeio qualquer coisa que me faça perder o controle. Já faço tanto isso no trabalho que gosto de conseguir dominar um pouco mais a minha vida.
Ele passou a mão pelos cabelos, parecendo buscar as palavras certas.
— Posso fazer a pergunta agora? — Ele acenou com a cabeça, de forma simples, quase curioso demais. — Você ainda a ama? Maya.
Ele pensou um pouco antes de responder.
— Sinto falta do que a gente fingia que era. Mas dela de verdade? Não. Era cansativo. E cheio de desculpas. Tava sempre acontecendo alguma coisa errada. Acho que parou de ser amor antes mesmo de acabar.
Eu fiquei em silêncio por alguns minutos e, quando ele me olhou, respirei fundo, decidindo ser sincera também.
— me pediu pra não me envolver com você.
assentiu com um sorriso breve, nada surpreso. A expressão dele se manteve tranquila.
— Eu imagino. Ele viu as piores versões de mim. — disse com simplicidade. — Mas irmãos enxergam com filtro e protegem com excesso. Eu entendo o que ele quer evitar.
Fiquei em silêncio, e ele respeitou.
— Hoje de manhã, você tava com a Ivy. — falei, finalmente. Não precisou dizer mais do que isso para deixar claro o quão confusa ele estava. Eu falei que ele estava com a Ivy porque não conseguia dizer que, apesar disso, eu também estavav com o .
Ele sorriu de leve.
— Ivy apareceu no verão passado como uma diversão após um dos vários términos. Não teve história, nem promessas. Só dois adultos sendo impulsivos e sabendo exatamente onde terminava, mas eu não deixei nenhuma porta aberta ali. Só fui educado. — Ele se aproximou um pouco mais, sem invadir o meu espaço. — E você, definitivamente, não seria mais uma. Se fosse, eu teria te deixado em paz naquela fogueira. Eu sei exatamente o que tô fazendo aqui.
— E o que você tá fazendo aqui, ?
Ele respirou fundo e respondeu com uma honestidade que quase doeu de tão simples.
— Tô escolhendo você.
E esse era o problema. Porque eu também queria escolhê-lo. Eu sabia que era uma escolha. E eu queria aquela segurança, aquela certeza que ele colocava em cada palavra. Queria a forma como ele me olhava, como se eu fosse algo raro e precioso. Queria aquela mão firme na minha, aquela promessa de alguém que não fugiria. Mas então veio a imagem do , o mesmo de horas atrás, com os olhos cheios de um medo que eu nunca tinha visto antes, me dizendo que eu era a única coisa certa na vida dele. O que me agarrou pelo pulso e pediu, quase suplicou: "Não fique com o ."
Eu sabia o que sentia por . Sabia que, em algum lugar no fundo do meu peito, aquela conexão nunca iria acabar e ainda me faria querer alcançá-lo mesmo quando ele se afastava, mas hoje, quando ele me olhou com aquela expressão perdida, como se eu fosse a única âncora que ele tinha no mundo, algo dentro de mim entendeu que nunca iríamos além disso.
Não porque ele não quisesse, nem porque eu não quisesse, mas porque, no fim, nós dois éramos bons demais em sabotar qualquer coisa que pudesse nos levar para um lugar desconhecido. , porque tinha medo de estragar. Eu, porque tinha medo de perder.
Eu respirei fundo, deixando o ar salgado do mar encher meus pulmões.
— Não sei se consigo te dar uma resposta agora — eu disse, finalmente, com a voz quase sumindo no som das ondas.
Ele virou o rosto para mim.
— Eu não disse isso esperando uma resposta e nem quero que você me dê uma agora. — A voz dele veio baixa, controlada, sem qualquer traço de cobrança ou urgência. — Eu sou neurocirurgião, . Minha vida inteira é sobre entender o tempo das coisas, sobre saber quando agir e, principalmente, quando esperar. — Ele fez uma pausa breve, como se medisse as próximas palavras. — Nunca perdi um paciente sequer. Sabe por quê? Porque eu aprendi que antecipar o momento certo pode custar vidas. Eu não tô aqui pra te confundir. Nem pra te pressionar. Só quero que você entenda e entenda de verdade: eu vou esperar. Não porque você está em dúvida, mas porque você merece tempo para deixar de estar. — A ponta de um sorriso surgiu no canto da boca dele, carregada daquela autoconfiança tranquila que parecia fazer parte de quem ele era. — Paciência é a maior virtude que um médico pode ter. — Ele inclinou um pouco o rosto. — E eu sou excelente no que faço. — O sorriso dele se ampliou, como se já soubesse o desfecho dessa história antes mesmo de mim. — Então, quando você estiver pronta, porque você vai estar, eu vou ser a decisão mais óbvia da sua vida.
A boca dele ainda estava perto demais.
O gosto de ainda estava na minha língua e era uma mistura perfeita de cerveja barata, um traço de sal e algo que era só dele. Algo quente e persistente, que não saía, não importava quantas vezes eu engolisse. E agora, com cada passo de volta para a fogueira, meu cérebro girava em loops frenéticos, tentando entender como diabos eu tinha deixado aquilo acontecer. caminhava ao meu lado, com seus passos calmos e certos, como se não houvesse nada de errado. Como se eu não tivesse acabado de quebrar a única regra que tinha colocado entre nós.
"Qualquer um, menos o ."
E eu tinha feito exatamente aquilo que ele me pediu para não fazer.
Meus dedos se contraíram sozinhos, como se pudessem ainda sentir o calor da pele de neles.
Merda.
Merda.
Merda.
— Relaxa. — A voz baixa de cortou meus pensamentos, e eu quase pulei no lugar. Ele nem sequer olhou para mim quando falou, como se soubesse exatamente o que eu estava pensando. — Eles estão todos bêbados demais para perceber qualquer coisa.
Eu engoli seco, tentando acreditar nele. Mas quando chegamos perto da fogueira, o primeiro que vi foi . Sentado na beirada do círculo de luz, sozinho, com uma garrafa meio vazia pendurada entre os dedos. Seu olhar estava fixo nas chamas e a expressão era tão silenciosa que me doía. Era o tipo exato de silêncio que ele nunca tinha.
Onde estava a garota do coque, aliás? Aquela que ele estava com ela minutos antes, quando estávamos vindo pra cá.
Meu coração deu um salto estúpido antes que eu pudesse pará-lo. O resto do grupo estava em pleno caos alcoólico: Nolan de quatro no chão, gemendo como um homem morrendo, enquanto Tessa batia levemente na cabeça dele com um limão, como se isso fosse ajudá-lo a superar a péssima ideia de ter misturado wasabi com tequila. Luke tentando (e falhando) acender um cigarro com as mãos trêmulas, resmungando algo sobre a "traição gustativa" de Nolan. Ivy dançando sozinha, seus brilhinhos faciais refletindo o fogo como um disco ball humano, completamente perdida no ritmo de uma música que só ela ouvia. E Ash, que era o único que parecia minimamente sóbrio. Ele foi o primeiro a nos notar.
— Vocês estão vivos! — ele anunciou, erguendo a garrafa em nossa direção. — Onde estavam? Perderam toda a diversão. Nolan tomou tequila com wasabi como se fosse um shot normal e rejeitou uma mulher. As coisas por aqui estão muito anormais. — Meu coração deu uma pancada forte contra as costelas. rejeitou alguém? Antes que eu pudesse processar isso direito, Ash continuou, com um sorriso malicioso: — Então? O que vocês estavam fazendo? A gente quase precisou de um médico aqui.
— Nada demais. — respondi rápido, minha voz saiu mais aguda do que o normal.
Ash riu, inclinando-se para frente.
— "Nada" não dura vinte minutos atrás de uma duna, .
Meu rosto queimou.
Foi quando finalmente olhou para nós.
Seus olhos escuros passaram de mim para , depois para o espaço minúsculo entre nossas mãos, que, merda, estavam quase se tocando, e então voltarem para a garrafa dele.
— Tão voltando do quê? — A voz dele saiu áspera, mas não pelo álcool. Pelo tom.
Ele sabia.
foi quem respondeu, descontraído demais para ser natural:
— De uma caminhada. Tinha muita gente aqui, não funciono com muitas pessoas.
levantou uma sobrancelha, mas não nos encarou.
— É mesmo.
Sim, ele sabia.
Meu estômago virou. Claro que ele sabia.
Então que ouvi uma risada aguda atrás de mim. A garota do coque estava de volta, trazendo mais duas amigas.
— ! Trouxe reforços! — Ela caiu de bunda na areia ao lado dele, jogando os braços em volta dos ombros dele como se fossem íntimos. Algo dentro de mim se contraiu. não a afastou. Na verdade, ele até sorriu. Sorriu aquele sorriso fácil, despretensioso, que eu conhecia tão bem. O sorriso que ele dava quando estava se divertindo.
, ao meu lado, esbarrou o ombro no meu, um toque rápido e discreto.
— Está com tanto medo assim que ele saiba?
— Não quero decepcionar o seu irmão, ele é o meu melhor amigo.
— Ele é adulto. Ele sabe lidar com decepções. — Tentei sorrir e não olhar na direção de , mas foi impossível. Ela ainda estava colada nele, falando alguma coisa no ouvido dela e ficando cada vez mais sugestiva. E ele ainda estava ouvindo. Talvez fingindo ouvir, mas mesmo assim, não tinha se afastado. Ele preferia estar ali e engolir o que sentia a encarar o que eu tinha feito. Eu o conhecia bem demais para não perceber a tensão em seus ombros e o jeito que ele apertava a garrafa com mais força que o necessário. Ele não estava confortável, só que, como sempre, ele fazia parecer que estava. era mestre nisso. — , se a gente vai fingir que não aconteceu nada, beleza. Eu consigo fingir, mas não quero que fique me olhando como se fosse um erro cada vez que ele respira no mesmo ambiente que a gente.
— Não foi um erro. — Falei, em um fio de voz. E não era mentira, eu acho. Pelo menos não parecia ser errado, não pareceu errado quando a boca dele estava na minha há minutos atrás.
— Ótimo, porque eu faria de novo. Mesmo que o fique irritado quando ele souber.
— Ele já sabe. — admiti. — Só não decidiu ainda o quanto vai me odiar por isso.
— Talvez ele só precise de tempo.
— Talvez.
Balancei a cabeça, mas eu sabia. não era assim, ele não funcionava com tempos, mesmo quando pedia por eles. Ele odiava silêncio, só usava isso como uma desculpa pra se afastar e quando ele fazia isso, ele não costumava voltar.
— . — Virei tão rápido na direção da voz de que quase tropecei. Ele estava em pé agora, com a garrafa esquecida no chão e os olhos fixos nos meus. E pela primeira vez naquela noite, ele não parecia indiferente. Parecia ferido. — Podemos conversar?
não se mexeu e eu também não, mas meu coração sim. Ele deu um pulo que me fez perder o ar.
Assenti, engolindo em seco, e caminhei até ele com passos lentos demais, como se o tempo fosse me salvar de alguma coisa. Ele virou de costas e começou a andar pela faixa de areia, mais afastado da fogueira, e eu o segui em silêncio.
— Aconteceu? — a voz dele saiu baixa, mas carregada, como se cada palavra tivesse espinhos e conforme ele as soltasse, a garganta dele rasgasse no processo. — Você e ele?
Levantei o rosto devagar, mas não consegui responder. Porque a resposta estava na minha cara. No meu silêncio. Nos meus olhos e na culpa estampada em cada músculo tenso do meu corpo.
— Caralho, . — Ele riu, mas foi um riso seco, sem humor nenhum. — Tinha que ser logo o ? Eu te pedi pra não ser ele, tem uns trinta caras nessa droga de luau.
— Aconteceu. — sussurrei. — Eu não planejei nada.
— Claro. Você só tropeçou e caiu na boca dele, né?
A ironia dele veio afiada, mas o que mais me doía foi o que vinha por baixo. Ele não estava bravo só por mim, ele estava bravo com ele mesmo. Fechei os olhos por um segundo, tentando respirar.
— Você não pode me cobrar isso, .
— Eu não tô cobrando. — ele retrucou, seco. — Tô só tentando entender por que, entre todas as escolhas possíveis, você foi justo na que sabia que mais ia me quebrar.
— E você? — disparei, sem pensar. — Você está com a garota do coque, lembra? Aquela que você deixou quase sentar no seu colo. Ela te conhece há cinco minutos e já tava te chamando por apelidos.
Ele me encarou como se eu tivesse perdido o direito de falar. Como se eu tivesse atravessado alguma linha invisível e tocado um lugar que eu não deveria.
— Tá com ciúmes?
— Não. — menti, rápido demais. Mal demais.
— Então qual é o problema?
— O problema é que você tá me julgando por uma coisa que você faz o tempo todo! — minha voz saiu mais alta do que eu queria. — Eu fiquei com o , sim, e você já ficou com várias outras pessoas que conhecemos. Está ficando com uma agora, então não tem que me cobrar satisfação alguma.
— Eu nunca fiquei com alguém que eu soubesse que ia te machucar.
— Ah, nossa. Um verdadeiro mártir.
Ele riu de novo, aquele mesmo riso sem graça, sem cor.
— Você não entende, né?
— Não. Eu realmente não entendo por que você tá tão puto se, no fundo, você nem se importa. — Ele ficou calado no mesmo minuto, me olhando com raiva, como se eu tivesse ofendido ele, pior, como se eu tivesse realmente magoado ele. — Não foi por você. Eu não pensei em você quando…
— É. Isso tá bem claro. — ele cortou, e então virou de costas e deu alguns passos, mas então parou. As mãos dele foram aos quadris, depois subiram bagunçando o cabelo. Ele respirou fundo, o tipo de respiração que a gente solta quando está tentando não gritar. Quando está tentando não quebrar alguma coisa. Alguém. — Quer saber? — Ele se virou devagar para mim, com os olhos brilhando mesmo num lugar escuro. — Você tem razão, . Eu não devia cobrar. Nem ligar. Nem sentir porra nenhuma. Só que eu sinto. E não tem um caralho de botão pra desligar isso, por mais que eu queira. — A voz dele subiu arranhando, de ódio talvez.
Minhas mãos tremeram.
— O que?
— Eu sinto desde aquele maldito segundo ano. Eu sinto desde que você me olhou de um jeito que eu não merecia. Desde que riu de uma piada idiota minha e eu pensei, por um segundo, que talvez eu pudesse ser alguém melhor por você, mas eu não sou. E isso me irrita, sim.
— …
— Não é… — ele começou, mas a voz falhou. Engoliu seco, e tentou de novo, mais baixo. — Não é porque você ficou com alguém. Eu aguentaria isso. Juro que aguentaria. É porque foi com ele. Você sabe o que o é pra mim. Sabe. — A voz saiu mais baixa, como se ele estivesse tentando manter o controle e, mesmo assim, perdendo aos poucos. — Sabe que eu cheguei depois. Depois das medalhas dele. Depois das notas que eu me matava pra alcançar e nunca eram suficientes. Depois dos sorrisos certos, das palavras certas… Meus pais nunca disseram que eu era um erro. Só deixaram claro que eu era um quase. Quase tão bom quanto o . Quase tão gentil. Quase. E tudo bem. A gente aprende a aceitar, porque é tudo que tem. Mas você… você era o único lugar onde isso não existia. O único lugar onde eu não precisava ser ninguém além de mim. Onde eu não era comparação. Onde eu achava que, talvez, eu fosse o suficiente.
— Eu não…
— Eu sou o filho que dá trabalho. O aluno que não presta atenção. O cara que sente demais e não sabe onde guardar tudo. Eu passo o tempo todo tentando não ser um fardo. Tentando parecer inteiro, mas eu não sou. Eu não sou inteiro. Eu sou o que sobrou pra eu ser depois dele. Você era o único lugar que eu olhava e me sentia suficiente. Não o irmão que sobrou, não a decepção, não a segunda escolha, mas agora nem isso. Agora, de novo, eu olho e tudo que eu vejo é o . E sabe o pior? Você sabia disso. E ele provavelmente é mesmo melhor que eu. Ele merece você. Eu não. Então você tá certa. Você tá completamente certa. Eu nem sei o motivo de eu estar falando isso. Todo mundo sempre escolhe o , no final. Por que você seria diferente? — ele balançou a cabeça, com um riso amargo nos lábios, controlando o que diria. Eu não consegui responder, acho que congelei em alguns minutos. Porque não era mentira, eu sabia. Sabia das noites em que ele fingia não ligar quando os pais cancelavam o jantar porque o tinha um torneio. Sabia do álbum de fotos na sala que pulava direto da infância do para a faculdade, como se aqueles anos no meio, os dele, não tivessem existido. Sabia da formatura em que ele olhou para as cadeiras vazias dos pais por tanto tempo que eu tive que desviar o olhar. Sabia do de quinze anos, segurando o troféu de primeiro lugar com um sorriso que não chegava aos olhos enquanto o pai abraçava o . Sabia do de dezoito, bebendo até esquecer quando os pais não apareceram no seu recital porque o tinha uma consulta médica de rotina. Sabia do de vinte e dois, parado na porta do quarto de infância dele, olhando para as paredes cobertas de conquistas do irmão. E o pior? Sabia que, em cada uma dessas vezes, ele engolia o desapontamento e dizia "tudo bem", como se acreditasse mesmo nisso. Como se merecesse sempre as migalhas. Eu lembrava do modo como ele se encolhia quando alguém mencionava o nome do , como se esperasse sempre o golpe e, agora, ele estava me entregando a mesma dor. E eu não tinha como provar que ele estava errado. Porque no fundo, ele não estava.
Ele virou de costas, com os ombros tensos, segurando algo muito maior que raiva.
— … — Minha voz saiu um sussurro.
— Eu passei a minha vida toda tentando competir com ele e perdendo. Não vou mais fazer isso. Então volta pra ele. — Ele não olhou para trás. — Sério. Vai. Fica com ele. Beija ele. Dorme com ele. Se apaixone por ele. Faz o que quiser, . Só não olha mais pra mim desse jeito.
Passei alguns minutos em silêncio, vendo virar as costas e sair, antes que ele se afastasse totalmente, se aproximou e apareceu pela pouca luz natural que a praia ainda tinha.
— Tá tudo bem? — Ele perguntou, mas seus olhos iam de mim para .
olhou pra ele, depois pra mim. E então, com um sorriso que não chegava nem perto dos olhos, ele fez o que sempre fez.
— Tá tudo perfeito.
Antes que eu pudesse responder, antes que eu pudesse correr atrás, antes que qualquer um de nós tivesse a chance de consertar algo, ele foi embora.
me olhou, com seus dedos se fechando e abrindo como se ele não soubesse se devia me tocar ou me deixar em pedaços.
— Quer que eu vá atrás dele?
— Não. — Minha voz saiu um fio.
Porque não tinha mais o que consertar.
Pela primeira vez em dez anos, Beckett tinha virado as costas pra mim.
Quando a luz da janela entrou pela cortina me fazendo fechar os olhos tão forte que doeu, eu soube que já era manhã. Da hora que tínhamos chegado do luau até agora, que devia ser umas cinco horas depois. Eu tinha dormido, ou melhor, tentado dormir, no quarto da Tessa, enrolada em um emaranhado de lençóis e pensamentos que não paravam de doer. Tessa roncava levemente do meu lado, com um braço jogado sobre os olhos para bloquear o sol, olhei para ela agradecendo mentalmente pela cama que ela tinha cedido e, em seguida eu me arrastei para fora do colchão, com cuidado, evitando acordá-la.
Depois de ontem, eu imaginei que fosse ser impossível dormir com o e, no mínimo, de péssimo mal gosto dormir com o . Então fiquei acordada até que a Tessa fosse pra cama e perguntei se podia dormir com ela. Quando levantei, a dor de cabeça veio forte e dolorosa. Meu corpo pesava como se tivesse sido esmagado por um caminhão, mas não era um caminhão. Era ele.
.
Era a discussão que tivemos, as palavras que não poderiam ser desditas. O jeito que ele tinha virado as costas para mim, como se eu fosse um fantasma que ele havia decidido ignorar.
Saí do quarto em silêncio, com os pés descalços afundando no carpete do corredor. A casa estava estranhamente quieta, o único audível era alguém roncando no sofá da sala. Pelo barulho, provavelmente era Ash. Eu esbocei um meio sorriso quando a porta do se abriu. Queria pedir desculpas, queria dizer que ambos fomos idiotas e que não podíamos continuar assim, mas não foi ele que saiu do quarto. Foi a loira. A mesma do coque bagunçado, da risada aguda, da mão no joelho dele. Agora ela estava com o cabelo ainda mais desalinhado, os lábios estavam inchados e, no corpo, era a camiseta dele que ela vestia. A camiseta que eu tinha dado a ele no aniversário de 19 anos. Vestida como um vestido, nela.
Ela me viu, parou no meio do corredor com os olhos arregalados por alguns segundos e então sorriu. Simpática.
— Bom dia — ela disse, com a voz rouca de uma noite que eu não queria imaginar.
Eu não respondi. Não consegui. Meu corpo inteiro congelou, como se alguém tivesse despejado água gelada nas minhas veias. A loira passou por mim com o cheiro do nela, aquele maldito shampoo de menta e algo que era só dele, saindo dela em ondas. A porta do quarto ainda estava entreaberta.
E eu tentei não ver, tentei controlar o impulso de olhar lá pra dentro. De ver como ele estava, mas não consegui. Eu olhei.
estava sentado na beira da cama, com a cabeça entre as mãos. Ombros estavam tensos. As costas arqueadas como se carregassem o peso do mundo. Ele levantou a cabeça devagar, como se sentisse meu olhar e nossos olhos se encontraram através do corredor.
E pela primeira vez em toda nossa amizade, ele não disse nada.
Não fez graça.
Não tentou explicar.
Não correu atrás de mim.
Ele só me olhou, com uma expressão que eu nunca tinha visto antes: vazia. Como se eu fosse uma estranha. Como se ontem à noite não tivéssemos gritado, em voz baixa, verdades que doíam. Como se nada daquilo importasse. Minhas mãos tremeram. E então, sem pensar, eu virei e desci as escadas correndo, com os olhos ardendo e um grito preso na garganta.
Porque era isso.
O fim.
A última peça do quebra-cabeça que nunca tivemos coragem de montar.
tinha escolhido seu jeito de me responder.
E a sua resposta era não.
Minhas pernas falharam no meio da escada e eu me sentei num degrau, sentindo meus joelhos dobrarem sozinhos e as mãos escorregarem pelo corrimão como se ele fosse a única coisa que me impedisse de desmoronar de vez. Respirei fundo, um, duas vezes, tentando engolir o nó que tomava conta de minha garganta e suspirei.
Esfreguei os olhos com força, como se pudesse apagar a imagem daquela garota saindo do quarto dele. Da nossa cabana. Do lugar onde, em todos os verões anteriores, eu e ficávamos até tarde da noite rindo de coisas idiotas, contando segredos no escuro. Quando me levantei, minhas pernas ainda tremiam, mas pelo menos conseguia fingir que estava inteira. A cozinha estava iluminada pelo sol da manhã, e o cheiro de café e bacon quase me fez esquecer por um segundo.
estava de costas para mim, mexendo algo na frigideira. Ele usava uma camiseta surrada e um short que provavelmente era do Nolan, e seu cabelo estava desgrenhado, como se tivesse passado a mão nele mil vezes.
— Bom dia — eu disse, forçando minha voz a soar normal.
Ele se virou rápido, seus os olhos escanearam meu rosto antes que eu pudesse disfarçar completamente.
— Ressaca? — perguntou, jogando um pedaço de bacon na boca.
— Mortal.
— Bem, eu fiz a cura. — Ele apontou para o balcão, onde um prato com torradas, ovos mexidos e até fatias de abacate (onde raios ele tinha arrumado abacate?) estava arrumado com um cuidado que não combinava com o caos do resto da cozinha.
— Pra mim?
— Pra quem mais? O Nolan só come cereal estragado, e a Ivy jurou que tá de detox de glúten. — Ele inclinou a cabeça para a varanda. — Vamos lá fora?
Eu abri a boca para recusar. Para dizer que não tinha fome. Para correr de volta pro quarto e enterrar minha cara no travesseiro até o verão acabar, mas então lembrei da loira. Lembrei de virando as costas para mim. Lembrei dele me olhando com vazio e silêncio.
— Vamos — eu disse, mais rápido do que pretendia.
não comentou mais nada. Apenas pegou os dois pratos e uma garrafa de suco, e eu o segui até a varanda, onde o mar brilhava traiçoeiramente feliz, como se ele não tivesse me visto perder a única coisa que eu tive medo em dez anos. Ele colocou meu prato na minha frente com um cuidado que me fez sentir exposta.
— Coma — ele ordenou, sentando-se na cadeira ao meu lado em vez de na frente. — Ou eu conto pra todo mundo que você chorou vendo Os Smurfs ontem.
Eu dei uma risada curta, pegando o garfo.
— Eu estava bêbada.
— Você citou o filme inteiro. Em ordem.
O primeiro gole de suco azedo me fez fazer careta pela ausência de açúcar, mas pelo menos me distraiu por um segundo. observou eu comer em silêncio.
— Eu não sei o teor da briga de ontem, mas pareceu séria e, se eu conheço bem o meu irmão, ele vai se arrepender — ele disse de repente, sem rodeios.
Eu quase engasguei.
— Não quero falar sobre isso.
— Tá. — Ele assentiu, fácil demais. Era uma armadilha. Eu sabia. Ele sabia. Mas quando eu olhei para ele, quando realmente olhei, vi que não era piedade nos olhos dele. Era apenas paciência. Como se ele estivesse disposto a fingir que aquele café da manhã era normal, se era isso que eu precisava.
— O abacate tá bom — eu murmurei, esfaqueando um pedaço com o garfo.
sorriu, um daqueles sorrisos pequenos que faziam cócegas no meu estômago.
— Eu sei. — O sol da manhã aquecia meu rosto enquanto eu empurrava os últimos pedaços de abacate no prato. observava em silêncio, seus dedos agora estavam parados sobre a mesa. O som das ondas preenchia o vazio entre nós, mas não era desconfortável. Era estranhamente pacífico. — Você sabe o que eu acho? — quebrou o silêncio, inclinando-se para frente com os cotovelos na mesa.
— Que eu devia ter comido menos bacon? — brinquei, evitando seu olhar.
Ele riu, um som baixo e quente e delicioso de ouvir.
— Que a gente deveria falar sobre o que aconteceu.
Meu garfo pausou no ar por um segundo antes de eu colocá-lo no prato.
— O café da manhã? Porque eu aprovo. Nota dez.
— . — Sua voz era suave, mas firme. — O beijo.
Ah.
Eu respirei fundo, olhando para o mar.
— Foi um bom beijo.
— Foi um ótimo beijo.
Meu rosto esquentou, mas eu não consegui evitar um sorriso pequeno.
— Você tá contando pontos agora?
— Só dizendo a verdade. — Ele encostou-se na cadeira e estudando meu rosto. — E se depender de mim, não vai ser só um beijo.
O coração acelerou no meu peito. Eu devia ter me sentido nervosa, mas havia algo na maneira como ele falava, direto, sem joguinhos, que me deixou mais tranquila do que eu esperava.
— …
— Eu não sou o . — Ele interrompeu, como se lesse meus pensamentos. — Não vou te tratar como se você fosse feita de vidro. — Seus olhos encontraram os meus. — Mas também não vou te pressionar.
Eu engoli seco.
— E o que você quer, exatamente?
— Você. — A resposta saiu sem hesitação, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. — Mas só se você me quiser também. Sem segundas intenções, sem usar alguém pra esquecer outro.
A honestidade dele doía um pouco. Era como se ele estivesse me dando uma saída, caso eu precisasse, mas deixando claro que entrar nela era uma opção minha. Claro, eu sei que ele também falava isso pela Maya, mas ainda assim, era muito acolhedor.
— Eu não te usaria assim.
— Eu sei. — Ele sorriu. — Mas eu precisava dizer. Porque eu gosto de você, . E não é só porque você é engraçada, ou linda, ou porque cita filmes ruins quando tá bêbada. — Ele inclinou-se para frente novamente, com seus lindos olhos lindamente sérios. — É porque quando eu te beijei, você fez alguma coisa cinza ganhar cor de novo. E eu quero mais disso.
Meu coração deu uma guinada violenta no peito. As palavras dele tinham me atingido como um raio. "Alguma coisa cinza ganhar cor de novo". Como ele conseguia ver isso? Como ele sabia exatamente o que dizer para fazer meus dedos tremerem e meu peito apertar de um jeito que não era dor?
— ... — minha voz saiu um sopro. Ele não se moveu. Permaneceu ali, com os olhos fixos nos meus, esperando. Sem pressa. Sem exigências. Apenas oferecendo.
Apenas dizendo “Eu espero. Eu posso esperar”.
— Eu não sei se consigo ser justa com você agora — admiti, pousando minhas mãos no meu colo, ligeiramente envergonhada.
Os lábios dele curvaram num meio-sorriso que fazia aparecer uma pequena covinha no lado esquerdo.
— Justiça é um conceito relativo — ele disse, com a voz suave, mas firme. — Se você der a mesma caixa para alguém de 1,70m e, em seguida, oferecer uma igual para outra pessoa de 1,50m, tecnicamente é justo, mas completamente desigual. — Fez uma pausa dramática. — Eu prefiro a honestidade à justiça. — Ele riu, baixo e rouco, e então fez algo que me tirou o fôlego. levantou minha mão e pressionou os lábios contra meus dedos, um beijo tão leve que poderia ter sido imaginado. — Bom, vamos começar devagar — murmurou contra minha pele. — Primeiro passo: você me ajuda a lavar essa louça toda.
— Isso é um date? — provoquei, sentindo meu rosto esquentar.
Ele soltou uma risada baixa, fazendo meu estômago revirar um pouco. Ele sempre tinha sido tão bonito assim quando sorria?
— É um teste de compatibilidade doméstica, na verdade. Se você passar, aí sim marcamos um date. Eu não posso ser perfeito, preciso ter um pouco de machismo dentro de mim para eu ser um homem. — Eu joguei um guardanapo nele, e ele riu de verdade agora, aquele som que fazia formigar a minha coluna.
Quando nos levantamos para levar os pratos, nossos braços se esbarraram, ele não se afastou. E eu também não.
— Quantos testes de lavar louça eu preciso ter para me formar, doutor?
Ele se apoiou no balcão, me encarando com diversão.
— Depende. — Seus olhos percorreram meu rosto. — Você é aluna aplicada?
— A pior.
— Perfeito. — Ele pegou o último prato das minhas mãos, fazendo com que nossos dedos se tocassem segundos mais que o necessário. — Assim eu tenho desculpa pra te dar aulas particulares.
e eu voltamos da varanda, mas o silêncio ainda era um pouco gritante quanto entramos. Um silêncio específico, daquele que só existe quando algo quebra e o clima que se segue é constrangedor. Sem que ninguém saiba exatamente se pede desculpas ou se recolhe os cacos. É quase uma compreensão silenciosa de que, dali pra frente, as coisas mudariam um pouco.
Ivy estava na cozinha agora, ela despejava tequila numa caneca de café como se fosse a coisa mais normal do mundo. Ela levantou os olhos quando entramos e eu vi o momento exato que ela revirou os olhos ao ver minhas mãos entrelaçadas com a de . Nem eu tinha percebido aquilo até alguém ter notado. Eu acho.
— Huh. — Ela tomou um gole direto da caneca. — Achei que iam demorar mais.
soltou minha mão lentamente, como se não quisesse fazer isso e fizesse apenas por não ter outra opção. Ele foi até a geladeira.
— Alguém viu meu suco?
— O Nolan usou pra fazer um drink às cinco da manhã. — Tessa respondeu, limpando a boca com o braço depois de tomar alguma coisa e fazer uma caretra esquisita. Algum de nós seriamente poderia ter um coma alcoólico a qualquer momento. — Disse que era "experimental". Ele tá vomitando no banheiro do andar de cima agora, se você quiser cobrar.
Eu devia ter rido. Devia ter feito alguma piada, mas meus olhos foram puxados como um ímã para as escadas. Para o quarto que eu sabia que era o dele.
.
Tessa seguiu meu olhar e seu rosto mudou. Demorou alguns minutos até que saísse, Ivy também e ficássemos apenas eu e ela na cozinha.
— Ele saiu.
— Hm?
— . — Ela colocou a caneca no balcão com um clique seco. — Pegou as coisas e foi embora tipo... dez minutos atrás. Disse pra gente não esperar ele pro almoço. — Eu não respondi, apenas peguei a minha xícara e enchi com o café quente, em seguida peguei um pouco do vinho, sem decidir exatamente por qual começaria. — Álcool às 10h da manhã? — Ela perguntou, pegando uma xícara limpa. — Desistiu do seu princípio de só beber depois do almoço?
— Eu desisti de vários princípios essa semana.
Ela não respondeu. Apenas encheu sua xícara e esperou. Era assim que Tessa funcionava, ela dava espaço para as palavras nascerem por conta própria e não forçava até que elas saíssem. O café queimou minha língua, mas eu engoli de qualquer jeito. A dor física era bem-vinda hoje. Tess continuou me olhando, como se dissesse que estava pronta para me ouvir a qualquer momento e eu respirei fundo, relaxando o corpo e encolhendo um pouco os ombros. Odiava ter uma psicóloga/psiquiatra em nosso grupo, às vezes. Tessa amava tanto a mente humana que, por algum motivo maluco, decidiu fazer as duas faculdades e a residência.
— Ele deixou ela usar minha camisa — eu disse para a parede. — A que eu dei no aniversário dele. — Tessa assentiu, girando a xícara entre as mãos. — Você viu?
— Vi ela saindo vestida com a camisa. — Tessa tomou um gole lento antes de eu falar.
— Ele me odeia.
Ela colocou a xícara no balcão com cuidado excessivo.
— Você realmente acredita nisso?
O café tinha um gosto amargo demais hoje, então joguei o resto na pia.
— Em que mais eu deveria acreditar? Ele transou com uma desconhecida na minha cama, Tessa. Na MINHA cama.
— Na cama de vocês dois. — ela corrigiu suavemente. — Vocês estão dividindo o quarto, . Tecnicamente é a cama dele também. Além disso, foi você que escolheu não dormir lá essa noite.
— Isso importa? — Minha voz ecoou na cozinha vazia.
— Vamos começar de novo. Você está brava porque o transou com alguém.
— Não.
— Então está brava porque foi na cama que vocês dividem.
— Não é exatamente isso.
— Então me explica. — Ela inclinou a cabeça, fixando os olhos castanhos nos meus. — Me explica por que essa camisa é diferente de todas as outras que ele já deixou garotas usarem.
— Porque fui eu que dei essa a ele. É especial.
Ela se levantou, pegou a garrafa de vinho meio vazia do balcão e colocou entre nós, voltando a se sentar.
— Vamos brincar de psicologia.
— Não estou no humor, Tess.
— Humor não cura feridas, psicologia sim. — Ela girou a garrafa entre as mãos. — Essa garrafa é a camisa. — Tirou o rótulo rasgado e colocou em cima da mesa. — Isso é o que ela representa.
Eu olhei para o papel descolado, confusa.
— Você tá bêbada?
— Só um pouco. — Ela sorriu. — Mas isso é irrelevante. O ponto é: você não está brava pelo objeto. Está brava pelo que ele significa.
— Eu sei o que significa.
— Então me diga.
— Significa que ele não liga! Que ele… — Minha voz quebrou.
Tessa esperou. Quando percebeu que eu não terminaria, ela pegou o rótulo e rasgou ao meio.
— Vamos lá, . Você é inteligente demais para não ver. Ele não fez isso porque não liga. Fez porque liga DEMAIS.
O ar escapou dos meus pulmões.
— Isso não faz sentido.
— Faz todo sentido. — Ela apontou para a garrafa. — Quando você dá algo importante para alguém como , você está dando uma arma. Algo que ele pode usar contra si mesmo quando acreditar que merece sofrer. — Eu não a respondi. Ela permaneceu em silêncio por alguns segundos, então continuou. — Você sabe que aquele idiota nunca foi de ficar exibindo as conquistas, não sabe?
Uma gargalhada amarga escapou dos meus lábios.
— Ele tá fazendo um ótimo trabalho agora então.
Tessa não se mexeu. Apenas pegou a garrafa de vinho e dois copos. Ela encheu um deles com água, ignorando o vinho e empurrou pra mim.
— Ele não fez aquilo por você, .
Eu ri, de novo um tom seco.
— Ah, não? Porque me pareceu bem pessoal.
— É pessoal, mas não é sobre você. — Ela inclinou-se para frente, com os cotovelos apoiados na mesa. — está com raiva dele mesmo. Sempre esteve.
A água ficou pesada na minha língua.
— Ele transou com uma garota na nossa cama, Tessa. E deixou ela usar a minha camisa.
— E depois saiu correndo como se o demônio estivesse atrás dele. — Ela ergueu uma sobrancelha. — Você realmente acha que isso foi sobre você? — Eu abri a boca para responder, mas ela continuou, deixando sua voz assumir o tom profissional que, provavelmente, usava em consultório. — Vamos lá. — Ela se sentou e esperou que eu fizesse o mesmo. Eu fiz. Ficamos as duas sentadas no chão da cozinha. — Você sabe o que eu percebi quando fiz psiquiatria? — Ela não esperou minha resposta. — Que pessoas dificilmente machucam os outros por ódio. Quase sempre é por desespero. — Eu fiquei quieta, encolhida, bebendo a água que ela me deu e sentindo-a queimar minha garganta. — Eu já te contei sobre o Owen?
Olhei para Tessa, confusa. O nome não significava nada para mim, muito menos naquele momento em que meu peito ainda doía pela afronta daquela camisa vestida em outra mulher.
— Quem?
Tessa virou o vinho no copo, com os olhos perdidos no líquido rubro como se buscasse as palavras certas no fundo do cristal.
— Owen foi um menino de nove anos que atendi durante meu estágio na psiquiatria infantil. Ele é diabético tipo 1 desde os quatro. — Ela fez uma pausa. — Os pais se separaram seis meses após o diagnóstico. O pai não suportou a rotina de cuidados e foi embora. A mãe... bem, a mãe ficou, mas não do jeito que o menino precisava. Mesmo assim, ela tentou. — Tessa passou o dedo pela borda do copo. — Trabalhava como caixa de supermercado durante o dia, aplicava as insulinas à noite e pegava alguns extras sempre que podia. Até que ele teve uma crise tão forte que precisou ser internado. Foi quando ela contratou uma enfermeira particular.
— Esse deveria ser o final feliz da história.
— Deveria. — Tessa concordou, seca. — Até o dia em que ele foi internado novamente, desta vez na UTI. Quase entrou em coma. Quando cheguei, ele estava pálido demais para uma criança e os médicos perceberam que ele tinha marcas de agulhas por todo o corpo, algumas tão profundas que já mostravam sinais de necrose. Sabe o que ele fez quando acordou? Chorou. — Meus dedos se apertaram involuntariamente em torno do copo. — Eu perguntei pra ele o que aconteceu e o motivo dele estar chorando. Ele disse que estava chorando porque, nas palavras dele, “agora vou custar ainda mais dinheiro aos meus pais”. — A voz de Tessa baixou para pouco mais que um sussurro. — Ele me disse, com aquela voz infantil, que estava praticando sozinho. Que tinha aplicado cinco doses seguidas naquela tarde porque, se não precisasse mais dos medicamentos, se ele não estivesse mais ali, os pais dele parariam de brigar por causa dele. Da doença dele.
O ar pareceu sair completamente dos meus pulmões.
— Quê?
— Ele calculou que o salário da enfermeira equivalia a três meses do aluguel de casa. Porque ouviu a mãe chorando no telefone, dizendo que o pai se recusava a pagar as contas médicas. — Ela fechou os olhos por um instante. — Nove anos, . Nove anos e ele decidiu que valia mais a pena arriscar morrer do que continuar sendo um fardo para os pais. Owen achou que valia menos do que três meses de aluguel. Ele não ficou com raiva do pai por ter ido embora, nem da mãe por ter chorado tantas vezes na frente dele. Ele ficou com raiva dele, porque se viu como o causador disso tudo. — Tessa colocou a garrafa e os dois copos no chão, pegou um guardanapo e o partiu em dois pedaços. Ela tirou a caneta que usava como prendedor no cabelo e, com ela, escreveu “amor” em um papel. — Vamos supor que a garrafa é o pai, o copo direito é o Owen e o copo esquerdo representa a saída do pai dele de casa. — Ela colou o papel "amor" na garrafa do pai, em seguida desenhou uma seta para o lado, indicando o copo que representava a saída do homem. — O que acontece quando todo o amor vai para um lado?
— O outro lado fica vazio.
— Não. — Ela pegou o outro papel e escreveu “culpa”. — O outro lado se enche do que estiver disponível. E para uma criança é mais fácil acreditar que o problema está nela do que entender a complexidade de que seus pais são falhos. Você lembra o que o fez quando o pai dele faltou à peça escolar dele pra assistir ao jogo do ?
Eu engoli seco, lembrando do papel amassado no bolso dele.
— Ele jogou os panfletos da peça fora.
— Exato. Ele não confrontou o pai, não sabotou o jogo do irmão, não brigou com a mãe. Apenas decidiu que sua peça não tinha sido boa o suficiente para valer a pena. — O pedaço dos guardanapos caíram sobre o chão. — E agora — Ela continuou. — Quando você fica com o , não sabe odiar você ou o irmão pela traição que ele sente. Ele só sabe odiar a parte dele que acredita não ser digna de você. O Owen podia ter culpado o pai, poderia ter exigido cuidados da mãe, assim como o podia ter descontado tudo no ou nos pais dele, mas nenhum dos dois fez nada disso. Sabe por quê? — Eu não respondi e esperei ela continuar. — Porque crianças como eles não aprendem a exigir amor, elas aprendem a se odiarem por precisar dele. Quando uma criança não é amada como gostaria, ela não aprende a odiar os pais. Isso exigiria uma complexidade emocional que crianças não têm. Ela aprende a odiar a si mesma. Porque se os pais não as amam, mas há outras crianças sendo amadas no mundo, então é porque o problema está nelas. Essas crianças se tornam pessoas e pessoas negligenciadas não aprendem a odiar quem não as ama. Aprendem a odiar a si mesmas por não serem amáveis. não está bravo com você por ter ficado com o e nem com o por ele ser quem é. Ele está bravo consigo mesmo por ainda não ser o suficiente. Quando você ficou com o , na cabecinha oca do , você só confirmou o que ele sempre soube: que o copo dele está vazio porque merece estar.
O líquido gelado escorria pelo meu copo, transparente e amargo, assim como Tessa estava sendo agora.
— Aquela camisa não é só uma camisa, é um pedaço do seu afeto. — Ela girou a garrafa mais uma vez, devagar. — E Beckett só sabe lidar com afeto de duas maneiras: destruindo-o antes que possa ser retirado dele ou provando que é indigno. Que merece perder. Como o Owen, que merecia aprender a aplicar insulinas sozinho. Como todas as crianças não amadas que acreditam merecer seu próprio sofrimento. Owen tinha as seringas, tinha todas as brigas que ele comprou sabendo que perderia. Ele nunca brigou com o , nunca desrespeitou os pais, mas você viu as cicatrizes que ele deixou nos próprios braços no ensino médio. — Meu estômago revirou. Eu lembrava perfeitamente. — Ele não quer machucar você, . Ele quer se punir. É assim que crianças não amadas viram adultos. Eles aprendem a sangrar antes que alguém as corte. Se ele quebrar o que vocês tem primeiro, quando você for embora, vai doer menos. não sabe pedir para ser amado, ele só sabe como provar que não precisa.
— Isso é horrível.
— Sim, mas também é a única linguagem que eles conhecem. Crianças negligenciadas seguem um padrão. Elas acreditam que o problema está nelas e, depois, começam a se punir por serem o problema. Então repetem tudo de novo, até morrer ou até alguém notar o padrão. Ele quebrou as próprias coisas várias vezes. Já machucou a si mesmo. E agora…
— Agora ele está me machucando.
— Não. — Ela sacudiu a cabeça. — Ele está te mostrando como é ser ele. E você sabe disso, porque você conhece ele melhor do que qualquer um.
Eu olhei para o mar, imaginando em algum lugar da cidade, provavelmente tão destruído quanto eu.
— nunca deixou ninguém chegar perto o suficiente para ajudá-lo.
— Exceto você. — Ela se levantou devagar, pegando os copos vazios. — nunca viu quebrar as próprias coisas depois que o pai esquecia os jogos dele. O pai dele nunca o encontrou bêbado num galpão, destruindo as próprias mãos. E a mãe dele nunca viu que ele decorava o cardápio do restaurante preferido dela, só pra ter assunto nas raras vezes em que ela lembrava que tinha dois filhos. Ele não confia em ninguém como confia em você. — Tessa continuou. — E isso faz de você a única testemunha do que existe dentro dele. Do bonito, do feio e do que sobra quando tudo quebra. Você sabe por que ele deixou aquela garota usar sua camisa? Porque ele precisava provar pra si mesmo que aquilo era só pano. Que o que vocês têm é só amizade. Porque ele precisa disso. Precisa acreditar que não ama você. Porque é isso. Ele te ama, .
O vento parou. O som das ondas desapareceu. Até o tilintar do copo de vidro na pia pareceu se calar quando Tessa falou. Três palavras. Três palavras que atravessaram meu peito como facas.
— Não. — A resposta saiu automática, um padrão por anos de quase-ditos e olhares desviados. — Nós somos apenas...
— Psicóloga, lembra? — Tessa interceptou, erguendo um dedo. — E antes de ser psicóloga, fui colega de quarto de por dois anos. Você sabe quantas garotas ele levou para casa e chamou pelo nome errado? Seu nome? — Ela não me deu tempo de responder. — Você realmente nunca percebeu que ele só come chocolate amargo porque você deixou um tablete na mochila dele naquela excursão da escola? Que ele usa aquele perfume horrível, que todo mundo detesta, aliás, só porque você comentou uma vez, distraída, que gostava do cheiro?
Minhas mãos tremeram.
Eram pequenos detalhes.
Coisas que eu atribuíra ao acaso, aos hábitos, à amizade, mas nunca ao sentimento.
— Ele não...
— Não o quê? Não te ama assim? — Tessa soltou uma risada curta. — , ele comprou essa casa. — Ela abriu os braços, indicando a casa de praia ao redor. — Essa aqui. Só porque, um dia, você disse que queria acordar e ver o mar. Ele achou essa vista, esse lugar, e todo ano, ele finge que é alugada. Todo ano ele encena essa farsa de 'aluguel disputado', de 'sorteio para os quartos'. — Tessa continuou. — Mas você já reparou que, não importa como, você sempre acaba no quarto principal? Aquele com vista perfeita para o nascer do sol sobre as ondas? Isso acontece porque aquele quarto sempre foi seu, ele foi feito para você. — Senti minha garganta fechar. — Ele passa o ano inteiro esperando por esses dias. — Tessa disse, mais suave agora. — E não é pelo mar, nem pelo descanso, nem por nós. É por você. Porque, por alguns dias, você está aqui dormindo com ele, tendo a vista que sempre quis. E, mesmo que finjam que são só amigos, mesmo que se magoem, mesmo que se evitem... ele pode respirar. Pode te ver dormindo no quarto que ele projetou para você. — O primeiro soluço escapou antes que eu pudesse conter. — Ele acha que se você descobrir o quanto ele precisa de você, você vai sair correndo. — Sua voz era quase um sussurro. — Depois de uma vida sendo o segundo em tudo, ele aprendeu a ser o primeiro em ir embora. Ele não sabe o que fazer com amor e isso não é sua responsabilidade, mas é o que ele sente por você.
— Então o que eu faço?
— Você decide se vai embora de vez ou se fica e ajuda ele a parar de se destruir. — Ela sorriu, triste. — Mas esse meio-termo é o que está matando vocês dois.
— Tá tudo bem aqui?
O chão pareceu inclinar sob meus pés. olhou pra mim, mas eu virei o rosto antes que ele pudesse ver qualquer coisa, antes que ele pudesse ver as lágrimas, antes que ele pudesse enxergar através da pele o nó em minha garganta, antes que ele me perguntasse o motivo e eu não soubesse responder ou respondesse bem demais.
— Tudo bem — menti, pegando uma torrada do prato que ainda estava na mesa.
Tessa e trocaram um olhar que eu ignorei solenemente e, como se tudo que tivesse que acontecer acontecesse nos piores momentos, a porta se abriu. Todos nós nos viramos de uma vez, mas não era . Era a loira. A mesma do coque, da camiseta, do sorriso no corredor. Ela parou na entrada, olhando pra nós como se tivesse acabado de interromper um funeral.
— Eu, ah... esqueci minha bolsa — ela disse, hesitante.
Ninguém respondeu.
Tessa foi a primeira a se mexer, pegando uma bolsa de praia rosa chocante do sofá e jogando pra loira com força suficiente para fazer ela recuar.
— Aqui.
A loira pegou a bolsa e seus olhos piscaram entre nós até pousarem em mim. Havia algo ali. Culpa? Não sei. O que quer que fosse, fez meu estômago revirar. Pelo menos ela já estava sem a camisa dele. Ela abriu a boca pra falar alguma coisa, mas Tessa deu um passo à frente.
— A porta tá ali.
A loira hesitou por um segundo antes de sair, deixando a casa mais vazia do que antes.
— Como que pode o gosto dele pra mulheres só piorar?
Eu ri, sem graça.
— Não olhem para mim, eu sou o irmão menos surtado. — afirmou, colocando a louça na pia. Em seguida, ele me olhou. A voz dele me puxou de volta à realidade. Eu não percebi muito bem quando ele pegou uma garrafa de água, mas ele já estava na minha frente segurando uma, com um sorriso animado demais para seja lá que horas for. — Quer correr comigo?
— Correr? Tipo, voluntariamente? Sem nenhum urso me perseguindo? — Eu ergui uma sobrancelha.
riu, e o som rouco que saia de forma suave da sua boca já começava a se tornar familiar.
— Posso fingir que sou um urso se isso ajudar.
— Que tipo de urso você seria? — brinquei, me levantando com um suspiro exagerado.
— Não sei se seria o momento apropriado para responder.
Ele respondeu brincalhão e Tessa fez um barulho de engasgo com seu drink.
— Meu Deus, vocês vão me fazer vomitar.
ignorou ela, ainda me encarando.
— Então? Vamos?
Por um momento, pensei em recusar. Em dizer que não estava no clima. Em enfiar a cara num travesseiro e continuar pensando em como vinha fazendo desde que acordei, em tirar horas e horas do meu dia para que eu pudesse assimilar toda a conversa com Tess, mas quando olhei para e para seu sorriso fácil, para os músculos tensos de quem estava me dando uma saída para a minha própria cabeça, algo dentro de mim se rendeu. Eu podia ficar pensando em e na veracidade das informações de Tessa, mas fazer isso seria lidar com algo que eu não estava pronta sem me dar tempo de assimilar isso na minha mente.
— Só avisando que eu corro devagar — eu disse, pegando a garrafa d'água das mãos dele. — E reclamo muito.
— Perfeito. — Ele estendeu a mão e me puxou, fazendo com que eu me levantasse completamente. Em segundos eu já estava em pé, próxima a bancada.
— Vou me vestir.
Eu me arrumei no quarto com mais cuidado do que gostaria de admitir. Vesti a legging preta justa e o top esportivo, e, claro, o tênis que eu mal tinha usado nas férias. Quando me vi no espelho, quase rolei os olhos para mim mesma.
Tá, . Você está se arrumando pra correr.
Mas quando saí do quarto e vi esperando na varanda, meu cérebro esqueceu momentaneamente como funcionava a respiração. Ele estava de bermuda solta de tecido leve que, com certeza, devia balançar com o vento, e uma regata branca simples que deixava pouco à imaginação. Parecia que ele adivinhou o momento em que saí do quarto porque foi exatamente quando ele levantou a camisa mostrando os músculos definidos dos braços, a linha da clavícula, aquele V que desaparecia na cintura da bermuda…
Jesus.
Que Deus abençoe os Beckett.
se virou e me viu olhando. Seus olhos escureceram quando percorreram meu corpo, da legging justa até o top que sabia que estava mostrando mais pele do que o normal. Ficamos parados assim por tempo demais. Muito tempo. Ele sorriu primeiro. Um sorriso lento, de canto de boca, que fez meu estômago revirar.
— Tá exibindo muito hoje, não?
Ele riu.
— Só tentando acompanhar seu nível, . — Seus olhos desceram mais uma vez, devagar. — Acho que perdi.
Meu rosto esquentou, mas eu não desviei o olhar. pegou minha garrafa d'água vazia e desceu comigo para a cozinha, em seguida foi até a pia, enchendo com movimentos precisos.
— Tá nervosa? — perguntou, sem olhar pra mim.
— Por quê? Algum motivo pra eu ficar nervosa?
Ele voltou, entregando a garrafa. Seus dedos roçaram os meus por um segundo a mais que o necessário.
— Só perguntando. Já que é sua primeira corrida comigo.
— Não é uma corrida, é uma perseguição de urso, lembra?
riu de novo, e dessa vez foi um som aberto, alegre.
— Exato. — Ele se aproximou dando mais um passo, seu hálito quente estava no meu ouvido. Queimando. De novo. — E você sabe o que eles dizem sobre ursos, né?
Eu engoli seco.
— Que eles são perigosos e matam pessoas por diversão?
— Que uma vez que eles pegam o que querem... — Sua mão grande envolveu minha cintura por um segundo, rápido demais para ser acidental, lento demais para ser inocente. — Nunca mais soltam.
Antes que eu pudesse responder (ou desmaiar), ele soltou um sorriso malicioso. Ele não me deu tempo de reagir, em um instante eu estava perto da pia e com a garrafa na mão e, em outro, estava imprensada na bancada, com suas mãos firmes uma em cada lado do meu corpo. Encurralando-me, sem me tocar.
— Você esqueceu de ajustar isso — sua voz saiu áspera, os dedos subiram até a alça do meu top esportivo. O toque foi rápido e lento, ao mesmo tempo, de um jeito que eu não fazia ideia de como explicar. Se não fosse pelo jeito que seus olhos escureceram ao escorregar pela minha clavícula, desenhando um caminho lento demais, eu poderia dizer que era acidental.
— Ajustou? — perguntei estupidamente, com a voz saindo mais ofegante do que eu gostaria.
Ele sorriu, mantendo aquele sorriso de predador que fazia meu sangue ferver.
— Quase.
Seu corpo pressionou o meu contra a bancada com mais pressão em nossos quadris, só um pouco, só o suficiente para eu sentir cada músculo dele contra minhas curvas. Sua mão esquerda agarrou meu quadril e os dedos afundaram na carne como se já soubessem exatamente onde se encaixar.
— …
O alerta morreu nos meus lábios quando ele inclinou a cabeça, deixando seus lábios a exatos pouquíssimos centímetros dos meus.
— Só um gostinho — ele murmurou com a voz sendo um comando mais que um pedido.
Seus lábios capturaram os meus com uma urgência que roubou meu ar, seu corpo esmagou-me contra a bancada de um jeito que fez cada nervo do meu corpo incendiar. Seus dentes encontraram meu lábio inferior, mordendo com precisão cruel antes de aliviar a pressão com a língua. Um gemido escapou da minha garganta, e eu senti seu sorriso vitorioso contra minha boca antes que ele aprofundasse o beijo, sua mão se enrolou no meu cabelo para puxar minha cabeça para trás, expondo meu pescoço. Eu tentei falar, juro que sim, mas seus lábios já estavam traçando uma linha de fogo até meu ouvido.
— Shhh. Ainda não é hora de falar.
Quando ele voltou para minha boca, o beijo era diferente. Mais lento, mais profundo, como se estivesse provando cada pedaço de mim, até mesmo os que eu nunca soube que existia. Sua língua explorou cada canto com uma paciência que contradizia a mão que apertava minha cintura, os dedos afundavam na minha pele como se quisessem deixar marcas. Meu corpo arqueou contra o dele por vontade própria, com cada curva se encaixando perfeitamente nele. Eu podia sentir ele, todo ele, pressionando contra minha coxa, e a simples noção disso desceu pelo meu ventre de maneira quase dolorosa.
quebrou o beijo com um último puxão no meu lábio, seus olhos negros de desejo escanearam meu rosto inchado, minha respiração caótica e os meus dedos trêmulos agarrando sua regata como única âncora na realidade.
— Porra, — ele rosnou, encostando sua testa na minha enquanto tentávamos recuperar o fôlego. Meu coração batia tão forte que eu temia que ele pudesse ouvir. Meus joelhos tremiam, minhas pernas?
— Isso... — minha voz saiu rouca, irreconhecível — foi injusto.
riu antes de colocar um último beijo rápido, quase doce, no canto da minha boca.
— Espera até ver o que eu faço quando estou sendo justo então.
Quando ele me puxou pela porta, eu sabia com clara certeza: nenhuma corrida na praia seria longa o suficiente para eu me recuperar daquele beijo.
E sabia com uma verdade ainda mais desesperadora: aquilo não podia continuar. Não era sobre , ou sobre , era sobre mim, confusa sobre os dois.
— Não devia ter feito isso.
— O quê? Beijar você? — Ele riu, como se fosse óbvio. Como se fosse simples. — , a gente já vinha flertando há horas e não foi o primeiro beijo. Claro que eu vou entender se você não estiver a fim, mas eu gostaria de saber de onde isso vem.
Eu hesitei.
Não porque não quisesse conversar com ele, eu queria, mas não sabia o que falar. O que eu ia dizer? Que eu estava confusa porque tinha sentimentos pelo irmão dele? Que o beijo dele me pegou desprevenida e, agora, eu também estava confusa com ele e para onde iríamos com tudo isso? Se até na minha mente eu estava confusa com tudo, como drogas eu tentaria falar algo para ele?
— …
— . Eu sei que eu não sou o e que não te conheço a vida inteira, mas você pode falar comigo, se quiser.
E então, sem saber bem porquê, eu falei.
— O saiu.
não pareceu surpreso.
— Eu sei.
— E nós… — Eu parei, olhando para as mãos.
— Nós?
Nós nos beijamos como se o mundo fosse acabar e eu tenho muitos sentimentos mal resolvidos com ele, como o fato de acabar de descobrir que ele comprou uma casa por minha causa e que, talvez, ele me ame também.
— Nada. — Eu balancei a cabeça, tentando afastar o pensamento.
não comprou o meu afastamento. Ao invés disso, ele inclinou o corpo para frente, mantendo os cotovelos apoiados nas coxas, e olhou para o horizonte.
— Você quer saber o que eu acho?
Não.
— Claro.
— Eu acho que você está morrendo de medo.
Eu ri, sem graça.
— De quê?
— De admitir que quer alguma coisa. De admitir que quer qualquer coisa. — Ele virou o rosto para mim. O sol nos olhos dele fez meu estômago revirar. — O que eu acho é que você tem medo de admitir que sente. O que quer. O que precisa. Você se assusta com tudo que escapa do controle. Fica desconfortável longe de casa, entra no mar como se ele fosse engolir você, e fica perdida quando o não está por perto, mas o que me incomoda, , é que tudo isso… não parece você. Esse medo não está te protegendo, ele está te mantendo parada no mesmo lugar, esperando tudo passar sem encostar em nada. E eu não estou te julgando, só falei porque achei que precisasse falar. Eu também não tô te cobrando nada, mas, se um beijo te faz querer sair correndo, talvez o problema não seja o beijo. Talvez seja o quanto você se acostumou a não querer nada pra não ter que lidar com o que vem depois.
— Eu não… — Minha voz falhou.
— Não precisa falar. — Ele levantou, oferecendo a mão. — A gente pode só voltar se você quiser.
— Eu sinceramente não sei para o quê eu estou pronta. — Comecei, com a voz mais firme do que eu esperava. — Ultimamente a minha mente parece um labirinto onde eu me perco toda vez que tento encontrar uma saída. — não interrompeu. Apenas ficou ali, os braços cruzados, o corpo relaxado contra o corrimão da varanda, como se tivesse todo o tempo do mundo para me ouvir. — Eu gosto muito do tempo que passo com você. — Continuei, engolindo seco. — Gosto da forma como você me faz rir quando eu estou a um passo de pirar. Gosto dos seus silêncios, que são diferentes dos outros e é absolutamente desumano o jeito que você beija. — Meus dedos subiram involuntariamente aos meus lábios, como se pudessem ainda sentir o calor dele. — Eles ensinam isso na aula de anatomia ou você nasceu com esse dom só pra me testar? — Ele riu, baixo e rouco, mas não respondeu. Apenas acenou para eu continuar, seus olhos brilhavam com um misto de diversão e paciência. — O que eu estou tentando dizer é que… — Minha voz falhou por um instante, e eu precisei reunir coragem para terminar. — Eu gosto demais de saber que sou a sua certeza. De sentir que, não importa o que aconteça, você está aqui, firme, como se eu fosse algo que vale a pena esperar. Mas eu… eu ainda não tenho uma certeza sequer pra te oferecer em troca. — Meu peito apertou com a confissão. — E eu sei que nem tudo precisa ser complicado. — Continuei, com os dedos agora torcendo a barra do top nervosamente. — Mas esse é um segredo sobre mim que poucas pessoas sabem: eu sou complicada. Sou feita de 'e ses' e 'mas' e 'quem sabes'. Sou uma tempestade de dúvidas em um corpo que finge ser racional. E você… você merece alguém que te olhe nos olhos e saiba exatamente o que sente.
— A gente não tem um compromisso, tá? — quebrou o silêncio, com a voz mais leve do que eu esperava. Virei o rosto na direção dele, confusa. Ele deu um passo mais perto, com o canto da boca puxado num meio sorriso e passou a língua pelos lábios como quem escolhe bem o que vai dizer. — A gente tá de férias. E eu não quero ser o cara que te prende ou te faz sentir culpada. Se você quiser ficar com outra pessoa, tudo bem. Se quiser espaço, também. Se ainda preferir dormir em algum quarto que não seja o meu, tá tudo certo. A gente se resolve na cidade. Não quero que você escolha por impulso. — Ele não disse isso com tristeza, nem com raiva, ele disse isso como alguém que realmente queria me dar liberdade. E por mais que, naquele momento, eu quisesse dizer pra ele que sabia exatamente o que eu queria, seria mentira. E não merecia alguém que mentisse pra ele, então apenas acenei com a cabeça, agradecendo silenciosamente. — Na verdade… Um dos motivos que te chamei para correr é este. Eu tô voltando pra cidade amanhã, surgiram algumas coisas que precisam da minha atenção, meu carro finalmente saiu do conserto e... — Uma pausa, enquanto ele passava a língua nos lábios. — Precisam de mim. — O vento levou suas palavras para o mar, mas não conseguiu levar junto o nó que se formou na minha garganta.
— Entendi — menti, tentando manter a voz estável.
deu um passo à frente, seus dedos encontraram os meus com familiaridade.
— Mas eu queria te perguntar uma coisa. Já que estamos sendo sinceros. — Seus olhos verdes pareciam mais claros sob a luz da manhã, quase transparentes. — Eu posso te esperar? — O mundo parou por um segundo. — Na cidade — ele continuou, com seus polegares fazendo círculos suaves no dorso das minhas mãos.
— ...
— Não precisa dar uma resposta segura ainda. Eu só tô dizendo que, se um dia você acordar e quiser tentar ser um pouco mais que uma dúvida, meu número não vai mudar.
— Você não deveria esperar. — consegui dizer, mesmo que cada palavra cortasse como caco de vidro. levantou nossas mãos entrelaçadas e pressionou os lábios contra meus dedos, num beijo que senti até o osso.
— Não tô pedindo permissão pra esperar, . Só tô te avisando que vou. Vamos. — Ele chamou, estendendo a mão. Eu segurei.
Duas horas depois de chegarmos, enquanto Tessa e Ivy já preparavam o terreno para o que prometia ser um jantar bem elaborado, pela primeira vez, eu me afastei do barulho e subi as escadas. A água quente do banho escorria pelo meu corpo, mas não conseguia lavar a memória da manhã com , muito menos da forma como suas palavras haviam me dado o conforto que eu nem sabia que precisava: permissão.
E então, sem aviso, ele me levantou, me jogando sobre o ombro como se eu não pesasse nada.
— ! — Eu dei um grito fingindo indignação, batendo nas costas dele.
— Hora de voltar. — Ele começou a descer das pedras, seguro mesmo comigo me debatendo.
— Me solta!
— Não.
E, de alguma forma, aquela palavra fez meu coração parar.
Mas quando me colocou no chão de volta na areia e eu olhei pra ele, uma parte de mim, a parte que ainda se lembrava do gosto dele na minha boca, não se arrependeu. Eu não podia me arrepender dos beijos com porque eu os quis, mas também não podia ignorar o que a conversa com Tessa me causou.
Retiro o que pensei.
Deus, não abençoe os Beckett.
Mate todos eles.
tinha razão, era óbvio. Eu passava a vida esperando que as coisas se consertassem sozinhas, como se o silêncio não fosse apenas um estado, mas sim uma poção mágica que cura todas as rachaduras. Até mesmo as mais escondidas, mas a verdade era que isso não existia. Então, desliguei o chuveiro, me enrolei em uma toalha e, com os dedos ainda úmidos, peguei o meu celular.
Uma gota d’água escorreu pela tela quando abri nossa conversa. Dez anos de amizade resumidos em mensagens bobas, declarações rápidas, memes idiotas e, nas últimas 24h, um vazio que doía. Meus dedos tremeram sobre o teclado e pensei várias vezes antes de digitar, mas eu estava num gesto de coragem, então continuei.
Ou tentei, porque eu estava digitando, apagando e digitando de novo sem nem ao menos saber o que enviaria.
“Onde você está?”
Muito seco. Apaguei.
“Você foi um idiota.”
Muito raivoso. Apaguei.
“A gente precisa conversar.”
Muito vago. Apaguei de novo.
Eu soltei um grunhido frustrado. Por que droga era tão difícil falar com ele quando estávamos brigados, se a gente se conhecia tão bem? Meus dedos voltaram a digitar antes que eu pudesse pensar melhor, engolir o discurso de e ignorar o efeito que tinha tido em mim.
Eu devia te matar por ter deixado ela usar aquela camisa.
Enviado. Pausa.
Mas, por algum motivo estúpido, eu estou com saudades.
Outra Pausa.
Volta?
Eu apertei o enviar antes mesmo que meu cérebro entendesse a ação. E então, mostrando-se ser o mestre da autocrítica, meus pensamentos vieram fortes e invasivos. “Por que você fez isso?”, minha mente gritou. “Você estava com o irmão dele há duas horas, ele estava com uma loira hoje de manhã…”. Eu quase acreditei nisso, quase, por alguns segundos, mas, em seguida, ouvi o meu celular vibrar e senti meu coração parar.
Três pontinhos apareceram.
Sumiram.
Voltaram.
Eu também, .
Também o quê? Também quer me matar? Também tá com saudade?
Os pontinhos continuaram, pararam e continuaram de novo. E então, uma nova mensagem.
Eu não sei quanto tempo se passou da mensagem até o momento em que ele entrou pela porta, desconfiado e mordendo o lábio inferior como sempre fazia quando estava nervoso. Ele parou na porta. Eu não precisava olhar para saber que era ele, o cheiro dele já tinha me encontrado antes mesmo de eu ouvir o suspiro rouco que ele soltava quando estava nervoso.
— Você veio. — A constatação, apesar de óbvia, foi o máximo que consegui dizer.
— Você me chamou. — A resposta dele veio simples, como se não houvesse nem discussão sobre isso. Como se a simples ideia dele me ignorar fosse inconcebível. Impossível. Irreal. — Não existe nenhum mundo em que você me chame e eu não venha. — Engoli a vontade de chorar com essa frase. Ele continuou me olhando, com os olhos dele escaneando meu rosto como se tentasse decifrar cada pensamento que passava pela minha cabeça. Eu me senti exposta, vulnerável, e segura também. Porque era ele. Mesmo depois de tudo, ainda era ele. — Então… — Ele finalmente quebrou o silêncio, com a voz rouca, como se tivesse engolido um nó antes de falar. — Você quer me matar, mas sente saudade. É isso?
O tom dele era leve, quase brincalhão, mas eu conhecia aquela voz. Era a mesma que ele usava quando estava evitando falar sério, quando não queria que eu percebesse sozinha o quanto algo o afetava.
Eu respirei fundo, olhando para as minhas mãos.
— É mais ou menos por aí.
— A gente é um desastre — ele murmurou, mexendo no anel que sempre girava no dedo. — … — Ele começou, mas parou. — Eu não sei o que a gente tá fazendo.
Eu levantei os olhos para ele, sentindo o peito apertar.
— Eu também não.
Os olhos dele ficaram mais sérios enquanto o tom de brincadeira desaparecia aos poucos.
— Mas eu não aguento mais ficar longe de você.
Eu engoli seco. Era tudo o que eu queria ouvir, mas ao mesmo tempo, era assustador. Porque eu sabia que a gente não tinha resolvido nada e eu não sabia nem mesmo por onde começar a resolver.
ajoelhou-se no tapete desgastado e envolveu minhas mãos nas dele sem pressa. Seus polegares traçaram círculos lentos sobre meus pulsos, onde as minhas veias saltavam sob a pele fina.
— Você está gelada. — A voz dele vinha rouca, como se tivesse engolido brasas durante o tempo em que estivera longe. Eu não respondi. Observava a maneira como seus ombros tensionavam sob a camisa, como a mandíbula dele ainda estava apertada de raiva mesmo agora, quando fingia calma. Ele suspirou, puxou o casaco de couro que estava vestindo e enrolou-o em meus ombros. — Parece um esquilo enfiado num casaco três vezes maior que você.
— Vai se foder, . Você nem é tão grande assim.
Ele riu baixo, sabendo que eu estava apenas o provocando porque, sim, ele era grande assim. E eu odiava como meu corpo reagia a isso, como meu estômago se contraía de um jeito que não tinha nada a ver com raiva.
— Eu ia embora — ele murmurou, com os olhos escuros fixos nos meus. — Mas aí lembrei que deixei algo importante aqui.
— Sua capacidade de ser um babaca? Porque essa você nunca perde.
Ele inclinou a cabeça, deixando que o canto da boca subisse num meio sorriso que eu conhecia bem demais para não me afetar.
— Minha camisa. A que você dorme vestida.
Meu rosto esquentou.
— Está na lavanderia dissolvendo lentamente. Com ácido. E alvejante.
Ele levantou uma sobrancelha, com os dedos agora traçando o contorno da minha clavícula por cima do tecido.
— Você está usando ela agora, .
Puxei o casaco mais junto ao corpo, como se isso pudesse esconder o fato de que, sim, eu estava vestindo a maldita camisa sob o moletom. Ele venceu essa rodada, e nós dois sabíamos.
Ele se moveu então, levantando-se com aquela graça irritante e estendeu a mão.
— Vem cá.
— Não.
— .
— Não.
Ele não insistiu. Apenas inclinou-se, envolveu um braço em volta da minha cintura e puxou-me contra ele antes que eu pudesse reagir. Fui traída pelo meu corpo instantaneamente, curvando-se na direção dele como se tivesse esperado a vida inteira por isso.
— Idiota — murmurei, mas minhas mãos já se agarravam aos ombros dele e os dedos enterravam-se na carne como garras.
— Eu sei.
Seu hálito quente atingiu meu pescoço quando ele enterrou o rosto no espaço entre meu ombro e minha garganta. Ele prendeu a respiração e, segundos depois, respirou fundo, como se estivesse memorizando algo.
— Você cheira a mim — ele observou, com a voz mais baixa agora.
Não era uma acusação, nem orgulho e nem uma provocação. Era só constatação óbvia, dito com a mesma naturalidade de quem olha um céu nublado e fala que vai chover..
se moveu, levantando do chão e me puxou para a cama, que gemeu em protesto sob nosso peso. Ele me puxou por cima dele, e suas mãos firmes fixaram-se nos meus quadris, por alguns instantes, apenas nos olhamos. O quarto estava escuro, mas eu conseguia ver cada detalhe do seu rosto. O vinco entre suas sobrancelhas, a sombra da barba por fazer no queixo, a maneira como seus olhos escuros refletiam a luz fraca da rua.
— Você ainda está usando meu casaco — ele murmurou, com os dedos deslizando por baixo do tecido de couro, encontrando a pele nua da minha cintura.
Eu prendi a respiração quando suas unhas arranharam levemente as minhas costelas.
— Vou jogá-lo no lixo assim que você sair.
Ele riu, baixo e rouco, e então rolou, invertendo nossas posições com um movimento fluido. Seu corpo pesou sobre o meu, familiar e sufocante, e eu odeiei como minhas pernas se abriram para acomodá-lo sem que eu precisasse pensar.
— Mentira — ele repetiu, dessa vez com os lábios contra o meu ouvido. Sua voz era um fio de seda áspera. — Você guarda minhas coisas como se fossem relíquias.
Eu o empurrei, mas minhas mãos no peito dele não tinham força alguma.
— Eu guardo porque você sempre volta para buscá-las.
Ele parou, então, e estudou meu rosto com uma intensidade que me fez querer virar a cabeça. Mas eu não o deixaria ganhar dessa vez, mantive seu olhar, mesmo sentindo o calor subir e queimar pelas minhas bochechas.
— A Tessa me contou que você comprou essa casa. — Minha voz quase sumiu. não respondeu. Em vez disso, seus dedos subiram devagar, quase hesitantes, e ajeitaram um fio do meu cabelo atrás da orelha. O toque dele estava quente, firme, mas tremia levemente, como se ele estivesse segurando algo frágil demais. — Ela me disse o motivo.
Ele parou. Seus dedos ficaram ali, quase grudados na minha pele,sem se afastar. Quando ele finalmente falou, a voz saiu rouca, como se tivesse sido arrancada dele contra a sua vontade.
— Você realmente acha que eu poderia deixar isso só na sua cabeça? — A voz dele não era suave dessa vez, era áspera, indignada. — Você descreveu cada detalhe, . A varanda larga o suficiente para caber um balanço onde você pudesse ler até o sol se pôr. O chão de madeira que estalaria no inverno. A cozinha com azulejos azuis, porque você jurou que era a única cor que não cansava os olhos de manhã, mesmo tendo vários estudos que comprovam o contrário. Você sabia até onde o sol bateria na parede do quarto às cinco da tarde. Sabia quantos degraus a escada teria. Você falou disso como quem fala de um lugar que existe, como se fosse só questão de tempo até você colocar a chave na porta, e seus olhos brilhavam tanto que eu conseguia ver a porra do oceano inteiro neles. E então você riu e mudou o assunto, nunca mais mencionou, mas eu não podia ignorar aquilo. Eu não podia deixar isso existir só na sua cabeça, não quando eu vi o seu rosto quando você falou disso. Você estava tão viva, tão… você. Como caralhos eu poderia deixar isso só na sua imaginação? Como eu poderia saber que existe um lugar no mundo que faz seus olhos brilharem daquele jeito e não fazer de tudo para que ele seja seu?
Eu ignorei o nó crescente em minha garganta e a vontade imensa de me afundar nos braços dele por alguns minutos, poucos, apenas o suficiente para ter certeza que eu não estava me afogando no meu próprio sentimento. Então pensei um pouco. Os números logo giraram na minha cabeça. Dois meses depois daquela conversa casual, ele tinha assinado um contrato de exclusividade com o escritório de advocacia. Uma semana depois, fechou aquele acordo milionário com a Carson Enterprises, justo a empresa cujo dono ele desprezava com cada fibra do seu ser.
— . — Minha garganta apertou. — Você odiava o Eliah Carson, disse que ele era um parasita empresarial.
— E é. — Ele respondeu, imitando um rosnado que sempre saia ao falar de Carson.
— Mas você assinou mesmo assim.
Os dedos dele se contraíram levemente e ele acariciou o meu queixo, deslizando a ponta dos dedos pela minha têmpora.
— Ele pagava bem. E eu precisava do dinheiro adiantado.
Meu peito doeu.
Dois anos.
Dois anos engolindo orgulho, dois anos vestindo ternos que o sufocavam, dois anos perdendo noites de sono por causa de contratos que ele não queria tocar. Vinte e quatro meses. Setecentos e trinta dias de cláusula de não competição, engolindo processos mesquinhos, assinando papéis que ele detestava e vencendo causas que não acreditava. Tudo por uma casa que ele nem sabia se eu algum dia iria querer de verdade. Vinte e quatro parcelas da alma dele vendidas por tábuas de madeira, por vidros à prova de tempestade e tijolos posicionados exatamente onde eu, uma vez, disse que queria.
— Você odiava aquele lugar.
— Odeio chuva também, mas me molharia todo dia em uma tempestade diferente se, por algum motivo, você quisesse caminhar na chuva à noite.
A pressão no meu peito ficou insuportável. Lágrimas quentes ameaçaram escorrer, mas eu cerrei os dentes, tentando conter o tremor que ameaçava tomar conta do meu corpo.
Antes que eu pudesse piscar, me puxou contra o peito com uma força que me tirou o fôlego. Seus braços me envolveram, esmagando-me contra ele, como se quisesse apagar qualquer espaço entre nós.
— Para de pensar — ele ordenou, com a voz saindo como um rugido baixo contra meu cabelo. — Já passou. Eu saí da empresa assim que concluí o contrato e a reforma, agora tenho o meu próprio escritório e escolho minhas causas.
Mas eu não conseguia parar.
Cada noite que ele chegou exausto com os ombros tensos. Cada vez que eu perguntei se ele estava bem e ele apenas balançou a cabeça, dizendo que era só cansaço. Tudo aquilo...
— Você devia ter me contado — sussurrei, com a voz embargada.
Ele riu, sem humor e ergueu as sobrancelhas, me encarando.
— E você teria deixado? — Não. Não teria. E ele sabia disso porque me conhecia melhor do que qualquer outra pessoa no universo. apertou-me ainda mais forte, como se pudesse absorver minha dor através do contato, mas tudo que eu conseguia ouvir era o seu coração acelerado. — Não me arrependo — ele murmurou, com os lábios pressionando meu cabelo. — Nem por um segundo. Cada minuto naquela merda de escritório valeu a pena no dia em que você colocou os pés nesta casa. Eu assinaria com o diabo em pessoa se precisasse só pra ver o seu sorriso, . — estava me olhando com tanta adoração que seus dedos traçavam levemente o contorno do meu rosto enquanto eu tentava, e falhava miseravelmente, em controlar o tremor do meu lábio. — Parece que alguém esqueceu de avisar seu rosto que não é pra ficar todo vermelho assim. — ele murmurou, brincando enquanto o canto da boca formava uma a curva daquele meio sorriso que eu conhecia tão bem.
O comentário foi tão inesperado, tão tipicamente , que um riso escapou entre meus soluços. Eu soltei um misto de riso e soluço que deveria ser constrangedor, mas o sorriso dele apenas aumentou.
— Você é ridículo, Beckett. — Eu soltei, dando um tapinha fraco no peito dele.
não respondeu. Apenas inclinou a cabeça, estudando meu rosto molhado com uma concentração que me fez esquecer como respirar.
Ele capturou minha mão no ar, trazendo-a para seus lábios.
— Tá vendo? — Seu sopro foi quente contra meus dedos. — Até chorando você é a coisa mais linda que eu já vi. — ele disse devagar, limpando uma lágrima que eu nem tinha percebido escorrer com o polegar. — Posso? — ele perguntou, quase encostando seus lábios nos meus.
A pergunta era desnecessária porque ele sabia da resposta, mas era típico dele. sempre me dava escolha, mesmo quando já sabia exatamente o que eu escolheria.
Assenti, incapaz de falar.
O ar escapou dos meus pulmões quando sua mão encontrou meu queixo, inclinando meu rosto para melhor acesso, tão devagar que eu podia contar cada um de seus cílios escuros. Seu nariz roçou no meu num movimento doce, quase infantil, antes que seus lábios finalmente encontrassem os meus. Lento demais. Doce demais. Como se tivesse todo o tempo do mundo e escolhesse gastá-lo exatamente assim, com a boca quente sobre a minha, com seus dedos agora enterrados no meu cabelo como âncoras. Eu me perdi no sabor dele, no jeito que sua respiração ficava mais rápida quando eu ousava morder seu lábio inferior, no gemido baixo que vibrou entre nós quando sua língua roçou na minha e eu senti ele sorrir contra minha boca, apenas o suficiente para que nossos olhos se encontrassem.
Quando nossos lábios se separaram e eu olhei para ele, seu rosto estava tão vulnerável quanto eu me sentia. E pelo jeito que ele riu, pelo som quente e rouco contra minha boca, eu sabia que ele lembraria.
— Você é completamente insano, Beckett. — Ele sorriu, se espreguiçando de forma preguiçosa e me apertando mais em seus braços. A respiração dele assanhava ligeiramente meus cabelos quando fechei os olhos.
— Ainda está pensando na casa? — Eu olhei para ele, abismada. Como ele poderia estar tratando aquilo com naturalidade? Era o gesto mais bonito que alguém já tinha feito por mim. Nem meu pai fez isso. Disposta a acabar com o sorriso presunçoso dele, comecei a brincar.
— Já que você foi tão gentil em materializar meu devaneio arquitetônico — Continuei, mantendo meu tom de voz leve e provocador. — Acho que seria justo eu ser a proprietária legal, não? A escritura, e tudo mais. Só para garantir que você não vai me expulsar num acesso de fúria.
Ele riu, um som baixo e vibrante que eu senti contra minha palma. Seus olhos percorreram meu rosto, divertidos e cheios de um amor tão vasto que, por um segundo, me faltou o ar.
— — ele disse, como se estivesse apresentando um fato óbvio. — A escritura já está no seu nome.
Eu pisquei algumas vezes, tentando identificar se eu estava mesmo ouvindo o que eu achava que ele falou.
— O quê?
— Desde o primeiro dia. — Ele encolheu os ombros, como se não fosse nada, como se não tivesse assinado dois anos de sua vida em troca de um endereço. — O imóvel é seu. Sempre foi.
Eu me apoiei no cotovelo, olhando para ele.
— Você está brincando.
— Por que eu brincaria com isso? — Ele ergueu uma sobrancelha, seu sorriso se ampliava ao ver minha incredulidade. — Ela é sua. Inteiramente. — Ele não tinha apenas comprado uma casa para mim. Ele tinha comprado uma casa e me dado a propriedade total. — Eu não queria que você descobrisse assim, obviamente, mas eu pretendia te entregar os papéis em algum momento entre o seu aniversário e o próximo verão. Achei que se eu te entregasse isso, do nada, ia ser um pouco estranho e ia ficar muito, muito, óbvio.
— O que ficaria óbvio?
— A minha completa e total incapacidade de não fazer tudo que posso pra te ver feliz. — Meu coração parou. Ou talvez batesse rápido demais, tão acelerado que se fundiu em um único e contínuo rugido aos meus ouvidos. A completa e total incapacidade. As palavras ecoaram dentro de mim, encontrando eco em cada cantinho que eu havia protegido por tanto tempo. Eu apenas olhei para ele. Para a suavidade em seus olhos, para a curva honesta de seu sorriso e a vulnerabilidade que ele oferecia sem nenhuma armadura. Ele não estava se gabando. Ele estava apenas confessando. Um fato simples e esmagador de seu universo. — Não — ele disse, suavemente. — Não fique assim. Não era pra te chatear.
— Chatear? — eu exalei, soltando um riso curto entre a emoção aflorada que o gesto despertava em mim. — , você me deu uma casa. Você trabalhou num lugar que odiava, por dois anos, e me deu a casa dos meus sonhos e colocou no meu nome e e acha que eu estou chateada?
Seu sorriso se tornou um pouco incerto, um pouco hesitante.
— Você está com uaquela cara. — ele moveu a mão, gesticulando vagamente em frente ao meu rosto. — A de "oh não, ele é mais louco do que eu pensava". Eu conheço essa cara.
Eu captureu sua mão no ar, pressionando sua palma contra meu peito, sobre o coração que ainda batia descompassado para ele. Por ele.
— Errou. Eu estou com a cara de "oh não, eu sou a pessoa mais sortuda do planeta e não sei o que eu fiz para merecer você". — corrigi, sentindo minha voz falhar na última palavra.
O incerto em seus olhos deu lugar a um brilho quente e intenso. Seus dedos se fecharam levemente contra meu peito, sentindo a batida acelerada sob a palma da mão.
— Você não precisa fazer nada — ele murmurou, sério. — Só precisa ser você. É muito simples, na verdade.
Ele disse isso com uma convicção tão absoluta que, por um segundo, parecia realmente simples. Como se o maior ato de devoção que eu já tinha testemunhado fosse a coisa mais natural do mundo. Eu me curvei para frente, descansando minha testa contra a dele, fechando os olhos. Nossas respirações se misturaram, quentes, no pequeno espaço entre nós.
— É assustador — admiti em um sussurro, a confissão saindo de mim antes que eu pudesse impedi-la.
Seus dedos deram um leve aperto na minha mão, ainda pressionada contra meu coração.
— O quê?
— Isso. Você. O quanto isso importa. — Abri os olhos e encontrei os dele, escuros e sérios, a apenas centímetros de distância.
Ele cheirou meu ombro, num movimento que pareceu instintivo e profundo, como um homem afundando o rosto no único lugar que conhece como lar.
— Hm. — ele resmungou. — Seu cabelo cheira a açaí.
Eu soltei uma risada baixa.
— É o condicionador novo, seu idiota.
— É doce. — Ele beijou meu ombro. — Eu gosto.
Eu me virei dentro de seus braços, em um movimento lento que ele permitiu com um grunhido de protesto brando. Seu rosto estava afundado no travesseiro, o cabelo dele estava despenteado e a expressão relaxada me faziam rir. Ele abriu um olho, para me encarar.
— O que? — sua voz saiu um rosnado suave.
— Nada. — meu dedo mindinho traçou a sobrancelha dele, alisando uns fios rebeldes. — Só pensando.
Os dois olhos se abriram.
— Pensando o quê? — Eu encostei minha testa na dele, fechando os olhos. A proximidade era avassaladora e perfeita, como sempre era com .
— Que se eu sou a dona legal da casa — comecei, sussurrando contra seus lábios. — Tecnicamente, você é meu inquilino.
Ele ficou imóvel por um segundo. Então, um tremor de riso percorreu seu corpo, vibrando entre nós.
— É mesmo? — ele murmurou, divertindo-se.
— É. — afirmei, tentando manter a seriedade. — E como proprietária, acho que preciso inspecionar a propriedade. Verificar se tudo está em ordem.
Suas mãos encontraram minha cintura e seus dedos fizeram cócegas leves, fazendo-me saltar e rir baixinho.
— A senhoria é muito meticulosa — ele sussurrou, com seus lábios agora perto do meu ouvido e sua voz tão roua e áspera que me fez tremer. — Exige muito.
— Exijo que meus inquilinos sejam quietos e respeitem o silêncio após as dez — declarei, fingindo uma voz séria.
Ele riu, de verdade dessa vez, um som que encheu o quarto e meu peito.
— Mentira. Você adora quando faço barulho. — Meu rosto queimou. Ele tinha razão, é claro. Ele se afastou uns centímetros, o suficiente para eu ver o brilho travesso em seus olhos. — E quanto ao aluguel? A senhoria é rígida com os pagamentos?
Fingi considerar, mordendo meu lábio inferior para conter outro sorriso.
— Depende. O que você propõe?
Seu olhar se tornou suave, enquanto seu polegar acariciava minha bochecha.
— Posso pagar em beijos — ele propôs, com a voz baixa e séria, embora seus olhos ainda luzissem. — Um pela manhã. Um à noite. E… — ele inclinou-se e pressionou seus lábios contra minha testa, num beijo lento. Em seguida seus lábios pararam na pontinha do meu nariz. — Um extra sempre que consertar algo. A escada range, sabia? Vai me manter ocupado.
Meu coração apertou de uma forma quase dolorosa. Eu capturei seu rosto entre minhas mãos, olhando fundo para aqueles olhos que conheciam cada parte de mim.
— A senhoria está satisfeita com o inquilino?
Outro riso escapou de mim.
— A senhoria está reconsiderando as taxas de aluguel. Acho que elas estão muito baixas.
Foi a vez dele de rir.
— Cobre o que quiser — ele sussurrou, puxando-me para deitar sobre seu peito novamente. — Eu pago. — Ele beijou o topo da minha cabeça. — Eu pago com o resto da minha vida, se precisar.
Eu escondi o rosto no pescoço dele, inalando o cheiro familiar de oerfume amadeirado e , e senti seus braços se apertarem ao meu redor, criando um casulo perfeito.
— O resto da sua vida — repeti, as palavras saíam como um sussurro contra o peito dele, onde meu rosto estava escondido. A grandiosidade da promessa, a simplicidade com que ele a oferecia, era de tirar o fôlego. — É um prazo muito longo para um contrato de aluguel.
Senti o movimento de seus músculos faciais contra minha testa quando ele sorriu.
— Eu confio na senhoria para não me explorar muito. — Sua mão subiu e desceu pelas minhas costas em um movimento calmante, quase hipnótico. — Embora ela já tenha se apossado da minha camisa favorita. Da minha casa na cidade. E do meu coração. Pensando bem, acho que já fui explorado.
Eu levantei a cabeça, encontrando seu olhar. A luz natural suavizava seus traços, iluminando os fios de cabelo mais claros espalhados no travesseiro. Havia uma paz em seu rosto que eu não via há muito, muito tempo. Uma paz que eu sabia, com uma certeza que vinha das profundezas da minha alma, que eu também sentia.
— Talvez a senhoria possa fazer uma redução de danos — sugeri, com meu dedo traçando o contorno de seus lábios. — Dar descontos por bom comportamento.
Seus olhos cintilaram de diversão.
— Eu me comporto muito mal, . Você sabe disso.
— Eu sei — concordei, um sorriso irreprimível tomando meus lábios. — É um dos seus traços mais irritantes. E encantadores.
Ele prendeu meu dedo com os dentes, dando uma mordidinha de brincadeira que fez um arrepio percorrer meu braço.
— "Encantador"? — ele sussurrou, soltando meu dedo. — É a primeira vez que você usa essa palavra para me descrever. Normalmente é "teimoso", "insuportável" ou "o ser humano mais irritante do planeta".
Ele ficou quieto por um momento, apenas me olhando. Seu olhar percorreu cada centímetro do meu rosto, como se estivesse memorizando aquele exato momento. Ficamos em silêncio por um longo momento, apenas ouvindo a respiração um do outro e o barulho distante que ecoava em algum lugar da casa. Enquanto nos perdíamos naquele mundo, no nosso, um ranger ficou um pouco mais alto, entregando o quinto degrau da escada.
Um sorriso lento escapou pelos lábios de .
— Parece que o serviço vai começar mais cedo do que eu pensei — ele sussurrou.
— Que inquilino prestativo — retribuí, levantando o rosto para olhar para ele. Seus olhos estavam brilhando de amor e travessura.
— É a senhoria que inspira — ele respondeu, de imediato. Seu olhar desceu para meus lábios e ficou lá. O ar entre nós mudou e meu coração acelerou, sabendo exatamente o que viria em alguns segundos. Ele moveu a mão lentamente, com uma deliberação que me fez prender a respiração. Seus dedos tocaram meu queixo, gentilmente, orientando meu rosto para o dele. Seus olhos não saíam dos meus, perguntando, procurando por qualquer hesitação. Não havia nenhuma. Apenas uma antecipação que tremia dentro de mim. — O aluguel da manhã — ele sussurrou, sua voz se desfez no pequeno espaço entre nossas bocas. Então, ele fechou a distância.
O beijo não foi apressado. Era lento, deliberado. Seus lábios eram macios e insistentes, movendo-se contra os meus com uma reverência que me fez derreter por dentro. Era um beijo que dizia "bom dia", "eu te amo" e "para sempre", tudo ao mesmo tempo. Minhas mãos subiram para o seu rosto, meus dedos se enterraram-se no cabelo curto e macio na sua nuca e me entreguei à sensação, ao sabor dele, à segurança esmagadora de seus braços ao meu redor.
Quando ele finalmente se afastou, ambos estávamos sem fôlego. Ele descansou a testa na minha, com nossos narizes ainda se tocando, e ficamos assim, respirando o mesmo ar, compartilhando o mesmo momento.
— Faltam os juros — ele respirou, mas seus olhos ainda estavam fechados.
— O quê?
— O beijo. — Ele abriu os olhos, e o amor que vi neles me tirou o fôlego novamente. — Vai ter juros compostos. Todos os dias. Para o resto da vida.
Eu sorri.
— Acho justo — sussurrei, puxando-o para outro beijo, mais doce e mais curto desta vez. — Afinal, é uma propriedade muito cobiçada.
Ele riu contra meus lábios, um som perfeito e feliz, e então me puxou para um abraço tão apertado que eu mal podia respirar.
E eu não me importei.
Não havia lugar no mundo onde eu preferisse estar.
A primeira coisa que fez quando me puxou para dentro do quiosque vazio foi me empurrar contra o pilar de madeira, prensar o seu corpo contra o meu e envolver as mãos na minha cintura.
— Cinquenta e sete minutos — ele sussurrou, mantendo sua boca perigosamente perto da minha. — É o tempo que passei sem te tocar desde que saímos do quarto.
Seus lábios encontraram meu pescoço em um beijo, lento, torturante e molhado que me fez amolecer em seus braços instantaneamente.
— , não! Eles vão perceber.
— Deixa eles — ele cortou. Suas mãos rapidamente deslizaram pela lateral do meu corpo, encontrando o laço do meu biquíni. — Você realmente acha que não sabem?
Seus dedos brincaram com as fitas, puxando-as lentamente. Eu podia sentir cada centímetro do nó cedendo sob seu toque.
— Você está fazendo de propósito — acusei, ofegante, enquanto minhas mãos se enterravam em seu cabelo.
— Estou. — ele concordou, com a voz baixa, rouca e irresistível. — Você fica toda nervosinha quando eu brinco com essas fitinhas. Sua respiração acelera.
Ele puxou uma das pontas, e o laço se soltou completamente. Meu biquíni ficou pendurado por um fio, suas mãos eram as únicas coisas entre mim e a exposição total e eu não sentia, nem por um segundo, que ele queria manter isso.
— ! — Tentei reclamar, mas a minha voz parecia soltar apenas um gemido excitado.
Talvez fosse isso que acontecesse quando você passa anos tentando esconder o tesão que, claramente, você sente pelo seu amigo.
— Calma — ele sussurrou contra minha boca antes de me beijar. — Eu não vou deixar cair. Vamos fazer um trato — ele propôs, sua voz era rouca enquanto começava a refazer o laço com movimentos deliberadamente lentos. — Você me deixa te beijar como eu quero agora, e eu prometo me comportar lá fora.
— Isso é chantagem — protestei, mas já estava me inclinando para ele novamente.
— É negociação — ele corrigiu, com seus lábios pairando sobre os meus. — Aceita ou não? — Em resposta, fechei a distância e capturei sua boca com a minha, me entregando completamente ao beijo que parecia ter esperado a vida toda. Suas mãos se fecharam em meus quadris, puxando-me contra ele de forma que não havia como negar o que ele estava sentindo. Ou o quão duro esses sentimentos o deixavam. — Mais tarde — ele prometeu contra meus lábios quando finalmente nos separamos, ofegantes. — Quando não tiver mais nenhuma testemunha, vou tirar esse laço com meus dentes.
Desde que aceitamos que tentaríamos não nos conter tanto, esse era o maior problema que tínhamos. O pior de esconder um affair como seu melhor amigo nas férias não é o segredo em si. É a sensação constante de que você está numa peça de teatro mal ensaiada e todo mundo na plateia já leu o roteiro. Especialmente quando seu co-protagonista é Beckett, cuja ideia de discrição é ficar me encarando com a intensidade de um filhote de cachorro vendo um pedaço de bacon.
— Então tá combinado — sussurrei, ajustando o laço do meu biquíni, o mesmo que ele havia desalinhado segundos antes. — Lá fora, somos só e , melhores amigos.
Ele estava deitado na canga, apoiado nos cotovelos, com um sorriso que já me dizia que o combinado não seria cumprido.
— Claro. Só amigos. Que por acaso passaram a manhã toda se beijando no quiosque.
— Foi uma hora. E foi sua culpa.
— Minha culpa por não resistir a você? Justo.
Dei um leve tapa no ombro dele, rindo. Era impossível levar a sério. Estávamos no nosso penúltimo dia no litoral, e o ar já tinha o gosto amargo do fim. Amanhã, voltaríamos para a cidade, para a vida real, para os nossos empregos e apartamentos separados. E essa bolha de praia, sol e teria estourado. Era um pouco assustador pensar assim.
— Sério, . Eles vão perceber. A Ivy tem um radar para esse tipo de coisa.
— A Ivy também achava que o primo do Nolan está dando em cima dela e ele era gay. O radar dela é defeituoso. — Ele se levantou e estendeu a mão para mim. — Vamos. Vamos encenar nossa amizade platônica e imaculada.
Descemos para a beira da água, onde o resto do grupo estava. A cena era a de sempre: Luke e Ash debatendo qual bar abrir à noite, a Ivy analisando cada um com suspeita e a Tessa lendo um livro, ignorando solenemente todos.
— Onde vocês estavam? — perguntou Nolan, nos entregando uma latinha de refrigerante gelada. — Sumiram.
— viu um caranguejo e insistiu em seguir ele para ver onde ele morava — deu de ombros, pegando a lata. — Você sabe como ela é com a fauna local.
Eu quase engasguei com o gole de refrigerante. A fauna local? Era a desculpa mais idiota que eu já ouvi.
— É verdade — menti, forçando uma seriedade. — Era um caranguejo muito determinado. Fiquei curiosa.
Tessa baixou o livro dois centímetros, nos encarando por cima das armações dos óculos de sol, mas não disse uma palavra. Apenas levantou uma sobrancelha cética antes de voltar à leitura.
— Tá bom — disse Ivy, distraída.
— Falando em sumiço — Ash comentou, virando-se de bruços na toalha. — Alguém falou com o ? Ele some mais que vocês dois.
Claro, Ash. Me lembre exatamente do irmão gato do e do beijo dele, isso realmente vai me fazer muito bem.
— Ah, é verdade. Ele me mandou mensagem ontem. Disse que teria uma cirurgia complexa de última hora e que não apareceria por uns dias. Pediu para avisar a todos. — Ivy falou, de forma despretenciosa e sem tirar os olhos do celular, que não sei bem quando ela pegou.
Um silêncio desconfortável pairou no ar. tinha avisado a Ivy. Não a mim. Nem mesmo uma mensagem rápida. Senti uma pontada aguda e inesperada de ciúmes, seguida por uma onda de culpa ainda maior. Por que ele teria avisado a Ivy especificamente? E por que diabos eu me importava? deve ter sentido meu corpo ficar rígido, porque sua mão no meu joelho se apertou suavemente.
— Bom, pelo menos o orgulho da família Beckett está salvando vidas — ele comentou, com um tom de humor. — Alguém tem que manter o legado familiar.
De certa forma, a confirmação de que estava ocupado, distante, envolvido em seu mundo de salas cirúrgicas e vidas que dependiam de suas mãos estáveis era um alívio quase palpável. Assim eu conseguiria ficar um pocuo mais com e um pouco menos com a sensação de me sentir uma péssima pessoa por ter me envolvido com os dois.
O assunto não perdurou por muito tempo e logo o pessoal começou com alguma fofoca, de alguma pessoa, de alguma cidade e que provavelmente eu não conhecia. No círculo de amizade, Ivy e Nolan trabalham juntos e isso fazia com que eles tivessem um pouco mais de assunto em relação dos demais, às vezes. Não era um problema para mim, considerando que e eu fingimos normalidade por uma hora. Eu, como uma melhor amiga dedicada, fiquei imóvel, tentando ignorar o calor da pele dele contra minhas coxas e os dedos dele desenhando círculos secretos no meu joelho.
— Sua pulseira tá me dando coceira — ele reclamou, em voz alta, referindo-se às minhas pérolinhas.
— Então sai de cima, ué — retruquei, na defensiva.
— Não. Tira ela.
Ele disse isso com uma naturalidade assustadora. Como se fosse a coisa mais normal do mundo eu tirar um acessório porque estava incomodando ele. Acho que era.
Todos pararam e o debate do bar cessou. A página do livro da Tessa não foi virada.
Eu poderia ter criado uma cena e reclamado com ele. Poderia ter dito "tira você mesmo, seu preguiçoso". Poderia ter começado uma sequência de implicações básicas que normalmente faria, mas sob o olhar súbito de todos, entrei em modo piloto automático. Eu envolvi meus dedos na pulseira, tirei o acessório e coloquei ao lado.
Depois disso, Tessa fechou seu livro com um estalo seco.
— Pronto — ela disse. — Chega. — sentou-se de repente, e eu senti todo o meu sangue correr para os meus pés. Tessa olhou para , depois para mim, com um ar de profunda decepção com nossa falta de talento. — Vocês são péssimos em negar sentimentos evidentes — ela declarou, sem rodeios. — PÉSSIMOS. , você a está olhando como se ela tivesse inventado a luz elétrica. E você, , acabou de obedecer a uma ordem de "tira isso" como uma esposa de cinquenta anos de casamento.
— Eu não obedeci, eu… — tentei me defender, mas as palavras morreram na minha garganta.
— E a desculpa do caranguejo? — Luke entrou na roda, rindo. — Foi a pior que já ouvi na minha vida. Nem a Ivy comprou.
— Foi bem ruim. — Ela concordou, dando de ombros.
olhou para mim, e eu olhei para ele. Era um pouco humilhante perceber o quão ruins nós éramos tentando esconder algo que eu queria que fosse menos visível.
— Então — começou, esfregando a nuca, mantendo no rosto um sorriso envergonhado e inevitável tomando seus lábios. Um sorriso que dizia claramente: "eu avisei que era uma bobagem". — Estamos descobertos?
— Desde o primeiro dia, Beckett — disse Ash, sacudindo a cabeça. — Só estávamos esperando vocês se decidirem e nos contar.
Tessa suspirou, mas seus olhos estavam brilhando de diversão.
— Finalmente. Agora podem parar de fazer essa pantomima ridícula e voltem a se beijar debaixo do quiosque, pelo amor de Deus. É insuportável ver vocês dois tentando não se tocar. — Os outros riram, e eu me senti envolvida não apenas pelos braços de , mas por uma onda de afeto pelo grupo. Eles sabiam. Eles sempre souberam. E, de alguma forma, estavam felizes por nós. — Sabe — Tessa disse, recolocando seus óculos de sol e pegando seu livro novamente — A parte mais irritante dessas férias, por mais incríveis que elas são, era ver vocês dois pensando que estavam sendo sutis. quase incendiou a churrasqueira na terça-feira passada tentando tirar a atenção de todo mundo quando a saiu da água com aquele biquíni vermelho.
— E a ? — Ivy acrescentou, apontando seu refrigerante para mim — Toda vez que ele chegava perto, você ficava corada até as orelhas. Era patético. Fofo, mas patético.
— Que bom que vocês entederam o que sentem pelo outro. Agora vão se pegar em outro lugar. Xô! — Luke murmurou, abanando as mãos como se estivesse nos expulsando do lugal.
não precisou ser convidado duas vezes. Ele me puxou pelo braço, fazendo com que eu caísse de lado, direto contra seu ombro, e envolveu meus ombros com o braço, puxando-me para perto. Dessa vez, abertamente.
— Acho que agora você não vai mais conseguir fugir, Emm.
— Fugir de você? Nunca foi uma opção viável. Você sempre me alcançaria.
Ele riu.
— É verdade. Eu sou incrivelmente persistente.
— Irritantemente persistente — corrigi, olhando para cima e encontrando seu olhar.
— É a minha melhor qualidade — ele sussurrou, seu rosto se inclinando para o meu.
— A gente ainda tá aqui, sabe? — Nolan murmurou, mas o seu tom de voz era puro sarcasmo e diversão.
me puxou, sua mão não soltou a minha nem por um segundo.
— O Nolan tem um ponto. — Seus olhos percorreram meu rosto, e o olhar que antes era disfarçado agora era aberto, intenso e devorador. — Então acho que vou levar minha cerveja e minha namorada para um lugar mais privativo.
A palavra "namorada" ecoou entre nós, doce e assustadora. E doce de novo.
— Namorada? — eu repeti, com uma sobrancelha arqueada. — É assim que você me chama agora?
Ele se inclinou, com seus lábios quase tocando os meus, mas parando a centímetros, seu hálito quente era claramente um convite.
— A menos que você tenha um termo melhor para a mulher que acaba de arruinar completamente minha reputação de solteiro invencível na frente de todos os meus amigos.
— Então — Luke interrompeu, atirando uma garrafa de água vazia em nossa direção — isso significa que podemos parar de fingir que não vemos a tensão sexual palpável entre vocês dois?
pegou a garrafa no ar sem sequer desviar o olhar de mim.
— Significa — ele respondeu — Que mudei de ideia e que vocês todos deveriam ter a decência de dar uma volta na praia agora.
O rosto de Ash fez uma careta.
— Ok, pessoal, acho que já deu por hoje. Alguém mais tem vontade de ir para o bar? — Entre risadas e piadinhas clássicas, eles foram se levantando. Não ficaríamos juntos por muito tempo e logo os acompanharíamos, mas era bom ver todos reconhecendo e felizes por nós dois e pela nossa relação complicada se tornando apenas uma relação.
— Então… — ele começou, com seus dedos apertando os meus. — Sem mais segredos?
Olhei para nossos dedos entrelaçados, para a pulseira de pérolas abandonada na areia ao nosso lado, para o homem que conhecia cada parte de mim e mesmo assim ainda me olhava como se eu fosse a coisa mais incrível que ele já tinha visto e concordei.
— Sem mais segredos — confirmei, sorrindo.
O sorriso que ele me devolveu foi puro, desimpedido, e tão cheio de amor que quase não consegui respirar.
— Bom — ele sussurrou, puxando-me para me levantar com ele. — Porque eu tenho planos para nós esta noite que seriam muito, muito difíceis de explicar se ainda estivéssemos fingindo ser apenas amigos.
A porta do quarto mal fechou quando me puxou contra ela, suas costas bateram na madeira com um baque abafado e o som logo se perdeu no espaço entre nossos corpos e no ar que já estava carregado de promessas.
— Finalmente sós — ele sussurrou, com suas mãos encontrando meu quadril como se fosse seu lugar natural.
Eu ri, um som abafado contra o peito dele.
— Eles devem ter ouvido a porta fechar. A Tessa com certeza está fazendo alguma piada agora e todos devem saber exatamente o que estamos fazendo — respondi, ofegante, enquanto meus dedos subiam por seu peito.
— Bom, não é exatamente um problema meu. Todos tem fones de ouvidos e acesso livre a não estarem neste andar esta noite. — ele murmurou contra meus lábios antes de me beijar. Desta vez, não havia pressa, não havia medo de ser descoberto. Era um beijo lento, profundo, que saboreava cada segundo de privacidade conquistada. Seus dedos encontraram o laço do meu biquíni, mas em vez de desfazê-lo, ele simplesmente passou o polegar sobre o tecido molhado. — Lembra do que eu prometi na praia? — sua voz era rouca e parecia tremer contra meus lábios. As mãos dele deslizaram, seguinto a linha fina do tecido em meus ombros.
— Que ia tirar esse laço com os dentes? — respondi, tentando manter a compostura enquanto seu toque me levava à beira do delírio.
Ele sorriu, aquele mesmo sorriso maroto que eu conhecia tão bem, o mesmo que usava quando estava prestes a vencer uma discussão ou pregar uma peça em alguém, mas agora era só para mim.
— Exatamente — confirmou, baixando-se lentamente até ficar de joelhos na minha frente.
Seus olhos não deixaram os meus nem mesmo quando ele se aproximava do laço. Eu conseguia sentir seu hálito quente através do tecido molhado.
Minhas mãos se enterraram em seus cabelos, não para puxá-lo, mas para me apoiar, pois minhas pernas já ameaçavam ceder antes mesmo de qualquer toque. Mais uma vez, o efeito Beckett gritava em minha pele.
— ... — seu nome saiu como um apelo, um pedido de clemência que eu não queria que fosse atendido e, conhecendo-o como eu conhecia, sabia que não seria.
Ele não respondeu com palavras. Em vez disso, mordeu suavemente uma das pontas do laço e puxou. O nó começou a ceder com uma lentura torturante. Seus olhos continuavam fixos nos meus, observando cada reação, cada suspiro, cada tremor que percorria meu corpo e clamava pelo dele, e suas mãos, firmes em meus quadris, foram a única coisa que me impediu de ficar completamente exposta por um instante. Ele olhou para cima, para mim, com seu rosto ainda a centímetros do meu corpo e a devoção que eu vi lá quase me fez desabar.
— Você é a coisa mais linda que já vi — ele disse, com a voz embaçada pelo tecido entre seus dentes. Quando o laço finalmente se soltou, ele não teve pressa, ao invés disso, permitiu que as alças caíssem lentamente do meu quadril ao chão, com seus lábios seguindo o caminho que o tecido deixara, beijando cada centímetro de pele agora exposta. — Ainda acha que devíamos ter mantido isso em segredo? — perguntou, erguendo-se novamente e envolvendo minha cintura com seus braços.
Balbuciei um "não" enquanto me agarrava a ele, sentindo o batimento acelerado de seu coração contra meu peito.
Era impossível pensar em qualquer outra coisa além daquele momento, daquela sensação de finalmente estar onde pertencia.
Ele me levou até a cama, com movimentos precisos e certeiros, como se tivesse praticado esse momento em sua mente mil vezes. E provavelmente tinha, eu certamente tinha.
— a) — meu nome em seus lábios soava como uma reverência, uma oração atendida por todos os Deuses que ele não acreditava. — Você não faz ideia de quanto tempo eu esperei por isso.
Seus dedos traçaram o contorno do meu rosto, com uma admiração tão bonita e serena, que tremi. Verdadeiramente tremi, sentindo todo o meu corpo se arrepiar. Gostava de saber que ele também queria isso, gostava de saber que eu não era a única que tinha idealizado esse momento várias vezes, gostava ainda mais de saber que agora era real.
e eu, finalmente juntos.
— Eu sei — sussurrei, puxando-o para mais perto. — Porque eu também estava esperando.
— Eu te amo — ele respirou contra meus lábios, as palavras saindo como uma confissão guardada por muito tempo. — Deus, como eu te amo.
A confissão dele não foi um som, foi um terremoto inteiro e barulhento e desesperador e, céus, reconfortante. Três palavras que não pediam uma resposta, que eram uma verdade evidente, como o sal no mar ou o som das ondas lá fora, mas, ainda assim, eu precisava devolvê-las.
— Eu te amo — sussurrei de volta, soltando um fôlego que eu prendia há anos. — , eu te amo.
Foi a deixa que ele precisava.
Ele levantou rápido e sua boca se moveu sobre a minha com fome e eu me abri para ele, permitindo que seu sabor, seu calor e seu amor, se fundissem com os meus pela sua língua. Suas mãos, que antes traçavam contornos, agora se tornaram mais ousadas, mais possessivas. Uma delas deslizou pela minha lateral, queimando minha pele até encontrar a curva do meu quadril, enquanto a outra se enterrou na minha bunda.
— Preciso te sentir, — ele rosnou, baixo, contra minha boca. Seus dedos encontraram a única barreira que restava, a parte de cima do meu biquíni. Com um movimento, ele desfez o laço e puxou o bíquini para fora do meu corpo, descartando-o no chão. De repente, não havia mais nada meu entre ele e eu. se afastou por alguns segundos, olhando meu corpo com tanta calma e desejo que me amaldiçoei por cada vez que me senti insegura sobre o meu próprio corpo. Ele se apoiou sobre os joelhos, mais uma vez, e seus olhos percorreram meu corpo sob o novo ângulo diante dele. O olhar não era de avaliação, era de adoração. Era como se ele estivesse memorizando cada curva, cada sombra, cada centímetro da minha pele e estivesse amando isso. — Você é tão perfeita — ele murmurou, e a voz dele estava tão carregada de emoção que parecia prestes a quebrar.
Antes que eu pudesse responder, suas mãos agarraram meus quadris e ele me girou com uma suavidade surpreendente, deitando-me de costas para a cama e se posicionando entre minhas pernas. Ele não partiu para cima de mim imediatamente, em vez disso, começou uma jornada lenta e torturante com os lábios. Beijou a parte interna do meu joelho, a suave pele da minha coxa, e o simples toque, os simples beijos, me faziam gemer com minhas mãos se enterrando nos lençóis.
— , por favor.
Ele ignorou minha súplica, tomando seu tempo. Sua boca era um instrumento de pura tortura prazerosa, e eu me contorcia sob o toque, sentindo cada nervo sair do meu controle e ir vagarosamente para o controle dele. Então, suas mãos seguraram a parte de trás dos meus joelhos.
— Abre para mim — ele ordenou, com uma voz rouca. Eu obedeci, num ato de completa entrega. Então, com uma força que me fez sentir incrivelmente desejada e frágil, ele ergueu minha perna, colocando-a sobre seu ombro. A posição me abriu completamente, expondo minha boceta, ao seu hálito quente. Eu me senti vulnerável e poderosa ao mesmo tempo, de uma forma que nem sabia que poderia. De uma forma que nunca me sentiria se não fosse com . — Puta merda, . — ele sussurrou, e o olhar em seus olhos era de pura e inquestionável posse.
Então, ele abaixou a cabeça.
O primeiro contato de sua língua queimou e esfriou algo absurdamente quente, ao mesmo tempo. Ele me lambeu lentamente, de forma experimental, que me fez arquear as costas e gemer seu nome tão alto que poderia categorizar isso como um grito. Minhas mãos voaram para sua cabeça, com meus dedos se enrolando em seus cabelos escuros, não para puxá-lo para longe, mas para mantê-lo ali, preso a mim.
não poupou nada. Era o que eu conhecia e imaginava: intenso, focado e incrivelmente talentoso. Sua língua continuou, traçando círculos lentos e hipnóticos antes de se focar em um ponto exato. Ele me chupava com tanta fome que, realmente, acreditei em todas as vezes que ele disse que imaginou essa cena. Seus dedos pressionaram meus quadris contra a cama para evitar que eu fugisse.
Mas eu sequer conseguia pensar em fugir. Tudo que eu pensava eram em minhas pernas tremendo involuntariamente sobre seus ombros.
Ele respondeu com um som gutural de aprovação, vibrando contra minha pele, e intensificou o ritmo. Sua língua batia rápido e insistente e uma das suas mãos soltou meu quadril e deslizou para cima, encontrando meu seio. Seu polegar esfregou meu mamilo endurecido em círculos frenéticos, e a dupla sensação foi demais. Era uma sobrecarga de prazer. Meu corpo não era mais meu, era dele. Meus gemidos se tornaram mais altos, mais suplicantes.
Ele não parou. Pelo contrário, ele mergulhou mais fundo, como se quisesse beber cada gota de qualquer coisa que pudesse existir dentro de mim, como se fosse o melhor sabor que já experimentara. Sua língua invadiu um pouco mais de mim, e foi o suficiente para que meus quadris se levantassem involuntariamente, buscando mais do seu contato, segurou meus quadris com força, fixando-me no lugar.
— Devagar — ele ordenou, com seu hálito quente contra minha pele sendo uma tortura deliciosa. — Quero provar cada parte de você. — Ele abaixou a cabeça novamente, mas em seus olhos ainda tinham toda aquela sede. Aumentada dez vezes mais. Meus dedos se enredaram em seus cabelos, puxando-os sem cerimônia, tentando ancorar-me a algo enquanto o mundo desabava ao meu redor. Gritos abafados e gemidos que eu nem reconhecia como meus ecoavam pelo quarto. — Como consegui ficar tanto tempo sem provar a sua boceta, a)? — A onda que vinha crescendo estilhaçou-se em um milhão de fragmentos de luz branca atrás das minhas pálpebras. Meu corpo arqueou violentamente do colchão, e minha boca soltou um grito longo e rouco rasgando a minha garganta enquanto ondas intermináveis de prazer ocupavam meu corpo, deixando cada toque mais sensível. Eu me contorcia em seu rosto, mas ele não recuou, apenas sutentou cada espasmo, bebendo cada gota de mim, como se fosse a única coisa que o mantivesse vivo. — É assim — ele sussurrou, mais uma vez — que eu sempre imaginei você. — Minha respiração ainda era um caos, meu corpo ainda era um campo de batalha sensorial derrotado e extasiado. Ele beijou meu pescoço, deixando uma mordidinha suave seguida pelo acalento da língua, enquanto suas mãos percorriam meu torso, sentindo os arrepios que percorriam minha pele. — Você está tão molhada — ele rosnou contra meu ouvido. — E ainda nem começamos de verdade.
Eu sequer percebi em que momento tirou a sunga que vestia, mas antes que eu pudesse formular qualquer resposta ao tamanho e grossura dele, ele se moveu. Com uma mão firme no meu quadril e a outra guiando-se, ele se posicionou entre minhas pernas, que ainda tremiam fracas da primeira vez. A ponta do pau dele, dura e quente, pressionou-me na entrada, e um gemido baixo e gutural escapou de nós dois ao mesmo tempo.
Ele prendeu meu olhar nos dele, apoiando sua testa na minha e sorriu. O melhor e pior sorriso do mundo, naquele momento.
Era pura tortura.
— Quero ver seu rosto quando eu entrar — ele sussurrou, mas o susssuro era uma ordem, uma súplica.
Quando ele finalmente se empurrou para dentro de mim, a sensação era de uma invasão lenta e deliberada que me fez gritar e arquear as costas. Meus dedos se enterraram nos braços dele, agarrando-me àquela âncora enquanto ele me preenchia de uma maneira que eu só tinha sonhado.
— Meu Deus, . — suspirei, cravando minhas unhas nos braços dele.
Ele estava todo dentro. Fundo. A sensação de preenchimento era tão completa, tão avassaladora, que eu sentia que ele tocava o meu útero. Meus músculos internos se contraíam ao redor dele, num espasmo involuntário de prazer, tentando puxá-lo ainda mais para o meu centro.
— Deus, . — ele gemeu e, nesse momento, percebi que eu tinha um novo som favorito no mundo. O gemido dele. — É melhor do que eu imaginei. Mil vezes melhor.
Ele começou a se mover.
A primeira investida, foi lenta e profunda, fazendo-me soltar um uivo abafado. A cabeça do pau dele raspou num ponto dentro de mim que mandou um choque elétrico direto para os meus mamilos, que estavam doloridos e duros. A segunda investida foi mais confiante. O pau dele deslizava na minha umidade, num vai e vem tão obsceno e molhado que eu podia ouvir. O som nos envergonharia em qualquer outro contexto, mas ali era apenas a melhor trilha sonora do mundo. Meus quadris começaram a se mover sozinhos, encontrando o ritmo dele. Eu levantava para recebê-lo, e cada movimento tinham o mesmo som: finalmente. Uma das mãos dele agarrou o meu quadril, com seus dedos afundando na minha carne, segurando-me no lugar enquanto ele acelerava. A outra mão entrelaçou-se com a minha, apertando com uma força que doía, e eu amava aquela dor.
O pau dele batia num ponto perfeito, uma zona de puro êxtase que fazia meu corpo tremer incontrolavelmente e a única coisa que eu podia fazer com isso, era gritar.
— Isso, assim — ele encorajou, com o sorriso mais safado que já vi dar. — Grita meu nome. Deixa todo mundo ouvir quem é que está te comendo assim.
— Por favor — supliquei, deixando minhas pernas envolverem seus quadris, puxando-o para mais perto ainda. — Não pare.
Um sorriso deslumbrante cruzou seus lábios.
— Parar é a última coisa que vou fazer.
Ele se curvou sobre mim, sua boca encontrou a minha em um beijo desleixado e molhado, e eu pude sentir o suor salgado de sua testa contra a minha. O cheiro dele, o gosto, a sensação de seu corpo suado e musculoso contra o meu era uma overdose de , e eu estava intoxicada, viciada.
Ele se curvou sobre mim e assim que sua boca encontrou meu seio, seus lábios fecharam-se em volta do mamilo, sugando com uma força que me fez gritar. A dupla sensação de sua boca em mim e seu pau dentro de mim era tão grande que meus pensamentos se desintegraram.
Já não existia passado ou futuro, apenas aquele momento, aquele corpo, aquele homem.
— Você é tão apertada — ele gemeu contra meu peito, enquanto sua língua continuava lambendo e mordiscando o mamilo endurecido. — Sua boceta foi feita para mim.
Eu sorri quando o ouvi.
Meus músculos internos se contraíram ainda mais sob ele involuntariamente, tentando segurá-lo, mantê-lo lá para sempre e, como se entendesse o que eu estava tentando fazer, ele mudou para um ritmo mais curto e profundo, contante e perfeito. A pressão explodiu em segundos, e meu corpo foi tomado por uma segunda onda de orgasmo, ainda mais violenta que a primeira. Gritei seu nome, sentindo todo meu corpo se contorcer sob o dele, meus músculos internos apertavam em espasmos intermináveis. E no exato momento em que meu corpo ainda era sacudido pelos espasmos do meu próprio orgasmo, eu o senti. Era como se ele estivesse despejando a própria essência dele dentro de mim, num jorro quente e pulsante que preenchia cada cantinho, cada dobra que ele havia aberto e conquistado em tantos e tantos anos. Cada batida do pau dele dentro da minha boceta liberava uma nova onda do seu líquido, e eu conseguia sentir distintamente, com uma clareza obscena e avassaladora, cada jato.
Era a coisa mais primal e visceralmente indecente que eu já tinha experimentado e, paradoxalmente, a mais profundamente romântica. Uma sensação de ser marcada e preenchida de uma forma que ia além do físico, que chegava à alma.
E, Deus, era a coisa mais incrível do mundo.
Minhas pernas, ainda sobre o quadril dele dele, baixaram, tremulas.
Meus braços o apertaram contra meu peito, segurando-o ali, naquele santuário úmido e quente que havíamos criado juntos e senti uma contração final, um último suspiro quente do corpo dele dentro do meu. Fechei os olhos, afundando naquele momento. Era mais do que sexo, eu soube, com uma certeza que ia até os ossos: eu era dele. E ele, de todas as formas que importavam, era meu.
O cheiro dele ainda impregnava a minha pele, nas minhas coxas, no meu pescoço, na lembrança física, mental e inegável da noite e do que aconteceu. Muitas vezes.
respirava fundo ao meu lado, deixando um braço jogado sobre os olhos e mantendo o outro firmemente enrolado na minha cintura, mesmo no sono. Meu coração bateu um pouco mais forte agora. Acho que sempre foi comum eu e dormirmos assim, mas nunca depois de transarmos. Nunca tínhamos transado. Era tudo tão diferente e agora a minha mente não deixava de se perguntar, repetidamente, como seria quando voltássemos a rotina do dia a dia.
A resposta prática veio quase como uma profanação do momento, chegando com o som de um alarme que tocou no celular dele, do outro lado do quarto. gemeu, um som rouco e adorável, e puxou-me mais para perto, enterrando o rosto no meu cabelo.
— Cinco minutos — murmurou.
— Temos que fazer as malas — eu lembrei, mas as palavras soaram estranhas.
— Eu sei — ele suspirou, mas não se moveu. Sua mão fez um carinho lento na minha lateral, da cintura ao quadril e o toque foi tão natural que me fez estremecer. — Não quero.
Eu também não.
Ali, naquele quarto de praia com os lençóis cheios do nosso cheiro, o mundo era perfeito e simples. Éramos e , finalmente juntos, mas sem expectativas externas, sem a vida real.
Ele foi o primeiro a se mover, pressionando um beijo rápido no meu ombro antes de se levantar. A visão dele, nu e despreocupado, caminhando pela sala para silenciar o celular, era algo que eu ainda precisava me acostumar a ter o direito de apreciar. Ele se esticou e, droga, os músculos das costas se delinearam de forma tão bonita que eu me encolhi nos lençóis, absurdamente tímida.
— O que foi? — sua voz veio, percebendo minha quietude. Ele se virou, seus olhos escaneando meu rosto. me lia com tanta facilidade que era desconcertador.
— Nada. É só muita coisa pra fazer... O dia chegou, né? — tentei disfarçar, sentando na cama e puxando o lençol para cobrir meu peito. Ele parecia tão certo, tão sólido, era como se o namoro e o nosso sexo tivesse resolvido todas as equações complicadas que existiam entre nós, eu deveria me sentir assim também, mas tinha uma voz chata que sussurrava dentro de mim: Foi fácil aqui, num paraíso. E na cidade, com suas rotinas, seus trabalhos, seus fantasmas?
— Fala pra mim o que você está pensando.
— É muita coisa, — admiti, sentindo minha voz sair mais frágil do que eu gostaria. Evitei seus olhos, focando no ponto onde seu ombro encontrava o peito, numa pequena marca roxa que eu não me lembrava de ter feito. — Dez anos de amizade e uma noite que mudou tudo. E agora a gente vai voltar pra cidade, pra sua vida de sócio-gênio do escritório de advocacia e pra minha vida de cerimonialista que trabalha de pijama. Vamos voltar pro nosso grupo, onde você é o Beckett divertido e eu sou a sua desastrada, e todo mundo sabe nossa história toda, a história antes. Como é que a gente encaixa isso? — fiz um gesto vago entre nós dois — no meio de tudo que já existe?
Ele não me interrompeu em momento nenhum, ao invés disso apenas fez um movimento suave e circular na minha pele. Era o mesmo que discutia estratégias de vida comigo às três da manhã, o que me ajudava a montar argumentos para clientes difíceis e que entendia que alguns problemas precisavam ser dissecados antes de resolvidos. Era o meu e, céus, eu amava isso.
— Vai ser uma merda às vezes — afirmou, sendo brutalmente honesto. — Vamos ter que contar pros outros. A Tessa vai ser insuportável por um bom tempo, mas no fundo ela vai tá feliz pra caralho. O Chase vai ficar sem jeito e vai tentar não olhar pra gente e vão ter jantares em grupo que vão ser estranhos. E sim, eu vou ficar obcecado com aquele caso de fusão da firma e vou cancelar uns planos, assim como você vai entrar numa fase reclusa com algum projeto e vai esquecer de responder minhas mensagens. A gente vai brigar. Provavelmente vamos brigar feio, porque nos importamos muito e somos teimosos pra caralho.
— E então? — perguntei, engolindo em seco.
— E então — ele se inclinou para frente, deixando suas mãos subirem para envolver meu rosto — A gente faz o que sempre fizemos. Só que agora, quando eu te encontrar no corredor depois de uma briga, em vez de te dar um abraço apertado e fazer as pazes com uma cerveja, eu vou te empurrar contra a parede e te beijar até você parar de falar besteira. E quando você perceber que cancelou nosso encontro porque tava imersa no trabalho, em vez de só mandar um meme irritado, você vai aparecer no meu escritório de madrugada com um café horrível do posto e vamos transar em cima da mesa.
Um sorriso trêmulo escapou dos meus lábios.
— Isso parece possível — concedi.
— É mais que possível, é inevitável — ele corrigiu, encostando sua testa na minha. — Eu te amo há tanto tempo, , que mal consigo me lembrar de como era não te amar. A única coisa que mudou ontem foi que eu parei de fingir. Todo o resto é apenas um detalhe prático.
Ele disse detalhe prático com a mesma cara de pau com que, anos atrás, disse que passar no exame da ordem seria só mais uma prova. Era a maneira Beckett de diminuir o tamanho dos monstros. E funcionava.
Funcionava tão bem que eu esquecia o motivo de estar tão insegura. Eu não estava pisando em território estranho, na verdade, com , eu conhecia cada centímetro desse território. Sabia que ele rangia os dentes quando estava sob pressão, que suas piadas secas eram um disfarce para a preocupação e que ele guardava rancor por coisas pequenas, como café mal feito, mas perdoava instantaneamente as grandes traições.
Ele era minha pessoa. Meu porto seguro sarcástico e teimoso.
Então acho que, no fundo, não tenho medo que ele não me queira mais. não faz nada pela metade. Se ele me tocou daquele jeito, se me olhou com aquela devoção nua e cria, é porque ele quis. Com toda a intensidade Beckett que ele aplica a tudo na vida. Então, qual era meu medo?
Pensando bem, acho que era um medo geológico.
Acho que tenho medo de perder o meu lugar, no fim das contas. Talvez seja o mesmo medo que ele sentiu quando não quis se envolver comigo, a início.
Se isto der errado, e as coisas dão errado, porque... bem, são humanas, eu não perco só um namorado. Perco meu melhor amigo. Perco a pessoa para quem ligo quando vejo uma notícia absurda, quando a saudade de casa aperta, quando preciso da verdade mais dura e consoladora. Perco o código compartilhado, o olhar de cumplicidade através de uma mesa cheia de amigos. Perco o que me conhece antes de eu ser sua.
Nossa amizade funcionava. Era uma máquina bem oleada de suporte mútuo e provocação afetuosa, mas o relacionamento amoroso? E se ele não souber separar o sócio , que precisa viajar a negócios, do namorado , que prometeu um jantar? E se eu não souber desligar a produtora de eventos obsessiva, que some por dias num projeto, da namorada que deveria estar presente? Nós somos pessoas intensas, com vidas complexas e ambições grandes. Nossa amizade sobreviveu a isso porque havia um espaço de respiro, uma isenção. Agora, não há mais isenção.
Acho que eu me sentia assim, porque o maior medo, o medo de o perder completamente, foi confrontado com a maior verdade: perdê-lo nunca foi uma opção. Mesmo quando estávamos apenas amigos, a ideia de uma vida sem era um cenário inaceitável.
Ele observou meu silêncio, meus olhos fixos no vazio enquanto eu dissecava meus próprios fantasmas e seus polegares continuaram seus círculos calmantes nas minhas têmporas.
— Você tá viajando de novo, Quinn — disse, sua voz baixa e carregada de uma paciência que era só minha. — E sabe o que eu acho? — Abanei a cabeça, em negativa. — Que você precisa de um café. E eu preciso de você fora da sua própria cabeça. — Ele se inclinou e me beijou de forma rápida, mas carinhosa. — Vem. — Ele não me deu tempo de hesitar. Puxou-me para fora da cama, emendando minha mão na dele, e me conduziu até a cozinha. A luz da manhã lá era mais suave, filtrada pelas folhas das árvores lá fora. Ele me posicionou em frente à pia, diante da janela. — Fica aí.
Vi-o mover-se com a eficiência de quem conhecia a casa. Encheu a chaleira, pegou duas canecas, a azul manchada que eu sempre usava e a preta, lisa, dele. Do meu estoque pessoal, que ele trouxera na mala, pegou o pacote do meu chá de camomila com mel, não do café forte que ele preferia. Ele não estava preparando a bebida dele, estava preparando a minha, a que eu precisava para me acalmar. Enquanto a água aquecia, ele voltou para mim. Em vez de falar, ficou atrás de mim, envolvendo minha cintura com seus braços e com seu queixo repousando no meu ombro. Juntos, olhamos pela janela o mar ainda calmo da primeira hora.
— Vê aquela pedra grande, lá, à esquerda do coqueiro torto? — ele sussurrou no meu ouvido.
— Uhum.
— Lembra do dia em que você estava bêbada e tentou escalá-la com aquelas sandálias ridículas da Tessa?
Um sorriso involuntário escapou. Eu lembrava perfeitamente do meu ápice de idiotice. Ele insistiu que era uma péssima ideia, mesmo assim, ficou embaixo do coqueiro me esperando, gritando instruções inúteis e me xingando de teimosa, com as mãos prontas para me segurar se eu caísse. Eu caí. Ele me segurou.
— Lembro. Você ficou com um hematoma gigante no braço e depois brigou comigo dizendo que eu devia ter deixado você subir.
— É. E você chorou mais pelo meu praço do que pelo susto que levou ao cair. — ele completou, sua voz estava numa vibração aconchegante contra as minhas costas. — O ponto é o seguinte, . A nossa amizade não está guardada na categoria amigos, ela está em tudo. Está na pedra que você não devia ter escalado e no hematoma que eu trouxe para casa e disse que era de futebol. — A chaleira apitou. Ele se levanout e foi preparar as bebidas, mas continuou falando, mesmo de costas para mim. — Sim, vai ser diferente. Vou te ligar meio do dia não só para compartilhar uma notícia absurda, mas para dizer que te amo. Muito provavelmente, você vai ficar mais irritada comigo quando eu cancelar um plano por causa do trabalho, e eu vou ter de lidar com o fato de não ser só o amigo que te desiludiu, mas o teu namorado. E isso vai doer mais. Vai doer nos dois. — Ele voltou, entregando-me a caneca quente. O aroma calmante da camomila subiu até mim. — Mas, nós já sabemos dançar no escuro, um com o outro. Já sabemos como é que nos magoamos e como é que nos perdoamos também. O manual já está escrito. Só temos de adicionar um novo capítulo. — fez uma pausa, deixando o canto da boca subir em um sorriso travesso. — Um capítulo com bastante sexo, espero eu.
Fiquei paralisada, emocionada com a simplicidade e a precisão brutal daquela imagem. Ele sempre foi bom com palavras quando realmente importava.
— Então você está dizendo que somos condenados a um ciclo eterno de sexo selvagem e reconciliação? — perguntei, mas já podia sentir o tom embargado em minha voz.
Ele riu, um som profundo e verdadeiro que ecoou do seu peito até minhas costas.
— Basicamente. É um fardo que estou disposto a carregar. — Ele me girou suavemente para ficar de frente para ele e, quando o encarei, seus olhos estavam sérios novamente. — O ponto é: não tem volta. E eu não quero voltar. Eu adiei isso por muito tempo, tive medo por muito tempo, agora a única coisa que eu quero é você. Com e o sexo matinal de bom dia. — Ele então levou a mão ao bolso do shorts que havia vestido. Tirou algo pequeno e redondo e prateado. Era a tampa da garrafa de cerveja artesanal que tínhamos tomado na primeira noite aqui, há uma semana, sentados nessa mesma varanda, rindo com os amigos, fingindo que não sentíamos a tensão elétrica entre nós. Ele havia achatado a tampa. — Virou uma moeda — ele disse, pegando minha mão esquerda e colocando o disco de metal na minha palma. Era áspero nas bordas, frio. — Para lembrar que o primeiro passo oficial da coisa nova que a gente tá começando foi tirado no meio da velha e boa coisa que a gente já tinha e que uma coisa não apaga a outra.
Fechei meus dedos sobre a tampa amassada.
— Eu amo você.
Foi a única coisa que consegui responder. E era tão real. Eu o amava, eu amava Beckett com a minha vida e minha vida o amava também.
— Eu sei, e é por isso que você vai arrumar a minha mala também.
O riso que saiu de mim foi um alívio explosivo. Uma mistura de incredulidade e do puro prazer de conhecê-lo tão bem. Dez anos me treinaram para isso. Para saber que, no ápice de qualquer momento de profunda vulnerabilidade ou conexão sublime, Beckett vai encontrar uma maneira de cutucar o universo com um graveto. É seu mecanismo de sobrevivência.
— Nem fodendo, Beckett.
A frase saiu natural, automática. A linguagem do soco no ombro, da provocação no grupo, das mensagens de texto em caixa alta cheias de insultos afetuosos. Era o chão firme sob meus pés, depois de ter flutuado no abstrato do medo e da paixão. Ele não ficou ofendido. Seus olhos brilharam com uma satisfação perversa.
Missão cumprida.
Ele me trouxe de volta.
— Tá bom, tá bom — ele concedeu, estendendo as mãos no ar em sinal de rendição falsa. — Mas pelo menos me ajuda a encontrar o meu carregador. Eu sem telefone é claramente um perigo para a economia global.
Rolei os olhos, mas já estava me movendo em direção à bagunça de cabos e eletrônicos ao lado da cama dele, no nosso quarto. Era um ritual. Seu caos, minha organização. Quantas vezes eu tinha vasculhado a mochila ou a gaveta dele atrás de chaves, documentos ou o fone de ouvido que ele sempre perdia? Ver aquilo se desenrolar agora, depois de tudo, fez algo dentro de mim se acalmar. Os ossos da nossa dinâmica ainda estavam lá, intactos.
— Aqui — disse, pescando o carregador branco de dentro de uma de suas meias enroladas.
Por que? Apenas .
— Minha heroína — ele declarou, pegando-o e dando um beijo rápido na minha têmpora antes de se virar para enfiá-lo na mochila.
O gesto foi despretensioso, rápido, mas tão bonito. Não era o beijo devorador e possessivo da noite passada. Era um beijo de parceira. E doía de tão bom. Doía porque mostrava que ele conseguia navegar entre as duas coisas. Que eu ainda era a que achava suas coisas, e agora também era a que ele beijava.
— Você embala muito mal, sabia? — comentei, observando ele enfiar uma camisa social claramente amassada na mala.
— Eu embalo com eficiência — ele retrucou, sem olhar para cima. — O objetivo é transportar itens de A a B e eu atendo essa expectativa.
— É por isso que suas camisas chegam parecendo mapas amassados do tesouro.
— E eu as visto com um charme despojado que você claramente aprecia — ele rebateu, finalmente erguendo o olhar com um sorriso maroto.
Eu não pude conter um sorriso de volta.
Era isso.
Este era o ritmo.
O vai-e-vem.
O terreno familiar onde ambos sabíamos dançar
Enquanto arrumávamos as últimas coisas, ele pegou a tampa de garrafa amassada que havia me dado e, sem cerimônia, a enfiou no bolso lateral da minha mochila.
— Para não perder. É um artefato histórico agora.
Quando descemos as escadas, de mãos dadas mas com uma postura diferente, não mais os amigos secretamente apaixonados, mas um casal recém-declarado enfrentando o mundo, o olhar de Tessa foi direto ao ponto. Ela viu a minha expressão, menos perdida, mais ancorada e viu a maneira como apertou minha mão antes de soltá-la para pegar as chaves do carro. Ela não disse "finalmente", dessa vez. Não fez uma piada. Apenas me puxou para um abraço rápido e apertado e sorriu tão genuinamente que algo em mim se aqueceu.
— O que vocês duas estão tramando? — ele perguntou, pegando as malas.
— Segredos de mulheres, Beckett. Você não está preparado. — Tessa retrucou, e a normalidade da provocação foi o último toque de cura que eu precisava.
Talvez não fosse tão ruim assim voltar a rotina.
Talvez fosse tudo que eu precisava.
A porta do meu apartamente fechou com um click suave após sair. Deus, como eu tinha esquecido o peso do silêncio. Na casa de praia sempre havia alguém rindo na cozinha, uma TV ligada ou o mar ao fundo. Aqui era só o zumbido baixo da geladeira e o barulho dos meus próprios passos. O apartamento estava mudo. E empoeirado.
"Arrume suas coisas logo, não deixe a mala virar um monstro no meio da sala", a voz da minha mãe ecoou na minha cabeça. Era um conselho sensato, por isso, foi o que fiz. Enquanto tirava as roupas amassadas e cheias de areia da mala, o meu celular vibrou.
Era Sarah.. Meu rosto deve ter se iluminado, porque peguei o aparelho na hora.
— Ei, você! — a voz animada dela saiu do alto-falante antes mesmo de eu atender a vídeo. — Tá viva aí, náufraga? Ou ainda tá em estado de coma alcoólico e de sol?
— Viva, mas só por um triz — respondi, apoiando o celular na estante enquanto dobrava uma saia. O rosto de Sarah apareceu, com seus cachos escuros e um brilho curioso nos olhos. Era bom ver uma cara conhecida que não tinha passado a última semana me observando trocar olhares carregados com . — E o coma foi mais de cansaço mesmo. A Tessa é uma máquina de fazer planos.
— Conta tudo! — ela ordenou, apoiando o queixo na mão. — Já começando pelo mais importante: e o ?
Ah. .
E o quase-algo que rolou entre a gente e me deixou com o coração na mão de pânico, porque era o irmão de . E porque, no fundo, mesmo dividida, eu sabia em quem meu coração estava.
Sarah não sabia dos detalhes, só sabia que o estava lá e que era um gato. Bom, ele era. Ela torcia por , achava que ele era estável e adulto, o antídoto perfeito para minha doença crônica chamada . Ele não era.
— O … — comecei, evitando o olhar da câmera enquanto enrolava uma canga. — Foi legal. A gente conversou bastante.
— Só conversou? — ela cutucou, com um sorriso esperto. — Pelo seu jeito evasivo, tô sentindo que rolou mais que conversa. Ele é tão gato, ! E parece tão são. Seria um ótimo reboot pra você, depois de tantos desastres românticos. — Ela não estava totalmente errada. era são. E seria um reboot. — Imagina? Namorar o Beckett. Médico, bem-sucedido, gente boa, e ainda por cima, ficar na mesma família que o , mas sem a bagunça emocional confusa entre vocês. Tipo, ter acesso ao DNA Beckett sem o caos Beckett. Perfeito!
Meu coração batia forte contra as costelas. Eu precisava contar. Precisava jogar a bomba. Respirei fundo, sentando na beira da cama e encarando a tela.
— Sarah preciso te contar uma coisa. E você precisa prometer não gritar.
O sorriso dela congelou. Ela conhecia esse tom.
— Prometo, claro, mas agora tô nervosa. O que foi? tem namorada? É casado?
— Pior. — A palavra saiu antes que eu pudesse parar. — A coisa com o não foi pra frente. Na verdade, foi mais uma confusão minha. Porque — engoli seco — a coisa com o foi pra frente. Pra muito na frente.
O rosto de Sarah na tela se transformou. O interesse curioso virou um branco total de incompreensão.
— Como assim, ‘a coisa com o ’? Ele fez você chorar? Porque eu juro que…
— Não! — interrompi, minhas mãos suando. — O oposto. A gente se resolveu. De uma vez por todas.
Ela ficou em silêncio. Um silêncio mortal. Seus olhos pareciam tentar recalibrar.
— Se resolveram é um código? Porque com vocês dois, ‘se resolver’ pode significar desde uma briga física até um pacto de sangue.
— É código para, bom, meio que a gente transou. Várias vezes. E conversamos. E estamos juntos. Namorando.
O choque que se estampou no rosto dela foi quase físico. Ela afastou-se um pouco da câmera, como se a tela tivesse dado um choque nela.
— Não. — A palavra saiu como um tapa. — Não, . Você não pode estar falando sério. ? Beckett?
— Sim.
— O cara que você ama há dez anos mas que é um galinha comprometofóbico? O irmão do , que estava dando em cima de você? O mesmo que te tratou como melhor amiga por uma década e de repente isso? Porra! E o ? Ele sabe?
— sabe que não rolou nada sério entre a gente. Ele é adulto. Ele suspeitava de algo entre eu e o , eu acho. Ficou meio estranho nos últimos dias, mas não falou nada.
Sarah passou a mão no rosto, esfregando os olhos como se estivesse vendo coisas.
— Meu Deus. Meu Deus. Então enquanto eu tava aqui torcendo por um romance leve e saudável com o irmão estável, você tava se enfiando num furacão com o irmão problemático?
— Eu sei como parece — tentei argumentar, mas minha voz falhou. — Parece que eu sou idiota. Parece que eu escolhi a dor de cabeça. Mas, Sarah, não foi uma escolha. Foi tudo saindo de uma vez. E não é só tesão. A gente se conhece. A gente se vê. É assustador, mas é de verdade, sabe?
Ela balançava a cabeça lentamente, ainda processando.
— E aí o rei da não-responsabilidade afetiva? Ele falou que quer namorar? Usou essa palavra?
— Usou a palavra ‘namorada’. Na frente de todo mundo.
Sarah emitiu um som entre um riso de incredulidade e um gemido.
— Caralho. O mundo tá acabando. — Ela olhou para mim de novo, e a preocupação genuína tomou conta do choque. — E você? Você tá bem?
A desceração dela era tão precisa que eu quase ri. Quase chorei.
— Tô me sentindo atropelada, na verdade. Feliz e com medo, também. Acho que vou vomitar. Mas também é o , sabe? Não é um estranho. É o cara que me chama de idiota quando preciso ouvir isso, que guarda a chave do meu apartamento, que conhece a minha família, que sempre esteve ao meu lado e que traz sopa quando eu estou doente. Li uma vez que o parceiro que escolhemos é com quem vamos dividir as nossas maiores percas. Eu sei que posso dividir isso com ele. Se meu pai morrer, eu não sei se teria apoio incondicional com o , mas sei que teria com o .
Sarah ficou quieta por um longo minuto, mascando o lábio. Finalmente, ela suspirou, um suspiro que parecia carregar o peso da nossa amizade toda.
— Olha, eu acho que você é maluca. Acho que isso tem tudo para dar mais errado do que certo e virar a maior bagunça da história. — Fez uma pausa dramática. — Mas, se tem uma pessoa no mundo que entende a loucura que é Beckett, essa pessoa é você. E se ele finalmente acordou e percebeu que a melhor coisa da vida dele tava do lado dele o tempo todo… bem, só posso dizer: era hora, seu imbecil. — Um sorriso de alívio tremulo escapou dos meus lábios. — E sobre o … — ela continuou, séria. — Isso é delicado. Irmãos. Irmãos Beckett então... Toma cuidado, . Não brinca com isso.
— Eu sei. Foi uma confusão, mas tá resolvido.
— E você me mantém informada. De tudo. Cada passo. Cada crise. Cada idiota que ele for. Porque eu vou precisar de material para te dizer ‘eu avisei’ ou ‘caramba, ele mudou mesmo’. E se ele te fizer chorar, uma vez sequer, eu vou até o escritório dele e vou jogar glitter nos processos mais importantes que ele tiver. Mas… — ela continuou, sua voz suavizando. — Eu também vou torcer. Porque, caramba, , se alguém na face da terra consegue domar o Beckett, essa pessoa é você.
Prometi que sim, com o coração um pouco mais leve. Contei pra ela sobre a história do com a Ivy, ela ficou incrédula e fofocamos mais um pouco. Depois, desligamos e eu fiquei sentada na cama bagunçada, cercada pelas roupas que contavam duas histórias: o cheiro do protetor solar dos dias com na praia, e o cheiro do quarto escuro, de suor e , da noite passada.
O celular vibrou de novo. Dessa vez, não era Sarah.
— Alô?
— Então, ladra. — A voz dele, grave e um pouco cansada, preencheu meu ouvido e o quarto vazio de uma vez só. — Consegui escapar da Tessa. Ela ia me fazer subir pra tomar um café e dar conselhos românticos. Disse que tinha uma emergência judicial urgente.
— Você é um mentiroso compulsivo — acusei, sentando na cama, com um sorriso enorme estampado no rosto.
— Estratégico, eu prefiro. Se eu subisse, ela ia me interrogar por horas. Você sabe como ela é. — Houve um ruído de fundo, o som de uma porta de carro batendo, eu acho. Ele devia estar na garagem do prédio dele. — Como tá o front da descontaminação pós-praia?
— Controlado. Areia contida. Roupa suja em quarentena. Você?
— Heróica. Eu só joguei a minha no quarto e dei um chute nela pra não tropeçar. A eficiência, como sempre, está comigo. — Ele fez uma pausa. — Tá tudo bem?
— Tudo bem — respondi, e era verdade. — Só a ressaca da realidade. Já tenho reunião amanhã.
— Merda. Bom, pelo menos é com o povo do chá, né? Não é como se sua carreira dependesse de convencer um júri de que seu cliente é um santo.
— Obrigada por colocar em perspectiva meus problemas insignificantes — disse, sarcástica.
— Sempre às ordens. — Ouvi o som de uma fechadura eletrônica. Ele devia estar entrando no escritório. — Olha, não vou poder falar muito amanhã. O dia vai ser um inferno. Mas às 19h eu tô aí. Ou você aqui. Onde a gente combinou mesmo?
— Na sua, chef. Lembrei dos antiácidos.
— Hilária. — Mas dava pra ouvir o sorriso na voz dele. — ?
— Hum?
— Sabe aquela última camisa minha que você vestiu? Não lava. Ela não vai cheirar mais do mesmo jeito. Só deixa separada?
Meu coração deu uma virada no peito. Aquele pedido bobo e específico, era um fragmento da nossa nova intimidade? Um código?
— Tá bem — disse, minha voz suavizando. — Vai trabalhar, Beckett. Deixa de ser vagabundo.
— Por incrível que pareça, é o que estou fazendo. O Chen me mandou três e-mails. Em caixa alta.
— Três e-mails em caixa alta do Chen? — assobiei baixo, repetindo o que ele disse. — Você deve ter feito alguma besteira monumental. Deixou expirar algum prazo?
— Pior. Mandei um estagiário completamente incompetente representar a gente numa audiência preliminar. O garoto deve ter gaguejado e chamado o juiz de ‘você’. O Chen tem um sexto sentido pra incompetência alheia. — Ele não parecia particularmente preocupado, era mais o tom de quem narrava um desastre previsível e um pouco engraçado. — Então, bom. Meu dia amanhã vai ser uma maravilha de gerenciamento de crise e humilhação pública.
— Que pena. Eu só tenho que convencer umas pessoas que chá de erva-doce em saquinho premium é a nova fronteira da felicidade humana para um casamento bom.
— Olha, pelo menos seu trabalho não faz as pessoas quererem se matar. Dependendo do meu cliente… — ele brincou. Ouvi o ruído do elevador.
— A Sarah me ligou.
— O que ela disse? Aposto que já tem um plano pronto para a nossa primeira briga.
— Quase isso. Ela falou que você é um mulherengo desde 2013 e que se você me fizer chorar, ela joga glitter nos seus processos.
Ele riu, um som verdadeiro e aberto que me aqueceu por dentro.
— Justo. Respeito a tática. O glitter é um inferno de tirar, mas você pode dizer a Sarah que minha licença de mulherengo oficial está vencida e em processo de cassação permanente. Não planejo renovar. — A voz dele baixou, ficando mais íntima, mesmo com o som de uma porta pesada sendo aberta. — E quanto ao choro, bem, a ideia é que você nunca precise chorar por mim., mas se for pra ter umidade, que seja por um motivo bem melhor.
— Meu Deus, !
— Só sendo específico. — Ouvi o som dele se sentando numa cadeira de escritório, o rangido era característico. — Uma pausa se formou. Eu conseguia quase vê-lo lá, na escuridão do escritório, com os olhos fixos em algum ponto distante, pensando. — Então, combinado? Preparada pra uma experiência gastronômica incrível?
— Mais ou menos. Já separei o número do controle de intoxicações. Só por precaução.
— Confiança é tudo numa relação. — Eu gargalhei baixinho e pude visualizar, na minha mente, o sorriso dele se formando. — Partindo. Até amanhã, ladra.
— Até amanhã.
A ligação caiu, mas o sorriso idiota no meu rosto não.
Esse homem era impossível. Ele conseguia ir de "processo de cassação permanente" para "umidade por um motivo melhor" em dois segundos, sem nem piscar. E o pior: funcionava. O nervosismo de amanhã ser nosso primeiro jantar juntos, funcionava também. O bichinho da ansiedade me corroía, me fazia pensar que, talvez, de alguma forma, poderia ser estranho. Um jantar, a sós, com o peso de "agora estamos juntos". Os pensamentos intrusivos, obviamente, me faziam entrar em colapso, o que me fez enviar mensagem para Sarah.
"Tô com medo de eu e o ficarmos diferentes amanhã. Vamos jantar juntos."
"É claro que é diferente, animal. Antes você olhava pra ele e pensava "que gostoso, pena que é meu amigo". Agora você olha e pensa "que gostoso, E É MEU". É uma atualização de sistema enorme."
A descrição dela era mais precisa do que pude imaginar. Era exatamente isso. Eu tinha passado tanto tempo treinando para não ver ele dessa forma, que agora permitir-me ver era como desaprender a andar.
"Vai ser estranho pra caralho, no começo. Vocês vão falar de trabalho, ele vai fazer uma piada ácida, você vai rir, e do nada vai lembrar que pode pular no colo dele agora. Vai ser esquisito. E depois vai ficando normal. Ou o novo normal, que é esquisito mas gostoso. Relaxa. É o Beckett. O cara te conhece melhor que eu. Ele não vai deixar ficar estranho."
Ela tinha razão. nunca deixava o silêncio ser desconfortável. Ele o preenchia com provocação, com perguntas incômodas, ou simplesmente com sua presença calma. Se alguém saberia navegar essa mudança, era ele.
"Tá. Acho que tô pirando à toa."
"Tá sim. Pirar é seu esporte favorito. Mas amanhã você vai jantar com o homem dos seus sonhos de longa data, foca nisso. Agora me deixa em paz, tô vendo um reality. Beijos."
Desliguei o celular com um sorriso. A Sarah era como um banho de água gelada: chocava, fazia tremer, mas refrescava. Fui até a cozinha, fiz um chá (não era de erva-doce, era camomila, ironicamente) e sentei no sofá com o laptop. Quando abri o e-mail, respirei fundo vendo as cento e quarenta e sete mensagens não lidas. A maioria spam, felizmente. No meio da pilha, um nome me fez parar. . O assunto era um simples: "Foi bom te ver."
Eu pensei em responder, ele era um cara muito legal e não merecia ficar no vácuo. Mas o que eu responderia? "Então, não vai dar. Eu meio que estou com o seu irmão agora. De qualquer forma, valeu pelo seu beijo e as provocações. Foram ótimas."?
Deus, não. A situação já era surreal o suficiente.
Ignorar era a opção mais fácil, mas também era a mais filha da puta. não tinha feito nada de errado.
Abri o e-mail.
De:
Para:
Assunto: Foi bom te ver.
Data: Hoje, 08:14
Para:
Assunto: Foi bom te ver.
Data: Hoje, 08:14
Oi ,
Eu não deveria estar enviando esse e-mail, mas precisava te dizer que saí da viagem mais cedo por alguns imprevistos.
Tentei te procurar, mas você não estava no quarto. Achei que estivesse com o .
Vi que você estava meio mal por ele, no começo da viagem.
Bom, de qualquer forma, ainda mantenho o que disse naquela noite.
Se mudar de ideia, vou estar aqui.
.
Abri uma nova janela de resposta, minhas mãos estavam frias. O que dizer? Desculpe ter escolhido seu irmão complicado em vez de você, que é um anjo? Não. Qualquer coisa que eu disesse só aprofundaria um corte. Qualquer coisa seria cruel e, se não fosse, seria dar esperanças onde não havia. E eu não era boa em mentiras suaves. Nunca fui. era o mestre da verdade doída, talvez eu tivesse aprendido com ele a ser assim também.
Fechei os olhos, afundando no sofá. Eu podia fechá-la. Deletar. Fingir que nunca tinha visto, mas eu tinha visto. Então, lentamente, com um peso imento em cada músculo, eu fiz algo que parecia ao mesmo tempo a coisa mais covarde e mais misericordiosa que consegui. Passei o cursor sobre o e-mail e cliquei em arquivar.


