Codificada por: Lua ☾
Finalizada em: Abril/2026.
Capítulo Único
— Meu cérebro deve estar no fim da linha, não sei se entendi direito. Repete pra mim.
— Tenho duas horas pra entregar esse texto porque passei a noite ajudando com o argumento pra inscrição do projeto dele — disse , olhos focados na tela do notebook. — E você deveria descansar um pouco.
pressionou o rosto contra as palmas, inspirando profundamente.
— Amiga, por que você ajudaria aquele cabeça de vento a entrar num projeto de pesquisa científica? Qual contribuição ele poderia ter?
— Ah, ele tem umas ideias, só precisa aprender a organizá-las um pouco.
— Sendo que você sabe que meu primo de oito anos faria isso em dois dias, mas não é ele que está na universidade.
— Não é justo, . — Olhou na direção da amiga com um olhar repreensivo. — Seu primo é um gênio.
sabia que estava fazendo mais do que o necessário para ajudar um marmanjo universitário no quinto período do curso. No entanto, já tinha se acostumado com o azar que lhe trazia homens coitados sem muita noção de sobrevivência. Ao menos a maioria deles eram bonitos e charmosos, tinham uma boa condição financeira e adoravam mimá-la. Ao menos era melhor que o fracassado anterior. Ela estava ciente.
— Mal posso esperar pra te ver com um cara legal que te trate como namorada, não babá — admitiu , recebendo um ofego da outra. — Digo isso com todo amor no coração.
sorriu, apertando a mão da amiga sobre a mesa.
— Eu sei. Só acho que as chances são mínimas. — Suspirou, alongando os dedos para voltar ao trabalho. — E tudo bem, acontece. Eu até me divirto.
já tinha tentado apresentar amigos não-problemáticos, inteligentes e gentis, mas algo em bloqueava toda conexão romântica que pudesse surgir com eles. Então também se tornaram amigos, mas nunca um exemplo do que um relacionamento poderia ser. quis reforçar o discurso sobre “merecer mais”, “aprender a ficar sozinha”, “fazer terapia”, mas sabia que os padrões seriam quebrados na hora certa. Torcia que fosse muito em breve.
*
saiu do quarto de envolvida por um roupão lilás fofinho e a mochila pendurada em um dos ombros. Estava com os músculos relaxados após um delicioso banho de banheira. O sexo tinha sido qualquer coisa; como sempre, precisou se esforçar para ter um orgasmo decente. E tudo bem, cada encontro era uma nova oportunidade de conhecer o próprio corpo e descobrir novos jeitos de se satisfazer. A sala de estar enorme estava iluminada somente por luzes indiretas, dando um ar aconchegante ao cômodo. A luz mais forte vinha da varanda, onde um homem estava concentrado em suas anotações, que pareciam muitas, dado a quantidade de papéis e abas abertas na tela do notebook. O prédio era alto o suficiente para que os ruídos da rua ficassem distantes no plano de fundo.
Ele ouviu os passos e a viu pela visão periférica.
— Amiga de ?
— Conhecida.
— Parece confortável para uma desconhecida.
— Estratégia. — Deu de ombros. — Se importa em dividir o espaço comigo? Eu geralmente fico aqui quando ele dorme.
— Fica à vontade. Não vai perguntar sobre mim?
— Bom, tudo indica que você é o colega de apartamento que meu querido nunca pensou em mencionar, então…
— É, ele não pensa muito — acrescentou. — Na verdade, o apartamento é meu, é só um favor de uma tia insistente.
sorriu, então balançou a cabeça.
— Podemos bolar um plano pra expulsar ele daqui.
— Gosto da ideia. — Ele sorriu junto.
Ela começou a se organizar no outro lado da mesa retangular, onde os materiais do rapaz não alcançavam.
— Qual seu nome e por que não te vi aqui nas últimas semanas?
— Semanas? Uau, ele é bom assim?
Ela manteve a expressão neutra. Não lhe devia satisfação sobre como os dias em que visitou não somavam sequer uma semana. Se não falava sobre ela, então ela criaria uma falsa noção de permanência para esse estranho.
— Sou . Estive viajando a trabalho, finalmente posso voltar ao modo híbrido.
— Entendi.
observou a expressão dela mudar drasticamente de simpática para totalmente séria, como se estivesse se isolando de qualquer interação a partir daquele momento. Mesmo sabendo que tinha perdido a chance de continuar a conversa, ele decidiu tentar uma última coisa:
— Já jantou?
— Demos uma passada no drive-thru no caminho pra cá — disse, tirando os olhos da tela por um segundo. — Tô tranquila, não vou demorar muito aqui.
Ela não notou a confusão misturada com choque no rosto dele.
— Entendi. Posso preparar algo se quiser, eu já estava pra fazer um intervalo mesmo.
— Não, valeu. Só preciso trabalhar nisso aqui enquanto ainda tenho esse espaço quieto.
— Tudo bem.
As próximas horas se passaram em silêncio. esperava por mais interrupções, mas se surpreendeu quando até mesmo os movimentos de ao entrar e sair da varanda se mostravam calmos, nem perto de desastrados.
*
Voltar com para casa se tornou mais frequente na semana seguinte. gostava bastante do conforto do apartamento e da varanda silenciosa, o que não tinha conseguido em três anos morando numa república. gostava de ser visto com ela, gostava dos favores acadêmicos que ela fazia, gostava da companhia que lhe ouvia falar até pegar no sono. Por isso ele não se importava se não houvesse sexo, era como chegar em casa e guardar o troféu na estante após exibi-lo durante o dia inteiro.
levou um tempo para tranquilizar sobre essa troca. Com os privilégios de , ela tinha um apartamento enorme, silêncio, sofá fofinho e uma televisão gigante para ver seus filmes favoritos. Óbvio que, para isso, precisou sacrificar algumas horas de sua madrugada, mas o conforto felizmente possibilitava uma boa noite de sono. A maior novidade, após o encontro com , foi abrir a geladeira e se deparar com comidas normais, sem dietas esquisitas para atletas obcecados.
não estava presente naquela noite, mas havia deixado uma nota colada em um dos potes: “Não é justo que ele te leve pra comer fast food enquanto só tem essa gororoba aqui em casa. Deixei algumas opções pra você escolher o que for melhor pro seu gosto. Tem de congelados a ingredientes separados, se preferir. Bon appétit, .”
Ela só percebeu que estava sorrindo quando se viu no reflexo prateado da geladeira. Arregalou os olhos e pegou o celular, enviando uma foto para . A resposta chegou alguns minutos depois:
“O universo está se movendo de maneira misteriosa. Vou ficar em silêncio.”
*
Quando o viu novamente, foi como na primeira vez. A única diferença era que estava seguindo diretamente para a cozinha quando ele a viu. A voz grave e sedosa quase a fez pular de susto.
— Não sei se fico feliz ou triste em te ver de novo.
se virou, encontrando sentado numa postura relaxada, de braços cruzados. Lindo demais pra ser verdade.
— Engraçado, tenho a sensação que você fez um esforço extra pra me ver de novo.
Ele sorriu, assentindo. Ela se aproximou, encostando a lateral do corpo na parede da entrada.
— Acertei em alguma daquelas opções?
— Em todas, na verdade. Obrigada.
— Sem problemas. Muita coisa pra fazer hoje?
— Um pouco. Fiz muitas leituras hoje, agora preciso selecionar o que faz sentido pro meu texto. — Suspirou, pressionando a ponte do nariz. — Só tô muito cansada de escrever e olhar pra um monte de letrinhas.
assentiu, desviando o olhar para suas coisas sobre a mesa.
— Talvez falar sobre possa ajudar, pelo menos hoje.
— Minhas amigas estão ocupadas ou dormindo agora, mas vou considerar amanhã.
— Não, pra mim — ele ressaltou. — Quero que explique sua pesquisa pra mim.
franziu o cenho, confusa. Diante do silêncio, ele continuou.
— Nossas áreas são diferentes, é uma boa ideia pra te ajudar a organizar porque vai ser como uma aula resumida.
Ela quase deixou escapar, chegou muito perto de perguntar por que ele iria querer ouvi-la falar por tanto tempo sobre algo que nem era do interesse dele. Então lembrou da regra de nunca deixar um homem saber de suas inseguranças. Piscou algumas vezes e redirecionou o cérebro para o pensamento de “não é nada demais”, que ela se recusava a admitir ser uma autossabotagem.
— Tudo bem. Vou comer e depois trago minhas coisas.
*
Quando decidiu parar de ver , não se surpreendeu pela facilidade do término. Geralmente não havia nada concreto para encerrar. O máximo que ele tentou fazer foi convencê-la a continuar ajudando nas atividades acadêmicas, mas isso a fez rir. Ignorar a expressão de cachorro abandonado até que foi divertido dessa vez. Com o passar do tempo, se viu querendo passar mais tempo com , visitando o apartamento em horários diferentes, aqueles considerados normais.
Um dia, ele sugeriu que ela usasse a área de foco da empresa que ele trabalhava, assim ela poderia aproveitar o tempo após a aula e descansar pelo resto da noite. Lá ela poderia ficar confortável e também teria lanches à disposição, mas é claro que ele se comprometeu a dar carona e levá-la para almoçar antes disso. O primeiro choque de foi entender que tinha um emprego de verdade — um bom emprego —, e um carro elegante e espaçoso. Estava cansada das incontáveis vezes em que precisou rachar a conta do Uber ou o valor da gasolina. Ainda não fazia ideia se ele vinha de família rica, mas aquele apartamento fazia sentido com o cargo de analista de sistemas de segurança.
— Sua amiga está de carro? — perguntou ele, colocando a mão para proteger a cabeça de ao entrar e sentar no banco. tinha se despedido bem antes e já estava caminhando na direção do ponto de ônibus.
— Não, a gente mora aqui perto, então geralmente vamos de ônibus.
— Eu posso deixar ela em casa.
demorou para processar a informação.
— Sério?
— Sua surpresa está me assustando.
— Desculpa, é que isso já foi um problema algumas vezes — admitiu. — Então parei de tentar e a de se importar.
Ele franziu o cenho, puxando o ar com força. Olhou mais uma vez na direção de , que se distanciava mais e mais.
— Por favor, liga e avisa que ela vai com a gente — pediu ele, num tom calmo. Ela assentiu, ainda desconcertada. — Diz pra ela esperar onde está, eu faço a volta.
fechou a porta com cuidado. ligou para enquanto colocava o cinto de segurança. A mesma confusão veio na resposta do outro lado da linha, mas ela aceitou com muita vontade.
— Ela disse que você é um anjo — disse , rindo da animação ao desligar.
— Por oferecer carona? — perguntou, incrédulo. — Vocês vão me deixar maluco.
— Nem me fale.
captou a frustração no suspiro dela, mas não abordou o assunto. As informações estavam se acumulando mesmo que ela não as mencionasse diretamente. Se ele já tinha se incomodado com o fato dela ter dado uma chance a , aos poucos ia compreendendo o quão fundo aquela situação ia.
*
Os encontros na empresa passaram a ser em dias alternados, às vezes com intervalos maiores quando a demanda da universidade ou da empresa se tornava demais. fez questão de apresentar aos seus colegas de trabalho e às pessoas da recepção, assim ela não ficaria desconfortável nos espaços, mesmo possuindo um crachá de autorização.
Desde então, quando se encontravam no apartamento, raramente estava presente. Era realmente como um hóspede que só deixa rastros para dizer que existe naquele lugar. não se preocupava em “ser pega” por ele, ainda mais agora que conhecia o verdadeiro dono. Ela sabia que não a deixaria ser desrespeitada. Não só na casa dele, em lugar nenhum. Era difícil se acostumar com o silêncio confortável, com o cuidado recíproco. A forma como ele lhe dava espaço para falar e realmente ouvia, respondendo, perguntando e complementando quando tinha oportunidade. Com o passar dos anos cheios de relacionamentos instáveis, criou o hábito de dissociar em certos momentos, ciente de que na maioria das vezes eles sequer se importavam com uma resposta. O som da própria voz era combustível suficiente.
Não conseguia evitar sentir medo daquilo tudo acabar em breve. Não queria ser apenas amiga de , mas sabia de sua própria sorte.
— Não tenho como negar. No fim de todos esses relacionamentos horríveis com data de validade, só tem um denominador comum. — Deu de ombros, apontando para si.
permaneceu sereno, olhos fixos no trânsito.
— Gostaria que você não se diminuísse tanto.
arqueou as sobrancelhas, engolindo em seco. Não tinha percebido que seus pensamentos tinham sido expostos em voz alta. Tamanha sensação de conforto que estava sentindo.
— O quê?
— Você não é responsável pelos caras imprestáveis que se relaciona, tenho certeza que ter você foi a única coisa boa que já aconteceu pra eles. Adoraria te conhecer melhor e entender o que te leva a entrar nessas furadas, mas não acho que seja você mereça o pior. Muito pelo contrário.
encarou a lateral do rosto dele por alguns segundos, sem palavras. Então, lançou a última tacada.
— Quer pagar minha terapia?
deu um suspiro suave ao parar no sinal vermelho. Virou o rosto para encará-la de volta, para que não houvesse mais dúvidas.
— Quero te dar tudo que você quiser, só não sei como falar isso sem parecer egocêntrico.
Silêncio. Buzinas impacientes interromperam o transe alguns segundos depois. desviou o olhar para a janela ao seu lado. Se manteve assim até estacionarem na entrada da república, onde o movimento de pessoas estava razoável. sabia que ela estava presa com os próprios pensamentos, só não tinha ideia de como trazê-la de volta sem assustá-la.
— Eu tô acostumada a ouvir coisas ditas da boca pra fora, mas não deixa de ser errado — disse ela, após um tempo, ainda encarando o porta-luvas.
— , com você eu sempre tive certeza. Não existiu um dia em que eu não tivesse.
Quando ela voltou os olhos para os dele, as lágrimas empoçadas se tornaram evidentes. A expressão de suavizou, sua mão direita fez um movimento involuntário de limpar a primeira gota que caiu. O contato físico quase fez desmoronar.
— Não é assim que funciona — lamentou. — Não pra mim.
— Agora é — disse com firmeza na voz, oposto ao modo delicado em que segurou o rosto dela com as duas mãos. — Eu adoro conhecer mais dessa mulher incrível todos os dias. Eu adoro a ideia de poder te proporcionar tudo que você merece. Eu quero tudo isso, , se você me aceitar.
estava tão perto de se perder em lágrimas que seus lábios formaram um biquinho que, na perspectiva de , era adorável. Ele não conseguiu controlar o sorriso de orelha a orelha.
— Eu quero, quero muito — confessou, quebrando o espaço para beijá-lo.
O beijo que era novo, ao mesmo tempo, parecia familiar. Se moviam numa mistura de paciência e pressa, de querer conhecer, explorar, sentir tudo que havia para sentir. Sorrisos iam surgindo nos intervalos curtos para respirar. Para ambos, tinha gosto de finalmente. Finalmente.
— , espera — disse ela, se afastando ofegante. Ele apenas assentiu com a cabeça, esperando. — Sei que a ideia é você me mostrar que é melhor que os outros, ou sei lá o quê… mas, na verdade, não quero transar agora… nem em breve.
Ele continuou em silêncio, os olhos fixos em cada pequeno movimento nas expressões dela.
— Nesse meu azar terrível com homens, sexo acabou sendo uma parte significativa de tudo. Não é que eu não queira devorar você aqui e agora, é só que… não quero que seja só sobre isso.
— Tudo bem. — Ele sorriu, entrelaçando seus dedos aos dela.
— Tudo bem?
mal conseguia conter a explosão de alívio em seu peito. Provavelmente demoraria para entender que aquilo, sim, era o normal. Porém agora sabia que estaria lá para ressaltar sempre que necessário.
— Sim, você que manda. Sinceramente, fico feliz em saber que você quer me devorar agora. É maravilhoso pro meu ego.
Ela riu, jogando a cabeça para trás. abriu um sorriso com a ação.
— Tenho duas horas pra entregar esse texto porque passei a noite ajudando com o argumento pra inscrição do projeto dele — disse , olhos focados na tela do notebook. — E você deveria descansar um pouco.
pressionou o rosto contra as palmas, inspirando profundamente.
— Amiga, por que você ajudaria aquele cabeça de vento a entrar num projeto de pesquisa científica? Qual contribuição ele poderia ter?
— Ah, ele tem umas ideias, só precisa aprender a organizá-las um pouco.
— Sendo que você sabe que meu primo de oito anos faria isso em dois dias, mas não é ele que está na universidade.
— Não é justo, . — Olhou na direção da amiga com um olhar repreensivo. — Seu primo é um gênio.
sabia que estava fazendo mais do que o necessário para ajudar um marmanjo universitário no quinto período do curso. No entanto, já tinha se acostumado com o azar que lhe trazia homens coitados sem muita noção de sobrevivência. Ao menos a maioria deles eram bonitos e charmosos, tinham uma boa condição financeira e adoravam mimá-la. Ao menos era melhor que o fracassado anterior. Ela estava ciente.
— Mal posso esperar pra te ver com um cara legal que te trate como namorada, não babá — admitiu , recebendo um ofego da outra. — Digo isso com todo amor no coração.
sorriu, apertando a mão da amiga sobre a mesa.
— Eu sei. Só acho que as chances são mínimas. — Suspirou, alongando os dedos para voltar ao trabalho. — E tudo bem, acontece. Eu até me divirto.
já tinha tentado apresentar amigos não-problemáticos, inteligentes e gentis, mas algo em bloqueava toda conexão romântica que pudesse surgir com eles. Então também se tornaram amigos, mas nunca um exemplo do que um relacionamento poderia ser. quis reforçar o discurso sobre “merecer mais”, “aprender a ficar sozinha”, “fazer terapia”, mas sabia que os padrões seriam quebrados na hora certa. Torcia que fosse muito em breve.
*
saiu do quarto de envolvida por um roupão lilás fofinho e a mochila pendurada em um dos ombros. Estava com os músculos relaxados após um delicioso banho de banheira. O sexo tinha sido qualquer coisa; como sempre, precisou se esforçar para ter um orgasmo decente. E tudo bem, cada encontro era uma nova oportunidade de conhecer o próprio corpo e descobrir novos jeitos de se satisfazer. A sala de estar enorme estava iluminada somente por luzes indiretas, dando um ar aconchegante ao cômodo. A luz mais forte vinha da varanda, onde um homem estava concentrado em suas anotações, que pareciam muitas, dado a quantidade de papéis e abas abertas na tela do notebook. O prédio era alto o suficiente para que os ruídos da rua ficassem distantes no plano de fundo.
Ele ouviu os passos e a viu pela visão periférica.
— Amiga de ?
— Conhecida.
— Parece confortável para uma desconhecida.
— Estratégia. — Deu de ombros. — Se importa em dividir o espaço comigo? Eu geralmente fico aqui quando ele dorme.
— Fica à vontade. Não vai perguntar sobre mim?
— Bom, tudo indica que você é o colega de apartamento que meu querido nunca pensou em mencionar, então…
— É, ele não pensa muito — acrescentou. — Na verdade, o apartamento é meu, é só um favor de uma tia insistente.
sorriu, então balançou a cabeça.
— Podemos bolar um plano pra expulsar ele daqui.
— Gosto da ideia. — Ele sorriu junto.
Ela começou a se organizar no outro lado da mesa retangular, onde os materiais do rapaz não alcançavam.
— Qual seu nome e por que não te vi aqui nas últimas semanas?
— Semanas? Uau, ele é bom assim?
Ela manteve a expressão neutra. Não lhe devia satisfação sobre como os dias em que visitou não somavam sequer uma semana. Se não falava sobre ela, então ela criaria uma falsa noção de permanência para esse estranho.
— Sou . Estive viajando a trabalho, finalmente posso voltar ao modo híbrido.
— Entendi.
observou a expressão dela mudar drasticamente de simpática para totalmente séria, como se estivesse se isolando de qualquer interação a partir daquele momento. Mesmo sabendo que tinha perdido a chance de continuar a conversa, ele decidiu tentar uma última coisa:
— Já jantou?
— Demos uma passada no drive-thru no caminho pra cá — disse, tirando os olhos da tela por um segundo. — Tô tranquila, não vou demorar muito aqui.
Ela não notou a confusão misturada com choque no rosto dele.
— Entendi. Posso preparar algo se quiser, eu já estava pra fazer um intervalo mesmo.
— Não, valeu. Só preciso trabalhar nisso aqui enquanto ainda tenho esse espaço quieto.
— Tudo bem.
As próximas horas se passaram em silêncio. esperava por mais interrupções, mas se surpreendeu quando até mesmo os movimentos de ao entrar e sair da varanda se mostravam calmos, nem perto de desastrados.
*
Voltar com para casa se tornou mais frequente na semana seguinte. gostava bastante do conforto do apartamento e da varanda silenciosa, o que não tinha conseguido em três anos morando numa república. gostava de ser visto com ela, gostava dos favores acadêmicos que ela fazia, gostava da companhia que lhe ouvia falar até pegar no sono. Por isso ele não se importava se não houvesse sexo, era como chegar em casa e guardar o troféu na estante após exibi-lo durante o dia inteiro.
levou um tempo para tranquilizar sobre essa troca. Com os privilégios de , ela tinha um apartamento enorme, silêncio, sofá fofinho e uma televisão gigante para ver seus filmes favoritos. Óbvio que, para isso, precisou sacrificar algumas horas de sua madrugada, mas o conforto felizmente possibilitava uma boa noite de sono. A maior novidade, após o encontro com , foi abrir a geladeira e se deparar com comidas normais, sem dietas esquisitas para atletas obcecados.
não estava presente naquela noite, mas havia deixado uma nota colada em um dos potes: “Não é justo que ele te leve pra comer fast food enquanto só tem essa gororoba aqui em casa. Deixei algumas opções pra você escolher o que for melhor pro seu gosto. Tem de congelados a ingredientes separados, se preferir. Bon appétit, .”
Ela só percebeu que estava sorrindo quando se viu no reflexo prateado da geladeira. Arregalou os olhos e pegou o celular, enviando uma foto para . A resposta chegou alguns minutos depois:
“O universo está se movendo de maneira misteriosa. Vou ficar em silêncio.”
*
Quando o viu novamente, foi como na primeira vez. A única diferença era que estava seguindo diretamente para a cozinha quando ele a viu. A voz grave e sedosa quase a fez pular de susto.
— Não sei se fico feliz ou triste em te ver de novo.
se virou, encontrando sentado numa postura relaxada, de braços cruzados. Lindo demais pra ser verdade.
— Engraçado, tenho a sensação que você fez um esforço extra pra me ver de novo.
Ele sorriu, assentindo. Ela se aproximou, encostando a lateral do corpo na parede da entrada.
— Acertei em alguma daquelas opções?
— Em todas, na verdade. Obrigada.
— Sem problemas. Muita coisa pra fazer hoje?
— Um pouco. Fiz muitas leituras hoje, agora preciso selecionar o que faz sentido pro meu texto. — Suspirou, pressionando a ponte do nariz. — Só tô muito cansada de escrever e olhar pra um monte de letrinhas.
assentiu, desviando o olhar para suas coisas sobre a mesa.
— Talvez falar sobre possa ajudar, pelo menos hoje.
— Minhas amigas estão ocupadas ou dormindo agora, mas vou considerar amanhã.
— Não, pra mim — ele ressaltou. — Quero que explique sua pesquisa pra mim.
franziu o cenho, confusa. Diante do silêncio, ele continuou.
— Nossas áreas são diferentes, é uma boa ideia pra te ajudar a organizar porque vai ser como uma aula resumida.
Ela quase deixou escapar, chegou muito perto de perguntar por que ele iria querer ouvi-la falar por tanto tempo sobre algo que nem era do interesse dele. Então lembrou da regra de nunca deixar um homem saber de suas inseguranças. Piscou algumas vezes e redirecionou o cérebro para o pensamento de “não é nada demais”, que ela se recusava a admitir ser uma autossabotagem.
— Tudo bem. Vou comer e depois trago minhas coisas.
*
Quando decidiu parar de ver , não se surpreendeu pela facilidade do término. Geralmente não havia nada concreto para encerrar. O máximo que ele tentou fazer foi convencê-la a continuar ajudando nas atividades acadêmicas, mas isso a fez rir. Ignorar a expressão de cachorro abandonado até que foi divertido dessa vez. Com o passar do tempo, se viu querendo passar mais tempo com , visitando o apartamento em horários diferentes, aqueles considerados normais.
Um dia, ele sugeriu que ela usasse a área de foco da empresa que ele trabalhava, assim ela poderia aproveitar o tempo após a aula e descansar pelo resto da noite. Lá ela poderia ficar confortável e também teria lanches à disposição, mas é claro que ele se comprometeu a dar carona e levá-la para almoçar antes disso. O primeiro choque de foi entender que tinha um emprego de verdade — um bom emprego —, e um carro elegante e espaçoso. Estava cansada das incontáveis vezes em que precisou rachar a conta do Uber ou o valor da gasolina. Ainda não fazia ideia se ele vinha de família rica, mas aquele apartamento fazia sentido com o cargo de analista de sistemas de segurança.
— Sua amiga está de carro? — perguntou ele, colocando a mão para proteger a cabeça de ao entrar e sentar no banco. tinha se despedido bem antes e já estava caminhando na direção do ponto de ônibus.
— Não, a gente mora aqui perto, então geralmente vamos de ônibus.
— Eu posso deixar ela em casa.
demorou para processar a informação.
— Sério?
— Sua surpresa está me assustando.
— Desculpa, é que isso já foi um problema algumas vezes — admitiu. — Então parei de tentar e a de se importar.
Ele franziu o cenho, puxando o ar com força. Olhou mais uma vez na direção de , que se distanciava mais e mais.
— Por favor, liga e avisa que ela vai com a gente — pediu ele, num tom calmo. Ela assentiu, ainda desconcertada. — Diz pra ela esperar onde está, eu faço a volta.
fechou a porta com cuidado. ligou para enquanto colocava o cinto de segurança. A mesma confusão veio na resposta do outro lado da linha, mas ela aceitou com muita vontade.
— Ela disse que você é um anjo — disse , rindo da animação ao desligar.
— Por oferecer carona? — perguntou, incrédulo. — Vocês vão me deixar maluco.
— Nem me fale.
captou a frustração no suspiro dela, mas não abordou o assunto. As informações estavam se acumulando mesmo que ela não as mencionasse diretamente. Se ele já tinha se incomodado com o fato dela ter dado uma chance a , aos poucos ia compreendendo o quão fundo aquela situação ia.
*
Os encontros na empresa passaram a ser em dias alternados, às vezes com intervalos maiores quando a demanda da universidade ou da empresa se tornava demais. fez questão de apresentar aos seus colegas de trabalho e às pessoas da recepção, assim ela não ficaria desconfortável nos espaços, mesmo possuindo um crachá de autorização.
Desde então, quando se encontravam no apartamento, raramente estava presente. Era realmente como um hóspede que só deixa rastros para dizer que existe naquele lugar. não se preocupava em “ser pega” por ele, ainda mais agora que conhecia o verdadeiro dono. Ela sabia que não a deixaria ser desrespeitada. Não só na casa dele, em lugar nenhum. Era difícil se acostumar com o silêncio confortável, com o cuidado recíproco. A forma como ele lhe dava espaço para falar e realmente ouvia, respondendo, perguntando e complementando quando tinha oportunidade. Com o passar dos anos cheios de relacionamentos instáveis, criou o hábito de dissociar em certos momentos, ciente de que na maioria das vezes eles sequer se importavam com uma resposta. O som da própria voz era combustível suficiente.
Não conseguia evitar sentir medo daquilo tudo acabar em breve. Não queria ser apenas amiga de , mas sabia de sua própria sorte.
— Não tenho como negar. No fim de todos esses relacionamentos horríveis com data de validade, só tem um denominador comum. — Deu de ombros, apontando para si.
permaneceu sereno, olhos fixos no trânsito.
— Gostaria que você não se diminuísse tanto.
arqueou as sobrancelhas, engolindo em seco. Não tinha percebido que seus pensamentos tinham sido expostos em voz alta. Tamanha sensação de conforto que estava sentindo.
— O quê?
— Você não é responsável pelos caras imprestáveis que se relaciona, tenho certeza que ter você foi a única coisa boa que já aconteceu pra eles. Adoraria te conhecer melhor e entender o que te leva a entrar nessas furadas, mas não acho que seja você mereça o pior. Muito pelo contrário.
encarou a lateral do rosto dele por alguns segundos, sem palavras. Então, lançou a última tacada.
— Quer pagar minha terapia?
deu um suspiro suave ao parar no sinal vermelho. Virou o rosto para encará-la de volta, para que não houvesse mais dúvidas.
— Quero te dar tudo que você quiser, só não sei como falar isso sem parecer egocêntrico.
Silêncio. Buzinas impacientes interromperam o transe alguns segundos depois. desviou o olhar para a janela ao seu lado. Se manteve assim até estacionarem na entrada da república, onde o movimento de pessoas estava razoável. sabia que ela estava presa com os próprios pensamentos, só não tinha ideia de como trazê-la de volta sem assustá-la.
— Eu tô acostumada a ouvir coisas ditas da boca pra fora, mas não deixa de ser errado — disse ela, após um tempo, ainda encarando o porta-luvas.
— , com você eu sempre tive certeza. Não existiu um dia em que eu não tivesse.
Quando ela voltou os olhos para os dele, as lágrimas empoçadas se tornaram evidentes. A expressão de suavizou, sua mão direita fez um movimento involuntário de limpar a primeira gota que caiu. O contato físico quase fez desmoronar.
— Não é assim que funciona — lamentou. — Não pra mim.
— Agora é — disse com firmeza na voz, oposto ao modo delicado em que segurou o rosto dela com as duas mãos. — Eu adoro conhecer mais dessa mulher incrível todos os dias. Eu adoro a ideia de poder te proporcionar tudo que você merece. Eu quero tudo isso, , se você me aceitar.
estava tão perto de se perder em lágrimas que seus lábios formaram um biquinho que, na perspectiva de , era adorável. Ele não conseguiu controlar o sorriso de orelha a orelha.
— Eu quero, quero muito — confessou, quebrando o espaço para beijá-lo.
O beijo que era novo, ao mesmo tempo, parecia familiar. Se moviam numa mistura de paciência e pressa, de querer conhecer, explorar, sentir tudo que havia para sentir. Sorrisos iam surgindo nos intervalos curtos para respirar. Para ambos, tinha gosto de finalmente. Finalmente.
— , espera — disse ela, se afastando ofegante. Ele apenas assentiu com a cabeça, esperando. — Sei que a ideia é você me mostrar que é melhor que os outros, ou sei lá o quê… mas, na verdade, não quero transar agora… nem em breve.
Ele continuou em silêncio, os olhos fixos em cada pequeno movimento nas expressões dela.
— Nesse meu azar terrível com homens, sexo acabou sendo uma parte significativa de tudo. Não é que eu não queira devorar você aqui e agora, é só que… não quero que seja só sobre isso.
— Tudo bem. — Ele sorriu, entrelaçando seus dedos aos dela.
— Tudo bem?
mal conseguia conter a explosão de alívio em seu peito. Provavelmente demoraria para entender que aquilo, sim, era o normal. Porém agora sabia que estaria lá para ressaltar sempre que necessário.
— Sim, você que manda. Sinceramente, fico feliz em saber que você quer me devorar agora. É maravilhoso pro meu ego.
Ela riu, jogando a cabeça para trás. abriu um sorriso com a ação.
FIM!
Nota da autora: oi, gente! foi muito divertido planejar essa história. aqui está mais um resultado da lavagem cerebral feita pela minha melhor amiga. espero que meus queridos protagonistas tenham encantado vocês tanto quanto me encantaram. um beijo, até a próxima! <3
!