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Codificada por: Lightyear 💫
Finalizada em: 02/06/2026


CAPÍTULO ÚNICO

“Glistening grass from September rain, grey overpass full of neon names, you drive, mm-mm, eighty-five, mm-mm.”


Setembro de 2018


A grama reluzia com a chuva de setembro caindo, enquanto ele dirigia concentrado na direção. Eu me lembrava perfeitamente bem de hora ou outra olhar para ele de relance e admirar o perfil bonito que ele tinha.
era o homem mais bonito que eu já havia visto na vida, e eu não estava exagerando. Nós éramos melhores amigos desde a infância, desde que nossas mãe se conheciam praticamente, ainda novinhas. Engravidaram de nós dois praticamente juntas, e eu ele tínhamos meses de diferença e éramos quase irmãos.
Ou primos.
Eu preferia primos.
Na verdade eu preferia o título que ele mesmo nos dava: metade um do outro.
Sim, isso sim, era a própria perfeição.
Nada definia nós dois melhor do que isso.
— Você pensou melhor na proposta do seu pai? — Nos encaramos de soslaio.
Eu sabia.
Sabia que hora ou outra aquele assunto viria. E que partiria dele.
Suspirei baixinho, na intenção de que só eu mesma ouvisse meu lamúrio, mas ele balançou a cabeça.
— Não precisa suspirar assim, . Foi só uma pergunta. Eu estou só te estimulando… se não pensou ainda, comece a pensar.
Encostei a cabeça no encosto do banco e fechei os olhos.
— São sete da manhã, . Caramba!
Eu não via, mas eu sabia que ele estava apertando o volante. Abri os olhos.
85 quilómetros por hora, quando bati os olhos no odômetro foi isso que eu enxerguei.
Ele havia diminuído a velocidade porque sabia que nós dois provavelmente discutiremos, ele me conhece e conhece a si mesmo.
— Você tem futuro se ficar aqui em Sedona, o negócio do seu pai é o negócio mais promissor da cidade e se você for a próxima administradora, o negócio vai voar ainda mais! — Ele umedeceu os lábios, se preparando para continuar falando, mas eu não deixei.
— Nunca foi meu sonho . Eu quero ir para fora, quero conhecer o mundo.
Eu vi o olhar dele endurecer e a testa franzir levemente.
— Não vamos estragar o clima da viagem com esse assunto, por favor! Eu não quero brigar.
— Eu também não quero brigar . — Senti uma das mãos dele sobre minha perna. Meus olhos bateram lá e eu engoli seco. — Foi só uma pergunta. Mas esquece.
Me inclinei e depositei um beijo rápido em sua bochecha, uma forma que eu tinha de sempre selar a paz entre nós dois.
— Estamos quase chegando, agora eu deixo você escolher as músicas. — Eu sorri enquanto balançava a cabeça com o comentário.
— Você ama as minhas playlists de viagem que eu sei.
Silêncio por alguns segundos enquanto eu conectava meu bluetooth ao carro.
e eu éramos metade um do outro.
E aquilo bastava, não é?

⚡⚡⚡

“Gallatin Road and the lakeside beach, watching the game from your brother's Jeep… Your smile, mm-mm… Miles wide.”


O lago refletia os últimos resquícios do pôr do sol quando estacionou o carro perto da areia. O som distante das pessoas comemorando o jogo ecoava das caixas de som improvisadas em volta dos carros, e o vento frio de setembro arrepiava meus braços descobertos.
Sedona parecia pequena dali.
Quase insignificante.
E talvez fosse exatamente por isso que eu tinha tanta vontade de ir embora.
— Está com frio? — ele perguntou enquanto desligava o carro.
Neguei rapidamente, mesmo estando.
soltou uma risada baixa pelo nariz, daquela forma debochada e carinhosa que só ele conseguia fazer sem me irritar.
— Você é péssima mentindo.
Antes mesmo que eu pudesse responder, ele puxou o moletom cinza pelos ombros e jogou em cima de mim.
O perfume dele me atingiu imediatamente.
Madeira.
Chuva.
Casa.
Engoli seco enquanto vestia o moletom sem coragem de encará-lo por muito tempo.
Porque esse era o problema de .
Ele fazia tudo parecer íntimo demais sem perceber.
Sentamos no capô do carro alguns minutos depois, observando as luzes dos outros veículos espalhados perto da praia. O irmão dele gritava alguma coisa do outro lado, provavelmente reclamando do resultado do jogo, mas não parecia interessado.
Os olhos dele estavam em mim.
— Você anda estranha.
— Estranha como?
— Distante.
Desviei o olhar para a água.
— Talvez eu esteja pensando demais.
— Sobre ir embora?
Meu silêncio respondeu por mim.
Ele apoiou os cotovelos nos joelhos e abaixou a cabeça por alguns segundos, como fazia sempre que estava tentando controlar o que queria dizer.
Eu conhecia cada versão dele.
A impaciente.
A irritada.
A protetora.
Aquela… era a magoada.
— Eu só não entendo porque parece tão ruim ficar… — Murmurou.
— E eu não entendo porque parece tão ruim partir.
Aquilo o fez me encarar de novo.
Intensamente.
Como se estivesse tentando encontrar alguma resposta dentro de mim.
O vento bagunçava os cabelos escuros dele, e por um instante eu odiei o fato de que o sorriso de conseguia acabar comigo daquele jeito.
Largo.
Bonito.
Quilômetros de largura.
— Porque você é minha pessoa favorita no mundo, .
Meu coração falhou uma batida.
Simples.
Direto.
Honesto.
Ele falava aquelas coisas naturalmente, sem perceber o efeito devastador que tinham em mim.
— Você também é a minha. — Respondi baixo.
E éramos.
Talvez aquele fosse justamente o problema.

⚡⚡⚡

“And it was not an invitation… Should've kissed you anyway! Should've kissed you anyway. And it was not convenient, no, but your girlfriend was away. Should've kissed you anyway, hey.”


A fogueira crepitava alguns metros à nossa frente, iluminando o rosto de em tons alaranjados enquanto ele ria de alguma piada idiota do irmão.
Mas eu mal conseguia prestar atenção.
Porque havia uma garota sentada no colo dele.
Yuna.
A namorada.
Bonita, simpática e absurdamente apaixonada por ele.
E eu odiava o fato de sentir inveja dela.
Odiava ainda mais o fato de que aquilo fazia de mim uma péssima amiga.
— Você sumiu. — A voz dele surgiu perto demais.
Levantei os olhos.
estava em pé na minha frente agora, as mãos nos bolsos do moletom preto.
Yuna tinha ido buscar bebidas.
— Estou aqui.
— Mas não parece.
Forcei um sorriso pequeno.
— Talvez eu esteja cansada.
Ele me observou por alguns segundos longos demais.
Aquele tipo de olhar que me fazia sentir completamente despida mesmo usando camadas e camadas de roupa.
— Você anda fazendo isso.
— Isso o quê?
— Se afastando de mim.
Meu peito apertou.
Porque ele dizia aquilo como se fosse simples.
Como se eu estivesse me afastando por escolha.
E não porque continuar perto dele estava começando a me destruir.
Desviei os olhos rapidamente quando Yuna voltou correndo e passou os braços pelo pescoço dele.
— Amor, seu irmão tá chamando!
Amor…
A palavra bateu em mim pior do que deveria. hesitou por um instante. Como se não quisesse sair dali. Como se estivesse esperando alguma coisa.
Talvez um pedido para ficar. Talvez coragem.
Mas eu apenas balancei a cabeça.
— Vai lá.
Ele continuou me encarando por mais um segundo.
Depois assentiu devagar.
E foi.
Fiquei observando os dois caminharem até o grupo perto da fogueira enquanto o vento gelado bagunçava meu cabelo.
Ela segurava a mão dele.
E ele deixava.
Aquilo deveria bastar para me fazer entender meu lugar.
Melhor amiga. Metade dele. Quase irmã. Quase prima. Quase tudo.
Menos a garota que ele amava.
Engoli em seco e abracei os joelhos, tentando ignorar a sensação horrível crescendo dentro do peito.
Porque talvez a pior parte fosse saber que, se ele me beijasse naquela noite…
Eu teria deixado.
Sem pensar duas vezes.
E aquilo me assustava mais do que deveria.

⚡⚡⚡

“Shiny wood floors underneath my feet, disco ball makes everything look cheap. Have fun, mm-mm, It's prom, mm-mm. Witted corsage dangles from my wrist. Over his shoulder, I catch a glimpse, and see, mm-mm, you looking at me…”


Maio de 2019


O ginásio da escola parecia menor do que eu me lembrava.
As luzes coloridas refletiam no chão de madeira brilhante enquanto casais giravam lentamente no centro da pista, e a enorme bola de espelhos pendurada no teto fazia tudo parecer artificial demais.
Barato demais.
Como uma versão malfeita de um filme adolescente.
Talvez fosse exatamente isso que era.
— Você está linda essa noite, ! — Mina sorriu enquanto ajeitava a alça do meu vestido.
Forcei um sorriso de volta.
— Você já disse isso três vezes.
— Porque é verdade.
Olhei meu reflexo rapidamente no vidro escuro das janelas.
O vestido azul-marinho abraçava meu corpo de uma forma delicada, e o corsage preso ao meu pulso balançava cada vez que eu mexia a mão.
Aquilo deveria ser divertido.
Era o baile.
O último grande evento antes da formatura.
Mas meu estômago estava embrulhado desde a hora em que entrei naquele lugar.
Porque estava ali.
Com ela.
E eu odiava o fato de procurá-lo no meio da multidão automaticamente.
.
Meu corpo inteiro reagiu antes mesmo de eu me virar.
.
Terno preto.
Gravata frouxa.
Cabelos escuros caindo levemente sobre a testa.
Ridiculamente bonito.
Ridiculamente meu ponto fraco.
— Uau — ele murmurou, me olhando de cima a baixo. — Você realmente está linda.
Meu coração tropeçou de maneira patética.
— Você também está bonito.
Ele sorriu daquele jeito pequeno e torto que sempre acabava comigo.
Por um segundo, ficou só nós dois.
Como sempre acontecia.
Como se o resto do mundo diminuísse ao redor dele.
Até Yuna surgir ao lado de e passar o braço pelo dele.
A realidade voltou rápido.
— Vou roubar ele pra dançar um pouco — ela disse animada.
E eu sorri.
Porque era isso que eu fazia.
Sorria.
Mesmo quando parecia que alguém estava apertando meu peito lentamente.
— Claro.
hesitou antes de sair.
Os olhos presos nos meus por tempo suficiente para me deixar nervosa.
Tempo suficiente para me fazer imaginar coisas que provavelmente não existiam.
Então ele foi levado até a pista.
E eu fiquei parada perto das mesas, observando.
Tentando ignorar o jeito como ele segurava a cintura dela.
Tentando ignorar que qualquer outra garota no mundo teria olhado para aquilo e entendido imediatamente que eles eram apaixonados.
Mas então…
No meio da dança, no meio das luzes piscando… No meio da música alta…
olhou para mim. Por cima do ombro dela.
Diretamente para mim. E não desviou.
Meu ar falhou.
Porque aquele não era um olhar distraído.
Não era casual, era intenso. Quase triste, quase saudoso…
Como se ele também estivesse pensando em alguma coisa que nunca aconteceu.
E pela primeira vez em meses…
Eu tive medo de não ser a única presa naquele quase.

⚡⚡⚡

“And it was not an invitation. But as the 50 Cent song played (song played), should've kissed you anyway (anyway)... And it was not (it was not) convenient (convenient), no. Would've been the best mistake, should've kissed you anyway, ayy.”


A música mudou de novo.
As batidas graves do 50 Cent fizeram o ginásio inteiro vibrar enquanto algumas pessoas gritavam animadas e corriam para o centro da pista.
Luzes vermelhas atravessavam o salão.
O cheiro de refrigerante, perfume caro e flores já começando a morrer se misturava no ar.
E ainda estava olhando para mim.
Por cima do ombro de Yuna.
Como se tivesse esquecido que estava dançando com outra pessoa.
Meu coração apertou de um jeito perigoso.
Porque aquele olhar não era amizade.
Nunca tinha sido.
Mas também nunca era o suficiente para virar alguma coisa.
Desviei os olhos primeiro.
Covarde.
Talvez.
! — Mina apareceu puxando meu braço. — Anda, vem dançar!
Deixei que ela me arrastasse para perto da pista, rindo sem vontade enquanto tentava ignorar a presença de do outro lado do salão.
Mas era impossível.
Eu sempre sentia quando ele estava perto.
Sempre.
A música alta fazia o chão vibrar sob meus pés enquanto eu fingia me divertir. Mina falava alguma coisa sobre a decoração horrorosa do baile, mas minha atenção escapava constantemente.
Até eu sentir uma mão tocar meu pulso.
Meu corpo inteiro reconheceu antes mesmo dos meus olhos.
. Ele estava perto demais.
Terno preto. Olhar sério.
Respiração pesada como se tivesse vindo rápido até mim.
— Você sumiu de novo — ele disse baixo, precisando se aproximar para ser ouvido acima da música.
— Eu tô literalmente na sua frente.
O canto da boca dele subiu minimamente.
Mas não chegou a virar sorriso. Yuna estava alguns metros atrás, distraída conversando com outras garotas.
E aquilo tornava tudo pior. Porque aquele momento parecia íntimo demais.
Perigoso demais.
— Você tá linda hoje — ele disse de repente.
Meu coração tropeçou.

— O quê? É verdade.
Desviei os olhos imediatamente.
Porque ele falava aquelas coisas como se não percebesse o impacto.
Ou talvez percebesse.
Talvez aquele fosse justamente o problema.
A música continuava alta. As luzes giravam lentamente sobre nós.
E por um segundo absurdamente específico, olhou para minha boca.
Só um segundo. Mas eu vi.
E ele percebeu que eu vi. O ar entre nós mudou instantaneamente.
Pesado.
Quente.
Errado.
Meu coração começou a bater tão forte que fiquei tonta. Porque naquele momento…
Naquele exato momento…
Eu achei que ele fosse me beijar.
Achei mesmo. Talvez ele também tenha pensado nisso.
Porque os olhos dele escureceram levemente, e a mão em meu pulso apertou quase sem querer.
Um passo.
Era só o que faltava.
Só um.
Mas então alguém chamou o nome dele do outro lado da pista.
Yuna.
piscou como se tivesse acordado de repente.
A mão dele soltou meu pulso imediatamente.
A realidade voltou inteira de uma vez.
Namorada.
Melhor amiga.
Limites.
Ele passou a mão pela nuca, claramente nervoso agora.
— Eu…
Mas não terminou.
Não precisava.
Porque nós dois sabíamos.
Sabíamos exatamente o que quase tinha acontecido.
E talvez essa fosse a pior parte.
O quase.
me encarou por mais um segundo longo demais antes de dar um passo para trás.
— Aproveita o baile, .
Então ele voltou para ela.
E eu fiquei parada no mesmo lugar, com o coração completamente descompassado, pensando que talvez o maior erro da nossa vida tivesse sido justamente não ter acontecido.

⚡⚡⚡

“Don't make it awkward in second period, might piss your ex off. Lately we've been good, staying friends is safe. Doesn't mean you should… Don't make it awkward in second period, might piss your ex off. Lately we've been good… Staying friends is safe. Doesn't mean you should…”


O corredor da escola parecia barulhento demais. Armários batendo, gente rindo.
Professores reclamando do atraso dos alunos.
Tudo normal.
Exceto pelo fato de que eu mal tinha conseguido dormir desde o baile. Porque agora existia um antes e depois daquele quase. E eu odiava o fato de que também parecia sentir isso.
Eu o encontrei perto dos armários antes da segunda aula.
Camiseta preta.
Fones pendurados no pescoço.
Cabelos bagunçados como sempre.
Mas o jeito que ele me olhou…
Aquilo não era como antes.
Nunca mais seria.
— Oi — murmurei.
— Oi.
Silêncio.
Meu Deus.
Aquilo era um desastre.
Nós nunca fomos estranhos um com o outro. Nunca.
era literalmente a pessoa mais natural da minha vida inteira.
Mas agora parecia que existia eletricidade demais entre nós.
Coisas demais não ditas.
O quase beijo do baile ainda preso em algum lugar entre nossos corpos.
— Então… — ele começou, coçando a nuca. — Você sumiu depois.
— Você também.
Ele soltou uma risada fraca pelo nariz.
Nervosa.
— A Yuna queria ir embora cedo.
Claro.
A namorada.
O lembrete caiu como água fria.
Assenti devagar.
— Faz sentido.
Outro silêncio.
Pior ainda.
Porque agora eu conseguia perceber tudo.
O jeito que os olhos dele desciam involuntariamente para minha boca antes de subir de novo.
O jeito que ele parecia querer se aproximar e se impedir no último segundo.
O jeito que eu estava absurdamente consciente da distância entre nossos corpos.
— A gente não pode deixar isso ficar estranho — falei rápido demais.
ergueu os olhos imediatamente.
— Isso o quê?
— O baile.
O olhar dele mudou na hora.
Mais fechado.
Mais cuidadoso.
— Não aconteceu nada.
Mentira.
Aconteceu.
Talvez não fisicamente.
Mas aconteceu.
E nós dois sabíamos.
Engoli seco.
— Exatamente. Então não precisa virar um problema.
Ele me encarou por alguns segundos longos.
Como se estivesse tentando entender se eu realmente acreditava no que estava dizendo.
Spoiler: eu não acreditava.
Mas continuar amigos era seguro.
Continuar daquela forma significava que eu ainda teria ele.
Talvez não da maneira que eu queria.
Mas teria.
E isso precisava bastar.
— Certo — ele respondeu por fim.
Só aquela palavra.
Curta.
Controlada.
Distante.
Aquilo doeu mais do que deveria.
Porque nunca era distante comigo.
Nunca.
Um grupo de alunos passou correndo pelo corredor, empurrando nossos ombros sem querer.
Automaticamente, ele segurou minha cintura para me estabilizar.
O toque durou menos de dois segundos.
Mas queimou.
Os olhos dele encontraram os meus.
Perto demais.

⚡⚡⚡

“When I left school, I lost track of you, Abigail called me with the bad news. Goodbye… And we'll never know why.”


Outubro de 2022


Depois que deixei Sedona, virou lembrança em pequenas doses.
Fotos antigas. Mensagens respondidas horas depois. Curtidas silenciosas.
Atualizações ocasionais através de amigos em comum…
E então… nada.
A vida aconteceu rápido demais. Nova cidade. Nova faculdade. Novas pessoas.
Eu dizia para mim mesma que aquilo era normal.
Que era assim que crescer funcionava.
Até o telefone tocar numa terça-feira chuvosa.
Abigail.
Achei estranho imediatamente.
— Abby?
Do outro lado da linha, silêncio.
Depois uma respiração falha.
Meu estômago afundou na mesma hora.
… — a voz dela saiu quebrada. — É o .
O mundo inteiro pareceu parar.
— O que aconteceu?
Outro silêncio.
Longo demais.
Doloroso demais.
E então as palavras vieram baixas.
Cuidadosas.
Como se nem elas quisessem existir.
— Ele sofreu um acidente ontem à noite.
Meu corpo inteiro gelou.
— Não…
Eu nem sabia exatamente ao que estava respondendo.
À notícia.
Ao medo.
À sensação horrível de que alguma coisa dentro de mim já sabia.
Fechei os olhos com força enquanto Abigail chorava do outro lado da linha.
E a única coisa que meu cérebro conseguia pensar era:
Nós nunca descobrimos o porquê.
Por que era sempre ele.
Por que parecia amor.
Por que nunca aconteceu.
Ou por que, no final, nós simplesmente deixamos o quase vencer.

⚡⚡⚡

“It was not an invitation but I flew home anyway. With so much left to say! It was not convenient, no, but I whispered at the grave… Should've kissed you anyway, ooh.”


O cemitério estava silencioso demais.
Frio demais.
As árvores balançavam devagar com o vento de fim de tarde enquanto eu permanecia parada diante da lápide havia minutos que pareciam horas.
Choi .
O nome gravado na pedra parecia errado.
Artificial.
Como se em algum momento ele fosse surgir atrás de mim reclamando do clima, dizendo que eu estava dramática demais por visitar um cemitério usando salto alto.
Mas ele não veio. Dessa vez, não viria.
Engoli seco enquanto me agachava devagar diante da lápide.
As flores que eu tinha comprado mais cedo tremiam levemente em minhas mãos.
Ridículo! Tudo aquilo era ridículo.
Porque odiava lírios.
E eu só lembrava disso agora.
Uma risada fraca escapou entre meu choro.
— Desculpa… — murmurei. — Eu deveria ter trazido aquelas flores horrorosas amarelas que você gostava.
Minha voz falhou no final.
Silêncio. Só vento. Só ausência.
Passei os dedos pela pedra fria, tentando entender em que momento ele tinha virado alguém que eu precisava visitar em um cemitério.
— Abby me contou que você perguntou de mim antes de…
Não consegui terminar.
Meu peito queimava.
Os olhos ardiam.
— Idiota.
Sorri chorando.
Porque ele odiava quando eu chorava.
Sempre odiou.
, você fica assustadora chorando.”
A lembrança atingiu forte demais.
Abaixei a cabeça.
— Eu voltei pra casa por sua causa, sabia? Depois de tantos anos… você ainda conseguiu isso.
Minha respiração saiu tremida.
— E eu odeio que tenha sido tarde demais.
O vento ficou mais forte por um instante, bagunçando meus cabelos.
Fechei os olhos.
E então finalmente disse aquilo.
As palavras que ficaram presas por anos inteiros.
Presas no baile.
Presas nos corredores da escola.
Presas em todas as despedidas que nunca foram despedidas de verdade.
— Eu deveria ter beijado você.
Minha voz saiu quase inaudível.
Pequena.
Quebrada.
— Talvez tivesse sido a pior decisão da nossa vida… mas teria sido nossa.
As lágrimas escorriam silenciosamente agora.
— E você sabe o pior? — ri sem humor algum. — Eu acho que você teria me beijado de volta.
O silêncio continuou.
Cruel.
Definitivo.
Mas pela primeira vez em anos, eu não fugi dele.
Só permaneci ali.
Ao lado de .
Metade um do outro.
Mesmo tarde demais.

⚡⚡⚡

“My advice is always: Ruin the friendship. Better that than regret it for all time! Should've kissed you anyway. And my advice is: Always answer the question… Better that than to ask it all your life, should've kissed you anyway. Should've kissed you anyway…”


Março de 2023


Sedona continuava igual. As mesmas ruas pequenas. Os mesmos cafés. Os mesmos letreiros iluminando a cidade ao anoitecer.
Era estranho perceber como o mundo conseguia continuar exatamente o mesmo depois que alguém morria.
Como se a ausência de não devesse ter mudado absolutamente tudo.
Eu caminhava devagar pela calçada enquanto o vento frio da noite bagunçava meu cabelo.
As mãos afundadas nos bolsos do casaco. O coração menos pesado do que meses atrás.
Não curado. Nunca curado.
Mas diferente.
Porque o luto tinha parado de parecer um incêndio constante e começado a parecer maré.
Às vezes vinha forte. Às vezes suportável. Às vezes silenciosa.
Parei em frente ao antigo ginásio da escola.
A quadra estava vazia agora.
Escura. Mas eu ainda conseguia enxergar…
As luzes do baile…
A música alta…
olhando para mim no meio da pista como se estivesse prestes a atravessar uma linha invisível.
Sorri fraco.
— Idiota.
O vento soprou mais forte. Fechei os olhos por um instante.
E pela primeira vez desde que ele morreu… eu consegui pensar naquele quase sem sentir vontade de desmoronar.
Talvez porque finalmente tivesse entendido.
Não era sobre o beijo. Nunca foi. Era sobre medo.
Nós nos amávamos tanto que tivemos medo de estragar a única coisa que nunca tínhamos perdido.
Então escolhemos a segurança.
Escolhemos continuar metade um do outro.
E talvez tenha sido bonito.
Mas também foi cruel.
Porque agora eu viveria o resto da minha vida sem saber como teria sido amá-lo em voz alta.
Sem saber como teria sido segurá-lo sem culpa.
Sem saber como teria sido escolher um ao outro de verdade.
E ainda assim…
Mesmo com toda a dor…
Mesmo com o final horrível…
Eu acho que, se pudesse voltar no tempo, eu arriscaria.
Arruinaria a amizade.
Beijaria ele no estacionamento do baile.
Diria “fica”. Diria “eu amo você”.
Porque algumas pessoas entram na nossa vida só uma vez.
E algumas perguntas machucam mais quando nunca são respondidas.
Olhei uma última vez para o ginásio antes de me virar para ir embora.
E então sorri sozinha ao lembrar da frase favorita dele.
Metade um do outro.
Talvez fosse verdade.
Talvez uma parte de mim realmente tivesse ido embora junto com .
Mas a outra parte…
A outra parte continuaria vivendo.
Conhecendo o mundo.
Dirigindo por estradas longas.
Ouvindo músicas que doíam demais.
E amando ele silenciosamente pelo resto da vida.
Porque no fim…
O nosso quase também foi amor.

FIM!

Nota da autora: Não tinha como o fim ser outro né amigas? Perdão haha