Codificada por:
Sol
Finalizada em: 31/05/2026
PRÓLOGO
— após os sangue e as feridas
após as maldições e os gritos
deixe tudo pra trás
após as maldições e os gritos
deixe tudo pra trás
BLACK NÃO conseguiu se proteger do frio de Londres naquela noite.
A camisa fina que usava não estava sendo o suficiente para conter o vento gélido que soprava contra a sua pele, mas, sinceramente, a bruxa tinha problemas maiores que o frio, mesmo que seus dentes estivessem tremendo.
Ela não tinha a menor ideia de que horas eram naquela cidade, mas havia poucas pessoas pelas ruas. Não se ouvia nenhum som, nem mesmo qualquer farfalhar de folhas; tudo era envolvido por um silêncio acompanhado pelas partes escuras das ruas, os pés mal conseguindo manter-se firmes pelo caminho que ela seguia cegamente, confiando em seu instinto e memória muscular para encontrar a casa certa.
As poucas pessoas que passavam pela Black não prestavam atenção em sua silhueta; não teriam percebido sua pele pálida e sua mão encharcada de sangue, que pressionava o ferimento na parte lateral da barriga. A outra segurava a sua varinha com firmeza. Se tivesse forças suficientes, talvez conseguisse aparatar naquele momento para o seu destino, mas não conseguia fazer nada além de forçar os próprios pés a continuarem andando, movendo-se pelas ruas de pedras, ignorando a dor.
Ela nem sequer se lembrava o que tinha acertado-a.
Uma hora a missão estava caminhando muito bem e, de repente, tudo deu errado. Aconteceu tão rápido que ela teria dificuldades de lembrar o evento correto das coisas, mas não havia só humanos naquele lugar. Alguma coisa tinha atingido-a, mas não conseguiu ver, só se deu conta do seu próprio corpo no chão e de gritar de dor, o corpo começando a suar frio. Ela ouviu os gritos e o som de outros bruxos fugindo e aparatando, quando tentou fazer o mesmo.
Em algum momento daquela sucessão de eventos desastrosos, perdeu a sua jaqueta favorita e arrastou-se pelas ruas, gemendo de dor vez ou outra. Era algo insuportável, mas ela era teimosa o suficiente para não se deixar vencer por aquilo e, definitivamente, estava determinada a não morrer sozinha no meio de uma rua qualquer. Sem ter noção do tempo, ela finalmente pareceu respirar aliviada quando avistou a porta da casa que esperava encontrar, lembrando-se do último endereço ativo que Newt lhe deu. Não que o visitasse com tanta frequência, mas ele sempre fazia questão de informá-la, por qualquer que fosse o motivo, a sua estadia em qualquer lugar que estivesse. E, agora que estavam juntos naquela guerra, era sempre bom saber o paradeiro um do outro.
Ela se forçou a andar mais um pouco, subindo os dois degraus de escadas que a levava até a porta, onde bateu contra a madeira com a mão que ainda segurava sua varinha. Tentou respirar fundo e esperou, os olhos pesados, o corpo quase cambaleando, sentindo-se fraca. Sustentar o peso do próprio corpo estava se mostrando uma tarefa impossível.
A porta se abriu um segundo depois. Um Newt confuso apareceu, dando-se conta muito rápido de quem estava na sua frente, percebendo o ferimento da mais velha. Ele mal teve tempo de dizer ou questionar qualquer coisa quando ela praticamente cambaleou para frente, caindo nos braços dele, que a segurou com firmeza.
— — ele sussurrou, o pulso em sua carótida pulsando intenso —, o que aconteceu?
Era possível perceber o temor na voz dele; Newt ainda não conseguia entender a fonte do ferimento de sua melhor amiga e conseguiu arrastá-la para dentro de sua casa, levando a corvina até o sofá. Ela até tentou abrir a boca e responder a pergunta que ele fizera, mas sentia-se exausta de todo o esforço que fez para tentar chegar até ali, e não conseguiu emitir nenhum som.
Talvez, se tivesse conseguido falar qualquer coisa, não teria sido para responder a pergunta do lufano. Na verdade, queria apenas pedir que Newt não fizesse o que ele iria fazer logo depois de cuidar do ferimento dela: chamar Theseus Scamander.
A camisa fina que usava não estava sendo o suficiente para conter o vento gélido que soprava contra a sua pele, mas, sinceramente, a bruxa tinha problemas maiores que o frio, mesmo que seus dentes estivessem tremendo.
Ela não tinha a menor ideia de que horas eram naquela cidade, mas havia poucas pessoas pelas ruas. Não se ouvia nenhum som, nem mesmo qualquer farfalhar de folhas; tudo era envolvido por um silêncio acompanhado pelas partes escuras das ruas, os pés mal conseguindo manter-se firmes pelo caminho que ela seguia cegamente, confiando em seu instinto e memória muscular para encontrar a casa certa.
As poucas pessoas que passavam pela Black não prestavam atenção em sua silhueta; não teriam percebido sua pele pálida e sua mão encharcada de sangue, que pressionava o ferimento na parte lateral da barriga. A outra segurava a sua varinha com firmeza. Se tivesse forças suficientes, talvez conseguisse aparatar naquele momento para o seu destino, mas não conseguia fazer nada além de forçar os próprios pés a continuarem andando, movendo-se pelas ruas de pedras, ignorando a dor.
Ela nem sequer se lembrava o que tinha acertado-a.
Uma hora a missão estava caminhando muito bem e, de repente, tudo deu errado. Aconteceu tão rápido que ela teria dificuldades de lembrar o evento correto das coisas, mas não havia só humanos naquele lugar. Alguma coisa tinha atingido-a, mas não conseguiu ver, só se deu conta do seu próprio corpo no chão e de gritar de dor, o corpo começando a suar frio. Ela ouviu os gritos e o som de outros bruxos fugindo e aparatando, quando tentou fazer o mesmo.
Em algum momento daquela sucessão de eventos desastrosos, perdeu a sua jaqueta favorita e arrastou-se pelas ruas, gemendo de dor vez ou outra. Era algo insuportável, mas ela era teimosa o suficiente para não se deixar vencer por aquilo e, definitivamente, estava determinada a não morrer sozinha no meio de uma rua qualquer. Sem ter noção do tempo, ela finalmente pareceu respirar aliviada quando avistou a porta da casa que esperava encontrar, lembrando-se do último endereço ativo que Newt lhe deu. Não que o visitasse com tanta frequência, mas ele sempre fazia questão de informá-la, por qualquer que fosse o motivo, a sua estadia em qualquer lugar que estivesse. E, agora que estavam juntos naquela guerra, era sempre bom saber o paradeiro um do outro.
Ela se forçou a andar mais um pouco, subindo os dois degraus de escadas que a levava até a porta, onde bateu contra a madeira com a mão que ainda segurava sua varinha. Tentou respirar fundo e esperou, os olhos pesados, o corpo quase cambaleando, sentindo-se fraca. Sustentar o peso do próprio corpo estava se mostrando uma tarefa impossível.
A porta se abriu um segundo depois. Um Newt confuso apareceu, dando-se conta muito rápido de quem estava na sua frente, percebendo o ferimento da mais velha. Ele mal teve tempo de dizer ou questionar qualquer coisa quando ela praticamente cambaleou para frente, caindo nos braços dele, que a segurou com firmeza.
— — ele sussurrou, o pulso em sua carótida pulsando intenso —, o que aconteceu?
Era possível perceber o temor na voz dele; Newt ainda não conseguia entender a fonte do ferimento de sua melhor amiga e conseguiu arrastá-la para dentro de sua casa, levando a corvina até o sofá. Ela até tentou abrir a boca e responder a pergunta que ele fizera, mas sentia-se exausta de todo o esforço que fez para tentar chegar até ali, e não conseguiu emitir nenhum som.
Talvez, se tivesse conseguido falar qualquer coisa, não teria sido para responder a pergunta do lufano. Na verdade, queria apenas pedir que Newt não fizesse o que ele iria fazer logo depois de cuidar do ferimento dela: chamar Theseus Scamander.
PARTE UM
— após ter dado o melhor de mim
me diga o que dar depois disso
me diga o que dar depois disso
ALGUÉM SEGURAVA A sua mão.
não conseguia abrir os olhos por completo e murmurava palavras desconexas que ninguém entendia muito bem, voltando a perder a consciência logo em seguida, mas sem nunca esquecer, inconscientemente, do calor de uma mão contra a sua, como se aquela sensação fosse familiar.
Depois de ter chegado ao local onde Newt estava hospedado, ele cuidou de seu ferimento e a colocou deitada na cama. Theseus apareceu um tempo depois, com uma expressão um pouco atordoada, como se não soubesse muito bem o que sentir. Ele se assustou ao ver o rosto pálido de ; não sabia a intensidade do medo que sentia até vê-la ali, inconsciente, indefesa, e pensou que ela quase morreu.
Quase.
O pensamento em si o assustava por completo. Perder Leta foi uma coisa; ele sentiu todo o processo doloroso do luto em si e ainda não parecia real que ela realmente se foi, mas a ideia de perder era diferente. Seu corpo inteiro tensionava só com a ideia daquilo acontecer. Parecia que ele não era capaz de respirar ou de raciocinar, então, sem pensar, segurou a mão dela, só para sentir que ela realmente estava ali.
Então um dia se passou.
Dois.
Três.
Até ele finalmente parar de contar. Newt tinha dito que ela ia ficar bem, que só precisavam ter um pouco de paciência. A febre dela era resultado da infecção que ele ainda estava tratando, mas o ferimento estava começando a curar. E os delírios eram resultados da febre. Ele tentou continuar trabalhando normalmente e, ao final da noite, sempre voltava, esperando que seu irmão mais novo comunicasse alguma notícia nova.
— A febre melhorou — Newt disse naquela noite.
E era a única coisa que a esperança de Theseus podia se contentar por ora.
Quando acordou, ela demorou quase um minuto inteiro para se dar conta de onde estava, sem reconhecer o quarto. A ausência do calor contra a sua mão a incomodou, mas pensou, por um instante, que a sensação daquilo fosse apenas algo que vivenciou em um sonho que teve, pois não havia ninguém ali no momento. Devagar, olhou ao redor, a memória surgindo aos poucos; do sangue do machucado nas mãos até o momento em que perdeu a consciência em cima de Newt.
Newt.
Tentou levantar, mas a rapidez com que operou o movimento a fez sentir uma pontada no local da ferida. Ela respirou fundo e esperou um pouco, mas, teimosa como era, insistiu em tentar se levantar de novo, dessa vez devagar. Empurrou uma perna após a outra para os pés alcançarem o chão e fez uma careta pela dor. O local da ferida latejava, mas não a impediu de nada.
Ainda sentada contra a cama, olhou ao redor. O quarto era simples, sem decoração, apenas uma cama e uma pequena cômoda, com vários frascos e itens de primeiros socorros espalhados, o cheiro de algo impregnado no ar. Havia apenas um quadro com uma pintura abstrata pendurada do lado da cama, sendo o único item de decoração presente, as paredes revelando uma cor clara e simples.
Não havia nada pessoal ali. Nada que indicasse a personalidade de Newt.
Então levantou, devagar, dando o primeiro passo. Ao alcançar o corredor, sentiu cheiro de chá e continuou o caminho, até conseguir chegar ao cômodo principal, que ligava a sala à cozinha. Ali, ela viu Newt mexer a xícara de chá, que não tinha percebido a presença dela. Pretendia se anunciar no próximo segundo, quando foi interrompida ao esbarrar em algo jogado no chão, o barulho do seu gemido de dor ecoando pelo cômodo, atraindo a atenção do lufano.
— ! — exclamou, a expressão denunciando que ele não aprovava ela ter se levantado sozinha. — Você não devia ter saído da cama assim. O ferimento ainda não…
— Eu tô bem, Newt.
Ela observou a expressão perturbada dele.
— “Bem” dentro de quais termos? — ele retrucou, se aproximando dela o suficiente para ajudá-la a se sentar na cadeira da mesa da cozinha. — Nunca vou me acostumar com a sua teimosia Black.
Ele não era muito bom em dar bronca, isso ela tinha percebido há muito tempo, quando ainda eram estudantes de Hogwarts. Ele se importava de uma maneira diferente do que a maioria das pessoas e qualquer um que o conhecesse também perceberia que ele era melhor lidando com suas pequenas criaturas mágicas e estranhas do que com os humanos — fato esse que corroborou para a sua expulsão de Hogwarts —, mas ela reconhecia quando ele estava tentando lhe dar uma bronca.
Ignorando qualquer pontada de dor, abriu um sorriso pra ele, a pele ainda pálida, a sensação de fraqueza parecendo incapaz de abandoná-la.
— É bom te ver também, Newt — disse, encarando-o. — Desculpa se te assustei. Eu só… não sabia mais para onde ir.
Isso o desarmou. Ele desviou o olhar, o rosto parcialmente virado para o outro lado e sentou-se de frente para ela, despejando o conteúdo do chá em outra xícara. Ela aceitou, absorvendo o cheiro, e olhou ao redor. Não havia muita decoração ali também, tudo era muito simples.
— O que aconteceu? — Newt indagou. — Seu ferimento não foi causado por um humano. Nem por um bruxo.
Ela tentou lembrar de todos os detalhes que conseguisse, mas as memórias eram um borrão. Conseguia lembrar-se dos gritos e do cheiro de algo que não sabia identificar, mas era forte o suficiente para deixá-la enjoada. Bebeu um gole do chá e soltou um suspiro.
— Deveria ser só uma reunião — ela começou a dizer o que conseguia, dado o contexto. — Dumbledore me enviou nessa missão em que o objetivo era apenas conseguir informações sobre o que os seguidores de Grindelwald estavam planejando. Sendo uma Black, não foi tão difícil me inserir no meio deles, fingindo ser só mais uma seguidora.
Newt ficou em silêncio, ouvindo atento.
— Mas, em algum momento enquanto a reunião acontecia, alguma coisa deu errado — continuou. — Não me lembro de muita coisa, mas todo mundo se dispersou, começaram a aparatar, havia gritos e eu não conseguia enxergar muita coisa, nublada pela névoa que vinha de algum lugar. Mas fui atacada por algo… Newt, eu nunca vi aquele animal em lugar nenhum. Aquela coisa…
— Vespertilho-de-Véu — Newt informou.
terminou de beber um gole quente do chá e o encarou. Ele ainda a olhava meio de lado.
— O quê?
— O animal que te atacou é um Vespertilho-de-Véu — explicou; claro que ele saberia o que aquela coisa era. Por mais que soubesse sobre algumas criaturas, ela não as estudava como o lufano. — A névoa provavelmente foi uma substância que ele soltou. Só é estranho que os Vespertilho-de-Véu não costumam ser agressivos.
Havia uma ruga de concentração no meio da testa dele, algo que só revelava quando ele estava pensando sobre o assunto.
— Nada naquela reunião foi normal — murmurou.
Seu ferimento também deveria ter sido superficial, mas isso não aconteceu. Ela ainda sentia a ardência e a dor, mas agora estava bem mais suportável do que antes. Não tinha a menor ideia de como conseguiu chegar até ali, mas ficou feliz de tê-la feito, pois não havia ninguém melhor para salvá-la de um ferimento causado por uma criatura mágica do que o seu melhor amigo.
Teve sorte de não estar morta.
Ela deixou a xícara de lado e colocou a mão por cima do pulso dele, de maneira delicada.
— Obrigada por salvar minha vida — a corvina disse. — Acho que te devo essa.
Pela primeira vez, o lufano sorriu e olhou para ela, as bochechas quase coradas.
— Não, — disse. — Eu sempre vou passar a vida retribuindo todas as vezes que você me salvou em Hogwarts.
Um sorriso melancólico brilhou no rosto dela; afastou sua mão do pulso dele antes que ele pudesse ficar desconfortável com o toque físico.
— Não salvei o suficiente — murmurou. — Não pude impedir sua expulsão.
— Você não teria impedido — ele concordou, um fato que era incontestável. — Algo que Dumbledore não impediu de acontecer, uma Black não iria.
O sorriso melancólico deu lugar a um convencido.
— Não tem como você saber disso.
Newt apenas balançou a cabeça de leve. De algum jeito, ele realmente acreditava quando ela dizia aquilo, afinal de contas, estavam falando de Black, uma corvina que, ele não entendia como, estava disposta a levar toda a culpa por ele, não importava qual fosse a situação. Ter ficado sem seu irmão e sem ela no castelo deixou a sua vida um pouco complicada, mas não completamente. Ele ainda teve a Leta Lestrange por mais um tempo.
Leta.
Que não estava mais ali.
— Dumbledore soube o que aconteceu com você — ele tornou a dizer, tentando se livrar dos pensamentos melancólicos que estavam surgindo sobre a sonserina. — Darei um jeito de avisar que você acordou.
Ela assentiu, concordando.
Mas antes que Newt pudesse se levantar e concluir a sua recém tarefa, foi interrompido por uma voz conhecida entrando na sala.
— Newt. — congelou ao reconhecer a voz. — Irmão, você não…
Theseus parou no meio do caminho quando seus olhos pousaram na corvina. O coração do lufano mais velho disparou, sua expressão indecifrável, mas o alívio correu livre por seu sangue ao perceber que ela estava bem. Acordada. Viva.
engoliu a seco. Fazia muito tempo que não o encontrava tão de perto. Sempre que o via, assegurava-se de estar longe o suficiente, mas não teve chance de fazer aquilo ali. Ela sequer conseguiu sentir raiva de Newt por ter avisado ao irmão.
O silêncio reinou. Newt não sabia bem o que fazer, assistindo os dois se encararem como se estivessem compartilhando uma vida de memórias. Ele assistiu de perto como o irmão ficou perturbado quando soube o que tinha acontecido com ela. Tendo perdido a Leta, não imaginou como ficou a cabeça do mais velho ao ver adormecida na cama.
Ele pensou que fosse ser o responsável por quebrar o silêncio, mas isso não aconteceu, porque se adiantou primeiro. A voz dela mal saiu quando finalmente disse:
— Oi, Tes.
não conseguia abrir os olhos por completo e murmurava palavras desconexas que ninguém entendia muito bem, voltando a perder a consciência logo em seguida, mas sem nunca esquecer, inconscientemente, do calor de uma mão contra a sua, como se aquela sensação fosse familiar.
Depois de ter chegado ao local onde Newt estava hospedado, ele cuidou de seu ferimento e a colocou deitada na cama. Theseus apareceu um tempo depois, com uma expressão um pouco atordoada, como se não soubesse muito bem o que sentir. Ele se assustou ao ver o rosto pálido de ; não sabia a intensidade do medo que sentia até vê-la ali, inconsciente, indefesa, e pensou que ela quase morreu.
Quase.
O pensamento em si o assustava por completo. Perder Leta foi uma coisa; ele sentiu todo o processo doloroso do luto em si e ainda não parecia real que ela realmente se foi, mas a ideia de perder era diferente. Seu corpo inteiro tensionava só com a ideia daquilo acontecer. Parecia que ele não era capaz de respirar ou de raciocinar, então, sem pensar, segurou a mão dela, só para sentir que ela realmente estava ali.
Então um dia se passou.
Dois.
Três.
Até ele finalmente parar de contar. Newt tinha dito que ela ia ficar bem, que só precisavam ter um pouco de paciência. A febre dela era resultado da infecção que ele ainda estava tratando, mas o ferimento estava começando a curar. E os delírios eram resultados da febre. Ele tentou continuar trabalhando normalmente e, ao final da noite, sempre voltava, esperando que seu irmão mais novo comunicasse alguma notícia nova.
— A febre melhorou — Newt disse naquela noite.
E era a única coisa que a esperança de Theseus podia se contentar por ora.
Quando acordou, ela demorou quase um minuto inteiro para se dar conta de onde estava, sem reconhecer o quarto. A ausência do calor contra a sua mão a incomodou, mas pensou, por um instante, que a sensação daquilo fosse apenas algo que vivenciou em um sonho que teve, pois não havia ninguém ali no momento. Devagar, olhou ao redor, a memória surgindo aos poucos; do sangue do machucado nas mãos até o momento em que perdeu a consciência em cima de Newt.
Newt.
Tentou levantar, mas a rapidez com que operou o movimento a fez sentir uma pontada no local da ferida. Ela respirou fundo e esperou um pouco, mas, teimosa como era, insistiu em tentar se levantar de novo, dessa vez devagar. Empurrou uma perna após a outra para os pés alcançarem o chão e fez uma careta pela dor. O local da ferida latejava, mas não a impediu de nada.
Ainda sentada contra a cama, olhou ao redor. O quarto era simples, sem decoração, apenas uma cama e uma pequena cômoda, com vários frascos e itens de primeiros socorros espalhados, o cheiro de algo impregnado no ar. Havia apenas um quadro com uma pintura abstrata pendurada do lado da cama, sendo o único item de decoração presente, as paredes revelando uma cor clara e simples.
Não havia nada pessoal ali. Nada que indicasse a personalidade de Newt.
Então levantou, devagar, dando o primeiro passo. Ao alcançar o corredor, sentiu cheiro de chá e continuou o caminho, até conseguir chegar ao cômodo principal, que ligava a sala à cozinha. Ali, ela viu Newt mexer a xícara de chá, que não tinha percebido a presença dela. Pretendia se anunciar no próximo segundo, quando foi interrompida ao esbarrar em algo jogado no chão, o barulho do seu gemido de dor ecoando pelo cômodo, atraindo a atenção do lufano.
— ! — exclamou, a expressão denunciando que ele não aprovava ela ter se levantado sozinha. — Você não devia ter saído da cama assim. O ferimento ainda não…
— Eu tô bem, Newt.
Ela observou a expressão perturbada dele.
— “Bem” dentro de quais termos? — ele retrucou, se aproximando dela o suficiente para ajudá-la a se sentar na cadeira da mesa da cozinha. — Nunca vou me acostumar com a sua teimosia Black.
Ele não era muito bom em dar bronca, isso ela tinha percebido há muito tempo, quando ainda eram estudantes de Hogwarts. Ele se importava de uma maneira diferente do que a maioria das pessoas e qualquer um que o conhecesse também perceberia que ele era melhor lidando com suas pequenas criaturas mágicas e estranhas do que com os humanos — fato esse que corroborou para a sua expulsão de Hogwarts —, mas ela reconhecia quando ele estava tentando lhe dar uma bronca.
Ignorando qualquer pontada de dor, abriu um sorriso pra ele, a pele ainda pálida, a sensação de fraqueza parecendo incapaz de abandoná-la.
— É bom te ver também, Newt — disse, encarando-o. — Desculpa se te assustei. Eu só… não sabia mais para onde ir.
Isso o desarmou. Ele desviou o olhar, o rosto parcialmente virado para o outro lado e sentou-se de frente para ela, despejando o conteúdo do chá em outra xícara. Ela aceitou, absorvendo o cheiro, e olhou ao redor. Não havia muita decoração ali também, tudo era muito simples.
— O que aconteceu? — Newt indagou. — Seu ferimento não foi causado por um humano. Nem por um bruxo.
Ela tentou lembrar de todos os detalhes que conseguisse, mas as memórias eram um borrão. Conseguia lembrar-se dos gritos e do cheiro de algo que não sabia identificar, mas era forte o suficiente para deixá-la enjoada. Bebeu um gole do chá e soltou um suspiro.
— Deveria ser só uma reunião — ela começou a dizer o que conseguia, dado o contexto. — Dumbledore me enviou nessa missão em que o objetivo era apenas conseguir informações sobre o que os seguidores de Grindelwald estavam planejando. Sendo uma Black, não foi tão difícil me inserir no meio deles, fingindo ser só mais uma seguidora.
Newt ficou em silêncio, ouvindo atento.
— Mas, em algum momento enquanto a reunião acontecia, alguma coisa deu errado — continuou. — Não me lembro de muita coisa, mas todo mundo se dispersou, começaram a aparatar, havia gritos e eu não conseguia enxergar muita coisa, nublada pela névoa que vinha de algum lugar. Mas fui atacada por algo… Newt, eu nunca vi aquele animal em lugar nenhum. Aquela coisa…
— Vespertilho-de-Véu — Newt informou.
terminou de beber um gole quente do chá e o encarou. Ele ainda a olhava meio de lado.
— O quê?
— O animal que te atacou é um Vespertilho-de-Véu — explicou; claro que ele saberia o que aquela coisa era. Por mais que soubesse sobre algumas criaturas, ela não as estudava como o lufano. — A névoa provavelmente foi uma substância que ele soltou. Só é estranho que os Vespertilho-de-Véu não costumam ser agressivos.
Havia uma ruga de concentração no meio da testa dele, algo que só revelava quando ele estava pensando sobre o assunto.
— Nada naquela reunião foi normal — murmurou.
Seu ferimento também deveria ter sido superficial, mas isso não aconteceu. Ela ainda sentia a ardência e a dor, mas agora estava bem mais suportável do que antes. Não tinha a menor ideia de como conseguiu chegar até ali, mas ficou feliz de tê-la feito, pois não havia ninguém melhor para salvá-la de um ferimento causado por uma criatura mágica do que o seu melhor amigo.
Teve sorte de não estar morta.
Ela deixou a xícara de lado e colocou a mão por cima do pulso dele, de maneira delicada.
— Obrigada por salvar minha vida — a corvina disse. — Acho que te devo essa.
Pela primeira vez, o lufano sorriu e olhou para ela, as bochechas quase coradas.
— Não, — disse. — Eu sempre vou passar a vida retribuindo todas as vezes que você me salvou em Hogwarts.
Um sorriso melancólico brilhou no rosto dela; afastou sua mão do pulso dele antes que ele pudesse ficar desconfortável com o toque físico.
— Não salvei o suficiente — murmurou. — Não pude impedir sua expulsão.
— Você não teria impedido — ele concordou, um fato que era incontestável. — Algo que Dumbledore não impediu de acontecer, uma Black não iria.
O sorriso melancólico deu lugar a um convencido.
— Não tem como você saber disso.
Newt apenas balançou a cabeça de leve. De algum jeito, ele realmente acreditava quando ela dizia aquilo, afinal de contas, estavam falando de Black, uma corvina que, ele não entendia como, estava disposta a levar toda a culpa por ele, não importava qual fosse a situação. Ter ficado sem seu irmão e sem ela no castelo deixou a sua vida um pouco complicada, mas não completamente. Ele ainda teve a Leta Lestrange por mais um tempo.
Leta.
Que não estava mais ali.
— Dumbledore soube o que aconteceu com você — ele tornou a dizer, tentando se livrar dos pensamentos melancólicos que estavam surgindo sobre a sonserina. — Darei um jeito de avisar que você acordou.
Ela assentiu, concordando.
Mas antes que Newt pudesse se levantar e concluir a sua recém tarefa, foi interrompido por uma voz conhecida entrando na sala.
— Newt. — congelou ao reconhecer a voz. — Irmão, você não…
Theseus parou no meio do caminho quando seus olhos pousaram na corvina. O coração do lufano mais velho disparou, sua expressão indecifrável, mas o alívio correu livre por seu sangue ao perceber que ela estava bem. Acordada. Viva.
engoliu a seco. Fazia muito tempo que não o encontrava tão de perto. Sempre que o via, assegurava-se de estar longe o suficiente, mas não teve chance de fazer aquilo ali. Ela sequer conseguiu sentir raiva de Newt por ter avisado ao irmão.
O silêncio reinou. Newt não sabia bem o que fazer, assistindo os dois se encararem como se estivessem compartilhando uma vida de memórias. Ele assistiu de perto como o irmão ficou perturbado quando soube o que tinha acontecido com ela. Tendo perdido a Leta, não imaginou como ficou a cabeça do mais velho ao ver adormecida na cama.
Ele pensou que fosse ser o responsável por quebrar o silêncio, mas isso não aconteceu, porque se adiantou primeiro. A voz dela mal saiu quando finalmente disse:
— Oi, Tes.
PARTE DOIS
— I tudo o que você quer de mim
é a luz verde do perdão
você ainda não conhece minha nova eu
mas eu acho que ela te dará isso
é a luz verde do perdão
você ainda não conhece minha nova eu
mas eu acho que ela te dará isso
O APELIDO SAIU sem querer.
Theseus sentiu como se tivesse sido transportado para aquele verão, em que ele esperou pacientemente que ela começasse a chamá-lo daquela forma, abandonando o ‘Scamander’ que sempre utilizava para se referir a ele. Não conseguiu, desde que entrou e pousou os olhos nela, desviar o olhar.
Ela estava bem ali.
Bem perto, algo que jamais esteve desde que foram embora de Hogwarts alguns anos antes. Conseguia saber notícias dela através de Newt, mesmo que nunca perguntasse diretamente. Ele ainda estava processando a voz dela chamando-o de Tes de novo. Não sabia dizer quanto tempo o silêncio durou ali naquele pequeno instante, mas Newt não aguentava nem mais um segundo no meio daquilo, sentindo-se um intruso interrompendo algo.
Ele se moveu, com intenção de sair.
— Eu vou ver os animais — anunciou, mas teve a impressão que nenhum dos dois presentes ali prestou atenção ao que ele disse.
Saiu mesmo assim, deixando-os sozinhos.
, finalmente parecendo sair de um transe, engoliu a seco ao assistir Newt se afastando, o lufano mais velho ainda parado no mesmo lugar, sem saber o que dizer. Theseus sempre esperou que aquele momento acontecesse algum dia. Achou sensato ensaiar o que falar, mas nada lhe veio à mente. Mesmo quando estava com Leta, seu coração sempre foi dividido.
Como alguém podia disputar com o primeiro amor?
— .
O nome dela saiu da sua boca sem que pensasse, quando pensou que não ia conseguir dizer nada além disso.
A corvina respirou fundo e olhou pra ele.
— Você vai ficar parado aí? — ela indagou, a voz um pouco mais firme do que quando disse o apelido dele.
Theseus conteve um sorriso. Deu alguns passos até chegar à mesa e sentou-se no lugar que Newt estava antes, ficando de frente para ela. Ele pousou um braço sobre a mesa e encarou.
— Achei que ia me evitar pra sempre.
A corvina mordeu o lábio, movimentando a cabeça de maneira quase imperceptível.
— Bem…, — ela o encarou de volta — ninguém pode dizer que eu não tentei.
E ela tentou mesmo.
Sempre pensou que quando o reencontrasse daquela maneira, estando frente a frente com ele, sentiria raiva. Mágoa. Alguma coisa desse tipo. Ainda se lembrava da última vez que tinham se falado e depois do silêncio. Como se ela fosse apenas uma coisinha simples de ser deixada de lado. Por muito tempo, sentiu-se insuficiente. Entendia que realmente, talvez, pudessem não ter dado certo, mas que ao menos tivessem conversado sobre isso. O que nunca aconteceu.
E, naquele momento, não sentia raiva. Não podia dizer o mesmo da mágoa.
— Você me assustou — ele sussurrou, encostando-se contra a cadeira.
piscou.
— Assustei?
Theseus esfregou uma parte do rosto. O sobretudo de cor escura combinava bem com ele. Ela reparou que o cabelo estava um pouco maior do que da última vez que se lembrava, reparando nas linhas sutis abaixo dos olhos, provando que o tempo tinha passado. O ar de inocência que se provou presente naquele verão não existia mais. Ao invés disso, a intensidade do que ele sentia nunca foi embora, estando só um pouco mais contido sobre suas emoções.
— Quando o Newt conseguiu entrar em contato comigo e me avisou que você tinha se machucado… — ele começou a falar, as palavras se perdendo no caminho, os olhos movendo-se para enxergar qualquer coisa que não fosse ela na sua frente. — Pensei o pior. Pensei…
sabia o que ele pensou, mesmo que não tivesse completado a frase, como se nunca tivesse deixado de conhecê-lo. Os dois eram adultos agora, não eram mais aqueles dois adolescentes vivendo beijos roubados pelos corredores de Hogwarts. Muita coisa tinha mudado naqueles anos posteriores, eles principalmente. Podia conhecê-lo, ao mesmo tempo que não sabia quem era aquela versão dele. A nova. Que estava bem na sua frente.
— Eu sinto muito pela Leta.
Ela realmente sentia.
De algum jeito, nunca se deu muito bem com a Lestrange, mas isso não significava que desejava a sua morte, muito pelo contrário, lamentava que o pior tenha acontecido. Ela estava do outro lado do mundo, lutando outra batalha da guerra, mas todo mundo soube o que aconteceu. As consequências que tinham ficado.
Theseus piscou, parecendo surpreso.
Todos aqueles anos, ele nunca ficou tão perto dela daquela forma. Depois de tudo o que tinha acontecido, pareceu a coisa certa seguir em frente e, naquele meio tempo, se aproximou da Leta. Ficou noivo dela. Ele nunca saberia se as coisas teriam dado certo ou se tomou a decisão certa. Só sabia que, naquele instante, ele não era ele mesmo. Suas emoções eram um emaranhado e não estava melhorando com se machucando por aí.
— Eu… — ele tentou dizer algo, balançando a cabeça, sem saber direito o quê.
Seus olhos claros se fixaram na corvina e, de repente, ele se levantou, virando as costas.
Levou uma mão à boca, vulnerável.
Odiava se sentir daquela forma. Newt sempre foi mais sensível do que ele, mas ele era sempre o mais intenso. O irmão mais novo sentia as coisas de sua própria forma e Theseus aprendeu isso, mas ele era diferente.
— Não foi culpa sua — de repente disse. — Sabe disso, não sabe?
Ela não tinha percebido de imediato que ele sentia culpa pela morte da Leta, mas não havia como não perceber. Sua reação tinha entregado praticamente tudo e ele não sabia nem o que dizer quando ela lamentou a morte da sonserina. Theseus piscou os olhos, afastando qualquer resquício de lágrima, virando-se novamente para encarar , que parecia enxergá-lo por inteiro.
— Eu só tinha que protegê-la.
Homem tolo. Claro que ele carregaria aquele tipo de fardo.
— Não poderia protegê-la da própria escolha — retrucou, amenizando o tom de voz. — De alguma forma, ela salvou vocês.
— E a troco de quê? — ele rebateu de volta, um pouco bravo, mas não com ela. — Não estamos nem perto de vencer Grindelwald e essa guerra estúpida também quase me fez perder você.
O lufano perdeu o fôlego.
tentou processar aquelas últimas palavras, seu coração inquieto em sua caixa torácica, como se todo o passado viesse à tona, como se estivesse correndo por aqueles corredores, o som de risadas se misturando e ecoando enquanto os fantasmas passavam por eles resmungando coisas incompreensíveis e o mundo não era mais nada do que só a presença dos dois.
Ela se lembrava de ter perguntado a ele se era um erro se apaixonar. A resposta nunca foi dita em voz alta, mas ela acreditou por muito tempo que fosse sim.
— Me perder não teria sido o mesmo peso para você do que está sendo ter perdido a Leta — ela finalmente disse alguma coisa. — Não vamos começar isso aqui fingindo.
O lufano balançou a cabeça, descrente.
— Fingindo? — ecoou. — , você não tem ideia…
— Você me deixou! — ela interrompeu-o, levantando-se tão bruscamente que sentiu a pontada de dor novamente. Ignorou, obrigando-se a ficar de pé e manter os olhos nele. — Você deixou que eu me apaixonasse por você só para depois agir como se eu não fosse nada.
— Você era tudo!
deixou escapar uma risada quase amarga, como se não acreditasse nas palavras dele.
— Uau, que jeito estranho você tinha de demonstrar isso.
As coisas eram complicadas, ela pensou.
Dividia-se entre aceitar o que aconteceu e a mágoa que ficou, mesmo tentando, a todo custo, livrar-se dela. Não queria remoer aquilo para sempre; sentiu-se completamente tola quando o viu com Leta, seguindo em frente, enquanto parecia nunca conseguir esquecê-lo.
Theseus soltou um suspiro. Sua expressão era de um homem abatido agora, cansado de perder as batalhas de todas as guerras. Era difícil se sentir como um homem vitorioso.
— , eu reconheço que as coisas poderiam ter terminado de outra forma — ele começou a dizer, a voz quase baixa. — Mas minhas decisões fizeram sentido naquela época. Eu aceitei todas as consequências. Meu único arrependimento foi ter te magoado, quando essa nunca foi a minha intenção.
Ela sustentou o olhar dele por alguns segundos. Sentia-se cansada, mas não era um cansaço normal e nem físico.
— Depois de um tempo, quando eu soube que você tinha ido para a guerra, tentei entender o seu lado, os seus motivos — ela começou a falar, respirando devagar. — Mas eu não conseguia. Quer dizer, sim, sua decisão fez sentido para você, mas não fez para mim. Porque eu nunca participei dessa decisão. — Balançou a cabeça, crispando os lábios, sem nunca tirar os olhos dele. — Você tirou de mim o direito de te escolher.
Theseus não saberia explicar como era a sensação do seu próprio coração rasgando dentro do seu peito. Ele não soube nem mesmo o que dizer, a garganta seca, os olhos presos nela, incapaz de suportar a feição melancólica que cobria o rosto dela, o mesmo fantasma da mágoa que enxergou nos olhos da corvina anos antes.
Mas, mesmo que soubesse o que dizer, não lhe deu uma chance. Ele só assistiu ela sair, deixando-a se afastar mais uma vez, sumindo do seu campo de visão, sem nem mesmo ter visto as lágrimas que molharam as bochechas dela, ainda que ela tivesse limpado rapidamente. O lufano se conteve em ir atrás dela. Tanto quanto ela, talvez precisasse de um tempo agora.
Porque ela estava certa. Ele tinha mesmo feito aquilo.
E nunca deixou de carregar o peso de sua própria decisão. Porque significou tê-la perdido.
Theseus sentiu como se tivesse sido transportado para aquele verão, em que ele esperou pacientemente que ela começasse a chamá-lo daquela forma, abandonando o ‘Scamander’ que sempre utilizava para se referir a ele. Não conseguiu, desde que entrou e pousou os olhos nela, desviar o olhar.
Ela estava bem ali.
Bem perto, algo que jamais esteve desde que foram embora de Hogwarts alguns anos antes. Conseguia saber notícias dela através de Newt, mesmo que nunca perguntasse diretamente. Ele ainda estava processando a voz dela chamando-o de Tes de novo. Não sabia dizer quanto tempo o silêncio durou ali naquele pequeno instante, mas Newt não aguentava nem mais um segundo no meio daquilo, sentindo-se um intruso interrompendo algo.
Ele se moveu, com intenção de sair.
— Eu vou ver os animais — anunciou, mas teve a impressão que nenhum dos dois presentes ali prestou atenção ao que ele disse.
Saiu mesmo assim, deixando-os sozinhos.
, finalmente parecendo sair de um transe, engoliu a seco ao assistir Newt se afastando, o lufano mais velho ainda parado no mesmo lugar, sem saber o que dizer. Theseus sempre esperou que aquele momento acontecesse algum dia. Achou sensato ensaiar o que falar, mas nada lhe veio à mente. Mesmo quando estava com Leta, seu coração sempre foi dividido.
Como alguém podia disputar com o primeiro amor?
— .
O nome dela saiu da sua boca sem que pensasse, quando pensou que não ia conseguir dizer nada além disso.
A corvina respirou fundo e olhou pra ele.
— Você vai ficar parado aí? — ela indagou, a voz um pouco mais firme do que quando disse o apelido dele.
Theseus conteve um sorriso. Deu alguns passos até chegar à mesa e sentou-se no lugar que Newt estava antes, ficando de frente para ela. Ele pousou um braço sobre a mesa e encarou.
— Achei que ia me evitar pra sempre.
A corvina mordeu o lábio, movimentando a cabeça de maneira quase imperceptível.
— Bem…, — ela o encarou de volta — ninguém pode dizer que eu não tentei.
E ela tentou mesmo.
Sempre pensou que quando o reencontrasse daquela maneira, estando frente a frente com ele, sentiria raiva. Mágoa. Alguma coisa desse tipo. Ainda se lembrava da última vez que tinham se falado e depois do silêncio. Como se ela fosse apenas uma coisinha simples de ser deixada de lado. Por muito tempo, sentiu-se insuficiente. Entendia que realmente, talvez, pudessem não ter dado certo, mas que ao menos tivessem conversado sobre isso. O que nunca aconteceu.
E, naquele momento, não sentia raiva. Não podia dizer o mesmo da mágoa.
— Você me assustou — ele sussurrou, encostando-se contra a cadeira.
piscou.
— Assustei?
Theseus esfregou uma parte do rosto. O sobretudo de cor escura combinava bem com ele. Ela reparou que o cabelo estava um pouco maior do que da última vez que se lembrava, reparando nas linhas sutis abaixo dos olhos, provando que o tempo tinha passado. O ar de inocência que se provou presente naquele verão não existia mais. Ao invés disso, a intensidade do que ele sentia nunca foi embora, estando só um pouco mais contido sobre suas emoções.
— Quando o Newt conseguiu entrar em contato comigo e me avisou que você tinha se machucado… — ele começou a falar, as palavras se perdendo no caminho, os olhos movendo-se para enxergar qualquer coisa que não fosse ela na sua frente. — Pensei o pior. Pensei…
sabia o que ele pensou, mesmo que não tivesse completado a frase, como se nunca tivesse deixado de conhecê-lo. Os dois eram adultos agora, não eram mais aqueles dois adolescentes vivendo beijos roubados pelos corredores de Hogwarts. Muita coisa tinha mudado naqueles anos posteriores, eles principalmente. Podia conhecê-lo, ao mesmo tempo que não sabia quem era aquela versão dele. A nova. Que estava bem na sua frente.
— Eu sinto muito pela Leta.
Ela realmente sentia.
De algum jeito, nunca se deu muito bem com a Lestrange, mas isso não significava que desejava a sua morte, muito pelo contrário, lamentava que o pior tenha acontecido. Ela estava do outro lado do mundo, lutando outra batalha da guerra, mas todo mundo soube o que aconteceu. As consequências que tinham ficado.
Theseus piscou, parecendo surpreso.
Todos aqueles anos, ele nunca ficou tão perto dela daquela forma. Depois de tudo o que tinha acontecido, pareceu a coisa certa seguir em frente e, naquele meio tempo, se aproximou da Leta. Ficou noivo dela. Ele nunca saberia se as coisas teriam dado certo ou se tomou a decisão certa. Só sabia que, naquele instante, ele não era ele mesmo. Suas emoções eram um emaranhado e não estava melhorando com se machucando por aí.
— Eu… — ele tentou dizer algo, balançando a cabeça, sem saber direito o quê.
Seus olhos claros se fixaram na corvina e, de repente, ele se levantou, virando as costas.
Levou uma mão à boca, vulnerável.
Odiava se sentir daquela forma. Newt sempre foi mais sensível do que ele, mas ele era sempre o mais intenso. O irmão mais novo sentia as coisas de sua própria forma e Theseus aprendeu isso, mas ele era diferente.
— Não foi culpa sua — de repente disse. — Sabe disso, não sabe?
Ela não tinha percebido de imediato que ele sentia culpa pela morte da Leta, mas não havia como não perceber. Sua reação tinha entregado praticamente tudo e ele não sabia nem o que dizer quando ela lamentou a morte da sonserina. Theseus piscou os olhos, afastando qualquer resquício de lágrima, virando-se novamente para encarar , que parecia enxergá-lo por inteiro.
— Eu só tinha que protegê-la.
Homem tolo. Claro que ele carregaria aquele tipo de fardo.
— Não poderia protegê-la da própria escolha — retrucou, amenizando o tom de voz. — De alguma forma, ela salvou vocês.
— E a troco de quê? — ele rebateu de volta, um pouco bravo, mas não com ela. — Não estamos nem perto de vencer Grindelwald e essa guerra estúpida também quase me fez perder você.
O lufano perdeu o fôlego.
tentou processar aquelas últimas palavras, seu coração inquieto em sua caixa torácica, como se todo o passado viesse à tona, como se estivesse correndo por aqueles corredores, o som de risadas se misturando e ecoando enquanto os fantasmas passavam por eles resmungando coisas incompreensíveis e o mundo não era mais nada do que só a presença dos dois.
Ela se lembrava de ter perguntado a ele se era um erro se apaixonar. A resposta nunca foi dita em voz alta, mas ela acreditou por muito tempo que fosse sim.
— Me perder não teria sido o mesmo peso para você do que está sendo ter perdido a Leta — ela finalmente disse alguma coisa. — Não vamos começar isso aqui fingindo.
O lufano balançou a cabeça, descrente.
— Fingindo? — ecoou. — , você não tem ideia…
— Você me deixou! — ela interrompeu-o, levantando-se tão bruscamente que sentiu a pontada de dor novamente. Ignorou, obrigando-se a ficar de pé e manter os olhos nele. — Você deixou que eu me apaixonasse por você só para depois agir como se eu não fosse nada.
— Você era tudo!
deixou escapar uma risada quase amarga, como se não acreditasse nas palavras dele.
— Uau, que jeito estranho você tinha de demonstrar isso.
As coisas eram complicadas, ela pensou.
Dividia-se entre aceitar o que aconteceu e a mágoa que ficou, mesmo tentando, a todo custo, livrar-se dela. Não queria remoer aquilo para sempre; sentiu-se completamente tola quando o viu com Leta, seguindo em frente, enquanto parecia nunca conseguir esquecê-lo.
Theseus soltou um suspiro. Sua expressão era de um homem abatido agora, cansado de perder as batalhas de todas as guerras. Era difícil se sentir como um homem vitorioso.
— , eu reconheço que as coisas poderiam ter terminado de outra forma — ele começou a dizer, a voz quase baixa. — Mas minhas decisões fizeram sentido naquela época. Eu aceitei todas as consequências. Meu único arrependimento foi ter te magoado, quando essa nunca foi a minha intenção.
Ela sustentou o olhar dele por alguns segundos. Sentia-se cansada, mas não era um cansaço normal e nem físico.
— Depois de um tempo, quando eu soube que você tinha ido para a guerra, tentei entender o seu lado, os seus motivos — ela começou a falar, respirando devagar. — Mas eu não conseguia. Quer dizer, sim, sua decisão fez sentido para você, mas não fez para mim. Porque eu nunca participei dessa decisão. — Balançou a cabeça, crispando os lábios, sem nunca tirar os olhos dele. — Você tirou de mim o direito de te escolher.
Theseus não saberia explicar como era a sensação do seu próprio coração rasgando dentro do seu peito. Ele não soube nem mesmo o que dizer, a garganta seca, os olhos presos nela, incapaz de suportar a feição melancólica que cobria o rosto dela, o mesmo fantasma da mágoa que enxergou nos olhos da corvina anos antes.
Mas, mesmo que soubesse o que dizer, não lhe deu uma chance. Ele só assistiu ela sair, deixando-a se afastar mais uma vez, sumindo do seu campo de visão, sem nem mesmo ter visto as lágrimas que molharam as bochechas dela, ainda que ela tivesse limpado rapidamente. O lufano se conteve em ir atrás dela. Tanto quanto ela, talvez precisasse de um tempo agora.
Porque ela estava certa. Ele tinha mesmo feito aquilo.
E nunca deixou de carregar o peso de sua própria decisão. Porque significou tê-la perdido.
PARTE TRÊS
— ninguém te ensina o que fazer
quando um bom homem te magoa
e você sabe que o magoou também
quando um bom homem te magoa
e você sabe que o magoou também
NEWT SCAMANDER continuava sendo o seu porto seguro.
Sua cabeça estava a mil, a pulsação acelerada, as emoções misturadas como em mil nós e ela não soubesse como desamarrar. Rever Theseus nunca teria sido fácil, fosse qual fosse o momento e, de algum jeito, o universo decidiu que aquele momento era bem apropriado.
Com ela ferida e vulnerável.
Com ele de luto e vulnerável.
Duas pessoas que se amaram primeiro mais do que amaram qualquer outra pessoa e agora não sabiam como se consertarem.
Talvez devesse ter esperado mais um pouco antes de tocarem naquele assunto, de visitar o passado, de entender como suas mágoas ainda ditavam algumas coisas em suas vidas. Era patético que, mesmo se envolvendo com outras pessoas, nunca deixava as coisas irem pra frente.
— Encontrei essa criatura filhote machucada no sul da Hungria — Newt começou a dizer, olhando para o pequeno dragãozinho brilhoso que estava alimentando, percebendo a presença de logo ao pé das escadas. Ela se aproximou dele devagar, prestando atenção. — Não estava procurando por ela, só precisava estar lá coletando informações sobre outra criatura.
Newt acariciou a cabeça do pequeno dragãozinho e terminou de alimentá-lo, deixando a criatura no seu próprio canto. Afastou-se com a pequena vasilha de resto de comida na mão e virou-se para a corvina.
— Devo presumir que não foi uma conversa muito boa? — arriscou.
o encarou, um sorriso melancólico nos lábios, como se fosse uma resposta que explicasse muita coisa e ele entendeu. Ela olhou ao redor; sempre se surpreendia que todo aquele lugar cabia naquela pequena mala e era assim que ela tinha dimensão das coisas que a magia poderia fazer.
— Newt — sua voz saiu mais baixa do que gostaria, mas ela lembrou-se de uma coisa que não tinha feito. — Sinto muito pela Leta.
O lufano não reagiu imediatamente. Ele andou até outra parte, oposta das escadas, e depositou a vasilha lá, começando a preparar algo que ela não sabia bem o que era.
— Ela tentou impedir que eu fosse expulso, sabia? — ele contou, de costas para ela. — Senti sua falta todos os dias desde que tinha ido embora de Hogwarts, mas a Leta foi…
Ele não conseguiu completar a frase. Ela se aproximou dele devagar e com cuidado, pousando sua mão no ombro dele em um gesto de carinho e conforto, ela quase sorriu.
— Eu sei.
Ela sabia. Mesmo que tivesse sua própria opinião sobre as coisas e sobre os Lestrange, não dava para negar a importância e o lugar que ela conquistou na vida dos Scamander. Nunca tinha trocado mais do que meia dúzia de palavras com ela, mas, ainda que a Lestrange nunca soubesse disso, sempre se sentiria grata por ela ter cuidado de Newt quando não pôde mais. Isso significava tanto pra ela quanto sabia que significava para o lufano.
— Eu… ah!
Um Pelúcia muito atrevido pulou em cima do colo dela, interrompendo o que ela ia dizer. Ela pegou a pequena criatura com um sorriso no rosto e tentou abraçá-lo, com ele farejando-a em busca de qualquer coisa que brilhasse. Ele nunca pararia de querer roubar aquelas coisas.
— Você é tão interesseiro — ela acusou.
Ele olhou para ela e pulou de volta para o chão. Quase se esquecera, naquele pequeno momento de distração, o que ia falar, mas Newt retomou o assunto de outra forma.
— Theseus te escreveu várias vezes quando estava naquela guerra dos no-maj — ele tornou a contar, ainda concentrado no que estava fazendo. franziu a testa com a informação nova. — Sempre perguntei porque ele nunca te enviou, mas ele também não tinha uma resposta.
Cartas. Ele tinha escrito cartas para ela, essas que nunca as enviou e que não tinha ideia do que estava escrito. Descobriu depois que ele tinha ido para aquela guerra, mas não havia muito o que fazer, a não ser ter aceitado que foi uma escolha dele não ter compartilhado com ela. Foi, também, quando ela passou a entender o afastamento dele pouco antes de terminarem o ano.
— Há coisas que o meu irmão faz que eu não compreendo, , isso é totalmente verdade — Newt continuou. — Theseus sempre tem os próprios motivos para fazer as coisas. Ele não te afastou porque não te amava, mas porque pensava estar te protegendo. Você sabe, guerras são instáveis.
Ela se juntou a ele em preparar a comida das criaturas, que ele estava separando. Ouvia tudo em silêncio o que ele estava contando, deixando sua cabeça ainda mais bagunçada, como se já não estivesse o bastante.
— Achei que vê-lo de novo fosse ser normal, não sei, tranquilo? — ela murmurou, finalmente. — Afinal de contas, faz tantos anos. É meio patético que eu ainda me sinta assim, como se tivesse 17 anos outra vez.
Newt a entendia, claro. Sua situação era diferente da dela, em todos os termos possíveis, mas entendia sobre como ela se sentia em relação ao seu irmão, mesmo depois de tanto tempo. Ele passou tempo suficiente viajando o mundo no meio dos no-maj, estudando todas as criaturas possíveis, tentando compreendê-las mais do que compreendia os próprios humanos. De todo modo, entendeu que emoções sempre seriam instáveis e, muitas vezes, incompreensíveis. Às vezes, uma pessoa só sentia.
— Por mais que nos diferenciamos dos no-maj pela magia, não somos muitos diferentes deles — Newt disse, parando de mexer o pote e virando-se pra ela. — O que nos torna próximos é a nossa capacidade de sentir. Não deveria invalidar isso, .
Ela engoliu a seco e olhou para o seu melhor amigo ao seu lado. Talvez fosse egoísmo pensar isso, mas sentiu tanto alívio quando soube que ele estava bem depois daquilo tudo que tinha acontecido. Não suportaria a notícia de sua morte. Ainda que, na guerra que estavam contra Grindelwald, isso fosse uma possibilidade, pedia a Merlin que, se fosse para levar Newt, que a levasse em seu lugar.
— Não acho que estou em plena capacidade mental, Newt — desabafou, frustrada. — Me sinto confusa e vulnerável e não sei o que pensar ou fazer. Talvez tenha sido um momento ruim nos reencontrar assim.
O lufano deu de ombros.
— E você acha que algum momento seria bom? — ele questionou, sem receber uma resposta em troca, então continuou. — É compreensível que se sinta assim. Você ainda está se recuperando do seu ferimento, o que me lembra de que deveria estar descansando.
Ela ignorou a última parte, quase revirando os olhos para o tom ameno de bronca dele, mesmo que estivesse certo. Deveria estar descansando e, quem sabe assim, conseguisse restaurar as próprias energias e sentir-se mais como si mesma para pensar melhor sobre as coisas. Ela parou de bater a comida no pote e acompanhou-o quando começou a andar em direção ao Occami.
— Foi você que segurou a minha mão? — perguntou, lembrando disso de repente, como se, no fundo, soubesse a resposta.
Newt apenas olhou para ela, sem verbalizar nada, e foi resposta o suficiente para ela entender que quem segurou a sua mão foi Theseus. Então não tinha sido um sonho. Ele tinha estado ali com ela, segurado a sua mão e sussurrado coisas que ela nunca saberia.
Ao lado do lufano, alimentou o Occami com cuidado, com as instruções dele. nunca se acostumaria com a capacidade de Newt de manter aquelas criaturas sob seus cuidados, sem que nenhum o atacasse. Todas as criaturas, de algum jeito que ela também não compreendia, confiava nele. E os que ainda não confiavam, Newt sempre conquistava.
Ele amava a todos, sem distinção.
— Ele ainda está lá em cima? — Newt indagou.
— Não sei.
Distraída com o Occami, ele deixou que ela terminasse de alimentar. O contato com as criaturas parecia ajudá-la e talvez fosse o que ela estava precisando. Era bom tê-la por perto de novo, apesar das circunstâncias. Ele ainda não tinha parado para pensar no que tinha acontecido, pois racionalizar que quase a perdeu depois de ter acabado de perder a Leta, o desestabilizaria, ainda que um pouco. Ele apenas obrigou-se a cuidar do ferimento dela e cuidar dela no pós-curativo, mantendo-se otimista que ela iria se recuperar.
Talvez o fato de seu irmão ter ficado mais vulnerável o obrigou a manter suas próprias emoções contidas para tranquilizá-lo sobre . Theseus quase sempre o protegia, estava acostumado a isso, então não estava acostumado quando os papéis se invertiam. Além do mais, ele precisou lidar com muitos abraços inesperados naquele meio tempo do irmão.
Nunca se acostumaria com aqueles abraços repentinos, mas jamais se oporia à necessidade do seu próprio irmão mais velho, mesmo que, nos próximos dias, ele começasse a fugir disso.
Quando terminou, ele parou. Hesitou por um instante. Não se considerava alguém capaz de dar bons conselhos, mas conhecia a corvina quase sua vida inteira e, às vezes, sabia o que dizer. Então disse:
— Diga a ele tudo o que sente. Ou que sentiu — complementou, esperando que não ficasse confuso. piscou os olhos, encarando o lufano. — Talvez não tenha o desfecho que espera ou o que queria, mas eu acho que é assim que você faz as pazes com o passado. Com a sua versão mais nova.
Ela não disse nada. Ao invés disso, refletiu as palavras do seu melhor amigo, que tinha uma visão bem mais delicada das coisas e pouco conhecimento sobre tudo o que dizia respeito à espécie humana. Mas ela se pegou sorrindo, grata e feliz por estar ali, por ter sido ele quem cuidou dela e garantiu que ela continuasse viva. se aproximou dele.
— Eu te amo, Newt.
Ele virou a cabeça um pouco para o lado, com um meio sorriso.
— É, você sabe — ele murmurou. — Eu também te amo.
Fosse qual fosse a circunstância, não importava. Se ela tinha Newt Scamander ao seu lado, tinha tudo na vida.
Sua cabeça estava a mil, a pulsação acelerada, as emoções misturadas como em mil nós e ela não soubesse como desamarrar. Rever Theseus nunca teria sido fácil, fosse qual fosse o momento e, de algum jeito, o universo decidiu que aquele momento era bem apropriado.
Com ela ferida e vulnerável.
Com ele de luto e vulnerável.
Duas pessoas que se amaram primeiro mais do que amaram qualquer outra pessoa e agora não sabiam como se consertarem.
Talvez devesse ter esperado mais um pouco antes de tocarem naquele assunto, de visitar o passado, de entender como suas mágoas ainda ditavam algumas coisas em suas vidas. Era patético que, mesmo se envolvendo com outras pessoas, nunca deixava as coisas irem pra frente.
— Encontrei essa criatura filhote machucada no sul da Hungria — Newt começou a dizer, olhando para o pequeno dragãozinho brilhoso que estava alimentando, percebendo a presença de logo ao pé das escadas. Ela se aproximou dele devagar, prestando atenção. — Não estava procurando por ela, só precisava estar lá coletando informações sobre outra criatura.
Newt acariciou a cabeça do pequeno dragãozinho e terminou de alimentá-lo, deixando a criatura no seu próprio canto. Afastou-se com a pequena vasilha de resto de comida na mão e virou-se para a corvina.
— Devo presumir que não foi uma conversa muito boa? — arriscou.
o encarou, um sorriso melancólico nos lábios, como se fosse uma resposta que explicasse muita coisa e ele entendeu. Ela olhou ao redor; sempre se surpreendia que todo aquele lugar cabia naquela pequena mala e era assim que ela tinha dimensão das coisas que a magia poderia fazer.
— Newt — sua voz saiu mais baixa do que gostaria, mas ela lembrou-se de uma coisa que não tinha feito. — Sinto muito pela Leta.
O lufano não reagiu imediatamente. Ele andou até outra parte, oposta das escadas, e depositou a vasilha lá, começando a preparar algo que ela não sabia bem o que era.
— Ela tentou impedir que eu fosse expulso, sabia? — ele contou, de costas para ela. — Senti sua falta todos os dias desde que tinha ido embora de Hogwarts, mas a Leta foi…
Ele não conseguiu completar a frase. Ela se aproximou dele devagar e com cuidado, pousando sua mão no ombro dele em um gesto de carinho e conforto, ela quase sorriu.
— Eu sei.
Ela sabia. Mesmo que tivesse sua própria opinião sobre as coisas e sobre os Lestrange, não dava para negar a importância e o lugar que ela conquistou na vida dos Scamander. Nunca tinha trocado mais do que meia dúzia de palavras com ela, mas, ainda que a Lestrange nunca soubesse disso, sempre se sentiria grata por ela ter cuidado de Newt quando não pôde mais. Isso significava tanto pra ela quanto sabia que significava para o lufano.
— Eu… ah!
Um Pelúcia muito atrevido pulou em cima do colo dela, interrompendo o que ela ia dizer. Ela pegou a pequena criatura com um sorriso no rosto e tentou abraçá-lo, com ele farejando-a em busca de qualquer coisa que brilhasse. Ele nunca pararia de querer roubar aquelas coisas.
— Você é tão interesseiro — ela acusou.
Ele olhou para ela e pulou de volta para o chão. Quase se esquecera, naquele pequeno momento de distração, o que ia falar, mas Newt retomou o assunto de outra forma.
— Theseus te escreveu várias vezes quando estava naquela guerra dos no-maj — ele tornou a contar, ainda concentrado no que estava fazendo. franziu a testa com a informação nova. — Sempre perguntei porque ele nunca te enviou, mas ele também não tinha uma resposta.
Cartas. Ele tinha escrito cartas para ela, essas que nunca as enviou e que não tinha ideia do que estava escrito. Descobriu depois que ele tinha ido para aquela guerra, mas não havia muito o que fazer, a não ser ter aceitado que foi uma escolha dele não ter compartilhado com ela. Foi, também, quando ela passou a entender o afastamento dele pouco antes de terminarem o ano.
— Há coisas que o meu irmão faz que eu não compreendo, , isso é totalmente verdade — Newt continuou. — Theseus sempre tem os próprios motivos para fazer as coisas. Ele não te afastou porque não te amava, mas porque pensava estar te protegendo. Você sabe, guerras são instáveis.
Ela se juntou a ele em preparar a comida das criaturas, que ele estava separando. Ouvia tudo em silêncio o que ele estava contando, deixando sua cabeça ainda mais bagunçada, como se já não estivesse o bastante.
— Achei que vê-lo de novo fosse ser normal, não sei, tranquilo? — ela murmurou, finalmente. — Afinal de contas, faz tantos anos. É meio patético que eu ainda me sinta assim, como se tivesse 17 anos outra vez.
Newt a entendia, claro. Sua situação era diferente da dela, em todos os termos possíveis, mas entendia sobre como ela se sentia em relação ao seu irmão, mesmo depois de tanto tempo. Ele passou tempo suficiente viajando o mundo no meio dos no-maj, estudando todas as criaturas possíveis, tentando compreendê-las mais do que compreendia os próprios humanos. De todo modo, entendeu que emoções sempre seriam instáveis e, muitas vezes, incompreensíveis. Às vezes, uma pessoa só sentia.
— Por mais que nos diferenciamos dos no-maj pela magia, não somos muitos diferentes deles — Newt disse, parando de mexer o pote e virando-se pra ela. — O que nos torna próximos é a nossa capacidade de sentir. Não deveria invalidar isso, .
Ela engoliu a seco e olhou para o seu melhor amigo ao seu lado. Talvez fosse egoísmo pensar isso, mas sentiu tanto alívio quando soube que ele estava bem depois daquilo tudo que tinha acontecido. Não suportaria a notícia de sua morte. Ainda que, na guerra que estavam contra Grindelwald, isso fosse uma possibilidade, pedia a Merlin que, se fosse para levar Newt, que a levasse em seu lugar.
— Não acho que estou em plena capacidade mental, Newt — desabafou, frustrada. — Me sinto confusa e vulnerável e não sei o que pensar ou fazer. Talvez tenha sido um momento ruim nos reencontrar assim.
O lufano deu de ombros.
— E você acha que algum momento seria bom? — ele questionou, sem receber uma resposta em troca, então continuou. — É compreensível que se sinta assim. Você ainda está se recuperando do seu ferimento, o que me lembra de que deveria estar descansando.
Ela ignorou a última parte, quase revirando os olhos para o tom ameno de bronca dele, mesmo que estivesse certo. Deveria estar descansando e, quem sabe assim, conseguisse restaurar as próprias energias e sentir-se mais como si mesma para pensar melhor sobre as coisas. Ela parou de bater a comida no pote e acompanhou-o quando começou a andar em direção ao Occami.
— Foi você que segurou a minha mão? — perguntou, lembrando disso de repente, como se, no fundo, soubesse a resposta.
Newt apenas olhou para ela, sem verbalizar nada, e foi resposta o suficiente para ela entender que quem segurou a sua mão foi Theseus. Então não tinha sido um sonho. Ele tinha estado ali com ela, segurado a sua mão e sussurrado coisas que ela nunca saberia.
Ao lado do lufano, alimentou o Occami com cuidado, com as instruções dele. nunca se acostumaria com a capacidade de Newt de manter aquelas criaturas sob seus cuidados, sem que nenhum o atacasse. Todas as criaturas, de algum jeito que ela também não compreendia, confiava nele. E os que ainda não confiavam, Newt sempre conquistava.
Ele amava a todos, sem distinção.
— Ele ainda está lá em cima? — Newt indagou.
— Não sei.
Distraída com o Occami, ele deixou que ela terminasse de alimentar. O contato com as criaturas parecia ajudá-la e talvez fosse o que ela estava precisando. Era bom tê-la por perto de novo, apesar das circunstâncias. Ele ainda não tinha parado para pensar no que tinha acontecido, pois racionalizar que quase a perdeu depois de ter acabado de perder a Leta, o desestabilizaria, ainda que um pouco. Ele apenas obrigou-se a cuidar do ferimento dela e cuidar dela no pós-curativo, mantendo-se otimista que ela iria se recuperar.
Talvez o fato de seu irmão ter ficado mais vulnerável o obrigou a manter suas próprias emoções contidas para tranquilizá-lo sobre . Theseus quase sempre o protegia, estava acostumado a isso, então não estava acostumado quando os papéis se invertiam. Além do mais, ele precisou lidar com muitos abraços inesperados naquele meio tempo do irmão.
Nunca se acostumaria com aqueles abraços repentinos, mas jamais se oporia à necessidade do seu próprio irmão mais velho, mesmo que, nos próximos dias, ele começasse a fugir disso.
Quando terminou, ele parou. Hesitou por um instante. Não se considerava alguém capaz de dar bons conselhos, mas conhecia a corvina quase sua vida inteira e, às vezes, sabia o que dizer. Então disse:
— Diga a ele tudo o que sente. Ou que sentiu — complementou, esperando que não ficasse confuso. piscou os olhos, encarando o lufano. — Talvez não tenha o desfecho que espera ou o que queria, mas eu acho que é assim que você faz as pazes com o passado. Com a sua versão mais nova.
Ela não disse nada. Ao invés disso, refletiu as palavras do seu melhor amigo, que tinha uma visão bem mais delicada das coisas e pouco conhecimento sobre tudo o que dizia respeito à espécie humana. Mas ela se pegou sorrindo, grata e feliz por estar ali, por ter sido ele quem cuidou dela e garantiu que ela continuasse viva. se aproximou dele.
— Eu te amo, Newt.
Ele virou a cabeça um pouco para o lado, com um meio sorriso.
— É, você sabe — ele murmurou. — Eu também te amo.
Fosse qual fosse a circunstância, não importava. Se ela tinha Newt Scamander ao seu lado, tinha tudo na vida.
PARTE QUATRO
— eu estava dançando quando a música parou
e na descrença
não posso encarar a reinvenção
e na descrença
não posso encarar a reinvenção
ALGUNS DIAS DEPOIS, já estava completamente recuperada do seu ferimento. Não sentia dor e nem teve mais febre, o que significava que não delirou nem mais uma vez durante seu sono. Ela continuou ali enquanto se recuperava, já que Newt muito insistiu, incapaz de deixá-la ir para qualquer lugar sozinha, não sem antes garantir que ela estivesse cem por cento recuperada.
Então finalmente permitiu que ela saísse de casa. Seguiu-o por um caminho pouco conhecido e quase escuro, sem imaginar que horas eram exatamente, mas não ligou muito. Estavam sempre atentos, desconfiados e alertas a qualquer coisa ao seu redor.
E, como ele próprio tinha avisado, encontraram Theseus na esquina seguinte, esperando por eles. Ela não tinha ideia do que Newt de para onde estavam indo, exceto que estavam indo encontrar Dumbledore. E estava muito, muito frio, chutando poeiras de neve. Theseus já tinha os olhos nela antes mesmo que ela estivesse com os olhos nele.
Desde aquele dia no apartamento de Newt, não se encontraram mais. Ele respeitou o tempo dela e ficou recebendo notícias através do irmão.
ainda pretendia conversar com ele. Não tinha gostado nem um pouco de como as coisas tinham ficado e estava na hora de começarem a parar de terminar conversas daquela maneira. Precisava que as coisas fossem resolvidas.
Newt parecia muito interessado em não olhar para nenhum dos dois. Ao invés disso, tomou a frente e continuou a andar, mas Theseus e não disseram nada. Só seguiram o mais novo.
— Suponho que não queira nos dizer do que se trata — Theseus iniciou.
Os três continuaram a andar pela mesma trilha coberta de neve. Estava mais frio que o normal, o que fez com que apertasse ainda mais seu sobretudo contra o seu corpo. Se soubesse que o clima estava tão ruim daquele jeito, teria trazido um cachecol para completar.
— Ele só pediu um encontro e que eu trouxesse vocês — Newt respondeu.
— Certo — O mais velho respondeu.
chutou um pouco de neve.
— Continua misterioso, como sempre — comentou, referindo-se a Dumbledore.
Nenhum dos dois discordou de seu comentário, porque era verdade. Mas talvez misterioso não fosse a palavra correta. Cuidadoso se encaixava melhor.
E, com a guerra iminente prestes a explodir no mundo bruxo, ter cuidado era parte essencial de uma segurança.
Eles andaram mais um pouco até encontrarem o que parecia ser uma taverna. Newt entrou primeiro, seguido por Black e Theseus. O mais novo olhou ao redor. Havia uma barulheira de conversas indistintas, cheiro de bebidas ruins e poucos fregueses. não ousou encarar ninguém por pouco mais que meio segundo. Não era o seu tipo de local favorito.
— Vieram ver meu irmão, suponho — Uma voz desconhecida disse.
Ele não parecia muito velho. Encarou o trio através do espelho que estava limpando, por trás do balcão em que servia as bebidas. Newt virou-se na direção da voz, tomando o comando da situação.
— Não, senhor — ele respondeu, prontamente. — Nós viemos ver Alvo Dumbledore.
O desconhecido finalmente virou-se para os três. torceu o nariz, incomodada com o cheiro impregnado. Theseus continuou em silêncio ao seu lado, mas ela também percebeu que conseguia sentir o cheiro dele. Ela se xingou mais uma vez, mentalmente, tentando manter a concentração.
— Ele é meu irmão — O desconhecido afirmou.
Os três não disseram nada por alguns instantes, tentando processar a informação. Black não se lembrava que Dumbledore tinha um irmão. Mas, se fosse parar para pensar, não havia muita coisa que soubesse de fato sobre o professor.
— Desculpe — Newt apressou-se em dizer, meio se enrolando com as próprias palavras. — Sou Newt Scamander, este é Theseus e…
— Subam as escadas — O homem cortou-o. — Primeira à esquerda.
Newt não disse nada. Apenas expressou uma careta, olhou para Black e Theseus e tomou o caminho das escadas.
— Quanta gentileza — murmurou, quando já estavam fora de vista do irmão de Dumbledore.
Eles bateram na primeira porta à esquerda, sendo recebidos por um Alvo ainda jovem. O local, que parecia um quarto com um chalé, era aconchegante. Sua arquitetura era toda de pedra e havia pouca decoração, como um quadro ou outro, uma estante de livro, uma mesa.
— Newt disse por que vocês estão aqui? — Dumbledore questionou.
Theseus continuou com as mãos dentro dos bolsos do sobretudo. Newt estava ao lado de Alvo, de frente para e Theseus, sua maleta descansando em cima da mesa.
— Era para ele ter dito? — Theseus devolveu.
Alvo riu.
— Não — respondeu. — Na verdade, não.
Black encarou Newt, soltando um suspiro. Claro que ele sabia porque Dumbledore chamou seu irmão e sua melhor amiga, ele só não tinha permissão de comunicar.
— Quando você vai parar de ser tão… Lufa-Lufa? — ela brincou.
Mas ninguém sabia guardar segredo como Newt Scamander. Ele era único e leal. confiava no lufano de olhos fechados.
Newt deu de ombros, meio sem jeito.
— Tem uma coisa sobre a qual nós… — ele começou a dizer, se interrompendo para depois corrigir, apontando rapidamente para o professor ao seu lado. — Sobre a qual o Dumbledore deseja falar com vocês. É uma proposta.
Alvo desviou o olhar de Newt e olhou para os dois que estavam na sua frente: um lufano que construiu uma carreira bem sucedida e que tinha perdido a noiva recentemente; uma corvina que quebrou a tradição sonserina de sua família e tornou-se ruim por isso. Ambos com coragem e determinação para impedir uma guerra que destruiria seu mundo.
buscou os olhos de Theseus ao seu lado. Ele a encarou de volta, voltando a olhar de Newt para Dumbledore, meio curioso, meio desconfiado.
— Tudo bem — ele disse.
— Qual é a proposta? — questionou, meio ansiosa.
Alvo parou de mexer em algo que estava enrolado em seu pulso. Ele se aproximou mais um pouco dos dois jovens à sua frente e exibiu o que parecia ser um pingente amarrado com uma corrente em seu pulso.
— Sabem o que é isso, não sabem? — Alvo indagou.
Os dois encararam o objeto.
— Estava com o Newt em Paris — Theseus respondeu. — Não tenho muitas experiências com essas coisas, mas parece um pacto de sangue.
aproximou um passo e tocou o objeto, analisando-o minuciosamente. Ela era curiosa por coisas daqueles tipos, desde o tempo de Hogwarts.
— É exatamente isso — Alvo confirmou, chamando a atenção de Black.
— E contém o sangue de quem? — Theseus perguntou.
não precisou ouvir a resposta para saber. Ela se afastou do objeto e encarou Dumbledore com uma expressão indecifrável.
— Meu — ele respondeu.
— E do Grindelwald — completou, interrompendo-o.
— Você sempre foi bastante perceptiva, Srta. Black — o professor disse, com o vislumbre de um sorriso orgulhoso.
— É por isso que não pode enfrentá-lo? — Theseus tornou a questionar.
Black não tinha ideia do que aconteceria se alguém violasse um pacto de sangue como aquele. Havia muita coisa envolvida em magia que era considerada proibida por ter consequências catastróficas.
— Exatamente — Alvo confirmou.
Theseus parecia ainda mais insatisfeito com a resposta. Ele virou o rosto por um instante, antes de voltar a encarar Dumbledore, indagando a questão interna que Black estava curiosa para entender.
— O que acontece se você enfrentá-lo?
Alvo não respondeu. Ele levantou seu pulso, os olhos fixos no objeto contendo seu sangue e o de seu, agora, inimigo.
— É realmente bonito, você tem que admitir — ele murmurou, para ninguém em específico. — Se eu sequer pensar em desafiá-lo…
O objeto voou, quase atingindo , mas Theseus teve um reflexo rápido e puxou-a para o lado. A corvina arfou, assustada, e os dois viraram a cabeça para encarar a coisa contra a parede. Dumbledore parecia lutar contra o próprio objeto, a expressão dura, o braço sendo enrolado pela corrente.
— Ele sente, como podem ver.
O objeto fazia um barulho estranho. encarou Dumbledore com a garganta seca.
— Alvo — Newt chamou, com um tom de alerta, mas ele não parou.
— Ele sente a traição no meu coração — o professor continuou.
Dessa vez, a corrente estava enrolando o seu pescoço, com Dumbledore fazendo uma tentativa de soltá-lo, parecendo quase sem perceber.
— Alvo — Newt alertou de novo.
Dessa vez, Dumbledore ouviu. Ele puxou o objeto para si novamente, interrompendo a demonstração do que aconteceria se ele sequer pensasse em lutar contra Grindelwald. A mesma aconteceria o contrário, ela supôs.
— Isso é só uma amostra — Dumbledore disse, encarando o mais novo.
balançou a cabeça, meio irritada.
— Por que você fez isso?! — exclamou, meio ofegante.
O professor continuou com uma expressão contida, pesarosa.
— Por amor — respondeu, pegando a corvina de surpresa. — Ambição. Arrogância. Pode escolher.
Ela piscou na direção dele, sem nem se dar conta de que ainda estava muito perto de Theseus. Aquela amostra tinha sugado toda a sua atenção.
— Nós éramos jovens e queríamos mudar o mundo — ele continuou explicando. — Isso aqui garantiria que nós continuássemos, mesmo que um de nós mudasse de ideia. — Ele encarou o pacto de sangue na própria mão. — Magia de jovens, mas como podem ver, magia poderosa. Não pode ser desfeita.
Theseus permaneceu o tempo todo calado, absorvendo tudo. Ele tentou não julgar, uma vez que o próprio Alvo explicou que eram jovens, mas ainda assim, era mesmo magia poderosa. E perigosa.
— Essa proposta, o qilin tem algo a ver com ela, não? — Theseus questionou.
Dumbledore encarou um quadro e voltou a olhar para Theseus e .
— Se a ideia é derrotá-lo, o qilin é apenas uma parte disso — ele começou a dizer, prendendo a atenção dos três. — O mundo como conhecemos está se desintegrando.
Gerardo está destruindo-o com ódio e intolerância. Coisas que parecem inimagináveis hoje parecerão inevitáveis amanhã, se não o detivermos.
Houve alguns segundos de silêncio antes que ele continuasse.
— Caso concordem em fazer o que eu peço, vão ter que confiar em mim. Mesmo quando os seus instintos desaconselharem.
Theseus abriu a boca, mas só o que saiu foi apenas um suspiro baixo. Ele olhou para o irmão, trocando olhares, antes de olhar para , como se os dois estivessem tentando decidir o que fariam.
Nenhum deles fugiria da guerra. Theseus já teve alguns conflitos com Dumbledore, mas e Newt não tinham a menor dúvida sobre depositar sua confiança em Alvo. Ele próprio sabia que os dois o seguiriam cegamente, era a Theseus quem tinha de convencer.
O lufano mais velho olhou para Dumbledore.
— Estou ouvindo.
Então finalmente permitiu que ela saísse de casa. Seguiu-o por um caminho pouco conhecido e quase escuro, sem imaginar que horas eram exatamente, mas não ligou muito. Estavam sempre atentos, desconfiados e alertas a qualquer coisa ao seu redor.
E, como ele próprio tinha avisado, encontraram Theseus na esquina seguinte, esperando por eles. Ela não tinha ideia do que Newt de para onde estavam indo, exceto que estavam indo encontrar Dumbledore. E estava muito, muito frio, chutando poeiras de neve. Theseus já tinha os olhos nela antes mesmo que ela estivesse com os olhos nele.
Desde aquele dia no apartamento de Newt, não se encontraram mais. Ele respeitou o tempo dela e ficou recebendo notícias através do irmão.
ainda pretendia conversar com ele. Não tinha gostado nem um pouco de como as coisas tinham ficado e estava na hora de começarem a parar de terminar conversas daquela maneira. Precisava que as coisas fossem resolvidas.
Newt parecia muito interessado em não olhar para nenhum dos dois. Ao invés disso, tomou a frente e continuou a andar, mas Theseus e não disseram nada. Só seguiram o mais novo.
— Suponho que não queira nos dizer do que se trata — Theseus iniciou.
Os três continuaram a andar pela mesma trilha coberta de neve. Estava mais frio que o normal, o que fez com que apertasse ainda mais seu sobretudo contra o seu corpo. Se soubesse que o clima estava tão ruim daquele jeito, teria trazido um cachecol para completar.
— Ele só pediu um encontro e que eu trouxesse vocês — Newt respondeu.
— Certo — O mais velho respondeu.
chutou um pouco de neve.
— Continua misterioso, como sempre — comentou, referindo-se a Dumbledore.
Nenhum dos dois discordou de seu comentário, porque era verdade. Mas talvez misterioso não fosse a palavra correta. Cuidadoso se encaixava melhor.
E, com a guerra iminente prestes a explodir no mundo bruxo, ter cuidado era parte essencial de uma segurança.
Eles andaram mais um pouco até encontrarem o que parecia ser uma taverna. Newt entrou primeiro, seguido por Black e Theseus. O mais novo olhou ao redor. Havia uma barulheira de conversas indistintas, cheiro de bebidas ruins e poucos fregueses. não ousou encarar ninguém por pouco mais que meio segundo. Não era o seu tipo de local favorito.
— Vieram ver meu irmão, suponho — Uma voz desconhecida disse.
Ele não parecia muito velho. Encarou o trio através do espelho que estava limpando, por trás do balcão em que servia as bebidas. Newt virou-se na direção da voz, tomando o comando da situação.
— Não, senhor — ele respondeu, prontamente. — Nós viemos ver Alvo Dumbledore.
O desconhecido finalmente virou-se para os três. torceu o nariz, incomodada com o cheiro impregnado. Theseus continuou em silêncio ao seu lado, mas ela também percebeu que conseguia sentir o cheiro dele. Ela se xingou mais uma vez, mentalmente, tentando manter a concentração.
— Ele é meu irmão — O desconhecido afirmou.
Os três não disseram nada por alguns instantes, tentando processar a informação. Black não se lembrava que Dumbledore tinha um irmão. Mas, se fosse parar para pensar, não havia muita coisa que soubesse de fato sobre o professor.
— Desculpe — Newt apressou-se em dizer, meio se enrolando com as próprias palavras. — Sou Newt Scamander, este é Theseus e…
— Subam as escadas — O homem cortou-o. — Primeira à esquerda.
Newt não disse nada. Apenas expressou uma careta, olhou para Black e Theseus e tomou o caminho das escadas.
— Quanta gentileza — murmurou, quando já estavam fora de vista do irmão de Dumbledore.
Eles bateram na primeira porta à esquerda, sendo recebidos por um Alvo ainda jovem. O local, que parecia um quarto com um chalé, era aconchegante. Sua arquitetura era toda de pedra e havia pouca decoração, como um quadro ou outro, uma estante de livro, uma mesa.
— Newt disse por que vocês estão aqui? — Dumbledore questionou.
Theseus continuou com as mãos dentro dos bolsos do sobretudo. Newt estava ao lado de Alvo, de frente para e Theseus, sua maleta descansando em cima da mesa.
— Era para ele ter dito? — Theseus devolveu.
Alvo riu.
— Não — respondeu. — Na verdade, não.
Black encarou Newt, soltando um suspiro. Claro que ele sabia porque Dumbledore chamou seu irmão e sua melhor amiga, ele só não tinha permissão de comunicar.
— Quando você vai parar de ser tão… Lufa-Lufa? — ela brincou.
Mas ninguém sabia guardar segredo como Newt Scamander. Ele era único e leal. confiava no lufano de olhos fechados.
Newt deu de ombros, meio sem jeito.
— Tem uma coisa sobre a qual nós… — ele começou a dizer, se interrompendo para depois corrigir, apontando rapidamente para o professor ao seu lado. — Sobre a qual o Dumbledore deseja falar com vocês. É uma proposta.
Alvo desviou o olhar de Newt e olhou para os dois que estavam na sua frente: um lufano que construiu uma carreira bem sucedida e que tinha perdido a noiva recentemente; uma corvina que quebrou a tradição sonserina de sua família e tornou-se ruim por isso. Ambos com coragem e determinação para impedir uma guerra que destruiria seu mundo.
buscou os olhos de Theseus ao seu lado. Ele a encarou de volta, voltando a olhar de Newt para Dumbledore, meio curioso, meio desconfiado.
— Tudo bem — ele disse.
— Qual é a proposta? — questionou, meio ansiosa.
Alvo parou de mexer em algo que estava enrolado em seu pulso. Ele se aproximou mais um pouco dos dois jovens à sua frente e exibiu o que parecia ser um pingente amarrado com uma corrente em seu pulso.
— Sabem o que é isso, não sabem? — Alvo indagou.
Os dois encararam o objeto.
— Estava com o Newt em Paris — Theseus respondeu. — Não tenho muitas experiências com essas coisas, mas parece um pacto de sangue.
aproximou um passo e tocou o objeto, analisando-o minuciosamente. Ela era curiosa por coisas daqueles tipos, desde o tempo de Hogwarts.
— É exatamente isso — Alvo confirmou, chamando a atenção de Black.
— E contém o sangue de quem? — Theseus perguntou.
não precisou ouvir a resposta para saber. Ela se afastou do objeto e encarou Dumbledore com uma expressão indecifrável.
— Meu — ele respondeu.
— E do Grindelwald — completou, interrompendo-o.
— Você sempre foi bastante perceptiva, Srta. Black — o professor disse, com o vislumbre de um sorriso orgulhoso.
— É por isso que não pode enfrentá-lo? — Theseus tornou a questionar.
Black não tinha ideia do que aconteceria se alguém violasse um pacto de sangue como aquele. Havia muita coisa envolvida em magia que era considerada proibida por ter consequências catastróficas.
— Exatamente — Alvo confirmou.
Theseus parecia ainda mais insatisfeito com a resposta. Ele virou o rosto por um instante, antes de voltar a encarar Dumbledore, indagando a questão interna que Black estava curiosa para entender.
— O que acontece se você enfrentá-lo?
Alvo não respondeu. Ele levantou seu pulso, os olhos fixos no objeto contendo seu sangue e o de seu, agora, inimigo.
— É realmente bonito, você tem que admitir — ele murmurou, para ninguém em específico. — Se eu sequer pensar em desafiá-lo…
O objeto voou, quase atingindo , mas Theseus teve um reflexo rápido e puxou-a para o lado. A corvina arfou, assustada, e os dois viraram a cabeça para encarar a coisa contra a parede. Dumbledore parecia lutar contra o próprio objeto, a expressão dura, o braço sendo enrolado pela corrente.
— Ele sente, como podem ver.
O objeto fazia um barulho estranho. encarou Dumbledore com a garganta seca.
— Alvo — Newt chamou, com um tom de alerta, mas ele não parou.
— Ele sente a traição no meu coração — o professor continuou.
Dessa vez, a corrente estava enrolando o seu pescoço, com Dumbledore fazendo uma tentativa de soltá-lo, parecendo quase sem perceber.
— Alvo — Newt alertou de novo.
Dessa vez, Dumbledore ouviu. Ele puxou o objeto para si novamente, interrompendo a demonstração do que aconteceria se ele sequer pensasse em lutar contra Grindelwald. A mesma aconteceria o contrário, ela supôs.
— Isso é só uma amostra — Dumbledore disse, encarando o mais novo.
balançou a cabeça, meio irritada.
— Por que você fez isso?! — exclamou, meio ofegante.
O professor continuou com uma expressão contida, pesarosa.
— Por amor — respondeu, pegando a corvina de surpresa. — Ambição. Arrogância. Pode escolher.
Ela piscou na direção dele, sem nem se dar conta de que ainda estava muito perto de Theseus. Aquela amostra tinha sugado toda a sua atenção.
— Nós éramos jovens e queríamos mudar o mundo — ele continuou explicando. — Isso aqui garantiria que nós continuássemos, mesmo que um de nós mudasse de ideia. — Ele encarou o pacto de sangue na própria mão. — Magia de jovens, mas como podem ver, magia poderosa. Não pode ser desfeita.
Theseus permaneceu o tempo todo calado, absorvendo tudo. Ele tentou não julgar, uma vez que o próprio Alvo explicou que eram jovens, mas ainda assim, era mesmo magia poderosa. E perigosa.
— Essa proposta, o qilin tem algo a ver com ela, não? — Theseus questionou.
Dumbledore encarou um quadro e voltou a olhar para Theseus e .
— Se a ideia é derrotá-lo, o qilin é apenas uma parte disso — ele começou a dizer, prendendo a atenção dos três. — O mundo como conhecemos está se desintegrando.
Gerardo está destruindo-o com ódio e intolerância. Coisas que parecem inimagináveis hoje parecerão inevitáveis amanhã, se não o detivermos.
Houve alguns segundos de silêncio antes que ele continuasse.
— Caso concordem em fazer o que eu peço, vão ter que confiar em mim. Mesmo quando os seus instintos desaconselharem.
Theseus abriu a boca, mas só o que saiu foi apenas um suspiro baixo. Ele olhou para o irmão, trocando olhares, antes de olhar para , como se os dois estivessem tentando decidir o que fariam.
Nenhum deles fugiria da guerra. Theseus já teve alguns conflitos com Dumbledore, mas e Newt não tinham a menor dúvida sobre depositar sua confiança em Alvo. Ele próprio sabia que os dois o seguiriam cegamente, era a Theseus quem tinha de convencer.
O lufano mais velho olhou para Dumbledore.
— Estou ouvindo.
EPILOGO
— haverá felicidade depois de você
mas havia felicidade por causa de você também
ambas as coisas podem ser verdadeiras
mas havia felicidade por causa de você também
ambas as coisas podem ser verdadeiras
ENCONTROU Theseus do lado de fora da taverna.
O frio ali era ainda pior, mas, daquela vez, ela não se importou. Aproveitou que Newt permaneceu resolvendo alguns detalhes com Dumbledore e seguiu o lufano mais velho até o lado de fora, encontrando ali a oportunidade de conversarem. Estavam prestes a enfrentar cenários ainda perigosos, dessa vez juntos, e não tinham ideia do que o futuro reservava.
Era irônico, na verdade, pensou.
Theseus, naquela época, também estava prestes a lutar uma guerra que não era dele e quis garantir que ela ficasse segura e não sofresse muito com a morte dele, se isso fosse inevitável. Era justamente por estar naquela situação que pôde entender o ponto de vista dele um pouco melhor, embora isso ainda não mudasse muito as coisas. Ela ainda deveria ter participado da decisão, mas percebeu que não podia torná-lo o vilão da história. Ela mesma não foi tão inocente; tinha a ciência de que também o magoou.
— Então… — anunciou a sua presença, colocando as duas mãos dentro do bolso do sobretudo. Theseus virou o rosto para encará-la, dividido entre aliviado e tenso. — Cartas, hein?
O lufano exibiu uma expressão de surpresa. Depois, sorriu. Um sorriso pequeno, mas ainda bonito, um que ela sentiu saudade de ver de perto.
— O Newt te contou? — ele questionou, recebendo um aceno positivo dela. — Traidor.
Ela espelhou o sorriso dele.
Umedeceu os lábios e encarou os olhos do lufano, sem conseguir entender muito bem como se sentia naquele momento.
— Eu teria recebido as cartas — confessou. — Se você tivesse enviado.
— Só escrevi bobagens — ele respondeu, dando de ombros.
Ela assentiu quase imperceptivelmente. Piscou os olhos, afastando o brilho das lágrimas.
— Eu te amo — disse, tão baixo, que ele quase não ouviu, mas a sua expressão de surpresa com choque indicou que ele tinha ouvido. De tudo o que ela poderia dizer, aquelas três palavras não eram uma delas. — Eu tentei te dizer isso inúmeras vezes antes, mas o que aconteceu depois não ajudou. Eu te amo e continuei te amando, mesmo te odiando um pouquinho, mas nunca deixei de te amar, nem mesmo por um segundo. Nem mesmo quando eu soube do seu noivado com a Leta.
Seu coração se aliviou um pouco colocando aquelas palavras pra fora. só percebeu que estava carregando o peso delas naquele momento.
— E, mesmo doendo, Tes, só me importava que você fosse feliz — continuou. — Sinto muito por ter te magoado também e por ter despejado tudo aquilo daquela forma quando conversamos. Eu não estava no meu melhor momento e…
Foi a vez dela ficar surpresa quando sentiu o choque dos lábios dele contra os seus. Seu cérebro parou de funcionar, mas o corpo reagiu como memória muscular ao beijo. As mãos dele seguravam o rosto dela desesperadamente, como se precisasse tanto disso que doía. Ele nem sequer pensou. Estava ouvindo ela dizer tudo aquilo, dizer sobre ainda o amar, que quis beijá-la.
Não sabia quanto tempo durou. Podia ser um segundo, ou podia ser minutos.
Ela se afastou primeiro, mas não completamente.
— Fui um tolo — ele murmurou. — Eu te amei muito mais do que você poderia ter me amado, . Ainda amo.
Ela levou uma mão até a lateral do rosto dele, acariciando a sua bochecha. Sentiu saudades do toque daquilo, de estar perto, de senti-lo daquela maneira. Por anos, tudo o que teve foram memórias, que cuidou para que não se alterasse com seu ressentimento. Reconhecia que foi feliz com ele, ainda que por um curto período de tempo, e não queria apagar aquilo.
Eram dois adultos agora.
— Você tem razão, as coisas poderiam ter acontecido de outra forma — tornou a dizer, sem parar de acariciar a pele dele. — Já que não aconteceu, acho que preciso ficar em paz com isso. E te dar um pouco desse tipo de paz também.
Theseus fechou os olhos por um instante, absorvendo.
— Não tinha entendido o quanto se culpava pelas circunstâncias até aquele dia — ela continuou. — Mas, Tes, tudo bem. Eu entendo agora.
Ele abriu os olhos. Quando a encarou, abriu um sorriso quase triste, como se entendesse o que ela não estava dizendo em voz alta.
— Mas você não vai ficar, certo?
Apesar de tudo, ainda precisava ser justa consigo mesma. Mesmo que soubesse agora que ele ainda a amava, não estava pronta para seguir adiante. E nem ele.
Theseus precisava de um tempo ainda maior do que qualquer um poderia lhe dar.
— Não posso ignorar seu relacionamento com a Leta — ela explicou, respirando fundo, o tom de vez ameno para ele entender que aquilo não era nenhuma punição. Era só as coisas como elas eram. — Você ainda está de luto e entendo que, de alguma forma, também a amava. Acho que precisa se permitir sentir tudo.
Ela afastou a mão do rosto dele, sentindo-se quase pequena diante de tudo, quando tudo o que mais queria era se afundar mais uma vez nos braços dele. Mas experimentou tê-lo inteiro uma vez; não podia aceitá-lo pela metade agora.
E, se tinha esperado por todo aquele tempo, um pouco mais não a mataria.
Ele assentiu.
— Acho que, depois de tudo, é justo que essa seja sua decisão — ele murmurou. Ele determinou o destino dos dois uma vez. Agora era a vez dela fazer aquilo. E podia compreender seus motivos. Não negava que estava naquela guerra e naquele plano porque queria vingar a Leta. — É difícil reconhecer que não posso te dar o que merece ainda.
Ela só olhou para ele. Não tinha certeza se estava tomando a decisão certa, mas era o que parecia no momento, mesmo seu coração parecendo pequeno em seu peito. Talvez não fosse só ele que precisava de um tempo para se reorganizar; além disso, eles tinham coisas importantes que precisavam de toda sua concentração e energia.
Ficou um pouco na ponta do pé e beijou a ponta da bochecha dele, em despedida.
— Eu te vejo por aí, Tes — murmurou. — Diga ao Newt que estarei no ponto de encontro quando for a hora.
Relutante, ela se afastou, colocou as mãos no bolso frontal do sobretudo mais uma vez e se foi, com Theseus assistindo-a ir embora. Ele engoliu a seco, sua memória flutuando para o dia em que se olharam uma última vez antes de entrarem no trem, dando as costas um para o outro e para Hogwarts.
Não soube dizer quanto tempo ainda ficou ali, encarando o nada, o ponto exato onde ela tinha sumido do seu campo de visão, até Newt aparecer ao seu lado. O mais novo olhou ao redor, procurando a corvina.
— Você a deixou ir de novo?
Theseus deixou os ombros caírem. Virou o rosto para o irmão, encarando-o, e começou a andar ao lado dele.
— É, parece que eu vivo fazendo isso.
Ele só torcia pelo dia que nunca mais a deixaria ir.
O frio ali era ainda pior, mas, daquela vez, ela não se importou. Aproveitou que Newt permaneceu resolvendo alguns detalhes com Dumbledore e seguiu o lufano mais velho até o lado de fora, encontrando ali a oportunidade de conversarem. Estavam prestes a enfrentar cenários ainda perigosos, dessa vez juntos, e não tinham ideia do que o futuro reservava.
Era irônico, na verdade, pensou.
Theseus, naquela época, também estava prestes a lutar uma guerra que não era dele e quis garantir que ela ficasse segura e não sofresse muito com a morte dele, se isso fosse inevitável. Era justamente por estar naquela situação que pôde entender o ponto de vista dele um pouco melhor, embora isso ainda não mudasse muito as coisas. Ela ainda deveria ter participado da decisão, mas percebeu que não podia torná-lo o vilão da história. Ela mesma não foi tão inocente; tinha a ciência de que também o magoou.
— Então… — anunciou a sua presença, colocando as duas mãos dentro do bolso do sobretudo. Theseus virou o rosto para encará-la, dividido entre aliviado e tenso. — Cartas, hein?
O lufano exibiu uma expressão de surpresa. Depois, sorriu. Um sorriso pequeno, mas ainda bonito, um que ela sentiu saudade de ver de perto.
— O Newt te contou? — ele questionou, recebendo um aceno positivo dela. — Traidor.
Ela espelhou o sorriso dele.
Umedeceu os lábios e encarou os olhos do lufano, sem conseguir entender muito bem como se sentia naquele momento.
— Eu teria recebido as cartas — confessou. — Se você tivesse enviado.
— Só escrevi bobagens — ele respondeu, dando de ombros.
Ela assentiu quase imperceptivelmente. Piscou os olhos, afastando o brilho das lágrimas.
— Eu te amo — disse, tão baixo, que ele quase não ouviu, mas a sua expressão de surpresa com choque indicou que ele tinha ouvido. De tudo o que ela poderia dizer, aquelas três palavras não eram uma delas. — Eu tentei te dizer isso inúmeras vezes antes, mas o que aconteceu depois não ajudou. Eu te amo e continuei te amando, mesmo te odiando um pouquinho, mas nunca deixei de te amar, nem mesmo por um segundo. Nem mesmo quando eu soube do seu noivado com a Leta.
Seu coração se aliviou um pouco colocando aquelas palavras pra fora. só percebeu que estava carregando o peso delas naquele momento.
— E, mesmo doendo, Tes, só me importava que você fosse feliz — continuou. — Sinto muito por ter te magoado também e por ter despejado tudo aquilo daquela forma quando conversamos. Eu não estava no meu melhor momento e…
Foi a vez dela ficar surpresa quando sentiu o choque dos lábios dele contra os seus. Seu cérebro parou de funcionar, mas o corpo reagiu como memória muscular ao beijo. As mãos dele seguravam o rosto dela desesperadamente, como se precisasse tanto disso que doía. Ele nem sequer pensou. Estava ouvindo ela dizer tudo aquilo, dizer sobre ainda o amar, que quis beijá-la.
Não sabia quanto tempo durou. Podia ser um segundo, ou podia ser minutos.
Ela se afastou primeiro, mas não completamente.
— Fui um tolo — ele murmurou. — Eu te amei muito mais do que você poderia ter me amado, . Ainda amo.
Ela levou uma mão até a lateral do rosto dele, acariciando a sua bochecha. Sentiu saudades do toque daquilo, de estar perto, de senti-lo daquela maneira. Por anos, tudo o que teve foram memórias, que cuidou para que não se alterasse com seu ressentimento. Reconhecia que foi feliz com ele, ainda que por um curto período de tempo, e não queria apagar aquilo.
Eram dois adultos agora.
— Você tem razão, as coisas poderiam ter acontecido de outra forma — tornou a dizer, sem parar de acariciar a pele dele. — Já que não aconteceu, acho que preciso ficar em paz com isso. E te dar um pouco desse tipo de paz também.
Theseus fechou os olhos por um instante, absorvendo.
— Não tinha entendido o quanto se culpava pelas circunstâncias até aquele dia — ela continuou. — Mas, Tes, tudo bem. Eu entendo agora.
Ele abriu os olhos. Quando a encarou, abriu um sorriso quase triste, como se entendesse o que ela não estava dizendo em voz alta.
— Mas você não vai ficar, certo?
Apesar de tudo, ainda precisava ser justa consigo mesma. Mesmo que soubesse agora que ele ainda a amava, não estava pronta para seguir adiante. E nem ele.
Theseus precisava de um tempo ainda maior do que qualquer um poderia lhe dar.
— Não posso ignorar seu relacionamento com a Leta — ela explicou, respirando fundo, o tom de vez ameno para ele entender que aquilo não era nenhuma punição. Era só as coisas como elas eram. — Você ainda está de luto e entendo que, de alguma forma, também a amava. Acho que precisa se permitir sentir tudo.
Ela afastou a mão do rosto dele, sentindo-se quase pequena diante de tudo, quando tudo o que mais queria era se afundar mais uma vez nos braços dele. Mas experimentou tê-lo inteiro uma vez; não podia aceitá-lo pela metade agora.
E, se tinha esperado por todo aquele tempo, um pouco mais não a mataria.
Ele assentiu.
— Acho que, depois de tudo, é justo que essa seja sua decisão — ele murmurou. Ele determinou o destino dos dois uma vez. Agora era a vez dela fazer aquilo. E podia compreender seus motivos. Não negava que estava naquela guerra e naquele plano porque queria vingar a Leta. — É difícil reconhecer que não posso te dar o que merece ainda.
Ela só olhou para ele. Não tinha certeza se estava tomando a decisão certa, mas era o que parecia no momento, mesmo seu coração parecendo pequeno em seu peito. Talvez não fosse só ele que precisava de um tempo para se reorganizar; além disso, eles tinham coisas importantes que precisavam de toda sua concentração e energia.
Ficou um pouco na ponta do pé e beijou a ponta da bochecha dele, em despedida.
— Eu te vejo por aí, Tes — murmurou. — Diga ao Newt que estarei no ponto de encontro quando for a hora.
Relutante, ela se afastou, colocou as mãos no bolso frontal do sobretudo mais uma vez e se foi, com Theseus assistindo-a ir embora. Ele engoliu a seco, sua memória flutuando para o dia em que se olharam uma última vez antes de entrarem no trem, dando as costas um para o outro e para Hogwarts.
Não soube dizer quanto tempo ainda ficou ali, encarando o nada, o ponto exato onde ela tinha sumido do seu campo de visão, até Newt aparecer ao seu lado. O mais novo olhou ao redor, procurando a corvina.
— Você a deixou ir de novo?
Theseus deixou os ombros caírem. Virou o rosto para o irmão, encarando-o, e começou a andar ao lado dele.
— É, parece que eu vivo fazendo isso.
Ele só torcia pelo dia que nunca mais a deixaria ir.
FIM!
Nota da autora: na moral, preciso parar minha obsessao em THESEUS SCAMANDER olha sinceramente pra onde essas coisas me levam!!
espero que gostem, um beijo e ate a proxima.
espero que gostem, um beijo e ate a proxima.