Codificada por: Lua ☾
Finalizada em: Abril/2026.
Capítulo Único
“We were so happy, why not mix it up? I'm so at peace, yeah, I can't drink enough. No way to know just who you're thinking of, I just wish you didn't have a mind (ah-ah-ah-ah)”
Eu já não ligava mais quando ele olhava descaradamente para as outras garotas do bar mesmo estando em minha companhia. Aquilo já era parte da nossa rotina há muito tempo.
Eu só observava ele sorrindo e flertando com elas, enquanto meu coração batia calmamente dentro do peito. E o pior é que estávamos super felizes há horas atrás. Nem parecia que ele iria me apunhalar pelas costas dessa maneira, como sempre fazia.
— Em quem você está pensando? — Perguntei enquanto passava a ponta dos dedos pela borda do copo, sem olhar diretamente nos olhos dele.
— Em você, baby! É lógico, em quem mais seria?
Mentira.
Descarada.
Fria.
Até cruel.
— Claro! Em mim. Que ideia a minha… você só tem olhos para mim, não é, baby?
Finalmente ergui meus olhos, encarando os olhos pequeninos dele que me encararam de volta. O brilho que vi por lá era diferente, mais intenso do que o normal e eu sabia que era verdadeiro.
me amava, do jeito todo torto dele, mas amava. E me desejava, isso era bem claro.
Mas esse amor era suficiente?
“That could flip like a switch, that could wander and drift to a neighboring bitch.When just the other night you said you need me, what gives? How did it come to this? Boy, I know where you live…”
O riso dele ainda ecoava baixo quando uma garota encostou no balcão ao lado, próxima demais.
Próxima o suficiente.
não se afastou.
Claro que não.
Meu olhar deslizou devagar até os dois, observando o jeito como ele inclinava o corpo, como o sorriso mudava — não era o mesmo que ele usava comigo. Nunca era.
Era mais leve. Mais fácil. Como se não doesse. Como se não tivesse história. Como se não tivesse… eu.
“That could flip like a switch…”
E virava mesmo. Era impressionante.
Um segundo ele estava me segurando pela cintura, sussurrando que precisava de mim. No outro… já estava ali, com outra, como se eu fosse só uma pausa entre uma distração e outra.
Respirei fundo, sentindo o gosto amargo da bebida descer pela garganta.
— Engraçado… — murmurei, mais para mim mesma do que para ele.
Mas ele ouviu.
Sempre ouvia quando a minha voz mudava.
virou o rosto na minha direção, deixando a garota falando sozinha por um segundo.
— O quê?
Inclinei a cabeça, finalmente olhando direto para ele, sem desviar.
Sem suavizar.
— Ontem à noite você disse que precisava de mim.
Silêncio.
A garota ao lado dele fingiu interesse no próprio celular.
— E agora? — continuei, a voz calma demais para alguém que estava prestes a quebrar. — O que mudou?
Ele riu baixo, passando a mão pelos cabelos como se aquilo fosse nada. Como se eu fosse nada.
— Você tá viajando.
Claro.
Sempre esse roteiro. Dei um passo à frente, diminuindo a distância entre nós.
— Não. — Minha voz saiu firme dessa vez. — Eu sei exatamente onde isso vai dar.
Os olhos dele escureceram um pouco.
Agora sim. Agora eu tinha a atenção dele.
— E onde isso vai dar? — ele provocou, cruzando os braços.
Inclinei o rosto, chegando perto o suficiente para que só ele ouvisse:
— No mesmo lugar de sempre.
Afastei-me lentamente, deixando o silêncio preencher o espaço entre nós.
— Você me machuca… — confessei, quase num sussurro. — E depois age como se fosse amor.
Ele travou.
Por um segundo inteiro.
Um segundo que valeu mais do que todas as mentiras dele.
— Eu amo você. — disse, mais baixo agora.
E, pela primeira vez naquela noite…
Sem charme.
Sem jogo.
Sem plateia.
Só ele.
Sorri de lado, cansada.
— Eu sei.
Peguei minha bolsa do banco, o som do couro ecoando mais alto do que deveria naquele silêncio.
— Esse é o problema.
deu um passo na minha direção.
— Ei, espera—
Mas eu balancei a cabeça.
Não.
Chega.
— Amor não devia fazer a gente se sentir… substituível.
As luzes do bar pareciam mais fortes agora. Ou talvez fosse só eu enxergando melhor.
— Você me quer… — continuei — mas nunca o suficiente pra parar de querer qualquer outra.
Aquilo acertou.
Eu vi.
E, pela primeira vez…
Ele não tinha resposta.
Dei um último olhar para ele.
Para nós.
Para tudo que a gente fingia que era perfeito.
— Eu sei onde você mora. — murmurei, repetindo a letra quase como uma lembrança amarga. — Mas acho que já não sei mais onde você está.
E então eu fui embora.
Sem olhar para trás.
Porque, dessa vez…
Se ele virasse o interruptor…
Eu não estaria mais lá quando a luz voltasse.
“I think this schedule could be very nice (very nice). Call up the boys and crack a Miller Lite, watch the fight. Us girls are fun, but stressful, am I right? (Am I right?) And you've got a right hand anyway (and only yesterday)...”
O ar da rua estava mais frio do que eu esperava.
Ou talvez fosse só o efeito dele passando.
Caminhei alguns passos sem rumo, o som abafado do bar ficando para trás, enquanto minhas mãos ainda tremiam levemente — não de tristeza.
De irritação.
“I think this schedule could be very nice…”
Soltei uma risada baixa, balançando a cabeça.
Claro.
Eu já conseguia imaginar exatamente o que ele estava fazendo agora.
Voltando pro balcão.
Pedindo outra bebida.
Agindo como se nada tivesse acontecido.
Como se eu fosse só mais uma cena descartável na noite dele.
“Call up the boys and crack a Miller Lite, watch the fight…”
— Aposto que ele já chamou os amigos… — murmurei, chutando de leve uma pedrinha no chão.
“cola aí.”
“traz cerveja.”
“partiu esquecer.”
Típico.
Sempre foi.
Substituir.
Disfarçar.
Evitar.
“Us girls are fun, but stressful, am I right?”
Parei na calçada, cruzando os braços, sentindo um gosto amargo subir.
— Estressante… — repeti, rindo sem humor.
Engraçado.
Porque ele adorava o “divertido”.
As risadas.
O flerte.
A atenção.
Mas o mínimo de verdade?
O mínimo de responsabilidade?
Ah, não.
Aí era demais.
“And you've got a right hand anyway…”
Fechei os olhos por um segundo, respirando fundo.
— Então é isso, né… — sussurrei.
Ele não precisava de mim.
Nunca precisou de verdade.
Eu era só…
Mais interessante que o tédio.
Mais intensa que o silêncio.
Mas nunca o suficiente pra ele escolher ficar.
“...and only yesterday.”
Ontem.
A palavra me atingiu de um jeito diferente.
Abri os olhos devagar, encarando o movimento da rua.
Ontem ele me segurava como se eu fosse a única coisa que importava.
Ontem ele disse que precisava de mim.
Ontem eu quase acreditei que dessa vez seria diferente.
Soltei o ar, sentindo algo dentro de mim finalmente… encaixar.
Não como dor.
Mas como clareza.
— Não… — murmurei, mais firme agora.
Levei a mão ao rosto, afastando uma mecha de cabelo.
— Eu não sou estressante.
Dei um passo à frente.
Depois outro.
— Eu só não sou fácil de ignorar.
E talvez esse sempre tenha sido o problema.
Parei por um instante, olhando para trás — não pro bar, mas pra tudo que eu deixei lá dentro.
E, pela primeira vez…
Não senti vontade de voltar.
Só de seguir.
Porque, se o plano dele era me trocar por algo mais simples…
Então, dessa vez…
Eu ia ser a única coisa que ele não conseguiria substituir.
“Was when we called it quits (called it quits). I was so confident (confident) till the thought of it hit that any given night you could be using your lips on a girl with big tits. Boy, I know where you live…”
Enquanto me afastava do bar, cada passo parecia firme, decidido — quase como se eu finalmente tivesse feito a escolha certa.
Como se eu fosse forte o suficiente pra ir embora e nunca mais olhar pra trás.
Como se… não fosse doer.
Mas então—
“...till the thought of it hit…”
A imagem veio.
Do nada.
Violenta.
Incontrolável.
Parei no meio da calçada, o corpo travando por um segundo.
— Não… — sussurrei, fechando os olhos com força.
Mas já era tarde.
“Any given night…”
Qualquer noite.
Qualquer uma.
Ele poderia estar ali, naquele mesmo bar — ou em outro — inclinando o corpo do mesmo jeito, sorrindo do mesmo jeito…
Tocando outra garota do jeito que tocava em mim.
“You could be using your lips…”
Engoli seco, sentindo o estômago revirar.
— Para… — murmurei, levando a mão à têmpora.
Mas minha mente não obedecia.
Nunca obedecia quando se tratava dele.
“…on a girl with big tits.”
Soltei uma risada fraca, amarga.
— Claro… — balancei a cabeça, os olhos ainda fechados. — Claro que sim.
Porque era fácil.
Sempre foi.
Garotas sem história.
Sem complicação.
Sem… sentimento.
Diferente de mim.
Abri os olhos devagar, encarando o vazio à minha frente.
E, pela primeira vez desde que saí…
A confiança rachou.
— Você vai esquecer — falei pra mim mesma, como se fosse uma ordem. — Ele sempre esquece.
Mas a ideia de ser esquecida…
Doía mais do que qualquer outra coisa.
Muito mais do que ser trocada.
Porque ser trocada ainda significava que, por um segundo…
Eu fui escolhida.
Mas ser esquecida?
Era como se eu nunca tivesse sido nada.
“Boy, I know where you live…”
Soltei o ar lentamente, o olhar endurecendo.
— Eu sei onde você mora… — repeti, quase num sussurro.
E não era uma ameaça.
Não exatamente.
Era… um lembrete.
De que eu conhecia ele.
Conhecia os horários.
Os hábitos.
Os vícios.
Os padrões.
Sabia exatamente quanto tempo ele demoraria pra fingir que estava tudo bem.
Quanto tempo até chamar outra.
Quanto tempo até tentar voltar.
Porque ele sempre voltava.
Sempre.
Inclinei a cabeça, cruzando os braços, o coração batendo mais forte agora — não de dor.
De certeza.
— E quando você voltar… — murmurei.
Um sorriso pequeno, cansado, surgiu no canto dos meus lábios.
— Eu quero ver se ainda vai me encontrar no mesmo lugar.
Dessa vez…
A escolha não ia ser dele.
E talvez fosse isso que mais assustaria ele.
Não me perder.
Mas perceber…
Que talvez eu realmente tenha ido embora.
“Baby, I'm not angry! I love you just the same. I just hope you get agoraphobia some day and all your days are sunny (sunny from your windowpane). From your windowpane, wish you a lifetime full of happiness… and a forever of never getting laid (forever, mm-mm). A forever of never getting laid (laid, mm-mm)!”
Eu não voltei.
Não naquela noite.
Mas ele voltou.
Claro que voltou.
Como eu sabia que voltaria.
Dois dias depois, lá estava ele — encostado no portão da minha casa, como se aquele fosse o lugar mais natural do mundo pra ele estar.
Como se nada tivesse realmente acabado.
Como se eu ainda fosse… dele.
Cruzei os braços assim que parei na frente dele, mantendo uma distância segura.
— Demorou menos do que eu esperava.
soltou um riso baixo, passando a mão na nuca.
— Você me conhece.
Conheço.
Esse era exatamente o problema.
— Eu precisava te ver — ele disse, agora mais sério. — Aquilo… não foi—
— Foi — cortei, firme.
Silêncio.
Ele travou por um segundo, me encarando com mais atenção.
Como se tentasse entender o que tinha mudado.
Spoiler: tudo.
Dei um passo à frente.
Não pra me aproximar.
Mas pra não fugir.
— Fica tranquilo — falei, a voz calma demais. — Eu não tô brava.
Ele franziu levemente a testa.
— Não?
Sorri.
Pequeno.
Quase gentil.
— Não, baby. — incline i a cabeça, sustentando o olhar dele. — Eu te amo do mesmo jeito.
Confusão.
Pura.
Nos olhos dele.
— Então por que você tá assim?
Respirei fundo, como se estivesse escolhendo cada palavra com cuidado.
Mas, na verdade…
Eu já tinha ensaiado isso mil vezes na minha cabeça.
— Eu só espero… — comecei, devagar — que um dia você desenvolva uma coisa chamada agorafobia.
Ele piscou, completamente perdido.
— O quê?
Dei de ombros, como se fosse a coisa mais simples do mundo.
— Que você tenha medo de sair de casa. — expliquei, com um tom quase doce. — Que todos os seus dias sejam lindos, sabe?
Inclinei levemente o rosto, um sorriso irônico surgindo.
— Bem ensolarados.
O olhar dele mudou.
Agora ele estava começando a entender.
— Só… pela janela.
Silêncio.
Pesado.
Diferente de todos os outros.
— Que você tenha uma vida cheia de felicidade — continuei, mantendo o mesmo tom suave, quase carinhoso. — Sério. De verdade.
Ele engoliu seco.
— Mas—
— Mas… — interrompi, o sorriso aumentando só um pouco — que você passe ela inteira sem nunca transar com ninguém.
Agora sim.
Aquilo acertou em cheio.
soltou uma risada nervosa, balançando a cabeça.
— Tá brincando comigo.
— Não tô. — respondi na mesma hora.
Minha voz não falhou.
Nem por um segundo.
— Uma eternidade inteira… — dei um passo mais perto — sem conseguir ninguém.
Parei a poucos centímetros dele.
— Nunca mais.
Os olhos dele buscaram os meus, tentando encontrar alguma pista de que aquilo era só raiva.
Só impulso.
Só drama.
Mas não era.
— Você não pode falar sério… — ele murmurou.
Inclinei a cabeça, encarando ele como quem finalmente enxerga com clareza.
— Posso sim.
E então, pela primeira vez…
Não tinha dor na minha voz.
Só verdade.
— Porque você sempre achou que podia ter todo mundo. — continuei. — Que nunca ia faltar opção.
Afastei-me um passo.
— Então eu realmente espero que, um dia…
Dei um sorriso.
Não doce.
Não gentil.
Mas livre.
— Você descubra como é não ter ninguém.
Silêncio.
Ele não riu dessa vez.
Não respondeu.
Não negou.
Nada.
E isso…
Foi o mais perto de vitória que eu já cheguei com ele.
Virei de costas antes que ele pudesse dizer qualquer coisa.
— Adeus, .
E dessa vez…
Eu não queria que ele voltasse.
Eu já não ligava mais quando ele olhava descaradamente para as outras garotas do bar mesmo estando em minha companhia. Aquilo já era parte da nossa rotina há muito tempo.
Eu só observava ele sorrindo e flertando com elas, enquanto meu coração batia calmamente dentro do peito. E o pior é que estávamos super felizes há horas atrás. Nem parecia que ele iria me apunhalar pelas costas dessa maneira, como sempre fazia.
— Em quem você está pensando? — Perguntei enquanto passava a ponta dos dedos pela borda do copo, sem olhar diretamente nos olhos dele.
— Em você, baby! É lógico, em quem mais seria?
Mentira.
Descarada.
Fria.
Até cruel.
— Claro! Em mim. Que ideia a minha… você só tem olhos para mim, não é, baby?
Finalmente ergui meus olhos, encarando os olhos pequeninos dele que me encararam de volta. O brilho que vi por lá era diferente, mais intenso do que o normal e eu sabia que era verdadeiro.
me amava, do jeito todo torto dele, mas amava. E me desejava, isso era bem claro.
Mas esse amor era suficiente?
“That could flip like a switch, that could wander and drift to a neighboring bitch.When just the other night you said you need me, what gives? How did it come to this? Boy, I know where you live…”
O riso dele ainda ecoava baixo quando uma garota encostou no balcão ao lado, próxima demais.
Próxima o suficiente.
não se afastou.
Claro que não.
Meu olhar deslizou devagar até os dois, observando o jeito como ele inclinava o corpo, como o sorriso mudava — não era o mesmo que ele usava comigo. Nunca era.
Era mais leve. Mais fácil. Como se não doesse. Como se não tivesse história. Como se não tivesse… eu.
“That could flip like a switch…”
E virava mesmo. Era impressionante.
Um segundo ele estava me segurando pela cintura, sussurrando que precisava de mim. No outro… já estava ali, com outra, como se eu fosse só uma pausa entre uma distração e outra.
Respirei fundo, sentindo o gosto amargo da bebida descer pela garganta.
— Engraçado… — murmurei, mais para mim mesma do que para ele.
Mas ele ouviu.
Sempre ouvia quando a minha voz mudava.
virou o rosto na minha direção, deixando a garota falando sozinha por um segundo.
— O quê?
Inclinei a cabeça, finalmente olhando direto para ele, sem desviar.
Sem suavizar.
— Ontem à noite você disse que precisava de mim.
Silêncio.
A garota ao lado dele fingiu interesse no próprio celular.
— E agora? — continuei, a voz calma demais para alguém que estava prestes a quebrar. — O que mudou?
Ele riu baixo, passando a mão pelos cabelos como se aquilo fosse nada. Como se eu fosse nada.
— Você tá viajando.
Claro.
Sempre esse roteiro. Dei um passo à frente, diminuindo a distância entre nós.
— Não. — Minha voz saiu firme dessa vez. — Eu sei exatamente onde isso vai dar.
Os olhos dele escureceram um pouco.
Agora sim. Agora eu tinha a atenção dele.
— E onde isso vai dar? — ele provocou, cruzando os braços.
Inclinei o rosto, chegando perto o suficiente para que só ele ouvisse:
— No mesmo lugar de sempre.
Afastei-me lentamente, deixando o silêncio preencher o espaço entre nós.
— Você me machuca… — confessei, quase num sussurro. — E depois age como se fosse amor.
Ele travou.
Por um segundo inteiro.
Um segundo que valeu mais do que todas as mentiras dele.
— Eu amo você. — disse, mais baixo agora.
E, pela primeira vez naquela noite…
Sem charme.
Sem jogo.
Sem plateia.
Só ele.
Sorri de lado, cansada.
— Eu sei.
Peguei minha bolsa do banco, o som do couro ecoando mais alto do que deveria naquele silêncio.
— Esse é o problema.
deu um passo na minha direção.
— Ei, espera—
Mas eu balancei a cabeça.
Não.
Chega.
— Amor não devia fazer a gente se sentir… substituível.
As luzes do bar pareciam mais fortes agora. Ou talvez fosse só eu enxergando melhor.
— Você me quer… — continuei — mas nunca o suficiente pra parar de querer qualquer outra.
Aquilo acertou.
Eu vi.
E, pela primeira vez…
Ele não tinha resposta.
Dei um último olhar para ele.
Para nós.
Para tudo que a gente fingia que era perfeito.
— Eu sei onde você mora. — murmurei, repetindo a letra quase como uma lembrança amarga. — Mas acho que já não sei mais onde você está.
E então eu fui embora.
Sem olhar para trás.
Porque, dessa vez…
Se ele virasse o interruptor…
Eu não estaria mais lá quando a luz voltasse.
“I think this schedule could be very nice (very nice). Call up the boys and crack a Miller Lite, watch the fight. Us girls are fun, but stressful, am I right? (Am I right?) And you've got a right hand anyway (and only yesterday)...”
O ar da rua estava mais frio do que eu esperava.
Ou talvez fosse só o efeito dele passando.
Caminhei alguns passos sem rumo, o som abafado do bar ficando para trás, enquanto minhas mãos ainda tremiam levemente — não de tristeza.
De irritação.
“I think this schedule could be very nice…”
Soltei uma risada baixa, balançando a cabeça.
Claro.
Eu já conseguia imaginar exatamente o que ele estava fazendo agora.
Voltando pro balcão.
Pedindo outra bebida.
Agindo como se nada tivesse acontecido.
Como se eu fosse só mais uma cena descartável na noite dele.
“Call up the boys and crack a Miller Lite, watch the fight…”
— Aposto que ele já chamou os amigos… — murmurei, chutando de leve uma pedrinha no chão.
“cola aí.”
“traz cerveja.”
“partiu esquecer.”
Típico.
Sempre foi.
Substituir.
Disfarçar.
Evitar.
“Us girls are fun, but stressful, am I right?”
Parei na calçada, cruzando os braços, sentindo um gosto amargo subir.
— Estressante… — repeti, rindo sem humor.
Engraçado.
Porque ele adorava o “divertido”.
As risadas.
O flerte.
A atenção.
Mas o mínimo de verdade?
O mínimo de responsabilidade?
Ah, não.
Aí era demais.
“And you've got a right hand anyway…”
Fechei os olhos por um segundo, respirando fundo.
— Então é isso, né… — sussurrei.
Ele não precisava de mim.
Nunca precisou de verdade.
Eu era só…
Mais interessante que o tédio.
Mais intensa que o silêncio.
Mas nunca o suficiente pra ele escolher ficar.
“...and only yesterday.”
Ontem.
A palavra me atingiu de um jeito diferente.
Abri os olhos devagar, encarando o movimento da rua.
Ontem ele me segurava como se eu fosse a única coisa que importava.
Ontem ele disse que precisava de mim.
Ontem eu quase acreditei que dessa vez seria diferente.
Soltei o ar, sentindo algo dentro de mim finalmente… encaixar.
Não como dor.
Mas como clareza.
— Não… — murmurei, mais firme agora.
Levei a mão ao rosto, afastando uma mecha de cabelo.
— Eu não sou estressante.
Dei um passo à frente.
Depois outro.
— Eu só não sou fácil de ignorar.
E talvez esse sempre tenha sido o problema.
Parei por um instante, olhando para trás — não pro bar, mas pra tudo que eu deixei lá dentro.
E, pela primeira vez…
Não senti vontade de voltar.
Só de seguir.
Porque, se o plano dele era me trocar por algo mais simples…
Então, dessa vez…
Eu ia ser a única coisa que ele não conseguiria substituir.
“Was when we called it quits (called it quits). I was so confident (confident) till the thought of it hit that any given night you could be using your lips on a girl with big tits. Boy, I know where you live…”
Enquanto me afastava do bar, cada passo parecia firme, decidido — quase como se eu finalmente tivesse feito a escolha certa.
Como se eu fosse forte o suficiente pra ir embora e nunca mais olhar pra trás.
Como se… não fosse doer.
Mas então—
“...till the thought of it hit…”
A imagem veio.
Do nada.
Violenta.
Incontrolável.
Parei no meio da calçada, o corpo travando por um segundo.
— Não… — sussurrei, fechando os olhos com força.
Mas já era tarde.
“Any given night…”
Qualquer noite.
Qualquer uma.
Ele poderia estar ali, naquele mesmo bar — ou em outro — inclinando o corpo do mesmo jeito, sorrindo do mesmo jeito…
Tocando outra garota do jeito que tocava em mim.
“You could be using your lips…”
Engoli seco, sentindo o estômago revirar.
— Para… — murmurei, levando a mão à têmpora.
Mas minha mente não obedecia.
Nunca obedecia quando se tratava dele.
“…on a girl with big tits.”
Soltei uma risada fraca, amarga.
— Claro… — balancei a cabeça, os olhos ainda fechados. — Claro que sim.
Porque era fácil.
Sempre foi.
Garotas sem história.
Sem complicação.
Sem… sentimento.
Diferente de mim.
Abri os olhos devagar, encarando o vazio à minha frente.
E, pela primeira vez desde que saí…
A confiança rachou.
— Você vai esquecer — falei pra mim mesma, como se fosse uma ordem. — Ele sempre esquece.
Mas a ideia de ser esquecida…
Doía mais do que qualquer outra coisa.
Muito mais do que ser trocada.
Porque ser trocada ainda significava que, por um segundo…
Eu fui escolhida.
Mas ser esquecida?
Era como se eu nunca tivesse sido nada.
“Boy, I know where you live…”
Soltei o ar lentamente, o olhar endurecendo.
— Eu sei onde você mora… — repeti, quase num sussurro.
E não era uma ameaça.
Não exatamente.
Era… um lembrete.
De que eu conhecia ele.
Conhecia os horários.
Os hábitos.
Os vícios.
Os padrões.
Sabia exatamente quanto tempo ele demoraria pra fingir que estava tudo bem.
Quanto tempo até chamar outra.
Quanto tempo até tentar voltar.
Porque ele sempre voltava.
Sempre.
Inclinei a cabeça, cruzando os braços, o coração batendo mais forte agora — não de dor.
De certeza.
— E quando você voltar… — murmurei.
Um sorriso pequeno, cansado, surgiu no canto dos meus lábios.
— Eu quero ver se ainda vai me encontrar no mesmo lugar.
Dessa vez…
A escolha não ia ser dele.
E talvez fosse isso que mais assustaria ele.
Não me perder.
Mas perceber…
Que talvez eu realmente tenha ido embora.
“Baby, I'm not angry! I love you just the same. I just hope you get agoraphobia some day and all your days are sunny (sunny from your windowpane). From your windowpane, wish you a lifetime full of happiness… and a forever of never getting laid (forever, mm-mm). A forever of never getting laid (laid, mm-mm)!”
Eu não voltei.
Não naquela noite.
Mas ele voltou.
Claro que voltou.
Como eu sabia que voltaria.
Dois dias depois, lá estava ele — encostado no portão da minha casa, como se aquele fosse o lugar mais natural do mundo pra ele estar.
Como se nada tivesse realmente acabado.
Como se eu ainda fosse… dele.
Cruzei os braços assim que parei na frente dele, mantendo uma distância segura.
— Demorou menos do que eu esperava.
soltou um riso baixo, passando a mão na nuca.
— Você me conhece.
Conheço.
Esse era exatamente o problema.
— Eu precisava te ver — ele disse, agora mais sério. — Aquilo… não foi—
— Foi — cortei, firme.
Silêncio.
Ele travou por um segundo, me encarando com mais atenção.
Como se tentasse entender o que tinha mudado.
Spoiler: tudo.
Dei um passo à frente.
Não pra me aproximar.
Mas pra não fugir.
— Fica tranquilo — falei, a voz calma demais. — Eu não tô brava.
Ele franziu levemente a testa.
— Não?
Sorri.
Pequeno.
Quase gentil.
— Não, baby. — incline i a cabeça, sustentando o olhar dele. — Eu te amo do mesmo jeito.
Confusão.
Pura.
Nos olhos dele.
— Então por que você tá assim?
Respirei fundo, como se estivesse escolhendo cada palavra com cuidado.
Mas, na verdade…
Eu já tinha ensaiado isso mil vezes na minha cabeça.
— Eu só espero… — comecei, devagar — que um dia você desenvolva uma coisa chamada agorafobia.
Ele piscou, completamente perdido.
— O quê?
Dei de ombros, como se fosse a coisa mais simples do mundo.
— Que você tenha medo de sair de casa. — expliquei, com um tom quase doce. — Que todos os seus dias sejam lindos, sabe?
Inclinei levemente o rosto, um sorriso irônico surgindo.
— Bem ensolarados.
O olhar dele mudou.
Agora ele estava começando a entender.
— Só… pela janela.
Silêncio.
Pesado.
Diferente de todos os outros.
— Que você tenha uma vida cheia de felicidade — continuei, mantendo o mesmo tom suave, quase carinhoso. — Sério. De verdade.
Ele engoliu seco.
— Mas—
— Mas… — interrompi, o sorriso aumentando só um pouco — que você passe ela inteira sem nunca transar com ninguém.
Agora sim.
Aquilo acertou em cheio.
soltou uma risada nervosa, balançando a cabeça.
— Tá brincando comigo.
— Não tô. — respondi na mesma hora.
Minha voz não falhou.
Nem por um segundo.
— Uma eternidade inteira… — dei um passo mais perto — sem conseguir ninguém.
Parei a poucos centímetros dele.
— Nunca mais.
Os olhos dele buscaram os meus, tentando encontrar alguma pista de que aquilo era só raiva.
Só impulso.
Só drama.
Mas não era.
— Você não pode falar sério… — ele murmurou.
Inclinei a cabeça, encarando ele como quem finalmente enxerga com clareza.
— Posso sim.
E então, pela primeira vez…
Não tinha dor na minha voz.
Só verdade.
— Porque você sempre achou que podia ter todo mundo. — continuei. — Que nunca ia faltar opção.
Afastei-me um passo.
— Então eu realmente espero que, um dia…
Dei um sorriso.
Não doce.
Não gentil.
Mas livre.
— Você descubra como é não ter ninguém.
Silêncio.
Ele não riu dessa vez.
Não respondeu.
Não negou.
Nada.
E isso…
Foi o mais perto de vitória que eu já cheguei com ele.
Virei de costas antes que ele pudesse dizer qualquer coisa.
— Adeus, .
E dessa vez…
Eu não queria que ele voltasse.
FIM!
Nota da autora: Caso goste da história, deixe um comentário. Beijos :*
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