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Codificada por: Lua ☾
Finalizada em: Março/2026.


Capítulo Único

— This is you, this is me, this is all we need
Is it true? My faith is shaken, but I still believe
Celtigar aprendera cedo que estar com Daemon Targaryen nunca fora uma experiência simples, que dirá amá-lo. Havia filhos quase demais para contar nos dedos, noites solitárias esperando por ele, e agora mais uma vida crescendo dentro de seu ventre com um coraçãozinho pesado de expectativas que ela fingia não alimentar. Amar Daemon significava conviver com a certeza incômoda de que jamais seria fácil — e, ainda assim, escolher ficar.
Talvez fosse por isso que aquela cena no funeral de Laena Velaryon a atingira como uma lâmina lenta e brutal. Vê-lo não apenas próximo à princesa Rhaenyra, mas próximo demais, confortável demais, público demais. O que mais a feria não era o gesto em si e nem o fato de ser a princesa. Nunca fora sobre ela. Era o olhar e a naturalidade com que Daemon parecia capaz de se esquecer, ainda que por um instante, de tudo o que e ele tinham construído juntos, mesmo sem palavras que reforçassem as muralhas frágeis de seus sentimentos.
Enrijeceu o maxilar e repousou a mão na barriga levemente inchada. As marcas que carregava em seu corpo e alma — por causa daquele casamento que começara político e do amor que se desenvolvera com o tempo — deixavam a queimação interna ainda mais pesada. Havia um ciúme inegável ali, mas não apenas isso. E não sabia identificar com precisão se o que a consumia de verdade era a raiva… ou o medo antigo de amar sozinha enquanto ele aguardava, aguardava, aguardava, e não se decidia.
jamais pedira promessas eternas a Daemon Targaryen. A vida ao seu lado a ensinara que o agora, muitas vezes, precisava ser suficiente. E, desde que se viu amando-o de fato, soubera que precisava aprender a confiar que ele ficaria… mesmo quando tudo indicava que poderia ir embora.
E mesmo certa da resposta, havia dias em que ainda se perguntava se Daemon tinha alguma noção do caos que deixava para trás — porque amar aquele homem era aceitar que ele podia ferir sem perceber. Era quase natural. E era por isso mesmo que precisava verbalizar, intervir, fazê-lo enxergar o básico: que não queria ser ferida enquanto ele ainda escolhesse estar ali, com ela.
respirou fundo antes de se mover, como se precisasse reunir em si a coragem que passara o dia inteiro evitando. Aproximou-se de Daemon sem chamar atenção e pousou a mão em seu braço com firmeza suficiente para interrompê-lo e fazê-lo olhar para ela. Não esperou permissão nem ofereceu explicações — apenas o conduziu alguns passos para longe dos outros, para um espaço onde as vozes se tornavam ruído distante e o único som dominante eram as ondas quebrando nas pedras de Derivamarca. Havia urgência em seu gesto, mas não desespero. Apenas a necessidade silenciosa de falar, de ser ouvida.
Daemon franziu o cenho no instante em que percebeu a tensão em seu toque e o modo como o afastara de Rhaenyra sem nem pedir licença a nenhum dos dois. Não era nada comum para , que sempre se portara perfeitamente bem na frente de olhos curiosos. O olhar dele correu até a barriga levemente arredondada da mulher, e sua mão seguiu o mesmo caminho quase por instinto, repousando ali com cuidado.
— O que foi, minha querida? — perguntou em voz baixa, a preocupação escapando antes de qualquer outra coisa. — Aconteceu alguma coisa? Há algo errado… com o bebê?
A pergunta lhe escapara antes que pudesse pensar melhor. Sempre era assim. O mundo podia estar em chamas ao redor, mas bastava perceber a tensão no toque de para que sua mente fosse direto ao mesmo lugar — à possibilidade de perda. Não apenas dela, mas também do que carregava. Daquilo que ainda não aprendera a proteger sem transformar em posse.
Seria hipocrisia negar que sentiu um quentinho no peito pela apreensão genuína. No entanto, não se deixou levar.
— Com o bebê? Não — disse devagar. — Há algo de errado com você?
Daemon demorou um instante a responder, mais pelo desconforto do que pela surpresa. Não gostava quando o obrigavam a olhar para si mesmo — muito menos quando sabia que havia algo ali que preferia não nomear. Era mais fácil vigiar o mundo do que admitir que, às vezes, era ele quem causava o estrago.
— Comigo? Como assim? Eu estou bem. — Acariciou suavemente a saliência de seu ventre. — Não precisa se preocupar comigo, meu bem.
— Não estou preocupada, meu bem. — não se surpreendeu por Daemon não ter notado o sarcasmo em sua pergunta, por isso se permitiu enfatizar ainda mais seu tom. — Sei que está muito bem. Até demais, eu diria.
Daemon franziu as sobrancelhas prateadas. O tom dela não passou despercebido, ainda que ele fingisse o contrário. Havia aprendido a reconhecer aquele tipo de frieza — não vinha do ódio, mas do cansaço. E isso o inquietava mais do que qualquer grito. não estava explodindo. Estava se contendo. E Daemon sabia, mesmo que relutasse em admitir, que o silêncio sempre fora mais perigoso do que a fúria. Ele tinha feito algo errado com ela, mesmo que ainda não entendesse bem… como sempre.
— Está mesmo tentando arrumar briga em um funeral? — perguntou com a certeza de que ela o detestaria por isso, ainda mais chateada do jeito que estava.
— Está mesmo tentando foder a sua sobrinha em um funeral enquanto sua esposa está grávida do seu quinto filho? — retrucou, apoiando as mãos na cintura.
Daemon arregalou os olhos e afastou a mão da barriga de sua mulher. O gesto foi automático, quase defensivo. Como se, ao afastar a mão, pudesse também afastar a acusação — ou a culpa difusa que começava a se formar, incômoda demais para ser encarada de frente. Abriu a boca para falar, mas a fechou em seguida.
O nome de Rhaenyra pairava entre eles como uma lâmina suspensa. Daemon sentira o golpe mais pela precisão do que pela acusação em si. Não porque fosse injusta — mas porque era pública, clara, impossível de ignorar. Pela primeira vez, ocorreu-lhe que talvez não fosse apenas o mundo que sempre o provocara. Talvez fosse ele quem insistia em desafiar os limites do que era capaz de suportar. Ele respirou fundo e apertou a ponte do nariz antes de voltar a olhar para ela.
, eu não vou fazer isso, e você sabe — falou baixinho e deu uma espiadela ao redor. — Precisamos mesmo ter essa conversa agora?
Não era a conversa que ele temia. Era o que poderia ouvir se a deixasse falar até o fim. Daemon sempre soubera lutar, enfrentar, reagir. O que nunca aprendera fora permanecer parado enquanto alguém que amava lhe mostrava, com palavras simples, o quanto ele era capaz de ferir sem perceber.
— Daemon, eu não estou falando em voz alta, ninguém está ouvindo. Você sabe mais do que ninguém que sei me comportar como uma lady em público. — Suspirou, cansada. — Então, por favor, pare de se preocupar e de olhar para todos os lugares, menos para mim.
Ele fez o que ela pediu e encontrou seu olhar, mas não foi capaz de esconder a expressão de leve irritação.
— O que quer que eu diga? — Cruzou os braços. — Que eu estava agindo de forma inadequada?
Ele sabia que tinha feito aquilo. Ao menos agora sabia.
— Não preciso que me diga nada — disse ela —, apenas que pare de fazer esse tipo de coisa que me deixa constrangida.
Seu semblante se suavizou e ele descruzou os braços. Então voltou a se aproximar e segurou as mãos dela.
— Não quero te constranger, querida — confidenciou em um tom mais gentil. — É a última coisa que gostaria de fazer.
E era verdade. Detestava vê-la daquele jeito. E detestava principalmente porque não sabia o que fazer com aquilo. Com o silêncio dela, com o afastamento, com a maneira como o desapontamento se insinuava entre os dois como algo sólido demais para ser empurrado para o lado com um toque ou um pedido de desculpas apressado — coisas nas quais ele costumava ser bom. Daemon sabia lidar com conflitos que exigiam ação, mas sentimentos exigiam outra coisa. Algo que ele nunca aprendera a usar sem parecer bruto demais, inadequado demais.
— Mas mesmo assim você estava lá com ela, daquele jeito. — desviou o olhar e virou o rosto para o mar revolto.
— Qual é! Eu… eu só estava lá para apoiá-la, nada mais. — Segurou o queixo de em um toque suave e o puxou de leve, fazendo-a olhar para ele. — Você sabe como eu sou… sou descuidado. — Dizia aquilo como quem repete uma verdade antiga, quase um defeito de nascença. Descuidado. Era a palavra que usava quando não sabia explicar melhor o quanto lhe faltavam freios, filtros, cautela. Não era falta de consideração, era excesso de impulso. De querer demais, rápido demais, do jeito errado. Nunca passara pela sua cabeça cruzar aquela linha desde que entrara em sua vida; o erro fora não perceber que, para ela, a linha começava muito antes disso. — Vou tentar não deixar isso acontecer de novo, prometo.
— Não, para com isso. Não quero suas promessas, eu… — parou e respirou fundo. — Eu posso seguir em frente sem você me amar. Chegamos até aqui desse jeito, não foi? — Não era bravata. Era cansaço. Um cansaço que vinha de anos ajustando expectativas, diminuindo necessidades, aprendendo a pedir menos para não se decepcionar tanto. E ela mesma não o amava até pouco tempo atrás. Não fazia sentido exigir uma coisa dessas. — Mas eu preciso de respeito, e não apenas quando está comigo na cama, entre quatro paredes. Preciso do seu respeito em público também.
Daemon tentou assentir para o que lhe dizia sobre respeito, mas sua mente ficou presa na primeira parte, a parte sobre amor. E lá estavam suas sobrancelhas franzidas de novo.
— O que quer dizer com ‘sem te amar’? Eu… Eu te amo — falou com tremenda dificuldade.
A palavra ficou presa em algum lugar entre o peito e a garganta. Amor. Ele já a tinha usado antes, em outras vidas, com outras pessoas — e sempre parecera mais simples quando não precisava prová-la, quando não era verdade. Com , porém, era diferente. Porque ali havia consequências. Havia um ventre que crescia pela quinta vez, um futuro que não podia ser abandonado, uma mulher que enxergava demais. E um sentimento que o queimava por dentro, verdadeiro.
— Qual é, Daemon! Não precisa mentir para mim assim — murmurou ela, e seus dedos tremeram levemente contra os dele. — Embora eu seja bem mais nova do que você, nós dois somos adultos. E eu nunca fui ingênua.
— Não é mentira. Eu… amo você, sim, do meu jeito.
A dificuldade em declarar seu amor ficou ainda mais perceptível em sua voz.
Do seu jeito. Sempre do seu jeito. O problema era que o jeito dele nunca fora gentil. Nunca fora calmo. Amava como lutava, como governava, como existia no mundo: tomando espaço, exigindo presença, impondo-se. E agora estava diante dela, percebendo com um atraso cruel que talvez amor não fosse algo que se tomasse — mas algo que se aprendesse a oferecer. E era o que queria fazer com ela, mas ainda não entendia bem como tornar isso possível.
Levou uma das mãos ao rosto dela em um carinho terno, amoroso, inseguro. Era como se temesse aplicar força demais até no próprio toque. Daemon não era um homem de gestos pequenos — e, ainda assim, ali estava, segurando-a como quem tenta não quebrar algo frágil demais.
— É só que… — murmurou ele. — Eu não sei como fazer isso do jeito que você precisa, e nem como ser gentil o suficiente a respeito disso.
sentiu algo se apertar em seu peito — não alívio, não exatamente. Era uma dor mais antiga, mais conhecida. A de entender alguém profundamente e, ainda assim, não conseguir ser alcançada por ele do jeito que precisava.
— Você me ama mesmo? — hesitou, os lábios entreabertos.
Haviam se casado anos atrás sem se gostarem, como era típico dos casamentos. não achava que se apaixonaria pelo príncipe, porém com o tempo passou a nutrir carinho por ele e, nas últimas voltas de lua, isso acabou se tornando amor. No entanto, jamais cogitara a possibilidade de Daemon sentir o mesmo, ou sentir algo por ela.
— Não se trata de ser gentil o suficiente ou não, Daemon, é sobre eu ser o suficiente. — Ela respirou devagar. — E, para ser sincera, não estava esperando que tivesse esse tipo de sentimento por mim.
— Bem, talvez eu o tenha há mais tempo do que você sequer consegue imaginar. Já pensou nisso? — Seu tom de voz denunciava o incômodo, e ele fez mais um carinho na bochecha dela, tentando ver naqueles lindos olhos se ela acreditava nele. — Você quer que eu prove?
colocou suas mãos sobre as dele, que ainda abarcavam seu rosto, e pensou a respeito. Aquilo nunca se passou por sua mente porque ela nem sequer havia considerado a chance de ela mesmo desenvolver algo tão grandioso quanto o amor. Além do mais, tinha dito a verdade a ele; de fato não esperava que ele a amasse algum dia, afinal, não era obrigação dele. As únicas obrigações que tinham um para com o outro eram o respeito mútuo, produzir herdeiros — o que já faziam muito bem — e todas aquelas coisas políticas envolvidas em um casamento.
— Estou inclinada a dizer que sim — confidenciou em um suspiro. — Mas não tenho certeza de como fazer esse negócio de comprovação funcionar.
O sorrisinho dele se alargou e seu polegar acariciou a bochecha dela. Então puxou-a para perto. Tão perto que seus corpos quase se tocavam. Muito mais perto do que seria apropriado quando estavam em público. Escorregou as mãos até a cintura de e inclinou-se um pouco para frente.
— Não se preocupe com isso, querida — falou baixinho. — Vou me esforçar muito em provar para você.
E Daemon Targaryen sabia provar algumas coisas. Desejo. Presença. Posse. Sempre soubera. Fora moldado nisso — tomar, permanecer, impor-se. E costumava gostar disso. Mas o que ele não tinha certeza era se saberia provar algo que não pudesse ser tomado à força. Uma coisa que exigisse paciência, que não cedesse sob pressão, que não se rendesse ao peso de sua vontade. A capacidade de ficar sem dominar. Amar exigia uma linguagem que ele nunca aprendera a falar. E, ainda assim, a amava.
— Você vai? — sussurrou com a voz fraca.
Era o que Daemon e sua proximidade faziam com ela. Desde o início, o desejo era algo que jamais desaparecia entre os dois, mesmo sem sentimentos envolvidos. Não era à toa que tinham quatro filhos correndo pela casa e mais um a caminho.
— Irei. — Suas mãos agarraram mais a cintura dela enquanto seus olhos vagavam daqueles saborosos lábios aos lindos olhos. — Mas não aqui. Mais tarde, hoje à noite, provarei isso a você.
— Tudo bem, te esperarei depois do jantar — disse. Esperar não era novidade para ela. A diferença era que, dessa vez, ela não sabia se esperava por ele… ou por si mesma. — E então você poderá provar seus sentimentos, me fazer acreditar em algo que eu achava improvável. — deslizou a mão pela bochecha dele até o pescoço, onde segurou de leve. — Eu não quero te ver tão perto da Rhaenyra daquele jeito de novo, entendeu? Nem dela e nem de nenhuma outra.
Daemon abriu um sorriso malicioso com o aperto suave que lhe dera; não pôde evitar. Inclinou-se para a frente e levou a boca para perto da orelha dela, não ligando a mínima para o fato de ainda estarem em público.
— Tem a minha palavra, querida — sussurrou em seu ouvido, deixando os lábios e dentes esbarrarem deliberadamente em sua pele. — Não se preocupe, só me aproximarei de você.
Um arrepio lhe cruzou o corpo e ela fechou os olhos por um momento.
— Não estou brincando, Daemon. Eu sou sua esposa, sua mulher — foi firme. — Você me deve isso, não importa se me ama ou não.
— Eu sei que você é minha mulher, querida, não só minha esposa. — Afastou um pouco o rosto e olhou bem para ela. — Você é minha, . De mais ninguém. Isso também é algo que deixarei bem claro esta noite.
— Ah, eu não duvido que vá. — Umedeceu os lábios. — Já sei que me deseja, querido, isso não é novidade.
— Sim, não é novidade nenhuma desde a nossa primeira noite juntos. Eu te desejo, você me deseja. Mas isto… — pausou, apontando devagar para os dois. — Isso é novo. Muito novo. E esta noite provarei a você, disso não há dúvidas.
Ele precisava acreditar nisso tanto quanto precisava que ela acreditasse.
— Tudo bem, estarei esperando o seu… argumento depois do jantar — avisou. — Ah, e prepare-se para me dizer quando foi que descobriu que tinha esses sentimentos por mim… caso realmente os tenha, é claro. — Ela deu uma breve pausa, então acrescentou a verdade nua e crua: — Eu preciso disso.
— Certo. Não se preocupe, estarei lá. — Daemon beijou-lhe a testa. — E talvez eu não tenha o maior prazer do mundo em lhe contar quando percebi meus… sentimentos. Mas lhe contarei mesmo assim. Prometo. — Desceu a mão até a barriga dela para fazer um carinho antes de se afastar. — Te vejo mais tarde, querida.
sorriu em resposta, permitindo-se acreditar na promessa enquanto Daemon se afastava, também com um sorriso nos lábios. Ele estava confiante — quase esperançoso — de que, ao final daquela noite, acreditaria no amor que ele nutria. Por mais que fosse terrível em verbalizar o que sentia por dentro, gostaria de acreditar que, dessa vez, viria a conseguir; e adoraria ver o olhar no rosto dela ao ouvi-lo.
não tirou os olhos dele enquanto se afastava. Daemon era adorável quando queria, isso ela não podia negar. E aquela conversa, aquelas palavras… Deuses, seu estômago parecia se revirar. Tudo por causa da possibilidade de seu marido estar falando a verdade, de realmente amá-la. Aquilo fazia o seu corpo formigar. Ela jamais pensara que teria um casamento com um pouco de amor.
E agora, tudo o que ela podia fazer era conversar com as pessoas ao redor, ajudar as crianças com seu luto e cuidar de seus próprios filhos quando eles parassem de correr por aí e aparecessem. Ela mal podia esperar pela noite, para ver o que Daemon faria para provar o seu novo amor por ela e, o mais importante, o que ele lhe diria — pois Daemon raramente lhe concedia palavras muito significativas.
Amar Daemon sempre fora um risco. A novidade era perceber que, talvez, ele estivesse enfim disposto a correr o mesmo risco por ela.
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A pouca luz dos corredores de Derivamarca parecia engoli-lo enquanto caminhava, com gosto de vinho na língua, até os aposentos que dividiria com sua esposa até partirem. Não havia bebido para esquecer, e sim para criar a coragem de permanecer. Passou primeiro no quarto ao lado para checar se as crianças já estavam, de fato, dormindo — tinha as colocado na cama mais cedo com a ajuda das criadas enquanto se banhava. E só então entrou no cômodo em que deveria ter chegado muito mais cedo e fechou a porta atrás de si.
Havia poucas velas acesas, mas ele conseguia ver a mulher que passara a conhecer tão bem. vestia apenas uma túnica de dormir e movia-se devagar, como se carregasse o peso do mundo nas costas. Daemon sabia que, caso soubesse se expressar e se entender melhor, parte daquele peso aliviaria. Seria um bom presente para ela… se ao menos descobrisse como oferecer algo que não envolvesse força, presença física ou desejo.
— Devo confessar que, por um momento, pensei que não se juntaria a mim em nossa cama esta noite. — Ela sentou-se na cama e pousou a mão sobre as coxas.
Ele não estava planejando vir, essa era a verdade. Havia prometido provar algo a ela, mas qual era o significado da promessa assim que saíra de sua boca? Sexo. Ele sabia. Ela sabia. Não havia por que fingir. Provavelmente fora por isso que passara tanto tempo bebendo uma taça de vinho, com o vento de Derivamarca fazendo seus cabelos esvoaçarem, até que se rendesse e tomasse o caminho para cá. Celtigar merecia mais e, de alguma forma, já esperava encontrar seus olhos cansados o fitando de volta no silêncio noturno. Daemon não sabia como lidar com isso. Não sabia como lidar nem consigo mesmo ao vê-la triste ou irritada com algo que ele ainda não tinha aprendido a fazer, nem com a sua versão que surgia quando ela estava magoada.
No início era mais fácil; não havia promessas. Eram apenas marido e mulher em um casamento puramente político. Deveriam cumprir o dever de gerar herdeiros. Existia desejo. Não havia ilusões. E, por essa mesma razão, não precisavam lidar com maiores temores. Agora, porém, depois de todos esses anos, dançavam tristemente entrelaçados ao medo.
estava lá, sentada na cama, distante. Seus punhos cerrados a denunciavam ao marido. Antes mesmo que Daemon tivesse percebido, já havia aprendido a lê-la. Ela temia que ele jamais conseguisse ficar verdadeiramente ao seu lado, simplesmente… permanecer. Enquanto ele próprio… bem, era um medo que não tinha certeza de como nomear, mas que crescia exponencialmente cada vez que Celtigar estava ausente. Um medo que não tinha forma de batalha — e, por isso mesmo, o desarmava mais do que qualquer outra coisa.
Daemon aproximou-se devagar, um pé após o outro, e parou perto dela. Tocou a mão dela de maneira tão suave que foi quase como se ele temesse que ela não permitisse seu toque.
— Estou aqui agora — sussurrou, esperando para ver se ela fugiria. Mas ela não se afastou do toque, apenas permaneceu. Daemon, mais uma vez, não sabia bem o que fazer. Queria que soubesse lidar com isso tão facilmente quanto lidava quando tudo se resumia a desejo e guerra. — Acha mesmo que eu perderia a oportunidade de passar um tempinho com você na cama, meu bem? — Tentou transformar a conversa em mais do mesmo, porém não fora convincente nem para si mesmo, que dirá para ela.
percebeu a tentativa falha, o que arrancou um pequeno sorriso de seus lábios.
— É, bem, não posso negar o quanto você de fato gosta de ficar comigo na cama, até mesmo só deitado e abraçado, como tem feito nas últimas voltas de lua. — Deu uma risadinha, mas desviou o olhar. Era sempre tão doloroso perceber que, por vezes, ele parecia não saber dar nem sequer metade do que ela precisava. só queria que Daemon ficasse com ela mais do que fisicamente; precisava que ele a escolhesse de verdade, de uma vez por todas. — Mas fico feliz que tenha vindo.
Ficar feliz por tão pouco era um hábito que ela não se orgulhava de ter aprendido.
Tudo havia mudado para Daemon nas últimas voltas de lua — e ele ainda não sabia como admitir isso em voz alta. Envolveu o queixo dela em um toque comedido e a fez inclinar a cabeça para olhá-lo. Era incrível como tudo ficava mais pesado e mais leve ao mesmo tempo quando trocavam um olhar daqueles.
— Vem cá. — Daemon puxou a mão dela para que se levantasse, mais devagar do que o habitual. Um toque de brincadeira e desejo era perceptível em sua expressão. — O que posso dizer? Gosto do tempo que passo na cama com a minha querida esposa. — Ele repousou a testa na dela. — Embora devo reconhecer que sim, eu gosto disso de muitas maneiras diferentes, não é?
— De todas as maneiras possíveis — completou ela, dando um último pequeno passo para ficar ainda mais perto de seu marido. — E parece ter começado a gostar muito de simplesmente estar comigo na cama, seja conversando, abraçando, existindo… — Fechou os olhos, apreciando as lembranças. — Será que isso tem algo a ver com você ter descoberto algo que ao qual chamou de “amor” mais cedo?
Daemon deixou uma risadinha escapar e acenou com a cabeça.
— Você sempre foi muito observadora, querida. — Seu olhar percorreu o corpo dela, tão próximo, sua forma perceptível através do tecido fino da túnica de dormir. Ele escorregou a mão pelas costas dela em um carinho que carregava mais do que apenas o desejo de sempre. — Sim, acho que tem a ver — admitiu, por fim. Sabia que tinha que ter relação, só que era estranho demais reconhecer.
— Sim — ela concordou devagar, dando passinhos para trás e puxando Daemon junto. — Faria todo sentido.
subiu no colchão, de joelhos, e começou a afrouxar as roupas do seu marido — não como quem cede, mas como quem escolhe ficar. As coisas eram assim com eles. Ninguém fazia algo que apenas um quisesse. Era sempre um jogo de ação e permanência. só preferiria que deixasse de ser apenas um jogo e passasse a ser mais a vida deles. De qualquer modo, só havia duas maneiras estarem na cama, fosse para dormir ou para qualquer outra coisa: vestindo suas túnicas de dormir, ou completamente despidos. E Daemon ainda usava suas roupas do dia.
— Você está bem ansiosinha hoje, não é? — Não pôde evitar a risada baixa e genuína que lhe escapou dos lábios enquanto permitia que ela o ajudasse a se livrar de todos aqueles tecidos pesados.
— Não mais do que você — provocou ela. — Também não precisa exagerar, querido. Estou apenas ajudando meu marido a ficar confortável, como sempre.
Daemon olhou para baixo, onde restava apenas sua túnica de dormir. Agora ele e ela estavam iguais.
— Ah, entendi. — Seu sorriso presunçoso se alargou quando sentou-se sobre a cama. — Então está apenas sendo uma boa esposa, é?
— Uma boa esposa que está prestes a receber uma prova de algo que deseja muito — corrigiu. — Uma boa esposa que está ansiosa para ouvir o marido lhe contar quando descobriu o que sentia… se é que está sentindo alguma coisa.
Daemon sentou-se na cama e sorriu de canto, puxando para que se acomodasse em seu colo como se fosse o lugar mais natural para ela estar.
— Estou sentindo uma coisa muito boa, sim. — Deslizou a mão por baixo da túnica dela com demasiada delicadeza.
— Ah, eu também estou sentindo alguma coisa agora mesmo — provocou em tom de brincadeira. — Mas não era desse tipo de sensação que eu estava falando.
— Sei bem sobre qual tipo de sentimento está falando, querida. — Deu uma risadinha suave enquanto sua mão continuava o carinho terno para cima e para baixo em sua coxa. — Mas quero te perguntar algo primeiro.
— É claro que quer — disse ela. — Vá em frente.
Daemon envolveu a cintura dela com as duas mãos e olhou no fundo de seus olhos.
— O que te faria acreditar que estou… apaixonado por você? — Sua voz saiu séria, mas muito, muito baixa.
Até mesmo a palavra “apaixonado” era difícil de dizer. E ele precisava de um mapa, afinal de contas, não sabia ao certo onde pisar sem ferir. E não queria machucá-la; não mais do que já o fizera.
— Eu… — Ela parou, confusa, e soltou um longo suspiro. — Não sei bem, meu amor, é que… não é uma coisa simples, certo? É diferente para cada pessoa. E acredito que possa me mostrar, porém não tenho como te dar essa resposta, ainda que eu quisesse. Terá que descobrir por conta própria, querido. Acho que é assim para todo mundo.
Não era falta de vontade de ajudá-lo. Era medo de ensinar alguém a amá-la do jeito certo e, ainda assim, não ser escolhida no final. Sem contar que não seria tão real dizer a ele o que a deixaria feliz se, quando ele o fizesse, não soasse verdadeiro e nem algo saído diretamente dele. Queria Daemon Targaryen, não uma apresentação de pantomima.
— Tem razão. Deve ser diferente para cada um. — Escorregou as mãos para os quadris dela. — Mas acho que tenho algumas ideias. Gostaria de ouvi-las, querida?
— Claro que sim, é do meu interesse. — Ela piscou para ele, deixando de fora a dura verdade: havia interesse, sim, mas também um grande risco. — Além do mais, eu sempre gostei de ouvir sua voz.
— Fico feliz que minha voz te agrade. — Levou a mão até a lateral do rosto dela e acariciou a pele com o polegar, devagar e constante. — Mas tem certeza que está pronta para ouvir minhas ideias, meu bem? Elas podem acabar te surpreendendo.
— Não me importo em ser pega de surpresa desde que isso não me mate, se lembra? — riu. — Quero que compartilhe suas ideias comigo.
— Está bem atrevida hoje, não é? — provocou.
— Não apenas hoje — disse ela —, sabe que sempre sou assim com você.
— É, tem razão quanto a isso, e também quanto às surpresas. Elas nem sempre são tão ruins assim. — Fez uma breve pausa. — Minhas ideias para provar que… para provar o que sinto, serão demonstradas com ações.
Ações eram seguras. Palavras, não. Palavras podiam ser insuficientes — ou até definitivas demais. E era extremamente fácil falar algo errado e estragar com tudo.
— Para ser sincera, gosto muito das suas palavras quando consegue dizê-las. — sorriu. — No entanto, suas ações são sempre capazes de me deixar fraca, bem do jeitinho que eu gosto.
— É mesmo? — Segurou os quadris dela e a puxou para mais perto. — Então não se importará se eu ficar um pouco mais atrevido com as mãos?
— Não, eu me importaria muito se você não fizesse isso. — Ela mordeu o lábio. — Sabe como gosto de você assim.
— Sei, sim. E sei muito bem. — Agarrou as coxas dela e a puxou para que ficasse o mais próxima possível, envolvendo-o com as pernas. — Acredito que me lembro de uma certa posição que você gosta mais do que as outras quando te acaricio assim.
— Parece-me, então, que me conhece muito bem. — Ela umedeceu os lábios.
— Pode ter certeza que sim. Conheço-a a cada dia mais, meu bem. — Apertou de leve suas coxas. — E pretendo te mostrar o quanto te conheço, a noite inteira e em outras noites depois dessa, se isso for do seu desejo.
— Não há dúvidas do quanto isso me apetece, querido — murmurou ela. — Talvez eu até acabe amando isso, quem sabe!?
— Você amaria, sim. Disso eu tenho certeza. — Sua voz transbordava confiança. Era sempre assim quando dizia respeito às ações. — E acho que sei exatamente como te deixar ainda mais excitada, querida.
— Ah, eu consigo ver. — fechou os olhos, apreciando a proximidade de seus quadris. — E você consegue fazer isso muito rápido, confesso. Sempre conseguiu.
— Claro que sim. — Deu uma risadinha convencida e sussurrou no ouvido dela: — Conheço não só os lugares, mas também as maneiras certas de te tocar.
— E por que não me mostra? — Roçou os dentes nos lábios dele.
— Não precisa ser tão impaciente, querida. Prometo que vou te mostrar todas as provas que deseja — disse ele. — Mas antes, tenho outra pergunta, uma muito importante.
— Pode parar! Você não vai me seduzir adicionando um “muito importante” no final — rebateu, apesar de a curiosidade fazer seu coração retumbar quase tanto quanto qualquer outra palavra de seu marido. — Responderei a mais uma pergunta se você me mostrar que realmente lembra como gosto mais quando me toca assim.
Colocou as mãos sobre as dele e deslizou-as até seu quadril. soltou um suspiro quando ele apertou-as ao redor de sua pele antes mesmo que ela o induzisse a isso. Daemon riu da barganha levemente desesperada de sua esposa.
— É uma ótima negociadora, , sempre foi — admitiu. — Já está louca para sentir minhas mãos por todo o seu corpo, não é?
— Renda-se aos meus termos e me mostre — retrucou —, e descobrirá se estou louca por isso ou não.
Daemon olhou bem para ela. Aquilo não parecia rendição alguma; era mais como se ela estivesse se rendendo a ele do que o contrário. Ele não se importava nem um pouco em adiar a pergunta que envolvia questões emocionais com as quais tinha extrema dificuldade de lidar; agir e agradá-la de outros jeitos era algo com o qual lidava muito bem.
— Aceito seus termos de rendição, meu bem — declarou, por fim. — Ambos sabemos que não consigo resistir a você quando está assim.
— E que eu não consigo resistir a você em quase todas as ocasiões. — Ela afagou os cabelos dele.
— Precisamente. — Roçou os lábios no pescoço dela, vendo a pele se eriçar em resposta. — Terei o maior prazer em provar que conheço o seu corpo tão bem quanto conheço a você.
Daemon inclinou-se para trás, puxando-a consigo enquanto se deitava na cama. Beijou-a intensa porém delicadamente e usou ambas as mãos para explorar seu corpo, deleitando-se em sua respiração entrecortada. Quando a roupa de dormir parecia barrar demais o contato que ela tanto desejava, levou as mãos até a barra de sua túnica de dormir e as enfiou por baixo do tecido. Subiu seus toques e os desceu novamente, devagar, com leves apertos que a faziam suspirar.
Beijou seus lábios entreabertos, devorando seus suspiros, e distribuiu beijos pescoço abaixo enquanto mantinha o peso dela pressionado contra si como se não houvesse outro lugar para estar. E talvez não houvesse.
puxou o rosto dele de volta até o seu para beijá-lo outra vez. Era isso. Era exatamente assim que gostava; quando ele a puxava para cima dele, mas ainda mantinha todo o controle. Uma ilusão muito bem-vinda. Ela era quem ficava por cima, porém era ele quem a tocava, quem a tinha para si para fazer o que quisesse, para fazer o que lhe agradasse, enquanto ela apenas respondia com sons e movimentos automáticos.
E ele percebeu que havia acertado o jeitinho que ela mais gostava apenas pelos leves tremores em seu corpo a cada toque, sem nunca se encolher. Orgulhou-se ao ver como era capaz de fazer relaxar tão facilmente naquela posição à medida que o passeio exploratório de suas mãos acariciava e apertava os lugares certos.
moveu os quadris em um gesto automático quando a mão dele apertou sua pele. Um pequeno deslize e ele teria a prova do quão louca por ele ela estava apenas por ter ouvido suas palavras obscenas. Era por isso que amava a sensação de estar no controle por manter aquela posição quando, na verdade, estava tão à mercê de Daemon e suas deliciosas mãos.
— Viu como é fácil para mim? — Escorregou a mão para a coxa dela em uma provocação nada velada. — Você gosta da ilusão de que controla tudo, não é? Ama me ceder esse controle.
— Você… Você se lembra. — Sua voz tremeu e ela sorriu, esperando por mais. — Não apenas de como eu gosto, mas também do porquê.
— Ah, eu me lembro bem, querida. Tento não me esquecer de nada importante sobre você. — Continuou a acariciar suas coxas, tão próximo, mas sem nunca realmente chegar lá. — Lembro-me de como gosta de ser tocada, de como gosta de ser abraçada, de como gosta de ser tomada. — Ele finalmente roçou levemente os dedos no meio de suas coxas. — Ah, olha isso…
Ele mordeu de leve o pescoço dela ao sentir o quanto ele havia a deixado molhada com algumas palavras e poucos toques.
— Deuses, Daemon… — Ela deixou escapar um longo suspiro enquanto seus toques brincavam com ela. — Viu como estava louca por você, querido?
— Com certeza. — Tocou-a com mais intensidade por um momento, preservando o silêncio de suas vozes enquanto absorvia apenas os suspiros e sons suaves que escapavam da boca dela. — Está tão louca por mim agora como sempre está, meu bem.
— É, para falar a verdade, sempre estou mesmo. — Ela cedeu um pouco mais ao seu toque, sabendo que precisava interromper aquilo; não por falta de desejo, mas por medo de que, se não o fizesse agora, jamais o faria. — Mas, para ser justa com você, que já provou que sabe muito bem do que fala… Posso esperar mais um pouco. — Ela o beijou com calma. — Agora vou permitir que me faça a pergunta que tanto queria.
Daemon sorriu de canto, mas não parou seus movimentos. Era tão mais fácil continuar assim do que ter que enfrentar a parte com a qual não sabia lidar. Era preferível mergulhar no calor entre eles e se deixar afundar. Porque ali, no toque, sabia quem era. Nas palavras, ainda não. No entanto, isso poderia fazê-lo perder sua esposa. E ele não sabia se conseguiria seguir em frente caso tivesse que conviver com ao seu lado pelo resto de sua vida apenas como uma casca vazia, sem tê-la de verdade.
— Quão generoso de sua parte…
Ele riu baixinho e diminuiu o movimento dos dedos até afastá-los de lá, sua expressão tornando-se séria. Retirar a mão foi muito mais difícil do que avançar teria sido. Beijou o pescoço dela, então, prolongando um pouco mais as sensações, mas desta vez seu beijo tinha uma calma que não combinava com ele. Daemon voltou a se erguer com ela para que continuassem sentados como estavam antes. Uma das mãos segurou-a no colo enquanto a outra deslizou pela lateral de seu corpo, agora por cima do tecido, e parou em sua barriga, sobre a pequena protuberância da gravidez.
— Eu… — Ele franziu o cenho, refletindo sobre como fazer a pergunta que queria. — Há algo que tenho me perguntado há algum tempo.
— Tudo bem. — Ela assentiu devagar. — E o que seria, meu amor?
— É que… Eu estava pensando — pausou, com uma tremenda dificuldade de perguntar uma coisa que deveria ser simples. — Queria saber se já te mostrei que… te amo antes desta noite.
— Acho que talvez tenha me mostrado isso sem que nenhum de nós dois percebesse, Daemon. Você se aproximou bastante e se tornou mais carinhoso do que de costume nas últimas luas, mas eu nunca pensei… — hesitou, não sabendo as palavras certas pela primeira vez em muito tempo. Foi quando Daemon repousou as mãos em seus quadris sem nenhuma segunda intenção que ela, enfim, recuperou a voz. — Nunca esperei que amássemos um ao outro algum dia, essa é a verdade. Por isso fiquei tão surpresa quando disse que me amava no meio daquela discussão.
— Eu tinha a sensação de que era esse o caso. — Acenou devagar com a cabeça. — Começamos o casamento com política e…
— E era para ter sido só isso — completou quando ele não conseguiu continuar. — E as emoções e sentimentos não deveriam nos atrapalhar, mesmo com o desejo que sempre bailou entre nós. — Olhou nos olhos dele. — Está tudo bem, querido. Sempre houve um entendimento tácito sobre isso em nossa união. E funcionou.
— Sim, por muito tempo. — Afastou uma mecha revolta de cabelo do rosto dela. — Mas algo… mudou entre nós.
— Mudou, não foi? Um dia aconteceu de eu perceber que me importava com você, e então uma coisa levou à outra — suspirou. — Quer me contar agora quando percebeu que me amava? Ou, se outras palavras tornarem isso mais fácil para você, quando descobriu que o que sentia por mim era mais do que desejo. — Acariciou o rosto dele em um toque terno. — Ficarei aqui mesmo que decida não contar, mas eu gostaria muito de ouvir.
Daemon sabia bem como aquela conversa era importante para . E ela era importante para ele. Por isso mesmo, precisava falar, ainda que fosse tão complicado para ele.
— Sim, eu… eu vou contar — deixou sair. Era necessário. Sempre soube se expressar muito bem fisicamente, mas haviam chegado a um ponto em que não adiantava mais. E quando o corpo não era mais o suficiente, o que sobrava? — Queria… queria ter te falado sobre isso há algum tempo.
— Sei que é difícil e que custa muito a você — murmurou ela —, mas pode se sentir livre para conversar comigo, amor.
Ele assentiu e respirou fundo, levando as mãos à cintura dela como se precisasse do contato para se manter são.
— Não foi nem um pouco simples — disse. — E não foi bonito.
— Acho que nunca é. — Segurou a mão dele em sua cintura para apoiá-lo naquela árdua jornada interna pela qual sabia que seu marido estava passando. — Jamais é como nas canções.
— É que… é difícil para mim, querida. — A expressão quase insegura em seus olhos foi uma surpresa para ; nunca tinha o visto assim. — Não sei bem como colocar em palavras. Não estou acostumado a me expressar desse jeito.
— Eu sei. Você sempre foi melhor com ações físicas. — Ela sorriu. — Não me importo com palavras certas, Daemon, só com o que elas significam. Apenas deixe sair. Estou bem aqui. Não vou a lugar nenhum.
— Ah, , você sempre faz tudo parecer tão fácil. — Seu polegar deslizou pelo rosto dela. — Eu… eu percebi que te amava quando estava longe de você.
— Sério? — Seus olhos se abriram mais com a coincidência, afinal, tinha se dado conta de seu amor por ele em uma situação parecida.
— Sim. Não foi no primeiro dia, nem no segundo, nem… — Ele soltou uma pequena risada sem humor. — Estava fazendo o que sempre fiz muito bem: cercado de pessoas, ocupado demais, convencido de que não precisava de ninguém. — Fez outra pausa, dessa vez mais carregada. — E mesmo assim, você não saía da minha cabeça. Quase como… uma maldição.
— Já ia te refutar e dizer que deveria se referir a mim como uma bênção, mas a verdade é que maldições não se evitam, apenas se aprende a conviver com elas enquanto elas permanecem na nossa mente até o fim. Então eu aceito. — Ela não conseguiu esconder um sorriso. — Quer dizer que sentiu minha falta?
Daemon a encarou por algum tempo, perdido em seu sorrisinho, antes de criar coragem para assentir devagar.
— Mas não era… não era saudade comum nem desejo. Era só… irritação. Um vazio irritante que eu não sabia explicar.
Deslizou a mão para cima e para baixo na cintura de para se acalmar e retirar dela um pouquinho de força para continuar falando o que precisava.
— Fiquei fora por algumas semanas com pessoas que mal conhecia e, de repente, estava com esse sentimento estranho que nunca havia experimentado antes. Eu detestei aquilo. Quando me deitava para dormir, sentia falta de algo que jamais precisei antes. — Daemon desviou o olhar, mas não ligou; apenas esperou que ele conseguisse continuar. — No começo, não entendi, tentei negar, racionalizar, mas… sentia sua falta de um jeito diferente. Não era desejo sexual, como sempre, e eu nem sabia o por quê.
— Sei exatamente de qual vez você está falando, sabia? Me lembro muito bem. — baixou os olhos, pensando, e se viu amando as coincidências entre como e quando ambos descobriram seus verdadeiros sentimentos. — Com o tempo, você acabou descobrindo o porquê, não foi? Aquela palavrinha de quatro letras, tão difícil de pronunciar para quase todas as pessoas, e mais complicada ainda para você.
— Sim, eu percebi que havia uma razão maior para toda aquela intensidade. Entendi que não era apenas sobre te ter de novo em meus braços, mas porque me incomodava a ideia de… de te perder… de voltar para casa e não te encontrar esperando por mim. Pelo que significaria essa ausência. Ou pior, de te ver lá e você se fechar completamente para mim. — Seus dedos apertaram a cintura dela para garantir que ainda permanecia ali. — E você sabe como eu odeio perder as coisas. E odeio ainda mais precisar delas. E eu sempre achei que você merecia alguém melhor do que eu.
apenas respondeu seu olhar por um bom tempo enquanto milhares de emoções e sentimentos transitavam em sua cabeça. No entanto, manteve-se no mais perfeito silêncio para lhe dar espaço. Sabia bem que seu marido tinha mais a falar, respeitava o seu tempo, e compreendia a provação que ele estava passando para verbalizar tudo aquilo.
— Eu percebi que tinha me apaixonado por você — declarou, muito hesitante. — A minha esposa. Aquela a quem jamais esperava amar, sentir algo que não acreditava ser capaz de sentir. E esse amor não me fez sentir mais forte. Fez o oposto. — Ergueu o olhar até encontrar o dela. Sua expressão nunca fora tão séria como agora, mas apenas assentiu, e ele continuou: — Amar você fez com que eu percebesse o quanto sou ruim em ficar. Em cuidar. Em não ferir. Foi assim que eu soube que… te amava. Porque, pela primeira vez, não saber o que fazer me assustou.
Aquilo era pesado. Qualquer um que olhasse para Daemon Targaryen poderia afirmar que ele não se assustava com qualquer coisa. Isso caso realmente se assustasse com alguma coisa. Aquelas palavras a tocaram mais do que qualquer ação já feita. E ela o amava mais do que tudo por ter se esforçado para dizer o que precisava ser dito com toda a sinceridade que pôde reunir.
— O amor é uma coisinha difícil, não? Também me assusta demais — confessou . — Mas quer saber de uma coincidência engraçada? Eu percebi os meus sentimentos na mesma época que você. Eu estava tão brava, se lembra?
— Ah, sim, você ficou bem brava comigo. — Ele riu baixinho ao ouvir a leve risada dela. — Como eu poderia me esquecer? Você mal me recebeu quando cheguei em casa. Mas eu… fiquei aliviado ao te encontrar ali, presente.
— Estava com raiva de você porque sentia medo. Temia te perder antes mesmo de descobrir que te amava — admitiu. — Porque você disse que seriam duas semanas fora, mas retornou muito tempo depois. E eu… — Inclinou a cabeça para trás e suspirou antes de voltar-se a ele. — Bem, eu já sentia sua falta, isso não era novidade para mim. Só que daquela vez você não só não voltou para casa no prometido como demorou uma semana inteira para aparecer de novo. Me deixou tão preocupada, Daemon. E eu não suportava a ideia de talvez ter te perdido. O meu homem. Meu marido. O meu… amor. — Sorriu para ele. — E então eu percebi.
— Você estava preocupada comigo, é? Sabia! — Sorriu, quase presunçoso. — Imagino o quão impaciente você estava com a minha demora. Naquela vez, eu conseguia até te imaginar andando de um lado para o outro no nosso quarto, esperando a minha volta.
Aquilo soou como uma leve provocação, do jeitinho que Daemon queria. O que ele deixou de fora foi o quanto temia que aquela imagem que tinha na cabeça fosse falsa e que tivesse desistido dele.
— Eu estava muito preocupada, sim. Tinha medo de te perder para sempre, porque te amava. Foi aí que os sentimentos estranhos e invasivos fizeram sentido. E eu me senti tão fraca com esse amor quanto você. — Mordeu o lábio. — Por isso fiquei tão irritada e furiosa quando retornou.
— Eu errei em demorar, e errei por… medo. Você tinha todo o direito de se zangar — falou baixinho. — Mas agora estou aqui.
— Obrigada por ter se esforçado tanto para falar comigo. Significou muito para mim. — acariciou o rosto dele, e então o provocou: — Agora fale a verdade, você adorou me ver furiosa naquela vez, não foi?
— Foi uma visão bem interessante. — O tom de flerte retornou à sua voz. — Você sempre fica linda quando está brava, meu bem.
— Cale a boca. — Revirou os olhos, sorrindo. — Eu vou te matar por me fazer corar como uma donzela.
— Ah, por favor, querida… — Daemon riu. — Você não conseguiria me matar nem se quisesse.
— E por quê não? — Arqueou a sobrancelha. — Porque é muito bom em tudo o que faz ou porque eu não conseguiria viver sem você?
— Um pouco de ambos, acho. — Sorriu de lado. — Tenho confiança nas minhas habilidades e sei com certeza que você não conseguiria viver sem mim. Tenho muito orgulho disso, a propósito.
Claro que tem. Você mantém uma visão muito idealizada de si mesmo. — riu. — Então você me ama, é? De verdade?
— Sim — confirmou, a voz baixa. — Eu realmente amo, querida. De verdade.
— Eu também te amo, querido. — Ela segurou os ombros dele e a puxou contra ela, pressionando ainda mais seus corpos. — De verdade.
Seus lábios capturaram os dele em um beijo que misturava paixão, desejo e amor. Daemon envolveu o braço ao redor da cintura dela ao corresponder ao beijo ardente. O calor crescia entre eles como nunca conforme suas emoções e sentimentos se intensificavam. rebolou sobre a excitação dele, deixando um gemidinho escapar.
, eu… — Prendeu-a contra si. — Eu preciso de você agora. De todos os jeitos.
Sua expressão estava repleta de desejo, luxúria e… amor. gostava de ver aquilo. Acreditava que seu olhar refletia o mesmo ao fitar seu marido.
— Também preciso. — Arfou com o prazer e a antecipação do atrito entre eles, mesmo separados por suas túnicas de dormir. — Eu preciso de você.
— Então me tenha, querida, se entregue a mim — murmurou. — Estou bem aqui. Não vou a lugar nenhum esta noite.
Aquela era a primeira vez dos dois na cama sabendo de fato que se amavam. E ela não queria esperar mais para sentir aquilo de maneira diferente.
— Sim — sussurrou em seu ouvido enquanto suas mãos trabalhavam avidamente para tirar o tecido de suas túnicas do caminho. Então rebolou sobre ele mais uma vez, apenas para provocá-lo, antes de, enfim, se encaixar nele. — Também não irei a lugar nenhum.
… — Ele desceu as mãos para os quadris dela e ajudou-a a mover contra ele. — Você… Eu te quero tanto.
— Eu sei, amor, e você me tem. — Rebolou devagarinho, de modo quase torturante para os dois. — Do jeito que ambos estamos agora, posso dizer que vai ser rapidinho, rapidinho. — Ela sorriu, mordendo o lábio. — Então tome a iniciativa e acabe com isso.
— Tem razão, como sempre.
Daemon se ergueu com ela e a deitou na cama. Subiu por cima dela devagarinho, com um cuidado surreal que quase não combinava com quem ele era. Antes de tomá-la para si outra vez, sorriu para ela, que lhe sorriu de volta um magnífico sorriso que beirava ao sagrado — um que dizia mais do que qualquer palavra jamais poderia. Ele beijou seus lábios quando se moveu contra ela, engolindo o suspiro desejoso que ela soltou.
— Preciso tanto de você, meu bem.
E precisava. Precisava de tantos jeitos diferentes que ficava aliviado só por deixar as palavras saírem. Além do mais, não precisavam conversar sobre murmúrios e sussurros verdadeiros ditos durante o sexo, o que tornava tudo mais simples. Apesar de que agora ela sabia que o “precisar” dele significava muito mais do que desejo carnal.
— Mostre-me o quanto — suspirou. — Quero suas ações agora.
Daemon já estava tomado por uma fome que apenas era capaz de saciar. Mas ouvir aquele pedido fez loucuras com ele do jeitinho que ela sabia que faria. Ela estava o permitindo amá-la do jeito que ele melhor sabia fazer. Aquilo significava tudo. Ele continuou a se mover contra ela com mais e mais vontade. Sabia que apenas algumas estocadas fortes o fariam chegar lá, tamanho era seu desejo por ela depois de tudo o que haviam compartilhado. No entanto, desejava prolongar aquele momento tanto quanto possível, não apenas pela perfeição que estava sendo para ele, mas porque queria vê-la tão perdida naquilo quanto ele.
Mas isso não era uma necessidade, afinal, também gostava de coisas rápidas de vez em quando. E agora, em especial, ela estava curtindo mais do que de costume. Havia algo fervilhando dentro dela como as chamas nas profundezas de Pedra do Dragão, um novo sentimento em seu coração, que era delicioso e feito de amor. Amor por Daemon. Amor por si mesma. Amor por confiar seus sentimentos a ele, por confiar nele. Era uma experiência completamente nova e, por isso mesmo, ainda mais intensa.
— Meu amor… — gemeu baixinho. Estava ficando difícil se concentrar para dizer qualquer coisa além disso.
E Daemon não precisava ouvir mais nada para saber o que ela estava sentindo. Conhecia-lhe bem demais, e seu corpo a traía. Ele também sentia aquela intensidade, a paixão, a necessidade. Amava-a, no fim das contas, por mais que fosse difícil verbalizar; e essa era apenas mais uma forma de deixar o sentimento sair de seu peito.
— Você é linda, . — Inclinou-se para beijá-la, então deslizou os lábios até sua orelha e sussurrou. — Você é tudo para mim. Eu… — Seus próprios murmúrios se tornavam menos e menos articulados enquanto sua mente era dominada pela necessidade do corpo. — Eu amo você.
— É tudo o que eu preciso ouvir. — A respiração dela falhou quando a mão dele deslizou entre eles e a tocou. Impeliu os quadris com mais ímpeto contra ele. Como podia tudo ter se tornado tão melhor apenas por saber que ele a amava, que seus sentimentos não eram bobagem, que tudo era recíproco? — Daemon, meu amor… Eu…
— Eu sei, eu sei. — Ele a tocava nos lugares certos, dos jeitos mais perfeitos, e não demorou muito para que o corpo dela tremesse deliciosamente contra ele. Sentir a contração de seus músculos ao redor dele foi o golpe final. Mais algumas poucas estocadas e ele estava se desfazendo junto dela. E então enfim desabou sobre ela, enterrando o rosto na curva de seu pescoço enquanto tentava se acalmar. — , meu… amor.
não comentou sobre a voz fraca e suave dele, e nem sobre como aquela era a primeira vez que ele a chamava de “amor”. Ela apenas abriu um sorrisinho mínimo e o abraçou, apertando-o contra si enquanto a respiração de ambos ainda permanecia um tanto instável. O calor compartilhado era agradável e reconfortante. Daemon mudou o peso do corpo para não ficar sobre a barriga dela e puxou sua cabeça para repousar no peito dele. Permaneceram assim, em silêncio, nos braços um do outro, desfrutando do sabor residual do amor e da intimidade, como se tivessem nascido para aquele momento.
— Eu não preciso que me escolha para sempre — confidenciou ela, encerrando o silêncio com o mínimo de peso possível. — Só preciso que não me machuque enquanto ainda estiver aqui.
— Eu… eu nunca quis fazer você se sentir insuficiente — falou devagar, sem saber muito bem como se explicar. — Não sei bem como te prometer as coisas ainda. Promessas de verdade. Mas sei que não quero estar em nenhum outro lugar. — Ele afagou os cabelos dela. — Tentarei fazer o que pediu.
Aquilo era o suficiente para ela, ao menos por enquanto. Era mais do que ele jamais conseguira alcançar antes. E ela o conhecia bem o bastante para saber que lhe custava muito dizer algo assim.
— Depois de todo esse entendimento que tivemos, já posso admitir que, além de tudo o que mencionei, senti algo mais quando te vi com a Rhaenyra mais cedo? — Seu tom era levemente divertido, porém baixo, como se falar em voz alta pudesse arruinar o momento. — Como não sabia ainda o que significava para você, e estava me sentindo insuficiente… também tive um pouquinho de ciúmes.
— Ciúmes, meu bem? — Deu uma risadinha e puxou-a para mais perto, levando a mão à sua barriga em um gesto que reafirmava sua presença em algo que durava muito mais do que uma única noite. — Não precisa ter ciúmes, querida. Sabe que não há motivo para isso.
— Bem, agora sei, mas antes eu não sabia, certo? — Virou o rosto para ele e ergueu uma sobrancelha. — Nem sabia que você sentia mais do que desejo sexual por mim.
— Justo. Não sou bom nessas coisas. — Acariciou a barriga dela. — Nunca quis que duvidasse do que significa para mim, eu só… não fui muito bom em demonstrar isso, não é?
Daemon tocou o rosto de e pressionou os lábios contra os dela, como se essa fosse toda a promessa que pudesse lhe fazer naquele instante.
— Não, você não foi — murmurou contra a boca dele, aceitando a oferta que ele fizera com aquele beijo. — Mas esta noite, nesta cama, quando falou comigo… Ah, Daemon, foi precioso.
— Foi mesmo? — Franziu o cenho. Não sabia nem como havia sido capaz de despejar tantas palavras mais cedo, que dirá se havia sido eloquente o suficiente. — Fico feliz que pense isso.
— Gosto de ver as partes que você não gosta de ver em si mesmo. — Abarcou o rosto dele com ternura. — As partes vulneráveis, quero dizer. Como aquela que me ama.
— Você é a única pessoa que pode ver essas partes. — Daemon fechou os olhos, inclinando-se para o toque dela. — Só desejo mostrar esse lado para você, querida. Para mais ninguém.
— E é tão difícil para você… — reconheceu e beijou-lhe os lábios. sabia o que aquilo significava. Era algo muito, muito importante para ele. E isso provava que ela ocupava um lugar que ninguém mais poderia. — Obrigada por me deixar ver esses lados. Me sinto honrada.
— Não gosto de compartilhar minhas vulnerabilidades nem comigo mesmo, mas… — Segurou o rosto dela e deslizou o polegar sobre a pele em um carinho terno. — Você é a minha esposa, a mãe dos meus filhos. Não há mais ninguém com quem eu preferiria compartilhar essas… vulnerabilidades.
A última palavra deixou seus lábios como se fosse a pior das maldições.
— Esposa, mãe dos seus filhos… Essas palavras não significam nada sentimental, exceto quando fazemos com que signifiquem. Como agora — acrescentou e Daemon assentiu devagar. — Acho que conseguimos, não é? — Ela deixou escapar uma risadinha feliz. — Tivemos a sorte de encontrar uma chama brilhante onde a maioria jamais seria capaz de ver uma faísca.
— Acho que sim — admitiu ele. E isso o assustava. Porque quando se tem algo, sempre há a possibilidade de perder. — Encontramos algo especial, querida. Pode ter começado sem amor, porém… Bem, acho que ambos estamos felizes de que seja diferente agora.
— Era apenas política e dever, como todo casamento, e hoje eu te amo, príncipe Daemon da Casa Targaryen — declarou. — Meu homem, meu senhor, meu marido, o pai dos meus filhos… e agora, o meu amor.
— E eu amo você, da Casa Celtigar. — Sua garganta arranhando com o peso das palavras e com o quão perdido estava nelas. — Minha mulher. Senhora. Esposa. A mãe dos meus filhos. E o meu… o meu amor.
Sentiu-se aliviado quando enfim disse aquelas últimas palavras sem tanta hesitação. Mas não ligava para a hesitação, ela só se importava com o esforço descomunal que seu marido fazia para se expor quando isso era tudo o que ele mais evitava.
Um casamento sem amor havia sido o suficiente para ambos por um longo período de tempo. Em algum ponto, contudo, sem que nenhum dos dois planejasse, eles encontraram algo mais. Algo que agora precisavam aprender a sustentar antes que perdessem. E era o que estavam começando a fazer.
Afinal, assim como , Daemon também permanecia porque não sabia ir embora. E provavelmente porque não queria viver sem.

FIM!

Nota da autora: Sem nota.