03. My Man on Willpower

Codificada por: Lua ☾
Finalizada em: Abril/2026.


Ato Único

“Por dois dias, ela os assistiu, vendo eles recusarem toda a comida ou conforto, buscando por si como homens cegos buscam, miseráveis separados, ainda mais miseráveis juntos, pois então eles tremeram cada um diante de sua confissão.”

— BÉDIER, J. O Romance de Tristão e Isolda
ERA UMA VEZ, UM ESCUDEIRO SOLITÁRIO. Relegado a um jovem senhor arrogante e de personalidade soberba, o jovem garoto, sem quaisquer prospectos ou casa para voltar, contentou-se com a invisibilidade previsível de seguir a seu senhor sem nada esperar. Para alguém que já havia crescido em meio às sombras, a compreensão de percepção externa, fosse esta, ofertada por um sorriso doce de alguma formosa dama, ou apenas um olhar curioso de outro cortesão era o suficiente para fazê-lo tremer em suas calças, e considerar esconder-se na primeira sombra que encontrasse pelo caminho. Por vezes, o fizera sem ser pego. Bastava um olhar que lhe fosse lançado com maior intenção que mero vagar desinteressado poderia oferecer, para que o jovem rapaz tratasse logo de abaixar a cabeça e buscar um canto coberto pelas sombras onde poderia desfazer-se em suas próprias lamúrias e pensamentos.
Não era que ele não desejasse por aquele tipo de conexão, na verdade, o fazia com mais intensidade do que deveria. O jovem escudeiro por muito tempo observou seu senhor com a vida atenção, tentando entender como uma criatura tão desprezível como ele poderia ter encantado tantas almas diferentes sem nem ao menos precisar se esforçar de fato. A princípio o jovem escudeiro recriminava-se por observá-lo com tamanha invídia desesperada, especialmente pela gentileza oferecida por seu senhor ao acolhê-lo quando em responsabilidades algumas, deveria possuir de fato com o rapaz. Mas havia algo na maneira com que os rostos das jovens damas se iluminavam quando seu senhor atravessava um salão de banquete grandioso e elegante, algo que as tornava mais dóceis e as faziam agitar-se ao seu redor como flores reconhecendo os primeiros raios de sol. Havia algo na forma quase reverente que seus outros colegas cavaleiros abaixaram suas cabeças, gestos simplórios e discretos, todavia inegáveis, de mesmo respeito ou até amizade, rindo das piadas de seu senhor como se porventura fossem dignas de notoriedade e até mesmo graça — não apenas comentários enviesados disfarçados por lisonja mal projetada — que o colocava em uma situação um tanto quanto desagradável.
Ao mesmo tempo que desejava não ressentir-se ao seu senhor e permanecer grato por sua inquestionável bondade ao tê-lo acolhido no cerne de sua casa, o jovem escudeiro, igualmente não poderia deixar de sentir-se amargurado e até mesmo rejeitado ao perceber que poderia ser melhor do que seu senhor. Veja bem, o jovem escudeiro não desejava nada que não lhe fosse seu por direito, não queria ser invejoso e tampouco achava-se no direito de tomar o lugar de seu senhor, mas quando observava a tudo pelas sombras, como mero fantasma vagando por entre corredores e salas de jantares bem abastadas, era impossível não deixar de considerar que porventura ele merecesse mais do que seu senhor.
O jovem escudeiro cresceu em um vilarejo rodeado por rios. Sobre as palafitas que rangiam com a mudança abrupta de peso, as vozes roucas e desgastadas pela praga, ratos roendo pequenos pedaços de ossos abandonados, cachorros latindo ao vazio, e a fome que persistia como uma sombra, ocultando e desfocando tudo o que não fosse apenas o desespero por um pequeno pedaço de pão que não estivesse completamente apodrecido, poucas regalias o jovem havia tido. Até os 6 anos tivera o cuidado atencioso de uma mãe, mas tendo tão tenra idade e com a morte da mesma pela peste, fora inevitável para o garoto buscar maneiras menos honrosas para sobreviver a violência de uma realidade que não lhe oferecia sequer alternativas ou misericórdias. Acabara por consequência, um dia, tentando roubar um jovem Lorde vindo do Norte, e por tal motivo, viera a ser pego poucos minutos depois, por um de seus serviçais. O jovem escudeiro tivera certeza de que acabaria sem dedos, no mínimo, porventura, se fosse poupado tornaria-se eunuco, como tantos outros antes dele; de alguma forma, todavia, aquele senhor, de vestes impecáveis, olhar superior e silenciosa presença, vira nele algo digno de reconsideração.
Ofereceu então uma única chance: servir-lhe como escudeiro se isso lhe tomasse por acordo em seu coração. É claro que o jovem escudeiro não hesitou. Para um esfomeado, mesmo uma pequena migalha poderia tornar-se um banquete se você estivesse disposto a fechar seus olhos da forma correta e acreditar na mentira que contava para si mesmo. O Lorde, então, o levara de volta para seu casarão ao norte, onde o jovem escudeiro dedicou boa parte de seu tempo em tornar-se o melhor escudeiro e serviçal que seu senhor tivera. Conquistara aos poucos a jovem dama que despossaria o Lorde, e por consequência as crianças que carregaria o nobre nome de seu senhor. Divertia-se em imaginar-se sentado a mesa de seu senhor, mesmo que acreditasse que não possuía maneiras que pudessem ofertar-lhe tamanha honraria, ao em vez disso, tornou-se hábito antes que preferência, esconder-se entre os estábulos, compartilhando apenas da presença dos cavalos de seu senhor, ao comer um pedaço de pão com carne seca inteiros. Era uma boa vida; uma vida do qual o jovem escudeiro jamais poderia ter imaginado ser capaz de possuir — uma da qual acreditava piamente que não teria tido se, naquele dia chuvoso, encoberto por uma grossa camada de sujeira e lama, seu senhor não tivesse ofertado-lhe misericórdia.
Tornou-se eventualmente presença garantida, sempre ao flanco de seu senhor, pronto para protegê-lo se necessário; e na intimidade de tão próxima observação, o jovem escudeiro percebera que de falha e equivocada bondade seu senhor transvestia-se. Não era genuinamente gentil como quando criança realmente acreditara que seu senhor fosse, ao contrário, mesmo os menores e insignificantes gestos de seu senhor tendiam a ocultar interesses maiores. Ao dada largada para os torneios, seu senhor passara a colocá-lo primeiro para enfrentar adversários maiores e mais experientes, usando-o como a isca necessária para compreender seus adversários, para identificar seus pontos fracos e usá-los contra estes — o jovem escudeiro viera a tornar-se mera válvula de escape, um sacrifício de bom grado que não poderia fazer nada senão acatar a ordem dada.
Das primeiras justas, encontrara apenas escuridão e ossos quebrados. Em uma destas, acabara com um pedaço de madeira fincado em seu ombro direito. O curandeiro, antigo druida que vivia a vagar, errante, pelas sombras frescas das árvores na floresta profunda, fora o único que de fato tivera as habilidades necessárias para auxiliar o jovem escudeiro. Cuidara do rapaz mesmo quando os médicos que seu senhor havia lhe enviado já haviam desistido. E se porventura estivesse sentado por um tempo diante da mesa da morte, não tardou em agradecê-la e retornar para sua casa. Ainda recebera um aviso de seu velho salvador, a pequena lasca de madeira havia sido retirada, mas não somente iria carregar a cicatriz deixada, como a dor causada. Para esta, não haveria consolo nem mesmo paz; seu destino fadado, incontestável, agora acenava a distância como algo definitivo. Aceitara, ainda assim, tentando convencer-se de que era um mal necessário, seu senso de dever, sempre gritava mais alto quando tratava-se de retribuir as boas ações ofertadas por seu senhor.
Quando retornou para casa, naquela noite, o silêncio espalhou-se pelos corredores do castelo. Fora tratado primeiro com estapafúrdia assombra, que não tardou a tornar-se em um desprezo velado. Com um sorriso largo e repleto de subterfúgios, seu senhor o recebera com um abraço quente, e palavras de afirmação — dissera que sempre soube que o jovem iria sobreviver, que aos curandeiros desenganados que lhe disseram para desistir, não o conheciam como seu senhor o fazia. O jovem escudeiro estava destinado à grandeza, isso era certo, e com um grito comemorativo, seu senhor ofertou-lhe um banquete. Regado a bebidas e comidas que o jovem escudeiro sequer poderia imaginar serem suas preferidas, seu senhor ordenou para que o rapaz se permitisse se divertir por aquela noite. De todas suas indulgências, foi nos braços de uma risonha dama, de olhos brilhantes, cabelos esvoaçantes como chamas e roupas escandalosas que identificavam seu “trabalho” para o Lorde, que o jovem escudeiro encontrou conforto. Desengonçado e um pouco tímido, fora o único que tratou a dama como pessoa e não objeto de seu desejo, e por isso, não tardou em roubar-lhe o coração.
Pelas próximas estações, dividia-se entre servir a seu senhor, questionar porque a demora em receber sua proclamação como cavaleiro, tal qual seu senhor o fizera, e visitas furtivas a dama que o encantara; entre suspiros deleitados nos prazeres carnais, e nos gemidos sufocados pela dor, o ferimento em seu ombro sempre fora a memória vívida da negligência e dos interesses de seu senhor. O jovem escudeiro não saberia dizer quando havia passado a se ressentir de seu senhor, mas em algum momento, ao longo do ano que se passara, algo amargo começara a infestar seu peito, tal qual raminhas e ervas daninhas ocupando o espaço que deveria ter pertencido sempre a um fruto positivo; fruto este que agora morria sufocado, em seu próprio esquecimento. Devido a isso, portanto, o jovem escudeiro não poderia dizer com exatidão que sentiu compaixão quando assistiu, em meio às sombras, seu senhor engasgar-se com a própria bile de seu estômago ao afogar-se no veneno que havia sido ocultado em sua taça.
Os primeiros gritos partiram das damas sentadas próximas ao seu senhor. Uma delas, que acariciava o braço do Lorde, havia percebido um aumento em sua tosse, a maneira com que o Lorde havia agarrado o próprio colarinho e tentando abri-lo, como se apenas desta forma pudesse aliviar a pressão em seu peito, e a sensação de que algo crescia em sua garganta contraída. Então a segunda dama percebera a espuma escorrendo das narinas e da boca entreaberta do Lorde, que não tardou em desabar sobre a mesa do banquete. Quando o jovem escudeiro finalmente alcançou a mesa onde seu senhor encontrava-se, já estavam em seus últimos espasmos, a respiração agonizante esvaindo-se de seus lábios entreabertos como uma flâmula lançada ao chão.
Pela semana que havia se seguido, o silêncio o acompanhou como um reflexo. Para onde quer que o jovem escudeiro olhasse, era tomado por uma culpa sufocante, uma sensação de falha inquestionável com aquele que lhe ofereceria uma vida melhor. A ninguém dissera uma palavra, mas podia sentir, ao fundo de sua mente, o peso de suas ações, voltando, lentamente para assombrá-lo, então quando um dos amigos de seu senhor finalmente ofereceu-se para consagrá-lo cavaleiro, o jovem escudeiro não hesitou em apegar-se a tal proposta.

AO TORNAR-SE CAVALEIRO, o homem mudou em demasia. No passado deixou não apenas suas falhas, como igualmente a jovem dama que acreditara em suas palavras de amor desesperadas e tão sinceras. O coração partido da jovem tampouco pudera fazê-lo ceder a seu próprio senso de dever e vontade; e esquecê-la, fora a coisa mais fácil que o homem se propusera a fazer. Rasgou-a como a quem rasgou uma página de um livro; poderia não fazer sentido para as palavras que se seguiram à página faltante, mas não alterava o contexto e história final. O conto de sua vida permaneceria o mesmo, sem a mancha que uma prostituta poderia causar-lhe. Tornou-se conhecido por sua honra, mas mais do que isso, admirado por sua bondade e firmeza, era sua força de vontade que a todos da corte passaram a invejar e almejar, e o cavaleiro não poderia dizer que não orgulhava-se de tal coisa.
Por tanto tempo fora subalterno de um homem desonrado e inescrupuloso como seu antigo senhor, que ser admirado por suas próprias qualidades o fizera perceber que também gostava da sensação que isso lhe oferecia. A sensação de ser visto, outrora tão temerosa e insuportável, agora começava a crescer dentro do homem que protegia os inocentes, que lutava com bravura e honra e que trazia para o castelo de seu rei conquistas louváveis. Os inimigos que desejavam eliminar, as damas que desejava salvar, as lendas que contavam com seu nome permeavam as aldeias do reino como pequenos fachos de luz, iluminando as frestas deixadas por um povo assolado pela peste e a miséria. Atraíram a atenção de seu rei, que tomou gosto de tê-lo por perto.
Logo o Cavaleiro percebera-se relegado a guarda real como um dos membros de maior confiança de seu rei. A este, servia-lhe de confidente, e até mesmo aconselhava quando necessário. Tamanho poder, o homem jamais conhecera, mas prometera, com um juramento feito diante a uma cruz que jamais abusaria de tal coisa. Rasgara a palma de sua mão até que o sangue a tingisse de vermelho, sussurrando palavras de promessas e certezas de que não mudaria; se não acreditasse tomaria sua força de vontade sua bússola moral. E o homem mantivera sua promessa, sem jamais considerar quebrá-la, por maior que fosse a tentação até que um dia, durante o Outono, um monstro bateu a entrada da morada de seu Rei.
A criatura dizia ser conhecida apenas como O Verde. Coberta por musgo e algumas flores silvestres, sua pele era feita de casca de árvore, alguns pontos, onde as fissuras se tornavam mais profundas, parecia putrefata e com pequenos cogumelos acumulando-se. Carregava em suas costas um machado grande e intimidador, que poderia cortar ao meio mesmo a pedra mais dura ou a mesa mais grossa a sua frente. De sua voz retumbante e etérea, o cheiro carregado de terra molhada e do selvagem, invadiu o salão sem misericórdia, de onde seus pés descalços tocavam o chão de pedras cuidadosamente ordenadas, pequenas flores silvestres e grama surgiam, criando um caminho de vida que lentamente tomava as paredes do castelo.
Ao ver a criatura, o Cavaleiro não hesitou em colocar-se entre seu rei e o monstro que viera a invadir-lhe o castelo. Pronto para sacrificar sua vida em prol do que havia jurado proteger, o Cavaleiro ergueu sua espada, determinado… mas a criatura apenas ajoelhou-se à frente do homem, e por consequência, de seu rei. O silêncio palpável espalhou-se como uma brisa intensa pelo salão quando a criatura fez seu pedido: o guardião da floresta não era uma ameaça para aqueles que os cercavam tanto quanto o contrário, viera em paz, apenas por um apelo, dizia-lhe que no profundo da floresta, onde os raios de sol tornavam-se escassos, e as criaturas que ali vivem, conectadas a terra e não ao que o Cavaleiro e o rei poderiam ser, encontrava-se um lago, e neste lago, uma dama de beleza imensurável. Contava que a Dama do Lago muito lhe era cara, mas a criatura não mais poderia aceitar sua presença em seu território, já que temperamental como era, a Dama do Lago acabaria por inundar-lhe sempre que estava de mal humor, que as chuvas que assolavam aquelas terras eram provindas de seu choro e que havia concordado em deixar seu povo em paz, se a criatura lhe oferecesse um bom motivo.
Fora então que o monstro ouvira as histórias sobre o Cavaleiro. De grandeza, honra e especialmente força de vontade, admirou-se que tal honrável homem cavalgasse entre terras mortais, e de maneira humilde vinha agora, prestar-se diante do Cavaleiro e de seu rei, para pedir-lhe um único favor: que fosse até a Dama do Lago e lhe fizesse uma proposta, que a trouxesse consigo para viver junto dos mortais, de modo que sua floresta voltasse a ficar em paz outra vez. Não fora o prospecto de seu pedido, nem mesmo sua própria bondade que tomara o coração do Cavaleiro de interesse, mas sim a profunda curiosidade de ver tal dama de beleza imensurável que o fez aceitar o desafio. O rei ainda tentou alertar-lhe para que tomasse cuidado; ao povo do ar, o Cavaleiro não deveria brincar, pois de jogos e subterfúgios a muito eram conhecidos, que o pedido da criatura não era vindo de bondade, mas sim de traiçoeira traquinagem, que os feéricos nunca ofereciam algo que não pudesse ser facilmente tomado, ou que não tivesse um preço a ser pago; o Cavaleiro, seguro em sua força de vontade, descartou tais avisos como aquele abanava os mosquitos para longe de sua face.
Com suas provisões prontas, o Cavaleiro tomou as rédeas em mãos, e partiu em tal missão. No começo, sua animação superava a cautela, e pouco repouso fizera, desejando chegar logo ao lago mencionado. Fora apenas quando noites o suficiente para acumularem-se em sua mente que havia se passado, que a curiosidade começou a diminuir, dando espaço a desconfiança e o cuidado — meses haviam se passado, as estações alteraram-se, do Outono para o Inverno, e então, para o princípio de Primavera. Seguira pelos caminhos indicados, protegeu-se dos feéricos como a quem desesperadamente tentava lembrar-se das antigas canções que os mencionaram, honrável, sempre fora, não permitiu-se cair na tentação proporcionada por banquetes e palavras doces das criaturas que viviam na floresta — sabia que elas estavam apenas tentando alimentar-se de sua alma; permaneceu firme, como uma rocha em meio ao rio. Inabalável.
Então o Cavaleiro se perdeu. Por dias cavalgou em círculos, passando sempre pela mesma marca gravada em um dos troncos mortos que jaziam por terra, até que sua égua não mais aguentando o cansaço, viera a sucumbir em uma poça de lama e cogumelos incandescentes. Aos esporos que ergueram-se quando o corpo pesado do animal atingiu o chão, grudaram na armadura do Cavaleiro, corroendo o metal que ali encontrava-se. Desespero finalmente apossou-se do peito pesado do Cavaleiro; descartou, peça por peça, correndo pela terra desconhecida até que, enfim, encontrou-se com uma raposa. De nome impronunciável, e olhar atento, a raposa sorriu-lhe com malícia ao provocar-lhe por seu erro de cálculo. Dissera com palavras afiadas que o Cavaleiro já estava condenado, e que não venceria aquele desafio; que já havia perdido a Dama do Lago no momento em que entrou na floresta.
O Cavaleiro recusou-se a ceder, todavia, apegando-se ao seu senso de dever e força de vontade, obrigou-se a continuar pelo caminho, e, utilizando-se das distorções das palavras, conseguiu fazer com que a raposa lhe desse a resposta necessária: onde a Dama do Lago encontrava-se. Sem perceber a raposa o guiou para o lago onde a Dama vivia, e encoberto pela noite, o Cavaleiro a viu pela primeira vez.
De seu peito, todo o ar fora roubado, quando, deleitando-se a penumbra do luar, a Dama do Lago permanecia sentada, escovando seus longos cabelos com um cuidado apreciativo. Esqueceu-se como se falava, sua garganta pareceu trancar-se e soubera que estava apaixonado no segundo que seu olhar, intenso e etéreo, voltou-se para fitá-lo. Nunca havia visto tamanha beleza deslumbrante como a que a mulher possuía, e em sua mente, ainda humana, o desejo aflorou-se como uma erva daninha; começou como uma pequena coçeira, que agora tornava-se insuportável por persistir. Ultrajada pela invasão, a Dama do Lago o mandou embora, mas o Cavaleiro não conseguiu mover-se, propôs então, com um tom severo, que ele lhe cumprisse três desafios e então, ela aceitaria ir com ele para onde quer que ele fosse. Ao ser ofertado com tamanha clemência, o Cavaleiro, desesperado em seu próprio desejo, aceitou sem pestanejar.
O primeiro desafio, parecia simples, quase uma brincadeira, a Dama do Lago lhe deu um enigma, pediu a ele que voltasse no próximo dia nem faminto, nem satisfeito, nem durante o dia, nem durante a noite, e com isso voltara para seu lago, desaparecendo pelas ondas suaves que seu corpo fizera ao partilhe caminho. Pelos próximos meses, o Cavaleiro tratou de desvendar o enigma, considerando as possibilidades, ao tentar todos os dias algo diferente, acabava por receber sempre a mesma negativa da Dama. Ainda que efêmero que fosse, crescia sua frustração igualmente, foi somente durante o verão, que o Cavaleiro entendeu o enigma. Tomou em mãos então uma das maçãs da macieira que encontrava-se ao lado do lago da Dama, e deu-lhe uma generosa mordida. Mastigou-a deliberadamente, ao caminhar de volta ao lago, vagaroso e deliberado, observando os céus entrarem no entremeio ao fim da noite e o começo do nascer do sol. Viera comendo a maçã, nem faminto, nem satisfeito, na penumbra da madrugada, nem à noite, nem durante o dia, mas exatamente antes do sol nascer. Ao vislumbrar tal perspicácia, a Dama do Lago aproximou-se curiosa, concordando com sua vitória.
Como recompensa, o Cavaleiro a beijou. E embora breve, o beijo foi o suficiente para inflamar seu desejo e necessidade pela Dama. Percebeu-se apaixonado por ela, com tamanha intensidade que chegava a fazer seu peito doer e sua respiração falhar. Sabia que não desistiria por nada daquela Dama, e que a tomaria por sua, independentemente do que lhe custasse. Fosse mais um dia, fossem anos de sua vida. Ele a teria. Como uma prova de sua determinação a Dama do Lago então deu-lhe mais um desafio, este, caso o Cavaleiro conseguisse vencer, a faria concordar em segui-lo de volta para sua casa, e tornaria-se sua esposa se assim desejasse. O homem não hesitou em acertar-lhe, ciente de que nada mais o contentaria; desta vez, o desafio, embora a princípio simplório, vieira enviesado, a Dama do Lago pedira-lhe que o Cavaleiro lhe dissesse seu nome, e que ao tê-lo em sua boca, provaria que a conhecia o suficiente para tomar-lhe com sua esposa. Mas se ele não descobrisse em três dias, então, ela lhe pediria sua vida, e ele, de bom grado, a entregaria. Iria tornar-se apenas mais uma das pedras cristalinas que jaziam ao fundo de seu lago, e a história do honrável cavaleiro que o homem havia se tornado, seria, permanentemente, esquecida por completo.
O Cavaleiro não hesitou, ele aceitou.
Na primeira noite, passou o dia inteiro fazendo listas e mais listas de todos os nomes que conseguia lembrar-se, ao terminá-las, foi até a Dama, onde recitou nome por nome; a cada um que deixara seus lábios, uma ponta de desesperança e frustração escapava de seus lábios ao perceber que havia errado. Não descobriu o nome dela naquela noite. Na segunda noite, o Cavaleiro buscou pela ajuda da raposa, que, mais uma vez, tentara lhe passar a perna. Ofertou-lhe apenas nomes dúbios, que poderiam servir para tanto homens quanto mulheres, em uma tentativa de fazê-lo ofender a Dama do Lago; quando o Cavaleiro percebeu a trapaça da raposa, fizera questão de arrastá-la junto consigo para que, diante da Dama, a raposa recitasse todos os nomes ao qual havia o provocado. Mais uma vez, com um aceno desdenhoso de sua mão, a Dama do Lago lhe dissera que havia errado. Desesperado, o Cavaleiro então, na terceira noite, escolheu esconder-se dentro de um tronco morto, ao lado do lago em que a Dama vivia, determinado a ouvir todas as conversas e visitas que ela recebia.
Primeiro ela recebeu a visita de um corvo, que dos gramados afiados, pouco ele poderia entender. Então, uma feérica de asinhas agitadas pairou sobre o ar, convidando-a para almoçar, chamavam-na por um apelido afetuoso, que a nada de seu nome resvalava. Então, pela tarde, um ranzinza gigante aproximou-se pedindo para que a Dama do Lago verificasse seu ferimento. Ela com todo cuidado e elegância aproximou-se da criatura enferma, e analisou o corte, antes de tratar a enfaixá-lo. Foi somente duas horas depois, quando a criatura, em seu agradecimento se curvou, que o Cavaleiro ouviu o nome dela. Naquela mesma noite, antes mesmo que o sol se pusesse por completo, o homem retornou ao Lago; quando indagado pela Dama se ele, de fato havia descoberto seu nome ou se vier a se render, o Cavaleiro tomou-a em seus braços, e com uma voz determinada, sussurrou em seu ouvido:
— tamanha ternura e certeza em sua voz, fizera com que a Dama do Lago, uma criatura etérea e filha dos feéricos se derretesse em seus braços, e com um sorriso emocionado concordasse em voltar para a casa do Cavaleiro como sua esposa.

NÃO HOUVE MAIOR FELICIDADE PARA O CAVALEIRO. Desposou-a uma semana depois, após apresentá-la para a corte e seu rei. De murmúrios repletos de admiração e até mesmo inveja, o Cavaleiro tornou-se uma lenda romântica de sua história e empenho para conquistar a Dama. Admirada e elegante, ela o seguia como um pilar, cuidava de seus ferimentos, e tomava-lhe a alma a cada suspiro, e movimento abaixo de si. O homem jamais fora tão feliz quanto nos braços de sua, agora esposa. Todas as noites, quando ela questionava-o se ele a amava, o homem não hesitava em confirmar-lhe, com uma força de vontade inabalável. E por um longo tempo, os dois foram felizes. Mas então, quando as estações começaram a mudar outra vez, e o Outono se tornou Inverno, algo havia mudado. O Cavaleiro que de tudo fizera pela esposa que lhe roubara o coração, agora que a tinha à sua disposição, passará a dedicar-se em suas responsabilidades para com o rei, lutando suas batalhas, e dedicando-se a suas cruzadas. O amor que lhe fora arduamente conquistado, agora, era uma rede segura do qual mero esforço não mais parecia preciso, então, o Cavaleiro passou a ausentar-se.
Trabalhava sem descanso, tentando agradar ao Rei ou simplesmente manter seu foco em algo que considerava ser genuinamente importante para o reino. Via seu dever como parte de si mesmo, e quando as brigas começaram, passou a acusar a de não compreender o tamanho da responsabilidade que ele carregava ao ser o braço direito de seu rei. O Cavaleiro nunca se perdeu de seu caminho, que fique claro, não houve outra mulher para ele depois que apaixonou-se perdidamente por , verões se passariam, e ele teria apenas olhares para sua bela esposa, mas ele não se importava mais de esforçar-se para conquistá-la, já que a tinha exatamente aonde queria. Quando ela lhe questionava, a noite, se ele a amava, o homem iria resmungar sua resposta com uma afirmação, então, com o tempo, tornou-se um murmúrio ininteligível, uma onomatopeia que mal estava ali, até que depois, houvesse apenas silêncio. A cada passo que o Cavaleiro dava para longe da Dama, a Dama recolhia-se em si mesma.
Quando por fim a guerra entre o Norte e o Sul estourou, o Cavaleiro não hesitou em jogar-se nas fronteiras para defender seu reino e seu rei. Soubera de imediato que sua esposa não o perdoaria pela decisão, grávida de seu filho, e machucada por sua crescente ausência, o Cavaleiro se ateve aquilo que sempre soubera ser sua melhor arma naquela situação; sua força de vontade. Munido de sua intenção nobre, e sua força de vontade, o Cavaleiro nunca vacilou em seu dever. O mantivera honrosamente, mesmo depois de perder seu braço direito, e de ser ferido permanentemente no olho esquerdo. Quando, após três anos, voltara para casa, fora visto como um herói, um homem digno que finalmente poderia descansar de suas provações e deveres. O Rei o condecorou como uma lenda, ele ficou conhecido por ser o Cavaleiro Branco, daquele reino; honrável, o modelo a que todos deveriam seguir. O Cavaleiro fora admirado, fora amado mesmo por aqueles que outrora o desprezavam; mas surpreendeu-se em demasia ao encontrar seus aposentos vazios.
Sem despedidas, apenas com uma maçã apodrecida repousada na janela, sua esposa havia o deixado sem despedidas, havia largado e levado consigo a criança em seu ventre. Havia desfeito seus laços sagrados e retomando seu título como Dama do Lago, pois se a força de vontade do Cavaleiro era tamanha assim, que ao dever lhe fizesse companhia. A princípio, o Cavaleiro ficou irado, buscou por todos os cantos pela esposa agora que julgava ser traidora ao abandoná-lo. Mas então, com o passar dos meses, de irado, tornou-se desesperado.
O Cavaleiro retornou ao lago onde outrora conhecera , fizera morada lá por meses, talvez até mesmo anos, mas a Dama do Lago, ali nunca apareceu, nem mesmo um pequeno vislumbre que pudesse ter da mulher que um dia havia amado, e do filho que sabia que carregava parte de si em algum lugar daquela floresta. Então, quando meses se tornaram anos, e anos se tornaram uma década, o Cavaleiro enlouqueceu.
Vagando pelas ruas agitadas do Reino que outrora fora parte de sua força de vontade e seu dever, o Cavaleiro percebeu-se solitário, um mero fantasma buscando o rosto da mulher que havia amado em estranhos, até, em um dia qualquer, deparar-se com ela, abraçada com um elegante e refinado príncipe, que ao seu lugar, agora, havia tomado. Algo se despedaçou no peito do Cavaleiro quando ele ouviu o Príncipe chamá-la docemente por , e ela derreter-se a ele, como se o Cavaleiro nunca sequer ali outrora tivesse estado.

FIM!

Nota da autora: isso aqui foi eu desistindo do hobby de autora! É isso.