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Independente do Cosmos🪐
Finalizada em: 21/07/2025


Glossário


Deusas Bruxas: Três faces de um mesmo poder. Três caminhos, três destinos. Três sombras na luz da Lua. São as primeiras bruxas a existirem, são elas: Virelya – A Mãe do Véu (Deusa da Origem, da Sabedoria e do Equilíbrio), Morwyn – A Senhora do Fogo Quebrado (Deusa da Ruptura, do Conflito e da Justiça) e Elua – A Filha da Sombra e da Estrela (Deusa da Magia, do Sonho e do Destino).

Hemlock Reach: Aninhado em uma parte remota da floresta de Salem Woods, Hemlock Reach fica fora dos mapas, invisível a olhos mundanos. Dizem que o vilarejo só aparece para quem está perdido — ou destinado — a encontrá-lo. Exceto na noite da Lua de Prata, quando as barreiras caem.

Lua de Prata: Chamada nos tempos antigos de "Silvara", é um ritual celebrado entre as linhagens bruxas da Europa pré-cristã — especialmente nas florestas do que hoje seriam Gália, Bretanha, Boêmia e norte da Itália. É o momento em que a Terra e o Submundo se alinham, a única noite que o véu entre os vivos e os mortos é permeável. E a convergência dos ciclos fertilidade, poder, renascimento.

Morvaen:O Clã Morvaen é uma antiga linhagem bruxa fundada nas Terras Veladas, entre florestas densas e neblinas eternas. Nascido da ruptura de antigos covens em guerra, o clã foi fundado por três bruxas sobreviventes — Yllen, Mareth e Sorra — que selaram seus nomes com sangue sob o luar e juraram lealdade ao Véu e às Três Deusas. A palavra “Morvaen” vem do antigo idioma bruxo e significa “as que se movem entre mundos”.

Quebra-Magia: Planta rara de folhas azul-escuras com veios prateados e brilho tênue sob a luz da lua. Cresce exclusivamente em solos tocados por rituais antigos, principalmente em locais onde houve falhas mágicas ou rupturas espirituais. Os efeitos podem durar de 30 minutos a 6 horas, dependendo da forma como for administrada.

Sibilas: As ancestrais eternas, espíritos das grandes bruxas que transcenderam o véu da morte e permanecem como guias e guardiãs do destino do clã.

Vélar: A líder suprema do clã, detentora da sabedoria ancestral e guardiã do conhecimento proibido.

I

— I don't like your perfect crime
How you laugh when you lie
Os antigos sabiam:
Quando a lua cintila em prata real,
os portais se abrem,
os mortos se aproximam,
a terra aceita semente,
e o sangue clama poder.

O vilarejo de Hemlock Reach transbordava vida na noite da Lua de Prata. Os moradores — em sua maioria, bruxas do clã Morvaen — celebravam os ciclos da terra: fertilidade, poder e renascimento. Uma melodia suave era carregada pela brisa outonal, em conjunto com o crepitar das fogueiras e as risadas felizes.
Wilkins, filha da Vélar do clã, esperava ansiosamente por esse dia mais do que qualquer outra bruxa. Mas não pelo mesmo motivo que elas.
A jovem não ansiava por realizar feitiços ou oferendas para que as Sibilas a abençoassem com mais poder ou fertilidade.
Ela ansiava por esse dia porque as barreiras que protegiam Hemlock Reach caíam, permitindo que forasteiros enfim entrassem no santuário mágico que permanecia oculto durante o resto do ano.
Seu pretendente iria encontrá-la ali, em seu lar, e a jovem bruxa não conseguia conter a animação que percorria seu corpo ao imaginar-se comemorando aquela noite com . Queria apresentá-lo à sua mãe e receber a bênção para que o cortejo entre eles fosse além de beijos roubados e sussurros apaixonados, sempre que se aventurava pela cidade de Salem.
Não foi preciso procurar por assim que chegou ao limite da clareira. Seus olhos logo o encontraram, mesmo que as sombras quase o camuflassem na paisagem noturna. Era como um navio seguindo a luz do farol à noite: seu caminho para a terra firme. Seu porto seguro.
percorreu rapidamente a distância entre eles, jogando-se nos braços de seu amado.
— Você veio! — exclamou, animada, colando-se ao tronco de , mesmo que ele não a abraçasse.
Uma risada rouca, diferente da usual, soou no silêncio da noite enquanto se afastava.
— Eu não perderia isso por nada.
A frase arrancou um sorriso da jovem.
— Você vai adorar Hemlock. Aqui é o melhor lugar para se morar — disse, entrelaçando seus dedos aos dele. — Vamos? A comemoração já começou.
Um sorriso predatório estampou os lábios de , enquanto seus olhos brilhavam com promessas nefastas.
— Acho que podemos passar um tempinho aqui. Juntos — disse ele, puxando-a para perto ao aproveitar as mãos dadas. — Gostaria de lembrar desta noite pelo resto da minha vida.
Uma risadinha apaixonada escapou dos lábios de .
Só de pensar que considerava aquela noite tão especial quanto ela, sentia vontade de cantarolar e agradecer às Sibilas por terem colocado aquele homem bom em seu caminho.
Um baque — algo forte indo de encontro ao chão — chamou sua atenção. A floresta era silenciosa, exceto pelos poucos barulhos causados pelos animais que viviam ali. Mas aquele som era diferente.
Desconhecido.
E uma urgência em descobrir o que tinha acontecido dominou .
Sua testa se franziu, e ela abriu a boca para perguntar se também tinha escutado — ou até mesmo se fazia ideia do que poderia ser —, mas todos os pensamentos foram varridos de sua mente quando os lábios dele tocaram os seus.
A urgência desapareceu, engolida pelo desejo que sentia por . O mundo pareceu encolher ao redor de até restar apenas ele, seu amado. Era como magia crua, antiga, ardendo sob sua pele.
Como o êxtase que se alcança após realizar um bom feitiço.
Mas então, um assovio cortou o ar.
Alto. Estranho.
O som reverberou pela noite como uma sirene de alerta, estilhaçando a bolha de intimidade em que estavam mergulhados.
se afastou de súbito. Seu toque, antes gentil, tornou-se frio. Os olhos, que tantas vezes haviam lhe sussurrado promessas doces, agora estavam escurecidos, carregados de algo que não reconheceu de imediato.
O sorriso havia desaparecido. O carinho também. O homem que a encarava parecia um completo estranho.
— Volte para o inferno de onde você veio.
A voz saiu grave, cortante como lâmina. E antes que pudesse sequer reagir, ou entender, o cotovelo dele atingiu sua têmpora com força brutal.
A dor explodiu em branco. Um clarão cortante que apagou tudo.
O chão se aproximava rápido demais.
tombou, os sentidos se dissolvendo na escuridão antes mesmo de sentir o frio da terra sob seu corpo.

II

— Honey, I rose up from the dead, I do it all the time
I've got a list of names and yours is in red, underlined
Os gritos rasgavam a noite, misturados às súplicas chorosas. A brisa já não carregava risadas alegres nem o crepitar das fogueiras festivas — agora trazia apenas o cheiro acre de carne queimada e os soluços implorando por clemência.
despertou envolta pelos sons desesperados e pelo calor escaldante, que parecia capaz de derreter sua pele. Tentou se mover, mas logo percebeu que estava amarrada contra uma árvore. Abriu os olhos — e se arrependeu amargamente.
O que viu à sua frente era pura carnificina.
Corpos mutilados de homens e crianças estavam espalhados pelo chão de terra. As cabanas ardiam em chamas, algumas já reduzidas a cinzas. Mas nada se comparava ao horror no centro da clareira: enormes piras de fogo consumindo as mulheres vivas.
O calor que sentia vinha daquelas fogueiras. Se já era insuportável onde estava, sequer conseguia imaginar a dor das mulheres queimando vivas. Lágrimas pesadas deslizavam por seu rosto, e ela nem lembrava quando havia começado a chorar. A verdade é que já não tinha forças para parar de chorar.
Estava desolada.
Sua família, seu povo, seu mundo inteiro ardiam diante de seus olhos — e ela não podia fazer nada. Precisava de sangue, apenas uma gota mínima, para conjurar um feitiço que pudesse pôr fim àquele massacre. Mas não havia como.
Forçou-se a olhar para a pira de mulheres, mesmo com o estômago se revirando. Precisava encontrar sua mãe. Encará-la uma última vez. Pedir por clemência.
Afinal, sabia que a culpa era dela.
Fora ingênua o bastante para acreditar em , e agora colhia o preço da própria tolice.
Ela não sabia qual era a verdadeira participação dele naquele horror, mas no fundo não tinha dúvidas: era o responsável por queimar todo o seu mundo.
Seus olhos logo encontraram os de sua mãe, e a dor — junto com o enjoo — ficou tão intensa que vomitou no chão. O corpo fraquejou enquanto a imagem de Tabitha se desestabilizava entre as chamas.
— Me desculpa — sussurrou , rezando para que o vento levasse aquelas palavras até ela.
Tabitha apenas sorriu, um sorriso fraco que não compreendeu, até que um leve odor de magia se sobrepôs ao fedor da carnificina em Hemlock Reach.
“Pela chama que me consome, dou minha vida nesta Lua de Prata. Que a minha dor sufoque a dor das irmãs, que o fogo as liberte com rapidez e clemência. Abençoem a não tocada pelas chamas, para que, por suas mãos, o equilíbrio seja restituído.”
A voz da Vélar ecoou pelo vento, invocando a clemência das Deusas e das Sibilas. As palavras reverberaram mentalmente para cada bruxa ainda viva ali. Suspiros pareceram romper o ar após a invocação — as almas das bruxas eram libertadas daquele terror enquanto a chama ao redor de Tabitha crescia, mais e mais.
Mesmo assim, a líder suprema do clã não chorava nem demonstrava dor. Seus olhos permaneceram fixos em , observando a filha pela última vez.
— Eu te amo. — A voz de Tabitha chegou a como um fio de som. — Traga o equilíbrio de volta.
Então o fogo consumiu Tabitha por completo. O mundo de terminou de ruir.
Ela chorou, gritou e implorou, mas nada mudou. Não sabia quanto tempo passou ali. Seus pulsos ardiam, a garganta parecia brasa e os olhos queimavam de lágrimas.
Quando voltou a si, percebeu que já não estava sozinha entre os restos do que fora seu mundo.
Diversos homens desconhecidos caminhavam pelos escombros do vilarejo. As roupas negras e os chapéus largos lhes davam um aspecto fúnebre, um contraste cruel com as cinzas que cobriam o chão. não os conhecia — e seus olhos, em desespero, procuravam apenas pelo único homem em quem ousara confiar.
— Nesta noite — começou uma voz alta e imperativa, ecoando pela clareira —, nós expurgamos o mal que tentava se infiltrar em nossa cidade. O mal é traiçoeiro: veste-se de beleza e de aparente inocência para que não desconfiemos dele. Vocês viram, com seus próprios olhos, como o demônio pode se disfarçar em muitas formas.
A multidão silenciou, atenta, enquanto o homem prosseguia:
— Mas não temam. A família Goodwin combate o mal há gerações, e estamos aqui para proteger vocês. Este expurgo só foi possível graças a , meu filho e futuro reverendo, que descobriu uma criatura das trevas disposta a trair os seus. Pois é assim que elas agem. Enganam, mentem e espalham a morte por onde passam.
E então, lentamente, todos os olhos se voltaram para .
A vontade de gritar a consumiu. Ela não havia traído sua família. Quem a traíra fora , que roubara a confiança e o amor que ela lhe oferecera.
— E, como retribuição pela sua ajuda em derrotar o mal em Salem, daremos a você uma morte rápida. — A voltou a falar. Mais fria. Implacável.
Um grupo de cinco homens aproximou-se de . Dois deram a volta e foram até as cordas que a prendiam; outros dois se postaram à sua frente, pressionando seu corpo contra o tronco da árvore. Ela os odiava com toda a força do seu ser. Quando o quinto homem parou diante dela e ergueu o rosto, todos os seus músculos se enrijeceram num ódio tão puro que parecia queimar suas veias.
a encarava, um sorriso de escárnio curvando seus lábios.
O verdadeiro mal estava ali.
— Obrigado pela ajuda, princesa. — A voz dele era debochada, venenosa. — Agora seja uma boa menina e abra a boca.
permaneceu em silêncio, os dentes cerrados em uma tola recusa, mas as mãos fortes de a forçaram, segurando suas bochechas, obrigando-a a abrir a boca. Ele enfiou-lhe uma planta de gosto amargo entre os lábios.
O reconhecimento veio como um soco no estômago. A Quebra-Magia — a única capaz de sufocar um lampejo de poder — explodiu em sua língua num sabor metálico e repugnante. sentiu o pânico tomar conta enquanto a erva se espalhava por seu corpo, arrancando dela o sussurro familiar da magia. Onde antes havia força, agora só restava um vazio gélido.
Assim que as cordas foram cortadas, seu corpo tombou para a frente, fraco demais para sustentá-la. Mas mãos brutas a impediram de cair. Braços ásperos a agarraram pelos pulsos e ombros, arrastando-a sem cuidado pela terra até a lateral da clareira.
Seus olhos, ardendo de cansaço e lágrimas, logo se fixaram na construção que se erguia não muito longe das piras. Uma estrutura de madeira, grosseira, mal montada, mas onde iria encontrar seu fim.
Iriam enforcá-la.
queria gritar, espernear, lutar até o fim e fazer aqueles homens pagarem por cada gota de dor que haviam derramado sobre ela. Mas estava esgotada, vazia — e agora nem mesmo sua magia restava para ajudá-la.
A culpa a dilacerava. O gosto amargo da vergonha queimava em sua garganta.
Permaneceu em silêncio enquanto a erguiam sobre a plataforma de madeira e a prendiam ali. A corda apertada em torno do pescoço já a sufocava antes mesmo de cederem o peso do seu corpo. O pouco ar que ainda conseguia inspirar vinha porque a segurava pelas pernas, prolongando a agonia.
— Últimas palavras? — perguntou o pai de , sua voz carregada de desprezo, os olhos cravados nela como lâminas.
ergueu o queixo, mesmo com as lágrimas escorrendo pelo rosto.
— Isso não é o fim. — Sua voz saiu rouca, firme como uma promessa. — Vejo vocês no inferno.
O sorriso cruel de foi a última coisa que ela viu antes de ele soltá-la.
A queda foi curta, mas o impacto foi brutal. A corda apertou-se contra sua garganta como um aro de ferro em brasa, esmagando a traqueia num estalo seco. O ar sumiu de imediato, substituído por uma dor lancinante que irradiava do pescoço para o peito.
Os pulmões se inflamaram, implorando por oxigênio, mas nenhum sopro de vida entrou. A pressão subiu em sua cabeça; o sangue parecia ferver dentro das veias, fazendo seus ouvidos latejarem como tambores. A visão turvou-se, tingida de pontos vermelhos e pretos que piscavam diante de seus olhos como fagulhas de fogo.
Seus pés se agitaram no vazio, debatendo-se instintivamente em busca de um chão que não existia. Os braços se contorceram, puxando em vão contra as cordas que a imobilizavam. O corpo, desesperado, lutou pela vida mesmo quando a mente já sabia que estava tudo perdido.
Aquele era o fim.
E, tão rápido quanto começou, veio o fim.
O calor do corpo começou a ceder, os movimentos se tornaram mais lentos, e a dor cedeu lugar a um vazio escuro. A última coisa que sentiu foi o mundo se afastando, engolindo-a em silêncio.

⋆˖⁺‧₊☽◯☾₊‧⁺˖⋆

A primeira coisa que pensou ao despertar foi que a morte lhe parecia muito mais glamurosa quando estava viva. Imaginou que, por estar de volta ao domínio de uma das Deusas Bruxas, iria sentir-se melhor do que nunca. Mas suas pernas estavam dormentes, seu pescoço doía e seus pulmões ardiam como o inferno.
abriu os olhos pesados, mas a imagem de seu vilarejo — de toda a dor e desgraça que haviam acontecido naquela Lua de Prata — encheu sua visão. Aquela seria a sua punição? Viver eternamente na noite do pior dia de sua vida?
Ainda usava a mesma roupa, mas agora ela estava suja e rasgada em diversos lugares. O peso em seu pescoço era tão insuportável que levou as mãos até lá, encontrando uma grossa corda ao redor dele.
Então, a realização a atingiu com a força de uma locomotiva.
Ela tinha sido enforcada. Ela tinha morrido, mas, de alguma forma, ainda estava ali, em Hemlock Reach.
Tropeçou nos próprios pés enquanto tentava se levantar, mas não tardou a correr até a pira que queimara sua mãe, quando suas pernas finalmente lhe obedeceram. O cheiro de carne queimada e fumaça era intoxicante, mas já estava acostumada ao odor da morte e do desespero, então apenas continuou seu trajeto, até se encontrar ajoelhada nas cinzas do local onde vira sua mãe pela última vez.
Seus olhos cansados se estreitaram ao perceber o que pareciam ser palavras escritas na madeira. Seus dedos subiram até a casca da árvore, removendo o excesso de cinzas e sangue incrustados ali.
“Reestabeleça o equilíbrio, , e faça nosso clã renascer.”
A dor e a tristeza foram substituídas pelo ódio e pelo desejo de vingança. Antes que sequer pensasse, seus dedos encontraram uma pedra afiada, e cortou a palma da mão, pressionando-a contra o chão.
Sangue, cinzas e terra se misturavam enquanto levantava os olhos e encarava o resto da Lua de Prata, que começava a desvanecer, dando lugar a um novo dia.
A jovem bruxa suplicou por perdão e por ajuda. Pediu que a auxiliassem a honrar as mortes daquela noite, pediu vingança por cada um daqueles homens e pela dor que lhe haviam causado.
E assim, chorou pela última vez.
Quando suas súplicas terminaram e ela levantou a mão do chão, um pergaminho apareceu diante dela. o abriu, intrigada, e leu diversos nomes desconhecidos, até que encontrou um familiar:
Goodwin.
Um sorriso macabro pintou seus lábios quando a realização do que aquilo significava a atingiu.

III

— And then the world moves on, but one thing's for sure
Maybe I got mine, but you'll all get yours
O frenesi de vingança mantinha desperta e amortecida. Não sentia frio, medo ou dor. A única coisa que corria por suas veias, além do seu sangue, era o ódio.
Faria que eles pagassem, cada um que ousara destroçar seu mundo.
Eles eram os verdadeiros vilões.
A lista em sua mão parecia pesar com o peso da justiça que precisava ser feita. Os nomes brilhavam em vermelho vivo, como o sangue derramado das bruxas. E, a cada vez que se vingava, o nome era magicamente riscado.
A outra mão estava enredada nos cabelos de Josiah Goodwin, arrastando o corpo desfalecido do reverendo até a casa de . queria que ele visse seu mundo ruir, assim como ela precisara vivenciar. Queria que o medo e o desespero dele fossem tão grandes ao observá-la dar fim ao seu pai, que se sentisse tão desnorteado quanto ela se sentira.
A casa de nada mais era do que uma cabana de caça, no limite da floresta. Ele nunca tinha dito que morava ali, sempre deu a entender que vivia no centro de Salem. Mas o rapaz também jamais confessara que planejava matá-la e exterminar todo o seu povo.
merecia sofrer por tudo o que lhe causara, e recebera uma segunda chance ao vencer a morte.
A velha estava morta, e aquela que restara só descansaria após fazer todos eles pagarem.
Enfiou a lista no corpete do vestido surrado e, com a mão livre, empurrou a porta com toda a força que possuía. A madeira bateu com tudo na parede, produzindo um eco assustador no interior da cabana.
— Q-quem está aí? — Uma voz feminina questionou, amedrontada.
se perguntou se estava no lugar errado. E se, num último esforço desesperado, Josiah a tivesse enganado e mentido sobre a localização de ?
Permaneceu parada ali, na porta, em dúvida se entrava ou não, até que uma voz a tirou do estupor.
— Deve ser apenas o vento, querida, mas vá lá para trás que eu cuido disso. — A voz, tão segura e confiante, de aumentou a raiva que corria em suas veias.
As mentiras que ele contara pareciam crescer a cada instante. já estava prometido a outra pessoa, e durante todo esse tempo apenas brincara com , esperando uma brecha para matar seu clã.
A vergonha por ter sido enganada a desorientou, mas a raiva logo a consumiu e inflamou ainda mais.
Jogou o corpo do reverendo para dentro da cabana. O baque seco contra a madeira foi acompanhado de um suspiro chocado de .
— Pai, o que aconteceu? — A pergunta foi acompanhada de passos apressados.
devia estar correndo até o pai, e isso foi o suficiente para que desse um sorriso debochado e saísse das sombras, cruzando a porteira e adentrando a pequena cabana.
Os passos de logo pararam assim que percebeu que alguém havia entrado. O ar sumiu de seus pulmões, e seu rosto assumiu uma expressão fantasmagórica enquanto seus olhos arregalados encaravam .
— Feliz em me ver, querido? — O apelido carinhoso transbordava deboche.
jurou que podia ver se arrepiar de medo.
— V-você está morta!
As palavras saíram acusadoras, seus olhos viajando entre a mulher e seu pai, que por pouco ainda respirava.
piscou várias vezes, tentando acreditar no que via. Sua mente lutava para encontrar algum sentido. Tudo parecia uma alucinação, um pesadelo que se recusava a terminar.
— Isso… isso não é real… — gaguejou, as mãos tremendo, os olhos fixos em .
Ela inclinou a cabeça, soltando uma risada curta e cruel, que ecoou pela cabana.
— Ah, querido… — disse, os lábios curvados em um sorriso macabro — se você acha que isso é ruim, eu posso piorar o seu tormento.
Antes que pudesse reagir, avançou com rapidez assustadora. Suas mãos firmes seguraram o corpo do reverendo, que ainda lutava pela vida, e com um movimento preciso, terminou aquilo que ela sabia que precisava ser feito.
O grito de horror de encheu a cabana quando o pai caiu sem vida ao chão, e a sensação de impotência esmagou-o por completo. Cada batida de seu coração era agora um lembrete de que o mundo que conhecia havia desaparecido.
ergueu-se sobre ele, os olhos brilhando com ódio e triunfo, enquanto a risada continuava a escapar de seus lábios, ecoando como um aviso de que nada — absolutamente nada — seria poupado.
engoliu em seco, o olhar perdido entre medo e desespero, a respiração curta.
— V-você vai… vai me matar? — perguntou, a voz trêmula, quase um sussurro.
sorriu, um sorriso gelado e calculista.
— Sim, vou — ronronou, a voz baixa e ameaçadora — mas não nesta noite.
Os olhos de se arregalaram, a esperança fugindo, substituída por pânico absoluto.
Ela deu um passo à frente, os olhos brilhando como lâminas, e sua voz, baixa e certeira, atravessou o ar como um aço frio:
— Vou atormentá-lo, . Vou arrancar cada pedaço do seu mundo, destruir cada um dos seus companheiros e queimar a vida que você conhece. Você vai implorar pela morte ao ver tudo o que construiu desmoronar diante de si. Mas terei clemência por você… assim como você teve por mim. Por isso, terá que viver que eu estarei vindo atrás de você, mas sem nunca saber que dia será esse.
Ela se aproximou mais, a respiração pesada, o corpo emanando poder contido, todo o ódio que carregava em si.
— Ao matar meu clã, eu morri junto com eles, mesmo que meu corpo não tenha sido queimado. Mas o que restou, esta casca vazia e vingativa, vai caçar todo Goodwin existente. Cada descendente que você tiver carregará o peso da minha promessa. Eu amaldiçoo você e todos os que vierem, Goodwin. Que nunca encontrem paz, que os gritos das bruxas queimadas os acompanhem, que seus próprios espíritos os assombrem.
caiu de joelhos, o corpo tremendo, lágrimas queimando seu rosto, soluços rasgando sua garganta.
— Me perdoe… por favor… me perdoe…
riu, um som cruel, doce e mortal ao mesmo tempo, que ecoou por toda a cabana, impregnando junto com sua promessa as paredes, o ar, a pele de .
— Demônios não perdoam.
Naquele instante, ele soube que não havia salvação. A promessa de marcava sua vida como ferro em brasa gravado na alma, e o mundo que conhecia se despedaçava, consumido pelo peso da vingança que jamais seria saciada.

FIM!

Nota da autora: Essa história existe na minha cabeça já faz MUITO tempo, mas ela era só um prólogo para a história pós-vingança da Raven, contudo, quando esse VF saiu eu tentei escrever com outro plot, mas nada parecia combinar tão bem quanto essa short. Espero que vocês tenham gostado! A continuação dela chega no Halloween.