05. Singing In The Rain
Codificada por:
Calisto
Finalizada em: 16/01/2026
PARTE I
Após mais uma desastrosa apresentação do Quarteto Smythe-Smith (embora tenha sido a melhor performance da jovem Hermione desde então, não que signifique muito), o fim da temporada será agraciado com uma noite de ópera no Teatro Royale, onde a própria rainha estará presente.
É esperado que vários dos melhores partidos da temporada estejam presentes nesta noite, então, até para as jovens que não são tão afoitas com a obra, o evento trará boas novidades. (E caso não goste de ópera, apenas permaneça em silêncio até o fim, e não faça como a srta. Eloise Bridgerton, que perguntou audivelmente quando o concerto das Smythe-Smith terminaria — por mais que isto passasse pela mente de todos).
CRÔNICAS DA SOCIEDADE DE LADY WHISTLEDOWN,
20 DE JUNHO DE 1812
— As cartas revelaram seu destino — a cartomante anunciou, seu tom baixo enquanto as poucas velas e a fumaça ajudavam em sua aura misteriosa.
olhou para Louise, que apertou sua mão, tentando confortá-la apesar de sua nítida ansiedade.
— E? — Louise perguntou pela amiga.
— Você… está amaldiçoada.
não deveria rir, não deveria mesmo. Porém, antes que pudesse evitar, uma risadinha já havia escapado de seus lábios. As sobrancelhas da cartomante se abaixaram, frustradas.
— Estou falando sério.
— Ah, por favor, não leve para o pessoal! — se apressou em explicar. — Mas eu prefiro não acreditar em uma palavra.
Louise soltou um murmúrio de exasperação.
— Isso não muda o preço. — A cartomante estendeu as mãos.
— Vamos — disse, logo depois de jogar algumas moedas na mão da mulher.
Os olhos da garota arderam quando saíram daquele ambiente abafado e escuro para voltar às ruas movimentadas do verão londrino. Louise saiu apressada logo atrás, ainda horrorizada.
— Está maluca, ? Ofender a cartomante? Ela pode lançar-lhe uma maldição, ou pior!
— Não seja boba, é apenas uma charlatã. Não devemos nos abalar por palavras feitas para assustarem.
— Nem depois da carruagem que quebrou essa semana? Do jornal com a notícia dos assaltos? Depois da… — a voz de Louise ficou mais baixa e tensa — carta do Lorde Trenton?
estremeceu de leve com a menção de seu antigo cortejo. Certo, ela deveria ter compreendido desde o início que, devido à diferença de suas classes sociais, não era propriamente um cortejo, e sim o galantear para ganhar uma amante.
Ela queria mais. Por isso, ele encerrou qualquer expectativa em seu coração com uma simples carta de despedida.
A mulher sacudiu a cabeça, afastando aquela sensação ruim.
— Não importa. Não importa o que Lorde Trenton diz, não importa o que aconteça, nossa vida não é definida por cartas.
As duas atravessaram a rua principal, voltando para o local que guardava o coração de : o Theatre Royale, em Covent Garden, a casa de ópera mais famosa do país, mesmo após seu incêndio há duas décadas. Por isso, não importava as carruagens grosseiras com cavalos que quase passavam por cima delas, nobres que não sorriam e as menosprezavam: ela estava em casa.
E o dono da casa de ópera, Sir Paolo Esposito, já as esperava, os olhos fixos em seu relógio de bolso, como estavam a maior parte do tempo.
— Ah, srta. , enfim, nos agraciou com a sua presença — ele disse, o sotaque italiano marcando seu tom passivo agressivo.
— Peço perdão, Sir Esposito, meu atraso não irá se repetir.
— Espero mesmo, ou infelizmente teremos que substitui-la na apresentação da temporada.
A ameaça percorreu a espinha de , mas ela não deixou de sorrir.
— Entendo completamente, sir.
— Então vá, o ensaio a espera. Assim como a sra. Gardner a espera, srta. Louise.
— Claro, Sir Esposito.
As duas amigas trocaram olhares de despedida enquanto cada uma seguia seu caminho: Louise com a dança, com o canto.
Porque ali estava todo o motivo que a sustentava dia após dia, mesmo com a carta de Lorde Trenton: cantar.
Era a maior felicidade que conhecia, desde os sete anos quando se juntou ao coral da Igreja de seu orfanato. Felizmente, seu talento notável a fez ser adotada por um grande professor de música: Sr. Theodore Stone, um homem de meia idade, sem filhos, apenas uma paixão: a música.
A mesma paixão que herdara.
Quando seus pés pisaram no grande palco, o arrepio familiar percorreu seu corpo. Não importava quantas vezes se apresentasse, observar aquelas cadeiras, e estar atrás das grandes cortinas vermelhas, que se abririam para que uma forte luz branca se focasse nela… o nervosismo sempre a deixaria elétrica.
Por isso não acreditava na cartomante. Como uma pessoa amaldiçoada poderia viver com uma bênção tão grande quanto aquela?
Logo, os demais cantores e o maestro tomaram ciência de sua presença.
— Ah, nossa rainha Elizabeth está entre nós! — o maestro exclamou, batendo uma palma. — Pois bem, estamos com o elenco completo para mais um ensaio antes da noite de hoje. Passaremos apenas as músicas, sem as coreografias, para agilizar. Do Ato I, cena I!
O espartilho apertava as costelas de , mas não o suficiente para não deixar o ar entrar. Não, ela precisava dele, se agarrava a cada sopro que ela transformaria quando retornasse de seu corpo por sua garganta, passando por suas cordas vocais. O ar precioso se transformava em música em seu poder.
E ela usou cada respiração no tempo certo para se apresentar à noite inteira. Era sua melhor performance, ela sabia. Podia sentir na forma que as notas vibravam ao sair de seu corpo, como o abdômen se contraía para oferecer apoio para cada nota aguda, como a boca se abria para permitir que as notas voassem alto pelo teatro.
E, claro, pelos aplausos mais estrondosos do que nunca que se seguiram de sua apresentação.
Já na coxia, diversos outros cantores a parabenizaram, mas ela os respondeu rapidamente, procurando por Louise. Encontrou a amiga rodeada de buquês de flores das mais diversas, lendo cada um dos cartões. Ergueu o olhar quando percebeu se aproximando.
— Presente dos seus admiradores. — Louise segurou uma rosa e cheirou. — Sabe, você teria um bom dinheiro se aceitasse…
— Não — cortou a amiga de vez.
— Mas, ! Você sabe que é impossível se casar bem sendo cantora de ópera.
— E você sabe que amantes são abandonadas assim que ganham filhos, o que é praticamente inevitável. Não se lembra de Paolla?
— Mas você não é Paolla. — Louise nem se prendeu a falar sobre a antiga soprano. — Pode ter uma vida boa e…
— Mas eu tenho uma vida boa! — riu, pegando uma margarida e prendendo no cabelo da amiga. — Não são carruagens quebradas que fazem a vida ser ruim.
— Mas não conseguir pagar um vestido novo com certeza não deixa a vida boa — lembrou.
Mas a amiga nem ao menos a olhou, preocupada em trançar diversas flores tiradas dos buquês em seu cabelo. Isso, até o teatro tremer com uma familiar tempestade de verão.
— Ah, preciso ajudar a sra. Gardner com os baldes! — Louise saiu correndo, deixando a amiga a sós.
Nem olhou para trás para perceber que a amiga sorria e logo disparou para a saída lateral da ópera. Mais distante, ela podia observar que várias famílias nobres corriam para serem abrigadas em suas carruagens, voltando para suas confortáveis mansões, porém isso pouco importava para . Sabendo que ninguém a olhava, preocupados demais com a tempestade, ela pisou mais a frente, sentindo os pés encharcarem ao tocar no chão, ao mesmo tempo que grossas gotas começaram a pesar seus cabelos e sua roupa (Sir Esposito a mataria se visse o que estava fazendo com o figurino).
Mas a chuva não a abalava — na verdade, a fez sorrir com mais vontade. Protegida pela escuridão e abraçada pela chuva, começou a cantar.
Por toda a sua vida, sempre que algo estava errado, ela cantou, e isso a impedia de se entristecer. Entretanto, soltar a voz na chuva, ah, aquilo era especial. Sempre se lembraria do Sr. Stone sorrindo a cada trovoada, olhando-a de um jeito travesso antes de dizer:
— Hora do show.
E os dois cantavam e tocavam e dançavam. Até a pneumonia o abater, mas nem assim ele instruiu a parar.
E ela não parou. Cantou a plenos pulmões sua canção favorita, rodopiando até sua saia ficar pesada demais e ela desabar na rua, às gargalhadas.
Uma trovoada iluminou o caminho e a assustou de leve. Sentada no meio da lama, as flores desabando do seu cabelo, ela escutou o som do trovão tomar o mundo, inclusive a sua voz. Abriu um último sorriso e soube que era hora de entrar, pois seu coração já estava completo.
O que ela não soube é que não estivera sozinha esse tempo todo.
Já dentro da casa de ópera, trocou de roupa. Porém, de volta ao camarim, encontrou Louise sentada, as mãos se embaralhando uma na outra, em claro sinal de nervosismo.
— Louise?
A amiga a encarou, os olhos arregalados, então semicerrados conforme ela observava os pingos escorrerem de seu cabelo.
— Estava brincando na chuva novamente, não estava? Por Deus, ! — Mas, antes que a amiga pudesse se defender, ela continuou. — Não importa. Há um lorde aqui que deseja falar urgentemente com você. Um tal de Lorde Fenninston está aqui para vê-la. Você o conhece?
— Claro que não o conheço, Louise. Se eu o conhecesse, você o conheceria.
— Foi o que pensei — ela admitiu. — Pedi que ele se retirasse, disse que você estava cansada, mas ele insistiu tanto. Estava pálido, , achei que pudesse desmaiar.
A cantora sentiu um embrulho em seu estômago. O que poderia ser tão urgente.
— Peça que ele entre. Mas — ela segurou a mão da amiga, que já se levantava —, fique comigo, pode ser?
— Não precisa pedir. — Louise piscou, antes de seguir até a porta e chamar o tal lorde.
A primeira coisa que reparou foi que o homem tinha uma grande barriga. E um grande bigode. Usando uma cartola e um paletó bem trabalhado, parecia desconfortável no meio daquela imensidão de flores.
— Srta. .
— Lorde Fenninston. — Ela e Louise se abaixaram em uma reverência. — É um prazer. Espero que a ópera desta noite tenha sido de seu agrado.
— Ah. Sim, sim, de muito bom gosto — ele respondeu vagamente.
E , astuta, percebeu que o que quer que este lorde quisesse com ela nada tinha a ver com seu canto.
Percebendo que o homem permanecia em silêncio, deslocado, lhe apontou uma das cadeiras e perguntou:
— Por que não se senta e nos conta por que estava me procurando?
— Receio que seja um assunto particular — o homem respondeu, olhando de esguelha para Louise.
Sua amiga, por sua vez, estufou o peito.
— Se eu fosse o senhor, Lorde Fenninston, pouparia seu tempo tentando me retirar do recinto, pois não irá acontecer. Além disso, posso te garantir que, o que quer que o senhor diga a , eu o saberia no momento em que cruzasse a porta.
Os dois travaram olhares sérios. Tantos segundos depois, Lorde Fenninston soltou um suspiro e se soltou na cadeira.
— Como desejar. — Então seu olhar voltou-se novamente para . — A senhorita se recorda do Duque de Longside?
Louise e se encararam, os olhos franzidos forçando a memória.
— O que sempre usava verde? — arriscou a dançarina.
— Não, esse era o Visconde de Plintforth. — Então sorriu, uma súbita memória tomando sua mente. — Era o de olhos muito azuis! Lembra? Que pareciam o céu de verão e sempre enviava trocados em seus buquês.
— Ahhhh!
— Sim, precisamente. — Lorde Fenninston pigarreou. — Acredito que estejam cientes da morte prematura do Duque no começo desta semana.
arregalou os olhos.
— Isso… isso é um interrogatório? Posso garantir que não tenho nenhum envolvimento nisso!
— Eu sei, senhorita, temos apenas a natureza a quem culpar. — Lorde Fenninston sacudiu a cabeça, seu grande bigode sacudindo junto. — Sabe, o duque teve uma esposa, mas eles não foram abençoados com crianças, então o ducado foi passado para um sobrinho.
— Entendo. — Mas, na verdade, ela não entendia. O que ela tinha a ver?
O lorde pareceu perceber sua confusão, porque soltou um longo suspiro antes de dizer:
— O duque teve apenas uma filha. Ilegítima, fora do casamento. Você, srta. .
A cantora se sobressaltou.
— O… o quê?
— O senhor está nos pregando uma peça? — perguntou Louise.
— Certamente não estou. Disse que se recorda dos olhos do falecido duque. Eles não a recordam de nada?
e Louise se encararam, tentando decidir se aquilo tudo era um golpe, até que Louise arquejou.
— , ele tem razão! Seus olhos… são idênticos aos dele!
— Mas… eu não entendo — ela gaguejou, ainda baqueada com a informação. — O que isso importa? Mesmo se for verdade, filhos ilegítimos não são reconhecidos na sociedade.
— De fato — concordou. — Nem mesmo podem ser inclusos em testamento. Por isso, o duque me procurou pessoalmente e me pediu que, caso uma fatalidade acontecesse, ele me passasse uma parcela de sua fortuna e, então, eu a entregasse a você.
Naquele ponto, a cantora já estava assumindo que estava sonhando. Não era possível que aquilo era real, certo? Há uma hora, estava apresentando-se como Rainha Elizabeth, e agora estava recebendo uma fortuna de um confidente de seu… pai? Um duque?
— Sei que é muito para processar — pontuou Lorde Fenninston —, mas não estou aqui para ludibriá-la. — Ele remexeu os bolsos por dentro do paletó, estendendo então alguns papéis levemente amassados. — O duque me pediu para entregar isto a você.
As mãos de tremiam enquanto ela pegava os papéis.
— O que são? — Louise fez a pergunta que teria feito se não estivesse tão desnorteada.
— Documentos reunidos pelo duque em caso de suspeitas de sua parte. Cartas trocadas com sua mãe quando ela ainda era sua amante, a cópia do testamento, a carta em que ele me solicitou este grande favor. E há mais.
— Mais? — basicamente gaguejou.
— O duque desejava que você recebesse mais do que o dinheiro: queria que você usufruísse de uma vida digna. Ele possuía uma irmã, em plena saúde, que reside em Paris. Ele incluiu em seus desejos que você passasse um tempo com Lady Montmorency, sua… tia, para que recebesse educação formal e se tornasse sua pupila. Assim, em dois anos, quando a sociedade nem ao menos se recordar de sua ópera, poderá retornar como uma dama apresentável.
A cantora praticamente não ouvia nada, suspeitava que seu cérebro estivesse em pane, incapaz de acompanhar nenhuma informação. Abriu a boca, pronta para perguntar algo sério, mas a única coisa que conseguiu dizer foi:
— Louise pode vir comigo?
Lorde Fenninston soltou um longo suspiro.
— Receio que o desejo do falecido duque se estenda apenas a você. — Então, o homem se levantou, mexendo em seu bigode. — A noite já está se estendendo, devo retornar para casa. Fique com os documentos, analise-os e me dê uma resposta… amanhã à tarde, sim? — abriu a boca, mas o lorde apenas abanou o ar com uma mão. — Muito bem, até amanhã, então.
E fechou a porta, deixando as duas amigas paralisadas para trás.
A primeira a conseguir reagir foi Louise, que deu um berro.
— Não acredito! Você é basicamente uma herdeira!
— Louise, não! Essa história toda pode ser apenas uma grande mentira bem contada de um lorde entediado. E, além do mais, eu nem poderia levar você.
— E quem se importa? — Louise pegou as mãos da amiga nas suas. — , você entende a grandiosidade disso? Se isso tudo for real — e, acredite, só pela similaridade de vocês, eu acredito que seja real —, você poderá viver seu sonho! O dinheiro sem se submeter a ser uma amante, casar com alguém respeitável sem perder essa estabilidade.
— Mas terei que abrir mão da ópera — choramingou.
— Poderá cantar quantas óperas quiser em sua mansão. Pense, cozinheiros preparando todas as suas refeições, vestidos novos a cada temporada… Ah, é um sonho!
— Não sei se é o meu sonho. Não sem você.
— Então viva o nosso sonho por mim! — Louise abriu um sorriso. — Pense, você vai poder me comprar um belo vestido novo quando voltar da França.
— Eu te compraria dezenas deles.
— É esse o espírito.
As duas se olharam, sorrindo, antes de suspirar, os olhos se enchendo d’água.
— Isso parece tão surreal. Como ele nunca me procurou antes? Como soube durante esse tempo todo? E me mudar, largar tudo, tão repentinamente?
— Bem que a cartomante poderia ter nos prevenido mais cedo para essa notícia bombástica e nada amaldiçoada — Louise brincou.
— Eu te avisei que ela era uma charlatã!
As duas sorriam e, inesperadamente, foi puxada para um abraço.
— Conheça o mundo. Estude. Tenha o seu dinheiro. Você pode voltar para cantar, se depois assim desejar, mas você tem uma oportunidade única, que todos aqui nessa ópera matariam para ter. Realize esse sonho por todos nós.
Os olhos de Louise brilhavam de expectativa, e soube que seria impossível dizer não para algo que a deixaria tão feliz, mesmo que isso afastasse as duas. Ainda confusa, a cantora estendeu os documentos que estavam em sua mão.
— Então… hora de trabalharmos.
PARTE II
Nesta quarta-feira, acontecerá o baile dos Heartsides. Diversas famílias da sociedade foram convidadas e, com elas, seus filhos solteiros. O maior partido da temporada é, sem dúvidas, o Visconde Bridgerton, embora há anos reforce seu desejo de não casar-se.
Mas não se aflija! Lorde Bridgerton possui dois irmãos mais novos (sim, esta autora sabe que são três, mas Gregory Bridgerton não passa de uma criança e, portanto, não é de interesse desta coluna). E, embora não possuam títulos, os irmãos Bridgerton são conhecidos por sua beleza, carisma e um bom dote financeiro, sem contar a relação da família com o Duque de Hastings — cunhado dos Bridgertons.
Embora, no caso do segundo irmão, Benedict Bridgerton, recentemente seja mais fácil encontrá-lo nas óperas do que nos bailes. Porém, uma fonte segura assegurou esta autora de que ele estará presente.
CRÔNICAS DA SOCIEDADE DE LADY WHISTLEDOWN,
18 DE ABRIL DE 1814
Benedict Bridgerton olhou ao redor, entediado. Pelo menos, para sua sorte, seu irmão estava na cidade e sendo alvo dos ataques de sua mãe, que acabara de terminar uma dança com Penelope Featherington. Benedict, por sua vez, estava apenas envolvido em conversas tediosas com lordes conhecidos que de nada muito falavam, além de suas fortunas e conquistas.
Por sorte — ou azar —, seu irmão Colin apareceu.
— Benedict! Posso roubá-lo por um segundo?
— Com licença, senhores. — Benedict tentou se fingir triste por sair da conversa, mas não conseguiu.
Os dois caminharam um pouco mais longe dos demais convidados, quando Colin abriu um sorriso de lado.
— Salvei-o mais uma vez, não?
— Desembuche — Benedict cortou aquela arrogância.
— Acabei de apresentar a Anthony a mais esplêndida pretendente para ajudá-lo com essa ideia de querer se casar.
— Você não seria tão generoso assim. O que ela tem? Uma obsessão por viscondes?
— Não acredita na minha generosidade? — Colin colocou a mão no peito, chocado, mas sua expressão logo se transformou em um sorriso maldoso. — Digamos que ela possuía opiniões bem fortes sobre nosso irmão.
— Positivas?
— Nem de longe. — Os dois acabaram gargalhando. — Agora Anthony provará um pouco de seu ego ferido.
Eles abriram um sorriso duplo, e logo pegaram taças de champanhe que eram servidas, brindando.
— Céus, como isso é infantil comparado a um bom rum.
— Como os que tem tomado nas óperas?
Benedict quase cuspiu o conteúdo de sua taça. Seu irmão era um imbecil.
— Não posso mais apreciar a arte em paz?
— Anda, conte-me seu segredo. É uma amante? Não, você não estaria tão frustrado se fosse.
Benedict sentiu a irritação do irmão acertá-lo em cheio, mas não cedeu.
Como poderia explicar que, há quase dois anos, vira uma das cenas mais lindas de sua vida? Se fechasse os olhos, ainda podia visualizar a cena. Visualizá-la.
Sentada no meio da chuva, os cabelos loiros encharcados com os pingos grossos, o vestido vermelho pesado, mas a voz… era difícil lembrar com precisão agora, mas parecia enviada dos céus. Com aquele relâmpago a iluminá-la, parecia uma visão que quase fez Bridgerton se converter fielmente à Igreja.
Mas, assim que desviou o olhar e retornou para procurá-la, ela havia sumido. Como uma visão de um homem enlouquecido, mas ele sabia que era real. E, tão próximo da ópera, com aqueles figurinos, ela deveria ser uma cantora ou dançarina.
Voltou no dia seguinte para a apresentação, mas não havia nenhum sinal de uma mulher que se encaixasse no perfil dela. Ele tentou várias outras vezes, prometendo que desistiria no dia seguinte, mas não conseguiu. Havia algo tão cru naquela cena, uma felicidade tão genuína que não poderia ser conquistada com nenhum baile ou dote. Era interno, e transbordava por aquelas notas.
— Terra para Benedict. — Colin estalou os dedos na frente de seu rosto. — Puxa, se não te conhecesse, diria que está apaixonado.
— Não seja tolo, Colin.
No mesmo instante, um burburinho começou a tomar conta do salão perto da entrada. Uma senhora mais velha, desconhecida para ele, mas certamente reconhecida por muitos que a reverenciavam, entrava no salão, acompanhada de uma jovem que ele nunca vira em nenhum evento social.
E sabia que nunca a havia visto, pois se lembraria de uma jovem assim.
O sorriso honesto da jovem combinava com seus cachos loiros, que lhe davam uma aparência angelical. O vestido azul delicado que cobria seu corpo combinava com os seus olhos, que cintilavam ao absorver o salão, por mais que ela parecesse tentar conter o seu olhar e seu sorriso.
Algo brilhava, dentro dela. Aquele mesmo tipo de felicidade crua, por mais que ela tentasse esconder e se mesclar com aquelas pessoas enfadonhas. Ela era diferente, ele sabia.
— Com licença.
Ele registrou em algum canto de seu cérebro Colin o chamar e praguejar algumas vezes, mas não se importou. Só sabia que precisava chegar perto daquela garota, do mesmo jeito que sabia que precisava respirar.
Benedict não registrou nenhum dos rostos que passavam por seu caminho, na verdade, seu coração só se acalmou quando parou de frente a ela. Ou melhor, apenas acelerou mais.
Ele sentiu uma mão no seu braço e percebeu que, acidentalmente, havia parado ao lado da mãe. Pela primeira vez, estava feliz com este cenário.
— Benedict! Que bom que está aqui! Estava procurando Anthony, mas não o vejo. Será ótimo apresentá-lo a Lady Montmorency, irmã do falecido Duque de Longside.
Benedict se recordou do senhor de olhos azuis gentis, falecido há dois anos. Era até agradável para alguém de sua posição.
— É um prazer conhecê-la, Lady Montmorency. — Ele se abaixou em uma reverência, embora seus olhos se fixassem no vestido azul com ansiedade.
— Igualmente, sr. Bridgerton.
— E o que a traz de volta a Londres? Desde que se mudou para a França, nunca mais tive notícias da senhora pela região. — Violet a olhou, curiosa e tranquila.
— Ah, decidi voltar para ajudar minha querida pupila a se estabelecer. — E ela, enfim, apontou para a linda moça ao seu lado. — Essa é a srta. .
Os olhos de Benedict brilharam ao poder associar aquele lindo rosto a um nome. . Sim, combinava com ela.
A garota percebeu que ele a encarava e abriu um sorriso pequeno enquanto se abaixava em uma reverência curta.
— É um prazer conhecê-la, srta. .
— Igualmente, sr. Bridgerton.
— Seu sotaque parece inglês, mas pensei escutar que estivesse vindo da França?
— Meus pais eram pessoas simples do interior de Londres. Cresci por lá, mas, já na adolescência, tive o prazer de conhecer o Duque de Longside, que por sua vez me apresentou Lady Montmorency. Sou muito grata aos dois por minha educação.
— É mesmo uma garota de sorte, senhorita — Violet pontuou, bondosamente.
— Nem imagina quanto — respondeu, com uma risadinha.
Ah, ele estava perdido.
— E posso perguntar se seu cartão está livre para a próxima dança?
encarou Lady Montmorency, que a encorajou com um sorriso, antes de responder Benedict:
— Está sim.
— E eu poderia ter a honra de ocupar esta vaga?
— A honra seria minha.
Ele escreveu seu nome no cartão de dança, entusiasmado, sem perceber o olhar sábio de Violet encarando os dois, percebendo que algo clicava. Então, Lady Bridgerton sorriu.
não sabia o que esperar de um baile na sociedade, mas aquilo estava superando todas as suas expectativas. O salão dos Heartsides era enorme, com lindos candelabros, a música fluía como se fizesse parte de seus movimentos, a comida parecia deliciosa.
Porém, o melhor de tudo ainda era o homem que dançava com ela, sorrindo com adoração.
Não podia negar que, apesar de sua empolgação, entrara naquele salão com grande receio de alguém reconhecê-la por sua breve temporada no Teatro Royale há dois anos. Entretanto, o sr. Bridgerton a encarava com um sorriso encantador como se ela fosse uma verdadeira dama, e a conduzia de tal forma que ela se sentia flutuar.
E ele era de tirar o fôlego. Os cabelos castanhos pareciam tão macios que ela sentia vontade de tocar. Seus olhos e seu sorriso eram gentis, diferente da frieza que Lady Montmorency a alertara que encontraria nos lordes (e já observara dos bastidores há tanto tempo). E ele era alto. Céus, o alto de sua cabeça mal alcançava o ombro dele. Mas sua altura não a assustava, pelo contrário, parecia oferecer abrigo do resto do mundo.
Talvez, ela não precisasse temer esse novo mundo da aristocracia se isso lhe permitisse ter momentos como esse.
— Fico muito contente em conhecê-la, srta. . Temo que o baile estava deveras enfadonho antes da sua presença.
— Então foi minha presença que invocou a música? — brincou.
— A sensação que tenho é essa — respondeu, sério, fazendo a garota corar. — Diga-me, está feliz de retornar após tanto tempo?
— Ah, com certeza! Mal vejo a hora de poder contatar antigos amigos que aqui deixei. E é tão bom poder usar minha língua materna novamente. A língua francesa é de fato muito romântica, mas não é verdadeiramente minha. Entende?
E, com aqueles olhos azuis erguidos em sua direção, ele apenas pôde engolir em seco e responder:
— Entendo.
— Perdoe-me se estiver divagando. Lady Montmorency diz que o faço com frequência.
— Pois nunca me considerei uma pessoa muito sensata. — Benedict sorriu. — Então sinto informá-la que pretendo apenas incentivá-los.
Ele a rodopiou. Quanta sorte de a primeira dança da noite ser uma valsa que a puxasse tão perto para o corpo dele!
— É o que gosta de fazer em seu tempo livre? Pensar nas insensatezes?
— Principalmente as que meus irmãos falam.
— O senhor tem irmãos?
Benedict ficou surpreso. Estava tão acostumado a todos associarem-no à família, a ser o segundo filho, que ficou um segundo sem respostas diante de uma pergunta que pouco significava, ao mesmo tempo que significava tudo. Para ela, ele não era apenas um Bridgerton. Ele era o Bridgerton.
— Sete irmãos, na verdade. Quatro meninas e três meninos.
— Valha-me, senhor!
arregalou os olhos e tirou a mão do ombro de Benedict, tapando a própria boca. Garota idiota, treinara tanto para não falar nenhuma besteira, e de nada adiantara! Para sua surpresa, no entanto, o homem caiu em uma suntuosa gargalhada.
— Me perdoe. Infelizmente, os modos prévios da época de minha tutoria não foram arrancados de mim — confessou, com as bochechas fervendo.
— Pois eu fico feliz por isso — confessou, ainda com alguns espasmos da risada escapando de sua boca. — A senhorita é de fato uma presença revigorante.
— Não mais revigorante que as outras sete em sua casa, imagino — disse, ainda um pouco espantada.
— Ah, há anos meus irmãos deixaram de ser revigorantes para apenas me perturbar no tempo livre. O que me leva a perguntar: o que a senhorita faz em seu tempo livre?
Ela cerrou a boca. Ora, cantar era um hobbie normal de uma dama da sociedade, mas não queria trazer nenhuma associação sua com a ópera. Deveria mentir e dizer cavalgadas? Ou bordado?
Porém, ao olhar novamente nos olhos gentis do sr. Bridgerton, ela sentiu a verdade ser arrancada de si, como se esta sempre tivesse pertencido a ele.
— Cantar — confessou, o sorriso invadindo seu rosto sem que percebesse. — O que me faz feliz, faz com que eu me sinta viva, é cantar.
Benedict prendeu a respiração. Havia tanta intensidade naquela confissão que o deixou desnorteado, e, pela segunda vez na noite, despertou sua lembrança sobre a jovem cantando perto do Teatro Royale. E se fosse ?
A ideia era absurda. Na época, a garota estava na França, e ele tinha certeza que era alguém que trabalhava na casa de ópera. Não fazia o menor sentido, mas era a primeira vez desde então que seu coração identificava aquela felicidade crua. Talvez por isso aquela garota o encantasse, talvez por o lembrar daquela noite.
Porém, antes que ele pudesse comentar qualquer coisa sobre o assunto, as cordas pararam de tocar e a música terminou. Com relutância, e Benedict se soltaram, ainda encarando um ao outro.
Como a extensão do silêncio e a imobilidade deles começou a atrair alguns olhares, Bridgerton pigarreou.
— Obrigado por esta dança. Foi um prazer conhecê-la, srta. .
— O prazer foi meu, sr. Bridgerton.
Ela fez uma reverência, mas, antes que pudesse partir, ele segurou delicadamente seu pulso envolto pela luva.
— Espero ansiosamente revê-la amanhã no Teatro Royale, já que a senhorita parece tão afeita à música.
congelou. Não seria sábio retornar para aquele local, seria? Mas também seria uma oportunidade de buscar Louise, algo que ainda não conseguira desde que chegara à cidade.
E ela não sabia se conseguiria negar qualquer coisa àqueles lindos olhos.
— Será um prazer encontrá-lo amanhã na casa de ópera, sr. Bridgerton.
PARTE III
O baile dos Heartsides foi bastante comentado, em especial pelo fato de que, pela primeira vez em todas as suas temporadas, o Visconde Bridgerton foi visto dançando com diversas jovens. Será que este será o ano em que veremos o Visconde casado?
A volta depois de anos de Lady Montmorency também causou bastante rebuliço, embora mais fosse pela pupila que ela trouxera a Londres para ser apresentada à sociedade — e que logo conquistou a atenção de vários rapazes, incluindo os senhores Travis Plingtum, Kurtis Everdone e Benedict Bridgerton.
Mas a temporada está apenas começando, e hoje ela continuará em um dos mais famosos cenários de Londres — o Teatro Royale. Diversos cavalheiros solteiros confirmaram presença, então, se o matrimônio for seu objetivo, talvez seja hora de demonstrar interesse por Sonho de Uma Noite de Verão.
CRÔNICAS DA SOCIEDADE DE LADY WHISTLEDOWN,
19 DE ABRIL DE 1814
— Você precisa respirar fundo, .
A garota encarou Lady Montmorency ao seu lado, que segurava seu braço para lhe dar segurança.
— Mas e se alguém…?
— Ninguém a reconhecerá — sussurrou a mulher, interrompendo os pensamentos que já conhecia tão bem. — Apenas assista à ópera como uma boa admiradora. É tudo o que precisa.
E, como se para garantir que não havia com o que se preocupar, Benedict Bridgerton apareceu, olhando para todos os cantos como se procurasse alguém. Então, seus olhos cravaram-se nela, e ela soltou um arquejo. Era ela quem ele procurava.
Ele se aproximou, abaixando a cabeça em uma reverência.
— Lady Montmorency. Srta. .
— Sr. Bridgerton. — Lady Montmorency olhou para além da multidão. — Ora, vejo que sua mãe se aproxima, devo cumprimentá-la. Poderia cuidar de para mim por enquanto?
— Seria uma honra.
Nenhum dos dois se incomodou com a óbvia desculpa para deixá-los sozinhos. Na verdade, só tinham olhos e sorrisos um para o outro.
— Você está magnífica esta noite — elogiou.
E era assim que ela se sentia, o vestido azul do baile da noite anterior substituído por um vermelho com rendas brancas, que abraçava seu corpo e combinava com o rouge de seus lábios, de onde Benedict também não conseguia tirar os olhos.
— Obrigada. O senhor está muito bonito esta noite, sr. Bridgerton;
— Só essa noite? Puxa, sabia que minha mãe estava mentindo com todos os seus constantes elogios.
— Ela com certeza não mentiu — respondeu a garota, uma risada presa nos lábios. — Em todas as vezes em que te encontrei, o senhor estava bonito. Embora seja uma experiência bem curta de tempo.
— Mas também é a mais importante. — Ele piscou, fazendo-a corar. — Então, gostaria de pedir ajuda para a senhorita, já que claramente é uma especialista em música.
— Claramente — respondeu, brincando, embora sentisse o estômago voltar a se contorcer de nervosismo.
— Não é uma pergunta muito educada da minha parte, mas a vestimenta feminina não deveria atrapalhar na hora de cantar?
Ela abriu um pequeno sorriso, embora sentisse suas bochechas esquentarem já que sabia que a peça em questão que ele se referia era parte do conjunto de roupas íntimas.
— O senhor tem razão. As cantoras de ópera precisam ser as vestes adaptadas para não atrapalhar na respiração. Quando eu… — ela prendeu a respiração, mas rapidamente se recuperou, mudando o rumo de seus pensamentos — tive aulas de canto na infância e adolescência, tive muitas experiências com o assunto.
— Fico feliz que este tenha sido um interesse que a senhorita conseguiu desenvolver desde cedo.
— Tive sorte, já que meu pai era professor de música — respondeu, o carinho em sua voz transparecendo. — E o senhor? Possui alguma paixão?
Benedict foi pego de surpresa. Geralmente, suas conversas giravam ao redor de sua família — quem ele amava com todo o seu coração —, e era raro peceber interesse na sua vida, não no seu dinheiro. Talvez, por isso, ele se sentiu compelido a contar a verdade:
— Na verdade, eu amo desenhar. E pintar.
— Puxa vida, que fantástico! O senhor deve ser um pintor incrível! — sorriu.
— Na verdade, nunca mostrei meu desenhos a ninguém. — confessou.
Ela o encarou, levemente boquiaberta, então voltou a exibir um sorriso.
— Se algum dia o senhor desejar que suas obras vejam a luz de outros olhos, eu amaria ser uma das privilegiadas.
— A senhorita está atualmente no topo dessa lista, não se preocupe.
Eles sorriam um para o outro, e as demais pessoas pareceram sumir. Suas almas pareciam conversar, como se já se conhecessem há anos. Então essa era a sensação de se apaixonar?, pensou ao sentir seu coração acelerado, ao mesmo tempo que se sentia relaxada pela primeira vez desde que abrira mão da ópera.
Estavam tão envoltos naquela sensação que nem perceberam a aproximação de Lady Violet Bridgerton com Lady Montmorency. As duas se entreolharam quando perceberam que os dois nem ao menos ergueram os olhos, e trocaram sorrisos, antes de Violet pigarrear. e Bridgerton levaram um pequeno susto e se voltaram para as mulheres.
— Lady Bridgerton! — se abaixou em uma reverência. — Peço desculpas por não tê-la cumprimentado antes.
— Não se preocupe, querida! Vejo que vocês estavam ocupados.
As bochechas de ambos ficaram vermelhas, o que animou ainda mais Lady Bridgerton.
— A ópera está para começar, viemos chamá-los. Lady Montmorency foi gentil o suficiente para nos convidar para seu camarote.
— Muito obrigado! — Benedict agradeceu, com um sorriso genuíno ao perceber que ganhara mais tempo ao lado de .
Os dois trocaram um olhar feliz antes que ele estendesse a mão, onde ela pousou a própria como se sempre pertencera àquele lugar.
Quando a ópera acabou, chorava lágrimas não tão elegantes. Amava aquela história, e tinha certeza que teria amado interpretar a rainha dasfadas, Titânia.
Porém, foi mais do que a história emocionante e o anseio de participar. Seu peito se apertou quando identificou Louise vestida de fada. Achou que talvez demorasse a identificar a amiga após tanto tempo, mas ela estava igualzinha. Era tão talentosa que parecia de fato estar flutuando, acompanhada de tantos outros rostos conhecidos. O Teatro Royale pouco havia mudado, a estrutura era a mesma, as pessoas eram as mesmas, mas ela estava completamente diferente. Era de outra classe social, tinha ambições que Louise sonhara a vida inteira, fazia aquilo por ambas, mas precisava arrumar um jeito de tirar a amiga de lá também.
Todos se levantaram ao fim do espetáculo, e ela percebeu que um lenço fora estendido para ela. Ergueu os olhos, encontrando o olhar gentil e curioso de Benedict.
— Obrigada — agradeceu, pegando o lenço e limpando as lágrimas. — Sou apaixonada por essa peça. Não é fantástico imaginar um mundo de fadas brincando com os humanos?
— Acho que imaginar tal situação é mais divertida do que vivê-la — respondeu. — Eu não gostaria de virar um burro.
A resposta tirou uma gargalhada genuína de , mais alta do que deveria, o que apenas alargou ainda mais o sorriso de Benedict, ao sentir que poderia passar fome se tivesse aquela gargalhada ao seu lado todos os dias.
— O senhor tem razão — ela concordou, agora usando o lenço para limpar lágrimas de gargalhadas. — Eu não gostaria de ser enfeitiçada também. A não ser que fosse um feitiço bonito.
— Mas todas as histórias mostram que a magia tem seu preço.
— De fato.
— , preciso dar-lhe uma palavra — anunciou Lady Montmorency, com um sorriso discreto.
— É claro. Com licença, sr. Bridgerton.
Os dois se encararam durante a reverência dela, ambos parecendo desejar que ela não se fosse, mas ela precisava, pois tinha uma suspeita feliz do que poderia ter feito com que a tia a chamasse.
— Sim? — perguntou, baixinho, assim que se aproximou.
— Enviei um recado para os bastidores. Em cinco minutos, sua querida Louise estará na entrada.
arfou, a emoção retornando aos seus olhos e a seu peito. Quem poderia dizer que aquela mulher teria um coração tão grande e gentila ponto de se compadecer com a amizade entre uma dançarina de ópera e a filha bastarda de seu irmão?
Mas Lady Montmorency a acolheu desde o primeiro dia, nunca discutindo o pedido do irmão, sempre a tratando como sua sobrinha legítima quando ninguém mais estava presente para olhá-las.
queria se jogar nos braços da mulher, mas não podia, não agora. Por isso, se contentou em responder, com a voz embargada:
— Muito obrigada. Por tudo. Eu a amo e tenho um profundo agradecimento pela senhora desde o primeiro dia.
— Eu sei, querida, eu sei.
Ambas trocaram um sorriso, as emoções tentando escapar, mas se seguraram. E, cinco minutos depois, anunciou para os Bridgertons que precisava buscar um brinco que esquecera no camarote, porém tomou o caminho para as portas dos fundos.
A rua estava escura, como da última vez que estivera ali, os paralelepípos reluzindo com a luz que escapara da porta junto com . Isso fez com que Louise erguesse os próprios olhos.
As mulheres não se contiveram e saíram correndo uma para o braço da outra, as lágrimas já correndo antes mesmo de se encontrarem no abraço.
— Louise! Ah, minha doce Louise, é você mesma!
— , você parece uma lady! Está tão linda!
— E você, com o figurino de fada? Estava etérea, ah, como eu quis estar ali com você!
— Não fale besteiras! Você está vivendo um sonho!
As duas se afastaram, finalmente encarando o rosto uma da outra. Louise estava um pouco mais magra, o que preocupou , já que ela, por outro lado, havia ganhado mais curvas ao se alimentar melhor.
Mas Louise sorria, tão feliz, que as preocupações de logo diminuíram, indo para um canto de sua mente com o qual iria se preocupar depois.
— Nem acredito que é você mesma. — Louise estendeu as mãos, tocando o vestido da amiga. — Meu Deus, é seda de verdade, me perdoe!
— Não se desculpe! Eu que peço desculpas, por desaparecer por estes dois anos! Tive que me esconder em Paris para que as pessoas pudessem se esquecer de mim, e para aprender a falar melhor, dançar, comer… Ah, são tantas regras estúpidas.
— Mas agora você pode viver seu sonho, . Pode se casar de verdade e… — Louise encarou a amiga, que estava com as bochechas vermelhas, então colocou as mãos na frente da boca, chocada. — Já tem alguém em mente? Quem?
— Não é em mente, mas… É que… Eu conheci somente ontem…
— Fale logo, !
— Acho que estou me apaixonando por Benedict Bridgerton!
As duas arregalaram os olhos, por sua admissão, e Louise pelo conteúdo.
— Ah! Ah! — Louise começou a sorrir sem parar. — Um Bridgerton! Eles são todos tão bonitos e gentis, bem apessoados e com boas posses. , se você se casar com um Bridgerton, já imaginou sua sorte?!
— Não sei se tenho essa sorte, afinal, sou amaldiçoada. — As duas caíram na gargalhada com a lembrança da cartomante há tantos anos. — Não sei, apenas o conheço há dois dias, mas eu sinto que é certo, entende? Ele… ele me faz ter vontade de conversar por horas, ou apenas ficarmos em silêncio um perto do outro. Ah, Louise, ele me faz ter vontade de cantar!
rodopiou, o vestido carmim tomando a rua vazia enquanto Louise gargalhava.
— E eu prometo, Louise. Prometo que, se eu me casar com Benedict Birdgerton, eu usarei meus recursos para que você seja feliz.
O sorriso de Louise diminuiu um pouco, e ela olhou para o chão, atraindo a curiosidade de .
— Louise? O que foi?
Quando a amiga tornou a olhá-la, osolhos estavam cheios de lágrimas.
— Ah, , me perdoe! As coisas mudaram desde que você se foi. A comida está mais cara, e o Teatro está nos pressionando cada vez mais a aceitarmos os serviços noturnos. Há dois meses… — Louise abaixou a cabeça, envergonhada —, me chamaram para trabalhar na La Belle Maison. Apenas como dançarina! — Ela se apressou em explicar, as mãos erguidas. — Mas, em uma noite, eu consegui o dinheiro do mês inteiro. E me chamaram para voltar, mas eu sei que se voltar, eu… E talvez eu esteja pronta, sabe? Para ser amante.
— Mas… Louise, você não pode.
— Na verdade eu posso — replicou, um pouco irritada. — Eu sei que não é o que nenhuma de nós sempre quis, mas é minha maneira de continuar sobrevivendo. Nem todas nós damos sortes de ganhar heranças. — Ela suspirou, abraçando o próprio corpo. — Por favor, , não me odeie.
— Eu nunca poderia odiá-la, eu te amo! — exclamou, puxando a amiga para outro abraço. — Eu só queria que tivesse outro jeito… Por favor. — Ela se afastou, segurando Louise pelos ombros. — Me dê um mês. Tentarei arrumar dinheiro para você. Irei te dar um novo vestido. Você nunca mais precisará retornar à La Belle Maison.
— Espero que seus sonhos deem certo. — Louise sorriu, então suspirou. — Certo, posso esperá-la mais um mês. Mas não se culpe caso as coisas não saiam como deveriam.
— Elas vão sair, eu tenho certeza. — cerrou os punhos, determinada. — Agora, preciso voltar para a ópera, ainda mais se preciso tentar me casar.
Louise encarou a amiga, afastando com o dedo uma lágrima que escorreu dos olhos.
— Você é uma boa amiga. Obrigada, , por não esquecer de mim.
— Isso seria impossível.
observou a amiga entrar, então correu até ela, já nas portas dos fundos, e deu um último abraço, antes de soltá-la.
Do outro lado, Benedict procurava . Quando começou a demorar, ansioso para estar em sua presença de novo, o cavalheiro saiu em procura da mulher no camarote, encontrando-o vazio. Procurou por vários locais e, preocupado, saiu do teatro, o coração apertado ao se lembrar da última vez em que estivera ali, há dois anos.
Seu coração já estava na mão, e apenas um olhar para cima o despedaçou. Ele reconheceu , abraçada firmemente a alguém, que logo entrou no teatro. Benedict se escondeu, a respiração acelerada, com medo que ela o visse.
Então ela tinha um amante? Mas chegara a Londres ontem, não? A cabeça de Benedict estava rodeada de perguntas, e nenhuma tinha uma resposta feliz, não com aquela imagem voltando como um flash em sua cabeça. abraçando outra pessoa com tanta paixão que, mesmo longe, ele pôde sentir. E pensar que acreditou que poderia estar se apaixonando por aquela mulher.
Mas parecia que ele estava fadado a ver todas as mulheres que mexiam verdadeiramente com ele escaparem de suas mãos.
PARTE IV
O evento mais aguardado desta semana é, sem dúvidas, o recital de Lady Bridgerton (que esta autora espera que de fato seja um evento musical de bom gosto, diferente de outros recitais que ocorrem na sociedade). Prometendo um famoso nome da música e com convites limitados, todos estão ansiosos para comparecerem, especialmente com a presença dos filhos de Lady Bridgerton no local.
A presença da própria duquesa de Hastings deixa o evento mais interessante, já que o casamento com qualquer um dos irmãos, mesmo os sem título, seria algo pelo qual uma dama sonharia.
CRÔNICAS DA SOCIEDADE DE LADY WHISTLEDOWN,
25 DE ABRIL DE 1814
balançava as pernas nervosamente enquanto escutava a linda voz da soprano Maria Rosso. Em parte, por vontade de se juntar a ela e cantar. Por outro lado, por uma pequena ansiedade de que Maria pudesse reconhecê-la (mesmo que houvessem se conhecido por poucos minutos, já que ela se despedia para ir para Viena ao mesmo tempo que chegava para substituí-la).
Mas a pior parte era, com certeza, o silêncio de Benedict Bridgerton.
Ela estava tão animada, acreditava fielmente que tinha encontrado sua alma gêmea (algo que nem achava que seria possível há poucos anos atrás), mas agora, sem nenhuma explicação, ele estava a ignorando há quase uma semana. Sem visitas. Sem flores. Sem cartas ou passeios. Nada.
E o coração de parecia presteza explodir de tristeza. Será que ela havia feito algo de errado? Será que ela descumprira alguma regra social sem saber que o constrangera? Será que ele apenas percebera que haviam outras garotas bem mais interessantes?
Sua cabeça rodava em suposições, e o ar parecia não estar chegando aos pulmões. Lady Montmorency ao seu lado apreciava o recital, e vários homens ao redor pareciam babar, todos alheios ao fato de que seu mundo parecia estar se revirando. Então, ela olhou para a única pessoa que ela queria que retribuísse seu olhar com um sorriso, mas Benedict permaneceu sério, olhando para frente como se sua vida dependesse disso.
Lágrimas começaram a se acumular nos seus olhos, mas ela as segurou o suficiente até o final da apresentação, quando a sala foi tomada de aplausos.
Diversas mulheres cercaram Lady Bridgerton para elogiá-la, e ela se juntou ao grupo.
— Lady Bridgerton, que apresentação linda!
— Como soube que Maria Rosso estaria de volta?
— Que bom gosto da sua parte!
— A escolha de músicas foi impecável!
— Lady Bridgerton — interrompeu as outras, com delicadeza —, poderia me mostrar onde fica o lavabo? A apresentação me deixou emocionada.
— Ah, querida, que bom que gostou! — Ela sorriu carinhosamente. — Fica à direita, perto das escadas.
— Obrigada!
Ela deslizou da multidão, evitando pretendentes que queriam lhe dirigir a palavra (por sorte, a maioria estava distraída com Maria Rosso), enquanto buscava o lavabo. O ambiente parecia se fechar ao redor dela, e parecia ter que forçar as pernas a se mexerem e alcançarem o lavabo, que parecia um refúgio…
Suas mãos se apoiaram na parede, tremendo, conforme o corpo perdia a força. Não, o lavabo não ia ser o suficiente. As lágrimas já corriam por seu rosto. Por que ela tinha que estragar tudo? Talvez devesse ter acreditado na maldita cartomante, afinal.
Não aguentaria mais fingir educação perto daquelas pessoas. Por sorte, o lavabo ficava perto de uma das saídas para os jardins. Ela nem ao menos esperou antes de abrir as portas com força.
Sentiu o ar úmido da noite atingir seus pulmões e respirou verdadeiramente pela primeira vez na noite. Por sorte, a previsão de chuva manteve todos os outros afastados dos jardins, onde pôde pensar.
Será que deveria se aproximar dele e perguntar o que havia feito? Não parecia correto uma dama da sociedade agir assim, mas a ansiedade em seu peito não permitiria que ela apenas observasse conforme ele se afastasse cada vez mais dela, sem entender o que havia feito para merecer perder tanto.
Havia feito uma promessa para Louise, ora! Mais do que a promessa do um mês para garantir o futuro da amiga, havia prometido que seria feliz. E, por um momento, ela acreditou que seria, mas tudo havia desmoronado na sua frente, sem ela nem ao menso saber por quê.
Será que era fútil se importar com um relacionamento de dois dias? Mas ela sentia que era tão mais, sentia que o conhecia a sua vida inteira, sentia algo tão certo… E, por um momento, teve certeza de que ele também se sentia assim.
Mas era tudo uma mentira. E talvez ela devesse apenas ser grata por não ter que se juntar a Louise na La Belle Maison, por pelo menos uma delas estar segura.
Ela demorou a perceber que a chuva caía, achando que a água em seu rosto eram apenas suas lágrimas. Ela olhou ao redor, segurando um soluço. O jardim era tão bonito, mesmo no escuro, e pensar nisso doía mais, porque aquela poderia ser a casa de sua família caso se casasse com Benedict. Mas aquilo era só um sonho infantil, pois uma filha ilegítima de um duque não era verdadeiramente sua filha.
A água acariciava sua pele como se tentasse consolá-la, e ela naõ conseguiu evitar sorrir. A chuva era sua amiga, até nos piores momentos de sua vida.
— Ah, meu Deus, se minha vida é fadada à desgraça, obrigada por me dar esse consolo — ela sussurrou, meio prece, meio desabafo, passando a olhar para o céu.
Então, fez a única coisa que sabia fazer em momentos assim: começou a cantar.
Benedict não deveria ter ido atrás dela. Na última vez que seu corpo se mexera atrás dela, tivera uma péssima notícia, mas não conseguiu evitar. Ela parecia uma maldita luz, e ele uma mariposa ridícula incapaz de se manter longe.
Ele se segurou por cinco minutos antes de ir atrás dela nos jardins, para onde ele havia visto que ela havia se esgueirado. O ar da noite o recebeu de braços abertos, assim como as gotas de chuva. Tomou o caminho da direita, mas foi paralisado quando um som o atingiu diretamente, como se descendo dos céus.
Ele conhecia aquela música. E conhecia aquela voz.
Seu corpo começou a se mexer por conta própria, passos lentos e incertos o aproximando da fonte daquela música.
E ali, olhando para os céus, o vestido lilás molhado começando a se grudar no corpo, estava . Mas não era . A chuva havia desmanchado o penteado de seu cabelo, que ele sempre vira preso, e as ondas caíam pelas costas molhadas. E não houve dúvidas.
Era a garota da ópera.
O coração dele disparou quando ela terminou de cantar e, depois de soltar um suspiro, se virou para ele. E se sobressaltou, assustada.
Nenhum dos dois falou nada. Estavam ali, analisando um ao outro. Benedict olhava para ela e tudo em si doía. Ela estava ainda mais linda do que qualquer outra vez que ele já a vira, com as ondas loiras molhadas e as gotas escorrendo por seu rosto como lágrimas, descendo para dentro de seu corset, começando a ficar visível por debaixo de seu vestido molhado.
Algo entre um rosnado e um ganido escapou da boca de Benedict quando seus pensamentos tomaram outro rumo, apagando completamente o possível amante de de sua mente.
— O que disse? — perguntou a garota.
— Que você deveria entrar — ele improvisou, no automático. — Vai se resfriar dessa maneira.
— Não preciso de sua ajuda — respondeu, se sentindo levemente magoada. Por mais que estivesse contente de tê-lo ali, ainda não conseguia esquecer a maneira que ele a ignorara.
— Entre, por favor — disse, a voz suave e… havia algo mais. Vulnerabilidade.
Aquilo a pegou de surpresa, e se deixou ser conduzida de volta para dentro da casa. Mas, ao invés de tomar o caminho do salão de baile, Benedict a conduziu para mais dentro do corredor, onde ela encontrou uma escada mais discreta.
— Venha.
Estava na lição número um do dia número um que não deveria nunca ficar sozinha com um homem, mesmo ele sendo um cavalheiro. Ora, era algo que ela sabia antes mesmo de fazer parte da sociedade! Mas sua mente parecia estar escolhendo propositalmente se esquecer deste fato, já que decidiu segui-lo por aquele caminho sem nem ao menos questionar.
Maldito homem bonito.
No andar de cima, ele rapidamente a conduziu para dentro de um quarto.
O quarto dele, ela pressupôs.
Deveria estar assustada, preocupada, alguma coisa. Mas tudo o que ela conseguia pensar era em como ele parecia tão atordoado. E em como era interessante observar um quarto de um cavalheiro por dentro.
Era tudo de bom gosto, os móveis de madeira escura e cara, as paredes marrons, as janelas amplas. Um móvel cheio de papéis.
Ela deveria ter desviado o olhar. Mas enquanto ele estava distraído tentando começar o fogo na lareira, ela se aproximou, como que impelida a estar ali.
E soltou um arquejo ao ver o que viu.
Diversos desenhos. Dela de azul, no baile dos Heartsides. Dela de vermelho, na ópera. Vários ângulos. Sorrisos para baixo, olhos arregalados, risadas escandalosas… Cada um deles parecia ter vida, como se ela visse cada memória diante dos seus olhos.
— Não era para você ver isso.
Ela saltou para longe da mesa, como se estivesse pegando fogo.
— Perdão! Eu não deveria ter bisbilhotado!
— Não deveria mesmo. — Ele deveria estar sorrindo, mas não estava. A culpa pesou nela.
— Me desculpe mesmo. — Ela olhou para os próprios pés, antes de tomar coragem e voltar a olhá-lo. — Se vale de algo, achei seus desenhos lindos. Perfeitos. Cheios de vida. Reais. São… nunca vi algo igual — confessou.
Ela olhou para Benedict, que não parecia tirar os olhos dela. Então, o fogo pegou, chamando a atenção de ambos.
— Fique perto da lareira. Para se aquecer.
Ela assentiu com a cabeça e se aproximou. O fogo iluminava suas ondas loiras, e seu vestido lilás parecia perigosamente justo. Benedict desviou o olhar.
encarava as chamas, observando-as dançarem. Que se danasse as regras sociais. Já estava dentro do quarto de um cavalheiro, qualquer outra conduta era ridícula perto daquilo.
— Por que me ignorou depois da ópera?
A pergunta pegou Benedict de surpresa. Ele olhou para ela, os lábios abertos e as sobrancelhas arqueadas, enquanto ela parecia diminuta, mas irritada perto do fogo, iluminando cada traço de forma majestosa.
Era a cena mais linda que já havia visto. Com certeza teria que desenhá-la mais tarde.
— O senhor não respondeu minha pergunta — insistiu ela.
— Achei que estivesse me traindo com outro homem do teatro — ele confessou.
Ela piscou para ele, confusa.
— O que…?
— Eu a vi — ele a interrompeu. — Naquela noite. Eu a vi abraçando alguém na porta do teatro e achei que estivesse com alguém.
— Que estupidez! — exclamou, irritada. — Eu nunca… Eu… Eu estava interessada por você! Eu só estava conversando com…!
Mas as palavras congelaram na boca de quando ela percebeu que estava prestes a confessar seu segredo. Porém, como ela explicaria aquele mal entendido sem a verdade? O suor começou a escorrer de seu corpo, e nada tinha a ver com o calor das chamas.
Mas Benedict a encarou, sério.
— A senhorita fez parte da ópera, não fez?
se engasgou e começou a tossir, desesperada. Seu coração parecia uma bateria em seu peito, e sua visão ficou turva. Estava tudo acabado. Ela voltaria para o Teatro Royale se tivesse sorte. De resto… seria sorte até mesmo ser aceita na La Belle Maison. Lady Montmorency nunca poderia acolhê-la, não importava seu carinho, caso a verdade viesse à tona.
Ela pensou em negar, mas havia algo naqueles olhos… Ele sabia, ela tinha certeza.
— Era a soprano principal da ópera, sim — confessou, quase em um sussurro. — Como soube?
Benedict deu as costas a ela, e as lágrimas começaram a escorrer de seu rosto. Ele estava decepcionado, ela tinha certeza. Iria expulsá-la. Nenhum homem gostaria de se envolver com uma antiga cantora, não teria nem como tentar justificar sua virtude intacta.
Mas ela sentiu a mão dele percorrer o rosto dela, enxugando uma lágrima, antes de estender um papel para ela.
Um desenho. Dela. Ela reconhecia seus cabelos mas, principalmente, reconhecia o vestido de Rainha Elizabeth. Sua boca se abriu em um “O” perfeito.
— Você… me viu? Naquela noite?
— Eu me apaixonei por você naquela noite, mesmo sem conhecê-la, mesmo sem lhe dirigir uma palavra, mesmo sem ver seu rosto — confessou, suas palavras se tornando intensas e aceleradas. — Eu nunca havia visto algo tão lindo e com sentimentos tão reais. E então eu me apaixonei novamente por você quando a conheci, sentindo o mesmo reconhecimento de beleza e veracidade.
— Ah, Benedict! — exclamou, sem nem perceber que falava o nome dele. Mas ele percebeu, e amou cada segundo disso. — Eu estou apaixonada por você desde o momento em que meus olhos pousaram no seu rosto! — O coração de Benedict parou, então voltou a bater mais rápido. — Aquela noite eu estava apenas encontrando com minha melhor amiga, a quem eu não via desde aquela noite!
Benedict desmoronou ao seu lado, na frente da lareira, e estendeu a mão para encostar no rosto dela, quente pelas chamas. Ajoelhados frente a frente, ele brincou com uma mecha de cabelo dela. Mesmo úmido, era ainda mais macio do que poderia ter imaginado.
— Como? — perguntou, simplesmente.
Mas ele não precisou explicar. Ela entendeu.
E assim, se viu contando sua história inteira. Ele merecia a verdade, mesmo que aquilo estivesse fadado a terminar. Mas o toque dele aquecia seu coração de uma forma que a lareira não conseguia, e ela se viu confessando cada canto obscuro de sua história, assim como suas memórias felizes com seu pai adotivo, os palcos e Louise.
Louise. Quem ela não conseguiria mais ajudar agora que com toda certeza nunca mais conseguiria um casamento.
— E… É isso — ela sussurrou, no meio de um soluço. — Me desculpe, nunca foi minha intenção enganá-lo ou qualquer coisa assim!
Mais lágrimas começaram a escorrer de seu rosto assim que terminou de falar, seu corpo tremendo com a intensidade do choro. Benedict a puxou para um abraço, segurando-a com o corpo quente e grande. Aquecida naquele abraço úmido, com a cabeça apoiada no peito de Bridgerton, o coração de foi se acalmando, as lágrimas diminuindo o fluxo.
— Está tudo bem — Benedict falou, e ela sentiu o peito dele vibrar. Aquela foi a melhor sensação que tivera em toda a sua vida. — Não me sinto enganado, eu entendo.
— Mesmo? — perguntou, suas palavras saindo emboladas pressionadas contra ele.
— Mesmo. Me desculpe por ter suposto as coisas ao invés de perguntar. Ou simplesmente respeitar sua privacidade.
— Não precisa se preocupar. Quem confiaria em alguém se encontrando com outro nos fundos do teatro? — murmurou, cabisbaixa. — Mas foi bom, sabia?
— O quê? — ele perguntou, enquanto acariciava os cabelos dela. Ela fechou os olhos, sentindo a exaustão do choro a tomar.
— Fingir que eu era desse mundo. Fingir que eu poderia frequentar a sociedade, usar vestidos bonitos, dançar… estar com alguém como você. E pensar que esse sonho não durou nem ao mesmo uma semana. — Ela riu, amargamente, e aquilo partiu o coração dele.
Porque, desde que a conhecera, lhe mostrara a felicidade, e agora… ela sentia todos os seus sonhos se despedaçarem, assim como o coração dela.
E como aquela mulher já havia tomado seu coração, o dele também se partia com aquela cena.
— Foi até bom acabar logo — ela sussurrou. — Já estava fadado a terminar, e foi bom acabar antes de eu me envolver demais.
Quem ela queria enganar? Ela já estava envolvida demais.
Ela se surpreendeu quando Benedict a afastou de seu abraço. Aparentemente, o tanto de caridade que ele estava disposto a lhe oferecer já havia acabado. Ela ergueu os olhos, esperando ver o nojo e a indiferença tomarem conta dele.
Mas ela encontrou algo diferente. E antes que pudesse processar o que ela via, Benedict abaixou os olhos para seus lábios.
E a beijou.
Por um momento, esqueceu como respirar. Seu corpo congelou quando ele apertou sua cintura e a puxou para mais perto, os lábios colados no dela. Então, ele passou a língua por seu lábio inferior, e ela só conseguiu gemer e agarrar as lapelas úmidas dele em resposta. Aquilo era perfeito, perfeito demais. Se pudesse descrever o paraíso, descreveria como esse único momento.
Benedict aproveitou a abertura para aprofundar o beijo, sentindo cada parte do corpo deles se encaixar — ou colar, já que algumas partes estavam úmidas. Era para isso que ele havia sido criado, para amar e tocar e desenhar aquela mulher. Qualquer coisa desde que pudesse agradá-la. Porque, desde o primeiro momento em que ele a vira, ele soube que ela era sua, e que ele era seu.
A garota parecia inexperiente e desajeitada, apertando as lapelas dele com força, sem saber o que fazer. Benedict sorriu, ainda a beijando, sentindo um prazer especial em ser o primeiro a levar as coisas tão à frente com ela. Não que houvesse duvidado quando ela — enfaticamente — avisou que nunca se tornara amante de ninguém. Mas ele estava amando se aprofundar em cada reação e descoberta que poderia ter dela.
Soube que teria que parar quando a parte da frente da calça começou a ficar apertada. Por aquela noite, teriam que ficar por ali. Mas seria suficiente, por hora.
encarava Benedict com os olhos arregalados e brilhantes, tomados daquela emoção crua que conquistara Bridgerton desde o início.
— Benedict… — ela disse, como se o nome dele significasse tudo, o que fez o coração dele acelerar. — Obrigada.
Ele franziu a testa, confuso.
— Obrigada? Pelo quê?
— Por este último momento perfeito. — Ela fechou os olhos, se permitindo sorrir. — Será para sempre o momento mais especial de minha vida. Mas sinto dizer que não posso me tornar sua amante.
— Amante? — ele repetiu, incrédulo do que estava ouvindo.
— Sim. — Ela franziu as sobrancelhas. — Eu lhe expliquei por que nunca me tornei amante e por que nunca me tornarei, não importa a profundidade do que eu sinto por você. Então, sei que é pedir muito, mas se me permitir voltar para casa antes de contar a todos, eu…
— , o que você está dizendo? — perguntou, em um tom divertido.
A garota olhou para ele, confusa.
— Eu… Ora, o que disse. É pedir demais ser poupada desse constrangimento? Deixe-me ir.
— Mas, se você for, eu não poderei pedi-la em casamento.
— Você não… o quê? — Sua voz saiu em um guincho agudo.
— Você disse que me ama, , e eu também te amo. Não seria natural duas pessoas assim se casarem?
— Mas… mas eu… sou uma cantora!
— E eu sou um pintor. Que bela dupla formamos, não?
Ele sorriu, enquanto ela ainda gaguejava, confusa.
— Você não pode se casar comigo! É inapropriado!
— Como seria inapropriado me casar com a pupila de Lady Montmorency? Na verdade, acho bastante apropriado.
— Mas você sabe que essa não é a verdade!
— Sei, mas isso não me faz amá-la menos.
— Mas… você só me conhece há uma semana!
— Eu soube que era você no primeiro minuto — ele respondeu, sorrindo e acariciando os cabelos dela. Diante do gesto, ela perdeu a fala. — Diga-me, : me tornaria o homem mais feliz do mundo se tornando minha esposa? — Ele abriu um sorriso torto. — Só espero que me perdoe por não estar com a aliança.
— Sim!
— Então você me perdoa?
— Não! Quer dizer, sim! — Ela caiu na gargalhada. — Mas o sim era para a outra pergunta.
Os dois se olharam e sorriam, antes que seus corpos naturalmente voltassem a se aproximar em outro beijo.
Em outra vida, sonhara com o amor, sabendo que isso era impossível para alguém como ela.
Agora, estava nos braços de seu noivo, com quem passaria toda a vida cercada do maravilhoso sentimento.
Os dois se afastaram, ofegantes e sorridentes, mal percebendo que o fogo da lareira começava a morrer. Benedict começou a pentear os cabelos de com os dedos, encarando cada um de seus traços que ele já decorara. Suas sobrancelhas, seus olhos, seu nariz, as maçãs de seu rosto, sua mandíbula, seus lábios… gostava daqueles em especial.
— Você é mais bonita do que qualquer pintura.
— Ainda bem que terá a vida para treinar me retratar — brincou ela, fazendo-o rir.
Então, ele buscou a mão dela, depositando um beijo ali.
— Você consegue ajeitar os cabelos? Confesso que, mesmo com quatro irmãs, nunca consegui mais do que arrumar um grampo fora do lugar.
— Consigo — respondeu, as mãos já no cabelo. — Por quê? Algo aconteceu?
— Claro que aconteceu — ele respondeu, o sorriso aberto em seu rosto. — Eu estou noivo e preciso contar a todos.
EPÍLOGO
Depois de passar o início da temporada fora para exibir sua nova coleção de quadros no Salão de Paris, na França, o sr. Benedict Bridgerton está de volta com sua esposa em Londres.
Apesar da volta recente, os dois já distribuíram os convites para a comemoração de três anos do casal, na próxima semana. Ao que tudo indica, como frequentemente acontece, a sra. Bridgerton pretende apresentar uma peça musical curta (o que esta autora, particularmente, acha um evento musical mais interessante do que outros que são realizados por certas famílias), com representação em dança da artista patrocinada pelo casal, a dançarina Louise White.
A previsão da semana é de chuva, mas isso não abalou a sra. Bridgerton. Pelo contrário, fontes disseram que a escutaram torcer “para poder cantar na chuva”.
Muitos irão lutar por esse convite, apesar dos dois irmãos Bridgertons mais velhos já estarem comprometidos, pois a Sra. Bridgerton é de fato uma artista espetacular. É de pensar que, se não houvesse sido patrocinada pela gentil Lady Montmorency, teria sido uma excelente cantora de ópera.
CRÔNICAS DA SOCIEDADE DE LADY WHISTLEDOWN,
02 DE MAIO DE 1817
FIM!
Nota da autora: Obrigada por chegar até aqui! Eu sou apaixonada por histórias de época, e amei que essa música me deu a oportunidade de escrever uma, especialmente com o meu Bridgerton favorito. Não consegui deixar de manter algumas referências à história original justamente por ser minha favorita, mas espero que tenham gostado dessa também!
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