Codificada por: Saturno 🪐
Finalizada em: 31/01/2026
CAPÍTULO ÚNICO
Qual parte disso você não entende? (...)
Eu não vou me desculpar pelo que sinto por dentro”
Opinion Overload — Simple Plan
Cada passo de Targaryen ecoava o julgamento dos outros. Era isso o que ela sentia dia após dia. Cada palavra maldosa que sussurravam congelava seus ossos — os sorrisos que escondiam desprezo, as preces que mascaravam o julgamento. Era um barulho sem fim, uma tempestade de opiniões que ela jamais conseguia calar. Às vezes, se perguntava se ainda sabia quem era por trás de todas aquelas vozes.
E então a porta de seus aposentos se abriu e ela sorriu antes mesmo de virar-se para olhar quem poderia ser uma hora daquelas. Tinha ouvido falar que ele e os outros guardas poderiam voltar hoje. Já esperava pela visita. E a expectativa de vê-lo por pelo menos mais uma vez antes de partir abafou um pouco do nervosismo que aflorava em seu interior. Aquele pessoalzinho da corte podia rezar por sua alma enquanto fofocavam sobre ela o quanto quisessem, afinal, não sabiam do seu maior segredo, seu alívio, seu porto seguro.
Recaiu seu olhar sobre o homem mais velho, que agora fechava a porta e baixava a tranca. A roupa branca da Guarda Real não estava no melhor dos estados, mas sua armadura brilhou enquanto caminhava na direção de com o rosto machucado. Era apenas um corte, mas ele trazia um pano úmido na mão. Sem dizer uma palavra, sentou-se no chão ao lado da cama da princesa.
— Me dê aqui. — Ela pegou o pano enquanto segurava um risinho. — Estou começando a pensar que você só se machuca para vir até mim tarde da noite, Sor Criston.
Ele deu uma risadinha suave e ergueu o queixo para que ela limpasse sua mandíbula.
— Talvez eu faça mesmo isso, princesa. — Inclinou a cabeça e fechou os olhos, permitindo-se relaxar sob o toque dos dedos macios contra sua pele.
— Não precisa me chamar pelo meu título, Sor — lembrou-lhe. — Já me chamam de muitas coisas. De pura, o que você sabe muito bem que já não sou, de obediente… a filha perfeita, a princesa do reino. Mas nem minha mãe achou que eu fosse boa o suficiente para ser a futura rainha e casou Helaena com Aegon em vez de mim. Provavelmente pensou que, se me casasse com Aegon, ela perderia o poder de manipulação que tem sobre ele — suspirou. — O que estou tentando dizer é: eles acham que sabem tudo sobre mim. Mas você sabe muito mais, não é? Tanto que acabou de entrar de fininho nos meus aposentos e trancou a porta. Agora somos apenas nós dois. Não precisamos fingir.
— Então não irei usar títulos. — Sua mão envolveu o tornozelo descoberto dela com toda a delicadeza possível. — Eu não consigo me controlar e, sempre que possível, dou um jeito de entrar aqui sem ser visto. É como se tivesse me viciado nisso.
— Eu é que não vou reclamar, afinal de contas, deixei a porta destrancada na esperança de uma visita noturna. — riu baixinho. — Gosto da sua companhia muito mais do que deveria… Criston.
Ele não pôde evitar um sorriso. Deslizou sua mão para cima, por baixo da fina túnica de dormir, e apertou levemente sua panturrilha.
— Fico muito feliz. — Ele mordeu o lábio, sem ser capaz de tirar os olhos da garota.
— Meu pobre homem ferido… — Ela finalizou a limpeza dos pequenos ferimentos no rosto dele.
— Minha doce princesinha… — Subiu a mão até sua coxa e repousou-a lá. — Não estou mais ferido.
— Ah, meu bem, você ainda está, eu apenas limpei. Não sou nenhuma bruxa, por mais que vez ou outra eu deseje ser. — Piscou para ele. Infelizmente, não tenho poderes mágicos. — Seus olhos vagaram entre os belos olhos dele e os lábios mais do que convidativos. Sentia falta de ter aqueles lábios na pele dela, saboreando-lhe cada pequeno pedacinho.
Ele apertou sua coxa e acariciou-a suavemente com o polegar calejado. Estava cansado do dia, mas não era assim que se sentia. Estava bastante ansioso, animado. Depois de passar algumas longas semanas longe de Targaryen, a vontade de fazer alguma coisa, qualquer coisa, o consumia. Ele simplesmente precisava dela.
— Eu sei que você não é mágica, princesa. — Seus olhos ficaram em seus lábios macios, lábios que há muito não beijava. — Mas talvez você tenha alguma magia, sim.
— Eu tenho, é? — indagou e ele assentiu devagar. — Por que não se levanta e me conta mais?
Ela estendeu a mão e ele não hesitou em agarrá-la para ajudá-lo a se levantar.
— Você me deixa enfeitiçado, sua beleza é mágica. Assim como o modo que sussurra o meu nome na cama. — Criston sorriu de canto, aproximando mais seus rostos. — E seus lábios, então…
— Você sente falta dos meus lábios sobre você tanto quanto eu sinto falta dos seus sobre mim? — Foi direta e reta, sem esconder a necessidade.
— Definitivamente — confirmou. — O modo como beijam a minha pele, tocam meus lábios e sussurram palavras de amor e desejo para mim.
— Suas palavras são tão gentis quanto seus toques — murmurou. — E eu sempre preciso de ambos.
Ele alternou o olhar entre seus olhos e sua boca enquanto descia as mãos para repousarem na altura do quadril. Ele estava tão perto que poderia beijá-la e tomá-la para si, mas não o fez. Manteve a distância como um homem controlado — o que claramente não era quando dizia respeito a sua princesinha .
— E seus lábios aprazíveis são tão bonitos…
— E os seus são muito convidativos — disse ela. — Já faz uma lua desde a última vez que esteve aqui nestes aposentos, chamando o meu nome enquanto eu me entregava de corpo e alma a você.
— Uma lua inteira é muito tempo para ficar sem te ver, sem te ter para mim. — Cravou os dedos na pele em uma clara provocação. — Mas agora… eu estou aqui.
— Senti falta… disso — falou, hesitante como a jovem garotinha que era. — De estar assim.
Ele assentiu e se aproximou mais, o peito encostando no dela. Apertou-a mais forte sob suas mãos, como se quisesse se certificar de que a garota não iria a lugar nenhum.
— Eu também senti falta disso — murmurou, deixando o resto subentendido. Seus olhos vagaram mais uma vez para os lábios dela, de sua . Fazia tanto, tanto tempo.
— Senti falta de você, Criston — confessou, enfim corajosa o suficiente para admitir. Ela acariciou o local próximo à ferida no rosto dele e deslizou os dedos gentis até seus lábios, onde seu polegar vagou suavemente. — Não apenas das sensações que seus lábios e seu corpo me causam. Eu sinto falta de você como um todo. Você, Criston Cole, e só você.
Ele fechou os olhos, incapaz de evitar um arrepio. O toque de sua pele macia nos lábios dele era a bênção que ele nunca soube como pedir aos deuses.
— Ah, princesa… — Deu um aperto em seus quadris, querendo abraçá-la mais forte para que nunca o deixasse. — Você não faz ideia de quanta saudade eu senti de você.
— Não há nenhuma princesa neste quarto, meu bem — murmurou ela. Apenas eu, a sua … Só sua.
Levou uma das mãos para envolver o rosto dela em uma carícia gentil.
— Minha — repetiu baixinho. O desejo que ele tentava reprimir agora transparecia em sua voz. A maneira como falava estava repleta de uma necessidade apaixonada e voraz que ele mal sabia como colocar em palavras.
Deuses, como ela amava ouvir seu nome escapar dos lábios dele daquele jeito. Comunicava tanto a ela, e a deixava ainda mais apaixonada por ele, mais… tudo. Fazia até com que ela se esquecesse de que não tinham permissão para ficarem juntos, já que ele era um membro da Guarda Real, e ela, uma princesa Targaryen, a primeira filha de Viserys I e Alicent Hightower. Fazia com que se esquecesse da grande diferença de idade entre Criston e ela. Fazia com que se esquecesse de tudo.
— Por que não me beija, Criston Cole? — sugeriu, quase desesperada.
Ele umedeceu os lábios e inclinou para frente. Seu queixo roçou suavemente no nariz dela. Ele estava tão, mas tão perto, e ainda assim não era perto o suficiente. Nunca perto o suficiente.
Criston soltou uma risadinha baixa e afagou os cabelos de . Logo ele, que mal sabia como se controlar, se segurava quando estava com ela.
— Você realmente quer que eu faça isso? — Forçou-se a perguntar, quando tudo o que ele queria era beijá-la e amá-la a noite inteira como se não houvesse amanhã. Apenas o leve pensamento de ela rejeitá-lo o deixava tonto.
— Acho que ambos sabemos a resposta, meu bem. Eu quero que você me beije por inteira — sussurrou como se fosse o maior segredo. — Nunca houve um dia em que não quisesse um beijo seu.
Um sorriso malicioso inundou sua feição. Era mais do que a resposta que ele esperava. Deslizou a mão para a parte de trás do pescoço dela e aproximou-se ainda mais. Seus narizes agora se tocavam e as respirações dançavam juntas.
— Deuses, princesa… Eu te quero tanto — confidenciou. — Minha linda princesinha.
— Sua…? Eu quero que você me tenha, sim, que me segure e me proteja, mas primeiro quero o meu nome — exigiu, resistindo a tentação de colar seus lábios nos dele. — Se continuar me chamando de “princesa”, eu lhe expulsarei de meus aposentos e satisfarei todas as minhas vontades sozinha, apenas eu e minha imaginação fértil. — Ele deixou uma risadinha escapar, claramente divertindo-se com o atrevimento da garota. — E quer saber o melhor, Criston Cole? Talvez eu nem pense em você enquanto faço isso.
— Você não ousaria! — Apertou-a mais contra si, um explícito movimento de posse. — … — falou devagar, como se fosse a música mais perfeita; e foi assim mesmo que o nome soou em sua língua. — Minha … — Poder dizer o nome dela em voz alta era muito mais gostoso do que chamá-la pelo título. Ela era mais do que uma princesinha provocante qualquer; ainda que o que tivessem fosse proibido, Targaryen era dele, e jamais seria de outro alguém.
— Eu amo isso, sabia? Quando você me chama pelo meu nome. — Olhou bem nos olhos dele e encostou suas testas. — É tão íntimo.
— Assim como este momento é… tão doce quanto você. — Deslizou a mão de volta para a lateral de seu pescoço e acariciou seu queixo com o polegar. — Parece especial dizer o seu nome em voz alta.
— É especial — ressaltou ela, a voz embargada pela necessidade. — Um momento que é só nosso, apenas de e Criston, não da princesa e do cavaleiro da Guarda Real.
— Apenas eu e você. — Fechou os olhos por um mero segundo, sentindo as mãos de apertarem os ombros dele. — Eu e você, despidos do dever.
E então finalmente desfez a mínima distância que havia entre seus lábios. Fechou os olhos novamente assim que foi envolvido pela maciez da pele dela, o calor de sua língua e a paixão desenfreada que o contato gerou em ambos. Deslizou a mão para os cabelos dela, fazendo um carinho gostoso enquanto provava seu gosto doce e incomparável. Envolveu sua cintura e puxou-a com força contra si. Ele sentia ainda mais falta dela do que poderia ter pensado.
E ela, então… Deuses, como sentia falta disso, dele, de seus lábios, suas mãos, de cada toque especial. O coração de batia tão rápido que ela temeu que fosse explodir… E ela não dava a mínima para isso. Queria apenas estar nos braços de seu cavaleiro até o fim do mundo. Não importava se ele era muito mais velho que ela, nem se era da Guarda Real, nem se o relacionamento deles era proibido em todos os sentidos. Aquele incômodo desesperadamente bom na boca do estômago era causado apenas por ele e mais ninguém. Então o resto do mundo e suas opiniões não requisitadas podia ir para as profundezas dos sete infernos, desde que estivesse nos braços de Criston.
O coração dele acelerou quando ela mordeu seu lábio, a mente ficando em branco exceto por e tudo o que ela lhe trazia, lhe causava. A sensação do corpo dela contra o seu era perfeita. Criston jamais queria soltá-la. Nem sequer podia imaginar como seria perdê-la.
— Todo esse segredo me mata — gemeu contra a boca dele. — Por vezes, queria ter uma vida com você além desse quarto. Uma vida normal onde pudéssemos ser um verdadeiro casal, com filhos e tudo. Mas esse é um sonho de canção de uma garotinha, eu sei — lamentou, como se precisasse se desculpar por ser mais nova, quando ambos sabiam que não precisava. — O segredo vale a pena, de qualquer modo, porque é o jeito de ter você para mim, de ser sua. E eu te quero tanto, tanto.
Ele fechou os olhos e afastou a boca da dela, mas manteve suas testas coladas.
— Você não é uma garotinha — disse ele, sua respiração ofegante e pesada. — E pode até ser um sonho de canção, mas você não é a única que às vezes deseja algo assim — confessou. Deuses, ele queria aquilo, e como queria. Com ela, e apenas ela. — Eu também te quero tanto, … Me mata não estar o tempo todo perto de você assim.
— Então aproveite enquanto pode. — Ela respirou fundo. — É por toda essa nossa necessidade um do outro, que me machuca dizer o que preciso agora, meu bem. Tenho notícias das quais não vai gostar nem um pouquinho. — Acariciou o rosto dele e lhe deu um beijinho no canto da boca. — Ou você já ficou sabendo quando retornou o castelo e só está evitando o assunto?
— Não. Evitei tudo e todos o máximo que pude para vir até você. Só queria te ver o quanto antes — foi sincero. Criston amava cada toque de e o modo como ela quase parecia o amar quando passava a noite na cama com ele. — Aconteceu alguma coisa grave?
— Eu fui prometida a alguém — disse sem nenhum rodeio. — Estou noiva.
Criston arregalou os olhos e seus músculos se tensionaram sob os dedos de . O tempo havia parado e seu mundinho inteiro tinha se estilhaçado. Afastou as mãos do corpo dela e seu rosto perdeu a cor.
— … O quê…? — Foi tudo o que foi capaz de dizer. Ele mal conseguia olhar para ela. A dor era insuportável.
— Não, não, por favor, não tire as mãos de mim. — Ela as pegou e levou-as de volta para o seu corpo, por cima da fina túnica de dormir. — Por favor, não deixe de me tocar. E olhe para mim.
Criston a obedeceu. Como podia não obedecer? Ela esperava que ele fosse seu porto seguro, sua proteção. Não podia simplesmente se afastar daquele jeito. Ainda assim, não disse nada por um bom tempo, pois não sabia bem o que dizer. A ideia de com outra pessoa, dividindo a cama e a vida, o deixava absolutamente enjoado. Ela era sua. Apenas sua. Não deveria ser de mais ninguém. Nunca.
— Quem…? Quem é o sete vezes maldito? — Ele não suportava aquilo. Só desejava que ela declarasse que recusaria-se a se casar.
— Algum garoto Hightower, pelo que parece, um primo distante meu ou da minha mãe que eu nunca vi na vida. Mas eu não o culparia, sabe? A culpada se chama Alicent da Casa Hightower, a própria rainha dos Sete Reinos. — revirou os olhos. — Minha mãe acredita que eu ainda poderia manipular Aegon contra ela quando meu pai morrer e vocês colocarem uma coroa na cabeça dele. Ela não está errada, a propósito, mas para isso eu teria que levá-lo para a cama, o que me parece um sacrifício doloroso demais para o meu gosto.
A princesa fez uma careta e Criston apertou as mãos em volta dela. Não queria nem imaginá-la com Aegon, porém esse não era o seu maior problema. A única coisa em que conseguia pensar era que o dia que mais temia desde que beijara Targaryen pela primeira vez havia chegado: ela se casaria com outra pessoa. Ela, que era dele, se casaria com outro homem.
, por outro lado, nem percebera o incômodo silêncio do cavaleiro. Sua mãe e o relacionamento ruim que ambas compartilhavam inundavam sua cabeça como ondas cruéis castigando as rochas. Chamavam de desobediente por almejar mais do que o dever, no entanto, nenhum deles era um Baelor, o Abençoado; provavelmente nem Baelor era flor que se cheirasse o tempo inteiro. A própria rainha Alicent rezava mais alto do que qualquer um, com todos aqueles símbolos da Fé pelo castelo, mas era péssima com seus filhos e sua piedade era feita de orgulho e medo.
Deve ser bom, mãe, pensou amargamente, se esconder atrás dessa perfeição fingida e esse seu falso moralismo, e chamar isso de virtude.
— De todo nós, Daeron provavelmente foi quem se deu melhor, sendo criado longe daquela maldita filha da puta! — deixou sua frustração sair, enfim acordando Criston Cole de seus pensamentos martirizantes sobre perdê-la. Ao vê-lo de olhos arregalados, apressou-se em dizer: — Ah, meu querido cavaleiro, meu linguajar não foi nada apropriado para uma dama.
— Pare, . — Ele sacudiu a cabeça. — Não precisa agir assim comigo entre quatro paredes, é só… Eu nunca te ouvi falar desse jeito antes.
— É porque você traz o melhor de mim, meu bem, e minha mãe traz o pior — explicou. — Mas é isso: ela quer me mandar para Vilavelha, como se as palavras dela não tivessem me machucado o suficiente a minha vida inteira. — Revirou os olhos para disfarçar a amargura mesmo sabendo que Criston quase via através dela. — A única parte boa é que, como Daeron foi mandado para ser criado com os Hightower, eu poderia reencontrar o meu irmãozinho, mas…
— Não! — Criston grunhiu de repente. Aquilo era de todo ruim. Não havia nenhuma parte boa. Estava furioso com a notícia de que ela iria para longe. — Você vai ser mandada embora…? — Sua voz foi perdendo o tom e o volume. Ficar uma volta de lua separado dela já era tortura. Se nunca mais a visse, poderia muito bem enlouquecer.
— Graças à rainha que você serve, a mesma que me pariu. — Suspirou alto. — Mas não é como se meus pais fossem os primeiros a fazer isso com alguém, certo? É assim que funciona para uma mulher, Criston. — Retorceu os lábios. — Eles nos dizem o que devemos ser, como devemos nos portar, a quem devemos amar… Ou, ao menos, fingir que amamos. Eles falam sem parar, como se estivéssemos morrendo de vontade de ouvir. É uma enxurrada de opiniões não requisitadas, e nenhum deles jamais pergunta o que queremos. — Apertou a mão na lateral de sua túnica de dormir. — Uma garota é prometida a um garoto, homem ou pior. Ela se despede da família e de tudo o que sempre conheceu, e parte para viver o resto da vida ao lado de um marido que nem conhece. E é aí que a história acaba. Fim.
Ainda que a garota estivesse certa, isso não diminuía a frustração do cavaleiro. Ele odiava a ideia de ela ser tocada por outro homem que não fosse ele e, pior ainda, não suportava a ideia de perdê-la, de ser rejeitado.
— Não quero que vá — murmurou, soando muito mais jovem do que era. — Eu… eu não quero que você fique com algum idiota Hightower que nem te conhece.
E nem com nenhum outro que não seja eu. Mas isso Criston não podia ousar dizer. Ele só podia rezar aos deuses para que sentisse tudo aquilo quando ele a tocava.
— E você acha que eu quero? — rebateu. — Acha que gosto da ideia de um garoto que nunca vi antes me tocar, me possuir? Sinto nojo só de pensar! Além do mais… — Abarcou o rosto dele com a mão. — Eu já tenho um homem que me toca do jeitinho que mereço. Não estou procurando um substituto.
— Eu… — As palavras ficaram presas em sua garganta. Ele era um homem, tinha de protegê-la desse tipo de coisa, mas ainda assim, era incapaz de fazer algo para tirá-la daquela situação. Isso o deixava triste e frustrado. Soltou um suspiro de irritação. — Não é justo… Nem um pouco justo.
— Não é justo, de fato, contudo posso fingir ser a princesinha perfeita quando preciso, certo? Mas só por esta noite, eu preferiria não ser. Olhe para mim, querido. — respirou fundo. Naquele instante, só queria se isolar do mundo, das palavras da mãe, dos sermões da septã, de todas as opiniões não solicitadas. — Esta noite pode ser uma despedida para nós dois… Posso te pedir uma coisa, Criston?
Ele fixou o olhar no dela. Podia ver a dor em seus olhos, ouvir a tristeza em sua voz. E mesmo que odiasse, sabia que era verdade. Este poderia — e provavelmente seria — o adeus deles para sempre.
— Qualquer coisa — respondeu, suave, enquanto tudo desmoronava em seu interior.
— Você poderia, por favor, fingir que me ama esta noite? Apenas por esta noite? — perguntou em voz baixa. — Quero saber como é ser amada antes de encarar meu destino, e não me importo se for apenas fingimento.
Aquilo foi como uma adaga no coração. Criston queria abraçá-la, beijá-la, amá-la… Não queria fingir. Mas não tinha escolha. Não podia piorar as coisas para ela.
Assentiu devagar com a cabeça, sendo aquela a melhor resposta que poderia dar no momento. Subiu as mãos até seu rosto e acariciou as bochechas com os polegares. Não hesitou em puxá-la mais para perto e acolhê-la.
Questões sobre a existência de amor entre eles pairavam, não ditas, no ar. desejava, mais do que tudo naquele momento, se sentir amada pelo menos uma vez na vida, porém não tivera coragem de ser direta com Criston. Temia que ele não sentisse esse tipo de amor genuíno por ela, e não queria pressioná-lo.
Para Criston, por outro lado, não restava dúvidas. Era óbvio que a amava há muito tempo; no entanto, não tinha permissão para sentir uma coisa dessas — não que seu coração respeitasse isso, claro. Havia sua posição e também o fato de que ela era uma princesa Targaryen. Essas coisas sempre acabavam mal. E ele não lidava nem um pouco bem com rejeição.
Mas ele a faria se sentir amada. Não precisaria de nenhum esforço para isso. Só queria segurá-la firme e jamais deixá-la ir. Só queria que não fosse a última vez.
Manteve-se em silêncio, apenas observando o rosto da garota que amava. Desespero e necessidade batalharam em seus olhos… necessidade de se sentir amada. Criston aninhou o rosto na curva de seu pescoço e beijou o local com a maior gentileza do mundo.
— Eu farei isso — prometeu contra sua pele.
— Obrigada, meu bem — sussurrou de volta.
Ambos precisavam daquilo, principalmente se fosse tudo o que poderiam ter um do outro daqui até a eternidade. Criston inspirou seu perfume, sem interromper os carinhos por nenhum momento.
— Você é tão… linda. — Beijou e mordiscou a pele delicada entre suas palavras. Então desceu as mãos pelo corpo dela, até chegar ao quadril e dar uma apertadinha.
— Você é tão gentil e… quente. — o fez olhar para ela e então mordeu seu lábio de forma provocante. — E é adorável também.
Criston umedeceu o lábio recém-mordido. Aquilo o excitara ainda mais — não que precisasse de muito esforço quando dizia respeito a Targaryen.
— Me acha quente? — Ele riu baixinho, apertando seus quadris um pouco mais.
— Mais do que fogo de dragão, meu bem — sussurrou, desejosa. — Compartilhe esse fogo comigo. Me queime por inteira e me ame, Criston Cole.
— Isso é uma ordem, minha princesinha? — murmurou, levemente ofegante.
— Aqui não há ordens nem princesas. Só a sua pequena — Empinou o nariz. — E eu não mando. Você faz o que quiser. Ame, ou finja. Apenas me faça sentir.
— Não quero fingir. — Empurrou-a para que se sentasse na beirada da cama e pairou sobre ela como fizera tantas outras vezes. Passou a mão por seus cabelos em um carinho gostoso do jeito que ela adorava. — Eu quero te amar.
— Então me ame, Criston Cole — exigiu com um sorriso encantador e puxou-o para se sentar ao seu lado.
Criston não queria apenas isso, nenhum dos dois queria; mas era tudo o que podia ser feito no momento com toda aquela armadura no caminho. Então pressionou seu corpo contra o dela da melhor maneira possível e levou os lábios ao pescoço exposto outra vez. Logo desceu seus beijos delicados e cheios de carinho para o ombro, a região da clavícula, enquanto suas mãos moviam-se desesperadamente à procura da barra da túnica de dormir de .
A garota podia tê-lo ajudado com aquilo, mas o deixou por conta própria. Gostava de ver o desespero do cavaleiro por ela. E ele estava desesperado. Puxou o tecido para cima e afastou-se o suficiente para contemplá-la ao livrá-la de sua única peça de roupa. Seus olhos percorreram a pele exposta com intensidade.
— Sentiu falta? — perguntou ela.
— Você não faz ideia. — Sua mão descia e subia pela coxa dela de um modo quase calmo demais enquanto a observava com carinho, adoração… amor. — Você é tão linda, sabia? Cada pequena parte sua. Eu senti tanto a sua falta.
— Também senti a sua. — Ela o puxou para um beijo carregado de sentimento. — Aquilo que disse antes sobre não fingir: significa que me ama de verdade ou que apenas desejava me amar.
— Sei que é errado, , mas não vou me desculpar pelo que sinto. Eu amo você, sim. — Acariciou o rosto dela como se fosse a coisa mais preciosa. — Eu te amo há muito tempo, princesa. Jamais duvide disso. Estava apenas… temendo pela rejeição.
— Jamais te rejeitaria. — Fechou os olhos e respirou fundo. — Eu também amo você, Sor.
Criston sorriu. Sorriu tanto quanto ela. Então enterrou a cabeça em seu pescoço outra vez — era quase o seu lugar seguro.
— Não faz ideia do quanto desejei ouvir isso de você, meu amor.
— Se quer saber, até entendo o seu medo de rejeição, pois eu achava que estava sendo uma jovem garota tola quando percebi meus sentimentos… Ainda mais em comparação com toda a sua experiência de vida — confessou ela. — Foi por isso que não disse nada antes.
Ele afastou o rosto para olhar para ela, uma expressão séria no rosto.
— Não. Você não é uma garotinha tola. Sim, você é jovem, se comparada a mim, mas isso não é importante… eu amo você. — Acariciou a lateral do rosto dela. — Eu te amo desde pouco tempo depois que começamos a nos envolver… e eu te quero, não importa o que aconteça.
— Eu… eu também te quero… e amo. Deuses, como eu amo.
levantou-se e começou a remover a armadura dele lenta e cuidadosamente. Criston acompanhava cada movimento com o olhar, enquanto ela tirava sua placa de peito. Era como se tivesse medo de perdê-la se ousasse piscar, mas os dedos pacientes, quase reverentes, da garota lhe traziam calma.
Cada fivela aberta não era apenas outra peça removida, mas sim um peso deixado para trás. A armadura da Guarda Real não era só aço esmaltado; era voto, dever, renúncia. Tudo aquilo que o impedia de ser o homem que estava sendo esta noite. Nas mãos de Targaryen, ele permitia-se ser despido disso e de qualquer outra coisa.
— Gosto quando você faz isso. — Criston buscou os olhos dela, mesmo que todo o seu corpo parecesse gritar pelo olhar dele.
— E eu gosto de fazer isso. É o meu jeito de cuidar de você. — Deslizou a última parte metálica dos ombros dele. — Tenho um gostinho especial por esse ritual de tirar sua armadura e revelar o homem que existe por baixo… o meu homem.
— Eu sou o seu homem. Não sou? — Ele não conseguiu segurar o sorrisinho malicioso e a risadinha arrogante, uma que ela conhecia bem.
— Eu sou sua mulher, meu amor? — Ela parou para olhá-lo nos olhos.
— Você é minha mulher. — Segurou seu rosto entre as mãos e puxou-a para o seu colo. Precisava dela, precisava de sua pele contra a dele agora que podia senti-la. — Nunca haverá mais ninguém, e os deuses sabem que jamais houve alguém além de você no meu coração e na minha mente desde o primeiro dia que estivemos juntos… Então sim, você é a minha mulher. Hoje e sempre.
— E você é o meu homem, não há dúvidas — sussurrou em seu ouvido, podia sentir sua excitação sob ela. — Me ame como jamais fez antes, Criston Cole. Certifique-se de que nunca me esqueça de que sou a sua , somente sua.
— Irei, meu bem, prometo — murmurou. — Só minha… sempre minha.
— Ah, Criston, queria que o que temos não fosse proibido. — Ela levantou devagar, sem se afastar demais em nenhum momento. — Queria não ter que te amar em segredo.
— Também queria que não fosse proibido. Eu… — Fechou os olhos quando começou a tirar a roupa de baixo dele. Demorou alguns segundos para recuperar a linha de raciocínio. — Queria que pudéssemos ficar juntos, sem ter de nos esconder.
— Pois é. Mas você tem os seus votos e eu tenho um casamento planejado do outro lado de Westeros. A vida não é justa. — Ela estendeu a mão para ele. — Pelo menos não precisamos nos esconder de nós mesmos.
Criston segurou a mão dela e se levantou. Os olhos percorreram sua pele nua.
— Não, não precisamos. Estamos despidos disso tudo aqui… — Acariciou-lhe o rosto e escorregou os dedos por seu pescoço, clavícula e cintura. A sensação da pele dela na dele era celestial. — Mas eu gostaria de poder te chamar de minha em público.
— Isso seria a sua morte em um lugar como esse, mas aposto que você queria. — Ela sorriu. Sempre gostara do jeito possessivo de seu cavaleiro. Isso a excitava. — Talvez em outro mundo, meu amor.
Ele soltou uma risadinha suave e agarrou o quadril dela com firmeza, virando-a de costas para a cama. Deuses, ele a desejava tanto que era injusto.
— Em outro mundo, em outra vida… — murmurou, sem tirar os olhos dos dela.
— Mas eu preferiria nesta aqui. — Tascou-lhe um beijo e mordeu seu lábio inferior com um pouco mais de força do que o necessário. — Você me conhece, não gosto muito de esperar.
— Nem eu — sussurrou, pressionando o corpo contra o dela.
— Ótimo! — subiu na cama e se deitou, trazendo-o junto de modo que se posicionasse entre suas pernas. — Não sei como é capaz de me deixar excitada assim com tão pouco esforço. — Ela puxou-o para cima dela. — Eu quero você, Criston.
Ele cravou os dedos na coxa dela.
— E você não tem ideia do quanto eu preciso de você. — Atacou a pele sensível do pescoço dela outra vez com beijos rápidos e mordidinhas.
— Pegue o que precisar de mim, amor, o que quiser. — Afagou seus cabelos, dando uma puxadinha provocante. — Me devore… por inteira.
— Não precisa pedir… nem mandar. — Mordeu-a com mais força e subiu seus beijos devagarinho até alcançar sua orelha para sussurrar em seu ouvido: — Eu vou pegar tudo.
— Pegue — implorou ela, as mãos percorrendo a pele dele com ternura e desejo. — Por favor, faça isso… agora.
Pressionou ainda mais seu corpo contra o dela. Estava tão, tão desesperado por ela.
— …
— Faça como se fosse a última vez que fosse fazer isso — pediu. — Por favor, meu amor.
Enterrou a boca no pescoço dela para suprimir o som que escapou de sua boca para nenhum dos dois jamais saber se era de frustração ou de desejo. Talvez fossem as duas coisas. Sabia que aquilo se referia à partida dela, mas preferia não saber.
— Última vez… ou a primeira de um milhão? — Desceu as mãos por seu corpo, apertando cada pequena parte. Faria de tudo para evitar o assunto, no entanto, não caía tão fácil nesse tipo de distração.
— Bem, eu gostaria que não fosse a última vez, mas vou embora. — Ela acariciou-lhe os cabelos, pescoço e costas, sentindo os músculos dele se retesarem sob seus dedos. — Mas poderia ser a primeira de um milhão de vezes se você fosse comigo para sabe-se lá onde.
— Por favor, não fale sobre isso agora. — Ele só queria se perder nela enquanto se esforçava ao máximo para não pensar em perdê-la. Queria apenas ficar com ela o máximo de tempo possível, sentindo-a sob seus dedos, sob sua pele.
— Deveríamos conversar sobre isso mais tarde, é claro, mas tem razão; vamos aproveitar. — Deslizou as mãos até os quadris dele e os apertou com força. — Se não fizermos nada de louco, essa pode ser a última noite que passaremos juntos.
— Não pense… em nada — ofegou contra a pele dela. — Em nada, exceto em nós.
— Você é tudo em que consigo pensar o tempo todo. — Ela escorregou a mão, entre eles, até a ereção dele e fez um carinho gostoso, recebendo uma mordida forte em seu ombro em resposta. Um sorriso lhe cruzou os lábios. — Eu preciso desesperadamente de você.
Então posicionou-o e introduziu-o dentro de si. A sensação inicial quase enlouqueceu a ambos. envolveu as pernas ao redor dele, prendendo-o contra si.
— Eu… eu também preciso de você. — Ele estava tão dominado por ela. Sua necessidade pela garota era quase insuportável. Aproximou o rosto do dela e segredou: — Muito.
— Eu… eu amo você — sussurrou ela, tentando beijá-lo enquanto seus quadris se moviam desesperadamente.
Criston capturou os lábios dela da melhor maneira possível, em beijos intercalados no calor do momento. Suas mãos a apertavam com mais força enquanto ambos pareciam mais e mais desesperados por união. Ele deslizou a mão por sua coxa e levantou um pouco sua perna para que facilitasse a penetração. Seus lábios beijaram o canto de sua boca, a bochecha e o pescoço. Ela amava os beijos no pescoço, e ele faria qualquer coisa, lhe daria qualquer coisa.
— Deuses, , eu te amo — murmurou. — Eu te amo tanto…
— Cada parte de mim… pulsa por você. — Ela envolveu uma das mãos dele e levou-a até o seio. Com os dedos entrelaçados nos dele, apertou o local, aumentando o próprio prazer. — Agora deixe sair, amor, faça isso por mim.
— Estou perto — arfou.
— Eu sei, meu amor — sussurrou de volta, também ofegante. — Quero sentir isso… sentir você.
E ele estava tão perto do limite que era impossível tentar se conter, e ele nem queria. Seus movimentos se tornavam mais e mais frenéticos, desesperados.
— Você é tudo o que eu quero — quase engasgou-se com as palavras. — Preciso te sentir… Eu preciso… — E ela também precisava. Queria tanto aquilo que não conseguia dizer nem sequer uma palavra. — Preciso… de você — continuou com os murmúrios. — Te amo tanto.
O desejo e o amor eram tão intensos que tornavam difícil de pensar direito. Criston estava perdido, completamente entregue à , consumido por ela, seus movimentos e os sons que deixava escapar. E então ele finalmente chegou lá. Cravou os dedos na pele dela enquanto aproveitava o êxtase do momento. arranhou suas costas e o segurou contra si, sentindo-o até o último segundo.
— Nunca vou me cansar de você — murmurou contra a pele do pescoço dela.
— Também nunca me cansarei de você, Criston Cole.
segurou o rosto dele e pressionou um beijo apaixonado em seus lábios. Ele apertou seu seio e beliscou o mamilo. A outra mão não tardou em deslizar entre suas pernas, os dedos fazendo sua mágica do jeitinho que ela gostava. soltou um suspiro contra a boca dele. Criston era hábil e preciso. Tinha levado muitas noites naquela cama, escondidos do resto do castelo, mas ele havia aprendido exatamente como ela gostava de ser tocada, como precisava. E mesmo que ainda estivesse cansado do ato e de todo o resto, podia fazer esse esforço por ela, a sua mulher. Poderia fazer isso para sempre. Ver o olhar em seu rosto e o modo como reagia a ele… Isso valia tudo.
— … — Aproximou seu rosto do dela e sussurrou em seu ouvido: — Eu quero te ouvir.
— Está… ouvindo — respondeu entre suspiros e arquejos. — Prometo que… nunca vou me calar para você… Jamais.
Seus dedos moveram-se com ainda mais fervor. Os sons, as palavras, a própria presença de eram tudo para ele. Ela era tudo.
— É melhor que não se cale mesmo.
Deu uma mordidinha em seu pescoço, as mãos trabalhando com um desespero controlado. Ela chegaria ao clímax a qualquer momento. Já sabia reconhecer isso nela também… a conhecia tão, tão bem.
— Eu não… Eu… — estremeceu. — Eu não… vou.
Ela soltou um gemido alto quando se desfez em êxtase. Um grande sorriso de satisfação se abriu em seu rosto enquanto tremia nas mãos dele, sob ele. E o sorriso o contagiou. Criston conseguia encontrar prazer no prazer dela. Era delicioso vê-la se entregar para ele daquele jeito. Ainda mais agora que sabia que a garota o amava.
— Deuses… — sussurrou antes de depositar beijos suaves em seu ombro e pescoço.
— Não, sou só eu — brincou ela.
Ele não conseguiu conter a risada baixa e ergueu a cabeça para olhá-la. Seus olhos percorreram a face da jovem a quem amava mais do que achava ser possível. Absorveu cada detalhe de sua expressão, como fizera mil vezes antes, até os mínimos detalhes. Levou a mão ao seu rosto, acariciando o local antes de colocar uma mecha de cabelo para trás da orelha.
— Tão linda… — murmurou.
— Você me faz feliz, sabia? É o único que consegue calar o resto do mundo. — sorriu com tamanha afeição que foi difícil não beijá-la e deixar todo o resto para lá. Mas então ela continuou: — Queria que não fosse a última vez.
E o coração dele se despedaçou com o assunto retornado. Soltou um suspiro e deslizou o polegar sobre o contorno daquele lindo rosto, o qual ele não conseguia imaginar ser privado de ver.
— Você não é a única. — Sua expressão tornou-se quase sombria. — Não quero que esta seja a minha última vez com você.
— Mas será, não é? — Fez beicinho, como se estivesse forçando uma expressão triste, porém ambos sabiam que a tristeza era real, quase palpável. — Irei para Vilavelha e me casarei com algum Hightower que minha mãe escolheu para mim. A menos que…
— A menos que…? — incentivou-a a continuar. Não queria nem pensar na ideia de com um garoto Hightower, ou com qualquer outro além dele.
— Não, esquece. — Desviou o olhar. — Você não vai gostar da ideia.
Criston arqueou a sobrancelha, curioso, interessado. Envolveu-lhe o queixo e inclinou seu rosto de volta para onde estava, onde podiam se olhar diretamente. Ele ficou esperando que ela compartilhasse seja lá qual fosse a ideia, no entanto, se manteve em silêncio.
— Prometeu que jamais se calaria para mim — comentou.
— Não é a mesma coisa — defendeu-se.
— , não me importa se vou gostar ou não, eu quero saber. — Ele segurava o rosto dela com um toque gentil mas firme, assim a impedia de virar o rosto para longe novamente. — Sei que confia em mim, então não preciso ficar te lembrando que pode compartilhar qualquer coisa comigo.
— Bem, é como falamos antes… — Respirou fundo. — Poderia ser a primeira de um milhão de vezes… ou mais.
Criston assentiu devagar. Não sabia onde aquilo ia dar, mas a ideia parecia tão boa quando colocada daquele jeito… Algo borbulhava dentro dele misturado ao desejo… expectativa, talvez? Necessidade? Ele puxou seu rosto com delicadeza e repousou a testa na dela.
— Mais de um milhão? — cochichou como se aquele fosse o maior e mais precioso segredo dos Sete Reinos.
— Parece um sonho, não? — Ela fechou os olhos. — Mas não faz sentido. Deixa para lá.
Criston fechou os olhos também, permitindo-se apenas sentir o toque de sua pele macia. Não queria pensar de forma realista como fazia. Só queria estar naquele momento. Com ela. Só com ela. Precisava aproveitar cada segundo daquilo antes que a sete vezes maldita realidade derrubasse a porta com um pesado aríete. Ele inclinou-se para frente e a beijou devagar e com ternura.
— Você sentiu? — perguntou e beijou-a novamente para provar seu ponto. — Como pode me dizer que não faz sentido quando sente isso?
— O nosso mundo, Criston, a nossa sociedade torna isso impossível. Sou uma princesa, supostamente virgem, destinada a se casar com um nobre. E você é um filho de intendente que se tornou membro da Guarda Real, casado com o dever. Nunca daria certo nesse mundo. — Ela deitou a cabeça no travesseiro em um esforço falho de manter distância do olhar dele. — Mas se fugíssemos para o outro lado do Mar Estreito… — Suspirou e fechou os olhos. Não queria ver a reação de Criston; principalmente se fosse negativa.
A mente dele ainda brigava com a realidade da situação quando suas palavras sobre fuga mudaram toda a perspectiva. A ideia de fugir e recomeçar em outro continente, em outra terra… Era uma tentação dificílima de resistir. Ele sabia que não era uma boa ideia metê-la em uma coisa dessas, mas a questão era tão, tão convidativa.
— O que está dizendo, meu amor? — Levou a mão ao seu rosto outra vez. Precisava senti-la, tocá-la, ser tocado por ela.
— Acho que sabe muito bem o que estou dizendo, Criston. — Umedeceu os lábios. — Não quero me casar com um garoto que nunca vi na vida. Estou dizendo que abriria mão do meu título, do meu estilo de vida nobre e de tudo o mais para estar em qualquer lugar longe daqui com você.
Ele ficou congelado, tentando assimilar tudo o que acontecia dentro dele. realmente… deixaria tudo para trás? Por ele… Por ela… Por eles…? Abriu e fechou a boca algumas vezes. Um nó se formou em seu estômago, mas era um dos bons.
— Diga alguma coisa, por favor. Qualquer coisa. — Ela engoliu em seco. — Estou começando a me sentir como uma jovem garota tola e estúpida com sonhos de canção.
Criston sacudiu a cabeça de prontidão. Segurou o queixo dela e a fez erguer o rosto para que seus olhos se encontrassem.
— Eu… — Respirou fundo, tentando encontrar palavras que lhe fugiam. Soltou uma risadinha discreta e quase encabulada. — Não sei bem o que dizer.
— Tudo bem, vou considerar isso como um sonoro não — aceitou, um tantinho envergonhada. — Agora estou mesmo me sentindo uma garotinha jovem e tola.
— Não. Não! — disse rapidamente, quase desesperado por fazê-la entender que não era uma negação. — Não me entenda mal, por favor. É que… eu quero isso. Quero ficar com você, mas…
Criston fez uma pausa, ainda se esforçando para buscar as palavras certas para explicar tudo. Como podia não enxergar o que sentia por ela? Ele ficava translúcido como água quando a tinha nos braços, e ainda assim… Ah, , como você pode não entender que tudo o que preciso é de uma reafirmação, uma promessa? Era tudo em que ele conseguia pensar. Se ela se arrependesse, sempre haveria uma casa para retornar, afinal, era uma princesa da corte; já Criston… Ele estaria abandonando tudo de verdade, não poderia retornar a Westeros em hipótese alguma se quisesse continuar vivo.
— Mas…? — insistiu ela. — Algumas pessoas dizem que nada antes do “mas” realmente importa.
— Se fizermos a loucura que está sugerindo… seria arriscado — falou sério. — E teríamos que deixar tudo para trás, e todos…
— Tudo, sim, estou bem ciente disso. Quanto a todos… — soltou um profundo suspiro. — Bem, eu não tenho muita gente para deixar. Aegon é hedonista e lamentável, Aemond é maluco e só busca vingança, meu pai já não está bem há muito tempo, minha mãe nunca gostou muito de mim, e já faz anos que não vejo o pequeno Daeron. A única que estaria verdadeiramente deixando para trás seria minha querida irmã Helaena, porém tenho certeza de que ela vai entender. Mas você, Criston… — Abarcou o rosto dele com a mão. — Você meio que deixou todo mundo para trás quando fez seus votos. Votos que, segundo me contou, já quebrou antes e, de qualquer modo, quebrou inúmeras vezes ficando comigo, mas enfim…
— Eu sei do que tenho que abrir mão — murmurou, frustrado.
— Sim, acima de tudo, da sua posição. Você subiu até se tornar um dos sete mantos brancos, um cavaleiro da Guarda Real. É admirável. Mesmo. Agora olhe em meus olhos, Criston — pediu devagar, em um tom leve e terno. Enfim havia entendido a necessidade dele. — O que precisa de mim para decidir se desiste de tudo e vem comigo ou não?
Ele respirou fundo e segurou o queixo dela com mais firmeza, sem jamais machucar. Havia algo diferente no olhar dele. Poderia ser um pouco de medo? foi pega de surpresa.
— Se… se eu fizer isso… Se fugirmos… — começou, baixinho. — Você nunca vai se arrepender, não é?
— Não, é claro que não. Eu prometo — declarou ela. — Estou aqui agora, com você, de um jeito que clamam ser errado. Mas não me importo com a aprovação deles. Se fugirmos, serei livre para viver como quiser, para amar e estar com quem eu escolher… e este é você, Criston Cole. — Sorriu para ele. — Pode até me fazer sua esposa, se preferir oficializar, mas sempre escolherei você.
Sua expressão suavizou-se com a promessa. Era tudo o que ele precisava. Sentiu algo quente e leve em seu peito. Algo há muito perdido, ou talvez nunca antes sentido. Esperança? Felicidade?
— Também sempre escolherei você — disse seu novo voto. — Eu… eu quero, meu amor. Fugir, te fazer minha esposa, viver uma vida com você.
— Quer…? — Seus olhos se arregalaram. — Sério? Não é só uma ideia boba de uma garotinha? Quer mesmo fugir para o leste, para bem longe, comigo?
— Quero. De verdade — foi firme, confiante. — Sim, meu amor. Eu quero fugir com você. Sete infernos… Quero isso tudo mais do que qualquer coisa no mundo.
— Deuses, eu… mal posso acreditar. — Tocou o rosto dele também. Ela não conseguia parar de sorrir. — Temos mais dois dias para acertar as coisas antes que me coloquem em um barco para Vilavelha. Precisamos nos apressar.
— Nos apressaremos. Vamos planejar e… — ele parou. — Você disse dois dias? Eu não quero esperar esses dois dias.
— Tudo bem por mim, não vamos voltar atrás mesmo. Não precisamos esperar dois dias inteiros — assegurou-lhe. estava gostando da vontade dele de estar com ela, livre, o quanto antes. — Podemos acertar tudo o que for preciso amanhã e, durante a noite, quando o castelo estiver dormindo, nós fugimos.
— Isso. — Uma risada baixa escapou de seus lábios, misturada a um sorriso. — Amanhã à noite. Iremos amanhã à noite. Juntos.
— Sempre juntos — prometeu ela. — Por enquanto, podemos ficar aqui, nos braços um do outro até o amanhecer. Mas a partir de amanhã à noite não precisaremos mais nos esconder. Estaremos sempre juntos.
Criston assentiu e puxou-a para mais perto. Envolveu os braços ao redor de seu corpo e segurou-a perto, desejando nunca soltá-la. Inalou seu perfume com cheirinho de lar e murmurou:
— Juntos. Sempre juntos.
FIM!
Nota da autora: Sem nota.