06. no body, no crime

Codificada por: Sol
Finalizada em: 14/04/2026


CAPÍTULO ÚNICO

POV

Terças-feiras eram sagradas para Este e eu.

Nós tínhamos essa tradição. Não importava o caos da semana, os prazos, as mensagens ignoradas ou as decisões ruins que fingíamos não ter tomado, a gente simplesmente escolhia um restaurante qualquer, pedia uma garrafa de vinho e transformava a mesa num confessionário improvisado. Antes, era mais fácil. A gente se via o tempo todo, como se o mundo fosse pequeno demais para nos manter separadas por muito tempo. Mas aí veio o casamento. Veio Joe. E, de repente, Este virou alguém que precisava ser agendada. Foi ideia dela, na verdade. Disse que a gente precisava de uma noite fixa, um compromisso que nem ele pudesse mexer. Assim nasceu a “terça das garotas”. Ela sempre falava isso com um sorriso, como se fosse uma vitória pequena, mas necessária.

Eu nunca gostei de Joe.

Ele era o tipo de homem que parecia ter sido montado peça por peça para impressionar – bonito, empresário bem-sucedido, educado na medida exata – mas tinha alguma coisa nele que não encaixava. Em eventos, eu via o jeito como ele corrigia Este sem parecer que estava corrigindo. Um toque no braço quando ela falava “demais”, um olhar rápido quando ela dizia algo que ele não aprovava. Nada explícito. Nada que desse pra apontar com o dedo e dizer “tá vendo?”. Mas estava lá. E, nas terças, aquilo vazava. Começava pequeno, uma reclamação aqui, outra ali, mas sempre terminava igual.

“…mas é só o jeito duro dele.”

Uma vez ela chorou no meio do jantar, mas riu depois, limpando as lágrimas com o guardanapo, como se fosse normal. A pior parte não eram as palavra, mas sim as marcas. Um roxo no braço que virou “esbarrei no armário”. Um corte pequeno que veio de uma “queda na escada”. Uma desculpa nova toda semana, que talvez fosse suficiente para qualquer outra pessoa acreditar. Mas eu conhecia Este. Conhecia o jeito que ela andava, falava, gesticulava. Conhecia as histórias antes delas se tornarem editadas. E aquilo definitivamente não era descuido. Eu sempre percebi, só não tinha como provar. Aquela terça-feira tinha um endereço fixo: o restaurante do irmão de Este, Josh. O lugar ainda estava meio vazio quando chegamos. Luz baixa, cheiro de comida fresca no ar, o som suave de talheres e vozes ao fundo. Josh estava atrás do balcão aberto, concentrado, mas levantou o olhar no exato segundo em que entramos, e sorriu.
— Olha só… — disse, limpando as mãos no avental enquanto se aproximava. — Minhas clientes favoritas.
— A gente paga caro pra manter esse título. — Eu retruquei, cruzando os braços, um sorriso puxando no canto da boca.
— Você paga com críticas cruéis, ela… — apontou para a irmã — …paga com educação.
— Alguém aqui precisa ser gentil. — Este disse, rindo, já se acomodando na mesa.
Josh puxou a cadeira para ela com um cuidado automático e, quando passou por mim, inclinou levemente o rosto.
— E você… ainda não decidiu se vai admitir que gosta da minha comida?
— Ainda estou esperando você melhorar. — Respondi, sem perder o ritmo.
Ele soltou uma risada baixa, balançando a cabeça.
— Um dia eu te impressiono.
— Boa sorte com isso. — Mas o sorriso no meu rosto entregava.
Josh se afastou depois de anotar nosso pedido, mas não sem lançar mais um olhar rápido na minha direção, daqueles que duram meio segundo a mais do que deveriam. E claro que Este percebeu.
— Você sabe que ele sempre teve um crush em você, né? — Disse, apoiando o queixo na mão.
— Não começa… — eu murmurei, pegando a taça de vinho.
— Desde mais novos. — Ela continuou, ignorando completamente. — Eu lembro. Ele ficava todo estranho quando você aparecia.
— Ele ainda fica estranho.
— Não, agora ele flerta.
— Ele flerta com todo mundo.
— Não desse jeito.
Eu dei um gole no vinho, mais longo do que precisava.
— A gente só… brinca.
— Você devia dar uma chance. — Este insistiu, mais suave agora. — Eu sei que sou suspeita pra falar, mas ele é um cara bom.
Eu desviei o olhar, deixando a taça girar entre os dedos.
— Eu sei.
O assunto morreu ali, ou pelo menos parecia. Mas o silêncio que veio depois não era exatamente confortável. Eu percebi antes mesmo dela falar. No jeito como Este evitava meu olhar, como passava o dedo na borda da taça sem beber, como respirava fundo e desistia, como se estivesse ensaiando algo na cabeça e sempre recuando no último segundo. Até que ela falou.
— Eu não tô dormindo direito.
A frase caiu entre a gente, como se fosse apenas um apontamento casual, mas havia algo mais.
— Por quê? — Perguntei, sentindo alguma coisa apertar no peito.
A loira soltou um riso fraco, sem humor.
— Eu acho que o Joe tá me traindo. — Ela revelou, sem rodeios, arrancando o curativo de uma vez. — Ele anda… diferente. — Continuou, os olhos fixos na mesa. — Chega tarde, tá distante. E tem coisas… pequenas, sabe?
Eu assenti devagar.
— Tipo?
Ela hesitou, como se até aquilo fosse difícil de dizer em voz alta.
— Às vezes ele chega em casa com a boca meio… — fez um gesto vago com a mão — …melada com algo que parece vinho. Mas não é o meu vinho. Não é o merlot que a gente tem em casa. Eu conheço o gosto, o cheiro e aquilo… simplesmente não é. E eu fui olhar nossa conta conjunta um dia… — ela continuou, mais rápida agora, como se precisasse terminar antes de perder a coragem. — Tinha um recibo muito caro de joia. — Ela riu, mas foi um som quebrado. — Engraçado, né? Porque eu não ganhei nada.
Eu apertei a taça com um pouco mais de força.
— Você falou com ele?
— Não. — Ela balançou a cabeça. — Ainda não. — O barulho do restaurante parecia distante de repente. — Eu acho que ele me traiu. — Repetiu, mais baixo agora, e finalmente me olhou. — Eu sinto isso… mas não tenho como provar. Então eu decidi que vou confrontar ele.
Eu engoli em seco, inclinando levemente o corpo em sua direção.
— O Josh sabe?
Por um segundo, ela pareceu surpresa com a pergunta. Então balançou a cabeça, rápido.
— Não. E não conta pra ele.
— Este…
— Tô falando sério, . — Ela interrompeu, a voz firme o suficiente pra cortar qualquer argumento. — Não quero que ele se meta nisso. — Seus dedos apertaram a taça com mais força e ela respirou fundo, os olhos fixos em algum ponto distante da mesa. — Eu vou resolver isso. E não vou descansar até descobrir a verdade. Nem que seja até o dia em que eu morrer.
A noite foi passando, a comida veio, o vinho diminuiu na garrafa, como sempre, mas tudo parecia um pouco fora de ritmo. Este até riu em alguns momentos, comentou sobre o prato, provocou Josh quando ele passou pela mesa, mas tinha algo escondido atrás do sorriso. Quando finalmente decidimos ir embora, já era tarde o suficiente para a cidade parecer mais silenciosa, como se estivesse observando.
— Você não veio de carro, né? Eu te deixo em casa. — Este disse, pegando a bolsa.
— Eu posso levar. — Josh apareceu logo atrás, tirando o avental enquanto falava. — É caminho pra mim.
— Ah… claro que é. — Ela respondeu, com um sorrisinho que eu conhecia bem demais. — Que conveniente.
— Não começa. — Murmurei, pegando minha bolsa.
— Eu não falei nada. — Ela rebateu, inocente demais pra ser verdade.
— Você pensou.
— E com razão.
Josh soltou uma risada baixa, claramente se divertindo mais do que deveria com aquilo.
— Então… — ele olhou pra mim. — Carona aceita?
Eu hesitei o suficiente para parecer que pensei.
— Tá. Eu aceito.
— Ótimo! — Este disse, satisfeita demais. — Quero atualizações depois.
— Boa noite, Este. — Cortei, já me afastando.
Ela só riu, entrando em seu carro.
— Boa noite, pombinhos!
— A gente não é… — comecei, mas ela já tinha fechado a porta.
Josh levantou uma sobrancelha, divertido.
— Pombinhos?
— Ignora.
Eu esperei ele fechar o restaurante, encostada do lado de fora, braços cruzados, observando o movimento diminuir até virar quase nada. O barulho da rua parecia distante, mas não tanto quanto os meus próprios pensamentos. A voz de Este ainda ecoava e as peças começavam a se encaixar de um jeito que eu não gostava. Quando Josh finalmente apareceu, jogando as chaves no ar e pegando de novo, me lançou um olhar rápido.
— Demorei?
— Um pouco.
— Espero que tenha valido a pena.
— A comida tava boa.
— Eu não tava falando da comida.
Desviei o olhar, mas sorri de leve. O caminho até o meu prédio foi moldado por conversas soltas, comentários bobos e um silêncio confortável, mas, por baixo, aquilo latejava na minha cabeça, como se estivesse pedindo pra sair. E eu quase falei, mais de uma vez, mas me segurei. Não era minha história para contar. Quando chegamos, Josh estacionou e desligou o carro, mas não fez menção de ir embora.
— Chegamos. — Disse, me olhando.
— Chegamos. — Fiz menção de abrir a porta, mas ele já estava dando a volta no carro, e abriu pra mim, como se fosse a coisa mais natural do mundo. — Que cavalheiro.
— Eu tenho meus momentos.
— Raros, mas existem… você quer entrar? — Perguntei, antes de pensar melhor.
Ele inclinou a cabeça, um meio sorriso surgindo.
— Eu ia dizer que queria ter certeza que você chegou bem…
— Claro.
— Mas agora eu também quero entrar.
Revirei os olhos, sorrindo de leve. A gente entrou no prédio, subiu em silêncio e, quando parei na porta do meu apartamento, procurei a chave na bolsa, sentindo seu olhar em mim.
— Só não se acostuma.
— Tarde demais.
A porta mal fechou atrás da gente e foi como se tudo o que havia ficado contido a noite inteira resolvesse explodir de uma vez. Ele me puxou pela cintura antes mesmo que eu pudesse dizer qualquer coisa. O beijo veio com urgência, quase impaciente, como se a gente estivesse esperando por aquilo há muito mais do que só algumas horas. Minhas mãos subiram pela camisa dele, puxando mais pra perto, enquanto ele me prensava contra a porta. Quando a gente se afastou, foi só o suficiente pra respirar.
— Eu tava… — ele soltou um riso baixo, a testa encostando na minha — …morrendo de vontade de fazer isso.
— Então você tem que se controlar melhor. — Murmurei, ainda perto demais.
— Eu tentei.
— Não o suficiente.
Ele sorriu de lado, como se já soubesse que tinha perdido aquela discussão. Mais tarde, já jogados no sofá, o silêncio voltou. Mas não era pesado dessa vez. Eu virei o rosto para Josh.
— Quando a gente vai contar pra Este?
— Contar o quê? — Ele arqueou levemente a sobrancelha.
— Isso… — fiz um gesto entre a gente. — Eu não gosto de esconder nada dela. Ainda mais algo que eu sei que ela ia apoiar.
Josh me observou por um segundo, mais sério agora.
— A gente conta… na hora certa.
Eu hesitei. A vontade de falar tudo voltou com força.

“Eu acho que o Joe tá me traindo.”

As palavras estavam na ponta da língua. Mas eu respirei fundo. Se era algo que Josh deveria saber, Este contaria quando estivesse pronta.
— É… — murmurei, desviando o olhar. — Na hora certa.
Ele aproximou um pouco mais, o braço envolvendo minha cintura, e, por aquela noite, deixei o resto do mundo do lado de fora. As perguntas, as suspeitas, os avisos que eu talvez devesse ter ouvido melhor. E acabamos dormindo juntos, como se nada estivesse prestes a quebrar.

Segunda-feira, 25 de agosto


Este (10:40)
Ansiosa para amanhã!

(10:45)
Também!
Vai ser no Olive Garden, né?

Este (10:46)
Sim, por favor.
Estou desejando uma boa massa.
Falando em desejo… tenho uma novidade para te contar amanhã.

(10:47)
Não vai dar pelo menos uma dica?

Este (10:47)
Não! Sem dicas.
Amanhã você vai descobrir😉


Não falei o resto do dia com Este, supus que por ela estar tão ocupada quanto eu. Terça-feira começou como qualquer outra. Talvez tenha sido por isso que eu acabei deixando passar algo.

Terça-feira, 26 de agosto


(07:30)
Bom diaaaa.
Já no trabalho😴
Aliás, obrigada pela ansiedade por antecipação.
Não paro de pensar no penne de lá…
E na novidade que você quer me contar.
Tem algo a ver com o que conversamos semana passada?



Recebido. Eu evitava falar sobre Joe por mensagem, porque ela já tinha dito que, vez ou outra, pegava ele olhando seu celular. Passei o dia inteiro no automático, respondendo e-mails, revisando coisas que eu nem lembrava de ter começado, olhando o relógio mais vezes do que o normal. Terça sempre tinha esse efeito de expectativa silenciosa, como se o dia inteiro estivesse só esperando a noite acontecer. Ainda mais com essa novidade que ela queria me contar. No começo da tarde, olhei o celular novamente, ainda sem mensagens de Este.

Terça-feira, 26 de agosto


(13:38)
Nossa, você deve estar ocupada mesmo para não me dar bom dia.
Nem um boa tarde eu mereço?



Recebida, mas ainda sem resposta. Ela vivia atolada de trabalho ultimamente, devia estar em alguma reunião interminável, daquelas que ela sempre reclamava, mas nunca conseguia evitar. Uma hora depois, mandei outra:

Terça-feira, 26 de agosto




(14:40)
Se você furar comigo hoje, eu nunca mais te perdoo

Dessa vez, nem recebida. Revirei os olhos, jogando o celular de lado. Clássico. Provavelmente ia aparecer depois com alguma desculpa esfarrapada, um abraço apertado demais e se oferecer para pagar a sobremesa para compensar. Era sempre assim. Quando cheguei no Olive Garden, o céu já tinha escurecido o suficiente para deixar as luzes do lugar mais evidentes. O cheiro de massa e molho veio logo na entrada, familiar, confortável. Pedi uma mesa pra dois.
— Sua companhia já chegou? — O garçom perguntou.
— Tá chegando. — Respondi, automática.
Me sentei, deixando a bolsa na cadeira em frente, como se estivesse guardando o lugar dela. Cinco minutos passaram. Depois dez. E nada. Pedi uma taça de vinho mesmo assim. Se tinha uma coisa que eu aprendi com a Este, era nunca esperar para começar a beber.

Terça-feira, 26 de agosto


(18:40) Você tá vindo?



A mensagem se juntou ao bolo formado pelas anteriores, sem resposta. Dei um gole no vinho, tentando ignorar o desconforto que começava a se espalhar devagar, como tinta na água. Quinze minutos. Vinte. Comecei a observar o restaurante ao redor. Casais conversando baixo, famílias dividindo pratos, risadas aqui e ali. Tudo normal demais. Errado demais. Decidi ligar. Chamou até dar caixa postal.
— Este, atende… — murmurei, mais para mim do que para qualquer outra coisa.
Tentei de novo e nada. Meu pé começou a bater no chão, um ritmo irregular, acompanhando um tipo de ansiedade que eu ainda não queria nomear. Peguei o celular de novo e, dessa vez, liguei pra Josh. Ele atendeu no terceiro toque.
— Ei… — a voz dele veio tranquila, com o barulho abafado de cozinha ao fundo. — Já estão no restaurante?
— Eu tô. — Respondi, rápido demais. — A Este não apareceu.
Uma pausa curta do outro lado.
— Como assim?
— Ela não responde desde de manhã. E agora não tá recebendo nem mensagem, nem ligação. — Olhei de novo para a cadeira vazia na minha frente, como se ela fosse se materializar ali por teimosia. — Ela comentou alguma coisa com você?
— Não… — ele disse, agora com um leve tom de alerta na voz. — Eu não falei com ela hoje.
Meu estômago afundou um pouco.
— Estranho.
— Você quer que eu tente ligar?
— Pode ser…
Mas eu já sabia a resposta. Josh ficou em silêncio por alguns segundos.
— Cai direto na caixa postal. — Ele disse, confirmando o que eu não queria ouvir.
Engoli em seco.
— Talvez ela só… tenha se enrolado no trabalho.
— Talvez… — ele concordou, mas não soou convencido. — Se ela aparecer, me avisa. Ou… qualquer coisa.
— Aviso.
Desliguei. Olhei de novo para o celular. Nada. A taça de vinho já estava quase vazia, e eu nem lembrava de ter bebido. O garçom se aproximou com um sorriso educado demais.
— Posso trazer o cardápio?
Olhei para a cadeira vazia mais uma vez. A bolsa ainda ali, marcando um lugar que ninguém ocupava.
— Acho que… não.
Paguei o vinho e levantei, sentindo um tipo estranho de deslocamento, como se eu estivesse saindo antes da hora de alguma coisa importante. Lá fora, o ar estava mais frio do que eu esperava. Entrei no carro e fiquei alguns segundos parada, as mãos no volante, olhando pro nada. Então peguei o celular e liguei para Josh de novo.
— Alô? — A voz dele veio diferente agora, mais tensa.
— Josh… — comecei, sentindo algo apertar no peito. — Você tem certeza que não falou com ela hoje?
— Tenho. Por quê?
— Porque isso não é normal.
— Eu sei… — ele admitiu, baixo. — Eu liguei para o trabalho dela, parece que ela não apareceu lá hoje.
O silêncio que veio depois daquilo pareceu mais pesado do que qualquer resposta.
— Como assim ela não apareceu? — Minha voz saiu mais baixa do que eu esperava.
— A recepcionista disse que ela não deu entrada hoje, nem avisou nada. — Josh respirou fundo do outro lado da linha. — Isso não é a Este.
Olhei para a rua à minha frente, as luzes dos carros passando como riscos borrados.
— Eu vou até a casa dela. — Liguei o carro, o motor vibrando sob minhas mãos.
— Eu também, te encontro lá. — Ele respondeu sem hesitar. — Eu vou tentar ligar pro Joe no caminho.
Meu maxilar travou automaticamente.
— Não.

— Não liga pra ele. — Cortei, firme. — Eu não quero que ele saiba que a gente tá indo pra lá antes de chegar.
— A gente só tá tentando entender o que tá acontecendo…
— Eu sei. — Respirei fundo, tentando manter a voz estável. — Mas eu não confio nele, Josh.
A frase ficou no ar. Do outro lado, ele demorou meio segundo a mais do que o normal para responder.
— Tá. Então a gente vê isso lá.
Assenti, mesmo sabendo que ele não podia ver.
— Te encontro lá. — Desliguei antes que pudesse pensar demais.
O caminho até a casa de Este parecia mais longo do que nunca. Cada semáforo vermelho era uma provocação e cada segundo parado parecia errado. Minha mente corria mais rápido que o carro. Ela não apareceu no trabalho, não respondeu mensagens, não atendeu ligações. Apertei o volante com mais força. Quando virei na rua da casa dela, vi as luzes cortando a noite antes de reconhecer qualquer outra coisa. Meu coração falhou uma batida ao ver um carro de polícia parado em frente. Pisei no freio com mais força do que precisava, o carro parando de forma abrupta alguns metros antes da casa. Por um segundo, eu só fiquei ali, com o motor ligado e as luzes azul e vermelha piscando refletindo no para-brisa. Abri a porta devagar, o ar frio da noite batendo contra meu rosto como um aviso tardio. Os faróis de outro carro cortaram a rua logo atrás de mim. Eu nem precisei virar completamente para saber. Josh estacionou torto, rápido demais, a porta abrindo antes mesmo do motor desligar por completo. Saiu do carro já olhando para a casa, o rosto tenso de um jeito que eu nunca tinha visto antes.
… — ele começou, mas parou quando viu as luzes da polícia refletindo na fachada. A expressão dele mudou na hora. — Que porra é essa? — Murmurou, já andando em direção à casa.
— Josh… — tentei chamar, mas era tarde.
Ele já estava atravessando o pequeno jardim, passos largos, rápidos, como se cada segundo fosse um erro. A porta da frente estava aberta, e Joe estava ali, falando com um dos policiais.
— O que você fez com ela? — A voz de Josh saiu alta, carregada de uma fúria crua que cortou o ar.
Joe virou na hora, surpreso.
— O quê?
— Cadê a minha irmã? — Ele avançou, empurrando o ombro de Joe com força. — O que você fez com ela?
Dois policiais reagiram rápido, segurando-o antes que ele pudesse fazer qualquer coisa pior.
— Senhor, calma! — Um deles disse, firme, segurando-o pelos braços.
— Me solta! — Josh tentou se desvencilhar, os olhos grudados em Joe. — Você fez alguma coisa com ela, eu sei que fez!
— Josh! — Eu me aproximei, o coração batendo alto demais no peito. — Josh, para!
Mas ele mal me ouviu. Joe levantou as mãos, num gesto ensaiado de rendição, calmo demais.
— Eu também quero saber onde ela tá. — Disse, a voz controlada, quase irritantemente estável. — A Este desapareceu.
A palavra caiu como um peso morto. Josh congelou por um segundo.
— Como assim desapareceu?
— Desde hoje de manhã, antes de eu acordar. — Joe continuou, passando a mão pelo cabelo, como se estivesse cansado. — Eu achei que ela estivesse com você.
— Comigo? — Josh soltou uma risada sem humor. — Você tá brincando comigo?
— Ou com a … — ele acrescentou, olhando rapidamente na minha direção. Eu senti o estômago revirar. — Pensei que ela tivesse acordado mais cedo para ir pro trabalho, mas aparentemente ela não apareceu lá o dia todo. Não atendeu o telefone. Eu só… percebi quando cheguei em casa mais cedo e ela não tava aqui.
— E você não achou importante me avisar? — Josh rebateu, a voz carregada de incredulidade. — Eu sou o irmão dela!
Joe apertou os lábios, como se estivesse segurando a paciência.
— Eu achei que ela estivesse com alguém de confiança. Não queria criar um alarme à toa.
Olhei ao redor. Carro de polícia, porta aberta, luzes acesas. Nada ali parecia à toa. Josh ainda respirava pesado, os policiais começando a afrouxar o aperto conforme ele parava de resistir. Mas seu olhar não saía de Joe.
Os depoimentos vieram em pedaços. Fragmentos de memória organizados às pressas, enquanto um dos policiais anotava tudo com uma calma que parecia deslocada demais para a situação.
— Quando foi a última vez que você falou com ela? — O policial perguntou, sem tirar os olhos do bloco.
— Ontem à noite.
— Ela mencionou algum problema?
Eu hesitei. Por um segundo, pensei em guardar aquilo. Em deixar só entre mim e Este, como ela havia pedido. Mas naquela situação… eu não podia.
— Ela achava que o marido estava traindo ela.
O policial ergueu uma sobrancelha, finalmente me olhando.
— E você acha que traição é a mesma coisa que desaparecimento? — O tom veio quase debochado.
Antes que eu pudesse responder, outra voz cortou o ar.
— Chega. — Uma policial, que estava mais afastada até então, se aproximou, cruzando os braços. — Eu assumo daqui. — O homem soltou um suspiro, meio contrariado, mas se afastou sem discutir. — Eu sou a policial Torres. — Seu olhar era mais firme, mais atento. — Pode continuar.
E, pela primeira vez desde que tudo começou, eu senti que alguém estava realmente ouvindo.
— Ela disse que queria confrontar ele. Que não descansaria até descobrir a verdade. Ela vinha desconfiando há um tempo. Coisas pequenas, mas constantes. — Olhei brevemente na direção de Joe, que estava mais ao fundo, observando tudo. — Eu também percebia.
— O quê, exatamente?
— Inconsistências. — Respondi, sentindo cada detalhe voltar. — O jeito como ele tratava ela em público… sempre tentando moldar o que ela dizia. Brigas que não faziam sentido. E… — hesitei por um segundo. — Algumas marcas.
— Marcas? — A policial Torres inclinou levemente a cabeça.
— Ela sempre tinha uma explicação. — Continuei, mais firme agora. — Armário, escada, algum descuido. Mas… não parecia só isso.
Ela anotou algo, pensativa.
— Isso coloca o marido como um possível suspeito, sim. — Disse, por fim, fechando o bloco devagar. — Mas precisamos ser cautelosos. Vamos verificar tudo com cuidado. O álibi dele é… muito bom.
Meu estômago afundou.
— Álibi?
— Ele estava fora boa parte do tempo em que o desaparecimento pode ter acontecido. — Respondeu, profissional. — Temos registros que sustentam isso.

Claro que tem.

— Vamos apurar tudo. — Ela disse, por fim. — Já iniciamos o protocolo de busca. Qualquer novidade, entraremos em contato.
Assenti em silêncio, observando-a se afastar. Joe estava encostado perto da porta, com os braços cruzados e a respiração estável. Calmo demais para uma situação daquelas. Eu observei enquanto ele falava com outro policial, explicando a rotina dela, os horários, os “possíveis lugares onde ela poderia estar”. Tudo muito lógico. Muito organizado.
Depois de Josh terminar o depoimento dele, nos afastamos da casa, sentindo o ar da noite mais pesado. Ele passou a mão pelo rosto, exausto, como se o dia inteiro tivesse caído em cima dele de uma vez.
— Isso não faz sentido… — murmurou mais para si mesmo do que pra mim. — Nada disso faz sentido.
Eu nunca tinha o visto assim. Não o Josh leve, irônico, sempre com uma resposta pronta. Aquilo ali era outra versão, crua, quebrada. Me aproximei um pouco mais, tocando de leve o braço dele.
— Ei…
Ele soltou o ar devagar, olhando para o nada.
— E se… — começou, mas parou, como se não conseguisse terminar a frase.
— A gente vai encontrar ela.
Ele assentiu, mesmo sem parecer convencido. Ficamos em silêncio por alguns segundos, só ouvindo o barulho distante da rua e o vai e vem dos policiais atrás.
— Você não devia ficar sozinho hoje. — Eu disse, firme.
Josh soltou uma risada fraca, sem humor.
— Eu não acho que conseguiria, mesmo se quisesse.
— Então vem comigo.
— Pra onde? — Ele finalmente me olhou.
— Pra minha casa. Eu não vou te deixar sozinho, Josh.
Algo em sua expressão mudou, como se tivesse cedido um pouco.
— Tá… tá bom.
Assenti, já caminhando em direção ao carro, mas, antes de entrar, olhei mais uma vez para a casa. Joe, ainda estava lá fora, conversando como se aquilo fosse só mais um problema para resolver. Desviei o olhar, entrando no carro. E, enquanto ligava o motor, uma certeza silenciosa começou a se formar. De alguma forma, eu sabia que ele tinha algo a ver com aquilo, mas não conseguia provar.
O caminho até o meu apartamento foi silencioso. Não o tipo confortável, mas pesado, como se cada pensamento estivesse ocupando espaço demais dentro do carro. Josh ficou olhando pela janela quase o tempo todo, o maxilar travado, a mão passando pelo cabelo de tempos em tempos, como se estivesse tentando acordar de um pesadelo que não acabava. Quando chegamos, eu nem esperei.
— Vem. — Ele só assentiu e me seguiu. Assim que a porta fechou atrás da gente, o mundo lá fora parecia distante. — Senta. — Apontei para o sofá. — Já volto.
Ele obedeceu, meio no automático, os cotovelos apoiados nos joelhos, as mãos entrelaçadas, olhando pro chão como se pudesse encontrar alguma resposta ali. Fui direto pra cozinha, decidida a fazer algo para acalmá-lo. Enquanto mexia o leite, o silêncio do apartamento parecia alto demais. Só o som da colher batendo na panela e, ao fundo, a televisão que eu tinha ligado sem pensar. Quando voltei, entreguei a caneca pra ele, que pegou, mas demorou um segundo antes de realmente reagir ao calor.
— Valeu… — sentamos em silêncio por alguns instantes, até ele passar a mão pelo rosto, frustrado. — Eu tô me sentindo… inútil. — A palavra caiu pesada entre nós. — Eu devia estar lá fora, procurando… fazendo alguma coisa. — Balançou a cabeça, irritado consigo mesmo. — Ela é minha irmãzinha, .
— Eu sei.
— E eu tô aqui… tomando chocolate quente.
— Ei. — Me inclinei um pouco em sua direção. — Você não tá fazendo nada errado.
Ele soltou uma risada curta, amarga.
— Parece que tô.
— Você não tá. — Minha voz saiu mais firme agora. — A polícia já começou as buscas. Você sair por aí sem direção não vai ajudar ela.
Ele não respondeu, mas também não discordou. A televisão chamou minha atenção.
“…desaparecida desde a noite de ontem…”
Meu estômago virou ao ver a imagem de Este aparecer na tela, sorrindo, como se aquilo não estivesse acontecendo. Josh levantou o olhar na mesma hora, os olhos grudando na televisão.
— Isso não pode estar acontecendo… — murmurou, quase inaudível.
— Josh… — chamei, baixo. Ele virou o rosto pra mim. — Você nunca achou o Joe… estranho?
O homem franziu a testa, confuso.
— O quê?
— Tipo… comportamento. Coisas que não batiam.
, o que você tá…?
— Me escuta. Eu preciso que você me escute. — Ele ficou em silêncio, então eu continuei. — Eu já vinha notando há um tempo. O jeito que ele tratava a Este… como se estivesse sempre corrigindo ou controlando ela. E as marcas.
Josh se endireitou um pouco.
— Que marcas?
— Ela sempre tinha uma explicação. Esbarrou no armário, tropeçou na escada… mas não parecia só isso. E terça passada… ela me disse que achava que ele tava traindo ela.
Josh arregalou os olhos.
— O quê?
— Ela não tinha prova, mas tinha certeza. Disse que ia confrontar ele.
Por um segundo, ele só me encarou. E então a reação veio.
— E você não me contou isso? — Sua voz subiu, carregada de incredulidade. — , ela é minha irmã!
— Eu sei! — Respondi, antes de suavizar. — Eu sei, Josh.
Ele levantou, passando a mão pelo cabelo.
— Como é que ninguém me fala uma coisa dessas?
— Porque ela me pediu pra não falar! — Retruquei, levantando também. — Ela confiou em mim.
A frase saiu, mas sem a firmeza que deveria.
— A gente nem… — ele começou, parando por um segundo, a voz falhando levemente — …nem chegou a contar pra ela sobre a gente.
Aquilo me atingiu diferente. Desviei o olhar, engolindo em seco.
— Eu acho que… no fundo, ela já sabia.
— Sabia? — Ele me olhou, surpreso.
Dei um pequeno sorriso triste, quase imperceptível.
— A Este sempre sabia dessas coisas. Ela só tava esperando a gente admitir.
O silêncio voltou, mais pesado agora. Josh respirou fundo, como se tentasse se recompor.
— A gente podia ter feito alguma coisa. — Murmurou, mais baixo agora.
— Feito o quê? Confrontado ele antes dela? Sem prova nenhuma? — Minha voz saiu cansada. Ele não respondeu. — Eu também pensei em falar, mais de uma vez. — Admiti, olhando rapidamente pra televisão. A imagem dela ainda estava lá. — Mas agora já foi.
Josh parou de andar, respirando fundo.
— Então a gente faz alguma coisa agora. — Disse, decidido. — Não podemos ficar parados.
Eu sustentei seu olhar.
— A gente não vai… mas não desse jeito. — Ele franziu a testa. — A polícia já sabe. Eu contei tudo. Eles tão investigando.
— E você confia nisso?
Pensei em Joe, na calma dele, no álibi.
— Não completamente.
— Então…
— Mas é o que a gente tem. E quisermos ajudar a Este… precisamos fazer isso direito. — Me aproximei um pouco mais. — A gente coopera, ajuda no que puder… e observa.
— Observa quem? — Ele perguntou, mesmo já sabendo no fundo.
— O Joe.
O nome ficou no ar como algo perigoso. Josh assentiu devagar.

Algumas semanas se passaram. Pelo menos era isso que o calendário dizia, porque, para mim, o tempo tinha parado naquela terça-feira. Os dias só se acumulavam e a ausência da Este também. Eu e o Josh estávamos em todos os lugares possíveis. Delegacia, hospitais, ruas, qualquer ponto que alguém mencionasse. A gente seguia qualquer pista, por mais absurda que fosse, como se, em algum lugar, isso fosse levar até ela. Mas nunca levava. Josh estava acabado. Os olhos fundos, sempre vermelhos, a barba crescendo sem cuidado, o corpo funcionando no automático. Ele não dormia direito há dias – talvez semanas – e, quando dormia, era pouco. Mesmo assim, ele não parava. Quanto mais o tempo passava, mais claro ficava. Era o Joe. Tinha que ser. Mas as provas nunca apontavam para ele. Sempre tinha alguma coisa limpando o nome dele. Um horário registrado, alguém que viu, alguma justificativa perfeita demais. Era como se tudo estivesse alinhado para proteger ele.
— Precisamos confirmar uma informação com vocês. — A voz da policial cortou o silêncio da sala.
Eu e Josh trocamos um olhar rápido.
— O quê? — Ele perguntou, já tenso.
Ela hesitou por um segundo.
— Durante a perícia na casa, encontramos um teste de gravidez no lixo e… deu positivo Meu coração falhou uma batida.
— …o quê? — Minha voz saiu quase sem som.
— Ainda estamos investigando, mas tudo indica que ela estava no início da gestação.
Eu só conseguia pensar em uma frase.

“Tenho uma novidade pra te contar amanhã.”

— Era isso… — murmurei, sentindo a garganta fechar. — Era isso que ela queria me contar.
Josh virou pra mim, perdido.
… você sabia?
Balancei a cabeça, rápido.
— Não, mas… — respirei fundo, tentando me manter inteira. — Eu acho que ela ia me contar.
A gente não precisou dizer nada. Saímos dali direto. O destino era óbvio. Assim que viramos na rua da casa, eu notei algo diferente. A caminhonete de Joe, era a mesma, mas os pneus destoavam de todo o resto. Eram novos, limpos demais, sem nenhuma marca. Aquilo era coincidência demais.
— Josh… — chamei, baixo.
Mas ele já estava saindo do carro. A porta da casa estava aberta e alguns policiais estavam na frente.
— Eu já disse tudo. — Joe falava, irritado. — Não tenho mais o que acrescentar.
Ele parou quando viu a gente. Josh não pensou duas vezes.
— O que você fez com ela? — Avançou, mas foi segurado antes de chegar perto.
— Senhor, calma! — Um policial interveio.
— Você matou ela! — Josh gritou, a voz quebrando. — Eu sei que matou!
Joe soltou um suspiro, como se aquilo fosse só um incômodo.
— Isso já tá ficando ridículo.
Eu dei um passo à frente.
— Você sabia que ela tava grávida?
O olhar dele mudou, quase imperceptível. Mas eu vi.
— Grávida? Não. — Mentira. — Talvez isso explique muita coisa. Se ela engravidou… provavelmente não foi de mim.
Eu senti algo gelar por dentro.
— Você é nojento. — Mas ele nem se abalou. Foi então que eu reparei em uma mulher parada atrás dele, discreta, observando tudo. — Quem é essa?
— Rebeca, minha secretária. — Ele respondeu. — Ela tem me ajudado muito nesse momento.
Eu me aproximei um pouco mais, e vi o batom em sua boca. Tão escuro quanto um… merlot.
— Eu quero entrar.
Joe franziu a testa.
— Pra quê?
— Pra pegar umas coisas da Este.
— Não. Isso não é necessário…
— Eu sou o irmão. — Josh cortou, a voz firme mesmo sendo contido pelos policiais. — Eu tenho direito de ver as coisas dela.
O policial ao lado dele assentiu.
— Ele tem razão. Vocês podem entrar. Rápido.
Joe travou o maxilar, mas não teve escolha.
O quarto ainda parecia dela. Eu parei na porta, observando. A cama estava arrumada demais, mas tinha algo errado. Joe definitivamente não estava dormindo sozinho ali. Talvez nunca tenha estado. Caminhei devagar pelo quarto, notando pequenos detalhes: um perfume que não era de Este, um fio de cabelo que não combinava. O suficiente para perceber que ele estava seguindo a vida como se nada tivesse acontecido. Como se a esposa grávida dele, que tinha acabado de descobrir uma traição, não tivesse acabado de desaparecer. Quando saí do quarto, eu já não era a mesma. A suspeita tinha acabado. O que restava agora era outra coisa, mais concreta. Era a sensação de que, cedo ou tarde, alguém teria que fazer justiça.
Mais dias passaram e, com eles, veio o pior. Joe deixou de ser suspeito, oficialmente. A polícia seguiu outras linhas, outras teorias, outras possibilidades que não levavam a lugar nenhum. O nome dele foi, pouco a pouco, sendo afastado das conversas, como se nunca tivesse sido cogitado. Josh não reagiu bem – na verdade, não reagiu. Era como se algo tivesse desligado dentro dele. A raiva continuava ali, mas sem direção. Impotência pura. E eu o viu se perder um pouco mais a cada dia. Foi então que eu pedi ajuda. Não expliquei muito, não dei detalhes. Só disse que precisava que ele confiasse em mim. E, mesmo quebrado, ele confiou.

Narrador POV

A casa estava silenciosa naquela noite. As luzes baixas, o ar pesado de conforto artificial. Joe estava na sala com Rebeca, relaxado demais para alguém que deveria estar de luto. Uma garrafa aberta sobre a mesa de merlot, da própria adega de Este.
— Eu disse que ia dar tudo certo. — Joe comentou, girando o vinho na taça.
— Eles nunca tinham nada concreto. — Rebeca respondeu, sorrindo.
— E agora nunca vão ter.
Eles brindaram, o som do vidro ecoando pela sala. Um brinde à impunidade.
O efeito veio devagar. Primeiro, um cansaço estranho. Joe piscou algumas vezes, tentando afastar o peso nos olhos.
— Você… tá se sentindo… — ele começou, a voz já mais arrastada.
Mas a mulher já estava apagada ao seu lado. Seus movimentos foram ficando lentos, desconectados, até que pararam. As taças ficaram abandonadas na mesa e o silêncio voltou. Quando Joe acordou, a cabeça latejava, pesada. Ele tentou se mover, mas não conseguiu. Suas mãos estavam presas e o corpo imobilizado.
— Que porra é essa…?
A voz saiu rouca, falhando. Foi então que viu, à sua frente, duas silhuetas se aproximando, sem pressa. Naquele momento, pela primeira vez desde o desaparecimento de Este, Joe não parecia mais no controle.

A voz da jornalista soava calma demais para uma história tão complexa.
— Após uma denúncia anônima, o corpo de Este Alwin foi encontrado em uma área afastada da cidade no início desta semana… — a imagem mudou na tela, para fotos da mulher sorrindo. — A polícia trabalha com a hipótese de homicídio. Até então, os principais suspeitos eram o marido, Joe Alwin, e sua secretária, Rebeca Holmes, com quem ele mantinha um possível relacionamento extraconjugal… — outra troca de imagem, dessa vez de Joe e Rebeca, que também sorriam. — No entanto, com o recente desaparecimento de Joe Alwin, as investigações tomaram um novo rumo. Agora, todas as evidências passam a apontar para Rebeca, que pode ter agido sozinha na morte do empresário… fontes indicam que Rebeca seria a principal beneficiária do seguro de vida, o que levanta suspeitas sobre motivação financeira…

POV

Do lado de fora da casa de Este… ou melhor, da antiga casa de Este, a cena era outra. A polícia rondava o local, as luzes dos carros piscando e o murmurinho das pessoas ao redor crescendo cada vez mais. Eu e Josh estávamos parados do outro lado da rua, observando, como todo mundo. Rebeca foi levada para fora algemada, o rosto desfeito, o cabelo bagunçado, tentando falar por cima do caos ao redor.
— Eu tenho certeza que depois de ajudar o Joe a dar um fim na esposa, ela se livrou dele também…
— Eu sabia que tinha alguma coisa errada desde que ela tinha se mudado pra cá…
— Nunca fui com a cara daquele Joe…
Os vizinhos fofocavam. Ninguém tinha prova, mas todos tinham certeza. Ela começou a gritar, desesperada.
— Não fui eu! — Sua voz quebrou no meio. — Eu não fiz nada! — Os policiais continuaram puxando. — Vocês estão errados! — Tentou de novo, olhando ao redor como se procurasse alguém que acreditasse, até que seus olhos encontraram os nossos. — Foram vocês! — Ela gritou, apontando. — Vocês fizeram isso!
Meu coração não acelerou, Josh também não se mexeu. A gente só ficou observando enquanto ela era colocada dentro da viatura. E, quando a porta bateu, a história pareceu se fechar sozinha. Então começamos a nos afastar da casa.
— Isso acabou rápido. — Josh murmurou.
— Mais rápido do que eu esperava.
— Eles realmente acham que foi ela.
— É o que faz sentido pra eles.
Ele soltou um ar baixo.
— E pra gente?
Eu não respondi de imediato. Só continuei andando.
— Pra gente… não tem como terem sido outras pessoas.
Ele virou o rosto pra mim, entendendo.
— A gente tava junto.
Assenti.
— No restaurante.
— A noite inteira. — Ele fez uma pausa. — Foi isso que eu disse pra polícia.
Eu parei por um segundo e olhei para Josh, que me olhou de volta. A verdade não precisava ser dita para nós sabermos qual era. Então, voltamos a andar. Minha cabeça martelava com as coincidências. Eu nunca pensei que a insistência do meu pai em me fazer tirar licença para pilotar barcos quando eu tinha quinze anos e a minha experiência em limpar casas fossem me ajudar a apagar vestígios. A deixar tudo limpo.
— Então… para onde quer ir? — Josh perguntou.
Por um segundo, eu pensei em Este. No sorriso dela. Naquela terça-feira. Respirei fundo e olhei pra frente.
— Olive garden… eu tenho uma promessa a cumprir.
Olhei para Josh com os olhos marejados, e ele assentiu, saindo com o carro devagar.

Joe Alwin continuaria desaparecido. Sem pistas, sem respostas, sem corpo. Porque, no fim das contas…

se não há um corpo, não houve crime

e eu não descansei até o dia em que ele morreu

FIM!

Nota da autora: Fiquei tão triste escrevendo essa fic, é um assunto extremamente sensível. A Este merecia viver, assim como todas as mulheres que sofrem violência doméstica. E a solução para agressores é só uma… espero que tenham gostado 💜