Codificada por: Calisto
Finalizada em: 25/08/2025
PRÓLOGO
O banco embaixo de balançava enquanto ela esticava o pequeno braço para alcançar a garrafa de Whisky. Estava alta demais, provavelmente porque não tinha sido pensada para ser alcançada por uma criança de dez anos, mas o marceneiro não poderia prever que o sr. Keeves estaria enchendo o saco por uma bebida, e ela seria a única disponível.
É, o jeito seria pular. Ela respirou fundo, contou até três e… com um impulso, sua mão agarrou a garrafa de vidro.
Quando seus pés pousaram no banco novamente, sentiu que havia sido uma péssima escolha. O banco tremeu terrivelmente, e ela se preparou para cair. Milagrosamente, ele se estabilizou.
Ela chegou na mesa do sr. Keeves já com a garrafa destampada, servindo a bebida marrom enquanto ele e os outros homens observavam as próprias cartas.
— Demorou muito, criança. Não brinque com a minha paciência da próxima vez.
— Sim, senhor.
— Garota, eu te pago um saco de ouro se me contar as cartas dele — o sr. Thorne brincou.
— Nem pense nisso — resmungou o sr. Keeves.
Por Deus, ela só queria que Garret e o sr. Jones retornassem logo. Por que o show daquela noite estava demorando tanto para começar?
Então finalmente — finalmente — o sr. Jones reapareceu, acompanhado de um homem misterioso com roupas pretas e uma cartola da mesma cor. O dono do bar sorria tranquilo e dava tapinhas amigáveis nas costas do desconhecido.
— Tudo pronto para seu show, sr. Stonehedger. Foi difícil instalar a estrutura, mas Garret garantiu que está tudo pronto.
— Sua cara me demonstra suspeita, sr. Jones, mas te garanto que essa prévia do maior show da atualidade será um bom negócio para você. — A voz do homem de cartola era grossa e etérea, como se não pertencesse a esse mundo feio de drogas e prostituição.
— Espero mesmo. — O dono do bar estreitou os olhos. — Os clientes já estão impacientes.
O homem estranho tocou na cartola como um cumprimento, antes de sair para os fundos. Nessa hora, o sr. Jones se virou e deu de cara com o encarando.
— O que está fazendo aqui roubando meu whisky?!
— O sr. Keeves queria Whisky e…
— Chispa daqui, — sr. Jones ralhou, tirando a garrafa com força de suas mãos.
A menina encolheu os ombros e saiu com passos apertados até a escada que levava ao que poderia chamar de casa: um pequeno quarto que dividia com a mãe quando ela não estivesse recebendo um cliente. Senão, precisava pedir abrigo para a cozinheira.
Para sua sorte — ou azar —, a mãe estava desaparecida há duas semanas, então o quarto estava sempre disponível nos últimos tempos.
Uma mão pousou no seu ombro, impedindo-a de continuar. deu um salto e se virou, nervosa, dando de cara com um garoto.
— Calma, não precisa se assustar — ele falou, tirando as mãos dela.
Ela o encarou, dessa vez realmente prestando atenção nele, e sentiu as bochechas esquentarem. Ele com certeza era mais velho, talvez com uns 14 ou 15 anos. Tanto seus olhos quanto seus cabelos ondulados eram escuros, quase pretos. Era esguio, alto e magro, como um adolescente que acabara de ter o corpo esticado. E o mais especial era seu sorriso.
Não era um sorriso muito largo, era verdade, mas parecia transpassar confiança. E, por isso, ela teve que perguntar:
— Quem é você?
— Sou . E você?
— .
— Gostei do seu nome. — Ele assentiu, como se aprovasse.
— Por que você me seguiu? — ela questionou, subindo um degrau para se distanciar.
— Porque não entendi como você ia embora quando o show está prestes a começar!
— O bar tem show todas as semanas — ela replicou.
— É, mas o bar não conhece o grande Mágico do Circo Stonehedger.
— Um mágico? — ela perguntou, subitamente curiosa.
— Não. O Mágico.
Na mesma hora, como se estivesse esperando esse anúncio, as luzes se apagaram, e apenas um feixe de luz branca foi direcionado ao palco, por onde entrou o homem de cartola de antes. O coração de acelerou.
— É ele. O Mágico — sussurrou em seu ouvido.
— Boa noite, boa noite — o Mágico começou a falar, com aquele mesmo tom etéreo e grosso de antes. — É uma honra nos apresentarmos aqui essa noite, representando um pedaço do grande Circo Stonehedger. Para me ajudar essa noite a trazer um pouco de magia para vocês, convido ao palco minha assistente, Danielle.
Do mesmo lugar de onde uma linda mulher vestida como as mulheres do bordel, porém de forma muito mais elegante, com cabelos loiros e olhos azuis, além de um sorriso de quem sabia muitos segredos.
Diversos assobios invadiram o espaço conforme ela entrava, capturando o olhar de todos. nem viu o momento em que uma caixa tão grande que parecia um caixão foi colocado no palco. O Mágico segurou a mão da linda mulher e a ajudou a se deitar dentro da caixa.
— Todos podem ver o fundo da caixa, certo? Observem a parede, o chão, a cabeça e os pés da doce Danielle. E observem-me.
Quando retornou seu olhar para o Mágico, ela soltou um arquejo, e ouviu vários idênticos no salão. Nas mãos do homem, uma grande serra que surgira de repente refletia a luz do holofote, pousando perigosamente próxima da caixa em que estava Danielle.
— Agora — O Mágico tornou a falar —, peço que todos que estejam com medo fechem os olhos.
Algumas das mulheres do bordel que estavam acompanhando seus clientes fecharam os olhos, mas não conseguiu desviá-los. Nem mesmo quando a serra começou a cortar a madeira, e, em seguida, o corpo de Danielle.
Que permaneceu perfeitamente viva, mesmo serrada ao meio.
Uma rodada imensa de aplausos preencheu o salão conforme diversos homens e mulheres ficavam em pé para aplaudir o Mágico, assim como e faziam.
Danielle foi retirada do palco enquanto o Mágico dispensava os aplausos.
— Não precisam de tudo isso. Estamos apenas começando!
se lembraria de cada detalhe daquele dia para sempre. Como o Mágico tirou um coelho da cartola, fez uma dançarina do bordel sumir do salão, e reaparecer do outro lado, como ele fez surgir colares que segundos antes estavam no pescoço das mulheres.
Cada arquejo, cada surpresa, estariam para sempre gravados na mente da garota.
Quando o show enfim terminou, todo o salão estava em pé, aplaudindo ruidosamente o espetáculo que havia sido trazido até eles. nunca se sentira tão viva como naquele momento, e seu rosto doía porque ela não conseguia parar de sorrir.
— Obrigada por me fazer assistir ao show — ela disse, se virando para .
— Não há de quê. Eu sabia que você ia gostar. — Então, se aproximou dela como se fosse mexer em seu cabelo, tirando do mais puro nada uma flor dali.
O coração de bateu acelerado.
— ! Como você fez isso?!
Ele deu de ombros, como se não fosse nada, mas um pequeno sorriso apareceu em seu rosto.
— Meu pai anda me ensinando uma coisa ou duas.
— Seu pai…?
— ? O que está fazendo aqui?
se virou e encontrou o Mágico encarando seu novo amigo. Os olhos da garota pareciam prestes a saltar de seu rosto.
— Estava mostrando o show para minha nova amiga — respondeu simplesmente.
O olhar do Mágico se direcionou para e para a flor que agora repousava nas mãos da garota, e ela sentiu suas bochechas muito quentes.
— Eu adorei, senhor Mágico! — ela praticamente gritou.
Ele abriu um sorriso pequeno, muito similar com o de quem agora percebia ser seu filho.
— E o que uma criança está fazendo em um bar?
As bochechas dela ficaram mais vermelhas, a excitação sendo substituída pela vergonha.
— Eu moro aqui, senhor Mágico.
— Não precisa me chamar assim, criança. Pode me chamar de sr. Stonehedger.
— E essa é a . — tomou a frente e fez sua apresentação, antes de se virar para a garota. — Ah, será que um dia você vai conseguir nos ver no circo? Lá há tanto mais que você gostaria.
Ela queria. Queria tanto que seu coração doía só de imaginar conhecer um circo de verdade, cheio de outras pessoas mágicas.
Mas aprendera bem cedo que contos de fadas não eram possíveis.
— Sinto muito, , mas eu não posso.
— Por que não? — o garoto perguntou, parecendo decepcionado.
— Porque não tenho dinheiro. E mesmo se tivesse, não poderia sair daqui sozinha. Minha mãe está sempre ocupada no… trabalho.
Ela abaixou os olhos, envergonhada. Não deveria sentir vergonha do trabalho da sua mãe, mas era difícil não sentir quando estava falando com o filho do Mágico.
Que estava a encarando com os olhos estreitados.
— Entendo…
— Sr. Stonehedger! — A voz do sr. Jones os alcançou, e a garota subitamente sentiu um frio gelado. — O que está fazendo aqui? — Mas então, para o pânico de , seu olhar pousou nela. Suas sobrancelhas se franziram. — ! Eu não mandei você ir embora? Peço desculpas, sr. Stonehedger, não imaginei que a pestinha estaria te perturbando, mas não dá para esperar diferente desse tipo de gente, né?
Esse tipo de gente. Pobre. Bastarda. Sem família. Sem amor. Porque o pouco amor que sua mãe poderia lhe oferecer tinha que ser compartilhado com os outros.
O sr. Stonehedger a encarou, sério, antes de se voltar para o sr. Jones.
— E onde estão os pais da criança?
— Não tem pai. A mãe sumiu há um tempo, na melhor das hipóteses conseguiu um dinheiro melhor como amante. — O sr. Jones dispensou-os com a mão, como se interessar-se por qualquer aspecto da vida de fosse uma idiotice.
Deveria ser mesmo.
— Entendo — o Mágico o encarou. — E ela está sendo um inconveniente para você, certo?
— Nunca desejei crias da minha própria mulher, quem dirá de mulheres alheias — ele resmungou.
— Faz sentido. — O sr. Stonehedger assentiu, com muita seriedade, então disse: — O que acha de eu resolver seu problema?
— Como? — As sobrancelhas do sr. Jones se ergueram, e sabia que era sua expressão ao farejar dinheiro.
— Menos uma boca a se alimentar, menos um quarto para ocupar… estamos com espaço no circo. Podemos transformá-la em uma maquiadora ou musicista. Tirá-la desse lugar em que sua presença gera tanto incômodo.
O dono do bar estreitou os olhos, curioso. Por que um homem adulto se interessaria por uma criança? Era isso que o coração de sussurrava enquanto ela tentava acompanhar o que estava acontecendo, sem entender verdadeiramente.
Mas então olhou para ela, o maior de seus sorrisos aparecendo ali, e esticou sua mão para tocar a dela.
— Não seria incrível? Morarmos juntos? Podemos brincar, e você vai poder ver o circo se apresentar todos os dias!
… falando aquelas palavras, com aquele sorriso bonito… só conseguia se lembrar das histórias de príncipe encantado que uma das mulheres do bordel contava. Um homem bonito que salvaria a princesa de um lugar terrível para levá-la ao palácio.
Naquele momento, o palácio parecia muito o circo. E aquele garoto parecia muito o seu príncipe.
ficou tão distraída com todos os seus sentimentos que nem percebeu o sr. Jones se afastar, nem percebeu o sr. Stonehedger se ajoelhar na frente dela, com um sorriso tranquilo.
— O que acha, ? O que acha de ir conosco?
Ela mal conhecia nenhum daqueles dois. Sua mãe sempre dizia para não confiar em nenhum homem, mas onde estava sua mãe agora? E havia algo nos olhos escuros do sr. Stonehedger e de seu filho… Algo que lhe dizia que ali era seu futuro.
Seu lar.
— Acho… — Ela tentou falar, a emoção dificultando suas palavras. — Acho que seria bom, sim.
Os sorriso que Stonehedger pai e filho exibiam eram idênticos, e fizeram algo quente se espalhar pelo peito de .
— Então, a partir de hoje, você é oficialmente membro do grande Circo Stonehedger! — exclamou, tomando a mão dela para comemorarem juntos.
É, o jeito seria pular. Ela respirou fundo, contou até três e… com um impulso, sua mão agarrou a garrafa de vidro.
Quando seus pés pousaram no banco novamente, sentiu que havia sido uma péssima escolha. O banco tremeu terrivelmente, e ela se preparou para cair. Milagrosamente, ele se estabilizou.
Ela chegou na mesa do sr. Keeves já com a garrafa destampada, servindo a bebida marrom enquanto ele e os outros homens observavam as próprias cartas.
— Demorou muito, criança. Não brinque com a minha paciência da próxima vez.
— Sim, senhor.
— Garota, eu te pago um saco de ouro se me contar as cartas dele — o sr. Thorne brincou.
— Nem pense nisso — resmungou o sr. Keeves.
Por Deus, ela só queria que Garret e o sr. Jones retornassem logo. Por que o show daquela noite estava demorando tanto para começar?
Então finalmente — finalmente — o sr. Jones reapareceu, acompanhado de um homem misterioso com roupas pretas e uma cartola da mesma cor. O dono do bar sorria tranquilo e dava tapinhas amigáveis nas costas do desconhecido.
— Tudo pronto para seu show, sr. Stonehedger. Foi difícil instalar a estrutura, mas Garret garantiu que está tudo pronto.
— Sua cara me demonstra suspeita, sr. Jones, mas te garanto que essa prévia do maior show da atualidade será um bom negócio para você. — A voz do homem de cartola era grossa e etérea, como se não pertencesse a esse mundo feio de drogas e prostituição.
— Espero mesmo. — O dono do bar estreitou os olhos. — Os clientes já estão impacientes.
O homem estranho tocou na cartola como um cumprimento, antes de sair para os fundos. Nessa hora, o sr. Jones se virou e deu de cara com o encarando.
— O que está fazendo aqui roubando meu whisky?!
— O sr. Keeves queria Whisky e…
— Chispa daqui, — sr. Jones ralhou, tirando a garrafa com força de suas mãos.
A menina encolheu os ombros e saiu com passos apertados até a escada que levava ao que poderia chamar de casa: um pequeno quarto que dividia com a mãe quando ela não estivesse recebendo um cliente. Senão, precisava pedir abrigo para a cozinheira.
Para sua sorte — ou azar —, a mãe estava desaparecida há duas semanas, então o quarto estava sempre disponível nos últimos tempos.
Uma mão pousou no seu ombro, impedindo-a de continuar. deu um salto e se virou, nervosa, dando de cara com um garoto.
— Calma, não precisa se assustar — ele falou, tirando as mãos dela.
Ela o encarou, dessa vez realmente prestando atenção nele, e sentiu as bochechas esquentarem. Ele com certeza era mais velho, talvez com uns 14 ou 15 anos. Tanto seus olhos quanto seus cabelos ondulados eram escuros, quase pretos. Era esguio, alto e magro, como um adolescente que acabara de ter o corpo esticado. E o mais especial era seu sorriso.
Não era um sorriso muito largo, era verdade, mas parecia transpassar confiança. E, por isso, ela teve que perguntar:
— Quem é você?
— Sou . E você?
— .
— Gostei do seu nome. — Ele assentiu, como se aprovasse.
— Por que você me seguiu? — ela questionou, subindo um degrau para se distanciar.
— Porque não entendi como você ia embora quando o show está prestes a começar!
— O bar tem show todas as semanas — ela replicou.
— É, mas o bar não conhece o grande Mágico do Circo Stonehedger.
— Um mágico? — ela perguntou, subitamente curiosa.
— Não. O Mágico.
Na mesma hora, como se estivesse esperando esse anúncio, as luzes se apagaram, e apenas um feixe de luz branca foi direcionado ao palco, por onde entrou o homem de cartola de antes. O coração de acelerou.
— É ele. O Mágico — sussurrou em seu ouvido.
— Boa noite, boa noite — o Mágico começou a falar, com aquele mesmo tom etéreo e grosso de antes. — É uma honra nos apresentarmos aqui essa noite, representando um pedaço do grande Circo Stonehedger. Para me ajudar essa noite a trazer um pouco de magia para vocês, convido ao palco minha assistente, Danielle.
Do mesmo lugar de onde uma linda mulher vestida como as mulheres do bordel, porém de forma muito mais elegante, com cabelos loiros e olhos azuis, além de um sorriso de quem sabia muitos segredos.
Diversos assobios invadiram o espaço conforme ela entrava, capturando o olhar de todos. nem viu o momento em que uma caixa tão grande que parecia um caixão foi colocado no palco. O Mágico segurou a mão da linda mulher e a ajudou a se deitar dentro da caixa.
— Todos podem ver o fundo da caixa, certo? Observem a parede, o chão, a cabeça e os pés da doce Danielle. E observem-me.
Quando retornou seu olhar para o Mágico, ela soltou um arquejo, e ouviu vários idênticos no salão. Nas mãos do homem, uma grande serra que surgira de repente refletia a luz do holofote, pousando perigosamente próxima da caixa em que estava Danielle.
— Agora — O Mágico tornou a falar —, peço que todos que estejam com medo fechem os olhos.
Algumas das mulheres do bordel que estavam acompanhando seus clientes fecharam os olhos, mas não conseguiu desviá-los. Nem mesmo quando a serra começou a cortar a madeira, e, em seguida, o corpo de Danielle.
Que permaneceu perfeitamente viva, mesmo serrada ao meio.
Uma rodada imensa de aplausos preencheu o salão conforme diversos homens e mulheres ficavam em pé para aplaudir o Mágico, assim como e faziam.
Danielle foi retirada do palco enquanto o Mágico dispensava os aplausos.
— Não precisam de tudo isso. Estamos apenas começando!
se lembraria de cada detalhe daquele dia para sempre. Como o Mágico tirou um coelho da cartola, fez uma dançarina do bordel sumir do salão, e reaparecer do outro lado, como ele fez surgir colares que segundos antes estavam no pescoço das mulheres.
Cada arquejo, cada surpresa, estariam para sempre gravados na mente da garota.
Quando o show enfim terminou, todo o salão estava em pé, aplaudindo ruidosamente o espetáculo que havia sido trazido até eles. nunca se sentira tão viva como naquele momento, e seu rosto doía porque ela não conseguia parar de sorrir.
— Obrigada por me fazer assistir ao show — ela disse, se virando para .
— Não há de quê. Eu sabia que você ia gostar. — Então, se aproximou dela como se fosse mexer em seu cabelo, tirando do mais puro nada uma flor dali.
O coração de bateu acelerado.
— ! Como você fez isso?!
Ele deu de ombros, como se não fosse nada, mas um pequeno sorriso apareceu em seu rosto.
— Meu pai anda me ensinando uma coisa ou duas.
— Seu pai…?
— ? O que está fazendo aqui?
se virou e encontrou o Mágico encarando seu novo amigo. Os olhos da garota pareciam prestes a saltar de seu rosto.
— Estava mostrando o show para minha nova amiga — respondeu simplesmente.
O olhar do Mágico se direcionou para e para a flor que agora repousava nas mãos da garota, e ela sentiu suas bochechas muito quentes.
— Eu adorei, senhor Mágico! — ela praticamente gritou.
Ele abriu um sorriso pequeno, muito similar com o de quem agora percebia ser seu filho.
— E o que uma criança está fazendo em um bar?
As bochechas dela ficaram mais vermelhas, a excitação sendo substituída pela vergonha.
— Eu moro aqui, senhor Mágico.
— Não precisa me chamar assim, criança. Pode me chamar de sr. Stonehedger.
— E essa é a . — tomou a frente e fez sua apresentação, antes de se virar para a garota. — Ah, será que um dia você vai conseguir nos ver no circo? Lá há tanto mais que você gostaria.
Ela queria. Queria tanto que seu coração doía só de imaginar conhecer um circo de verdade, cheio de outras pessoas mágicas.
Mas aprendera bem cedo que contos de fadas não eram possíveis.
— Sinto muito, , mas eu não posso.
— Por que não? — o garoto perguntou, parecendo decepcionado.
— Porque não tenho dinheiro. E mesmo se tivesse, não poderia sair daqui sozinha. Minha mãe está sempre ocupada no… trabalho.
Ela abaixou os olhos, envergonhada. Não deveria sentir vergonha do trabalho da sua mãe, mas era difícil não sentir quando estava falando com o filho do Mágico.
Que estava a encarando com os olhos estreitados.
— Entendo…
— Sr. Stonehedger! — A voz do sr. Jones os alcançou, e a garota subitamente sentiu um frio gelado. — O que está fazendo aqui? — Mas então, para o pânico de , seu olhar pousou nela. Suas sobrancelhas se franziram. — ! Eu não mandei você ir embora? Peço desculpas, sr. Stonehedger, não imaginei que a pestinha estaria te perturbando, mas não dá para esperar diferente desse tipo de gente, né?
Esse tipo de gente. Pobre. Bastarda. Sem família. Sem amor. Porque o pouco amor que sua mãe poderia lhe oferecer tinha que ser compartilhado com os outros.
O sr. Stonehedger a encarou, sério, antes de se voltar para o sr. Jones.
— E onde estão os pais da criança?
— Não tem pai. A mãe sumiu há um tempo, na melhor das hipóteses conseguiu um dinheiro melhor como amante. — O sr. Jones dispensou-os com a mão, como se interessar-se por qualquer aspecto da vida de fosse uma idiotice.
Deveria ser mesmo.
— Entendo — o Mágico o encarou. — E ela está sendo um inconveniente para você, certo?
— Nunca desejei crias da minha própria mulher, quem dirá de mulheres alheias — ele resmungou.
— Faz sentido. — O sr. Stonehedger assentiu, com muita seriedade, então disse: — O que acha de eu resolver seu problema?
— Como? — As sobrancelhas do sr. Jones se ergueram, e sabia que era sua expressão ao farejar dinheiro.
— Menos uma boca a se alimentar, menos um quarto para ocupar… estamos com espaço no circo. Podemos transformá-la em uma maquiadora ou musicista. Tirá-la desse lugar em que sua presença gera tanto incômodo.
O dono do bar estreitou os olhos, curioso. Por que um homem adulto se interessaria por uma criança? Era isso que o coração de sussurrava enquanto ela tentava acompanhar o que estava acontecendo, sem entender verdadeiramente.
Mas então olhou para ela, o maior de seus sorrisos aparecendo ali, e esticou sua mão para tocar a dela.
— Não seria incrível? Morarmos juntos? Podemos brincar, e você vai poder ver o circo se apresentar todos os dias!
… falando aquelas palavras, com aquele sorriso bonito… só conseguia se lembrar das histórias de príncipe encantado que uma das mulheres do bordel contava. Um homem bonito que salvaria a princesa de um lugar terrível para levá-la ao palácio.
Naquele momento, o palácio parecia muito o circo. E aquele garoto parecia muito o seu príncipe.
ficou tão distraída com todos os seus sentimentos que nem percebeu o sr. Jones se afastar, nem percebeu o sr. Stonehedger se ajoelhar na frente dela, com um sorriso tranquilo.
— O que acha, ? O que acha de ir conosco?
Ela mal conhecia nenhum daqueles dois. Sua mãe sempre dizia para não confiar em nenhum homem, mas onde estava sua mãe agora? E havia algo nos olhos escuros do sr. Stonehedger e de seu filho… Algo que lhe dizia que ali era seu futuro.
Seu lar.
— Acho… — Ela tentou falar, a emoção dificultando suas palavras. — Acho que seria bom, sim.
Os sorriso que Stonehedger pai e filho exibiam eram idênticos, e fizeram algo quente se espalhar pelo peito de .
— Então, a partir de hoje, você é oficialmente membro do grande Circo Stonehedger! — exclamou, tomando a mão dela para comemorarem juntos.
CAPÍTULO ÚNICO
A noite trazia o frio para a cidade de Londres, a névoa subindo ao mesmo tempo que o Big Ben badalava, anunciando as oito horas. Muitos se escondiam dentro de casa, aquecidos naquela noite de outono, afinal, a vida social não era muito agitada nessa época do ano.
Mas não eram todos que estavam preocupados com a temperatura. Boa parte da sociedade estava, de fato, fora de casa, protegidos pela grande tenda vermelha do Circo, com luzes que deixavam o interior quente, amarelado e com um ar de magia. Magia atestada pelos gritos assustados e maravilhados da plateia enquanto o Mágico separava o corpo de em dois.
Os aplausos explodiram, abafando os gritos que se tornaram assobios e comemorações, enquanto o Mágico fazia reverências exageradas. sorria, se segurando para não revirar os olhos com a idiotice do amigo. Tanny apareceu para levar seu corpo “cortado” para fora dos olhos do público, de onde ela pôde sair da caixa espelhada, completamente inteira, enquanto Lola saía da caixa espelhada com as pernas.
— Mais uma noite completa — Tanny comemorou, apoiando Lola na saída da caixa.
— Mal posso esperar para sair de Londres. Quero conhecer um lugar mais exótico, como a América!
— Quanta bobagem, Lola! Aqui eles têm um rei — retrucou.
— Como se já não tivéssemos homens com grandes egos o suficiente por aqui.
Como se invocado pela fala de Lola, o Mágico entrou nos bastidores, um pequeno sorriso nos lábios, tirando a cartola preta da cabeça e sacudindo o cabelo, cheio de cachos igualmente negros.
— Harry cronometrou os aplausos: três minutos consecutivos — o Mágico disse, erguendo uma sobrancelha.
— Acho que Harry mentiu para você, — Lola provocou, mas o homem a ignorou e foi direto para sua assistente, abraçando-a.
— Viu, ? Somos um sucesso.
— Você é um sucesso, ! — ela disse, arfando, no meio do abraço quente. Quase como se pudesse se afundar naquelas vestes negras.
— Ah, para. — sacudiu a cabeça, fingindo falsa modéstia, com o sorriso superior ainda nos lábios. — Eu preciso de uma assistente bonita para ganhar tantos aplausos.
O estômago de fez aquela coisa esquisita que sempre fazia quando a elogiava, algo que fazia um calor subir por sua bochecha — e descer para locais estranhos e inexplorados.
— Certo, certo, chega de elogios. É hora de nos arrumarmos para a festa!
— Você só pensa em festa, Lola — Tanny disse, com um sorriso tranquilo.
— E quem trabalharia em um circo sem pensar em festa? — A trapezista sorriu de orelha a orelha.
✨🐇
Uma hora depois, todos já estavam suficientemente bêbados. Todos, menos e os três filhos do adestrador de cães, já que eles não passavam dos onze anos.
Desde seus treze anos, poderia ter usurpado uma bebida sem que nenhum membro se preocupasse tão ardentemente, mas a bebida tinha um cheiro estranho, um cheiro de um passado que ela queria esquecer.
Por isso, ela continuava sóbria, sendo a única que lembraria das histórias malucas partilhadas pelos sem senso.
— , certeza que não quer um pouco? É tão docinho que você nem vai sentir queimar… — Avril, uma das malabaristas mais jovens, tentou mais uma vez.
— Você sabe que ela não gosta, Avril — Tanny bronqueou.
— E você não gostava de subir na corda com medo de cair, mas olha onde você está agora — a malabarista retrucou.
— Tanny está certa, é melhor eu não beber.
— Está bem… Mas ainda precisamos encontrar outras formas de comemorar seu aniversário semana que vem. Não pode ser mais uma festa do pijama.
— Você podia pedir para levá-la para algum lugar especial. Sabe, a Grécia também tem um rei.
— Que bobagem, Lola. O circo não mudaria o curso por mim.
— Talvez mudasse — Avril se intrometeu, sacudindo os cabelos ruivos. — O sr. Stonehedger faria tudo pelo filho. E o filho faria tudo por você.
— A amizade de vocês de fato é bem bonita — Tanny concordou. — Mas ainda gosto mais da ideia de uma festa do pijama.
— Você é tão velha, Tanny! — Lola reclamou.
— E está levando para a mesma direção. Ela nem viveu a juventude e já está pulando para a vida de uma solteirona.
— Não é verdade!
Ninguém ouviu o protesto de , pois um casal bêbado de trapezistas passou bem na hora, quase derrubando o copo bem alcoólico de Avril que, depois de xingá-los de vários nomes possíveis, se virou para .
— Claro que é verdade! Você não gosta de beber…
— É meu jeito — ela retrucou.
— E ainda usa as mesmas roupas puritanas de quando começou a ser uma assistente aos doze anos.
— É uma roupa confortável e…
— Avril tem razão — Lola interrompeu. — Você se lembra de Danielle. Lembra das roupas que ela usava.
— Sim, elas eram…
— Escandalosamente mágicas — as quatro falaram juntas.
— Então por que você não as usa? Você já passou há tempos dos dezesseis.
— Não é isso, Lola, é que…
— Meninas, parem de pressionar a …
— Tanny, mas olha para ela! Por qual motivo ela não usaria as roupas? Não me diga que… — Avril arfou. — Não me diga que está pensando em se casar.
se levantou em um pulo do tronco de madeira.
— E largar o circo? Não! Eu não poderia!
— Então o que te impede? O que te impede de crescer?
— Eu…
— Garotas, olhem só para isso! — Paul, um dos palhaços, começou uma terrível tentativa de malabarismo.
— Caraca, Paul, nunca mais faça isso na frente de ninguém antes que você arranque um olho da pessoa — Avril reclamou, e logo seu foco estava no garoto.
Como todas estavam bêbadas, o assunto foi rapidamente substituído e esquecido, exceto pela mente sóbria de , atormentada pelas perguntas da noite.
Por que não queria crescer?
Ela sacudiu a cabeça, irritada. Estava deixando as palavras tolas de Avril e Lola entrarem em sua cabeça. Precisava falar com a única pessoa que a entenderia e faria com que aquele assunto fosse encerrado: .
Quando ela o havia visto pela última vez? Em algum momento entre o quase streaptease de Verônica e a dança maluca entre os gêmeos Plumer. Ah, ele havia se desviado para perto da barraca de Lisandra, a vidente, talvez para conseguir um fumo diferente e comemorar seus três minutos de aplausos.
— , dance comigo! — implorou o senhor Ian, mas ela apenas sacudiu a cabeça e deu uma risadinha.
— Não dessa vez, mas me sinto lisonjeada com o convite.
Ela se esgueirou de mais bebidas, danças, fogueiras, músicos e loucos, até alcançar a tenda da vidente. Com o som da música mais distante, seus pensamentos se tornaram mais coesos. Percebeu, pelo tecido, que o local estava mal iluminado, talvez apenas algumas velas acesas. E agora seus ouvidos escutavam uma respiração irregular.
agarrou o tecido roxo e puxou lentamente, deixando seus olhos se acostumarem à escuridão até ver a origem do barulho. E se arrepender imediatamente.
Os dois estavam nus, e os peitos de Lisandra não seriam uma imagem fácil de ser esquecida, ainda mais pela forma que balançavam conforme a imprensava por trás em um ritmo rápido.
Aquilo era errado. Muito errado. não deveria mesmo estar ali. Mas algo a manteve presa no lugar por mais cinco segundos. Cinco segundos antes de conseguir fechar enfim a cortina. Andar dez passos para voltar à festa.
E vomitar no primeiro arbusto que viu.
— Meu Deus! vomitou! está bebendo! — Verônica gritou.
A festa inteira comemorou e não teve forças para desmentir por algum motivo estranho. O jeito que um novo ser humano era trazido ao mundo não era, de forma alguma, uma surpresa para ela.
Nascer e crescer em um bar ligado ao bordel era uma experiência única para uma criança. Ainda tinha muitos flashes das garotas semi nuas andando pelo espaço, dos homens passando abertamente a mão, da própria mãe nua, fazendo barulhos estranhos com outros homens, enquanto ela esperava dentro do armário porque cometera o erro de não sair mais cedo. Não, o sexo não era novidade para ela.
Mas ver com outra pessoa, sim. Dentro do mundinho que ela havia criado em sua cabeça, seu melhor amigo sempre estaria ao seu lado. Ela seria sempre sua mulher favorita no mundo todo. Que porra, ela deveria no futuro ser a sua mulher.
Estava ali, claro como a lua cheia daquela noite: sempre havia sido apaixonada por . E, apesar de seu jeito formal e frio com os outros, ele sempre foi carinhoso e gentil com ela. Isso a fez acreditar que, talvez, dentro daquele coração, houvesse amor por ela, como no coração dela havia amor por ele.
Ela não gostava da ideia de crescer porque crescer implicava nisso: que era um homem, e não seu príncipe encantado. Não mais aquele garoto charmoso que tirou uma flor de trás de sua orelha e a salvou de sua vida fadada ao fracasso.
Ela era sempre , a mesma de sempre, a que ele amava e abraçava e cuidava. Sua garotinha, sua melhor amiga.
Mas talvez agora ela não fosse mais. Talvez, pela primeira vez, ela quisesse esquecer as lembranças de uma noite de festa.
Ela olhou para os barris de cerveja e sentiu seu estômago se revirar. O cheiro a enjoava e trazia memórias vívidas demais do passado. Mas a fumaça da fogueira e o gosto de vômito na sua boca abafavam tudo. Talvez tenha sido por isso que ela foi até Harris, que servia uma Lola bem alegrinha, e falou, com a voz trêmula:
— Eu gostaria de um copo, por favor.
✨🐇
Quando abriu os olhos na manhã seguinte, soube imediatamente que aquela havia sido a pior atitude possível que poderia tomar.
Quem havia decidido implementar uma luz tão forte no céu que fazia seu cérebro doer? Voltou a fechar os olhos imediatamente, soltando um grunhido involuntário.
— Ah, nossa festeira voltou à vida! — A voz de Lola entrou em seus ouvidos tão alta quanto fogos de artifício.
— Silêncio, por favor… — colocou uma almofada em cima da cabeça, que logo foi arrancada.
— Você vai se sentir melhor depois disso — Tanny falou, estendendo um copo extremamente suspeito para .
Mas ela não tinha muitas escolhas se não quisesse arrancar a própria cabeça do corpo, então ela aceitou e bebeu. E quase vomitou em seguida.
— Calma! Você precisa engolir — Avril disse, estendendo um copo de água e um pão fresco. — Toma, vai ajudar a tirar o gosto.
— O que deu em você ontem? Não que eu esteja reclamando, mas você parecia tão resoluta a não beber… — Lola a olhou, com mais atenção do que gostaria.
O pão desceu seco pela garganta de quando as lembranças da noite anterior começaram a voltar, mil vezes mais dolorosas que a dor de cabeça da ressaca. A nudez, o prazer, tudo o que ela vira nos olhos de que ela desejou tão intensamente que a bebida apagasse.
Mas as três mulheres ainda a encaravam, querendo ouvir sua resposta, então forçou um sorriso que doeu no seu peito.
— Você e Avril tinham razão. Já passou do tempo de eu crescer e parar de ser uma criança com quem vocês precisam ficar se preocupando.
Lola e Avril deram gritos que doeram na alma de , mas Tanny apenas a encarou, a cabeça virada enquanto pensava.
— Certeza, ? Não queremos te pressionar, e você definitivamente não nos preocupa.
— Eu sei. Mas todo mundo já cresceu, menos eu. Já era hora. — voltou a encostar a cabeça no travesseiro. — Mais tarde eu volto a falar com vocês. Mas só mais tarde. Agora… eu preciso da escuridão.
As mulheres deram risadinhas e saíram do quarto, deixando entregue para suas memórias e sua dor.
Horas depois, a cabeça de tinha parado de girar e ela caminhava até o refeitório. Eram cerca de duas horas da tarde, e o falatório dos artistas almoçando preenchiam o espaço.
tinha seu lugar marcado de sempre. Depois de pegar seu frango com batatas, sentiu seu estômago se apertar conforme se aproximava da mesa da esquerda ocupada apenas por .
Ninguém mais ousava se sentar ali. Era o espaço de e , e aquele lugar sempre pertencera a ela. Só que, naquele dia, ela não sentia a certeza de sempre.
Não sentia que era seu. Não quando olhava para ele e relembrava de seu corpo nu por trás de Verônica.
O amigo logo percebeu a aproximação dela e abriu um sorriso de canto, cortando mais um pedaço de frango enquanto afastava a cartola do espaço que reservara para ela.
— Demorou para aparecer hoje, cheguei a pensar em fazer uma denúncia na delegacia.
— Para de besteira — ela falou, sem conseguir evitar o sorriso, mesmo com o estômago embrulhado. — Só acordei passando mal.
— Você está mal? O que está sentindo? É barriga? É cabeça? Podemos cancelar nosso número de hoje.
— Não, não, já estou bem — ela se apressou a dizer. — Foi só uma ressaca.
estava com um pedaço de frango quase na boca quando congelou no lugar. Segundos depois, ele enfim conseguiu erguer os olhos e encarar a amiga.
— Ressaca? Você, ? Desde quando você bebe?
Um calor subiu no peito da garota, aumentando sua ansiedade.
— Não sou uma criança, já era hora de beber.
— Não acho que você é uma criança — ele disse, calmo. — Só… nunca achei que você gostasse. Pela sua mãe e…
— Algumas coisas precisam ser esquecidas. Ressignificadas. — Ela ignorou o embrulho no estômago enquanto quase cuspia as palavras. — Caramba, , eu já vou fazer 21 anos logo.
— Certo, certo. — Ele sacudiu a cabeça antes de voltar a sorrir. — O que nos leva ao assunto principal.
— Não…
— Sim. Vai, . Qual vai ser o presente desse ano?
— Eu já disse que não preciso de nada!
— Precisar e querer são coisas diferentes. O que você quer?
— Nada!
— Ah, com certeza tem algo escondido nessa sua cabeça. — Ele tirou a cartola da mesa e colocou na cabeça de , tampando a visão da garota pelo tamanho do acessório. — Eu vou ler seus pensamentos. Você quer… um gato?
— Não — ela respondeu, rindo, enquanto tirava a cartola. Mesmo com tudo, ela não conseguia evitar as borboletas no estômago.
— Um sapato novo?
— Não, Lola me deu um novo par pouco antes de virmos a Londres.
— Verdade, os vermelhos. Bom, então uma cabra.
— E o que diabos eu faria com uma cabra?!
— Eu não sei, é o seu desejo secreto.
— Não é meu desejo secreto! — ela exclamou, levemente perturbada com tanta informação.
— Então qual é? Vamos, ! Qual vai ser seu presente?
— Um carrossel! — a garota exclamou, batendo as mãos na mesa e chamando a atenção de várias pessoas. ficou vermelha. — Quero andar de carrossel — ela completou em um murmúrio quase sussurrado.
Mas a cena de não abalou seu amigo em nada. Ele abriu um sorriso de orelha a orelha, um de seus raros sorrisos enormes, que faziam o coração de acelerar como se de fato ela estivesse sendo cortada no meio.
— Excelente! Em cinco dias, teremos uma volta de carrossel. Está marcado, você não pode mais voltar atrás.
— Como se eu fosse conseguir dissuadir você… — ela murmurou, antes de colocar uma batata na boca.
✨🐇
já havia terminado de almoçar e estava rodando na frente do alojamento de Avril havia cinco minutos quando a porta finalmente se abriu.
— Pelo amor de Deus, , um urso faria menos barulho que você. — Avril a encarou com as sobrancelhas bem erguidas. — Fala, o que você quer?
— Preciso da sua ajuda.
— Com o quê? Relacionamentos? Maquiagens?
— Mais com roupas.
— Que ótimo! — Avril bateu palminhas, puxando para dentro do alojamento. — Você precisa de alguma saia diferente? Já sei, vai para um encontro!
— Não, não, eu… Na verdade, eu… — sentiu as mãos tremerem de leve enquanto encarava a amiga. — Estava pensando sobre o que você me disse na festa.
— Querida, foram muitas doses alcoólicas. Preciso que seja mais específica.
— Sobre minhas roupas. De apresentação.
As duas ficaram em silêncio na barraca enquanto Avril a encarava, de olhos arregalados.
— … sei que estávamos falando sobre as bebidas e as roupas, mas não era sério. Você não precisa mudar seu jeito por nós, nós te amamos exatamente assim.
— Eu sei, não é isso, é que… — Mas se calou antes de conseguir falar mais nada.
Avril estreitou os olhos, percebendo a súbita mudez da garota.
— Aconteceu alguma coisa, não? Vai, sabe que pode me contar.
— Não, não foi nada! Eu só… estava refletindo. Sabe, com meu aniversário tão perto, acho que… que me apeguei demais à minha infância e não quis crescer, mas eu já vou fazer 21 anos e eu quero conhecer essa nova ! Uma mais… adulta?
— Você pode ser uma adulta sem nenhuma dessas coisas, . Não é beber e mudar suas roupas que vão te tornar uma adulta, e sim sua forma de encarar o mundo.
— É, mas ter um guarda roupa bonito me ajudaria.
Com aquelas palavras, Avril cedeu. Ela abriu um sorriso e uniu uma mão na outra, fazendo uma palma ressoar.
— Quem eu quero enganar? Esperei por esse dia há anos! — Avril foi até seu armário e tirou um cordão de brilhantes de dentro. — Toma, para você usar junto.
— O quê? Não, eu não poderia!
— Ah, não sei preocupe, é tudo falso. — Avril afastou algo invisível no ar. — E vai ficar linda na roupa. Você já pediu ao sr. Stonehedger?
— Ainda não. Eu meio que esperava que você pudesse pedir no meu lugar — confessou, olhando para baixo.
— Está maluca? Aquele homem te adora. Se você pedir diretamente a ele, ele não só te dará as roupas antigas de Danielle, como te fará roupas novas. Guarde minhas palavras.
Avril tinha razão, mas continuava sem se sentir confortável. Como confrontaria o homem que a salvara e a vira crescer, o mais próximo que tivera de um pai, sobre mudanças tão maduras?
soltou um suspiro e tomou o colar das mãos de Avril.
— Muito obrigada. Vou falar com ele agora mesmo.
— Mal posso esperar pra te ver hoje à noite! Se precisar de algo, é só me falar!
— Eu sei, obrigada!
Avril acenou da porta enquanto se afastava, tomando a temida curva à direita que levava ao escritório do sr. Stonehedger.
Tudo continuava como em todas as suas memórias: não importava em qual país estivessem, as paredes estariam cobertas de quadros com páginas de jornais em diversas línguas emoldurados, todos com um ponto em comum: elogiar o grande Mágico e dono do Circo Stonehedger.
E também sempre teria aquele homem sério e agora grisalho ao centro de tudo isso. O homem que erguia as sobrancelhas e abria um pequeno sorriso quando a via, como naquele momento.
— .
— Olá, sr. Stonehedger.
— Está tudo bem? Posso te ajudar de alguma forma?
Ela puxou a cadeira que ficava de frente para ele. Bom, era ali. Por mais que fosse só uma roupa, ela sentia que tudo mudaria a partir daquele momento.
respirou fundo antes de abrir um sorriso.
— Tenho uma nova ideia para o show.
✨🐇
Os trapezistas estavam saindo de cena com muitos aplausos. enrolou ao máximo que podê de se aproximar da cochia, mas sabia que não tinha mais o que fazer. Sabia que, em um minuto, apareceria no palco "de repente” usando a plataforma subterrânea e chamaria por ela, que desceria pendurada na lira. Ela subiu para encontrar Tanny, que esperava para prepará-la.
— Finalmente! — Tanny sussurrou, ao ver sua cabeça surgir das escadas. — Você estava demoran… — A amiga soltou um arquejo. — Por Deus!
As bochechas de queimaram. Quando se olhou no espelho com a roupa pela primeira vez, ela se sentiu… perfeita.
Estava coberta de lantejoulas, brilhos e pérolas, presos em um corset branco e uma parte de baixo que quase revelava sua bunda. As pernas estavam cobertas por uma meia calça brilhosa, que terminavam em um lindo salto branco. Adornada com colares e joias, o toque final era seu cabelo preso em um lindo coque feito por Avril, com pequenas pérolas presas em seu cabelo escuro e volumoso.
Ela estava escandalosamente mágica, e ela havia amado isso. Mas, diante do olhar de Tanny, parte de sua confiança vacilou.
— O que houve? Você não gostou? — ela perguntou, a voz mais trêmula do que gostaria.
— Não, de forma alguma! — Tanny se apressou em dizer. — Eu só fui pega de surpresa, mas você… está perfeita, .
A garota sorriu, de orelha a orelha, aliviada pela opinião da amiga. Quando contou a Avril e Lola, soube imediatamente que as duas iam amar. Mas, quando pensou em falar com Tanny, vacilou, um leve medo de decepcioná-la rondando em sua cabeça.
Tanny era o mais próximo de uma mãe que havia encontrado, e não podia, de forma alguma, perder outra mãe.
se jogou no peito de Tanny, a abraçando e tirando uma risada da amiga.
— Cuidado, assim você vai estragar seu cabelo! E vamos, é hora da sua entrada triunfal.
Ambas cruzaram os dedos, como faziam toda noite antes de uma performance, antes de Tanny ajudá-la a se sentar na lira. O barulho de aplausos chegou ao ouvido das duas, e elas sabiam que havia entrado no palco.
Agora, era sua vez.
sentiu a corda se desenrolar para sua entrada. Toda noite era assim, mas ali tudo estava diferente. Ela finalmente havia abraçado seu papel como assistente do Mágico, pronta para encantar e distrair as mentes que veriam as ilusões.
Quando a luz quente do holofote se focou nela, uma salva de palmas muito maior do que qualquer outra que já havia escutado tomou conta do lugar. Assobios e gritos acompanhavam sua descida e todos os olhos estavam focados nela.
O olhar de chegou por último. Ele a encarou e, se ela não o conhecesse tão bem, não perceberia o leve arquear da sobrancelha dele, assim como uma tensão em sua mandíbula que denunciavam que ele não estava a par de suas mudanças. Mudanças que faziam com que seus olhos se prendessem em cada pedaço novo exposto de seu corpo.
O ar esquentou subitamente, e não era por causa do holofote. Por um segundo, esqueceu de todas as pessoas os assistindo. Esse era o efeito de sobre ela, por mais que ela tentasse negar.
Quando enfim quebrou o contato visual para se virar para a plateia, o efeito foi quebrado e sentiu como se estivesse respirando pela primeira vez.
— , obrigada por se juntar a nós essa noite — seguiu o roteiro, sempre tão calmo, tão inabalável para o público. — Mas sinto que algo está faltando.
Em um segundo, o colar havia sumido de seu pescoço e agora repousava nas mãos de . Ela fez sua expressão ensaiada de choque enquanto a plateia aplaudia ao perceber o pequenino truque.
Como toda noite, ele rapidamente foi para trás dela prender o colar de volta em seu pescoço. Mas agora, com o corpo dele tão quente atrás dela, e sem o tecido para escondê-la, ela sentia cada toque trocado entre eles, e era inevitável se lembrar de Verônica com ele. A imagem a enjoou e excitou ao mesmo tempo.
Quando a largou para seguir o show, ela se sentia uma bagunça. Precisava se recompor urgentemente para chegar ao final daquela noite. Por Deus, ela conseguira sobreviver a por 10 anos, não seria agora que colapsaria.
O show seguiu como sempre seguia: as pombas brancas que apareciam em suas mãos, o coelho em sua cartola, atravessou a bexiga com uma agulha, a corda ao redor de , cortada e restaurada novamente, pequenas brincadeiras com a plateia e, enfim, o grande show da noite.
Aquele momento era sempre o mais aguardado, quando entrava na caixa e era serrada. Tinha sido a parte preferida de ao ver o show pela primeira vez. Por isso, quando traziam a caixa que ela sabia agora que estava com Lola, que estaria usando uma meia calça e sapatos iguais a dela, ela sentia a expectativa de entrar na sua metade. Pensava se o público perceberia que ela não havia deitado, e que aquelas pernas eram de outra pessoa. Se a mágica continuaria funcionando.
Mas sempre funcionava. O público foi à loucura mais uma vez, com ainda mais aplausos do que os de sua entrada, que arrepiaram completamente o corpo de . Enquanto Tanny arrastava mais uma vez a caixa para fora e tirava Lola se dentro do compartimento, não conseguia parar de sorrir.
A noite tinha sido perfeita. Tudo havia sido mágico e, com aquelas roupas, era como se ela tivesse se tornado ainda mais parte da magia. Não mais a garotinha assustada e encantada que viera do bar. Mas uma mulher que era capaz o suficiente para ser a nova assistente.
ainda estava saindo da caixa sorrindo de orelha a orelha quando voltou para o backstage, o rosto imperturbável como sempre.
— E aí? Qual foi a contagem de Harry essa noite? — Lola o provocou, mas ele nem sequer escutou, virando-se direto para sua assistente.
— ? Uma palavrinha, por favor.
engoliu em seco e encarou Lola e Tanny, pensando no que havia feito de errado. As amigas, porém, não demonstraram achar estranho. Afinal, aquele era o de sempre para todos.
Para todos, menos ela.
— Claro. — forçou um sorriso. — Até a festa, meninas.
— Até!
seguiu , o barulho dos saltos ecoando conforme eles saíram da tenda pelos fundos. logo reconheceu o caminho para o escritório de .
O local era como uma miniatura do escritório do sr. Stonehedger, com menos reportagens sobre o novo Mágico, uma mesa de madeira com alguns livros de grandes mágicos em cima e algumas velas que acendia lentamente, enquanto o coração de batia desesperado no peito.
— Feche a porta, por favor.
Tão formal e sério. nem ousou desobedecer e, assim que ouviu o barulho da porta se fechando, se virou para .
E o olhar dele esquentou cem vezes mais do que o que ela havia recebido durante o show. Dessa vez, ele não teve descrição nenhuma ao encarar cada pedaço do corpo dela, deixando completamente vermelha.
— Onde arranjou essas roupas?
— Seu pai me deu quando conversei com ele hoje mais cedo — ela respondeu, tentando não gaguejar.
— Então isso foi ideia sua? — Ele ergueu uma sobrancelha.
— Achei que deixaria a performance mais profissional — ela rebateu, sentindo-se na necessidade de se defender. — Como quando era Danielle.
— Você não precisa vestir isso para ser profissional, você já é uma profissional.
— Eu sei, mas eu quero. Eu gostei tanto de vestir essa roupa e me sentir tão…
— Escandalosamente mágica — ele completou por ela.
Os dois sorriram um para o outro depois disso e boa parte da tensão se desfez. Ela ainda confiava mais nele do que em qualquer outra pessoa desse mundo.
— O que deu hoje em você para mudar tanto?
Ele a olhava como se alguém tivesse colocado uma arma em sua cabeça e feito com que ela se transformasse. Ela teve que segurar uma risada.
— Eu não estou sendo forçada a nada, , mas eu quis mudar. A princípio, talvez não por mim, mas eu quero experimentar coisas novas. — As palavras não paravam de sair de sua boca, como se todos os pensamentos que cercavam sua cabeça nas últimas 24 horas precisassem ser exposto para aquele que a conhecia melhor. — Talvez eu não volte mais a beber, mas eu gostei de ao menos tentar e vencer esse bloqueio. E definitivamente amei usar essa roupa. Estive me privando de tanta coisa ao meu redor por medo de amadurecer sem perceber que estava sendo deixada para trás. Todo mundo cresceu, e eu era a única que estava se recusando.
— Mas, , de todos nós, você é quem mais amadureceu — ele falou, sério. — Você sempre soube lidar com crises e entender as nuances da vida. Nunca se deixou levar pela opinião de ninguém e nem deixou um passado ruim te assombrar para sempre.
— Eu só fiz o mínimo — basicamente sussurrou.
— Não, você não entende? Você fez tudo.
finalmente a puxou para um abraço, como na noite passada. Amava os abraços dele, eram quentes e raros, guardados só para ela.
E talvez outras mulheres, mas ela teria que lidar com aquilo.
Parecendo ler sua mente, se afastou um pouco para olhar diretamente em seus olhos.
— O que você quis dizer que não quis mudar a princípio por você?
Maldito homem observador. se xingou mentalmente por deixar aquilo escapar enquanto sentia o rosto ficar vermelho.
— Não… Não é nada, deixa pra lá.
— Está escondendo coisas de mim, ? Justo de mim?
— Não me olhe assim, eu sei que você também tem seus segredos — rebateu, irritada. Ora, quem ele pensava que era para acusá-la assim?
— Segredos? De você?
— Você não me conta tudo da sua vida, eu sei. — Ela o olhou, levantando uma sobrancelha. — Depois de tanto tempo, achou que eu não iria perceber?
O rosto de ficou subitamente pálido, de uma maneira que não esperava. Será que ele não queria que ela descobrisse sobre Verônica de jeito nenhum? Será que o sr. Stonehedger não aprovava a relação?
— Olha, . — respirou fundo, passando a mão no cabelo em um gesto nervoso. — Desculpa nunca ter te contado. Eu devia imaginar que, em algum momento, ficaria óbvio e você perceberia. Mas eu tive tanto medo de estragar nossa amizade… Eu sei que é ridículo e eu prometo que estou tentando parar. Estou mesmo, eu juro.
— Você não precisa parar. Não por mim — ela respondeu, tentando esconder que estaria bem feliz na verdade se ele parasse.
— Mas eu vou. Não quero que seja um desconforto ter um melhor amigo apaixonado por você — falou, quase em um desabafo.
Naquele momento, a cabeça de começou a girar e o tempo andou mais devagar. Não podia ser. Seus ouvidos deviam estar brigados com seu cérebro e não estavam conseguindo entender a situação.
— Espera aí… — começou, devagar. — Você disse que está apaixonado… por mim? — Seu coração batia rápido, mas ela não queria nutri-lo de esperanças.
As sobrancelhas de se franziram.
— Sim. Você não estava falando disso? Sobre como é óbvio que eu gosto de você?
— Na verdade, eu estava falando sobre o seu caso com Verônica. — começou a se embolar nas palavras. — Eu vi vocês juntos ontem a noite na tenda.
piscou, em silêncio.
— Você… viu?
— É. Vi mais coisas do que deveria.
— Ah. Certo. Certo, tudo bem — ele disse, então começou a andar em círculos. — Então, você não sabia sobre…
— Você estava falando sério? — ela perguntou, delicadamente. — Sobre…
— Sim. Eu poderia fingir que não, mas até que me fez bem finalmente falar. Então sim, , eu estou apaixonado por você. Há um bom tempo, na verdade.
Fogos de artifício explodiram dentro de , preenchendo cada parte do seu corpo de pura eletricidade conforme ela associava aquele momento com o qual ela havia sonhado tantas vezes antes de dormir. E tinha sido melhor do que qualquer coisa que sua imaginação pudesse criar.
Um sorriso gigantesco começou a se abrir em seu rosto. olhava para a parede, tentando manter a postura e fingir que não se importava.
— Mas não se preocupe, isso vai parar — ele completou, calmo. — Não quero que isso seja um desconforto para você e…
— Eu também, .
Ele a encarou, confuso.
— O quê?
— Eu também estou apaixonada por você.
Ele a encarou, sem parecer acreditar no que escutava. o entendia, porque era exatamente como se sentira a poucos minutos atrás.
— , não quero que confunda o carinho que sente por mim com amor. Sei que está se sentindo pressionada por meus sentimentos, mas…
— Para de tentar definir o que eu sinto, seu arrogante — ela o repreendeu, sem conseguir deixar de sorrir. — Eu te amo e já sabia disso muito antes de você se declarar. Eu sabia disso desde o dia em que te conheci.
As palavras começaram a alcançar o coração de e ela podia ler seu rosto tão familiar: incredulidade, esperança e felicidade. O show antes podia ter sido incrível, mas aquele momento que estava sendo verdadeiramente mágico.
— …
Antes que ele pudesse falar mais alguma coisa, fez o que sonhou por tantos anos: jogou-se nos braços de e encostou os lábios no dele.
Milhares de partículas elétricas viajaram por seu corpo, fazendo com que arfasse com o pequeno toque. Nunca havia tido uma reação como aquela em um simples beijo, mas ali estava a diferença: não havia nada de simples em beijar . Mil vezes melhor que qualquer sonho.
segurou pela cintura e aprofundou o beijo, fazendo-a arfar. Sim, ela estava mudada. Mas em todas as suas versões, o coração de seria dele, e o dele seria dela. E ambos tentavam demonstrar isso com um toque urgente e quente, um pouco atrapalhado, mas completamente entregue.
A roupa reveladora de fazia com que qualquer toque acidental se tornasse mais intenso, até que eles pararam de ser acidentais. Quando sequer ameaçou se afastar dos seios de , a garota trouxe a mão dele de volta.
— Tira minha roupa — ela sussurrou, inebriada por aquele calor.
, desorientado, deu um passo para trás.
— , não precisamos ir tão rápido, nós temos tempo e…
— Não. Eu quero agora. — Ela parou e o encarou. — A não ser que você não queira. Eu entendo.
— Eu quero. Deus, como eu quero — ele falou, desesperado. Ela nunca ouvira aquele tom antes na boca dele, e se derreteu imediatamente.
Não houve mais hesitação. As fitas do corset foram afrouxadas e a peça deslizou para o chão, deixando os seios de desnudos.
paralisou, encarando a região revelada.
— … Caramba, você é uma perfeição.
Com a mão levemente trêmula, se aproximou até tocar o seio direito de . Em resposta, a garota soltou um gemido alto, surpresa que um toque tão leve podia fazê-la sentir tanto.
— , isso é muito bom. Faz de novo.
— Não precisa pedir duas vezes.
E ele fez. Com a mão e com a boca. Com um pingo de lucidez que mal sobrevivia àquele toque, , enquanto se contorcia, começou a tirar as roupas pretas de , deixando-o livre para ela assim como ela estava para ele.
Ainda com a boca nela, ele a ajudou a tirar todas as peças superiores, revelando um peitoral que sonhava com por todas as tardes nos rios e mares que eles conheceram e nadaram durante os percursos do circo. E, quando ela estendeu a mão, encontrou o peitoral duro e quente. Mais abaixo, encontrou outra coisa ainda mais dura e quente.
— — ele falou, sôfrego —, você pode mudar de ideia. Se quiser parar, nós podemos. A qualquer momento.
— Eu não quero parar — ela revidou, quase brava. Queria que ele continuasse com aqueles beijos.
— Mas promete. Promete que me fala se quiser.
derreteu ao ver o jeito que ele a encarava, doce e sofrido. , sempre cuidando dela. Acima de tudo, seu melhor amigo.
— Eu prometo. Me prometa também. Que vai falar se quiser parar.
— Eu prometo.
— Ótimo. Agora continue.
Ela trouxe a cabeça dele de volta para o seu seio, e mal começou a gemer quando sentiu as mãos dele percorrerem suas pernas, fazendo com que ela se arrepiasse por completo. Depois de passar por sua bunda e alcançar o alto do quadril, deslizou o restante das roupas para baixo. Sem mais nenhuma barreira, ele se afastou de leve.
— Certo, temos que ter algum apoio. Merda, não temos uma cama aqui.
— Tem uma mesa — falou.
— Não queria que sua primeira vez fosse em uma mesa.
— Eu até gosto da ideia. Sabe, foi muito sexy ver você com a Verônica. Me deixou morta de ciúmes, mas bem curiosa também.
— , quem diria que você é uma garota safada — ele falou, erguendo uma sobrancelha e exibindo aquele sorriso pequeno que ela amava.
— Olha onde você me conheceu, deveria prever isso.
— Deveria prever que minha garota é curiosa.
O peito de inflou ao escutar chamando-a de minha garota. Ainda estava sorrindo quando ele a ergueu no ar e a colocou em cima da mesa, afastando as pernas dela de forma que ele pudesse olhar sua intimidade.
Ela deveria sentir vergonha de estar tão exposta, mas o olhar de adoração de fazia com que qualquer vergonha sumisse. Isso, e o fato de ele ter deslizado um dedo para dentro dela, fazendo-a soltar um grito e sensações nunca antes experimentadas cruzarem seu corpo.
— Você já tá bem molhada… Mas pode ficar mais, não pode?
— Sim, eu posso — ela falou, no meio de um arquejo.
— Então você sabe que pode. Já se tocou, ? Já se tocou pensando em mim.
Ela fechou os olhos conforme sentia o dedo dele entrar e sair dela.
— Sim — ela arfou. — Tantas vezes…
— E você sonhava que eu fazia isso?
— Isso… e mais.
— Mais o que, ? — ele perguntou, e sua voz ficou mais grossa. A calça de parecia prestes a explodir e ela não parava de tirá-la mentalmente.
— Primeiro, você tirava a calça em todas as minhas fantasias.
Ele arqueou uma sobrancelha, compreendendo o que ela queria, então com a mão que não estava dentro dela, ele tirou os botões da última peça que restava e se expôs, de forma que eles ficassem iguais em sua nudez.
E ele era lindo. se apertou involuntariamente ao redor do dedo de ao vê-lo.
— Porra… Eu quero que você faça isso com o meu pau.
— Eu também quero. Faz parte da minha fantasia — ela confessou. — Você me segurava pelo pescoço enquanto colocava dentro de mim. De frente. E depois de costas.
— , você é uma pervertida. Eu não consigo mais esperar.
— Eu não quero que você espere.
Ela se inclinou e alcançou o pau dele, que ela conduziu até a sua entrada. Os olhos negros de estavam enevoados conforme ele tirava o dedo de dentro dela e colocava dentro de sua boca.
Ah, aquela era com certeza a cena mais sexy que ela já havia visto. Mas não imaginava que poderia ficar ainda melhor quando ele se inclinou para beijá-la, com o gosto dela, conforme seu pau enfim entrava.
gritou no meio do beijo, e diminuiu a velocidade, indo com muita calma.
— Você está bem?! — ele a encarou, desesperado, embora ela pudesse ver que ele estava louco para continuar.
Assim como ela.
— Estou. Só foi muito… intenso. Mas está muito bom, eu juro.
— Eu vou devagar, eu prometo.
— Não! Eu não quero que você vá devagar.
Os olhos de então se transformaram em desejo conforme ele fechou mão ao redor do pescoço dela e empurrou mais para dentro. não conseguia manter a boca fechada conforme ele investia profundamente nela, principalmente depois que sua mão retornou e começou a masturbá-la.
Em nenhuma fantasia a comia em cima de uma mesa, mas aquela com certeza iria para o topo da sua lista.
Em uma investida específica, o ângulo foi intenso demais e viu o mundo explodir diante dos seus olhos conforme ela se desfazia no orgasmo mais intenso que já havia sentido. Seu gemido se misturou com o de conforme ela sentia as contrações ao redor do pau dele e arranhava suas costas, desnorteada com aquela sensação.
— Você é fantástica em absolutamente tudo, . Eu deveria imaginar que também seria fantástica gozando.
Quando o mundo voltou a existir ao redor dela, retirou lentamente o pau de dentro dela, enquanto corria para pegar um papel em algum lugar da mesa.
— , volte aqui — ordenou, e ele estava de volta na mesma hora.
— O que foi? precisa de alguma coisa?
— Sim, preciso.
saltou da mesa, as pernas levemente bambas conforme ela se virava de costas e empinava a bunda na direção de .
— Minha fantasia ainda não terminou.
— .
— Não, não, não. É minha primeira vez, e nós vamos fazer do jeito que eu quero. E eu quero que você goze também.
parecia um cachorrinho perdido, mas retomou o controle na mesma hora em que seu pau voltou a deslizar dentro dela. começou a movimentar a bunda, sentindo tudo ainda mais intenso agora que ela havia gozado, e percebendo que faltava muito pouco para ele também.
— Você é tão gostoso, . E lindo. Você é tão lindo, sabia?
— Não. Nada se compara a sua beleza. Você é um anjo dos céus, .
Na mesma hora, jogou a bunda com um pouco de mais força na direção dele, e explodiu.
amou ser o motivo para a perda de controle dele. Amou ser o motivo do seu orgasmo e de seu rosto completamente hipnotizado conforme ela afastava a bunda e voltava a se virar para ele, agora sim pegando os papéis que havia achado antes.
— Obrigada por uma primeira vez perfeita com a pessoa que eu amo, — ela disse, abrindo um sorriso.
Ele parou no lugar, a encarando, e então abriu o maior sorriso que já havia visto em seu rosto, o que fez seu coração errar uma batida.
— Eu que agradeço. Não existe nada mais lindo do que te ver sorrir e falar que me ama nua. Acho que esse é o paraíso.
— Que nada, nós estamos expulsos do paraíso. Fizemos sexo fora do casamento, certo?
— Não é possível que algo tão bom assim não seja de Deus.
— Então, quando a gente morrer, vamos ter que garantir. Se eu ganhar, você vai ter que conversar com o Diabo e pedir para ele aliviar minha dor.
— E se eu ganhar, vamos falar com Deus e conseguir uma casa onde possamos fazer isso todo dia.
Os dois sorriam um para o outro, aquele sorriso familiar da infância que havia se transformado em tão mais.
parou para pensar, olhando nu sorrindo para ela, que talvez crescer fosse na verdade maravilhoso.
Mas não eram todos que estavam preocupados com a temperatura. Boa parte da sociedade estava, de fato, fora de casa, protegidos pela grande tenda vermelha do Circo, com luzes que deixavam o interior quente, amarelado e com um ar de magia. Magia atestada pelos gritos assustados e maravilhados da plateia enquanto o Mágico separava o corpo de em dois.
Os aplausos explodiram, abafando os gritos que se tornaram assobios e comemorações, enquanto o Mágico fazia reverências exageradas. sorria, se segurando para não revirar os olhos com a idiotice do amigo. Tanny apareceu para levar seu corpo “cortado” para fora dos olhos do público, de onde ela pôde sair da caixa espelhada, completamente inteira, enquanto Lola saía da caixa espelhada com as pernas.
— Mais uma noite completa — Tanny comemorou, apoiando Lola na saída da caixa.
— Mal posso esperar para sair de Londres. Quero conhecer um lugar mais exótico, como a América!
— Quanta bobagem, Lola! Aqui eles têm um rei — retrucou.
— Como se já não tivéssemos homens com grandes egos o suficiente por aqui.
Como se invocado pela fala de Lola, o Mágico entrou nos bastidores, um pequeno sorriso nos lábios, tirando a cartola preta da cabeça e sacudindo o cabelo, cheio de cachos igualmente negros.
— Harry cronometrou os aplausos: três minutos consecutivos — o Mágico disse, erguendo uma sobrancelha.
— Acho que Harry mentiu para você, — Lola provocou, mas o homem a ignorou e foi direto para sua assistente, abraçando-a.
— Viu, ? Somos um sucesso.
— Você é um sucesso, ! — ela disse, arfando, no meio do abraço quente. Quase como se pudesse se afundar naquelas vestes negras.
— Ah, para. — sacudiu a cabeça, fingindo falsa modéstia, com o sorriso superior ainda nos lábios. — Eu preciso de uma assistente bonita para ganhar tantos aplausos.
O estômago de fez aquela coisa esquisita que sempre fazia quando a elogiava, algo que fazia um calor subir por sua bochecha — e descer para locais estranhos e inexplorados.
— Certo, certo, chega de elogios. É hora de nos arrumarmos para a festa!
— Você só pensa em festa, Lola — Tanny disse, com um sorriso tranquilo.
— E quem trabalharia em um circo sem pensar em festa? — A trapezista sorriu de orelha a orelha.
Uma hora depois, todos já estavam suficientemente bêbados. Todos, menos e os três filhos do adestrador de cães, já que eles não passavam dos onze anos.
Desde seus treze anos, poderia ter usurpado uma bebida sem que nenhum membro se preocupasse tão ardentemente, mas a bebida tinha um cheiro estranho, um cheiro de um passado que ela queria esquecer.
Por isso, ela continuava sóbria, sendo a única que lembraria das histórias malucas partilhadas pelos sem senso.
— , certeza que não quer um pouco? É tão docinho que você nem vai sentir queimar… — Avril, uma das malabaristas mais jovens, tentou mais uma vez.
— Você sabe que ela não gosta, Avril — Tanny bronqueou.
— E você não gostava de subir na corda com medo de cair, mas olha onde você está agora — a malabarista retrucou.
— Tanny está certa, é melhor eu não beber.
— Está bem… Mas ainda precisamos encontrar outras formas de comemorar seu aniversário semana que vem. Não pode ser mais uma festa do pijama.
— Você podia pedir para levá-la para algum lugar especial. Sabe, a Grécia também tem um rei.
— Que bobagem, Lola. O circo não mudaria o curso por mim.
— Talvez mudasse — Avril se intrometeu, sacudindo os cabelos ruivos. — O sr. Stonehedger faria tudo pelo filho. E o filho faria tudo por você.
— A amizade de vocês de fato é bem bonita — Tanny concordou. — Mas ainda gosto mais da ideia de uma festa do pijama.
— Você é tão velha, Tanny! — Lola reclamou.
— E está levando para a mesma direção. Ela nem viveu a juventude e já está pulando para a vida de uma solteirona.
— Não é verdade!
Ninguém ouviu o protesto de , pois um casal bêbado de trapezistas passou bem na hora, quase derrubando o copo bem alcoólico de Avril que, depois de xingá-los de vários nomes possíveis, se virou para .
— Claro que é verdade! Você não gosta de beber…
— É meu jeito — ela retrucou.
— E ainda usa as mesmas roupas puritanas de quando começou a ser uma assistente aos doze anos.
— É uma roupa confortável e…
— Avril tem razão — Lola interrompeu. — Você se lembra de Danielle. Lembra das roupas que ela usava.
— Sim, elas eram…
— Escandalosamente mágicas — as quatro falaram juntas.
— Então por que você não as usa? Você já passou há tempos dos dezesseis.
— Não é isso, Lola, é que…
— Meninas, parem de pressionar a …
— Tanny, mas olha para ela! Por qual motivo ela não usaria as roupas? Não me diga que… — Avril arfou. — Não me diga que está pensando em se casar.
se levantou em um pulo do tronco de madeira.
— E largar o circo? Não! Eu não poderia!
— Então o que te impede? O que te impede de crescer?
— Eu…
— Garotas, olhem só para isso! — Paul, um dos palhaços, começou uma terrível tentativa de malabarismo.
— Caraca, Paul, nunca mais faça isso na frente de ninguém antes que você arranque um olho da pessoa — Avril reclamou, e logo seu foco estava no garoto.
Como todas estavam bêbadas, o assunto foi rapidamente substituído e esquecido, exceto pela mente sóbria de , atormentada pelas perguntas da noite.
Por que não queria crescer?
Ela sacudiu a cabeça, irritada. Estava deixando as palavras tolas de Avril e Lola entrarem em sua cabeça. Precisava falar com a única pessoa que a entenderia e faria com que aquele assunto fosse encerrado: .
Quando ela o havia visto pela última vez? Em algum momento entre o quase streaptease de Verônica e a dança maluca entre os gêmeos Plumer. Ah, ele havia se desviado para perto da barraca de Lisandra, a vidente, talvez para conseguir um fumo diferente e comemorar seus três minutos de aplausos.
— , dance comigo! — implorou o senhor Ian, mas ela apenas sacudiu a cabeça e deu uma risadinha.
— Não dessa vez, mas me sinto lisonjeada com o convite.
Ela se esgueirou de mais bebidas, danças, fogueiras, músicos e loucos, até alcançar a tenda da vidente. Com o som da música mais distante, seus pensamentos se tornaram mais coesos. Percebeu, pelo tecido, que o local estava mal iluminado, talvez apenas algumas velas acesas. E agora seus ouvidos escutavam uma respiração irregular.
agarrou o tecido roxo e puxou lentamente, deixando seus olhos se acostumarem à escuridão até ver a origem do barulho. E se arrepender imediatamente.
Os dois estavam nus, e os peitos de Lisandra não seriam uma imagem fácil de ser esquecida, ainda mais pela forma que balançavam conforme a imprensava por trás em um ritmo rápido.
Aquilo era errado. Muito errado. não deveria mesmo estar ali. Mas algo a manteve presa no lugar por mais cinco segundos. Cinco segundos antes de conseguir fechar enfim a cortina. Andar dez passos para voltar à festa.
E vomitar no primeiro arbusto que viu.
— Meu Deus! vomitou! está bebendo! — Verônica gritou.
A festa inteira comemorou e não teve forças para desmentir por algum motivo estranho. O jeito que um novo ser humano era trazido ao mundo não era, de forma alguma, uma surpresa para ela.
Nascer e crescer em um bar ligado ao bordel era uma experiência única para uma criança. Ainda tinha muitos flashes das garotas semi nuas andando pelo espaço, dos homens passando abertamente a mão, da própria mãe nua, fazendo barulhos estranhos com outros homens, enquanto ela esperava dentro do armário porque cometera o erro de não sair mais cedo. Não, o sexo não era novidade para ela.
Mas ver com outra pessoa, sim. Dentro do mundinho que ela havia criado em sua cabeça, seu melhor amigo sempre estaria ao seu lado. Ela seria sempre sua mulher favorita no mundo todo. Que porra, ela deveria no futuro ser a sua mulher.
Estava ali, claro como a lua cheia daquela noite: sempre havia sido apaixonada por . E, apesar de seu jeito formal e frio com os outros, ele sempre foi carinhoso e gentil com ela. Isso a fez acreditar que, talvez, dentro daquele coração, houvesse amor por ela, como no coração dela havia amor por ele.
Ela não gostava da ideia de crescer porque crescer implicava nisso: que era um homem, e não seu príncipe encantado. Não mais aquele garoto charmoso que tirou uma flor de trás de sua orelha e a salvou de sua vida fadada ao fracasso.
Ela era sempre , a mesma de sempre, a que ele amava e abraçava e cuidava. Sua garotinha, sua melhor amiga.
Mas talvez agora ela não fosse mais. Talvez, pela primeira vez, ela quisesse esquecer as lembranças de uma noite de festa.
Ela olhou para os barris de cerveja e sentiu seu estômago se revirar. O cheiro a enjoava e trazia memórias vívidas demais do passado. Mas a fumaça da fogueira e o gosto de vômito na sua boca abafavam tudo. Talvez tenha sido por isso que ela foi até Harris, que servia uma Lola bem alegrinha, e falou, com a voz trêmula:
— Eu gostaria de um copo, por favor.
Quando abriu os olhos na manhã seguinte, soube imediatamente que aquela havia sido a pior atitude possível que poderia tomar.
Quem havia decidido implementar uma luz tão forte no céu que fazia seu cérebro doer? Voltou a fechar os olhos imediatamente, soltando um grunhido involuntário.
— Ah, nossa festeira voltou à vida! — A voz de Lola entrou em seus ouvidos tão alta quanto fogos de artifício.
— Silêncio, por favor… — colocou uma almofada em cima da cabeça, que logo foi arrancada.
— Você vai se sentir melhor depois disso — Tanny falou, estendendo um copo extremamente suspeito para .
Mas ela não tinha muitas escolhas se não quisesse arrancar a própria cabeça do corpo, então ela aceitou e bebeu. E quase vomitou em seguida.
— Calma! Você precisa engolir — Avril disse, estendendo um copo de água e um pão fresco. — Toma, vai ajudar a tirar o gosto.
— O que deu em você ontem? Não que eu esteja reclamando, mas você parecia tão resoluta a não beber… — Lola a olhou, com mais atenção do que gostaria.
O pão desceu seco pela garganta de quando as lembranças da noite anterior começaram a voltar, mil vezes mais dolorosas que a dor de cabeça da ressaca. A nudez, o prazer, tudo o que ela vira nos olhos de que ela desejou tão intensamente que a bebida apagasse.
Mas as três mulheres ainda a encaravam, querendo ouvir sua resposta, então forçou um sorriso que doeu no seu peito.
— Você e Avril tinham razão. Já passou do tempo de eu crescer e parar de ser uma criança com quem vocês precisam ficar se preocupando.
Lola e Avril deram gritos que doeram na alma de , mas Tanny apenas a encarou, a cabeça virada enquanto pensava.
— Certeza, ? Não queremos te pressionar, e você definitivamente não nos preocupa.
— Eu sei. Mas todo mundo já cresceu, menos eu. Já era hora. — voltou a encostar a cabeça no travesseiro. — Mais tarde eu volto a falar com vocês. Mas só mais tarde. Agora… eu preciso da escuridão.
As mulheres deram risadinhas e saíram do quarto, deixando entregue para suas memórias e sua dor.
Horas depois, a cabeça de tinha parado de girar e ela caminhava até o refeitório. Eram cerca de duas horas da tarde, e o falatório dos artistas almoçando preenchiam o espaço.
tinha seu lugar marcado de sempre. Depois de pegar seu frango com batatas, sentiu seu estômago se apertar conforme se aproximava da mesa da esquerda ocupada apenas por .
Ninguém mais ousava se sentar ali. Era o espaço de e , e aquele lugar sempre pertencera a ela. Só que, naquele dia, ela não sentia a certeza de sempre.
Não sentia que era seu. Não quando olhava para ele e relembrava de seu corpo nu por trás de Verônica.
O amigo logo percebeu a aproximação dela e abriu um sorriso de canto, cortando mais um pedaço de frango enquanto afastava a cartola do espaço que reservara para ela.
— Demorou para aparecer hoje, cheguei a pensar em fazer uma denúncia na delegacia.
— Para de besteira — ela falou, sem conseguir evitar o sorriso, mesmo com o estômago embrulhado. — Só acordei passando mal.
— Você está mal? O que está sentindo? É barriga? É cabeça? Podemos cancelar nosso número de hoje.
— Não, não, já estou bem — ela se apressou a dizer. — Foi só uma ressaca.
estava com um pedaço de frango quase na boca quando congelou no lugar. Segundos depois, ele enfim conseguiu erguer os olhos e encarar a amiga.
— Ressaca? Você, ? Desde quando você bebe?
Um calor subiu no peito da garota, aumentando sua ansiedade.
— Não sou uma criança, já era hora de beber.
— Não acho que você é uma criança — ele disse, calmo. — Só… nunca achei que você gostasse. Pela sua mãe e…
— Algumas coisas precisam ser esquecidas. Ressignificadas. — Ela ignorou o embrulho no estômago enquanto quase cuspia as palavras. — Caramba, , eu já vou fazer 21 anos logo.
— Certo, certo. — Ele sacudiu a cabeça antes de voltar a sorrir. — O que nos leva ao assunto principal.
— Não…
— Sim. Vai, . Qual vai ser o presente desse ano?
— Eu já disse que não preciso de nada!
— Precisar e querer são coisas diferentes. O que você quer?
— Nada!
— Ah, com certeza tem algo escondido nessa sua cabeça. — Ele tirou a cartola da mesa e colocou na cabeça de , tampando a visão da garota pelo tamanho do acessório. — Eu vou ler seus pensamentos. Você quer… um gato?
— Não — ela respondeu, rindo, enquanto tirava a cartola. Mesmo com tudo, ela não conseguia evitar as borboletas no estômago.
— Um sapato novo?
— Não, Lola me deu um novo par pouco antes de virmos a Londres.
— Verdade, os vermelhos. Bom, então uma cabra.
— E o que diabos eu faria com uma cabra?!
— Eu não sei, é o seu desejo secreto.
— Não é meu desejo secreto! — ela exclamou, levemente perturbada com tanta informação.
— Então qual é? Vamos, ! Qual vai ser seu presente?
— Um carrossel! — a garota exclamou, batendo as mãos na mesa e chamando a atenção de várias pessoas. ficou vermelha. — Quero andar de carrossel — ela completou em um murmúrio quase sussurrado.
Mas a cena de não abalou seu amigo em nada. Ele abriu um sorriso de orelha a orelha, um de seus raros sorrisos enormes, que faziam o coração de acelerar como se de fato ela estivesse sendo cortada no meio.
— Excelente! Em cinco dias, teremos uma volta de carrossel. Está marcado, você não pode mais voltar atrás.
— Como se eu fosse conseguir dissuadir você… — ela murmurou, antes de colocar uma batata na boca.
já havia terminado de almoçar e estava rodando na frente do alojamento de Avril havia cinco minutos quando a porta finalmente se abriu.
— Pelo amor de Deus, , um urso faria menos barulho que você. — Avril a encarou com as sobrancelhas bem erguidas. — Fala, o que você quer?
— Preciso da sua ajuda.
— Com o quê? Relacionamentos? Maquiagens?
— Mais com roupas.
— Que ótimo! — Avril bateu palminhas, puxando para dentro do alojamento. — Você precisa de alguma saia diferente? Já sei, vai para um encontro!
— Não, não, eu… Na verdade, eu… — sentiu as mãos tremerem de leve enquanto encarava a amiga. — Estava pensando sobre o que você me disse na festa.
— Querida, foram muitas doses alcoólicas. Preciso que seja mais específica.
— Sobre minhas roupas. De apresentação.
As duas ficaram em silêncio na barraca enquanto Avril a encarava, de olhos arregalados.
— … sei que estávamos falando sobre as bebidas e as roupas, mas não era sério. Você não precisa mudar seu jeito por nós, nós te amamos exatamente assim.
— Eu sei, não é isso, é que… — Mas se calou antes de conseguir falar mais nada.
Avril estreitou os olhos, percebendo a súbita mudez da garota.
— Aconteceu alguma coisa, não? Vai, sabe que pode me contar.
— Não, não foi nada! Eu só… estava refletindo. Sabe, com meu aniversário tão perto, acho que… que me apeguei demais à minha infância e não quis crescer, mas eu já vou fazer 21 anos e eu quero conhecer essa nova ! Uma mais… adulta?
— Você pode ser uma adulta sem nenhuma dessas coisas, . Não é beber e mudar suas roupas que vão te tornar uma adulta, e sim sua forma de encarar o mundo.
— É, mas ter um guarda roupa bonito me ajudaria.
Com aquelas palavras, Avril cedeu. Ela abriu um sorriso e uniu uma mão na outra, fazendo uma palma ressoar.
— Quem eu quero enganar? Esperei por esse dia há anos! — Avril foi até seu armário e tirou um cordão de brilhantes de dentro. — Toma, para você usar junto.
— O quê? Não, eu não poderia!
— Ah, não sei preocupe, é tudo falso. — Avril afastou algo invisível no ar. — E vai ficar linda na roupa. Você já pediu ao sr. Stonehedger?
— Ainda não. Eu meio que esperava que você pudesse pedir no meu lugar — confessou, olhando para baixo.
— Está maluca? Aquele homem te adora. Se você pedir diretamente a ele, ele não só te dará as roupas antigas de Danielle, como te fará roupas novas. Guarde minhas palavras.
Avril tinha razão, mas continuava sem se sentir confortável. Como confrontaria o homem que a salvara e a vira crescer, o mais próximo que tivera de um pai, sobre mudanças tão maduras?
soltou um suspiro e tomou o colar das mãos de Avril.
— Muito obrigada. Vou falar com ele agora mesmo.
— Mal posso esperar pra te ver hoje à noite! Se precisar de algo, é só me falar!
— Eu sei, obrigada!
Avril acenou da porta enquanto se afastava, tomando a temida curva à direita que levava ao escritório do sr. Stonehedger.
Tudo continuava como em todas as suas memórias: não importava em qual país estivessem, as paredes estariam cobertas de quadros com páginas de jornais em diversas línguas emoldurados, todos com um ponto em comum: elogiar o grande Mágico e dono do Circo Stonehedger.
E também sempre teria aquele homem sério e agora grisalho ao centro de tudo isso. O homem que erguia as sobrancelhas e abria um pequeno sorriso quando a via, como naquele momento.
— .
— Olá, sr. Stonehedger.
— Está tudo bem? Posso te ajudar de alguma forma?
Ela puxou a cadeira que ficava de frente para ele. Bom, era ali. Por mais que fosse só uma roupa, ela sentia que tudo mudaria a partir daquele momento.
respirou fundo antes de abrir um sorriso.
— Tenho uma nova ideia para o show.
Os trapezistas estavam saindo de cena com muitos aplausos. enrolou ao máximo que podê de se aproximar da cochia, mas sabia que não tinha mais o que fazer. Sabia que, em um minuto, apareceria no palco "de repente” usando a plataforma subterrânea e chamaria por ela, que desceria pendurada na lira. Ela subiu para encontrar Tanny, que esperava para prepará-la.
— Finalmente! — Tanny sussurrou, ao ver sua cabeça surgir das escadas. — Você estava demoran… — A amiga soltou um arquejo. — Por Deus!
As bochechas de queimaram. Quando se olhou no espelho com a roupa pela primeira vez, ela se sentiu… perfeita.
Estava coberta de lantejoulas, brilhos e pérolas, presos em um corset branco e uma parte de baixo que quase revelava sua bunda. As pernas estavam cobertas por uma meia calça brilhosa, que terminavam em um lindo salto branco. Adornada com colares e joias, o toque final era seu cabelo preso em um lindo coque feito por Avril, com pequenas pérolas presas em seu cabelo escuro e volumoso.
Ela estava escandalosamente mágica, e ela havia amado isso. Mas, diante do olhar de Tanny, parte de sua confiança vacilou.
— O que houve? Você não gostou? — ela perguntou, a voz mais trêmula do que gostaria.
— Não, de forma alguma! — Tanny se apressou em dizer. — Eu só fui pega de surpresa, mas você… está perfeita, .
A garota sorriu, de orelha a orelha, aliviada pela opinião da amiga. Quando contou a Avril e Lola, soube imediatamente que as duas iam amar. Mas, quando pensou em falar com Tanny, vacilou, um leve medo de decepcioná-la rondando em sua cabeça.
Tanny era o mais próximo de uma mãe que havia encontrado, e não podia, de forma alguma, perder outra mãe.
se jogou no peito de Tanny, a abraçando e tirando uma risada da amiga.
— Cuidado, assim você vai estragar seu cabelo! E vamos, é hora da sua entrada triunfal.
Ambas cruzaram os dedos, como faziam toda noite antes de uma performance, antes de Tanny ajudá-la a se sentar na lira. O barulho de aplausos chegou ao ouvido das duas, e elas sabiam que havia entrado no palco.
Agora, era sua vez.
sentiu a corda se desenrolar para sua entrada. Toda noite era assim, mas ali tudo estava diferente. Ela finalmente havia abraçado seu papel como assistente do Mágico, pronta para encantar e distrair as mentes que veriam as ilusões.
Quando a luz quente do holofote se focou nela, uma salva de palmas muito maior do que qualquer outra que já havia escutado tomou conta do lugar. Assobios e gritos acompanhavam sua descida e todos os olhos estavam focados nela.
O olhar de chegou por último. Ele a encarou e, se ela não o conhecesse tão bem, não perceberia o leve arquear da sobrancelha dele, assim como uma tensão em sua mandíbula que denunciavam que ele não estava a par de suas mudanças. Mudanças que faziam com que seus olhos se prendessem em cada pedaço novo exposto de seu corpo.
O ar esquentou subitamente, e não era por causa do holofote. Por um segundo, esqueceu de todas as pessoas os assistindo. Esse era o efeito de sobre ela, por mais que ela tentasse negar.
Quando enfim quebrou o contato visual para se virar para a plateia, o efeito foi quebrado e sentiu como se estivesse respirando pela primeira vez.
— , obrigada por se juntar a nós essa noite — seguiu o roteiro, sempre tão calmo, tão inabalável para o público. — Mas sinto que algo está faltando.
Em um segundo, o colar havia sumido de seu pescoço e agora repousava nas mãos de . Ela fez sua expressão ensaiada de choque enquanto a plateia aplaudia ao perceber o pequenino truque.
Como toda noite, ele rapidamente foi para trás dela prender o colar de volta em seu pescoço. Mas agora, com o corpo dele tão quente atrás dela, e sem o tecido para escondê-la, ela sentia cada toque trocado entre eles, e era inevitável se lembrar de Verônica com ele. A imagem a enjoou e excitou ao mesmo tempo.
Quando a largou para seguir o show, ela se sentia uma bagunça. Precisava se recompor urgentemente para chegar ao final daquela noite. Por Deus, ela conseguira sobreviver a por 10 anos, não seria agora que colapsaria.
O show seguiu como sempre seguia: as pombas brancas que apareciam em suas mãos, o coelho em sua cartola, atravessou a bexiga com uma agulha, a corda ao redor de , cortada e restaurada novamente, pequenas brincadeiras com a plateia e, enfim, o grande show da noite.
Aquele momento era sempre o mais aguardado, quando entrava na caixa e era serrada. Tinha sido a parte preferida de ao ver o show pela primeira vez. Por isso, quando traziam a caixa que ela sabia agora que estava com Lola, que estaria usando uma meia calça e sapatos iguais a dela, ela sentia a expectativa de entrar na sua metade. Pensava se o público perceberia que ela não havia deitado, e que aquelas pernas eram de outra pessoa. Se a mágica continuaria funcionando.
Mas sempre funcionava. O público foi à loucura mais uma vez, com ainda mais aplausos do que os de sua entrada, que arrepiaram completamente o corpo de . Enquanto Tanny arrastava mais uma vez a caixa para fora e tirava Lola se dentro do compartimento, não conseguia parar de sorrir.
A noite tinha sido perfeita. Tudo havia sido mágico e, com aquelas roupas, era como se ela tivesse se tornado ainda mais parte da magia. Não mais a garotinha assustada e encantada que viera do bar. Mas uma mulher que era capaz o suficiente para ser a nova assistente.
ainda estava saindo da caixa sorrindo de orelha a orelha quando voltou para o backstage, o rosto imperturbável como sempre.
— E aí? Qual foi a contagem de Harry essa noite? — Lola o provocou, mas ele nem sequer escutou, virando-se direto para sua assistente.
— ? Uma palavrinha, por favor.
engoliu em seco e encarou Lola e Tanny, pensando no que havia feito de errado. As amigas, porém, não demonstraram achar estranho. Afinal, aquele era o de sempre para todos.
Para todos, menos ela.
— Claro. — forçou um sorriso. — Até a festa, meninas.
— Até!
seguiu , o barulho dos saltos ecoando conforme eles saíram da tenda pelos fundos. logo reconheceu o caminho para o escritório de .
O local era como uma miniatura do escritório do sr. Stonehedger, com menos reportagens sobre o novo Mágico, uma mesa de madeira com alguns livros de grandes mágicos em cima e algumas velas que acendia lentamente, enquanto o coração de batia desesperado no peito.
— Feche a porta, por favor.
Tão formal e sério. nem ousou desobedecer e, assim que ouviu o barulho da porta se fechando, se virou para .
E o olhar dele esquentou cem vezes mais do que o que ela havia recebido durante o show. Dessa vez, ele não teve descrição nenhuma ao encarar cada pedaço do corpo dela, deixando completamente vermelha.
— Onde arranjou essas roupas?
— Seu pai me deu quando conversei com ele hoje mais cedo — ela respondeu, tentando não gaguejar.
— Então isso foi ideia sua? — Ele ergueu uma sobrancelha.
— Achei que deixaria a performance mais profissional — ela rebateu, sentindo-se na necessidade de se defender. — Como quando era Danielle.
— Você não precisa vestir isso para ser profissional, você já é uma profissional.
— Eu sei, mas eu quero. Eu gostei tanto de vestir essa roupa e me sentir tão…
— Escandalosamente mágica — ele completou por ela.
Os dois sorriram um para o outro depois disso e boa parte da tensão se desfez. Ela ainda confiava mais nele do que em qualquer outra pessoa desse mundo.
— O que deu hoje em você para mudar tanto?
Ele a olhava como se alguém tivesse colocado uma arma em sua cabeça e feito com que ela se transformasse. Ela teve que segurar uma risada.
— Eu não estou sendo forçada a nada, , mas eu quis mudar. A princípio, talvez não por mim, mas eu quero experimentar coisas novas. — As palavras não paravam de sair de sua boca, como se todos os pensamentos que cercavam sua cabeça nas últimas 24 horas precisassem ser exposto para aquele que a conhecia melhor. — Talvez eu não volte mais a beber, mas eu gostei de ao menos tentar e vencer esse bloqueio. E definitivamente amei usar essa roupa. Estive me privando de tanta coisa ao meu redor por medo de amadurecer sem perceber que estava sendo deixada para trás. Todo mundo cresceu, e eu era a única que estava se recusando.
— Mas, , de todos nós, você é quem mais amadureceu — ele falou, sério. — Você sempre soube lidar com crises e entender as nuances da vida. Nunca se deixou levar pela opinião de ninguém e nem deixou um passado ruim te assombrar para sempre.
— Eu só fiz o mínimo — basicamente sussurrou.
— Não, você não entende? Você fez tudo.
finalmente a puxou para um abraço, como na noite passada. Amava os abraços dele, eram quentes e raros, guardados só para ela.
E talvez outras mulheres, mas ela teria que lidar com aquilo.
Parecendo ler sua mente, se afastou um pouco para olhar diretamente em seus olhos.
— O que você quis dizer que não quis mudar a princípio por você?
Maldito homem observador. se xingou mentalmente por deixar aquilo escapar enquanto sentia o rosto ficar vermelho.
— Não… Não é nada, deixa pra lá.
— Está escondendo coisas de mim, ? Justo de mim?
— Não me olhe assim, eu sei que você também tem seus segredos — rebateu, irritada. Ora, quem ele pensava que era para acusá-la assim?
— Segredos? De você?
— Você não me conta tudo da sua vida, eu sei. — Ela o olhou, levantando uma sobrancelha. — Depois de tanto tempo, achou que eu não iria perceber?
O rosto de ficou subitamente pálido, de uma maneira que não esperava. Será que ele não queria que ela descobrisse sobre Verônica de jeito nenhum? Será que o sr. Stonehedger não aprovava a relação?
— Olha, . — respirou fundo, passando a mão no cabelo em um gesto nervoso. — Desculpa nunca ter te contado. Eu devia imaginar que, em algum momento, ficaria óbvio e você perceberia. Mas eu tive tanto medo de estragar nossa amizade… Eu sei que é ridículo e eu prometo que estou tentando parar. Estou mesmo, eu juro.
— Você não precisa parar. Não por mim — ela respondeu, tentando esconder que estaria bem feliz na verdade se ele parasse.
— Mas eu vou. Não quero que seja um desconforto ter um melhor amigo apaixonado por você — falou, quase em um desabafo.
Naquele momento, a cabeça de começou a girar e o tempo andou mais devagar. Não podia ser. Seus ouvidos deviam estar brigados com seu cérebro e não estavam conseguindo entender a situação.
— Espera aí… — começou, devagar. — Você disse que está apaixonado… por mim? — Seu coração batia rápido, mas ela não queria nutri-lo de esperanças.
As sobrancelhas de se franziram.
— Sim. Você não estava falando disso? Sobre como é óbvio que eu gosto de você?
— Na verdade, eu estava falando sobre o seu caso com Verônica. — começou a se embolar nas palavras. — Eu vi vocês juntos ontem a noite na tenda.
piscou, em silêncio.
— Você… viu?
— É. Vi mais coisas do que deveria.
— Ah. Certo. Certo, tudo bem — ele disse, então começou a andar em círculos. — Então, você não sabia sobre…
— Você estava falando sério? — ela perguntou, delicadamente. — Sobre…
— Sim. Eu poderia fingir que não, mas até que me fez bem finalmente falar. Então sim, , eu estou apaixonado por você. Há um bom tempo, na verdade.
Fogos de artifício explodiram dentro de , preenchendo cada parte do seu corpo de pura eletricidade conforme ela associava aquele momento com o qual ela havia sonhado tantas vezes antes de dormir. E tinha sido melhor do que qualquer coisa que sua imaginação pudesse criar.
Um sorriso gigantesco começou a se abrir em seu rosto. olhava para a parede, tentando manter a postura e fingir que não se importava.
— Mas não se preocupe, isso vai parar — ele completou, calmo. — Não quero que isso seja um desconforto para você e…
— Eu também, .
Ele a encarou, confuso.
— O quê?
— Eu também estou apaixonada por você.
Ele a encarou, sem parecer acreditar no que escutava. o entendia, porque era exatamente como se sentira a poucos minutos atrás.
— , não quero que confunda o carinho que sente por mim com amor. Sei que está se sentindo pressionada por meus sentimentos, mas…
— Para de tentar definir o que eu sinto, seu arrogante — ela o repreendeu, sem conseguir deixar de sorrir. — Eu te amo e já sabia disso muito antes de você se declarar. Eu sabia disso desde o dia em que te conheci.
As palavras começaram a alcançar o coração de e ela podia ler seu rosto tão familiar: incredulidade, esperança e felicidade. O show antes podia ter sido incrível, mas aquele momento que estava sendo verdadeiramente mágico.
— …
Antes que ele pudesse falar mais alguma coisa, fez o que sonhou por tantos anos: jogou-se nos braços de e encostou os lábios no dele.
Milhares de partículas elétricas viajaram por seu corpo, fazendo com que arfasse com o pequeno toque. Nunca havia tido uma reação como aquela em um simples beijo, mas ali estava a diferença: não havia nada de simples em beijar . Mil vezes melhor que qualquer sonho.
segurou pela cintura e aprofundou o beijo, fazendo-a arfar. Sim, ela estava mudada. Mas em todas as suas versões, o coração de seria dele, e o dele seria dela. E ambos tentavam demonstrar isso com um toque urgente e quente, um pouco atrapalhado, mas completamente entregue.
A roupa reveladora de fazia com que qualquer toque acidental se tornasse mais intenso, até que eles pararam de ser acidentais. Quando sequer ameaçou se afastar dos seios de , a garota trouxe a mão dele de volta.
— Tira minha roupa — ela sussurrou, inebriada por aquele calor.
, desorientado, deu um passo para trás.
— , não precisamos ir tão rápido, nós temos tempo e…
— Não. Eu quero agora. — Ela parou e o encarou. — A não ser que você não queira. Eu entendo.
— Eu quero. Deus, como eu quero — ele falou, desesperado. Ela nunca ouvira aquele tom antes na boca dele, e se derreteu imediatamente.
Não houve mais hesitação. As fitas do corset foram afrouxadas e a peça deslizou para o chão, deixando os seios de desnudos.
paralisou, encarando a região revelada.
— … Caramba, você é uma perfeição.
Com a mão levemente trêmula, se aproximou até tocar o seio direito de . Em resposta, a garota soltou um gemido alto, surpresa que um toque tão leve podia fazê-la sentir tanto.
— , isso é muito bom. Faz de novo.
— Não precisa pedir duas vezes.
E ele fez. Com a mão e com a boca. Com um pingo de lucidez que mal sobrevivia àquele toque, , enquanto se contorcia, começou a tirar as roupas pretas de , deixando-o livre para ela assim como ela estava para ele.
Ainda com a boca nela, ele a ajudou a tirar todas as peças superiores, revelando um peitoral que sonhava com por todas as tardes nos rios e mares que eles conheceram e nadaram durante os percursos do circo. E, quando ela estendeu a mão, encontrou o peitoral duro e quente. Mais abaixo, encontrou outra coisa ainda mais dura e quente.
— — ele falou, sôfrego —, você pode mudar de ideia. Se quiser parar, nós podemos. A qualquer momento.
— Eu não quero parar — ela revidou, quase brava. Queria que ele continuasse com aqueles beijos.
— Mas promete. Promete que me fala se quiser.
derreteu ao ver o jeito que ele a encarava, doce e sofrido. , sempre cuidando dela. Acima de tudo, seu melhor amigo.
— Eu prometo. Me prometa também. Que vai falar se quiser parar.
— Eu prometo.
— Ótimo. Agora continue.
Ela trouxe a cabeça dele de volta para o seu seio, e mal começou a gemer quando sentiu as mãos dele percorrerem suas pernas, fazendo com que ela se arrepiasse por completo. Depois de passar por sua bunda e alcançar o alto do quadril, deslizou o restante das roupas para baixo. Sem mais nenhuma barreira, ele se afastou de leve.
— Certo, temos que ter algum apoio. Merda, não temos uma cama aqui.
— Tem uma mesa — falou.
— Não queria que sua primeira vez fosse em uma mesa.
— Eu até gosto da ideia. Sabe, foi muito sexy ver você com a Verônica. Me deixou morta de ciúmes, mas bem curiosa também.
— , quem diria que você é uma garota safada — ele falou, erguendo uma sobrancelha e exibindo aquele sorriso pequeno que ela amava.
— Olha onde você me conheceu, deveria prever isso.
— Deveria prever que minha garota é curiosa.
O peito de inflou ao escutar chamando-a de minha garota. Ainda estava sorrindo quando ele a ergueu no ar e a colocou em cima da mesa, afastando as pernas dela de forma que ele pudesse olhar sua intimidade.
Ela deveria sentir vergonha de estar tão exposta, mas o olhar de adoração de fazia com que qualquer vergonha sumisse. Isso, e o fato de ele ter deslizado um dedo para dentro dela, fazendo-a soltar um grito e sensações nunca antes experimentadas cruzarem seu corpo.
— Você já tá bem molhada… Mas pode ficar mais, não pode?
— Sim, eu posso — ela falou, no meio de um arquejo.
— Então você sabe que pode. Já se tocou, ? Já se tocou pensando em mim.
Ela fechou os olhos conforme sentia o dedo dele entrar e sair dela.
— Sim — ela arfou. — Tantas vezes…
— E você sonhava que eu fazia isso?
— Isso… e mais.
— Mais o que, ? — ele perguntou, e sua voz ficou mais grossa. A calça de parecia prestes a explodir e ela não parava de tirá-la mentalmente.
— Primeiro, você tirava a calça em todas as minhas fantasias.
Ele arqueou uma sobrancelha, compreendendo o que ela queria, então com a mão que não estava dentro dela, ele tirou os botões da última peça que restava e se expôs, de forma que eles ficassem iguais em sua nudez.
E ele era lindo. se apertou involuntariamente ao redor do dedo de ao vê-lo.
— Porra… Eu quero que você faça isso com o meu pau.
— Eu também quero. Faz parte da minha fantasia — ela confessou. — Você me segurava pelo pescoço enquanto colocava dentro de mim. De frente. E depois de costas.
— , você é uma pervertida. Eu não consigo mais esperar.
— Eu não quero que você espere.
Ela se inclinou e alcançou o pau dele, que ela conduziu até a sua entrada. Os olhos negros de estavam enevoados conforme ele tirava o dedo de dentro dela e colocava dentro de sua boca.
Ah, aquela era com certeza a cena mais sexy que ela já havia visto. Mas não imaginava que poderia ficar ainda melhor quando ele se inclinou para beijá-la, com o gosto dela, conforme seu pau enfim entrava.
gritou no meio do beijo, e diminuiu a velocidade, indo com muita calma.
— Você está bem?! — ele a encarou, desesperado, embora ela pudesse ver que ele estava louco para continuar.
Assim como ela.
— Estou. Só foi muito… intenso. Mas está muito bom, eu juro.
— Eu vou devagar, eu prometo.
— Não! Eu não quero que você vá devagar.
Os olhos de então se transformaram em desejo conforme ele fechou mão ao redor do pescoço dela e empurrou mais para dentro. não conseguia manter a boca fechada conforme ele investia profundamente nela, principalmente depois que sua mão retornou e começou a masturbá-la.
Em nenhuma fantasia a comia em cima de uma mesa, mas aquela com certeza iria para o topo da sua lista.
Em uma investida específica, o ângulo foi intenso demais e viu o mundo explodir diante dos seus olhos conforme ela se desfazia no orgasmo mais intenso que já havia sentido. Seu gemido se misturou com o de conforme ela sentia as contrações ao redor do pau dele e arranhava suas costas, desnorteada com aquela sensação.
— Você é fantástica em absolutamente tudo, . Eu deveria imaginar que também seria fantástica gozando.
Quando o mundo voltou a existir ao redor dela, retirou lentamente o pau de dentro dela, enquanto corria para pegar um papel em algum lugar da mesa.
— , volte aqui — ordenou, e ele estava de volta na mesma hora.
— O que foi? precisa de alguma coisa?
— Sim, preciso.
saltou da mesa, as pernas levemente bambas conforme ela se virava de costas e empinava a bunda na direção de .
— Minha fantasia ainda não terminou.
— .
— Não, não, não. É minha primeira vez, e nós vamos fazer do jeito que eu quero. E eu quero que você goze também.
parecia um cachorrinho perdido, mas retomou o controle na mesma hora em que seu pau voltou a deslizar dentro dela. começou a movimentar a bunda, sentindo tudo ainda mais intenso agora que ela havia gozado, e percebendo que faltava muito pouco para ele também.
— Você é tão gostoso, . E lindo. Você é tão lindo, sabia?
— Não. Nada se compara a sua beleza. Você é um anjo dos céus, .
Na mesma hora, jogou a bunda com um pouco de mais força na direção dele, e explodiu.
amou ser o motivo para a perda de controle dele. Amou ser o motivo do seu orgasmo e de seu rosto completamente hipnotizado conforme ela afastava a bunda e voltava a se virar para ele, agora sim pegando os papéis que havia achado antes.
— Obrigada por uma primeira vez perfeita com a pessoa que eu amo, — ela disse, abrindo um sorriso.
Ele parou no lugar, a encarando, e então abriu o maior sorriso que já havia visto em seu rosto, o que fez seu coração errar uma batida.
— Eu que agradeço. Não existe nada mais lindo do que te ver sorrir e falar que me ama nua. Acho que esse é o paraíso.
— Que nada, nós estamos expulsos do paraíso. Fizemos sexo fora do casamento, certo?
— Não é possível que algo tão bom assim não seja de Deus.
— Então, quando a gente morrer, vamos ter que garantir. Se eu ganhar, você vai ter que conversar com o Diabo e pedir para ele aliviar minha dor.
— E se eu ganhar, vamos falar com Deus e conseguir uma casa onde possamos fazer isso todo dia.
Os dois sorriam um para o outro, aquele sorriso familiar da infância que havia se transformado em tão mais.
parou para pensar, olhando nu sorrindo para ela, que talvez crescer fosse na verdade maravilhoso.
EPÍLOGO
— Vira para a esquerda! — empurrava sua coluna conforme ditava as instruções.
O vento frio denunciava que estavam do lado de fora, mas tinham ido a pé, o que significava que não poderiam estar longe. queria tirar a venda, mas não podia. Sabia que ficaria extremamente triste, como em seu aniversário de treze anos. Por isso, ela permaneceu vendada até ele colocar uma mão em sua barriga, fazendo-a frear.
— Chegamos! Pode tirar a venda.
E foi exatamente o que fez. Assim que sua visão retornou, a primeira coisa em que reparou foi o sorriso enorme de , o que fez seu coração acelerar mais uma vez. Mas então o que estava atrás dele chamou mais atenção.
— ! — ela falou, soltando uma gargalhada, incrédula. — Eu não acredito que você de fato fez isso.
— Eu fiz. Esse carrossel está alugado para nós a noite toda, graças ao sr. Stonehedger.
Ela parou na frente do carrossel vermelho, olhando-o maravilhada. Nunca havia ido em um desses, sempre havia sido caro demais, e depois estava grande demais para ter coragem de pedir. Ela olhou para , ansiosa.
— Eu posso… andar?
— É claro! Sobe que eu vou ligar.
Ela subiu e sentou em um elegante cavalo com uma sela azul, no mesmo instante em que o carrossel começou a girar. pulou para cima do carrossel em movimento e se sentou de costas no cavalo em frente ao de , olhando para ela.
— E aí? Gostou?
— É perfeito — ela disse, sem conseguir parar de sorrir. — Obrigada, você realmente não precisava.
— Mas Lola, Avril e Tanny falaram que agora eu preciso me esforçar ainda mais, já que sou seu namorado.
O estômago de se contorceu de alegria, como sempre acontecia quando ele falava aquela palavra. Parecia surreal estar vivendo cada um de seus sonhos na vida real, ao lado da melhor pessoa que já conhecera.
Os dois rodam em silêncio, sorrindo um para o outro. Quando o carrossel finalmente desacelerou, se aproximou e depositou um beijo na testa de .
O vento frio denunciava que estavam do lado de fora, mas tinham ido a pé, o que significava que não poderiam estar longe. queria tirar a venda, mas não podia. Sabia que ficaria extremamente triste, como em seu aniversário de treze anos. Por isso, ela permaneceu vendada até ele colocar uma mão em sua barriga, fazendo-a frear.
— Chegamos! Pode tirar a venda.
E foi exatamente o que fez. Assim que sua visão retornou, a primeira coisa em que reparou foi o sorriso enorme de , o que fez seu coração acelerar mais uma vez. Mas então o que estava atrás dele chamou mais atenção.
— ! — ela falou, soltando uma gargalhada, incrédula. — Eu não acredito que você de fato fez isso.
— Eu fiz. Esse carrossel está alugado para nós a noite toda, graças ao sr. Stonehedger.
Ela parou na frente do carrossel vermelho, olhando-o maravilhada. Nunca havia ido em um desses, sempre havia sido caro demais, e depois estava grande demais para ter coragem de pedir. Ela olhou para , ansiosa.
— Eu posso… andar?
— É claro! Sobe que eu vou ligar.
Ela subiu e sentou em um elegante cavalo com uma sela azul, no mesmo instante em que o carrossel começou a girar. pulou para cima do carrossel em movimento e se sentou de costas no cavalo em frente ao de , olhando para ela.
— E aí? Gostou?
— É perfeito — ela disse, sem conseguir parar de sorrir. — Obrigada, você realmente não precisava.
— Mas Lola, Avril e Tanny falaram que agora eu preciso me esforçar ainda mais, já que sou seu namorado.
O estômago de se contorceu de alegria, como sempre acontecia quando ele falava aquela palavra. Parecia surreal estar vivendo cada um de seus sonhos na vida real, ao lado da melhor pessoa que já conhecera.
Os dois rodam em silêncio, sorrindo um para o outro. Quando o carrossel finalmente desacelerou, se aproximou e depositou um beijo na testa de .
FIM!
Nota da autora: Oi! Muito obrigada por chegar até aqui! Espero de verdade que tenha gostado da história, e foram personagens muito especiais para mim, e me proporcionaram algo que eu tinha muita vontade ao escrever: uma história no circo. Foi desafiador e tão divertido! Uma pena ter ficado um pouquinho mais curta do que eu queria.
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