Codificada por: Lua ☾
Finalizada em: Abril/2026.
I - Uma Oferta Tentadora
O céu noturno estava salpicado de estrelas e brilhava como vagalumes em tetos de cavernas. Uma brisa soprava do norte, um augúrio, um prenúncio de algo que Dunk não sabia como descrever. Arrepiava-lhe os pêlos da nuca e lhe dava a impressão de que algo estava à espreita. Odiava a sensação; sentia-se pequeno em frente de algo maior que parecia ter o poder de ditar o destino com a jogada de uma moeda.
Segundo dia em Ashford Meadow e as competições começariam no dia seguinte. Como Egg havia mencionado pela manhã, as primeiras justas iriam para os lordes de berço e bem nascidos, o que lhe adicionava mais dias de nervosismo atacado. Mas ali estava ele, os olhos no show de títeres e o pensamento em todos os lugares possíveis. Antecipava, pensando em quantas maneiras diferentes poderia acabar sendo derrubado do cavalo.
— Oh, é você. — Escutou uma voz feminina atrás de si, virou-se de súbito e reconheceu-lhe a dona. Uma Lady. — Estava na tenda do meu pai noite passada. Em suas festividades.
Baratheon, filha de Sor Lyonel. Facilmente a mulher mais bonita dos Sete Reinos de sua época, e o título não havia sido dado levianamente. Os olhos brilhavam como tempestades de raios, dotados de uma profundidade que deixavam Dunk um pouco desconfortável e sem saber o que esperar… não que soubesse muito em alguma ocasião.
A mulher estendeu a mão, à espera de que a pegasse.
— Lady . Sou a filha de Sor Lyonel — falou como se esperasse que ele não se recordasse, embora fosse impossível esquecê-la.
Dunk pegou-lhe a mão com cautela, e sua própria palma grande pareceu áspera contra a pele macia e delicada de Lady . Estava profundamente consciente da diferença entre suas posições sociais. O abismo entre a filha de um cavaleiro nobre e um cavaleiro errante como ele era imenso, quase intransponível.
— Dunk. Sor Duncan, o Alto, às suas ordens, minha senhora. Me recordo de vê-la na tenda do senhor seu pai — corrigiu-se imediatamente e forçou um sorriso educado.
Ela claramente esperava que ele beijasse-lhe a mão mas, como não o fez, recolheu-a com um sorrisinho. Dunk notou que apreciava seu nervosismo.
— Nossa, você é realmente o maior homem que eu já vi. — Sua voz era doce como o toque de uma pluma.
Dunk sentiu as bochechas esquentarem com uma observação que muitos já haviam feito antes dela. Geralmente era uma das primeiras coisas que lhe diziam mas, em sua voz, com tanta admiração velada, não pode evitar a dose de auto-consciência que lhe invadiu.
— Sim, já me disseram bastante, minha senhora. — Seus olhos viajaram nervosamente pelos arredores, à procura de Egg. Onde estava o garoto? Levaria um tapa na orelha quando o encontrasse.
Lady abriu um sorriso desarmante.
— Parece nervoso, Sor.
Dunk tensionou-se ao ouvir o título — não o havia merecido, ainda não. Suas mãos se remexeram atrás das costas enquanto ele engolia em seco e umedecia os lábios.
— Não estou nervoso — murmurou, sem muita convicção. — Só... não sei como falar com damas como você, minha senhora.
Ele lançou um olhar de soslaio para o sorriso dela e rapidamente o desviou, a garganta seca. O velho o havia alertado sobre as moças de família nobre — elas eram perigosas de maneiras que ele nem conseguia descrever.
Lady riu. Parecia achar seu nervosismo adorável. Sua risada era como o tilintar de taças de cristal, real, elegante como ela.
— Damas como eu? — questionou, uma das sobrancelhas escuras erguidas e um sorriso malicioso nos lábios rosados.
Dunk engoliu em seco novamente e amaldiçoou-se por sua língua desajeitada. Percebera seu erro tarde, e agora se afundava ainda mais. Podia ouvir a voz do velho em sua mente; cabeça-dura como uma muralha de um castelo e lento como um auroque!
— Sim, uh, damas de alta linhagem. Damas da nobreza — gaguejou; seus olhos oscilaram entre ela e o show de títeres. — Damas que, uh, geralmente não falam com homens como eu.
— Ora, mas você estava na tenda de meu pai! Vocês conversaram bastante, quase a noite toda. Qualquer amigo dele é meu amigo também. — Os olhos da lady brilharam com astúcia.
O olhar de Dunk percorreu o prado antes de se fixar nela novamente, o coração ainda acelerado como o de um beija-flor. A alegria dela era desarmante, e sentia como se estivesse sendo manipulado — ela, uma gata esperta, a brincar com a presa. Havia algo nela que o impedia de ir embora imediatamente, porém, e ignorar seus instintos.
— Sim, conversamos um pouco, seu pai e eu — admitiu com relutância. — Mas isso não significa que ele gostaria que eu falasse com a filha dele.
— Ele não se importa, na verdade. Parece ter você em alta estima.
As sobrancelhas de Dunk se ergueram em surpresa enquanto seu ceticismo cedia, a contragosto, à curiosidade. Ele estudou o rosto dela enquanto tentava detectar qualquer sinal de zombaria ou desonestidade, mas não encontrou nenhum.
— Ele tem? — questionou, incrédulo. — Por que diabos ele teria uma opinião tão elevada de alguém insignificante como eu?
Aquela pergunta havia sido mais para ele mesmo do que para ela, mas havia proferido-a em voz alta.
— Eu não sei. Obviamente, você tem algo que chamou a atenção do meu pai… e isso não ocorre com frequência. — A garota o circulou devagar como se avaliasse um potro premiado. Lutou contra o impulso de se virar e mantê-la à vista o tempo todo; permaneceu completamente imóvel enquanto ouvia o suave bater de seus sapatos nas tábuas de madeira do chão. De repente, sentiu-se constrangido, consciente de cada calo, hematoma e aspereza do seu corpo. Não conseguia definir se, naquele momento, ela brincava com ele ou se estava realmente intrigada.
Ela riu, suave. Parecia lê-lo como a um livro aberto.
— Realmente não precisa ficar tão tenso, Sor Dunk.
Dunk sentiu o rosto esquentar ainda mais quando a risada dela ecoou em seus ouvidos, como o canto de um rouxinol. Conseguiu forçar um sorriso trêmulo em resposta, mas seu coração ainda batia com a força de um marchar de exército.
— Desculpe, minha senhora — murmurou ele, a voz quase num sussurro. Remexeu-se novamente; suas grandes mãos se fecharam em punhos ao lado do corpo. — Só não estou acostumado com, hum, damas nobres demonstrando tanto interesse em mim.
— Diga, gostaria de vir à minha tenda uma hora dessas? — ela perguntou de supetão, as mãos atrás das costas enquanto parava em sua frente novamente.
Dunk engasgou-se com o ar, e tensão imediatamente condensou seus ombros. Seu rosto ardia tanto que ele jurou que vapor poderia sair dele. Cambaleou para trás e quase tropeçou nos próprios pés como um bezerro recém-nascido.
— Sua... sua tenda? — Sua voz falhou no meio da palavra. — Eu... eu não acho que seria apropriado.
— Ah… que pena! — Saboreou a palavra como o mais delicioso dos vinhos.
O pulso de Dunk acelerou quando ela o rodeou mais uma vez, seus pensamentos um caos completo. O riso dela era como uma adaga em seus nervos, e ele amaldiçoava mentalmente sua graça e beleza.
Dunk não sabia como escapar. O velho nunca chegara naquela parte. A palavra "pena" pairava como um veneno adocicado no ar.
— Por que é uma pena? — atreveu-se a perguntar, embora soubesse que não o deveria.
— Ouvi por aí que precisa convencer os lordes a reconhecerem seu mestre e validar seu título de cavaleiro. Que melhor forma de fazer isso parecendo mais… aparentado? Minha tenda tem uma grande banheira e água quente para um banho. Minhas criadas podem costurar suas roupas. Eu nem sequer estarei lá, se lhe agrada.
O corpo de Dunk se tensionou como um chicote prestes a estalar com a sugestão, e sua imaginação imediatamente começou a divagar com imagens de um banho quente e óleos perfumados e exóticos.
Forçou-se a se concentrar, a ignorar o quanto desejava aquele tipo de regalia.
— Não gostaria de incomodar — diz, a voz ainda mais rouca do que o normal. Mas não conseguiu negar sua curiosidade, nem o sutil fascínio da oferta. A encarou como uma ave de rapina, estudando seu rosto em busca de qualquer sinal de desonestidade. — Por que me ofereceria isto?
— Por que não ofereceria? Não é incômodo nenhum, lhe asseguro. Venha, Sor. Meu pai me disse que precisa causar uma boa impressão nos lordes. — Lady sorriu de maneira quase inocente, embora seus olhos nada de inocente tivessem.
Dunk sentiu-se vacilar sob o tom desarmante dela, suas palavras doces penetrando em sua mente. A imagem de um banho quente e roupas limpas era incrivelmente tentadora, e sabia que ela estava certa. Queria — além de ser obviamente necessário — causar uma boa impressão.
Mas a ideia de ir à tenda de uma dama da alta sociedade parecia perigosa, mesmo que ela não estivesse lá no momento.
— Eu… — hesitou e lutou contra o desejo de concordar. — Você jura que não estará lá?
Lady levou a mão de dedos finos e longos aos lábios de maneira quase teatral.
— Sor! Eu mentiria para o senhor?
Apesar de si mesmo, Dunk sentiu um lampejo de divertimento com a reação da mulher. Ele nunca havia conhecido uma dama da alta sociedade tão brincalhona quanto parecia ser — muito como o pai, sendo sincero — e não conseguia decidir se achava isso encantador ou completamente irritante.
Sua resolução enfraqueceu-se ainda mais sob o seu olhar inocente.
— Não — finalmente conseguiu dizer, a voz trêmula. — Não, não acho que mentiria. Mas eu não tenho roupas finas para vestir quando terminar…
— Mandarei as minhas criadas lavarem e costurarem suas… roupas, se assim precisarem. — Fora delicada o suficiente para não chamar de “trapos”, embora, pela expressão que havia feito, era o que havia pensado. Dunk mal conseguiu disfarçar uma careta de constrangimento ao ouvir falar de suas roupas. O termo teria sido até generoso; suas túnicas e calças eram velhas, esfarrapadas e remendadas a ponto de se manterem unidas por pouco mais do que esperanças e sonhos. — E, claro, devolvê-las quando terminar o banho.
Ele olhou para si mesmo novamente, como se para confirmar o fato, com as bochechas em chamas. Mas a oferta era tentadora demais para recusar.
— Tudo bem — murmurou a contragosto. A desconfiança era um claro alarme no fundo de sua mente. — Eu aceito.
Segundo dia em Ashford Meadow e as competições começariam no dia seguinte. Como Egg havia mencionado pela manhã, as primeiras justas iriam para os lordes de berço e bem nascidos, o que lhe adicionava mais dias de nervosismo atacado. Mas ali estava ele, os olhos no show de títeres e o pensamento em todos os lugares possíveis. Antecipava, pensando em quantas maneiras diferentes poderia acabar sendo derrubado do cavalo.
— Oh, é você. — Escutou uma voz feminina atrás de si, virou-se de súbito e reconheceu-lhe a dona. Uma Lady. — Estava na tenda do meu pai noite passada. Em suas festividades.
Baratheon, filha de Sor Lyonel. Facilmente a mulher mais bonita dos Sete Reinos de sua época, e o título não havia sido dado levianamente. Os olhos brilhavam como tempestades de raios, dotados de uma profundidade que deixavam Dunk um pouco desconfortável e sem saber o que esperar… não que soubesse muito em alguma ocasião.
A mulher estendeu a mão, à espera de que a pegasse.
— Lady . Sou a filha de Sor Lyonel — falou como se esperasse que ele não se recordasse, embora fosse impossível esquecê-la.
Dunk pegou-lhe a mão com cautela, e sua própria palma grande pareceu áspera contra a pele macia e delicada de Lady . Estava profundamente consciente da diferença entre suas posições sociais. O abismo entre a filha de um cavaleiro nobre e um cavaleiro errante como ele era imenso, quase intransponível.
— Dunk. Sor Duncan, o Alto, às suas ordens, minha senhora. Me recordo de vê-la na tenda do senhor seu pai — corrigiu-se imediatamente e forçou um sorriso educado.
Ela claramente esperava que ele beijasse-lhe a mão mas, como não o fez, recolheu-a com um sorrisinho. Dunk notou que apreciava seu nervosismo.
— Nossa, você é realmente o maior homem que eu já vi. — Sua voz era doce como o toque de uma pluma.
Dunk sentiu as bochechas esquentarem com uma observação que muitos já haviam feito antes dela. Geralmente era uma das primeiras coisas que lhe diziam mas, em sua voz, com tanta admiração velada, não pode evitar a dose de auto-consciência que lhe invadiu.
— Sim, já me disseram bastante, minha senhora. — Seus olhos viajaram nervosamente pelos arredores, à procura de Egg. Onde estava o garoto? Levaria um tapa na orelha quando o encontrasse.
Lady abriu um sorriso desarmante.
— Parece nervoso, Sor.
Dunk tensionou-se ao ouvir o título — não o havia merecido, ainda não. Suas mãos se remexeram atrás das costas enquanto ele engolia em seco e umedecia os lábios.
— Não estou nervoso — murmurou, sem muita convicção. — Só... não sei como falar com damas como você, minha senhora.
Ele lançou um olhar de soslaio para o sorriso dela e rapidamente o desviou, a garganta seca. O velho o havia alertado sobre as moças de família nobre — elas eram perigosas de maneiras que ele nem conseguia descrever.
Lady riu. Parecia achar seu nervosismo adorável. Sua risada era como o tilintar de taças de cristal, real, elegante como ela.
— Damas como eu? — questionou, uma das sobrancelhas escuras erguidas e um sorriso malicioso nos lábios rosados.
Dunk engoliu em seco novamente e amaldiçoou-se por sua língua desajeitada. Percebera seu erro tarde, e agora se afundava ainda mais. Podia ouvir a voz do velho em sua mente; cabeça-dura como uma muralha de um castelo e lento como um auroque!
— Sim, uh, damas de alta linhagem. Damas da nobreza — gaguejou; seus olhos oscilaram entre ela e o show de títeres. — Damas que, uh, geralmente não falam com homens como eu.
— Ora, mas você estava na tenda de meu pai! Vocês conversaram bastante, quase a noite toda. Qualquer amigo dele é meu amigo também. — Os olhos da lady brilharam com astúcia.
O olhar de Dunk percorreu o prado antes de se fixar nela novamente, o coração ainda acelerado como o de um beija-flor. A alegria dela era desarmante, e sentia como se estivesse sendo manipulado — ela, uma gata esperta, a brincar com a presa. Havia algo nela que o impedia de ir embora imediatamente, porém, e ignorar seus instintos.
— Sim, conversamos um pouco, seu pai e eu — admitiu com relutância. — Mas isso não significa que ele gostaria que eu falasse com a filha dele.
— Ele não se importa, na verdade. Parece ter você em alta estima.
As sobrancelhas de Dunk se ergueram em surpresa enquanto seu ceticismo cedia, a contragosto, à curiosidade. Ele estudou o rosto dela enquanto tentava detectar qualquer sinal de zombaria ou desonestidade, mas não encontrou nenhum.
— Ele tem? — questionou, incrédulo. — Por que diabos ele teria uma opinião tão elevada de alguém insignificante como eu?
Aquela pergunta havia sido mais para ele mesmo do que para ela, mas havia proferido-a em voz alta.
— Eu não sei. Obviamente, você tem algo que chamou a atenção do meu pai… e isso não ocorre com frequência. — A garota o circulou devagar como se avaliasse um potro premiado. Lutou contra o impulso de se virar e mantê-la à vista o tempo todo; permaneceu completamente imóvel enquanto ouvia o suave bater de seus sapatos nas tábuas de madeira do chão. De repente, sentiu-se constrangido, consciente de cada calo, hematoma e aspereza do seu corpo. Não conseguia definir se, naquele momento, ela brincava com ele ou se estava realmente intrigada.
Ela riu, suave. Parecia lê-lo como a um livro aberto.
— Realmente não precisa ficar tão tenso, Sor Dunk.
Dunk sentiu o rosto esquentar ainda mais quando a risada dela ecoou em seus ouvidos, como o canto de um rouxinol. Conseguiu forçar um sorriso trêmulo em resposta, mas seu coração ainda batia com a força de um marchar de exército.
— Desculpe, minha senhora — murmurou ele, a voz quase num sussurro. Remexeu-se novamente; suas grandes mãos se fecharam em punhos ao lado do corpo. — Só não estou acostumado com, hum, damas nobres demonstrando tanto interesse em mim.
— Diga, gostaria de vir à minha tenda uma hora dessas? — ela perguntou de supetão, as mãos atrás das costas enquanto parava em sua frente novamente.
Dunk engasgou-se com o ar, e tensão imediatamente condensou seus ombros. Seu rosto ardia tanto que ele jurou que vapor poderia sair dele. Cambaleou para trás e quase tropeçou nos próprios pés como um bezerro recém-nascido.
— Sua... sua tenda? — Sua voz falhou no meio da palavra. — Eu... eu não acho que seria apropriado.
— Ah… que pena! — Saboreou a palavra como o mais delicioso dos vinhos.
O pulso de Dunk acelerou quando ela o rodeou mais uma vez, seus pensamentos um caos completo. O riso dela era como uma adaga em seus nervos, e ele amaldiçoava mentalmente sua graça e beleza.
Dunk não sabia como escapar. O velho nunca chegara naquela parte. A palavra "pena" pairava como um veneno adocicado no ar.
— Por que é uma pena? — atreveu-se a perguntar, embora soubesse que não o deveria.
— Ouvi por aí que precisa convencer os lordes a reconhecerem seu mestre e validar seu título de cavaleiro. Que melhor forma de fazer isso parecendo mais… aparentado? Minha tenda tem uma grande banheira e água quente para um banho. Minhas criadas podem costurar suas roupas. Eu nem sequer estarei lá, se lhe agrada.
O corpo de Dunk se tensionou como um chicote prestes a estalar com a sugestão, e sua imaginação imediatamente começou a divagar com imagens de um banho quente e óleos perfumados e exóticos.
Forçou-se a se concentrar, a ignorar o quanto desejava aquele tipo de regalia.
— Não gostaria de incomodar — diz, a voz ainda mais rouca do que o normal. Mas não conseguiu negar sua curiosidade, nem o sutil fascínio da oferta. A encarou como uma ave de rapina, estudando seu rosto em busca de qualquer sinal de desonestidade. — Por que me ofereceria isto?
— Por que não ofereceria? Não é incômodo nenhum, lhe asseguro. Venha, Sor. Meu pai me disse que precisa causar uma boa impressão nos lordes. — Lady sorriu de maneira quase inocente, embora seus olhos nada de inocente tivessem.
Dunk sentiu-se vacilar sob o tom desarmante dela, suas palavras doces penetrando em sua mente. A imagem de um banho quente e roupas limpas era incrivelmente tentadora, e sabia que ela estava certa. Queria — além de ser obviamente necessário — causar uma boa impressão.
Mas a ideia de ir à tenda de uma dama da alta sociedade parecia perigosa, mesmo que ela não estivesse lá no momento.
— Eu… — hesitou e lutou contra o desejo de concordar. — Você jura que não estará lá?
Lady levou a mão de dedos finos e longos aos lábios de maneira quase teatral.
— Sor! Eu mentiria para o senhor?
Apesar de si mesmo, Dunk sentiu um lampejo de divertimento com a reação da mulher. Ele nunca havia conhecido uma dama da alta sociedade tão brincalhona quanto parecia ser — muito como o pai, sendo sincero — e não conseguia decidir se achava isso encantador ou completamente irritante.
Sua resolução enfraqueceu-se ainda mais sob o seu olhar inocente.
— Não — finalmente conseguiu dizer, a voz trêmula. — Não, não acho que mentiria. Mas eu não tenho roupas finas para vestir quando terminar…
— Mandarei as minhas criadas lavarem e costurarem suas… roupas, se assim precisarem. — Fora delicada o suficiente para não chamar de “trapos”, embora, pela expressão que havia feito, era o que havia pensado. Dunk mal conseguiu disfarçar uma careta de constrangimento ao ouvir falar de suas roupas. O termo teria sido até generoso; suas túnicas e calças eram velhas, esfarrapadas e remendadas a ponto de se manterem unidas por pouco mais do que esperanças e sonhos. — E, claro, devolvê-las quando terminar o banho.
Ele olhou para si mesmo novamente, como se para confirmar o fato, com as bochechas em chamas. Mas a oferta era tentadora demais para recusar.
— Tudo bem — murmurou a contragosto. A desconfiança era um claro alarme no fundo de sua mente. — Eu aceito.
II - Resquício de Honra
Lady movia-se como se flutuasse e latia ordens para as criadas, em seu habitat natural. Dunk se questionou se conseguiria um dia ter servos e ordená-los como ela fazia, tão naturalmente, como uma habilidade inata.
— Preparem um banho para Sor Duncan. Usem meus melhores aromas. E deixem-o só… ele certamente não apreciará ser esfregado ou perturbado. — Caminhava devagar como uma corsa em uma clareira, dona de si.
As criadas assentiram e rapidamente começaram a trabalhar. Dunk ficou parado sem jeito num canto enquanto transferia o peso de um pé para o outro e observava as criadas prepararem o banho. Não conseguia deixar de perceber o quão deslocado parecia ali, naquela tenda repleta de decoração requintada. Os aromas eram intensos, quase vertiginosos, nada parecidos com os aromas naturais que ele estava acostumado.
Lançava olhares furtivos para Lady . Tentava adivinhar o que ela estava pensando. Toda a situação parecia quase irreal para ele.
— Quando ele remover suas roupas, pegue-as, lave-as e faça a costura onde necessitar — Ela contornou-lhe o corpo com o olhar.
As criadas assentiram mais uma vez e continuaram seu trabalho, algumas lançando olhares furtivos para Dunk, o que o deixava cada vez mais inquieto. A ideia de tirar a roupa na frente delas o fazia sentir-se extremamente constrangido. Suas mãos grandes e calejadas se moveram desajeitadamente ao lado do corpo, como se ele não soubesse onde colocá-las. Sentia-se como um dos títeres do show.
Quando terminaram de preparar o banho, uma das criadas se aproximou de Dunk e estendeu as mãos em espectativa. A garota não tinha mais de dezesseis anos, era magra e bonita, e evitava deliberadamente o contato visual com ele. O rosto de Dunk ardeu enquanto, relutante, começava a afrouxar os laços de sua túnica. Cada movimento parecia torturantemente lento, e ele tinha plena consciência da garota parada bem à sua frente, esperando. Manteve os olhos fixos no chão até que a túnica se soltasse e ele pudesse tirá-la.
Tentou desesperadamente ignorar a sensação do olhar dela sobre seu corpo. Seus ombros e braços eram largos, cobertos por músculos definidos e musculosos, resultado de anos de esgrima e trabalho árduo. Seu peito e abdômen também eram bem definidos, com algumas cicatrizes marcando a pele sardenta.
Enquanto continuava a se despir, Dunk tentou em vão ignorar o olhar de Lady . Ele podia sentir os olhos dela sobre ele, o peso do seu escrutínio, e isso só servia para deixá-lo mais ansioso. Suas bochechas queimavam, sua respiração ficou mais rápida e a vontade de se cobrir tornou-se quase irresistível.
Finalmente, ele estava diante dela vestindo apenas suas calças, seu peito largo arfando. A tenda pareceu repentinamente menor, o ar pesado de tensão. Dunk se mexeu desajeitadamente mais uma vez e lutou contra a vontade de fugir.
— Bem, lhe deixarei a sós, agora. — Lady bateu palmas, as criadas a seguiram para fora e deixaram Dunk à própria sorte. Uma das criadas permaneceu apenas para pegar a calça que usava e, no momento que ele a colocou em sua mão, ela desapareceu, rápida como um ratinho.
Dunk sentiu uma estranha mistura de alívio e decepção o invadir quando ela saiu. Ficou parado ali na tenda agora repentinamente vazia, com a pele arrepiada e o coração ainda acelerado. A constatação de que estava completamente sozinho finalmente o atingiu, e ele soltou um suspiro trêmulo. Esperava que o menino estivesse cuidando dos cavalos enquanto estava ali.
Olhou para a banheira e seus olhos acompanharam o vapor rodopiar de forma tentadora no ar. A ideia de finalmente estar limpo, de lavar toda a sujeira, o suor e a fuligem, era irresistível.
Dunk entrou na água fumegante e soltou um suspiro suave enquanto o calor envolvia seu corpo. Era uma sensação celestial, e ele quase gemeu de prazer ao deslizar mais fundo na banheira, a água subindo até pouco abaixo do peito. Por alguns instantes, apenas ficou sentado ali, de olhos fechados, seus músculos relaxando lentamente. Não tomava um banho quente há... bem, provavelmente nunca o havia feito.
Suas mãos calejadas percorreram sua pele, as pontas ásperas dos dedos traçando cicatrizes antigas, as bordas afiadas de seus ossos do quadril, os músculos ao longo de seu abdômen.
Ele não sabia, mas e suas damas de companhia se revezavam a observá-lo por um buraco na tenda, rindo de maneira travessa e se empurrando para disputar quem via mais. A lady, ao sentir-se particularmente mais corajosa, colocou a mão por baixo da saia do vestido e tocou-se enquanto observava a forma como as veias do pescoço do rapaz se retesavam sob a pele de seu pescoço quando ele se movia para alcançar algum lugar. Gotas de água e espuma de sabão faziam sua pele castigada pelo sol brilhar, e a garota soltou um leve suspiro ao sentir os dedos alcançarem o local perfeito.
Quando ele terminou o banho, levantou-se, e as garotas tiveram um belo vislumbre de sua masculinidade, sons de deleite escapando seus lábios. riu, levantou-se e entrou na tenda novamente. Serpenteou em direção a ele, agora sozinha. Sor Duncan ainda se cobria.
— O banho foi do seu agrado, bom Sor? — questionou, a voz doce como um beijo.
Dunk quase deixou a toalha cair e envolveu-se o mais rápido que podia enquanto virava-se para a garota. Ficou ali parado, pingando e exposto diante dela, com os olhos arregalados e o coração acelerado.
— Ah, s-sim — conseguiu gaguejar, com a voz rouca. — Perfeito, minha senhora.
Ela sorriu, e os dentes brilhavam quase tanto quanto seus olhos de corsa.
— Fico satisfeita. Importaria-se de sanar minha curiosidade?
O coração de Dunk deu um salto, e ele lutou para encontrar as palavras. Estava extremamente consciente de quão exposto se encontrava, e o jeito como o olhar dela o percorreu fez sua pele formigar. Por fim, engoliu em seco e assentiu.
— Claro, — sussurrou. — Qualquer coisa, minha senhora.
— Já esteve com uma mulher antes?
Dunk engasgou-se com o ar, o rosto ardendo tanto que sabia que deveria parecer um dos estandartes Lannister lá de fora. Suas mãos apertaram a toalha com mais força, como se tentasse se proteger — ou talvez apenas impedir que seu corpo reagisse ainda mais.
— Q-que tipo de pergunta é essa? — gaguejou, e a voz falhou no meio da frase. — Quer dizer... não! Eu não... eu não...
Parou de falar com um som estrangulado e olhou desesperadamente para a aba da barraca em busca de uma rota de fuga.
— Bem, não se sente… curioso para saber como é? — Lady pareceu perceber e colocou-se em sua frente, os olhos nos dele.
Dunk sentiu o corpo todo travar quando ela se aproximou. A toalha de repente pareceu pequena demais em suas mãos. A pergunta dela fez algo no fundo do seu estômago se revirar — um calor desconfortável e desconhecido que ele não estava pronto para identificar.
— Eu... eu não — mentiu com rigidez. — Não é da minha conta.
Queria fugir como um cavalo assustado. Sabia que tudo sobre aquele momento estava errado, que era um perigo ele sequer estar ali, ainda mais nu na frente de uma senhora de uma casa abastada.
— É muito bonito, Sor.
Dunk quase se engasgou com a própria saliva enquanto as palavras dela o atingiam em cheio. Ninguém nunca o havia chamado de bonito antes — ele sempre se considerara mais rústico e de aparência rude do que atraente. Agora, ali estava ela, perto demais, dizendo palavras que faziam sua cabeça dura girar. Tentou desesperadamente formular uma resposta coerente, mas tudo o que conseguiu fazer foi encará-la com os olhos arregalados como um idiota.
Ela não se deu por vencida diante de seu silêncio e aproximou-se. Era alta, embora não tanto quanto ele, obviamente. O topo de sua cabeça chegava ao seu queixo. Teria de se colocar na ponta dos pés se quisesse beijá-lo, mas já era uma grande diferença das outras que ele tinha de ajoelhar-se para fazê-lo.
Como se ela pudesse ler seus pensamentos, fez a próxima pergunta com um brilho nos olhos, uma criança almejando um doce.
— Me beijaria se eu pedisse? — Foi então que notou que estava há um bom tempo encarando-lhe os lábios, por isso fizera a pergunta. Sua boca secou à medida que o espaço entre eles diminuía ainda mais. Ele podia sentir o calor irradiar dela, o doce aroma do seu perfume. Seus dedos tremiam pelo esforço de segurar a toalha firmemente ao redor do corpo. Cada instinto gritava para que fugisse, escapasse, ficasse o mais longe possível dela tão rápido quanto conseguisse; e ainda assim... Viu-se balançar em concordância, o olhar fixo em seu belo rosto como se visse a própria imagem da Donzela. A ideia de fazer aquilo agora, com a filha de um lorde... Era insana.
Lady sorriu como um demônio faria, aproximou-se e, ao invés de beijar-lhe os lábios, tocou-lhe como uma pluma no pescoço, bem no seu ponto de pulsação, os lábios quentes. Dunk soltou um suspiro, engoliu em seco e o pomo-de-adão subiu e desceu de forma descompassada. A garota seguiu em frente e beijou-o na linha da mandíbula. Podia sentir-lhe os cílios longos lhe fazerem cócegas na bochecha. Fechou os olhos e aproveitou aquele misto de sensações. Deuses, parecia que iria explodir.
O próximo beijo foi no canto dos lábios, e Dunk sentiu o corpo tensionar-se como um chicote. Seus olhos azuis se abriram abruptamente.
— Minha senhora… — tentou uma última vez, o último vislumbre de algum resquício de honra que possuía naquele momento.
— Irei parar se quiser que eu pare — a garota prometeu enquanto afastava-se apenas para poder encará-lo propriamente. Seus dedos longos tocaram a toalha numa segunda promessa que seus olhos deixavam bastante clara.
— Você deveria, minha senhora. Não é… apropriado. Não é certo. — Suas ações traíam suas palavras, pois não se moveu um centímetro sequer para evitá-la, e suas respirações se misturavam em uma só.
Lady deu um passo para trás e Dunk quase protestou, mas havia sido apenas para remover os broches que prendiam suas sedas. Elas escorregaram pelo seu corpo como uma cascata azul-anil.
O rapaz sentiu-se como se houvesse sido atingido por um raio ali mesmo no meio da tenda. Seu corpo inteiro fora invadido por um calafrio violento, e o único pensamento que transpassava sua mente era o quanto Lady Baratheon era bela. A mulher afastou a cascata de noite que eram seus cabelos para trás e expôs-se completamente, os olhos de tempestade nos seus.
— Pode me tocar, se quiser — assegurou, pegou-lhe a mão e colocou-lhe no seio. Fez com que a apertasse suavemente.
Dunk soltou um leve grunhido, fechando os olhos. Todos os seus instintos gritavam que aquilo estava errado — era perigoso, impróprio, um crime punível com a morte, possivelmente —, mas a visão da pele nua dela havia anulado completamente seu bom senso.
Tentativamente, seu polegar transpassou-lhe o mamilo rosado, incerto do que fazer, e observou-o enrijecer-se abaixo de seu dígito. Os lábios de Dunk se entreabriram, e ele repetiu o movimento, o que fez com que Lady mordesse o lábio inferior. Conseguia sentir o bater de seu coração sob a mão. Estava acelerado.
Ela então envolveu-lhe com os braços, e os mamilos agora enrijecidos tocaram-lhe o peito. A garota teve de colocar-se na ponta dos pés para alcançar seus lábios, exatamente como ele pensara, beijando-o como nenhuma das garotas que já havia dado tímidas escapadas houvesse feito. Ele abraçou-a pela cintura, e sua toalha há muito esquecida caiu ao redor de seus pés como o vestido dela havia feito.
As sobrancelhas de Lady tremularam quando seu olhar desceu por um instante. Havia uma umidade sutil, um calor denso que denunciava o que o corpo dele não soubera esconder. Ela sorriu lasciva e beijou-lhe novamente, mais incisiva dessa vez.
A primeira vez que a língua dela tocou-lhe a sua, Dunk sentiu as pernas tremerem como um potro recém-nascido. O ato de envolvê-la pela cintura fez com que o espaço entre os corpos sumisse quase que completamente, e a garota podia senti-lo roçar-lhe a pele macia do ventre.
— Apenas siga seus instintos, Duncan. Não pense demais. Está indo bem — ela sussurrou em seu ouvido antes de puxar o lóbulo entre os dentes e apaziguar a leve dor do ato com uma lambida.
Dunk gemeu durante o beijo e apertou-a com mais força enquanto finalmente cedia ao instinto. Sua língua se movia contra a dela com urgência áspera — desajeitada, mas desesperada, aprendendo por tentativa e erro. Cada roçar de pele contra pele enviava ondas de prazer por todo o seu corpo. Suas mãos deslizavam pelas costas dela agora, dedos calejados mapeando cada curva como um homem memorizando escrituras sagradas.
— Porra — murmurou novamente entre os beijos. — Eu não... eu nunca me senti assim antes.
Lady soltou uma risada e beijou-lhe o pescoço suado.
— E é um bom sentimento?
Dunk soltou um som abafado — meio gemido, meio riso — quando os lábios dela encontraram seu pescoço. Suas mãos tremiam enquanto a seguravam e os quadris se moviam contra os dela em pequenas investidas involuntárias.
— Bom? — repetiu sem fôlego. — Sim, com certeza, acho que bom se encaixa no que sinto.
Sua voz falhou ao admitir; ele já estava entregue demais para fingir o contrário.
A garota envolveu-lhe os quadris com as pernas e escalou-o como faria a um cavalo, e Dunk sentiu-se alinhar-se perfeitamente com seu centro. Nervosismo o tomou imediatamente.
— Porra, porra, minha senhora, eu não… — começou em um sussurro quebrado, os olhos azuis arregalados.
Ela calou-o com um beijo doce.
— Sente-se, Duncan, e deixe que eu faça o resto — acalentou-o enquanto beijava-lhe os ombros de maneira carinhosa. Dunk a apoiou pelas nádegas para que não caísse, caminhou para a cama no canto da tenda e sentou-se nas sedas caras, levando-a consigo. Ela fez com que ele se encostasse nos travesseiros de penas e o guiou para onde o queria. Os dois arfaram em uníssono, ele surpreso com o quão incrível era a sensação nova, ela apreciando a forma que ele a preenchia tão deliciosamente.
Por um momento, nenhum dos dois se moveu, as respirações misturadas com a proximidade. Ela acariciava-lhe o rosto e sussurrava-lhe elogios que o rapaz nunca ouvira de alguém na vida.
Quando a lady finalmente começou a mover os quadris, devagar, provocante, Dunk arqueou as costas e um gemido que não reconheceu como seu irrompeu de seus lábios.
— Por favor… por favor, eu preciso, eu preciso… — tentou expressar-se. — Minha senhora…
— Acho que já pode me chamar de a partir desse momento, Duncan. Está dentro de mim — retrucou divertida, os lábios úmidos. — Use suas palavras. Do que precisa?
Dunk assentiu, erguendo o olhar para encontrar o dela. Ele não conseguia desviar o olhar, mesmo enquanto seu corpo reagia a cada movimento lento e torturante de seus quadris. Suas mãos deslizaram por suas costelas, sobre seus ombros, ao longo de seu pescoço, e finalmente pararam para acariciar seu rosto.
— … Você. Apenas preciso de você.
— Preparem um banho para Sor Duncan. Usem meus melhores aromas. E deixem-o só… ele certamente não apreciará ser esfregado ou perturbado. — Caminhava devagar como uma corsa em uma clareira, dona de si.
As criadas assentiram e rapidamente começaram a trabalhar. Dunk ficou parado sem jeito num canto enquanto transferia o peso de um pé para o outro e observava as criadas prepararem o banho. Não conseguia deixar de perceber o quão deslocado parecia ali, naquela tenda repleta de decoração requintada. Os aromas eram intensos, quase vertiginosos, nada parecidos com os aromas naturais que ele estava acostumado.
Lançava olhares furtivos para Lady . Tentava adivinhar o que ela estava pensando. Toda a situação parecia quase irreal para ele.
— Quando ele remover suas roupas, pegue-as, lave-as e faça a costura onde necessitar — Ela contornou-lhe o corpo com o olhar.
As criadas assentiram mais uma vez e continuaram seu trabalho, algumas lançando olhares furtivos para Dunk, o que o deixava cada vez mais inquieto. A ideia de tirar a roupa na frente delas o fazia sentir-se extremamente constrangido. Suas mãos grandes e calejadas se moveram desajeitadamente ao lado do corpo, como se ele não soubesse onde colocá-las. Sentia-se como um dos títeres do show.
Quando terminaram de preparar o banho, uma das criadas se aproximou de Dunk e estendeu as mãos em espectativa. A garota não tinha mais de dezesseis anos, era magra e bonita, e evitava deliberadamente o contato visual com ele. O rosto de Dunk ardeu enquanto, relutante, começava a afrouxar os laços de sua túnica. Cada movimento parecia torturantemente lento, e ele tinha plena consciência da garota parada bem à sua frente, esperando. Manteve os olhos fixos no chão até que a túnica se soltasse e ele pudesse tirá-la.
Tentou desesperadamente ignorar a sensação do olhar dela sobre seu corpo. Seus ombros e braços eram largos, cobertos por músculos definidos e musculosos, resultado de anos de esgrima e trabalho árduo. Seu peito e abdômen também eram bem definidos, com algumas cicatrizes marcando a pele sardenta.
Enquanto continuava a se despir, Dunk tentou em vão ignorar o olhar de Lady . Ele podia sentir os olhos dela sobre ele, o peso do seu escrutínio, e isso só servia para deixá-lo mais ansioso. Suas bochechas queimavam, sua respiração ficou mais rápida e a vontade de se cobrir tornou-se quase irresistível.
Finalmente, ele estava diante dela vestindo apenas suas calças, seu peito largo arfando. A tenda pareceu repentinamente menor, o ar pesado de tensão. Dunk se mexeu desajeitadamente mais uma vez e lutou contra a vontade de fugir.
— Bem, lhe deixarei a sós, agora. — Lady bateu palmas, as criadas a seguiram para fora e deixaram Dunk à própria sorte. Uma das criadas permaneceu apenas para pegar a calça que usava e, no momento que ele a colocou em sua mão, ela desapareceu, rápida como um ratinho.
Dunk sentiu uma estranha mistura de alívio e decepção o invadir quando ela saiu. Ficou parado ali na tenda agora repentinamente vazia, com a pele arrepiada e o coração ainda acelerado. A constatação de que estava completamente sozinho finalmente o atingiu, e ele soltou um suspiro trêmulo. Esperava que o menino estivesse cuidando dos cavalos enquanto estava ali.
Olhou para a banheira e seus olhos acompanharam o vapor rodopiar de forma tentadora no ar. A ideia de finalmente estar limpo, de lavar toda a sujeira, o suor e a fuligem, era irresistível.
Dunk entrou na água fumegante e soltou um suspiro suave enquanto o calor envolvia seu corpo. Era uma sensação celestial, e ele quase gemeu de prazer ao deslizar mais fundo na banheira, a água subindo até pouco abaixo do peito. Por alguns instantes, apenas ficou sentado ali, de olhos fechados, seus músculos relaxando lentamente. Não tomava um banho quente há... bem, provavelmente nunca o havia feito.
Suas mãos calejadas percorreram sua pele, as pontas ásperas dos dedos traçando cicatrizes antigas, as bordas afiadas de seus ossos do quadril, os músculos ao longo de seu abdômen.
Ele não sabia, mas e suas damas de companhia se revezavam a observá-lo por um buraco na tenda, rindo de maneira travessa e se empurrando para disputar quem via mais. A lady, ao sentir-se particularmente mais corajosa, colocou a mão por baixo da saia do vestido e tocou-se enquanto observava a forma como as veias do pescoço do rapaz se retesavam sob a pele de seu pescoço quando ele se movia para alcançar algum lugar. Gotas de água e espuma de sabão faziam sua pele castigada pelo sol brilhar, e a garota soltou um leve suspiro ao sentir os dedos alcançarem o local perfeito.
Quando ele terminou o banho, levantou-se, e as garotas tiveram um belo vislumbre de sua masculinidade, sons de deleite escapando seus lábios. riu, levantou-se e entrou na tenda novamente. Serpenteou em direção a ele, agora sozinha. Sor Duncan ainda se cobria.
— O banho foi do seu agrado, bom Sor? — questionou, a voz doce como um beijo.
Dunk quase deixou a toalha cair e envolveu-se o mais rápido que podia enquanto virava-se para a garota. Ficou ali parado, pingando e exposto diante dela, com os olhos arregalados e o coração acelerado.
— Ah, s-sim — conseguiu gaguejar, com a voz rouca. — Perfeito, minha senhora.
Ela sorriu, e os dentes brilhavam quase tanto quanto seus olhos de corsa.
— Fico satisfeita. Importaria-se de sanar minha curiosidade?
O coração de Dunk deu um salto, e ele lutou para encontrar as palavras. Estava extremamente consciente de quão exposto se encontrava, e o jeito como o olhar dela o percorreu fez sua pele formigar. Por fim, engoliu em seco e assentiu.
— Claro, — sussurrou. — Qualquer coisa, minha senhora.
— Já esteve com uma mulher antes?
Dunk engasgou-se com o ar, o rosto ardendo tanto que sabia que deveria parecer um dos estandartes Lannister lá de fora. Suas mãos apertaram a toalha com mais força, como se tentasse se proteger — ou talvez apenas impedir que seu corpo reagisse ainda mais.
— Q-que tipo de pergunta é essa? — gaguejou, e a voz falhou no meio da frase. — Quer dizer... não! Eu não... eu não...
Parou de falar com um som estrangulado e olhou desesperadamente para a aba da barraca em busca de uma rota de fuga.
— Bem, não se sente… curioso para saber como é? — Lady pareceu perceber e colocou-se em sua frente, os olhos nos dele.
Dunk sentiu o corpo todo travar quando ela se aproximou. A toalha de repente pareceu pequena demais em suas mãos. A pergunta dela fez algo no fundo do seu estômago se revirar — um calor desconfortável e desconhecido que ele não estava pronto para identificar.
— Eu... eu não — mentiu com rigidez. — Não é da minha conta.
Queria fugir como um cavalo assustado. Sabia que tudo sobre aquele momento estava errado, que era um perigo ele sequer estar ali, ainda mais nu na frente de uma senhora de uma casa abastada.
— É muito bonito, Sor.
Dunk quase se engasgou com a própria saliva enquanto as palavras dela o atingiam em cheio. Ninguém nunca o havia chamado de bonito antes — ele sempre se considerara mais rústico e de aparência rude do que atraente. Agora, ali estava ela, perto demais, dizendo palavras que faziam sua cabeça dura girar. Tentou desesperadamente formular uma resposta coerente, mas tudo o que conseguiu fazer foi encará-la com os olhos arregalados como um idiota.
Ela não se deu por vencida diante de seu silêncio e aproximou-se. Era alta, embora não tanto quanto ele, obviamente. O topo de sua cabeça chegava ao seu queixo. Teria de se colocar na ponta dos pés se quisesse beijá-lo, mas já era uma grande diferença das outras que ele tinha de ajoelhar-se para fazê-lo.
Como se ela pudesse ler seus pensamentos, fez a próxima pergunta com um brilho nos olhos, uma criança almejando um doce.
— Me beijaria se eu pedisse? — Foi então que notou que estava há um bom tempo encarando-lhe os lábios, por isso fizera a pergunta. Sua boca secou à medida que o espaço entre eles diminuía ainda mais. Ele podia sentir o calor irradiar dela, o doce aroma do seu perfume. Seus dedos tremiam pelo esforço de segurar a toalha firmemente ao redor do corpo. Cada instinto gritava para que fugisse, escapasse, ficasse o mais longe possível dela tão rápido quanto conseguisse; e ainda assim... Viu-se balançar em concordância, o olhar fixo em seu belo rosto como se visse a própria imagem da Donzela. A ideia de fazer aquilo agora, com a filha de um lorde... Era insana.
Lady sorriu como um demônio faria, aproximou-se e, ao invés de beijar-lhe os lábios, tocou-lhe como uma pluma no pescoço, bem no seu ponto de pulsação, os lábios quentes. Dunk soltou um suspiro, engoliu em seco e o pomo-de-adão subiu e desceu de forma descompassada. A garota seguiu em frente e beijou-o na linha da mandíbula. Podia sentir-lhe os cílios longos lhe fazerem cócegas na bochecha. Fechou os olhos e aproveitou aquele misto de sensações. Deuses, parecia que iria explodir.
O próximo beijo foi no canto dos lábios, e Dunk sentiu o corpo tensionar-se como um chicote. Seus olhos azuis se abriram abruptamente.
— Minha senhora… — tentou uma última vez, o último vislumbre de algum resquício de honra que possuía naquele momento.
— Irei parar se quiser que eu pare — a garota prometeu enquanto afastava-se apenas para poder encará-lo propriamente. Seus dedos longos tocaram a toalha numa segunda promessa que seus olhos deixavam bastante clara.
— Você deveria, minha senhora. Não é… apropriado. Não é certo. — Suas ações traíam suas palavras, pois não se moveu um centímetro sequer para evitá-la, e suas respirações se misturavam em uma só.
Lady deu um passo para trás e Dunk quase protestou, mas havia sido apenas para remover os broches que prendiam suas sedas. Elas escorregaram pelo seu corpo como uma cascata azul-anil.
O rapaz sentiu-se como se houvesse sido atingido por um raio ali mesmo no meio da tenda. Seu corpo inteiro fora invadido por um calafrio violento, e o único pensamento que transpassava sua mente era o quanto Lady Baratheon era bela. A mulher afastou a cascata de noite que eram seus cabelos para trás e expôs-se completamente, os olhos de tempestade nos seus.
— Pode me tocar, se quiser — assegurou, pegou-lhe a mão e colocou-lhe no seio. Fez com que a apertasse suavemente.
Dunk soltou um leve grunhido, fechando os olhos. Todos os seus instintos gritavam que aquilo estava errado — era perigoso, impróprio, um crime punível com a morte, possivelmente —, mas a visão da pele nua dela havia anulado completamente seu bom senso.
Tentativamente, seu polegar transpassou-lhe o mamilo rosado, incerto do que fazer, e observou-o enrijecer-se abaixo de seu dígito. Os lábios de Dunk se entreabriram, e ele repetiu o movimento, o que fez com que Lady mordesse o lábio inferior. Conseguia sentir o bater de seu coração sob a mão. Estava acelerado.
Ela então envolveu-lhe com os braços, e os mamilos agora enrijecidos tocaram-lhe o peito. A garota teve de colocar-se na ponta dos pés para alcançar seus lábios, exatamente como ele pensara, beijando-o como nenhuma das garotas que já havia dado tímidas escapadas houvesse feito. Ele abraçou-a pela cintura, e sua toalha há muito esquecida caiu ao redor de seus pés como o vestido dela havia feito.
As sobrancelhas de Lady tremularam quando seu olhar desceu por um instante. Havia uma umidade sutil, um calor denso que denunciava o que o corpo dele não soubera esconder. Ela sorriu lasciva e beijou-lhe novamente, mais incisiva dessa vez.
A primeira vez que a língua dela tocou-lhe a sua, Dunk sentiu as pernas tremerem como um potro recém-nascido. O ato de envolvê-la pela cintura fez com que o espaço entre os corpos sumisse quase que completamente, e a garota podia senti-lo roçar-lhe a pele macia do ventre.
— Apenas siga seus instintos, Duncan. Não pense demais. Está indo bem — ela sussurrou em seu ouvido antes de puxar o lóbulo entre os dentes e apaziguar a leve dor do ato com uma lambida.
Dunk gemeu durante o beijo e apertou-a com mais força enquanto finalmente cedia ao instinto. Sua língua se movia contra a dela com urgência áspera — desajeitada, mas desesperada, aprendendo por tentativa e erro. Cada roçar de pele contra pele enviava ondas de prazer por todo o seu corpo. Suas mãos deslizavam pelas costas dela agora, dedos calejados mapeando cada curva como um homem memorizando escrituras sagradas.
— Porra — murmurou novamente entre os beijos. — Eu não... eu nunca me senti assim antes.
Lady soltou uma risada e beijou-lhe o pescoço suado.
— E é um bom sentimento?
Dunk soltou um som abafado — meio gemido, meio riso — quando os lábios dela encontraram seu pescoço. Suas mãos tremiam enquanto a seguravam e os quadris se moviam contra os dela em pequenas investidas involuntárias.
— Bom? — repetiu sem fôlego. — Sim, com certeza, acho que bom se encaixa no que sinto.
Sua voz falhou ao admitir; ele já estava entregue demais para fingir o contrário.
A garota envolveu-lhe os quadris com as pernas e escalou-o como faria a um cavalo, e Dunk sentiu-se alinhar-se perfeitamente com seu centro. Nervosismo o tomou imediatamente.
— Porra, porra, minha senhora, eu não… — começou em um sussurro quebrado, os olhos azuis arregalados.
Ela calou-o com um beijo doce.
— Sente-se, Duncan, e deixe que eu faça o resto — acalentou-o enquanto beijava-lhe os ombros de maneira carinhosa. Dunk a apoiou pelas nádegas para que não caísse, caminhou para a cama no canto da tenda e sentou-se nas sedas caras, levando-a consigo. Ela fez com que ele se encostasse nos travesseiros de penas e o guiou para onde o queria. Os dois arfaram em uníssono, ele surpreso com o quão incrível era a sensação nova, ela apreciando a forma que ele a preenchia tão deliciosamente.
Por um momento, nenhum dos dois se moveu, as respirações misturadas com a proximidade. Ela acariciava-lhe o rosto e sussurrava-lhe elogios que o rapaz nunca ouvira de alguém na vida.
Quando a lady finalmente começou a mover os quadris, devagar, provocante, Dunk arqueou as costas e um gemido que não reconheceu como seu irrompeu de seus lábios.
— Por favor… por favor, eu preciso, eu preciso… — tentou expressar-se. — Minha senhora…
— Acho que já pode me chamar de a partir desse momento, Duncan. Está dentro de mim — retrucou divertida, os lábios úmidos. — Use suas palavras. Do que precisa?
Dunk assentiu, erguendo o olhar para encontrar o dela. Ele não conseguia desviar o olhar, mesmo enquanto seu corpo reagia a cada movimento lento e torturante de seus quadris. Suas mãos deslizaram por suas costelas, sobre seus ombros, ao longo de seu pescoço, e finalmente pararam para acariciar seu rosto.
— … Você. Apenas preciso de você.
III - Algo Pior do Que Esperava
Diante de tantas… novidades, Dunk não durara muito, e havia derramado-se dentro dela com rapidez. O corpo quase convulsionara no ato, mas ela não parecia ter se importado — acariciava-lhe as escápulas, os ombros, e observava-o como se fosse uma tapeçaria rara. Tratava-o com uma doçura e respeito que raramente via em alguém de sangue nobre.
— Deuses, garota. Tem um demônio dentro de você — foi o que pôde dizer, ainda ofegante, e aquilo a fez rir. Após alguns minutos em paz idílica, Lady tornou a chamar as criadas. Dunk cobriu-se depressa e fez o mesmo com ela, o que pareceu surpreendê-la, mas nada disse.
— Preparem outro banho. Morno — ordenou enquanto ainda acariciava os ombros de Dunk. A própria nudez não parecia perturbá-la em nada. Demorou um pouco para as criadas esquentarem todos os baldes de água para o novo banho mas, logo que estava pronto, levantou-se e colocou óleos de sua preferência na água enquanto cantarolava uma canção antiga.
Quando terminou, dispensou as criadas novamente e chamou Dunk com um aceno da mão para a banheira. O rapaz sentou-se na tina e ela adiantou-se para sentar-se em seu colo, de frente para ele. Com uma esponja, o livrou de todo suor que tinha no corpo. A água quente o relaxou novamente, e seus membros pareciam quase líquidos de tão mole enquanto ele afundava na banheira. Deixou a cabeça cair para trás contra a borda, os olhos fechados enquanto sentia as mãos dela deslizarem sobre sua pele. Ele estava completamente maleável sob seu toque, toda a sua tensão habitual havia desaparecido. Seus dedos se flexionaram contra a pele macia em pequenos espasmos involuntários de prazer.
— Isso é... bom — ele sussurrou suavemente. — Ninguém nunca cuidou de mim assim.
soltou um som de agrado.
— É apenas o começo. Pode ser ainda melhor.
Dunk emitiu um som abafado na garganta — parte descrença, parte pura vontade. Seus dedos se flexionaram fracamente contra os quadris dela, como se tentasse puxá-la para mais perto, apesar de estar completamente exausto.
— M-melhor? — repetiu roucamente. — Puta merda... Eu nem tenho certeza se sobrevivi ao que acabamos de fazer ainda.
Mas não havia protesto algum; apenas um espanto atordoado e um desejo persistente. Ele inclinou a cabeça para cima para roçar seus narizes novamente com um empurrão desajeitado.
riu daquilo enquanto acariciava-lhe os cabelos molhados.
— É adorável, Sor — ronronou e fez o mesmo movimento contra seu nariz. Antes que pudesse se conter, beijou-o e a língua quente invadiu-lhe os lábios. Conquistava sem pudor.
guiou seus dedos para seu centro e ensinou-lhe a dar-lhe prazer, a como estimular o pequeno botão de nervos que se encontrava ali o suficiente para fazê-la ver estrelas com o céu encoberto pela tenda. Dunk a observava estupefato; nunca imaginara que seria daquela forma, que podia fazer tais coisas. Acabaram transando novamente na banheira; o ensinara a durar mais tempo, e os dois alcançaram o clímax juntos.
— Pode ficar se quiser, Sor. Durma aqui. — A mulher deixou a bolha de intimidade dos dois, ofegante e satisfeita, e vestiu-se com um robe amarelo abandonado em uma das cadeiras, ornamentado com desenhos que o lembraram chifres de veado, claro.
Ele não tinha energia para discutir. Saiu da banheira, caminhou devagar às sedas convidativas da cama e o corpo tombou em cima com tanta força que temeu ter destruído a madeira que sustentava o colchão de penas.
— Tem certeza? — murmurou, cansado demais para ligar para o que era apropriado.
riu levemente.
— Claro, Duncan. Minha tenda de banho é sua pela noite. — Ele mal escutou a resposta. Antes dela terminar de falar, já roncava, exausto, de barriga para baixo e completamente nu. Dormiu como não o fazia há anos: profundamente, em paz... e, pela primeira vez, sem pesadelos com a Baixada das Pulgas ou com o fantasma de Sor Arlan.
💫🌳💫
Pela manhã, acordou com o som de mastigados e ruídos de satisfação. Ao abrir os olhos, viu Egg sentado em uma das mesas de mogno descascada. Refastelava-se com um pão de centeio quase tão grande quanto sua cabeça, e as pernas finas balançavam, os tornozelos cruzados de maneira despreocupada. Dunk agradeceu em silêncio por pelo menos o traseiro estar coberto; ao lado de Egg, um grande desjejum o aguardava. Pães de centeio, belos morangos grandes, vermelhos e suados, cerejas, mirtilos e manteiga de alecrim.
Suas roupas estavam numa cadeira ao lado da cama; pegou-lhes e as avaliou com atenção. Bem cosidas e limpas, agora, livres do cheiro imundo que parecia ter agarrado no tecido gasto. Vestiu-as com cuidado como se temesse arruinar o trabalho das criadas, e só aí encarou Egg, envergonhado com sua conduta da noite passada.
— Onde esteve? Lhe procurei ontem.
Egg deu de ombros e colocou um morango particularmente gordo inteiro na boca.
— Parecia ocupado ontem, Sor, e não era me procurando.
Dunk xingou baixo. Já havia passado da hora daquele menino ganhar um tabefe no ouvido. Seu estômago roncou alto, porém, e logo juntou-se ao garoto para quebrarem o desjejum juntos.
— Onde dormiu? — perguntou, de repente sentindo remorso por ter dormido em tamanho luxo e deixado o garoto ao relento abaixo do olmo. Egg apontou para um sofá no canto da tenda. Aquilo o deixou aliviado.
— Lady disse que eu podia.
Quando deixaram a tenda, cruzou caminho com Raymun Fossoway, a quem havia começado a apreciar a presença alguns dias atrás. Dunk esboçou um pequeno sorriso cansado. Seus olhos percorreram o ambiente e procuraram por outras pessoas por perto, antes de dar um tapinha desajeitado nas costas do rapaz — o que, para alguém como ele, poderia ser considerado um cumprimento amigável.
— Bom dia — resmungou e pigarreou para tentar se livrar da rouquidão matinal da voz.
Raymun deu um passo afrente pela força do cumprimento, mas aquilo não pareceu chateá-lo, um meio sorriso travesso em seus lábios.
— Então Lady fez mais uma vítima, em?
Dunk se tensionou com a provocação e seu rosto corou instantaneamente. Ele não estava acostumado a ser troçado — especialmente não por algo assim, e muito menos por um senhor.
— Não fui vítima de nada — murmurou baixinho e deu um leve empurrão no ombro de Raymun em retaliação. Seu tom era áspero, mas sem qualquer agressividade real, mais envergonhado do que zangado.
— Ela faz isso em todos os torneios, aquela ali. Steffon ainda fala dela até hoje. — Raymun deu uma risadinha.
As sobrancelhas de Dunk se ergueram enquanto sua expressão mudava de confusa para totalmente alarmada. Ele se inclinou um pouco para frente e a voz abaixou para um rosnado sussurrado.
— Espere—ela o quê? — piscou rapidamente como se estivesse tentando processar a informação. — Quer dizer que eu não fui o primeiro?
Havia algo entre descrença e puro pânico em seu tom agora — como um homem que acabara de perceber que pode ter se metido em algo pior do que esperava.
Raymun parecia decidir se iria rir na cara dele ou se deveria permanecer surpreso pelo raciocínio do Cavaleiro Andante — ou pela falta de tal.
— Lady ? — finalmente questionou com descrença.
O rosto de Dunk se contorceu numa expressão entre raiva e constrangimento enquanto encarava Raymun.
— É, ela. Você está dizendo que ela já fez isso antes? — Sua voz estava mais baixa e rouca, os olhos semicerrados. Claramente não parecia feliz.
— O que aquela mulher embainhou em espadas nos últimos dois anos, Aegon, o Conquistador não fez em sua vida inteira, meu amigo — Raymun disse com uma careta apologética.
Dunk encarou Raymun por um longo momento enquanto seu cérebro processava lentamente as palavras.
— Você quer dizer... que ela já fez isso várias vezes… — sua voz se perdeu; e então, de repente, ele voltou a encará-lo. — Puta merda, por que você não me contou isso antes de eu ir até a maldita tenda
Raymun deu de ombros, ainda chocado.
— Achei que sabia onde estava se metendo! A fama dela não é leviana. Não me surpreenderia se não arrumasse um marido, embora seja de sangue Baratheon.
O rosto de Dunk estava quente, e seu maxilar se contraiu como se ele estivesse a dois segundos de socar o rapaz Fossoway ou se entregar a um acesso de fúria. Soltou um suspiro abrupto pelo nariz.
— Puta merda — murmurou baixinho. — Eu pensei…
Ele se interrompeu com outro ruído de frustração, e passou a mão pelo rosto antes de finalmente se virar e sair pisando duro sem dizer mais nada. Raymun não o seguiu; sabia que era melhor deixá-lo pensar em paz.
Claro, Dunk não era burro. Nunca esperara significar algo de tamanha estima para uma lady, mas… Deuses, era a primeira mulher com que havia se deitado. Uma mulher que o tomara como um brinquedo, que usara-lhe apenas para satisfazer seus próprios desejos. Se fechasse os olhos naquele momento, podia ouvir seus suspiros de prazer, sentir a pele na sua, seu cheiro inebriante de óleos exóticos que ele nunca teria como comprar.
A garota Baratheon o comprara de graça. Ele não era melhor que as prostitutas que serviam Sor Manfred Dondarrion, agora. Os olhos queimaram, e evitou olhar para Egg. Não queria se sentir mais estúpido do que já estava no momento.
— Deuses, garota. Tem um demônio dentro de você — foi o que pôde dizer, ainda ofegante, e aquilo a fez rir. Após alguns minutos em paz idílica, Lady tornou a chamar as criadas. Dunk cobriu-se depressa e fez o mesmo com ela, o que pareceu surpreendê-la, mas nada disse.
— Preparem outro banho. Morno — ordenou enquanto ainda acariciava os ombros de Dunk. A própria nudez não parecia perturbá-la em nada. Demorou um pouco para as criadas esquentarem todos os baldes de água para o novo banho mas, logo que estava pronto, levantou-se e colocou óleos de sua preferência na água enquanto cantarolava uma canção antiga.
Quando terminou, dispensou as criadas novamente e chamou Dunk com um aceno da mão para a banheira. O rapaz sentou-se na tina e ela adiantou-se para sentar-se em seu colo, de frente para ele. Com uma esponja, o livrou de todo suor que tinha no corpo. A água quente o relaxou novamente, e seus membros pareciam quase líquidos de tão mole enquanto ele afundava na banheira. Deixou a cabeça cair para trás contra a borda, os olhos fechados enquanto sentia as mãos dela deslizarem sobre sua pele. Ele estava completamente maleável sob seu toque, toda a sua tensão habitual havia desaparecido. Seus dedos se flexionaram contra a pele macia em pequenos espasmos involuntários de prazer.
— Isso é... bom — ele sussurrou suavemente. — Ninguém nunca cuidou de mim assim.
soltou um som de agrado.
— É apenas o começo. Pode ser ainda melhor.
Dunk emitiu um som abafado na garganta — parte descrença, parte pura vontade. Seus dedos se flexionaram fracamente contra os quadris dela, como se tentasse puxá-la para mais perto, apesar de estar completamente exausto.
— M-melhor? — repetiu roucamente. — Puta merda... Eu nem tenho certeza se sobrevivi ao que acabamos de fazer ainda.
Mas não havia protesto algum; apenas um espanto atordoado e um desejo persistente. Ele inclinou a cabeça para cima para roçar seus narizes novamente com um empurrão desajeitado.
riu daquilo enquanto acariciava-lhe os cabelos molhados.
— É adorável, Sor — ronronou e fez o mesmo movimento contra seu nariz. Antes que pudesse se conter, beijou-o e a língua quente invadiu-lhe os lábios. Conquistava sem pudor.
guiou seus dedos para seu centro e ensinou-lhe a dar-lhe prazer, a como estimular o pequeno botão de nervos que se encontrava ali o suficiente para fazê-la ver estrelas com o céu encoberto pela tenda. Dunk a observava estupefato; nunca imaginara que seria daquela forma, que podia fazer tais coisas. Acabaram transando novamente na banheira; o ensinara a durar mais tempo, e os dois alcançaram o clímax juntos.
— Pode ficar se quiser, Sor. Durma aqui. — A mulher deixou a bolha de intimidade dos dois, ofegante e satisfeita, e vestiu-se com um robe amarelo abandonado em uma das cadeiras, ornamentado com desenhos que o lembraram chifres de veado, claro.
Ele não tinha energia para discutir. Saiu da banheira, caminhou devagar às sedas convidativas da cama e o corpo tombou em cima com tanta força que temeu ter destruído a madeira que sustentava o colchão de penas.
— Tem certeza? — murmurou, cansado demais para ligar para o que era apropriado.
riu levemente.
— Claro, Duncan. Minha tenda de banho é sua pela noite. — Ele mal escutou a resposta. Antes dela terminar de falar, já roncava, exausto, de barriga para baixo e completamente nu. Dormiu como não o fazia há anos: profundamente, em paz... e, pela primeira vez, sem pesadelos com a Baixada das Pulgas ou com o fantasma de Sor Arlan.
Pela manhã, acordou com o som de mastigados e ruídos de satisfação. Ao abrir os olhos, viu Egg sentado em uma das mesas de mogno descascada. Refastelava-se com um pão de centeio quase tão grande quanto sua cabeça, e as pernas finas balançavam, os tornozelos cruzados de maneira despreocupada. Dunk agradeceu em silêncio por pelo menos o traseiro estar coberto; ao lado de Egg, um grande desjejum o aguardava. Pães de centeio, belos morangos grandes, vermelhos e suados, cerejas, mirtilos e manteiga de alecrim.
Suas roupas estavam numa cadeira ao lado da cama; pegou-lhes e as avaliou com atenção. Bem cosidas e limpas, agora, livres do cheiro imundo que parecia ter agarrado no tecido gasto. Vestiu-as com cuidado como se temesse arruinar o trabalho das criadas, e só aí encarou Egg, envergonhado com sua conduta da noite passada.
— Onde esteve? Lhe procurei ontem.
Egg deu de ombros e colocou um morango particularmente gordo inteiro na boca.
— Parecia ocupado ontem, Sor, e não era me procurando.
Dunk xingou baixo. Já havia passado da hora daquele menino ganhar um tabefe no ouvido. Seu estômago roncou alto, porém, e logo juntou-se ao garoto para quebrarem o desjejum juntos.
— Onde dormiu? — perguntou, de repente sentindo remorso por ter dormido em tamanho luxo e deixado o garoto ao relento abaixo do olmo. Egg apontou para um sofá no canto da tenda. Aquilo o deixou aliviado.
— Lady disse que eu podia.
Quando deixaram a tenda, cruzou caminho com Raymun Fossoway, a quem havia começado a apreciar a presença alguns dias atrás. Dunk esboçou um pequeno sorriso cansado. Seus olhos percorreram o ambiente e procuraram por outras pessoas por perto, antes de dar um tapinha desajeitado nas costas do rapaz — o que, para alguém como ele, poderia ser considerado um cumprimento amigável.
— Bom dia — resmungou e pigarreou para tentar se livrar da rouquidão matinal da voz.
Raymun deu um passo afrente pela força do cumprimento, mas aquilo não pareceu chateá-lo, um meio sorriso travesso em seus lábios.
— Então Lady fez mais uma vítima, em?
Dunk se tensionou com a provocação e seu rosto corou instantaneamente. Ele não estava acostumado a ser troçado — especialmente não por algo assim, e muito menos por um senhor.
— Não fui vítima de nada — murmurou baixinho e deu um leve empurrão no ombro de Raymun em retaliação. Seu tom era áspero, mas sem qualquer agressividade real, mais envergonhado do que zangado.
— Ela faz isso em todos os torneios, aquela ali. Steffon ainda fala dela até hoje. — Raymun deu uma risadinha.
As sobrancelhas de Dunk se ergueram enquanto sua expressão mudava de confusa para totalmente alarmada. Ele se inclinou um pouco para frente e a voz abaixou para um rosnado sussurrado.
— Espere—ela o quê? — piscou rapidamente como se estivesse tentando processar a informação. — Quer dizer que eu não fui o primeiro?
Havia algo entre descrença e puro pânico em seu tom agora — como um homem que acabara de perceber que pode ter se metido em algo pior do que esperava.
Raymun parecia decidir se iria rir na cara dele ou se deveria permanecer surpreso pelo raciocínio do Cavaleiro Andante — ou pela falta de tal.
— Lady ? — finalmente questionou com descrença.
O rosto de Dunk se contorceu numa expressão entre raiva e constrangimento enquanto encarava Raymun.
— É, ela. Você está dizendo que ela já fez isso antes? — Sua voz estava mais baixa e rouca, os olhos semicerrados. Claramente não parecia feliz.
— O que aquela mulher embainhou em espadas nos últimos dois anos, Aegon, o Conquistador não fez em sua vida inteira, meu amigo — Raymun disse com uma careta apologética.
Dunk encarou Raymun por um longo momento enquanto seu cérebro processava lentamente as palavras.
— Você quer dizer... que ela já fez isso várias vezes… — sua voz se perdeu; e então, de repente, ele voltou a encará-lo. — Puta merda, por que você não me contou isso antes de eu ir até a maldita tenda
Raymun deu de ombros, ainda chocado.
— Achei que sabia onde estava se metendo! A fama dela não é leviana. Não me surpreenderia se não arrumasse um marido, embora seja de sangue Baratheon.
O rosto de Dunk estava quente, e seu maxilar se contraiu como se ele estivesse a dois segundos de socar o rapaz Fossoway ou se entregar a um acesso de fúria. Soltou um suspiro abrupto pelo nariz.
— Puta merda — murmurou baixinho. — Eu pensei…
Ele se interrompeu com outro ruído de frustração, e passou a mão pelo rosto antes de finalmente se virar e sair pisando duro sem dizer mais nada. Raymun não o seguiu; sabia que era melhor deixá-lo pensar em paz.
Claro, Dunk não era burro. Nunca esperara significar algo de tamanha estima para uma lady, mas… Deuses, era a primeira mulher com que havia se deitado. Uma mulher que o tomara como um brinquedo, que usara-lhe apenas para satisfazer seus próprios desejos. Se fechasse os olhos naquele momento, podia ouvir seus suspiros de prazer, sentir a pele na sua, seu cheiro inebriante de óleos exóticos que ele nunca teria como comprar.
A garota Baratheon o comprara de graça. Ele não era melhor que as prostitutas que serviam Sor Manfred Dondarrion, agora. Os olhos queimaram, e evitou olhar para Egg. Não queria se sentir mais estúpido do que já estava no momento.
IV - Orgulho Intacto
As festas noturnas na tenda dos Baratheon seguiam ocorrendo a todo vapor e traziam diversão e distração para o nervosismo do início das justas, que seria no dia seguinte. Havia muita dança, comes e bebes, pessoas divertidas… e um emburrado Sor Duncan, de quem Lady não conseguia tirar os olhos. Perguntava-se o que havia colocado o Cavaleiro Andante naquele humor terrível; nem sequer lançara um olhar em sua direção, falara apenas com seu pai e reconhecera sua presença com um aceno de cabeça discreto.
suspirou. O homem realmente era um enigma.
— O que há com você esta noite? — Sor Lyonel, seu pai, questionou enquanto coçava a barba salpicada de prata. — Não tira os olhos de um certo cavaleiro alto. Os rumores são reais, então?
Lyonel balançava a taça de vinho enquanto a encarava com um olhar de quem sabia perfeitamente a resposta para aquela pergunta. revirou os olhos.
— Rumores. Hah. Tem havido muitos rumores sobre mim ultimamente, e nem sequer metade deles são reais. As pessoas estão ficando preguiçosas e sem criatividade. — A Lady bebericou seu dourado da árvore, os olhos a dardejar pela tenda numa tentativa de disfarçar o objeto de sua notada vigília. — Não sei o que quer dizer. Refere-se ao seu amigo novo?
Lyonel empertigou-se na cadeira. conhecia aquele olhar; estava prestes a levar um sermão.
— Pai…
— Apenas ouça-me, está bem? Sei que não o faz o suficiente, mas serei rápido — entoou com seu talento para drama. — Cuidado, minha menina. Sor Dunk, o Alto, não é um cortesão qualquer com quem se possa brincar e descartar quando se estiver entediada. Aquele rapaz tem mais honra do que metade dos lordes neste salão... e menos paciência para joguinhos.
Lyonel fez uma pausa ao observar o rapaz mais uma vez.
— … embora eu duvide que isso vá lhe impedir. — O pesar era claro em sua voz.
— Não impediu — retrucou com teimosia.
— Claro que não impediu — Lyonel deu um bom gole em sua taça. — Você é uma garota linda, , e o problema? Você sabe disso. O mundo está praticamente aos seus pés; todos os homens que você encontra se atropelam só para ter a chance de falar com você. — Seu tom se tornou repreensivo enquanto ele acenava com a taça na direção de Dunk. — Mas esse não é como os outros. Tome cuidado. Ele não é um brinquedo e não vai se deixar tratar como tal.
riu em desafio.
— O que ele irá fazer? Me bater? Me sequestrar? — Acompanhou o pai em um gole de bebida. — Ele é… simplório. E bastante doce. Como Florian, o Bobo. É diferente, isso eu notei.
— Florian, o Bobo? Aquele garoto é um soldado, . — bradou em voz baixa e estreitou os olhos enquanto estudava o rosto dela em busca de qualquer indício de verdadeira crueldade por trás de suas palavras provocativas. — Um cavaleiro em treinamento com mais fibra moral do que a maioria dos homens que conheço, que enterrou seu mestre como um homem e agora luta para recuperar a pouca honra que lhe restou após aquele túmulo repentino. — Uma pausa antes de acrescentar, enfaticamente. — ...E você está tratando-o como uma mera diversão passageira, em vez de alguém digno de respeito.
Lyonel Baratheon raramente era tão sério e, quando era, esperava que fosse escutado. afundou-se na cadeira, um bico nos lábios rosados que os assemelhava a um broto de flor.
— Admira-o. É raro para Lyonel Baratheon, o Tempestade Risonha, ficar impressionado com alguém.
Sor Lyonel deu de ombros levemente e tomou um gole de vinho enquanto continuava a observar a filha. A garota tinha aquele brilho familiar nos olhos que ele conhecia tão bem — a teimosia que a tornava formidável, mas também completamente imprevisível às vezes.
— Sim, — admitiu, com um leve sorriso no rosto. — Passei a respeitá-lo. O rapaz tem um senso de honra que a maioria dos nobres poderia aprimorar.
Ele a encarou com um olhar penetrante.
— Seria sábio não quebrar isso. Uma honra como essa não é algo com que se possa brincar, .
soltou uma risada que poderia sacudir os pilares da terra.
— Oh, papai, por favor! Quando foi a última vez que quebrei um homem? Sua espécie não pode ser quebrada, temo eu. — A garota empertigou-se na cadeira novamente, agora de maneira arrogante. — Sor Duncan viverá para ver outro dia. Ele é um garotinho crescido.
Sor Lyonel soltou uma risada rouca, áspera e nada divertida.
— Ah, não sei... Sor Steffon Fossoway? Príncipe Daeron? Aquele lorde dornês que você humilhou sem querer no banquete do ano passado? — Ele se inclinou para mais perto, a voz baixando para algo perigoso sob o humor. — Dunk não é um cavaleiro de estimação de Porto Real. Ou ele sairá daqui amanhã com seu orgulho intacto... ou não sairá de jeito nenhum. — Um gole significativo de vinho antes de acrescentar: — ...A escolha é sua.
pensou naquelas palavras e tomou-as quase como um agouro. Será mesmo que havia mexido com alguém que não deveria? Quais seriam os galhos do destino ramificados por aquela ação?
— Levarei seu conselho em consideração — disse enquanto assoprava uma mecha teimosa da frente da testa.
A expressão de Sor Lyonel suavizou-se ligeiramente e a tensão em seus ombros diminuiu um pouco com as palavras. Ele estendeu a mão para afastar outra mecha de cabelo rebelde de sua testa — um gesto antigo e afetuoso.
— Bom, — murmurou antes de tomar outro gole de vinho e recostar-se na cadeira. — Porque eu gosto do rapaz. E não quero ter que atravessá-lo com a minha espada por desonrar minha filha quando ele descobrir exatamente que tipo de jogo você está jogando com ele.
conteve um calafrio enquanto sentia um gosto amargo na língua, quase como o aço quando beijava a pele.
— Agora, que tal uma música? — o mais velho sugeriu, de volta ao seu estado de espírito festeiro como se nada houvesse acontecido.
— Não estou com vontade de cantar — retrucou com um revirar de olhos.
Sor Lyonel ergueu uma sobrancelha em leve surpresa. Era tão raro que ele poderia contar nos dedos de uma mão o número de vezes que viu sua filha se recusar a se apresentar por um mero capricho.
— Desde quando você recusa uma oportunidade de brilhar? — questionou com leveza. — Você geralmente parece bastante ansiosa para se exibir para as massas a cada momento possível.
— Não estou com vontade de ser apresentada como uma vaca premiada esta noite — voltou a retrucar num tom de voz malcriado.
Isso provocou uma risada baixa de Sor Lyonel, e uma faísca familiar de exasperação divertida acendeu-se em seus olhos. Ele a observou por um momento enquanto absorvia a teimosia em seu queixo, a maneira como ela o mantinha erguido como uma criança desafiadora. Esta era a filha que ele criara.
— Você é uma vaca premiada, minha querida — apontou sem rodeios. — Todos os homens nesta sala estão olhando para você como se fosse uma joia esperando para ser reivindicada. Não podemos permitir que achem que você é qualquer coisa menos que a perfeição.
hesitou. Aquele havia sido um golpe baixo diretamente em seu ego. O pai a conhecia melhor que ninguém, de fato. Apreciava ser aplaudida, vista como uma pérola rara em um mar de conchas quebradas. Almejava ser como as tempestades; inegável em sua beleza, admirável em sua força, temida em sua fúria.
Não suportava a ideia de ser apenas mais uma. Não por desprezar os outros, mas porque, sem o brilho, não sabia onde terminava sua existência.
Levantou-se devagar e ajeitou o vestido, esperando que o pai a anunciasse.
Sor Lyonel fez o mesmo enquanto a observava com um meio sorriso. É claro que ela acabaria cedendo e fazendo exatamente o que ele mandara. Era teimosa como uma mula, mas ainda era uma mulher, afinal. Uma moça bonita e vaidosa que adorava ser o centro das atenções, apesar de dizer o contrário.
Ele bateu com a mão na mesa e elevou a voz para que todos no grupo pudessem ouvir.
— E agora, meus amigos, para o nosso entretenimento desta noite, uma canção da minha adorável filha!
Uma grande ovação ecoou pela sala. aprontou-se, esguia como uma flecha, e começou a cantar uma antiga canção que a mãe costumava lhe cantar para dormir, uma encantadora rima sobre os Sete Deuses.
Dunk a encarava embasbacado. Era como se estivesse enfeitiçado pela bela dama, que cantava como uma sereia, e a voz invadia-lhe os ouvidos e ameaçava lançá-lo à deriva. Não conseguia desviar o olhar, os lábios entreabertos em surpresa. Não estava acostumado a ver Baratheon assim: radiante e descomplicada de uma forma que o fazia se sentir ainda mais deslocado do que antes. Ele deveria ir embora agora — deveria voltar a lamentar-se em algum canto escuro, onde era o seu lugar.
Mas, em vez disso... virou outra caneca de cerveja de uma vez e se levantou da cadeira enquanto murmurava um palavrão. Pareceu lembrar-se de que ela era uma dama, uma de verdade, filha de um de seus novos amigos. E, embora tivessem praticamente a mesma idade e tudo mais, ele era um cavaleiro andante. Um cavaleiro falido, sem um tostão. Ela provavelmente se casaria com algum lorde e teria lordes e damas como filhos.
O pensamento fez seu sangue gelar. Ele havia sido um tolo por se permitir envolver nisso, permitir que ela o fizesse sentir coisas que não deveria. Não conseguia tirá-la da cabeça; o gosto de seus lábios, a forma que sorria e como o nariz se encrespava quando o fazia…
Deveria ir embora agora. Deveria sair do salão antes que ela o visse olhando para ela como um idiota que pensava ter alguma chance de um futuro com alguém como Baratheon.
Porém, seus olhares se cruzaram, um de cada lado da tenda… e por um momento, tornara-se impossível respirar. Ela terminou de cantar a música e o público irrompeu em aplausos, aplausos dos quais ele sequer hesitara de acompanhar. As palmas largas faziam parecer soar mais alto que todos ali. Ela fez o caminho até ele devagar, como se possuísse todo o tempo do mundo.
— Dance comigo, Sor Duncan, o Alto — pediu num tom caprichoso.
Estava tão deslumbrante como antes, parecendo uma espécie de deusa com aquela graça natural e aquele sorriso malicioso. Ele deveria dizer não. Sabia disso. Mas o álcool estava fazendo efeito em sua cabeça, e a música parecia se enraizar em seus ossos...
— Sim — respondeu, e a única palavra estrangulada mal disfarçava a aspereza em sua voz. Ela não notou, satisfeita por ter seu pedido aquiescido; juntou as mãos às suas e o puxou pelo salão improvisado no momento em que acordes animados invadiam-lhe os ouvidos.
— Por que parece tão melancólico hoje, Sor? — a garota questionou enquanto o avaliava como um falcão.
Dunk tentou manter o foco em acompanhar a dança e observava os pés dela para não tropeçar nos seus. Estava longe de ser gracioso — seu corpo era grande e volumoso demais para se mover com a mesma elegância dos nobres, e não era fácil para ele acompanhar o ritmo.
— Não há nada com que se preocupar, minha senhora — respondeu secamente, enquanto tentava manter a voz calma e a expressão neutra. Havia, porém, uma corrente subterrânea de amargura em seu tom, independente disso, e fora rápida em notá-la.
— Muito bem… irá lutar em algum dia do torneio? Se me pedir meu favor, terei prazer em concedê-lo — tentou puxar assunto novamente, a voz suave como um beijo.
A oferta quase o fez vacilar; seu coração bateu mais forte contra as costelas. Mesmo sabendo que ela estava brincando com ele, o queria de qualquer maneira. O queria mais do que jamais quisera qualquer coisa. Obrigou-se a acompanhar o ritmo da música para não se fazer mais de bobo do que já fizera.
— Me concederia seu favor, minha senhora? — questionou, a voz quase inaudível por cima da música. — Assim, sem mais nem menos?
exalou suavemente pelo nariz em humor.
— Como assim, sem mais nem menos? — aproximou sua boca do ouvido de Dunk, tendo que se colocar na ponta dos pés para tal. — E… virá para minha tenda quando as festividades se acabarem, mais tarde?
A pergunta fez com que algo em seu peito se contraísse, uma mistura de desejo, desafio e algo mais que ele preferia não nomear. Tentou ignorar a sensação de tontura, a reação em seu corpo... tudo isso enquanto tropeçava atrás dela e tentava não pisar em seus pés. Ele era grande demais para a dança rápida, seus passos erráticos demais.
Ele a encarou, com a voz rouca e baixa. Todas as palavras que ela queria ouvir estavam ali, na ponta da sua língua.
— Sim, — sussurrou finalmente enquanto lutava para ignorar o sentimento de inadequação em seu peito. — Eu irei.
suspirou. O homem realmente era um enigma.
— O que há com você esta noite? — Sor Lyonel, seu pai, questionou enquanto coçava a barba salpicada de prata. — Não tira os olhos de um certo cavaleiro alto. Os rumores são reais, então?
Lyonel balançava a taça de vinho enquanto a encarava com um olhar de quem sabia perfeitamente a resposta para aquela pergunta. revirou os olhos.
— Rumores. Hah. Tem havido muitos rumores sobre mim ultimamente, e nem sequer metade deles são reais. As pessoas estão ficando preguiçosas e sem criatividade. — A Lady bebericou seu dourado da árvore, os olhos a dardejar pela tenda numa tentativa de disfarçar o objeto de sua notada vigília. — Não sei o que quer dizer. Refere-se ao seu amigo novo?
Lyonel empertigou-se na cadeira. conhecia aquele olhar; estava prestes a levar um sermão.
— Pai…
— Apenas ouça-me, está bem? Sei que não o faz o suficiente, mas serei rápido — entoou com seu talento para drama. — Cuidado, minha menina. Sor Dunk, o Alto, não é um cortesão qualquer com quem se possa brincar e descartar quando se estiver entediada. Aquele rapaz tem mais honra do que metade dos lordes neste salão... e menos paciência para joguinhos.
Lyonel fez uma pausa ao observar o rapaz mais uma vez.
— … embora eu duvide que isso vá lhe impedir. — O pesar era claro em sua voz.
— Não impediu — retrucou com teimosia.
— Claro que não impediu — Lyonel deu um bom gole em sua taça. — Você é uma garota linda, , e o problema? Você sabe disso. O mundo está praticamente aos seus pés; todos os homens que você encontra se atropelam só para ter a chance de falar com você. — Seu tom se tornou repreensivo enquanto ele acenava com a taça na direção de Dunk. — Mas esse não é como os outros. Tome cuidado. Ele não é um brinquedo e não vai se deixar tratar como tal.
riu em desafio.
— O que ele irá fazer? Me bater? Me sequestrar? — Acompanhou o pai em um gole de bebida. — Ele é… simplório. E bastante doce. Como Florian, o Bobo. É diferente, isso eu notei.
— Florian, o Bobo? Aquele garoto é um soldado, . — bradou em voz baixa e estreitou os olhos enquanto estudava o rosto dela em busca de qualquer indício de verdadeira crueldade por trás de suas palavras provocativas. — Um cavaleiro em treinamento com mais fibra moral do que a maioria dos homens que conheço, que enterrou seu mestre como um homem e agora luta para recuperar a pouca honra que lhe restou após aquele túmulo repentino. — Uma pausa antes de acrescentar, enfaticamente. — ...E você está tratando-o como uma mera diversão passageira, em vez de alguém digno de respeito.
Lyonel Baratheon raramente era tão sério e, quando era, esperava que fosse escutado. afundou-se na cadeira, um bico nos lábios rosados que os assemelhava a um broto de flor.
— Admira-o. É raro para Lyonel Baratheon, o Tempestade Risonha, ficar impressionado com alguém.
Sor Lyonel deu de ombros levemente e tomou um gole de vinho enquanto continuava a observar a filha. A garota tinha aquele brilho familiar nos olhos que ele conhecia tão bem — a teimosia que a tornava formidável, mas também completamente imprevisível às vezes.
— Sim, — admitiu, com um leve sorriso no rosto. — Passei a respeitá-lo. O rapaz tem um senso de honra que a maioria dos nobres poderia aprimorar.
Ele a encarou com um olhar penetrante.
— Seria sábio não quebrar isso. Uma honra como essa não é algo com que se possa brincar, .
soltou uma risada que poderia sacudir os pilares da terra.
— Oh, papai, por favor! Quando foi a última vez que quebrei um homem? Sua espécie não pode ser quebrada, temo eu. — A garota empertigou-se na cadeira novamente, agora de maneira arrogante. — Sor Duncan viverá para ver outro dia. Ele é um garotinho crescido.
Sor Lyonel soltou uma risada rouca, áspera e nada divertida.
— Ah, não sei... Sor Steffon Fossoway? Príncipe Daeron? Aquele lorde dornês que você humilhou sem querer no banquete do ano passado? — Ele se inclinou para mais perto, a voz baixando para algo perigoso sob o humor. — Dunk não é um cavaleiro de estimação de Porto Real. Ou ele sairá daqui amanhã com seu orgulho intacto... ou não sairá de jeito nenhum. — Um gole significativo de vinho antes de acrescentar: — ...A escolha é sua.
pensou naquelas palavras e tomou-as quase como um agouro. Será mesmo que havia mexido com alguém que não deveria? Quais seriam os galhos do destino ramificados por aquela ação?
— Levarei seu conselho em consideração — disse enquanto assoprava uma mecha teimosa da frente da testa.
A expressão de Sor Lyonel suavizou-se ligeiramente e a tensão em seus ombros diminuiu um pouco com as palavras. Ele estendeu a mão para afastar outra mecha de cabelo rebelde de sua testa — um gesto antigo e afetuoso.
— Bom, — murmurou antes de tomar outro gole de vinho e recostar-se na cadeira. — Porque eu gosto do rapaz. E não quero ter que atravessá-lo com a minha espada por desonrar minha filha quando ele descobrir exatamente que tipo de jogo você está jogando com ele.
conteve um calafrio enquanto sentia um gosto amargo na língua, quase como o aço quando beijava a pele.
— Agora, que tal uma música? — o mais velho sugeriu, de volta ao seu estado de espírito festeiro como se nada houvesse acontecido.
— Não estou com vontade de cantar — retrucou com um revirar de olhos.
Sor Lyonel ergueu uma sobrancelha em leve surpresa. Era tão raro que ele poderia contar nos dedos de uma mão o número de vezes que viu sua filha se recusar a se apresentar por um mero capricho.
— Desde quando você recusa uma oportunidade de brilhar? — questionou com leveza. — Você geralmente parece bastante ansiosa para se exibir para as massas a cada momento possível.
— Não estou com vontade de ser apresentada como uma vaca premiada esta noite — voltou a retrucar num tom de voz malcriado.
Isso provocou uma risada baixa de Sor Lyonel, e uma faísca familiar de exasperação divertida acendeu-se em seus olhos. Ele a observou por um momento enquanto absorvia a teimosia em seu queixo, a maneira como ela o mantinha erguido como uma criança desafiadora. Esta era a filha que ele criara.
— Você é uma vaca premiada, minha querida — apontou sem rodeios. — Todos os homens nesta sala estão olhando para você como se fosse uma joia esperando para ser reivindicada. Não podemos permitir que achem que você é qualquer coisa menos que a perfeição.
hesitou. Aquele havia sido um golpe baixo diretamente em seu ego. O pai a conhecia melhor que ninguém, de fato. Apreciava ser aplaudida, vista como uma pérola rara em um mar de conchas quebradas. Almejava ser como as tempestades; inegável em sua beleza, admirável em sua força, temida em sua fúria.
Não suportava a ideia de ser apenas mais uma. Não por desprezar os outros, mas porque, sem o brilho, não sabia onde terminava sua existência.
Levantou-se devagar e ajeitou o vestido, esperando que o pai a anunciasse.
Sor Lyonel fez o mesmo enquanto a observava com um meio sorriso. É claro que ela acabaria cedendo e fazendo exatamente o que ele mandara. Era teimosa como uma mula, mas ainda era uma mulher, afinal. Uma moça bonita e vaidosa que adorava ser o centro das atenções, apesar de dizer o contrário.
Ele bateu com a mão na mesa e elevou a voz para que todos no grupo pudessem ouvir.
— E agora, meus amigos, para o nosso entretenimento desta noite, uma canção da minha adorável filha!
Uma grande ovação ecoou pela sala. aprontou-se, esguia como uma flecha, e começou a cantar uma antiga canção que a mãe costumava lhe cantar para dormir, uma encantadora rima sobre os Sete Deuses.
Dunk a encarava embasbacado. Era como se estivesse enfeitiçado pela bela dama, que cantava como uma sereia, e a voz invadia-lhe os ouvidos e ameaçava lançá-lo à deriva. Não conseguia desviar o olhar, os lábios entreabertos em surpresa. Não estava acostumado a ver Baratheon assim: radiante e descomplicada de uma forma que o fazia se sentir ainda mais deslocado do que antes. Ele deveria ir embora agora — deveria voltar a lamentar-se em algum canto escuro, onde era o seu lugar.
Mas, em vez disso... virou outra caneca de cerveja de uma vez e se levantou da cadeira enquanto murmurava um palavrão. Pareceu lembrar-se de que ela era uma dama, uma de verdade, filha de um de seus novos amigos. E, embora tivessem praticamente a mesma idade e tudo mais, ele era um cavaleiro andante. Um cavaleiro falido, sem um tostão. Ela provavelmente se casaria com algum lorde e teria lordes e damas como filhos.
O pensamento fez seu sangue gelar. Ele havia sido um tolo por se permitir envolver nisso, permitir que ela o fizesse sentir coisas que não deveria. Não conseguia tirá-la da cabeça; o gosto de seus lábios, a forma que sorria e como o nariz se encrespava quando o fazia…
Deveria ir embora agora. Deveria sair do salão antes que ela o visse olhando para ela como um idiota que pensava ter alguma chance de um futuro com alguém como Baratheon.
Porém, seus olhares se cruzaram, um de cada lado da tenda… e por um momento, tornara-se impossível respirar. Ela terminou de cantar a música e o público irrompeu em aplausos, aplausos dos quais ele sequer hesitara de acompanhar. As palmas largas faziam parecer soar mais alto que todos ali. Ela fez o caminho até ele devagar, como se possuísse todo o tempo do mundo.
— Dance comigo, Sor Duncan, o Alto — pediu num tom caprichoso.
Estava tão deslumbrante como antes, parecendo uma espécie de deusa com aquela graça natural e aquele sorriso malicioso. Ele deveria dizer não. Sabia disso. Mas o álcool estava fazendo efeito em sua cabeça, e a música parecia se enraizar em seus ossos...
— Sim — respondeu, e a única palavra estrangulada mal disfarçava a aspereza em sua voz. Ela não notou, satisfeita por ter seu pedido aquiescido; juntou as mãos às suas e o puxou pelo salão improvisado no momento em que acordes animados invadiam-lhe os ouvidos.
— Por que parece tão melancólico hoje, Sor? — a garota questionou enquanto o avaliava como um falcão.
Dunk tentou manter o foco em acompanhar a dança e observava os pés dela para não tropeçar nos seus. Estava longe de ser gracioso — seu corpo era grande e volumoso demais para se mover com a mesma elegância dos nobres, e não era fácil para ele acompanhar o ritmo.
— Não há nada com que se preocupar, minha senhora — respondeu secamente, enquanto tentava manter a voz calma e a expressão neutra. Havia, porém, uma corrente subterrânea de amargura em seu tom, independente disso, e fora rápida em notá-la.
— Muito bem… irá lutar em algum dia do torneio? Se me pedir meu favor, terei prazer em concedê-lo — tentou puxar assunto novamente, a voz suave como um beijo.
A oferta quase o fez vacilar; seu coração bateu mais forte contra as costelas. Mesmo sabendo que ela estava brincando com ele, o queria de qualquer maneira. O queria mais do que jamais quisera qualquer coisa. Obrigou-se a acompanhar o ritmo da música para não se fazer mais de bobo do que já fizera.
— Me concederia seu favor, minha senhora? — questionou, a voz quase inaudível por cima da música. — Assim, sem mais nem menos?
exalou suavemente pelo nariz em humor.
— Como assim, sem mais nem menos? — aproximou sua boca do ouvido de Dunk, tendo que se colocar na ponta dos pés para tal. — E… virá para minha tenda quando as festividades se acabarem, mais tarde?
A pergunta fez com que algo em seu peito se contraísse, uma mistura de desejo, desafio e algo mais que ele preferia não nomear. Tentou ignorar a sensação de tontura, a reação em seu corpo... tudo isso enquanto tropeçava atrás dela e tentava não pisar em seus pés. Ele era grande demais para a dança rápida, seus passos erráticos demais.
Ele a encarou, com a voz rouca e baixa. Todas as palavras que ela queria ouvir estavam ali, na ponta da sua língua.
— Sim, — sussurrou finalmente enquanto lutava para ignorar o sentimento de inadequação em seu peito. — Eu irei.
V - Filha de um Lorde
Horas depois, estava em seus braços, ainda ofegante e suada após o último encontro intenso. Acariciava-lhe o rosto bonito, perdida em seus olhos que lhe lembravam o Mar Estreito, tão azuis e dotados de uma doçura que lhe nunca falhava em lhe tirar o ar.
— Quero saber mais sobre você — disse antes que pudesse se conter.
— O que quer saber sobre mim? — Dunk murmurou enquanto a ponta dos dedos acariciavam-lhe as costas em movimentos de vai-e-vem. — Não há muito o que contar, minha senhora, a menos que queira uma lista de todos os meus fracassos.
— Pare com isso. Ande, fale-me de você. Fale sobre seus pais. O que o faz feliz? O que o deixa triste? Quero saber tudo. Acho-o fascinante, Sor. — Riu levemente, curiosa.
Dunk sentiu a tensão torcer-lhe as entranhas com as perguntas e seus dedos pararam contra as costas dela. A ideia de falar sobre si mesmo — sobre qualquer coisa antes de ser escudeiro de Sor Arlan — fez algo em seu peito se contorcer desconfortavelmente.
— Cresci na Baixada das Pulgas, — admitiu, com aspereza. — Não tenho pais que valham a pena mencionar. Se eu tive um pai? Talvez algum ladrão ou marginal plebeu. — Ele deu de ombros como se dissesse que não importava mais.
Pensou com cuidado nas outras perguntas.
— Feliz… quando Trovão come uma maçã direto da minha mão… ou quando Egg vibra assistindo as justas. — Soltou uma risada jovial, o olhar perdido em memórias. — E… bem… triste…
Não precisou dizer. As palavras pairaram em volta deles, nunca ditas em sepulcro, porém sentidas como o coice de um cavalo chucro.
sentiu os olhos queimarem enquanto puxava o lençol para cobrir-se. Finalmente compreendera o que o pai tentara lhe alertar com tanto afinco.
Dunk sentiu a mudança no ar — o jeito como o corpo dela se tensionou levemente contra o dele. Seu coração deu um salto e sua mão retomou o lento movimento para cima e para baixo em sua espinha, como se pudesse, de alguma forma, acalmar a tensão repentina apenas com seu toque.
— Esperava uma história diferente, não é? — murmurou, quase como se falasse consigo mesmo. — Algo decente. Algo bonito como nas canções. Não algum rato de rua desgraçado que nunca conheceu os pais e ainda tem pesadelos com as favelas.
— Não fale assim. Por favor, não fale assim. — sentou-se na cama e evitou encará-lo. — Isso… não está certo. O que estou fazendo com você não é certo.
Dunk prendeu a respiração e seu corpo inteiro ficou imóvel ao lado dela. As palavras o atingiram como um golpe — agudo e repentino, e deixaram-no atordoado.
— Você acha que eu não sei o que você é? O que é isso? Alguma dama nobre se divertindo com os empregados até ela se cansar e me descartar como restos de ontem? — Uma risada amarga escapou dele enquanto se sentava abruptamente e criava espaço entre eles pela primeira vez desde que haviam se conhecido.
— Não foi assim! — vociferou enquanto se levantava e vestia seu robe amarelo.
— Ah, não? Então como foi, ? — Dunk a observou se levantar, e seu peito apertou-se dolorosamente enquanto percebia como ela se enrijecia — como ela nem sequer olhava para ele agora.
Sua mandíbula se contraiu com tanta força que doía.
— Sete malditos Infernos — murmurou baixinho enquanto passava a mão pelo rosto. — É por isso que eu não deveria estar aqui. Nunca deveria ter chegado a esse ponto.
Ele agarrou as próprias roupas com movimentos bruscos. Recusou-se a olhar para trás, para ela. Somente quando estava prestes a ir embora, ouviu sua voz melódica novamente.
— Não quero que isso termine com sentimentos ruins entre nós.
Ele congelou, a camisa meio vestida, a bota meio calçada. Não tinha certeza se queria gritar, socar alguma coisa ou simplesmente puxá-la de volta para seus braços e esquecer completamente que o resto do mundo existia. Qualquer uma daquelas opções seria muito mais fácil do que lidar com o que a voz suave dela o fazia sentir naquele momento.
Em vez disso, soltou um resmungo baixo e forçado e finalmente terminou de vestir suas roupas. Então, virou-se para olhá-la com aquela familiar expressão cautelosa.
— O quê, pretende ser minha amiga agora?
— Seria mesmo tão ruim? Está realmente com raiva por eu ter lhe desejado?
Desta vez, ele não conseguiu conter o escárnio amargo, um som agudo e áspero que escapou de sua garganta.
— Me desejado, é? — repetiu. Os olhos examinavam o rosto dela com uma mistura de raiva e incredulidade. — É assim que se chama quando damas da nobreza brincam com homens de posição inferior por diversão?
Seus punhos se fecharam ao lado do corpo — uma tentativa desesperada de se impedir de tocá-la, apesar da irritação.
— Eu nunca brinquei com você! Eu—
— Não? — a interrompeu abruptamente. Sua voz era baixa e rouca, um tom perigoso que ele geralmente escondia tão bem sob aquela fachada estóica. — Não? Então, que diabos você chama o fato de estarmos aqui agora? Como devo chamar o jeito que você me olhou, ou as coisas que você me deixou fazer com você? Damas da alta sociedade não “desejam” um rato de rua, minha senhora. Elas os usam. A culpa é minha, também. Não sei onde estava com a cabeça em confiar na filha de um lorde dessa maneira.
Ela encarava o chão, agora. Sabia que o que ele dizia era verdade, sabia sua parcela inteira de culpa naquela história. Não havia expiação naquilo. Dunk soltou um suspiro forte pelo nariz e observou-a com uma mistura de frustração e algo dolorosamente próximo de pena. Ele sabia que estava certo — sabia disso desde o início, mesmo que tentasse se enganar.
— Olhe para mim — ordenou com rispidez; não cruel, mas firme. Quando ela o fez, seu maxilar se contraiu sob a sombra de barba por fazer. — Não estou dizendo isso para te fazer sentir pior. Só... não minta sobre o que somos. — Fez uma pausa, engoliu em seco e acrescentou em voz baixa: — … Posso ir embora agora, se é isso que você quer.
— É um bom homem, Duncan. Algo raro hoje em dia, na sua espécie. Estou em falta com você; o que eu fiz não foi gentil. — Ela evitou encará-lo mais do que devia; temia ser egoísta se o fizesse. — Sim, acho que deve ir.
Dunk sentiu algo em seu peito estalar com as palavras dela, agudas e repentinas. Ele não se moveu por um longo momento — apenas a encarou com uma expressão dividida entre descrença e resignação.
— … Certo. — finalmente murmurou e virou-se para a aba da barraca com movimentos rígidos. Suas mãos estavam cerradas com tanta força que suas unhas deixaram marcas em forma de meia-lua nas palmas.
Pouco antes de sair para o ar da noite, porém... fez uma última pausa sem olhar para trás.
— Tente não ser cruel com o próximo homem que você escolher.
Dunk não voltou a encará-la; nem quando ouviu a respiração dela falhar, nem quando sentiu o peso do seu olhar em seus ombros como uma saca de aveia. Continuou andando, um pé na frente do outro, até que o ar frio da noite o saudou lá fora.
Só então ele se permitiu parar por meio segundo — sua testa pressionada contra um poste próximo enquanto todo o seu corpo tremia de raiva reprimida e algo muito pior: mágoa e coração partido.
— Porra, — sussurrou na escuridão vazia — Sete infernos.
— Quero saber mais sobre você — disse antes que pudesse se conter.
— O que quer saber sobre mim? — Dunk murmurou enquanto a ponta dos dedos acariciavam-lhe as costas em movimentos de vai-e-vem. — Não há muito o que contar, minha senhora, a menos que queira uma lista de todos os meus fracassos.
— Pare com isso. Ande, fale-me de você. Fale sobre seus pais. O que o faz feliz? O que o deixa triste? Quero saber tudo. Acho-o fascinante, Sor. — Riu levemente, curiosa.
Dunk sentiu a tensão torcer-lhe as entranhas com as perguntas e seus dedos pararam contra as costas dela. A ideia de falar sobre si mesmo — sobre qualquer coisa antes de ser escudeiro de Sor Arlan — fez algo em seu peito se contorcer desconfortavelmente.
— Cresci na Baixada das Pulgas, — admitiu, com aspereza. — Não tenho pais que valham a pena mencionar. Se eu tive um pai? Talvez algum ladrão ou marginal plebeu. — Ele deu de ombros como se dissesse que não importava mais.
Pensou com cuidado nas outras perguntas.
— Feliz… quando Trovão come uma maçã direto da minha mão… ou quando Egg vibra assistindo as justas. — Soltou uma risada jovial, o olhar perdido em memórias. — E… bem… triste…
Não precisou dizer. As palavras pairaram em volta deles, nunca ditas em sepulcro, porém sentidas como o coice de um cavalo chucro.
sentiu os olhos queimarem enquanto puxava o lençol para cobrir-se. Finalmente compreendera o que o pai tentara lhe alertar com tanto afinco.
Dunk sentiu a mudança no ar — o jeito como o corpo dela se tensionou levemente contra o dele. Seu coração deu um salto e sua mão retomou o lento movimento para cima e para baixo em sua espinha, como se pudesse, de alguma forma, acalmar a tensão repentina apenas com seu toque.
— Esperava uma história diferente, não é? — murmurou, quase como se falasse consigo mesmo. — Algo decente. Algo bonito como nas canções. Não algum rato de rua desgraçado que nunca conheceu os pais e ainda tem pesadelos com as favelas.
— Não fale assim. Por favor, não fale assim. — sentou-se na cama e evitou encará-lo. — Isso… não está certo. O que estou fazendo com você não é certo.
Dunk prendeu a respiração e seu corpo inteiro ficou imóvel ao lado dela. As palavras o atingiram como um golpe — agudo e repentino, e deixaram-no atordoado.
— Você acha que eu não sei o que você é? O que é isso? Alguma dama nobre se divertindo com os empregados até ela se cansar e me descartar como restos de ontem? — Uma risada amarga escapou dele enquanto se sentava abruptamente e criava espaço entre eles pela primeira vez desde que haviam se conhecido.
— Não foi assim! — vociferou enquanto se levantava e vestia seu robe amarelo.
— Ah, não? Então como foi, ? — Dunk a observou se levantar, e seu peito apertou-se dolorosamente enquanto percebia como ela se enrijecia — como ela nem sequer olhava para ele agora.
Sua mandíbula se contraiu com tanta força que doía.
— Sete malditos Infernos — murmurou baixinho enquanto passava a mão pelo rosto. — É por isso que eu não deveria estar aqui. Nunca deveria ter chegado a esse ponto.
Ele agarrou as próprias roupas com movimentos bruscos. Recusou-se a olhar para trás, para ela. Somente quando estava prestes a ir embora, ouviu sua voz melódica novamente.
— Não quero que isso termine com sentimentos ruins entre nós.
Ele congelou, a camisa meio vestida, a bota meio calçada. Não tinha certeza se queria gritar, socar alguma coisa ou simplesmente puxá-la de volta para seus braços e esquecer completamente que o resto do mundo existia. Qualquer uma daquelas opções seria muito mais fácil do que lidar com o que a voz suave dela o fazia sentir naquele momento.
Em vez disso, soltou um resmungo baixo e forçado e finalmente terminou de vestir suas roupas. Então, virou-se para olhá-la com aquela familiar expressão cautelosa.
— O quê, pretende ser minha amiga agora?
— Seria mesmo tão ruim? Está realmente com raiva por eu ter lhe desejado?
Desta vez, ele não conseguiu conter o escárnio amargo, um som agudo e áspero que escapou de sua garganta.
— Me desejado, é? — repetiu. Os olhos examinavam o rosto dela com uma mistura de raiva e incredulidade. — É assim que se chama quando damas da nobreza brincam com homens de posição inferior por diversão?
Seus punhos se fecharam ao lado do corpo — uma tentativa desesperada de se impedir de tocá-la, apesar da irritação.
— Eu nunca brinquei com você! Eu—
— Não? — a interrompeu abruptamente. Sua voz era baixa e rouca, um tom perigoso que ele geralmente escondia tão bem sob aquela fachada estóica. — Não? Então, que diabos você chama o fato de estarmos aqui agora? Como devo chamar o jeito que você me olhou, ou as coisas que você me deixou fazer com você? Damas da alta sociedade não “desejam” um rato de rua, minha senhora. Elas os usam. A culpa é minha, também. Não sei onde estava com a cabeça em confiar na filha de um lorde dessa maneira.
Ela encarava o chão, agora. Sabia que o que ele dizia era verdade, sabia sua parcela inteira de culpa naquela história. Não havia expiação naquilo. Dunk soltou um suspiro forte pelo nariz e observou-a com uma mistura de frustração e algo dolorosamente próximo de pena. Ele sabia que estava certo — sabia disso desde o início, mesmo que tentasse se enganar.
— Olhe para mim — ordenou com rispidez; não cruel, mas firme. Quando ela o fez, seu maxilar se contraiu sob a sombra de barba por fazer. — Não estou dizendo isso para te fazer sentir pior. Só... não minta sobre o que somos. — Fez uma pausa, engoliu em seco e acrescentou em voz baixa: — … Posso ir embora agora, se é isso que você quer.
— É um bom homem, Duncan. Algo raro hoje em dia, na sua espécie. Estou em falta com você; o que eu fiz não foi gentil. — Ela evitou encará-lo mais do que devia; temia ser egoísta se o fizesse. — Sim, acho que deve ir.
Dunk sentiu algo em seu peito estalar com as palavras dela, agudas e repentinas. Ele não se moveu por um longo momento — apenas a encarou com uma expressão dividida entre descrença e resignação.
— … Certo. — finalmente murmurou e virou-se para a aba da barraca com movimentos rígidos. Suas mãos estavam cerradas com tanta força que suas unhas deixaram marcas em forma de meia-lua nas palmas.
Pouco antes de sair para o ar da noite, porém... fez uma última pausa sem olhar para trás.
— Tente não ser cruel com o próximo homem que você escolher.
Dunk não voltou a encará-la; nem quando ouviu a respiração dela falhar, nem quando sentiu o peso do seu olhar em seus ombros como uma saca de aveia. Continuou andando, um pé na frente do outro, até que o ar frio da noite o saudou lá fora.
Só então ele se permitiu parar por meio segundo — sua testa pressionada contra um poste próximo enquanto todo o seu corpo tremia de raiva reprimida e algo muito pior: mágoa e coração partido.
— Porra, — sussurrou na escuridão vazia — Sete infernos.
VI - Todos Somos Egoístas
Pela manhã, adentrou a tenda do pai, os olhos avermelhados e inchados.
— Estarei voltando a Ponta Tempestade no fim da manhã — anunciou, final.
Sor Lyonel estava quebrando o jejum quando ela chegara, um prato de comida pela metade à sua frente e uma carta não terminada nas mãos. Ergueu uma sobrancelha ao ouvir a novidade, e abaixou o pergaminho em que estava trabalhando enquanto olhava para a filha com leve surpresa.
— É mesmo? — perguntou com neutralidade e deixou a carta e o garfo de lado para lhe dar toda a sua atenção.
Ela acenou com a cabeça, um biquinho nos lábios que o lembrou dos tempos que ela era menina e fazia alguma travessura que sabia que levaria uma grande bronca.
— Percebi que minha presença aqui se estendeu além do que deveria.
A neutralidade desapareceu do semblante de Sor Lyonel pela primeira vez, e sua expressão deu lugar a algo entre preocupação e resignação. Ficou em silêncio por um longo instante, observando a rigidez dos ombros da filha e a tensão em seu maxilar. Sabia bem do que se tratava aquele gesto.
— ...Sente-se — pediu finalmente com um gesticular à cadeira em sua frente. — Precisamos conversar.
suspirou. Não queria ouvir sermão, apenas ir embora e fingir que aquele maldito torneio nunca havia acontecido.
— Papai… — tentou.
Ele ergueu a mão para interrompê-la antes que ela pudesse continuar, um sinal claro de que não toleraria nenhuma afronta agora. A severidade de sua expressão não deixava espaço para discussão.
— Sente-se, — repetiu, sem admitir qualquer contestação. Seu olhar era calmo, mas também dotado de firmeza. — Há algumas coisas que precisamos discutir antes que você tome qualquer decisão precipitada.
sentou-se com a mão a sustentar o queixo. Lyonel ofereceu-lhe um pouco de bacon torrado, seu favorito, ao que ela negou com a cabeça. Queria ouvir o que tinha que ouvir e seguir viagem.
Ele a observou por mais um instante, sua expressão mudando de severa para algo mais gentil enquanto contemplava a jovem à sua frente. Expirou lentamente, e juntou as mãos sobre a mesa.
— Sempre lhe dei a liberdade de fazer suas próprias escolhas, desde que soubesse bem as consequências delas — começou, a voz suave agora. Um pequeno sorriso cansado surgiu nos cantos de sua boca enquanto continuava. — Para o bem ou para o mal... e você fez várias escolhas imprudentes seguidas ultimamente.
A garota sentiu os olhos marejarem e mordiscou o lábio inferior nervosamente ao tentar conter o choro.
— Eu sei.
A expressão de Sor Lyonel suavizou-se ao ver as lágrimas da filha, e algo protetor reluziu em suas feições. Ele estendeu a mão para colocar sobre a dela — dedos calejados, ásperos, mas gentis contra sua pele.
— Olhe para mim. — Sua voz era calma, firme daquele jeito que só os pais conseguiam ser. — Você não está indo embora porque está envergonhada. Você não está fugindo deste rapaz como se ele fosse um pecado a ser enterrado. — Uma pausa enquanto ele apertava levemente a mão dela antes de acrescentar: — ...porque se eu pensasse por um segundo que você realmente o queria? Eu mesmo o arrastaria de volta para cá pelos cabelos.
— Maldição, o que quer que eu diga? — chocou as palmas das mãos contra a mesa. — Eu sei que errei! Eu errei, pai, é isso que quer ouvir? Ele é um homem bom e honrado, e eu errei em tratá-lo como o fiz. Temo ter destruído isso de alguma forma! É isso que quer ouvir?
O aperto de Sor Lyonel na mão dela se intensificou ligeiramente — não por raiva, mas por algo mais próximo de uma satisfação sombria. Seus lábios se comprimiram em uma linha fina enquanto ele estudava a filha com olhos penetrantes.
— Ah. — A única sílaba carregava um significado profundo; ele entendia agora, melhor do que ela imaginava. — Então esse é o verdadeiro problema. Responsabilidade.
Ele se inclinou ligeiramente para a frente na cadeira, a voz baixando para um murmúrio que só ela podia ouvir.
— Escute bem. Você não pode arruinar um homem honrado e depois fugir para casa como uma donzela tímida. Se você o magoou? Então conserte. E se não conseguir? — Uma pausa antes de acrescentar friamente: — ...Então fique longe dele para sempre.
considerou as palavras do pai enquanto evitava encará-lo. Por fim, acenou com a cabeça.
— Se eu escrevesse uma carta, entregaria a ele? Partirei antes do início da tarde.
Sor Lyonel a observou por um longo momento — a postura de seus ombros, a determinação em seus olhos. Não era bem uma pergunta, e ambos sabiam disso; ela se encarregaria de fazer a carta chegar a ele de qualquer maneira, mas assentiu levemente. A severidade nos seus suavizou-se um pouco.
— Sim, entregarei uma carta ao rapaz, se esse for o seu desejo.
pegou um pergaminho e começou a escrever enquanto Lyonel terminava o desjejum. Passou um bom tempo nisso, quase meia hora. A pena deslizava timidamente no início, e tornara-se mais ativa do meio pro fim, como se ela finalmente soubesse o que deveria dizer ao Cavaleiro Andante.
Por fim, quando terminou, lacrou-a com o selo da casa Baratheon e, após um momento de hesitação, entregou-a ao pai.
Lyonel soltou um assobio surpreso.
— Meia hora. É mais tempo do que já passou fazendo qualquer coisa em sua vida. — Por fim, colocou a carta de lado e pegou um biscoito de aveia para si. — O encontrarei assim que você partir. Não faça eu me arrepender.
— Pelos Deuses, homem. Nunca falou assim comigo antes. — cruzou os braços. Os olhos tempestuosos faiscaram. — Deve gostar mesmo desse seu amigo cavaleiro andante.
Ele soltou uma risada rouca com aquilo — um som agudo quase tingido de amargura. Sua expressão suavizou quando se virou para observar a filha com mais atenção — o queixo altivo erguido, a expressão teimosa em seus lábios. Ela sempre fora a sua cópia fiel, do fogo nos olhos àquela língua maldita. Podia notar uma centelha de ciúmes naquela fala aparentemente distraída; nunca dava ponto sem nó.
— Você é um pé no saco — disse, ríspido, com um pequeno sorriso nos lábios. — Um pé no saco que eu amo mais do que qualquer coisa nos sete reinos.
Um sorriso brincou nos lábios da garota e ela deitou a cabeça em seu ombro.
— Tente não se matar em uma das justas, está bem? Acontece que eu te amo mais do que tudo neste mundo, papai.
Sor Lyonel riu e envolveu-a em seus braços enquanto a puxava para mais perto do peito. Ele abaixou a cabeça para dar um beijo carinhoso na coroa de seus cabelos negros e inalou o aroma familiar.
— Eu sempre saio ileso dessas situações, não é? — resmungou afetuosamente. — Ninguém me derrubou do cavalo ainda. Vou ficar bem.
— De qualquer forma, ouvi dizer que os Targaryen chegam na manhã seguinte. Vou embora antes que Daeron me faça aquela carinha de cachorro pidão e finja que está bêbado demais para notar que entrou na minha tenda “por engano” de novo.
Foi só falar em Daeron que uma memória voltou à sua mente imediatamente.
“Sonhei com você”, começara ele enquanto acariciava-lhe a bochecha, o olhar perdido na janela. “Repousava afrente de um grande olmo, a maior árvore que já vi. Não era uma árvore comum, porém. Seus galhos eram retorcidos e espinhosos como os chifres de um veado. O céu se mostrava em um belo por-do-sol como se pegasse fogo e, por um instante, uma estrela cadente pairou no céu. Você tocou a árvore e ela pulsou como se possuísse um coração, mas a estrela transformou-se em um raio que irrompeu dos céus e partiu a árvore ao meio.”
franziu a testa. Por que se lembrara daquilo tão repentinamente? Daeron era um mistério com seus sonhos que o faziam beber até a inconsciência. Havia perdido as contas de quantas vezes havia tentado decifrar aquele enigma, mas nunca chegara a lugar algum e decidira esquecer de uma vez por todas… até aquele momento.
— Está fazendo o certo em ir embora cedo. Já aprontou demais para um evento só, eu diria. — Lyonel recostou-se novamente contra a cadeira e arrancou-lhe de seus pensamentos. A garota piscou algumas vezes e retorceu os lábios em desagrado. Sabia que merecia aquilo, mas não tornava nada mais fácil ou doce.
💫🌳💫
Como prometido, a garota partira logo após o desjejum, ansiosa para se livrar da sensação de culpa que insistia em atormentar-lhe, fomentada pelo pai e pelas memórias do corpo de Sor Duncan contra o seu. Quando o cavaleiro andante não apareceu no soirée de Sor Lyonel naquela noite, ele foi procurá-lo. Tinha que entregar a carta de , afinal de contas. Havia prometido.
Lyonel o encontrou com seu escudeiro e os cavalos.
— Tenho uma carta para você — disse enquanto cambaleava, meio bêbado.
Dunk virou-se, surpreso, a observar o pergaminho na mão do mais velho como se fosse uma víbora.
— Uma carta?
— a escreveu. Ela partiu após o desjejum essa manhã.
O corpo inteiro de Dunk tensionou-se ao ouvir o apelido e suas mãos congelaram no meio da escovada sobre o flanco de Trovão. O ar escapou de seus pulmões em uma expiração brusca — como se houvesse levado um soco direto nas costelas.
— … Partiu? — repetiu atordoado e piscou como se esperasse acordar de um pesadelo. Seu aperto na escova se intensificou até a madeira ranger sob a pressão. Um instante de silêncio se estendeu antes que ele agarrasse a carta com um murmúrio áspero. — Me dê aqui.
Claro, Egg teve que ler para ele, já que não sabia como. A voz do garoto penetrava-lhe os ouvidos como agulhas, cada palavra dolorosa e inesperada.
“Duncan,
A pena treme em minha mão ao escrever essa carta. Não sou capaz de encará-lo agora, pois sei o quanto minhas ações lhe foram danosas. Nossa última conversa não sai da minha mente; consigo ouvir suas palavras até aqui na mesa de meu pai enquanto escrevo, e elas me ferem imensamente. Você tem razão, o que eu fiz não foi direito, e pior, não foi justo. Esta é uma tentativa covarde de me desculpar, pois sei que deveria dizer tais palavras frente a frente, diante da gravidade da minha ofensa. Os deuses sabem que minha conduta não vem sendo das melhores quando se trata de amor, mas você foi quem me fez perceber que as pessoas não são simplesmente algo para se usar e descartar. Somos todos animais, sim, mas animais conscientes, e isso deve prevalecer. Você é um homem honrado e bom, algo em falta atualmente, e eu preciso melhorar como pessoa. Seguirei seu conselho de não tratar o próximo com crueldade, afinal de contas, você estava certo, o único certo em toda essa situação, temo eu.
Embora talvez seja algo egoísta de dizer agora... não foi de tudo insignificante. Nossos momentos foram importantes para mim, e irei me lembrar com doçura de” ... aqui algumas frases haviam sido riscadas. “me ocorreu que talvez alguém precise ler esta carta para você. Deuses, que não seja meu pai. Sabe bem do que eu me lembrarei, não preciso enumerar aqui. Espero que, no futuro, nos encontremos novamente. Desejo-lhe todo o sucesso e que vença todas as justas em que se inscrever.
”
— … Importante — repetiu roucamente quando Egg terminou, como se a palavra tivesse um gosto ruim em sua boca.
Virou-se abruptamente antes que Sor Lyonel pudesse ver algo muito vulnerável em seu rosto e passou uma mão áspera sobre a pele como se tentasse apagar uma emoção. Quando falou novamente, sua voz estava rouca, porém controlada.
— Diga a ela... diga a ela que não desejo nada além de boa sorte em sua vida.
Lyonel assentiu.
— Pode deixar. Sabe... Ela é uma boa menina, e não estou dizendo isso só porque é minha filha. Desorientada e imprudente como todos os jovens são, mas... Eu vi hoje de manhã o quanto ela se arrependeu de tudo isso, do que fez com você.
Os ombros de Dunk relaxaram com as palavras, ele ainda de costas para eles enquanto encarava o pátio de treinamento com a mandíbula cerrada. O vento aumentou, bagunçando-lhe os cabelos desgrenhados e fazendo Trovão mexer-se impacientemente sob ele.
— ...Não é culpa dela — finalmente murmurou, áspero, mas firme. — Eu sabia onde estava me metendo.
Ele se virou ligeiramente agora e lançou um olhar para Sor Lyonel com algo cauteloso naqueles olhos azuis penetrantes.
— Você não precisa defender a honra dela para mim. Ela não me fez nenhum mal que não vá sarar.
Lyonel deu alguns tapinhas no ombro dele, em sinal de conforto.
— Todos nós somos egoístas, meu rapaz. Alguns por boas razões, outros por más, mas egoístas mesmo assim — disse ele antes de retomar seu caminho enquanto cantarolava uma música rude sobre uma estalajadeira com lábios de lampreia, os pés trocados e cambaleantes.
Dunk soltou um suspiro lento enquanto Sor Lyonel se afastava e seus ombros curvaram-se levemente sob o peso das palavras do homem mais velho. Ele encarou a carta nas mãos de Egg — a caligrafia elegante e impecável de que ele mesmo não conseguia ler.
— ...Sim — murmurou finalmente para ninguém em particular. — Acho que sim.
Ele agarrou as rédeas de Trovão com movimentos bruscos antes de lançar um olhar para as tendas distantes de Ashford Meadow — onde ela estaria se não houvesse partido.
— Estarei voltando a Ponta Tempestade no fim da manhã — anunciou, final.
Sor Lyonel estava quebrando o jejum quando ela chegara, um prato de comida pela metade à sua frente e uma carta não terminada nas mãos. Ergueu uma sobrancelha ao ouvir a novidade, e abaixou o pergaminho em que estava trabalhando enquanto olhava para a filha com leve surpresa.
— É mesmo? — perguntou com neutralidade e deixou a carta e o garfo de lado para lhe dar toda a sua atenção.
Ela acenou com a cabeça, um biquinho nos lábios que o lembrou dos tempos que ela era menina e fazia alguma travessura que sabia que levaria uma grande bronca.
— Percebi que minha presença aqui se estendeu além do que deveria.
A neutralidade desapareceu do semblante de Sor Lyonel pela primeira vez, e sua expressão deu lugar a algo entre preocupação e resignação. Ficou em silêncio por um longo instante, observando a rigidez dos ombros da filha e a tensão em seu maxilar. Sabia bem do que se tratava aquele gesto.
— ...Sente-se — pediu finalmente com um gesticular à cadeira em sua frente. — Precisamos conversar.
suspirou. Não queria ouvir sermão, apenas ir embora e fingir que aquele maldito torneio nunca havia acontecido.
— Papai… — tentou.
Ele ergueu a mão para interrompê-la antes que ela pudesse continuar, um sinal claro de que não toleraria nenhuma afronta agora. A severidade de sua expressão não deixava espaço para discussão.
— Sente-se, — repetiu, sem admitir qualquer contestação. Seu olhar era calmo, mas também dotado de firmeza. — Há algumas coisas que precisamos discutir antes que você tome qualquer decisão precipitada.
sentou-se com a mão a sustentar o queixo. Lyonel ofereceu-lhe um pouco de bacon torrado, seu favorito, ao que ela negou com a cabeça. Queria ouvir o que tinha que ouvir e seguir viagem.
Ele a observou por mais um instante, sua expressão mudando de severa para algo mais gentil enquanto contemplava a jovem à sua frente. Expirou lentamente, e juntou as mãos sobre a mesa.
— Sempre lhe dei a liberdade de fazer suas próprias escolhas, desde que soubesse bem as consequências delas — começou, a voz suave agora. Um pequeno sorriso cansado surgiu nos cantos de sua boca enquanto continuava. — Para o bem ou para o mal... e você fez várias escolhas imprudentes seguidas ultimamente.
A garota sentiu os olhos marejarem e mordiscou o lábio inferior nervosamente ao tentar conter o choro.
— Eu sei.
A expressão de Sor Lyonel suavizou-se ao ver as lágrimas da filha, e algo protetor reluziu em suas feições. Ele estendeu a mão para colocar sobre a dela — dedos calejados, ásperos, mas gentis contra sua pele.
— Olhe para mim. — Sua voz era calma, firme daquele jeito que só os pais conseguiam ser. — Você não está indo embora porque está envergonhada. Você não está fugindo deste rapaz como se ele fosse um pecado a ser enterrado. — Uma pausa enquanto ele apertava levemente a mão dela antes de acrescentar: — ...porque se eu pensasse por um segundo que você realmente o queria? Eu mesmo o arrastaria de volta para cá pelos cabelos.
— Maldição, o que quer que eu diga? — chocou as palmas das mãos contra a mesa. — Eu sei que errei! Eu errei, pai, é isso que quer ouvir? Ele é um homem bom e honrado, e eu errei em tratá-lo como o fiz. Temo ter destruído isso de alguma forma! É isso que quer ouvir?
O aperto de Sor Lyonel na mão dela se intensificou ligeiramente — não por raiva, mas por algo mais próximo de uma satisfação sombria. Seus lábios se comprimiram em uma linha fina enquanto ele estudava a filha com olhos penetrantes.
— Ah. — A única sílaba carregava um significado profundo; ele entendia agora, melhor do que ela imaginava. — Então esse é o verdadeiro problema. Responsabilidade.
Ele se inclinou ligeiramente para a frente na cadeira, a voz baixando para um murmúrio que só ela podia ouvir.
— Escute bem. Você não pode arruinar um homem honrado e depois fugir para casa como uma donzela tímida. Se você o magoou? Então conserte. E se não conseguir? — Uma pausa antes de acrescentar friamente: — ...Então fique longe dele para sempre.
considerou as palavras do pai enquanto evitava encará-lo. Por fim, acenou com a cabeça.
— Se eu escrevesse uma carta, entregaria a ele? Partirei antes do início da tarde.
Sor Lyonel a observou por um longo momento — a postura de seus ombros, a determinação em seus olhos. Não era bem uma pergunta, e ambos sabiam disso; ela se encarregaria de fazer a carta chegar a ele de qualquer maneira, mas assentiu levemente. A severidade nos seus suavizou-se um pouco.
— Sim, entregarei uma carta ao rapaz, se esse for o seu desejo.
pegou um pergaminho e começou a escrever enquanto Lyonel terminava o desjejum. Passou um bom tempo nisso, quase meia hora. A pena deslizava timidamente no início, e tornara-se mais ativa do meio pro fim, como se ela finalmente soubesse o que deveria dizer ao Cavaleiro Andante.
Por fim, quando terminou, lacrou-a com o selo da casa Baratheon e, após um momento de hesitação, entregou-a ao pai.
Lyonel soltou um assobio surpreso.
— Meia hora. É mais tempo do que já passou fazendo qualquer coisa em sua vida. — Por fim, colocou a carta de lado e pegou um biscoito de aveia para si. — O encontrarei assim que você partir. Não faça eu me arrepender.
— Pelos Deuses, homem. Nunca falou assim comigo antes. — cruzou os braços. Os olhos tempestuosos faiscaram. — Deve gostar mesmo desse seu amigo cavaleiro andante.
Ele soltou uma risada rouca com aquilo — um som agudo quase tingido de amargura. Sua expressão suavizou quando se virou para observar a filha com mais atenção — o queixo altivo erguido, a expressão teimosa em seus lábios. Ela sempre fora a sua cópia fiel, do fogo nos olhos àquela língua maldita. Podia notar uma centelha de ciúmes naquela fala aparentemente distraída; nunca dava ponto sem nó.
— Você é um pé no saco — disse, ríspido, com um pequeno sorriso nos lábios. — Um pé no saco que eu amo mais do que qualquer coisa nos sete reinos.
Um sorriso brincou nos lábios da garota e ela deitou a cabeça em seu ombro.
— Tente não se matar em uma das justas, está bem? Acontece que eu te amo mais do que tudo neste mundo, papai.
Sor Lyonel riu e envolveu-a em seus braços enquanto a puxava para mais perto do peito. Ele abaixou a cabeça para dar um beijo carinhoso na coroa de seus cabelos negros e inalou o aroma familiar.
— Eu sempre saio ileso dessas situações, não é? — resmungou afetuosamente. — Ninguém me derrubou do cavalo ainda. Vou ficar bem.
— De qualquer forma, ouvi dizer que os Targaryen chegam na manhã seguinte. Vou embora antes que Daeron me faça aquela carinha de cachorro pidão e finja que está bêbado demais para notar que entrou na minha tenda “por engano” de novo.
Foi só falar em Daeron que uma memória voltou à sua mente imediatamente.
“Sonhei com você”, começara ele enquanto acariciava-lhe a bochecha, o olhar perdido na janela. “Repousava afrente de um grande olmo, a maior árvore que já vi. Não era uma árvore comum, porém. Seus galhos eram retorcidos e espinhosos como os chifres de um veado. O céu se mostrava em um belo por-do-sol como se pegasse fogo e, por um instante, uma estrela cadente pairou no céu. Você tocou a árvore e ela pulsou como se possuísse um coração, mas a estrela transformou-se em um raio que irrompeu dos céus e partiu a árvore ao meio.”
franziu a testa. Por que se lembrara daquilo tão repentinamente? Daeron era um mistério com seus sonhos que o faziam beber até a inconsciência. Havia perdido as contas de quantas vezes havia tentado decifrar aquele enigma, mas nunca chegara a lugar algum e decidira esquecer de uma vez por todas… até aquele momento.
— Está fazendo o certo em ir embora cedo. Já aprontou demais para um evento só, eu diria. — Lyonel recostou-se novamente contra a cadeira e arrancou-lhe de seus pensamentos. A garota piscou algumas vezes e retorceu os lábios em desagrado. Sabia que merecia aquilo, mas não tornava nada mais fácil ou doce.
Como prometido, a garota partira logo após o desjejum, ansiosa para se livrar da sensação de culpa que insistia em atormentar-lhe, fomentada pelo pai e pelas memórias do corpo de Sor Duncan contra o seu. Quando o cavaleiro andante não apareceu no soirée de Sor Lyonel naquela noite, ele foi procurá-lo. Tinha que entregar a carta de , afinal de contas. Havia prometido.
Lyonel o encontrou com seu escudeiro e os cavalos.
— Tenho uma carta para você — disse enquanto cambaleava, meio bêbado.
Dunk virou-se, surpreso, a observar o pergaminho na mão do mais velho como se fosse uma víbora.
— Uma carta?
— a escreveu. Ela partiu após o desjejum essa manhã.
O corpo inteiro de Dunk tensionou-se ao ouvir o apelido e suas mãos congelaram no meio da escovada sobre o flanco de Trovão. O ar escapou de seus pulmões em uma expiração brusca — como se houvesse levado um soco direto nas costelas.
— … Partiu? — repetiu atordoado e piscou como se esperasse acordar de um pesadelo. Seu aperto na escova se intensificou até a madeira ranger sob a pressão. Um instante de silêncio se estendeu antes que ele agarrasse a carta com um murmúrio áspero. — Me dê aqui.
Claro, Egg teve que ler para ele, já que não sabia como. A voz do garoto penetrava-lhe os ouvidos como agulhas, cada palavra dolorosa e inesperada.
“Duncan,
A pena treme em minha mão ao escrever essa carta. Não sou capaz de encará-lo agora, pois sei o quanto minhas ações lhe foram danosas. Nossa última conversa não sai da minha mente; consigo ouvir suas palavras até aqui na mesa de meu pai enquanto escrevo, e elas me ferem imensamente. Você tem razão, o que eu fiz não foi direito, e pior, não foi justo. Esta é uma tentativa covarde de me desculpar, pois sei que deveria dizer tais palavras frente a frente, diante da gravidade da minha ofensa. Os deuses sabem que minha conduta não vem sendo das melhores quando se trata de amor, mas você foi quem me fez perceber que as pessoas não são simplesmente algo para se usar e descartar. Somos todos animais, sim, mas animais conscientes, e isso deve prevalecer. Você é um homem honrado e bom, algo em falta atualmente, e eu preciso melhorar como pessoa. Seguirei seu conselho de não tratar o próximo com crueldade, afinal de contas, você estava certo, o único certo em toda essa situação, temo eu.
Embora talvez seja algo egoísta de dizer agora... não foi de tudo insignificante. Nossos momentos foram importantes para mim, e irei me lembrar com doçura de” ... aqui algumas frases haviam sido riscadas. “me ocorreu que talvez alguém precise ler esta carta para você. Deuses, que não seja meu pai. Sabe bem do que eu me lembrarei, não preciso enumerar aqui. Espero que, no futuro, nos encontremos novamente. Desejo-lhe todo o sucesso e que vença todas as justas em que se inscrever.
”
— … Importante — repetiu roucamente quando Egg terminou, como se a palavra tivesse um gosto ruim em sua boca.
Virou-se abruptamente antes que Sor Lyonel pudesse ver algo muito vulnerável em seu rosto e passou uma mão áspera sobre a pele como se tentasse apagar uma emoção. Quando falou novamente, sua voz estava rouca, porém controlada.
— Diga a ela... diga a ela que não desejo nada além de boa sorte em sua vida.
Lyonel assentiu.
— Pode deixar. Sabe... Ela é uma boa menina, e não estou dizendo isso só porque é minha filha. Desorientada e imprudente como todos os jovens são, mas... Eu vi hoje de manhã o quanto ela se arrependeu de tudo isso, do que fez com você.
Os ombros de Dunk relaxaram com as palavras, ele ainda de costas para eles enquanto encarava o pátio de treinamento com a mandíbula cerrada. O vento aumentou, bagunçando-lhe os cabelos desgrenhados e fazendo Trovão mexer-se impacientemente sob ele.
— ...Não é culpa dela — finalmente murmurou, áspero, mas firme. — Eu sabia onde estava me metendo.
Ele se virou ligeiramente agora e lançou um olhar para Sor Lyonel com algo cauteloso naqueles olhos azuis penetrantes.
— Você não precisa defender a honra dela para mim. Ela não me fez nenhum mal que não vá sarar.
Lyonel deu alguns tapinhas no ombro dele, em sinal de conforto.
— Todos nós somos egoístas, meu rapaz. Alguns por boas razões, outros por más, mas egoístas mesmo assim — disse ele antes de retomar seu caminho enquanto cantarolava uma música rude sobre uma estalajadeira com lábios de lampreia, os pés trocados e cambaleantes.
Dunk soltou um suspiro lento enquanto Sor Lyonel se afastava e seus ombros curvaram-se levemente sob o peso das palavras do homem mais velho. Ele encarou a carta nas mãos de Egg — a caligrafia elegante e impecável de que ele mesmo não conseguia ler.
— ...Sim — murmurou finalmente para ninguém em particular. — Acho que sim.
Ele agarrou as rédeas de Trovão com movimentos bruscos antes de lançar um olhar para as tendas distantes de Ashford Meadow — onde ela estaria se não houvesse partido.
FIM!
Nota da autora: Essa fic foi minha queridinha porque eu tô muito apaixonada pelo Dunk (e pelo resto dos personagens, sinceramente). Essa série foi um bálsamo pra minha obsessão pelo mundo das Crônicas de Gelo e Fogo iheiausheiuahsiea espero que gostem tanto quanto eu amei escrevê-la <3
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