Revisada por:
Calisto
Finalizada em: 01/08/2026
PRÓLOGO
— You remind me of a younger me
I saw potential
I saw potential
Uma figura encapuzada caminhava rapidamente até a entrada da Mansão dos Malfoy, carregando um pequeno embrulho nos braços, difícil de distinguir com a escuridão da noite. Alcançando a porta, esta rapidamente se abriu, e a mulher encoberta pela capa foi levada para o interior.
Subiu as escadas, acompanhada pelo elfo doméstico, até parar de frente à porta do quarto. Nem mesmo bateu, já saiu entrando no quarto, despertando a mulher loira que ali descansava. Ela se sentou correndo na cama, apontando a varinha para o teto, uma luz se espalhando pelo ambiente e iluminando a figura encapuzada, que tirou a própria capa, deixando seus cabelos cacheados e escuros se espalharem ao redor de seu rosto pálido.
— Bella, o que está acontecendo?
— Ciça, você deve me ajudar. Tenho que voltar para a casa dos Longbottom, mas eu preciso que você fique com isso.
E deixou o embrulho no colo da mulher, embrulho este que começou a chorar. Narcisa arregalou os olhos.
— Não é isso. É uma criança!
— Da idade de Draco, você saberá o que fazer.
— Você sequestrou uma criança? Minha irmã, o que pensa que está fazendo?
— O certo. Ela é uma puro sangue e sinto muito poder dentro dela, não podemos deixá-la para ser desvirtuada pelas mãos de traidores. — Sorriu, com aquele sorriso que havia torturado centenas de bruxos e trouxas.
— Sempre apoiei seus ideais e de Lucio, mas isso é demais. — Sacudiu a cabeça, mas não conseguiu evitar acolher a criança em seu peito. Era da mesma idade de Draco, ao que parecia, e tinha pulmões fortes. Seu instinto materno a trouxe para perto do peito.
— Os pais não sairão vivos ou lúcidos dessa. — Bellatrix olhou a irmã nos olhos sem demonstrar um pingo de arrependimento. — Quer que ela cresça órfã? Ou quer que ela seja uma futura serva de nosso Lorde das Trevas?
— Ela tem razão — disse uma voz da entrada do quarto.
Lucio Malfoy encarava a cena, indiferente, os olhos fixos na criança que se encolhia no peito da mulher. Narcisa sentiu o próprio estômago embrulhar.
— Lucio…
— Se Bellatrix sente um forte poder na criança, ela deve estar alinhada ao lado certo, especialmente sendo uma puro sangue. Deve aprender seu lugar. Pode nos ser úteis, coisa que não será para seus pais dementes.
Bellatrix sorriu, satisfeita com aquelas palavras.
— Devo retornar à casa dos Longbottom, temos que descobrir para onde o Lorde das Trevas se foi. Logo volto com mais notícias.
— Espere! Qual o nome dela? — Narcisa perguntou.
Bellatrix olhou para a irmã, o deboche escorrendo por seu sorriso.
— Não me importa. Que hoje ela seja batizada novamente, em uma nova vida para servir o Lorde das Trevas.
E tão rápido e inesperadamente como entrou, ela logo havia se ido, deixando marido e mulher se encarando com uma criança desconhecida entre eles. Narcisa encarou o marido, desamparada.
— Não pode esperar que tenhamos outra criança em casa.
— Prefere deixá-la para ser adotada? Para ser corrompida? É uma criança puro sangue como nós. — Lucio se aproximou da criança, que agora tinha parado de chorar e adormecera no colo da esposa. — Quem sabe até uma escolha para se casar com Draco e perpetuar o sangue da família?
O estômago de Narcisa se revirou. Seu filho mal tinha completado um ano e já teria uma noiva prometida? Sabia que era o normal com as famílias puro sangue, mas… ele era só um bebê.
Assim como o bebê em seus braços.
Lucio pegou a criança em seu colo, segurando-a não como um ser de afeto, mas um objeto conquistado. Ele sorriu, erguendo-a.
— Será batizada de . Como foi ideia de sua irmã, será o sobrenome dela que abraçará essa criança enquanto o Lorde das Trevas não retornar. Para o mundo será Lestrange, e que ela represente junto a Draco o futuro de um novo mundo.
Narcisa olhou para a criança, que despertou com o chacoalhar e voltou a chorar. Um mau presságio se instalava dentro dela, mas percebia nos olhos de Lucio que ele estava convicto, e não seria ela a pessoa capaz de tirar uma ideia de sua cabeça.
Por isso, quando ele devolveu a criança para seu colo, ela a acalmou, apesar das dúvidas em seu coração.
PARTE I
— I showed you all the tricks of the trade
All I ask for is your loyalty, my dear protégé
All I ask for is your loyalty, my dear protégé
Um carro do ministério estacionou na frente da estação King's Cross, de onde desceu uma família peculiar: três de seus membros, o homem, a mulher e o menino, tinham faces pálidas e cabelos lisos e tão loiros que pareciam platinados. Poderiam ser bonitos, não fossem seus narizes empinados e esnobes.
E, destoando dos demais, uma menina de mesma idade da outra criança, com vestes tão refinadas quanto, mas um rosto que, por mais que tentasse empinar o nariz como os demais, era gentil demais para parecer soberbo, com suas bochechas redondas, os cabelos ondulados castanhos e as pequenas sardas que decoravam sua face, junto a olhos castanhos calorosos.
Os quatro avançaram, junto ao elfo doméstico da família, ignorando os trouxas ao seu redor, até alcançarem as plataformas 9 e 10. Sem nenhuma palavra de encorajamento, as crianças cruzaram a pilastra sem medo, e saíram ao lado de uma enorme locomotiva vermelha, cercada por outras crianças e adolescentes. O coração da menina acelerou, mas ela permaneceu quieta. Descobriu cedo na vida que seus tios gostavam mais dela quando ela era sucinta.
O elfo doméstico colocou as bagagens no trem, enquanto Lucio Malfoy observava seu relógio.
— Muito bem, o trem parte em quinze minutos. — O patriarca encarou as duas crianças. — Já sabem o que fazer.
— Fazer amizades apenas com sangue puros, nossos colegas da Sonserina, e nunca, jamais, falar com um sangue ruim — respondeu Draco, com um sorriso.
— Era uma pergunta retórica, mas fico feliz que saiba o mínimo. — Draco se encolheu com a resposta do pai, embora não soubesse direito se havia recebido um elogio ou não. — Muito bem, subam no trem.
Draco correu para abraçar Narcisa, despedindo-se da mãe que parecia não querer largá-lo. Lucio olhava desgostoso para a cena, mas então se virou para a menina, com um pequeno sorriso nos lábios, o que, para ele, era muito.
— Traga orgulho ao nome da família Lestrange e a família Malfoy, . Conto com você.
— Sim, tio — respondeu, sucinta, sem sorrir.
Por sua vez, isso fez o sorriso de Lucio aumentar.
— Você me lembra de mim mesmo na sua idade, sabia? Tão determinado a provar algo. — E olhou para longe, para a locomotiva.
sabia que isso era tudo o que teria, e era mais do que tinha geralmente. Assentiu, escondendo um sorriso surpreso com as palavras de Lucio, e se dirigiu a Narcisa, que ainda não parecia capaz de soltar Draco.
— Até mais, tia Narcisa — falou.
— Até, .
A mulher não fez questão de abraçá-la, mas Lestrange não se importava. Sua tia claramente preferia Draco, que era mimado. Mas no fundo ela sabia que era a preferida de Lucio, e isso era muito melhor.
Os dois então subiram no trem com as bagagens menores restantes. Na hora em que não estavam mais à vista dos adultos, Draco se virou para com uma carranca.
— Nem pense em vir atrás de mim, pirralha — falou, e se virou para entrar em uma cabine, de onde escutou as vozes de Crabbe e Goyle.
Quando a porta se fechou, deixando-a no corredor vazio, suspirou. Estava acostumada a ficar sozinha: Draco não gostava dela, e seus amigos a excluíram como consequência. Tinha adquirido muitas habilidades com a solidão, como o hábito de leitura e o gosto pelo xadrez bruxo. O tempo era enorme quando não se compartilhava com quase ninguém. E aquilo era até melhor do que perder seu tempo com baboseiras, sempre afirmava para si mesma que era melhor não ter amigos, para poder se aprimorar e estar mais à disposição de sua família.
Encontrou então uma cabine solitária e suspirou contente, deixando sua mala ali e abrindo um livro. Era ali que iria ficar até chegar em Hogwarts, entrar para a Sonserina e ser a melhor aluna possível.
As horas passaram e as luzes do trem se acenderam quando a noite começou a chegar, e a ansiedade começou a crescer dentro de . Ela correu para colocar as vestes de Hogwarts e, quando o trem parou, já estava pronta para desembarcar, no meio de vários alunos de várias idades. Percebeu os alunos mais velhos indo embora em carruagens puxadas por seres invisíveis, enquanto ela foi colocada em um barco por um homem muito grande. Dentro do pequeno barco, um menino de rosto redondo, simpático e cheio de sardas sorriu para ela.
— Oi, eu sou Neville Longbottom.
Mas ela o ignorou. Não tinha em suas feições a sagacidade no olhar, o toque da malícia, e isso não agradaria a Lucio. Na verdade, havia algo muito perturbador no menino: parecia o que aconteceria com o rosto da própria se ela sorrisse, com toda a bondade que ela tentava apagar de seu próprio rosto.
O pensamento a acompanhou já fora do barco e para dentro do Salão Principal, até ela se distrair com o teto encantado. Perto de si, escutou duas garotas do primeiro ano conversando, e uma delas, a dentuça, disse:
— Não é real, o teto. É só encantado para parecer com o céu noturno. Eu li sobre isso em…
— Hogwarts: Uma História — murmurou.
Achou que ninguém teria a escutado, até que percebeu que as duas meninas a encaravam ,maravilhada. A que tinha falado antes encarava como se visse um espelho, um sorriso de satisfação se espalhando por seu rosto.
— Você também leu Hogwarts: Uma História? Puxa, é tão difícil encontrar alguém que tenha se interessado pelo livro!
— Eu só fiz o mínimo de conhecer o lugar que eu iria estudar — respondeu, indiferente, mas a resposta só fez o sorriso da menina crescer.
— Exatamente! O meu capítulo favorito foi sobre os alunos mais especiais que passaram por Hogwarts, como Merlin. E o seu?
— Eu… gosto muito da história da criação de Hogwarts.
— Essa também é demais!
A garota parecia prestes a dizer mais alguma coisa, quando foi interrompida pela professora que os guiara para o Salão, a professora McGonagall. tomou aquele tempo para refletir — nunca havia conversado com ninguém sobre os livros que gostava de ler, e tinha sido algo… interessante. Seu peito pulsava mais rápido, mas não parecia ruim, parecia que ela estava… animada?
— Quando eu chamar seu nome, você colocará o chapéu e se sentará no banquinho para ser selecionado — disse a professora, quebrando o que quer que fosse que se passasse dentro da garota.
Lestrange observou atentamente conforme cada aluno era chamado para ser selecionado, um processo curioso já que o chapéu ficava tempos diferentes em silêncio até anunciar sua decisão.
— Granger, Hermione — chamou a professora.
percebeu a garota que gostava de livros se dirigir ao banquinho, e, percebendo que Lestrange a observava, Hermione sorriu. quase quis sorrir de volta, até que seu cérebro processou.
Granger não estava na lista de famílias puro sangue.
Voltou à indiferença e evitou olhar para a garota. Na menos pior das hipóteses, era mestiça, e isso não agradaria Lucio. E se fosse uma sangue ruim, então? Não, ela não estava ali para fazer amizades, estava em Hogwarts para aprender a melhorar sua magia e orgulhar seu tio.
Não demorou muito para que a professora chegasse em seu nome:
— Lestrange, .
Ela percebeu alguns professores trocarem olhares, mas os ignorou. O que importava era aquele banquinho de madeira com três pernas, o chapéu suspenso acima dele pela professora e, principalmente, que a decisão dele fosse a Sonserina.
Quando o chapéu foi colocado em sua cabeça, parte dele caiu sobre seus olhos, deixando sua visão um completo breu.
— Interessante — ela escutou uma voz ressoar em sua cabeça —, pensei ter escutado Lestrange, mas acho que me enganei.
“Enganou-se?”, pensou ela. “Eu sou uma Lestrange!”
— Realmente, muito interessante — ecoou o chapéu em sua cabeça. — É inteligente, sem dúvidas, e poderia se dar bem na Corvinal.
Corvinal? Um arrepio por seu corpo. “Não, tem que ser Sonserina.”
— Sonserina, é? Entendo por que você deseja isso, mas… Ah, agora eu vejo com mais clareza. O futuro trará muitas surpresas para você, criança, e precisará de coragem, e você a encontrará, já que será da… GRIFINÓRIA!
A última parte foi entoada por todo o Salão, e o chapéu saiu de sua cabeça. Algumas pessoas aplaudiam, mas estava congelada em seu banco.
— Srta. Lestrange, vamos para a mesa da Grifinória — a professora falou, indicando o local.
— Não. — A voz da menina tremia. — Deve ser um erro.
— O chapéu não comete erros. Para o seu lugar, menina.
Mais tarde, em sua cama, ainda estava de olhos arregalados e mãos trêmulas. Estava no quarto junto com Hermione Granger e mais duas meninas que também haviam sido selecionadas para a Grifinória, mas só ela estava acordada na escuridão.
Aquilo era um terrível pesadelo, tinha que ser. Sua seleção tinha que ter sido como a do primo, em que o chapéu mal precisou encostar em sua cabeça para anunciar que ele iria para a Sonserina. E se recordava dos olhares de nojo que Draco havia dirigido a ela, só não eram piores que o que ele havia dirigido a Harry Potter (que ela havia escutado que havia dado um belo fora em seu primo), que curiosamente também estava na mesma casa que ela.
Harry Potter. O garoto que havia derrotado o Lorde das Trevas e frustrado os planos de toda a sua família. E um chapéu idiota dizia que ela merecia estar na mesma casa que ela.
sentia vontade de vomitar só de imaginar a reação de Lucio. Seria expulsa da família, como a melhor das hipóteses.
Demorou três dias para receber a carta com a reação de Lucio, depois da fatídica carta que teve que escrever para notificá-lo da tragédia. Estava tomando café da manhã em silêncio e sozinha, como já havia se tornado seu hábito, até que uma coruja deixou uma carta em suas mãos. E é claro que suas mãos começaram a tremer imediatamente assim que ela reconheceu o selo.
Não era um berrante, pelo menos. Poderia ser pior, era o que ela repetia para si mesma, conforme tinha dificuldades de abrir a carta, de tanto nervoso. O papel ficou molhado, e ela levou um susto ao perceber que tinha sido uma gota de suor pingando de sua testa, e a carta acabou se abrindo. não tinha mais como fugir de seu conteúdo.
“Srta. Lestrange,
Foi com grande pesar que soube da decepção da sua seleção para a Grifinória. É uma grande desonra para nossa família, com gerações e gerações criadas na honra da casa Sonserina, e tenho certeza que sua mãe teria ficado muito decepcionada.
Porém, fiquei satisfeito com sua informação de que Harry Potter também foi selecionado para a mesma casa da sua, e foi de imensa perspicácia de sua parte se oferecer para estar por perto, numa distância que meu filho não conseguirá, já que já criou suas desavenças com esse menino arrogante. Mantenha-o longe, mas sempre à vista. Nunca saberemos quando essa proximidade poderá ser necessária. Você poderá ser uma grande servidora do Lorde das Trevas no futuro.
Não traga mais nenhuma vergonha para a família, e torçamos para que essa desonra se torne um trunfo de sua ascensão às artes das trevas no futuro.
Não me decepcione.
Lucio Malfoy
Patriarca da família Malfoy”
As lágrimas começaram a cair dos olhos de , silenciosamente, embora um pequeno sorriso desabrochasse em seu rosto.
Estava salva. Ela tinha mais uma chance.
E pretendia nunca mais perdê-la.
acordou com um grito quase escapando da garganta. Seus olhos arregalados corriam ao redor, enquanto ouvia seu coração bater em seu ouvido. Ainda era madrugada e todas as suas colegas dormiam, e o sonho que havia a assustado tanto agora começava a parecer menos real.
Aos poucos, sua respiração voltou para o normal, e ela pôde revisitar as cenas em sua cabeça, mesmo que elas a arrepiassem.
Um corredor. Um homem ruivo, que ela tinha a impressão de conhecer, com a varinha neste corredor. E uma cobra. Uma cobra que ela conhecia muito bem atacando aquele homem.
Seu pulso estava acelerado demais para que ela conseguisse considerar voltar a dormir. Não, essa possibilidade já estava esgotada, então decidiu só descer para o salão comunal até conseguir se acalmar. Levantou-se da cama, evitando fazer barulho, e saiu do quarto. Desceu os degraus lentamente e estava no penúltimo quando escutou uma voz.
— O que ele disse, Longbottom?
Era a voz da professora Minerva. E ela conseguiu ouvir a voz trêmula de Neville respondendo.
— Ele sonhou que o senhor Weasley estava sendo atacado e ficou gravemente ferido, mas está convencido de que é real.
O coração de acelerou em seu peito, batendo em disparada. Senhor Weasley, agora ela se lembrava do homem ruivo familiar de seu sonho, Lucio sempre falava dele com muito desprezo. E, em seu sonho, ele havia ficado gravemente ferido depois do ataque de Nagini, a cobra do Lorde das Trevas.
O que aquilo queria dizer? Como ela e Harry Potter estavam tendo os mesmos sonhos?
espiou na hora exata em que a professora, Harry Potter e Rony Weasley saíram em disparada do dormitório dos meninos para fora do salão comunal. Aquela não era uma atitude para se tomar quando um adolescente tinha um pesadelo, o que significava que McGonagall também teria sido convencida de que não é um pesadelo.
O que significaria que tudo aquilo era real.
Não era a primeira vez que havia tido um sonho tão realista e incomum envolvendo o Lorde das Trevas, mas agora o que se passava em sua cabeça era: quantos desses sonhos teriam sido reais? Seria esse o primeiro? Por que ela estava tendo um sonho, ou melhor, uma visão do senhor Weasley atacado? Por que Harry Potter estava tendo a mesma visão?
As perguntas continuaram em sua cabeça quando ela já estava de volta na cama e percebeu a professora McGonagall entrar e chamar Gina Weasley para acompanhá-la. E se Gina estava a acompanhando…
Os braços de se arrepiaram ao lembrar da cobra e do estado do senhor Weasley.
Não gostava dele pelo simples motivo de que seu tio não gostava dele, mas ninguém merecia uma morte horrorosa como aquela, nem mesmo um traidor de sangue.
Pelo menos, iria para casa naquele mesmo dia assim que amanhecesse e conversaria com Lucio. Seu tio era um homem muito inteligente, e conseguiria ajudá-la a descobrir a verdade por trás de tudo o que havia acontecido.
revirou os últimos pedaços da sobremesa em seu prato, desconfortável com a figura reptiliana do outro lado da mesa.
Lucio Malfoy sempre sonhou com a volta do Lorde das Trevas por 14 anos, mas agora, com ele de volta e hospedado em sua casa, não parecia que estava especialmente feliz. Na verdade, parecia mais pálido que o normal (se era possível), assim como Draco e Narcisa. Talvez até mesmo a menina Lestrange estivesse se sentindo assim, pois era difícil ignorar a presença desconfortável do ser parte homem e parte anfíbio, especialmente porque, toda vez que olhava em seus olhos, ela via apenas uma cobra mordendo o senhor Weasley.
“Fez bem em me contar, . Não diga mais nada a ninguém, iremos descobrir o que isso significa.”
Ela abriu um sorriso, embora fosse algo irônico de dizer, afinal, para quem mais contaria? Era tão grata pela ajuda de Lucio, que se prontificou a ajudá-la.
Mas aquele momento bom havia passado, e agora estavam terminando o jantar de Natal, na presença desconfortável do Lorde das Trevas. Foi Narcisa a primeira a pigarrear.
— Está ficando tarde, Meu Lorde das Trevas, vou me retirar com as crianças para deixá-lo à vontade com Lucio. Draco, , venham.
Os três se levantaram simultaneamente, como se ensaiado. Fora da Sala de Jantar, Narcisa e Draco nem mesmo se dignaram a olhar para ela. Melhor assim, pois a garota tinha outros planos em mente.
Durante todos os anos tentando se provar útil à sua família e investigar Harry Potter, havia adquirido um segredo: um antigo feitiço de amplificação de escuta, que ela havia treinado e desenvolvido por dois anos até conseguir melhorá-lo para um feitiço para escutar qualquer conversa localizada em um raio de até cerca de 20 metros de distância. Era um de seus maiores orgulhos, por mais que nunca tivesse contado a Lucio, sem saber por quê. Era óbvio que confiava nele, mas… era bom ter algo que fosse seu.
E não que usasse isso contra o tio, nunca, de forma alguma. Até aquele dia. Trancada já em seu quarto e com o coração na garganta, pegou a varinha.
Não era uma traição. Não suspeitava do tio, mas sabia que ele iria contar a Voldemort sobre a visão de Harry Potter, e talvez a sua própria. Por isso, deixou de lado seu desconforto e sussurrou o feitiço. Não demorou muito para a voz do Lorde das Trevas invadir seu quarto, deixando-a ainda mais desconfortável.
— … com agilidade. Não consegue cumprir uma simples missão, Lucio?
— Peço perdão, milorde, temos alguns… empecilhos inesperados. Não esperávamos que Dumbledore se comunicasse com o Ministério, mesmo este estando contra ele.
— Sim… Potter me preocupe, mas isso talvez abra uma possibilidade. Se ele consegue acessar minha mente, talvez possamos usar isso como uma armadilha.
Um silêncio tomou o quarto de , que roía uma unha de ansiedade.
— Senhor… — Lucio retomou lentamente a conversa. — Mas e… a visão? O que significa?
prendeu a respiração. Estariam falando dela?
— Você se lembra do que Severo contou há tantos anos. A profecia se tratava de uma criança, mas e se fosse mais? Não, Lucio, não podemos correr um risco — disse, com a voz arrastada.
— Meu Lorde… o que quer dizer com isso? — Lucio perguntou, e ela percebeu por sua voz que estava temeroso, algo que nunca demonstrava.
— Sabe o que significa, Lucio… A criança Longbottom deve morrer.
A garota franziu as sobrancelhas. Longbottom? O que Neville Longbottom tinha a ver com uma profecia? Por que ele precisava morrer?
Não gostava muito do garoto, seu rosto gentil a enervava, sem contar que era lerdo demais, mas… sua morte era necessária?
— Meu… Meu Lorde! Mas… Há mesmo necessidade? — estranhou o pavor na voz de Lucio. Ele se importava tanto assim com Neville? Sabia que a morte de uma criança era desagradável, mas não seria isso que impediria Lucio de conquistar seus objetivos. — A criança se provou leal…
— E pode nos trair. — O Lorde das Trevas o cortou rapidamente, a voz gelada colocando fim à discussão. — Depois de cumprir sua missão, livre-se da criança. Não quero possíveis intervenções em meus planos.
Um silêncio tenso tomou o quarto, e chegou a pensar que o feitiço havia se encerrado.
— Sim, Meu Lorde — Lucio tornou a falar, resignado. — A criança morrerá assim que a missão for concluída.
Os dois logo terminaram de falar e se retiraram da sala, então finalizou o feitiço, pensativa.
Esperava ter alguma resposta sobre sua visão ao escutar a conversa, mas apenas mais perguntas entraram em sua cabeça. O que Neville Longbottom tinha a ver com sua situação?
Antes, estivera ansiosa para ter suas férias, ver sua família e desabafar sobre o que acontecera na véspera, mas agora… queria voltar o mais rápido possível para Hogwarts.
Precisava investigar Neville Longbottom.
O burburinho no Salão Principal começou a crescer conforme o Profeta Diário do dia ia pousando nas mãos de todos que eram assinantes, especialmente depois do gritinho de Hermione Granger ao abrir o jornal. estava em silêncio e sozinha, tomando seu café da manhã, quando começou a perceber olhares, principalmente de Potter, Weasley e Granger.
Hermione havia feito esforço para as duas se tornarem amigas em seu primeiro ano em Hogwarts, mas havia desistido depois de tanta indiferença de Lestrange. Embora, às vezes, elas se esbarravam na biblioteca lendo o mesmo livro ou estudando para a mesma matéria. Também sempre disputavam os primeiros lugares das classes, o que deixava intrigada. Se sangues ruins eram inferiores, como poderia ela, a melhor puro sangue de seu ano, ser tão similar com uma inferior?
De qualquer forma, Hermione era, em geral, amistosa com , e os garotos nunca se importaram o suficiente com ela para lhe dirigirem o olhar, mas agora os três a encaravam com uma mistura de choque e raiva.
Esperou que eles dissessem alguma coisa para ela, mas continuaram apenas nos olhares furtivos. Ela revirou os olhos.
— Me dá isso — falou, pegando da mão de Parvati Patil o Profeta Diário, já que ela e a amiga, Lilá Brown, participavam da encarada.
abriu o papel e fixou os olhos logo na primeira página.
E lá estavam, os rostos que ela conhecia por algumas fotos velhas, mas nunca havia de fato encontrado com eles. Sua mãe, embora com os cabelos mais bagunçados e parecendo um pouco… bem, insana era a palavra. E seu pai, com o mesmo olhar vítreo e assustador. Ela não se parecia com nenhum dos dois, especialmente agora. Sempre imaginou com qual parente tinha maior semelhança.
Mas aquilo fugiu de sua cabeça quando começou a ler as legendas de cada foto, e ficou fixada na de sua mãe.
Bellatrix Lestrange, condenada pela tortura e incapacitação permanente de Franco e Alice Longbottom, e assassinato de Nora Longbottom.
Longbottom. Mais uma vez aquele nome aparecendo. Ficou imaginando todas as vezes em que Neville havia lhe lançado olhares estranhos. Não era para menos, já que aqueles deveriam ser seus familiares, levados à loucura ou à morte por sua… mãe.
Sabia que ela havia sido condenada por seguir o Lorde das Trevas, mas não conhecia a extensão de seus crimes. Os Longbottom eram uma família puro sangue, então por que matá-los e torturá-los? Teria sido pura defesa, por eles terem se aliado a Voldemort? Ela pensaria assim.
Então seu olhar baixou para a manchete principal, abaixo das 10 fotos dos presos.
FUGA EM MASSA DE AZKABAN
MINISTÉRIO TEME QUE BLACK SEJA O “PONTO DE REUNIÃO” PARA ANTIGOS COMENSAIS DA MORTE
A visão de começou a ficar turva. Ela jogou o jornal de volta para Parvati, nem escutando o que a garota falou, e saiu do Salão Principal com pressa. Sentia que não conseguia respirar.
Seus pais estavam livres. Ela iria conhecer seus pais pela primeira vez em toda a sua vida.
Ela estava animada. Queria que se orgulhassem dela, mas se encolheu ao se lembrar do primeiro detalhe: ela era uma grifinória. Ela se recordou daqueles olhares do jornal, e pensou que eles não ficariam nem um pouco felizes com aquela notícia.
Será que contaria a eles do feitiço que havia inventado? De todas as investigações que fez em favor do Lorde das Trevas? De como era uma aluna excelente? Como nunca havia jogado Quadribol, apesar de ser boa, para não ajudar a Grifinória? Havia ajudado Lucio a colocar o diário de Tom Riddle nas coisas de Gina Weasley. Descoberto sobre a profecia que anunciava a volta de Voldemort, para que Lucio pudesse se preparar. Estava até mesmo participando da Brigada Inquisitorial de Umbridge, mesmo achando-a uma péssima professora, porque era aliada deles! Havia feito tanto para tentar compensar sua decepção, seria isso o suficiente para ser amada por eles?
Em seus olhos, a legenda da foto de sua mãe piscava. Que tipo de pessoa ela seria? Será que a amaria?
Ela chacoalhou a cabeça, ridicularizando a ideia. Claro que amaria, era sua mãe.
Pelo resto do dia, somente se falava sobre a fuga dos prisioneiros de Askaban. Sussurros se espalhavam pelo corredor, sobre cada comensal e seu crime. Familiares dos que foram mortos escapando de interrogatórios, histórias sendo repetidas. E muitas pessoas olhando para ela, cujos pais estavam expostos na capa daquele jornal.
— Eu soube que os pais dela torturaram os pais do Longbottom até a loucura — sussurrou uma menina, ou tentou, já que foi alto o suficiente para que ela ouvisse.
— Você viu a Lestrange? Os pais dela mataram um bebê, cara! — disse outro, depois se assustando ao percebê-la do seu lado.
— Fala sério, Neville Longbottom tinha uma irmã gêmea? Os Lestrange fizeram um favor pro mundo, então — debochou Pansy Parkinson, e sentiu vontade de gritar.
Seus pais não eram pessoas horríveis, não poderiam ser. Talvez eles estivessem arrependidos, tenham feito muito pela causa. Mas quais limites eles cruzariam?
A criança Longbottom deve morrer.
Sim, meu Lorde, a criança morrerá assim que a missão for concluída.
Aquilo não saía de sua cabeça desde o Natal. Seu tio estava disposto a assassinar Neville Longbottom. Por qual motivo? Porque o Lorde das Trevas havia pedido. E o que o Lorde das Trevas poderia pedir a ela? Também teria que matar alguém?
Estava acostumada com investigação e não ligava para as pessoas de forma geral, mas matar…
Neville Longbottom não poderia ter feito nada de errado. Ela conhecia o garoto há 5 anos e, por mais que não gostasse dele, não significava que havia feito algo de errado. Mas, se seus pais houvessem feito, seria isso justificativa suficiente para sua morte? E o que teria a ver com suas visões?
Não suportava mais os olhares de medo e raiva. Estava acostumada a ser invisível, irrelevante, e agora era observada em cada canto. E cada olhar trazia as mesmas perguntas para sua cabeça, e não havia ninguém para respondê-las.
Poderia tentar Lucio, mas como justificaria saber sobre a conversa com o Lorde das Trevas? E se ele não havia compartilhado nada daquilo com ela, com certeza não compartilharia por seu pedido. Deitada na cama, ela se via sem escolha a não ser investigar tudo sozinha.
No dia seguinte, bem cedo, ela foi para a biblioteca. Tinha um tempo livre, e ia aproveitá-lo para estudar ao máximo tudo o que conseguisse. Alugou livros sobre videntes e sobre a Primeira Guerra Bruxa, em dúvida sobre qual deveria começar.
Suspirou e começou com um livro sobre a Primeira Guerra Bruxa. Era um livro grande, que mostrava desde a influência de Grindelwald, as batalhas com Dumbledore, e as teorias dos purossanguistas. Em contrapartida, também se deparou com pesquisas biológicas sobre a magia em trouxas como prováveis descendentes de abortos, bruxos trouxas que não despertaram a magia. Dizia que todos eram descendentes de bruxos, inclusive trouxas, e a magia, um gene recessivo, por vezes pulava gerações — ou se perdia. Puros sangues deveriam ser mais fortes por ter genes duradouros, mas as pesquisas mostravam que algumas das melhores combinações genéticas para a magia vinham de trouxas e seus genes provindos dos abortos.
A cabeça de estava uma confusão. Sem nenhum amigo na vida, aprendera a amar os livros e o conhecimento, então como um livro poderia estar colocando-a de frente a uma informação completamente oposta a tudo que escutara durante sua vida?
Lucio ficaria furioso por vê-la duvidar de tudo o que ela tanto defendera por ele, e o súbito pensamento a fez fechar o livro. Talvez já tivesse o suficiente para absorver por um dia.
Alugou alguns exemplares e levou consigo durante o resto da semana. Covardemente, adiou sua reflexão sobre os princípios que moldaram sua vida e caiu de cabeça na pesquisa sobre os videntes.
Uma das primeiras informações que encontrou em mais de um livro constatava que a vidência era sempre hereditária, mesmo que pulasse algumas gerações. Certo, o que significava que ela deveria falar com seus pais sobre para descobrir mais.
Exceto que seus pais eram dois fugitivos acusados de assassinar um bebê.
Desistiu da ideia e se animou ao descobrir que a professora Trewlaney não era uma completa alucinada. Bom, pelo menos não a avó dela, que era reconhecida em um dos livros como uma grande vidente.
Mas a professora Trewlaney havia sido demitida pela professora Umbridge. As pesquisas de pareciam não levá-la a lugar algum.
Exceto aquele irritante pensamento que questionava tudo. Que dizia que seus pais eram maníacos, seus tios preconceituosos e toda sua vida um grande erro.
Não. Ela não precisava mais de nenhuma pesquisa.
tentou se conter, mas começou a ler a versão de Harry Potter sobre o retorno do Lorde das Trevas. Não podia chamar de mentira completa, pois ela, diferente de muitos, sabia e tinha provas concretas da volta do Lorde. Mas alguns detalhes a perturbavam. Cedrico Diggory, assassinado por estar no lugar errado na hora errada. ainda se lembrava dele: um rapaz sorridente, gentil e bonito. Sua morte havia sido um grande choque na escola. E esse tempo todo…
Ela releu a lista de comensais presentes na noite do cemitério.
Seu tio estava listado. Parado, concordando com a morte de um mero adolescente.
Sim, meu Lorde, a criança morrerá assim que a missão for concluída.
Ela sacudiu a cabeça. Não pensaria mais naquilo.
Ou ao menos ela tentou. Mas todos só falavam nisso. No salão comunal da Grifinória, os gêmeos Weasley fizeram uma grande festa. se refugiou do barulho no quarto, onde tentou ler um livro de Poções para o dever que tinha que entregar no quarta-feira, mas acabou cochilando.
E ela sonhou.
Era o Lorde das Trevas conversando com um dos fugitivos de Askaban, Rockwood. Falavam sobre informações erradas… sobre tirar algo de um departamento… Mas antes que soubesse mais informações, despertou, ofegante.
Teria sido mais um sonho? Ou seria uma visão? Como saber? Da última vez, só havia descoberto por escutar que Harry Potter havia tido a mesma reação.
Em um salto, saiu da cama. Era isso! Tinha que saber se Potter havia tido a mesma visão que ela de novo!
Ela correu para baixo, de volta à festa, e seus olhos correram pela multidão, até encontrarem seu alvo. Ali estava ele, conversando baixo com Hermione Granger e Rony Weasley. Eram sempre os três na cena do crime.
Ela subiu correndo novamente e se trancou no banheiro. Então, sacou a varinha, mentalizou os três em sua cabeça e sussurrou seu feitiço de escuta.
— Estúrgio! — A voz de Hermione ressoou pelo banheiro, abafada por vozes de fundo da festa. fechou os olhos, tentando escutar melhor.
— Como disse? — Ron perguntou.
— Estúrgio Podmore! Preso por tentar passar por uma porta! Lúcio Malfoy deve ter pego ele também! Aposto que fez isso no dia em que você o viu lá, Harry. Estúrgio estava usando a Capa da Invisibilidade de Moody, certo? Então, e se ele estivesse guardando a porta, invisível, e o Malfoy o ouvisse se mexer, ou adivinhasse que tinha alguém ali, ou simplesmente tivesse lançado a Maldição Imperius contando que houvesse alguém guardando a sala? — A voz de Hermione entrava e saía do foco, e se concentrou mais. — Portanto, quando Estúrgio teve oportunidade, quando foi novamente sua vez de tirar serviço, ele tentou entrar no Departamento de Mistérios para roubar a arma para Voldemort — Rony, fique quieto —, mas foi apanhado e mandado para Askaban…
Então, a voz de Harry preencheu o banheiro.
— E agora Rockwood disse a Voldemort como conseguir a arma?
O choque foi tão grande que o feitiço se quebrou. Quando percebeu seu erro, era tarde demais para refazê-lo, mas não sabia se toleraria escutar mais uma palavra. Seu estômago deu uma cambalhota ao perceber que havia compartilhado mais uma visão com Harry. E, mais uma vez, não sabia o que isso significava.
Eles haviam citado seu tio, e o Departamento de Mistérios do Ministério da Magia. Aquilo com certeza tinha a ver com seu sonho, e mais ainda, com a missão que seu tio há tanto tempo estava empenhado, a serviço do Lorde das Trevas.
E um homem tinha sido enviado para Askaban por ser usado no plano… Seria essa a verdade? , recentemente, não estava gostando das ditas “verdades” que andava lendo e estudando. Não, ela ia confiar na integridade de seu tio.
Porém, pela primeira vez, escolheu não compartilhar com ele sobre sua visão e o que escutara de Harry Potter.
definitivamente não gostava de Umbridge ou de seu primo ou de seus amigos, mas estava presa a todos eles participando da Brigada Inquisitorial. E, naquela tarde, Umbridge estava radiante: havia finalmente descoberto sobre os planos de Harry Potter e seus encontros secretos. Draco havia pegado Harry em pessoa, e Pansy Parkinson estava atrás das que haviam fugido para o banheiro. Enquanto isso, acompanhava Umbridge e outros alunos da Sonserina para o que era o local de encontro deles: uma sala que Lestrange nunca havia visto antes, completamente equipada com todo o necessário para um clube de duelos — ou um exército em treinamento.
percebeu um espelho velho com vários papéis grudados bem no canto da sala. Caminhou até lá e encontrou uma lista e uma foto. Havia algo na foto que havia chamado sua atenção, mas não sabia muito bem o quê…
— Encontrou alguma coisa, senhorita Lestrange? — A voz irritante de Umbridge interrompeu seus pensamentos.
Por sorte, conseguiu não demonstrar que a professora havia a assustado e, discretamente, guardou a foto no bolso.
— Achei uma lista.
Entregou o papel para a mulher e viu seu rosto de sapo se expandir em alegria radiante.
— Ah, excelente! Um registro de todos os culpados e, veja, Armada de Dumbledore! Tenho que ir ao escritório do diretor imediatamente! — Ela olhou para e abriu um sorriso. — Você acaba de dar muito orgulho à sua escola.
Mas, quando Umbridge saiu da sala, seguida pelos outros alunos, sentiu tudo, menos feliz por isso.
Voltou a encarar a foto. Reconheceu alguns rostos mais jovens. Seus antigos professores, Remus Lupin e Alastor Moody, embora este último não tivesse sido de fato seu professor. Dumbledore. Hagrid. McGonagall. O fugitivo Sirius Black. O comensal Peter Pettigrew. Um homem exatamente igual a Harry Potter, que ela supôs ser seu pai.
E tinha uma mulher com um rosto extremamente familiar. Ela tinha olhos e cabelos castanhos, um rosto redondo com sardas e um sorriso gentil. Porém, por mais que tentasse, não conseguia se lembrar quem ela era.
Virou o verso da foto. Ordem da Fênix, março de 1981. Intrigada, guardou a foto em seu bolso e saiu.
Soube depois que os alunos foram punidos gravemente e que Dumbledore havia fugido da escola, fazendo assim com que Umbridge se tornasse a nova diretora. Se na época da fuga de seus pais alguns a olhassem com raiva, nem se comparava agora. O distintivo prateado em formato de “I” parecia um alvo de feitiços imaginários que os alunos com certeza estavam desejando lançar em sua direção. Mas isso não incomodou mais , acostumada a vida inteira com Draco e já rompido o choque de seu não anonimato na época da fuga dos comensais. Não, o que intrigava a garota era a mulher da foto.
Os exames se aproximavam com velocidade, e uma prova disso era que agora todos os alunos teriam que ter uma conversa vocacional com os diretores de sua casa.
bateu na porta da professora McGonagall e escutou um “entre”. Abriu a porta e a professora olhou para ela com tranquilidade.
— Boa tarde, srta. Lestrange.
— Boa tarde, professora McGonagall — respondeu, sentando-se na cadeira.
Um silêncio levemente constrangedor tomou a sala. A professora então pigarreou e se inclinou na mesa em sua direção.
— Então, me diga, srta. Lestrange. Tem alguma profissão que lhe interessou mais nos panfletos vocacionais?
Panfletos vocacionais? Ela estava tão focada em suas visões e na foto que nem pensou naquilo. Até alguns deveres de casa haviam passados despercebidos por ela, para seu completo desespero.
— Eu… não consegui ler, professora — admitiu, baixinho.
McGonagall suspirou, e percebeu que ela estava um pouco frustrada. Então, começou a revirar alguns pergaminhos.
— Bom, ao menos sabemos que a senhorita tem notas excelentes em todas as matérias, o que abre muitas portas para você. Todos os professores te ofereceram notas de “Ótimo” para cima…
parou de escutar a professora McGonagall, pensando apenas em um detalhe: ela estava na foto, perto daquela mulher, então ela saberia seu nome. Mas será que deveria perguntar? Nunca havia tido intimidade com a professora, apesar de ser sua matéria favorita. Por outro lado, ela era bem justa e era diretora de sua casa, talvez fosse aberta. Mas “aberta” não era exatamente a palavra que usaria para descrevê-la… Porém, com os alunos…
— Srta. Lestrange? Srta. Lestrange!
saltou em sua cadeira, arregalando os olhos.
— Professora, me… me desculpa! Eu não… ouvi.
— Percebi muito bem que você não ouviu. — McGonagall agora de fato estava irritada. — Francamente, Lestrange, isso aqui significa algo para você?
— Claro, professora.
— Pois não parece. Não consegue ao menos pensar em qualquer coisa que já tenha imaginado para seu futuro?
Você poderá ser uma grande servidora do Lorde das Trevas no futuro.
— Nada muito substancial — respondeu, quase em um sussurro.
A professora soltou um suspiro audível, e sacudiu a cabeça.
— Não é de hoje que você parece mais distante. Sempre foi uma aluna quieta, mas ao menos era dedicada, e não estou vendo essa dedicação tão presente recentemente. Diga-me, o que se passa na sua cabeça?
Visões. O Lorde das Trevas querendo assassinar Neville Longbottom por um motivo desconhecido. Harry Potter tendo as mesmas visões que ela. Uma mulher familiar. Mas ela não podia responder isso, podia? Seus dedos já estavam encostando na foto que carregava todo dia em seu bolso. Será que deveria mostrar a foto? Perguntar?
Antes que pensasse mais, a foto já estava em cima da mesa.
McGonagall olhou atentamente antes de segurá-la em suas mãos. Então, seu olhar suavizou.
— Onde… você conseguiu isso?
O rosto de ficou vermelho. Não pensou nesse pequeno detalhe.
— Eu… — começou a gaguejar. — Ahn… encontrei.
McGonagall lançou um olhar longo para o “I” prateado em suas vestes.
— Entendo.
O rosto já vermelho de ficou praticamente roxo. Agora não havia volta.
— A senhora… a senhora está na foto. Então, eu supus… conhece todos que estão nela?
A professora continuou encarando a foto, como se em dúvida se deveria responder.
— Conheço sim. — McGonagall olhou para ela com os olhos cerrados, pensativa. — Alguém em especial lhe chamou a atenção?
confirmou com a cabeça e apontou para a foto. Para a mulher.
O olhar de McGonagall ficou mais pensativo, e um pouco triste.
— Essa é Alice Longbottom.
Lestrange se sobressaltou. Longbottom, de novo? Por que tudo recentemente voltava para os Longbottom? A foto, Neville, sua mãe… Seu estômago se revirou, a menina se sentia desconfortável, mas necessitava de respostas.
— Professora — chamou, tão baixo que achou que ela não iria escutar.
— Sim?
— É… é verdade? — engoliu em seco. — É verdade que… meus pais…
Ela não conseguiu continuar falando, mas McGonagall compreendeu sua pergunta. Seu olhar se tornou sério.
— Sim. Os Lestrange torturaram os Longbottom até estarem em um ponto pior que a morte. A criança foi dada como morta depois de desaparecer, e os dois estão no Hospital St. Mungus atualmente, sem reconhecerem ninguém e sem conseguirem falar. — A professora fez uma pausa. — Os Longbottom foram apenas algumas das vítimas. Centenas de trouxas e nascidos trouxas foram assassinados, assim como outros bruxos que lutaram contra Você-Sabe-Quem.
— Mas… deve ter um motivo. Tem que ter um motivo.
Ela conseguia detectar o desespero na sua própria voz. O olhar da professora se suavizou, ganhando uma pitada de pena.
— Há algumas atitudes que não têm justificativas, e você é uma garota esperta para saber disso.
— Mas eles… são meus pais — falou, baixo e desesperada. — Se eles… fizeram algo ruim… então, então eu…
— Você não precisa ser uma pessoa ruim só porque seus pais fizeram escolhas erradas, você não precisa se assemelhar a eles — a professora falou, cuidadosamente.
— Mas, se eu não me parecer com eles, então… então quem…
Quem iria se parecer com ela? Quem iria entendê-la? Quem iria amá-la?
se levantou subitamente, pegou a foto de volta e saiu praticamente correndo para fora da sala da professora McGonagall.
— Senhorita Lestrange!
Mas ela já estava longe demais para ouvir o chamado da professora.
Nos dias que se seguiram, tentou tirar de sua cabeça os Longbottom, apesar da professora McGonagall ter tentado abordá-la em vários momentos desde a conversa das duas na sala, momentos dos quais fugia habilmente. Também tentava ignorar as visões, apesar de estar sonhando com corredores do Departamento de Mistérios, de acordo com o que escutara das conversas de Harry Potter porque, claro, ela continuava vendo as mesmas coisas que ele.
Não, era hora de focar nos exames. Por mais que estivesse em dúvida sobre seus pais, seu tio sempre havia feito de tudo por ela, até mesmo perdoando-a por ser uma Grifinória, e era hora de retribuir. Ainda não tinha certeza de que carreira seguir, mas se conseguisse todas as notas altas, poderia entrar em qualquer carreira, e depois pedir conselhos ao tio sobre qual delas cursar. Ela iria conseguir, sabia.
O clima estava tenso, todos desesperados para os exames. No domingo, não conseguiu dormir direito, e teve quase certeza que nenhuma de suas colegas do ano havia feito o mesmo. Mas, depois de fazer a primeira prova teórica e a prova prática de Feitiços, ela ficou bem confiante. Não havia nenhuma pergunta que ela não soubesse, embora não tivesse tido tempo de responder a última de maneira mais completa, e realizou cada feitiço com perfeição na parte prática, recebendo sorrisos do professor Flitwick e do sr. Tofty que era o responsável por avaliá-la.
No dia seguinte, na terça, seriam os exames de Transfiguração. Queria ir bem em todos, claro, mas aquele conteúdo era um de seus favoritos, queria mais do que tudo poder ter um bom resultado no exame. Quando segurou a caneta para começar o teste escrito, sua mão tremia, mas não sabia dizer se era de nervosismo ou de excitação.
Depois do almoço, ela esperou ansiosamente até escutar a professora McGonagall ouvir seu nome:
— Lestrange, … Longbottom, Neville… MacMillan, Ernesto… Malfoy, Draco.
Os quatro entraram na sala. Infelizmente, ela estava tendo aquele azar: fazendo a prova com o primo que a odiava e com Neville Longbottom, que talvez a odiasse ainda mais. E era difícil culpá-lo por isso.
Naquela vez, a professora responsável por avaliá-la tinha sido a sra. Marchbanks. A velha senhora olhou para ela e curvou a boca em leve desaprovação.
— Lestrange, não? Pode começar.
Bem que havia escutado que a mulher era amiga da sra. Longbottom, avó de Neville. Com certeza não deveria gostar de alguém com o sobrenome Lestrange.
Um leve pavor se espalhou pelo peito da menina, mas ela se esforçou para abafá-lo. Não, tinha se dedicado por muitos anos para aquilo, eram feitiços que sabia de cor. Por isso, respirou fundo e começou a fazer as coisas conforme a mulher pedia.
Os pedidos foram passando e conseguiu fazer cada um com excelência. A mulher, antes carrancuda, esboçou um leve sorriso. Até mesmo a professora McGonagall estava sorrindo. Então, quando fez sua iguana desaparecer por completo, a avaliadora sorriu para ela.
— Excelente, srta. Lestrange. Pode ir!
Um alívio enorme avançou por , junto com uma onda de orgulho. Ela conseguira. Tinha certeza que tiraria um Ótimo. A sensação de felicidade era algo raro de sentir, mas, naquele momento, ela não conseguiu contê-la. Um sorriso enorme se espalhou pelo rosto de , transmitindo felicidade genuína.
E ela imediatamente ouviu três pessoas arquejarem na sala.
A primeira era a professora McGonagall, que a encarava com olhos arregalados. A professora Marchbanks a encarava com os olhos cerrados, a analisando, confusa. E, do outro lado da sala, havia Neville. Ele havia parado um feitiço pela metade, mas nem parecia perceber sua tartaruga. Apenas encarava fixamente com pavor, como se estivesse vendo um fantasma.
O sorriso da menina morreu na boca na mesma hora. Neville desviou o olhar, mas a professora McGonagall continuava com os olhos arregalados.
— Não é possível…
— Então percebeu o mesmo que eu, não é, Minerva? São iguaiszinhas!
— Mas… por esses anos todos… — a professora gaguejava, e franziu as sobrancelhas. Nunca vira McGonagall assim.
— O que está acontecendo? — perguntou, impaciente.
Mas a professora Marchbanks já havia desviado o olhar, e a professora McGonagall pigarreava.
— Espere aqui fora, srta. Lestrange. Conversaremos logo.
E esperou cada aluno fazer a prova. Neville passou por ela sem coragem de encará-la, e outros alunos estranharam seu comportamento, não indo embora como os demais que terminavam o teste.
Sua cabeça girava em perguntas que não conseguia ignorar. São iguaiszinhas. Com quem ela se parecia tanto a ponto de assustar a todos na sala? Com sua mãe? Já havia visto a foto da mãe várias vezes em busca de encontrar alguma semelhança e falhado tristemente. O que estava acontecendo?
Suas unhas já estavam sofrendo com as provas, e não havia sobrado um único pedaço para roer quando a professora McGonagall enfim saiu da sala acompanhada de Rony Weasley.
— Muito bem. Siga-me, srta. Lestrange.
Weasley lançou um olhar curioso na direção das duas, mas seguiu seu caminho para o salão comunal Da Grifinória, enquanto era levada para a sala da professora McGonagall. Esteve evitando a professora e aquele lugar por semanas, mas aqui estava ela de volta.
McGonagall estava muito séria, e isso deixou mais ansiosa.
— O que foi, professora? O que eu fiz? — disse, rompendo o silêncio.
A mulher ergueu o olhar e passeou por todo o rosto da menina. Então, se jogou na cadeira, parecendo cansada.
— Diga-me, srta. Lestrange. Por que você tanto quis saber se eu conhecia a mulher da foto?
franziu as sobrancelhas.
— Não compreendo o que isso tem a ver com…
— Por favor. — A voz da professora soava quase… desesperada. — Diga-me.
Pega de surpresa com a vulnerabilidade de McGonagall, a garota se viu confessando:
— Tinha alguma coisa nela que me parecia muito familiar, mas eu não entendo. Nunca conheci a sra. Longbottom na vida, ela já estava em um hospital desde que eu era um bebê.
As palavras escaparam de com certo alívio. Vinha ignorando aquela dúvida há muito tempo, e se sentia bem colocando-a para fora.
A professora McGonagall se levantou, alcançando um pequeno espelho e colocando-o de frente para .
— Feche os olhos, srta. Lestrange. — Confusa, não rebateu e apenas obedeceu à professora. — Agora, quero que se lembre daquela felicidade que você estava sentindo depois da prova. Da alegria que despertou aquele sorriso.
Ainda de olhos fechados, murmurou:
— Não entendo o que isso tem a ver…
— Faça-o — exclamou a professora. Então, com um tom mais suave, acrescentou: — Por favor.
A garota suspirou e tentou colocar de lado todas as suas dúvidas e obedecer à professora. Relembrou o sentimento de satisfação que dominou seu peito, cada feitiço perfeito que havia realizado, cada sorriso que despertou nas professoras presentes, até que sentiu um próprio começar a se abrir em seu rosto.
— Abra os olhos.
A voz da professora mal passava de um suspiro, mas, mais uma vez, ela obedeceu. O espelho ainda estava na sua frente, mas, dessa vez, ela não via seu rosto normal: indiferente, acinzentado, com olhos baixos e expressão amarrada. Não, ela via uma outra versão de si mesma: mais bonita, com olhos brilhantes, bochechas redondas amigáveis e um sorriso bonito e gentil. Nem parecia ela mesma. Na verdade, parecia-se muito com outro rosto que ela tanto conhecia.
O sorriso se desfez, mas a imagem não saía de sua cabeça.
Com o sorriso no rosto, ela se parecia indubitavelmente com Alice Longbottom.
PARTE II
— I saw a change in you
My dear boy
They don't make loyalty like they used to
My dear boy
They don't make loyalty like they used to
olhou com horror para a professora McGonagall, as mãos tremendo sem parar. A professora a olhava com cuidado.
— Você também percebe, não percebe? A semelhança.
— Professora… o que isso significa? — sussurrou, a voz saindo tão trêmula quanto as mãos.
McGonagall se levantou, tirando o espelho da frente da garota, e deu a volta na mesa, parando de frente para ela.
— Não sei o que significa. Tenho algumas teorias, mas nada que eu possa comprovar.
— Teorias?
Fala sério, Neville Longbottom tinha uma irmã gêmea?
A criança foi dada como morta depois de desaparecer.
A memória da voz de Pansy Parkinson começou a ecoar por sua cabeça até começar a doer, se misturando à voz da professora McGonagall da lembrança. Ela deixou um arquejo escapar da garganta.
— Neville… Neville tinha uma irmã gêmea. A senhora disse que ela desapareceu — murmurou .
— Sim, eu disse isso.
— Como assim? Como alguém desaparece?
A professora McGonagall suspirou.
— Quando os aurores chegaram na casa dos Longbottom, capturaram Bellatrix, Rodolpho e Rabastan Lestrange, além de Bartolomeu Crouch Jr., torturando Alice e Franco Longbottom, numa tentativa de descobrir a localização Daquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado. O que eles não sabiam era que ele havia sido derrotado por Harry Potter. — Ela cruzou e descruzou os braços, agitada. — Eram dois bebês, mas na casa só restava um. A criança sumira, mas não era a primeira a estar desaparecida. Augusta Longbottom mobilizou vários aurores em busca da menina, mas ela nunca foi encontrada, como se tivesse morrido ou… sido levada. Mas nunca houveram sinais de nenhum dos dois.
E então olhou firme para , porque ali estava o sinal que durante 14 anos ninguém nunca havia encontrado.
engoliu em seco com dificuldade. Sabia o que a professora estava pensando, e sabia que ela mesma estava pensando o mesmo.
— Qual era o nome? — perguntou, baixinho.
— O quê?
— Qual era o nome dela? Da… Irmã de Neville?
A professora McGonagall tinha uma expressão pesarosa no rosto.
— Nora. Nora Longbottom.
revirou aquele nome na língua. Nora. Nora Longbottom. Um único nome que poderia mudar toda a sua vida.
Sabe o que significa, Lucio… A criança Longbottom deve morrer.
desmoronou na cadeira.
— Srta. Lestran… — a professora se corrigiu. — , o que foi?
Esse tempo todo, não era uma tentativa de assassinar Neville.
— O Lorde das Trevas — ela sussurrou, trêmula. — Eu acho… Acho que ele quer que meu ti… Lucio Malfoy me mate.
McGonagall franziu as sobrancelhas.
— O que quer dizer com isso?
Então, lhe contou tudo. Sobre as visões, sobre o Lorde das Trevas em sua casa, sobre a conversa que escutara dele e de seu tio. Ela, que sempre se mantinha calma, se sentia escorregar por um penhasco perigoso.
Porque, depois de fazer sua vida toda ao redor de ser amada por Lucio Malfoy, não queria pensar o que significava ele concordar em matá-la.
— Esse tempo todo… — Ela soluçou, lágrimas quentes escorrendo por seu rosto. — Esse tempo todo eu estava tentando entender por que Neville. E agora… era eu o tempo todo. Porque sou eu, não sou? De alguma forma… Nora Longbottom… Ela sou eu.
A professora McGonagall puxou a menina para um abraço, tomando-a de surpresa. Há quanto tempo ela não era abraçada? As lágrimas se intensificaram conforme todo o sentido da sua vida ruía diante dos seus olhos.
— Está tudo bem, . Sei que o professor Dumbledore estará de volta e logo nos ajudará com isso.
— Eu não quero morrer — ela murmurou, logo depois soluçando.
McGonagall se afastou e a segurou pelos ombros, séria.
— Você não vai morrer, entendeu? Eu não vou deixar. Você não vai voltar para a casa dos Malfoy nas férias, eu… darei um jeito. Dumbledore dará um jeito. Tudo irá se resolver, entendido? Acredita em mim?
encarou a professora e percebeu que, de alguma forma, ela acreditava. Havia algo na postura inabalável da mulher que não dava espaço para dúvidas. Por isso, só concordou com a cabeça.
— Ótimo. Então me escuta. — McGonagall olhou bem fundo em seus olhos. — Você vai voltar. Vai continuar se saindo maravilhosamente bem nos exames. Vai seguir tudo normalmente como se não soubesse de nada, entendeu? É essencial que isso se mantenha em segredo até termos alguma prova.
— Tudo… tudo bem.
— Me chame, . Me chame se precisar de mim. E acredite que tudo vai dar certo no final, ok?
A menina fungou e concordou com a cabeça. Então, a mulher deu um último aperto na sua mão.
— Então é hora de voltar para o salão comunal, vamos?
Ela definitivamente não queria ir. Pela primeira vez em toda sua vida, ela não queria ficar sozinha. Mas se o que suspeitava estivesse correto… os Lestrange e os Malfoy teriam um crime terrível nas costas, e precisavam de frieza para desmascará-los. Ela sabia, o que não necessariamente tornaria tudo mais fácil. Mesmo assim, ela foi para o salão comunal.
Foi tão estranho entrar no local. Tudo parecia igual e ao mesmo tempo diferente. Seu olhar se prendeu em um garoto de rosto redondo e cheio de sardas no canto da sala. O rosto de Neville sempre a incomodara porque sempre pensou que ele era parecido com o rosto que ela poderia ter se fosse mais fraca. Não, não mais fraca. Mais gentil. Mais feliz. Por todo aquele tempo, tinha perdido as coisas boas da vida, se prendendo a acreditar em uma ideologia que já martelava dúvidas em sua cabeça.
Por um lado, era um alívio pensar que não era verdadeiramente parente de pessoas que fizeram coisas tão horríveis. Mas, por outro, todas as pessoas que ela amou e chamou de família por toda a vida não o eram.
Na verdade, estavam dispostos a matá-la por mando da pessoa certa.
Mas ela teria que fechar a boca. Terminar os N.O.M.s porque sabia que, estivesse a sua teoria certa ou não, eles definiriam toda a sua vida. E depois… depois procurar provas e se proteger, porque ela não se deixaria ser assassinada pela pessoa que mais amava em todo o mundo.
Embora esse amor começasse a ruir quando se descobria que a outra pessoa estava disposta a matá-la.
Foram dias difíceis, tentar focar em cada exame e ignorar todos os medos e dúvidas que rondavam sua cabeça, especialmente depois do dia anterior, em que a professora tinha sido estuporada e desacordada por quatro ajudantes da diretora Umbridge durante a prova prática de Astronomia. deixou o fim da prova em branco e saiu da sala, chorando. Sempre havia sentido pouco, se permitido pouco, e agora parecia que uma barreira havia se rompido dentro dela, como se tentasse compensar tudo o que havia reprimido por toda a vida.
Ao chegar no salão comunal da Grifinória, conjurou um fogo mágico na lareira e, com um grito, arrancou o “I” prateado que estava em sua roupa, lançando-o às chamas. Não queria nada relacionado com aquela mulher baixa.
Quando os alunos da Grifinória retornaram para o salão comunal, minutos depois, encontraram a garota com uma expressão raivosa e lágrimas silenciosas escorrendo pelo rosto. Estava com raiva de Umbrigde sim, mas também apavorada. A única pessoa que se propôs a ajudá-la e protegê-la tinha sido a professora McGonagall, e, sem ela, se via diante de uma realidade assustadora: poderia sim ser morta por Lucio Malfoy.
Foi Hermione quem se aproximou dela, depois que todos trocaram olhares.
— … você está bem?
Ela olhou para cima, chocada, sem saber o que dizer. Não conversava com aquelas pessoas, não conversava com ninguém, mas ela percebeu no olhar de cada um ali a mesma indignação que o olhar dela.
abaixou a cabeça e falou, quase tão baixo quanto um sussurro.
— Espero que Umbridge pague. — Seus olhos miravam o chão. — Espero que ela pague por ter feito isso com a professora McGonagall.
Todos ali ficaram surpresos, por mais que tentassem disfarçar. Era justo, desde quando Lestrange demonstrava se importar com alguém ou alguma coisa? Mas foi justamente se permitir sentir isso que fez com que todos se sentassem ali, ao redor dela. Não só do quinto ano: nem percebera que esse tempo todo estivera cercada de alunos da Grifinória, todos com a mesma indignação no olhar.
E passaram a noite reclamando de Umbridge e temendo a condição da professora. Só foram dormir 4 horas da manhã, e não conseguiu pregar os olhos. Ao mesmo tempo, pela primeira vez uma parte de seu coração há muito esquecida tinha sido preenchida.
Não teria a ousadia de chamar os colegas da Grifinória de amigos, ela não merecia aquele título. Mas era bom se sentir… pertencente. Parte de um grupo que sentia o mesmo que ela, queria o mesmo que ela.
Por isso, apesar de tudo, estava ali, fazendo a prova teórica de História da Magia, depois de ter recebido um convite de estudar coletivamente com o quinto ano. Ela ficou mais quieta do que qualquer coisa (já sabia todos os conteúdos e não sabia se comunicar muito bem), mas foi… bom. E se aquilo era bom, qual seria a sensação de ter amigos?
balançou a cabeça, se forçando a focar. Não tinha dormido muito bem, mas não havia noite em claro que poderia tirar dela todo o seu conhecimento. Não, ela preparou a pena e começou a escrever com velocidade cada resposta.
Estava na metade da prova quando a noite mal dormida começou a cobrar um preço. Sua escrita se tornou mais lenta e suas pálpebras começaram a se fechar. Se convenceu de que só as estava fechando porque conseguia se concentrar melhor na resposta. Sim, a revolução dos leprechauns… Era nisso que pensava…
Até que sua visão mudou. Agora, ela estava em uma sala com o Lorde das Trevas, junto a Lucio Malfoy. O primeiro estava de olhos fechados, concentrado, enquanto seu tio — ou, muito provavelmente, seu sequestrador — aguardava, tenso. Enfim, o Lorde das Trevas abriu os olhos.
Lucio se prostrou para frente, solícito.
— Deu certo, meu Lorde?
O Lorde das Trevas abriu um sorriso sombrio.
— Veremos. Mande os comensais para o Departamento de Mistérios. Hoje a profecia será minha.
despertou da visão ao escutar um grito. Abriu os olhos e encontrou Harry Potter gritando, caído de sua cadeira, acudido pelo professor Tofty. Ela tinha tido uma visão, sabia, mas teria sido a mesma da sua? Por que estava gritando?
O professor Tofty o acompanhou para fora da sala e começou a levantar, até escutar a voz da professora Marchbanks.
— Srta. Lestrange, volte ao seu lugar. O sr. Potter já está sendo acudido, e você tem um exame para finalizar.
Frustrada, voltou para a cadeira. Sabia que não tinha chances de sair antes que o tempo da ampulheta terminasse, mesmo que corresse para finalizar a prova. Soltando um suspiro frustrado, ela então se dedicou a escrever as respostas, torcendo que isso ajudasse o tempo a correr mais rápido.
— Abaixem as penas.
Ela nunca havia se sentido tão aliviada com o comando. Mal esperou sua prova ser recolhida para sair correndo do Salão Principal. Certo, ele devia ter sido levado para Madame Pomfrey, então ela correu naquela direção.
Mas, quando entrou na Ala Hospitalar, não havia ninguém lá além da curandeira.
— Madame Pomfrey! — falou, sem fôlego. — Sabe… Sabe dizer onde está Harry Potter?
— Sinto muito, querida, mas ele acabou de sair.
então disparou para fora. Para onde ele iria? O salão comunal? A sala de algum professor?
Lembrou-se de todos os anos em que se especializara em observar e investigar Harry Potter. Como podia ser tão tola? Era óbvio que ele estava com Rony Weasley e Hermione Granger. Ela voltou correndo para as escadas que os alunos desciam, e, lá, do topo, não enxergou nenhum dos três. Seu coração começou a acelerar de frustração: para onde poderiam ter ido?
A adrenalina começou a baixar em seu corpo e ela se apoiou no corrimão, ofegante. Não corria tanto assim desde que tinha se atrasado para o exame de Feitiços do primeiro ano, e tinha sido em vão.
Será que sua preocupação tinha sido besteira? Ele nem ao menos estava na Ala Hospitalar. Ela então sacudiu a cabeça e decidiu voltar para o salão comunal. Talvez, quando ele voltasse, pudesse perguntar se tudo estava bem.
se deparou com um salão comunal bem cheio (Simas Finnigan e Dino Thomas estavam fazendo uma celebração pelo fim dos exames), e não demorou muito para de fato Harry entrar no salão.
Ela correu para tentar alcançá-lo, mas ele já estava cercado de outras pessoas, e dispensava cada uma, parecendo apressado. Havia de fato algo de errado. se aproximou dele.
— Potter, eu preciso…
— Agora não.
— Mas… é sobre as suas… — Ele bateu o quadro da mulher gorda atrás de si. — Visões — ela completou, em um murmúrio derrotado.
Não. Sacudiu a cabeça e o seguiu porta a fora. Ainda tinha tempo de descobrir o que estava acontecendo e, quem sabe, ajudar. Ela correu para fora e o seguiu, ou tentou, encontrando mais uma multidão de alunos. Viu que ele havia virado a esquerda, mas perdeu-o de vista, e, antes que pudesse seguir mais adiante, foi interrompida por uma assustada Gina Weasley.
— Vocês não podem vir por aqui, alguém soltou Gás Garroteante por aqui!
E todos foram forçados a sair. suspirou, frustrada, e voltou ao seu plano original: aguardar Harry Potter — de novo — no salão comunal.
Ansiosa, ela se sentou perto de uma janela e começou a repassar sua visão. Lucio e o Lorde das Trevas, o primeiro indo para o Departamento de Mistérios a mando do segundo. E ele mencionara uma profecia novamente, assim como havia mencionado quando estava decidido em matá-la.
Ela mordia a unha roída quando percebeu uma movimentação no lado de fora: Harry Potter e Hermione Granger acompanhados da… diretora Umbridge? E os três andavam para a Floresta Proibida. O que que estava acontecendo? se pôs de pé, mas então recuou. O que faria entrando na floresta? Não sabia que tipos de criatura havia por lá, mas sempre era avisada de seus perigos. Talvez… Talvez fosse melhor aguardar.
Mas então pouco tempo depois ela percebeu Rony Weasley, Neville Longbottom, Gina Weasley e uma estudante loira da corvinal também entrarem na floresta. Algo sério estava acontecendo, e ela precisava… bom, precisava fazer alguma coisa, depois de tantos anos sem fazer nada.
Ela correu para fora do salão comunal e desceu as escadarias com pressa, desviando de cada aluno ou professor. O fim da tarde ia se aproximando e ela não queria, de jeito nenhum, entrar na floresta à noite.
Fora do castelo enfim, ela correu mais, até chegar aos limites da floresta. Estava esbaforida e pensando em como iria entrar e encontrá-los. Se ao menos já tivessem aprendido feitiços de rastreamento…
Um barulho chamou a atenção de , e a garota olhou para cima, ficando boquiaberta. No alto, ela via o grupo flutuando, bem, no nada. Se não tivessem aprendidos sobre Testrálios nas aulas de Trato de Criaturas Mágicas, ela pensaria que estava louca. sacudiu a cabeça, precisava agir logo, porque eles estavam se afastando muito rapidamente.
Não poderia entrar na floresta e procurar um Testrálio. Não, ela nem conseguia vê-los, quem dirá montá-los. Teria que pensar em outra forma de voar.
Óbvio, uma vassoura! Sacando a varinha, ela se murmurou, concentrada:
— Accio vassoura!
Achou a princípio que seu feitiço havia falhado, mas então uma Nimbus 1998 veio em sua direção. Ela agarrou a vassoura, sentindo um arrepio percorrer seu corpo. Não montava há tanto tempo… Mas, quando posicionou as pernas nas laterais da vassoura, parecia que só haviam se passado dias.
Quando olhou para o alto, percebeu que o grupo já estava fora de vista. Desesperada, começou a se recordar da direção em que eles estavam indo. Para onde estavam indo, afinal?
Mande os comensais para o Departamento de Mistérios. Hoje a profecia será minha.
Ela xingou baixinho. Para o Ministério da Magia, claro. Onde — ela arrepiou ao pensar — os comensais estariam. Onde aquele que pensou ser seu tio estaria, aquele que concordou em matá-la. Não era exatamente onde ela gostaria de estar.
Mas se lembrou da professora McGonagall defendendo Hagrid bravamente. Lembrou-se dos sorrisos cruéis do Lorde das Trevas e daquela que pensou ser seu sua mãe. E lembrou-se que Neville Longbottom, um garoto que poderia ser seu irmão, estava lá em cima, rumo a uma luta perigosa.
Ela não tinha escolha. teria que ir.
A vassoura decolou com sua decisão e começou a seguir o caminho. Às vezes, bem ao longe, ela conseguia distinguir pontinhos voando no céu, e sabia que estava na direção certa, mas estava muito atrasada.
A noite já estava avançada quando enfim ela reconheceu a cidade de Londres. Havia perdido o grupo de vista, mas tentou se recordar da vez em que ela e Draco acompanharam Lucio no trabalho. Eles tinham ido para uma cabine telefônica e Lucio discou um número.
— Por que 62442? — Draco perguntou à época, recebendo apenas um “calado” de Lucio como resposta.
Mas lembrava de ter pesquisado nos livros e descoberto que era porque os números significavam “Magic”. Decidiu contar para Draco, o que resultou apenas em uma batida de porta em sua cara.
Porém, ali, aquela informação era útil. Ela pousou a vassoura ao lado do primeiro ponto vermelho que avistou e entrou correndo na cabine, levando a vassoura consigo. Discou os números rapidamente e ouviu uma voz feminina preencher a cabine.
— Bem-vinda ao Ministério da Magia. Por favor, informe seu nome e o objetivo da visita.
— Les… — A garota parou no meio do caminho. — Longbottom. Longbottom. Objetivo, bem, tentar não morrer.
— Obrigada. Apanhe o crachá e prenda-o no peito das vestes.
Um crachá saiu da fenda de devolução de moedas. Longbottom. Missão de sobrevivência.
Depois de ter a varinha revirada, a cabine enfim começou a descer como um elevador, até alcançar o Ministério da Magia. Quando enfim a cabine parou, ouviu a voz pela última vez.
— O Ministério da Magia deseja à senhorita uma noite agradável.
Ela engoliu em seco, saindo da cabine e levando a vassoura consigo. Apoiou-a ao lado da cabine — não pensava que a vassoura seria tão útil ali, e precisava da mão livre para usar a varinha.
Ela atravessou todo o saguão principal, estranhamente vazio, mesmo que fosse após o expediente. Ela sentia cada pelo do seu corpo arrepiar conforme o único barulho que escutava eram seus passos ecoando até alcançar o elevador. Quando finalmente entrou, se viu perante outro problema.
Qual era o andar certo?
Apertou o primeiro número, o número 2, e as portas se fecharam. O elevador desceu e logo abriu, com uma voz anunciando “Departamento de Execução das Leis Mágicas”. então apertou o número 3. “Departamento de Acidentes e Catástrofes Mágicas”.
Foi apenas quando o elevador se abriu no nono andar que a voz, para seu completo alívio, anunciou “Departamento de Mistérios”. E o cenário era completamente assustador.
Ela esteve em cada um daqueles corredores antes, em cada sonho que tinha tido. Sabia exatamente que caminho percorrer e que porta abrir. Quando enfim chegou em uma parte que não conhecia, uma grande sala circular com portas pretas idênticas. Seria um trabalhão saber por onde seguir, mas duas portas estavam marcadas com um grande X e apenas uma estava aberta. sabia exatamente para onde o grupo tinha ido. E reconheceu o lugar no momento em que entrou.
As lembranças dos sonhos foram voltando. Precisava ir para o corredor 97, sim… se lembrava desse número no sonho… Ela correu depressa para lá, percebendo que as esferas que tanto via em seus sonhos eram, na verdade, profecias. Sabia disso por causa de sua pesquisa recente, mas o temor tomou seu corpo mesmo assim.
No fim, tudo era por causa de alguma profecia.
Estava quase alcançando o corredor quando começou a ouvir as vozes do grupo.
— Harry, acho que você não devia tocar nisso. — Era a voz de Hermione Granger, ela percebeu.
— Por que não? É alguma coisa ligada a mim, não?
— Não, Harry. — Agora era a voz de Neville.
A garota, enfim, alcançou o corredor, ofegante. O grupo se virou na direção do barulho e todos ficaram com olhos arregalados ao se deparar com a garota, mesmo Harry, que estava com as mãos estendidas na direção de uma das profecias.
— Lestrange? O que você…
— O que você está fazendo, Potter?! — ela interrompeu Rony. — Não pode pegar uma profecia assim!
Ele franziu as sobrancelhas.
— Uma… profecia?
— São isso que essas esferas são, profecias, e só podem ser retiradas por quem está citada nela.
— Bem, eu estou nela…
Mas os olhos de Hermione Granger se arregalaram.
— Harry, não! É tudo um plano! Você-Sabe-Quem quer a profecia, mas não pode buscá-la e está usando você!
Antes que pudesse concordar com a garota, no entanto, sentiu a ponta de uma varinha encostada em sua garganta.
— Meninas espertas. — começou a tremer. Reconhecia sem nenhuma dificuldade a voz da pessoa que mais tinha amado. — Realmente era um plano e você, Potter, vai me ajudar a completá-lo agora, ou essa aqui morre.
— Solte-a agora, Malfoy — ele retrucou, o olhar indo da garota até o homem que a ameaçava.
— Só quando você pegar a profecia e entregá-la para mim.
De canto de olho, começou a reparar em outros comensais se aglomerando ao redor. Estavam ferrados. Eles precisavam fugir dali antes que fossem destruídos e mortos.
A garota engoliu em seco e virou os olhos para Harry.
— Está tudo bem, deixe que ele me leve! Não importa o que aconteça, não entregue a profecia, não somos amigos mesmo.
— Não… — Harry protestou.
— De fato, não são amigos — disse Lucio, e a voz dele fazia com que se escolhesse. Nunca havia usado aquele tom com ela. — Diga-me, sobrinha querida, depois de tudo que eu fiz por você, quando decidiu me trair?
— Quando descobri que eu não era sua sobrinha querida — ela retrucou, com a voz sombria.
Ela queria poder observar o rosto dele perante a revelação de que ela conhecia a verdade. Poder encará-lo e perguntar como ele pôde. Mas havia uma varinha apontada para seu pescoço que impedia tudo isso.
— Então, enfim, não há mais segredos entre nós — ele murmurou. — Isso facilitará na hora de matá-la.
— O que é uma pena, pois eu pensava que você poderia ser tão útil!
, paralisada pela varinha, virou apenas os olhos na direção da voz da mulher e conseguiu logo identificá-la. O rosto que passara sua infância inteira contemplando, aguardando, sonhando em vê-lo pessoalmente. Mas, agora que estava frente à frente com Bellatrix Lestrange, só conseguia sentir nojo.
A mulher fez um bico, imitando um bebê chorão.
— Não vai dizer olá para a mamãe?
— Você não é minha mãe! — ela gritou de volta.
— Hm. Pensando bem, Lucio, você tem razão, ela virou apenas uma criança chata e chorona. Mate-a logo.
— Só por cima do meu cadáver — Harry praticamente rosnou.
— Isso nós veremos depois que você pegar a profecia. Agora! — Lucio apertou a garganta de com a varinha, e ela tossiu.
O olhar de Harry se tornou preocupado, e ela percebeu que ele estava prestes a pegar a profecia. Só havia uma coisa a fazer, e talvez fosse a última que fizesse em vida.
Bem, a existência de não tinha sido das mais memoráveis. Não tinha vivido quase nada de interessante, exceto traições e intrigas, não tinha ninguém que a amasse, mas ainda assim sentiria falta de viver. Poderia ao menos se despedir fazendo algo de útil por pessoas que pareciam genuinamente boas.
Com a maior velocidade que pôde, alcançou a varinha e apontou para a estante:
— Estupefaça!
Mas mal convocou o feitiço e sentiu uma dor terrível invadir seu corpo. A varinha de Lucio foi rápida em silenciá-la. Ela ouviu alguns gritos, um som de estilhaço, mas, muito rapidamente, tudo ficou escuro.
EPÍLOGO
— You pulled the wrong trigger
This empire belongs to me
This empire belongs to me
Luzes brancas e fortes cumprimentaram quando ela abriu os olhos, fazendo sua cabeça doer. Na verdade, tudo doía. Tentou girar a cabeça e sentiu uma dor absurda, mas ao menos conseguiu identificar onde estava: na Ala Hospitalar de Hogwarts.
Ao seu lado, ela percebeu um adormecido Rony Weasley, com boca aberta e tudo. Também havia um pequeno copo de água ao seu lado, que ela se esticou para pegar, por mais que sentisse todos os seus músculos se repuxando.
Uma outra mão pegou o copo e levou até os seus lábios.
— Vá com calma. Seu corpo ainda está se recuperando — disse Madame Pomfrey, firme e cuidadosa.
A água desceu fresca por sua garganta, trazendo um alívio imediato. A curandeira afastou o copo dela assim que percebeu que ela tossia, acordando sua própria voz.
— O que… o que aconteceu? — murmurou com a voz ainda um pouco arranhada. — Era para eu estar morta.
— Então que bom que não está, não é? Meninos tolos e corajosos. — A curandeira sacudiu a cabeça. — Me dê um instante, tem alguém que está querendo falar com você.
E se retirou, deixando sozinha por um instante para relembrar e processar tudo o que havia acontecido.
A visão. Ela indo para o Ministério. A profecia. Lucio Malfoy e Bellatrix Lestrange. Um feitiço que ela acreditou que seria o feitiço da morte. Mas ali estava ela, respirando.
Antes que pensasse muito mais, Madame Pomfrey retornou para a Ala Hospitalar, seguida por outra mulher, que vinha um pouco mais lenta seguindo-a de bengala. Os olhos de se arregalaram.
— Professora McGonagall — disse, baixinho, mas com um sorriso no rosto. — A senhora está bem!
A professora sorriu de volta para ela, e percebeu que seus olhos estavam levemente molhados. Ou talvez tivesse sido uma impressão, pois a professora piscou e as lágrimas já não estavam mais ali.
— Estou. E vejo que a senhorita também. Fico feliz.
— Eu também, professora. Eu queria… queria ter feito alguma coisa pela senhora — confessou. — Aquela mulher é… é uma covarde!
— Acredito que a ex-diretora já está tendo consequências nada agradáveis. — E olhou para uma cama bem afastada da Ala Hospitalar.
levou um susto ao reconhecer a diretora deitada na cama, olhando fixamente para cima, apavorada. Pensou em perguntar o que tinha acontecido, mas outra coisa chamou sua atenção no lugar.
— Ex-diretora?
McGonagall se sentou na beirada da cama e olhou para frente, pensativa.
— A ida de vocês ao Ministério teve muitos desenrolares. Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado foi visto pelo Ministro e outros servidores, o que inocentou Dumbledore, que está de volta à escola. Dolores teve sua posição de Inquisitora removida da escola e, assim que for transferida para o Hospital St. Mungus, não poderá mais interferir em Hogwarts. — A professora fez uma pausa. — Vários comensais foram capturados e presos também. Lucio Malfoy estava entre eles.
parou e pensou no homem que acreditou por tanto tempo ser seu tio. E a dúvida que estava martelando em sua cabeça retornou.
— Como eu estou viva? Como ele não me matou?
— Tenho uma teoria interessante para isso.
As duas olharam para a porta e encontraram o diretor Dumbledore observando-as da porta. Ele entrou um pouco mais na Ala Hospitalar, com sua postura tranquila de sempre.
McGonagall o olhou, intrigada.
— E qual seria sua teoria?
— Pelo que Minerva me contou, baseado no que a senhorita disse a ela, Lucio Malfoy tinha ordens para matá-la, e de fato teve oportunidade para isso ontem, baseado no que me foi contado pelos alunos. Acredito que ele tenha de fato tentado te matar.
— E errou? — questionou, franzindo as sobrancelhas.
— Sua magia era fraca demais. Sabe — Dumbledore se sentou em uma cadeira próxima de McGonagall —, até hoje os bruxos das trevas ignoram uma magia fortíssima que rodeia o mundo desde sempre. Desprezam-a como se fosse uma fraqueza, tornando a fraqueza deles. Essa magia é o amor.
continuou confusa, mas esperou o diretor continuar.
— Acredito que Lucio Malfoy subestimou o quanto ele se afeiçoou por você nesses últimos anos.
— Ele não se afeiçoou a mim, ele estava apenas me usando — replicou, irritada.
— Uma coisa não exclui a outra. Veja, ele podia acreditar que estava apenas te usando ao mesmo tempo em que começava a se afeiçoar a uma menina que ele havia criado. E acredito que essa afeição tenha atenuado o feitiço: não é possível conjurar a Maldição Imperdoável da Morte sem ter a completa intenção de fazê-la, e, mesmo que contra sua vontade, uma parte dele passou a amá-la e o impediu de completar o feitiço.
A garota ficou atordoada e baixou a cabeça. Era mais fácil pensar que ele a odiava, tornava mais fácil esquecer as boas memórias que tinha dele. Era mais fácil pintá-lo como um monstro.
E Dumbledore parecia perceber exatamente o que ela pensava.
— Isso não significa que você deve perdoá-lo ou amá-lo, mas também não julgue a si mesma caso o faça. Magias como o amor são complexas demais para tentarmos controlar. Deixe que seu corpo processe todas essas informações. — Ele se levantou da cadeira. — Enquanto isso, tenho uma visita muito especial que faz questão de conhecê-la, ou melhor, revê-la. Acredito que já tenha escutado falar sobre a sra. Augusta Longbottom.
O coração de errou uma batida no peito. Augusta Longbottom. Sua avó. Será que iria gostar dela? Que iria se orgulhar dela? Abaixou a cabeça, envergonhada. Como ela iria se orgulhar de uma neta que trabalhou junto às pessoas que destruíram Alice e Franco Longbottom?
Mas não havia para onde fugir. Era hora de conhecer sua família, mesmo que talvez sua família não a quisesse. Pelo menos tudo estaria resolvido. Por isso, apenas assentiu com a cabeça, ainda olhando para o lençol alvo de sua cama, sem coragem de falar.
Ela escutou novos passos tomarem conta da Ala Hospitalar. Suas mãos voltaram a tremer, mas ela não podia evitar muito, então ergueu a cabeça.cabeça.
E tomou um susto.
Esperava uma senhorinha, mas quem entrou na Ala Hospitalar era uma idosa alta e com traços ossudos, usando um vestido roxo, acompanhado de uma enorme bolsa escarlate e um chapéu verde com algum tipo de pássaro empalhado. Não era muito educado ficar boquiaberta, mas não conseguiu se conter.
Por sorte, a sra. Longbottom também a encarava boquiaberta.
— Pelas barbas de Merlin! — ela exclamou. — Ingrid Marchbanks tinha razão, é igualzinha a Alice!
se ajeitou na cama, deixando a surpresa de lado e se sentindo subitamente sem graça e observada, conforme a mulher escrutinava cada centímetro do rosto dela.
— Diga-me — Augusta sussurrou, agora bem perto da menina —, é você, não é? Você é minha Nora?
engoliu em seco, engolindo algumas lágrimas também.
— Sim, eu… Eu acho… Sim, sou eu.
A sra. Longbottom piscou rápido, afastando ela mesma algumas lágrimas de seu rosto. Então, virou-se para a professora McGonagall.
— E como esta aqui é em Transfiguração, Minerva?
— É a melhor da turma — a professora falou, e não conseguiu conter um sorriso ao olhar para .
— É minha matéria favorita — a menina confessou. — Acho que fui muito bem nos N.O.M.s.
Augusta jogou a bolsa vermelha na cama, acertando as pernas de , e ergueu as mãos para os céus.
— Enfim, meu legado está garantido! Você não imagina como tem sido difícil com Neville. O menino é um doce, mas quer estudar Transfiguração? Não! Eu digo a ele sobre a importância para o futuro e como a matéria importava para os seus pais, mas ele…
A mulher continuou tagarelando, mas não a escutava direito. Tinha certeza de que seria odiada, mas a mulher tratava-a com… naturalidade. Como se já fosse da família. Sentiu seu peito se encher de alegria com a possibilidade de ter encontrado o seu lugar.
Havia muito para conversarem. Até mesmo com Neville, já que ambos se evitaram por todos aqueles anos e agora, meu Deus, agora eram irmãos gêmeos. Teria uma nova casa para conhecer. Novos familiares. Lembrou-se de todos os alunos que estavam no Ministério. Talvez tivesse novos amigos.
E poderia participar do quadribol. E… sair com alguém fora do horário permitido! Não precisaria mais se esconder, sempre passando despercebida, pronta para investigar alguém. Comemorar se a Grifinória fosse Campeã das Casas — até torcer por isso.
Havia muito o que descobrir ainda, era verdade. O Lorde das Trevas ainda estava à solta. Ela não escutara a profecia, não sabia qual poderia ser seu possível envolvimento nela, ou a causa de suas visões. Como Bellatrix Lestrange ainda poderia ir atrás dela para matá-la a mando do seu líder. Eram muitos problemas que bem provavelmente iriam atormentá-la no futuro.
Mas Augusta Longbottom ainda falava, tão alto que acordou até mesmo Rony Weasley. Dava discursos sobre a coragem de seu filho e sua nora. E de vez em quando dava um tapa na perna de , incentivando-a a responder seus enormes monólogos.
Tentou por muitos anos se encaixar, mas nunca tinha sido uma Lestrange. Nem mesmo uma Malfoy, algo que ela desejara muito em sua infância. Mas, em poucos minutos, ela já se sentia uma Longbottom.
E já eram os melhores minutos de toda a sua vida.
FIM!
Nota da autora: Olá para quem chegou até aqui! Muito obrigada pelo seu tempo, espero que tenha gostado!
Eu me diverti muito escrevendo essa história, pela qual eu criei tanto carinho e espero inclusive continuá-la no futuro.
Sempre importante reforçar, no entanto, que apesar de amar escrever nesse universo, desprezo e sou contra tudo o que é disseminado pela autora da obra, que é uma criminosa.
Eu me diverti muito escrevendo essa história, pela qual eu criei tanto carinho e espero inclusive continuá-la no futuro.
Sempre importante reforçar, no entanto, que apesar de amar escrever nesse universo, desprezo e sou contra tudo o que é disseminado pela autora da obra, que é uma criminosa.