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Codificada por: Sol
Finalizada em: 05/08/2025


CAPÍTULO ÚNICO

“Sometimes love don’t feel like it should
You make it hurt so good”

Hurts So Good — John Mellencamp
A lareira crepitava, lançando sombras irregulares pelas paredes de pedra fria, mas o fogo não parecia esquentar. O ar entre Aemond Targaryen e Velaryon era denso, carregado de anos de ressentimento, lealdades opostas e algo mais… Muito mais. Algo que nenhum dos dois ousava mencionar ou nomear, porém se fazia quase palpável quando estavam sozinhos como agora.

— Sempre usando as cores da sua mãe, não é? — Aemond franziu os lábios. — Mesmo aqui, nos meus aposentos privados.

— Pode ser tão Verde quanto quiser, meu caro tio, mas não pode dizer que não gosta da cor preta. — Mirou o gibão elegante que ele vestia. — E fica bem nela. — Ergueu o queixo e dotou sua voz de um leve tom de desdém: — Mas suas vestes não me enganam, e nem você, a fiel lâmina do irmão que despreza… Dever sempre acima dos desejos e de qualquer outra coisa, não é mesmo?

— Parece que continua gostando de reiterar o óbvio, sobrinha. — Sorriu de canto, tão gelado quanto o Norte. — O dever sempre vem primeiro. O desejo… bem, é descartável.

— Curioso. Pensei que havia me arrastado até aqui por desejo, não sei bem de quê. Vingança, talvez… ainda assim, desejo pessoal de vingança. — Inclinou a cabeça de maneira quase imperceptível e acrescentou, com um meio sorriso ácido: — Então, se é dever, me mate. Aqui mesmo.

Aemond vacilou apenas por um mísero segundo antes de estreitar o olho. golpeava onde sabia que doeria mais. Insinuava que ele só queria provar que agora era um homem-feito, perigoso, alguém que ela enfim deveria temer. E era isso o que ele queria, de fato. Por isso deu alguns passos na direção dela, que apenas o observou, sem mover-se um centímetro para os lados ou para trás.

Ela apenas observou sua postura altiva e seu olhar tão frio quanto as lâminas que adorava. Mas enxergava além — sempre enxergou, desde criança. Por trás do escudo de aço estava o menino que ela humilhara, o garoto ferido que agora vestia a pele do monstro que acreditava precisar ser. Ela compreendia o desejo que ele tinha em causar medo nela, em mostrar a ela como ele agora podia ser forte, cruel, impiedoso; não mais o garotinho sem dragão que ela ridicularizava junto com Aegon, Jace e Luke.

E não era só isso. Sabia também — ou ao menos achava que sabia — que ele tentava se convencer que já não importava mais, que ele havia superado. Que agora era o predador, não a presa. Mesmo assim… havia algo no modo como a fitava que a fazia acreditar que ela era a única capaz de desmontar essa armadura. A verdade era que também lidava com seus desejos pessoais — e este talvez fosse um deles. Mordeu a bochecha por dentro em um pequeno hábito que odiava. Em vez de mergulhar de cabeça nas provocações, deveria recuar, pois provocá-lo era imprudente, perigoso… errado. Mas existia um prazer sombrio nisso, um fogo que ardia apenas porque não deveria arder. Um fogo que a divertia, a provocava de maneiras que mal podia colocar em palavras nem pensamentos. Isso a fazia querer ir ainda mais longe, tirar tudo o que podia de cada segundo daquilo. Afinal, era tudo um joguinho doentio, não era? Queimar fazia parte do jogo.

Aemond ainda a observava, a mente tão em polvorosa quanto a dela.

— Não lhe matarei. É cedo demais para isso — disse devagar, o corpo irradiando tensão contida. — Quando o primeiro sangue for derramado… será o meu ou seu, princesa?

— Talvez nenhum, talvez os dois. Está pensando em dar o primeiro passo? Sacar uma adaga e fazer o meu sangue correr? — instigou. — Eu ficaria feliz em sangrar pela causa justa, que é a da minha mãe, é claro.

Um silêncio espesso instalou-se nos aposentos, cortado apenas pelos estalos da lareira e o suspiro irritado de Aemond. A garota era tão insuportável quanto ele se lembrava e, ainda assim, não conseguia se manter longe dela.

— Cuidado, — falou baixo, chamando-a pelo nome pela primeira vez naquela noite. — Defendendo sua mãe com tanta veemência… Pode acabar se queimando com ela.

— E quem vai me queimar, Aemond? Você? — Esboçou um sorriso que não alcançou os olhos espertos. A única resposta exibida pelo garoto foi um respirar fundo que explicitava o modo como seu controle desfiava-se como uma peça mal costurada. — O fogo não me assusta, querido. Eu nasci nele. Posso carregar o nome Velaryon, mas sou tão Targaryen quanto você.

Aemond não pôde mais se segurar. Travou o maxilar e cerrou os punhos, o sangue ribombava em suas têmporas. Havia cometido o erro de trazê-la ali, aos seus aposentos privados, escondida de todos os olhos do castelo, tarde da noite. Jamais deveria ter feito uma tolice daquelas. Aquilo ia contra tudo o que ele, como o defensor mais ferrenho e leal dos Verdes, deveria representar. E mesmo assim ela não tremia. Não baixava os olhos. Não o temia. Ou ao menos não demonstrava isso.

Ele queria que ela visse. Precisava que por fim entendesse o que ele se tornou, o que ela havia feito dele: não mais o menino frágil que ela humilhou. Aemond agora era um homem. Soldado, guerreiro, um cavaleiro de dragão. Ele era fogo, e ele queimava. Ah, e como queimava! Ela veria bem.

Em um movimento rápido e brusco, agarrou o antebraço da garota com força e a prensou contra a parede gelada. Seria o seu jeito de provar — para ela e para si — que tinha o controle. E sim, ele sabia que era errado. Sabia que poderiam arder em consequências se fossem descobertos sozinhos, ainda mais em uma cena daquelas. Mas ele não se importava mais, e tinha certeza de que não se arrependeria, afinal, lá no fundo, era tudo o que queria. Era disso que precisava.

No entanto, também existia algo mais borbulhando como água fervente abaixo da superfície, algo que se recusava a nomear, pois nomear tornaria tudo tangível. E ele não queria expor em voz alta essa necessidade irracional de que fosse ela, justamente Velaryon, a vê-lo assim. Que desejava que ela sentisse medo dele, que sentisse… algo, qualquer coisa.

— Eu te assusto agora? — perguntou, por fim, em um tom ameaçador. Ele a queria, queria o seu medo, sua reação, o confronto, o jogo. Queria tudo. Tudo dela. E se fosse uma sentença de morte, que assim fosse. O final dos Targaryens, assim como os seus destinos, era sempre escrito em chama. Por que não o deles, também? Preferia ser queimado por ela, com ela, do que ser ignorado outra vez. — Responda-me, mulher. — Sua mão livre subiu até o queixo dela, forçando-a a olhar para ele. — Você não se orgulha do homem em que me transformou?

Ela podia estar com medo, claro que estava. Mas, de alguma forma, não conseguia se conter em jogar o jogo e provocá-lo de volta, mesmo estando à sua mercê.

— Por que me orgulharia de qualquer coisa quando se trata de você? — cuspiu as palavras carregadas de um desdém afiado.

Qualquer coisa — imitou-a para ridicularizar sua fala. Apertou o antebraço dela com mais força e o levantou até quase acima de sua cabeça. Um chiado de dor escapou dos lábios dela, o que apenas o instigou ainda mais. merecia isso, se não algo muito pior. — Está falando sério? Nem mesmo agora que sou melhor que você em todos os sentidos, não se orgulha do seu papel nisso? É uma pena, sério.

— Ah, você é definitivamente melhor… em todos os sentidos. — Não pôde evitar lamber os lábios. Deuses, onde foi parar minha vergonha?, perguntou a si mesmo. Ao mesmo tempo em que ele a machucava e fazia o seu medo aumentar, mais ela ficava… excitada com a situação, com ele. — Eu só não sei por que, nos sete infernos, quer que eu tenha orgulho de você. Eu não sou a maldita da sua mãe, nem mesmo a sua amável irmã. Sou sua sobrinha, uma possível amiga maldosa que virou inimiga por causa das circunstâncias e da sua mãe.

— Ótimo — disse ao perceber a reação corporal dela. Aemond ignorara todas as palavras ditas após sua língua deslizar sobre o lábio inferior. Provocações que não valiam a pena. Ele queria reação, e foi teve. Um bom começo. — Fico feliz que tenha percebido que sou melhor. Finalmente está aceitando a verdade.

Era quase doce a maneira como ela era forçada a olhar com aquele rostinho bonito para ele. Aemond não sabia se era a emoção de viver a vingança ou algo mais que sentia. Entretanto era impossível negar o quanto gostava da sensação.

— O que vejo ou deixo de ver não deveria significar nada para você, tio — disse, atrevida, pingando a última gota d’água na vasilha já transbordante de Aemond. O garoto a pressionou contra a parede com mais força, mas ela nem sequer tremeu.

— Acho que ainda não entendeu a sua situação, sobrinha — sussurrou no ouvido dela e deslizou a mão de seu queixo para o seu pescoço, flertando com a vontade de apertá-lo enquanto a mantinha refém.

— Eu poderia dizer que estou tentando… mas talvez eu nem me importe — suspirou, sem mover um dedo para tentar se soltar. — Só me pergunto por que eu, quando poderia ser Lucerys, que arrancou seu olho, ou Jacaerys, ou até mesmo o Aegon, que foi, e acho que ainda é, o pior valentão na sua vida.

— Você está se esquecendo de uma coisa. — A fúria transbordou como água fervente em cada palavra enquanto seus dedos apertavam levemente o pescoço de . Aemond desprezava o modo como ela se fazia de esquecida a respeito de sua intimidação e zombaria nos anos mais humilhantes da vida dele. — Foi ideia sua.

— Ah, é isso o que você pensa? Depois de todos esses anos, ainda acredita nisso? — Seus olhos arregalados não expunham exagero algum; a surpresa era real. gostara de assumir a culpa durante alguns anos, porém sempre acreditara que o garoto descobriria a verdade com o passar do tempo. — A ideia do por não foi minha, meu caro tio.

— O quê…? O que quer dizer? — Franziu a testa de modo quase imperceptível, como se não quisesse mostrar sua hesitação, apesar da falha em sua vez tê-lo denunciado. Aumentou o aperto ao redor do pescoço macio de para mostrar que ainda tinha o poder, o controle, ainda que seu corpo estivesse acalmando-se.

— Eu estava lá quando essa ideia estúpida surgiu, é verdade. — Ela pousou a mão sobre a dele, mas não tentou livrar-se do aperto. — Seu irmão mais velho teve a ideia quando estávamos nos beijando.

— Mas você estava lá, não é? Não impediu, não protestou — grunhiu ele. — Até deu risada com eles.

— Ah, eu estava, sim, desde o princípio da ideia. Estava tão envolvida com essa coisa de beijar. Uma criança em seu primeiro beijo. — Retorceu os lábios. — Para ser sincera, achei que era uma ótima ideia, mesmo que eu mesma não tivesse um dragão para chamar de meu. Eu fui uma idiota.

Aemond lutava com a vontade seca de rir ou ficar ainda mais furioso. No fim das contas, porém, sabia que não era mentira. Tinha que ter sido o Aegon. Sempre era o maldito do Aegon. Ele tinha tudo. Seria o rei e se sentaria no Trono de Ferro quando o pai deles morresse, usaria a coroa de Aegon, o Conquistador. Enquanto isso, Aemond era apenas o segundo filho homem. Ainda assim, o irmão sempre tinha que achar um jeito de humilhá-lo. Até mesmo o beijo de o maldito havia clamado primeiro.

— Você ainda é. E é má. E mimada — destilou amargura e ressentimento na cara dela, sua mente e corpo divididos entre apertar seu pescoço até sufocá-la em vingança e ceder à tentação de provar seus lábios.

— Acho que ainda sou mesmo, ou então estaria tentando escapar de suas garras. — fechou os olhos por um instante. Como aqueles joguinhos doentios podiam lhe despertar tanto prazer? Aquilo era uma loucura. — Mas aqui estou eu, imóvel.

Aemond travou o maxilar. Detestava o jeito como ela não revidava, odiava o mais ainda o modo como a mente dele estava enevoada e seu coração retumbava no peito. Raiva. Era raiva, sim, mas não apenas isso. Nunca existia apenas isso quando as coisas eram sobre Velaryon. E assim, o aperto no pescoço afrouxou-se aos poucos, sua mão servindo apenas para segurar aquele rostinho bonito no lugar. Lá no fundo, ele odiava também o modo como meio que gostava do rosto dele e de sua mente, língua e espírito afiados que ele simplesmente não parecia conseguir quebrar.

— Então você queria que eu tivesse orgulho de você por ter se tornado mau? — Ela voltou a falar. — Por que eu teria orgulho de fazer você se tornar tudo o que mais odeio em mim mesma?

— Não precisava de seus elogios — ralhou. — Queria que você tivesse medo. Medo de mim. E quero ainda mais agora.

— Ah, eu estou com medo — admitiu quando ele a prensou com mais força contra a parede. — Mas não é só isso que estou sentido agora.

— O que mais está sentindo, querida? — indagou em tom de zombaria, sem querer reconhecer que tinha curiosidade sobre o que se passava com a sua mente e corpo.

— O que você acha? — rebateu como se fosse óbvio.

Tirou a mão de cima da dele e deslizou até seu rosto, tocando-o o local quase com carinho. Aemond ficou paralizado, a sensação dos dela lhe enviavam arrepios através do corpo. Bons arrepios. Ele detestava como seu corpo o traía mesmo ainda estando bravo com e seu olhar imperturbável, sempre carregado de desafio.

— Eu não sei — mentiu entredentes, a mão livre agarrando a cintura dela.

— Ah, eu acho que sabe, Aemond — chamou-o pelo nome pela primeira vez desde que ele a encurralara contra a parede.

Um redemoinho confuso e violento se agitou no fundo de seu estômago pelo modo como ela dissera seu nome. Bem do jeitinho que ele queria ouvir, mas ainda assim, o ressentimento o afundava aos poucos, sempre presente. Fechou o braço ao redor da cintura dela, ainda a pressionando contra a pedra fria.

— Por que não esclarece para mim, princesa? — A voz saiu baixa e rouca, mas o tom de zombaria continuava lá.

— Pode ter apenas um olho sobrando, contudo acho que consegue ver bem claramente. — Ela umedeceu os lábios, apreciando até mesmo o toque dos dele em seu pescoço como se fosse o mais delicioso dos carinhos. — Ironicamente ou não, já pode descartar o título e me chamar pelo meu nome, Aemond.

— Não — disse bruscamente. Ele a odiava, de verdade. Aquilo não deveria estar acontecendo. — Acho que jamais conseguirei.

A frustração era tamanha que ele nem sabia mais se estava falando apenas sobre títulos, nomes e apelidos.

— E por que isso? — fez beicinho. — Tem medo de me chamar pelo meu nome, querido?

— Não me chame assim — grunhiu, apertando suas mãos ao redor dela com mais força. As provocações o enlouqueciam, e tudo o que ele queria era diminuir a pequena distância que restava entre seus rostos. Ele estava furioso demais, não conseguiria nem beijá-la.

— Então você tem medo de me chamar de ", e agora tem medo de me ouvir te chamando de “querido”? — provocou-o. — É meio decepcionante, sabia? Pensei que fosse destemido, querido. Você não é destemido?

Ele sabia que ela estava ganhando, pois ficara irritado. Suas unhas cravaram-se na pele dela, o controle se esvaindo a cada palavrinha afiada daquela maldita boca. Ele poderia simplesmente beijá-la para calar sua boca, provar que estava errada. Era impossível não detestar o modo como ela o chamava de “querido”, fazendo parecer inocente e condescendente ao mesmo tempo. Aquilo o fazia querer gritar.

— Não force a barra — avisou.

— Por que não, querido? — Mordeu o lábio da maneira mais suave possível. — É tão bom.

— Eu disse para parar — reforçou. Ele odiava tudo, odiava e aquele tom de voz. Odiava o modo como soava tão presunçosa e como era óbvio que estava gostando de vê-lo sofrer com a situação atual. Precisava encontrar uma maneira de virar o jogo, de calar aquela garota.

— E por que eu pararia, meu garoto destemido? — Sua respiração pesada denunciava o quanto estava excitada com tudo aquilo. — Estamos nos divertindo tanto.

— Você está brincando com fogo — sussurrou ele.

— Você pode até me chamar de Strong vez ou outra, mas eu tenho sangue Targaryen em mim, caso tenha se esquecido — ressaltou. — Eu amo fogo.

Não pôde evitar o modo como seu corpo inteiro pressionou-se contra o dela. Seu domínio sobre ela parecia ter crescido tanto que ele sentia que ia machucá-la mesmo que sem intencionalidade. No entanto, ele não conseguia se importar. Queria mostrar quem estava no controle. Mas a luxúria em seu olhar dizia outra coisa. E ele nunca havia sentido-a tão forte antes por ninguém em especial, que dirá por Velaryon.

— Tem certeza que consegue suportar esse fogo? — perguntou em um tom tão áspero quando o aperto que mantinha sobre ela.

— Por que não tentamos descobrir? — sugeriu ele. — Você disse que fui eu quem te fiz do jeito que é hoje. Então acho que eu deveria ser capaz de suportar isso, não?

— Não espere que eu pegue leve com você, mulher — alertou, sem desviar o olhar do dela nem sequer por um breve e curto segundo. — Eu te odeio.

— Ah, eu não duvido disso. Eu também te odeio. — Acariciou a mão dele, que jazia eternamente sobre seu pescoço. — Mas odiar é complexo, você não acha? Há muito mais acontecendo dentro do nosso ódio.

Sim!, ele quis dizer, gritar, bradar. Detestava o fato de estar certa. Existia muito mais entre eles e seu fiel companheiro ao qual chamavam de “ódio”: raiva, ressentimento, talvez até carinho e, agora, luxúria. Ela o provocava, o pressionava, e isso o deixava furioso, mas não apenas isso. Sempre tinha mais borbulhando sob a superfície quando dizia respeito a ela. Ele queria calá-la há tanto tempo e, com aqueles lábios convidativos tão próximos dos dele, parecia a opção mais fácil para acabar com tudo. As emoções batalhavam sem parar dentro dele. Como podia desejar fazer algo tão rude a ponto de machucá-la para mostrar o quanto a desprezava enquanto, ao mesmo tempo, só queria beijá-la?

— Você não vai ganhar — avisou. Aemond sabia que ela estava o testando, e temia estar assistindo o seu controle deslizar por entre seus dedos como grãos de areia. Ele precisava mostrar quem estava no controle, tinha de lembrar a qual era o lugar dela.

— Que bom, porque eu não estava tentando ganhar. — Sorriu com a suavidade de uma pena. — Às vezes, Aemond, eu só quero perder.

E isso era tudo o que ele precisava ouvir. Aquelas palavras foram mais do que suficientes para quebrar em mil pedacinhos únicos os grilhões que ainda estavam o prendendo. Ele odiava , a detestava, e ela ainda havia tido a audácia de confessar que queria perder. Aemond selou os lábios nos dela em um beijo forte e áspero. Um grunhido escapou de sua garganta, como se estivesse aliviado por finalmente chegar a algum lugar naquela jornada. E respondeu apertando sua mão sobre a dele com mais força, sem se importar que isso aumentasse o aperto em seu próprio pescoço. Sua excitação apenas crescia e ela queria aproveitar cada pequena parte.

A avidez do beijo transparecia no movimento de seus lábios, línguas, seus toques, no atrito de seus corpos. A raiva contida transbordava em cada pequeno movimento, mas havia outras coisas também: atração, lascívia, posse, desejo de se provar. queria perder, então ele a faria perder. Amaria vê-la perdendo, perdendo para ele, nas mãos dele. Sonhara em calar aquela boca atrevida tantas vezes, e ali estava; havia sido muito melhor do que esperava. O modo como o seu gosto alimentava ainda mais os beijos dele só o fazia querer provar ainda mais.

Assim como ele agora ansiava por ela, a garota também ansiava por ele. O suspiro engasgado que deixou escapar contra os lábios dele servira apenas para provar isso e fazer o fogo arder ainda mais dentro dele. Seus dedos se agarravam ao redor dela como se sua vida dependesse disso enquanto raiva e paixão dançavam de mãos dadas, como velhas amigas, em seu interior. Ele mordeu o lábio inferior dela, puxando-o entre os dentes antes de dominá-la em outro beijo. era e sempre seria o objeto de seus pensamentos mais odiosos e desejosos.

Em resposta, jogou os braços ao redor de Aemond e puxou seu corpo contra o dela, como se fosse possível ficar ainda mais próximos do que já estavam. Não havia mais espaço entre suas costas e a parede, e nem entre Aemond e ela. Ainda assim, nada parecia perto o suficiente quando queria senti-lo daquele jeito. Aemond a mordeu outra vez, como se soubesse exatamente o que ela desejava Suas mordidas calorosas desceram pelo rosto, queixo, e então o pescoço.

deixou um gemido suave escapar por entre seus lábios, completamente entregue aos carinhos. Deuses, ela amava o modo como aqueles joguinhos doentios sempre a deixavam excitada, mas agora… Bem, agora havia realmente acontecido e, pelos sete infernos, estava sendo tão bom! Mesmo quando machucava, ainda era incrivelmente bom.

E Aemond parecia sentir o mesmo, afinal, intensificara seus toques e movimentos, provocando-a ainda mais. Escorregou sua mão até a parte de trás da coxa dela, fazendo-a erguer a perna ao redor dele. Queria senti-la ainda mais. Queria que ela o sentisse também. riu, em deleite. Era ela quem estava perdendo, que estava sob controle dele, à sua mercê. Ainda assim, não se parecia nem um pouco como uma derrota.

— Ainda acha isso divertido? — Agarrou os pulsos dela com força e prendeu-os acima de sua cabeça, contra a parede.

— Tão, tão divertido — confidenciou, a voz rouca. — Isso me faz querer perder nossos joguinhos doentios mais vezes.

Ele fechou o olho e respirou fundo, sentindo as palavras o atingirem em todos os lugares possíveis. Desceu uma de suas mãos pelo corpo dela em um movimento desesperado, concentrando-se em levantar a saia do vestido para, por fim, poder senti-la de verdade. Mas tinha muito, muito tecido no caminho.

— Você está com roupas demais, princesa — murmurou ele.

— Ainda com medo de me chamar pelo nome, Aemond? — provocou, porém virou-se de costas para que ele abrisse os laços de seu vestido.

— Cuidado, sobrinha. — Começou a desfazer os laços. — Não force a barra.

— Pare de me chamar assim, faz parecer que sou mais nova quando, na verdade, sou dois anos mais velha que você. — Ela tirou o cabelo do caminho para facilitar o trabalho dele e olhou por cima do ombro para encará-lo. — Então realmente está com medo de me chamar pelo nome.

Saber que ela era quem estava o testando agora não melhorava em nada a situação. O modo como seus dedos tremiam enquanto abria os últimos cordões da parte de cima do vestido serviam apenas para provar. Ele empurrou o tecido para baixo, por sobre os ombros dela, deixando suas belas costas nuas. Deu uma boa apreciada em cada pequena curva antes de ajudá-la a tirar sua roupa por inteiro. Escorregou as mãos pela pele exposta antes de repousá-las em volta de sua cintura, puxando a garota contra si, e então escorou o queixo em seu ombro.

— Tem mais algum comentário provocativo que gostaria de fazer, sobrinha? — sussurrou em seu ouvido.

— Sim. Eu quero que você tire suas roupas também — falou. — E quero que me chame pelo nome.

Ele quase riu com a insistência, mas apenas beijou seu ombro e a virou de frente para ele antes de se afastar alguns passos e começar a tirar o gibão e a camisa de baixo. Queria ver sua reação enquanto se despia. Além do mais, ele também sabia que cederia a qualquer pedido dela, porém gostaria de fingir que ainda lhe restava alguma dignidade.

— deixou sair, devagar e baixo, quase como se fosse uma palavra preciosa demais para ser dita em qualquer outro tom.

Ela lambeu os lábios enquanto um sorriso crescia neles.

— Ah, Aemond… Era a única vitória que eu queria, sabia. — Ela se aproximou dele outra vez. — Você, me chamando pelo nome desse jeitinho. — Acariciou seu rosto e desceu a mão até seu peito nu. — Posso perder todas as outras batalhas que você quiser agora.

— Eu lhe farei perder muito mais do que apenas joguinhos — murmurou devagar.

— Ah, é? — Ela sorriu de lado. — Me mostre como.

— Quer que eu te mostre? — Ele a empurrou todo o curto caminho de volta contra a parede, onde podia ficar o mais colado contra ela possível. — Tem certeza, ?

— Se continuar me chamando assim… — Levou a boca até o pescoço dele e deu uma mordida provocante. — … tenho quase certeza de que te deixaria fazer o que quiser comigo.

— Você não sabe o que está pedindo — disse ele, sem saber se estava alertando a ela ou a si mesmo.

— Eu não sei? — Arqueou as sobrancelhas. — Por que não tenta me mostrar, então?

Aemond não aguentava mais. Agarrou ao redor da cintura dela com força e guiou até sua cama, sem nunca tirar os lábios de alguma parte da pele dela. Parou apenas para empurrar os lençóis e deitá-la com cuidado sobre o colchão. Observou-a, deitada lá, por alguns segundos. Velaryon. Na cama dele. Nua. Para ele.

— Sabe o que está me forçando a fazer? — perguntou, o olhar repleto de desejo.

— Estou te forçando a isso? — provocou ela. — Achei que era eu quem estava perdendo o jogo e você quem estava no controle.

— Eu estou no controle — reforçou, querendo convencer mais a si mesmo do que qualquer outra coisa.

— Então me mostra o quanto está — desafiou.

Aemond inclinou-se na direção de seu rosto, pressionando seu corpo sobre o dela.

— Cuidado com a língua — sussurrou —, ou vou fazer você se arrepender.

— Uh, você vai? — Ela agarrou uma das mãos dele e a posicionou sobre seu próprio pescoço. Um sorriso lascivo dançou em seus lábios. — Mal posso esperar.

Seus dedos envolveram a pele do pescoço dela quase que instantaneamente, mas seus olhares jamais se desviaram. Aemond era capaz de sentir o quão rápido e instável o pulso dela estava. Um eco de seu próprio coração, ele imaginava, já que o sentia martelar no peito com mais e mais força a cada palavra de .

— Não me tente, — advertiu-a.

— Eu amo quando você me chama pelo nome — sussurrou, inclinando-se para frente apenas o suficiente para roubar um beijo de seus lábios deliciosos.

Deuses, esse foi o último dos pontos de ruptura existentes para Aemond. O que era para ser um simples beijinho roubado virou um beijo forte e profundo. Não houve toque suave da parte dele. Não era nada terno — estava repleto de luxúria e raiva; era como se quisesse invadi-la com aquele beijo. Ainda assim, havia paixão, calor, afeição. Era complicado, complexo, difícil de entender. A única coisa que ele sabia com certeza era que, se ainda havia alguma contenção, ela havia ido por água abaixo.

E com acontecia a mesma coisa. Sua excitação, emoções e sentimentos — alguns que nem sabia que tinha — estavam tomando conta dela, colocando pedras para demarcar seu território. Ela impeliu o quadris contra os dele, buscando por mais atrito, implorando por mais de Aemond. E ele queria dar a ela o que ela queria, afinal, ele também desejava o mesmo. Prendeu-a contra a cama com uma das mãos e moveu a outra em direção às calças, lutando com os malditos botões, tudo isso sem nunca tirar os lábios dos dela.

Depois de uma luta árdua e longa entre tentar se livrar de suas próprias calças e beijar , prová-la, saboreá-la, as roupas finalmente não atrapalhavam mais. Ainda assim, tudo o que Aemond conseguia fazer era apertá-la, morder, lamber, beijar seu corpo até cansar. Não conseguia tirar os lábios e mãos de cima dela enquanto ela fazia o mesmo com ele. Em um ponto, ambos se perguntavam se ódio e luxúria também poderiam vir com amor, porque, no fim, tudo aquilo machucava, mas machucava de um jeito tão gostoso que era impossível dizer “chega”.

Aemond se perguntava se, bem lá no fundo, emaranhado no seu ódio, ele queria mais do que tudo. Ele odiava o modo como ela o provocava e o pressionava só para vê-lo explodir. Odiava como seu coração batia mais rápido quando ela dizia o seu nome, e abominava o quão facilmente perdia o controle perto dela. Ele amaldiçoava até os sete infernos pelo quanto ele a desejava. Odiava como sentia as chamas lamberem sua pele apenas por querê-la.

Nem seus beijos, cada vez mais selvagens enquanto enfim conseguia se livrar das calças, pareciam demonstrar o quanto odiava desejá-la. A maneira como seu corpo reagia à garota, como se tivesse sido feito para aquilo, eram mais do que prova da raiva e do desejo reprimidos. Moveu-se na cama, quase desesperadamente, e acomodou-se entre as pernas de , os quadris pressionados contra os dela. Precisava senti-la, extravasar a raiva, o desejo, a paixão. Não seria mais capaz de se conter, não com ela embaixo dele, não enquanto a beijava daquele jeito. Queria ser incendiado por ela, queimar até que não restasse nada além dos dois.

Separou os lábios dos dela para poder fitá-la. Necessitava saber se ela estava realmente bem com aquilo. Odiando-a ou não, jamais se perdoaria se fosse longe demais. assentiu e ele quase sorriu; a expectativa estampava seu rosto. Ainda assim, ele queria ouvi-la dizer que queria aquilo, que queria tanto quanto ele. Se ela não sentia o mesmo, não valia a pena.

— murmurou, a voz rouca de desejo.

— Aemond — sussurrou de volta. Sua mãos deslizaram pelos longos cabelos prateados dele, flertando com a tentação de tirar o tapa-olho para realmente olhar para ele enquanto ele a tomasse.

— Você é realmente irritante — comentou baixinho, de olho fechado enquanto apreciava o afago em seus cabelos. — Mas não vou mais me conter.

— Deixe-me ver você, Aemond. — Ela tocou o tapa-olho. — Por favor.

Ele respirou fundo, hesitante, mas optou por ceder. Levou a mão até a borda do tapa-olho e removeu-o devagar. A outra mão ainda segurava a coxa de , os dedos cravados em sua pele, como se tivesse medo de ela tentar se afastar. Mas ela não se afastou. Em vez disso, observou a safira no lugar do olho perdido e as cicatrizes. Tocou o local com toda a delicadeza do mundo, como se qualquer toque mais forte pudesse machucá-lo ainda mais. E ela não iria querer isso.

— Você é lindo — deixou sair em um sussurro sincero.

Aemond não pôde esconder a surpresa pelas palavras, por mais que tentasse. Seu coração disparou e os dedos tremeram contra a coxa dela. Ele não tinha certeza do que dizer, de como responder àquele comentário. Ninguém nunca havia falado com ele daquele jeito. , porém, como sempre, sabia o que fazer. Envolveu o rosto dele com as mãos e puxou-o na direção do dela. Selou seus lábios em um beijo suave e terno, como que para afirmar que o dizia era a verdade e nada mais do que a verdade.

Ele a beijou de volta devagar, aproveitando cada milissegundo. Era um beijo completamente distinto de qualquer outro entre os dois. Não era odioso ou ardente, era delicado, calmo, carinhoso… E ainda assim, havia certa possessividade; sempre haveria. Velaryon tinha que ser dele para odiar e para sentir qualquer outra coisa. Moveu os dedos para se entrelaçarem com os seus enquanto a outra mão acariciava a lateral de seu corpo com tamanho cuidado que parecia estar tocando algo delicado e frágil.

— Você é a pior — murmurou contra os lábios dela.

— Eu sei. — Ela sorriu como se tivesse ouvido o maior elogio de todos. — E você ama isso.

— Cale a boca. — Ele riu e a beijou outra vez, tanto para calá-la quanto para distrair a si mesmo do incômodo delicioso que sentia em seu estômago.

Mordeu o lábio inferior dela com força e o sugou, tentando convencer-se de que estava a punindo quando, na verdade, sabia bem que estava apenas se premiando. A necessidade de ter de todas as maneiras possíveis crescia dentro dele de um jeito que jamais sentira antes. Queria ceder a todos os impulsos, emoções e sentimentos relacionados a Velaryon. Precisava se deixar estar com ela, perder o controle, se perder nela, para ela. Mas aquilo era algo ruim, não era? Era errado e, ao mesmo tempo, parecia tão, mas tão certo que era até difícil de raciocinar.

— Você não quer que eu cale a boca — disse ela, sem conter o sorriso. E ele não negou. Ele de fato amava o jeitinho dela de ser a pior. Desse mesmo jeitinho que ela agora o beijava mais uma vez, mordendo o seu lábio e impulsionando seus quadris contra o dele para provocá-lo. — Eu quero você, Aemond, como eu nunca quis ninguém antes.

Ele fechou o olho e respirou fundo, tentando se conter. Ele também a queria como nunca quis outro alguém. A única mulher com quem estivera antes dela era a prostituta do bordel em que Aegon o levara no décimo terceiro dia de seu nome. Não era a mesma coisa. As coisas que despertava nele eram difíceis até mesmo de se nomear.

— É mesmo? — tentou esconder o desejo por trás do sarcasmo, o que não enganou ninguém.

— Me faça perder nosso joguinho doentio do jeito que você gosta — ela quase implorou. — Mostre-me como você me odeia e como não consegue viver sem isso… sem mim.

Aquelas palavras e o modo como ela se esfregava contra ele, incentivando-o, implorando por mais contato, mais atrito… Deuses, não existia autocontrole capaz de se manter intacto frente a isso. Aemond agarrou as coxas delas e encaixou-a em si. Foi recompensado instantaneamente pela sensação e, mais ainda, pelo gemido prazeroso que deixou escapar. Seus lábios deslizaram, ávidos, para o pescoço dela enquanto se movia devagar, tremendo com a intensidade do que sentia.

— Você não tem ideia — sussurrou no ouvido de —, do quanto eu te odeio.

— Eu tenho, sim, você não acha? — Ela levou a mão ao rosto dele e acariciou seu lábio inferior, apreciando-o enquanto ele também ofegava. — Eu amo esse ódio.

— Você é… impossível. — Aemond fechou o olho, deixando-se sentir seu toque.

— Exatamente como você, querido — chamou-o por aquele apelido de novo, e dessa vez ele não viu motivos para reclamar. — Exatamente como você.

Seus lábios atacaram o pescoço dela para suprimir o som que saía de sua garganta. Os beijos e mordidas eram sua resposta mais do que clara para tudo e qualquer coisa que viesse de . Ele queria mais dela, queria tudo.

— Continue falando — sussurrou contra a pele dela.

— Tudo o que você quiser, meu amado príncipe — murmurou em retorno.

Aemond soltou um rosnado misturado com uma risada ao esconder a cara no pescoço dela. Ele estava se perdendo nas chamas e as palavras de só faziam piorar a situação. Não, se perdendo era eufemismo. Ele já estava mais do que perdido e, se fosse para estar longe dela, jamais queria se encontrar.

— É isto. — Ele afastou o rosto apenas o suficiente para olhar nos olhos dela. — Era isso o que eu queria ouvir.

Tomou os lábios dela em um beijo voraz e afetuoso. Uma de suas mãos moveu-se entre as costas de e o colchão para puxá-la para cima. Não desejava vê-la abaixo dele. Queria-a sentada em seu colo, com o peito colado no dele, cara a cara.

— Ah, então você quer que olhe para você da mesma altura. — Mordeu o lábio inferior dele. — Movimento ousado. Eu gostei.

sorriu um sorriso incontestável e rebolou lentamente, provocando-o a continuar a tomando. Ele agarrou a cintura dela, segurando-a com força enquanto movia os quadris com ela. Deuses, era tão perfeita, tão linda. Aemond não conseguia pensar direito em qualquer outra coisa que não dissesse respeito àquela mulher.

— Você não tem ideia do quanto eu odeio você — declarou, seus lábios esbarrando nos dela enquanto as respirações descompassadas dançavam juntas.

Ela beijou-lhe os lábios, então o rosto, até chegar próximo à orelha dele.

— Você quis dizer o quanto me ama, não é, Aemond? — sussurrou em seu ouvido e impeliu os quadris com mais ímpeto contra ele, recebendo algo parecido com um gemido como resposta. — Você ama me odiar e odeia me amar. Diga a verdade.

Ele fechou o olho e respirou fundo, segurando-a contra si como se ela pudesse se desvanecer a qualquer momento.

— Sim — segredou, o coração martelava contra o peito como um ferreiro batendo e batendo o aço sobre uma bigorna para forjar uma espada. — Eu amo te odiar, , e odeio te amar.

— Eu sabia! — Ela puxou seu rosto de volta para frente do dela e abriu um sorriso contente. — Eu sinto o mesmo.

… — Soltou um longo suspiro e a beijou novamente. Ele não aguentava mais fingir que não se sentia daquele jeito. Estar com ela, na presença dela, perto dela, dentro dela… tudo aquilo era bom demais, e ele não queria que acabasse. — Eu odeio isso, sabia? Odeio como isso é bom.

— Você ama isso. — Ela pressionou as mãos em suas costas, puxando-o ainda mais contra si. Estava enlouquecendo de prazer e por, enfim, estar em seus braços daquele jeito. — Deuses, Aemond, eu odeio te amar.

— Eu quero… sentir muito mais — murmurou ele. Era difícil até mesmo formar pensamentos coerentes naquele momento.

— Sinta — ofegou com dificuldade. — Diga meu nome outra vez, Aemond.

— chamou como se chamasse pelos deuses.

Suas mãos cravaram-se nos quadris dela e ele tentou, sem sucesso, segurar os impulsos. Estava se esforçando tanto para não ser rude com ela, mas estava tão perdido nas sensações e, mais ainda, nos sentimentos que nutria pela garota que era complicado controlar qualquer coisa.

E ele não precisava. se moveu com mais força contra ele, seus movimentos cada vez mais ávidos conforme seu prazer se aproximava do ápice. O modo como Aemond dissera seu nome carregado de amor, como se estivesse a adorando, apenas fez com que ela o quisesse mais e mais.

— Eu poderia ficar assim… para sempre. — Sua voz vacilou entre um gemido e outro enquanto eles moviam-se em sincronia e trocavam respirações e suspiros de prazer e de ternura. Ela sorriu quando seus músculos se contraíram e seu corpo começou a tremer.

Aemond envolveu seus braços ao redor dela como se fosse a única coisa que o mantinha com os pés no chão — e talvez fosse.

— Assim. — Pressionou os lábios contra os dela com uma mistura de afeição e fome crua e apaixonada. — Para sempre.

— Eu amo você — confessou, arfando contra a boca dele conforme uma onda de prazer a percorria. — Embora eu também te odeie.

Aemond mal podia acreditar no que ouvia, mesmo que os sentimentos já estivessem claros. As palavras faziam, de fato, diferença. Aumentou a intensidade de seus movimentos. Necessitava dela mais e mais e mais. Ele estava perdido nela e no prazer que ela estava dando a ele; estava se perdendo para ela, e jamais iria querer que fosse de outra forma. Aemond a daria qualquer coisa que lhe fosse pedida naquele momento. Daria tudo a ela.

— Eu te amo. Sete inferno, eu amo mesmo — declarou. — E eu odeio isso. Deuses, você é irritante.

— É por isso… — Sua fala foi interrompida por um gemido misturado com um arfar quando ela atingiu o pico de seu prazer. — Você me ama por isso — falou —, por isso, e porque não consegue se imaginar sem mim.

Aemond não parou seus movimentos e nem respondeu. Ambos sabiam que era verdade. Não existia uma vida sem ela. estava lá desde que eram crianças; e houve uma verdadeira amizade entre eles antes de Alicent e Rhaenyra estragarem tudo com suas disputas idiotas pelo trono e aproveitar cada segundo com Aegon para acabar com a mínima paz que existia na vida de Aemond. E era exatamente por isso que havia tanto ódio, tanta raiva reprimida caminhando de mãos dadas com um pesado ressentimento… porque um não existia sem o outro.

E agora, ele adorava o modo como ela o provocava, o irritava, o excitava. Adorava o jeitinho especial como a odiava e a desejava tanto, o jeito como a amava. Adorava mais ainda o fato de que sabia disso, e que sentia o mesmo.

— Eu preciso de você — murmurou baixinho contra os lábios dela. — Deuses, , eu preciso tanto de você.

— Eu sei, eu sei. Apenas me mostre o quanto, Aemond — provocou só para ajudá-lo a chegar lá. — Me mostre, querido.

— Você é tão… — começou a falar, mas tudo o que conseguia fazer era interromper-se a beijando uma vez, e outra, e outra, conforme movia os quadris mais e mais rápido. — … impertinente. Irritante. Eu não suporto você.

— Diga as palavras, Aemond — sussurrou em seu ouvido enquanto arranhava suas costas. Ela queria as palavras e o seu nome. — E diga o meu nome.

O jeito com que ela pedia, com que ordenava… Apenas o som de sua voz já era o suficiente para levá-lo ao limite.

— chamou sem nem hesitar. — Eu não te suporto, mas preciso de você.

— Você me ama, querido. — Mordeu o lábio inferior dele.

— Sim — respondeu de imediato. Era verdade. Ele a amava, estava apaixonado por ela. — Eu amo você. Deuses, como eu te amo! E eu odeio tanto isso. — Apertou-a contra si ao atingir o ápice, sua respiração ofegante contra o pescoço dela. — … — suspirou o nome dela. Era tudo em que conseguia pensar.

— Aemond… — ela sussurrou de volta enquanto afagava os cabelos dele.

… — repetiu, como se tentasse se convencer de que era real.

— Eu sei, querido — garantiu ela. — É estranho, não é? Mas eu também te amo.

Ele fechou o olho, ainda com o rosto enterrado no pescoço dela. Era difícil se recompor, ainda mais quando sabia que podia voltar a olhar para e vê-la se desvanecer como no fim de um sonho que ele já tivera mais de uma vez. Deuses, ele odiava a maneira como se sentia, pois fazia sentir-se vulnerável, mas ali estava o seu coração reagindo à declaração de reciprocidade dela. Detestava o jeito como, mesmo depois de tê-la por inteiro, ainda a queria — não, ainda precisava dela — com cada fibra de seu ser. Ele odiava o fogo em sua pele cada vez que o tocava, porém, ao mesmo tempo, amava aquilo mais do que tudo.

— Isso é uma tortura — resmungou, mas beijou seu pescoço, como que para suavizar suas palavras.

— É, sim — concordou ela. — E, apesar do prazer, também machuca.

— Machucar é uma boa para para descrever — assinalou. Aemond, que amava estar no controle, estava completamente à mercê de naquele momento. Ele odiava o modo como tudo o que ela precisava era dizer uma palavrinha e ele se dobraria como uma marionete em suas mãos. Agora, sabia mais do que tudo que era uma titereira enquanto ele era apenas um títere em suas mãos. E, no fundo, ele adorava isso.

— Mas também machuca de um jeito bom. — Ela puxou-o para que ele a olhasse nos olhos. — Pelo menos quando estou com você.

— De fato. — Ele sorriu de verdade pela primeira vez em muito tempo.

Aemond foi atingido por uma sensação estranha. Não conseguia se lembrar da última vez que sorrira daquele jeito. Nos braços dela, porém, parecia tão natural quanto o sol iluminando o dia. E seu coração apenas aqueceu-se ainda mais ao vê-la sorrir de volta. Não pôde evitar levar a mão até o rosto dela, o polegar traçando a curva de seus lábios. Sete infernos, ele adorava quando ela sorria daquele jeito.

— Você fica ainda mais bonito quando sorri para mim, meu garoto destemido — disse ela.

— Pare de ser tão doce — reclamou. Estava acostumado com os insultos ásperos que ela proferia, então essa nova maneira doce de falar com ele lhe parecia estranha e desconhecida. Ele gostava, mas tinha vontade de fugir daquilo.

— Não estou sendo doce, Aemond — explicou. — Só estou sendo honesta pela primeira vez na vida.

— Você está sendo… legal — falou baixo, quase como se ainda não acreditasse. — Odeio isso. Realmente odeio isso.

— É, claro. — Ela riu. — Eu também te amo.

sabia que aquilo ia desconsertá-lo, e Aemond sabia que ela sabia. Não havia mais como negar nem esconder. Quanto mais tentava se convencer de que não a queria, de que deveria se afastar, de que estava fazendo algo de errado, mais percebia que estava tentando mentir para si mesmo.

— soltou em tom de falsa repreensão. — Você é insuportável.

— E você me ama por isso, Aemond — sussurrou seu nome como se fosse uma prece sagrada ao Deus de Sete Faces.

— Sete infernos, ! — Acariciou a lateral do rosto dela com ternura. — Eu odeio como você me faz sentir.

— E como eu faço você se sentir, querido?

— Vulnerável — respondeu sem nem pensar —, mas também… feliz. — Encostou sua testa na dela. — Você me faz sentir… sentir demais. E eu odeio como não consigo odiar isso.

— Eu entendo — declarou ela. — Sinto exatamente o mesmo por você.

— Eu te odiei por tanto tempo, sabia? — Soltou uma risada suave, repleta de emoções conflitantes, e afastou seus rostos apenas o suficiente para olhá-la nos olhos. — No entanto, aqui estou estou eu, como um idiota. E eu provavelmente faria tudo de novo e de novo outra vez se pudesse.

— Para com isso, Aemond. Você não é um idiota. — Ela tocou seu rosto como se ele fosse a coisa mais preciosa do mundo. — Eu fui uma idiota por transformar a sua vida em um dos sete infernos quando éramos crianças.

— Ah, você ainda faz isso, não se preocupe — provocou. — Nunca teve vergonha de me dizer o quanto me odiava. Mas palavras são vento.

— São, mas permaneceram com você por todos esses anos — lamentou. — E você está certo, mas o ódio começou a lutar contra outros sentimentos que eu tinha quando estava perto de você… e agora estou aqui, em seus braços, apaixonada.

— Deuses, por que tinha que ser você? — Jogou a cabeça para trás e deixou um longo suspiro escapar. — Entre todas as mulheres no mundo, por que logo você?

— Me pergunto o mesmo sobre você. — Ela respirou fundo. — Às vezes o amor não parece como deveria, eu acho.

Aemond entendia. O sentimento compartilhado entre os dois não parecia com o esperado de um amor. No entanto, ainda assim, parecia certo. E não deveria parecer. Ele não deveria estar apaixonado por uma garota que o havia provocado e zombado dele tão malvadamente quando eram crianças. Sua cabeça tentava dizer que estar com ela era algo ruim, assim como todos ao seu redor fariam. Mas seu coração sentia diferente. Ele a amava, mesmo que odiasse isso.

— Preciso urgentemente encontrar uma nova maneira de te odiar — brincou.

— Tenho certeza de que não encontrará uma enquanto estiver nu na cama comigo — divertiu-se.

— Talvez não. — Olhou bem para ela, com o peito apertado contra o seu, e tentou dizer a si mesmo que não deveria se apegar muito, pois isso não duraria, já que estavam de lados opostos em uma guerra que viria. Mas era tarde demais para isso; ele já fora longe demais, estava entregue a ela. — Acho que terei que aguentar.

— Suponho que terá. — sorriu. — Nós teremos.

— E iremos — assentiu, sorrindo mais uma vez. — Quer saber? Acabei de pensar na maneira mais cruel de te irritar.

— Claro que pensou. — Ela revirou os olhos, mas não pôde deixar de sorrir. — E o que seria isso, Aemond?

— Um simples elogio. — Um brilho travesso perpassou seu olho. — Sei bem que você odiaria se eu te chamasse de doce ou legal, mas e se… eu começasse a te chamar assim sempre que tivesse a oportunidade?

— Ah, é claro, odiarei isso até o fim da minha vida — declamou em um tom carregado de ironia.

Aemond riu. Havia rido e sorrido nos últimos momentos de um jeito que nunca fizera em sua vida. E era tão bom, apesar de ele ainda ter alguns medos nas profundezas de seu ser. Ele temia que seu coração fosse partido, temia mais ainda que fosse a responsável por isso — de novo. Mas quando ela o fazia rir e sorrir, ele os deixava de lado, ao menos um pouquinho, para aproveitar o momento com ela.

— Terei que te chamar assim com frequência, então — provocou. — Só para te ver irritada.

— Ficarei tão irritada que você terá que lidar com a minha mão no seu pescoço quando ficarmos sozinhos. — Sua ameaça foi amenizada por uma risada suave.

— Ah, é? — Arqueou a sobrancelha. Descobriu essa noite que adorava quando ela fazia aquilo. — Isso deveria ser uma ameaça ou uma recompensa?

— Um pouco de cada, acho. — Sorriu para ele e o puxou para que se deitassem lado a lado na cama dele. — Essa seria a única maneira de fazer doer de um jeito bom, não é?

— É o único jeito — sussurrou com a voz baixa e rouca, cheia de… afeição. Uma afeição que ainda chegava perto de assustá-lo, mas que, mesmo assim, ele não conseguia negar a .

— Então é desse jeito que seremos. — Ela abriu um sorriso que espelhava sua afeição, e Aemond sentiu um quentinho no coração.

Deuses, ele estava tão, mas tão apaixonado por ela que, mesmo odiando grande parte daquilo, jamais deixaria ir. Aemond abraçou-a forte e a puxou contra o seu peito. Sete infernos, estava o deixando sentimental, fazendo-o sentir coisas que ele nunca imaginou que um dia sentiria.

— Eu amo você, — confidenciou. — Amo muito.

— Eu também amo você, Aemond.

Deuses, ele adorava ouvi-la dizer aquelas palavras, principalmente quando falava seu nome com tamanha suavidade. Seu coração se derretia por ela, para ela. Afagou seus cabelos emaranhados, a mente ainda tentando, sem nenhum sucesso, compreender a ideia de que seu ódio anterior havia sido substituído por — ou então mesclado com — amor. Ele a amava, a amava demais.

E apesar de isso talvez ser errado, como todo mundo dizia que era, Aemond faria tudo outra vez. Não se arrependia de nada e jamais se arrependeria. Amaria Velaryon de novo, de novo e de novo se pudesse. E nem os deuses antigos nem os novos seriam capazes de pararem ele.

FIM!

Nota da autora: Sem nota!